{"id":120063,"date":"2017-04-19T12:06:48","date_gmt":"2017-04-19T14:06:48","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120063"},"modified":"2017-04-19T12:06:48","modified_gmt":"2017-04-19T14:06:48","slug":"o-touro-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-touro-branco","title":{"rendered":"O Touro Branco"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"444\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t  <\/strong>\n\t\t  <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Voltaire<\/h2>\n<p><strong>Apresenta&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p> N&atilde;o se conhece muito bem a inten&ccedil;&atilde;o de Voltaire ao<br \/>\n      escrever &#8220;O Touro Branco&#8221;. H&aacute; hip&oacute;teses: plaus&iacute;veis,<br \/>\n      l&oacute;gicas, mas hip&oacute;teses. Uma delas sugere que tenha se inspirado<br \/>\n      em lendas orientais a respeito da metamorfose animal.<\/p>\n<p> A mais prov&aacute;vel, j&aacute; que Voltaire sempre se interessou por<br \/>\n      religi&otilde;es e mitos, &eacute; de que ele teria coletado, dentre os<br \/>\n      mitos religiosos orientais, aqueles em que os homens entrassem em contato<br \/>\n      com aos animais, mesclando-os com outros. Reuniu, assim, numa com&eacute;dia<br \/>\n      animal, a serpente do para&iacute;so, o asno de Bala&atilde;o, a baleia<br \/>\n      de Jonas com as divindades do Egito, igualmente relacionadas a animais,<br \/>\n      especialmente o touro-rei.<\/p>\n<p> Mas &eacute; o mesmo e inconfund&iacute;vel Voltaire, com seu conhecimento<br \/>\n      da alma humana, a filosofia profunda e a ironia impec&aacute;vel. N&atilde;o<br \/>\n      &eacute; t&atilde;o irreverente como em outras obras, mas parece n&atilde;o<br \/>\n      ter resisitido a s&ecirc;-lo em algumas oportunidades:<\/p>\n<p> A serpente do para&iacute;so, contestando a sua condena&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      retruca: <\/p>\n<p> &#8220;Nada disso: dei-lhe o melhor conselho do mundo. Ela honrava-me<br \/>\n      com a sua confian&ccedil;a. Eu era de parecer que ela e seu marido deviam<br \/>\n      provar do fruto da &aacute;rvore da ci&ecirc;ncia. Acreditava agradar assim<br \/>\n      ao senhor das coisas. Uma &aacute;rvore t&atilde;o necess&aacute;ria ao<br \/>\n      g&ecirc;nero humano n&atilde;o me parecia plantada para ficar in&uacute;til.<br \/>\n      Desejaria o Senhor ser servido por ignorantes e idiotas? N&atilde;o &eacute;<br \/>\n      feito o esp&iacute;rito para esclarecer-se e aperfei&ccedil;oar-se? N&atilde;o<br \/>\n      se deve conhecer o bem e o mal para praticar o primeiro e evitar o segundo?<br \/>\n      Por certo s&oacute; me deviam agradecimentos.&#8221; <\/p>\n<p> A observa&ccedil;&atilde;o sobre os usuais equ&iacute;vocos da corte lembram,<br \/>\n      ligeiramente, nossa Capital Federal: <\/p>\n<p> &#8220;Todos os ministros de Estado conclu&iacute;ram que o touro branco<br \/>\n      era um feiticeiro. Dava-se exatamente o contr&aacute;rio: ele estava enfeiti&ccedil;ado;<br \/>\n      mas na corte sempre se enganam nesses delicados assuntos.&#8221; <\/p>\n<p> Sobre as f&aacute;bulas, essas historietas que nos s&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n      queridas de inf&acirc;ncia, Voltaire, pela voz de Amaside, decreta: <\/p>\n<p> &#8220;Essas hist&oacute;rias me aborrecem &#8211; respondeu a bela Amaside,<br \/>\n      que tinha intelig&ecirc;ncia e bom gosto. &#8211; S&oacute; servem para<br \/>\n      ser comentadas entre os irlandeses, por esse louco do Abbadie, ou entre<br \/>\n      os velches por esse frasista do Houteville As hist&oacute;rias que podiam<br \/>\n      contar &agrave; tatarav&oacute; da tatarav&oacute; da minha av&oacute; j&aacute;<br \/>\n      n&atilde;o servem para mim, que fui educada pelo s&aacute;bio Mambr&eacute;s<br \/>\n      e que li o Entendimento Humano do fil&oacute;sofo eg&iacute;pcio chamado<br \/>\n      Locke e a Matrona de &Eacute;feso. Quero uma hist&oacute;ria que seja fundada<br \/>\n      na verossimilhan&ccedil;a e que n&atilde;o se assemelhe sempre a um sonho.<br \/>\n      Desejo que n&atilde;o tenha nada de trivial nem de extravagante. Desejaria<br \/>\n      sobretudo que, sob o v&eacute;u da f&aacute;bula, deixasse transparecer<br \/>\n      aos olhos exercitados alguma fina verdade que escapa ao vulgo. Estou cansada<br \/>\n      do sol e da lua de que uma velha disp&otilde;e a seu bel-prazer, das montanhas<br \/>\n      que dan&ccedil;am, dos rios que remontam &agrave; sua fonte, e dos mortos<br \/>\n      que ressuscitam; mas, quando essas tolices s&atilde;o escritas em estilo<br \/>\n      empolado e inintelig&iacute;vel, ai sim, que me desgostam horrivelmente.