{"id":120110,"date":"2017-04-19T18:58:02","date_gmt":"2017-04-19T20:58:02","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120110"},"modified":"2017-04-19T18:58:02","modified_gmt":"2017-04-19T20:58:02","slug":"palida-elvira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/palida-elvira","title":{"rendered":"P\u00e1lida Elvira"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Ulisse, jet\u00e9 sur les rives d&#8217;Ithaque, ne les reconna\u00eet pas et pleure sa patrie. Ainsi l&#8217;homme dans le bonheur poss\u00e9d\u00e9 ne reconna\u00eet pas son r\u00eave et soupire.<br \/>\nDaniel Stern.<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Quando, leitora amiga, no ocidente<br \/>\nSurge a tarde esmaiada e pensativa;<br \/>\nE entre a verde folhagem rescendente<br \/>\nL\u00e2nguida geme a vira\u00e7\u00e3o lasciva;<br \/>\nE j\u00e1 das t\u00eanues sombras do oriente<br \/>\nVem apontando a noite, e a casta diva<br \/>\nSubindo lentamente pelo espa\u00e7o,<br \/>\nDo c\u00e9u, da terra observa o estreito abra\u00e7o;<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Nessa hora de amor e de tristeza,<br \/>\nSe acaso n\u00e3o amaste e acaso esperas<br \/>\nVer coroar-te a juvenil beleza<br \/>\nCasto sonho das tuas primaveras;<br \/>\nN\u00e3o sentes escapar tua alma acesa<br \/>\nPara voar \u00e0s l\u00facidas esferas?<br \/>\nN\u00e3o sentes nessa m\u00e1goa e nesse enleio<br \/>\nVir morrer-te uma l\u00e1grima no seio?<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Sente-o? Ent\u00e3o entender\u00e1s Elvira,<br \/>\nQue assentada \u00e0 janela, erguendo o rosto,<br \/>\nO v\u00f4o solta \u00e0 alma que delira<br \/>\nE mergulha no azul de um c\u00e9u de Agosto;<br \/>\nEntender\u00e1s ent\u00e3o porque suspira,<br \/>\nV\u00edtima j\u00e1 de um \u00edntimo desgosto,<br \/>\nA meiga virgem, p\u00e1lida e calada,<br \/>\nSonhadora, ansiosa e namorada.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Mans\u00e3o de riso e paz, mans\u00e3o de amores<br \/>\nEra o vale. Espalhava a natureza,<br \/>\nCom dadivosa m\u00e3o, palmas e flores<br \/>\nDe agreste aroma e virginal beleza;<br \/>\nBosques sombrios de imortais verdores,<br \/>\nAsilo pr\u00f3prio \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o acesa,<br \/>\nVale de amor, aberto \u00e0s almas ternas<br \/>\nNeste vale de l\u00e1grimas eternas.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>A casa, junto \u00e0 encosta de um outeiro,<br \/>\nAlva pomba entre folhas parecia:<br \/>\nQuando vinha a manh\u00e3, o olhar primeiro<br \/>\nIa beijar-lhe a verde gelosia;<br \/>\nMais tarde a fresca sombra de um coqueiro<br \/>\nDo sol quente a janela protegia;<br \/>\nPouco distante, abrindo o solo adusto,<br \/>\nUm fio d&#8217;\u00e1gua murmurava a custo.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Era uma j\u00f3ia a alcova em que sonhava<br \/>\nElvira, alma de amor. Tapete fino<br \/>\nDe apurado lavor o ch\u00e3o forrava.<br \/>\nDe um lado oval espelho cristalino<br \/>\nPendia. Ao fundo, \u00e0 sombra, se ocultava<br \/>\nElegante, engra\u00e7ado, pequenino<br \/>\nLeito em que, repousando a face bela,<br \/>\nDe amor sonhava a p\u00e1lida donzela.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>N\u00e3o me censure o cr\u00edtico exigente<br \/>\nO ser p\u00e1lida a mo\u00e7a; \u00e9 meu costume<br \/>\nObedecer \u00e0 lei de toda a gente<br \/>\nQue uma obra comp\u00f5e de algum volume.<br \/>\nOra, no nosso caso, \u00e9 lei vigente<br \/>\nQue um descorado rosto o amor resume.<br \/>\nN\u00e3o tinha Miss Smolen outras cores;<br \/>\nN\u00e3o as possui quem sonha com amores.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>Sobre uma mesa havia um livro aberto;<br \/>\nLamartine, o cantor a\u00e9reo e vago,<br \/>\nQue enche de amor um cora\u00e7\u00e3o deserto;<br \/>\nTinha-o lido; era a p\u00e1gina do Lago.<br \/>\nAmava-o; tinha-o sempre ali bem perto,<br \/>\nEra-lhe o anjo bom, o deus, o orago;<br \/>\nChorava aos cantos da divina lira&#8230;<br \/>\n\u00c9 que o grande poeta amava Elvira!<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Elvira! o mesmo nome! A mo\u00e7a os lia,<br \/>\nCom l\u00e1grimas de amor, os versos santos,<br \/>\nAquela eterna e l\u00e2nguida harmonia<br \/>\nFormada com suspiros e com prantos;<br \/>\nQuando escutava a musa da elegia<br \/>\nCantar de Elvira os m\u00e1gicos encantos,<br \/>\nEntrava-lhe a voar a alma inquieta,<br \/>\nE co&#8217;o amor sonhava de um poeta.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>Ai, o amor de um poeta! amor subido!<br \/>\nIndel\u00e9vel, pur\u00edssimo, exaltado,<br \/>\nAmor eternamente convencido,<br \/>\nQue vai al\u00e9m de um t\u00famulo fechado,<br \/>\nE que, atrav\u00e9s dos s\u00e9culos ouvido,<br \/>\nO nome leva do objeto amado,<br \/>\nQue faz de Laura um culto, e tem por sorte<br \/>\nNegra foice quebrar nas m\u00e3os da morte.<\/p>\n<p>XI<\/p>\n<p>Fosse eu mo\u00e7a e bonita&#8230;Neste lance<br \/>\nSe o meu leitor \u00e9 j\u00e1 homem sisudo,<br \/>\nFecha tranq\u00fcilamente o meu romance,<br \/>\nQue n\u00e3o serve a recreio nem a estudo;<br \/>\nN\u00e3o entendendo a for\u00e7a nem o alcance<br \/>\nDe semelhante amor, condena tudo;<br \/>\nAbre um volume s\u00e9rio, farto e enorme,<br \/>\nAlgumas folhas l\u00ea, boceja&#8230;e dorme.