{"id":120203,"date":"2017-04-20T12:15:16","date_gmt":"2017-04-20T14:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120203"},"modified":"2017-04-20T12:15:40","modified_gmt":"2017-04-20T14:15:40","slug":"a-comedia-dos-erros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-comedia-dos-erros","title":{"rendered":"A Com\u00e9dia dos Erros"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"419\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique<br \/>\n          nos links abaixo para navegar no ato desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Ato I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Ato II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Ato III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Ato IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Ato V<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h4>Personagens<\/h4>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>SOLINO<\/b>, Duque de \u00c9feso.<br \/>\n    <b>EGEU<\/b>, mercador de Siracusa.<br \/>\n    <b>ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO<\/b>, filho de Egeu e de Em\u00edlia.<br \/>\n    <b>ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA<\/b>, filho de Egeu e de Em\u00edlia.<br \/>\n    <b>DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO<\/b>, criado dos dois Ant\u00edfolos.<br \/>\n    <b>DR\u00d4MIO DE SIRACUSA<\/b>, criado dos dois Ant\u00edfolos<br \/>\n    <b>BALTASAR<\/b>, mercador.<br \/>\n    <b>\u00c2NGELO<\/b>, ourives.<br \/>\n    Um mercador, amigo de Ant\u00edfolo de Siracusa.<br \/>\n    Um segundo mercador, de quem \u00c2ngelo \u00e9 devedor<br \/>\n    <b>PINCH<\/b>, mestre-escola e exorcista.<br \/>\n    <b>EM\u00cdLIA<\/b>, esposa de Egeu, abadessa em \u00c9feso.<br \/>\n    <b>ADRIANA<\/b>, esposa de Ant\u00edfolo de \u00c9feso.<br \/>\n    <b>LUCIANA<\/b>, sua irm\u00e3.<br \/>\n    <b>L\u00daCIA<\/b>, criada de Adriana.<br \/>\n    <b>UMA CORTES\u00c3<\/b>.<br \/>\n    O carcereiro, oficiais de justi\u00e7a e gente do s\u00e9q\u00fcito.<\/p>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">ATO I <\/a><\/h4>\n<p><strong>Cena I<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma sala no pal\u00e1cio do duque. Entram o<br \/>\n    duque, Egeu, carcereiro, oficiais e s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Vamos, Solino; apressa a minha queda; de mim, com<br \/>\n    a morte, este mart\u00edrio arreda.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Cala-te, mercador de Siracusa; parcial n\u00e3o posso<br \/>\n    ser no que respeita \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da lei. A inimizade e a luta decorrente dos<br \/>\n    ultrajes inomin\u00e1veis que, de pouco, o vosso duque infligiu aos nossos compatriotas,<br \/>\n    honrados mercadores que, por falta de florins com que as vidas resgatassem,<br \/>\n    selaram seus decretos ominosos com o pr\u00f3prio sangue, excluem qualquer r\u00e9stia<br \/>\n    de piedade de nosso olhar terr\u00edvel. Desde os mortais conflitos intestinos,<br \/>\n    surgidos entre os vossos compatr\u00edcios sediciosos e n\u00f3s, foi decretado em s\u00ednodos<br \/>\n    solenes, n\u00e3o s\u00f3 pelos siracusanos como por n\u00f3s pr\u00f3prios, que n\u00e3o se admitiria<br \/>\n    nenhum tr\u00e1fico entre as duas cidades inimigas. Mais, ainda: se algu\u00e9m, nascido<br \/>\n    em \u00c9feso, em feiras ou mercados fosse visto de Siracusa, ou, ainda, se um<br \/>\n    nativo siracusano viesse ter ao porto de \u00c9feso, morreria e seus bens todos<br \/>\n    seriam confiscados pelo duque, a menos que mil marcos nos pagasse, para se<br \/>\n    resgatar e ficar livre da pena cominada. Ora, o mais alto c\u00f4mputo de teus<br \/>\n    bens escassamente chega a cem marcos. Desse modo te achas, por nossas leis,<br \/>\n    \u00e0 morte condenado.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Consola-me saber que o teu decreto hoje p\u00f5e fim ao<br \/>\n    meu viver inquieto.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Est\u00e1 bem. Ora quero que nos digas, siracusano, sem<br \/>\n    rodeio in\u00fatil, por que de tua p\u00e1tria te afastaste e o motivo de estares ora<br \/>\n    em \u00c9feso.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Mais pesada tarefa n\u00e3o podia ser-me imposta do que<br \/>\n    isso de contar-te minha dor indiz\u00edvel. No entretanto, porque dar testemunho<br \/>\n    possa o mundo de que meu triste fim n\u00e3o foi causado por falta vergonhosa,<br \/>\n    mas por puro sentimento paterno, vou dizer-te quanto me permitir minha tristeza.<br \/>\n    Nasci em Siracusa, onde uma esposa soube escolher, que em mim teria achado<br \/>\n    toda a felicidade, como eu nela, se n\u00e3o nos fosse adverso o duro fado. Viv\u00edamos<br \/>\n    felizes; em aumento ia nossa fortuna, por freq\u00fcentes e frutuosas viagens que<br \/>\n    a Epidamno costumava eu fazer. Mas o trespasso do meu feitor, na obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\n    premente me p\u00f4s de dirigir os bens dispersos, dos bra\u00e7os carinhosos me arrancando<br \/>\n    de minha terna esposa. Minha aus\u00eancia n\u00e3o durara seis meses, quando \u2014 quase<br \/>\n    desfalecida pela doce pena da heran\u00e7a feminina ela j\u00e1 tinha tomado todas as<br \/>\n    medidas, para se me juntar, havendo s\u00e3 e salva chegado onde eu me achava.<br \/>\n    Muito tempo n\u00e3o se passou sem que ela se tornasse m\u00e3e de dois belos filhos,<br \/>\n    de tal modo parecidos \u2014 oh fato extraordin\u00e1rio! que s\u00f3 se distinguiam pelos<br \/>\n    nomes. Na mesma hora, na mesma hospedaria, uma mulher do povo de igual fardo<br \/>\n    se livrou, dando \u00e0 luz dois filhos g\u00eameos tamb\u00e9m mui parecidos, que por serem<br \/>\n    de gente muito pobre eu comprei logo, para que a servir viessem meus dois<br \/>\n    filhos. Muito orgulhosa de seus dois pimpolhos, falava diariamente minha esposa<br \/>\n    em voltar para casa. A contragosto fiz-lhe a vontade, mas, ai! muito cedo<br \/>\n    nos embarcamos. Uma l\u00e9gua viajamos de Epidamno sem que o mar, sempre aos ventos<br \/>\n    obediente, qualquer tr\u00e1gico ind\u00edcio nos mostrasse de nossa m\u00e1 ventura. Muito<br \/>\n    tempo, contudo, n\u00e3o ficamos animados, porque o pouco de luz quase apagada<br \/>\n    que o c\u00e9u nos enviava, s\u00f3 servia para levar a nossas almas t\u00edmidas mensagem<br \/>\n    certa de uma morte pr\u00f3xima. Eu, de mim, a aceitara alegremente; mas as lamenta\u00e7\u00f5es<br \/>\n    de minha esposa, que, \u00e0 s\u00f3 id\u00e9ia do perigo imano, chorava sem cessar, e os<br \/>\n    lastimosos gritos dos dois meninos amor\u00e1veis, que por moda choravam, pois<br \/>\n    n\u00e3o tinham consci\u00eancia do perigo, me for\u00e7aram a procurar adiar o fim de todos,<br \/>\n    pois outra expectativa era imposs\u00edvel. Ao barco os marinheiros se acolheram,<br \/>\n    deixando-nos o casco do navio prestes a se afundar. Minha consorte, mais cuidadosa<br \/>\n    do \u00faltimo nascido, o havia atado a um mastro de reserva de que os marujos<br \/>\n    sempre andam providos, para enfrentar os temporais desfeitos. A ele um dos<br \/>\n    outros g\u00eameos foi atado, enquanto dos demais eu me ocupava. Dispostos desse<br \/>\n    modo os nossos filhos, eu e minha mulher, fixos os olhos em quem fixo o cuidado<br \/>\n    sempre t\u00ednhamos, nos atamos, tamb\u00e9m, nas duas pontas do alto mastro, e ao<br \/>\n    sabor, sempre, das ondas, na dire\u00e7\u00e3o seguimos de Corinto, conforme imagin\u00e1vamos.<br \/>\n    Por \u00faltimo, a dardejar os raios sobre a terra, desfez o sol a n\u00e9voa causadora<br \/>\n    de todo o nosso mal, deixando calmas de novo as ondas, pela a\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica<br \/>\n    de sua luz por que tanto anel\u00e1vamos o que nos permitiu ver dois navios que<br \/>\n    para n\u00f3s, com pressa, velejavam: um de Corinto, de Ep\u00eddamno o outro. Mas antes<br \/>\n    de at\u00e9 n\u00f3s eles chegarem&#8230; Oh! Nada mais direi. Deduze o resto, ante o que<br \/>\n    sabes do meu fado mesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Adiante, velho! Acaba a tua hist\u00f3ria. Despertas-nos<br \/>\n    piedade, muito embora conceder-te perd\u00e3o seja imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Oh! Se os deuses assim tivessem sido, agora eu acus\u00e1-los<br \/>\n    n\u00e3o pudera de nos terem tratado cruelmente, pois distantes de n\u00f3s n\u00e3o se encontravam<br \/>\n    dez l\u00e9guas os dois barcos, quando fomos dar de encontro a um penedo imano<br \/>\n    e a pique, com tal for\u00e7a, que a nossa esperan\u00e7osa nau se despeda\u00e7ou, e de<br \/>\n    tal modo se processou nosso div\u00f3rcio injusto, que a cada um de n\u00f3s deixou<br \/>\n    a Fortuna o com que se alegrar e lastimar-se. A parte em que se achava minha<br \/>\n    esposa \u2014 pobre alma! \u2014 ao parecer com menos peso, mas com igual desdita, foi<br \/>\n    levada com mais velocidade pelos ventos, tendo sido eles tr\u00eas \u00e0 nossa vista<br \/>\n    salvos por pescadores de Corinto, conforme ent\u00e3o pensamos. Finalmente, a bordo<br \/>\n    nos tomou outro navio. Ao ficarem sabendo seus marujos a quem haviam salvo<br \/>\n    por acaso, deram boa acolhida aos pobres n\u00e1ufragos; e a presa, porventura,<br \/>\n    aos pescadores teriam retomado, se n\u00e3o fosse terem o barco de moroso curso.<br \/>\n    Por isso, navegaram rumo \u00e0 p\u00e1tria. Sabeis agora como eu fui privado de toda<br \/>\n    a minha dita, como os fados adversos minha vida prolongaram, para eu contar<br \/>\n    a minha triste hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Agora, pelo amor dos que lastimas, faze-me o obs\u00e9quio<br \/>\n    de contar por mi\u00fado tudo o que eles e tu haveis passado.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Meu ca\u00e7ula, o mais velho nos cuidados, aos dezoito<br \/>\n    anos revelou desejo de procurar o irm\u00e3o, tendo insistido junto de mim, para<br \/>\n    que seu criado \u2014 que, como ele, privado tamb\u00e9m fora de um irm\u00e3o cujo nome<br \/>\n    ele levava \u2014 nas investiga\u00e7\u00f5es o acompanhasse. Assim, porque sofria de saudades<br \/>\n    de meu filho perdido, pus em risco vir a perder o que ainda me restava. Cinco<br \/>\n    estios passei na extrema Gr\u00e9cia; vasculhei os confins da \u00c1sia distante; e,<br \/>\n    ao costear, j\u00e1 de volta para a p\u00e1tria, a \u00c9feso vim ter, sem esperan\u00e7a nenhuma,<br \/>\n    \u00e9 certo, de poder ach\u00e1-los, mas porque n\u00e3o deixasse inexplorado nenhum lugar<br \/>\n    capaz de abrigar homens. Da minha vida a hist\u00f3ria aqui termina. Na morte prematura<br \/>\n    me julgara muito feliz ainda assim, se ao cabo de t\u00e3o longas viagens obtivesse<br \/>\n    a certeza de que eles ainda vivem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 M\u00edsero Egeu, que destinado foste para experimentar<br \/>\n    o grau mais alto de uma vida infeliz! Mas podes crer-me: n\u00e3o fosse ir contra<br \/>\n    a lei, minha coroa, a pr\u00f3pria dignidade, os juramentos que violar nunca os<br \/>\n    pr\u00edncipes se atrevem, muito embora o desejem \u2014 neste peito tua causa encontrara<br \/>\n    um advogado. Mas muito embora condenado te aches e a senten\u00e7a de morte n\u00e3o<br \/>\n    me seja poss\u00edvel revocar sem grande dano para nossa honra, vou favorecer-te<br \/>\n    naquilo que puder. Por essa causa, mercador, eu te dou mais este dia para<br \/>\n    aux\u00edlio amig\u00e1vel angariares, que a vida te resgate. Experimenta os amigos<br \/>\n    que em \u00c9feso tiveres. Toma emprestado, pede esmola e vive, depois de perfazeres<br \/>\n    a quantia. Caso contr\u00e1rio, morrer\u00e1s; \u00e9 lei. Deixo-o sob tua guarda, carcereiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">CARCEREIRO \u2014 Pois n\u00e3o, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Pobre, sem esperan\u00e7a, Egeu s\u00f3 lida para o fim postergar<br \/>\n    da triste vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><strong>Cena II<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mercado. Entram Ant\u00edfolo de Siracusa,<br \/>\n    Dr\u00f4mio de Siracusa e um mercador.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Deveis dizer, por isso, que nascestes em Epidamno,<br \/>\n    para vos livrardes de ficar com os bens todos confiscados. Ainda hoje, um<br \/>\n    mercador de Siracusa foi preso, por haver desembarcado, e, porque a vida resgatar<br \/>\n    n\u00e3o p\u00f4de, h\u00e1 de, acorde com a lei desta cidade, vir a morrer, antes que o<br \/>\n    sol no ocaso fatigado se deite. Eis o dinheiro que em confian\u00e7a me destes,<br \/>\n    ainda h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Dr\u00f4mio, leva-o ao Centauro, onde pousamos,<br \/>\n    e l\u00e1 te deixa estar at\u00e9 que eu chegue. Para o jantar ainda falta uma hora;<br \/>\n    verei, enquanto espero, os mercadores, estudarei os usos da cidade e observarei<br \/>\n    seus belos edif\u00edcios Depois, de volta para a hospedaria, pretendo repousar,<br \/>\n    que a longa viagem me deixou lasso e exausto. Vai depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Muita gente talvez tomasse \u00e0 risca quanto<br \/>\n    dizeis e se pusesse ao fresco carregando tesouro t\u00e3o opimo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 \u00c9 um criado alegre, meu senhor, que<br \/>\n    muitas vezes, quando estou cheio de cuidados e de melancolia, me dissipa todo<br \/>\n    o humor com seus ditos prazenteiros. Ireis passear comigo na cidade, para<br \/>\n    depois jantarmos na estalagem?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 N\u00e3o, meu caro senhor; fui convidado por certos<br \/>\n    mercadores, com os quais conto realizar bons neg\u00f3cios. Desculpai-me. Mas \u00e0s<br \/>\n    cinco horas nos encontraremos no mercado, se a id\u00e9ia vos agrada, podendo,<br \/>\n    ap\u00f3s, fazer-vos companhia at\u00e9 a hora de deitar. Neg\u00f3cio urgente me for\u00e7a a<br \/>\n    vos deixar por uns instantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Ent\u00e3o at\u00e9 mais tarde; sem destino<br \/>\n    vou distrair-me a ver vossa cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Ao vosso bem-estar vos deixo entregue. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Quem ao meu bem-estar me deixa entregue,<br \/>\n    faz entrega de todo em todo in\u00fatil, pois \u00e9 do que care\u00e7o. Sou no mundo como<br \/>\n    uma gota de \u00e1gua que \u00e0 procura de outra gota no oceano se encontrasse, e que,<br \/>\n    ao cair ali, toda desejos de achar a companheira, desaparece na busca, sem<br \/>\n    ser vista. Assim, comigo: para um irm\u00e3o e minha m\u00e3e achar \u2014 pobre de mim!<br \/>\n    \u2014 me perco a procur\u00e1-los. (<i>Entra Dr\u00f4mio de \u00c9feso.<\/i>) Eis outra vez meu<br \/>\n    almanaque vivo. Que \u00e9 que h\u00e1? Por que voltaste assim t\u00e3o cedo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 T\u00e3o cedo? Perguntai por que t\u00e3o tarde.<br \/>\n    O cap\u00e3o j\u00e1 tostou; caiu do espeto, de tanto ser virada, a bacorinha; j\u00e1 o<br \/>\n    rel\u00f3gio da torre deu doze horas e a patroa me deu uma no rosto; quente ela<br \/>\n    est\u00e1 por causa da comida que esfriou; a comida ficou fria por n\u00e3o terdes voltado<br \/>\n    para casa; n\u00e3o voltaste porque n\u00e3o tendes fome; n\u00e3o tendes fome por comido<br \/>\n    haverdes. N\u00f3s, por\u00e9m, a jejuar nos encontramos; por vossa culpa em penit\u00eancia<br \/>\n    andamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Detende esses pulm\u00f5es, senhor: dizei-me<br \/>\n    onde est\u00e1 minha bolsa com o dinheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Oh! Aqueles seis pences que me destes na<br \/>\n    \u00faltima quarta-feira com o encargo de pagar o conserto do rabicho da patroa?<br \/>\n    Ao seleiro os dei, senhor; n\u00e3o costumo furtar coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o estou hoje para brincadeiras.<br \/>\n    Deixa de lado as gra\u00e7as e me dize, sem subterf\u00fagios, onde est\u00e1 o dinheiro.<br \/>\n    Sendo n\u00f3s estrangeiros na cidade, como te mostras t\u00e3o remisso, ousando separar-te<br \/>\n    de soma t\u00e3o vultosa?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, deixai as gra\u00e7as<br \/>\n    para a hora do jantar. Vim procurar-vos como correio, de ordem da senhora;<br \/>\n    se sem v\u00f3s eu voltar, \u00e9 coisa certa meter-me na correia, que ela as vossas<br \/>\n    faltas h\u00e1 de gravar na minha pele. Penso que dever\u00edeis ter no est\u00f4mago, como<br \/>\n    eu, rel\u00f3gio certo, para a casa vos chamar, sem haver necessidade de nenhum<br \/>\n    mensageiro ou de recados.