&#8221;\n    <\/p>\n<p> Ironia sobre divindades, n&atilde;o faltou, &eacute; sugestiva: <\/p>\n<p> &#8220;Mais al&eacute;m, surgiam, na mesma pompa, a ovelha de Tebas, o<br \/>\n      c&atilde;o de Bubasta, o gato de Febe, o crocodilo de Arsinoe, o bode de<br \/>\n      Mend&eacute;s, e todos os deuses inferiores do Egito, que vinham render<br \/>\n      homenagem ao grande boi, ao grande deus Apis, t&atilde;o poderoso quanto<br \/>\n      Isis, Osiris e H&oacute;rus juntos.<\/p>\n<p> No meio de todos esses semideuses, quarenta sacerdotes carregavam um enorme<br \/>\n      cesto cheio de cebolas sagradas, que n&atilde;o eram deuses, mas que muito<br \/>\n      se lhes assemelhavam.&#8221; <\/p>\n<p> E o que me parece genial: a princesa Amaside fora proibida pelo pai de<br \/>\n      pronunciar o nome de seu amado, sob pena de decapita&ccedil;&atilde;o. Ela<br \/>\n      tentou dizer: Na&#8230; e foi advertida pelo s&aacute;bio Mambr&eacute;s do<br \/>\n      risco que come&ccedil;ava a correr. Com mais ousadia pronunciou Nabu&#8230;,<br \/>\n      logo depois Nabuco&#8230; e, finalmente, Nabucodonosor. Nesse momento alcan&ccedil;ou<br \/>\n      a liberdade, enfrentou o pai e casou-se com o seu amado: &#8220;o grande<br \/>\n      rei que n&atilde;o era mais boi!&#8221;. &Eacute; para se meditar.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>N&eacute;lson Jahr Garcia<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"1\">CAP&Iacute;TULO PRIMEIRO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como a princesa Amaside encontra um boi.<\/b><\/p>\n<p> A jovem princesa Amaside, filha de Am&aacute;sis, rei de T&acirc;nis,<br \/>\n      no Egito, passeava pela estrada de Pelusa com as damas do seu s&eacute;quito.<br \/>\n      Estava mergulhada em profunda tristeza; as l&aacute;grimas corriam de seus<br \/>\n      belos olhos. Sabe-se qual o motivo do seu sofrimento e como temia ela desagradar<br \/>\n      ao rei seu pai com esse mesmo sofrimento. Achava-se em sua companhia o velho<br \/>\n      Mambr&eacute;s, antigo mago e eunuco dos fara&oacute;s, e que n&atilde;o<br \/>\n      a deixava quase nunca. Vira-a nascer, educara-a, ensinara-lhe tudo o que<br \/>\n      a uma bela princesa &eacute; permitido saber das ci&ecirc;ncias do Egito.<br \/>\n      O esp&iacute;rito de Amaside igualava-se &agrave; sua bondade; ela era t&atilde;o<br \/>\n      sens&iacute;vel, t&atilde;o terna como encantadora; e era essa sensibilidade<br \/>\n      que lhe custava tantas l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> A princesa tinha vinte e quatro anos de idade; o mago Mambr&eacute;s tinha<br \/>\n      cerca de mil e trezentos anos. Fora ele, como &eacute; sabido, quem sustentara<br \/>\n      com o grande Mois&eacute;s aquela famosa disputa na qual a vit&oacute;ria<br \/>\n      esteve por longo tempo pendente entre os dois profundos fil&oacute;sofos.<br \/>\n      Se Mambr&eacute;s sucumbiu, foi unicamente devido &agrave; vis&iacute;vel<br \/>\n      interven&ccedil;&atilde;o das pot&ecirc;ncias celestes, que favoreceram<br \/>\n      o seu rival; s&oacute; mesmo deuses, para vencer Mambr&eacute;s.<\/p>\n<p> Am&aacute;sis o nomeara superintendente da casa de sua filha, e ele se<br \/>\n      desincumbia dessas fun&ccedil;&otilde;es com a sua ordin&aacute;ria sabedoria.<br \/>\n      A bela Amaside enternecia-o com seus suspiros.<\/p>\n<p> &#8212; O meu amor! meu jovem e querido amor! &#8211; exclamava ela &agrave;s<br \/>\n      vezes, &#8211; tu, o maior dos vencedores, o mais perfeito, o mais belo<br \/>\n      dos homens! como! h&aacute; mais de sete anos que desapareceste da face<br \/>\n      da terra! Que deus te arrebatou &agrave; tua terna Amaside? N&atilde;o est&aacute;s<br \/>\n      morto, assim o dizem os s&aacute;bios profetas do Egito; mas para mim est&aacute;s<br \/>\n      morto, acho-me sozinha na terra, ela &eacute; deserta. Por que estranho<br \/>\n      prod&iacute;gio abandonaste o teu trono e a tua amada? o teu trono! era<br \/>\n      o primeiro do mundo, e &eacute; pouco; mas eu, que te adoro, &oacute; meu<br \/>\n      querido Na&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tremei de pronunciar esse nome fatal &#8211; disse-lhe o s&aacute;bio<br \/>\n      Mambr&eacute;s, antigo eunuco e mago dos fara&oacute;s. &#8211; Ser&iacute;eis<br \/>\n      talvez tra&iacute;da por alguma das vossas damas. Elas vos s&atilde;o todas<br \/>\n      fi&eacute;is, e todas as belas damas timbram em servir as nobres paix&otilde;es<br \/>\n      das belas princesas; mas, enfim, pode-se encontrar uma indiscreta entre<br \/>\n      elas, e at&eacute; mesmo uma p&eacute;rfida. Bem sabeis que o rei vosso<br \/>\n      pai, que ali&aacute;s vos ama, jurou mandar cortar-vos o pesco&ccedil;o,<br \/>\n      se pronunci&aacute;sseis esse nome terr&iacute;vel, continuamente prestes<br \/>\n      a vos escapar dos l&aacute;bios. Chorai, mas calai-vos. Essa lei &eacute;<br \/>\n      dura, mas n&atilde;o fostes educada na sabedoria eg&iacute;pcia para que<br \/>\n      n&atilde;o soub&eacute;sseis dominar a l&iacute;ngua. Considerai que Harp&oacute;crates,<br \/>\n      um dos nossos maiores deuses, tem sempre um dedo sobre o l&aacute;bio.