<\/p>\n<p>XII<\/p>\n<p>Nada perdes, leitor, nem perdem nada<br \/>\nAs esquecidas musas; pouco importa<br \/>\nQue tu, vulgar mat\u00e9ria condenada,<br \/>\nAches que um tal amor \u00e9 letra morta.<br \/>\nPodes, cedendo \u00e0 opini\u00e3o honrada,<br \/>\nFechar \u00e0 minha Elvira a esquiva porta.<br \/>\nAlmas de prosa ch\u00e3, quem vos daria<br \/>\nConhecer todo o amor que h\u00e1 na poesia?<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>Ora, o tio de Elvira, o velho Antero,<br \/>\nErudito e fil\u00f3sofo profundo,<br \/>\nQue sabia de cor o velho Homero,<br \/>\nE compunha os anais do Novo Mundo;<br \/>\nQue escrevera uma vida de Severo,<br \/>\nObra de grande tomo e de alto fundo;<br \/>\nQue resumia em si a Gr\u00e9cia e L\u00e1cio,<br \/>\nE num sal\u00e3o falava como Hor\u00e1cio;<\/p>\n<p>XIV<\/p>\n<p>Disse uma noite \u00e0 p\u00e1lida sobrinha:<br \/>\n&#8220;Elvira, sonhas tanto! devaneias!<br \/>\nQue andas a procurar, querida minha?<br \/>\nQue ambi\u00e7\u00f5es, que desejos ou que id\u00e9ias<br \/>\nFazem gemer tua alma inocentinha?<br \/>\nDe que esperan\u00e7a v\u00e3, meu anjo, anseias?<br \/>\nTeu cora\u00e7\u00e3o de ardente amor suspira;<br \/>\n&#8220;Que tens?&#8221; &#8211; &#8220;Eu nada,&#8221; respondia Elvira.<\/p>\n<p>XV<\/p>\n<p>&#8220;Alguma coisa tens!&#8221; tornava o tio;<br \/>\n&#8220;Porque olhas tu as nuvens do poente,<br \/>\nVertendo \u00e0s vezes l\u00e1grimas a fio,<br \/>\nMagoada express\u00e3o d&#8217;alma doente?<br \/>\nOutras vezes, olhando a \u00e1gua do rio,<br \/>\nDeixas correr o esp\u00edrito indolente,<br \/>\nComo uma flor que ao vento ali tombara,<br \/>\nE a onda murmurando arrebatara.&#8221;<\/p>\n<p>XVI<\/p>\n<p>&#8220;-Latet anguis in herba&#8230;&#8221; Neste instante<br \/>\nEntrou a tempo o ch\u00e1&#8230;perd\u00e3o, leitores,<br \/>\nEu bem sei que \u00e9 preceito dominante<br \/>\nN\u00e3o misturar comidas com amores;<br \/>\nMas eu n\u00e3o vi, nem sei se algum amante<br \/>\nVive de orvalho ou p\u00e9talas de flores;<br \/>\nNamorados est\u00f4magos consomem;<br \/>\nComem Romeus, e Julietas comem.<\/p>\n<p>XVII<\/p>\n<p>Entrou a tempo o ch\u00e1, e foi servi-lo,<br \/>\nSem responder, a mo\u00e7a interrogada,<br \/>\nC&#8217;um ar t\u00e3o soberano e t\u00e3o tranq\u00fcilo<br \/>\nQue o velho emudeceu. Ceia acabada,<br \/>\nFez o escritor o costumado quilo,<br \/>\nMas um quilo de esp\u00e9cie pouco usada,<br \/>\nQue consistia em ler um livro velho;<br \/>\nNessa noite acertou ser o Evangelho.<\/p>\n<p>XVIII<\/p>\n<p>Abrira em S. Mateus, naquele passo<br \/>\nEm que o filho de Deus diz que a a\u00e7ucena<br \/>\nN\u00e3o labora nem fia, e o tempo escasso<br \/>\nVive, co&#8217;o ar e o sol, sem dor nem pena;<br \/>\nLeu e estendendo o j\u00e1 tr\u00eamulo bra\u00e7o<br \/>\nA triste, \u00e0 melanc\u00f3lica pequena,<br \/>\nApontou-lhe a passagem da Escritura<br \/>\nOnde lera li\u00e7\u00e3o t\u00e3o reta e pura.<\/p>\n<p>XIX<\/p>\n<p>&#8220;V\u00eas? diz o velho, escusas de cansar-te;<br \/>\nDeixa em paz teu esp\u00edrito, crian\u00e7a:<br \/>\nSe existe um cora\u00e7\u00e3o que deva amar-te,<br \/>\nH\u00e1 de vir; vive s\u00f3 dessa esperan\u00e7a.<br \/>\nAs venturas do amor um deus reparte;<br \/>\nQueres t\u00ea-las? p\u00f5e nele a confian\u00e7a.<br \/>\nN\u00e3o persigas com s\u00faplicas a sorte;<br \/>\nTudo se espera; at\u00e9 se espera a morte!<\/p>\n<p>XX<\/p>\n<p>A doutrina da vida \u00e9 esta: espera,<br \/>\nConfia, e colher\u00e1s a ansiada palma;<br \/>\nOxal\u00e1 que eu te apague essa quimera<br \/>\nL\u00e1 diz o bom Dem\u00f3filo que \u00e0 alma<br \/>\nComo traz a andorinha a primavera,<br \/>\nA palavra do s\u00e1bio traz a calma.<br \/>\nO s\u00e1bio aqui sou eu. Ris-te, pequena?<br \/>\nPois melhor; quero ver-te uma a\u00e7ucena!&#8221;<\/p>\n<p>XXI<\/p>\n<p>Falava aquele velho como fala<br \/>\nSobre cores um cego de nascen\u00e7a.<br \/>\nPear a juventude! Conden\u00e1-la<br \/>\nAo sono da ambi\u00e7\u00e3o vivaz e intensa!<br \/>\nCo&#8217;as leves asas da esperan\u00e7a orn\u00e1-la<br \/>\nE n\u00e3o querer que rompa a esfera imensa!<br \/>\nN\u00e3o consentir que esta manh\u00e3 de amores<br \/>\nEncha com frescas l\u00e1grimas as flores.<\/p>\n<p>XXII<\/p>\n<p>Mal o velho acabava e justamente<br \/>\nNa rija porta ouviu-se uma pancada.<br \/>\nQuem seria? Uma serva diligente,<br \/>\nTravando de uma luz, desceu a escada.<br \/>\nPouco depois rangia brandamente<br \/>\nA chave, e a porta aberta dava entrada<br \/>\nA um rapaz embu\u00e7ado que trazia<br \/>\nUma carta, e ao doutor falar pedia.<\/p>\n<p>XXIII<\/p>\n<p>Entrou na sala, e lento, e gracioso,<br \/>\nDescobriu-se e atirou a capa a um lado;<br \/>\nEra um rosto po\u00e9tico e vi\u00e7oso<br \/>\nPor soberbos cabelos coroado;<br \/>\nGrave sem gesto algum pretensioso,<br \/>\nElegante sem ares de enfeitado;<br \/>\nNos l\u00e1bios frescos um sorriso amigo,<br \/>\nOs olhos negros e o perfil antigo.