{"id":120065,"date":"2017-04-19T12:08:32","date_gmt":"2017-04-19T14:08:32","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120065"},"modified":"2017-04-19T12:08:32","modified_gmt":"2017-04-19T14:08:32","slug":"zadig","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/zadig","title":{"rendered":"Zadig"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"444\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><\/p>\n<p>\t\t  <\/strong>\n\t\t  <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Voltaire<\/h2>\n<p><strong>Apresenta&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Voltaire (Fran&ccedil;ois-Marie Arouet) foi um dos grandes fil&oacute;sofos<br \/>\n      do Iluminismo. Dentre as suas qualidades destaca-se a ironia, &agrave;s<br \/>\n      vezes gentil, em outras sarc&aacute;stica e, n&atilde;o poucas vezes, profundamente<br \/>\n      destrutiva. Suas obras d&atilde;o sentido &agrave; velha m&aacute;xima:<br \/>\n      &#8220;Ridendo Castigat Mores&#8221; (com o riso castigam-se os costumes).<\/p>\n<p>Zadig n&atilde;o &eacute; diferente; ironiza o poder, a organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      pol&iacute;tica, a riqueza, o orgulho as pretens&otilde;es da burguesia,<br \/>\n      a riqueza, a inveja e muito mais.<\/p>\n<p>Vale hoje como valeu em seu s&eacute;culo.<\/p>\n<p><b>N&eacute;lson Jahr Garcia<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"1\">I &#8211; O CAOLHO<\/a><\/h4>\n<p>No tempo do rei Moabdar havia em Babil&ocirc;nia um jovem chamado Zadig<br \/>\n      e cuja boa &iacute;ndole se aprimorara pela educa&ccedil;&atilde;o. Embora<br \/>\n      mo&ccedil;o e rico, sabia moderar as paix&otilde;es, n&atilde;o afetava<br \/>\n      nada; n&atilde;o pretendia ter sempre raz&atilde;o, e costumava respeitar<br \/>\n      a fraqueza dos homens. Era de espantar que, com tanto esp&iacute;rito, jamais<br \/>\n      procurasse meter a rid&iacute;culo esses di&aacute;logos t&atilde;o vagos,<br \/>\n      t&atilde;o incoerentes, t&atilde;o irrequietos, essas temer&aacute;rias<br \/>\n      maledic&ecirc;ncias, esses ju&iacute;zos ignaros, essas grosseiras chocarrices,<br \/>\n      esse v&atilde;o palavr&oacute;rio, a que se chamava conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      em Babil&ocirc;nia. Aprendera, no primeiro livro de Zoroastro, que o amor-pr&oacute;prio<br \/>\n      &eacute; um bal&atilde;o cheio de vento, de onde brotam tempestades quando<br \/>\n      se lhes d&aacute; uma alfinetada. N&atilde;o se vangloriava, principalmente,<br \/>\n      de desprezar as mulheres e subjug&aacute;-las. Era generoso; n&atilde;o<br \/>\n      se arreceava de prestar servi&ccedil;os a ingratos, conforme este grande<br \/>\n      preceito de Zoroastro: &#8220;Quando comeres, d&aacute; de comer aos c&atilde;es,<br \/>\n      ainda que te mordam&#8221;. Era o mais s&aacute;bio poss&iacute;vel, pois<br \/>\n      procurava viver com os s&aacute;bios. Instru&iacute;do na ci&ecirc;ncia<br \/>\n      dos antigos caldeus, n&atilde;o ignorava os princ&iacute;pios f&iacute;sicos<br \/>\n      da natureza, tais como se conheciam ent&atilde;o e, quanto &agrave; metaf&iacute;sica,<br \/>\n      sabia dessa mat&eacute;ria o que sempre se soube em todas as &eacute;pocas,<br \/>\n      isto &eacute;, pouqu&iacute;ssima coisa. Estava firmemente convicto de que<br \/>\n      o ano se compunha de trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto, mau<br \/>\n      grado a nova filosofia do seu tempo, e de que o sol ficava no centro do<br \/>\n      mundo; e quando os principais magos, com insultuosa arrog&acirc;ncia, lhe<br \/>\n      diziam que demonstrava, assim, maus sentimentos e que s&oacute; um inimigo<br \/>\n      do Estado poderia acreditar que o sol girasse sobre si mesmo e o ano tivesse<br \/>\n      doze meses &#8212; Zadig calava sem c&oacute;lera e sem desprezo.<\/p>\n<p>Com grandes riquezas, e por conseguinte com amigos, de boa sa&uacute;de,<br \/>\n      agrad&aacute;vel apar&ecirc;ncia, esp&iacute;rito justo e moderado, e um<br \/>\n      cora&ccedil;&atilde;o sincero e nobre, julgou que podia ser feliz. Ia desposar<br \/>\n      Semira, cujo nascimento e fortuna a tornavam o primeiro partido de Babil&ocirc;nia.<br \/>\n      Dedicava-lhe um firme e virtuoso afeto e Semira o amava com paix&atilde;o.<br \/>\n      N&atilde;o tardava o feliz momento que os ia unir, quando, passeando os<br \/>\n      dois pelas proximidades de uma das portas de Babil&ocirc;nia, viram encaminhar-se<br \/>\n      a seu encontro alguns homens armados de sabres e frechas. Eram os sat&eacute;lites<br \/>\n      do jovem Orcan, sobrinho de um ministro, e a quem os cortes&atilde;os do<br \/>\n      tio haviam feito acreditar que tudo lhe era permitido. N&atilde;o tinha<br \/>\n      nenhuma das gra&ccedil;as ou virtudes de Zadig; mas, julgando valer muito<br \/>\n      mais, exasperava-se por n&atilde;o ser o predileto. Tal ci&uacute;me, que<br \/>\n      s&oacute; a vaidade inspirava, o convencera de que amava loucamente a Semira.<br \/>\n      E queria rapt&aacute;-la. Os asseclas lan&ccedil;aram-se a ela e, na sua<br \/>\n      brutalidade, chegaram a feri-la, derramando o sangue daquela criatura cuja<br \/>\n      vista seria capaz de enternecer os tigres do monte Ima&uacute;s. Ela feria<br \/>\n      os c&eacute;us com seus lamentos.<\/p>\n<p>&#8220;&Oacute; meu caro esposo! &#8212; bradava. &#8212; Arrancam-me &agrave;quele<br \/>\n      a quem adoro!&#8221; N&atilde;o se preocupava com o pr&oacute;prio perigo;<br \/>\n      pensava apenas no seu Zadig, o qual, ao mesmo tempo, a defendia com todas<br \/>\n      as for&ccedil;as que empresta a coragem e o amor. Somente com o aux&iacute;lio<br \/>\n      de dois escravos, p&ocirc;s os homens em fuga, carregando-a, desfalecida<br \/>\n      e ensang&uuml;entada, para a casa de seus pais. Logo que Semira voltou a<br \/>\n      si, deu com os olhos no seu salvador, e disse-lhe: &#8220;&Oacute; Zadig!<br \/>\n      antes eu te amava como a meu esposo; mas agora amo-te como &agrave;quele<br \/>\n      a quem devo a honra e a vida&#8221;. Nunca houve cora&ccedil;&atilde;o mais<br \/>\n      comovido que o de Semira. Nunca uns l&aacute;bios encantadores exprimiram<br \/>\n      mais tocantes sentimentos, com essas ardentes palavras inspiradas na maior<br \/>\n      gratid&atilde;o e nos transportes do justificado amor. Seus ferimentos eram<br \/>\n      leves; ficou logo boa. Zadig fora atingido mais gravemente; uma frechada<br \/>\n      perto de um olho produzira-lhe profundo ferimento. Semira s&oacute; pedia<br \/>\n      aos deuses a cura de seu amado. Seus olhos, noite e dia, estavam banhados<br \/>\n      de l&aacute;grimas: esperava o momento em que os de Zadig pudessem gozar<br \/>\n      de seus olhares; mas um abscesso, que se formou na vista afetada, deu causa<br \/>\n      &agrave;s maiores apreens&otilde;es. Mandaram chamar em M&ecirc;nfis o grande<br \/>\n      m&eacute;dico Hermes, que chegou com numeroso s&eacute;quito, visitou o<br \/>\n      enfermo, e declarou que este perderia a vista; predisse at&eacute; o dia<br \/>\n      e hora em que deveria suceder o nefasto acidente. &#8220;Se fosse o olho<br \/>\n      direito &#8212; disse ele &#8212; eu poderia cur&aacute;-lo; mas as feridas<br \/>\n      na vista esquerda, s&atilde;o incur&aacute;veis&#8221;. Toda Babil&ocirc;nia,<br \/>\n      lamentando o destino de &#8212; Zadig, admirou a profundeza da ci&ecirc;ncia<br \/>\n      de Hermes. Dois dias depois, o abscesso resolveu-se por si mesmo; Zadig<br \/>\n      ficou completamente s&atilde;o. Hermes escreveu ent&atilde;o um livro, em<br \/>\n      que lhe provou que n&atilde;o deveria ter sarado. Zadig n&atilde;o o leu;<br \/>\n      mas, logo que p&ocirc;de sair, aprestou-se para visitar aquela em que fazia<br \/>\n      consistir toda a sua felicidade e s&oacute; pela qual desejava conservar<br \/>\n      os dois olhos. Fazia tr&ecirc;s dias que Semira se achava no campo. Soube,<br \/>\n      em caminho, que essa bela dama, depois de declarar, abertamente a sua invenc&iacute;vel<br \/>\n      avers&atilde;o aos caolhos, desposara Orcan naquela mesma noite. A essa<br \/>\n      nova, Zadig perdeu os sentidos; a dor o levou &agrave; beira do t&uacute;mulo;<br \/>\n      por muito tempo esteve doente; mas enfim a raz&atilde;o venceu o sofrimento,<br \/>\n      e a pr&oacute;pria atrocidade do que experimentava serviu para o consolar.<\/p>\n<p>J&aacute; que sofri &#8212; disse ele &#8212; t&atilde;o cruel capricho<br \/>\n      de uma mo&ccedil;a da C&ocirc;rte, devo agora procurar uma burguesa.<\/p>\n<p>Escolheu Azora, a mais recatada donzela e a de fam&iacute;lia da cidade;<br \/>\n      desposou-a, e viveu com ela um m&ecirc;s os encantos da mais doce uni&atilde;o.<br \/>\n      Apenas lhe notava certa leviandade e demasiado pendor para achar que eram<br \/>\n      exatamente os jovens mais bonitos que tinham mais esp&iacute;rito e virtudes.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II &#8211; O NARIZ<\/a><\/h4>\n<p>Um dia Azora voltou de um passeio muito encolerizada e com grandes exclama&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; Que tens, minha querida esposa? Quem te p&ocirc;s nesse estado?<\/p>\n<p>&#8212; Ah! ficarias como eu, se visses o que acabo de presenciar. Fui<br \/>\n      confortar a vi&uacute;va Cosru, que h&aacute; dois dias edificou um t&uacute;mulo<br \/>\n      para seu jovem esposo, junto ao arroio que banha as redondezas. Na sua afli&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      prometera aos deuses que ficaria junto do t&uacute;mulo enquanto lhe corressem<br \/>\n      ao lado as &aacute;guas do arroio.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ent&atilde;o! Eis a&iacute; uma estim&aacute;vel mulher, que<br \/>\n      amava; verdadeiramente a seu marido!<\/p>\n<p>&#8212; Ah! se soubesses em que se ocupava ela quando a fui visitar!<\/p>\n<p>Em que, minha bela Azora?<\/p>\n<p>&#8212; Ela estava mandando desviar o arroio.<\/p>\n<p>E Azora alongou-se em tais invectivas, explodiu crimina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n      t&atilde;o violentas, que n&atilde;o agradou em nada a Zadig tamanha ostenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      de virtude.<\/p>\n<p>Tinha este um amigo chamado Cador que era um daqueles jovens a quem sua<br \/>\n      mulher atribu&iacute;a mais probidade e m&eacute;rito que aos outros: confiou-lhe<br \/>\n      os seus pensamentos e assegurou-se, como podia, da sua fidelidade, dando-lhe<br \/>\n      um valioso presente. Azora, que passara dois dias no campo em casa de uma<br \/>\n      amiga, regressou no terceiro dia. Criados em pranto anunciaram-lhe que o<br \/>\n      marido morrera subitamente naquela noite e que, n&atilde;o ousando levar-lhe<br \/>\n      essa infausta not&iacute;cia, acabavam de sepult&aacute;-lo no t&uacute;mulo<br \/>\n      de seus pais, ao fundo do jardim. Ela chorou, arrancou os cabelos, e jurou<br \/>\n      morrer. &Agrave; noite, Cador pediu-lhe licen&ccedil;a para lhe falar, e<br \/>\n      choraram ambos. No dia seguinte, choraram menos, e jantaram juntos. Cador<br \/>\n      confessou que o amigo lhe deixara a maior parte de sua fortuna, e deu a<br \/>\n      entender que a maior ventura, para ele, seria compartilh&aacute;-la com<br \/>\n      Azora. A dama chorou, irritou-se, voltou &agrave;s boas; a ceia foi mais<br \/>\n      longa que o jantar; falaram-se com mais confian&ccedil;a: Azora fez o elogio<br \/>\n      do defunto; mas confessou que Zadig tivera em vida alguns defeitos de que<br \/>\n      Cador era isento.<\/p>\n<p>Durante a ceia, Cador queixou-se de uma violenta pontada no ba&ccedil;o;<br \/>\n      a dama, inquieta e sol&iacute;cita, mandou trazer todas as ess&ecirc;ncias<br \/>\n      com que se perfumava, a fim de ver se alguma n&atilde;o seria boa para aquilo;<br \/>\n      lamentou muito que o grande Hermes j&aacute; n&atilde;o estivesse em Babil&ocirc;nia;<br \/>\n      dignou-se at&eacute; a tocar no ponto onde Cador sentia dores t&atilde;o<br \/>\n      agudas.<\/p>\n<p>&#8212; E tens muito seguido esses cru&eacute;is ataques? &#8212; perguntou-lhe,<br \/>\n      cheia de compaix&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Levam-me &agrave;s vezes &agrave; beira do t&uacute;mulo, e s&oacute;<br \/>\n      h&aacute; um rem&eacute;dio que me d&aacute; al&iacute;vio: &eacute; aplicar<br \/>\n      no local o nariz de um homem falecido na v&eacute;spera.<\/p>\n<p>&#8212; Estranho rem&eacute;dio! &#8212; espantou-se Azora.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o mais estranho &#8212; respondeu Cador &#8212; que os<br \/>\n      saquinhos do senhor Arnoult contra apoplexia.<\/p>\n<p>&#8212; A esta raz&atilde;o, juntamente com os extraordin&aacute;rios m&eacute;ritos<br \/>\n      do jovem, rendeu-se afinal a dama. &#8220;Em todo caso &#8212; disse ela<br \/>\n      consigo, &#8212; quando meu marido, na ponte de Tchinavar, passar do mundo<br \/>\n      de ontem para o mundo de amanh&atilde;, ser&aacute; que o anjo Asrael deixar&aacute;<br \/>\n      de lhe dar passagem, s&oacute; porque ele vai ter o nariz um pouco mais<br \/>\n      curto na segunda vida do que na primeira?&#8221; Tomou, pois, uma navalha;<br \/>\n      foi ao t&uacute;mulo do esposo regou-o de l&aacute;grimas, e aproximou-se<br \/>\n      para cortar o nariz a Zadig, que encontrou estendido na tumba. Zadig ergueu-se,<br \/>\n      defendendo o nariz com uma das m&atilde;os e detendo a navalha com a outra.<\/p>\n<p>&#8212; Senhora, disse ele, n&atilde;o clame tanto assim contra a vi&uacute;va<br \/>\n      Cosru: o projeto de me cortar o nariz vale bem o de desviar um arroio.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">III &#8211; O C&Atilde;O E O CAVALO<\/a><\/h4>\n<p>Zadig reconheceu que o primeiro m&ecirc;s do casamento &eacute; mesmo,<br \/>\n      como est&aacute; escrito no Zenda, a lua de mel, e que o segundo &eacute;<br \/>\n      a lua de fel. Viu-se dentro em pouco obrigado a repudiar Azora, que se tornara<br \/>\n      dific&iacute;lima de trato, e buscou ref&uacute;gio no estudo da natureza.<br \/>\n      &#8220;Ningu&eacute;m pode ser mais feliz &#8212; dizia ele &#8212; do que<br \/>\n      um fil&oacute;sofo que l&ecirc; nesse grande livro colocado por Deus ante<br \/>\n      nossos olhos. &Eacute; dono das verdades que descobre; alimenta e eleva<br \/>\n      a alma; vive tranq&uuml;ilo; nada teme dos homens, e a sua extremosa mulher<br \/>\n      n&atilde;o lhe vem cortar o nariz&#8221;.<\/p>\n<p>Penetrado dessas id&eacute;ias, retirou-se para uma casa, de campo &agrave;<br \/>\n      margem do Eufrates. Ali, n&atilde;o se preocupava ele era calcular quantas<br \/>\n      polegadas de &aacute;gua corriam por segundo sob os arcos de uma ponte,<br \/>\n      ou se ca&iacute;a mais uma linha c&uacute;bica de chuva no m&ecirc;s do<br \/>\n      rato do que no m&ecirc;s do carneiro. N&atilde;o planejava fabricar seda<br \/>\n      com teias de aranha, nem porcelana com cacos de garrafa; ma dedicou-se principalmente<br \/>\n      ao estudo dos animais e das plantas, adquirindo em breve uma agudeza que<br \/>\n      lhe desvendava mil diferen&ccedil;as onde os outros n&atilde;o viam que<br \/>\n      uniformidade.<\/p>\n<p>Ora, estando um dia a passear pelas proximidades de um bosque, acorreu-lhe<br \/>\n      ao encontro um eunuco da rainha, seguido de v&aacute;rios oficiais que demonstravam<br \/>\n      a maior inquieta&ccedil;&atilde;o e vagavam de um lado para outro, como<br \/>\n      pessoas desorientadas que houvessem perdido a maior preciosidade deste mundo.<\/p>\n<p>&#8212; Jovem &#8212; disse-lhe o primeiro eunuco, &#8212; n&atilde;o viste<br \/>\n      o c&atilde;o da rainha?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma cadela, e n&atilde;o um c&atilde;o respondeu Zadig<br \/>\n      discretamente.<\/p>\n<p>&#8212; Tens raz&atilde;o &#8212; tornou o primeiro eunuco.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; ca&ccedil;adeira, e por sinal que muito pequena &#8212;<br \/>\n      acrescentou Zadig. &#8212; Deu cria h&aacute; pouco; manqueja da pata dianteira<br \/>\n      esquerda e tem orelhas muito compridas.<\/p>\n<p>&#8212; Viste-a, ent&atilde;o? &#8212; perguntou o primeiro eunuco, esbaforido<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &#8212; respondeu Zadig, &#8212; nunca a vi na minha<br \/>\n      vida nem nunca soube se a rainha tinha ou n&atilde;o uma cadela. Ao mesmo<br \/>\n      tempo, por um ordin&aacute;rio capricho da sorte, sucedeu escapar-se das<br \/>\n      m&atilde;os de um palafreneiro o mais belo exemplar das cavalari&ccedil;as<br \/>\n      do rei, extraviando-se nos campos de Babil&ocirc;nia. O monteiro-mor e todos<br \/>\n      os outros oficiais corriam &agrave; sua procura com mais inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      do que o primeiro eunuco em busca da cadela. O monteiro-mor dirigiu-se a<br \/>\n      Zadig e perguntou-lhe se n&atilde;o vira acaso o cavalo do rei.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; &#8212; respondeu Zadig &#8212; o cavalo de melhor galope;<br \/>\n      tem cinco p&eacute;s de altura e os cascos pequenos; a cauda mede tr&ecirc;s<br \/>\n      p&eacute;s e meio de comprimento; o freio &eacute; de ouro de vinte e tr&ecirc;s<br \/>\n      quilates; e as ferraduras de prata de onze den&aacute;rios.<\/p>\n<p>&#8212; Que dire&ccedil;&atilde;o tomou ele? onde est&aacute;? &#8212;<br \/>\n      perguntou o monteiro-mor.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o o vi &#8212; respondeu Zadig, &#8212; nem nunca ouvi<br \/>\n      falar nele. <\/p>\n<p>O monteiro-mor e o primeiro eunuco n&atilde;o tiveram mais d&uacute;vidas<br \/>\n      de que Zadig houvesse roubado o cavalo do rei e a cadela da rainha; levaram-no<br \/>\n      perante a assembl&eacute;ia do grande desterham, que o condenou ao knut<br \/>\n      e a passar o resto da vida na Sib&eacute;ria. Mal se encerrara o julgamento,<br \/>\n      foram encontrados o cavalo e a cadela. Viram-se os ju&iacute;zes na dolorosa<br \/>\n      obriga&ccedil;&atilde;o de reformar sua senten&ccedil;a; mas condenaram<br \/>\n      Zadig a desembolsar quatrocentas on&ccedil;as de ouro, por haver dito que<br \/>\n      n&atilde;o vira o que tinha visto. Primeiro foi preciso pagar a multa; depois<br \/>\n      concederam-lhe licen&ccedil;a para se defender perante o conselho do grande<br \/>\n      desterham. Zadig falou nos seguintes termos:<\/p>\n<p>&#8220;Estrelas de justi&ccedil;a, abismos de ci&ecirc;ncia, espelhos da<br \/>\n      verdade, v&oacute;s que tendes o peso do chumbo, a dureza do ferro o fulgor<br \/>\n      do diamante e tanta afinidade com o ouro! J&aacute; que me &eacute; dado<br \/>\n      falar perante essa augusta assembl&eacute;ia, juro-vos por Orosmade que<br \/>\n      jamais vi a respeit&aacute;vel cadela da rainha, nem o sagrado cavalo do<br \/>\n      rei dos reis. Eis o que me aconteceu. Passeava eu pelas cercanias do bosque<br \/>\n      onde vim a encontrar o vener&aacute;vel eunuco e o ilustr&iacute;ssimo monteiro-mor,<br \/>\n      quando vi na areia as pegadas de um animal. Descobri facilmente que eram<br \/>\n      as de um pequeno c&atilde;o. Sulcos leves e longos, impressos nos mont&iacute;culos<br \/>\n      de areia, por entre os tra&ccedil;os das patas, revelaram-me que se tratava<br \/>\n      de uma cadela cujas tetas estavam pendentes, e que portanto n&atilde;o fazia<br \/>\n      muito que dera cria. Outras marcas em sentido diferente, que sempre se mostravam<br \/>\n      no solo ao lado das patas dianteiras, denotavam que o animal tinha orelhas<br \/>\n      muito compridas; e, como notei que o ch&atilde;o era sempre menos amolgado<br \/>\n      por uma das patas do que pelas tr&ecirc;s outras, compreendi que a cadela<br \/>\n      de nossa augusta rainha manquejava um pouco, se assim me ouso exprimir.<br \/>\n      Quanto ao cavalo do rei dos reis, seja-vos cientificado que, passeando eu<br \/>\n      pelos caminhos do referido bosque, divisei marcas de ferraduras que se achavam<br \/>\n      todas a igual dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8220;Eis aqui &#8212; considerei &#8212; um cavalo que tem um galope<br \/>\n      perfeito&#8221;. A poeira dos troncos, num estreito caminho de sete p&eacute;s<br \/>\n      de largura, fora levemente removida &agrave; esquerda e &agrave; direita,<br \/>\n      a tr&ecirc;s p&eacute;s e meio do centro da estrada. &#8220;Esse cavalo<br \/>\n      &#8212; disse eu comigo &#8212; tem uma cauda de tr&ecirc;s p&eacute;s e<br \/>\n      meio, a qual, movendo-se para um lado e outro, varreu assim a poeira dos<br \/>\n      troncos&#8221;. Vi debaixo das &aacute;rvores, que formavam um dossel de<br \/>\n      cinco p&eacute;s de altura, algumas folhas rec&eacute;m-tombadas e conclu&iacute;<br \/>\n      que o cavalo lhes tocara com a cabe&ccedil;a e que tinha, portanto, cinco<br \/>\n      p&eacute;s de altura. Quanto ao freio, deve ser de ouro de vinte e tr&ecirc;s<br \/>\n      quilates: pois ele lhe esfregou a parte externa contra certa pedra que eu<br \/>\n      identifiquei como uma pedra de toque. E, enfim, pelas marcas que as ferraduras<br \/>\n      deixaram em pedras de outra esp&eacute;cie, descobri eu que era prata de<br \/>\n      onze den&aacute;rios&#8221;.<\/p>\n<p>Todos os ju&iacute;zes pasmaram do profundo e sutil discernimento de Zadig,<br \/>\n      o que logo chegou aos ouvidos do rei e da rainha. S&oacute; se falava em<br \/>\n      Zadig nas antec&acirc;maras, na c&acirc;mara e no gabinete; e, embora v&aacute;rios<br \/>\n      magos opinassem que o deviam queimar como feiticeiro, ordenou o rei que<br \/>\n      lhe restituissem as quatrocentas on&ccedil;as de ouro a que fora multado.<br \/>\n      O escriv&atilde;o, os meirinhos, os procuradores, compareceram em grande<br \/>\n      pompa &agrave; presen&ccedil;a de Zadig, para lhe entregar as suas quatrocentas<br \/>\n      on&ccedil;as; apenas retiveram trezentas e noventa e oito para as custas<br \/>\n      do processo, e os seus ajudantes reclamaram gratifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Zadig compreendeu como era &agrave;s vezes perigoso ser demasiado s&aacute;bio,<br \/>\n      e jurou consigo que, na pr&oacute;xima ocasi&atilde;o, nada diria do que<br \/>\n      acaso houvesse testemunhado.<\/p>\n<p>Essa oportunidade n&atilde;o se fez esperar. Um prisioneiro de Estado,<br \/>\n      que fugira, passou pelas janelas de sua casa. Zadig, interrogado, nada respondeu;<br \/>\n      mas provaram-lhe que ele olhara pela janela. Foi multado, por esse crime,<br \/>\n      em quinhentas on&ccedil;as de ouro, e ele agradeceu a indulg&ecirc;ncia<br \/>\n      dos ju&iacute;zes, segundo o costume de Babil&ocirc;nia. &#8220;Como &eacute;<br \/>\n      lament&aacute;vel, meu Deus, &#8212; dizia ele consigo, &#8212; ir a gente<br \/>\n      passear num bosque por onde passaram a cadela da rainha e o cavalo do rei!<br \/>\n      Que perigoso chegar &agrave; janela! E que dif&iacute;cil ser feliz nesta<br \/>\n      vida!&#8221;<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV &#8211; O INVEJOSO<\/a><\/h4>\n<p>Zadig procurou consolo, na filosofia e na amizade, dos males que lhe causara<br \/>\n      a sorte. Possu&iacute;a, num arrabalde de Babil&ocirc;nia, uma casa arranjada<br \/>\n      com excelente gosto, onde acolhia todas as artes e divertimentos dignos<br \/>\n      de um homem de bem. De manh&atilde;, franqueava a biblioteca a todos os<br \/>\n      s&aacute;bios; e a mesa, de noite, &agrave; gente de boa companhia. Mas<br \/>\n      logo viu como s&atilde;o perigosos os primeiros. Explodiu entre eles uma<br \/>\n      grande querela acerca da lei de Zoroastro que proibia comer grifo.