<\/p>\n<p> A bela Amaside chorou e n&atilde;o falou mais.<\/p>\n<p> Como se dirigisse em sil&ecirc;ncio para as margens do Nilo, avistou de<br \/>\n      longe, junto a um bosque banhado pelo rio, uma velha coberta de farrapos,<br \/>\n      sentada sobre um c&ocirc;moro. Tinha junto a si uma jumenta, um c&atilde;o<br \/>\n      e um bode. A frente dela estava uma serpente que n&atilde;o era como as<br \/>\n      serpentes ordin&aacute;rias, pois seus olhos eram t&atilde;o ternos como<br \/>\n      animados; sua fisionomia era t&atilde;o nobre como atraente; sua pele brilhava<br \/>\n      com as mais vivas e agrad&aacute;veis cores. Um enorme peixe, mergulhado<br \/>\n      a meio no rio, n&atilde;o era a menos admir&aacute;vel pessoa da companhia.<br \/>\n      Havia sobre um ramo um corvo e uma pomba. Todas essas criaturas pareciam<br \/>\n      empenhadas em animada conversa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! &#8211; suspirou baixinho a princesa, &#8211; toda essa gente<br \/>\n      fala decerto de seus amores, e a mim n&atilde;o me &eacute; permitido pronunciar<br \/>\n      o nome daquele a quem amo!<\/p>\n<p> A velha segurava uma leve corrente de a&ccedil;o, de umas cem bra&ccedil;as<br \/>\n      de comprimento, &agrave; qual se achava atado um touro que pastava no campo.<br \/>\n      Esse touro era branco, bem torneado, elegante de linhas, leve at&eacute;,<br \/>\n      o que &eacute; bastante raro. Seus cornos eram de marfim. Era o que de mais<br \/>\n      belo j&aacute; se vira na sua esp&eacute;cie. O de Pasifa&eacute;, e aquele<br \/>\n      cuja figura tomou J&uacute;piter para raptar Europa, n&atilde;o se aproximavam<br \/>\n      sequer do soberbo animal. Apenas a encantadora novilha em que fora transformada<br \/>\n      Isis seria, quando muito, digna dele.<\/p>\n<p> Mal viu a princesa, correu para ela com a rapidez de um cavalo &aacute;rabe<br \/>\n      que franqueia as vastas plan&iacute;cies e os rios do antigo Saara para<br \/>\n      se aproximar da brilhante &eacute;gua que reina no seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      e que o faz erguer as orelhas. A velha fazia esfor&ccedil;os por det&ecirc;-lo,<br \/>\n      a serpente parecia querer espant&aacute;-lo com seus silvos; o c&atilde;o<br \/>\n      o seguia, mordendo-lhe as belas pernas; a jumenta atravessava-se-lhe no<br \/>\n      caminho e dava-lhe coices para o fazer voltar. O grande peixe remontava<br \/>\n      o Nilo, e, lan&ccedil;ando-se fora d&#8217;&aacute;gua, amea&ccedil;ava<br \/>\n      devor&aacute;-lo; o corvo adejava em torno da cabe&ccedil;a do touro, como<br \/>\n      se quisesse vazar-lhe os olhos. S&oacute; a pomba o acompanhava por curiosidade<br \/>\n      e aplaudia-o com um suave murm&uacute;rio.<\/p>\n<p> T&atilde;o extraordin&aacute;rio espet&aacute;culo remergulhou Mambr&eacute;s<br \/>\n      em profundas cogita&ccedil;&otilde;es. O touro branco, arrastando a corrente<br \/>\n      e a velha, j&aacute; havia no entanto alcan&ccedil;ado a princesa, que era<br \/>\n      toda espanto e medo. Ei-lo que se lan&ccedil;a aos p&eacute;s de Amaside,<br \/>\n      beija-os, derrama l&aacute;grimas, contempla-a com um olhar onde se lia<br \/>\n      uma inaudita mistura de dor e alegria. N&atilde;o ousava mugir, por medo<br \/>\n      de assust&aacute;-la. Ele n&atilde;o podia falar. Era-lhe vedado esse modesto<br \/>\n      uso da voz concedido pelo C&eacute;u a alguns animais; mas todas as suas<br \/>\n      a&ccedil;&otilde;es eram eloq&uuml;entes. A princesa se agradou muito dele.<br \/>\n      Sentiu que uma pequena divers&atilde;o poderia surpreender por alguns momentos<br \/>\n      as mais dolorosas penas.<\/p>\n<p> &#8212; Eis aqui &#8211; dizia ela &#8211; um am&aacute;vel animal; desejaria<br \/>\n      t&ecirc;-lo no meu est&aacute;bulo.<\/p>\n<p> A estas palavras, o touro dobrou os quatro joelhos.<\/p>\n<p> &#8212; Ele me compreende! &#8211; exclamou a princesa. &#8211; Diz-me,<br \/>\n      &agrave; sua maneira, que quer pertencer-me. Ah! divino mago, divino eunuco!<br \/>\n      d&aacute;-me essa consola&ccedil;&atilde;o, compra esse belo querubim (1);<br \/>\n      prop&otilde;e um pre&ccedil;o &agrave; velha, &agrave; qual decerto ele<br \/>\n      pertence. Quero que este animal seja meu; n&atilde;o me recuses esse inocente<br \/>\n      consolo.<\/p>\n<p> Todas as damas do pal&aacute;cio juntaram suas inst&acirc;ncias aos rogos<br \/>\n      da princesa. Mambr&eacute;s deixou-se comover, e foi falar com a velha.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">CAP&Iacute;TULO SEGUNDO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como o s&aacute;bio Mambr&eacute;s, antigo feiticeiro do Fara&oacute;<br \/>\n      reconheceu uma velha, como foi por ela reconhecido.