<\/p>\n<p>XXIV<\/p>\n<p>Demais, era poeta. Era-o. Trazia<br \/>\nNaquele olhar n\u00e3o sei que luz estranha<br \/>\nQue indicava um aluno da poesia,<br \/>\nUm morador da cl\u00e1ssica montanha,<br \/>\nUm cidad\u00e3o da terra da harmonia,<br \/>\nDa terra que eu chamei nossa Alemanha,<br \/>\nNuns versos que hei de dar um dia a lume,<br \/>\nOu n&#8217;alguma gazeta, ou num volume.<\/p>\n<p>XXV<\/p>\n<p>Um poeta! e de noite! e de capote!<br \/>\nQue \u00e9 isso, amigo autor? Leitor amigo.<br \/>\nImagina que est\u00e1s num camarote<br \/>\nVendo passar-se em cena um drama antigo.<br \/>\nSem lan\u00e7a n\u00e3o conhe\u00e7o D. Quixote,<br \/>\nSem espada \u00e9 ap\u00f3crifo um Rodrigo;<br \/>\nHer\u00f3i que \u00e0s regras cl\u00e1ssicas escapa,<br \/>\nPode n\u00e3o ser her\u00f3i, mas traz a capa.<\/p>\n<p>XXVI<\/p>\n<p>Heitor (era o seu nome) ao velho entrega<br \/>\nUma carta lacrada; vem do norte.<br \/>\nEscreve-lhe um fil\u00f3sofo colega<br \/>\nJ\u00e1 quase a entrar no t\u00e1lamo da morte.<br \/>\nRecomenda-lhe o filho, e lembra, e alega,<br \/>\nA provada amizade, o esteio forte,<br \/>\nCom que outrora, acudindo-lhe nos transes,<br \/>\nSalvou-lhe o nome de terr\u00edveis lances.<\/p>\n<p>XXVII<\/p>\n<p>Dizia a carta mais: &#8220;Crime ou virtude,<br \/>\n\u00c9 meu filho poeta; e corre fama<br \/>\nQue j\u00e1 faz honra \u00e0 nossa juventude<br \/>\nCo&#8217;a viva inspira\u00e7\u00e3o de et\u00e9rea chama;<br \/>\nDiz ele que, se o g\u00eanio n\u00e3o o ilude,<br \/>\nCam\u00f5es seria se encontrasse um Gama.<br \/>\nDeus o fade; eu perd\u00f4o-lhe tal sestro;<br \/>\nGuia-lhe os passos, cuida-lhe do estro.&#8221;<\/p>\n<p>XXVIII<\/p>\n<p>Lida a carta, o fil\u00f3sofo erudito<br \/>\nAbra\u00e7a o mo\u00e7o e diz em tom pausado:<br \/>\n&#8220;Um sonhador do azul e do infinito!<br \/>\n\u00c9 h\u00f3spede do c\u00e9u, h\u00f3spede amado.<br \/>\nUm bom poeta \u00e9 hoje quase um mito,<br \/>\nSe o talento que tem \u00e9 j\u00e1 provado,<br \/>\nConte co&#8217;o meu exemplo e o meu conselho;<br \/>\nBoa li\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre a voz de um velho.&#8221;<\/p>\n<p>XXIX<\/p>\n<p>E trava-lhe da m\u00e3o, e brandamente<br \/>\nLeva-o junto de Elvira. A mo\u00e7a estava<br \/>\nEncostada \u00e0 janela, e a esquiva mente<br \/>\nPela extens\u00e3o dos ares lhe vagava.<br \/>\nVoltou-se distra\u00edda, e de repente<br \/>\nMal nos olhos de Heitor o olhar fitava,<br \/>\nSentiu&#8230;In\u00fatil fora relat\u00e1-lo;<br \/>\nJulgue-o quem n\u00e3o puder experiment\u00e1-lo.<\/p>\n<p>XXX<\/p>\n<p>\u00d3 santa e pura luz do olhar primeiro!<br \/>\nElo de amor que duas almas liga!<br \/>\nRaio de sol que rompe o nevoeiro<br \/>\nE casa a flor \u00e0 flor! Palavra amiga<br \/>\nQue, trocada um momento passageiro,<br \/>\nLembrar parece uma exist\u00eancia antiga!<br \/>\nL\u00edngua, filha do c\u00e9u, doce eloq\u00fc\u00eancia<br \/>\nDos melhores momentos da exist\u00eancia!<\/p>\n<p>XXXI<\/p>\n<p>Entra a leitora numa sala cheia;<br \/>\nVai isenta, vai livre de cuidado:<br \/>\nNa cabe\u00e7a gentil nenhuma id\u00e9ia,<br \/>\nNenhum amor no cora\u00e7\u00e3o fechado.<br \/>\nLivre como andorinha que volteia<br \/>\nE corre loucamente o ar azulado.<br \/>\nVenham dois olhos, dois, que a alma buscava&#8230;<br \/>\nEra senhora? ficar\u00e1 escrava!<\/p>\n<p>XXXII<\/p>\n<p>C&#8217;um s\u00f3 olhar escravos ele e ela<br \/>\nJ\u00e1 lhes pulsa mais forte o sangue e a vida;<br \/>\nR\u00e1pida corre aquela noite, aquela<br \/>\nPara as castas venturas escolhida;<br \/>\nAssoma j\u00e1 nos l\u00e1bios da donzela<br \/>\nLampejo de alegria esvaecida.<br \/>\nFoi milagre de amor, prod\u00edgio santo.<br \/>\nQuem mais fizera? Quem fizera tanto?<\/p>\n<p>XXXIII<\/p>\n<p>Preparara-se ao mo\u00e7o um aposento.<br \/>\nOh! reverso da antiga desventura!<br \/>\nT\u00ea-lo perto de si! viver do alento<br \/>\nDe um poeta, alma l\u00e2nguida, alma pura!<br \/>\nD\u00e1-lhe, \u00f3 fonte do casto sentimento,<br \/>\n\u00c1guas santas, batismo de ventura!<br \/>\nEnquanto o velho, amigo de outra fonte,<br \/>\nVai mergulhar-se em pleno Xenofonte.<\/p>\n<p>XXXIV<\/p>\n<p>Devo agora contar, dia por dia,<br \/>\nO romance dos dois? In\u00fatil fora;<br \/>\nA hist\u00f3ria \u00e9 sempre a mesma; n\u00e3o varia<br \/>\nA paix\u00e3o de um rapaz e um senhora.<br \/>\nVivem ambos do olhar que se extasia<br \/>\nE conversa co&#8217;a alma sonhadora;<br \/>\nNa mesma luz de amor os dois se inflamam;<br \/>\nOu, como diz Filinto: &#8220;Amados, amam.&#8221;<\/p>\n<p>XXXV<\/p>\n<p>Todavia a leitora curiosa<br \/>\nTalvez queira saber de um incidente;<br \/>\nA confiss\u00e3o dos dois; &#8212; cena espinhosa<br \/>\nQuando a paix\u00e3o domina a alma que sente.<br \/>\nEm regra, confiss\u00e3o franca e verbosa<br \/>\nRevela um cora\u00e7\u00e3o independente;<br \/>\nA paz interior tudo confia,<br \/>\nMas o amor, esse hesita e balbucia.<\/p>\n<p>XXXVI<\/p>\n<p>O amor faz monoss\u00edlabos; n\u00e3o gasta<br \/>\nO tempo com an\u00e1lises compridas;<br \/>\nNem \u00e9 pr\u00f3prio de boca amante e casta<br \/>\nUm chuveiro de frases estendidas;<br \/>\nUm volver d&#8217;olhos l\u00e2nguido nos basta<br \/>\nPor conhecer as chamas comprimidas;<br \/>\nCora\u00e7\u00e3o que discorre e faz estilo,<br \/>\nTem as chaves por dentro e est\u00e1 tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>XXXVII<\/p>\n<p>Deu-se o caso uma tarde em que chovia,<br \/>\nOs dois estavam na varanda aberta.