<\/p>\n<p>&#8212; Como proibir carne de grifo &#8212; diziam uns, &#8212; se esse<br \/>\n      animal n&atilde;o existe?<\/p>\n<p>&#8212; Tem de existir &#8212; diziam outros, &#8212; visto que Zoroastro<br \/>\n      n&atilde;o quer que o comam.<\/p>\n<p>Zadig procurou harmoniz&aacute;-los, dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Se houver grifos, n&atilde;o os devemos comer; se n&atilde;o os<br \/>\n      houver, muito menos os comeremos; e assim, de qualquer modo, obedecemos<br \/>\n      todos a Zoroastro.<\/p>\n<p>Um s&aacute;bio, que compusera treze volumes sobre os grifos e que, al&eacute;m<br \/>\n      disso, era grande teurgista, apressou-se em ir acusar Zadig perante um arquimago<br \/>\n      chamado Yebor, o mais tolo dos caldeus e, portanto, o mais fan&aacute;tico.<br \/>\n      Esse homem seria capaz de mandar empalar Zadig para maior gl&oacute;ria<br \/>\n      do sol, recitando depois o brevi&aacute;rio de Zoroastro no tom mais satisfeito<br \/>\n      do mundo. O amigo Cador (um amigo vale mais que cem sacerdotes) foi procurar<br \/>\n      o velho Yebor e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Viva o sol e os grifos! guardai-vos de punir Zadig: &eacute; um<br \/>\n      santo; ele tem grifos no terreiro e n&atilde;o os come; e o seu acusador<br \/>\n      &eacute; um herege que ousa sustentar que os coelhos t&ecirc;m a pata fendida<br \/>\n      e n&atilde;o s&atilde;o imundos.<\/p>\n<p>&#8212; Pois bem &#8212; disse Yebor, balan&ccedil;ando a calva, &#8212;<br \/>\n      cumpre empalar Zadig por ter pensado mal dos grifos, e o outro por ter falado<br \/>\n      mal dos coelhos.<\/p>\n<p>Cador contornou a quest&atilde;o por interm&eacute;dio de uma dama de honor<br \/>\n      a quem fizera um filho e que gozava de muito cr&eacute;dito junto ao col&eacute;gio<br \/>\n      dos magos. Ningu&eacute;m foi empalado, motivo pelo qual muitos doutores<br \/>\n      come&ccedil;aram a murmurar, vaticinando a decad&ecirc;ncia da Babil&ocirc;nia.<br \/>\n      &#8220;Do que depende a felicidade! &#8212; exclamou Zadig. &#8212; Tudo<br \/>\n      me persegue neste mundo at&eacute; os seres que n&atilde;o existem&#8221;.<br \/>\n      Amaldi&ccedil;oou os s&aacute;bios, e dali por diante s&oacute; procurou<br \/>\n      viver em boa companhia.<\/p>\n<p>Reunia em casa os homens mais distintos da Babil&ocirc;nia e as damas mais<br \/>\n      am&aacute;veis; oferecia delicadas ceias, muita vez precedidas de concertos<br \/>\n      animadas por encantadoras conversa&ccedil;&otilde;es de que soubera banir<br \/>\n      o empenho de mostrar esp&iacute;rito, que &eacute; a mais certa maneira<br \/>\n      de n&atilde;o o ter e de estragar a sociedade mais brilhante. Nem a escolha<br \/>\n      dos amigos, nem a dos pratos, era ditada pela vaidade: pois em tudo preferia<br \/>\n      o ser ao parecer; e com isso atra&iacute;ra a verdadeira considera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      &agrave; qual n&atilde;o aspirava.<\/p>\n<p>Defronte &agrave; sua casa morava Arimaze, personagem cuja mesquinha alma<br \/>\n      se lhe via pintada na grosseira fisionomia. Vivia corro&iacute;do de fel<br \/>\n      e inchado de orgulho; e, para c&uacute;mulo, era um aborrecido &#8220;espirituoso&#8221;.<br \/>\n      N&atilde;o tendo jamais alcan&ccedil;ado sucesso na sociedade, vingava-se<br \/>\n      falando mal dela. Opulento como era, tinha dificuldade em reunir alguns<br \/>\n      aduladores nos seus sal&otilde;es. Importunava-o o rumor dos carros que<br \/>\n      paravam &agrave; noite diante da casa de Zadig, e ainda mais o irritava<br \/>\n      o rumor de seus louvores. Ia algumas vezes visitar Zadig e sentava-se &agrave;<br \/>\n      mesa sem ser convidado: corrompia ent&atilde;o toda a alegria da sociedade,<br \/>\n      como dizem que as harpias envenenam a carne em que tocam. Aconteceu-lhe<br \/>\n      uma vez oferecer uma festa a certa dama que, em vez de aceit&aacute;-la,<br \/>\n      foi cear em casa de Zadig. Doutra feita, estando ambos em pal&aacute;cio,<br \/>\n      abordaram um ministro, que convidou Zadig para cear, sem estender o convite<br \/>\n      a Arimaze. Os mais implac&aacute;veis &oacute;dios n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n      comumente ra&iacute;zes mais importantes. Esse homem, a quem chamavam o<br \/>\n      Invejoso, planejou perder Zadig, porque a este chamavam o Feliz. A oportunidade<br \/>\n      de fazer mal depara-se cem vezes por dia, e a de fazer bem uma vez por ano,<br \/>\n      diz Zoroastro.<\/p>\n<p>O Invejoso foi ter com Zadig, que passeava no jardim em companhia de dois<br \/>\n      amigos e uma dama, a quem muita vez dizia coisas galantes, sem maior inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      que lhes dizer. Conversavam sobre a guerra que o rei acabava de ganhar ao<br \/>\n      pr&iacute;ncipe de Hirc&acirc;nia, seu vassalo. Zadig, que se assinalara,<br \/>\n      pela coragem, nessa curta guerra, louvava muito o rei e ainda mais a dama.<br \/>\n      Tomou as suas tabuinhas, e escreveu quatro versos de improviso, dando-os<br \/>\n      a ler &agrave; sua bela companheira. Os amigos pediram que lhos lesse; mas<br \/>\n      a mod&eacute;stia o impediu, ou antes, um bem compreendido amor-pr&oacute;prio.<br \/>\n      Sabia que versos improvisados s&oacute; prestam para aquela em cuja honra<br \/>\n      s&atilde;o compostos: quebrou em duas a tabuinha onde acabava de escrever<br \/>\n      e lan&ccedil;ou as duas metades numa moita de rosas onde em v&atilde;o os<br \/>\n      outros as procuraram Como principiasse a garoar entraram em casa. O invejoso,<br \/>\n      tendo ficado no jardim tanto procurou que encontrou uma das metades. Fora<br \/>\n      rompida de tal modo que cada metade de linha formava sentido e at&eacute;<br \/>\n      mesmo um verso de menor medida; mas, por um acaso ainda mais estranho, o<br \/>\n      conjunto desses quatro pequenos versos tamb&eacute;m completava um sentido<br \/>\n      que continha as mais terr&iacute;veis inj&uacute;rias contra o rei. Lia-se,<br \/>\n      pois:<\/p>\n<p>Pelo crime brutal<br \/>\n      Venceu o soberano,<br \/>\n      Na paz universal<br \/>\n      &Eacute; o &uacute;nico tirano.<\/p>\n<p>O invejoso sentiu-se feliz pela primeira vez na vida. Tinha entre as m&atilde;os<br \/>\n      com que perder a um homem virtuoso a digno. Cheio de cruel alegria, fez<br \/>\n      chegar ao rei aquela s&aacute;tira escrita por m&atilde;o de Zadig; puseram-no<br \/>\n      em pris&atilde;o, a ele, aos seus dois amigos e &agrave; dama. Em breve<br \/>\n      foi conclu&iacute;do o processo sem que se dignassem inquiri-lo. Quando<br \/>\n      foi ouvir a senten&ccedil;a, encontrou de passagem o invejoso, o qual lhe<br \/>\n      disse que os seus versos n&atilde;o valiam nada. Zadig n&atilde;o tinha<br \/>\n      pretens&otilde;es a bom poeta; mas exasperava-se de ser condenado por crime<br \/>\n      de lesa-majestade e ver que retinham em pris&atilde;o uma bela dama e dois<br \/>\n      amigos, por causa de um atentado que ele n&atilde;o cometera. N&atilde;o<br \/>\n      lhe permitiram que falasse, porque as suas t&aacute;buas falavam o bastante.<br \/>\n      Tal era a lei de Babil&ocirc;nia. Mandaram-no, pois, ao supl&iacute;cio,<br \/>\n      atrav&eacute;s de uma multid&atilde;o de curiosos, nenhum dos quais ousava<br \/>\n      lament&aacute;-lo, e que se precipitavam para examinar-lhe o rosto e ver<br \/>\n      se ele morria de boa cara. Apenas seus parentes estavam aflitos, pois n&atilde;o<br \/>\n      herdavam nada. Tr&ecirc;s quartos de seus bens eram confiscados em proveito<br \/>\n      do rei, e o &uacute;ltimo quarto em proveito do invejoso.<\/p>\n<p>Enquanto ele se preparava para a morte, o papagaio do rei voou do seu balc&atilde;o<br \/>\n      e foi pousar no jardim de Zadig, sobre uma moita de rosas. De uma &aacute;rvore<br \/>\n      vizinha, tombara ali um p&ecirc;ssego, sacudido pelo vento, indo aplastar-se<br \/>\n      contra um peda&ccedil;o de t&aacute;bua de escrever, a que ficara colado.<br \/>\n      O p&aacute;ssaro carregou o p&ecirc;ssego e a tabuinha, depondo-os sobre<br \/>\n      os joelho do monarca. O pr&iacute;ncipe, curioso, leu no fragmento umas<br \/>\n      palavras que n&atilde;o formavam sentido e que pareciam finais de versos.<br \/>\n      Ele amava a poesia, e sempre h&aacute; algum recurso com pr&iacute;ncipes<br \/>\n      que gostam de versos: a aventura do papagaio deu-lhe que pensar. A rainha,<br \/>\n      que se lembrava do que vinha escrito na t&aacute;bua de Zadig, mandou busc&aacute;-la.<br \/>\n      Confrontaram os dois peda&ccedil;os, que se ajustavam perfeitamente surgiram<br \/>\n      t&atilde;o os versos tais quais Zadig os escrevera:<\/p>\n<p>Pelo crime brutal era assolada a terra.<br \/>\n      Venceu o soberano, e libertos nos vimos.<br \/>\n      Na paz universal somente o amor faz guerra:<br \/>\n      &Eacute; o &uacute;nico tirano a quem n&atilde;o resistimos.<\/p>\n<p>O rei ordenou em seguida que trouxessem Zadig &agrave; sua presen&ccedil;a<br \/>\n      e retirassem da pris&atilde;o seus dois amigos e a bela dama. Zadig lan&ccedil;ou-se<br \/>\n      de rosto contra o solo aos p&eacute;s do rei e da rainha: pediu-lhes humildemente<br \/>\n      perd&atilde;o de haver feito maus versos; falou com tanta gra&ccedil;a,<br \/>\n      esp&iacute;rito e raz&atilde;o que o rei e a rainha manifestaram desejo<br \/>\n      de tornar a v&ecirc;-lo. Voltou, e agradou ainda mais. Deram-lhe todos os<br \/>\n      bens do invejoso que o acusara injustamente, mas Zadig lhos restituiu, e<br \/>\n      o invejoso s&oacute; se comoveu com o prazer de n&atilde;o perder seus haveres.<br \/>\n      Dia a dia aumentava a estima do rei. Convidava Zadig para todas as suas<br \/>\n      festas e consultava-o em todos os seus neg&oacute;cios. A rainha come&ccedil;ou<br \/>\n      ent&atilde;o a olh&aacute;-lo com uma complac&ecirc;ncia que podia tornar-se<br \/>\n      perigosa para si mesma, para o rei seu augusto esposo, para Zadig e para<br \/>\n      o reino. Zadig principiava a crer que n&atilde;o &eacute; nada dif&iacute;cil<br \/>\n      ser feliz.<\/p>\n<\/p>\n<h4><a name=\"5\">V &#8211; OS GENEROSOS<\/a><\/h4>\n<p>Chegou a &eacute;poca de uma grande festa que se celebrava de cinco em<br \/>\n      cinco anos. Era costume em Babil&ocirc;nia proclamar solenemente, ao cabo<br \/>\n      de cinco anos, qual o cidad&atilde;o que havia praticado a a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      mais generosa. Os grandes e os magos serviam de ju&iacute;zes. O primeiro<br \/>\n      s&aacute;trapa, que regia a cidade, expunha as mais belas a&ccedil;&otilde;es<br \/>\n      que haviam ocorrido sob o seu gov&ecirc;rno. Procedia-se &agrave; vota&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n      o rei pronunciava a senten&ccedil;a.<\/p>\n<p>Dos quatro cantos da terra, vinha gente assistir a essa solenidade. O vencedor<br \/>\n      recebia das m&atilde;os do monarca uma ta&ccedil;a de ouro guarnecida de<br \/>\n      pedrarias, e o rei lhe dizia estas palavras: &#8220;Recebei este pr&ecirc;mio<br \/>\n      da generosidade, e queiram os deuses conceder-me muitos s&uacute;bditos<br \/>\n      que se assemelhem a v&oacute;s!&#8221;<\/p>\n<p>Chegado o memor&aacute;vel dia, sentou o rei no seu trono, cercado dos<br \/>\n      grandes, dos magos e dos deputados de todas as na&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n      compareciam a essa justa, onde a gl&oacute;ria n&atilde;o era conquistada<br \/>\n      com a rapidez dos cavalos, nem com a for&ccedil;a f&iacute;sica, mas t&atilde;o<br \/>\n      somente com a virtude. O primeiro s&aacute;trapa relatou em voz alta as<br \/>\n      a&ccedil;&otilde;es que podiam fazer jus &agrave; inestim&aacute;vel recompensa.<br \/>\n      N&atilde;o falou da magnanimidade com que Zadig devolvera a fortuna ao invejoso:<br \/>\n      n&atilde;o era a&ccedil;&atilde;o que merecesse concorrer ao pr&ecirc;mio.<\/p>\n<p>Apresentou primeiro um juiz que, tendo feito um cidad&atilde;o perder consider&aacute;vel<br \/>\n      processo devido a um equ&iacute;voco de que n&atilde;o lhe cabia responsabilidade<br \/>\n      alguma, lhe dera no entanto todos os seus bens, que eram do valor do que<br \/>\n      o outro havia perdido.<\/p>\n<p>Depois um jovem que, loucamente enamorado da mo&ccedil;a com quem ia casar,<br \/>\n      n&atilde;o hesitara em ced&ecirc;-la a um amigo prestes a expirar de amor<br \/>\n      por ela; e ainda concorrera com o dote.<\/p>\n<p>E finalmente um soldado que, na guerra de Hirc&acirc;nia, dera ainda maior<br \/>\n      exemplo de generosidade. Soldados inimigos procuravam raptar-lhe a sua querida,<br \/>\n      que ele defendia valentemente, quando lhe vieram dizer que outros hircanianos,<br \/>\n      a alguns passos dali, se apoderavam de sua m&atilde;e: deixou, em l&aacute;grimas,<br \/>\n      a bem-amada e correu a livrar a m&atilde;e; voltou em seguida para aquela<br \/>\n      a quem amava, e encontrou-a moribunda. Quis matar-se; a m&atilde;e lhe fez<br \/>\n      ver que ele era o seu &uacute;nico arrimo, e o soldado teve a coragem de<br \/>\n      suportar a vida.<\/p>\n<p>As simpatias dos ju&iacute;zes inclinavam-se para esse soldado, quando<br \/>\n      o rei tomou a palavra e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Sua a&ccedil;&atilde;o e a dos outros s&atilde;o belas; mas n&atilde;o<br \/>\n      me espantam; todavia o que ontem fez Zadig me deixou verdadeiramente admirado.<br \/>\n      H&aacute; poucos dias, privara eu de minha gra&ccedil;a a meu ministro e<br \/>\n      favorito Coreb. Queixava-me dele com viol&ecirc;ncia, e todos os cortes&atilde;os<br \/>\n      me asseguravam que fora demasiado brando; cada qual se empenhava em dizer<br \/>\n      o pior poss&iacute;vel de Coreb. Perguntei a Zadig o que pensava, e ele<br \/>\n      ousou falar bem do desvalido. Confesso que vi, nas nossas hist&oacute;rias,<br \/>\n      exemplos de quem indenizasse um erro com a pr&oacute;pria fortuna, quem<br \/>\n      cedesse a noiva, ou preferisse a m&atilde;e ao objeto de seu amor; mas nunca<br \/>\n      li que um cortes&atilde;o haja falado vantajosamente de um ministro em desgra&ccedil;a,<br \/>\n      contra o qual ainda estivesse encolerizado o soberano. Concedo vinte mil<br \/>\n      moedas de ouro a cada um cujas generosas a&ccedil;&otilde;es acabam de ser<br \/>\n      relatadas; mas entrego a ta&ccedil;a a Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; Sire &#8212; disse este, &#8212; &eacute; Vossa Majestade quem<br \/>\n      merece a ta&ccedil;a, pois foi quem praticou a a&ccedil;&atilde;o mais inaudita:<br \/>\n      sendo rei, n&atilde;o vos indignastes por haver vosso escravo contrariado<br \/>\n      as vossas paix&otilde;es.<\/p>\n<p>Admiraram ao rei e a Zadig. O que cedera seus bens, o que casara a noiva<br \/>\n      com o amigo, o que preferira a salva&ccedil;&atilde;o da m&atilde;e &agrave;<br \/>\n      da mulher a quem amava, receberam os presentes do monarca; tiveram seu nome<br \/>\n      escrito no livro dos generosos. Zadig ganhou a ta&ccedil;a. O rei adquiriu<br \/>\n      a reputa&ccedil;&atilde;o de bom pr&iacute;ncipe, que n&atilde;o conservou<br \/>\n      por muito tempo. Tal dia foi comemorado com festas mais longas do que o<br \/>\n      previa a lei, e ainda &eacute; lembrado em toda a &Aacute;sia. Zadig dizia:<br \/>\n      &#8220;Eis-me enfim feliz!&#8221; Mas enganava-se.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">VI &#8211; O MINISTRO<\/a><\/h4>\n<p>Perdera o rei seu primeiro ministro. Escolheu Zadig para substitu&iacute;-lo.<br \/>\n      Todas as belas damas de Babil&ocirc;nia aplaudiram a escolha, pois desde<br \/>\n      a funda&ccedil;&atilde;o do imp&eacute;rio n&atilde;o houvera um ministro<br \/>\n      t&atilde;o jovem. Todos os cortes&atilde;os ficaram descontentes; o invejoso<br \/>\n      chegou a escarrar sangue, e seu nariz aumentou prodigiosamente. Depois de<br \/>\n      agradecer ao rei e &agrave; rainha, Zadig foi tamb&eacute;m agradecer ao<br \/>\n      papagaio:<\/p>\n<p>&#8212; Belo p&aacute;ssaro, foste tu quem me salvou a vida e quem me fez<br \/>\n      primeiro ministro: a cadela e o cavalo de suas Majestades me haviam feito<br \/>\n      bastante mal, mas tu me fizeste bem. Eis do que depende o destino dos homens!<br \/>\n      Mas &#8212; acrescentou ele, &#8212; t&atilde;o estranha felicidade talvez<br \/>\n      se acabe dentro em breve.<\/p>\n<p>&#8212; Sim &#8212; respondeu o papagaio. O que n&atilde;o deixou de impressionar<br \/>\n      a Zadig. No entanto, como era bom f&iacute;sico e n&atilde;o acreditasse<br \/>\n      que os papagaios tivessem o dom da profecia, logo se tranq&uuml;ilizou e<br \/>\n      p&ocirc;s-se a exercer o minist&eacute;rio da melhor forma poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Fez pesar sobre todos o sagrado poder das leis, e a ningu&eacute;m fez<br \/>\n      sentir o peso de sua pr&oacute;pria dignidade. N&atilde;o interferiu nos<br \/>\n      votos do div&atilde;, e cada vizir podia ter sua opini&atilde;o sem lhe<br \/>\n      cair no desagrado. Quando julgava uma causa, n&atilde;o era ele quem julgava,<br \/>\n      era a lei, mas, quando esta era demasiado severa, sabia-a temperar, e, se<br \/>\n      n&atilde;o havia leis sobre a mat&eacute;ria, a sua eq&uuml;idade as criava<br \/>\n      tais que poderiam ser tomadas pelas do pr&oacute;prio Zoroastro.<\/p>\n<p>Foi dele que herdaram as na&ccedil;&otilde;es este grande princ&iacute;pio:<br \/>\n      antes arriscar-se a salvar um culpado que condenar um inocente. Acreditava<br \/>\n      que as leis eram feitas para socorrer os cidad&atilde;os, tanto quanto para<br \/>\n      os intimidar. Seu principal talento consistia em deslindar a verdade, que<br \/>\n      todos os homens procuram obscurecer.<\/p>\n<p>Logo nos primeiros dias de sua administra&ccedil;&atilde;o, p&ocirc;s &agrave;<br \/>\n      prova esse inestim&aacute;vel dom. Morrera na &Iacute;ndia um famoso negociante<br \/>\n      de Babil&ocirc;nia; constitu&iacute;ra herdeiros seus dois filhos var&otilde;es,<br \/>\n      em partes iguais, depois que houvessem casado a irm&atilde;, e deixava ainda<br \/>\n      trinta mil moedas de ouro &agrave;quele dentre dois filhos que ficasse provado<br \/>\n      ter-lhe mais amor. O velho erigiu-lhe um t&uacute;mulo, o segundo aumentou<br \/>\n      com uma parte da pr&oacute;pria heran&ccedil;a o dote da irm&atilde;. &#8220;&Eacute;<br \/>\n      o mais velho diziam todos &#8212; o que mais ama a seu pai; o mais mo&ccedil;o<br \/>\n      mais amor &agrave; irm&atilde;; &eacute; ao mais velho que pertencem as<br \/>\n      trinta mil moedas&#8221;.<\/p>\n<p>Zadig mandou chamar a ambos separadamente. Disse ao mais velho:<\/p>\n<p>&#8212; Teu pai n&atilde;o morreu; curou-se de sua doen&ccedil;a e est&aacute;<br \/>\n      de regresso a Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<p>&#8212; Louvado seja Deus &#8212; respondeu o jovem. &#8212; Mas eis a&iacute;<br \/>\n      um t&uacute;mulo que me custou bastante caro!<\/p>\n<p>Zadig disse em seguida a mesma coisa ao mais mo&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8212; Louvado seja Deus &#8212; respondeu este. &#8212; Vou devolver<br \/>\n      a meu pai tudo o que tenho; mas desejaria que ele deixasse com minha irm&atilde;<br \/>\n      o que lhe dei por dote.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o devolver&aacute;s nada &#8212; disse Zadig e ter&aacute;s<br \/>\n      as trinta mil moedas: &eacute;s tu que tens mais amor a teu pai.<\/p>\n<p>Uma jovem muito rica prometera casamento a dois magos e, depois de haver<br \/>\n      recebido, por alguns meses, doutrina&ccedil;&atilde;o de um e outro, viu-se<br \/>\n      em estado de gravidez. Ambos queriam despos&aacute;-la.<\/p>\n<p>Tomarei para marido &#8212; declarou ela &#8212; aquele que me p&ocirc;s<br \/>\n      em condi&ccedil;&otilde;es de dar um cidad&atilde;o ao Imp&eacute;rio.<\/p>\n<p>&#8212; Fui eu que fiz essa boa obra &#8212; disse um.<\/p>\n<p>&#8212; Fui eu que tive essa vantagem &#8212; afian&ccedil;ou o outro.<\/p>\n<p>&#8212; Pois bem &#8212; concluiu ela, &#8212; reconhecerei como pai da<br \/>\n      crian&ccedil;a aquele que lhe puder dar melhor educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nasceu-lhe um menino. Cada um dos magos quer encarregar-se da sua educa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n      A causa &eacute; levada perante Zadig, que manda chamar os dois litigantes.<\/p>\n<p>&#8212; Que ensinar&aacute;s a teu pupilo? &#8212; pergunta ele ao primeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Ensinar-lhe-ei &#8212; diz o doutor &#8212; as oito partes da ora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      e dial&eacute;tica, astrologia, demonomania, e o que v&ecirc;m a ser a subst&acirc;ncia<br \/>\n      e o acidente, o abstrato e o concreto, as m&ocirc;nadas e a harmonia preestabelecida.<\/p>\n<p>&#8212; Eu &#8212; diz o segundo &#8212; procurarei torn&aacute;-lo justo<br \/>\n      e digno de ter amigos.<\/p>\n<p>Zadig pronunciou-se:<\/p>\n<p>&#8212; Sejas ou n&atilde;o pai da crian&ccedil;a, desposar&aacute;s a<br \/>\n      sua m&atilde;e<\/p>\n<h4><a name=\"7\">VII &#8211; DEMANDAS E AUDI&Ecirc;NCIAS<\/a><\/h4>\n<p>Assim mostrava ele todos os dias a sutileza de seu g&ecirc;nio e a bondade<br \/>\n      de sua alma; admiravam-no e, no entanto, o amavam. Passava pelo mais afortunado<br \/>\n      dos homens; todo o Imp&eacute;rio estava cheio de seu nome; todas as mulheres<br \/>\n      o traziam de olho; todos os cidad&atilde;os lhe celebravam a justi&ccedil;a;<br \/>\n      tinham-no os s&aacute;bios como um or&aacute;culo; os pr&oacute;prios sacerdotes<br \/>\n      confessavam que ele sabia mais que o velho arquimago Yebor. Longe se estava<br \/>\n      agora de o processar por causa de grifos; s&oacute; se acreditava no que<br \/>\n      lhe parecia cr&iacute;vel.<\/p>\n<p>Havia em Babil&ocirc;nia uma grande querela que, tendo come&ccedil;ado<br \/>\n      h&aacute; coisa de mil e quinhentos anos, ainda dividia o Imp&eacute;rio<br \/>\n      em duas seitas irreconcili&aacute;veis: pretendia uma que jamais se deveria<br \/>\n      entrar no templo de Mitra a n&atilde;o ser com o p&eacute; esquerdo; abominava<br \/>\n      a outra tal costume, e s&oacute; entrava com o p&eacute; direito. Estava<br \/>\n      o universo com os olhos pregados nos dois p&eacute;s, e toda a cidade agitada<br \/>\n      e suspensa. Zadig entrou no templo saltando de p&eacute;s juntos, e em seguida<br \/>\n      provou, numa eloq&uuml;ente ora&ccedil;&atilde;o, que ao Deus do c&eacute;u<br \/>\n      e da terra, que n&atilde;o faz exce&ccedil;&atilde;o de pessoa, tanto lhe<br \/>\n      importa a perna esquerda como a perna direita.<\/p>\n<p>O invejoso e a mulher acharam que no seu discurso n&atilde;o havia figuras<br \/>\n      suficientes, nem que fizera devidamente dan&ccedil;ar os montes e as colinas.<br \/>\n      &#8220;&Eacute; seco e sem inspira&ccedil;&atilde;o &#8212; diziam. N&atilde;o<br \/>\n      se lhe v&ecirc; nem o mar fugir, nem tombarem as estrelas, nem o sol fundir-se<br \/>\n      como cera; falta-lhe o bom estilo oriental&#8221;. Zadig contentava-se em<br \/>\n      ter o estilo da raz&atilde;o. Todo o mundo concordou com ele, n&atilde;o<br \/>\n      porque estivesse no bom caminho, n&atilde;o porque fosse razo&aacute;vel,<br \/>\n      ou am&aacute;vel, mas porque era o primeiro vizir.<\/p>\n<p>Com igual felicidade se resolveu o grande processo entre os magos brancos<br \/>\n      e os magos negros. Sustentavam os brancos que era uma impiedade voltar-se,<br \/>\n      quando se orava a Deus, para o Levante; asseguravam os negros que Deus tinha<br \/>\n      horror &agrave;s preces dos homens que se voltavam para o Poente. Zadig<br \/>\n      ordenou que cada qual se voltasse para onde bem lhe parecesse.