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 P\u00e1ra com isso, Dr\u00f4mio; essas gra\u00e7olas<br \/>\n    v\u00eam fora de prop\u00f3sito. Reserva-as para hora mais alegre. Onde puseste o ouro<br \/>\n    que te confiei?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 A mim, senhor? N\u00e3o sei de ouro nenhum que<br \/>\n    me entreg\u00e1sseis.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Vamos, senhor velhaco, acabai logo<br \/>\n    com essas maluquices, e dizei-me de que modo a incumb\u00eancia foi cumprida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Minha incumb\u00eancia constitui apenas em vos<br \/>\n    vir procurar at\u00e9 o mercado e vos levar, senhor, a casa, \u00e0 F\u00eanix, para jantar.<br \/>\n    Por v\u00f3s j\u00e1 est\u00e3o \u00e0 espera minha senhora e a irm\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Ora, t\u00e3o certo como eu ser batizado,<br \/>\n    me responde onde puseste a salvo o meu dinheiro; se n\u00e3o, te quebrarei essa<br \/>\n    cabe\u00e7a jocosa, que s\u00f3 cuida de pilh\u00e9rias, quando me acho indisposto. Dize<br \/>\n    logo: em que lugar puseste os meus mil marcos?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Marcas vossas eu tenho na cabe\u00e7a; nos ombros<br \/>\n    tenho marcas da patroa; mas, reunidas, mil marcos n\u00e3o perfazem. Se for\u00e7ado<br \/>\n    eu me visse a restitu\u00ed-las a Vossa Senhoria, \u00e9 bem poss\u00edvel que n\u00e3o as receb\u00easseis<br \/>\n    com paci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Tua patroa? Que patroa, escravo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 A senhora de Vossa Senhoria, minha patroa<br \/>\n    da estalagem F\u00eanix, a mesma que jejua \u00e0 vossa espera, para jantar e que vos<br \/>\n    pede, instante, irdes jantar com ela neste instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Como! Zombas de mim na minha frente,<br \/>\n    conquanto eu to proibisse? Ent\u00e3o toma isto. (<i>Bate-lhe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Senhor, que pretendeis? A m\u00e3o detende,<br \/>\n    por piedade! Se n\u00e3o, dos p\u00e9s me valho. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Sou capaz de jurar que esse malandro<br \/>\n    foi logrado e perdeu todo o dinheiro. Dizem que esta cidade abunda em fraudes,<br \/>\n    em escamoteadores astuciosos, feiticeiros noturnos que os sentidos confundem<br \/>\n    das pessoas, negras bruxas que matam a alma e o corpo informe deixam, charlat\u00e3es<br \/>\n    convincentes, disfar\u00e7ados embusteiros e muitos pecadores quejandos. Se tudo<br \/>\n    isso for verdade, n\u00e3o ficarei aqui. Vou ao Centauro dar outra co\u00e7a nesse bandoleiro;<br \/>\n    temo que haja perdido o meu dinheiro. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">ATO II <\/a><\/h4>\n<p><strong>Cena I<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Casa de Ant\u00edfolo de \u00c9feso. Entram Adriana<br \/>\n    e Luciana.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Nem vem o meu marido nem o escravo que eu incumbi<br \/>\n    de o procurar com pressa. Devem ser duas horas, Luciana.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Talvez tenha sido ele convidado por algum mercador<br \/>\n    e, do mercado, tivesse ido jantar em qualquer parte. Mana, vamos comer; n\u00e3o<br \/>\n    te amofines. Da liberdade os homens s\u00e3o senhores; o tempo \u00e9 o mestre deles;<br \/>\n    v\u00e3o e v\u00eam, conforme o tempo o enseja. S\u00ea paciente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Por que h\u00e3o de ser mais livres do que n\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Porque fora de casa t\u00eam neg\u00f3cios.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Se com ele desta arte eu procedesse, ficaria zangado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 N\u00e3o ignoras que da tua vontade \u00e9 freio o esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Frear se deixam t\u00e3o-somente os asnos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 A liberdade ind\u00f3cil \u00e9 domada pela pr\u00f3pria desgra\u00e7a.<br \/>\n    N\u00e3o h\u00e1 nada sob a vista do c\u00e9u que n\u00e3o se mova num limite restrito, assim<br \/>\n    na terra como no ar e no mar. Todas as f\u00eameas dos animais, dos p\u00e1ssaros, dos<br \/>\n    peixes seguem ao macho e em tudo lhe obedecem. O homem, ser mais divino, senhor<br \/>\n    deles, dono do mundo todo, do mar vasto, que a superioridade do intelecto<br \/>\n    p\u00f3s acima de p\u00e1ssaros e peixes, da esposa \u00e9 dono e mestre. Assim, alegre,<br \/>\n    com ele em tudo concordar te cumpre.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Tanta humildade condiz mais com freira.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 O medo \u00e9 que me faz ficar solteira.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Casada, talvez fosses uma harpia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 A obedecer, de noiva aprenderia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Se teu esposo a outra mulher amasse?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Em casa aguardaria o desenlace.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Sem ser provada, a paci\u00eancia dura; calma \u00e9 quem<br \/>\n    vive livre de tortura. Ao infeliz que a adversidade oprime \u00e9 f\u00e1cil animar<br \/>\n    num tom sublime; mas se igual fardo no ombro nos pesasse, nossa calma tomara-se<br \/>\n    falace. Por n\u00e3o teres marido que te oprima \u00e9 que me fazes essa pantomima;<br \/>\n    mas se chegasses a te ver burlada, tua paci\u00eancia acabaria em nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Hei de casar-me para ver se acerto. Eis o criado;<br \/>\n    o patr\u00e3o deve andar perto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Dr\u00f4mio de \u00c9feso.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Dizei se o vosso retardado mestre ao alcance da<br \/>\n    m\u00e3o por fim se encontra.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Fui eu que fiquei ao alcance das m\u00e3os dele,<br \/>\n    como d\u00e3o testemunho as minhas orelhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 N\u00e3o lhe falaste? N\u00e3o te disse, acaso, qual a sua<br \/>\n    inten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Disse-me tudo quanto quis, mas foi muito<br \/>\n    ao p\u00e9 do ouvido. Maldita m\u00e3o! N\u00e3o pude entender nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Expressou-se por maneira t\u00e3o amb\u00edgua, que n\u00e3o entendeste<br \/>\n    o que ele queria dizer?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Expressou-se por maneira t\u00e3o clara, que<br \/>\n    pude sentir perfeitamente as pancadas, mas, apesar disso, por maneira t\u00e3o<br \/>\n    amb\u00edgua, que mal pude compreender-lhes o alcance.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Mas dize: n\u00e3o vem logo para casa? N\u00e3o quer deixar<br \/>\n    a esposa satisfeita?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Doido cornudo \u00e9 o que ele me parece.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Doido cornudo, biltre?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Cornudo por ser doido, simplesmente. Mas<br \/>\n    que est\u00e1 doido, \u00e9 certo. Eram j\u00e1 horas, lhe disse, de jantar. Sua resposta<br \/>\n    foi reclamar de mim mil marcos de ouro. \u201cJantar!\u201d gritei. \u201cMeu ouro!\u201d respondeu-me.<br \/>\n    \u201cA carne est\u00e1 a queimar!\u201d disse. \u201cMeu Ouro!\u201d respondeu. \u201cDemorais ainda na<br \/>\n    rua?\u201d lhe perguntei. \u201cMeu ouro!\u201d respondeu-me. Onde est\u00e3o os mil marcos, sem-vergonha,<br \/>\n    que eu te dei?\u201d \u201cA leitoa est\u00e1 no ponto de esturricar!\u201d lhe disse. \u201cMeu dinheiro!\u201d<br \/>\n    me respondeu. \u201cMinha senhora&#8230;\u201d disse-lhe. \u201cQue se enforque!\u201d disse ele;<br \/>\n    \u201cn\u00e3o conhe\u00e7o senhora alguma! O diabo que a carregue!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Quem falou isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Meu patr\u00e3o, senhora. N\u00e3o tenho casa, esposa,<br \/>\n    nem patroa\u201d, berrou-me ele cem vezes. Desse modo minha mensagem, que cabia<br \/>\n    \u00e0 l\u00edngua dizer no tempo certo, gra\u00e7as a ele torno a trazer nos ombros para<br \/>\n    casa, pois neles recebi tunda de mestre.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Volta, maroto, e traze-o para casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Voltar para apanhar mais uma co\u00e7a? Por<br \/>\n    Deus, mandai um outro mensageiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Volta, malandro! Do contr\u00e1rio a fronte te cruzo<br \/>\n    de pancada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Ele h\u00e1 de novas cruzes fazer por cima das<br \/>\n    primeiras. Desta arte me deixais santificado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Basta de falat\u00f3rio, grosseir\u00e3o! Vai buscar teu<br \/>\n    senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Serei, acaso, redondo assim, para me dardes<br \/>\n    ambos pancada sem parar, como se eu fosse bola de futebol? Sem mais nem menos,<br \/>\n    me aplicais pontap\u00e9s. A durar isso, tereis de me mandar forrar de couro. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Como a impaci\u00eancia vos deixou mudada!<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 A conversar ficou com a namorada, privando-me de<br \/>\n    todo o carinho. O encanto j\u00e1 perdi? Feia definho? A culpa \u00e9 dele s\u00f3. Tenho<br \/>\n    a conversa fastidiosa, a alma sempre em t\u00e9dio imersa? Na indiferen\u00e7a dele<br \/>\n    se me embota toda a vivacidade, fico idiota. Deixa-me feia, acaso, este vestido?<br \/>\n    Quem me dirige os bens \u00e9 o meu marido. Qual a minha ru\u00edna, que arruinada n\u00e3o<br \/>\n    fosse s\u00f3 por ele? Se fanada me encontro \u00e9 que ele o quis. De um simples riso<br \/>\n    dele me nasceria um para\u00edso. Mas, cervo altivo, ele por longe vaga. De todo<br \/>\n    o meu amor foi essa a paga.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 O ci\u00fame te maltrata. Deixa disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Tanto sofrer me fez perder o vi\u00e7o. \u00c9 certo; alhures<br \/>\n    ele encontra abrigo; se n\u00e3o, por que n\u00e3o p\u00e1ra ele comigo? Disse que uma cadeia<br \/>\n    me daria, bem o sabes. Contudo, eu preferia que ele houvesse esquecido esse<br \/>\n    presente em troca de comigo estar contente. Desta arte fiel ele ficara ao<br \/>\n    leito. Sei que as mais belas j\u00f3ias, sem defeito, com o uso o encanto perdem.<br \/>\n    O pr\u00f3prio ouro se desgasta, em preju\u00edzo do tesouro. Assim, dos homens o impoluto<br \/>\n    nome a reiterada tenta\u00e7\u00e3o carcome. J\u00e1 que a minha beleza n\u00e3o lhe agrada, vou<br \/>\n    chorar tanto, at\u00e9 vir a ser nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Como o ci\u00fame maltrata esta coitada!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><strong>Cena II<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entra Ant\u00edfolo de Siracusa.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 O dinheiro que a Dr\u00f4mio eu tinha dado<br \/>\n    se acha na hospedaria do Centauro, tendo sa\u00eddo o cuidadoso escravo para me<br \/>\n    procurar. Pelo meu c\u00e1lculo e o que disse o hospedeiro, eu n\u00e3o podia ter falado<br \/>\n    com Dr\u00f4mio depois da hora em que nos separamos no mercado. Mas ei-lo que a\u00ed<br \/>\n    vem. (<i>Entra Dr\u00f4mio de Siracusa.<\/i>) Ent\u00e3o, senhor, j\u00e1 est\u00e1 mais calmo<br \/>\n    vosso humor jocoso? Repeti, por favor, a brincadeira, se gostais de pancada.<br \/>\n    A hospedaria do Centauro vos \u00e9 desconhecida? N\u00e3o vos dei uma bolsa com dinheiro?<br \/>\n    Vossa patroa me quer ver em casa, para eu jantar com ela? Ent\u00e3o, moramos na<br \/>\n    hospedaria F\u00eanix? Est\u00e1s louco, para me responderes desse modo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Quando, senhor, vos respondi tal coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Agora mesmo, aqui, h\u00e1 meia hora<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o vos falei desde a hora em que ao<br \/>\n    Centauro me mandastes levar vosso dinheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Afirmaste, vil\u00e3o, que eu n\u00e3o te havia<br \/>\n    dado dinheiro algum e me falaste de uma mulher e de eu jantar com ela. Mas<br \/>\n    penso que na pele tens a prova de quanto me alegrou essa not\u00edcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Fico contente por vos ver alegre. Que<br \/>\n    quer dizer, senhor, essa pilharia?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Ainda zombas de mim na minha frente?<br \/>\n    Pensas que \u00e9 brincadeira? Ent\u00e3o toma isto. (<i>Bate-lhe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Parai, senhor, por Deus! A brincadeira<br \/>\n    ficou s\u00e9ria demais. Por que barganha mereci receber essas pancadas?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Porque acontece eu conversar convosco<br \/>\n    familiarmente e, para distrair-me, vos fazer de meu bobo, vossa aud\u00e1cia vos<br \/>\n    leva a exorbitar, at\u00e9 quererdes apalha\u00e7ar as minhas horas s\u00e9rias. Quando o<br \/>\n    sol brilha, as moscas dan\u00e7am ledas; mas, quando some, logo elas se escondem.<br \/>\n    Para poderdes discretear comigo ser\u00e1 conveniente ver-me o rosto. Assim, pelos<br \/>\n    meus olhos, a atitude sabereis escolher. Caso contr\u00e1rio, vos meterei pela<br \/>\n    caba\u00e7a o m\u00e9todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Caba\u00e7a lhe chamais? Eu preferia ter<br \/>\n    cabe\u00e7a, uma vez que deixasses de a malhar. A continuardes desse jeito, vou<br \/>\n    procurar uma caba\u00e7a para forrar com ela a cabe\u00e7a e n\u00e3o ter de procurar o esp\u00edrito<br \/>\n    nas esp\u00e1duas. Mas, por obs\u00e9quio, senhor: por que me bateis?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o sabes a causa?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o sei nada, senhor, a n\u00e3o ser que<br \/>\n    estou a receber pancada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Desejas que ta revele?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Perfeitamente, senhor, e tamb\u00e9m o seu<br \/>\n    porqu\u00ea, pois dizem todos que n\u00e3o h\u00e1 causa sem porqu\u00ea.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Pois foi porque te riste \u00e0 minha custa.<br \/>\n    Agora vejamos o porqu\u00ea: porque de novo riste de mim, quando eu falava s\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Quem sova igual j\u00e1 tomou? Coisa assim<br \/>\n    nunca mais me aconte\u00e7a, pois os porqu\u00eas que aduzis s\u00e3o porqueiras sem p\u00e9s<br \/>\n    nem cabe\u00e7a. Obrigado, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Por que obrigado?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Ora, senhor, por essa coisa que me destes<br \/>\n    por coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Na pr\u00f3xima vez me corrigirei, dando-te<br \/>\n    coisa nenhuma por alguma coisa. Mas dizei-me, senhor: j\u00e1 s\u00e3o horas de jantar?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o, senhor; a carne ainda n\u00e3o ficou<br \/>\n    como eu estou.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Como assim, senhor? Que \u00e9 que lhe<br \/>\n    falta?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Ser batida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Perfeitamente, senhor; com isso ela<br \/>\n    ficar\u00e1 seca.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Nesse caso, pe\u00e7o-vos n\u00e3o provar bocado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Vossas raz\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Para n\u00e3o ficardes col\u00e9rico outra vez<br \/>\n    e n\u00e3o tornardes a me bater.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Ent\u00e3o, meu senhor, aprendei a gracejar<br \/>\n    s\u00f3 quando houver ocasi\u00e3o, porque para tudo h\u00e1 tempo certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Era o que eu ousaria contestar, antes<br \/>\n    de haverdes ficado t\u00e3o col\u00e9rico.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Em que raz\u00f5es vos firmais, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Ora, senhor, em uma raz\u00e3o t\u00e3o reluzente<br \/>\n    como a careca reluzente do velho Tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Vamos ouvi-la, ent\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Quem \u00e9 calvo por natureza, em tempo<br \/>\n    nenhum recupera o cabelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o lhe seria poss\u00edvel conseguir isso<br \/>\n    por meio de um processo de posse absoluta?