<\/b><\/p>\n<p> &#8212; Senhora &#8211; disse-lhe ele, &#8211; bem sabeis que as mo&ccedil;as,<br \/>\n      e principalmente as princesas, t&ecirc;m necessidade de divertir-se. A filha<br \/>\n      do rei est&aacute; louca pelo vosso touro; vendei-nos, por favor, esse animal,<br \/>\n      que sereis paga em dinheiro &agrave; vista.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor &#8211; respondeu a velha, &#8211; esse precioso animal<br \/>\n      n&atilde;o me pertence. Estou encarregada, eu e todos os animais que vistes,<br \/>\n      de observar todos os seus passas e dar conta de tudo. Deus me livre de pensar<br \/>\n      algum dia em vender esse animal sem pre&ccedil;o!<\/p>\n<p> Ouvindo isto, sentiu-se Mambr&eacute;s tocado de alguns raios de confusa<br \/>\n      luz, que ainda n&atilde;o distinguia nitidamente. Observou a velha com mais<br \/>\n      aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Respeit&aacute;vel dama &#8211; disse ele, &#8211; ou muito me<br \/>\n      engano, ou j&aacute; vos vi outrora.<\/p>\n<p> &#8212; Pois eu bem me lembro, senhor, que j&aacute; vos encontrei h&aacute;<br \/>\n      setecentos anos, em uma viagem que fiz da S&iacute;ria ao Egito, alguns<br \/>\n      meses ap&oacute;s a destrui&ccedil;&atilde;o de Tr&oacute;ia, quando Hiram<br \/>\n      reinava em Tiro, e Nephel-Ker&eacute;s no antigo Egito.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! senhora &#8211; exclamou o velho, &#8211; sois a augusta pitonisa<br \/>\n      de Endor.<\/p>\n<p> &#8212; E v&oacute;s, senhor &#8211; disse a pitonisa, abra&ccedil;ando-o,<br \/>\n      &#8211; sois o grande Mambr&eacute;s do Egito.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; imprevisto encontro! &oacute; memor&aacute;vel dia! &oacute;<br \/>\n      decretos eternos! &#8211; exclamou Mambr&eacute;s. &#8211; N&atilde;o &eacute;,<br \/>\n      por certo, sem ordem expressa da provid&ecirc;ncia universal que n&oacute;s<br \/>\n      nos encontramos neste prado &agrave; margem do Nilo, perto da soberba cidade<br \/>\n      de T&acirc;nis. Com que ent&atilde;o sois mesmo v&oacute;s, senhora, t&atilde;o<br \/>\n      famosa &agrave;s margens do Jord&atilde;o, v&oacute;s, a mais h&aacute;bil<br \/>\n      pessoa do mundo para evocar as sombras !<\/p>\n<p> &#8212; E sois v&oacute;s, senhor, t&atilde;o famoso por mudardes os bast&otilde;es<br \/>\n      em serpentes, o dia em trevas, e os rios em sangue!<\/p>\n<p> &#8212; Sim, minha senhora; mas a minha avan&ccedil;ada idade enfraquece<br \/>\n      parte de minhas luzes e de meus poderes. Ignoro de onde vos vem esse belo<br \/>\n      touro branco, e que animais s&atilde;o esses que vos auxiliam a vigi&aacute;-lo.<\/p>\n<p> A velha recolheu-se um momento, ergueu os olhos ao c&eacute;u, depois<br \/>\n      respondeu nos seguintes termos:<\/p>\n<p> &#8212; Meu caro Mambr&eacute;s, somos do mesmo of&iacute;cio, mas &eacute;-me<br \/>\n      expressamente proibido dizer-vos que touro &eacute; esse. Posso satisfazer-vos<br \/>\n      no tocante aos outros animais. V&oacute;s os reconhecereis facilmente pelos<br \/>\n      sinais que os caracterizam. A serpente &eacute; aquela que persuadiu Eva<br \/>\n      a comer uma ma&ccedil;&atilde;, e a fazer que o marido a comesse. A jumenta<br \/>\n      &eacute; a que falou num caminho a Bala&atilde;o, contempor&acirc;neo vosso.<br \/>\n      O peixe que conserva sempre a cabe&ccedil;a fora d&#8217;&aacute;gua &eacute;<br \/>\n      aquele que engoliu Jonas h&aacute; alguns anos. Esse c&atilde;o &eacute;<br \/>\n      aquele que seguiu o anjo Rafael e o, jovem Tobias durante a viagem que fizeram<br \/>\n      a Rag&eacute;s, na M&eacute;dia, no tempo do grande Salmanasar. Esse bode<br \/>\n      &eacute; aquele que expia todos os pecados de uma na&ccedil;&atilde;o. Esse<br \/>\n      corvo e essa pomba s&atilde;o os que estavam na arca de No&eacute;: grande<br \/>\n      acontecimento, cat&aacute;strofe universal, que quase toda a terra ainda<br \/>\n      ignora. Estais, pois, informado. &#8211; Mas, quanto ao touro, nada sabereis.<\/p>\n<p> Mambr&eacute;s escutava com respeito. Depois disse:<\/p>\n<p> &#8212; O Eterno revela o que quer, e a quem quer, ilustre pitonisa. Todos<br \/>\n      esses animais, encarregados convosco da guarda do touro branco, s&oacute;<br \/>\n      s&atilde;o conhecidos na vossa generosa e apraz&iacute;vel na&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      a qual, por sua vez, &eacute; desconhecida de quase todo o mundo. As maravilhas<br \/>\n      que v&oacute;s e os vossos, e eu e os meus operamos, ser&atilde;o um dia<br \/>\n      objeto de d&uacute;vida e esc&acirc;ndalo entre os falsos s&aacute;bios.<br \/>\n      Felizmente encontrar&atilde;o cr&eacute;dito entre os verdadeiros s&aacute;bios,<br \/>\n      que se submeter&atilde;o aos videntes, numa pequena parte do mundo, e &eacute;<br \/>\n      o que basta.