<\/p>\n<p>Achou meio de expedir, pela manh&atilde;, os neg&oacute;cios particulares<br \/>\n      e os gerais; destinava o resto do dia ao embelezamento de Babil&ocirc;nia;<br \/>\n      mandava representar trag&eacute;dias que faziam chorar e com&eacute;dias<br \/>\n      que faziam rir, o que de h&aacute; muito passara de moda, mas a que o seu<br \/>\n      discernimento dera novo cr&eacute;dito. N&atilde;o pretendia saber mais<br \/>\n      que os artistas; recompensava-os com benef&iacute;cios e distin&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n      e n&atilde;o se enciumava em segredo com o seu talento. &Agrave; noite,<br \/>\n      divertia muito ao rei, e principalmente &agrave; rainha. Dizia o rei: &#8220;o<br \/>\n      grande ministro!&#8221;, e a rainha: &#8220;o am&aacute;vel ministro!&#8221;<br \/>\n      e ambos acrescentavam: &#8220;Que pena se o tivessem enforcado!&#8221;<\/p>\n<p>Jamais um homem na sua posi&ccedil;&atilde;o foi obrigado a conceder tantas<br \/>\n      audi&ecirc;ncias &agrave;s damas. A maioria vinha falar-lhe de complica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n      que n&atilde;o tinham, para arranjarem alguma com ele. A mulher do invejoso<br \/>\n      foi das primeiras que se apresentaram; jurou-lhe por Mitra, pelo Zend-Avesta,<br \/>\n      e pelo fogo sagrado, que fora contra o procedimento do marido; confiou-lhe<br \/>\n      depois que este era um ciumento, um brutal; deu-lhe a entender que os deuses<br \/>\n      o puniam recusando-lhe os preciosos efeitos desse fogo sagrado s&oacute;<br \/>\n      pelo qual &eacute; o homem semelhante aos imortais; acabou por deixar cair<br \/>\n      a liga; Zadig apanhou-a com a ordin&aacute;ria polidez, mas n&atilde;o a<br \/>\n      prendeu ao joelho da dama; e essa pequena falta, se o era, foi causa dos<br \/>\n      mais tremendos infort&uacute;nios. Zadig n&atilde;o pensou mais no caso,<br \/>\n      e a mulher do invejoso pensou muito.<\/p>\n<p>Outras damas se apresentavam todos os dias. Rezam os anais secretos de<br \/>\n      Babil&ocirc;nia que ele sucumbiu uma vez, mas muito se espantou de o fazer<br \/>\n      sem vol&uacute;pia e enla&ccedil;ar a amante distraidamente. Aquela a quem<br \/>\n      dera, quase sem o notar, testemunhos da sua prote&ccedil;&atilde;o, era<br \/>\n      uma camareira da rainha Astart&eacute;ia. Essa terna babil&ocirc;nia dizia<br \/>\n      consigo mesma, para se consolar: &#8220;Que de neg&oacute;cios n&atilde;o<br \/>\n      ter&aacute; esse homem na cabe&ccedil;a, para que sempre ande pensando neles,<br \/>\n      at&eacute; quando pratica o amor!&#8221; No instante em que muitas pessoas<br \/>\n      n&atilde;o dizem patavina e outras s&oacute; pronunciam palavras sagradas,<br \/>\n      Zadig exclamara de s&uacute;bito: &#8220;A rainha!&#8221; Julgou a babil&ocirc;nia<br \/>\n      que ele afinal voltara a si num bom momento e que lhe dizia: &#8220;Minha<br \/>\n      rainha!&#8221; Mas Zadig, sempre absorto, pronunciou o nome de Astart&eacute;ia.<br \/>\n      A dama que, naquelas felizes circunst&acirc;ncias, interpretava tudo em<br \/>\n      proveito seu, imaginou que aquilo queria dizer: &#8220;Tu &eacute;s mais<br \/>\n      linda que a rainha Astart&eacute;ia!&#8221; Saiu do serralho de Zadig cheia<br \/>\n      de belos presentes. Foi contar a aventura &agrave; invejosa, que era sua<br \/>\n      &iacute;ntima amiga; esta se sentiu cruelmente ofendida com a prefer&ecirc;ncia.<br \/>\n      Ele nem se dignou &#8212; disse ela &#8212; prender-me esta liga, que eu<br \/>\n      ali&aacute;s &#8212; n&atilde;o quis mais usar. &#8212; Oh! Imagina! &#8212;<br \/>\n      disse a feliz &agrave; invejosa. &#8212; Essas tuas ligas s&atilde;o id&ecirc;nticas<br \/>\n      &agrave;s da rainha! S&atilde;o feitas pela mesma costureira?&#8220; A invejosa<br \/>\n      ficou absorta em cismas, nada respondeu e foi consultar seu marido, o invejoso.<\/p>\n<p>No entanto, Zadig se dava conta de suas cont&iacute;nuas distra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n      durante as audi&ecirc;ncias e julgamentos; n&atilde;o sabia a que atribu&iacute;-las:<br \/>\n      era esse o seu &uacute;nico cuidado.<\/p>\n<p>Teve um sonho: parecia-lhe estar deitado a princ&iacute;pio sobre ervas<br \/>\n      secas, entre as quais algumas espinhosas, que o incomodavam, e que depois<br \/>\n      repousava brandamente num leito de rosas, de onde saia uma serpente que<br \/>\n      o feria no cora&ccedil;&atilde;o com sua l&iacute;ngua aguda e pe&ccedil;onhenta.<br \/>\n      &#8220;Ai! &#8212; dizia ele, &#8212; bem sei que estive por muito tempo<br \/>\n      deitado naquelas ervas secas e espinhentas e agora me acho num leito de<br \/>\n      rosas; mas que significar&aacute; a serpente?&#8221;<\/p>\n<h4><a name=\"8\">VIII &#8211; O CI&Uacute;ME<\/a><\/h4>\n<p>A desgra&ccedil;a de Zadig originou-se da pr&oacute;pria ventura, e principalmente<br \/>\n      de seu m&eacute;rito. Avistava-se todos os dias com o rei e Astart&eacute;ia,<br \/>\n      sua augusta esposa. O encanto da conversa&ccedil;&atilde;o do primeiro ministro<br \/>\n      era redobrado por esse desejo de agradar que est&aacute; para o esp&iacute;rito<br \/>\n      como o ornamento para a beleza; sua juventude e gra&ccedil;a causaram insensivelmente<br \/>\n      em Astart&eacute;ia uma impress&atilde;o de que esta a princ&iacute;pio<br \/>\n      n&atilde;o se apercebeu. Sua paix&atilde;o crescia no seio da inoc&ecirc;ncia.<br \/>\n      Astart&eacute;ia entregava-se sem escr&uacute;pulo e sem temor ao prazer<br \/>\n      de ver e escutar a um homem t&atilde;o caro a seu esposo e ao Estado; n&atilde;o<br \/>\n      cessava de o elogiar perante o rei; falava dele &agrave;s damas de companhia,<br \/>\n      que ainda acrescentavam os louvores; tudo concorria para lhe aprofundar<br \/>\n      no cora&ccedil;&atilde;o a frecha que ela n&atilde;o sentia. Fazia presentes<br \/>\n      a Zadig, nos quais entrava mais galanteria do que supunha; julgava n&atilde;o<br \/>\n      lhe falar sen&atilde;o como rainha satisfeita de seus servi&ccedil;os, e<br \/>\n      suas express&otilde;es eram, algumas vezes, as de uma mulher sens&iacute;vel.<\/p>\n<p>Astart&eacute;ia era muito mais bonita do que aquela Semira que tanto odiava<br \/>\n      aos caolhos, e do que aquela outra mulher que quisera cortar o nariz ao<br \/>\n      esposo. A familiaridade de Astart&eacute;ia, suas ternas frases, de que<br \/>\n      come&ccedil;ava a corar, seus olhares, queria desviar, e que se fixavam<br \/>\n      nos dele, acenderam no cora&ccedil;&atilde;o de Zadig uma flama que o espantou.<br \/>\n      Lutou; pediu socorro &agrave; filosofia, que sempre lhe valera; mas s&oacute;<br \/>\n      lhe obteve luzes, n&atilde;o recebendo em troca nenhum al&iacute;vio. O<br \/>\n      dever, a gratid&atilde;o, a soberana majestade violada, apresentavam-se-lhe<br \/>\n      aos olhos como deuses vindicativos; lutava e triunfava; mas essa vit&oacute;ria<br \/>\n      que era preciso renovar a todo momento, custava-lhe gemidos e l&aacute;grimas.<br \/>\n      N&atilde;o mais ousava falar &agrave; rainha com aquela doce liberdade que<br \/>\n      tais encantos tivera para ambos; seus olhos cobriam-se de uma nuvem; suas<br \/>\n      palavras eram constrangidas e incoerentes; baixava as p&aacute;lpebras;<br \/>\n      e quando, sem querer, o seu olhar se voltava para Astart&eacute;ia, encontrava<br \/>\n      o da rainha turbado de l&aacute;grimas, de onde partiam raios; pareciam<br \/>\n      dizer um ao outro: &#8220;N&oacute;s nos adoramos, e temos medo do amor;<br \/>\n      ardemos os dois num fogo que condenamos.&#8221;<\/p>\n<p>Zadig retirava-se desvairado da sua presen&ccedil;a, com um peso no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      que n&atilde;o mais podia suportar; na viol&ecirc;ncia da sua agita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      n&atilde;o p&ocirc;de evitar que o amigo Cador lhe descobrisse o segredo,<br \/>\n      como um homem que, tendo ag&uuml;entado por muito tempo uma dor profunda,<br \/>\n      deixa enfim revelar-se o seu mal, por um grito que lhe arranca um acesso<br \/>\n      mais agudo e pelo suor que poreja a fronte.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; desvendei &#8212; lhe disse Cador &#8212; os sentimentos<br \/>\n      que a ti mesmo procuravas ocultar; as paix&otilde;es t&ecirc;m sinais que<br \/>\n      n&atilde;o enganam. Por a&iacute; ver&aacute;s, meu caro Zadig, j&aacute;<br \/>\n      que eu li no teu cora&ccedil;&atilde;o, se o pr&oacute;prio rei n&atilde;o<br \/>\n      ir&aacute; descobrir um sentimento que o ofende. N&atilde;o tem ele outro<br \/>\n      defeito sen&atilde;o o de ser o mais ciumento dos homens. Resistes &agrave;<br \/>\n      tua paix&atilde;o com mais for&ccedil;a do que a rainha combate a sua, porque<br \/>\n      &eacute;s fil&oacute;sofo e porque &eacute;s Zadig. Astart&eacute;ia &eacute;<br \/>\n      mulher; deixa falar seus olhares com tanto maior imprud&ecirc;ncia por ainda<br \/>\n      n&atilde;o se julgar culpada. Infelizmente tranq&uuml;ilizada pela sua inoc&ecirc;ncia,<br \/>\n      negligencia as apar&ecirc;ncias necess&aacute;rias. Tremerei por ela enquanto<br \/>\n      n&atilde;o tiver nada que se censurar. Se estivessem ambos em cumplicidade,<br \/>\n      saberiam enganar todos os olhos: uma paix&atilde;o nascente e combatida<br \/>\n      logo se revela; um amor satisfeito sabe ocultar-se.<\/p>\n<p>Zadig fremiu &agrave; id&eacute;ia de trair o rei seu benfeitor; e nunca<br \/>\n      foi t&atilde;o fiel ao pr&iacute;ncipe como quando se viu culpado para com<br \/>\n      ele de um crime involunt&aacute;rio. Contudo, tantas vezes pronunciava a<br \/>\n      rainha o nome de Zadig, tal rubor lhe cobria a fronte ao diz&ecirc;-lo;<br \/>\n      ora se mostrava t&atilde;o animada, ora t&atilde;o interdita, quando lhe<br \/>\n      falava em presen&ccedil;a do rei; ca&iacute;a em t&atilde;o profundas cismas<br \/>\n      depois que Zadig se retirava, que o rei se sentiu inquieto. Acreditou tudo<br \/>\n      o que via, e imaginou tudo o n&atilde;o via. Observou principalmente que<br \/>\n      as babuchas de sua mulher eram azuis, e que as babuchas de Zadig eram azuis,<br \/>\n      que as fitas da touca de sua mulher eram amarelas, e que o barrete de Zadig<br \/>\n      era amarelo: ind&iacute;cios terr&iacute;veis para um pr&iacute;ncipe suscet&iacute;vel.<br \/>\n      No seu esp&iacute;rito envenenado, transformaram-se as suspeitas em certezas.<\/p>\n<p>Os escravos dos reis e das rainhas s&atilde;o outros tantos espias de seus<br \/>\n      cora&ccedil;&otilde;es. Descobriram logo que Astart&eacute;ia amava e que<br \/>\n      Moabdar sentia ci&uacute;mes. O invejoso fez a invejosa enviar ao rei a<br \/>\n      sua liga, que se assemelhava &agrave; da rainha. Por c&uacute;mulo da desgra&ccedil;a,<br \/>\n      essa liga era azul, O monarca n&atilde;o pensou sen&atilde;o na maneira<br \/>\n      de vingar-se. Resolveu uma noite mandar envenenar a rainha, e enforcar Zadig<br \/>\n      ao raiar do dia. A ordem foi transmitida a um impiedoso eunuco, executor<br \/>\n      das suas vingan&ccedil;as. Achava-se ent&atilde;o na c&acirc;mara do rei<br \/>\n      um an&atilde;ozinho que era mudo, mas n&atilde;o surdo. Toleravam-no sempre<br \/>\n      em toda parte: era testemunha de tudo o que se passava de mais secreto,<br \/>\n      como um animal dom&eacute;stico. Esse pequeno mudo era muito devotado &agrave;<br \/>\n      rainha e a Zadig. Ouviu, com tanta surpresa quanto horror, a senten&ccedil;a<br \/>\n      de morte. Mas como prevenir essa terr&iacute;vel ordem, que dentro em poucas<br \/>\n      horas seria executada? Escrever, n&atilde;o sabia; mas aprendera a desenhar<br \/>\n      e fazia retratos com muita parecen&ccedil;a. Passou uma parte da noite a<br \/>\n      rabiscar o que desejaria dizer &agrave; rainha. O desenho representava o<br \/>\n      rei furioso, a um canto do quadro; um cord&atilde;o azul e um vaso sobre<br \/>\n      uma mesa, com ligas azuis e fitas amarelas; a rainha, no meio do quadro,<br \/>\n      expirante entre os bra&ccedil;os de suas mulheres, e Zadig estrangulado<br \/>\n      a seus p&eacute;s. O horizonte representava um sol nascente, para indicar<br \/>\n      que a horr&iacute;vel execu&ccedil;&atilde;o se efetuaria aos primeiros<br \/>\n      raios da aurora. Logo que terminou o trabalho, correu a uma camareira de<br \/>\n      Astart&eacute;ia, despertou-a, e deu-lhe a entender que era preciso levar<br \/>\n      imediatamente o quadro &agrave; rainha.<\/p>\n<p>Em meio &agrave; noite, batem &agrave; porta de Zadig; acordam-no; entregam-lhe<br \/>\n      um bilhete da rainha; pensa que est&aacute; sonhando; abre o papel com m&atilde;o<br \/>\n      tremente. Qual n&atilde;o foi a sua surpresa, e quem lhe poderia exprimir<br \/>\n      a consterna&ccedil;&atilde;o e desespero, ao ler as seguintes palavras:<br \/>\n      &#8220;Foge imediatamente, sen&atilde;o te arrancam a vida. Foge, Zadig,<br \/>\n      ordeno-te em nome do nosso amor e das minhas fitas amarelas. Eu n&atilde;o<br \/>\n      era culpada; mas sinto que vou morrer criminosa.&#8221;<\/p>\n<p>Zadig mal teve for&ccedil;as de falar. Mandou chamar Cador e, sem nada<br \/>\n      lhe dizer, mostrou-lhe o bilhete. Cador for&ccedil;ou-o a obedecer e a tomar<br \/>\n      logo o caminho de M&ecirc;nfis. &#8220;Se te atreves a ir falar com a rainha,<br \/>\n      apressas a sua morte; se falares ao rei, da mesma forma prejudicar&aacute;s<br \/>\n      a rainha. Encarrego-me do seu destino; segue o teu. Espalharei o boato de<br \/>\n      que partiste para a &Iacute;ndia Em breve me encontrarei contigo e te comunicarei<br \/>\n      o que houver sucedido em Babil&ocirc;nia&#8221;.<\/p>\n<p>Cador, no mesmo instante, mandou trazer dois dromed&aacute;rios dos mais<br \/>\n      r&aacute;pidos a uma porta secreta do pal&aacute;cio; fez com que Zadig<br \/>\n      montasse tendo at&eacute; de ampar&aacute;-lo, pois parecia prestes a entregar<br \/>\n      a alma. Um s&oacute; criado o acompanhou; em breve Cador, transido de espanto<br \/>\n      e ang&uacute;stia, perdeu de vista o amigo.<\/p>\n<p>O ilustre fugitivo, chegando ao alto de uma colina de onde se avistava<br \/>\n      Babil&ocirc;nia, volveu o olhar para o pal&aacute;cio da rainha, e desfaleceu;<br \/>\n      s&oacute; recuperou os sentidos para derramar l&aacute;grimas e desejar<br \/>\n      a morte. Enfim, depois, de se haver ocupado do deplor&aacute;vel destino<br \/>\n      da mais am&aacute;vel entre as mulheres e a primeira rainha do mundo, voltou<br \/>\n      o pensamento para si mesmo e exclamou: &#8220;Que coisa &eacute; ent&atilde;o<br \/>\n      a vida humana? De que me serviste, &oacute; virtude? Duas mulheres me enganaram<br \/>\n      indignamente; a terceira, que n&atilde;o &eacute; culpada, e mais bela que<br \/>\n      as outras, vai perder a vida. Todo o bem que pratiquei foi sempre para mim<br \/>\n      uma fonte de maldi&ccedil;&otilde;es, e s&oacute; fui elevado ao c&uacute;mulo<br \/>\n      da grandeza para tombar no mais horr&iacute;vel precip&iacute;cio do infort&uacute;nio.<br \/>\n      Se eu tivesse sido mau como tantos outros, seria hoje feliz como eles&#8221;.<br \/>\n      Acabrunhado por essas funestas reflex&otilde;es, cobertos os olhos pelo<br \/>\n      v&eacute;u da dor, a palidez da morte nas faces, e a alma abismada no mais<br \/>\n      sombrio desespero, se guia ele a caminho do Egito.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">IX &#8211; A MULHER BATIDA<\/a><\/h4>\n<p>Zadig orientava-se pelas estrelas. A constela&ccedil;&atilde;o de Orion<br \/>\n      e o brilhante astro de S&iacute;rio guiavam-no para o p&oacute;lo de Canope.<br \/>\n      Admirava esses vastos globos de luz que n&atilde;o parecem a nossos olhos<br \/>\n      mais que fracas centelhas, ao passo que a terra, que em verdade &eacute;<br \/>\n      apenas um impercept&iacute;vel ponto na natureza, afigura-se &agrave; nossa<br \/>\n      cupidez uma coisa t&atilde;o grande e t&atilde;o nobre. Via ent&atilde;o<br \/>\n      os homens tais como s&atilde;o na realidade: insetos a se entredevorarem<br \/>\n      num pequeno &aacute;tomo de lama. Essa imagem verdadeira parecia aniquilar<br \/>\n      suas desventuras, retra&ccedil;ando-lhe o nada da sua exist&ecirc;ncia e<br \/>\n      a de Babil&ocirc;nia. Sua alma arrebatava-se at&eacute; o infinito e contemplava,<br \/>\n      liberta dos sentidos, a imut&aacute;vel ordem do universo. Mas quando, em<br \/>\n      seguida, de volta a si mesmo e penetrando de novo em seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      pensava em Astart&eacute;ia sacrificada por sua causa, o universo desaparecia<br \/>\n      a seus olhos, e ele apenas via, em toda a natureza, Astart&eacute;ia moribunda<br \/>\n      e Zadig desgra&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Enquanto se entregava a esse fluxo e refluxo de sublime filosofia e dor<br \/>\n      acabrunhante, ia avan&ccedil;ando pelas fronteiras do Egito; e j&aacute;<br \/>\n      seu fiel criado se achava na primeira localidade,em busca de alojamento.<br \/>\n      Enquanto isso, Zadig passeava pelos jardins dos arredores. Sen&atilde;o<br \/>\n      quando avistou, n&atilde;o longe estrada real, uma mulher que gritava por<br \/>\n      socorro e um homem furioso que a perseguia. J&aacute; o homem a alcan&ccedil;ava<br \/>\n      e ela, ca&iacute;da, enla&ccedil;ava-lhe os joelhos. O homem enchia-a de<br \/>\n      pancadas e censuras. Pela viol&ecirc;ncia do eg&iacute;pcio e pelos reiterados<br \/>\n      perd&otilde;es que lhe pedia a dama, viu Zadig que ele era ciumento e ela<br \/>\n      infiel. Mas, depois de atentar naquela mulher, que era de impressionante<br \/>\n      beleza e at&eacute; se assemelhava um pouco &agrave; infeliz Astart&eacute;ia,<br \/>\n      sentiu-se tomado de compaix&atilde;o por ela e avers&atilde;o ao eg&iacute;pcio.<br \/>\n      &#8220;Acode-me! &#8212; bradou ela a Zadig, entre solu&ccedil;os. &#8212;<br \/>\n      Arranca-me das m&atilde;os do mais b&aacute;rbaro dos homens, salva-me a<br \/>\n      vida!&#8221;<\/p>\n<p>A esses clamores, Zadig lan&ccedil;ou-se entre ela e aquele b&aacute;rbaro.<br \/>\n      Tinha algum conhecimento da l&iacute;ngua eg&iacute;pcia, e assim lhe falou:<\/p>\n<p>&#8212; Se tens alguma humanidade, conjuro-te a respeitar a beleza e a<br \/>\n      fraqueza. Podes assim ultrajar uma obra-prima da Cria&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      que jaz a teus p&eacute;s e s&oacute; tem por defesa as l&aacute;grimas?<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Ah! &#8212; exclamou o possesso. Com que ent&atilde;o tamb&eacute;m<br \/>\n      a amas? &Eacute; de ti que tenho de vingar-me.<\/p>\n<p>Dizendo tais palavras, deixa a dama, que segurava pelos cabelos, e, empunhando<br \/>\n      a lan&ccedil;a, tenta matar o estrangeiro. Este, que n&atilde;o perdera<br \/>\n      o sangue frio, evitou facilmente o golpe de um furioso. Segurou a lan&ccedil;a<br \/>\n      perto da ponta. Quer um retir&aacute;-la, o outro arranc&aacute;-la. A lan&ccedil;a<br \/>\n      parte-se. O eg&iacute;pcio puxa da espada; Zadig tamb&eacute;m. Atacam-se.<br \/>\n      Lan&ccedil;a este cem golpes precipitados, apara-os aquele com destreza.<br \/>\n      A dama, sentada na relva, reajusta os cabelos e olha-os. O eg&iacute;pcio<br \/>\n      era o mais robusto, Zadig o mais &aacute;gil. Batia-se o &uacute;ltimo como<br \/>\n      um homem cuja cabe&ccedil;a conduzia o bra&ccedil;o, e o primeiro como um<br \/>\n      arrebatado, cuja c&oacute;lera cega lhe guiava ao acaso os movimentos. Zadig<br \/>\n      desarma-o. E como o eg&iacute;pcio, mais furioso, procura arremeter contra<br \/>\n      ele, Zadig segura-o, domina-o, f&aacute;-lo cair e, apontando-lhe a espada<br \/>\n      contra o peito, oferece poupar-lhe a vida. O eg&iacute;pcio, fora de si,<br \/>\n      arranca o punhal e fere Zadig no mesmo instante em que o vencedor lhe perdoava.<br \/>\n      Zadig, indignado, lhe mergulha a espada no peito; O eg&iacute;pcio lan&ccedil;a<br \/>\n      um grito horr&iacute;vel e morre, debatendo-se.<\/p>\n<p>Zadig avan&ccedil;a ent&atilde;o para a dama e lhe diz respeitosamente:<\/p>\n<p>&#8212; Foi ele que me obrigou a mat&aacute;-lo; estais vingada, e livre<br \/>\n      do homem mais violento que j&aacute; vi na minha vida. Que quereis agora<br \/>\n      de mim, senhora?<\/p>\n<p>&#8212; Que morras, celerado, que morras; mataste o meu amor; eu quisera<br \/>\n      estra&ccedil;alhar-te o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Na verdade, senhora que t&iacute;nheis um esquisito amor; ele vos<br \/>\n      batia com toda a for&ccedil;a e queria tirar-me a vida, por me haverdes<br \/>\n      pedido socorro.<\/p>\n<p>&#8212; Quisera que ele me batesse ainda &#8212; tornou a dama, aos gritos.<br \/>\n      &#8212; Eu bem que o merecia, pois lhe dei motivos para ci&uacute;mes. Quem<br \/>\n      dera que ele me batesse e que tu estivesses no seu lugar!<\/p>\n<p>Zadig, mais surpreso e encolerizado do que nunca estivera em sua vida,<br \/>\n      retrucou:<\/p>\n<p>&#8212; Senhora, com toda a vossa beleza, merec&iacute;eis que eu vos batesse<br \/>\n      por minha vez, t&atilde;o incoerente sois; mas n&atilde;o me darei a esse<br \/>\n      trabalho.<\/p>\n<p>Dito isto, montou no camelo e dirigiu-se para a cidade. Mal dera alguns<br \/>\n      passos, volta-se ao estr&eacute;pito que faziam quatro correios de Babil&ocirc;nia.<br \/>\n      Vinham a toda brida. Um deles, ao ver a mulher, exclamou: &#8220;&Eacute;<br \/>\n      ela mesma; assemelha-se &agrave; descri&ccedil;&atilde;o que nos fizeram&#8221;.<br \/>\n      Sem dar aten&ccedil;&atilde;o ao morto, apoderaram-se logo da dama, a qual<br \/>\n      n&atilde;o cessava de gritar para Zadig: &#8220;Socorrei-me outra vez, generoso<br \/>\n      estrangeiro! Perdoai-me por me haver queixado de v&oacute;s. Socorrei-me,<br \/>\n      que serei vossa at&eacute; o t&uacute;mulo&#8221;. A Zadig, passara-lhe<br \/>\n      todo e qualquer desejo de se bater por ela. &#8220;Arranja-te com outros<br \/>\n      &#8212; respondeu-lhe, a mim &eacute; que n&atilde;o me pegas mais!&#8221;<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, estava ferido, perdia sangue e necessitava socorro; e a vista<br \/>\n      dos quatro babil&ocirc;nios, provavelmente enviados pelo rei Moabdar, enchia-o<br \/>\n      de inquieta&ccedil;&atilde;o. Avan&ccedil;a &agrave;s pressas para a aldeia,<br \/>\n      sem atinar por que motivo vinham quatro correios de Babil&ocirc;nia apoderar-se<br \/>\n      daquela eg&iacute;pcia, mas ainda muito mais espantado com o car&aacute;ter<br \/>\n      da referida dama.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">X &#8211; A ESCRAVID&Atilde;O<\/a><\/h4>\n<p>Ao entrar na cidade eg&iacute;pcia, viu-se cercado pelo povo.<\/p>\n<p>&#8212; Eis o que raptou a bela Missuf bradavam &#8212; e o que acaba de<br \/>\n      assassinar Clet&oacute;fis!<\/p>\n<p>&#8212; Senhores disse ele, &#8212; Deus me livre de raptar algum dia a<br \/>\n      vossa bela Missuf! &Eacute; demasiado caprichosa. E, quanto a Clet&oacute;fis,<br \/>\n      n&atilde;o o matei: apenas me defendi contra ele. Queria matar-me, porque<br \/>\n      lhe pedi com toda a humildade que poupasse a bela Missuf, a quem batia impiedosamente.<br \/>\n      Sou um estrangeiro que vem procurar asilo no Egito; e n&atilde;o teria cabimento<br \/>\n      que, vindo solicitar vossa prote&ccedil;&atilde;o, come&ccedil;asse por<br \/>\n      me apoderar de uma mulher e por assassinar um homem.