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Sim, protestando pela posse de uma peruca,<br \/>\n    para ficar de posse dos cabelos de outra pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Por que motivo o Tempo \u00e9 t\u00e3o sovina<br \/>\n    de cabelo, quando \u00e9 certo que este cresce com tanta liberalidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Isso \u00e9 b\u00ean\u00e7\u00e3o que ele reserva aos animais;<br \/>\n    o que ele nega aos homens em cabelo, d\u00e1-lhes em intelig\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 E por esse motivo que muita gente<br \/>\n    \u00e9 dotada de mais cabelo do que intelig\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Mas n\u00e3o h\u00e1 quem tenha intelig\u00eancia para<br \/>\n    perder o cabelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Conclu\u00edste h\u00e1 pouco que as pessoas<br \/>\n    de muito cabelo s\u00e3o lorpas destitu\u00eddos de esp\u00edrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Quanto mais lorpa, mais cabelo perde;<br \/>\n    contudo, perde sempre com alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 E a raz\u00e3o disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 S\u00e3o duas as raz\u00f5es, senhor, e ambas<br \/>\n    de peso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 De peso \u00e9 que n\u00e3o devem ser.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Raz\u00f5es seguras, pelo menos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Dize quais s\u00e3o elas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 A primeira \u00e9 economizar o dinheiro que<br \/>\n    deveria gastar com o penteador; a segunda, ficar livre de lhe cair o cabelo<br \/>\n    na sopa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Durante todo esse tempo, quer\u00edeis<br \/>\n    provar que n\u00e3o h\u00e1 tempo para tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 E consegui-o, senhor, a saber: n\u00e3o h\u00e1<br \/>\n    tempo para recuperarmos o cabelo perdido pela natureza.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Mas n\u00e3o apresentaste raz\u00e3o substancial<br \/>\n    do porqu\u00ea de n\u00e3o haver tempo de recuper\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Ent\u00e3o, corrijo em tempo: por ser calvo<br \/>\n    o Tempo, h\u00e1 de ter at\u00e9 ao fim do mundo seguidores calvos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Previa que a conclus\u00e3o ia ser calva.<br \/>\n    Mas, devagar: quem \u00e9 que nos est\u00e1 a fazer sinais dali?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Adriana e Luciana.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Sim, sim, Ant\u00edfolo, o conspecto franze, lan\u00e7a-me<br \/>\n    olhar severo. A outras mulheres dedica s\u00f3 bland\u00edcias. Tua esposa n\u00e3o sou;<br \/>\n    n\u00e3o sou Adriana. Houve j\u00e1 tempo em que espontaneamente me juravas que nenhuma<br \/>\n    palavra te era m\u00fasica aos ouvidos, os olhos coisa alguma te distra\u00eda, nada<br \/>\n    te causava prazer ao tacto, ao paladar comida nenhuma te sabia, sen\u00e3o minha<br \/>\n    fala, e o conspecto meu, o meu contacto, e o assado que por minha m\u00e3o te dava.<br \/>\n    Que aconteceu, querido esposo, para que estranho, assim, ficasses de ti mesmo?<br \/>\n    Sim, de ti mesmo, disse, pois te encontras afastado de mim, que insepar\u00e1vel<br \/>\n    sendo de ti, me considero ainda melhor que a melhor parte de ti mesmo. Pois<br \/>\n    sabe, meu amor: fora mais f\u00e1cil no mar deitares uma gota de \u00e1gua para, intacta,<br \/>\n    depois a recolheres, sem adi\u00e7\u00e3o nenhuma ou qualquer perda, do que sem mim<br \/>\n    de mim te retirares. Como ficaras no \u00e2mago ferido se, quando nada, algu\u00e9m<br \/>\n    fosse contar-te que eu era licenciosa e que este corpo a ti, s\u00f3, consagrado,<br \/>\n    ora polu\u00eddo pela bestial lux\u00faria se encontrava? Em tua indigna\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me<br \/>\n    cuspiras, aos p\u00e9s n\u00e3o me calcaras, nestas faces n\u00e3o jogaras o nome de marido,<br \/>\n    n\u00e3o me rasgaras a manchada cute da fronte infiel, e desta m\u00e3o perjura a alian\u00e7a<br \/>\n    nupcial n\u00e3o arrancaras, com a maldi\u00e7\u00e3o quebrando-a do div\u00f3rcio? Sei que o<br \/>\n    farias. Pois ent\u00e3o n\u00e3o tardes: a mancha do adult\u00e9rio em mim se alastra; trago<br \/>\n    no sangue o crime da lux\u00faria, pois se ambos somos um, e prevaricas, na carne<br \/>\n    trago todo o teu veneno, por teu cont\u00e1gio me tornando impura. Ao nosso leito,<br \/>\n    pois, s\u00ea infiel aliado; s\u00f3 assim serei pura e tu honrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Falais comigo, mui graciosa dama?<br \/>\n    N\u00e3o vos conhe\u00e7o, pois h\u00e1 duas horas que a \u00c9feso cheguei, t\u00e3o estrangeiro \u00e0<br \/>\n    cidade como a isso que dissestes. Sou de esp\u00edrito parco de recursos para entender<br \/>\n    sequer vossos discursos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Ora, irm\u00e3o! Pode o mundo mudar tanto? Quando a<br \/>\n    mana trataste desse modo? Ela mandara te chamar por Dr\u00f4mio&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Por Dr\u00f4mio?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Por mim?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Por ti&#8230; E esta resposta me trouxeste: que ele<br \/>\n    te esbofeteara e, com seus golpes, dissera n\u00e3o ser dele a minha casa e que<br \/>\n    eu consorte sua jamais fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Conversaste, senhor, com esta senhora?<br \/>\n    Qual a inten\u00e7\u00e3o de toda esta conjura?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Eu, senhor? Nunca a vi at\u00e9 este instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Mentes, vil\u00e3o! Que h\u00e1 pouco, no mercado,<br \/>\n    me transmitiste esse recado mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Eu nunca lhe falei em toda a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Como sabe ela, ent\u00e3o o nosso nome?<br \/>\n    S\u00f3 se \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Como desdiz de tanta gravidade desta arte conchavar<br \/>\n    com vosso escravo e espica\u00e7\u00e1-lo a me fazer pirra\u00e7as! Seja embora eu culpada<br \/>\n    de tudo isso, n\u00e3o me fa\u00e7ais assim t\u00e3o mau servi\u00e7o, aumentando com vossa zombaria<br \/>\n    a imensa dor que a vida me abrevia. De v\u00f3s n\u00e3o mais me afastarei&#8230; Oh! Ride!<br \/>\n    Sois o olmo, meu marido; eu, vossa vide, cuja fraqueza \u00e0 vossa for\u00e7a aliada<br \/>\n    em rijeza tran.sforma-se acendrada. Entre n\u00f3s n\u00e3o h\u00e1 linha divis\u00f3ria, se n\u00e3o<br \/>\n    for, t\u00e3o-somente, a vil esc\u00f3ria da turba parasita: erva daninha, musgo e o<br \/>\n    mais que no tronco cresce asinha, e que, por falta de desbaste e corte, te<br \/>\n    causa confus\u00e3o e te d\u00e1 morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Fala comigo; sinto-me abalado&#8230; Em<br \/>\n    sonhos, pois, t\u00ea-la-ia desposado? Ou durmo, ainda, e penso ouvir tudo isto,<br \/>\n    julgando ver o que jamais hei visto? Enquanto certa for esta incerteza, deterei<br \/>\n    a ilus\u00e3o com mais firmeza. Ou durmo, ainda, e penso ouvir tudo isto, julgando<br \/>\n    ver o que jamais hei visto? Enquanto certa for esta incerteza, deterei a ilus\u00e3o<br \/>\n    com mais firmeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Dr\u00f4mio, vai p\u00f4r a mesa com os criados.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 \u00d3 Deus do c\u00e9u, perdoai os meus pecados!<br \/>\n    Estamos num pa\u00eds de fadas lindas, de elfos, corujas, de ilus\u00f5es infindas.<br \/>\n    Fa\u00e7amos-lhe a vontade; do contr\u00e1rio, nos chupa o sangue esp\u00edrito nef\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Por que n\u00e3o andas, peste? Vamos, Dr\u00f4mio; n\u00e3o me<br \/>\n    mudes a casa em manic\u00f4mio.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Fui transformado, mestre? Eu n\u00e3o sou<br \/>\n    eu?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Foste, sim; eu tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o sou eu.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o valho, como gente, um s\u00f3 pataco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 A forma ainda conservas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 De macaco.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Se em algo te mudaste, foi em burro.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 \u00c9 certo; ela me d\u00e1 capim e eu zurro.<br \/>\n    Se habituado eu n\u00e3o fosse a levar sela, saberia tamb\u00e9m o nome dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Basta! Basta! N\u00e3o mais hei de portar-me como uma<br \/>\n    tola, que a m\u00e3o leva aos olhos para chorar, enquanto o amo e o criado de minha<br \/>\n    dor se riem. J\u00e1 est\u00e1 pronto, senhor, nosso jantar. Dr\u00f4mio, de guarda ficar\u00e1s<br \/>\n    no port\u00e3o. Hoje, marido, jantaremos em cima; hei de obrigar-vos a me contar<br \/>\n    as vossas peraltices. Ouve, malandro: caso algu\u00e9m procure teu patr\u00e3o, dize<br \/>\n    que ele jantou fora. Veda a todos a entrada. Mana, vamos. Dr\u00f4mio, tu ficar\u00e1s<br \/>\n    como porteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA (<i>\u00e0 parte<\/i>) Isto \u00e9 c\u00e9u, terra,<br \/>\n    ou inferno verdadeiro? Durmo ou velo? Sou louco ou tenho ju\u00edzo? Meu nome ela<br \/>\n    repete com um sorriso. Pouco importa; vejamos se isto dura; com ela embarcarei<br \/>\n    nesta aventura.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Mestre, \u00e9 for\u00e7a que eu fa\u00e7a de porteiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Se queres conservar o coco inteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Vamos, Ant\u00edfolo; o jantar primeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">ATO III<\/a><\/h4>\n<p> <strong>Cena I<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante da casa de Ant\u00edfolo de \u00c9feso. Entram<br \/>\n    Ant\u00edfolo de \u00c9feso, Dr\u00f4mio de \u00c9feso. \u00c2ngelo e Baltasar.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Desculpai-me, meu caro senhor \u00c2ngelo,<br \/>\n    mas minha esposa fica atrabili\u00e1ria, quando fora de casa eu me demoro. Dizei-lhe<br \/>\n    que ficamos distra\u00eddos na oficina, a admirar vossa per\u00edcia. na confec\u00e7\u00e3o de<br \/>\n    sua gargantilha, que amanh\u00e3 lhe trareis sem falta \u00e0 casa. Ora vede, afirmou-me<br \/>\n    este malandro que me havia encontrado no mercado, que lhe bati e reclamara,<br \/>\n    instante, mil marcos de ouro; enfim, que renegara minha esposa e meu lar.<br \/>\n    Ent\u00e3o, borracho, que pretendias ao dizer aquilo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Dizei, senhor, embora o que vos agradar,<br \/>\n    mas os sinais da sova eu poderei mostrar. Fosse eu de pergaminho e vossa m\u00e3o<br \/>\n    de tinta, ler\u00edeis vossa firma em letra mui distinta e poder\u00edeis ver o que<br \/>\n    de v\u00f3s eu penso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Penso que sois um asno.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Ali\u00e1s mostrais bom senso, que outra coisa<br \/>\n    n\u00e3o \u00e9 quem, por causa de nada, ag\u00fcenta o dia todo improp\u00e9rio e pancada. Mas<br \/>\n    se asno puro eu sou, conv\u00e9m terdes cuidado, porque n\u00e3o vos alcance um coice<br \/>\n    delicado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Triste me pareceis, meu caro Baltasar;<br \/>\n    mas ficareis alegre \u00e0 mesa do jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Com tanta gentileza, \u00e9 que eu posso esperar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Peixe e carnes, amigos, esplendem mais<br \/>\n    mesa; muita conversa \u00e9 ind\u00edcio, \u00e0s vezes, de avareza.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Banal coisa \u00e9 comida; a boa prosa \u00e9 rara.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Mas uma mesa escassa a boca torna amara.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 A gentileza \u00e0 mesa \u00e9 h\u00f3spede eloq\u00fcente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Quando avaro \u00e9 o hospedeiro e o convidado<br \/>\n    doente. No entanto, se primor n\u00e3o for minha comida, ao menos com prazer vos<br \/>\n    ser\u00e1 oferecida. A porta est\u00e1 fechada? Abri-la manda asinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Br\u00edgida, Madalena, B\u00e1rbara, Joaninha!<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Cretino, idiota, alarve,<br \/>\n    est\u00fapido, demente! Vai-te embora, ou, calado, senta-te ao batente. Por que<br \/>\n    chamar um bando, assim, de servas tontas, quando uma j\u00e1 \u00e9 demais? Pensas que<br \/>\n    me amedrontas?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Quem \u00e9 que em nossa casa ora faz de porteiro?<br \/>\n    Ficar aqui n\u00e3o pode o mestre o dia inteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Ora, que v\u00e1 pescar!<br \/>\n    Deixe de cretinismo; se n\u00e3o, com o frio os p\u00e9s apanham reumatismo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Abre logo! Ou uma tunda esperas que eu<br \/>\n    te d\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Abrir, caro senhor?<br \/>\n    Falta saber por qu\u00ea.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Por qu\u00ea? Para jantar. De fome estou varado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Ent\u00e3o ide a outra parte;<br \/>\n    aqui j\u00e1 houve assado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Quem \u00e9s, que assim me p\u00f5es de minha casa<br \/>\n    fora?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Dr\u00f4mio, caro senhor,<br \/>\n    gentil porteiro agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Roubaste-me, vil\u00e3o, o of\u00edcio e o pr\u00f3prio<br \/>\n    nome. Aquele me valeu estar morrendo \u00e0 fome; o outro me rende mais: pancada<br \/>\n    e insultos a esmo. Mas se tivesse sido, h\u00e1 pouco, Dr\u00f4mio mesmo, por outro<br \/>\n    nome o teu terias j\u00e1 trocado e desejaras ser mero asno do mercado.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Dr\u00f4mio, que barulheira \u00e9 essa no<br \/>\n    port\u00e3o? Quem bate assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 \u00c9 o mestre, L\u00facia; abres ou n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Chegou tarde demais. Vai; dize ao<br \/>\n    patr\u00e3o isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 S\u00f3 rindo muito, oh Deus! De tanto rebuli\u00e7o.<br \/>\n    Mas conheceis, acaso, um dito muito certo, de que uma boa sova, \u00e0s vezes&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Oh! decerto! faz esquecer a fome<br \/>\n    a quem n\u00e3o v\u00ea comida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Se tu te chamas L\u00facia,<br \/>\n    L\u00facia, \u00e9s bem sabida!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Pequena, n\u00e3o me ouviste? Aqui fala o<br \/>\n    patr\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 J\u00e1 vos perguntei isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 E v\u00f3s dissestes \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Boa resposta, agora; estamos m\u00e3o por m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Vamos, idiota, abri!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Pois n\u00e3o, caro senhor; mas primeiro<br \/>\n    contai-me a causa desse ardor.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Mestre, arrombai a porta.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Assim; malhai de rijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Deixa, que, ap\u00f3s abri-la, a prosa eu<br \/>\n    te corrijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Se eu chamar pela guarda, ireis todos<br \/>\n    de embrulho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Dr\u00f4mio, que significa \u00e0 porta esse<br \/>\n    barulho?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Que posso eu vos dizer?<br \/>\n    Mas estranhar n\u00e3o h\u00e1 de quem tiver visto o que eu j\u00e1 vi nesta cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Esposa, quero ver-te; a fome n\u00e3o me importa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Tua esposa, tratante? Afasta-te<br \/>\n    da porta.