{"id":120207,"date":"2017-04-20T12:18:57","date_gmt":"2017-04-20T14:18:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120207"},"modified":"2017-04-20T12:18:57","modified_gmt":"2017-04-20T14:18:57","slug":"os-dois-cavalheiros-de-verona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-dois-cavalheiros-de-verona","title":{"rendered":"Os Dois Cavalheiros de Verona"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>O DUQUE DE MIL\u00c3O<\/b>, pai de S\u00edlvia.<br \/>\n<b>VALENTINO<\/b>, cavalheiro.<br \/>\n<b>PROTEU<\/b>, cavalheiro.<br \/>\n<b>ANT\u00d4NIO<\/b>, pai de Proteu.<br \/>\n<b>T\u00daRIO<\/b>, rival grotesco de Valentino.<br \/>\n<b>EGLAMOR<\/b>, companheiro de S\u00edlvia, em sua fuga.<br \/>\n<b>SPEED<\/b>, buf\u00e3o, criado de Valentino.<br \/>\n<b>LAUNCE<\/b>, idem de Proteu.<br \/>\n<b>PANTINO<\/b>, servidor de Ant\u00f4nio.<br \/>\n<b>HOTELEIRO<\/b>, em cuja casa J\u00falia se hospeda em Mil\u00e3o.<br \/>\n<b>PROSCRITOS<\/b>.<br \/>\n<b>J\u00daLIA<\/b>, amada de Proteu.<br \/>\n<b>S\u00cdLVIA<\/b>, amada de Valentino.<br \/>\n<b>LUCETA<\/b>, criada de J\u00falia.<br \/>\nCriados, m\u00fasicos.<\/p>\n<p><a name=\"ver11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Verona. Uma pra\u00e7a. Entram Valentino e Proteu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o prossigas querendo persuadir-me, Proteu apaixonado. A mocidade que em casa passa o tempo, sempre esp\u00edrito caseiro manifesta. Se n\u00e3o fosse as cadeias do amor acorrentarem teus dias juvenis aos olhos ternos da amada que distingues, eu instara porque comigo fosses, para vermos juntos as maravilhas do universo, em vez de, sem nenhum proveito, em casa te deixares ficar, gastando a fl\u00f3rida juventude num \u00f3cio indiferente. Mas j\u00e1 que amas, almejo-te a do\u00e7ura que me proporcionara igual ventura.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 J\u00e1 vais, querido Valentino? Adeus! Pensa no teu Proteu, sempre que vires algo digno de nota em tuas viagens. Faze de mim teu companheiro em tudo quanto achares de bom; e nos perigos \u2014 se em perigos te vires, porventura \u2014 o agravo a minhas preces recomenda. Ser-te-ei intercessor, meu Valentino.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sobre um livro de amor far\u00e1s as preces?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sim, sobre um livro a que dedique amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 De um grande amor alguma hist\u00f3ria tola: como Leandro o Helesponto atravessou.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Profunda hist\u00f3ria de um profundo amor, que lhe chegava acima dos sapatos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 \u00c9 muito certo, porque o amor vos bate muito acima das botas; no entretanto, jamais atravessastes o Helesponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Muito acima das botas? H\u00e1 exagero; n\u00e3o rias do meu caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o, que pouco virias a lucrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 De que maneira?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Porque amar comprar esc\u00e1rnio \u00e0 custa de gemidos, trocar olhares t\u00edmidos por suspiros profundos, um momento de alegria por vinte longas noites, tediosas, cansativas, de vig\u00edlias. Quando ganhais, o ganho problem\u00e1tico; se perdeis, adquiris t\u00e3o-s\u00f3 trabalhos. Em resumo: comprar tolice, apenas, com a raz\u00e3o; ou melhor, se o preferirdes: ser vencida a raz\u00e3o pela tolice.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Assim, por vossa dedu\u00e7\u00e3o, chamais-me de rematado louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Tenho muito receio, assim, por vossa dedu\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o que venhais a ser.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Lan\u00e7ais censuras ao amor; eu, por\u00e9m, n\u00e3o sou o amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 O amor \u00e9 vosso mestre e vos domina. A meu ver, quem se deixa de tal modo dominar por um louco, n\u00e3o merece ser inclu\u00eddo entre as pessoas s\u00e1bias.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 L\u00ea-se, no entanto, que os bot\u00f5es fragrantes d\u00e3o abrigo, por vezes, a lagartas; o amor devorador, de igual maneira, demora nos esp\u00edritos sublimes.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 L\u00ea-se, tamb\u00e9m, que assim como os precoces bot\u00f5es pelas lagartas s\u00e3o ro\u00eddos antes de florescerem, os mais tenros entendimentos ficam transformados pelo amor em loucura rematada; fanados em bot\u00e3o, a perder v\u00eam todo o frescor em plena primavera e as esperan\u00e7as de um futuro opimo. Mas, por que perder tempo em dar conselhos a um partid\u00e1rio da paix\u00e3o estulta? Adeus, mais uma vez; antecedeu-me meu pai para levar-me para bordo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Quero, tamb\u00e9m, fazer-te companhia, meu Valentino.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o, caro Proteu, conv\u00e9m nos despedirmos aqui mesmo. Para Mil\u00e3o me escrevas, relatando-me teus \u00eaxitos no amor e as novidades que houver na aus\u00eancia de teu caro amigo. Visitar-te-ei tamb\u00e9m com minhas cartas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Em Mil\u00e3o te sorriam mil venturas.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Como a v\u00f3s c\u00e1 na p\u00e1tria. E assim, adeus. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Atr\u00e1s da honra ele vai; eu, s\u00f3 do amor. Deixa os amigos, para lhes dar ansa de se orgulharem dele; eu a mim pr\u00f3prio deixo amigos e o mais, s\u00f3 pelo amor. A causa, J\u00falia, \u00e9s tudo dessa mudan\u00e7a; abandonar fizeste-me os estudos, perder tempo, guerrear os bons conselhos, ver com desd\u00e9m o mundo, o cora\u00e7\u00e3o d\u00e9bil deixar de meditar em v\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Speed.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Meu bom senhor Proteu, Deus vos ampare. N\u00e3o vistes o meu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Neste instante foi ele para o bote de Mil\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Aposto vinte contra um em como j\u00e1 se acha ele no bote. Assim, perdendo-o, fiz o papel de bode ou de carneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sim, perde-se um carneiro facilmente, mal do rebanho o bom pastor se ausente.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Pelo jeito, quereis dizer que meu mestre \u00e9 pastor e eu sou carneiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 De fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Nesse caso, s\u00e3o dele os meus chifres, quer eu esteja acordado, quer a dormir.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Resposta boba, muito pr\u00f3pria de carneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Que vem provar que eu sou, realmente, um carneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Isso mesmo; e teu mestre, pastor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Posso demonstrar-vos o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil faz\u00ea-lo porque disponho de um argumento decisivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 O pastor \u00e9 que procura o carneiro; n\u00e3o \u00e9 o carneiro que procura o pastor. Ora, eu \u00e9 que procuro meu amo, n\u00e3o \u00e9 meu amo que me procura. Logo, n\u00e3o sou carneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 O carneiro segue o pastor por causa da forragem; O pastor n\u00e3o segue o carneiro por causa de alimento. Segues a teu amo por causa do ordenado, n\u00e3o seguindo ele a ti pelo mesmo motivo: logo, \u00e9s carneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Mais um argumento dessa for\u00e7a, e ver-me-ei obrigado a gritar: b\u00e9-\u00e9!<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Mas dize-me uma coisa: entregaste minha carta a J\u00falia?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Perfeitamente, senhor; eu, um carneiro perdido, entreguei vossa carta a uma ovelha enfeitada; e ela, a ovelha enfeitada, nada deu ao carneirinho perdido, pelo trabalho de levar-lha.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o h\u00e1 lugar neste pasto para tantos carneiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Se o terreno est\u00e1 sobrecarregado, fareis melhor em prend\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Estais vos desviando do caminho direito, senhor; eu faria melhor em vos meter no redil.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Com uma boa rede \u00e9 que jamais eu me resolveria a levar vossa carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Compreendestes mal: n\u00e3o falei em rede, mas em redil.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Rede ou redil, me deixara em estado de n\u00e3o fazer nada. Como entregar a missiva de vossa gentil namorada?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Mas, que disse ela, afinal? (<i>Speed sacode a cabe\u00e7a.<\/i>) N\u00e3o disse nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Houve engano da vossa parte, senhor; perguntastes-me se ela havia respondido nada, e eu fiz sinal afirmativo, sem queres confirmar vossa pergunta. Mas j\u00e1 que destes semelhante interpreta\u00e7\u00e3o minha resposta, ficai com ela pelo vosso trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o; ficai v\u00f3s com ela, pelo carreto da carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Vejo, agora, que vossa incumb\u00eancia n\u00e3o me foi pesada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Que quereis dizer com isso, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u00c9 muito simples, senhor: \u00e9 que, havendo entregue a carta, conforme me ordenastes, voltei sem nada ter recebido pelo meu trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Realmente, tens o esp\u00edrito muito r\u00e1pido.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Apesar do que n\u00e3o pode alcan\u00e7ar vossa bolsa lerda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Vamos, vamos; abri-vos logo em explica\u00e7\u00f5es: que disse ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Abri primeiro a bolsa, para que o dinheiro e as not\u00edcias sejam dados a um s\u00f3 tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Muito bem, senhor, aqui tendes pelo vosso trabalho. (<i>D\u00e1 lhe dinheiro.<\/i>) Que disse ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Para ser franco, senhor, penso que mui dificilmente podereis conquist\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Como pudeste obter tantas informa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 N\u00e3o \u00e9 bem assim, senhor: n\u00e3o obtive dela coisa alguma, nem sequer um ducado por lhe haver entregue a carta que lhe mandastes. Por ter sido ela dura para com o portador de vossos sentimentos \u00e9 que eu receio que se mostre igualmente dura convosco, por lhos terdes revelado. Como presentes, s\u00f3 deveis dar-lhe pedras, por ser ela t\u00e3o dura quanto o a\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Como! N\u00e3o disse nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 N\u00e3o; nem mesmo: \u201cToma isto pelo teu trabalho\u201d. Mas quanto a v\u00f3s, pretendo proclamar a vossa generosidade, por me haverdes dado meio xelim. Mas, como retribui\u00e7\u00e3o, daqui por diante sede v\u00f3s mesmo o portador de vossas cartas. E com isto, senhor, hei de vos recomendar ao meu amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Vai p\u00f4r a salvo o barco de teu amo, que naufragar n\u00e3o h\u00e1 de, enquanto a bordo te encontrares, fadado, como te achas, a morrer morte seca numa praia. (<i>Sai Speed.<\/i>) Vou procurar um portador mais digno. Temo que a minha J\u00falia n\u00e3o tivesse dado import\u00e2ncia carta, por ter sido esta levada por t\u00e3o vil correio. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"ver12\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. O jardim da casa de J\u00falia. Entram J\u00falia e Luceta.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Luceta, estamos s\u00f3s; fala-me franco: \u00e9s de opini\u00e3o que eu devo apaixonar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Sim, no caso de serdes cautelosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Da turba de fidalgos que n\u00e3o cessam de me fazer a corte, qual presumes que mais se possa impor ao meu afeto?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Repeti, por obs\u00e9quio, o nome deles, que, de acordo com minha mediania, vos direi meu pensar, sem subterf\u00fagios.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 O formoso Eglamor que te parece?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 De bom nome, formoso e mui bem posto; mas, sendo eu v\u00f3s, n\u00e3o fora do meu gosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 E do rico Merc\u00e1tio, que me dizes?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 De seu dinheiro, bem; dele, n\u00e3o tanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 E do gentil Proteu, que pensas dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Senhor! Senhor! Que loucas somos todas!<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Por que motivo exclamas a esse nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Perd\u00e3o, cara senhora, mas sentira-me envergonhada, sendo t\u00e3o indigna, se a emitir opini\u00e3o eu me atrevesse acerca de um fidalgo desse porte.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Por que s\u00f3 de Proteu n\u00e3o dizes nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Pois bem: ele \u00e9 o melhor entre os melhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Vossas raz\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 S\u00e3o raz\u00f5es femininas, t\u00e3o-somente: penso que ele \u00e9 o melhor, porque assim penso.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Assim, \u00e9s de opini\u00e3o que eu jogar deva sobre ele o peso do meu grande amor?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Se n\u00e3o vos agradar jog\u00e1-lo fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 No entanto, ele \u00e9 o que menos me corteja.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Mas de todos os vossos pretendentes, \u00e9 o que mais vos exal\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Seu mutismo n\u00e3o vai bem com amor muito acendrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 O fogo oculto lavra com mais for\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o pode amar quem n\u00e3o revela amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Menos ama quem fala s\u00f3 de amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Quisera conhecer-lhe os sentimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Ent\u00e3o lede esta carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 \u201cA J\u00falia.\u201d Dize: quem a escreveu?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 V\u00ea-lo-eis pelo contexto.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Quero saber! quem ta entregou?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 O pajem de Valentino, mas, segundo penso, da parte de Proteu. A v\u00f3s devera ter sido entregue. Vi-o de corrida. Perdoai-me por ter sido intrometida.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Pela minha mod\u00e9stia, incompar\u00e1vel alcoviteira! Imaginais que eu leio cartas apaixonadas? Que eu podia conspirar contra a minha mocidade? Ciladas preparar-lhe? Podeis crer-me: o of\u00edcio \u00e9 primoroso, em tudo digno da pessoa incumbida de exerc\u00ea-lo. Retomai essa carta e devolvei-a; se n\u00e3o, n\u00e3o quero novamente ver-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 O pagamento das intercessoras n\u00e3o devera ser \u00f3dio.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o te vais?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Sim, porque refletir melhor possais. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Eu deveria ter a carta, Pejo-me agora de chamar a portadora, at\u00e9 porque a induziria \u00e0 falta pela qual a exprobrei. Ah! Como \u00e9 tola! Sabendo-me mulher, n\u00e3o me ter feito ler \u00e0 for\u00e7a a missiva! Sim, que as damas dizem \u201cn\u00e3o\u201d por mod\u00e9stia, na esperan\u00e7a de que o interlocutor em \u201csim\u201d o mude. Oh! Qu\u00e3o impertinente \u00e9 esse amor louco, que, no jeito de crian\u00e7a rabugenta, a ama tenta arranhar, para, humildosa, depois, beijar a vara do castigo. Como fui incivil para Luceta, mandando-a embora, quando muito grato me fora t\u00ea-la agora ao lado! Que ira revelei ao fechar o sobrecenho, quando alegria interna me obrigava a rir o cora\u00e7\u00e3o! Por penit\u00eancia, Luceta vou chamar, para pedir-lhe que me perdoe a falta involunt\u00e1ria. Luceta! Ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Luceta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Que manda Vossa Gra\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 J\u00e1 \u00e9 hora de jantar?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Antes j\u00e1 fosse, porque aplacar a c\u00f3lera pud\u00e9sseis com a comida, e poup\u00e1sseis vossa criada.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Que apanhaste do ch\u00e3o com tanto empenho?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ent\u00e3o por que foi que te abaixaste?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Por causa de um papel que me escapara.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 E esse papel \u00e9 nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Sim, \u00e9 nada que me diga respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ent\u00e3o, que fale \u00e0 pessoa a quem ela diz respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 H\u00e1 de falar, decerto, a essa pessoa, desde que seja interpretada \u00e0 justa.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Algu\u00e9m vos escreveu, decerto, em vemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Para p\u00f4-los em m\u00fasica, senhora. Dizei-me o tom, pois conheceis a toada.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Com a m\u00fasica os cantai de \u201cO amor ligeiro\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Pesam demais para t\u00e3o leve toada.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 \u00c9 que o acompanhamento \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Teriam melodia, se os cant\u00e1sseis.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Por que n\u00e3o v\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 A m\u00fasica \u00e9 muito alta para mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Quero ouvir vossa cantiga. (<i>Toma-lhe a carta.<\/i>) Ent\u00e3o, pequena?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 N\u00e3o saiais da toada, que chegareis ao fim, ainda que a \u00e1ria n\u00e3o me seja do agrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Por que causa?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Acho-a muito incisiva.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 \u00c9s petulante.