<\/p>\n<p> Enquanto pronunciava estas &uacute;ltimas palavras, a princesa puxou-lhe<br \/>\n      a manga, indagando:<\/p>\n<p> &#8212; Mambr&eacute;s, e o meu touro? Ser&aacute; que n&atilde;o vais<br \/>\n      compr&aacute;-lo?<\/p>\n<p> O mago, mergulhado em profunda cisma, nada respondeu, e Amaside p&ocirc;s-se<br \/>\n      a chorar.<\/p>\n<p> Dirigiu-se ent&atilde;o &agrave; pitonisa, dizendo-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Minha boa velha, conjuro-te por tudo o que tens de mais caro no<br \/>\n      mundo, por teu pai, por tua m&atilde;e, por tua ama, que sem d&uacute;vida<br \/>\n      ainda vivem, que me vendas n&atilde;o s&oacute; o teu touro, mas tamb&eacute;m<br \/>\n      a tua pomba, que lhe parece t&atilde;o afei&ccedil;oada. Quanto aos teus<br \/>\n      outros animais, n&atilde;o os quero; mas sou bem capaz de adoecer de vapores,<br \/>\n      se n&atilde;o me venderes esse encantador touro branco, que constituir&aacute;<br \/>\n      toda a do&ccedil;ura da minha vida.<\/p>\n<p> A velha beijou-lhe respeitosamente a f&iacute;mbria do vestido de gaze<br \/>\n      e disse-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Princesa, o meu touro n&atilde;o est&aacute; &agrave; venda, e<br \/>\n      o vosso ilustre mago j&aacute; o sabe. O mais que eu posso fazer por v&oacute;s<br \/>\n      &eacute; lev&aacute;-lo a pastar todos os dias nas proximidades de vosso<br \/>\n      pal&aacute;cio; podereis acarici&aacute;-lo, dar-lhe biscoitos, faz&ecirc;-lo<br \/>\n      dan&ccedil;ar &agrave; vontade. Mas &eacute; preciso que ele esteja continuamente<br \/>\n      sob as vistas de todos os animais que me acompanham e que est&atilde;o encarregados<br \/>\n      da sua guarda. Se n&atilde;o procurar escapar-se, n&atilde;o lhe far&atilde;o<br \/>\n      mal algum; mas ai dele! se tentar romper de novo a corrente, como fez logo<br \/>\n      que vos avistou. N&atilde;o responderei ent&atilde;o por sua vida. Esse<br \/>\n      grande peixe que vedes infalivelmente o engoliria, guardando-o por mais<br \/>\n      de tr&ecirc;s dias na barriga; ou ent&atilde;o essa serpente, que vos pareceu<br \/>\n      talvez t&atilde;o branda e am&aacute;vel, poderia dar-lhe uma picada mortal.<\/p>\n<p> O touro branco, que entendia &agrave;s maravilhas tudo quanto dizia a<br \/>\n      velha, mas que n&atilde;o podia falar, aceitou todas as suas propostas,<br \/>\n      com um ar submisso. Deitou-se a seus p&eacute;s, mugiu docemente; e, contemplando<br \/>\n      Amaside com ternura, parecia dizer-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Vinde ver-me algumas vezes no prado. A serpente tomou ent&atilde;o<br \/>\n      a palavra, e disse-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Princesa, aconselho-vos a seguirdes cegamente tudo quanto vos<br \/>\n      diz a senhorita de Endor.<\/p>\n<p> A jumenta tamb&eacute;m deu sua opini&atilde;o, que era a mesma da serpente.<br \/>\n      Amaside afligiu-se com o fato de que aquela serpente e aquela jumenta falassem<br \/>\n      t&atilde;o bem, e que um belo touro, que tinha t&atilde;o nobres e ternos<br \/>\n      sentimentos, n&atilde;o pudesse exprimi-los.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! nada &eacute; t&atilde;o comum na Corte &#8211; dizia ela<br \/>\n      baixinho. &#8211; Todos os dias se v&ecirc;em ali belos senhores que n&atilde;o<br \/>\n      sabem conversar e feiarr&otilde;es que falam com seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212;.Essa serpente n&atilde;o &eacute; pouca coisa &#8211; disse Mambr&eacute;s.<br \/>\n      &#8211; N&atilde;o vos enganeis. &Eacute; talvez a pessoa de maior considera&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n      Ca&iacute;a o crep&uacute;sculo; a princesa viu-se obrigada a voltar para<br \/>\n      casa, mas prometeu que retornaria no dia seguinte ao mesmo local. As damas<br \/>\n      do pal&aacute;cio estavam maravilhadas e nada compreendiam do que tinham<br \/>\n      visto e ouvido. Mambr&eacute;s fazia as suas reflex&otilde;es. A princesa,<br \/>\n      considerando que a serpente havia chamado a velha de senhorita, concluiu<br \/>\n      ao acaso que esta era virgem, e sentiu alguma afli&ccedil;&atilde;o de ainda<br \/>\n      o ser: afli&ccedil;&atilde;o respeit&aacute;vel, que ela ocultava com tanto<br \/>\n      escr&uacute;pulo quanto o nome de seu bem-amado.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">CAP&Iacute;TULO TERCEIRO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como a bela Amaside teve uma entrevista secreta com uma bela serpente.<\/b><\/p>\n<p> A bela princesa recomendou segredo &agrave;s suas damas, sobre o que haviam<br \/>\n      presenciado. Todas elas o prometeram e, com efeito, guardaram-no um dia<br \/>\n      inteiro. Pode-se crer que Amaside pouco dormiu naquela noite. Um encantamento<br \/>\n      inexplic&aacute;vel lhe trazia a todo instante a imagem de seu belo touro.<br \/>\n      Logo que se viu a s&oacute;s com o seu s&aacute;bio Mambr&eacute;s, disse-lhe<br \/>\n      ela.