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Esse \u201ctratante\u201d, mestre, a honra vos deixa<br \/>\n    torta.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 N\u00e3o acharemos c\u00e1 nem prosa nem comida.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 E n\u00f3s a discutir qual fosse a preferida!<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Mandai-os, mestre, entrar, que a fome \u00e9<br \/>\n    desabrida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 H\u00e1 qualquer coisa no ar que nos impede<br \/>\n    a entrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Com essa capa, mestre, o frio \u00e9 quase nada.<br \/>\n    N\u00f3s gememos c\u00e1 fora, enquanto na lareira, l\u00e1 dentro, o fogo estrala: \u00e9 bela<br \/>\n    a brincadeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Vou arrombar a porta e a todos dar o<br \/>\n    troco.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Vinde, que eu vos prometo<br \/>\n    abrir em dois o coco.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 F\u00e1cil \u00e9 prometer; mas com facilidade n\u00e3o<br \/>\n    se transforma em ato um soco de verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Vejo que de apanhar<br \/>\n    tu tens muita vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Vamos, deixa-me entrar; quero ir at\u00e9 \u00e0<br \/>\n    cozinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Pois n\u00e3o, caro senhor;<br \/>\n    mas s\u00f3 quando a galinha penas j\u00e1 n\u00e3o tiver e o peixe reluzente puder no mar<br \/>\n    viver sem guelras e contente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Vou arrombar a porta; arranja uma alavanca.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Uma alavanca, mestre? Agora, sim, a tranca<br \/>\n    no gajo vai saltar e, como o seu peixinho sem guelras, ele passa a bocejar<br \/>\n    sozinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 A alavanca! Depressa! H\u00e1 muita urg\u00eancia!<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Em tudo; amigo, \u00e9 de mister paci\u00eancia. Com isso<br \/>\n    fazeis guerra \u00e0 vossa pr\u00f3pria reputa\u00e7\u00e3o, chamando para dentro do \u00e2mbito da<br \/>\n    mal\u00edcia a honra impoluta de vossa digna esposa. A comprovada prud\u00eancia que<br \/>\n    lhe \u00e9 pr\u00f3pria, a alta virtude, os anos, a mod\u00e9stia, valer fazem a seu favor<br \/>\n    alguma causa oculta para tal proceder, a qual vos foge. N\u00e3o o duvideis, senhor,<br \/>\n    mas \u00e9 certeza que ela vai desculpar-se, revelando-vos o motivo de estar fechada<br \/>\n    a porta. Deixai que eu vos oriente neste passo. Retirai-vos paciente; vamos<br \/>\n    todos jantar no Tigre, e quando j\u00e1 for noite, sozinho voltareis para saberdes<br \/>\n    a raz\u00e3o desta ins\u00f3lita recusa. Se vos dispondes a empregar viol\u00eancia numa<br \/>\n    ocasi\u00e3o de tanto movimento, h\u00e3o de surgir, por certo, coment\u00e1rios que, pela<br \/>\n    turba ignara propalados, a despeito do vosso nome limpo, acolhida achar\u00e3o<br \/>\n    por toda parte, at\u00e9 mesmo na vossa sepultura, quando j\u00e1 n\u00e3o viverdes. Que<br \/>\n    a cal\u00fania, como bens transmitidos por heran\u00e7a, sempre cresce onde venha a<br \/>\n    encontrar ansa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Tendes raz\u00e3o; vou retirar-me quieto e,<br \/>\n    embora a contragosto, hei de esfor\u00e7ar-me por parecer alegre. Ora me lembro<br \/>\n    de uma donzela de agrad\u00e1vel prosa, bonita, espirituosa, algo estouvada, mas,<br \/>\n    no fundo, gentil. Por causa dessa criatura minha esposa \u2014 sem motivos para<br \/>\n    isso, vos afirmo \u2014 muitas vezes tem feito cenas de ci\u00fame incr\u00edveis. Vamos<br \/>\n    jantar com ela. (<i>A \u00c2ngelo.<\/i>) Ide a cadeia buscar em vossa casa, pois<br \/>\n    j\u00e1 deve estar pronta, e levai-a ao Porco-espinho que \u00e9 onde mora a mulher<br \/>\n    de que vos disse. Vou dar-lhe essa cadeia, mas que seja s\u00f3 para minha esposa<br \/>\n    ficar fula. Nossa hospedaria ganhar\u00e1 o presente.Ide, senhor; n\u00e3o percais tempo:<br \/>\n    h\u00e1 urg\u00eancia. J\u00e1 que meu lar se me tornou inimigo, verei se alhures bem-estar<br \/>\n    consigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Pretendo l\u00e1 chegar dentro de uma hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Vai ficar cara a brincadeira&#8230; Embora!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><strong>Cena II<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Entram Luciana e Ant\u00edfolo de Siracusa.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Como se d\u00e1 que te hajas esquecido dos deveres de<br \/>\n    esposo? Que a sincera flora\u00e7\u00e3o de um amor t\u00e3o belo e fido tenha fanado em<br \/>\n    plena primavera? Na constru\u00e7\u00e3o, o amor s\u00f3 faz ru\u00ednas? Se desposaste minha<br \/>\n    irm\u00e3 somente pela sua riqueza e ora a abominas, s\u00ea, ao menos, com ela mais<br \/>\n    clemente. Se amas alhures, usa de cautela; esconde o falso amor num manto<br \/>\n    escuro; n\u00e3o fa\u00e7as desses olhos a janela por onde ela entreveja o seu futuro.<br \/>\n    Arauto da desonra n\u00e3o consintas que tua l\u00edngua se torne; a deslealdade se<br \/>\n    mascara com frases indistintas que o sentimento revelar n\u00e3o h\u00e1 de. S\u00ea de olhar<br \/>\n    meigo; ao v\u00edcio d\u00e1 apar\u00eancia de \u00e1lacre mensageiro da virtude; guarda em todos<br \/>\n    os atos conveni\u00eancia, embora abrigues no imo o crime rude. Ensina a santidade<br \/>\n    ao v\u00edcio imundo; s\u00ea perjuro em segredo. Por que dares de ti conhecimento a<br \/>\n    todo o mundo? Que malfeitor assume os pr\u00f3prios ares? Duplamente a ofendeste,<br \/>\n    quando, \u00e0 mesa, mostraste que traidor foste ao seu leito; bastarda fama alca\u00e7ar\u00e1<br \/>\n    a vileza, se de fraseado se valer com jeito. Pobres mulheres! Dai-nos a ilus\u00e3o<br \/>\n    de que somos realmente idolatradas; deixai a luva e retirai a m\u00e3o, que inda<br \/>\n    vos perdoar\u00e3o essas coitadas. Voltai, por isso, mano, sem demora; ide falar<br \/>\n    com a mana e consol\u00e1-la, que um halo santo a insensatez decora, quando promove<br \/>\n    paz fingida fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Suave senhora, ignoro vosso nome,<br \/>\n    nem sei por que prod\u00edgio o meu soubestes, a n\u00e3o ser que \u00e0 beleza se vos some<br \/>\n    algo de esp\u00edrito e poder celestes. Ensinai-me a pensar, doce criatura; mostrai<br \/>\n    minha inata grosseria, fraca, propensa a errar, de ess\u00eancia impura, da vossa<br \/>\n    meiga voz toda a magia. Por que lutais contra minha alma ing\u00eanua, levando-a<br \/>\n    por caminho n\u00e3o trilhado? Sois deusa? Desejais que de alma estr\u00eanua, depois<br \/>\n    de eu renascer, fique dotado? Ent\u00e3o me transformai, que ao vosso encanto nada<br \/>\n    terei a opor. Mas, se \u00e9 verdade que eu sou eu mesmo, o irreprim\u00edvel pranto<br \/>\n    de vossa bela irm\u00e3 fazer n\u00e3o h\u00e1 de que eu me conven\u00e7a de que sou casado nem<br \/>\n    de que ao leito dela fui perjuro. A v\u00f3s \u00e9 que me sinto agrilhoado; a v\u00f3s,<br \/>\n    t\u00e3o-s\u00f3, me prende o amor mais puro. Oh! n\u00e3o me arrastes, divinal sereia, com<br \/>\n    tua voz a perecer nas ondas que tua irm\u00e3 provoca. A m\u00e1goa alheia n\u00e3o deve<br \/>\n    preocupar-nos. N\u00e3o te escondas de minha vista; deixa que o teu canto pleiteie<br \/>\n    a tua causa; a coma de ouro sobre as ondas espalha, porque o espanto me leve<br \/>\n    a cobi\u00e7ar esse tesouro. E nesse leito, assim, acalentado pela ilus\u00e3o, encontrarei<br \/>\n    a morte, sem maldizer, contudo, do meu fado: que morra o leve amor, se n\u00e3o<br \/>\n    tem sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Que esp\u00e9cie de loucura vos domina?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o \u00e9 loucura; \u00e9 a minha triste sina.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 De vossos olhos nasce a causa disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Por perto estardes, sol: eis o feiti\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Contemplai minha irm\u00e3 desventurada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Olhar a noite, amor, \u00e9 n\u00e3o ver nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 N\u00e3o me chames de amor; sim minha mana.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 A irm\u00e3 da mana.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 A mana.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 \u00d3 desumana! \u00c9s tu mesma, de mim a<br \/>\n    melhor parte, que dos meus olhos a vis\u00e3o reparte, o cora\u00e7\u00e3o mais caro deste<br \/>\n    peito, minha sorte, meu \u00fanico direito de entrar no c\u00e9u, o c\u00e9u de minha vida,<br \/>\n    quanto almeja minha alma, de atrevida.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Dize isso tudo a minha irm\u00e3, somente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 S\u00ea, pois, tua pr\u00f3pria irm\u00e3, que, eternamente,<br \/>\n    ter\u00e1s aos p\u00e9s meu cora\u00e7\u00e3o rendido; mulher n\u00e3o tenho; tu n\u00e3o tens marido. D\u00e1-me<br \/>\n    a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Acalmai-vos um momento; vou da mana buscar o assentimento.<br \/>\n    (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Dr\u00f4mio de Siracusa, apressado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Que \u00e9 que h\u00e1, Dr\u00f4mio? Aonde vais com<br \/>\n    tanta pressa?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Reconheceis-me, senhor? Sou Dr\u00f4mio,<br \/>\n    realmente? Sou vosso criado? Eu sou eu mesmo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Sim, \u00e9s Dr\u00f4mio, \u00e9s meu criado, \u00e9s<br \/>\n    tu mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Pois eu sou um asno, sou criado de uma<br \/>\n    mulher e n\u00e3o estou em mim mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Que mulher, homem? E de que modo n\u00e3o<br \/>\n    est\u00e1s em ti mesmo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Ora essa, n\u00e3o estou em mim mesmo, por<br \/>\n    pertencer a uma mulher, uma mulher que me reclama, uma mulher que me persegue,<br \/>\n    uma mulher que me quer para si.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 E que direito ela se arroga, para<br \/>\n    te reclamar como dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 O direito que poder\u00edeis ter sobre o<br \/>\n    vosso cavalo. Como besta leg\u00edtima \u00e9 que ela me quer, isto \u00e9, n\u00e3o por eu ser<br \/>\n    besta, de fato, mas por ser ela uma criatura bestial.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Quem \u00e9 ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Um corpo respeit\u00e1vel; sim, um desses<br \/>\n    corpos a que n\u00e3o nos podemos referir sem acrescentarmos: salvo o vosso respeito.<br \/>\n    Tive sorte muito magra nesse enlace, apesar de se tratar de um casamento extraordinariamente<br \/>\n    gordo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Que entendes por casamento gordo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Ora, senhor, \u00e9 porque se trata de uma<br \/>\n    cozinheira que \u00e9 s\u00f3 enx\u00fandia. N\u00e3o sei de que modo utiliz\u00e1-la, se n\u00e3o for aproveit\u00e1-la<br \/>\n    como l\u00e2mpada para fugir dela, valendo-se de sua pr\u00f3pria luz. Posso-vos afian\u00e7ar<br \/>\n    que a sua rodilha ensebada poderia arder durante um inverno da Pol\u00f4nia. Se<br \/>\n    ela viver at\u00e9 o dia do Ju\u00edzo final, h\u00e1 de arder uma semana mais do que o mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 De que cor \u00e9 ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Negra como estes sapatos, mas de rosto<br \/>\n    n\u00e3o t\u00e3o limpo, e isso por suar tanto, que poder\u00edamos patinhar com lama acima<br \/>\n    dos sapatos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 \u00c9 defeito que se corrige com \u00e1gua.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Imposs\u00edvel, senhor; isso faz parte dela;<br \/>\n    nem todo o dil\u00favio de No\u00e9 chegaria para limp\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Como se chama?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Vera, senhor; mas seu nome e tr\u00eas quartas,<br \/>\n    isto \u00e9, uma vara e tr\u00eas quartas n\u00e3o a alcan\u00e7ariam de uma a outra anca.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Ent\u00e3o \u00e9 larga de verdade!<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o mede mais dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a do que<br \/>\n    de uma a outra cadeira; \u00e9 esf\u00e9rica; parece um globo terrestre; eu seria capaz<br \/>\n    de encontrar nela todos os pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Em que parte do seu corpo se encontra<br \/>\n    a Esc\u00f3cia?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Descobri-a pela esterilidade: fica na<br \/>\n    palma das m\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Onde fica a Fran\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Na fronte, senhor, armada e em revolta,<br \/>\n    a guerrear os pr\u00f3prios cabelos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Onde fica a Inglaterra?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Procurei as escarpas calc\u00e1rias, mas<br \/>\n    n\u00e3o encontrei nada branco. No entanto, presumo que fique no queixo, pela umidade<br \/>\n    salgada que corre entre ela e a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Onde fica a Espanha?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Por minha f\u00e9, n\u00e3o a vi; mas a senti<br \/>\n    pelo calor do h\u00e1lito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 E a Am\u00e9rica? E as \u00cdndias?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Oh, senhor! No nariz, inteiramente coberta<br \/>\n    de rubis, carb\u00fanculos, safiras, inclinando a rica apar\u00eancia para o h\u00e1lito<br \/>\n    abrasador da Espanha, que envia armadas sucessivas de gale\u00f5es para tomarem<br \/>\n    carga no nariz.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 E a B\u00e9lgica e os Pa\u00edses-Baixos, onde<br \/>\n    ficam?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Oh, senhor! N\u00e3o olhei t\u00e3o para baixo,<br \/>\n    assim. Em suma, para concluirmos: esse pesadelo, essa feiticeira alegou direitos<br \/>\n    sobre a minha pessoa; chamou-me de Dr\u00f4mio, jurou que eu era seu noivo, enumerou<br \/>\n    sinais secretos que tenho no corpo, tal como certa mancha numa das esp\u00e1duas,<br \/>\n    um sinal no pesco\u00e7o, uma grande verruga no bra\u00e7o esquerdo, a ponto de eu fugir<br \/>\n    dela, tomado de espanto, como quem foge de uma cigana. Se eu carecesse de<br \/>\n    f\u00e9, sem possuir cora\u00e7\u00e3o resistente, ora cachorro seria, ou copeiro da bruxa<br \/>\n    potente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o percas tempo; vai direito ao porto.<br \/>\n    Se houver, acaso, vento favor\u00e1vel, n\u00e3o passarei a noite na cidade. Se achares<br \/>\n    algum barco quase pronto para sair, volta depressa; eu fico no mercado, passeando,<br \/>\n    tua espera. Se todos nos conhecem, e eu ningu\u00e9m, demorar na cidade n\u00e3o conv\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Como quem de urso foge e at\u00e9 da Morte,<br \/>\n    fujo eu de quem me quer para consorte. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Neste lugar s\u00f3 moram feiticeiras;<br \/>\n    \u00e9 tempo de tratar de sair dele. Aquela que me chama de marido n\u00e3o a aceita<br \/>\n    minha alma como esposa. Mas sua bela irm\u00e3 possui tal gra\u00e7a, t\u00e3o soberano olhar,<br \/>\n    fala apraz\u00edvel, presen\u00e7a encantadora, que, por pouco fiquei traidor de minha<br \/>\n    pr\u00f3pria causa. Antes de cometer a\u00e7\u00e3o t\u00e3o feia, ficarei surdo ao canto da sereia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra \u00c2ngelo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Mestre Ant\u00edfolo!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Pronto; assim me chamo<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Sei disso, meu senhor. Eis a cadeia. Pensei em vos<br \/>\n    achar no Porco-espinho; s\u00f3 demorei para acabar a obra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Que desejais que eu fa\u00e7a desse mimo?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 O que quiserdes; para v\u00f3s foi feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Para mim? Sem o ter encomendado?