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Foi muito baixa a nota; perturbastes a harmonia com essa volta brusca. Falta no canto a voz intermedi\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Que t\u00e3o baixa n\u00e3o seja quanto a vossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Proteu ora dispensa toda ajuda.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o me importunes mais com tanta prosa! Eis a declara\u00e7\u00e3o no que termina. (<i>Rasga a carta.<\/i>) Vai-te; mas deixa esses pap\u00e9is no ch\u00e3o. \u00cdeis peg\u00e1-los s\u00f3 para irritar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Ficou zangada, mas prazer achara se pudesse outra carta aborrec\u00ea-la. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Se esta mesma pudesse aborrecer-me! Oh m\u00e3os cru\u00e9is, para rasgar palavras t\u00e3o amor\u00e1veis! Vespas injuriosas, que em mel t\u00e3o doce vos fartais e a morte dais com vossos ferr\u00f5es \u00e0s abelhinhas. Para me castigar vou beijar todos estes peda\u00e7os de papel. Vejamos: \u201cBondosa J\u00falia\u201d N\u00e3o! Maldosa J\u00falia! Porque tua maldade eu vingar possa, vou atirar-te o nome contra as pedras e calcar com desprezo teu orgulho. Oh! Leio aqui: Proteu, de amor ferido\u201d. Pobre nome ferido! Neste peito poder\u00e1s abrigar-te at\u00e9 sarares completamente. Assim, vou j\u00e1 pens\u00e1-lo com um beijo soberano. Duas vezes, ou tr\u00eas, vejo \u201cProteu\u201d escrito em baixo. Bom vento, n\u00e3o te agites; n\u00e3o removas palavra alguma, at\u00e9 que eu possa as letras todas da carta achar, com exce\u00e7\u00e3o das do meu pr\u00f3prio nome, que merecem por um redemoinho ser levadas, para que, do alto de um rochedo ingente, a pique e temeroso, \u00e0s ondas bravas sejam precipitadas. Eis seu nome duas vezes escrito nesta linha: \u201cDo esquecido Proteu, do apaixonado Proteu, para a querida e doce J\u00falia\u201d. Vou tirar esta&#8230; N\u00e3o, conv\u00e9m deix\u00e1-la, com tanta gentileza ele a associa a seu dorido nome. Vou dobr\u00e1-los, bem juntinho os deixando. Ora, beijai-vos, abra\u00e7ai-vos, brigai&#8230; o que quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Luceta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Jantar, senhora: vosso pai espera.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Muito bem; vamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Deixaremos no ch\u00e3o esses pap\u00e9is pouco discretos?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Se lhes tendes respeito, levantai-os.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Fui repreendida por os ter juntado; mas n\u00e3o conv\u00e9m que resfriados fiquem.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Por eles, vejo-o bem, tens prefer\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Podeis falar de tudo o que enxergardes; de boa vista eu tamb\u00e9m sou dotada, muito embora julgueis que cega eu seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o quereis entrar logo? Vamos, vamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"ver13\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto em casa de Ant\u00f4nio. Entram Ant\u00f4nio e Pantino.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Pantino, que conversa t\u00e3o solene teve no claustro meu irm\u00e3o contigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 Falou-me do sobrinho, vosso filho, Proteu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que disse ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 N\u00e3o compreende por que motivo Vossa Senhoria gastar o deixa a mocidade em casa, enquanto outras pessoas menos nobres os filhos fazem ir para o estrangeiro, para nome alcan\u00e7arem: uns, na guerra, porque nela a fortuna experimentem; outros em busca de long\u00ednquas ilhas; outros para as escolas superiores. Dizia, pois, que vosso filho mostra capacidade para qualquer dessas ocupa\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o para elas todas, tendo instado comigo, que vos viesse falar e, se preciso, importunar-vos para que o n\u00e3o deixeis ficar mais tempo, sem fazer nada, em casa, o que, em futuro, lhe ensejar\u00e1 raz\u00f5es de lastimar-se por n\u00e3o haver viajado quando mo\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o necessitas insistir comigo, que h\u00e1 um m\u00eas venho pensando nesse assunto Sua perda de tempo me preocupa. N\u00e3o poder\u00e1 jamais aperfei\u00e7oar-se, se n\u00e3o tiver o mundo como mestre. A experi\u00eancia se adquire pela pr\u00e1tica; consolida-a o veloz curso do tempo. Para onde achais que ser\u00e1 bom mand\u00e1-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 Penso que Vossa Gra\u00e7a n\u00e3o ignora que Valentino, seu amigo \u00edntimo, serve na corte real do imperador.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sei disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 Segundo penso, fora proveitoso que para l\u00e1 o mandasse Vossa Gra\u00e7a. Poder\u00e1 adquirir naquela corte a pr\u00e1tica de esgrima e de torneio; no conv\u00edvio com a gente da nobreza ouvir\u00e1 s\u00f3 conversas elevadas, sobre adornar-se do que for mais digno de sua mocidade e nobre origem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Teu conselho me agrada; bem pensado. Ver\u00e1s quanto o aprecio na presteza de sua execu\u00e7\u00e3o. Sem mais delongas o enviarei para a corte do monarca.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 Se n\u00e3o vos desagrada, amanh\u00e3 mesmo Dom Afonso e mais outros gentis-homens de alto nome pretendem ir \u00e0 corte, para saudar o imperador, deixando \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dele os seus servi\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Para Proteu \u00e9 boa a companhia. Nem a prop\u00f3sito: ei-lo. Vou falar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Proteu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Doce amor! Doces linhas! Doce vida! Eis sua m\u00e3o, do cora\u00e7\u00e3o o agente. De seu amor a jura aqui se encontra, o penhor de sua honra. Oh! se aplaudissem nossos pais esse amor, porque selassem com seu consentimento nossa dita! Oh J\u00falia celestial!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o, que carta est\u00e1s a ler a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Se Vossa Senhoria n\u00e3o se agasta, uma ou duas palavras que da parte de Valentino vieram, transmitidas por um amigo que com ele esteve.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mostra-ma; quero ver as novidades.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o h\u00e1, milorde, novidade alguma; t\u00e3o-somente relata como vive feliz, em grande apre\u00e7o, e diariamente aumentando na estima do monarca, desejando que com ele eu me encontrasse, para compartilhar de sua sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 E que tal vos parece esse desejo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Minha opini\u00e3o, senhor, depende em tudo da vontade de Vossa Senhoria; n\u00e3o se amolda aos desejos dos amigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Minha vontade, nisso, est\u00e1 de acordo com seu desejo. N\u00e3o te cause espanto tomar resolu\u00e7\u00e3o t\u00e3o subit\u00e2nea, pois o que eu quero, quero: \u00e9 quanto basta. Determinei que passes algum tempo junto do imperador, com Valentino. Receber\u00e1s pens\u00e3o igual \u00e0 dele, para tua manten\u00e7a. Amanh\u00e3 partes; vai preparar-te, pois. Nada de escusas; em minhas decis\u00f5es sou perempt\u00f3rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Milorde, \u00e9-me imposs\u00edvel preparar-me assim depressa; dai-me um dia, ou dois.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mandaremos depois tua bagagem. Amanh\u00e3 partir\u00e1s; n\u00e3o percas tempo. Vamos, Pantino; quero vosso aux\u00edlio para apressarmos a viagem dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Ant\u00f4nio e Pantino.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Fugi do fogo, para n\u00e3o queimar-me, mas fui cair no mar, onde me afogo. De medo que meu pai me repreendesse minha paix\u00e3o, n\u00e3o quis mostrar-lhe a carta que J\u00falia me mandara; mas do pr\u00f3prio pretexto excogitado ele fez a arma mais poderosa contra o meu amor. Parece abril, com seus incertos dias, o amor primaveril, sempre mud\u00e1vel, que ora o sol patenteia, resplendente, ora em nuvem se esconde, impenetr\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Pantino.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 Chama-vos vosso pai, senhor Proteu. N\u00e3o demoreis, porque ele est\u00e1 com pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sim, tem de ser; concorda o cora\u00e7\u00e3o, muito embora mil vezes diga \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">(Saem.)<\/p>\n<p><a name=\"ver21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Mil\u00e3o. Um quarto no pal\u00e1cio do duque. Entram Valentino e Speed.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Vossa luva, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Aqui tenho uma&#8230; Deixa-me v\u00ea-la&#8230; \u00c9 minha sim; perdi-a. Oh doce enfeite que um tesouro encobres! Ah, S\u00edlvia, S\u00edlvia!<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED (<i>chamando<\/i>) \u2014 Senhorita S\u00edlvia! Senhorita S\u00edlvia!<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Que \u00e9 isso, maroto?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Ela n\u00e3o pode ouvir-vos, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Mas quem vos incumbiu de cham\u00e1-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Vossa Senhoria, senhor, salvo engano de minha parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Tudo fazes com pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 No entanto, h\u00e1 pouco tempo fui repreendido por ser vagaroso.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Bem; deixemos isso e dize-me se conheces a senhorita S\u00edlvia.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Por quem Vossa Senhoria est\u00e1 apaixonado?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Ora essa! Como sabes que estou apaixonado?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Ora, pelos seguintes sinais, muito caracter\u00edsticos: primeiro, como o senhor Proteu, aprendestes a cruzar os bra\u00e7os, no jeito das pessoas descontentes; a achar gosto em uma can\u00e7\u00e3o de amor, como o fazem os pintarroxos; a passear sozinho, como quem est\u00e1 afetado de peste; a suspirar como um colegial que houvesse perdido o A B C; a chorar como uma donzela que acabasse de enterrar a av\u00f3; a jejuar como quem est\u00e1 de dieta; a ficar de vig\u00edlia como quem tem medo de ladr\u00f5es; a falar em tom plangente, como mendigo em dia de Todos os Santos. Antes, vossa risada era como o cantar dos galos; vossas passadas lembravam o andar dos le\u00f5es; s\u00f3 jeju\u00e1veis depois do jantar, se fic\u00e1veis triste era por falta de dinheiro. Presentemente, vos encontrais de tal modo metamorfoseado por vossa namorada, que, ao vos contemplar, custa-me crer que sois, de fato, o meu patr\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 V\u00eaem-se, realmente, em mim todos esses sinais?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 S\u00e3o vistos fora de v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Fora de mim? Como \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Fora de v\u00f3s, sim senhor; porque, fora de v\u00f3s, ningu\u00e9m procederia dessa maneira. De tal modo vos encontrais fora dessas tolices, que essas tolices se encontram dentro de v\u00f3s e brilham atrav\u00e9s de v\u00f3s, como \u00e1gua no urinol, n\u00e3o havendo quem vos veja que, tal qual m\u00e9dico, n\u00e3o reconhe\u00e7a que estais doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Mas, dize-me, afinal: conheces a senhorita S\u00edlvia?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Aquela de quem n\u00e3o desviais os olhos, quando ela se assenta \u00e0 mesa?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Percebeste isso? Pois \u00e9 a essa, justamente, que me refiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 N\u00e3o, senhor; n\u00e3o a conhe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Como assim? Observaste que eu n\u00e3o desviava dela os olhos, e, no entanto, n\u00e3o a conheces?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 N\u00e3o \u00e9 uma senhorita desgraciosa?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 \u00c9 t\u00e3o bela quanto graciosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Sei disso perfeitamente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Que \u00e9 que sabes?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Que ela \u00e9 t\u00e3o bela quanto graciosa vos parece.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 O que pretendo significar \u00e9 que sua beleza \u00e9 esquisita e infinita a sua gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Por uma ser pintada e a outra fora de conta.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Como pintada? Como fora de conta?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Ora senhor, ela se pinta de tal modo, para parecer bela, que ningu\u00e9m pode calcular sua beleza.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Que ju\u00edzo fazes de mim? Sou capaz de calcular sua beleza.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Mas n\u00e3o a tornastes a ver, depois que ela ficou deformada.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 E h\u00e1 quanto tempo ela ficou deformada?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Desde que a amais.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Amei-a desde o primeiro momento em que a vi, e at\u00e9 hoje a acho bel\u00edssima.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Se a amais, n\u00e3o podeis v\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Por que raz\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Porque o amor \u00e9 cego. Oh! Se tiv\u00e9sseis os meus olhos! Ou se tiv\u00e9sseis nos olhos a luz de quando censur\u00e1veis Proteu, por andar sem ligas!<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Que \u00e9 o que eu veria, ent\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Vossa presente loucura e sua grande deformidade. Aquele, porque apaixonado, n\u00e3o tinha vista para segurar as meias; v\u00f3s, por estardes amando, n\u00e3o v\u00eades se tendes meias ou n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Nesse caso, tu tamb\u00e9m est\u00e1s apaixonado, porque esta manh\u00e3 n\u00e3o tiveste vista para limpar-me os sapatos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u00c9 certo, senhor, estava apaixonado de meu leito. Agrade\u00e7o-vos o terdes-me sacudido por causa de meu amor; isso me dar\u00e1 coragem para vos censurar pelo vosso.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Em suma: estou inflamado por causa dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Desejaria que esse fogo se apagasse logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Na noite passada ela me pediu que escrevesse alguns versos para algu\u00e9m que ela ama.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 E o fizestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 N\u00e3o sa\u00edram de p\u00e9 quebrado?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o, pequeno; escrevi-os da melhor maneira poss\u00edvel. Mas, caluda! A\u00ed vem vindo ela!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra S\u00edlvia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Que bela representa\u00e7\u00e3o! Magn\u00edficos fantoches! Ele \u00e9 que vai interpret\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Senhora e soberana, mil bons-dias.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Oh! Dai-lhe apenas uma boa-tarde, que vale mais do que mil cumprimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Senhor Valentino e servidor, dou-vos dois mil.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Era ele que devia pagar os juros; no entanto \u00e9 ela quem lhos d\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Eis a carta, senhora, que pedistes para pessoa amiga, oculta e an\u00f4nima. N\u00e3o a escrevi de grado, mas apenas por defer\u00eancia a Vossa Senhoria. (<i>Entrega-lhe uma carta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Gra\u00e7as, meu servidor; melhor, decerto, um escriv\u00e3o fazer n\u00e3o poderia.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Podeis crer-me, senhora: foi dif\u00edcil. Por n\u00e3o saber a quem me dirigia, escrevi mais ou menos, sem firmeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Achastes cansativo esse trabalho?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o, senhorita; se vos for do agrado, poderei escrever mil cartas dessas. Contudo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Belo fecho. Sei o resto. Contudo, n\u00e3o a aceito; n\u00e3o me importa. Contudo, recebei-a de retorno; contudo, dou-vos gra\u00e7as, tencionando n\u00e3o vos dar mais trabalho de ora em diante.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Contudo, sim; contudo, outro contudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Que quer dizer com isso Vossa Gra\u00e7a? A carta n\u00e3o ficou do vosso agrado?<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Ficou; os versos est\u00e3o bem escritos. Mas, j\u00e1 que foram feitos de mau grado, aceit\u00e1-los n\u00e3o posso. (<i>Devolve-lhe a carta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Senhora, foram para v\u00f3s escritos.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Sim, escreveste-los a meu pedido; mas n\u00e3o os quero; todos vos pertencem. Desejaria versos mais sentidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Se quiserdes, farei mais uma carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 E, por amor de mim, depois, relede-a. Se ela vos agradar, bem; se n\u00e3o, bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Se me agradar, senhora, que acontece?<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Ficai com ela, em paga do trabalho. E assim, at\u00e9 amanh\u00e3, meu servidor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Oh brincadeira rara, estranha e t\u00e3o vis\u00edvel como o galo da torre e meu nariz ris\u00edvel! Meu amo se declara; ela lhe ensina o amor, dando li\u00e7\u00e3o jeitosa ao grande professor. Quem podia prever t\u00e3o s\u00e9rio desenlace, que, como secret\u00e1rio, a si se declarasse?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Que \u00e9 que estais a falar sozinho, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Fazia versos; a raz\u00e3o est\u00e1 convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Raz\u00e3o para qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Para serdes o padrinho do casamento da senhorita S\u00edlvia.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Junto de quem?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Junto de v\u00f3s mesmo. Ela se vos declarou por meio de uma figura.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Que figura?