<br \/>\nA chuva peneirava, e al\u00e9m cobria<br \/>\nCinzento v\u00e9u o ocaso; a tarde incerta<br \/>\nJ\u00e1 nos bra\u00e7os a noite recebia,<br \/>\nComo amorosa m\u00e3e que a filha aperta<br \/>\nPor enxugar-lhe os prantos magoados.<br \/>\n&#8216;Stavam ambos im\u00f3veis e calados.<\/p>\n<p>XXXVIII<\/p>\n<p>Juntos, ao parapeito da varanda,<br \/>\nViam cair da chuva as gotas finas,<br \/>\nSentindo a vira\u00e7\u00e3o fria, mas branda,<br \/>\nQue balan\u00e7ava as frouxas casuarinas.<br \/>\nRaras, ao longe, de uma e de outra banda,<br \/>\nPelas do c\u00e9u trist\u00edssimas campinas,<br \/>\nViam correr da tempestade as aves<br \/>\nNegras, serenas, l\u00fagubres e graves.<\/p>\n<p>XXXIX<\/p>\n<p>De quando em quando vinha uma rajada<br \/>\nBorrifar e agitar a Elvira as tran\u00e7as,<br \/>\nComo as fora a brisa perfumada<br \/>\nQue \u00e0 palmeira sacode as t\u00eanues fran\u00e7as.<br \/>\nA fronte gentil\u00edssima e engra\u00e7ada<br \/>\nSacudia co&#8217;a chuva as m\u00e1s lembran\u00e7as;<br \/>\nE ao passo que chorava a tarde escura<br \/>\nRia-se nela a aurora da ventura.<\/p>\n<p>XL<\/p>\n<p>&#8220;Que triste a tarde vai! que v\u00e9u de morte<br \/>\nCobrir parece a terra! ( o mo\u00e7o exclama).<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o fiel da minha sorte,<br \/>\nSombra e choro. &#8211; &#8220;Porqu\u00ea?&#8221; pergunta a dama;<br \/>\nDiz que teve dos c\u00e9us uma alma forte&#8230;<br \/>\n&#8211;&#8220;\u00c9 forte o bronze e n\u00e3o resiste \u00e0 chama;<br \/>\nLeu versos meus em que zombei do fado?<br \/>\nIlus\u00f5es de poeta malogrado!&#8221;<\/p>\n<p>XLI<\/p>\n<p>&#8220;Somos todos assim. \u00c9 nossa gl\u00f3ria<br \/>\nContra o destino opor alma de ferro;<br \/>\nDesafiar o mal, eis nossa hist\u00f3ria,<br \/>\nE o tremendo duelo \u00e9 sempre um erro.<br \/>\nCusta-nos caro uma falaz vit\u00f3ria<br \/>\nQue nem consola as m\u00e1goas do desterro,<br \/>\nO desterro, &#8212; esta vida obscura e rude<br \/>\nQue a dor enfeita e as v\u00edtimas ilude.<\/p>\n<p>XLII<\/p>\n<p>Contra esse mal tremendo que devora<br \/>\nA seiva toda \u00e0 nossa mocidade,<br \/>\nQue rem\u00e9dio haver\u00edamos, senhora,<br \/>\nSen\u00e3o versos de afronta e liberdade?<br \/>\nNo entanto, bastaria acaso um&#8217;hora,<br \/>\nUma s\u00f3, mas de amor, mas de piedade,<br \/>\nPara trocar por s\u00e9culos de vida<br \/>\nEstes de dor acerba e envilhecida&#8221;<\/p>\n<p>XLIII<\/p>\n<p>Ai n\u00e3o disse e, fitando olhos ardentes<br \/>\nNa mo\u00e7a, que de enleio enrubescia,<br \/>\nCom discursos mais fortes e eloq\u00fcentes<br \/>\nNa exposi\u00e7\u00e3o do caso prosseguia;<br \/>\nA pouco e pouco as m\u00e3os inteligentes<br \/>\nTravaram-se; e n\u00e3o sei se conviria<br \/>\nAcrescentar que um \u00f3sculo&#8230;Risquemos,<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 bom mencionar estes extremos.<\/p>\n<p>XLIV<\/p>\n<p>Duas sombrias nuvens afastando,<br \/>\nT\u00eanue raio de sol rompera os ares,<br \/>\nE, no amoroso grupo desmaiando,<br \/>\nTestemunhou-lhe as n\u00fapcias singulares.<br \/>\nA nesga azul do ocaso contemplando,<br \/>\nSentiram ambos irem-lhe os pesares,<br \/>\nComo noturnas aves agoureiras<br \/>\nQue \u00e0 luz fogem medrosas e ligeiras.<\/p>\n<p>XLV<\/p>\n<p>Tinha m\u00e1goas o mo\u00e7o? A causa delas?<br \/>\nNenhuma causa; fantasia apenas;<br \/>\nO eterno devanear das almas belas,<br \/>\nQuando as dominam fervidas Camenas;<br \/>\nUma ambi\u00e7\u00e3o de conquistar estrelas,<br \/>\nComo se colhem l\u00facidas falenas;<br \/>\nUm desejo de entrar na eterna lida,<br \/>\nUm querer mais do que nos cede a vida.<\/p>\n<p>XLVI<\/p>\n<p>Com amores sonhava, ideal formado<br \/>\nDe celestes e eternos esplendores,<br \/>\nA ternura de um anjo destinado<br \/>\nA encher-lhe a vida de perp\u00e9tuas flores.<br \/>\nTinha-o enfim, qual fora antes criado<br \/>\nNos seus dias de m\u00e1goas e amargores;<br \/>\nMadrugavam-lhe na alma a luz e o riso;<br \/>\nEstava \u00e0 porta enfim do para\u00edso.<\/p>\n<p>XLVII<\/p>\n<p>Nessa noite, o poeta namorado<br \/>\nN\u00e3o conseguiu dormir. A alma fugira<br \/>\nPara ir velar o doce objeto amado,<br \/>\nPor quem, nas \u00e2nsias da paix\u00e3o, suspira;<br \/>\nE \u00e9 prov\u00e1vel que, achando o exemplo dado,<br \/>\nAo p\u00e9 de Heitor viesse a alma de Elvira;<br \/>\nDe maneira que os dois, de si ausentes,<br \/>\nL\u00e1 se achavam mais vivos e presentes.<\/p>\n<p>XLVIII<\/p>\n<p>Ao romper da manh\u00e3, co&#8217;o sol ardente,<br \/>\nBrisa fresca, entre as folhas sussurrando,<br \/>\nO n\u00e3o-dormido vate acorda, e a mente<br \/>\nLhe foi dos vagos sonhos arrancando.<br \/>\nHeitor contempla o vale resplendente,<br \/>\nA flor abrindo, o p\u00e1ssaro cantando;<br \/>\nE a terra que entre risos acordava,<br \/>\nAo sol do estio as roupas enxugava.