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 N\u00e3o uma vez, nem duas, mas duzentas. Fazei dela<br \/>\n    presente a vossa esposa; ao jantar vos farei uma visita, para que me pagueis<br \/>\n    o meu trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Ent\u00e3o recebei logo o que vos devo,<br \/>\n    que \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o mais pordes os olhos em cima da cadeia e do dinheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Sois muito espirituoso; passai bem. (<i>Sai, deixando<br \/>\n    a cadeia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o sei o que pensar disto, tamb\u00e9m.<br \/>\n    Mas uma coisa \u00e9 certa: ningu\u00e9m h\u00e1 de recusar um tal mimo por vontade. Pelo<br \/>\n    que vejo, aqui, e aqui somente, em plena rua ganha-se presente. Vou esperar<br \/>\n    por Dr\u00f4mio no mercado; havendo barco, fujo de bom grado. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">ATO IV<\/a><\/h4>\n<p> <strong>Cena I<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram o segundo mercador,<br \/>\n    \u00c2ngelo e um oficial de justi\u00e7a.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Desde o passado Pentecoste a conta me ficaste<br \/>\n    devendo, sem que a afronta de vos cobrar t\u00e9 agora eu vos fizesse; nem a faria<br \/>\n    ainda, se n\u00e3o fosse ter de ir \u00e0 P\u00e9rsia e estar necessitado de florins para<br \/>\n    a viagem. Por tudo isso, dai-me satisfa\u00e7\u00e3o; caso contr\u00e1rio, este oficial tem<br \/>\n    ordem de prender-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Ant\u00edfolo me deve justamente a soma que eu vos devo<br \/>\n    Neste instante deixei com ele uma cadeia de ouro, cujo importe \u00e0s cinco horas<br \/>\n    ser\u00e1 pago. Se a bondade tiverdes de ir comigo at\u00e9 sua casa, saldarei a d\u00edvida<br \/>\n    e me confessarei muito obrigado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Vindo da casa da Cortes\u00e3, entram Ant\u00edfolo de \u00c9feso e<br \/>\n    Dr\u00f4mio de \u00c9feso.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Poupai-vos do trabalho; ei-lo que chega.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Enquanto o ourives eu procuro, trata<br \/>\n    de comprar uma corda, cujas pontas destino a minha esposa e seus comparsas,<br \/>\n    por me terem vedado, em pleno dia, a entrada em minha casa. N\u00e3o demores; compra<br \/>\n    a corda depressa e leva-a a casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Comprarei uma renda de mil libras! Vou<br \/>\n    comprar logo a corda. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Bem aviado ficar\u00e1 quem em v\u00f3s tiver confian\u00e7a.<br \/>\n    Dissestes que a cadela levar\u00edeis, mas visita nenhuma me fizestes. Certamente<br \/>\n    n\u00e3o foste, por pensar que o nosso amor seria mais dur\u00e1vel nos liames da cadeia;<br \/>\n    e, assim, faltastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Pondo de parte o vosso humor jocoso, eis a nota<br \/>\n    do peso da cadeia, t\u00e9 o \u00faltimo quilate. A qualidade do ouro e a m\u00e3o de obra<br \/>\n    dispendiosa, soma perfazem superior de tr\u00eas ducados \u00e0 que eu devo a este am\u00e1vel<br \/>\n    cavalheiro. Por isso vos suplico lhe pagardes, pois precisa viajar, s\u00f3 estando,<br \/>\n    agora, a aguardar que eu a d\u00edvida liquide.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 N\u00e3o tenho aqui dinheiro suficiente para<br \/>\n    essa conta. Al\u00e9m do mais, preciso fazer alguns neg\u00f3cios na cidade. Ide, meu<br \/>\n    bom senhor, com este estrangeiro, \u00e0 minha resid\u00eancia, sem deixardes de levar<br \/>\n    a cadeia. Minha esposa vos pagar\u00e1 a soma combinada. \u00c9 bem poss\u00edvel que cheguemos<br \/>\n    juntos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Ent\u00e3o v\u00f3s mesmo levareis o mimo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 N\u00e3o; levai-o v\u00f3s mesmos; estou com pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Muito bem; a cadeia est\u00e1 convosco?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Uma vez que comigo n\u00e3o se encontra, convosco<br \/>\n    est\u00e1, decerto. Do contr\u00e1rio, for\u00e7a ser\u00e1 voltardes sem dinheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, dai-me a cadeia, pois este<br \/>\n    cavalheiro est\u00e1 com pressa, que os ventos e a mar\u00e9 t\u00eam prazo certo. Para minha<br \/>\n    vergonha, j\u00e1 o retive mais do que fora justo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Ora, senhor, lan\u00e7ais m\u00e3o desse plano,<br \/>\n    como escusa por haverdes faltado com a palavra de irdes ao Porco-espinho.<br \/>\n    A mim cabia censurar-vos a falta; ao inv\u00e9s disso, deblaterais como mulher<br \/>\n    furiosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Senhor, as horas passam; vamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Bem vedes como agora ele se esquiva. A cadeia&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Levai-a \u00e0 minha esposa; ela vos pagar\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Vamos com isso; sabeis que eu vo-la dei faz pouco<br \/>\n    tempo. Dai-me um sinal qualquer, ou devolvei-a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Ora, a pilharia passa dos limites. A<br \/>\n    cadeia, senhor! Deixai-me v\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 N\u00e3o tenho tempo para tais parlendas. Dizei-me,<br \/>\n    bom senhor, vosso prop\u00f3sito: pagais ou n\u00e3o? No caso de recusa, farei que este<br \/>\n    oficial o leve preso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Eu pagar-vos? Dizei: quanto vos devo?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 O pre\u00e7o, justamente, da cadeia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Nada vos devo, enquanto n\u00e3o for minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Sabeis que vo-la dei h\u00e1 meia hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 A mim n\u00e3o destes nada; isso me ofende.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Mais me ofendeis, senhor, negando o fato. Considerai<br \/>\n    que nisso empenho o cr\u00e9dito.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Muito bem. Oficial, por queixa minha, prendei-o<br \/>\n    sem demora.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 Agora mesmo. Em nome, pois, do duque,<br \/>\n    obedecei-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Minha reputa\u00e7\u00e3o sofre com isso. Ou me pagais o pre\u00e7o<br \/>\n    da cadeia, ou vos farei prender in continenti.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Consentir em pagar o que n\u00e3o devo? Manda<br \/>\n    prender-me, est\u00fapido, se o ousares.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Oficial, eis o vosso emolumento; prendei-o a meu<br \/>\n    pedido. Em circunst\u00e2ncias como esta, ao pr\u00f3prio irm\u00e3o eu n\u00e3o poupara, se tentasse<br \/>\n    ofender-me assim de p\u00fablico.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 Estais preso, senhor; a queixa ouvistes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Sim, obede\u00e7o at\u00e9 pagar a fian\u00e7a. Mas,<br \/>\n    por Deus, pagareis a brincadeira com quanto ouro tiverdes na oficina.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Ora, senhor, hei de achar leis em \u00c9feso, n\u00e3o o duvido,<br \/>\n    para vosso opr\u00f3brio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Dr\u00f4mio de Siracusa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Mestre, h\u00e1 no porto um barco de Epidamno,<br \/>\n    que aguarda t\u00e3o-somente o propriet\u00e1rio para partir. J\u00e1 pus a bordo toda nossa<br \/>\n    bagagem. Comprei \u00f3leo, b\u00e1lsamo e aqua-vitae. De jeito est\u00e1 o navio; sopra<br \/>\n    fresco de terra o alegre vento. S\u00f3 a v\u00f3s e ao dono, mestre, eles aguardam.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Que \u00e9 isso? Est\u00e1s maluco? Que navio de<br \/>\n    Epidamno por mim est\u00e1 esperando?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 O navio, senhor, que me incumbistes<br \/>\n    de procurar para comprar passagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 B\u00eabedo, o que eu mandei foi que comprasses<br \/>\n    uma corda e te disse para o que era.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Corda? Nenhuma corda me pedistes. O<br \/>\n    que mandastes foi que eu visse um barco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Com mais vagar resolverei o assunto e<br \/>\n    ensinarei a ouvires o que deves. Procura Adriana, biltre, sem demora; d\u00e1-lhe<br \/>\n    esta chave; dize-lhe que dentro da gaveta da mesa recoberta pelo tapete turco<br \/>\n    b\u00e1 uma bolsa cheia de moedas de ouro. Que ma envie por ti, depressa. Conta-lhe<br \/>\n    que me acho detido em plena rua e que preciso pagar uma cau\u00e7\u00e3o. N\u00e3o te demores;<br \/>\n    detido esperarei tempos melhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem o mercador, \u00c2ngelo e o oficial de justi\u00e7a.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Essa Adriana \u00e9 da casa em que jantamos<br \/>\n    e onde a tal Dosabel me reclamava para marido. Mas \u00e9 muito grande, penso,<br \/>\n    para cingi-la nestes bra\u00e7os. Contudo, irei, embora a contragosto; servo \u00e9<br \/>\n    soldado que n\u00e3o larga o posto. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p><strong>Cena II<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto em casa de Ant\u00edfolo de \u00c9feso.<br \/>\n    Entram Adriana e Luciana.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Ah, Luciana, ele teve esse descoco? Lia-se-lhe<br \/>\n    no olhar que era sincero? Estava s\u00e3o? N\u00e3o parecia louco? No que disseste acreditar<br \/>\n    n\u00e3o quero. Refletia no rosto a luta, acaso, dos meteoros do peito em campo<br \/>\n    raso?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Primeiro asseverou n\u00e3o ser casado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Mais, com isso, ele aumenta o meu cuidado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Depois jurou que aqui era estrangeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Perjuro agora, como o foi primeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Depois, falei de v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 E ele, que disse?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Que a mim, s\u00f3, amava; o mais era tolice.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 De que modo falava esse demente?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Se fosse honroso o pleito, convincente. Elogiou-me<br \/>\n    a beleza; ap\u00f3s, a fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 E tu, que lhe disseste? Vamos; fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Calma, te pe\u00e7o; \u00e9 de mister paci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Calma n\u00e3o posso ter nesta prem\u00eancia. Se n\u00e3o do<br \/>\n    peito, ao menos hei de o gosto fazer da l\u00edngua. Ant\u00edfolo \u00e9 mal posto, feio,<br \/>\n    velho, corcunda, deformado, de fei\u00e7\u00f5es horrorosas, rosto inchado, viciado,<br \/>\n    bruto, de maldade infinda, de corpo horrendo e mente pior ainda.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Quem ci\u00fames pode ter de tal marido? Ningu\u00e9m um<br \/>\n    mal lastima, se perdido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 N\u00e3o \u00e9 assim que o descreve o meu carinho. Se outros<br \/>\n    olhos o vissem desse jeito! O abibe chora, quando perde o ninho. A l\u00edngua<br \/>\n    o insulta, mas o adora o peito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Dr\u00f4mio de Siracusa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Vamos! Depressa! A bolsa da gaveta!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Par que corres assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o sou perneta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Onde est\u00e1 teu patr\u00e3o, Dr\u00f4mio? N\u00e3o vem? Par que<br \/>\n    demora tanto? Ele est\u00e1 bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Sim, no limbo do T\u00e1rtaro, no Averno;<br \/>\n    multo pior ali do que no inferno. Um dem\u00f4nio de vestes permanentes p\u00f4s sobre<br \/>\n    ele a m\u00e3ozinha, um desses homens de peito duro abotoado de a\u00e7o. Um duende,<br \/>\n    um lobo, um monstro de esconjuro, um sujeito envolvido em couro duro, enredador,<br \/>\n    trai\u00e7oeiro-mor, pisa-mansinho, que aos homens veda a pra\u00e7a, as ruas e o caminho,<br \/>\n    que parece perder o rasto a toda gente, mas nas chamas do inferno os lan\u00e7a<br \/>\n    eternamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Mas, afinal, que h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 O que h\u00e1, n\u00e3o sei dizer; sei que ele<br \/>\n    est\u00e1 na grade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Como! Est\u00e1 preso? \u00c0 intima\u00e7\u00e3o de quem?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o sei que intima\u00e7\u00e3o o p\u00f4s em tal agrura;<br \/>\n    s\u00f3 sei que o intimador tem farda muito dura. Urge que lhe mandeis a bolsa<br \/>\n    da gaveta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Vai busc\u00e1-la. (<i>Sai Luciana.<\/i>) N\u00e3o sei que<br \/>\n    pensar disso. Tinha d\u00edvidas e eu sem saber nada. Conta o resto: foi posto<br \/>\n    na cadeia?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 \u00c9 isso, uma cadeia; de apar\u00eancia mais<br \/>\n    apraz\u00edvel, mas cadeia, em suma. N\u00e3o ouvistes soar?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Qu\u00ea? A cadeia?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Cadeia, n\u00e3o; o sino! \u00c9 tempo de ir-me<br \/>\n    embora; \u00e0s duas o deixei; ouvi bater uma hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Para tr\u00e1s anda o tempo. Oh coisa singular!<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Se a hora encontra um sargento, o medo<br \/>\n    a faz recuar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Tem d\u00edvidas o tempo! Oh, como falas certo!<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 O tempo est\u00e1 falido, a ru\u00edna j\u00e1 anda<br \/>\n    perto. E mais: \u00e9 um bom gatuno, \u00e0 espreita e de vigia; manso se escoa \u00e0 noite<br \/>\n    e devagar de dia. Se o sargento o persegue e os bens tem em penhora, que muito<br \/>\n    que se atrase em cada dia uma hora?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Luciana.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Eis o dinheiro, Dr\u00f4mio; vai depressa e traze o<br \/>\n    teu senhor j\u00e1 para casa. De um pensamento, irm\u00e3, estou possessa, que ora me<br \/>\n    deixa fria, ora me abrasa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><strong>Cena III<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entra Ant\u00edfolo de Siracusa.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o encontro ningu\u00e9m nesta cidade<br \/>\n    que n\u00e3o me cumprimente como a velho conhecido. Meu nome todos sabem. Uns,<br \/>\n    dinheiro de empr\u00e9stimo oferecem; outros me invitam para cearmos juntos; muitos<br \/>\n    se mostram gratos por finezas que eu lhes houvesse feito; outros insistem<br \/>\n    porque lhes compre as mais variadas coisas. Em sua loja, h\u00e1 pouco, um alfaiate<br \/>\n    me fez entrar, para mostrar-me sedas que para mim comprara e, sem delongas,<br \/>\n    tomou minhas medidas. Com certeza tudo isso \u00e9 fantasia; aqui residem, decerto,<br \/>\n    os feiticeiros da Lap\u00f4nia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Dr\u00f4mio de Siracusa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Eis o dinheiro, mestre, que pedistes.<br \/>\n    Mas, como conseguistes ver-vos livre do retrato do velho Ad\u00e3o de farda?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Dinheiro que eu pedi? Que Ad\u00e3o \u00e9 esse?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o me refiro ao Ad\u00e3o que guardava o<br \/>\n    para\u00edso, mas ao Ad\u00e3o que \u00e9 guarda da cadeia, o que se veste com a pele do<br \/>\n    bezerro matado para o filho pr\u00f3digo, o que marchava por tr\u00e1s de v\u00f3s, senhor,<br \/>\n    como anjo do mal e vos intimou a abandonar a liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o te compreendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o? Pois \u00e9 muito simples: refiro-me<br \/>\n    ao sujeito que anda como um rabec\u00e3o, numa caixa de couro; o indiv\u00edduo, senhor,<br \/>\n    que d\u00e1 empurr\u00f5es nos cavalheiros fatigados e os obriga a repousar; o mesmo<br \/>\n    que se apiada das pessoas arruinadas e lhes arranja um fato indesfi\u00e1vel; \u00e9<br \/>\n    o tal, em suma, que se gaba de fazer mais piruetas com a sua clava do que<br \/>\n    os dan\u00e7arinos com a lan\u00e7a mouresca.