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; s&aacute;bio! esse animal me vira a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; E ocupa bastante a minha &#8211; disse Mambr&eacute;s. &#8211;<br \/>\n      Vejo claramente que esse querubim est&aacute; muito acima da sua esp&eacute;cie.<br \/>\n      H&aacute; aqui um grande mist&eacute;rio, mas temo um acontecimento funesto.<br \/>\n      O vosso pai Am&aacute;sis &eacute; violento e desconfiado; toda essa hist&oacute;ria<br \/>\n      exige que vos porteis com a maior prud&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; suspirou a princesa, &#8211; sinto-me por demais curiosa<br \/>\n      para ser prudente; &eacute; esta a &uacute;nica paix&atilde;o que pode unir-se,<br \/>\n      em meu peito, &agrave;quela que me devora pelo bem-amado que perdi. N&atilde;o<br \/>\n      poderei ent&atilde;o saber o que &eacute; esse touro branco que provoca<br \/>\n      em mim tamanha perturba&ccedil;&atilde;o?!<\/p>\n<p> &#8212; Senhora &#8211; respondeu Mambr&eacute;s, &#8211; j&aacute; vos<br \/>\n      confessei que minha ci&ecirc;ncia declina &agrave; medida que minha idade<br \/>\n      avan&ccedil;a; mas, ou me engano muito, ou a serpente est&aacute; a par<br \/>\n      do que tanto desejais saber. Tem esp&iacute;rito, exprime-se com discri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      e h&aacute; muito que est&aacute; acostumada a meter-se nos neg&oacute;cios<br \/>\n      das damas.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! sem d&uacute;vida &#8211; disse Amaside &#8211; &eacute; essa<br \/>\n      bela serpente do Egito, que, com a cauda metida na boca, &eacute; o s&iacute;mbolo<br \/>\n      da eternidade, e que alumia o mundo quando abre os olhos e o obscurece quando<br \/>\n      os fecha.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, minha senhora.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; ent&atilde;o a serpente de Escul&aacute;pio? <\/p>\n<p> &#8212; Ainda menos.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; ent&atilde;o J&uacute;piter sob a forma de serpente?<\/p>\n<p> &#8212; Qual!<\/p>\n<p> &#8212; Ah! j&aacute; sei: &eacute; aquele teu bast&atilde;o que outrora<br \/>\n      transformaste em serpente.<\/p>\n<p> &#8212; Garanto-lhe que n&atilde;o, senhora; mas todas essas serpentes<br \/>\n      s&atilde;o da mesma fam&iacute;lia. Esta de que falamos tem grande reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      no seu pa&iacute;s, onde passa pela mais h&aacute;bil serpente que jamais<br \/>\n      se viu. Ide falar com ela. Advirto-vos, contudo, de que &eacute; um passo<br \/>\n      muito perigoso. Eu, se estivesse em vosso lugar, deixaria o touro, a jumenta,<br \/>\n      a cobra, o peixe, o c&atilde;o, o bode, o corvo e a pomba. Mas a paix&atilde;o<br \/>\n      vos arrebata; o mais que posso &eacute; apiedar-me e tremer.<\/p>\n<p> A princesa conjurou-o a conseguir-lhe uma entrevista com a serpente. Mambr&eacute;s,<br \/>\n      que era bom, consentiu, e, sempre a refletir profundamente, foi procurar<br \/>\n      a sua pitonisa. E t&atilde;o insinuantemente lhe exp&ocirc;s o capricho<br \/>\n      da sua princesa, que afinal a persuadiu.<\/p>\n<p> Disse-lhe ent&atilde;o a velha que Amaside era a senhora e dona; que a<br \/>\n      serpente sabia muito bem como haver-se nesta vida; que costumava ser muito<br \/>\n      am&aacute;vel com as damas; que n&atilde;o queria outra coisa sen&atilde;o<br \/>\n      lhes prestar favores, e que n&atilde;o faltaria &agrave; entrevista.<\/p>\n<p> O velho mago voltou &agrave; princesa com essa boa not&iacute;cia; mas<br \/>\n      temia ainda alguma desgra&ccedil;a, e continuava com as suas pondera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Quereis falar com a serpente, senhora; ser&aacute; quando aprouver<br \/>\n      &agrave; Vossa Alteza. Lembrai-vos, no entanto, que &eacute; preciso saber<br \/>\n      lisonje&aacute;-la; pois todo animal &eacute; cheio de amor pr&oacute;prio,<br \/>\n      e sobretudo a serpente. Dizem que ela foi outrora expulsa de um belo lugar<br \/>\n      por causa de seu excessivo orgulho.<\/p>\n<p> &#8212; Nunca ouvi falar nisso.<\/p>\n<p> &#8212; Acredito-o.<\/p>\n<p> Contou-lhe ent&atilde;o o velho todos os rumores que haviam corrido acerca<br \/>\n      daquela famosa serpente.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, seja como for, Alteza, n&atilde;o lhe podereis arrancar o<br \/>\n      segredo sen&atilde;o lisonjeando-a. Ela passa, num pa&iacute;s vizinho,<br \/>\n      por haver pregado uma terr&iacute;vel pe&ccedil;a &agrave;s mulheres; &eacute;<br \/>\n      justo que, por sua vez, uma mulher a seduza.<\/p>\n<p> &#8212; Farei o poss&iacute;vel &#8211; disse a princesa.