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Uma carta, \u00e9 o que eu queria dizer.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Mas se ela n\u00e3o me escreveu carta alguma!<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Que necessidade tinha de faz\u00ea-lo, se vos obrigou a escrever para v\u00f3s mesmo? N\u00e3o compreendestes a brincadeira?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o, posso afian\u00e7ar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u00c9 no que n\u00e3o posso acreditar, senhor. Mas, pelo menos, n\u00e3o observastes que ela estava falando s\u00e9rio?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 S\u00d3 observei que ela estava zangada.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Entregou-vos uma carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sim, a que eu escrevera para o seu amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Carta essa que ela fez chegar \u00e0s m\u00e3os do destinat\u00e1rio, e aqui termina o assunto.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Quem dera que fosse s\u00f3 isso!<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Posso afian\u00e7ar, senhor, que \u00e9 isso e nada mais. \u201cPorque ela, por mod\u00e9stia ou falta de ocasi\u00e3o, deixara sem resposta a vossa devo\u00e7\u00e3o. Com medo de confiar a algu\u00e9m qualquer recado, de intermedi\u00e1rio fez o pr\u00f3prio namorado.\u201d Falo como quem l\u00ea, por ter achado escrito. Mas, em que estais pensando, senhor? J\u00e1 \u00e9 hora de jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 J\u00e1 jantei.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Ent\u00e3o, senhor, ouvi-me: muito embora o camale\u00e3o Amor possa alimentar-se de ar, no que me diz respeito, alimento-me de vitualhas e estou com regular apetite. Oh! N\u00e3o sejais como vossa apaixonada; deixai-vos comover! Deixai-vos comover!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Verona. Um quarto em casa de J\u00falia. Entram Proteu e J\u00falia.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Paci\u00eancia, cara J\u00falia.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Que rem\u00e9dio!<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Logo que for poss\u00edvel voltarei.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Se n\u00e3o mudardes, voltareis depressa. Levai de vossa J\u00falia esta lembran\u00e7a. (<i>D\u00e1-lhe um anel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Outra vos dou em troca; recebei-a. (<i>D\u00e1-lhe outro anel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Selai a troca com um sagrado beijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Eis minha m\u00e3o, como penhor de f\u00e9. Se me escapar uma hora, s\u00f3, do dia, em que n\u00e3o suspirar por tua causa, quero que, na seguinte, me aconte\u00e7a qualquer grande desgra\u00e7a, como pena de minha ingratid\u00e3o. Meu pai me espera. N\u00e3o me respondas; a mar\u00e9 est\u00e1 alta; n\u00e3o a mar\u00e9 que desses olhos cresce, que essa me deteria muito tempo. Adeus, J\u00falia. (<i>Sai J\u00falia.<\/i>) Saiu sem dizer nada? Sim, que o sincero amor quase n\u00e3o fala; melhor se adorna com a\u00e7\u00f5es e fatos a verdadeira f\u00e9, n\u00e3o com palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Pantino.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 Senhor Proteu, esperam-no.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 \u00c9 tudo. Essa separa\u00e7\u00e3o me deixa mudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver23\" name=\"ver23\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua. Entra Launce, conduzindo um c\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o; ainda vou chorar durante uma hora; \u00e9 defeito dos Launces. Recebi a minha heran\u00e7a, como o filho pr\u00f3digo, e parto com o senhor Proteu para a corte imperial. A meu ver, este meu cachorro Crab \u00e9 o cachorro mais insens\u00edvel do mundo: minha m\u00e3e chorava, meu pai gemia, minha irm\u00e3 gritava, a empregada urrava, o gato esfregava as patas, e toda a casa em grande perplexidade, sem que este animal de cora\u00e7\u00e3o endurecido derramasse uma l\u00e1grima. \u00c9 uma pedra, um verdadeiro seixo, sem mais piedade do que um c\u00e3o. Um judeu teria chorado, se visse a nossa despedida. Sim, minha av\u00f3, ora vede, que n\u00e3o tem olhos, chorou de ficar cega, quando nos despedimos. Vou mostrar-vos como as coisas se passaram. Este sapato \u00e9 meu pai&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o; este sapato do p\u00e9 esquerdo \u00e9 meu pai&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o; este sapato esquerdo \u00e9 minha m\u00e3e. N\u00e3o, n\u00e3o pode ser, tamb\u00e9m. Sim \u00e9 isso mesmo, por estar com a sola muito gasta. Este sapato com um furo \u00e9 minha m\u00e3e; e este, meu pai. Que o leve a breca, se n\u00e3o for isso. Agora, senhor, este bast\u00e3o \u00e9 minha irm\u00e3, porque, vede bem, ela \u00e9 t\u00e3o branca quanto o l\u00edrio e t\u00e3o esguia quanto uma vara. Este chap\u00e9u \u00e9 Nan, nossa empregada; eu sou o cachorro&#8230; N\u00e3o, o cachorro \u00e9 ele mesmo e eu sou o cachorro&#8230; Oh! O cachorro \u00e9 eu e eu sou eu mesmo&#8230; \u00c9 isso, \u00e9 isso&#8230; Agora eu me dirijo a meu pai: A b\u00ean\u00e7\u00e3o, pai\u201d sem que o sapato possa dizer uma s\u00f3 palavra, de tanto chorar. Agora eu dou um beijo em meu pai&#8230; que continua a chorar. Agora me dirijo para minha m\u00e3e&#8230; Oh! Se ela pudesse falar neste momento como uma mulher que houvesse perdido o ju\u00edzo! Bem, dou-lhe um beijo&#8230; Sim, \u00e9 isso mesmo, \u00e9 igualzinho o h\u00e1lito de minha m\u00e3e. Observai como ela suspira. E durante todo esse tempo o cachorro n\u00e3o disse uma s\u00f3 palavra, nem derramou uma l\u00e1grima, apesar de eu regar a poeira com meu pranto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Pantino.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 Launce, vai logo para bordo! Teu amo j\u00e1 est\u00e1 embarcado. Ser\u00e1 preciso muita for\u00e7a de remo, para que o alcances. Que \u00e9 que houve, homem? Por que est\u00e1s a chorar? Vai logo, peda\u00e7o de asno! Se demorares, vais ter muito com que te co\u00e7ar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o importa; porque este cora\u00e7\u00e3o endurecido o que merece mesmo \u00e9 uma boa co\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 A quem te referes, homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 A Crab, o meu cachorro, que vedes aqui amarrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 N\u00e3o foi isso, homem, que eu disse, mas que podias perder a mar\u00e9. Ora, perdendo a mar\u00e9, perderias a viagem, e perdendo a viagem, perderias teu amo, e perdendo teu amo, perderias o servi\u00e7o, e perdendo o servi\u00e7o&#8230; Por que me tapas a boca?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 De medo que venhais a perder a l\u00edngua. Pouco importa que eu perca a mar\u00e9, a viagem, o amo e o servi\u00e7o. Ora, amigo, se o rio vier a secar, acho-me em condi\u00e7\u00f5es de o encher com minhas l\u00e1grimas; se o vento viesse a parar, poderia impelir o navio com a for\u00e7a dos meus suspiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 Vamos, homem, vamos! Fui encarregado de chamar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Podeis chamar-me, senhor, o que quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANTINO \u2014 N\u00e3o queres ir?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Pois bem, irei.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver24\" name=\"ver24\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Mil\u00e3o. Um quarto no pal\u00e1cio do duque. Entram Valentino, S\u00edlvia, T\u00fario e Speed.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Servidor!<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Senhora!<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Mestre, o senhor T\u00fario vos olha com m\u00e1 cara.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 \u00c9 por amor, rapaz.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Mas n\u00e3o h\u00e1 de ser por v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Ent\u00e3o \u00e9 pela minha dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Seria bom que lhe d\u00e9sseis uma boa tunda.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Servidor, estais triste.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Realmente, senhora, \u00e9 o que pare\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Pareceis ser o que n\u00e3o sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 \u00c9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Ent\u00e3o \u00e9 porque usais de fingimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Tal como o fazeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Que \u00e9 o que pare\u00e7o ser sem que o seja?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 S\u00e1bio.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 E qual \u00e9 a prova do contr\u00e1rio?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Vossa loucura.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Em que percebeis minha loucura?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Em vosso gib\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Estou com um gib\u00e3o duplo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Neste caso, duplico vossa loucura.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 De que modo?<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Como! Zangado, senhor T\u00fario? Mudais de cor?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Deixai-o, senhorita; \u00e9 uma esp\u00e9cie de camale\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Camale\u00e3o que demonstra maior vontade de vos beber o sangue do que de respirar o mesmo ar que respirais.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 J\u00e1 falastes, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Sim, senhor; e, por esta vez, tamb\u00e9m j\u00e1 terminei.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sei disso, senhor; sempre terminais antes de come\u00e7ardes.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Bela descarga de palavras, cavalheiros, e feita com muita rapidez.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 agradecemos \u00e0 doadora, senhorita.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 A quem vos referis?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 A v\u00f3s, prezada senhorita, que trouxestes o fogo. Do olhar de Vossa Senhoria o senhor T\u00fario toma emprestado o esp\u00edrito, gastando generosamente em vossa companhia tudo o que pediu emprestado.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Senhor, se gastardes comigo tantas palavras, acabareis por levar vosso esp\u00edrito \u00e0 bancarrota.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sei disso, senhor. Contais com um tesouro de palavras, a ponto de eu pensar que n\u00e3o tendes outra moeda com que pagar os vossos servidores. A julgarmos pela pobreza das fardas, vivem apenas de vossas pobres palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Basta, cavalheiros, basta! A\u00ed vem vindo meu pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o duque.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Pelo que vejo, filha S\u00edlvia, o cerco que sustentais \u00e9 grande. Com sa\u00fade, Sir Valentino, vosso pai se encontra. Que direis, se acaso receb\u00easseis carta com boas novas dos amigos?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Milorde, ficaria agradecido ao feliz mensageiro da not\u00edcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Conheceis Dom Ant\u00f4nio? \u00c9 de Verona.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Conhe\u00e7o, sim, milorde; \u00e9 um cavalheiro digno de toda estima e que merece gozar, de fato, de t\u00e3o grande apre\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o possui ele um filho?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Possui, milorde; um filho tamb\u00e9m digno de herdar o nome e o apre\u00e7o de tal pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Conhecei-lo de perto?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Tanto quanto a mim mesmo. Desde a inf\u00e2ncia, como amigos, vivemos sempre juntos. E embora impenitente vagabundo tivesse eu sido sempre, que n\u00e3o soube o alto valor apreciar do tempo, para que a mocidade com ang\u00e9lica perfei\u00e7\u00e3o adornasse, Sir Proteu \u2014 que assim ele \u00e9 chamado \u2014 melhor uso soube fazer de todos os seus dias. Mo\u00e7o na idade, velho na experi\u00eancia; verde nos anos, de saber maduro. Numa palavra \u2014 pois os elogios que prodigar-lhe agora me ocorressem muito aqu\u00e9m ficariam da verdade \u2014 \u00e9 completo no esp\u00edrito e no corpo, sobre ser possuidor das gra\u00e7as todas que deixam mais gracioso um gentil-homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Por minha f\u00e9, senhor, se for verdade quanto estais a dizer, do amor \u00e9 digno de uma grande princesa e de tornar-se conselheiro de reis. Pois bem, senhor, apresentou-se-me esse gentil-homem com recomenda\u00e7\u00f5es de altas pessoas. Tenciona aqui ficar por algum tempo. Penso que essas not\u00edcias vos agradam.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Se algo eu podia desejar, era isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Acolhei-o de acordo com seu m\u00e9rito. S\u00edlvia, digo isso a v\u00f3s e ao senhor T\u00fario que Valentino n\u00e3o precisa disso. Manda-lo-ei para c\u00e1 neste momento. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Foi desse cavalheiro, senhorita, que vos falei; teria, certamente, vindo comigo para a corte, caso presos n\u00e3o lhe trouxesse a amada os olhos no seu olhar sereno e cristalino.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Decerto lhes deu ela liberdade por ter ficado com penhor mais forte.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Creio que ainda sejam prisioneiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Se fosse assim, ele estaria cego. Ora, sem poder ver, como o caminho para vos encontrar teria achado?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 \u00c9 que o Amor v\u00ea com vinte pares de olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Dizem que o Amor n\u00e3o tem olho nenhum.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Para enxergar amantes como T\u00fario. \u00c9 que ante coisas toscas, fecha os olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Basta! Basta! Eis que chega o gentil-homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Proteu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Caro Proteu, bem-vindo! Senhorita, pe\u00e7o-vos confirmar a boa-vida com qualquer mostra de especial dem\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Seu m\u00e9rito \u00e9 o penhor da boa-vinda, caso ele seja, realmente, o amigo sobre que tantas vezes conversamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 O mesmo, senhorita. Doce dama, consenti que ele, como eu pr\u00f3prio, fique como servo de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Para tal servo a dama \u00e9 muito baixa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o, senhorita: eu \u00e9 que sou indigno de ser notado por t\u00e3o digna dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Deixai para depois vossos defeitos. Recebei-o, senhora, em vossa gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Hei de orgulhar-me de vos ser dicado.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Sempre a dedica\u00e7\u00e3o se viu premiada. Embora indigna, servo, eu vos sa\u00fado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Quem tal dissesse, a n\u00e3o ser v\u00f3s, morrera.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Que sois bem-vindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o, que sois indigna.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Senhora, vosso pai mandou chamar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Obede\u00e7o-lhe em tudo. Cavalheiro T\u00fario, vinde comigo. Novamente, meu novo servidor, eu vos sa\u00fado. A conversar vos deixo sobre assuntos particulares! Quando terminardes, espero receber not\u00edcias vossas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Para servir-vos, ambos nos dispomos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem S\u00edlvia, T\u00fario e Speed.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Ora dizei-me como passam todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Vossos amigos est\u00e3o bons e enviam saudares e lembran\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 E dos vossos amigos, que dizeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Todos v\u00e3o bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 E vossa amada? E o amor, tem prosperado?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Minhas hist\u00f3rias sempre vos cansaram. Sei que a assuntos de amor sois muito infenso.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Ah, Proteu! Minha vida est\u00e1 mudada. Estou a penitenciar-me do meu crime, por ter do amor zombado. Sua altiva palavra de comando me castiga com amargos jejuns, fundos gemidos, noturnas l\u00e1grimas e quotidianos suspiros de partir o cora\u00e7\u00e3o. Em vingan\u00e7a de minha indiferen\u00e7a, o Amor o sono dos cativos olhos me expulsou de uma vez e em sentinelas os transformou de minha pr\u00f3pria ang\u00fastia. Caro Proteu, o Amor \u00e9 poderoso, e de tal modo me deixou vencido, que reconhe\u00e7o n\u00e3o haver castigos compar\u00e1veis aos seus, nem alegria tal como a de servi-lo neste mundo. Minha conversa, agora, \u00e9 amor somente; merendo, almo\u00e7o, janto, ceio e durmo s\u00f3 com dizer esta palavra: amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Basta; o destino revelais nos olhos. \u00c9 essa a deusa de vosso alto culto?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Justamente. N\u00e3o \u00e9 santa celeste?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o direi tanto; \u00e9 perfei\u00e7\u00e3o terrena.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Chamai-lhe divinal.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Fora adul\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Oh! Adulai-me! O amor quer elogios.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Quando doente, me destes muitas p\u00edlulas amargosas; o mesmo vou fazer-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Ent\u00e3o sede sincero a seu respeito: se n\u00e3o um ser divino, uma criatura sem confronto, senhora e soberana de todas as mulheres deste mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Exceto a minha amada.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o excluas nenhuma; a menos que excluir intentes a minha pr\u00f3pria dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o me assiste raz\u00e3o de preferir a minha amada?