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Como assim? Referes-te a algum oficial<br \/>\n    de justi\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Perfeitamente, senhor, ao sargento dos<br \/>\n    t\u00edtulos, o mesmo que chama responsabilidade as pessoas que n\u00e3o pagam as suas<br \/>\n    obriga\u00e7\u00f5es e que diz a toda a gente: \u201cDeus vos d\u00ea bom repouso\u201d, como se todo<br \/>\n    o mundo estivesse no ponto de ir para a cama.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Muito bem, senhor; ponde remate a<br \/>\n    essas tolices. Nenhum navio zarpar\u00e1 esta noite? Sa\u00edmos ou n\u00e3o desta cidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Como n\u00e3o, senhor! H\u00e1 uma hora vos disse<br \/>\n    que o barco \u201cVelocidade\u201d partir\u00e1 esta noite, justamente quando o sargento<br \/>\n    vos deteve e vos obrigou a aguardar a chalupa \u201cRetardo\u201d. Aqui est\u00e3o os anjos<br \/>\n    que me mandastes buscar, para que vos livrassem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Este velhaco est\u00e1 louco de todo, tal<br \/>\n    como eu. \u00c9 ilus\u00e3o tudo o que vemos. Daqui nos tire algum poder celeste!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra uma cortes\u00e3.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 Mestre Ant\u00edfolo, salve! Vejo agora que encontrastes<br \/>\n    o ourives, finalmente. \u00c9 essa a cadeia que me prometestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Retira-te, Sat\u00e3! N\u00e3o me persigas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Mestre, essa \u00e9 a senhora Sat\u00e3?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 \u00c9 o diabo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o, \u00e9 pior do que isso: \u00e9 a av\u00f3 do<br \/>\n    diabo, que nos aparece sob a forma de uma meretriz leve; de a\u00ed o costume de<br \/>\n    dizerem as meretrizes: \u201cDeus me dane!\u201d que \u00e9 como se dissessem: \u201cDeus fa\u00e7a<br \/>\n    de mim uma donzela leviana!\u201d Est\u00e1 escrito que elas aparecem aos homens como<br \/>\n    anjos leves de luz. Ora, a luz \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia do fogo, e o fogo queima.<br \/>\n    Logo, as donzelas levianas queimam. N\u00e3o vos aproximeis dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 Vosso criado, senhor, e v\u00f3s estais hoje muito espirituosos.<br \/>\n    N\u00e3o quereis vir comigo? Poderemos comprar aqui perto alguma coisa para cearmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Mestre, se fordes cear e houver probabilidade<br \/>\n    de tomardes sopa, muni-vos de uma colher comprida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Por que, Dr\u00f4mio?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Ora, porque quem come com o diabo precisa<br \/>\n    ter uma colher comprida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Dem\u00f4nio, para tr\u00e1s! Por que o convite<br \/>\n    para cearmos? Como as outras todas, \u00e9s uma bruxa. Assim, eu te conjuro a me<br \/>\n    deixares e ires daqui logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 Dai-me o anel que ao jantar me arrebatastes, ou,<br \/>\n    em troca, a cadeia prometida, que eu sairei, senhor, sem molestar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 \u00c0s vezes o dem\u00f4nio pede apenas as aparas<br \/>\n    das unhas, um cabelo,uma gota de sangue, uma pevide de cereja, uma noz, um<br \/>\n    quase nada. Esta, por\u00e9m, mais ambiciosa, pede somente uma cadeia&#8230; Cuidado,<br \/>\n    mestre! Se lhe derdes isso, sacudindo as correntes, o dem\u00f4nio sem demora vir\u00e1<br \/>\n    meter-nos medo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 Senhor, o anel, ou ent\u00e3o dai-me a cadeia. N\u00e3o acredito<br \/>\n    que queirais lograr-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Corre, Dr\u00f4mio, que \u00e9 tempo. E tu,<br \/>\n    bruxa, fora!<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Disse o pav\u00e3o: que orgulho! Ouviste-lo,<br \/>\n    senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Ant\u00edfolo de Siracusa e Dr\u00f4mio de Siracusa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: Ant\u00edfolo est\u00e1 louco; se n\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\n    se aviltara desse modo. Ficou com meu anel que vale cerca de quarenta ducados,<br \/>\n    prometendo que em paga me daria uma cadeia. No entanto, agora nega ambas as<br \/>\n    coisas. A principal raz\u00e3o de o julgar louco, sem falarmos no acesso de h\u00e1<br \/>\n    momentos, se cinge \u00e0 hist\u00f3ria singular que \u00e0 mesa do jantar me contou, de<br \/>\n    que se achava impedido de entrar na pr\u00f3pria casa. S\u00f3 se a mulher, por ver<br \/>\n    o seu estado, mandou fechar a porta de prop\u00f3sito. S\u00f3 me resta o recurso de<br \/>\n    ir \u00e0 casa de Ant\u00edfolo e contar \u00e0 sua esposa que ele, por ter ficado de repente<br \/>\n    desassisado, me invadiu a casa e o anel me arrebatou. Sim, farei isso; reaver<br \/>\n    o anel perdido \u00e9 bom servi\u00e7o. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><strong>Cena IV<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma rua. Entram Ant\u00edfolo de \u00c9feso e um<br \/>\n    oficial de justi\u00e7a.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Nada temas, amigo, que eu n\u00e3o fujo. Antes<br \/>\n    de te deixar dar-te-ei a soma justa da minha fian\u00e7a. Minha esposa desde hoje<br \/>\n    est\u00e1 de g\u00eanio insuport\u00e1vel. Certamente n\u00e3o deu cr\u00e9dito f\u00e1cil ao mensageiro<br \/>\n    que levou a not\u00edcia de que eu me achava em \u00c9feso detido. Semelhante not\u00edcia<br \/>\n    \u00e9 o que vos digo \u2014 lhe h\u00e1 de ter parecido muito estranha. (<i>Entra Dr\u00f4mio<br \/>\n    de \u00c9feso com uma corda.<\/i>) Meu criado vem vindo. Com certeza traz o dinheiro.<br \/>\n    Ent\u00e3o, senhor, trouxestes a encomenda de que eu vos incumbira?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Aqui est\u00e1 o com que dar a eles todos o<br \/>\n    troco suficiente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 E o meu dinheiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Ora, senhor, gastei-o nesta corda.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Quatrocentos ducados pela corda?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Com isso, quatrocentas vos comprara.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Que foi que eu te mandei buscar em casa?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Uma corda, senhor; eis-me de volta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Recebe, ent\u00e3o, de volta este presente.<br \/>\n    (<i>Bate-lhe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 Senhor, tende paci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Paci\u00eancia preciso eu, que estou apanhando.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 Filho, det\u00e9m a l\u00edngua.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Mandai, ent\u00e3o, que ele detenha o bra\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Descarado! Vil\u00e3o insens\u00edvel!<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Desejara ser insens\u00edvel, senhor, para n\u00e3o<br \/>\n    sentir vossas pancadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 S\u00f3 \u00e9s sens\u00edvel \u00e0 pancada, tal qual um<br \/>\n    asno.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Sou um asno, realmente; e a prova s\u00e3o estas<br \/>\n    orelhas compridas. Eu o servi desde o dia de meu nascimento at\u00e9 hoje, n\u00e3o<br \/>\n    tendo recebido em pagamento sen\u00e3o pancada. Quando estou com frio, ele me aquece<br \/>\n    com pancada; quando estou quente, ele me esfria com pancada; se durmo, \u00e9 com<br \/>\n    pancada que ele me esperta; se me sento, com pancada me faz levantar; quando<br \/>\n    saio \u00e0 rua, \u00e9 com pancada que ele me faz atravessar a porta sendo, tamb\u00e9m,<br \/>\n    com pancada que me d\u00e1 as boas-vindas. Carrego as pancadas nos ombros, como<br \/>\n    os mendigos os seus fedelhos, e estou certo de que, quando ele me deixar aleijado,<br \/>\n    terei de mendigar com elas de porta em porta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Vamos saindo daqui, que minha mulher<br \/>\n    j\u00e1 chega.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Adriana, Luciana, a cortes\u00e3 e Pinch.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Senhora, respice finem, aten\u00e7\u00e3o ao fim!<br \/>\n    Ou melhor, como diz o profeta e o papagaio: Cuidado com o fim da corda!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Ainda te p\u00f5es a falar? (<i>Bate-lhe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 E agora, que dizeis? N\u00e3o est\u00e1 louco?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 \u00c9 o que faz crer a sua grosseria. Meu caro Doutor<br \/>\n    Pinch, sois exorcista; restitu\u00ed-lhe a raz\u00e3o, \u00e9 o que vos pe\u00e7o, e obtereis<br \/>\n    de mim tudo o que quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Oh, como ele olha furibundo e firme!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 Vede como a loucura o deixa tr\u00eamulo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PINCH \u2014 Quero sentir o pulso; dai-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Aqui est\u00e1 a m\u00e3o; senti no ouvido o pulso.<br \/>\n    (<i>Bate-lhe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PINCH \u2014 Sat\u00e3 que habitas este corpo, intimo-te a obedecer<br \/>\n    s minhas santas preces e voltar sem demora para as trevas. Pelos santos do<br \/>\n    c\u00e9u, eu te conjuro!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Cala-te, feiticeiro impertinente! N\u00e3o<br \/>\n    estou louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Ah! quem nos dera mesmo, pobre alma atribulada!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Ent\u00e3o, faceira, todos estes s\u00e3o vossos<br \/>\n    habituados? Este tipo de cara de a\u00e7afr\u00e3o jantou hoje convosco em minha casa,<br \/>\n    enquanto entrada nela me negavam as criminosas portas?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Oh, marido! Deus sabe que hoje tu jantaste em casa.<br \/>\n    Se houvesses l\u00e1 ficado, ora estarias livre do opr\u00f3brio e de t\u00e3o grande esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Jantei em casa? Biltre, que respondes?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Senhor, para ser franco, n\u00e3o jantastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 N\u00e3o nos foi impedida a entrada? A porta<br \/>\n    n\u00e3o estava trancada?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Justamente; fechada a porta, e v\u00f3s deixado<br \/>\n    fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 E ela, n\u00e3o me atirou baixos insultos?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Sans fable, vos lan\u00e7ou baixos insultos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 De mim n\u00e3o riu a sua cozinheira, n\u00e3o<br \/>\n    me insultou, n\u00e3o me cobriu de chulas?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Certes, tudo isso fez a vestal cuca.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 E n\u00e3o me retirei de l\u00e1, furioso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Isso mesmo; comprovam-no meus ossos, que<br \/>\n    as marcas ainda t\u00eam de vossa f\u00faria<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Ser\u00e1 prudente concordar com ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PINCH \u2014 N\u00e3o h\u00e1 mal; o velhaco tem consci\u00eancia do estado do<br \/>\n    patr\u00e3o, e, concordando com ele, contribui para acalm\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 O ourives subornastes e fui preso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Oh, Deus do c\u00e9u! Para livrar-te logo, mandei por<br \/>\n    Dr\u00f4mio quanto me pediste, quando, a correr, buscar foi ele a bolsa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Por mim? Dinheiro? S\u00f3 se foi em sonho.<br \/>\n    Certamente pensastes em faz\u00ea-lo; mas nem um real, um real sequer me destes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 N\u00e3o foste procur\u00e1-la, porque a bolsa<br \/>\n    de ducados te desse?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Foi a casa, e logo eu lha entreguei.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Sou testemunha de que \u00e9 verdade o que ela est\u00e1<br \/>\n    dizendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Deus e o cordeiro sejam testemunhas de<br \/>\n    que eu tive a incumb\u00eancia, t\u00e3o-somente, de ir comprar uma corda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PINCH \u2014 Est\u00e3o possessos ambos, minha senhora: o amo e o criado.<br \/>\n    Na palidez do rosto o reconhe\u00e7o, na maneira de olhar. Ser\u00e1 preciso amarr\u00e1-los<br \/>\n    e os p\u00f4r em quarto escuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Fala: por que hoje me trancaste a porta?<br \/>\n    Por que n\u00e3o me trouxeste o saco de ouro?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Eu n\u00e3o te deixei fora, caro esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 E a mim, caro patr\u00e3o, n\u00e3o deram nada; mas<br \/>\n    concordo em que v\u00f3s ficastes fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Mentes, vil\u00e3o dissimulado, tanto num caso como<br \/>\n    no outro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Prostituta dissimulada, \u00e9s falsa em todos<br \/>\n    eles. Est\u00e1s mancomunada com este bando de desclassificados, para objeto me<br \/>\n    fazeres de opr\u00f3brio. Mas com as unhas vou arrancar-te os olhos mentirosos,<br \/>\n    que com minha vergonha se divertem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Oh, amarrai-o! N\u00e3o deixeis que o fa\u00e7a!<\/p>\n<p align=\"justify\">PINCH \u2014 Venha mais gente! O diabo \u00e9 multo forte.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Que olhar! Como est\u00e1 p\u00e1lido o coitado!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram tr\u00eas ou quatro homens e amarram Ant\u00edfolo de \u00c9feso.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Ireis assassinar-me? Carcereiro, det\u00e9ns-me<br \/>\n    e ora permites que me amarrem?<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 Mestres, deixai-o livre; ele se encontra<br \/>\n    sob minha guarda; n\u00e3o podeis prend\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PINCH \u2014 Atai tamb\u00e9m o criado; est\u00e1 maluco.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Amaram Dr\u00f4mio de \u00c9feso.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Oficial insensato, que pretendes? Tens alegria<br \/>\n    vista de um coitado que a si mesmo se ultraja e faz viol\u00eancia?<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 Ele \u00e9 meu prisioneiro; se o levardes,<br \/>\n    de mim exigir\u00e3o quanto ele deve.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Antes de ir, desobrigo-te de tudo. Leva-me ao seu<br \/>\n    credor, para que eu saiba quanto ele deve e a d\u00edvida resgate. Meu bom mestre<br \/>\n    doutor, levai-o a casa com toda a seguran\u00e7a. Oh dia infame!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Oh prostituta infame!<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Mestre, por v\u00f3s me vejo agora preso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Cala-te, biltre, que me deixas louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Quereis que vos amarrem sem motivo? Ficai<br \/>\n    louco e gritai: Aqui, diabo!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Quanta tolice esses coitados dizem!<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Levai-os logo. Irm\u00e3, vinde comigo. (<i>Saem Pinch,<br \/>\n    os criados, Ant\u00edfolo de \u00c9feso e Dr\u00f4mio de \u00c9feso.<\/i>) Dizei: \u00e0 ordem de quem<br \/>\n    foi ele preso?<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 De um tal \u00c2ngelo, ourives. Conhecei-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Conhe\u00e7o, sim; e a quanto monta a d\u00edvida?<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 A duzentos ducados.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 De que compra?