<\/p>\n<p> Partiu pois com as suas damas palacianas e o bom mago eunuco. A velha<br \/>\n      fazia o touro pastar bastante longe. Mambr&eacute;s deixou Amaside em liberdade<br \/>\n      e foi conversar com a sua pitonisa. A dama de honra p&ocirc;s-se a conversar<br \/>\n      com a jumenta; as damas de companhia entretiveram-se com o bode, o c&atilde;o,<br \/>\n      o corvo e a pomba; quanto ao grande peixe, que metia medo a todo o mundo,<br \/>\n      mergulhou no Nilo por ordem da velha.<\/p>\n<p> A serpente foi em seguida ao encontro da bela Amaside, no bosque; e mantiveram<br \/>\n      ambas a seguinte conversa&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; N&atilde;o imaginais, Senhora, o quanto me lisonjeia<br \/>\n      a honra que Vossa Alteza se digna conceder-me.<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; A vossa grande reputa&ccedil;&atilde;o, a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n      de vossa fisionomia e o brilho de vossos olhos logo me decidiram a solicitar<br \/>\n      esta entrevista. Sei, pela voz p&uacute;blica (se ela n&atilde;o &eacute;<br \/>\n      enganadora que fostes uma grande personagem no c&eacute;u emp&iacute;reo.<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; &Eacute; verdade, Senhora, que eu ocupava l&aacute;<br \/>\n      uma posi&ccedil;&atilde;o assaz distinta. Dizem que sou um favorito desgraciado:<br \/>\n      &eacute; um rumor que correu a princ&iacute;pio na &Iacute;ndia (2) Os br&acirc;manes<br \/>\n      foram os primeiros que apresentaram uma longa hist&oacute;ria das minhas<br \/>\n      aventuras. N&atilde;o duvido que os poetas do Norte fa&ccedil;am um dia<br \/>\n      com esse material um poema &eacute;pico assaz estranho; pois, na verdade,<br \/>\n      &eacute; s&oacute; o que se pode fazer. N&atilde;o estou, por&eacute;m,<br \/>\n      t&atilde;o deca&iacute;do que ainda n&atilde;o desfrute neste globo um consider&aacute;vel<br \/>\n      dom&iacute;nio. Quase me atreveria a dizer que toda a terra me pertence.<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Acredito-o, pois dizem que tendes o talento da persuas&atilde;o;<br \/>\n      e agradar, &eacute; reinar.<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; Sinto, Senhora, enquanto vos vejo e vos escuto, que<br \/>\n      tendes sobre mim esse imp&eacute;rio que me atribuem sobre tantas outras<br \/>\n      almas.<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Sabeis vencer amavelmente. Dizem que subjugastes muitas<br \/>\n      damas, e que come&ccedil;astes por nossa m&atilde;e comum, cujo nome esqueci.<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; Nada disso: dei-lhe o melhor conselho do mundo. Ela<br \/>\n      honrava-me com a sua confian&ccedil;a. Eu era de parecer que ela e seu marido<br \/>\n      deviam provar do fruto da &aacute;rvore da ci&ecirc;ncia. Acreditava agradar<br \/>\n      assim ao senhor das coisas. Uma &aacute;rvore t&atilde;o necess&aacute;ria<br \/>\n      ao g&ecirc;nero humano n&atilde;o me parecia plantada para ficar in&uacute;til<br \/>\n      Desejaria o Senhor ser servido por ignorantes e idiotas? N&atilde;o &eacute;<br \/>\n      feito o esp&iacute;rito para esclarecer-se e aperfei&ccedil;oar-se? N&atilde;o<br \/>\n      se deve conhecer o bem e o mal para praticar o primeiro e evitar o segundo?<br \/>\n      Por certo s&oacute; me deviam agradecimentos.<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Dizem no entanto que vos sa&iacute;stes mal. Parece<br \/>\n      que &eacute; desde essa &eacute;poca que tantos ministros foram punidos<br \/>\n      por terem dado bons conselhos, e tantos verdadeiros s&aacute;bios e grandes<br \/>\n      g&ecirc;nios foram perseguidos por terem escrito coisas &uacute;teis ao<br \/>\n      g&ecirc;nero humano.<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; Decerto foram inimigos meus que vos contaram essas<br \/>\n      hist&oacute;rias. Andam a assoalhar que estou mal na Corte. Mas uma prova<br \/>\n      de que ainda tenho grande cr&eacute;dito por l&aacute; &eacute; que eles<br \/>\n      pr&oacute;prios confessam que eu entrei no conselho quando se tratou de<br \/>\n      p&ocirc;r Job &agrave; prova; e que tamb&eacute;m fui chamado quando se<br \/>\n      tomou a resolu&ccedil;&atilde;o de enganar a certo reisote por nome Achab<br \/>\n      (3) ; fui eu o &uacute;nico encarregado dessa nobre miss&atilde;o.<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Ah! N&atilde;o creio que vosso esp&iacute;rito seja<br \/>\n      afei&ccedil;oado aos enganos. Mas, j&aacute; que continuais no minist&eacute;rio,<br \/>\n      posso fazer-vos um pedido? Espero que uma autoridade t&atilde;o am&aacute;vel<br \/>\n      n&atilde;o me h&aacute;. de repelir&#8230;<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; Senhora, os vossos pedidos s&atilde;o leis. Que ordenais?<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Conjuro-vos a dizer-me o que vem a ser esse belo touro<br \/>\n      branco que me inspira sentimentos incompreens&iacute;veis que me enternecem<br \/>\n      e amedrontam. Disseram-me que ter&iacute;eis a condescend&ecirc;ncia de<br \/>\n      esclarecer-me.