<\/p>\n<p>Os eg&iacute;pcios eram ent&atilde;o justos e humanos. O povo conduziu<br \/>\n      Zadig &agrave; prefeitura. Come&ccedil;aram por lhe tratar do ferimento,<br \/>\n      e em seguida o interrogaram, a ele e ao criado separadamente, a fim de saber<br \/>\n      a verdade. Reconheceu-se que Zadig n&atilde;o era um assassino; mas sendo<br \/>\n      culpado de ter vertido sangue humano, a lei o condenava &agrave; escravid&atilde;o.<br \/>\n      Os seus dois camelos foram vendidos em proveito da comuna, repartido entre<br \/>\n      os habitantes todo o ouro que trouxera, e sua pessoa exposta em hasta p&uacute;blica,<br \/>\n      bem como o seu companheiro de viagem. Um mercador &aacute;rabe, chamado<br \/>\n      Setoc, arrematou-o; mas o criado, mais resistente &agrave; fadiga, foi vendido<br \/>\n      muito mais caro que o patr&atilde;o. Nem faziam compara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      entre os dois. Zadig ficou, como escravo, subordinado a seu servi&ccedil;al;<br \/>\n      ligaram um ao outro por uma cadeia presa aos tornozelos e, nesse estado,<br \/>\n      acompanharam ambos o seu senhor. Zadig, pelo caminho, consolava o criado<br \/>\n      e exortava-o &agrave; paci&ecirc;ncia; mas, segundo o seu costume, fazia<br \/>\n      reflex&otilde;es sobre a vida humana: &#8220;Vejo &#8212; dizia-lhe &#8212;<br \/>\n      que os males do meu destino se expandem sobre o teu. At&eacute; agora, tudo<br \/>\n      me saiu muito estranho, na verdade. Multaram-me por causa de um grifo; mandaram-me<br \/>\n      a supl&iacute;cio por ter feito versos em louvor do rei; estive prestes<br \/>\n      a ser estrangulado porque a rainha tinha fitas amarelas; e eis-me agora<br \/>\n      escravizado contigo porque um brutamontes deu uma sova na amante. Mas n&atilde;o<br \/>\n      percamos a coragem; tudo isso, decerto, acabar&aacute;; afinal de contas,<br \/>\n      os mercadores &aacute;rabes t&ecirc;m de possuir escravos; e por que n&atilde;o<br \/>\n      seria eu um escravo como qualquer outro, visto que sou um homem como qualquer<br \/>\n      outro? Esse mercador n&atilde;o pode ser impiedoso, pois ter&aacute; de<br \/>\n      tratar bem a seus escravos, se quiser aproveit&aacute;-los&#8221;. Assim<br \/>\n      falava ele, mas, no fundo do cora&ccedil;&atilde;o, estava preocupado com<br \/>\n      a sorte da rainha de Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<p>Setoc, o mercador, partiu, dois dias depois, para a Ar&aacute;bia deserta,<br \/>\n      com os escravos e camelos. Sua tribo habitava para as bandas do deserto<br \/>\n      de Horeb, e a viagem foi longa e penosa.<\/p>\n<p>Setoc, no caminho, fazia mais caso do criado que do patr&atilde;o, pois<br \/>\n      o primeiro sabia lidar melhor com os camelos, e todas as pequenas regalias<br \/>\n      foram para ele.<\/p>\n<p>Um camelo morreu a dois dias de Horeb; dividiram-lhe a carga pelos escravos;<br \/>\n      Zadig ganhou o seu quinh&atilde;o. Setoc p&ocirc;s-se a rir ao ver todos<br \/>\n      os escravos marcharem curvados. Zadig tomou a liberdade de explicar-lhe<br \/>\n      a raz&atilde;o, e fez-lhe conhecer as leis do equil&iacute;brio. O mercador,<br \/>\n      espantado, come&ccedil;ou a olh&aacute;-lo de outra maneira. Zadig, vendo<br \/>\n      que lhe excitava a curiosidade, redobrou-a ensinando-lhe muitas coisas que<br \/>\n      n&atilde;o eram estranhas a seu com&eacute;rcio: o peso espec&iacute;fico<br \/>\n      dos metais e dos g&ecirc;neros em volume igual; as propriedades de v&aacute;rios<br \/>\n      animais &uacute;teis; os meios de tornar &uacute;teis os que n&atilde;o<br \/>\n      o eram; em suma, afigurou-se-lhe um verdadeiro s&aacute;bio. Setoc o preferiu<br \/>\n      a seu camarada, a quem tanto estimara. Tratou-o bem, e n&atilde;o teve de<br \/>\n      que se arrepender.<\/p>\n<p>Chegado &agrave; sua tribo, Setoc reclamou duzentas on&ccedil;as de prata<br \/>\n      a um hebreu a quem as emprestara em presen&ccedil;a de duas testemunhas;<br \/>\n      mas estas haviam morrido, e o hebreu disso se aproveitara para ficar com<br \/>\n      o dinheiro do mercador, dando gra&ccedil;as a Deus por lhe haver proporcionado<br \/>\n      ensejo de enganar a um &aacute;rabe. Setoc confiou a dificuldade a Zadig,<br \/>\n      que se tornara seu conselheiro.<\/p>\n<p>&#8212; Em que local emprestou suas quinhentas on&ccedil;as a esse infiel?<br \/>\n      &#8212; perguntou-lhe Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; Sobre uma larga pedra que se acha ao p&eacute; do monte Horeb.<\/p>\n<p>&#8212; Qual &eacute; o car&aacute;ter de seu devedor?<\/p>\n<p>&#8212; O de um leg&iacute;timo velhaco.<\/p>\n<p>&#8212; Mas o que lhe pergunto &eacute; se &eacute; um homem vivo ou fleugm&aacute;tico,<br \/>\n      atilado ou imprudente.<\/p>\n<p>&#8212; De todos os maus pagadores, &eacute; o mais vivo que eu conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8212; Pois bem! &#8212; insistiu Zadig. &#8212; Permita que pleiteie<br \/>\n      sua causa perante o juiz.<\/p>\n<p>Com efeito, citou o hebreu ao tribunal, e assim falou ao juiz:<\/p>\n<p>&#8212; Almofada do trono da eq&uuml;idade, venho reclamar a esse homem<br \/>\n      em nome de meu senhor, quinhentas on&ccedil;as de prata, que ele n&atilde;o<br \/>\n      quer devolver.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; testemunhas?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, morreram; mas existe uma larga pedra sobre a qual foi<br \/>\n      contado o dinheiro; e, se aprouver a Vossa Grandeza mandar traz&ecirc;-la,<br \/>\n      espero que ela preste testemunho; aqui ficaremos, o israelita e eu, &agrave;<br \/>\n      espera de que chegue essa pedra; mandarei busc&aacute;-la por conta de Setoc,<br \/>\n      meu senhor.<\/p>\n<p>&#8212; Muito bem &#8212; concordou o juiz. E p&ocirc;s-se a despachar<br \/>\n      outros assuntos.<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o? &#8212; disse ele a Zadig no fim da audi&ecirc;ncia.<br \/>\n      &#8212; Ainda n&atilde;o chegou a sua pedra?<\/p>\n<p>O hebreu retrucou a rir:<\/p>\n<p>&#8212; Poderia Vossa Grandeza ficar aqui at&eacute; amanh&atilde;, que<br \/>\n      a pedra ainda n&atilde;o chegaria; est&aacute; a mais de seis milhas de<br \/>\n      dist&acirc;ncia e seria preciso uns quinze homens para transport&aacute;-la.<\/p>\n<p>&#8212; Estais vendo?! &#8212; exclamou Zadig. &#8212; Bem disse eu que<br \/>\n      a pedra prestaria testemunho; j&aacute; que esse homem sabe onde est&aacute;<br \/>\n      a pedra, confessa, pois, que foi sobre ela que se contou o dinheiro.<\/p>\n<p>O hebreu, interdito, viu-se logo obrigado a confessar tudo. O juiz ordenou<br \/>\n      que fosse ele atado &agrave; pedra, sem beber nem comer, at&eacute; devolver<br \/>\n      as quinhentas on&ccedil;as, que foram pagas sem demora.<\/p>\n<p>O escravo Zadig e a pedra alcan&ccedil;aram grande fama em toda a Ar&aacute;bia.<\/p>\n<h4><a name=\"11\">XI &#8211; A PIRA<\/a><\/h4>\n<p>Setoc, encantado, fez do escravo seu amigo &iacute;ntimo. Tal como o rei<br \/>\n      de Babil&ocirc;nia, n&atilde;o podia passar sem ele, e Zadig felicitava-se<br \/>\n      de que Setoc n&atilde;o tivesse mulher. Reconhecia no seu amo um natural<br \/>\n      pendor para o bem, muita retid&atilde;o e bom senso. Doeu-lhe comprovar<br \/>\n      que este adorava o ex&eacute;rcito celeste, isto &eacute;, o sol, a lua<br \/>\n      e as estrelas, conforme o antigo costume &aacute;rabe. E a isso se referia<br \/>\n      &agrave;s vezes muito discretamente. Afinal lhe disse que eram corpos como<br \/>\n      os outros e que n&atilde;o mereciam as suas homenagens, mais que uma &aacute;rvore<br \/>\n      ou um rochedo quaisquer.<\/p>\n<p>&#8212; Mas &#8212; retrucava Setoc, &#8212; trata-se de seres eternos<br \/>\n      de que auferimos todos os benef&iacute;cios; animam a natureza; regulam<br \/>\n      as esta&ccedil;&otilde;es; e est&atilde;o ali&aacute;s t&atilde;o longe<br \/>\n      de n&oacute;s que &eacute; imposs&iacute;vel deixar de vener&aacute;-los.<\/p>\n<p>&#8212; Mais benef&iacute;cios respondeu Zadig &#8212; recebe o senhor<br \/>\n      das &aacute;guas do Mar Vermelho, que lhe transportam as mercadorias para<br \/>\n      a &Iacute;ndia. Por que n&atilde;o h&aacute; de ser ele t&atilde;o antigo<br \/>\n      como as estrelas? E se o caso &eacute; adorar o que se acha afastado, devia<br \/>\n      ent&atilde;o o amo adorar a terra dos gang&aacute;ridas, que fica nos limites<br \/>\n      do mundo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &#8212; dizia Setoc, &#8212; as estrelas s&atilde;o<br \/>\n      muito brilhantes para que eu n&atilde;o as adore.<\/p>\n<p>Quando anoiteceu, Zadig acendeu in&uacute;meras velas na tenda onde devia<br \/>\n      cear com Setoc, e logo que este apareceu, lan&ccedil;ou-se ao p&eacute;<br \/>\n      daquelas ceras alumiadas, e exclamou: &#8220;Eternas e brilhantes luzes,<br \/>\n      s&ecirc;de-me prop&iacute;cias para sempre.&#8221; Dito isto, sentou-se<br \/>\n      &agrave; mesa sem olhar para Setoc.<\/p>\n<p>&#8212; Que fazes? &#8212; perguntou Setoc, espantado.<\/p>\n<p>&#8212; Fa&ccedil;o como o meu amo; adoro essas luzes e negligencio aquele<br \/>\n      que &eacute; senhor delas, e meu senhor tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Setoc compreendeu o profundo sentido desse ap&oacute;logo. Penetrou-lhe<br \/>\n      na alma a sabedoria de seu escravo; n&atilde;o mais prodigalizou incenso<br \/>\n      &agrave;s criaturas, e adorou o Ser eterno que as fez.<\/p>\n<p>Havia ent&atilde;o na Ar&aacute;bia um terr&iacute;vel costume, origin&aacute;rio<br \/>\n      da C&iacute;tia e que, estabelecido na &Iacute;ndia pelos br&acirc;manes,<br \/>\n      amea&ccedil;ava invadir todo o Oriente. Quando morria um homem casado e<br \/>\n      a sua amada esposa desejava ser santa, fazia-se ela queimar em p&uacute;blico,<br \/>\n      sobre o corpo do marido. Era uma festa solene a que se chamava a pira da<br \/>\n      viuvez. A tribo em que houvesse mais mulheres queimadas era a mais considerada<br \/>\n      de todas. Ora, tendo morrido um homem da tribo de Setoc, sua vi&uacute;va,<br \/>\n      chamada Almona, que era muito devota, fez saber o dia e hora em que se lan&ccedil;aria<br \/>\n      &agrave;s chamas, ao som de tambores e trombetas. Zadig observou a Setoc<br \/>\n      o quanto era contr&aacute;rio ao bem do g&ecirc;nero humano esse horr&iacute;vel<br \/>\n      costume de deixar que se queimassem, todos os dias, vi&uacute;vas mo&ccedil;as<br \/>\n      que poderiam dar filhos ao Estado, ou pelo menos criar os seus; e fez-lhe<br \/>\n      ver que deveria, se poss&iacute;vel, abolir t&atilde;o b&aacute;rbaro costume<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; mais de mil anos ponderou Setor que as mulheres t&ecirc;m<br \/>\n      o direito de queimar-se. Qual de n&oacute;s ousaria mudar uma lei que o<br \/>\n      tempo consagrou? Haver&aacute; coisa mais respeit&aacute;vel do que um antigo<br \/>\n      abuso?<\/p>\n<p>&#8212; A raz&atilde;o &eacute; mais antiga &#8212; retrucou Zadig. &#8212;<br \/>\n      Dirija-se aos chefes das tribos, e eu vou ter com a vi&uacute;va.<\/p>\n<p>Fez-se apresentar a ela; e, depois de se lhe haver insinuado no esp&iacute;rito<br \/>\n      com louvores &agrave; sua beleza, e ter-lhe dito como era lastim&aacute;vel<br \/>\n      entregar ao fogo tamanhos encantos, ainda lhe encareceu a const&acirc;ncia<br \/>\n      e a coragem.<\/p>\n<p>&#8212; Decerto amava prodigiosamente a seu marido, n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Eu? Qual nada! &#8212; respondeu a dama. &#8212; Era um bruto,<br \/>\n      um ciumento, um homem insuport&aacute;vel; mas estou firmemente resolvida<br \/>\n      a lan&ccedil;ar-me &agrave;s chamas.<\/p>\n<p>&#8212; Mas com certeza deve ser delicioso ser queimada viva&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! at&eacute; arrepia a natureza &#8212; disse a dama. Mas tem-se<br \/>\n      de passar por isso. Eu sou devota; e perderia a reputa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      e todo o mundo riria de mim se eu n&atilde;o me queimasse.<\/p>\n<p>Zadig, tendo-lhe demonstrado que ela se queimava por causa dos outros e<br \/>\n      por vaidade, falou-lhe longamente, de modo a fazer-lhe amar um pouco a vida<br \/>\n      e chegando at&eacute; a lhe inspirar alguma benevol&ecirc;ncia por aquele<br \/>\n      que assim lhe falava.<\/p>\n<p>&#8212; Que faria, enfim, a senhora, se lhe passasse essa vaidade de ser<br \/>\n      queimada?<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &#8212; retrucou a dama &#8212; Acho que lhe pediria que se<br \/>\n      casasse comigo.<\/p>\n<p>Muito preocupado ainda estava Zadig com Astart&eacute;ia para que se deixasse<br \/>\n      impressionar com essa declara&ccedil;&atilde;o; mas foi logo ao encontro<br \/>\n      dos chefes de tribo, contou-lhes o que se passava e lhes aconselhou que<br \/>\n      baixassem uma lei que s&oacute; permitiria a uma vi&uacute;va ir para a<br \/>\n      fogueira depois de haver falado durante uma hora, a s&oacute;s, com um homem<br \/>\n      jovem. E desde esse tempo, nenhuma vi&uacute;va &aacute;rabe se lan&ccedil;ou<br \/>\n      &agrave;s chamas. Assim se deveu a Zadig o ser abolido, em um dia, t&atilde;o<br \/>\n      cruel costume, que vinha durando h&aacute; s&eacute;culos. Era, pois, o<br \/>\n      benfeitor da Ar&aacute;bia.<\/p>\n<h4><a name=\"12\">XII &#8211; A CEIA<\/a><\/h4>\n<p>Setoc, que n&atilde;o podia separar-se daquele homem em quem habitava a<br \/>\n      sabedoria, levou-o &agrave; grande feira de Bassor&aacute;, a que deviam<br \/>\n      comparecer os maiores negociantes do mundo habit&aacute;vel. Foi para Zadig<br \/>\n      um conforto espiritual ver congregados no mesmo local tantos homens das<br \/>\n      mais diversas regi&otilde;es. Parecia-lhe que o universo era uma grande<br \/>\n      fam&iacute;lia que se reunia em Bassor&aacute;. Encontrou-se &agrave; mesa,<br \/>\n      logo ao segundo dia, com um eg&iacute;pcio, um gang&aacute;rida, um habitante<br \/>\n      de Catai, um grego, um celta, e v&aacute;rios outros estrangeiros que, nas<br \/>\n      suas freq&uuml;entes viagens ao golfo ar&aacute;bico, haviam aprendido o<br \/>\n      suficiente de &aacute;rabe para se fazerem compreender. O eg&iacute;pcio<br \/>\n      parecia bastante encolerizado.<\/p>\n<p>&#8212; Que abomin&aacute;vel terra! &#8212; exclamou ele. &#8212; Recusam-me<br \/>\n      aqui mil on&ccedil;as de ouro sobre o melhor artigo do mundo.<\/p>\n<p>&#8212; Como! Que artigo &eacute; esse? &#8212; indagou Setoc.<\/p>\n<p>&#8212; O corpo de minha tia &#8212; respondeu o eg&iacute;pcio. &#8212;<br \/>\n      Era a mais brava mulher de todo o Egito. Acompanhava-me sempre; morreu em<br \/>\n      viagem; mandei fazer dela uma das mais belas m&uacute;mias que j&aacute;<br \/>\n      tivemos; na minha terra eu conseguiria empenh&aacute;-la por quanto quisesse.<br \/>\n      &Eacute; estranho que aqui n&atilde;o me queiram emprestar ao menos mil<br \/>\n      on&ccedil;as de ouro sobre um artigo t&atilde;o s&oacute;lido.<\/p>\n<p>Enquanto assim se exasperava, dispunha-se a servir-se de uma excelente<br \/>\n      galinha cozida, quando o indiano, segurando-lhe a m&atilde;o, exclamou,<br \/>\n      alarmado:<\/p>\n<p>&#8212; Oh! que vai fazer?<\/p>\n<p>&#8212; Comer essa galinha &#8212; disse o homem da m&uacute;mia.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! n&atilde;o fa&ccedil;a isto! Suponha-se que a alma de sua tia<br \/>\n      se haja encarnado nessa galinha, e o senhor certamente n&atilde;o vai expor-se<br \/>\n      a devorar a senhora sua tia! Ah, cozinhar galinhas &eacute; um ultraje &agrave;<br \/>\n      natureza.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, n&atilde;o me venha com essa hist&oacute;ria de naturezas<br \/>\n      e galinhas! retrucou o irasc&iacute;vel eg&iacute;pcio. &#8212; N&oacute;s<br \/>\n      adoramos a um boi, e nem por isso deixamos de os comer.<\/p>\n<p>&#8212; Adoram a um boi? Ser&aacute; poss&iacute;vel?! &#8212; estranhou<br \/>\n      o homem do Ganges.<\/p>\n<p>&#8212; Nada mais poss&iacute;vel; h&aacute; cento e trinta e cinco mil<br \/>\n      anos que assim fazemos; e ningu&eacute;m entre n&oacute;s achou nada que<br \/>\n      objetar.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! cento e trinta e cinco mil anos &eacute; exagero! &#8212; protestou<br \/>\n      o hindu. &#8212; H&aacute; apenas oitenta mil anos que a &Iacute;ndia &eacute;<br \/>\n      povoada e sem d&uacute;vida alguma somos o povo mais antigo do mundo; e<br \/>\n      Brama nos proibiu de comer bois muito antes que os senhores se lembrassem<br \/>\n      de os p&ocirc;r nos altares e no espeto.<\/p>\n<p>&#8212; Belo animal esse Brama para se comparar a &Aacute;pis! Que diabo<br \/>\n      fez ele que se aproveitasse?<\/p>\n<p>&#8212; Foi ele quem ensinou os homens a ler e escrever, e a ele &eacute;<br \/>\n      que deve o mundo a inven&ccedil;&atilde;o do xadrez &#8212; respondeu o<br \/>\n      br&acirc;mane.<\/p>\n<p>&#8212; Pois est&atilde;o muito enganados &#8212; aparteou um caldeu vizinho.<br \/>\n      &#8212; &Eacute; ao peixe Oanes que devemos tamanhos benef&iacute;cios,<br \/>\n      e s&oacute; a ele &eacute; justo rendermos homenagem. Todo o mundo lhes<br \/>\n      dir&aacute; que era um ser divino, que tinha uma cauda dourada, uma bela<br \/>\n      cabe&ccedil;a de homem, e que todos os dias sa&iacute;a das &aacute;guas<br \/>\n      para vir pregar em terra &#8212; durante tr&ecirc;s horas. Teve v&aacute;rios<br \/>\n      filhos, que foram reis, como todos sabem. Tenho em casa a sua imagem, que<br \/>\n      venero, como &eacute; devido. Pode-se comer quanto boi se queira; mas &eacute;<br \/>\n      sem d&uacute;vida uma grande impiedade cozinhar peixe; ali&aacute;s, os<br \/>\n      senhores todos s&atilde;o de origem muito pouco nobre e muito recente. A<br \/>\n      na&ccedil;&atilde;o eg&iacute;pcia conta apenas cento e trinta e cinco mil<br \/>\n      anos, e os hindus s&oacute; se vangloriam de oitenta mil, ao passo que n&oacute;s<br \/>\n      temos almanaques de quatro mil s&eacute;culos. Renunciem a tais loucuras,<br \/>\n      e eu darei a cada um dos senhores uma bela imagem de Oanes.<\/p>\n<p>O homem de Cambalu tomou ent&atilde;o a palavra:<\/p>\n<p>&#8212; Respeito muito os eg&iacute;pcios, os caldeus, os gregos, os celtas,<br \/>\n      Brama, o boi &Aacute;pis, o belo peixe Oanes; mas talvez o Li, ou o Tien<br \/>\n      , como queiram chamar-lhe, valha tanto como os bois e peixes. Nada direi<br \/>\n      de meu pa&iacute;s; &eacute; t&atilde;o grande como o Egito, a Cald&eacute;ia<br \/>\n      e a &Iacute;ndia reunidos. De antig&uuml;idade n&atilde;o discuto, pois<br \/>\n      basta ser feliz, e &eacute; bem pouca coisa ser antigo; mas, se fossemos<br \/>\n      falar de almanaques, diria que toda a &Aacute;sia copia os nossos, e os<br \/>\n      t&iacute;nhamos excelentes antes que soubessem aritm&eacute;tica na Cald&eacute;ia.<\/p>\n<p>&#8212; Uns grandes ignorantes &eacute; o que os senhores s&atilde;o &#8212;<br \/>\n      exclamou o grego. &#8212; Ser&aacute; que n&atilde;o sabem que o caos &eacute;<br \/>\n      o pai de tudo, e que a forma e a mat&eacute;ria puseram o mundo no estado<br \/>\n      em que se acha?<\/p>\n<p>Esse grego falou por muito tempo; mas foi interrompido afinal pelo celta,<br \/>\n      que, tendo bebido &agrave; larga enquanto discutiam, julgou-se ent&atilde;o<br \/>\n      mais s&aacute;bio que todos os outros e disse, praguejando, que, al&eacute;m<br \/>\n      de Teutath e do ag&aacute;rico de carvalho, nada mais havia digno de men&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      neste mundo; que ele tinha sempre um ag&aacute;rico no bolso; que os citas,<br \/>\n      seus antepassados, foram os &uacute;nicos homens de bem que jamais existiram<br \/>\n      sobre a face da terra, que algumas vezes, na verdade, tinham comido homens,<br \/>\n      mas isso n&atilde;o impedia que se tributasse o m&aacute;ximo respeito &agrave;<br \/>\n      sua na&ccedil;&atilde;o; e que, enfim, se algu&eacute;m falasse mal de Teutath,<br \/>\n      teria de haver-se com ele. A discuss&atilde;o acalorou-se e Setoc viu o<br \/>\n      momento em que o sangue correria pela mesa. Zadig, que se mantivera em sil&ecirc;ncio<br \/>\n      durante toda a disputa, afinal se ergueu: dirigiu-se primeiro ao celta,<br \/>\n      que era o mais furioso; disse-lhe que ele tinha raz&atilde;o, e pediu-lhe<br \/>\n      o ag&aacute;rico; gabou ao grego a sua eloq&uuml;&ecirc;ncia e acalmou os<br \/>\n      &acirc;nimos exaltados. Poucas palavras disse ao homem de Catai, pois fora<br \/>\n      este o mais sensato de todos. Em seguida lhes disse:<\/p>\n<p>&#8212; Iam os meus caros amigos brigar por coisa nenhuma, pois afinal<br \/>\n      s&atilde;o todos da mesma opini&atilde;o.<\/p>\n<p>A estas palavras, levantou-se um protesto geral &#8212; N&atilde;o &eacute;<br \/>\n      verdade &#8212; disse ele ao celta &#8212; que o senhor n&atilde;o adora<br \/>\n      a esse ag&aacute;rico, mas &agrave;quele que fez o ag&aacute;rico e o carvalho?<\/p>\n<p>&#8212; Sem d&uacute;vida respondeu o celta.<\/p>\n<p>&#8212; E o senhor &#8212; disse ao eg&iacute;pcio &#8212; n&atilde;o venera,<br \/>\n      sob a apar&ecirc;ncia de certo boi, &agrave;quele que nos deu os bois?<\/p>\n<p>&#8212; Sim &#8212; concordou o eg&iacute;pcio.<\/p>\n<p>&#8212; O peixe Oanes &#8212; continuou ele &#8212; deve ceder ante &agrave;quele<br \/>\n      que fez o mar e os peixes.<\/p>\n<p>&#8212; De acordo &#8212; disse o caldeu.<\/p>\n<p>&#8212; O natural da &Iacute;ndia acrescentou &#8212; e o de Catai, reconhecem,<br \/>\n      como os senhores, um primeiro principio; n&atilde;o compreendo l&aacute;<br \/>\n      muito bem as coisas admir&aacute;veis que disse o grego, mas estou certo<br \/>\n      de que ele tamb&eacute;m admite um Ser superior, de que dependem a forma<br \/>\n      e a mat&eacute;ria.<\/p>\n<p>O grego, a quem admiravam, disse que Zadig lhe apreendera muito bem o pensamento.<\/p>\n<p>&#8212; Todos s&atilde;o, pois, da mesma opini&atilde;o &#8212; concluiu<br \/>\n      Zadig &#8212; e n&atilde;o h&aacute; motivos para disputas. E todos o abra&ccedil;aram.<\/p>\n<p>Setoc, depois de haver vendido bastante caro as mercadorias, reconduziu<br \/>\n      o amigo Zadig &agrave; sua tribo. Ao chegar, soube este que o haviam processado<br \/>\n      durante a sua aus&ecirc;ncia e que seria queimado a fogo lento.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">XIII &#8211; AS ENTREVISTAS<\/a><\/h4>\n<p>Enquanto se achava em Bassor&aacute;, os sacerdotes das estrelas tinham<br \/>\n      resolvido puni-lo. A estes pertenciam de direito as pedrarias e adere&ccedil;os<br \/>\n      das vi&uacute;vas a quem condenavam &agrave; fogueira; n&atilde;o era demais<br \/>\n      que mandassem queimar Zadig pela pe&ccedil;a que lhes pregara. Acusaram-no,<br \/>\n      pois, de alimentar sentimentos err&ocirc;neos para com o ex&eacute;rcito<br \/>\n      celeste; depuseram contra ele e juraram que o tinham ouvido dizer que as<br \/>\n      estrelas n&atilde;o se punham no mar. Essa horrenda blasf&ecirc;mia fez<br \/>\n      estremecer os ju&iacute;zes; estiveram a ponto de rasgar as vestes, ao ouvir<br \/>\n      essas &iacute;mpias palavras, e sem d&uacute;vida o teriam feito se Zadig<br \/>\n      tivesse com que lhas pagar. Mas, no auge da dor, contentaram-se em conden&aacute;-lo<br \/>\n      a ser queimado a fogo lento. Setoc, desesperado, empregou em v&atilde;o<br \/>\n      toda a sua influ&ecirc;ncia para salvar oamigo; foi logo obrigado a calar-se.