<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 De uma cadeia que lhe encomendara vosso<br \/>\n    marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Soube que ele havia feito a encomenda para mim;<br \/>\n    contudo, nunca vi a cadeia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 Pouco tempo depois de entrar, furioso, em minha<br \/>\n    casa vosso marido e arrebatar-me a j\u00f3ia \u2014 a mesma que lhe vi no dedo h\u00e1 pouco<br \/>\n    com uma cadeia ao colo o vi de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 \u00c9 bem poss\u00edvel; por\u00e9m nunca a vi. Ao ourives levai-me,<br \/>\n    carcereiro; quero ficar a par de tudo o que houve.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Ant\u00edfolo de Siracusa e Dr\u00f4mio de Siracusa, com<br \/>\n    espadas desembainhadas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Deus nos acuda! Est\u00e3o de novo soltos!<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 E de espadas na m\u00e3o! Chamai mais gente, para os<br \/>\n    prender.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL DE JUSTI\u00c7A \u2014 V\u00e3o nos matar; fujamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Adriana, Luciana e o oficial de justi\u00e7a.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Pelo que vejo, as duas feiticeiras<br \/>\n    a espada as amedronta.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 A que queria ser vossa esposa, agora<br \/>\n    vos evita.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Vai ao Centauro e tira as nossas coisas.<br \/>\n    N\u00e3o vejo a hora de entrarmos no navio.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Ora, senhor, ficai mais esta noite;<br \/>\n    n\u00e3o nos far\u00e3o nenhum mal. Bem vedes que nos dirigem palavras am\u00e1veis, d\u00e3o-nos<br \/>\n    dinheiro&#8230; Parece tratar-se de uma na\u00e7\u00e3o muito am\u00e1vel; se n\u00e3o fosse a tal<br \/>\n    montanha de carne louca, que me reclama para esposo, n\u00e3o importaria de viver<br \/>\n    aqui e virar bruxo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Nem por toda a cidade eu passo a noite.<br \/>\n    neste lugar. Por isso, n\u00e3o demores: vai logo p\u00f4r a bordo nossas coisas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">ATO V<\/a><\/h4>\n<p> <strong>Cena I<\/strong><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma rua defronte da Abadia. Entram o mercador<br \/>\n    e \u00c2ngelo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Fico triste por ter-vos retardado; mas, em verdade,<br \/>\n    posso asseverar-vos que lhe dei a cadeia, embora o negue por maneira t\u00e3o fria<br \/>\n    e desonesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Em que conceito \u00e9 tido na cidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 No mais alto; \u00e9 de cr\u00e9dito infinito, muito estimado,<br \/>\n    de impoluto nome; na cidade \u00e9 o primeiro, sempre, em tudo. Uma palavra sua,<br \/>\n    em qualquer tempo, me faria empenhar toda a fortuna.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Falai baixo; ei-lo aqui, se n\u00e3o me engano.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Ant\u00edfolo de Siracusa e Dr\u00f4mio de Siracusa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Justamente, e ao pesco\u00e7o traz a mesma cadeia que<br \/>\n    por modo t\u00e3o monstruoso negou ter recebido. Ficai perto de mim; vou lhe falar.<br \/>\n    Senhor Ant\u00edfolo, muito me admira o inc\u00f4modo e a vergonha que me causastes<br \/>\n    n\u00e3o sem vos manchardes algum tanto \u2014 por terdes protestado sob juramento e<br \/>\n    com tamanho afinco, n\u00e3o vos ter eu entregue essa cadeia que ao pesco\u00e7o trazeis<br \/>\n    com tal descaso. Al\u00e9m da queixa, da pris\u00e3o, do opr\u00f3brio por que passei, causastes<br \/>\n    a este amigo grande preju\u00edzo, pois a n\u00e3o ter sido impedido por nossa controv\u00e9rsia,<br \/>\n    a estas horas se achara velejando. Dei-vos essa cadeia, n\u00e3o \u00e9 certo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Creio que sim; jamais neguei tal coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Negastes, sim senhor, sob juramento.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Quem foi que ouviu, quando eu jurei<br \/>\n    tal coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Eu pr\u00f3prio o ouvi; bem sabes que \u00e9 verdade, miser\u00e1vel.<br \/>\n    Que opr\u00f3brio! Teres vida para te ombreares com pessoas s\u00e9rias!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o passas de um vil\u00e3o, por me acusares<br \/>\n    dessa maneira. Provarei minha honra e minha honestidade agora mesmo, se tiveres<br \/>\n    o ousio de enfrentar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Tenho, vil\u00e3o! Aceito o desafio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sacam das espadas. Entram Adriana, Luciana, a cortes\u00e3<br \/>\n    e outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Parai, por Deus! N\u00e3o o firais! \u00c9 louco! Segurai-o<br \/>\n    por tr\u00e1s! Tomai-lhe a espada! Amarrai Dr\u00f4mio e a casa levai ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Mestre, corramos, pelo amor de Deus!<br \/>\n    Procuremos abrigo em qualquer casa. Aqui perto h\u00e1 um convento; entremos nele;<br \/>\n    do contr\u00e1rio, estaremos liquidados.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ant\u00edfolo de Siracusa e Dr\u00f4mio de Siracusa se acolhem<br \/>\n    Abadia. Entra a Abadessa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Boa gente, acalmai-vos. Por que causa vos reunis<br \/>\n    aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Para levarmos meu infeliz marido, que est\u00e1 louco.<br \/>\n    Permiti-nos entrar, porque possamos amarr\u00e1-lo e lev\u00e1-lo para casa, e ele a<br \/>\n    raz\u00e3o recuperar consiga.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Percebi logo que ele n\u00e3o estava em seu perfeito<br \/>\n    ju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERCADOR \u2014 Ora lastimo ter lan\u00e7ado contra ele m\u00e3o da espada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 H\u00e1 quanto tempo anda ele assim possesso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Passou toda a semana fatigado, aborrecido, triste,<br \/>\n    nas menores coisas muito Outro do que ser costuma. Mas somente hoje \u00e0 tarde<br \/>\n    a sua doen\u00e7a chegou a esses acessos de loucura.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 N\u00e3o perdeu muitos bens nalgum naufr\u00e1gio? N\u00e3o teria<br \/>\n    enterrado algum amigo? Acaso os olhos n\u00e3o lhe ensejariam ao cora\u00e7\u00e3o algum<br \/>\n    amor il\u00edcito? \u00c9 pecado freq\u00fcente nos mancebos que d\u00e3o aos olhos muita liberdade.<br \/>\n    Por qual destas raz\u00f5es sofre ele agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Por nenhuma, a n\u00e3o ser, talvez, pela \u00faltima, algum<br \/>\n    amor que o desviou de casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Por isso, certamente, o repreendestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Foi o que fiz, de fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Mas com modos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Tanto quanto a mod\u00e9stia o permitia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Em casa apenas, creio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 N\u00e3o; na frente de estranhos uma vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Mas n\u00e3o muitas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Era o assunto de todas as conversas. Tanto sobre<br \/>\n    isso eu lhe falava, que ele mal podia dormir; quando na mesa das refei\u00e7\u00f5es,<br \/>\n    de tanto eu falar nisso, n\u00e3o provava bocado; quando estava s\u00f3 comigo, era<br \/>\n    o assunto que eu puxava; se t\u00ednhamos visitas, atirava-lhe freq\u00fcentes indiretas.<br \/>\n    A toda hora lhe dizia que ele era vil e mau.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 De a\u00ed ter acabado ele maluco. As queixas venenosas<br \/>\n    de uma esposa ciumenta s\u00e3o de efeito mais nocivo do que dentada de cachorro<br \/>\n    louco. Parece que essas rixas o impediam de dormir; eis a causa de ter ele<br \/>\n    ficado com o ju\u00edzo perturbado. Disseste que ele, \u00e0s refei\u00e7\u00f5es, s\u00f3 tinha censuras<br \/>\n    por tempero. Ora, quem come sem a calma precisa, n\u00e3o digere, de onde se originarem<br \/>\n    grandes febres. E a febre que \u00e9, sen\u00e3o um grande acesso de loucura? Disseste<br \/>\n    que o repouso lhe perturbavas sempre com censuras. Quando o recreio ameno<br \/>\n    \u00e9 perturbado, que se segue sen\u00e3o tristeza e funda melancolia, irm\u00e3 do desespero<br \/>\n    mais inquieto e feroz? No rasto deste segue uma tropa imensa de mol\u00e9stias,<br \/>\n    de p\u00e1lidas desordens, de inimigos da vida humana. A conseq\u00fc\u00eancia \u00e9 clara:<br \/>\n    perturba\u00e7\u00f5es \u00e0 mesa ou no repouso o mais cordato ser deixam furioso. Assim,<br \/>\n    foi t\u00e3o-somente o teu ci\u00fame que perturbou do esposo o claro lume.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Ela s\u00f3 o repreendia com brandura, e ele com voz<br \/>\n    lhe respondia dura. Deixais tantas censuras sem resposta?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 \u00c9 que ela em mim faz despertar remorsos. Entrai,<br \/>\n    amigos, e amarrai-o firme.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Jamais; em minha casa ningu\u00e9m entra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Dizei aos servos, pois, que o tragam logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 N\u00e3o, que ele se acolheu a um lugar santo. De vossas<br \/>\n    m\u00e3os deve ficar seguro, t\u00e9 que a raz\u00e3o eu possa devolver-lhe, ou desista do<br \/>\n    esfor\u00e7o, por in\u00fatil.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Eu, s\u00f3, quero tratar do meu marido, ser a enfermeira<br \/>\n    na doen\u00e7a dele; nisso n\u00e3o quero ter quem me auxilie. Deixai, assim, que a<br \/>\n    casa mo conduzam.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Ficai calma. Imposs\u00edvel \u00e9 entreg\u00e1-lo sem lan\u00e7ar<br \/>\n    m\u00e3o, primeiro, dos recursos de que disponho: drogas benfazejas, xaropes, ora\u00e7\u00f5es,<br \/>\n    porque consiga reconduzi-lo \u00e0 dignidade humana. \u00c9 ramo e parte do meu voto<br \/>\n    sacro, caridoso dever da ordem que sirvo. Deixai-o, pois, comigo e ide tranq\u00fcila.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 N\u00e3o sairei daqui, deixando o esposo. N\u00e3o fica bem<br \/>\n    vossa santidade separar da mulher o seu marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 N\u00e3o insistais, que dar-vo-lo n\u00e3o posso. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 Ao duque vos queixai dessa viol\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Vou procur\u00e1-lo e aos p\u00e9s prostrar-me dele at\u00e9 que<br \/>\n    minhas l\u00e1grimas e preces demovam Sua Gra\u00e7a a, pessoalmente, tomar desta abadessa<br \/>\n    meu marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MERCADOR \u2014 Se estou certo, o quadrante do rel\u00f3gio<br \/>\n    marca cinco horas, o momento exato de por aqui passar o pr\u00f3prio duque para<br \/>\n    o vale da morte, o melanc\u00f3lico lugar da execu\u00e7\u00e3o dos condenados, um pouco<br \/>\n    al\u00e9m dos fossos da abadia.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 E que motivo o traz?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MERCADOR \u2014 Vem assistir ao p\u00fablico espet\u00e1culo da<br \/>\n    decapita\u00e7\u00e3o de um reverendo siracusano, cujo triste fado trouxe \u00e0 nossa ba\u00eda,<br \/>\n    contra os duros estatutos e leis desta cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 De fato; ei-lo que chega. Vou ver isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 \u00c0 passagem do duque cai de joelhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o duque com seu s\u00e9q\u00fcito; Egeu, de cabe\u00e7a descoberta,<br \/>\n    o carrasco e auxiliares.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 De novo proclamai: se algum amigo dele quiser pagar<br \/>\n    o seu resgate, ser-lhe-\u00e1 perdoada a pena. Assim fazemos pela grande piedade<br \/>\n    que nos causa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Mui nobre duque, impetro-te justi\u00e7a contra a abadessa!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c9 digna e mui virtuosa; nenhum mal poder\u00e1 ter ela<br \/>\n    feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 N\u00e3o desagrade a Vossa Gra\u00e7a: Ant\u00edfolo, meu marido,<br \/>\n    que eu fiz senhor de todos os meus bens e de mim, seguindo nisso vossa carta<br \/>\n    imperiosa, foi, de s\u00fabito, tomado hoje \u2014 oh fatal e triste dia! \u2014 de um vergonhoso<br \/>\n    ataque de loucura, que o fez correr as ruas da cidade, causando aos transeuntes<br \/>\n    mil inc\u00f4modos e entrando pelas casas, de onde j\u00f3ias tirava, an\u00e9is e o mais<br \/>\n    que lhe pudesse ser \u00e0 f\u00faria agrad\u00e1vel. Pude, a custo, mand\u00e1-lo para casa,<br \/>\n    enquanto eu pr\u00f3pria procurava pagar os preju\u00edzos que, aqui e ali, sua f\u00faria<br \/>\n    cometera. Nisso, n\u00e3o sei por que violentos meios, p\u00f4de escapar dos guardas<br \/>\n    que o detinham e, juntamente com o criado louco, tomados ambos de um violento<br \/>\n    acesso, de espadas nuas sobre n\u00f3s ca\u00edram, a fugir nos for\u00e7ando, at\u00e9 que aux\u00edlio<br \/>\n    busc\u00e1ssemos de novo. Nesse ponto entraram na abadia, onde os segu\u00edramos, se<br \/>\n    a superiora a porta n\u00e3o fechasse, n\u00e3o permitindo que emp\u00f3s dele f\u00f4ssemos nem<br \/>\n    deixando que a casa o conduzissem. Assim, determinei, gracioso duque, nos<br \/>\n    seja ele ora entregue, porque eu possa lev\u00e1-lo para casa e tratar dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Teu marido me serve h\u00e1 muito tempo nos trabalhos<br \/>\n    da guerra. A ti me prende, desde quando o acolheste como esposo, minha palavra<br \/>\n    de honra de que sempre faria o que pudesse em prol de Ant\u00edfolo. Algum de v\u00f3s<br \/>\n    a\u00ed bata na porta da abadia e me chame a superiora. Antes de ir deixo o caso<br \/>\n    resolvido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Fugi, minha patroa, sem demora! Meu mestre e o criado<br \/>\n    est\u00e3o outra vez soltos. D\u00e3o nas criadas, sem poupar nenhuma; o doutor amarraram;<br \/>\n    chamuscaram-lhe a barba com ti\u00e7\u00f5es, e quando o fogo come\u00e7ava a subir, arremessaram<br \/>\n    sobre o coitado baldes de \u00e1gua suja, para extinguir as chamas. O meu mestre<br \/>\n    lhe recomenda calma, enquanto o criado, como se faz com os loucos, o tosquia<br \/>\n    com uma grande tesoura. Se n\u00e3o fordes em aux\u00edlio do m\u00edsero, \u00e9 certeza darem-lhe<br \/>\n    os loucos conta do canastro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Cala, imbecil! Teu mestre est\u00e1 aqui dentro; ele<br \/>\n    e o criado. N\u00e3o sabes o que dizes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Por minha vida, estou falando s\u00e9rio; mal respirei,<br \/>\n    depois daquela cena. Grita por v\u00f3s e jura que se, acaso, conseguir vos pegar,<br \/>\n    h\u00e1 de queimar-vos o rosto e vos deixar desfigurada. (<i>Ouvem-se gritos dentro.<\/i>)<br \/>\n    Ou\u00e7o-o! Fugi, senhora, sem delongas!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Fica junto de mim; n\u00e3o tenhas medo. Guardas com alabardas,<br \/>\n    aqui perto!<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Oh Deus! E meu marido! Testemunhas sede de que,<br \/>\n    invis\u00edvel, ele p\u00f4de transportar-se pelo ar. Neste momento vimo-lo entrar ali,<br \/>\n    e ora est\u00e1 fora! Isso ultrapassa o entendimento humano.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Ant\u00edfolo de \u00c9feso e Dr\u00f4mio de \u00c9feso.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Justi\u00e7a, grande duque! Eu te suplico:<br \/>\n    concede-me justi\u00e7a por aquele servi\u00e7o que te fiz quando, na guerra, recebi<br \/>\n    fundo golpe por salvar-te. Pelo sangue que, ent\u00e3o, por tua causa de mim se<br \/>\n    escoou, concede-me justi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Se o medo \u00e0 morte n\u00e3o me faz caduco, vejo meu filho<br \/>\n    Ant\u00edfolo com Dr\u00f4mio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Justi\u00e7a, doce pr\u00edncipe, contra essa mulher<br \/>\n    que tu me deste como esposa. De mim ela abusou, fez-me alta inj\u00faria, desonrou-me,<br \/>\n    tratou-me com tal f\u00faria, que conceber n\u00e3o pode a mente humana tudo o que hoje<br \/>\n    me fez essa megera.