<\/p>\n<p>XLIX<\/p>\n<p>Tudo ent\u00e3o lhe sorria. A natureza,<br \/>\nAs musas, o futuro, o amor e a vida;<br \/>\nQuanto sonhara aquela mente acesa<br \/>\nDera-lhe a sorte, enfim, compadecida.<br \/>\nUm para\u00edso, uma gentil beleza,<br \/>\nE a ternura cast\u00edssima e vencida<br \/>\nDe um cora\u00e7\u00e3o criado para amores,<br \/>\nQue exala afetos como aroma as flores.<\/p>\n<p>L<\/p>\n<p>E ela? Se conheceste em tua vida,<br \/>\nLeitora, o mal de amor, del\u00edrio santo,<br \/>\nDor que eleva e conforta a alma abatida,<br \/>\nEmbriaguez do c\u00e9u, divino encanto,<br \/>\nSe a tua face ardente e enrubescida<br \/>\nPalejou com suspiros e com prantos,<br \/>\nSe ardeste enfim, naquela intensa chama,<br \/>\nEntender\u00e1s o amor de ing\u00eanua dama.<\/p>\n<p>LI<\/p>\n<p>Repara que eu n\u00e3o falo desse enleio<br \/>\nDe uma noite de baile ou de palestra;<br \/>\nAmor que mal agita a flor do seio,<br \/>\nE ao ch\u00e1 termina e acaba com a orquestra;<br \/>\nN\u00e3o me refiro ao simples galanteio<br \/>\nEm que cada menina \u00e9 velha mestra,<br \/>\nAvesso ao sacrif\u00edcio, \u00e0 dor e ao choro;<br \/>\nFalo do amor, n\u00e3o falo do namoro.<\/p>\n<p>LII<\/p>\n<p>\u00c9den de amor, \u00f3 solid\u00e3o fechada,<br \/>\nCasto asilo a que o sol dos novos dias<br \/>\nVai mandar, como a furto, a luz coada<br \/>\nPelas frestas das verdes gelosias,<br \/>\nGuarda-os ambos; conserva-os recatada.<br \/>\nAlmas feitas de amor e de harmonias,<br \/>\nTecei, tecei as v\u00edvidas capelas,<br \/>\nDeixai correr sem susto as horas belas.<\/p>\n<p>LIII<\/p>\n<p>C\u00e1 fora o mundo ins\u00edpido e profano<br \/>\nN\u00e3o d\u00e1, nem pode dar o enleio puro<br \/>\nDas almas novas, nem o doce engano<br \/>\nCom que se esquecem males do futuro.<br \/>\nN\u00e3o busqueis penetrar neste oceano<br \/>\nEm que se agita o temporal escuro.<br \/>\nPor fugir ao naufr\u00e1gio e ao sofrimento,<br \/>\nTendes uma enseada, &#8212; o casamento.<\/p>\n<p>LIV<\/p>\n<p>Resumamos, leitora, a narrativa.<br \/>\nTanta estrofe a cantar et\u00e9reas chamas<br \/>\nPede compensa\u00e7\u00e3o, musa insensiva,<br \/>\nQue fatigais sem pena o ouvido \u00e0s damas.<br \/>\nDemais, \u00e9 regra certa e positiva<br \/>\nQue muitas vezes as maiores famas<br \/>\nPerde-as uma ambi\u00e7\u00e3o de tagarela;<br \/>\nMusa, aprende a li\u00e7\u00e3o; musa, cautela!<\/p>\n<p>LV<\/p>\n<p>Meses depois da cena relatada<br \/>\nNas estrofes, a folhas, &#8212; o poeta<br \/>\nOuviu do velho Antero uma estudada<br \/>\nOra\u00e7\u00e3o Cicer\u00f4nica e seleta;<br \/>\nA conclus\u00e3o da arenga preparada<br \/>\nEra mais agrad\u00e1vel que discreta.<br \/>\nDizia o velho erguendo olhos serenos:<br \/>\n&#8220;Pois que se adoram, casem-se, pequenos!&#8221;<\/p>\n<p>LVI<\/p>\n<p>L\u00e1grima santa, l\u00e1grima de gosto<br \/>\nVertem olhos de Elvira; e um riso aberto<br \/>\nVeio inundar-lhe de prazer o rosto<br \/>\nComo uma flor que abrisse no deserto.<br \/>\nSe iam j\u00e1 longe as sombras do desgosto;<br \/>\nInda at\u00e9 li era o futuro incerto;<br \/>\nFez-lho certo o anci\u00e3o; e a mo\u00e7a grata<br \/>\nBeija a m\u00e3o que o futuro lhe resgata.<\/p>\n<p>LVII<\/p>\n<p>Correm-se banhos, tiram-se dispensas,<br \/>\nVai-se buscar um padre ao povoado;<br \/>\nPrepara-se o enxoval e outras perten\u00e7as<br \/>\nNecess\u00e1rias agora ao novo estado.<br \/>\nNotam-se at\u00e9 algumas diferen\u00e7as<br \/>\nNo modo de viver do velho honrado,<br \/>\nQue sacrificia \u00e0 noiva e aos deuses lares<br \/>\nUm estudo dos cl\u00e1ssicos jantares.<\/p>\n<p>LVIII<\/p>\n<p>&#8220;Onde vais tu? &#8211; \u00c0 serra! Vou contigo&#8221;.<br \/>\n&#8211;&#8221; N\u00e3o, n\u00e3o venhas, meu anjo, \u00e9 longa a estrada.<br \/>\nSe cansares?&#8221; &#8211; &#8220;Sou leve, meu amigo;<br \/>\nDescerei nos teus ombros carregada.&#8221;<br \/>\n&#8211;&#8221; Vou compor encostado ao cedro antigo<br \/>\nCanto de n\u00fapcias&#8221;. &#8211; &#8220;Seguirei calada;<br \/>\nJunto de ti, ter-me-\u00e1s mais em lembran\u00e7a;<br \/>\nMusa serei sem perturbar.&#8221;-&#8220;Crian\u00e7a!&#8221;<\/p>\n<p>LIX<\/p>\n<p>Brandamente repele Heitor a Elvira;<br \/>\nA mo\u00e7a fica; o poeta lentamente<br \/>\nSobe a montanha. A noiva repetira<br \/>\nO primeiro pedido inutilmente.<br \/>\nOlha-o de longe, e t\u00edmida suspira.<br \/>\nVinha a tarde caindo frouxamente,<br \/>\nN\u00e3o triste, mas risonha e fresca e bela,<br \/>\nComo a vida da p\u00e1lida donzela.<\/p>\n<p>LX<\/p>\n<p>Chegando, enfim, \u00e0 c&#8217;roa da colina,<br \/>\nViram olhos de Heitor o mar ao largo,<br \/>\nE o sol, que despe a veste purpurina,<br \/>\nPara dormir no eterno leito amargo.<br \/>\nSurge das \u00e1guas p\u00e1lida e divina,<br \/>\nEssa que tem por deleitoso encargo<br \/>\nVelar amantes, proteger amores,<br \/>\nLua, musa dos c\u00e2ndidos palores.<\/p>\n<p>LXI<\/p>\n<p>Respira Heitor; \u00e9 livre. O casamento?<br \/>\nFoi sonho que passou, fugaz id\u00e9ia<br \/>\nQue n\u00e3o p\u00f4de durar mais que um momento.<br \/>\nOutra ambi\u00e7\u00e3o a alma lhe incendeia.<br \/>\nDissipada a ilus\u00e3o, o pensamento<br \/>\nNovo quadro a seus olhos patenteia,<br \/>\nN\u00e3o lhe basta aos desejos de sua alma<br \/>\nA enseada da vida estreita e calma.