<br \/>\n      A jovem vi&uacute;va Almona, que tomara bastante gosto &agrave; vida e que<br \/>\n      devia isso a Zadig, resolveu livr&aacute;-lo da fogueira, cujo absurdo ele<br \/>\n      a fizera reconhecer. Remoeu consigo esse projeto, sem o comunicar a ningu&eacute;m.<br \/>\n      Zadig devia ser executado no dia seguinte; ela dispunha apenas da noite<br \/>\n      para o salvar. Eis o que fez, como mulher caridosa e prudente.<\/p>\n<p>Perfumou-se, real&ccedil;ou sua beleza com os mais ricos e galantes atavios,<br \/>\n      e foi solicitar uma audi&ecirc;ncia secreta ao chefe dos sacerdotes das<br \/>\n      estrelas. Quando se viu em presen&ccedil;a do vener&aacute;vel anci&atilde;o,<br \/>\n      falou-lhe nos seguintes termos:<\/p>\n<p>&#8212; Filho primog&ecirc;nito da grande ursa, irm&atilde;o do touro,<br \/>\n      primo do grande c&atilde;o (eram os t&iacute;tulos do pont&iacute;fice),<br \/>\n      aqui venho confiar-vos meus escr&uacute;pulos. Estou com muito medo de haver<br \/>\n      cometido um enorme pecado, n&atilde;o me queimando na pira de meu querido<br \/>\n      esposo. Com efeito, que tinha eu a conservar? Uma carne perec&iacute;vel,<br \/>\n      e que j&aacute; se vai fanando&#8230;<\/p>\n<p>Ao dizer tais palavras, retirou das longas mangas de seda os seus bra&ccedil;os<br \/>\n      nus, admir&aacute;veis de contorno e deslumbrantes de brancura.<\/p>\n<p>&#8212; V&ecirc;de &#8212; disse ela &#8212; o pouco que isto vale.<\/p>\n<p>O pont&iacute;fice achou, no &iacute;ntimo do cora&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n      aquilo valia muito. Disseram-no os seus olhos, e sua boca o confirmou: jurou<br \/>\n      que nunca, em sua vida, vira uns bra&ccedil;os mais lindos.<\/p>\n<p>&#8212; Ai! &#8212; suspirou a vi&uacute;va os bra&ccedil;os pode ser que<br \/>\n      estejam menos mal que o resto; mas haveis de confessar que o colo n&atilde;o<br \/>\n      era digno de meu apre&ccedil;o.<\/p>\n<p>Deixou ver ent&atilde;o o seio mais encantador que j&aacute; formara a<br \/>\n      natureza. Um bot&atilde;o de rosa sobre um pomo de marfim nada seria, em<br \/>\n      compara&ccedil;&atilde;o, e os cordeiros rec&eacute;m-sa&iacute;dos do lavadoiro<br \/>\n      pareceriam de um amarelo sujo. Aqueles seios, seus grandes olhos negros<br \/>\n      que enlanguesciam, brilhando suavemente num carinhoso ardor, suas faces<br \/>\n      animadas da mais bela p&uacute;rpura misturada ao branco do mais puro leite,<br \/>\n      o seu nariz, que n&atilde;o era como a torre do monte L&iacute;bano, os<br \/>\n      seus l&aacute;bios, que eram como escr&iacute;nios de coral, encerrando<br \/>\n      as mais belas p&eacute;rolas do mar da Ar&aacute;bia, tudo isso convenceu<br \/>\n      ao velho de que tinha vinte anos. Fez-lhe, gaguejando, uma declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      amorosa. Almona, vendo-o inflamado, pediu-lhe o perd&atilde;o de Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! minha bela dama &#8212; disse ele, &#8212; ainda que eu lhe<br \/>\n      concedesse o perd&atilde;o, minha indulg&ecirc;ncia de nada serviria; &eacute;<br \/>\n      preciso que seja assinado por tr&ecirc;s outros confrades meus.<\/p>\n<p>&#8212; Assinai, assim mesmo &#8212; insistiu Almona.<\/p>\n<p>&#8212; Com muito gosto &#8212; disse o sacerdote, &#8212; sob a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      de que seus favores sejam o pr&ecirc;mio de minha facilidade.<\/p>\n<p>&#8212; Muita honra me concedeis &#8212; disse Almona. &#8212; Dignai-vos<br \/>\n      vir a meu quarto depois que o sol se puser, e logo que a brilhante estrela<br \/>\n      Sheat erguer-se no horizonte. E ent&atilde;o me encontrareis num sof&aacute;<br \/>\n      cor-de-rosa, e podereis dispor de vossa serva como bem quiserdes.<\/p>\n<p>Ela ent&atilde;o retirou-se, levando consigo a assinatura, e deixando o<br \/>\n      velho cheio de amor e desconfian&ccedil;a de suas pr&oacute;prias for&ccedil;as.<br \/>\n      Empregou ele o resto do dia em banhar-se; bebeu um licor composto de canela<br \/>\n      de Ceil&atilde;o e preciosas especiarias de Tidor e Ternate, e esperou com<br \/>\n      impaci&ecirc;ncia que aparecesse a estrela Sheat.<\/p>\n<p>Enquanto isto, a bela Almona foi procurar o segundo pont&iacute;fice. Este<br \/>\n      lhe assegurou que o sol, a lua, e todos os luzeiros do firmamento n&atilde;o<br \/>\n      passavam de fogos f&aacute;tuos em compara&ccedil;&atilde;o com os seus<br \/>\n      encantos. Almona lhe pediu a mesma gra&ccedil;a, e propuseram-lhe o mesmo<br \/>\n      pre&ccedil;o. Ela deixou-se vencer, e marcou encontro com o segundo pont&iacute;fice<br \/>\n      ao erguer da estrela Algenib.<\/p>\n<p>Dali, dirigiu-se &agrave; casa do terceiro e do quarto sacerdote, sempre<br \/>\n      recebendo uma assinatura e marcando encontro de estrela em estrela. Mandou<br \/>\n      ent&atilde;o pedir aos ju&iacute;zes que comparecessem &agrave; sua resid&ecirc;ncia,<br \/>\n      para um assunto importante. Ali chegados, mostrou-lhes os quatro nomes e<br \/>\n      disse-lhes por que pre&ccedil;o haviam os sacerdotes vendido o perd&atilde;o<br \/>\n      de Zadig. Cada um destes chegou &agrave; hora aprazada, e cada qual se espantou<br \/>\n      de ali encontrar os seus confrades, e mais os ju&iacute;zes, perante os<br \/>\n      quais ficou patenteada a sua vergonha. Zadig foi salvo. Quanto a Setoc,<br \/>\n      ficou t&atilde;o encantado com a habilidade de Almona que casou com ela.<br \/>\n      Zadig partiu, ap&oacute;s se haver lan&ccedil;ado aos p&eacute;s da sua<br \/>\n      bela salvadora. Setoc e ele separaram-se em pranto, jurando eterna amizade<br \/>\n      e prometendo-se que o primeiro dos dois que conseguisse uma grande fortuna<br \/>\n      o participaria ao outro.<\/p>\n<p>Zadig se dirigiu para as bandas da S&iacute;ria, sempre com o pensamento<br \/>\n      na infeliz Astart&eacute;ia, e refletindo na sorte que se obstinava em o<br \/>\n      escarnecer e perseguir. &#8220;Meu Deus! &#8212; dizia ele consigo. &#8212;<br \/>\n      Quatrocentas on&ccedil;as de ouro por causa da passagem de uma cadela! condenado<br \/>\n      &agrave; decapita&ccedil;&atilde;o por quatro maus versos em louvor do rei!<br \/>\n      quase estrangulado porque a rainha tinha babuchas da cor do meu barrete!<br \/>\n      reduzido &agrave; escravid&atilde;o por haver socorrido uma mulher a quem<br \/>\n      espancavam! e prestes a ser queimada por ter salvo a vida de todas as vi&uacute;vas<br \/>\n      &aacute;rabes!&#8221;<\/p>\n<h4><a name=\"14\">XIV &#8211; O SALTEADOR<\/a><\/h4>\n<p>Chegado &agrave;s fronteiras que separam a Ar&aacute;bia P&eacute;trea<br \/>\n      da S&iacute;ria e quando passava por um castelo bastante fortificado, sairam<br \/>\n      deste uns &aacute;rabes de arma em punho, que o cercavam, gritando &#8220;Tudo<br \/>\n      o que voc&ecirc; tem nos pertence; e sua pessoa pertence a nosso chefe&#8221;.<br \/>\n      Zadig, como resposta, puxou da espada; seu criado, que tinha coragem, fez<br \/>\n      o mesmo. Estenderam mortos os primeiros &aacute;rabes que se atreveram a<br \/>\n      lhes p&ocirc;r a m&atilde;o; o n&uacute;mero redobrou; eles n&atilde;o se<br \/>\n      assustaram com isso resolveram morrer lutando. Viam-se dois homens a defender-se<br \/>\n      contra uma multid&atilde;o; tal combate n&atilde;o poderia durar muito tempo.<br \/>\n      O senhor do castelo, por nome Arbogad, que assistia de uma janela aos prod&iacute;gios<br \/>\n      de coragem que praticava encheu-se de estima por ele. Desceu &agrave;s pressas<br \/>\n      e veio em pessoa afastar seu pessoal e livrar os dois viajantes.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo o que passa pelas minhas terras &eacute; meu &#8212; dizia<br \/>\n      ele &#8212; mas voc&ecirc; me parece t&atilde;o bom sujeito, que o dispenso<br \/>\n      da lei comum&#8221;. F&ecirc;-lo entrar no castelo, dando ordens para que<br \/>\n      o tratassem bem, e, &agrave; noite, fez quest&atilde;o de cear em companhia<br \/>\n      do seu h&oacute;spede.<\/p>\n<p>O senhor do castelo era um desses &aacute;rabes a que chamam ladr&otilde;es;<br \/>\n      mas &agrave;s vezes, em meio a uma multid&atilde;o de m&aacute;s a&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n      sucedia-lhe praticar algumas boas; roubava com furiosa rapacidade, e sabia<br \/>\n      dar liberalmente. Intr&eacute;pido na a&ccedil;&atilde;o, bastante trat&aacute;vel<br \/>\n      em sociedade, intemperante na mesa, alegre na p&acirc;ndega, e sobretudo<br \/>\n      cheio de franqueza, muito se agradou de Zadig. A conversa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      que se animou, prolongou o repasto. Disse ele enfim a seu h&oacute;spede:<\/p>\n<p>&#8212; Aconselho-o a alistar-se com minha gente; &eacute; o que pode fazer<br \/>\n      de melhor; este of&iacute;cio, afinal de contas, n&atilde;o &eacute; mau;<br \/>\n      e poder&aacute; um dia chegar ao que eu sou.<\/p>\n<p>&#8212; Permite-me perguntar-lhe &#8212; disse Zadig &#8212; desde quando<br \/>\n      exerce essa nobre profiss&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Desde rapazinho replicou o senhor. &#8212; Servia eu de criado<br \/>\n      a um &aacute;rabe muito esperto; e essa situa&ccedil;&atilde;o me era insuport&aacute;vel.<br \/>\n      Desesperava-me ver que em toda a terra que pertence igualmente aos homens,<br \/>\n      n&atilde;o me houvesse o destino reservado a parte a que tinha direito.<br \/>\n      Confiei minhas penas a um velho &aacute;rabe, que me disse: &#8220;N&atilde;o<br \/>\n      desesperes, meu filho: era uma vez um gr&atilde;o de areia que se lamentava<br \/>\n      de ser um &aacute;tomo ignorado no deserto; ao cabo de alguns anos tornou-se<br \/>\n      diamante, e &eacute; agora o mais belo ornamento da coroa do rei das &Iacute;ndias&#8221;.<br \/>\n      Tais palavras me causaram profunda impress&atilde;o: eu era o gr&atilde;o<br \/>\n      de areia, resolvi tornar-me diamante. Comecei roubando dois cavalos; depois<br \/>\n      associei a mim alguns camaradas; fiquei em condi&ccedil;&otilde;es de roubar<br \/>\n      pequenas caravanas; e assim fiz cessar pouco a pouco a despropor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      que a princ&iacute;pio havia entre mim e os outros homens. Tive a minha<br \/>\n      parte nos bens deste mundo; e fui at&eacute; sobejamente indenizado: alcancei<br \/>\n      grande considera&ccedil;&atilde;o; tornei-me senhor bandoleiro, adquiri<br \/>\n      este castelo por direito de conquista. O s&aacute;trapa da S&iacute;ria<br \/>\n      quis desapossar-me; mas eu j&aacute; era bastante rico para n&atilde;o temer<br \/>\n      o que quer que fosse: dei dinheiro ao s&aacute;trapa, conservando assim<br \/>\n      este castelo, e aumentei os meus dom&iacute;nios; ele nomeou-me tesoureiro<br \/>\n      dos impostos que a Ar&aacute;bia P&eacute;trea pagava ao rei dos reis. Desempenhei<br \/>\n      o meu cargo de recebedor desdenhando o de pagador.<\/p>\n<p>O grande desterham de Babil&ocirc;nia mandou para aqui, em nome do rei<br \/>\n      Moabdar, um pequeno s&aacute;trapa, para que me fizesse estrangular. Esse<br \/>\n      homem chegou com a sua ordem: eu estava inteirado de tudo; mandei estrangular<br \/>\n      na sua presen&ccedil;a os quatro personagens que trouxera consigo para apertarem<br \/>\n      o la&ccedil;o; feito o que, perguntei-lhe o quanto lhe poderia render a<br \/>\n      incumb&ecirc;ncia de estrangular-me. Respondeu-me que seus honor&aacute;rios<br \/>\n      poderiam montar a trezentas moedas de ouro. Dei-lhe claramente a entender<br \/>\n      que comigo poderia ganhar muito mais. Fi-lo subsalteador; &eacute; hoje<br \/>\n      um de meus melhores oficiais e dos mais ricos. Palavra que o amigo h&aacute;<br \/>\n      de vencer como ele. Para roubar, acredite, nunca esteve melhor a temporada,<br \/>\n      depois que Moabdar foi morto e tudo &eacute; confus&atilde;o em Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<p>Morto, Moabdar?! exclamou Zadig. &#8212; E que &eacute; feito da rainha<br \/>\n      Astart&eacute;ia?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei &#8212; respondeu Arbogad. &#8212; S&oacute; o que<br \/>\n      sei &eacute; que Moabdar enlouqueceu, que o mataram, que Babil&ocirc;nia<br \/>\n      &eacute; um pandem&ocirc;nio que todo o imp&eacute;rio est&aacute; assolado,<br \/>\n      que ainda h&aacute; belos golpes a dar e que eu, da minha parte, os dei<br \/>\n      admir&aacute;veis.<\/p>\n<p>&#8212; Mas e a rainha? &#8212; insistiu Zadig. &#8212; Por favor, n&atilde;o<br \/>\n      sabe mesmo nada da sorte da rainha?<\/p>\n<p>&#8212; Falaram-me de um pr&iacute;ncipe da Hirc&acirc;nia; ela est&aacute;<br \/>\n      provavelmente entre as suas concubinas, se &eacute; que n&atilde;o foi morta<br \/>\n      no tumulto; mas estou mais interessado pelos saques que por novidades. Apoderei-me<br \/>\n      de v&aacute;rias mulheres em minhas excurs&otilde;es; n&atilde;o conservo<br \/>\n      nenhuma; vendo-as caro quando s&atilde;o belas, sem me importar o que sejam.<br \/>\n      Ningu&eacute;m compra posi&ccedil;&otilde;es: uma rainha feia n&atilde;o<br \/>\n      seria arrematada. Talvez eu tenha vendido a rainha Astart&eacute;ia, talvez<br \/>\n      ela esteja morta; mas pouco se me d&aacute;, e acho que isso n&atilde;o<br \/>\n      o deve preocupar mais do que a mim.<\/p>\n<p>Assim falando, bebia t&atilde;o valentemente e confundia de tal modo todas<br \/>\n      as id&eacute;ias, que Zadig n&atilde;o p&ocirc;de obter nenhum esclarecimento.<\/p>\n<p>Permanecia interdito, aniquilado, im&oacute;vel. Arbogad n&atilde;o parava<br \/>\n      de beber, inventava hist&oacute;rias, repetia incessantemente que era o<br \/>\n      mais feliz de todos os homens, exortando Zadig a se tornar t&atilde;o feliz<br \/>\n      quanto ele. Afinal, levemente amodorrado pelos vapores do vinho, foi dormir<br \/>\n      um sossegado sono. Zadig passou a noite na mais violenta agita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n      &#8220;Como! &#8212; exclamava ele. &#8212; O rei enlouqueceu! Foi assassinado!<br \/>\n      N&atilde;o posso deixar de o lamentar. O imp&eacute;rio est&aacute; devastado,<br \/>\n      e esse ladr&atilde;o &eacute; feliz. &Oacute; fortuna! &Oacute; destino!<br \/>\n      Um ladr&atilde;o &eacute; feliz, e o que de mais am&aacute;vel fez a natureza<br \/>\n      pereceu talvez de um modo horr&iacute;vel, ou vive num estado pior que a<br \/>\n      morte, &Oacute; Astart&eacute;ia! que &eacute; feito de ti?&#8221;<\/p>\n<p>Logo ao raiar do dia, interrogou todos aqueles que encontrava pelo castelo;<br \/>\n      mas todos estavam ocupados, ningu&eacute;m lhe respondia; tinham feito novas<br \/>\n      conquistas durante a noite e repartiam os despojos. S&oacute; o que p&ocirc;de<br \/>\n      obter, naquela tumultuosa confus&atilde;o, foi permiss&atilde;o de partir.<br \/>\n      Aproveitou-a sem demora, mais absorto do que nunca em seus dolorosos pensamentos.<\/p>\n<p>Zadig marchava inquieto, agitado, a pensar na infeliz Astart&eacute;ia,<br \/>\n      no rei da Babil&ocirc;nia, no seu fiel Cador, no feliz ladr&atilde;o Arbogad,<br \/>\n      naquela mulher t&atilde;o caprichosa que os babil&ocirc;nios haviam detido<br \/>\n      nos confins do Egito; enfim, em todos os contratempos e infort&uacute;nios<br \/>\n      que experimentara.<\/p>\n<h4><a name=\"15\">XV &#8211; O PESCADOR<\/a><\/h4>\n<p>A algumas l&eacute;guas do castelo de Arbogad, achou-se &agrave; margem<br \/>\n      de um ribeiro, sempre a deplorar seu destino e considerando-se o modelo<br \/>\n      da desgra&ccedil;a. Viu um pescador reclinado &agrave; margem, segurando<br \/>\n      frouxamente a rede, que parecia abandonar, e erguendo os olhos para o c&eacute;u.<br \/>\n      Sou sem d&uacute;vida o mais infeliz de todos os homens &#8212; clamava<br \/>\n      o pescador. &#8212; Fui, por consenso geral, o mais famoso mercador de queijo<br \/>\n      em toda Babil&ocirc;nia, e fiquei arruinado. Tinha a mais linda mulher que<br \/>\n      um homem jamais possuiu, e ela traiu-me. Restava-me uma modesta casa, que<br \/>\n      foi pilhada e destru&iacute;da. Refugiei-me numa cho&ccedil;a, tendo a pesca<br \/>\n      como &uacute;nico recurso, e n&atilde;o apanho nenhum peixe. &Oacute; minha<br \/>\n      rede, n&atilde;o mais te lan&ccedil;arei, eu &eacute; que devo lan&ccedil;ar-me<br \/>\n      &agrave; &aacute;gua.<\/p>\n<p>Dizendo tais palavras, ergue-se e avan&ccedil;a, na atitude de um homem<br \/>\n      que se fosse arremessar e dar cabo da vida.<\/p>\n<p>&#8212; Como! &#8212; dizia consigo Zadig. &#8212; H&aacute; ent&atilde;o<br \/>\n      outros &#8212; mais infelizes do que eu?! &#8212; O ardor de salvar a vida<br \/>\n      ao homem foi t&atilde;o r&aacute;pido quanto esta reflex&atilde;o. Acorre,<br \/>\n      det&eacute;m-no, interroga-o com um ar comovido e animador. A gente acha<br \/>\n      que &eacute; menos infeliz quando n&atilde;o o &eacute; s&ograve;zinho.<br \/>\n      Mas isso, segundo Zoroastro, n&atilde;o significa maldade; &eacute; uma<br \/>\n      necessidade, apenas. Sentimo-nos atra&iacute;dos ent&atilde;o para um infeliz,<br \/>\n      como para um semelhante nosso. A alegria de um homem venturoso nos seria<br \/>\n      um insulto; mas dois desgra&ccedil;ados s&atilde;o como dois fr&aacute;geis<br \/>\n      arbustos que, apoiando-se um no outro, se fortalecem contra a tempestade.<\/p>\n<p>&#8212; Por que sucumbes &agrave;s tuas desditas? &#8212; perguntou Zadig<br \/>\n      ao pescador. &#8212; &Eacute; que n&atilde;o lhes vejo rem&eacute;dio &#8212;<br \/>\n      retrucou o outro.<\/p>\n<p>Fui o homem mais considerado da aldeia de Derlback, e fabricava, com o<br \/>\n      aux&iacute;lio de minha esposa, os melhores queijos de todo o imp&eacute;rio.<br \/>\n      A rainha Astart&eacute;ia e o famoso ministro Zadig os apreciavam loucamente.<br \/>\n      Tinha-lhes fornecido seiscentos queijos. Fui um dia a Babil&ocirc;nia receber<br \/>\n      o pagamento; soube, de chegada, que a rainha e Zadig haviam desaparecido.<br \/>\n      Corri &agrave; casa do senhor Zadig, a quem jamais vira; ali encontrei os<br \/>\n      arqueiros do grande desterham, que, munidos de um &eacute;dito real, saqueavam-na<br \/>\n      legalmente e com toda a ordem. Voei &agrave;s cozinhas da rainha; alguns<br \/>\n      dos despenseiros me disseram que ela morrera; outros que estava presa; outros<br \/>\n      que fugira; mas todos me asseguravam que n&atilde;o me seriam pagos os meus<br \/>\n      queijos. Em companhia de minha mulher, fui falar com o senhor Orcan, que<br \/>\n      era um de meus fregueses, e lhe pedimos prote&ccedil;&atilde;o em nossa<br \/>\n      desgra&ccedil;a; ele a concedeu &agrave; minha mulher, e recusou-a a mim.<br \/>\n      Era ela mais branca que os seus queijos, que come&ccedil;aram minha desgra&ccedil;a;<br \/>\n      e o esplendor da p&uacute;rpura de Tiro n&atilde;o era mais brilhante que<br \/>\n      o carmim que animava aquela brancura. Foi o que fez com que Orcan a detivesse<br \/>\n      e me escorra&ccedil;asse da sua casa. Escrevi &agrave; minha querida esposa<br \/>\n      uma carta desesperada. &#8212; Ah! sim &#8212; disse ela ao portador, &#8212;<br \/>\n      sei quem &eacute; esse homem que me escreve, j&aacute; ouvi falar nele:<br \/>\n      dizem que fabrica excelentes queijos; tragam-me alguns e n&atilde;o se esque&ccedil;am<br \/>\n      de lhos pagar.<\/p>\n<p>Na minha desgra&ccedil;a, decidi recorrer &agrave; justi&ccedil;a. Restavam-me<br \/>\n      seis on&ccedil;as de ouro: tive de dar duas ao legista que consultei, duas<br \/>\n      ao advogado que se encarregou do meu caso, duas ao secret&aacute;rio do<br \/>\n      primeiro juiz. Depois de tudo isso, meu processo ainda n&atilde;o fora encetado,<br \/>\n      e eu j&aacute; tinha dispendido mais dinheiro do que valiam os meus queijos<br \/>\n      e a minha mulher. Voltei &agrave; minha aldeia, na inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      de vender a casa para conseguir minha mulher.<\/p>\n<p>Minha casa valia umas sessenta on&ccedil;as de ouro; mas sabiam-me pobre<br \/>\n      e necessitado de dinheiro. O primeiro a quem me dirigi ofereceu-me trinta<br \/>\n      on&ccedil;as, o segundo vinte, e o terceiro dez. Estava prestes a liquidar<br \/>\n      tudo, t&atilde;o cego me achava, quando um pr&iacute;ncipe da Hirc&acirc;nia<br \/>\n      veio a Babil&ocirc;nia e assolou tudo na sua passagem. Minha casa foi primeiro<br \/>\n      saqueada e depois reduzida a cinzas.<\/p>\n<p>Tendo assim perdido o meu dinheiro, a minha mulher e a minha casa, retirei-me<br \/>\n      para esta regi&atilde;o onde o senhor me v&ecirc;. Procurei viver do of&iacute;cio<br \/>\n      de pescador: os peixes zombam de mim, como os homens. N&atilde;o apanho<br \/>\n      nenhum, morro de fome; e, se n&atilde;o fosse a sua interven&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      augusto consolador, iria afogar-me no rio.<\/p>\n<p>A narrativa acima, o pescador n&atilde;o a fez sem interrup&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      pois a todo momento Zadig, comovido e arrebatado, dizia-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Como! N&atilde;o sabes nada do destino da rainha?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, meu senhor, mas sei que a rainha e Zadig n&atilde;o<br \/>\n      me pagaram os meus queijos, que me roubaram a minha mulher, e que estou<br \/>\n      desesperado.<\/p>\n<p>&#8212; Creio &#8212; disse Zadig que n&atilde;o perder&aacute;s todo o<br \/>\n      teu dinheiro. Ouvi falar desse Zadig; &eacute; um sujeito honesto e, se<br \/>\n      voltar a Babil&ocirc;nia, como pretende, h&aacute; de pagar-te mais do que<br \/>\n      te deve; mas quanto &agrave; tua mulher, que n&atilde;o &eacute; honesta,<br \/>\n      aconselho-te que n&atilde;o procures recuper&aacute;-la. Vai a Babil&ocirc;nia;<br \/>\n      l&aacute; estarei antes de ti, porque ando a cavalo e tu a p&eacute;. Dirige-te<br \/>\n      ao ilustre Cador; dize-lhe que encontraste o seu amigo; espera-me na casa<br \/>\n      dele. Anda, vai; talvez n&atilde;o sejas sempre desditado. &Oacute; possante<br \/>\n      Orosmade &#8212; continuou ele &#8212; tu que te serves de mim para consolar<br \/>\n      esse homem, de quem te servir&aacute;s para consolar-me?<\/p>\n<p>Assim falando entregava ao pescador metade de todo o dinheiro que trouxera<br \/>\n      da Ar&aacute;bia, e o pescador, confuso e maravilhado, lhe beijava os p&eacute;s<br \/>\n      e dizia-lhe: &#8212; &Eacute;s o meu anjo salvador.<\/p>\n<p>Enquanto isto, Zadig continuava a pedir informa&ccedil;&otilde;es e desfazia-se<br \/>\n      em l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&#8212; Como! &#8212; exclamou o pescador. &#8212; Tu que praticas o bem,<br \/>\n      ser&aacute;s assim t&atilde;o desgra&ccedil;ado?<\/p>\n<p>&#8212; Cem vezes mais desgra&ccedil;ado do que tu &#8212; respondia Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; Mas como pode ser &#8212; estranhava o homem &#8212; que aquele<br \/>\n      que d&aacute; seja mais digno de l&aacute;stima do que aquele que recebe?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que a tua maior desgra&ccedil;a &#8212; tornou Zadig &#8212;<br \/>\n      era a necessidade; e, quanto a mim, sou desgra&ccedil;ado pelo cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ser&aacute; que Orcan te roubou a mulher? &#8212; indagou o pescador.<\/p>\n<p>Esta frase lembrou a Zadig todas as suas aventuras: rememorava a lista<br \/>\n      de seus infort&uacute;nios, desde a cadela da rainha at&eacute; a chegada<br \/>\n      ao castelo do ladr&atilde;o Arbogad.