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Vou ajudar-te a dar-lhe prefer\u00eancia. Vai-lhe tocar a distin\u00e7\u00e3o suprema de levantar a cauda do vestido de minha dama, porque a baixa terra a lhe roubar um beijo n\u00e3o se atreva e, assim, de orgulho inflada, n\u00e3o descure de alimentar a fl\u00f3rea primavera, deixando permanente o rude inverno.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Mas que fanfarronada, Valentino!<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Perd\u00e3o, Proteu; tudo o que eu digo \u00e9 nada frente ao valor de quem reduz a nada quantos valores conceber possamos. Ela est\u00e1 s\u00f3.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Ent\u00e3o, deixai-a s\u00f3.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o, pelo mundo inteiro! \u00c9 minha, amigo. Como dono de j\u00f3ia de tal pre\u00e7o, mais rico sou do que se propriet\u00e1rio fosse de vinte mares, cujas praias, em vez de areia, p\u00e9rolas tivessem, em lugar de \u00e1gua, n\u00e9ctar e rochedos alcantilados de ouro. N\u00e3o repares se pensamento algum eu te dedico, que fascinado pelo amor me encontras. Meu rival imbecil, que, por ser rico, conta com a prote\u00e7\u00e3o do pai de S\u00edlvia, saiu daqui com ela. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, que os procure, pois bem sabes quanto o amor \u00e9 ciumento.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 E S\u00edlvia, te ama?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 J\u00e1 somos noivos; mais, ainda: as n\u00fapcias est\u00e3o marcadas, sobre termos tudo bem assentado para nossa fuga: como escalar-lhe a alta janela eu possa com uma escada de cordas, tudo, tudo, para minha ventura foi pensado. Vamos at\u00e9 meu quarto, bom Proteu, porque neste neg\u00f3cio me aconselhes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Ide na frente; dentro de momentos achar-vos saberei. \u00c9 necess\u00e1rio voltar ao cais para tirar de bordo alguma coisa de uso mais urgente. Feito isso, podereis dispor de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o vais demorar muito?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o; prometo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Valentino.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Como um calor outro calor desmancha e um prego outro retira, de igual modo a lembran\u00e7a de meu amor primeiro se acha quase apagada pela influ\u00eancia de um mais recente objeto. \u00c9 minha vista, porventura, ou o louvor de Valentino, ou a perfei\u00e7\u00e3o de S\u00edlvia, ou, simplesmente, minha inconst\u00e2ncia que a pensar me leva com t\u00e3o grande desvio? Ela \u00e9 formosa, tal como J\u00falia, a quem amor dedico, ou melhor: dediquei, por ser um fato que o meu amor, agora, est\u00e1 desfeito; como imagem de cera junto ao fogo, perdeu toda a impress\u00e3o do que antes era. Noto que frio se acha o grande zelo que a Valentino eu tinha e que a amizade de antigamente j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma. Mas sua amada, quanto amor lhe tenho! Eis a raz\u00e3o de am\u00e1-lo desse modo. Como hei de vir a apaixonar-me dela com mais vagar, se, assim, t\u00e3o de surpresa, comecei a ador\u00e1-la? At\u00e9 este instante, s\u00f3 vi sua pintura, o suficiente para ofuscar-me a luz do entendimento. Mas, quando eu vier a contemplar-lhe o encanto, raz\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 de n\u00e3o tornar-me cego. Para curar-me hei de envidar os meios; se n\u00e3o, minha h\u00e1 de ser, sem mais rodeios. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver25\" name=\"ver25\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua. Entram Speed e Launce.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Launce! Por minha honestidade, \u00e9s bem-vindo a Mil\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o jures falso, bondoso rapaz, porque a verdade \u00e9 que eu n\u00e3o sou bem-vindo. Sempre fui de opini\u00e3o que um homem nunca fica inteiramente perdido, enquanto n\u00e3o for enforcado, e que s\u00f3 poder\u00e1 ser bem-vindo a determinado lugar, quando lhe pagarem as contas e a hoteleira lhe disser: Bem-vindo!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Vamos, desmiolado; desejo acompanhar-te at\u00e9 \u00e0 cervejaria, onde, por uma conta de cinco pences, poder\u00e1s obter cinco mil bem-vindos. Mas conta-me l\u00e1 como o teu mestre se separou de Madame J\u00falia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Ora! Depois de se terem unido em tristeza, separaram-se por maneira muito folgaz\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Mas ela o desposar\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Como assim? Ele se casar\u00e1 com ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Ent\u00e3o separaram-se?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o; continuam unidos como um s\u00f3 peixe.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Mas de que jeito se encontram?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Ora, quando alguma coisa est\u00e1 bem para ele, est\u00e1, do mesmo modo, bem para ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Que grande asno me sa\u00edste. Tudo quanto acabas de dizer n\u00e3o oferece resist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 \u00c9 preciso que n\u00e3o passes de um peda\u00e7o de pau, para n\u00e3o compreenderes o que eu digo. Pois este bast\u00e3o me oferece resist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Que est\u00e1s a dizer?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Precisamente o que estou a fazer. Observa-me bem: ap\u00f3io-me ao meu bast\u00e3o e ele me oferece resist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Realmente; mas eu me referia \u00e0 tua pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Tudo vem a dar no mesmo; se o bast\u00e3o resiste ao meu peso, eu e ele oferecemos resist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Mas dize-me a verdade: haver\u00e1 casamento?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Pergunta isso ao meu cachorro; se ele disser que sim, haver\u00e1; se disser que n\u00e3o, haver\u00e1; se sacudir a cauda e nada te responder, haver\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Donde de conclui que haver\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 S\u00f3 me arrancar\u00e1s um segredo t\u00e3o grande por meio de uma par\u00e1bola.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Pouco importa, contanto que mo reveles. Mas, Launce, que dizes do meu amo? Deu agora para ser amante refinado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Sempre o conheci desse jeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 De que jeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Como um refinado tratante, conforme lhe chamaste agora mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u00d3 grande peda\u00e7o de asno! Tomaste-me no mau sentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o falei de ti, meu tolo, mas de teu amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 O que eu disse foi que meu amo se encontra inflado de amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Pois o que eu digo \u00e9 que pouco se me d\u00e1 que ele venha a se consumir de amor. Se quiseres ir comigo \u00e0 cervejaria, bem; caso contr\u00e1rio, \u00e9s um hebreu, um judeu, indigno do nome de crist\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Por n\u00e3o teres suficiente caridade para beber cerveja com um crist\u00e3o. Como \u00e9? N\u00e3o vens?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u00c0s tuas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver26\" name=\"ver26\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto no pal\u00e1cio do duque. Entra Proteu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Deixar de amar a J\u00falia, \u00e9 ser perjuro, amar a bela S\u00edlvia, \u00e9 ser perjuro; trair o amigo, \u00e9 ser demais perjuro. A mesma causa de eu haver jurado a perjurar tr\u00eas vezes me constrange. O Amor me fez jurar e perjurar. \u00d3 doce tentador! J\u00e1 que pecaste, ao menos \u00e0 tua v\u00edtima sugere pass\u00e1veis argumentos de desculpa. Adorei uma estrela cintilante, mas ora \u00e9 um sol celeste que eu venero. Ligeiramente podem ser quebrados votos feitos pressa. Fora falta de esp\u00edrito n\u00e3o ter vontade forte para ensinar um meio ao pr\u00f3prio esp\u00edrito de escolher o melhor em qualquer caso. \u00d3 l\u00edngua irreverente! Ruim chamares aquela cujo m\u00e9rito exaltaste com vinte mil sinceros juramentos? N\u00e3o prosseguir amando, \u00e9-me imposs\u00edvel. E o que se d\u00e1, no entanto. Mas s\u00f3 deixo de amar a quem for\u00e7oso era que amasse. Desta arte perco J\u00falia e Valentino; se com eles ficar, perco a mim mesmo. Se os perder, ganharei com essa perda a mim pr\u00f3prio em lugar de Valentino, e a S\u00edlvia em vez de J\u00falia. Mais que amigo sou eu para mim mesmo. Quanto a S\u00edlvia \u2014 seja o c\u00e9u testemunha, que a fez bela! \u2014 em J\u00falia me faz ver escura et\u00edope. Esquecerei que J\u00falia ainda est\u00e1 viva s\u00f3 de lembrar que morto j\u00e1 se encontra o amor que lhe votei. De Valentino farei meu inimigo, porque em S\u00edlvia mais grato amigo alfim encontrar possa. Para constante ser comigo mesmo, urge que a Valentino eu seja falso. Com uma escada de corda ele pretende a janela escalar da imortal S\u00edlvia. Eu, seu rival, fui confidente nisso. Vou prevenir, portanto, o pai de S\u00edlvia desse encontro e da fuga em perspectiva. Furioso, h\u00e1 de expulsar a Valentino, por pretender a filha dar a T\u00fario. Uma vez Valentino removido, saberei encontrar alguma tra\u00e7a para entravar esse noivado est\u00fapido. Amor, d\u00e1-me asas para esta vit\u00f3ria, pois, em verdade, \u00e9 tua toda a gl\u00f3ria.<\/p>\n<p><a id=\"ver27\" name=\"ver27\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Verona. Um quarto em casa de J\u00falia. Entram J\u00falia e Luceta.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Gentil Luceta, ajuda-me, aconselha-me. Embora amor o assunto agora seja \u2014 j\u00e1 que \u00e9s a lousa em que meus pensamentos caracteres vis\u00edveis adquiriram \u2014 sugere-me algum meio compat\u00edvel com minha dignidade, porque eu possa ir at\u00e9 onde se encontra o meu Proteu.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Ah! penoso \u00e9 o caminho e muito longo.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Jamais uma sincera peregrina sentiu cansa\u00e7o para medir remos com seus passos incertos; muito menos h\u00e1 de cansar-se quem disp\u00f5e das asas do amor para ir se unir a um namorado de tanta perfei\u00e7\u00e3o como Proteu.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Convir\u00e1 esperar que ele retorne.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 E n\u00e3o n\u00e3o sabes que minha alma vive t\u00e3o-s\u00f3 de seus olhares? Tem piedade da maneira em que me acho, pela falta desse alimento, h\u00e1 tanto, suspirado. Se de ci\u00eancia pr\u00f3pria conhecesses as impress\u00f5es do amor, antes pensaras em acender com neve chama ardente, do que extinguir o amor com teus discursos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 N\u00e3o pretendo apagar o amor ardente que vos consome; t\u00e3o-somente quero o ardor extremo atenuar do fogo, porque n\u00e3o queime al\u00e9m do que \u00e9 razo\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Quanto mais o abafares, mais abrasa. A correntinha que se esgueira pl\u00e1cida, n\u00e3o o ignoras, detida se enfurece; mas, quando o belo curso encontra livre, faz agrad\u00e1vel m\u00fasica com os seixos e beijos d\u00e1 nos juntos namorados que em seu caminho acaso a encontrar venha: desta arte, ap\u00f3s serpear alegremente, no selvagem oceano ele se atira. Consente, pois, que eu v\u00e1; n\u00e3o me detenhas. T\u00e3o paciente serei como um regato; todos os passos cansativos, simples brinquedos me ser\u00e3o, at\u00e9 que o \u00faltimo me leve ao meu amor, onde em repouso me deixarei ficar, como no El\u00edsio fica a alma eleita, ap\u00f3s trabalhos grandes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Que vestes pretendeis usar para isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o trajes femininos, que \u00e9 preciso n\u00e3o me expor ao encontro licencioso dos homens atrevidos. Minha cara Luceta, arranja-me uma roupa pr\u00f3pria de algum pajem de boa compostura.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Pelo que vejo, Vossa Senhoria vai cortar os cabelos?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o, menina; pois com fios de seda farei vinte n\u00f3s de amor verdadeiros. Semelhante originalidade n\u00e3o destoa do todo de um rapaz que aparentasse mais idade do que eu mostrar pretendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 E os cal\u00e7\u00f5es, de que modo hei de cort\u00e1-los?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 O mesmo fora se me perguntasses: \u201cComo quereis, caro senhor, que seja a saia na largura?\u201d Pouco importa, boa Luceta, a moda que escolheres.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Precisareis, ent\u00e3o, usar braguilha.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ora, Luceta! Ficaria feio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Cal\u00e7a redonda vale menos, hoje, do que alfinete, a menos que tiv\u00e9sseis onde espetar os vossos alfinetes.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Pelo amor que me tens, cara Luceta, prepara-me o que achares mais decente. Mas, rapariga, dize-me: como achas que pensar\u00e1s o mundo a meu respeito por empreender uma viagem destas, t\u00e3o do p\u00e9 para a m\u00e3o? Receio muito que isso me prejudique de algum modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Se assim pensais, conv\u00e9m ficar em casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Isso \u00e9 o que n\u00e3o farei.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o deis ouvido a coment\u00e1rios e segui sem demora. Caso aprove Proteu, quando voltar, o que hajais feito, de nada valer\u00e1 qualquer censura, ap\u00f3s terdes partido. Mas receio que ele vos desaprove tal medida.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Isso, boa Luceta, n\u00e3o me causa qualquer preocupa\u00e7\u00e3o. Mil juramentos, um oceano de l\u00e1grimas, inst\u00e2ncias de um amor infinito, me asseguram da parte dele uma acolhida alegre.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Isso tudo a servi\u00e7o sempre esteve dos homens inconstantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Homens baixos, que para fins mesquinhos os empregam. Mas estrelas sinceras influ\u00edram no ber\u00e7o de Proteu. Suas palavras s\u00e3o v\u00ednculos sagrados; suas juras, outros tantos or\u00e1culos; sincero seu amor sempre foi, imaculados os pensamentos. Quando chora, as l\u00e1grimas lhe traduzem mensagem comovente do cora\u00e7\u00e3o, que se acha t\u00e3o distante da fraude, quanto a terra do alto c\u00e9u.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCETA \u2014 Rezai para encontr\u00e1-lo desse jeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Se me amas, n\u00e3o lhe fa\u00e7as a injusti\u00e7a de apresentar com cores menos gratas sua fidelidade. Caso queiras minha amizade, \u00e9 for\u00e7a que o aprecies. Vem comigo at\u00e9 o quarto, porque possas tomar nota de tudo o que preciso para essa viagem com que tanto sonho. Contigo fica tudo quanto tenho: reputa\u00e7\u00e3o, bens m\u00f3veis, propriedades. Mas, em compensa\u00e7\u00e3o, tens de tirar-me daqui sem mais delongas. N\u00e3o repliques. Vamos p\u00f4r em a\u00e7\u00e3o nosso projeto; impaciente me deixa essa demora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver31\" name=\"ver31\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Mil\u00e3o. Ante-sala no pal\u00e1cio do duque. Entram o duque, T\u00fario e Proteu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Deixai-nos, senhor T\u00fario, por momentos; temos que conversar alguns segredos muito em particular. (<i>Sai T\u00fario.<\/i>) Ora me fala, Proteu, sobre o que intentas revelar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Meu gracioso senhor, o que pretendo aqui dizer, de revelar a outrem me veda o imperativo da amizade. Mas, quando me recordo dos favores com que me distinguistes o dem\u00e9rito, obriga-me o dever a vos ser franco, contando-vos o que, por outro modo, de mim nem todo o mundo me arrancara. Ficai sabendo, pois, excelso pr\u00edncipe, que esta noite tenciona o meu amigo Valentino roubar a vossa filha. Eu tamb\u00e9m tomei parte na conjura. Sei que \u00e9 vossa inten\u00e7\u00e3o lig\u00e1-la a T\u00fario, que vossa gentil filha n\u00e3o suporta. Mas se ela vier a ser, assim, raptada, muito h\u00e1 de padecer, vossa velhice. Seguindo nisso o meu dever, prefiro burlar as inten\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio amigo, a nada vos dizer e, desse modo, sobre a cabe\u00e7a vos lan\u00e7ar o fardo de tamanha tristeza que, apanhando-vos de improviso, por certo vos levara, antes do tempo, para a sepultura.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Agrade\u00e7o, Proteu, tua franqueza. Em recompensa, pede o que quiseres. J\u00e1 percebera que eles se gostavam, quando ambos me julgavam mergulhado no mais profundo sono, e tencionava, mesmo, afastar da corte a Valentino, proibindo-o de falar com minha filha. Mas, por temer que o ci\u00fame vigilante me fizesse tomar picada falsa, vindo eu, pois, a ser causa, injustamente, da desgra\u00e7a do jovem \u2014 imprud\u00eancia de que at\u00e9 hoje nunca fui pass\u00edvel \u2014 continuei a trat\u00e1-lo com carinho, para ficar em condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias de descobrir o que ora me revelas. Mas porque vejas quanto medo eu tinha de que isso acontecesse que \u00e9 mui f\u00e1cil de ser sugestionada a mocidade \u2014 revelo-te que fa\u00e7o minha filha passar todas as noites na alta torre de cuja chave nunca me separo. Ser-lhe-\u00e1, pois, imposs\u00edvel evadir-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sabei, nobre senhor, que j\u00e1 pensaram num meio que permita a Valentino subir at\u00e9 onde S\u00edlvia ora se encontra \u2014 uma escada de corda \u2014 e, desse modo, retir\u00e1-la da torre. O nosso jovem apaixonado foi buscar a escada, devendo vir com ela agora mesmo. Podereis surpreend\u00ea-lo, se o quiserdes. Mas fazei-o, senhor, de tal maneira, que minha indiscri\u00e7\u00e3o n\u00e3o se descubra, que o amor que eu vos dedico, t\u00e3o-somente, n\u00e3o \u00f3dio ao meu amigo, foi a causa de eu vos contar agora o plano dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Dou-te minha palavra em como nunca vir\u00e1 ele a saber que me falaste acerca disso tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Adeus milorde. N\u00e3o posso demorar-me; eis Valentino.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Valentino.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Valentino, aonde vais com tanta pressa?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Se vossa Gra\u00e7a o permitir, espera-me um mensageiro, a fim de levar cartas de minha parte para alguns amigos. Vou entregar-lhas justamente agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 S\u00e3o cartas de import\u00e2ncia?