<\/p>\n<p>LXII<\/p>\n<p>Aspira ao largo; pulsam-lhe no peito<br \/>\nUns \u00edmpetos de vida; outro horizonte,<br \/>\nT\u00famidas vagas, temporal desfeito,<br \/>\nQuer com eles lutar fronte por fronte.<br \/>\nDeixa o tranq\u00fcilo amor, casto e perfeito,<br \/>\nPelos br\u00f3dios de V\u00eanus de Amatonte;<br \/>\nA exist\u00eancia entre flores esquecida<br \/>\nPelos rumores de mais ampla vida.<\/p>\n<p>LXIII<\/p>\n<p>Nas m\u00e3os da noite desmaiara a tarde;<br \/>\nDescem ao vale as sombras vergonhosas;<br \/>\nNoite que o c\u00e9u, por mofa ou por alarde,<br \/>\nTorna prop\u00edcia \u00e0s almas venturosas.<br \/>\nO derradeiro olhar frio e covarde<br \/>\nE umas n\u00e3o sei qu\u00ea estrofes lamentosas<br \/>\nSolta o poeta, enquanto a triste Elvira,<br \/>\nVi\u00fava antes de noiva, em v\u00e3o suspira!<\/p>\n<p>LXIV<\/p>\n<p>Transp\u00f5e o mar Heitor, transp\u00f5e montanhas;<br \/>\nTu, curiosidade, ingrato levas<br \/>\nA ir ver o sol das regi\u00f5es estranhas.<br \/>\nA ir ver o amor das peregrinas Evas.<br \/>\nVai, em troco de palmas e fa\u00e7anhas,<br \/>\nViver na morte, bracejar nas trevas;<br \/>\nFazer do amor, que \u00e9 livro aos homens dado,<br \/>\nCopioso almanaque namorado.<\/p>\n<p>LXV<\/p>\n<p>Inscreve nele a mo\u00e7a de Sevilha,<br \/>\nLongas festas e noites espanholas,<br \/>\nA indiscreta e diab\u00f3lica mantilha<br \/>\nQue a fronte cinge a amantes e a carolas.<br \/>\nQuantos encontra cora\u00e7\u00f5es perfilha,<br \/>\nFaz da bolsa e do amor largas esmolas;<br \/>\nEsquece o antigo amor e a antiga musa<br \/>\nEntre os beijos da l\u00e9pida Andaluza.<\/p>\n<p>LXVI<\/p>\n<p>Canta no seio t\u00fargido e macio<br \/>\nDa fogosa, indolente Italiana,<br \/>\nE dorme junto ao laranjal sombrio<br \/>\nAo som de uma can\u00e7\u00e3o napolitana.<br \/>\nD\u00e3o-lhe para os ser\u00f5es do ardente estio,<br \/>\nAsti, os vinhos; mulheres, a Toscana.<br \/>\nRoma adora, embriaga-se em Veneza,<br \/>\nE ama a arte nos bra\u00e7os da beleza.<\/p>\n<p>LXVII<\/p>\n<p>V\u00ea Londres, v\u00ea Paris, terra das ceias,<br \/>\nFeira do amor a toda a bolsa aberta:<br \/>\nNo mesmo la\u00e7o, as belas como as feias,<br \/>\nPor capricho ou raz\u00e3o, iguais aperta;<br \/>\nA idade n\u00e3o pergunta \u00e0s ta\u00e7as cheias,<br \/>\nS\u00f3 pede o vinho que o prazer desperta;<br \/>\nAdora as outoni\u00e7as, como as novas,<br \/>\nTorna-se her\u00f3i de rua e her\u00f3i de alcovas.<\/p>\n<p>LXVIII<\/p>\n<p>Versos quando os comp\u00f5e, celebram antes<br \/>\nO alegre v\u00edcio que a virtude austera;<br \/>\nCanta os beijos e as noites delirantes,<br \/>\nO est\u00e9ril gozo que a vol\u00fapia gera;<br \/>\nTroca a ilus\u00e3o que o seduzia dantes<br \/>\nPor maior e trist\u00edssima quimera;<br \/>\nAve do c\u00e9u, entre \u00f3sculos criada,<br \/>\nEspalha as plumas brancas pela estrada.<\/p>\n<p>LXIX<\/p>\n<p>Um dia, enfim, cansado e aborrecido,<br \/>\nAcorda Heitor; e olhando em roda e ao largo,<br \/>\nV\u00ea um deserto, e do prazer perdido<br \/>\nResta-lhe unicamente o gosto amargo;<br \/>\nN\u00e3o achou o ideal apetecido<br \/>\nNo longo e profund\u00edssimo letargo;<br \/>\nA vida exausta em festas e esplendores,<br \/>\nSe alguma tinha, eram j\u00e1 murchas flores.<\/p>\n<p>LXX<\/p>\n<p>Ora, uma noite, costeando o Reno,<br \/>\nAo luar melanc\u00f3lico, &#8212; buscava<br \/>\nAquele gozo simples, doce, ameno,<br \/>\nQue \u00e0 vida toda outrora lhe bastava;<br \/>\nVoz remota, cortando o ar sereno,<br \/>\nEm derredor os ecos acordava;<br \/>\nVoz alde\u00e3 que o largo espa\u00e7o enchia,<br \/>\nE uma can\u00e7\u00e3o de Schiller repetia.<\/p>\n<p>LXXI<\/p>\n<p>&#8220;A gl\u00f3ria! diz Heitor, a gl\u00f3ria \u00e9 vida!<br \/>\nPorque busquei nos gozos de outra sorte<br \/>\nEsta felicidade apetecida,<br \/>\nEsta ressurrei\u00e7\u00e3o que anula a morte?<br \/>\n\u00d3 ilus\u00e3o fant\u00e1stica e perdida!<br \/>\n\u00d3 malgasto, ardent\u00edssimo transporte!<br \/>\nMusa, restaura as apagadas tintas!<br \/>\nRevivei, revivei, chamas extintas!&#8221;<\/p>\n<p>LXXII<\/p>\n<p>A gl\u00f3ria? tarde vens, pobre exilado!<br \/>\nA gl\u00f3ria pede as ilus\u00f5es vi\u00e7osas,<br \/>\nEstro em flor, cora\u00e7\u00e3o eletrizado,<br \/>\nM\u00e3os que possam colher et\u00e9reas rosas;<br \/>\nMas tu, filho do \u00f3cio e do pecado,<br \/>\nTu que perdeste as for\u00e7as portentosas<br \/>\nNa agita\u00e7\u00e3o que os \u00e2nimos abate,<br \/>\nQueres colher a palma do combate?<\/p>\n<p>LXXIII<\/p>\n<p>Chamas em v\u00e3o as musas; deslembradas,<br \/>\n\u00c0 tua voz os seus ouvidos cerram;<br \/>\nE nas p\u00e1ginas virgens, preparadas,<br \/>\nPobre poeta, em v\u00e3o teus olhos erram;<br \/>\nNega-se a inspira\u00e7\u00e3o; nas despregadas<br \/>\nCordas da velha lira, os sons que encerram<br \/>\nInertes dormem; teus cansados dedos<br \/>\nCorrem debalde; esquecem-lhe os segredos.