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &#8212; disse ele. &#8212; Orcan merece puni&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n      Mas em geral &eacute; essa gente que o destino favorece. Em todo caso, vai<br \/>\n      ter com Cador, e espera-me.<\/p>\n<p>Separaram-se; p&ocirc;s-se o pescador a andar aben&ccedil;oando o seu destino<br \/>\n      e Zadig a correr, amaldi&ccedil;oando o seu.<\/p>\n<h4><a name=\"16\">XVI &#8211; O BASILISCO<\/a><\/h4>\n<p>Chegando a uma bela campina, viu in&uacute;meras mulheres que procuravam<br \/>\n      afanosamente qualquer coisa. Tomou a liberdade de aproximar-se de uma delas<br \/>\n      e perguntar-lhe se n&atilde;o poderia ter a honra de auxili&aacute;-las.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o fa&ccedil;a isto &#8212; respondeu-lhe a s&iacute;ria.<br \/>\n      O que n&oacute;s procuramos s&oacute; pode ser tocado por mulheres.<\/p>\n<p>&#8212; Eis uma coisa bastante estranha &#8212; retrucou Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o seria indiscri&ccedil;&atilde;o perguntar-lhe que coisa<br \/>\n      &eacute; essa em que s&oacute; as mulheres podem tocar?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um basilisco &#8212; disse ela.<\/p>\n<p>&#8212; Um basilisco senhora? Mas por que motivo procuram um basilisco?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; para o nosso senhor e amo Ogul, cujo castelo se avista<br \/>\n      &agrave; margem deste rio, ao fundo do prado. Somos as suas humildes escravas;<br \/>\n      o senhor Ogul est&aacute; doente; o m&eacute;dico prescreveu-lhe um basilisco<br \/>\n      cozido em &aacute;gua de rosas, e como &eacute; um animal muito raro, que<br \/>\n      s&oacute; se deixa apanhar por mulheres, o senhor Ogul prometeu escolher,<br \/>\n      para esposa bem amada, aquela dentre n&oacute;s que lhe levasse um basilisco:<br \/>\n      deixe-me procurar, por favor, pois bem v&ecirc; que me sairia muito caro<br \/>\n      se as minhas companheiras me precedessem.<\/p>\n<p>Zadig deixou aquela e as outras s&iacute;rias em busca do seu basilisco<br \/>\n      e continuava a passear pela campina. Chegando &agrave; margem de um arroio,<br \/>\n      ali encontrou outra dama sentada na relva e que n&atilde;o procurava nada.<br \/>\n      Seu talhe parecia majestoso, mas o rosto achava-se coberto por um v&eacute;u.<br \/>\n      Estava inclinada para o arroio, e brotavam-lhe do peito profundos suspiros.<br \/>\n      Tinha na m&atilde;o uma varinha, com que tra&ccedil;ava caracteres na fina<br \/>\n      areia da margem. Zadig teve curiosidade de ver o que escrevia aquela mulher.<br \/>\n      Aproximou-se; viu a letra Z, depois um A; ficou espantado. Depois apareceu<br \/>\n      um D; ele estremeceu. Jamais houve surpresa igual &agrave; sua quando viu<br \/>\n      as duas &uacute;ltimas letras de seu nome. Permaneceu algum tempo im&oacute;vel;<br \/>\n      e afinal, rompendo o sil&ecirc;ncio com voz entrecortada:<\/p>\n<p>&#8212; O generosa dama! perdoai que um estrangeiro, um infeliz, ouse perguntar-vos<br \/>\n      por que espantosa aventura vejo aqui o nome de Zadig escrito por vossa m&atilde;o<br \/>\n      divina. A essa voz, a essas palavras, a dama ergueu o v&eacute;u com m&atilde;o<br \/>\n      tr&ecirc;mula, fitou Zadig, lan&ccedil;ou um grito de ternura, de surpresa<br \/>\n      e de alegria e, sucumbindo aos diversos sentimentos que lhe assaltavam ao<br \/>\n      mesmo tempo a alma, tombou desmaiada entre seus bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>Era a pr&oacute;pria Astart&eacute;ia, era a rainha de Babil&ocirc;nia,<br \/>\n      era aquela a quem Zadig adorava, e a quem se inculpava de adorar; era aquela<br \/>\n      a quem tanto havia chorado e por cujo destino tanto receava. Viu-se, um<br \/>\n      momento, privado do uso dos sentidos; e quando fitou os olhos nos de Astart&eacute;ia,<br \/>\n      que se abriam com um langor mesclado de confus&atilde;o e ternura: &#8212;<br \/>\n      &Oacute; pot&ecirc;ncias divinas! exclamou, &#8212; que regeis o destino<br \/>\n      dos fr&aacute;geis humanos, ent&atilde;o me devolveis Astart&eacute;ia?<br \/>\n      Em que tempo, em que lugar, em que estado a revejo!<\/p>\n<p>Lan&ccedil;ou-se de joelhos ante Astart&eacute;ia, tocando com a fronte<br \/>\n      a poeira de seus p&eacute;s. A rainha de Babil&ocirc;nia o ergue, e o faz<br \/>\n      sentar a seu lado, &agrave; margem daquele arroio; enxugava por v&aacute;rias<br \/>\n      vezes os olhos, cujas l&aacute;grimas continuavam sempre a rolar. Encetava,<br \/>\n      vinte vezes, frases que os gemidos interrompiam; interrogava-o sobre o acaso<br \/>\n      que os reunia e lhe sustava a resposta com outras perguntas. Iniciava a<br \/>\n      narrativa de seus males, e queria saber os de Zadig. Tendo ambos enfim apaziguado<br \/>\n      um pouco o tumulto interior, contou-lhe Zadig em poucas palavras por que<br \/>\n      aventuras se encontrava naquele prado.<\/p>\n<p>&#8212; Mas como, &oacute; infeliz e respeit&aacute;vel rainha, vos encontro<br \/>\n      eu neste remoto lugar, vestida de escrava, e acompanhada de outras mulheres<br \/>\n      escravas que procuram um basilisco, para o cozinhar em &aacute;gua de rosas,<br \/>\n      por prescri&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica?<\/p>\n<p>&#8212; Enquanto elas procuram o basilisco &#8212; disse a bela Astart&eacute;ia,<br \/>\n      &#8212; vou contar-te o que sofri e tudo o que perd&ocirc;o ao C&eacute;u<br \/>\n      desde que tornei a ver-te. Sabes que o rei meu marido n&atilde;o levou a<br \/>\n      bem que fosses o mais am&aacute;vel dos homens; e, por esse motivo, decidiu,<br \/>\n      uma noite, mandar estrangular-te e, a mim, envenenar-me. Sabes como o C&eacute;u<br \/>\n      permitiu que o meu pequeno mudo me avisasse da ordem de Sua Sublime Majestade.<br \/>\n      O fiel Cador, logo que te obrigou a que me obedecesses e partisses, ousou<br \/>\n      penetrar alta noite em meus aposentos, por uma passagem secreta. Raptou-me<br \/>\n      e conduziu-me para o templo de Orosmade, onde o mago, seu irm&atilde;o,<br \/>\n      me encerrou numa est&aacute;tua colossal cuja base toca os alicerces do<br \/>\n      templo e cuja cabe&ccedil;a atinge a ab&oacute;bada. Ali fiquei como sepultada,<br \/>\n      mas atendida pelo mago, e n&atilde;o me faltava nenhuma coisa necess&aacute;ria.<br \/>\n      Ao raiar do dia, o botic&aacute;rio de Sua Majestade entrou no meu quarto,<br \/>\n      com uma po&ccedil;&atilde;o de jusquiana, &oacute;pio, cicuta, el&eacute;boro<br \/>\n      negro e ac&ocirc;nito; e um outro oficial foi &agrave; tua casa com um la&ccedil;o<br \/>\n      de seda azul. N&atilde;o encontraram ningu&eacute;m. Cador, para me melhor<br \/>\n      enganar o rei, fingiu vir acusar-nos a ambos. Disse que havias tomado o<br \/>\n      caminho da &Iacute;ndia e eu o de M&euml;nfis: enviaram sat&eacute;lites<br \/>\n      no encal&ccedil;o de n&oacute;s dois.<\/p>\n<p>Os correios que me procuravam n&atilde;o me conheciam, pois eu nunca havia<br \/>\n      mostrado o meu rosto sen&atilde;o a ti, em presen&ccedil;a o por ordem de<br \/>\n      meu esposo. Correram em minha busca, fiados no retrato que lhes haviam tra&ccedil;ado<br \/>\n      da minha pessoa. Encontraram na fronteira do Egito uma mulher do mesmo corpo<br \/>\n      que eu, e que talvez tivesse mais encanto. Estava desamparada, errante.<br \/>\n      N&atilde;o duvidaram que fosse a rainha de Babil&ocirc;nia, e conduziram-na<br \/>\n      a Moabdar. Diante de tal engano, o rei entrou em violenta c&oacute;lera;<br \/>\n      mas depois, considerando de mais perto a referida mulher, achou-a bastante<br \/>\n      linda, e consolou-se. Chamava-se Missuf. Disseram-no, depois, que esse nome<br \/>\n      significa, em l&iacute;ngua eg&iacute;pcia, a bela caprichosa. Era-o, de<br \/>\n      fato; mas tinha tanta arte quanto capricho. Agradou a Moabdar. Subjugou-a<br \/>\n      a ponto de fazer com que fosse declarada sua esposa. Seu car&aacute;ter,<br \/>\n      ent&atilde;o, manifestou-se livremente; entregou-se, sem peias, a todas<br \/>\n      as loucuras da imagina&ccedil;&atilde;o. Quis obrigar o chefe dos magos,<br \/>\n      que era velho e gotoso, a dan&ccedil;ar diante dela; e, ante a recusa do<br \/>\n      mago, fez-lhe violenta persegui&ccedil;&atilde;o. Mandou o grande escudeiro<br \/>\n      fazer-lhe uma torta de confeitos. Por mais que o homem alegasse que n&atilde;o<br \/>\n      era doceiro, foi obrigado a fabricar a torta; e, como a tivesse deixado<br \/>\n      queimar-se, despacharam-no sumariamente. Deu o cargo de grande escudeiro<br \/>\n      ao seu an&atilde;o, e o de chanceler a um pajem. Foi assim que governou<br \/>\n      Babil&ocirc;nia. Todos lamentavam a minha falta. O rei, que fora bastante<br \/>\n      justo at&eacute; o momento em que resolveu envenenar-me e estrangular-te,<br \/>\n      parecia ter afogado as suas virtudes no prodigioso amor que dedicava &agrave;<br \/>\n      bela caprichosa. Compareceu ao templo no grande dia do fogo sagrado. Vi-o<br \/>\n      implorar os deuses, por Missuf, ao p&eacute; da est&aacute;tua onde me achava<br \/>\n      encerrada. Elevei a voz; gritei-lhe: Os deuses recusam os votos de um rei<br \/>\n      que se transformou em tirano e que quis matar uma mulher sensata para desposar<br \/>\n      uma louca. T&atilde;o confuso ficou Moabdar ao ouvir tais palavras, que<br \/>\n      sua mente se perturbou. O or&aacute;culo que eu proferira e a tirania de<br \/>\n      Missuf bastavam para lhe fazer perder o ju&iacute;zo. Enlouqueceu em poucos<br \/>\n      dias.<\/p>\n<p>Sua loucura, que se afigurou um castigo do c&eacute;u, foi o sinal da revolta.<br \/>\n      Ergueram-se em armas. Babil&ocirc;nia, por tanto tempo mergulhada em ociosa<br \/>\n      moleza, foi teatro de terr&iacute;vel guerra civil. Retiraram-me do interior<br \/>\n      de minha est&aacute;tua e puseram-me &agrave; frente de um partido. Cador<br \/>\n      correu a M&ecirc;nfis para te reconduzir a Babil&ocirc;nia. O pr&iacute;ncipe<br \/>\n      de Hirc&acirc;nia, cientificado dessas funestas novas, voltou com o seu<br \/>\n      ex&eacute;rcito para formar um terceiro partido na Cald&eacute;ia. Atacou<br \/>\n      o rei, que correu a seu encontro com a sua extravagante eg&iacute;pcia.<br \/>\n      Moabdar morreu varado de golpes.<\/p>\n<p>Missuf tombou nas m&atilde;os do vencedor. Quis a desgra&ccedil;a que eu<br \/>\n      tamb&eacute;m fosse aprisionada pelas hostes hircanianas e que me conduzissem<br \/>\n      perante o pr&iacute;ncipe ao mesmo tempo em que lhe levavam Missuf. Ficar&aacute;s<br \/>\n      sem d&uacute;vida lisonjeado de saber que o pr&iacute;ncipe me achou mais<br \/>\n      bela que a eg&iacute;pcia; mas h&aacute;s de arreliar-te ao saber que ele<br \/>\n      me destinou ao seu serralho. Disse-me peremptoriamente que, mal terminasse<br \/>\n      uma expedi&ccedil;&atilde;o que ia executar, viria ter comigo. Imagina qual<br \/>\n      n&atilde;o foi a minha dor! Meus la&ccedil;os com Moabdar estavam rompidos,<br \/>\n      eu poderia pertencer a Zadig; e ca&iacute;a nas m&atilde;os daquele b&aacute;rbaro.<br \/>\n      Respondi-lhe com toda a altivez que comportavam a minha posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      e os meus sentimentos. Sempre ouvira dizer que o C&eacute;u concedia &agrave;s<br \/>\n      pessoas de minha qualidade uma esp&eacute;cie de grandeza que, com uma palavra<br \/>\n      ou um olhar, compeliam ao mais profundo respeito os temer&aacute;rios que<br \/>\n      ousavam infringi-lo. Falei como rainha; mas fui tratada como aia. O hircaniano,<br \/>\n      sem ao menos se dignar dirigir-me a palavra, disse ao eunuco negro que eu<br \/>\n      era uma impertinente, mas que me achava linda. Ordenou-me que cuidasse de<br \/>\n      mim e me submetesse ao regime das favoritas, a fim de me suavizar a c&uacute;tis<br \/>\n      e me tornar mais digna de seus favores, no dia era que lhe aprouvesse honrar-me<br \/>\n      com eles. Disse-lhe que me mataria; replicou a rir que ningu&eacute;m se<br \/>\n      matava por isso, que estava acostumado a tais cenas, e deixou-me como um<br \/>\n      homem que acabasse de meter um papagaio no seu terreiro. Que situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      para a primeira rainha do universo e, direi mais, para um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      que pertencia a Zadig!<\/p>\n<p>A estas palavras, Zadig lan&ccedil;ou-se aos joelhos de Astart&eacute;ia<br \/>\n      e banhou-os de l&aacute;grimas. Astart&eacute;ia ergueu-o carinhosamente,<br \/>\n      e assim continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Via-me em poder de um b&aacute;rbaro, e como rival de uma louca,<br \/>\n      com quem me achava encerrada. Contou-me a sua aventura no Egito. Pelos tra&ccedil;os<br \/>\n      com que te pintava, pelo tempo, pelo dromed&aacute;rio que montavas, por<br \/>\n      todas as circunst&acirc;ncias, compreendi que fora Zadig quem combatera<br \/>\n      por ela. N&atilde;o duvidei que estivesses em M&ecirc;nfis, e resolvi partir<br \/>\n      para l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Bela Missuf &#8212; disse-lhe ent&atilde;o, &#8212; &eacute;s muito<br \/>\n      mais sedutora do que eu, e saber&aacute;s divertir o pr&iacute;ncipe de<br \/>\n      Hirc&acirc;nia. Facilita a minha fuga, e reinar&aacute;s s&ograve;zinha;<br \/>\n      e assim far&aacute;s a minha felicidade, ao mesmo tempo que te desembara&ccedil;as<br \/>\n      de uma rival.<\/p>\n<p>Missuf combinou comigo os preparativos da fuga. Parti, pois, secretamente,<br \/>\n      com uma escrava eg&iacute;pcia.<\/p>\n<p>Estava perto da Ar&aacute;bia, quando um famoso salteador, chamado Arbogad,<br \/>\n      me raptou, vendeu-me a mercadores que me trouxeram a este castelo, de propriedade<br \/>\n      do senhor Ogul. Este me adquiriu sem saber quem eu era. &Eacute; um homem<br \/>\n      voluptuoso, que s&oacute; procura passar bem e que acredita que Deus o p&ocirc;s<br \/>\n      no mundo para banquetear-se. &Eacute; de uma gordura excessiva, que sempre<br \/>\n      parece a ponto de sufoc&aacute;-lo. Seu m&eacute;dico, que pouca f&eacute;<br \/>\n      lhe merece quando ele, Ogul, digere bem, governa-o despoticamente quando<br \/>\n      apanha uma indigest&atilde;o. Persuadiu-o que o curaria com um basilisco<br \/>\n      cozido em &aacute;gua de rosas, O senhor Ogul prometeu a m&atilde;o de esposo<br \/>\n      &agrave; escrava sua que lhe conseguisse um basilisco. Bem v&ecirc;s que<br \/>\n      eu as deixo se esfor&ccedil;arem &agrave; vontade por merecerem tal honra,<br \/>\n      e nunca tive menos desejo de encontrar esse basilisco do que depois que<br \/>\n      o C&eacute;u permitiu que eu tornasse a ver-te.<\/p>\n<p>Astart&eacute;ia e Zadig disseram-se, ent&atilde;o, tudo o que sentimentos<br \/>\n      longamente retidos, tudo o que as suas desditas e amores podiam inspirar<br \/>\n      aos cora&ccedil;&otilde;es mais nobres e mais apaixonados; e os g&ecirc;nios<br \/>\n      que presidem o amor levaram suas palavras at&eacute; a esfera de V&ecirc;nus.<\/p>\n<p>As mulheres se recolheram sem haver encontrado coisa alguma. Zadig fez-se<br \/>\n      apresentar a Ogul e falou-lhe nos seguintes termos:<\/p>\n<p>&#8212; Que a sa&uacute;de imortal baixe do C&eacute;u para tomar a seu<br \/>\n      cuidado todos os vossos dias! Sou m&eacute;dico; acorri ao saber de vossa<br \/>\n      doen&ccedil;a, e vos trouxe um basilisco cozido em &aacute;gua de rosas.<br \/>\n      N&atilde;o que eu pretenda desposar-vos. S&oacute; vos pe&ccedil;o a liberdade<br \/>\n      de uma jovem escrava de Babil&ocirc;nia que tendes h&aacute; alguns dias<br \/>\n      em vosso poder; e consinto em ficar como escravo no seu lugar, se n&atilde;o<br \/>\n      tiver a ventura de curar o magn&iacute;fico senhor Ogul.<\/p>\n<p>A proposta foi aceita. Astart&eacute;ia partiu para Babil&ocirc;nia &#8212;<br \/>\n      com o criado de Zadig, prometendo enviar-lhe continuamente um correio, a<br \/>\n      fim de o trazer a par de tudo o que se passasse. A despedida foi t&atilde;o<br \/>\n      terna como o reencontro. O momento em que nos tornamos a encontrar e o momento<br \/>\n      em que nos separamos s&atilde;o as duas maiores &eacute;pocas da vida, como<br \/>\n      diz o grande livro do Zenda. Zadig amava a rainha tanto quanto lho jurava,<br \/>\n      e a rainha amava a Zadig mais do que lho dizia. Entrementes, assim falou<br \/>\n      Zadig a Ogul:<\/p>\n<p>&#8212; Senhor, o meu basilisco n&atilde;o &eacute; de comer, toda a sua<br \/>\n      virtude deve penetrar em v&oacute;s pelos poros. Coloquei-o num pequeno<br \/>\n      odre bem inflado e recoberto de fina pele: &eacute; preciso que arremesseis<br \/>\n      esse odre com toda a for&ccedil;a e que eu v&ocirc;-lo rebata in&uacute;meras<br \/>\n      vezes; e, em poucos dias de regime vereis o que pode a minha arte.<\/p>\n<p>Ogul, logo no primeiro dia, sentiu-se sem respira&ccedil;&atilde;o e julgou<br \/>\n      morrer de fadiga. No segundo, cansou-se menos e dormiu melhor. Em oito dias,<br \/>\n      recuperou toda a for&ccedil;a, sa&uacute;de leveza e alegria de seus verdes<br \/>\n      anos.<\/p>\n<p>&#8212; Jogastes bola e fostes s&oacute;brio &#8212; disse-lhe Zadig. &#8212;<br \/>\n      Sabei, senhor, que n&atilde;o h&aacute; basilisco na natureza, que sempre<br \/>\n      nos damos bem com sobriedade e exerc&iacute;cio e que a arte de combinar<br \/>\n      a intemperan&ccedil;a com a sa&uacute;de &eacute; uma arte t&atilde;o quim&eacute;rica<br \/>\n      quanto a pedra filosofal, a astrologia judici&aacute;ria e a teologia dos<br \/>\n      magos.<\/p>\n<p>O primeiro m&eacute;dico de Ogul, reconhecendo o quanto aquele homem era<br \/>\n      perigoso para a medicina, uniu-se com o botic&aacute;rio do corpo para mandar<br \/>\n      Zadig procurar basiliscos no outro mundo. Assim, depois de ter sido sempre<br \/>\n      castigado por haver procedido direito, estava na imin&ecirc;ncia de perecer<br \/>\n      por haver curado um senhor glut&atilde;o. Convidaram-no para uma excelente<br \/>\n      ceia. Deveria ser envenenado no segundo prato; mas recebeu um recado da<br \/>\n      bela Astart&eacute;ia durante o primeiro. Retirou-se da mesa e partiu. &#8220;Quando<br \/>\n      somos amados por uma bela mulher &#8212; disse o grande Zoroastro, &#8212;<br \/>\n      sempre nos livramos de dificuldades neste mundo.&#8221;<\/p>\n<h4><a name=\"17\">XVII &#8211; OS COMBATES<\/a><\/h4>\n<p>A rainha foi recebida em Babil&ocirc;nia com o entusiasmo que sempre inspira<br \/>\n      uma bela e infeliz princesa. Babil&ocirc;nia parecia agora mais tranq&uuml;ila.<br \/>\n      O pr&iacute;ncipe de Hirc&acirc;nia fora morto em combate. Os babil&ocirc;nios,<br \/>\n      vencedores, declaravam que Astart&eacute;ia desposaria aquele a quem escolhessem<br \/>\n      para soberano. N&atilde;o queriam que a mais alta posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      do mundo, que seria a de marido de Astart&eacute;ia e de rei da Babil&ocirc;nia,<br \/>\n      dependesse de intrigas e cabalas. Juravam reconhecer como rei ao mais valente<br \/>\n      e mais s&aacute;bio. A algumas l&eacute;guas da cidade, preparavam uma grande<br \/>\n      pista cercada de anfiteatros magnificamente ornamentados. Os combatentes<br \/>\n      deviam comparecer armados de ponto em branco. Cada qual devia ter, por detr&aacute;s<br \/>\n      dos anfiteatros, um apartamento separado onde n&atilde;o deveriam ser vistos<br \/>\n      por ningu&eacute;m. Haveria quatro jogos preliminares. Aqueles que tivessem<br \/>\n      a felicidade de vencer quatro cavaleiros deveriam combater em seguida uns<br \/>\n      contra os outros; de maneira que aquele que restasse por &uacute;ltimo senhor<br \/>\n      do campo seria proclamado campe&atilde;o dos jogos. Devia voltar quatro<br \/>\n      dias depois, com as mesmas armas, e decifrar os enigmas propostos pelos<br \/>\n      magos. Se n&atilde;o os resolvesse, n&atilde;o seria rei, e recome&ccedil;ariam<br \/>\n      as justas, at&eacute; que se encontrasse um homem que fosse vencedor nas<br \/>\n      duas competi&ccedil;&otilde;es; pois queriam exclusivamente para rei o mais<br \/>\n      corajoso e o mais s&aacute;bio. A rainha, durante todo esse tempo, deveria<br \/>\n      ser estritamente guardada: apenas lhe era permitido assistir aos espet&aacute;culos<br \/>\n      coberta com um v&eacute;u; mas n&atilde;o lhe era concedido falar com nenhum<br \/>\n      dos pretendentes, a fim de que n&atilde;o houvesse favor nem injusti&ccedil;a.<\/p>\n<p>Eis o que a rainha fazia saber a seu enamorado, esperando que este demonstrasse,<br \/>\n      por ela, mais valor e esp&iacute;rito do que ningu&eacute;m. Zadig partiu,<br \/>\n      rogou a V&ecirc;nus que lhe fortalecesse a coragem e esclarecesse o esp&iacute;rito.<br \/>\n      Chegou &agrave; margem do Eufrates na v&eacute;spera do grande dia. Inscreveu<br \/>\n      sua divisa entre as dos competidores, ocultando o rosto e o nome, como o<br \/>\n      ordenava a lei, e foi repousar no apartamento que lhe coubera por sorte.<br \/>\n      Seu amigo Cador, que voltara a Babil&ocirc;nia depois de o haver procurado<br \/>\n      in&ugrave;tilmente pelo Egito, mandou levar-lhe aos aposentos uma armadura<br \/>\n      completa que lhe enviava a rainha. Mandou-lhe tamb&eacute;m o mais belo<br \/>\n      cavalo da P&eacute;rsia. Zadig reconheceu o dedo de Astart&eacute;ia em<br \/>\n      tais presentes, nos quais sua coragem e amor cobraram novas for&ccedil;as<br \/>\n      e esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p>No dia seguinte, alojada a rainha sob um dossel de pedrarias, e cheios<br \/>\n      os anfiteatros de todas as damas e todas as ordens de Babil&ocirc;nia, penetraram<br \/>\n      no circo os lidadores. Cada qual foi depor sua divisa aos p&eacute;s do<br \/>\n      grande mago. Tiraram &agrave; sorte as divisas; a de Zadig foi a &uacute;ltima.<br \/>\n      O primeiro que avan&ccedil;ou era um senhor muito rico, chamado Itobad,<br \/>\n      vaidoso em demasia, pouco corajoso, muito in&aacute;bil, e falto de esp&iacute;rito.<br \/>\n      Seus familiares haviam-no convencido de que um homem como ele devia ser<br \/>\n      rei, e Itobad lhes replicara: &#8220;Um homem como eu deve reinar&#8221;.<br \/>\n      De modo que o haviam armado a preceito. Trazia uma armadura de ouro com<br \/>\n      esmaltes verdes, um penacho verde, uma lan&ccedil;a ornada de fitas verdes.<br \/>\n      Viu-se logo, pela maneira como Itobad governava o cavalo, que n&atilde;o<br \/>\n      &eacute;ra a um homem como ele que o C&eacute;u reservara o cetro de Babil&ocirc;nia.<br \/>\n      O primeiro cavaleiro que o acometeu fez-lhe perder os estribos; o segundo<br \/>\n      derribou-o sobre a anca do cavalo, com as duas pernas para o ar e os bra&ccedil;os<br \/>\n      estendidos. Itobad rergueu-se, mas t&atilde;o desajeitadamente, que todo<br \/>\n      o anfiteatro se p&ocirc;s a rir. Um terceiro n&atilde;o se dignou servir-se<br \/>\n      da lan&ccedil;a; mas, h&aacute;bil manobra, pegou-o pela perna direita,<br \/>\n      e fazendo-o dar meia volta, derribou-o na arena; os escudeiros dos jogos<br \/>\n      acorreram, a rir, e recolocaram-no sobre a sela. O quarto combatente toma-o<br \/>\n      da perna esquerda e o faz tombar pelo outro lado. Conduziram-no, abaixo<br \/>\n      de vaias, para o seu alojamento, onde devia passar a noite, segundo a lei;<br \/>\n      caminhando a custo, dizia &#8220;Que aventura para um homem como eu!