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Falo nelas apenas de sa\u00fade e do viver contente em vossa corte.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sem import\u00e2ncia, pois. Demora um pouco; quero comunicar-te alguns assuntos que me falam de perto. \u00c9 reservado. Como n\u00e3o deves ignorar, desejo casar S\u00edlvia com meu amigo T\u00fario.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sei disso, sim; a uni\u00e3o \u00e9 rica e honrosa, n\u00e3o se duvida, e, sobretudo, o noivo \u00e9 virtuoso, liberal e ornado de qualidades tais que o tornam digno de uma esposa como ela. Vossa Gra\u00e7a j\u00e1 conseguiu de S\u00edlvia o assentimento?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o, podes crer-me; S\u00edlvia \u00e9 cabe\u00e7uda, orgulhosa, fren\u00e9tica, birrenta, desobediente, caprichosa, f\u00fatil, dos deveres filiais nunca se lembra nem de mim, qual de pai, se teme nunca. O resultado desse orgulho, digo-te aqui em particular, foi despoj\u00e1-la do meu amor de pai. Se noutros tempos eu me iludia, a imaginar que os anos que me restam de vida, eu os passaria sob o amparo da filha carinhosa, ora a tomar estado decidi-me, casando-me de novo e a entregar S\u00edlvia para quem resolver ficar com ela. Levar\u00e1 como dote a formosura, pois me despreza e a quanto me pertence.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 E de mim Vossa Gra\u00e7a que deseja?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 H\u00e1 uma senhora aqui em Mil\u00e3o, meu caro, de quem me apaixonei, mas muito esquiva se mostra e arisca sem prestar ouvidos \u00e0 eloq\u00fc\u00eancia de um velho. Eis o motivo de eu querer que de mestre ora me sirvas \u2014 pois j\u00e1 sei como se faz a corte, sobre ser diferente a moda de hoje \u2014 para ensinar-me o que fazer me cumpre, porque possa atrair seus belos olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Se palavras desdenha, dai-lhe mimos. Por vezes pode mais a j\u00f3ia muda do que a palavra ou outra qualquer ajuda.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Recusou-se a ficar com um meu presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 \u00c9 comum que a mulher se descontente com o que mais aprecia. N\u00e3o conv\u00e9m desanimar, por isso, que o desd\u00e9m de hoje \u00e9 pren\u00fancio de um amor mais forte. Se est\u00e1 zangada, a id\u00e9ia vos conforte de n\u00e3o ser disso o \u00f3cio o causador, mas o anseio, t\u00e3o-s\u00f3, de um grande amor. Se se irrita convosco, n\u00e3o quer isso indicar que vos vades; desservi\u00e7o mui grande lhe far\u00edeis, pois s\u00e3o poucas as que na solid\u00e3o n\u00e3o ficam loucas. Por mais que diga, alegre vos mostrai, porque \u201cIde embora\u201d quer dizer: \u201cFicai!\u201d Adulai-a, endeusai-lhe o imenso encanto; se for fanhosa, elogiai-lhe o canto, pois que ser chamado homem n\u00e3o merece quem em tal conjuntura desfalece.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Mas os pais da pessoa de que falo j\u00e1 a prometeram para um mo\u00e7o digno, e de tal modo segregada a trazem do conv\u00edvio dos homens, que imposs\u00edvel \u00e9 junto dela obter de dia acesso.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Nesse caso, eu de noite a buscaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sim, mas as portas se acham bem trancadas, e as chaves em seguro; ningu\u00e9m pode chegar de noite at\u00e9 seus aposentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 E escalar a janela? Fora f\u00e1cil.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Fica muito alto o quarto, e t\u00e3o a pique toda a muralha, que imposs\u00edvel fora tentar subir sem arriscar a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Uma escada de cordas, com dois ganchos, feita com bem capricho, bastaria para escalar uma outra torre de Hero, desde que houvesse um Leandro para a empresa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ent\u00e3o, na qualidade de leg\u00edtimo gentil-homem te pe\u00e7o me dizeres como \u00e9 poss\u00edvel arranjar a escada.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Para quando, senhor, precisais dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Para esta noite; o amor \u00e9 como crian\u00e7a, que quer logo possuir quanto deseja.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 \u00c0s sete em ponto vos trarei a escada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Mas escuta: terei de ir l\u00e1 sozinho. Como levar a escada?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 \u00c9 muito f\u00e1cil, milorde: em baixo de uma boa capa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Do comprimento dessa?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sim, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ent\u00e3o me mostra a tua, pois pretendo mandar fazer uma de igual tamanho.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Ora, milorde, qualquer capa serve!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 De que maneira achas que devo us\u00e1-la? Deixa-me p\u00f4r a tua, por obs\u00e9quio. (<i>Puxa a capa de Valentino.<\/i>) Que carta \u00e9 esta? Como! \u201cPara S\u00edlvia!\u201d E este instrumento? Vem no instante azado para o que tenho em mente. N\u00e3o repares por ter o ousio de violar o selo. (<i>L\u00ea.<\/i>) Com S\u00edlvia sempre est\u00e3o meus pensamentos, que para ela eles voam noite e dia. Se me levassem para l\u00e1 os ventos, mais do que eles feliz eu estaria. Com ela dormem&#8230; Oh Fortuna crassa! Viver o dono deles, sem ter crime, triste e sozinho, amaldi\u00e7oando a gra\u00e7a que lhes concede gra\u00e7a t\u00e3o sublime. Mas se os mandei, maldito eu sou em parte, por n\u00e3o ter dessa dita a menor parte. E isto aqui? S\u00edlvia, \u00e0 noite virei para livrar-te. \u00c9 isso mesmo: eis a escada para o feito. Como, Faetonte \u2014 sim, n\u00e3o tenho d\u00favida, \u00e9s o filho de M\u00e9rope \u2014 tencionas dirigir o alto carro para, em chamas, com tua insensatez, deixar o mundo? Queres pegar estrelas cintilantes porque no alto as enxergas? Presun\u00e7oso labrego, vil intruso, mostra os dentes a teus iguais e, se com vida agora sais daqui, fica certo que isto deves mais \u00e0 minha paci\u00eancia que a teu m\u00e9rito. Ter\u00e1s de agradecer-me essa leal prova mais do que quantas esbanjei contigo. Mas, se ficares em meu territ\u00f3rio mais do que o estritamente necess\u00e1rio para te pores fora desta corte, pelo c\u00e9u! H\u00e1 de em muito minha c\u00f3lera exceder a afei\u00e7\u00e3o que a minha filha ou a ti sempre votei. N\u00e3o percas tempo. N\u00e3o quero ouvir tuas escusas f\u00fateis. Se tens amor \u00e0 vida parte logo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Antes a morte do que semelhante sofrimento. Morrer \u00e9 ser banido de mim pr\u00f3prio; e eu sou S\u00edlvia. Estar de S\u00edlvia banido \u00e9 estar banido de mim mesmo. Banimento mortal! Que luz \u00e9 luz, se S\u00edlvia n\u00e3o for vista? Que alegria \u00e9 alegria, se S\u00edlvia estiver longe? Salvo se for para pensar, apenas, que ela se acha ao meu lado e alimentar-me t\u00e3o-somente da sombra do que \u00e9 belo. S\u00f3 quando passo a noite junto dela no rouxinol encontro algum deleite. Se de dia n\u00e3o vejo a minha S\u00edlvia, para mim deixa o dia de ser claro. \u00c9 a minha ess\u00eancia; deixo de ter vida se n\u00e3o ficar, por sua bela influ\u00eancia, vivificado, iluminado e l\u00e9pido. Se eu me esquivar dessa mortal senten\u00e7a, n\u00e3o fugirei da morte; aqui ficando, pela morte serei, logo, alcan\u00e7ado; mas partir \u00e9 fugir da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Proteu e Launce.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Corre, pajem! Vai \u00e0 procura dele!<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Ol\u00e1! Ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Que est\u00e1s a ver?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Quem \u00edamos procurar. N\u00e3o h\u00e1 um cabelo na cabe\u00e7a dele que n\u00e3o seja um Valentino.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 \u00c9s Valentino?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Quem, ent\u00e3o? Seu esp\u00edrito?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Ent\u00e3o, que \u00e9s?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Nada pode falar? Posso bater-lhe, meu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Bater em qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Em nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Det\u00e9m-te, maroto!<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Ora senhor, eu iria bater em nada. Por obs\u00e9quio&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Basta, j\u00e1 disse! Uma palavra, apenas, amigo Valentino.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Tenho as ou\u00e7as entupidas; ouvir n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel not\u00edcia alguma boa, t\u00e3o repletas de not\u00edcias ruins elas se encontram.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Ent\u00e3o as minhas num sil\u00eancio mudo resolvo sepultar, que s\u00e3o bem tristes, duras e abomin\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Morreu S\u00edlvia?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o, Valentino.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 \u00c9 assim: \u201cN\u00e3o Valentino\u201d para a celeste S\u00edlvia. Desprezou-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o, Valentino.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Se o tivesse feito, como \u201cN\u00e3o Valentino\u201d ora me achara. Que novidades h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Senhor, proclamam que j\u00e1 fostes varrido.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sim, banido de tua S\u00edlvia, de Mil\u00e3o, do amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 J\u00e1 me fartei com esse sofrimento, cujo excesso me deixa ora afrontado. S\u00edlvia j\u00e1 soube que banido me acho?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sim; e, ao ouvir o edito irrevog\u00e1vel \u2014 que em todo o seu rigor ainda se encontra \u2014 soltou um mar de p\u00e9rolas desfeitas, a que alguns chamam l\u00e1grimas, levando-as aos rudes p\u00e9s do pai. Nos joelhos dele ela, humilde, se atira, as m\u00e3os t\u00e3o brancas a contorcer, como se a dor ingente mais brancas as deixasse. Mas de nada valeram joelhos prosternados, s\u00faplices m\u00e3os, profundos suspiros, argentinas l\u00e1grimas para o pai inexor\u00e1vel abalar do prop\u00f3sito: se acaso Valentino ficar, \u00e0 morte o voto. Suas s\u00faplicas tanto o aborreceram, quando, humildosa, a teu favor falava, que mandou para um c\u00e1rcere lev\u00e1-la, amea\u00e7ando-a de ali sempre deix\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Nem mais uma palavra, se as que faltam carecerem da for\u00e7a de matar-me. Se for o caso, pe\u00e7o-te, murmura-mas aos ouvidos e acaba logo a ant\u00edfona desse meu sofrimento prolongado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o te queixes de um mal irremedi\u00e1vel; rem\u00e9dio busca para o que lamentas. De todo bem \u00e9 gerador o tempo. Ficando, n\u00e3o ver\u00e1s a tua amada, sobre arriscares-te a encurtar a vida. A esperan\u00e7a \u00e9 o bast\u00e3o dos namorados; com ele parte, e busca manej\u00e1-lo contra os maus pensamentos. Tuas cartas podem vir at\u00e9 aqui, embora estejas por lugares long\u00ednquos. Se me vierem endere\u00e7adas, ir\u00e3o dar ao colo branco de leite da mulher que adoras. O momento n\u00e3o \u00e9 para lam\u00farias. Vamos logo; desejo ir at\u00e9 \u00e0 porta da cidade contigo. De caminho, conversaremos com maior largueza sobre o que diz respeito a teus amores. Se n\u00e3o por ti, por S\u00edlvia, do perigo em que est\u00e1s n\u00e3o te esque\u00e7as; vem comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Se encontrares meu pajem Speed, dize-lhe que na porta do norte me procure.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Corre, maroto! Vamos, Valentino.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Querida S\u00edlvia! Pobre Valentino!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Valentino e Proteu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o passo de um bobo, ora vede, mas sou dotado de esp\u00edrito suficiente para ver que meu amo \u00e9 uma esp\u00e9cie de velhaco. A esp\u00e9cie importa pouco, uma vez que velhaco ele seja. Ainda est\u00e1 por nascer quem saiba que me encontro apaixonado. Mas nem uma parelha de cavalos poder\u00e1 arrancar de dentro de mim semelhante segredo e o nome da pessoa a que amo. No entanto, \u00e9 uma mulher; mas que mulher seja, nem a mim mesmo hei de contar. Contudo, \u00e9 a rapariga do leite. N\u00e3o, rapariga n\u00e3o, que ela j\u00e1 arranjou uma comadre. Sim, rapariga, uma vez que \u00e9 empregada do patr\u00e3o que lhe paga ordenado. Possui mais qualidades do que um c\u00e3o de \u00e1gua, o que j\u00e1 \u00e9 muito para um simples crist\u00e3o. (<i>Sacando de um papel.<\/i>) Eis o cat\u00e1logo de suas qualidades. \u201cImprimis, pode buscar e carregar.\u201d Ora, um cavalo n\u00e3o poder\u00e1 fazer mais do que isso. N\u00e3o, um cavalo n\u00e3o poder\u00e1 ir buscar; s\u00f3 pode carregar; logo, ela vale mais do que uma \u00e9gua. \u201cItem, sabe mungir.\u201d Ora vede, eis uma virtude doce numa rapariga de m\u00e3os limpas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Speed.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Ent\u00e3o, senhor Launce, como vai o vosso capit\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 A capit\u00e2nia? No mar, naturalmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Sempre o velho v\u00edcio de brincar com as palavras. Que novidades h\u00e1 em vosso papel?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 As mais pretas novidades de que pudesses ter ouvido falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Pretas como, homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Ora, pretas como tinta.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Deixa-me l\u00ea-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Sai da\u00ed, pasc\u00e1cio! N\u00e3o sabes ler coisa alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Mentes; sei ler, sim senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Ent\u00e3o vou p\u00f4r-te \u00e0 prova. Dize-me uma coisa: quem foi que te gerou?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Ora essa, o filho de meu av\u00f4.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Oh madra\u00e7o iletrado! Foi o filho de tua av\u00f3. Isso prova que n\u00e3o sabes ler.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Vamos, tonto; vamos. P\u00f5e-me \u00e0 prova com esse papel.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Bem, que seja; e que S\u00e3o Nicolau te proteja.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cImprimis, sabe mungir.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Isso ela sabe.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, sabe fazer boa cerveja.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 \u00c9 da\u00ed que vem o prov\u00e9rbio: J\u00e1 \u00e9 ter boa sorte saber fazer cerveja.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, sabe cozer.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Antes cozer do que queimar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, sabe fazer meias.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Tanto melhor, se souber fazer tudo \u00e0 meia.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, sabe lavar e esfregar.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Uma virtude especial, porque, sendo assim, n\u00e3o haver\u00e1 necessidade nem de lav\u00e1-la nem de esfreg\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, sabe fiar.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Se ela vive de fiar, eu \u00e9 que n\u00e3o me fio dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, possui in\u00fameras virtudes an\u00f4nimas.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 O que vale a dizer: virtudes bastardas; carecem de nome por n\u00e3o conhecerem o pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cAgora seguem-se os v\u00edcios.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 No rasto das virtudes.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, n\u00e3o deve ser beijada em jejum, por causa do h\u00e1lito.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Esse defeito pode ser corrigido com um almo\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, tem a boca doce.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Isso compensa o azedo do h\u00e1lito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, fala durante o sono.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia, uma vez que n\u00e3o durma quando estiver falando.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, \u00e9 pouco amiga de falar.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 \u00d3 est\u00fapido! P\u00f4r isso na lista dos defeitos! A \u00fanica virtude da mulher \u00e9 ser pouco amiga de falar. Por favor, risca da\u00ed esse item e o coloca \u00e0 frente das virtudes.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, \u00e9 vaidosa.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Tira isso, tamb\u00e9m; \u00e9 heran\u00e7a de Eva, de que n\u00e3o podemos despoj\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, \u00e9 desprovida de dentes.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Isso, tamb\u00e9m, para mim carece de import\u00e2ncia, porque gosto muito de casca de p\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, \u00e9 briguenta.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o h\u00e1 mal nisso, uma vez que n\u00e3o tenha dentes para morder.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, gosta de provar o seu licorzinho de vez em quando.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Se o licor for bom, poder\u00e1 prov\u00e1-lo; se n\u00e3o quiser, prov\u00e1-lo-ei eu, que as coisas boas devem ser apreciadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, \u00e9 muito liberal.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua n\u00e3o poder\u00e1 s\u00ea-lo, pois j\u00e1 ficou dito que \u00e9 pouco amiga de falar; no que respeita \u00e0 bolsa, n\u00e3o lhe ser\u00e1 poss\u00edvel ser liberal, porque hei de traz\u00ea-la sempre bem fechada. Quanto ao resto, n\u00e3o est\u00e1 em mim remediar. Adiante.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Item, tem mais cabelos do que esp\u00edrito, mais defeitos do que cabelos e mais dinheiro do que defeitos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 P\u00e1ra a\u00ed! Ser\u00e1 minha; s\u00f3 nesse \u00faltimo artigo ela foi minha e deixou de s\u00ea-lo por duas ou tr\u00eas vezes. L\u00ea outra vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cItem, tem mais cabelos do que esp\u00edrito&#8230;\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Mais cabelo do que esp\u00edrito, pode ser. Vou prov\u00e1-lo: a tampa do boi\u00e3o de sal cobre o sal; logo, \u00e9 mais do que o sal. O cabelo que cobre o esp\u00edrito \u00e9 maior do que o esp\u00edrito, porque o que \u00e9 maior cobre o menor. Que se segue?