<\/p>\n<p>LXXIV<\/p>\n<p>Ah! se a ta\u00e7a do amor e dos prazeres<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o guarda licor que te embriague;<br \/>\nSe nem musas nem l\u00e2nguidas mulheres<br \/>\nT\u00eam cora\u00e7\u00e3o que o teu desejo apague;<br \/>\nBusca a ci\u00eancia, estuda a lei dos seres,<br \/>\nQue a m\u00e3o divina a tua dor esmague;<br \/>\nEntra em ti, v\u00ea o que \u00e9s, observa em roda,<br \/>\nEscuta e palpa a natureza toda.<\/p>\n<p>LXXV<\/p>\n<p>Livros compra, um fil\u00f3sofo procura;<br \/>\nRevolve a cria\u00e7\u00e3o, prescruta a vida;<br \/>\nV\u00ea se espancas a longa noite escura<br \/>\nEm que a est\u00e9ril raz\u00e3o andou metida;<br \/>\nTalvez aches a palma da ventura<br \/>\nNo campo das ci\u00eancias escondida.<br \/>\nQue a tua mente as ilus\u00f5es esque\u00e7a:<br \/>\nSe o cora\u00e7\u00e3o morreu, vive a cabe\u00e7a!<\/p>\n<p>LXXVI<\/p>\n<p>Ora, por n\u00e3o brigar co&#8217;os meus leitores,<br \/>\nDos quais, conforme a curta ou longa vista,<br \/>\nUns pertencem aos grupos novadores,<br \/>\nDa fria comunh\u00e3o materialista;<br \/>\nOutros, seguindo exemplos dos melhores,<br \/>\nDefendem a teoria idealista;<br \/>\nOutros, enfim, fugindo armas extremas,<br \/>\nV\u00e3o curando por ambos os sistemas.<\/p>\n<p>LXXVII<\/p>\n<p>Direi que o nosso Heitor, ap\u00f3s o estudo<br \/>\nDa natureza e suas harmonias,<br \/>\n(Opondo a consci\u00eancia um forte escudo<br \/>\nContra divaga\u00e7\u00f5es e fantasias);<br \/>\nDepois de ter aprofundado tudo,<br \/>\nPlanta, homem, estrelas, noites, dias;<br \/>\nAchou esta li\u00e7\u00e3o inesperada:<br \/>\nVeio a saber que n\u00e3o sabia nada.<\/p>\n<p>LXXVIII<\/p>\n<p>&#8220;Nada! exclama um fil\u00f3sofo amarelo<br \/>\nPelas longas vig\u00edlias, afastando<br \/>\nUm livro que h\u00e1 de ver um dia ao prelo<br \/>\nE em cujas folhas ia trabalhando.<br \/>\nPois eu, doutor de borla e de capelo,<br \/>\nEu que passo os meus dias estudando,<br \/>\nHei de ler o que escreve pena ousada,<br \/>\nQue a ci\u00eancia da vida acaba em nada?&#8221;<\/p>\n<p>LXXIX<\/p>\n<p>Aqui convinha intercalar com jeito,<br \/>\nSem pretens\u00e3o, nem pompa nem barulho,<br \/>\nUma arrancada ap\u00f3strofe do peito<br \/>\nContra as v\u00e3s pretens\u00f5es do nosso orgulho;<br \/>\nConviria mostrar em todo o efeito<br \/>\nEssa que \u00e9s do esp\u00edrito entulho,<br \/>\nCi\u00eancia v\u00e3, de magnas leis t\u00e3o rica,<br \/>\nQue ignora tudo, e tudo ao mundo explica.<\/p>\n<p>LXXX<\/p>\n<p>Mas, urgindo acabar este romance,<br \/>\nDeixo em paz o fil\u00f3sofo, e procuro<br \/>\nDizer do vate o doloroso trance<br \/>\nQuando se achou mais peco e mais escuro.<br \/>\nValera bem naquele triste lance<br \/>\nUm sorriso do c\u00e9u pl\u00e1cido e puro,<br \/>\nRaio do sol eterno da verdade,<br \/>\nQue a vida aquece e alenta a humanidade.<\/p>\n<p>LXXXI<\/p>\n<p>Qu\u00ea! nem ao menos na ci\u00eancia havia<br \/>\nFonte que a eterna sede lhe matasse?<br \/>\nNem no amor, nem no seio da poesia<br \/>\nPodia nunca repousar a face?<br \/>\nAtr\u00e1s desse fantasma correria<br \/>\nSem que jamais as formas lhe palpasse?<br \/>\nSeria acaso a sua ingrata sorte<br \/>\nA ventura encontrar nas m\u00f5as da morte?<\/p>\n<p>LXXXII<\/p>\n<p>A morte! Heitor pensara alguns momentos<br \/>\nNessa sombria porta aberta \u00e0 vida;<br \/>\nP\u00e1lido arcanjo dos finais alentos<br \/>\nDe alma que o c\u00e9u deixou desiludida;<br \/>\nM\u00e3o que, fechando os olhos sonolentos,<br \/>\nP\u00f5e o termo fatal \u00e0 humana lida;<br \/>\nTemplo de gl\u00f3ria ou regi\u00e3o do medo<br \/>\nMorte, quem te arrancara o teu segredo?<\/p>\n<p>LXXXIII<\/p>\n<p>Vazio, in\u00fatil, ermo de esperan\u00e7as<br \/>\nHeitor buscava a noiva ignota e fria,<br \/>\nQue o envolvesse ent\u00e3o nas longas tran\u00e7as<br \/>\nE o conduzisse \u00e0 c\u00e2mara sombria,<br \/>\nQuando, em meio de p\u00e1lidas lembran\u00e7as,<br \/>\nSurgiu-lhe a id\u00e9ia de um remoto dia,<br \/>\nEm que cingindo a c\u00e2ndida capela<br \/>\nEstava a pertencer-lhe uma donzela.<\/p>\n<p>LXXXIV<\/p>\n<p>Elvira! o casto amor! a esposa amante!<br \/>\nRosa de uma esta\u00e7\u00e3o, deixada ao vento!<br \/>\nRiso dos c\u00e9us! estrela rutilante<br \/>\nEsquecida no azul do firmamento!<br \/>\nIdeal, meteoro de um instante!<br \/>\nGl\u00f3ria da vida, luz do pensamento!<br \/>\nA gentil, a formosa realidade!<br \/>\n\u00danica dita e \u00fanica verdade!<\/p>\n<p>LXXXV<\/p>\n<p>Ah! porque n\u00e3o ficou calmo e tranq\u00fcilo<br \/>\nDa ing\u00eanua mo\u00e7a nos divinos bra\u00e7os?<br \/>\nPorque fugira ao casto e alegre asilo?<br \/>\nPorque rompera os malformados la\u00e7os?<br \/>\nQuem pudera jamais restitu\u00ed-lo<br \/>\nAos estreitos, fort\u00edssimos abra\u00e7os<br \/>\nCom que Elvira apertava enternecida<br \/>\nEsse que lhe era o amor, a alma e a vida?<\/p>\n<p>LXXXVI<\/p>\n<p>Ser\u00e1 tempo? Quem sabe? Heitor hesita;<br \/>\nTardio pejo lhe enrubesce a face;<br \/>\nPunge o remorso; o cora\u00e7\u00e3o palpita<br \/>\nComo se vida nova o reanimasse;<br \/>\nT\u00eanue fogo, entre a cinza, arde e se agita&#8230;<br \/>\nAh! se o passado ali ressuscitasse<br \/>\nReviveriam ilus\u00f5es vi\u00e7osas,<br \/>\nE a gasta vida rebentara em rosas!<\/p>\n<p>LXXXVII<\/p>\n<p>Resolve Heitor voltar ao vale amigo,<br \/>\nOnde ficara a noiva abandonada.