&#8221;<\/p>\n<p>Os outros cavaleiros tiveram melhor desempenho. Houve alguns que venceram<br \/>\n      dois cavaleiros sucessivamente; chegaram a tr&ecirc;s. Apenas o pr&iacute;ncipe<br \/>\n      Otame venceu quatro. Afinal chegou a vez de Zadig; este desmontou a quatro<br \/>\n      cavaleiros, com a maior gra&ccedil;a poss&iacute;vel. Viu-se, pois que a<br \/>\n      competi&ccedil;&atilde;o se resumiria a Otame e Zadig. O primeiro usava<br \/>\n      armas azuis e ouro, com um penacho das mesmas c&ocirc;res; as Zadig eram<br \/>\n      brancas. Todos os votos se dividiam entre o cavaleiro azul e o cavaleiro<br \/>\n      branco. A rainha, com o com o cora&ccedil;&atilde;o a palpitar, rezava pela<br \/>\n      cor branca.<\/p>\n<p>Os dois campe&otilde;es fizeram passes e voltas com tanta agilidade, trocaram<br \/>\n      t&atilde;o belos golpes de lan&ccedil;a, t&atilde;o firmes estavam nos estribos,<br \/>\n      que todos, menos a rainha, desejavam que houvesse dois reis em Babil&ocirc;nia.<br \/>\n      Enfim, cansados ambos cavalos e r&ocirc;tas as duas lan&ccedil;as, Zadig<br \/>\n      usou de um expediente, Passa por tr&aacute;s do pr&iacute;ncipe azul, salta-lhe<br \/>\n      &agrave; garupa, toma-o pela cintura, lan&ccedil;a-o por terra, monta na<br \/>\n      sela em seu lugar e caracoleia em torno de Otame estendido na arena. Todo<br \/>\n      anfiteatro brada: &#8220;Vit&oacute;ria ao cavaleiro branco!&#8221; Otame<br \/>\n      indignado, ergue-se, puxa da espada; Zadig apeia, de sabre em punho. Ei-los<br \/>\n      ambos na arena, empenhados em novo combate, em que vencem alternadamente<br \/>\n      a agilidade e a for&ccedil;a. As plumas dos capacetes, os pregos dos bra&ccedil;ais,<br \/>\n      as malhas das armaduras saltam ao longe, sob mil golpes precipitados. Golpeiam<br \/>\n      de ponta e de fio, &agrave; direita, &agrave; esquerda, na cabe&ccedil;a,<br \/>\n      peito; recuam, avan&ccedil;am, medem-se, chocam-se, enla&ccedil;am enroscam-se<br \/>\n      como serpentes, atracam-se como le&otilde;es; a todo instante saltam chispas<br \/>\n      dos golpes m&ugrave;tuamente vibrados. Enfim Zadig, refazendo-se um momento,<br \/>\n      estaca, faz finta, derruba Otame, desarma-o. E Otame exclama: &#8220;&Oacute;<br \/>\n      cavaleiro branco! &eacute;s tu que deves reinar em Babil&ocirc;nia&#8221;.<br \/>\n      A rainha estava no auge da alegria. Conduziram o cavaleiro azul o cavaleiro<br \/>\n      branco a seus respectivos alojamentos, bem a todos os outros, conforme a<br \/>\n      lei. Mudos vieram servi-los e trazer-lhes alimento. Logo se v&ecirc; que<br \/>\n      foi o pequeno mudo da rainha quem atendeu a Zadig. Em seguida, deixaram-nos<br \/>\n      dormir a s&oacute;s at&eacute; o dia seguinte de manh&atilde;, quando o<br \/>\n      vencedor devia levar sua divisa ao grande mago, para confer&iacute;-la dar-se<br \/>\n      a conhecer.<\/p>\n<p>Zadig dormiu bem, apesar de enamorado, t&atilde;o exausto se achava. Itobad<br \/>\n      que pousava no alojamento pr&oacute;ximo, n&atilde;o pregou olho Ergueu-se<br \/>\n      durante a noite penetrou no quarto do vizinho, tomou as armas, brancas de<br \/>\n      Zadig, juntamente com a sua divisa, e p&ocirc;s sua armadura verde no lugar<br \/>\n      da do outro. Ao amanhecer, compareceu orgulhosamente perante o grande mago,<br \/>\n      declarando que um homem como ele era o vencedor. Ningu&eacute;m o esperava;<br \/>\n      mas foi proclamado como tal enquanto Zadig ainda dormia. Astart&eacute;ia,<br \/>\n      surpresa, e com o dezesp&ecirc;ro no cora&ccedil;&atilde;o, regressou a<br \/>\n      Babil&ocirc;nia. J&aacute; estava quase vazio o anfiteatro quando Zadig<br \/>\n      despertou. Procurou as suas armas, e s&oacute; encontrou aquela armadura<br \/>\n      verde. Viu-se obrigado a us&aacute;-la, pois n&atilde;o tinha mais nada<br \/>\n      junto a si. At&ocirc;nito e indignado, veste-a com furor e avan&ccedil;a,<br \/>\n      em tal equipagem.<\/p>\n<p>Todos os que ainda se achavam no teatro e no circo receberam-no com assuadas.<br \/>\n      Rodeavam-no; insultavam-no em cara. Jamais homem algum experimentou t&atilde;o<br \/>\n      humilhantes mortifica&ccedil;&otilde;es. Perdeu ent&atilde;o a paci&ecirc;ncia;<br \/>\n      dispersou a golpes de sabre o populacho que ousava ultraj&aacute;-lo; mas<br \/>\n      n&atilde;o sabia que partido tomar. N&atilde;o podia avistar-se com a rainha;<br \/>\n      n&atilde;o podia reclamar a armadura branca que esta lhe enviara: seria<br \/>\n      compromet&ecirc;-la. Assim, enquanto se achava ela abismada na dor, estava<br \/>\n      Zadig cheio de furor e inquieta&ccedil;&atilde;o. Passeava ele &agrave;s<br \/>\n      margens do Eufrates, persuadido de que a sua estrela o destinava a ser irremissivelmente<br \/>\n      infeliz, e repassando no esp&iacute;rito todas as suas desgra&ccedil;as,<br \/>\n      desde a aventura da mulher que odiava os caolhos at&eacute; a da sua armadura.<br \/>\n      &#8220;Eis em que deu &#8212; dizia ele consigo &#8212; ter-me acordado<br \/>\n      tarde; se houvesse dormido menos, seria rei de Babil&ocirc;nia e possuiria<br \/>\n      Astart&eacute;ia. As ci&ecirc;ncias, o car&aacute;ter, a coragem; s&oacute;<br \/>\n      serviram, pois, para meu infort&uacute;nio.&#8221; Escapou-lhe enfim murmurar<br \/>\n      contra a Provid&ecirc;ncia, e foi tentado a crer que tudo era governado<br \/>\n      por um destino cruel que oprimia os bons e fazia prosperarem os cavaleiros<br \/>\n      verdes. Um de seus pesares era carregar aquela armadura verde que lhe atra&iacute;ra<br \/>\n      tamanho esc&aacute;rnio.<\/p>\n<p>Vendeu-a barato a um comerciante que passava e comprou-lhe uma t&uacute;nica<br \/>\n      e carapu&ccedil;a. Nessa indument&aacute;ria, passeava &agrave; margem do<br \/>\n      Eufrates, cheio de desespero, e acusando em segredo a Provid&ecirc;ncia,<br \/>\n      que n&atilde;o deixava de o perseguir.<\/p>\n<h4><a name=\"18\">XVIII &#8211; O EREMITA<\/a><\/h4>\n<p>Assim caminhando, encontrou um eremita, cuja vener&aacute;vel barba branca<br \/>\n      lhe tombava at&eacute; a cintura. Tinha na m&atilde;o um livro que lia atentamente.<br \/>\n      Zadig parou e fez-lhe uma profunda rever&ecirc;ncia. O eremita saudou-o<br \/>\n      com um ar t&atilde;o nobre e t&atilde;o bondoso, que Zadig teve curiosidade<br \/>\n      de conversar com ele. Perguntou-lhe que livro lia.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o livro dos destinos &#8212; disse o eremita.- Quer ler<br \/>\n      um pouco?<\/p>\n<p>P&ocirc;s o livro nas m&atilde;os de Zadig que, embora versado em v&aacute;rias<br \/>\n      l&iacute;nguas, n&atilde;o p&ocirc;de decifrar-lhe uma &uacute;nica letra.<br \/>\n      Isso ainda mais lhe aumentou a curiosidade.<\/p>\n<p>&#8212; Pareces bastante aborrecido &#8212; disse-lhe o anci&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Motivos n&atilde;o me faltam! &#8212; exclamou Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; Se me permites que te acompanhe &#8212; tornou o velho, &#8212;<br \/>\n      talvez eu te possa ser &uacute;til: tenho &agrave;s vezes derramado sentimentos<br \/>\n      de consola&ccedil;&atilde;o na alma dos infelizes.<\/p>\n<p>Zadig sentiu-se tomado de respeito ante o ar, as barbas e o livro do eremita.<br \/>\n      Achou-lhe superiores luzes na conversa&ccedil;&atilde;o. Falava o eremita<br \/>\n      do destino, da justi&ccedil;a, da moral do soberano bem, da fraqueza humana,<br \/>\n      das virtudes e dos v&iacute;cios, com t&atilde;o viva e tocante eloq&uuml;&ecirc;ncia,<br \/>\n      que Zadig sentiu-se atra&iacute;do para ele por invenc&iacute;vel encanto.<br \/>\n      Pediu-lhe com insist&ecirc;ncia que n&atilde;o o deixasse at&eacute; chegarem<br \/>\n      a Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<p>&#8212; O mesmo favor te pe&ccedil;o &#8212; disse-lhe o velho. &#8212;<br \/>\n      Jura, por Orosmade, que n&atilde;o te separar&aacute;s de mim, por mais<br \/>\n      estranhos que te pare&ccedil;am os meus atos.<\/p>\n<p>Zadig jurou, e partiram juntos.<\/p>\n<p>Chegaram os dois viajantes a um soberbo castelo. O eremita pediu hospitalidade<br \/>\n      para si e para o jovem que o acompanhava. O porteiro, que se poderia tomar<br \/>\n      por um gr&atilde;o-senhor, os introduziu com uma esp&eacute;cie de desdenhosa<br \/>\n      complac&ecirc;ncia. Foram apresentados ao criado-mor, que lhes mostrou os<br \/>\n      magn&iacute;ficos apartamentos do amo. Permitiram-lhes que sentassem &agrave;<br \/>\n      extremidade da mesa deste, sem que o senhor do castelo se dignasse honr&aacute;-los<br \/>\n      com um olhar, durante a ceia; mas foram servidos, como os outros, com refinamento<br \/>\n      e profus&atilde;o. Fizeram com que se lavassem em uma bacia de ouro, guarnecida<br \/>\n      de esmeraldas e rubis. Levaram-nos a deitar-se em um belo apartamento, e<br \/>\n      no dia seguinte um criado entregou a cada qual uma moeda de ouro; ap&oacute;s<br \/>\n      o que, foram despedidos.<\/p>\n<p>&#8212; O dono da casa &#8212; disse Zadig em caminho &#8212; parece-me<br \/>\n      um homem generoso, embora um pouco altivo; exerce nobremente a hospitalidade.<\/p>\n<p>Dizendo tais palavras, percebeu que uma esp&eacute;cie de b&ocirc;lsa muito<br \/>\n      grande que usava o eremita parecia distendida e inflada viu ali a bacia<br \/>\n      de ouro guarnecida de pedrarias, que este havia furtado. N&atilde;o ousou<br \/>\n      dizer coisa alguma; mas sentia-se tomado da estranha surpresa.<\/p>\n<p>Pelo meio-dia, o eremita apresentou-se &agrave; poria de uma casa muito<br \/>\n      pequena onde morava um rico avarento; pediu hospitalidade por algumas horas.<br \/>\n      Um velho criado mal vestido recebeu-o rudemente e fez entrar o eremita e<br \/>\n      Zadig na estrebaria, onde lhes serviram algumas azeitonas podres, p&atilde;o<br \/>\n      duro e cerveja estragada. O eremita bebeu e comeu com um ar t&atilde;o contente<br \/>\n      como na v&eacute;spera. Depois, dirigindo-se ao velho criado, que os observava<br \/>\n      para ver se n&atilde;o roubavam nada e os instava a partirem, deu-lhe as<br \/>\n      duas moedas de ouro que recebera de manh&atilde; e agradeceu-lhe muito as<br \/>\n      suas aten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; Pe&ccedil;o-lhe acrescentou &#8212; que me leve &agrave; presen&ccedil;a<br \/>\n      de seu amo.<\/p>\n<p>O criado, at&ocirc;nito, introduziu os dois viajantes.<\/p>\n<p>&#8212; Magn&iacute;fico senhor &#8212; disse o eremita, n&atilde;o posso<br \/>\n      deixar de agradecer-vos humildemente a nobre maneira como nos recebestes:<br \/>\n      dignai-vos aceitar esta bacia de ouro como modesto penhor de minha gratid&atilde;o.<\/p>\n<p>O avarento quase caiu para tr&aacute;s. Sem lhe dar tempo para que voltasse<br \/>\n      a si do assombro, o eremita partiu &agrave;s pressas com o seu jovem companheiro.<\/p>\n<p>&#8212; Senhor, que vejo eu? &#8212; diz-lhe Zadig. &#8212; N&atilde;o<br \/>\n      vos pareceis em nada com os outros homens, roubais uma bacia de ouro guarnecida<br \/>\n      de pedrarias a um senhor que vos recebe magnificamente e a presenteais a<br \/>\n      um avarento que vos trata com indignidade.<\/p>\n<p>&#8212; Meu filho &#8212; respondeu o velho, &#8212; esse homem magn&iacute;fico,<br \/>\n      que s&oacute; recebe os estranhos por vaidade e para faz&ecirc;-los admirar<br \/>\n      suas riquezas, se tornar&aacute; mais sensato; &#8212; o avarento aprender&aacute;<br \/>\n      a praticar a hospitalidade: n&atilde;o te espantes de nada, e segue-me.<\/p>\n<p>Zadig n&atilde;o sabia ainda se tratava com o mais louco ou o mais s&aacute;bio<br \/>\n      dos homens; mas o eremita falava com tanta autoridade que Zadig, ligado<br \/>\n      ali&aacute;s pelo juramento, n&atilde;o p&ocirc;de deixar de segui-lo.<\/p>\n<p>Chegaram de noite a uma casa de aspecto agrad&aacute;vel mas simples, onde<br \/>\n      nada denunciava prodigalidade ou avareza. O dono era um fil&oacute;sofo<br \/>\n      retirado do mundo, que cultivava em paz a sabedoria e a virtude, e que no<br \/>\n      entanto n&atilde;o se aborrecia. Aprouvera-lhe construir aquele retiro,<br \/>\n      onde recebia os visitantes com uma nobreza que nada tinha de ostenta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n      Foi em pessoa ao encontro dos dois viajantes, a quem primeiro fez repousar<br \/>\n      num c&ocirc;modo apartamento. Algum tempo depois veio convid&aacute;-los<br \/>\n      para uma refei&ccedil;&atilde;o sadia e variada, durante a qual se referiu<br \/>\n      discretamente &agrave;s &uacute;ltimas revolu&ccedil;&otilde;es de Babil&ocirc;nia.<br \/>\n      Pareceu sinceramente devotado &agrave; rainha e mostrou-se desejoso de que<br \/>\n      Zadig tivesse comparecido ao torneio para disputar a coroa. &#8220;Mas os<br \/>\n      homens &#8212; acrescentou &#8212; n&atilde;o merecem um rei como Zadig&#8221;.<br \/>\n      Este enrubescia e sentia redobrarem seus sofrimentos. Convieram, na conversa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      em que as coisas deste mundo n&atilde;o marchavam sempre ao agrado dos mais<br \/>\n      sensatos. O eremita sustentava que n&atilde;o se conheciam os caminhos da<br \/>\n      Provid&ecirc;ncia, e que os homens faziam mal em julgar um todo de que s&oacute;<br \/>\n      percebiam a mais &iacute;nfima parte. Falaram em seguida sobre as paix&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! como s&atilde;o funestas! dizia Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; S&atilde;o como os ventos que enfunam as velas do barco &#8212;<br \/>\n      retrucou o eremita: &#8212; submergem-no &agrave;s vezes; mas, sem o seu<br \/>\n      aux&iacute;lio, o barco n&atilde;o poderia vogar. A b&iacute;lis nos torna<br \/>\n      col&eacute;ricos e doentes; mas, sem a b&iacute;lis, n&atilde;o poder&iacute;amos<br \/>\n      viver. Tudo &eacute; perigoso neste mundo, e tudo &eacute; necess&aacute;rio.<\/p>\n<p>Falou-se do prazer, e o eremita provou que &eacute; um presente da divindade:<br \/>\n      &#8220;Pois &#8212; disse ele o homem n&atilde;o pode dar a si pr&oacute;prio<br \/>\n      nem sensa&ccedil;&otilde;es nem id&eacute;ias, recebe tudo; a dor e o prazer<br \/>\n      lhe v&ecirc;m de fora, como a sua exist&ecirc;ncia.&#8221;<\/p>\n<p>Zadig admirava-se de como um homem que fizera coisas t&atilde;o extravagantes<br \/>\n      podia raciocinar t&atilde;o bem. Enfim, depois de uma palestra t&atilde;o<br \/>\n      instrutiva qu&atilde;o agrad&aacute;vel, o propriet&aacute;rio conduziu<br \/>\n      os h&oacute;spedes ao quarto, bendizendo o C&eacute;u por lhe haver enviado<br \/>\n      dois homens t&atilde;o s&aacute;bios e virtuosos. Ofereceu-lhes dinheiro<br \/>\n      de um modo natural e nobre que n&atilde;o podia melindrar. O eremita recusou-o<br \/>\n      e despediu-se, dizendo que partiria para Babil&ocirc;nia antes do raiar<br \/>\n      do dia. A separa&ccedil;&atilde;o foi comovente; Zadig, sobretudo, sentia-se<br \/>\n      cheio de estima e simpatia por aquele homem t&atilde;o am&aacute;vel.<\/p>\n<p>Quando o eremita e ele se viram a s&oacute;s no apartamento, fizeram por<br \/>\n      muito tempo o elogio de seu hospedeiro. O velho, alta madrugada, despertou<br \/>\n      Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; Temos de partir &#8212; disse ele. &#8212; Mas, enquanto todos<br \/>\n      ainda est&atilde;o dormindo, quero deixar a esse homem um testemunho de<br \/>\n      minha estima e afei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Dizendo tais palavras, tomou um archote e ateou fogo &agrave; casa. Zadig,<br \/>\n      horrorizado, p&ocirc;s-se aos gritos, e quis impedi-lo de cometer t&atilde;o<br \/>\n      revoltante a&ccedil;&atilde;o. O eremita arrastava-o com uma for&ccedil;a<br \/>\n      superior; a casa estava em chamas. Quando j&aacute; se achava bastante longe<br \/>\n      com o companheiro, o velho p&ocirc;s-se a contemplar tranq&uuml;ilamente<br \/>\n      o inc&ecirc;ndio. &#8220;Gra&ccedil;as a Deus! &#8212; disse ele. &#8212;<br \/>\n      Eis a casa do nosso querido hospedeiro completamente destru&iacute;da! Que<br \/>\n      homem feliz!&#8221; A estas palavras, Zadig viu-se tentado, a um tempo,<br \/>\n      a romper em gargalhadas, a encher de inj&uacute;rias o vener&aacute;vel<br \/>\n      anci&atilde;o a bater-lhe, e a fugir, mas n&atilde;o fez nada disso e, sempre<br \/>\n      dominado pela ascend&ecirc;ncia do eremita, seguiu-o, a contragosto, at&eacute;<br \/>\n      a pr&oacute;xima pousada.<\/p>\n<p>Era em casa de uma vi&uacute;va caritativa e virtuosa que tinha um sobrinho<br \/>\n      de catorze anos, cheio de atrativos e que era a sua &uacute;nica esperan&ccedil;a.<br \/>\n      Fez, o melhor poss&iacute;vel, as honras da casa. Na manh&atilde; seguinte,<br \/>\n      ordenou ao sobrinho que acompanhasse os viajantes at&eacute; uma ponte que,<br \/>\n      estando meio arruinada, se tornara de passagem perigosa. O jovem, sol&iacute;cito,<br \/>\n      marchava &agrave; frente deles. Ao chegarem &agrave; ponte, disse-lhe o<br \/>\n      eremita:<\/p>\n<p>&#8212; Vem c&aacute;, devo dar uma amostra de gratid&atilde;o &agrave;<br \/>\n      tua tia. Toma-o ent&atilde;o pelos cabelos e arremessa-o ao rio. O menino<br \/>\n      tomba, reaparece um instante &agrave; tona d&aacute;gua, e &eacute; engolido<br \/>\n      pela torrente.<\/p>\n<p>&#8212; O monstro! &oacute; celerado! &#8212; bradou Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; Tu me havias prometido mais paci&ecirc;ncia &#8212; disse-lhe o<br \/>\n      eremita, interrompendo-o. &#8212; Pois fica sabendo que, debaixo das ru&iacute;nas<br \/>\n      dessa casa que a Provid&ecirc;ncia incendiou, o propriet&aacute;rio encontrou<br \/>\n      um tesouro imenso; e &eacute; bom que saibas que esse jovem, a quem a Provid&ecirc;ncia<br \/>\n      torceu o pesco&ccedil;o, teria assassinado a sua tia dentro em um ano, e<br \/>\n      a ti daqui a dois anos.<\/p>\n<p>&#8212; Quem te disse tal coisa, b&aacute;rbaro? gritou Zadig. &#8212;<br \/>\n      E, mesmo que houvesses lido esse acontecimento no teu livro dos destinos,<br \/>\n      acaso te ser&aacute; permitido afogar uma crian&ccedil;a que n&atilde;o<br \/>\n      te fez mal nenhum?<\/p>\n<p>Enquanto assim falava, Zadig percebeu que o velho j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n      tinha barba, que o seu rosto adquiria os tra&ccedil;os da juventude. Desapareceu-lhe<br \/>\n      o h&aacute;bito de eremita; quatro belas asas recobriam um corpo majestoso<br \/>\n      e resplandecente de luz.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; enviado do C&eacute;u! &Oacute; anjo divino! exclamou<br \/>\n      Zadig, prosternando-se. &#8212; Desceste ent&atilde;o do emp&iacute;reo<br \/>\n      para ensinar um fr&aacute;gil mortal a submeter-se &agrave;s ordens eternas?<\/p>\n<p>&#8212; Os homens &#8212; disse o anjo Jesrad &#8212; julgam tudo sem nada<br \/>\n      conhecer: eras tu, dentre todos os homens, quem mais merecia ser esclarecido.<\/p>\n<p>Zadig pediu permiss&atilde;o para falar.<\/p>\n<p>&#8212; Desconfio de mim pr&oacute;prio &#8212; disse ele, mas ousarei<br \/>\n      pedir-te que me esclare&ccedil;as uma d&uacute;vida: n&atilde;o seria melhor<br \/>\n      corrigir esse menino, e torn&aacute;-lo virtuoso, em vez de afog&aacute;-lo<\/p>\n<p>Se ele tivesse sido virtuoso, e vivido &#8212; tornou Jesrad, &#8212; a<br \/>\n      seu destino seria o de ser assassinado com a mulher que deveria desposar,<br \/>\n      e com o filho que deveriam ter<\/p>\n<p>&#8212; Como! &#8212; exclamou Zadig. &#8212; &Eacute; ent&atilde;o necess&aacute;rio<br \/>\n      que haja crimes e males, e que os males tombem sobre as pessoas de bem?<\/p>\n<p>&#8212; Os maus &#8212; respondeu Jesrad &#8212; s&atilde;o sempre infelizes:<br \/>\n      servem para experimentar um pequeno n&uacute;mero de justos espalhados sobre<br \/>\n      a terra, e n&atilde;o h&aacute; mal de que n&atilde;o provenha um bem.<\/p>\n<p>&#8212; Mas &#8212; disse Zadig &#8212; e se s&oacute; houvesse bem, e<br \/>\n      nenhum mal?<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o &#8212; replicou Jesrad &#8212; este mundo seria outro;<br \/>\n      o encadeamento dos fatos obedeceria a uma outra ordem de sabedoria; e essa<br \/>\n      outra ordem, que seria perfeita, s&oacute; pode existir na morada eterna<br \/>\n      do Ser Supremo, de quem o mal n&atilde;o pode aproximar-se. Criou Ele milh&otilde;es<br \/>\n      de mundos, nenhum dos quais se pode assemelhar ao outro. Essa imensa variedade<br \/>\n      &eacute; um atributo de seu poder imenso. N&atilde;o h&aacute; nem duas<br \/>\n      folhas de &aacute;rvore na terra, nem dois globos nos campos infinitos do<br \/>\n      c&eacute;u, que sejam semelhantes; e tudo o que v&ecirc;s sobre o pequeno<br \/>\n      &aacute;tomo em que nasceste devia estar no seu lugar e no seu tempo fixo,<br \/>\n      conforme as ordens imut&aacute;veis daquele que tudo abrange. Os homens<br \/>\n      pensam que esse menino que acaba de perecer caiu no rio por acaso: tudo<br \/>\n      &eacute; prova, ou puni&ccedil;&atilde;o, ou recompensa, ou provid&ecirc;ncia.<br \/>\n      Lembra-te daquele pescador que se julgava o mais infeliz dos homens. Orosmade<br \/>\n      te enviou para lhe mudar o destino. Fr&aacute;gil mortal, cessa de arguir<br \/>\n      contra aquilo que cumpre adorar.<\/p>\n<p>&#8212; Mas &#8212; disse Zadig&#8230; E, enquanto dizia mas, j&aacute; o anjo<br \/>\n      al&ccedil;ava o v&ocirc;o para a &#8212; d&eacute;cima esfera. Zadig, de<br \/>\n      joelhos, adorou a Provid&ecirc;ncia, e submeteu-se. O anjo gritou-lhe das<br \/>\n      alturas:<\/p>\n<p>&#8212; Segue para Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<h4><a name=\"19\">XIX &#8211; OS ENIGMAS<\/a><\/h4>\n<p>Zadig, fora de si, e como um homem a cujos p&eacute;s houvesse tombado<br \/>\n      um raio, caminhava ao acaso. Entrou em Babil&ocirc;nia no dia em que aqueles<br \/>\n      com quem combatera se achavam j&aacute; reunidos no vest&iacute;bulo do<br \/>\n      pal&aacute;cio, para decifrar os enigmas e responder &agrave;s perguntas<br \/>\n      do grande mago. Todos cavaleiros tinham chegado, exceto o da armadura verde.<br \/>\n      Logo que Zadig apareceu na cidade, o povo se reuniu em torno dele; os olhos<br \/>\n      n&atilde;o se saciavam de o ver, as bocas de o aben&ccedil;oar, os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n      de desejar-lhe o imp&eacute;rio. O invejoso o viu passar, estremeceu e desviou-se;<br \/>\n      o povo o levou at&eacute; o local da assembl&eacute;ia. A rainha, a quem<br \/>\n      haviam comunicado a sua vinda, sentia-se agitada de temores e esperan&ccedil;as;<br \/>\n      a inquieta&ccedil;&atilde;o a devorava: n&atilde;o podia compreender nem<br \/>\n      como Zadig estava sem armas, nem como Itobad trazia a armadura branca. &Aacute;<br \/>\n      vista de Zadig, elevou-se um confuso murm&uacute;rio. Estavam surpresos<br \/>\n      e encantados de tornar a v&ecirc;-lo; mas s&oacute; aos cavaleiros que haviam<br \/>\n      combatido era permitido ingresso na assembl&eacute;ia.<\/p>\n<p>&#8212; Combati como qualquer outro &#8212; declarou ele. &#8212; Mas algu&eacute;m<br \/>\n      est&aacute; usando aqui as minhas armas; e, enquanto aguardo a honra de<br \/>\n      o provar, pe&ccedil;o licen&ccedil;a para apresentar-me no concurso de enigmas.<\/p>\n<p>Puseram a proposta em vota&ccedil;&atilde;o: t&atilde;o arraigada estava<br \/>\n      nos esp&iacute;ritos a sua reputa&ccedil;&atilde;o de probidade, que ningu&eacute;m<br \/>\n      hesitou em admiti-lo.