<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cMais defeitos do que cabelos&#8230;\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Monstruoso! Se se pudesse tirar isso!<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u201cE mais dinheiro do que defeitos.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Bem, essas palavras transformam os defeitos em virtudes. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: ser\u00e1 minha. E se houver casamento, visto nada ser imposs\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Que acontecer\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Ent\u00e3o eu te direi que o teu amo est\u00e1 \u00e0 tua espera na porta do norte.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 \u00c0 minha espera?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Sim, \u00e0 tua espera. Quem \u00e9s tu? Ele j\u00e1 esperou por gente muito melhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Quer dizer que eu preciso ir para l\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o \u00e9 suficiente ires; ter\u00e1s de correr at\u00e9 l\u00e1, porque j\u00e1 perdeste muito tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Por que n\u00e3o me falaste nisso mais cedo? O diabo leve a tua carta de amor! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Agora ele vai apanhar por ter lido minha carta. Sujeito mal educado, para se meter no segredo dos outros. Vou atr\u00e1s dele, para assistir \u00e0 corre\u00e7\u00e3o. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto no pal\u00e1cio do duque. Entra o duque e T\u00fario.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 T\u00fario, nada temais, que ela h\u00e1 de amar-vos, j\u00e1 que de sua vista Valentino banido ora se encontra.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Desde que ele foi exilado, mais tem\u00edvel \u00f3dio por mim ela demonstra; a companhia me despreza, me cobre de sarcasmos. J\u00e1 n\u00e3o tenho esperan\u00e7as de alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Essa impress\u00e3o de amor \u00e9 qual figura insculpida no gelo: uma hora, apenas, de calor \u00e9 bastante para a forma lhe roubar, transformando-a em \u00e1gua pura. Seus pensamentos congelados breve desfeitos h\u00e3o de ser, ficando o indigno Valentino esquecido por completo. (<i>Entra Proteu.<\/i>) Ent\u00e3o, senhor Proteu, vosso patr\u00edcio j\u00e1 se foi, acatando nossas ordens?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sim, meu bom lorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Minha filha ficou muito abatida.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 O tempo h\u00e1 de curar essa tristeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Penso que sim, mas T\u00fario est\u00e1 descrente. A confian\u00e7a, Proteu, que me inspiraste, pois deste provas de teu grande m\u00e9rito, me leva a te iniciar nestes assuntos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Se eu deixar de ser leal a Vossa Gra\u00e7a, quero sumir do olhar de Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sabes quanto desejo o casamento entre Sir T\u00fario e minha filha S\u00edlvia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sei, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o ignoras, tamb\u00e9m, creio, quanto ela se op\u00f5e a meu desejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Isso fazia, senhor, quando aqui estava Valentino.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sim, mas persiste nisso com maldade. Que seria preciso p\u00f4r em pr\u00e1tica, para que a rapariga a esquecer viesse Valentino e de T\u00fario se agradasse?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Penso que o melhor meio fora contra Valentino assacar origem baixa, covardia e dobrez, coisas que a todas as mulheres s\u00e3o sempre intoler\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Mas ela h\u00e1 de pensar que o \u00f3dio \u00e9 que fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 No caso de falar um desafeto. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio que lhe fale quem ela considere amigo dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ent\u00e3o podias incumbir-te disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Contrafeito, milorde, aceito o encargo, pouco louv\u00e1vel para um gentil-homem, mormente em se tratando de um amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Onde vossa palavra nada pode fazer a favor dele, nenhum dano causar\u00e3o as cal\u00fanias. N\u00e3o seja isso motivo, pois, de escr\u00fapulo, mormente por cederes a inst\u00e2ncias de um amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Dou-me por convencido, meu bom lorde. Se depender, t\u00e3o-s\u00f3, dos meus ataques, deixar\u00e1 vossa filha de estim\u00e1-lo. Mas se do cora\u00e7\u00e3o dela tirardes o amor de Valentino, n\u00e3o se segue que, s\u00f3 por isso, a T\u00fario ela a amar venha.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Quando desenrolardes, pois, de S\u00edlvia, o amor de Valentino, porque in\u00fatil n\u00e3o fique e embara\u00e7ado, \u00e9 conveniente que o passeis para mim, sendo bastante dispensardes-me tantos elogios quantos sen\u00f5es a meu rival lan\u00e7ardes.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Proteu, n\u00f3s vos confiamos tal assunto s\u00f3 por sabermos, pelas refer\u00eancias de Valentino, que sois fervoroso devoto de Cupido, e que imposs\u00edvel vos ser\u00e1 ser mud\u00e1vel ou perjuro. Essa confian\u00e7a vos confere acesso at\u00e9 ao quarto de S\u00edlvia, para \u00e0 larga conversardes com ela, pois que se acha sombria, aborrecida, melanc\u00f3lica. Mas por causa do amigo h\u00e1 de acolher-vos. Assim, vos ser\u00e1 f\u00e1cil convenc\u00ea-la de odiar a Valentino e amar a T\u00fario.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Quanto puder, hei de levar a cabo. No entanto, senhor T\u00fario, pouco zelo tendes mostrado. \u00c9 necess\u00e1rio visgo, porque possais pegar o anseio dela com sonetos chorosos, cujas rimas de vosso ardente amor, t\u00e3o-s\u00f3, lhe falem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sim, muito pode a poesia sublimada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Dizei-lhe que ao altar de seus encantos levais o cora\u00e7\u00e3o, gemidos, l\u00e1grimas. Escrevei-lhe, escrevei-lhe, at\u00e9 que a tinta a lia se reduza; ap\u00f3s, \u00e0 lia juntai o vosso pranto, e, com a mistura, tra\u00e7ai sentida linha em que lhe mostre toda vossa paix\u00e3o. Sabeis que a lira de Orfeu era encordoada com tend\u00f5es arrancados aos poetas. Com seu toque de ouro ela amolecia as pedras e o a\u00e7o, mansos deixava os tigres, obrigando os leviat\u00e3s a abandonar as ondas para virem dan\u00e7ar na fina areia. Depois das elegias lamentosas, sob a janela, \u00e0 noite, ide postar-vos de vossa apaixonada, em companhia de amena serenata a cuja m\u00fasica cantareis uma triste melodia. O sepulcral sil\u00eancio da alta noite vai bem com tais queixumes harmoniosos. Isso \u2014 mais nada \u2014 h\u00e1 de faz\u00ea-la vossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Esses conselhos mostram quanto amaste.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Vou p\u00f4-los logo em pr\u00e1tica esta noite. Por isso, bom Proteu, meu conselheiro, vamos para a cidade, sem demora, procurar algum m\u00fasico excelente. Tenho um soneto que vem mesmo a ponto para darmos in\u00edcio ao vosso alvitre.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 M\u00e3os \u00e0 obra, meus senhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 At\u00e9 o jantar convosco ficaremos; depois poremos o projeto em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o percais tempo; dou-vos liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver41\" name=\"ver41\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma floresta entre Mil\u00e3o e Verona. Entram alguns proscritos.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 Aten\u00e7\u00e3o, com\u00adpa\u00adnhei\u00adros: um viajante!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 Ainda que fossem dez, nada de medo. Des\u00e7amos-lhes a marreta.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Valentino e Speed.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO PROSCRITO \u2014 Alto, senhor! Tudo quanto tiverdes, atirai-nos; ali\u00e1s, haveis de ser, com mais viol\u00eancia, por n\u00f3s desvalijado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Mestre, estamos perdidos. En\u00adcon\u00adtra\u00admos os velhacos de que tanto se temem os viajantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Amigos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 N\u00e3o \u00e9 assim, senhor; somos vossos inimigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 Quieto! Vamos ouvi-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO PROSCRITO \u2014 Por minha barba, ou\u00e7amo-lo; parece gente de trato.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sabeis, pois, que pouco tenho a perder. O fado me persegue. Esta roupa modesta \u00e9 quanto tenho; se me privardes dela, ao mesmo tempo me privareis de todos os haveres.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 Para onde ides?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Para Verona.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 De onde vindes?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 De Mil\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO PROSCRITO \u2014 Em Mil\u00e3o demorastes muito tempo?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Quase dezesseis meses; poderia ter ficado mais tempo, se a tortuosa Fortuna n\u00e3o me houvesse sido adversa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 Como? Fostes banido?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 E o crime?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Falta cuja lembran\u00e7a me acabrunha: matei um homem, crime de que muito me arrependo. Contudo, foi em luta varonil, sem trai\u00e7\u00e3o nem deslealdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 Se foi assim, por que mostrar remorsos? Mas por t\u00e3o pouca coisa vos baniram?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 E por feliz me dou com tal senten\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 Falais diversas l\u00ednguas?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Falo, porque viajei bastante em mo\u00e7o; se n\u00e3o, teria padecido muito.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO PROSCRITO \u2014 Pela calva brilhante do pan\u00e7udo frade de Robin Hood, este sujeito daria um belo rei de nosso bando.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 H\u00e1 de ser nosso. Uma palavra, amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SPEED \u2014 Aderi, mestre, ao bando, pois se trata de uma esp\u00e9cie de honrada ladro\u00edce.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Quieto, vil\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 Dizei-nos: tendes algo que vos prenda?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Coisa alguma, a n\u00e3o ser minha fortuna.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO PROSCRITO \u2014 Ent\u00e3o sabeis que somos gentis-homens que o ardor da mocidade n\u00e3o domada tirou da sociedade dos ordeiros. Eu pr\u00f3prio de Verona fui banido, simplesmente por ter tentado o rapto de uma parenta pr\u00f3xima do duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 E eu de M\u00e2ntua: num gesto irrefletido atravessei o cora\u00e7\u00e3o a um nobre.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 E eu tamb\u00e9m, por deslizes desse g\u00eanero. Mas voltemos ao ponto; s\u00f3 contamos nossas faltas a fim de desculpardes a vida irregular que ora levamos. Possu\u00eds bela apar\u00eancia, sobre serdes um ling\u00fcista, conforme o declarastes. Em nossa situa\u00e7\u00e3o necessitamos justamente de um mo\u00e7o assim prendado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 Sim, mas principalmente pelo fato de ora estardes banido, perguntamo-vos: N\u00e3o vos desagradais de ser o nosso general e viver a nossa vida neste estado selvagem?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO PROSCRITO \u2014 Que nos dizes? Queres ser um dos nossos? Vamos, fala; dize que sim e s\u00ea nosso cabe\u00e7a. Ter\u00e1s nossa homenagem de vassalos; ser\u00e1 lei para n\u00f3s tua palavra; vamos amar-te como a rei e chefe.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 Mas morrer\u00e1s, no caso de renu\u00edres.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 Vida n\u00e3o h\u00e1s de ter para gabar-te de quanto te contamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Sim, aceito vosso oferecimento e me resolvo a convosco viver, dado que nunca fa\u00e7ais mal a mulheres e a viajantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO PROSCRITO \u2014 Odiamos essas pr\u00e1ticas covardes. E ora ser\u00e1s levado ao nosso bando; mostrado te ser\u00e1 nosso tesouro. Dele e de n\u00f3s a teu prazer disp\u00f5e.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver42\" name=\"ver42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Mil\u00e3o. A corte do pal\u00e1cio do duque. Entra Proteu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 J\u00e1 tra\u00ed Valentino; ora \u00e9 preciso se injusto com T\u00fario. Sob a capa de fazer-lhe o elogio, acesso obtive junto de minha amada. \u00c9, por\u00e9m, S\u00edlvia por demais bela, verdadeira e santa para ceder a desvaliosas d\u00e1divas, ela me faz lembrar o meu perjuro, por ter deixado a minha amada J\u00falia. Mas apesar de todos os sarcasmos com que ela me atormenta, suficientes para desesperar qualquer amante, meu amor, semelhante a um c\u00e3o rasteiro, mais forte fica e mais a acaricia. T\u00fario vem vindo. \u00c9 necess\u00e1rio, agora, postarmo-nos em baixo da janela de S\u00edlvia, e deliciarmos-lhe os ouvidos com a distra\u00e7\u00e3o de alguma serenata.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra T\u00fario com m\u00fasicos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Ent\u00e3o, senhor Proteu, escorregastes na nossa frente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sim, meu caro T\u00fario; pois bem sabeis que o amor sempre escorrega por onde andar n\u00e3o pode.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Sei: contudo, penso que n\u00e3o amais neste lugar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Se tal n\u00e3o fosse, longe me encontrara.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 A quem? A S\u00edlvia?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sim, por vossa conta.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Muito obrigado. E agora, meus senhores, com alegria come\u00e7ai a m\u00fasica.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>O hoteleiro e J\u00falia aparecem nos fundos; J\u00falia em trajes masculinos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Que tendes, meu jovem h\u00f3spede? Pareceis-me melanc\u00f3lico. De que se trata?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o \u00e9 nada, hoteleiro; \u00e9 que n\u00e3o posso ficar alegre.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Vinde comigo; vou deixar-vos alegre, levando-vos para um lugar onde podereis ver o cavalheiro de que me pedistes not\u00edcias.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 E poderei ouvir-lhe a voz?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Sem d\u00favida.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ser\u00e1 m\u00fasica para mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se m\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Ouvi! Ouvi!<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ele se encontra entre os m\u00fasicos?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Encontra-se. Mas, sil\u00eancio. Ou\u00e7amo-los. (<i>Can\u00e7\u00e3o<\/i>)<\/p>\n<p class=\"verso\" align=\"justify\">Quem \u00e9 S\u00edlvia? Quem \u00e9 ela,<br \/>\nque os jovens todos cativa?<br \/>\n\u00c9 s\u00e1bia, divina e bela;<br \/>\nentre as deusas, vera diva<br \/>\nde compostura singela.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o boa quanto \u00e9 linda?<br \/>\nSim, que a beleza \u00e9 bondade<br \/>\nCupido nela acha infinda,<br \/>\ndeslumbrante claridade<br \/>\nque suas trevas deslinda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a S\u00edlvia cantemos,<br \/>\npor ser ela primorosa;<br \/>\nsobre os mortais a exalcemos;<br \/>\nnesta homenagem donosa<br \/>\nse exaltem seus dons supremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Que acontece? Ficastes mais triste agora? Que \u00e9 isso, homem? N\u00e3o vos agradou a m\u00fasica?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Estais enganado; n\u00e3o me agradei do m\u00fasico.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Por qu\u00ea, gentil menino?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Por ser falso no canto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Como assim? Estar\u00e3o desafinadas as cordas do instrumento?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o; mas com tanta falsidade puxa ele as cordas, que me abala at\u00e9 \u00e0s cordas do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Sois dotado de ouvido muito delicado.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 \u00c9 certo. Desejara ser surdo; isso me oprime o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Pelo que vejo, n\u00e3o apreciais m\u00fasica.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Quando \u00e9 desafinada, acho insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Prestai aten\u00e7\u00e3o, que o tema, agora, \u00e9 outro.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Esse novo tema \u00e9 que acaba comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Quer\u00edeis, ent\u00e3o, que tocassem sempre a mesma coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Desejara que uma pessoa tocasse sempre a mesma coisa. Mas, dizei-me, hoteleiro: o senhor Proteu de que falamos vem muitas vezes casa desta senhorita?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Vou repetir-vos o que me disse o seu criado Launce: ele a adora acima de tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 E onde est\u00e1 Launce?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Foi procurar o seu cachorro, que por determina\u00e7\u00e3o do patr\u00e3o ele deve levar de presente a essa senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Sil\u00eancio! Ficai de lado; a companhia se dispersa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 \u00c2nimo, senhor T\u00fario! De tal modo vou pleitear vossa causa, que obrigado vos vereis a elogiar os resultados.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Onde nos encontramos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Junto ao po\u00e7o de S\u00e3o Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Adeus. (<i>Sai T\u00fario com os m\u00fasicos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>S\u00edlvia aparece na janela de seu quarto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Senhorita, boa-noite a Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Muito obrigada a todos pela m\u00fasica. Quem falou neste instante?