<br \/>\nTransp\u00f5e o lar, afronta-lhe o perigo,<br \/>\nE chega enfim \u00e0 terra desejada.<br \/>\nSobe o monte, contempla o cedro antigo,<br \/>\nSente abrir-se-lhe n&#8217;alma a flor murchada<br \/>\nDas ilus\u00f5es que um dia concebera;<br \/>\nRosa extinta da sua primavera!<\/p>\n<p>LXXXVIII<\/p>\n<p>Era a hora em que os serros do oriente<br \/>\nFormar parecem luminosas urnas;<br \/>\nE abre o sol a pupila resplendente<br \/>\nQue \u00e0s folhas sorve as l\u00e1grimas noturnas;<br \/>\nFrouxa brisa amorosa e diligente<br \/>\nVai acordando as sombras taciturnas;<br \/>\nSurge nos bra\u00e7os dessa aurora estiva<br \/>\nA alegre natureza rediviva.<\/p>\n<p>LXXXIX<\/p>\n<p>Campa era o mar; o vale estreito ber\u00e7o;<br \/>\nDe um lado a morte, do outro lado a vida,<br \/>\nCanto do c\u00e9u, resumo do universo,<br \/>\nNinho para aquecer a ave abatida.<br \/>\nInda nas sombras todo o vale imerso,<br \/>\nN\u00e3o acordara \u00e0 costumada lida;<br \/>\nRepousava no pl\u00e1cido abandono<br \/>\nDa paz tranq\u00fcila e do tranq\u00fcilo sono.<\/p>\n<p>XC<\/p>\n<p>Alto j\u00e1 ia o sol, quando descera<br \/>\nHeitor a oposta face da montanha;<br \/>\nNada do que deixou desparecera;<br \/>\nO mesmo rio as mesmas ervas banha.<br \/>\nA casa, como ent\u00e3o, garrida e austera,<br \/>\nDo sol nascente a viva luz apanha;<br \/>\nIguais flores, nas plantas renascidas&#8230;<br \/>\nTudo ali fala de perp\u00e9tuas vidas!<\/p>\n<p>XCI<\/p>\n<p>Desce o poeta cauteloso e lento.<br \/>\nOlha de longe; um vulto ao sol erguia<br \/>\nA veneranda fronte, monumento<br \/>\nDe grave e celestial melancolia.<br \/>\nComo sulco de um fundo pensamento<br \/>\nLarga ruga na testa abrir se via,<br \/>\nEra a ru\u00edna talvez de um esperan\u00e7a&#8230;<br \/>\nNos bra\u00e7os tinha uma gentil crian\u00e7a.<\/p>\n<p>XCII<\/p>\n<p>Ria a crian\u00e7a; o velho contemplava<br \/>\nAquela flor que \u00e0s auras matutinas<br \/>\nO perfumoso c\u00e1lix desbrochava<br \/>\nE entrava a abrir as p\u00e9talas divinas.<br \/>\nTriste sorriso o rosto lhe animava,<br \/>\nComo um raio de lua entre ru\u00ednas.<br \/>\nAlegria infantil, tristeza austera,<br \/>\nO inverno torvo, a alegre primavera!<\/p>\n<p>XCIII<\/p>\n<p>Desce o poeta , desce, e preso, e fito<br \/>\nNos belos olhos do gentil infante,<br \/>\nTreme, comprime o peito&#8230; e ap\u00f3s um grito<br \/>\nCorre alegre, exaltado e delirante,<br \/>\nAh! se jamais as vozes do infinito<br \/>\nPodem sair de um cora\u00e7\u00e3o amante,<br \/>\nTeve-as aquele&#8230; L\u00e1grimas sentidas<br \/>\nLhe inundaram as faces ressequidas!<\/p>\n<p>XCIV<\/p>\n<p>&#8220;Meu filho!&#8221; exclama, e s\u00fabito parando<br \/>\nAnte o grupo ajoelha o libertino;<br \/>\nGeme, solu\u00e7a, em l\u00e1grimas beijando<br \/>\nAs m\u00e3os do velho e as tran\u00e7as do menino.<br \/>\nErgue-se Antero, e frio e venerando,<br \/>\nOlhos no c\u00e9u, exclama: &#8220;Que destino!<br \/>\nMurchar-lhe, viva, a rosa da ventura;<br \/>\nMorta, insultar-lhe a paz da sepultura!&#8221;<\/p>\n<p>XCV<\/p>\n<p>&#8220;Morta!&#8221; &#8211; Sim! &#8211; &#8220;Ah! senhor! se arrependido<br \/>\nPosso alcan\u00e7ar perd\u00e3o, se com meus prantos,<br \/>\nPosso apiedar-lhe o cora\u00e7\u00e3o ferido<br \/>\nPor tanta m\u00e1goa e longos desencantos;<br \/>\nSe este infante, entre l\u00e1grimas nascido,<br \/>\nPode influir-me os seus afetos santos&#8230;<br \/>\n\u00c9 meu filho, n\u00e3o \u00e9? perd\u00e3o lhe imploro!<br \/>\nVeja, senhor! eu sofro, eu creio, eu choro&#8221;.<\/p>\n<p>XCVI<\/p>\n<p>Olha-o com frio orgulho o velho honrado;<br \/>\nDepois, fugindo aquela cena estranha,<br \/>\nEntra em casa. O poeta, acabrunhado,<br \/>\nSobe outra vez a encosta da montanha;<br \/>\nAo cimo chega, e desce o oposto lado<br \/>\nQue a vaga azul entre solu\u00e7os banha.<br \/>\nComo fria ironia a tantas m\u00e1goas,<br \/>\nBatia o sol de chapa sobre as \u00e1guas.<\/p>\n<p>XCVII<\/p>\n<p>Pouco tempo depois ouviu-se um grito,<br \/>\nSom de um corpo nas \u00e1guas resvalado;<br \/>\n\u00c0 flor das vagas veio um corpo aflito&#8230;<br \/>\nDepois&#8230; o sol tranq\u00fcilo e o mar calado.<br \/>\nDepois&#8230;Aqui termina o manuscrito,<br \/>\nQue me legou antigo deputado,<br \/>\nHomem de alma de ferro, e olhar sinistro,<br \/>\nQue morreu velho e nunca foi ministro<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Ulisse, jet\u00e9 sur les rives d&#8217;Ithaque, ne les reconna\u00eet pas et pleure sa patrie. Ainsi l&#8217;homme dans le bonheur poss\u00e9d\u00e9 ne reconna\u00eet pas son r\u00eave et soupire. Daniel Stern. I Quando, leitora amiga, no ocidente Surge a tarde esmaiada e pensativa; E entre a verde folhagem rescendente L\u00e2nguida geme a vira\u00e7\u00e3o lasciva; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120110","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>P\u00e1lida Elvira, Machado de Assis, Obra Completa P\u00e1lida Elvira<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"P\u00e1lida Elvira, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema P\u00e1lida Elvira\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta 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