<\/p>\n<p>O grande mago prop&otilde;e primeiro a seguinte quest&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Qual &eacute;, de todas as coisas do mundo, a mais longa e a mais<br \/>\n      curta, a mais r&aacute;pida e a mais lenta, a mais divis&iacute;vel e a<br \/>\n      mais extensa, a mais negligenciada e a mais irreparavelmente lamentada,<br \/>\n      que devora tudo o que &eacute; pequeno e que vivifica tudo o que &eacute;<br \/>\n      grande?<\/p>\n<p>Cabia a Itobad falar. Respondeu que um homem como ele nada entendia de<br \/>\n      enigmas e que lhe bastava ter batido os advers&aacute;rios a lan&ccedil;a&ccedil;os.<br \/>\n      Disseram uns que a chave do enigma era a fortuna, outros a terra, outros<br \/>\n      a luz. Zadig disse que era o tempo. &#8220;Nada &eacute; mais longo &#8212;<br \/>\n      acrescentou ele, &#8212; pois que &eacute; a medida da eternidade; nada<br \/>\n      &eacute; mais curto, pois que falta a todos os nossos projetos; nada mais<br \/>\n      lento para quem espera; nada mais r&aacute;pido para quem desfruta a vida;<br \/>\n      estende-se, em grandeza, at&eacute; o infinito; divide-se, at&eacute; o<br \/>\n      infinito, em pequenez; todos os homens o negligenciam, todos lhe lamentam<br \/>\n      a perda; nada se faz sem ele, faz esquecer tudo o que &eacute; ind&iacute;gno<br \/>\n      da posteridade, e imortaliza as grandes coisas&#8221;. A assembl&eacute;ia<br \/>\n      deu raz&atilde;o a Zadig.<\/p>\n<p>Perguntaram em seguida: &#8220;Qual &eacute; a coisa que se recebe sem<br \/>\n      agradecer, que se desfruta sem saber como, que damos aos outros quando n&atilde;o<br \/>\n      sabemos onde &eacute; que estamos, e que perdemos sem o perceber?&#8221;<\/p>\n<p>Cada qual deu a sua explica&ccedil;&atilde;o. Apenas Zadig adivinhou que<br \/>\n      se tratava da vida. Resolveu todos os outros enigmas com igual facilidade.<br \/>\n      Itobad dizia sempre que nada era mais f&aacute;cil e que ele tamb&eacute;m<br \/>\n      o descobriria, se se tivesse dado ao trabalho. Propuseram quest&otilde;es<br \/>\n      sobre a justi&ccedil;a, o soberano bem, a arte de reinar. As respostas de<br \/>\n      Zadig foram julgadas as mais s&oacute;lidas. &#8220;&Eacute; pena &#8212;<br \/>\n      diziam &#8212; que t&atilde;o bom esp&iacute;rito seja t&atilde;o mau cavaleiro&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; Ilustres senhores &#8212; declara Zadig, &#8212; tive a honra de<br \/>\n      vencer na li&ccedil;a. &Eacute; a mim que pertence a armadura branca. O<br \/>\n      senhor Itobad apoderou-se dela durante o meu sono: com certeza julgou que<br \/>\n      lhe sentaria mais que a verde&#8230; Estou disposto a provar perante todos,<br \/>\n      com esta t&uacute;nica e esta espada, contra toda essa armadura branca que<br \/>\n      ele me tomou, que fui eu que tive a honra de vencer o bravo Otame.<\/p>\n<p>Itobad aceitou o desafio com a maior confian&ccedil;a. N&atilde;o duvidava<br \/>\n      que, estando de capacete, coura&ccedil;a e bra&ccedil;ais, facilmente venceria<br \/>\n      a um gal&atilde; de camisola e barrete de dormir. Zadig puxou da espada,<br \/>\n      saudando a rainha, que o contemplava cheia de alegria e temor, Itobad puxou<br \/>\n      a sua, sem saudar ningu&eacute;m. Avan&ccedil;ou para Zadig como homem que<br \/>\n      nada tivesse a temer. Estava prestes a lhe fender a cabe&ccedil;a. Zadig<br \/>\n      soube aparar o golpe, opondo o que se chama o forte da espada ao fraco do<br \/>\n      advers&aacute;rio, de modo que a espada de Itobad se rompeu. Ent&atilde;o<br \/>\n      Zadig enla&ccedil;ando o inimigo, derrubou-o por terra; e, colocando a ponta<br \/>\n      da espada na frincha da coura&ccedil;a, disse-lhe: &#8220;Deixa-me desarmar-te,<br \/>\n      ou eu te mato&#8221;. Itobad, sempre surpreso das desgra&ccedil;as que aconteciam<br \/>\n      a um homem como ele, deixou que Zadig lhe tirasse tranq&uuml;ilamente o<br \/>\n      magn&iacute;fico capacete, a soberba coura&ccedil;a, os belos bra&ccedil;ais,<br \/>\n      os brilhantes coxotes. Zadig os vestiu e, assim equipado, correu a lan&ccedil;ar-se<br \/>\n      aos joelhos de Astart&eacute;ia. Cador provou facilmente que a armadura<br \/>\n      pertencia :a Zadig. Foi proclamado rei por assentimento de todos, e sobretudo<br \/>\n      de Astart&eacute;ia, que, ap&oacute;s tantas adversidades, gozava da do&ccedil;ura<br \/>\n      de ver o seu enamorado digno, perante o universo, de ser seu esposo. Itobad<br \/>\n      foi fazer-se chamar de senhor em sua casa. Zadig foi rei, e rei feliz. Tinha<br \/>\n      presente ao esp&iacute;rito o que lhe dissera o anjo Jesrad. Lembrava-se<br \/>\n      at&eacute; do gr&atilde;o de areia convertido em diamante. A rainha e ele<br \/>\n      adoraram a Provid&ecirc;ncia Zadig deixou a bela caprichosa, Missuf, correr<br \/>\n      mundo. Mandou chamar o salteador Arbogad, a quem confiou um honroso p&ocirc;sto<br \/>\n      no ex&eacute;rcito, com a promessa de elev&aacute;-lo &agrave;s mais altas<br \/>\n      dignidades se se comportasse como leg&iacute;timo guerreiro, e de o enforcar<br \/>\n      se se entregasse &agrave;s atividades de salteador.<\/p>\n<p>Setoc foi chamado dos confins da Ar&aacute;bia, com a bela Almona, para<br \/>\n      dirigir o com&eacute;rcio babil&ocirc;nio. Cador obteve a posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      e estima que mereciam seus servi&ccedil;os; era o amigo do rei; e este foi<br \/>\n      o &uacute;nico monarca da terra que teve um amigo. O pequeno mudo n&atilde;o<br \/>\n      ficou no esquecimento. O pescador ganhou uma bela casa. Orcan foi condenado<br \/>\n      a pagar-lhe uma grande soma e a devolver-lhe a mulher; mas o pescador, que<br \/>\n      ganhara ju&iacute;zo s&oacute; ficou com o dinheiro.<\/p>\n<p>Nem a bela Semira se consolava de haver acreditado que Zadig era caolho,<br \/>\n      nem Azora cessava de chorar por lhe haver querido cortar o nariz. Zadig<br \/>\n      abrandou o pesar de ambas com uns bons presentes. O invejoso morreu de raiva<br \/>\n      e de vexame. O imp&eacute;rio gozou da paz, da gl&oacute;ria e da abund&acirc;ncia;<br \/>\n      foi o mais belo s&eacute;culo da terra: era esta governada pela justi&ccedil;a<br \/>\n      e o amor. Bendiziam a Zadig, e Zadig bendizia ao C&eacute;u.<\/p>\n<h4><a name=\"20\">XX &#8211; A DAN&Ccedil;A<\/a><\/h4>\n<p>Setoc devia ir para assuntos comerciais, &agrave; ilha de Serendib; mas<br \/>\n      o primeiro m&ecirc;s de seu casamento, que &eacute;, como se sabe, a lua<br \/>\n      de mel, n&atilde;o lhe permitia deixar a esposa, nem supor que jamais pudesse<br \/>\n      deix&aacute;-la: pediu a Zadig que fizesse a viagem em seu lugar. &#8220;Ai!<br \/>\n      &#8212; suspirava este. &#8212; Devo ainda colocar maior dist&acirc;ncia<br \/>\n      entre mim e a bela Astart&eacute;ia?! Mas estou na obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      de servir a meus benfeitores&#8221;. Assim disse, chorou e partiu.<\/p>\n<p>N&atilde;o demorou muito em Serendib sem que fosse considerado um homem<br \/>\n      extraordin&aacute;rio. Tornou-se &aacute;rbitro. de todas as quest&otilde;es<br \/>\n      entre os negociantes, amigo dos s&aacute;bios e conselheiro do pequeno n&uacute;mero<br \/>\n      de pessoas que ouvem conselhos. O rei manifestou desejos de o ver e ouvir.<br \/>\n      Reconheceu logo o valor de Zadig; confiou na sua sabedoria e fez dele seu<br \/>\n      amigo. A familiaridade e estima do rei fizeram-no tremer. Dia e noite recordava<br \/>\n      os males que lhe haviam acarretado as boas gra&ccedil;as de Moabdar. &#8220;Se<br \/>\n      agrado ao rei &#8212; pensava ele, n&atilde;o estarei perdido?&#8221; N&atilde;o<br \/>\n      podia, contudo, furtar-se &agrave;s gentilezas da Sua Majestade: pois cumpre<br \/>\n      confessar que Nabussan, rei de Serendib, filho de Nussanab, filho de Nabassun,<br \/>\n      filho de Sanbusn&aacute;, era um dos melhores pr&iacute;ncipes da &Aacute;sia<br \/>\n      e que, quando se lhe falava, tornava-se dif&iacute;cil deixar de am&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Esse bom pr&iacute;ncipe era sempre louvado, enganado e roubado; esfor&ccedil;avam-se,<br \/>\n      &agrave; porfia, a ver quem mais lhe pilhava os tesouros. O recebedor geral<br \/>\n      da ilha de Serendib dava o exemplo, seguido fielmente pelos outros. O rei<br \/>\n      sabia-o: por v&aacute;rias vezes mudara de tesoureiro; mas n&atilde;o pudera<br \/>\n      mudar o costume estabelecido de dividir os proventos do rei em duas partes,<br \/>\n      a menor das quais cabia sempre &agrave; Sua Majestade, e a maior aos administradores.<\/p>\n<p>O rei Nabussan confiou seus cuidados ao s&aacute;bio Zadig.<\/p>\n<p>&#8212; Tu que sabes t&atilde;o belas coisas &#8212; disse-lhe ele, &#8212;<br \/>\n      n&atilde;o saberias encontrar-me um tesoureiro que n&atilde;o roube?<\/p>\n<p>&#8212; Sem d&uacute;vida &#8212; respondeu Zadig. &#8212; Sei um meio<br \/>\n      infal&iacute;vel de conseguir-lhe um homem de m&atilde;os limpas.<\/p>\n<p>O rei, encantado, perguntou-lhe, abra&ccedil;ando-o, como deveria proceder.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; s&oacute; fazer dan&ccedil;ar todos aqueles que se candidatem<br \/>\n      &agrave; dignidade de tesoureiro, e aquele que dan&ccedil;ar com mais leveza<br \/>\n      ser&aacute; infalivelmente o homem mais honrado.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s zombando &#8212; disse o rei. &#8212; Eis um modo<br \/>\n      bastante esquisito de escolher um tesoureiro&#8230; Como? Julgas ent&atilde;o<br \/>\n      que aquele que fizer melhor um entrechat ser&aacute; o financista mais probo<br \/>\n      e mais h&aacute;bil?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o garanto que seja o mais h&aacute;bil &#8212; retrucou<br \/>\n      Zadig, &#8212; mas asseguro que ser&aacute; indubitavelmente o mais honesto.<\/p>\n<p>Falava Zadig com tamanha seguran&ccedil;a que o rei o julgou possuidor<br \/>\n      de algum segredo sobrenatural para reconhecer os financistas.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me agrada o sobrenatural &#8212; disse Zadig, &#8212;<br \/>\n      sempre detestei as pessoas e livros m&aacute;gicos: se Vossa Majestade deixar-me<br \/>\n      fazer a prova que lhe proponho, h&aacute; de convencer-se de que o meu segredo<br \/>\n      &eacute; a coisa mais simples e mais f&aacute;cil deste mundo.<\/p>\n<p>Nabussan, rei de Serendib, ficou muito mais espantado de ouvir que esse<br \/>\n      segredo era simples do que se lho houvessem apresentado como um milagre.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bem &#8212; disse ele, &#8212; fase como bem entenderes.<\/p>\n<p>&#8212; Deixe o caso comigo &#8212; tornou Zadig &#8212; e Vossa Majestade<br \/>\n      ganhar&aacute; com essa experi&ecirc;ncia muito mais do que sup&otilde;e.<\/p>\n<p>No mesmo dia mandou afixar que todos os pretendentes ao cargo de recebedor-mor<br \/>\n      dos dinheiros de Sua Graciosa Majestade Nabussan, filho de Mussanab, deveriam<br \/>\n      apresentar-se, vestidos de seda leve, a 1a. da lua do crocodilo, na antec&acirc;mara<br \/>\n      do rei. Ali compareceram, em n&uacute;mero de sessenta e quatro. Tinham<br \/>\n      reunido rabequistas num sal&atilde;o vizinho; tudo achava pronto para o<br \/>\n      bailado; mas a porta desse sal&atilde;o estava fechada, e, para ali entrar,<br \/>\n      era preciso passar por uma pequena galeria bastante escura. Um guarda vinha<br \/>\n      buscar e introduzir cada candidato, um ap&oacute;s outro naquela passagem,<br \/>\n      onde o deixava s&ograve;zinho alguns minutos. O rei, que estava a par de<br \/>\n      tudo, expusera todos os seus tesouros na referida galeria. Depois que todos<br \/>\n      os pretendentes chegaram ao sal&atilde;o, Sua Majestade lhes ordenou que<br \/>\n      dan&ccedil;assem. Jamais se dan&ccedil;ou t&atilde;o pesadamente e com menos<br \/>\n      gra&ccedil;a; tinham todos a cabe&ccedil;a baixa, o busto encolhido, as<br \/>\n      m&atilde;os coladas ao corpo. &#8220;Que velhacos!&#8221; &#8212; dizia<br \/>\n      Zadig em voz baixa. Um s&oacute; dentre eles dan&ccedil;ava com agilidade,<br \/>\n      de cabe&ccedil;a alta, olhar seguro, bra&ccedil;os estendidos, corpo direito<br \/>\n      e jarretes firmes; &#8220;Ah! que homem honrado! que excelente homem!&#8221;<br \/>\n      &#8212; dizia Zadig. O rei abra&ccedil;ou aquele bom dan&ccedil;arino, proclamou-o<br \/>\n      tesoureiro, e todos os outros foram punidos e multados com a maior justi&ccedil;a<br \/>\n      do mundo: pois cada qual, durante o tempo em que estivera na galeria, atulhara<br \/>\n      os bolsos e mal podia andar. Muito vexado se sentiu o rei com a natureza<br \/>\n      humana pelo fato de haver, entre aqueles sessenta e quatro dan&ccedil;arimos,<br \/>\n      sessenta e tr&ecirc;s gatunos. A galeria escura foi chamada o corredor da<br \/>\n      tenta&ccedil;&atilde;o Se fosse na P&eacute;rsia, teriam empalado aqueles<br \/>\n      sessenta e tr&ecirc;s senhores; em outros pa&iacute;ses, formariam um tribunal<br \/>\n      de justi&ccedil;a que consumiria nas custas do processo o triplo do dinheiro<br \/>\n      roubado e que nada reporia nos cofres do rei; em outro reino, os sessenta<br \/>\n      e tr&ecirc;s se justificariam plenamente e fariam cair em descr&eacute;dito<br \/>\n      aquele dan&ccedil;arino t&atilde;o leviano: em Serendib, apenas foram condenados<br \/>\n      a aumentar o tesouro p&uacute;blico, pois Nabussan era muito indulgente<\/p>\n<p>Era tamb&eacute;m muito reconhecido: deu a Zadig uma quantia mais consider&aacute;vel<br \/>\n      do que qualquer tesoureiro jamais roubara a el-rei seu senhor. Zadig se<br \/>\n      utilizou da soma para enviar correios a Babil&ocirc;nia, que deviam inform&aacute;-lo<br \/>\n      do destino de Astart&eacute;ia. A voz tremeu-lhe ao dar essa ordem, o sangue<br \/>\n      lhe fluiu para o cora&ccedil;&atilde;o, seus olhos cobriram-se de trevas,<br \/>\n      a alma esteve a ponto de abandon&aacute;-lo. O mensageiro partiu, Zadig<br \/>\n      o viu embarcar; entrou no pal&aacute;cio, sem ver ningu&eacute;m, como se<br \/>\n      estivesse em seu quarto, e pronunciando a palavra amor.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! o amor &#8212; disse o rei, &#8212; &eacute; precisamente do<br \/>\n      que trata; adivinhaste a minha pena. &Eacute;s um grande homem! Espero que<br \/>\n      me ensines a descobrir uma mulher acima de qualquer suspeita, como me fizeste<br \/>\n      encontrar um tesoureiro desinteressado.<\/p>\n<p>Zadig, voltando a si, prometeu servi-lo no amor como em finan&ccedil;as,<br \/>\n      embora a coisa lhe parecesse ainda mais dif&iacute;cil.<\/p>\n<h4><a name=\"21\">XXI &#8211; OS OLHOS AZUIS<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; O corpo e o cora&ccedil;&atilde;o&#8230; &#8212; come&ccedil;ou o rei.<br \/>\n      A estas palavras, o babil&ocirc;nio n&atilde;o p&ocirc;de deixar de interromp&ecirc;-lo:<\/p>\n<p>&#8212; Como lhe sou grato por n&atilde;o haver Sua Majestade dito o esp&iacute;rito<br \/>\n      e o cora&ccedil;&atilde;o! pois s&oacute; se ouvem estas palavras nas conversa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n      de Babil&ocirc;nia; n&atilde;o se v&ecirc; mais que livros a respeito do<br \/>\n      cora&ccedil;&atilde;o e do esp&iacute;rito, escritos por pessoas que n&atilde;o<br \/>\n      t&ecirc;m nem uma coisa nem outra; mas tenha a bondade de prosseguir, Sire.<\/p>\n<p>&#8212; Nabussan assim continuou:<\/p>\n<p>&#8212; O corpo e o cora&ccedil;&atilde;o est&atilde;o, em mim, destinados<br \/>\n      a amar; a primeira dessas duas pot&ecirc;ncias tem todos os motivos para<br \/>\n      se achar satisfeita. Tenho aqui cem mulheres a meu servi&ccedil;o, todas<br \/>\n      belas, complacentas, sol&iacute;citas, voluptuosas at&eacute;, ou que o<br \/>\n      fingem ser comigo. Quanto a meu cora&ccedil;&atilde;o, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n      &eacute; t&atilde;o feliz. Por demais tenho visto que agradam muito o rei<br \/>\n      de Serendib e pouco se importam com Nabussan. N&atilde;o que eu julgue infi&eacute;is<br \/>\n      as minhas mulheres; mas desejaria encontrar uma alma que fosse minha; daria<br \/>\n      por esse tesouro as cem belezas cujos encantos possuo: v&ecirc; se podes,<br \/>\n      dentre as cem sultanas, achar-me uma de quem eu possa ter certeza de ser<br \/>\n      amado.<\/p>\n<p>Zadig respondeu como no caso dos financistas:<\/p>\n<p>&#8212; Deixe tudo a meu cuidado, Sire; mas permita primeiro que eu disponha<br \/>\n      do que Vossa Majestade exp&ocirc;s na galeria da tenta&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n      dar-lhe-ei conta de tudo e n&atilde;o perder&aacute; coisa alguma.<\/p>\n<p>O rei deixou-o como senhor absoluto. Zadig escolheu em Serendib trinta<br \/>\n      e tr&ecirc;s pequenos corcundas dos mais feios que p&ocirc;de achar, trinta<br \/>\n      e tr&ecirc;s pajens dos mais belos, e trinta e tr&ecirc;s bonzos dos mais<br \/>\n      eloq&uuml;entes e dos mais robustos. Concedeu a todos plena liberdade de<br \/>\n      entrarem nas celas das sultanas. Cada corcundinha ficou com quatro mil moedas<br \/>\n      de ouro a seu dispor, e logo no primeiro dia todos eles foram felizes. Os<br \/>\n      pajens, que nada tinham a dar sen&atilde;o a sua pr&oacute;pria pessoa,<br \/>\n      s&oacute; triunfaram ao fim de dois ou tr&ecirc;s dias. Os bonzos tiveram<br \/>\n      um pouco mais de trabalho; mas afinal trinta e tr&ecirc;s devotas se renderam<br \/>\n      a eles. O rei, por gelosias que davam para todas as celas, viu todas essas<br \/>\n      provas, e maravilhou-se. De suas cem mulheres, noventa e nove sucumbiram<br \/>\n      &agrave;s suas pr&oacute;prias vistas.<\/p>\n<p>Restava apenas uma jovem, bastante novinha, de quem Sua Majestade jamais<br \/>\n      se aproximara. Enviaram-lhe um, dois, tr&ecirc;s corcundas, que lhe ofereceram<br \/>\n      at&eacute; vinte mil moedas; ela foi incorrupt&iacute;vel, e n&atilde;o<br \/>\n      p&ocirc;de deixar de rir de que aqueles corcundas julgassem que o dinheiro<br \/>\n      os tornaria mais bem feitos de corpo. Apresentaram-lhe os dois pajens mais<br \/>\n      belos; ela disse que achava o rei ainda mais belo. Largaram-lhe o mais eloq&uuml;ente<br \/>\n      dos bonzos, e em seguida o mais intr&eacute;pido; ela achou o primeiro um<br \/>\n      papagaio e n&atilde;o se dignou nem mesmo a suspeitar o m&eacute;rito do<br \/>\n      segundo. &#8220;O cora&ccedil;&atilde;o &eacute; tudo &#8212; dizia ela.<br \/>\n      &#8212; Nunca cederei, nem ao ouro de um corcunda, nem &agrave;s gra&ccedil;as<br \/>\n      de um jovem, nem &agrave;s sedu&ccedil;&otilde;es de um bonzo; amarei &ugrave;nicamente<br \/>\n      a Nabussan, filho de Nussanab, e esperarei que ele se digne amar-me&#8221;.<br \/>\n      O rei sentiu-se transportado de alegria, de espanto e de ternura. Recolheu<br \/>\n      todo o dinheiro que causara o sucesso dos corcundas e presenteou-o &agrave;<br \/>\n      bela Falide; era esse o nome da jovem criatura. Deu-lhe o seu cora&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n      ela bem o merecia. Jamais foi t&atilde;o vi&ccedil;osa a flor da juventude,<br \/>\n      jamais tiveram tal sedu&ccedil;&atilde;o os encantos da formosura. Que ela<br \/>\n      n&atilde;o sabia fazer direito a rever&ecirc;ncia, &eacute; coisa que a<br \/>\n      verdade hist&oacute;rica n&atilde;o permite calar; mas dan&ccedil;ava como<br \/>\n      as fadas, falava como as sereias e cantava como as gra&ccedil;as: era cheia<br \/>\n      de prendas e virtudes.<\/p>\n<p>Nabussan, amado, adorou-a; mas Falide tinha olhos azuis, e foi isso a fonte<br \/>\n      das maiores desgra&ccedil;as. Havia uma antiga lei que proibia aos reis<br \/>\n      amarem uma dessas mulheres que os gregos depois chamaram de bo&oacute;pis.<br \/>\n      Fazia mais de cinco mil anos que o chefe dos bonzos tinha estabelecido essa<br \/>\n      lei; fora com o intuito de se apoderar da amante do primeiro rei da ilha<br \/>\n      de Serendib que esse primeiro bonzo introduzira o an&aacute;tema dos olhos<br \/>\n      azuis na Constitui&ccedil;&atilde;o do Estado. Todas as ordens do imp&eacute;rio<br \/>\n      vieram apresentar advert&ecirc;ncias ao rei. Dizia-se p&ugrave;blicamente<br \/>\n      que eram chegados os &uacute;ltimos dias do reino, que a abomina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      atingira o auge, que toda a natureza se achava amea&ccedil;ada de uma cat&aacute;strofe;<br \/>\n      que, numa palavra, Nabussan, filho de Nussanab, amava dois grandes olhos<br \/>\n      azuis. Os corcundas, os financistas, os bonzos e as morenas encheram o reino<br \/>\n      com suas queixas.<\/p>\n<p>Os povos selvagens que habitam o norte de Serendib aproveitaram-se do descontentamento<br \/>\n      geral. Fizeram irrup&ccedil;&atilde;o nos Estados do bom Nabussan. Este<br \/>\n      pediu aux&iacute;lio financeiro aos s&uacute;ditos; os bonzos, que possu&iacute;am<br \/>\n      metade das rendas do Estado, contentaram-se em erguer as m&atilde;os ao<br \/>\n      c&eacute;u e recusaram-se a met&ecirc;-las no cofre para ajudar ao rei.<br \/>\n      Fizeram belas preces com m&uacute;sica, e deixaram o Estado &agrave; merc&ecirc;<br \/>\n      dos b&aacute;rbaros.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; meu caro Zadig, ser&aacute; que ainda me tirar&aacute;s<br \/>\n      deste horr&iacute;vel embara&ccedil;o? &#8212; exclamou dolorosamente Nabussan.<\/p>\n<p>&#8212; De bom grado &#8212; respondeu Zadig. &#8212; Vossa Majestade ter&aacute;<br \/>\n      dos bonzos todo o dinheiro que quiser. Deixe desguarnecidas as terras onde<br \/>\n      eles t&ecirc;m os seus castelos, e defenda &ugrave;nicamente os de Vossa<br \/>\n      Majestade.<\/p>\n<p>Nabussan assim fez; os bonzos vieram lan&ccedil;ar-se aos p&eacute;s do<br \/>\n      rei e implorar-lhe assist&ecirc;ncia. O rei respondeu-lhes com uma bela<br \/>\n      can&ccedil;&atilde;o, cuja letra era uma prece pela conserva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      de suas terras. Os bonzos afinal deram dinheiro e o rei acabou a guerra<br \/>\n      com felicidade. Deste modo Zadig, com os seus s&aacute;bios e oportunos<br \/>\n      conselhos, e pelos grandes servi&ccedil;os que prestava, atra&iacute;ra<br \/>\n      a irreconcili&aacute;vel inimizade dos homens mais poderosos do Estado.<br \/>\n      Os bonzos e as morenas juraram a sua perda; os financistas e os corcundas<br \/>\n      n&atilde;o mais o pouparam; tornaram-no suspeito ao bom Nabussan. Os servi&ccedil;os<br \/>\n      prestados ficam muita vez na antec&acirc;mara, e as suspeitas entram no<br \/>\n      gabinete, segundo a senten&ccedil;a de Zoroastro: eram todos os dias novas<br \/>\n      acusa&ccedil;&otilde;es; a primeira &eacute; repelida, a segunda ro&ccedil;a<br \/>\n      a pele, a terceira fere, a quarta mata.<\/p>\n<p>Zadig, intimidado, j&aacute; que tratara dos neg&oacute;cios de seu amigo<br \/>\n      Setoc e lhe salvara o dinheiro, n&atilde;o pensou mais sen&atilde;o em partir<br \/>\n      da ilha, e resolveu ir em pessoa saber not&iacute;cias de Astart&eacute;ia.<br \/>\n      &#8212; &#8220;Pois &#8212; pensava ele &#8212; se fico em Serendib, os<br \/>\n      bonzos me far&atilde;o empalar; mas aonde ir? Serei escravizado no Egito,<br \/>\n      queimado, segundo todas as apar&ecirc;ncias, na Ar&aacute;bia, estrangulado<br \/>\n      em Babil&ocirc;nia. Mas preciso saber o que &eacute; feito de Astart&eacute;ia:<br \/>\n      partamos, e vejamos o que me reserva o meu triste destino.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Voltaire Apresenta&ccedil;&atilde;o Voltaire (Fran&ccedil;ois-Marie 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