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Uma pessoa, senhorita, que pronto conhecereis pelo timbre da voz, se a imaculada verdade de seu peito conhec\u00easseis.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Senhor Proteu, parece-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Proteu, gentil senhora, e vosso servo.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Que desejais?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Fazer-vos a vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Ireis faz\u00ea-la, pois desejo apenas que vos vades deitar em vossa cama. Homem sutil, perjuro, falso, hip\u00f3crita! Sup\u00f5es-me t\u00e3o est\u00fapida e inconsciente que possa acreditar nessas lisonjas que j\u00e1 emba\u00edram tantas outras jovens? Vai procurar a tua amada e pede-lhe que te perdoe, que eu \u2014 ouve-me a p\u00e1lida soberana da noite \u2014 t\u00e3o distante me acho de dar ouvidos a teus votos, que por tua insist\u00eancia vergonhosa sinto desprezo e nojo e me censuro por perder tempo a conversar contigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Juro-te, cora\u00e7\u00e3o, que amor eu tive por uma jovem que j\u00e1 n\u00e3o existe.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Que \u00e9 falso, se eu falasse, afirmaria, pois sei que ela inumada n\u00e3o se encontra.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 \u00c9 poss\u00edvel. Contudo, Valentino, teu amigo, ainda vive, e tu bem sabes que noiva dele eu sou. N\u00e3o te envergonhas de ofend\u00ea-lo com tuas insist\u00eancias?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Tamb\u00e9m se diz que Valentino \u00e9 morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Ent\u00e3o me considera tamb\u00e9m morta, pois posso asseverar-te que em seu t\u00famulo se encontra o meu amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Meiga senhora, permiti que da terra ora o retire.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Procura a sepultura da que amaste e seu amor exuma, ou, pelo menos, enterra o teu na mesma sepultura.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Semelhante conselho ele n\u00e3o ouve.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Se o cora\u00e7\u00e3o, senhora, tendes duro, recompensai ao menos meus anelos com o retrato que o quarto vos enfeita. Com ele falarei; ardentes l\u00e1grimas hei de lhe oferecer, fundos suspiros. J\u00e1 que a ess\u00eancia de vossa perfei\u00e7\u00e3o a outrem se acha votada, sou apenas uma sombra fugaz que sombra vossa vai revelar amor sincero e puro.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se fosse a pr\u00f3pria ess\u00eancia, estou bem certa, por fim a enganarias, reduzindo-a \u00e0 minha condi\u00e7\u00e3o de simples sombra.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 N\u00e3o me alegra saber que sou vosso \u00eddolo. Mas j\u00e1 que apraz \u00e0 vossa falsidade adorar sombras e apar\u00eancias falsas, mandai um portador amanh\u00e3 cedo buscar o meu retrato. Bom repouso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Repousarei tal como o condenado que s\u00f3 espera a manh\u00e3 para ser morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Proteu; S\u00edlvia se recolhe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Vamos, hoteleiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Por minha salva\u00e7\u00e3o, estava quase a dormir.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Por obs\u00e9quio, onde mora o senhor Proteu?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOTELEIRO \u2014 Ora, em minha casa. Por minha f\u00e9, penso que j\u00e1 \u00e9 quase dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ainda n\u00e3o; nunca estive de vig\u00edlia em noite assim, t\u00e3o longa e t\u00e3o pesada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver43\" name=\"ver43\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Entra Eglamor.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EGLAMOR \u2014 Madame S\u00edlvia me aprazou esta hora para me revelar sua vontade. Vai me confiar, decerto, algo importante. Madame!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>S\u00edlvia aparece \u00e0 janela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Quem me chama?<\/p>\n<p align=\"justify\">EGLAMOR \u2014 Vosso criado e amigo verdadeiro, que se encontra sempre \u00e0s ordens de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Mil bons-dias, meu bom Sir Eglamor.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGLAMOR \u2014 Como a v\u00f3s, muito digna senhorita. Obedecendo nisto a vossas ordens, vim cedinho saber qual o servi\u00e7o que confiar-me apraz a Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 \u00d3 senhor Eglamor, sois um fidalgo \u2014 n\u00e3o \u00e9 lisonja, n\u00e3o; posso jurar-vos \u2014 valente, s\u00e1bio, consciencioso, puro. N\u00e3o podes ignorar quanta afei\u00e7\u00e3o eu dedico ao banido Valentino, nem que meu pai \u00e0 for\u00e7a quer que eu case com o f\u00fatil T\u00fario que minha alma odeia. Tamb\u00e9m amaste; ocorre-me a lembran\u00e7a de ter-te ouvido que jamais sofreras m\u00e1goa t\u00e3o grande como a do trespasse do teu sincero amor, de tua esposa, sobre cujo sepulcro lhe juraste perene e imaculada castidade. Eglamor, resolvi ir para M\u00e2ntua, onde penso que se acha Valentino; mas como a estrada \u00e9 cheia de perigos, desejo tua digna companhia por confiar em tua honra e probidade. N\u00e3o me repliques, Eglamor, com a c\u00f3lera de meu pai; pensa apenas na tristeza que me acabrunha, a dor de uma senhora; reflete no direito que me assiste de evitar esse enlace t\u00e3o sacr\u00edlego, que ser\u00e1 pelo c\u00e9u e pela sorte cumulado de males indiz\u00edveis. \u00c9 com o peito t\u00e3o cheio de tristezas como de areia o mar que te suplico ires junto comigo, ou, pelo menos, a ningu\u00e9m revelar nossa conversa, para que eu, s\u00f3, possa correr perigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGLAMOR \u2014 Senhora, vossa dor me deixa triste. Sabendo qu\u00e3o direita sois em tudo, resolvo-me a fazer-vos a vontade, sem pensar no que possa acontecer-me, contanto que a Fortuna vos sorria. Quando quereis partir?<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Amanh\u00e3 cedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGLAMOR \u2014 Qual o lugar de nosso encontro?<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 A cela de Frei Patrick, ap\u00f3s me confessar.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGLAMOR \u2014 N\u00e3o deixarei Vossa Grandeza em falta. At\u00e9 amanh\u00e3, princesa.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Muito boa manh\u00e3, caro Eglamor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver44\" name=\"ver44\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Entra Launce com seu c\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o fique furioso, ora vede, quando o seu criado procede como cachorro. Um animal que eu criei desde pequeno, que salvei de se afogar, quando tr\u00eas ou quatro de seus irm\u00e3os e irm\u00e3s iam ser jogados na \u00e1gua. Ensinei-lhe as coisas de tal modo, que se poderia dizer: desse jeito at\u00e9 eu ensinaria um c\u00e3o. Meu amo mandou que eu o desse de presente senhorita S\u00edlvia; por\u00e9m, mal entrei na sala, ele saltou \u00e0 mesa e roubou uma perna de cap\u00e3o. Oh! Que coisa horr\u00edvel n\u00e3o saber um cachorro comportar-se em boa companhia! Eu desejara possuir um cachorro, como se diz, que se decidisse a ser cachorro de verdade, para que ele, por assim dizer, fosse realmente cachorro em todas as coisas. Se eu n\u00e3o houvesse revelado mais esp\u00edrito do que ele, para assumir a responsabilidade de uma falta cometida por ele pr\u00f3prio, estou certo de que o teriam enforcado. Sim, por minha vida: teria sido castigado. V\u00f3s mesmos ireis julgar: ele me atira a si mesmo por baixo da mesa do duque, em companhia de tr\u00eas ou quatro cachorros afidalgados. Pois n\u00e3o havia tido ainda \u2014 desculpai-me a express\u00e3o \u2014 nem tempo de urinar, e j\u00e1 todo o compartimento recendia. \u201cPonham fora daqui a esse cachorro!\u201d exclamava um dos presentes. Que cachorro \u00e9 esse?\u201d perguntava outra pessoa. \u201cD\u00eaem-lhe umas relhadas!\u201d dizia um terceiro. \u201cEmbarcai-o!\u201d gritou o duque. Por j\u00e1 estar habituado com aquele cheiro, vi logo que se tratava de Crab e me dirigi para o criado incumbido de ministrar castigo aos c\u00e3es. \u201cAmigo\u201d, lhe disse, \u201ctencionais chibatear esse cachorro?\u201d \u201cSem d\u00favida\u201d, respondeu-me. \u201cPois ides praticar uma injusti\u00e7a&#8217;\u201d acrescentei, \u201cpor ter sido eu que fiz a coisa que bem sabeis\u201d, depois do que, sem usar de cerim\u00f4nias, ele me expulsou do quarto a chibatadas. Quantos patr\u00f5es teriam feito o mesmo com rela\u00e7\u00e3o a seus criados? Sim, posso jurar que j\u00e1 fui posto no tronco por causa de pudins roubados por ele, s\u00f3 para que ele n\u00e3o fosse executado; j\u00e1 fiquei no pelourinho por causa de gansos mortos por ele, s\u00f3 para que ele n\u00e3o viesse a sofrer nada. J\u00e1 te esqueceste de tudo isso, n\u00e3o \u00e9 assim? Ainda me recordo da partida que me pregaste, quando me despedi de madame S\u00edlvia. N\u00e3o te recomendara que n\u00e3o me perdesses de vista, para s\u00f3 fazeres o que eu fizesse? Quando j\u00e1 me viste levantar a perna e molhar a saia de alguma senhora? Alguma vez j\u00e1 me viste fazer semelhante brincadeira?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Proteu e J\u00falia em trajes masculinos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Chamas-te Sebasti\u00e3o? Muito me agradas; vou arranjar-te logo algum servi\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Farei tudo de muito boamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Assim o creio. (<i>A Launce.<\/i>) Ent\u00e3o, vil\u00e3o \u00e0-toa, por onde vos metestes, h\u00e1 dois dias?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Ora, senhor, levei \u00e0 senhorita S\u00edlvia o cachorro que lhe mandastes de presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 E que disse ela da minha pequena j\u00f3ia?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Disse que vosso cachorro era muito reles, e me incumbiu de vos transmitir agradecimentos de c\u00e3o por semelhante presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Mas ela ficou com o cachorro?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 N\u00e3o, senhor; isso ela n\u00e3o fez; aqui vo-lo trago de volta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Como! \u00c9 esse o cachorro que lhe ofereceste de minha parte?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAUNCE \u2014 Perfeitamente, senhor; o outro, o esquilo, me foi roubado no mercado pelos filhos do carrasco; por essa raz\u00e3o eu levei \u00e0 senhorita S\u00edlvia o meu pr\u00f3prio c\u00e3o, que \u00e9 dez vezes maior do que o vosso e, por isso mesmo, constitui presente muito maior.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Some da minha vista! Vai em busca de meu cachorro, ou nunca me apare\u00e7as. Fora, j\u00e1 disse! Queres irritar-me? Esse biltre a toda hora me envergonha. (<i>Sai Launce.<\/i>) Tomei-te, Sebasti\u00e3o, a meu servi\u00e7o, em parte, apenas porque necessito de um mo\u00e7o como tu, capaz da m\u00e1xima discri\u00e7\u00e3o nos recados, que imposs\u00edvel \u00e9 a gente se fiar num louco destes. Mas o motivo principal \u00e9 a tua compostura, as fei\u00e7\u00f5es, que, se me fala certo o pressentimento, testemunham bons princ\u00edpios, car\u00e1ter e lealdade. Sabes, pois, as raz\u00f5es de minha escolha. Toma agora este anel e, com presteza, leva-o a madame S\u00edlvia. Quem mo deu muito amor me dedicava.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Dando-o, mostrais que amor nenhum lhe t\u00ednheis. J\u00e1 estar\u00e1 morta?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o; penso que vive.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ai de mim!<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Por que falas assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel deixar de lastim\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Qual a causa de teres pena dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 \u00c9 que parece que tanto amor ela por v\u00f3s sentia, quanto por vossa senhorita S\u00edlvia ora estais revelando. Ela ainda sonha com quem de seu amor est\u00e1 esquecido; v\u00f3s amais quem de vosso amor n\u00e3o cuida. D\u00f3i ver o amor prejudicar-se tanto. Foi por pensar assim que disse aquilo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Bem; leva-lhe este anel e, ao mesmo tempo, d\u00e1-lhe esta carta. O quarto dela \u00e9 aquele. Dize a minha senhora que eu reclamo o cumprimento da promessa feita: seu divino retrato. Terminado teu recado, ao meu quarto volta logo, onde triste h\u00e1s de achar-me e solit\u00e1rio. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Quantas mulheres se encarregariam de tal mensagem? Ah, pobre Proteu! Escolheste a raposa para guarda de tuas ovelhinhas. Pobre louca! Por que ter pena de quem me despreza de todo o cora\u00e7\u00e3o? De mim se esquece, porque lhe tem amor; e eu, por am\u00e1-lo, tamb\u00e9m me apiado dele. Ao separarmo-nos, dei-lhe este anel como penhor de quanto lhe seria sincera. Mas agora \u2014 infeliz mensageiro! \u2014 sou for\u00e7ada a pedir o que obter n\u00e3o desejara, a levar-lhe o que fora prefer\u00edvel recusar, a elogiar-lhe os sentimentos que censurar desejo intimamente. Sou a amante sincera de meu amo, mas n\u00e3o posso ser dele honesto servo sem falsa me tomar para mim pr\u00f3pria. Contudo, vou fazer por ele a corte, mas de modo t\u00e3o frio \u2014 o c\u00e9u o sabe \u2014 que espero nunca conseguir o intento. (<i>Entra S\u00edlvia, com acompanhamento.<\/i>) Bom-dia, senhorita; por obs\u00e9quio, desejava falar com dona S\u00edlvia.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Se ela eu fosse, que dela desejaras?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Se fosseis ela, pediria, humilde, que ouv\u00edsseis com paci\u00eancia meu recado.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Da parte de quem vindes?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 De meu amo, senhor Proteu, madame.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Ah! \u00c9 a prop\u00f3sito de um retrato, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Perfeitamente, madame.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 \u00darsula, traze o meu retrato. (<i>Trazem o retrato.<\/i>) Dai-lhe isto e dize-lhe de minha parte que uma J\u00falia, esquecida de seu falso cora\u00e7\u00e3o, ficaria mais a jeito no seu quarto do que esta simples sombra.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Senhora, por obs\u00e9quio, eis uma carta&#8230; Perd\u00e3o, senhora; inadvertidamente vos dei outro papel. Eis o que eu trouxe para ser dado a Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Mostra-me o outro, de novo, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 N\u00e3o, senhora; \u00e9 imposs\u00edvel. Desculpai-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Ent\u00e3o fica com este. N\u00e3o quero ler os versos de teu amo; sei que inflados se encontram de protestos de juramentos novos, que ele se acha pronto a quebrar t\u00e3o facilmente como eu rasgo este papel.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Senhora, este anelzinho, \u00e9 tamb\u00e9m vosso.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Maior \u00e9 o opr\u00f3brio dele por enviar-me semelhante presente, pois mil vezes o ouvi dizer que, \u00e0 despedida, J\u00falia lho dera de lembran\u00e7a. Muito embora seu falso dedo o anel j\u00e1 profanasse, a J\u00falia n\u00e3o farei tal injusti\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ela vos agradece.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Que disseste?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Senhorita, agrade\u00e7o-vos o serdes compassiva com J\u00falia. Coitadinha! Muito sofreu por causa de meu amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Conhece-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Conhe\u00e7o-a quase tanto quanto a mim. A lembran\u00e7a dos seus males me tem feito chorar mil vezes, crede.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 J\u00e1 sabe que Proteu se esqueceu dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Creio que sim; por isso mesmo, sofre.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Ela \u00e9 muito bonita?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 J\u00e1 foi, senhora, muito mais bonita. Quando ela ainda pensava que meu amo lhe dedicava amor, era t\u00e3o bela quanto sois. \u00c9 o que eu penso. Mas depois que o espelho ela esqueceu e jogou fora a m\u00e1scara que o rosto lhe amparava contra o calor do sol, fez o ar fanarem-se as rosas que lhe as faces coloriam e esmaecer da fronte a cor do l\u00edrio. Ora ficou como eu, preta de todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Qual era a altura dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 A minha. Sim, no Pentecostes, quando tivemos de ensaiar os espet\u00e1culos, um papel de mulher deram-me os mo\u00e7os com as vestimentas de madame J\u00falia, que, na opini\u00e3o de todos, me serviam t\u00e3o bem como se minhas elas fossem. Por isso eu sei que ela \u00e9 da minha altura. Nessa ocasi\u00e3o fi-la chorar bastante, pois era muito triste a minha parte, minha senhora, no papel de Ariadne, a lastimar-se da infidelidade de Teseu e de sua fuga injusta. Representei t\u00e3o bem, com tantas l\u00e1grimas, que a minha pobre dona, comovida, chorava amargamente. Morrer quero neste momento, se n\u00e3o for verdade que suas dores eu tamb\u00e9m sentia.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Ela h\u00e1 de ser-te muito grata, jovem. Coitada! Abandonada e sem consolo! S\u00f3 de te ouvir falar eu tamb\u00e9m choro. Toma esta bolsa, jovem: dou-ta como d\u00e1diva em aten\u00e7\u00e3o daquela pobre que tanto e tanto amaste. Passa bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ela h\u00e1 de agradecer-vos esse gesto, se a virdes algum dia. (<i>Sai S\u00edlvia com o s\u00e9quito.<\/i>) Mui virtuosa senhorita, bondosa e encantadora. Espero que meu amo seja muito fracamente acolhido, uma vez que ela respeita tanto o amor da minha dona. Ai! Como de si mesmo o amor faz tro\u00e7a Eis o retrato dela. Examinemo-lo. Penso que este penteado me deixara com o rosto t\u00e3o formoso quanto o dela. Favoreceu-a, ali\u00e1s, o artista um pouco, ou eu tamb\u00e9m me favore\u00e7o muito. Tem cabelos castanhos: eu, bem louros. Se o amor de Valentino se decide por esse tra\u00e7o, vou usar cabelos posti\u00e7os de igual cor. Olhos cinzentos possui, iguais aos meus, da cor de vidro. Mas \u00e9 de testa estreita; a minha \u00e9 larga. Que pode nela achar-se de admir\u00e1vel, que admirar em mim mesma eu n\u00e3o pudesse, se o louco Amor n\u00e3o fosse um deus sem olhos? Vamos, sombra; carrega esta outra sombra, que ela \u00e9 tua rival. Forma insens\u00edvel, adorada vais ser, beijada e amada! Se em tal idolatria houvesse senso, em teu lugar meu ser seria est\u00e1tua. Vou te ser boa em aten\u00e7\u00e3o \u00e0 dona, que foi boa comigo; do contr\u00e1rio, por Jove o juro, as unhas eu metera nesses olhos sem luz, porque meu amo n\u00e3o mais encantos neles encontrasse. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver51\" name=\"ver51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Mil\u00e3o. Uma abadia. Entra Eglamor.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EGLAMOR \u2014 O sol j\u00e1 doira a f\u00edmbria do ocidente. S\u00edlvia me disse que nesta hora, justa, n\u00f3s nos encontrar\u00edamos na sela de Frei Patrick. Decerto ela n\u00e3o falta, que nunca as horas os amantes perdem, salvo se for para chegarem antes, tanto a pressa esporeiam. Ei-la a tempo. (<i>Entra S\u00edlvia<\/i>) Boa-tarde, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Am\u00e9m, am\u00e9m. Vamos, bravo Eglamor; passemos logo a portinha do muro do convento. Tenho medo de estar sendo seguida.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGLAMOR \u2014 \u00c2nimo, que a floresta est\u00e1 a tr\u00eas l\u00e9guas. Se a alcan\u00e7armos, sairemos do perigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver52\" name=\"ver52\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto no pal\u00e1cio do duque. Entram T\u00fario, Proteu e J\u00falia.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 De minha pretens\u00e3o, que disse S\u00edlvia, senhor Proteu?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Oh, meu senhor, achei-a mais trat\u00e1vel. Contudo, faz reparos freq\u00fcentes com respeito a vosso f\u00edsico.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Acha que minhas pernas s\u00e3o compridas?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 N\u00e3o; acha que s\u00e3o finas.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Umas botas mas far\u00e3o engrossar.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 O uso de esporas de nada serve, quando o amor demonstra grande avers\u00e3o por algo.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 E do meu rosto, que disse ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Que \u00e9 muito e muito claro.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Nisso aquela travessa est\u00e1 mentindo, que eu tenho a tez escura.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Mas segundo velho ditado, as p\u00e9rolas s\u00e3o claras: Para os olhos da amada um negro \u00e9 p\u00e9rola.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Sim, p\u00e9rolas que os olhos dela ofusquem. Preferira ficar a contempl\u00e1-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 E de minha conversa, que disse ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Desagrad\u00e1vel, se falais de guerra.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Mas gosta de me ouvir falar de amor?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Mais lhe agradais, se nada lhe disserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 E de minha coragem, que disse ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 \u00d3 meu senhor, sobre isso n\u00e3o tem d\u00favida.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Fora desnecess\u00e1rio, pois bem sabe quanto sois pusil\u00e2nime.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 E que disse sobre o meu nascimento?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Que de grande fam\u00edlia descendeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Desceu, realmente, de muito alto: de um nobre para um tolo.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Falou-vos de meus bens?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Sim, com piedade.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Por que motivo?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Por estarem,sob a ger\u00eancia de outrem.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Eis o duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o duque.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ent\u00e3o, senhor Proteu! T\u00fario, bom-dia. Quem viu Sir Eglamor?<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Eu n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Nem eu.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 E minha filha S\u00edlvia?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ent\u00e3o sabei que ela fugiu para juntar-se ao r\u00fastico Valentino: Eglamor saiu com ela. \u00c9 certo; Frei Louren\u00e7o encontrou ambos ao passear, penitente, pelo bosque. Conheceu Eglamor, tendo suspeitas com rela\u00e7\u00f5es a S\u00edlvia, cuja m\u00e1scara o impediu de afirmar com seguran\u00e7a. Al\u00e9m do mais, ela aventou o pretexto de ir cedo confessar-se com Patrick, sem que estivesse estado em sua cela. Esses sinais confirmam sua fuga. Por isso pelo n\u00e3o perderdes tempo com v\u00e3os discursos, mas montardes logo para a mim vos reunirdes junto encosta da montanha da estrada para M\u00e2ntua, que \u00e9 por onde eles foram. Persigamo-los sem demora, meus caros gentis-homens. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 isto \u00e9 que \u00e9 rapariga sem ju\u00edzo: fugir da sorte que emp\u00f3s dela corre! Vou atr\u00e1s dela, mais, seguramente, para tomar vingan\u00e7a de Eglamor que por amor \u00e0 desmiolada S\u00edlvia. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Eu tamb\u00e9m vou, mais por amor de S\u00edlvia do que por desamor ao seu comparsa. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 E eu mais para estragar todo esse amor, do que por S\u00edlvia, a quem conduz o amor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver53\" name=\"ver53\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Floresta na fronteira de M\u00e2ntua. Entram proscritos com S\u00edlvia.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 Vamos! Paci\u00eancia. Teremos de lev\u00e1-la ao nosso chefe.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Mil infort\u00fanios mais acerbos que este me ensinaram a ser paciente agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PROSCRITO \u2014 Vamos, levai-a logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 E o gentil-homem que com ela vinha?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO PROSCRITO \u2014 Por ter p\u00e9s \u00e1geis, escapou de todos; mas Val\u00e9rio e Mois\u00e9s v\u00e3o-lhe no encal\u00e7o. Ide com ela para a porta do este; nosso chefe est\u00e1 l\u00e1. N\u00f3s seguiremos emp\u00f3s do outro; fugir n\u00e3o lhe \u00e9 poss\u00edvel, que toda a redondeza est\u00e1 cercada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o do primeiro proscrito e de S\u00edlvia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PROSCRITO \u2014 Vamos; vou acompanh\u00e1-la at\u00e9 \u00e0 caverna do nosso capit\u00e3o. N\u00e3o tenha medo; \u00e9 homem de car\u00e1ter elevado; jamais abusar\u00e1 de uma donzela.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 \u00d3 Valentino! Tudo por tua causa!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"ver54\" name=\"ver54\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outra parte da floresta. Entra Valentino.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Como o uso cria no homem um novo h\u00e1bito! Este bosque sombrio, esta floresta por ningu\u00e9m freq\u00fcentada, eu os prefiro aos centros florescentes e povoados. Aqui sentar-me posso sem ser visto, e, em conson\u00e2ncia com as dolentes notas do rouxinol, cantar minhas desgra\u00e7as e recordar meus males. Tu que habitas neste peito dorido, n\u00e3o o deixes sem morador, de medo que o conjunto venha a se desfazer, por arruinar-se, sem deixar nem mem\u00f3ria do que fora. Vem reparar-me, S\u00edlvia, com teu gesto! Alegra o teu pastor, minha adorada! (<i>Barulho dentro.<\/i>) Quantos gritos na mata o dia todo! S\u00e3o meus homens; a lei depende deles; certamente d\u00e3o ca\u00e7a a alguns viajantes. T\u00eam-me amor; mas me custa muito esfor\u00e7o evitar que a\u00e7\u00f5es m\u00e1s eles cometam. Recua, Valentino&#8230; Quem vem vindo? (<i>Afasta-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Proteu, S\u00edlvia e J\u00falia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Madame, o que por v\u00f3s fiz neste instante \u2014 conquanto n\u00e3o saibais tudo o que possa realizar vosso servo \u2014 a pr\u00f3pria vida pondo em perigo para arrebatar-vos das m\u00e3os de quem o amor vos for\u00e7aria, merece o pr\u00eamio de um olhar mais terno. Almejar menor gra\u00e7a \u00e9-me imposs\u00edvel, nem menor poder\u00edeis conceder-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Como parece um sonho o que ou\u00e7o e vejo! Amor, d\u00e1-me paci\u00eancia alguns instantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Como sou infeliz! Qu\u00e3o miser\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Infeliz, senhorita, \u00e9reis h\u00e1 pouco; mas com minha chegada vos mudastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Mais infeliz fiquei com tua vinda.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Como eu, quando ele dela se aproxima.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Antes um le\u00e3o faminto me apanhasse! Preferira ser pasto de uma fera, a dever a exist\u00eancia a este homem falso. Sabe o c\u00e9u quanto eu amo a Valentino; como minha alma, sua vida eu prezo. Com a mesma intensidade n\u00e3o me fora poss\u00edvel fazer mais \u2014 odeio ao falso, ao perjuro Proteu. Por isso, afasta-te! N\u00e3o me importunes mais com teus pedidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Empreenderia qualquer feito ousado, ainda que logo ap\u00f3s morrer devesse, para um olhar obter mais compassivo. Para quem ama, \u00e9 grande maldi\u00e7\u00e3o odi\u00e1-lo quem lhe prende o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Se Proteu s\u00f3 encontra compaix\u00e3o onde n\u00e3o pode amar, de J\u00falia lembra-te, teu primitivo amor e mais sincero, por cujo afeto dividiste a tua fidelidade em juras infinitas, que em juras falsas transmudaste, quando me dedicaste amor. J\u00e1 n\u00e3o te resta nenhuma f\u00e9, se duas n\u00e3o tiveres, o que \u00e9 pior do que nada. Antes nenhuma, do que uma f\u00e9 mostrar t\u00e3o importuna. Tra\u00edste o teu melhor amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Quem no amor respeita amigos?<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Todo o mundo, menos Proteu.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Embora. Mas se o esp\u00edrito de eloq\u00fcentes palavras n\u00e3o tem meios para vos alterar a dura forma, como soldado vou fazer a corte, de armas na m\u00e3o, e amar-vos contra a pr\u00f3pria natureza do amor: usando for\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLVIA \u2014 Oh c\u00e9us!<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Hei de obrigar-vos ao que quero.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO (<i>avan\u00e7ando<\/i>) \u2014 Afasta-te, rufi\u00e3o! N\u00e3o toques nela com tuas m\u00e3os grosseiras! Falso amigo!<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Valentino!<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Amigo de hoje, sem qualquer lealdade, como o s\u00e3o todos! Falso! As esperan\u00e7as me burlaste; somente os pr\u00f3prios olhos me poderiam dar esta certeza. J\u00e1 n\u00e3o posso dizer que ainda me resta um amigo, porque me desmentiras. Quem merecera f\u00e9, se a m\u00e3o direita \u00e9 infiel ao cora\u00e7\u00e3o? Oh! Estou triste por nunca mais poder confiar em ti. Por tua causa fugirei do mundo. O golpe da amizade \u00e9 mais profundo. Oh tempo ingrato! Que entre tanta gente seja traidor o amigo e confidente!<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Confunde-me a vergonha do meu crime. Valentino, perdoa. Se a tristeza do cora\u00e7\u00e3o tiver for\u00e7a bastante para me redimir de minha culpa, aos teus p\u00e9s a deponho. Minha falta n\u00e3o \u00e9 maior do que meu sofrimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Isso me satisfaz; torno a estimar-te como a um homem de bem. Quem n\u00e3o se dobra ao arrependimento, n\u00e3o pertence nem ao c\u00e9u nem \u00e0 terra, que s\u00e3o brandos. Por penit\u00eancia a c\u00f3lera do Eterno se deixa dominar. E como prova de quanto o teu falar me comprazeu, cedo-te tudo quanto em S\u00edlvia \u00e9 meu.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Ai de mim! Infeliz!<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Acudam o pajem!<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Ent\u00e3o, rapaz! Que houve? Vamos! Fala!<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 \u00d3 bom senhor, meu amo encarregou-me de entregar este anel a dona S\u00edlvia, coisa que me esqueceu, por neglig\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 E o anel, rapaz, onde se encontra?<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 \u00c9 este. (<i>D\u00e1-lhe um anel<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Como! Deixa-me v\u00ea-lo. Que acontece? Este anel eu dei a J\u00falia!<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Oh! Perdoai-me, senhor, mas houve engano. O anel de S\u00edlvia \u00e9 este. (<i>Mostra outro anel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 De que jeito obtiveste este anel? Eu o dera a J\u00falia no momento de nossa despedida.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Pois foi a pr\u00f3pria J\u00falia quem mo deu, e a pr\u00f3pria J\u00falia que at\u00e9 aqui o trouxe.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Como! J\u00falia!<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 Contempla o alvo de todas as tuas juras, com carinho guardadas no imo peito. Quanto este cora\u00e7\u00e3o tem padecido por teus perjuros todos! \u00d3 Proteu! Envergonha-te \u00e0 vista destes trajes. Possas corar por eu ter envergado vestes t\u00e3o imodestas, se, de fato, pode haver imod\u00e9stia nos disfarces de que se vale o amor. Mas erra menos a mulher no disfarce de um momento do que o homem que troca o sentimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 O homem que troca o sentimento! \u00c9 certo. Oh c\u00e9us! Porque perfeito o homem ficasse, falta-lhe ser constante. Esse defeito o leva a cometer muitos pecados. Que pode haver em S\u00edlvia a todo instante, que em J\u00falia n\u00e3o me mostre o amor constante?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Vamos, sem mais demora dai-me as m\u00e3os. Ver-vos unidos causa-me alegria; n\u00e3o fora bem brigardes em porfia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROTEU \u2014 Bem sabe o c\u00e9u que o meu anelo era este.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00daLIA \u2014 O meu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram proscritos com o duque e T\u00fario.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROSCRITO \u2014 Uma presa! Uma presa!<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Parai! Parai! \u00e9 o meu senhor, o duque. Sede bem-vindo Vossa Gra\u00e7a junto de um homem cuja gra\u00e7a est\u00e1 perdida: Valentino, o banido.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Valentino!<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Ali est\u00e1 S\u00edlvia, e S\u00edlvia me pertence.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 T\u00fario, ou recua, ou abra\u00e7ar\u00e1s a morte. N\u00e3o te aproximes, porque n\u00e3o te possa tocar a minha c\u00f3lera. N\u00e3o digas que S\u00edlvia te pertence; se o fizeres, nunca mais ser\u00e1s visto por Verona. Ei-la diante de ti; mas n\u00e3o consinto que te aproximes dela, nem, ao menos, que o teu h\u00e1lito alcance a minha amada.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00daRIO \u2014 Sir Valentino, dela n\u00e3o me importo. Considero tolice rematada chegar a p\u00f4r em risco a pr\u00f3pria vida por algu\u00e9m que nos vota s\u00f3 desprezo. N\u00e3o a reclamo; S\u00edlvia, pois, \u00e9 tua.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c9 preciso que sejas vil e baixo para a deixares t\u00e3o covardemente depois de haveres feito o que fizeste no af\u00e3 de conquist\u00e1-la. Pelo nome impoluto de meus antepassados, tua coragem, Valentino, arranca-me aplausos efusivos; considero-te digno de desposar uma princesa. Digo-te, pois, que neste instante esque\u00e7o os agravos passados, renuncio a todo o meu rancor e, ainda, de novo te reconduzo \u00e0 corte. Tens direito de pedir novo estado, o que confirmo de antem\u00e3o; pelo muito que mereces. Valentino, \u00e9s fidalgo de alto sangue; mereceste ficar com tua S\u00edlvia.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Fico muito obrigado a Vossa Gra\u00e7a por esse dom que t\u00e3o feliz me deixa. Agora, por amor de vossa filha desejava fazer-vos um pedido.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Seja qual for, por ti vais alcan\u00e7\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Estes banidos, entre os quais vivi, s\u00e3o pessoas de excelsas qualidades. Perdoai-lhes os excessos e chamai-os de novo para a corte. Corrigidos j\u00e1 se acham; s\u00e3o honestos, generosos e capazes, senhor, de altos servi\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Concedo tudo; a eles e a ti perd\u00f4o. Emprega-os como achares conveniente. Vamos; concluamos nossas dissid\u00eancias com triunfos, alegria e altos festejos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Em caminho farei todo o poss\u00edvel para deixar Vossa Grandeza alegre. Que pensa Vossa Gra\u00e7a deste pajem?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Como rapaz, tem gra\u00e7a; est\u00e1 corado.<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Para rapaz, ter\u00e1 gra\u00e7a excessiva.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Que quereis insinuar com o trocadilho?<\/p>\n<p align=\"justify\">VALENTINO \u2014 Se n\u00e3o vos desagrada, hei de contar-vos, e isso vos vai deixar estupefacto, tudo o que se passou. Vamos, Proteu; ser\u00e1 vosso castigo ouvir a hist\u00f3ria s\u00f3 dos vossos amores. Depois disso, no mesmo dia n\u00f3s nos casaremos: uma festa, uma casa, uma ventura.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p><iframe id=\"oauth2relay776907981\" tabindex=\"-1\" src=\"https:\/\/accounts.google.com\/o\/oauth2\/postmessageRelay?parent=http%3A%2F%2Fold.portalsaofrancisco.com.br&amp;jsh=m%3B%2F_%2Fscs%2Fapps-static%2F_%2Fjs%2Fk%3Doz.gapi.pt_BR.hbuZiaXcn0E.O%2Fm%3D__features__%2Fam%3DAQ%2Frt%3Dj%2Fd%3D1%2Frs%3DAGLTcCM5sF43Uiba3_UvsYXO1CcgkUrvYQ#rpctoken=381712843&amp;forcesecure=1\" name=\"oauth2relay776907981\" width=\"300\" height=\"150\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens O DUQUE DE MIL\u00c3O, pai de S\u00edlvia. VALENTINO, cavalheiro. PROTEU, cavalheiro. ANT\u00d4NIO, pai de Proteu. T\u00daRIO, rival grotesco de Valentino. EGLAMOR, companheiro de S\u00edlvia, em sua fuga. 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