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Conta o que houve e achar\u00e1s em mim justi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Hoje, senhor, ela fechou-me a porta,<br \/>\n    para se banquetear com gente \u00e0-toa, dentro de minha casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A falta \u00e9 grave, muito grave. \u00c9 verdade o que ele<br \/>\n    disse?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 N\u00e3o, meu bom lorde; eu, ele pr\u00f3prio e a mana jantamos<br \/>\n    juntos hoje. Morrer quero, se tudo o que ele diz n\u00e3o for mentira.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANA \u2014 N\u00e3o quero ver jamais a luz do dia, nem repousar<br \/>\n    noite, se verdade n\u00e3o for quanto ela disse a Vossa Alteza.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Quanta mentira! As duas s\u00e3o perjuras; fala a verdade<br \/>\n    o louco neste ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Meu soberanos, eu sei o que vos digo;<br \/>\n    o vinho n\u00e3o me turva o entendimento; n\u00e3o me transtorna a c\u00f3lera furiosa, muito<br \/>\n    embora os ultrajes a mim feitos pudessem deixar louco o homem mais s\u00e1bio.<br \/>\n    Esta mulher deixou-me hoje na rua, quando eu ia jantar, o que este ourives<br \/>\n    confirmar poderia, se n\u00e3o fosse com ela estar mancomunado agora, pois ele<br \/>\n    me deixou neste momento para ir buscar uma cadeia, tendo prometido lev\u00e1-la<br \/>\n    ao Porco-espinho, onde eu e Baltasar ent\u00e3o jantamos. N\u00e3o tendo aparecido,<br \/>\n    ap\u00f3s a mesa sa\u00ed a procur\u00e1-lo e, em companhia do senhor que aqui est\u00e1, o achei<br \/>\n    na rua. Ent\u00e3o jurou-me este astucioso ourives que entrega me fizera da cadeia<br \/>\n    que, Deus o sabe, nunca e nunca eu vira. Sob essa acusa\u00e7\u00e3o mandou prender-me.<br \/>\n    Obedeci-lhe e, sem demora, a casa enviei meu servo emp\u00f3s de alguns ducados,<br \/>\n    que ele n\u00e3o trouxe. Ent\u00e3o, em termos brandos falei ao oficial para que, juntos,<br \/>\n    f\u00f4ssemos at\u00e9 casa. Em caminho, por\u00e9m, n\u00f3s encontramos minha mulher, a irm\u00e3<br \/>\n    e uma caterva de c\u00famplices. Com eles vinha um tipo denominado Pinch, um magricela,<br \/>\n    esp\u00e9cie de esqueleto, um saltimbanco, um charlat\u00e3o e tirador de sortes, um<br \/>\n    pobre diabo de olhos encovados, um biltre de olhar ba\u00e7o, um morto-vivo. Pensai<br \/>\n    s\u00f3 que esse escravo amaldi\u00e7oado se arvorou a exorcista e, de olhos fixos nos<br \/>\n    meus, tomou-me o pulso e, com seu todo de alma penada, a me fitar, me disse<br \/>\n    que eu estava possesso. Nisso, todos ca\u00edram sobre mim, as m\u00e3os me ataram,<br \/>\n    amarraram-me os p\u00e9s, e, juntamente com meu servo, tamb\u00e9m todo ele atado, nos<br \/>\n    puseram num quarto \u00famido e escuro. Com os dentes pude desfazer os la\u00e7os e<br \/>\n    libertar-me, vindo in continenti procurar Vossa Gra\u00e7a, a quem suplico que<br \/>\n    se me d\u00ea satisfa\u00e7\u00e3o completa de tanta ofensa e de t\u00e3o grande opr\u00f3brio.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Posso afirmar, milorde, que, em verdade, hoje jantar<br \/>\n    ele n\u00e3o p\u00f4de em casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Mas recebeu, ou n\u00e3o, tua cadeia?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Sim, milorde; ao pesco\u00e7o ele a trazia, quando por<br \/>\n    n\u00f3s passou; todos a viram.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MERCADOR \u2014 Posso, demais, jurar que vos ouvi com<br \/>\n    estes ouvidos, confessar que t\u00ednheis a aludida cadeia, ao passo que antes,<br \/>\n    no mercado, dissestes o contr\u00e1rio. Foi ent\u00e3o que eu fiz uso desta espada e<br \/>\n    fostes refugiar-vos na abadia, de onde sa\u00edstes, penso, por milagre.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Jamais entrei os muros da abadia, nem<br \/>\n    nunca a espada contra mim tirastes. O c\u00e9u me \u00e9 testemunha de que nunca vi<br \/>\n    nenhuma cadeia. Tudo quanto contra mim assacastes \u00e9 mentira.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Quanto complica\u00e7\u00e3o! At\u00e9 parece que a provar vos deu<br \/>\n    Circe a beberagem. Se na abadia ele tivesse entrado, ainda estaria l\u00e1. Se<br \/>\n    fosse louco, n\u00e3o poderia discorrer com tanto sangue-frio e coer\u00eancia. Assegurastes<br \/>\n    que ele jantou em casa; mas o ourives afirma o oposto. E v\u00f3s, que dizeis disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Ele e aquela mulher jantaram juntos, no<br \/>\n    Porco-espinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 E fato; foi quando ele me arrebatou do dedo aquele<br \/>\n    anel.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 \u00c9 certo, nobre duque; o anel \u00e9 dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Viste quando ele entrou nesta abadia?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 T\u00e3o certo como vejo Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c9 estranho, Ide chamar a superiora. (<i>Sai uma pessoa<br \/>\n    do s\u00e9q\u00fcito.<\/i>) Se n\u00e3o estais variando, enlouquecestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Mui poderoso duque, uma palavra me seja permitida.<br \/>\n    Ali perceboo amigo que me vai salvar a vida, por mim pagando a multa cominada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Fala, siracusano, o que quiseres.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, n\u00e3o sois Ant\u00edfolo? E n\u00e3o se<br \/>\n    chama Dr\u00f4mio aquele escravo que a v\u00f3s est\u00e1 ligado?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 At\u00e9 h\u00e1 uma hora ligado a ele estava. Mas<br \/>\n    por sorte \u2014 devo-lhe esse favor \u2014 roeu-me a corda. Ora sou Dr\u00f4mio, escravo<br \/>\n    desligado.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Penso que ainda vos lembrais de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Vendo-vos, nos lembramos de n\u00f3s mesmos,<br \/>\n    pois at\u00e9 h\u00e1 pouco est\u00e1vamos atados, como ora vos achais. Pelo que vejo, Pinch<br \/>\n    vos p\u00f4s tamb\u00e9m no seu regime.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Por que me olhais dessa maneira? Penso que sabeis<br \/>\n    quem eu sou.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 At\u00e9 este instante jamais vos tinha visto<br \/>\n    em toda a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 \u00c9 que a tristeza me alterou bastante d\u00eas que nos separamos.<br \/>\n    As cuidosas horas e o tempo com sua m\u00e3o deforme me deixaram no rosto estranhos<br \/>\n    sulcos. Mas respondei se pela voz, ao menos, n\u00e3o vos lembrais de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 E tu, Dr\u00f4mio?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Tampouco eu, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Tenho certeza de que de mim te lembras.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Ora, senhor, e eu tenho certeza de que<br \/>\n    n\u00e3o me lembro. E quando uma pessoa vos nega alguma coisa, ser\u00e1 for\u00e7oso ficardes<br \/>\n    atado \u00e0 sua palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 N\u00e3o me conhece a voz? \u00d3 tempo ingrato! De tal maneira<br \/>\n    a l\u00edngua me fendeste nestes curtos sete anos, que meu \u00fanico filho n\u00e3o reconhece<br \/>\n    o som rachado de minhas desentoadas amarguras? Embora tenha o amarfanhado<br \/>\n    rosto recoberto de neve floconosa do inverno destruidor da seiva viva, e congelados<br \/>\n    j\u00e1 me estejam todos os condutos do sangue, ainda me resta nesta noite de vida<br \/>\n    algum resqu\u00edcio da mem\u00f3ria de outrora, minha l\u00e2mpada quase extinta ainda emite<br \/>\n    uma luz t\u00eanue, ainda ouve alguma coisa o ouvido mouco. E todas essas testemunhas<br \/>\n    dizem \u2014 n\u00e3o posso errar- que tu \u00e9s meu filho Ant\u00edfolo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 N\u00e3o vi meu pai em toda a minha vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Entanto, sabes, jovem, que h\u00e1 sete anos, me separei<br \/>\n    de ti em Siracusa. Sim, compreendo, meu filho: \u00e9 que te acanhas de me reconhecer<br \/>\n    nesta mis\u00e9ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO \u2014 O duque e todos quantos me conhecem podem dar<br \/>\n    testemunho do que afirmo. Jamais vi Siracusa em toda a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Posso te assegurar, siracusano, que, h\u00e1 vinte anos,<br \/>\n    Ant\u00edfolo \u00e9 meu s\u00fadito e que ele nunca esteve em Siracusa. Vejo que a muita<br \/>\n    idade e os sofrimentos te fizeram perder de todo o ju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta a Abadessa com Ant\u00edfolo de Siracusa e Dr\u00f4mio de<br \/>\n    Siracusa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Mui poderoso duque, olhai este homem que tem sofrido<br \/>\n    muitas injusti\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Todos se aproximam para olh\u00e1-lo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Ou vejo mal, ou vejo dois maridos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Um destes indiv\u00edduos g\u00eanio \u00e9 do outro. D\u00e1-se o mesmo<br \/>\n    com aqueles. Mas quem pode dizer qual seja o esp\u00edrito, qual o homem!<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Dr\u00f4mio sou eu, senhor; mandai-o embora.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Dr\u00f4mio sou eu; n\u00e3o permitais que eu saia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o sois Egeu? Ou acaso sois o esp\u00edrito<br \/>\n    dele somente?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 \u00d3 meu antigo mestre! Quem foi que vos<br \/>\n    atou dessa maneira?<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Fosse quem fosse, a mim cumpre solt\u00e1-lo dessas<br \/>\n    cadeias, para que um marido, com sua liberdade, a ganhar venha. Dize-me, velho<br \/>\n    Egeu, se j\u00e1 tiveste por esposa uma Em\u00edlia, que dois g\u00eameos te brindou de uma<br \/>\n    vez, dois lindos filhos? Oh! Se \u00e9s o mesmo Egeu, fala-me! fala-me que aqui<br \/>\n    tu v\u00eas aquela mesma Em\u00edlia.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Se n\u00e3o estou sonhando, tu \u00e9s Em\u00edlia. Se \u00e9s ela mesma,<br \/>\n    dize onde est\u00e1 o filho que contigo flutuou no fatal mastro?<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Eu, ele e Dr\u00f4mio fomos recolhidos por gente de<br \/>\n    Epidamno. Pouco tempo depois, no entanto, rudes pescadores de Corinto tomaram-lhes<br \/>\n    meu filho, juntamente com Dr\u00f4mio, entre os primeiros me deixando sozinha.<br \/>\n    Qual tivesse sido a sorte dos dois, n\u00e3o sei dizer-te; a mim coube a fortuna<br \/>\n    que contemplas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Isso completa a hist\u00f3ria come\u00e7ada nesta manh\u00e3. Estes<br \/>\n    irm\u00e3os Ant\u00edfolos t\u00e3o parecidos, e os dois g\u00eameos Dr\u00f4mios, que n\u00e3o se diferen\u00e7am,<br \/>\n    e o naufr\u00e1gio a que ela se refere&#8230; Os pais s\u00e3o estes destes dois filhos<br \/>\n    que, por coincid\u00eancia, aqui juntos est\u00e3o. Dize-me, Ant\u00edfolo: era Corinto teu<br \/>\n    lugar de origem?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 N\u00e3o, milorde; eu cheguei de Siracusa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o vos distingo; p\u00f5e-te deste lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 De Corinto eu cheguei, gracioso lorde&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 E eu com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 em companhia do guerreiro excelso, Duque<br \/>\n    de Menafon, vosso alto tio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Qual de v\u00f3s dois jantou hoje comigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Fui eu, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Sois o meu marido?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 N\u00e3o; respondo por ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 O mesmo eu digo.No entanto, ela de<br \/>\n    esposa me chamava, como de irm\u00e3o esta gentil menina, sua irm\u00e3. (<i>A Luciana.<\/i>)<br \/>\n    Tudo quanto ent\u00e3o vos disse pretendo confirmar com mais sossego, se sonho<br \/>\n    n\u00e3o for tudo que ou\u00e7o e vejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Senhor, essa \u00e9 a cadeia que eu vos dei.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Creio que sim; n\u00e3o penso em contest\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 E v\u00f3s, senhor, por ela me prendestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Creio que sim; n\u00e3o penso em contest\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANA \u2014 Mandei pagar por Dr\u00f4mio vossa fian\u00e7a; mas temo<br \/>\n    que ele n\u00e3o a tenha pago.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Por mim n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Recebi esta bolsa de ducados por v\u00f3s<br \/>\n    enviada por meu servo Dr\u00f4mio. Vejo agora que os servos n\u00f3s trocamos; eu passava<br \/>\n    por ele e ele por mim; de a\u00ed terem nascido tantos erros.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Libertarei meu pai com esses ducados.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso; a vida eu lhe concedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORTES\u00c3 \u2014 Meu diamante, senhor, restitu\u00ed-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Ei-lo aqui; muito grato pela festa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABADESSA \u2014 Famoso duque, dai-vos ao trabalho de ir conosco<br \/>\n    abadia, porque a hist\u00f3ria possais ouvir de quanto n\u00f3s passamos. E todos v\u00f3s<br \/>\n    que estais aqui reunidos, a quem os erros de um s\u00f3 dia foram causa de sofrimentos,<br \/>\n    tamb\u00e9m vinde, que eu vos darei satisfa\u00e7\u00e3o cabal. Durante trinta e tr\u00eas anos<br \/>\n    seguidos sofri por v\u00f3s, meus filhos, s\u00f3 me tendo livrado de meu sofrimento<br \/>\n    neste instante. O duque, meu marido, meus dois filhos, e v\u00f3s ambos, tamb\u00e9m,<br \/>\n    os calend\u00e1rios do nascimento deles, vinde todos. \u00c0 vossa a minha dita se associa;<br \/>\n    grande, imensa ser\u00e1 nossa alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem o duque, a abadessa, Egeu, a cortes\u00e3, o mercador,<br \/>\n    \u00c2ngelo e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Mestre, trago de bordo as vossas coisas?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO \u2014 Que coisas minhas, Dr\u00f4mio, est\u00e3o a bordo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA \u2014 Isso \u00e9 comigo. Dr\u00f4mio, eu sou teu<br \/>\n    mestre.Vem comigo; depois tratamos disso. Abra\u00e7a teu irm\u00e3o e fica alegre.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Ant\u00edfolo de Siracusa e Ant\u00edfolo de \u00c9feso, Adriana<br \/>\n    e Luciana.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Aquela cozinheira gordanchuda da casa<br \/>\n    de teu amo, que hoje \u00e0 tarde me tratou com quitutes, de hoje em diante irm\u00e3<br \/>\n    minha vai ser, n\u00e3o minha esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 N\u00e3o pareceis meu mano, mas o espelho em<br \/>\n    que me esteja vendo: um belo tipo, realmente! N\u00e3o quereis ir \u00e0 abadia, para<br \/>\n    ouvir relatar nossas hist\u00f3rias?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Sim, mas primeiro v\u00f3s; sois o mais velho.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 \u00c9 uma quest\u00e3o. Mas como decidi-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE SIRACUSA \u2014 Vamos tirar a sorte para o t\u00edtulo da<br \/>\n    primogenitura. Mas enquanto n\u00e3o decidirmos isso, ficais sendo de n\u00f3s dois<br \/>\n    o mais velho.<\/p>\n<p align=\"justify\">DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO \u2014 Ent\u00e3o, desta arte: Se, como irm\u00e3os, ao<br \/>\n    mundo em boa hora viemos, de m\u00e3os dadas, agora, a esta abadia entremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no ato desejado: Ato I Ato II Ato III Ato IV Ato V William Shakespeare Personagens SOLINO, Duque de \u00c9feso. EGEU, mercador de Siracusa. ANT\u00cdFOLO DE \u00c9FESO, filho de Egeu e de Em\u00edlia. ANT\u00cdFOLO DE SIRACUSA, filho de Egeu e de Em\u00edlia. DR\u00d4MIO DE \u00c9FESO, criado dos dois Ant\u00edfolos. 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