<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; Senhora, a curiosidade &eacute; necess&aacute;ria<br \/>\n      &agrave; natureza humana, e principalmente a vosso am&aacute;vel sexo; sem<br \/>\n      ela, ficar-se-ia vegetando na mais vergonhosa ignor&acirc;ncia. Sempre satisfiz,<br \/>\n      o mais que pude, a curiosidade das damas Acusam-me de n&atilde;o ter tido<br \/>\n      essa complac&ecirc;ncia sen&atilde;o para fazer birra ao senhor das coisas.<br \/>\n      Juro que o meu &uacute;nico objetivo &eacute; ser-vos agrad&aacute;vel;<br \/>\n      mas a velha j&aacute; vos deve ter avisado de que h&aacute; algum perigo<br \/>\n      para v&oacute;s na revela&ccedil;&atilde;o desse segredo.<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Ah! &eacute; isso que me torna ainda mais curiosa.<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; Reconhe&ccedil;o nessa atitude todas as belas damas<br \/>\n      a quem prestei servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Se tendes sensibilidade, se todos os seres se devem<br \/>\n      m&uacute;tuo auxilio, se sentis compaix&atilde;o por uma desgra&ccedil;ada,<br \/>\n      n&atilde;o me recuseis esse favor.<\/p>\n<p> A Serpente: V&oacute;s me partis o cora&ccedil;&atilde;o; tenho de satisfazer-vos;<br \/>\n      mas nada de interrup&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Prometo-o.<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; Havia um jovem rei, belo que nem uma pintura, apaixonado,<br \/>\n      amado&#8230;<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Um jovem rei! belo que nem uma pintura ,apaixonado,<br \/>\n      amado! e por quem? de quem? e quem era esse rei? e que idade tinha? que<br \/>\n      foi feito dele? onde est&aacute; ele? onde &eacute; o seu reino? qual &eacute;<br \/>\n      o seu nome?<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; Pois n&atilde;o &eacute; que j&aacute; me interrompeis,<br \/>\n      quando mal come&ccedil;o a falar?! Cuidado: se n&atilde;o tiverdes mais<br \/>\n      poder sobre v&oacute;s mesma, estais perdida.<\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Oh! perd&atilde;o. N&atilde;o mais serei indiscreta;<br \/>\n      continuai, por favor.<\/p>\n<p> A Serpente: &#8211; Esse grande rei, o mais am&aacute;vel e o mais corajoso<br \/>\n      dos homens, vitorioso por toda parte aonde houvesse levado as suas armas,<br \/>\n      costumava sonhar seguidamente. E, quando esquecia os sonhos, queria que<br \/>\n      os magos se lembrassem deles, e lhe contassem direitinho tudo o que havia<br \/>\n      sonhado, sem o que, mandava-os enforcar a todos, pois nada era mais justo.<br \/>\n      Ora, h&aacute; cerca de sete anos, teve ele um belo sonho, de que perdeu<br \/>\n      mem&oacute;ria ao despertar; e depois que um jovem judeu, cheio de experi&ecirc;ncia,<br \/>\n      lhe explicou o sonho, esse am&aacute;vel rei foi de s&uacute;bito transformado<br \/>\n      em boi (4): pois&#8230; <\/p>\n<p> A Princesa: &#8211; Ah! &eacute; o meu querido Nabu&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o p&ocirc;de terminar: caiu desfalecida. Mambr&eacute;s, que<br \/>\n      escutava de longe, viu-a tombar, e julgou-a morta<\/p>\n<h4><a name=\"4\">CAP&Iacute;TULO QUARTO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como quiseram sacrificar o boi e exorcismar a princesa.<\/b><\/p>\n<p> Mambr&eacute;s corre a ela, chorando. A serpente comove-se; n&atilde;o<br \/>\n      pode chorar, mas silva num tom l&uacute;gubre; e grita: &#8220;Ela est&aacute;<br \/>\n      morta!&#8221; A jumenta repete: &#8220;Ela est&aacute; morta!&#8221; O corvo<br \/>\n      o rediz; todos os outros animais parecem transidos de dor, exceto o peixe<br \/>\n      de Jonas, que sempre foi impiedoso. A dama de honra, as damas do pal&aacute;cio<br \/>\n      aproximam-se e arrancam os cabelos. O touro branco, que pastava ao longe<br \/>\n      e ouve os seus clamores, corre para o bosque, arrastando a velha e soltando<br \/>\n      mugidos cujos ecos reboam. Em v&atilde;o todas as damas derramavam sobre<br \/>\n      Amaside expirante os seus frascos de &aacute;gua de rosas, de cravo, de<br \/>\n      mirto, de benjoim, de b&aacute;lsamo de Meca, de canela, de am&ocirc;nio,<br \/>\n      de noz-moscada, de &acirc;mbar cinzento. A princesa n&atilde;o dava nenhum<br \/>\n      sinal de vida. Quando, por&eacute;m, sentiu o belo touro branco a seu lado,<br \/>\n      voltou a si mais fresca, mais bela, mais animada do que nunca. Deu mil beijos<br \/>\n      naquele animal encantador, que inclinava languidamente a bela cabe&ccedil;a<br \/>\n      sobre o seu seio de alabastro. Ela o chama: &#8220;Meu senhor, meu rei,<br \/>\n      meu cora&ccedil;&atilde;o, minha vida&#8221;. Envolve com seus bra&ccedil;os<br \/>\n      de marfim aquele pesco&ccedil;o mais branco do que a neve. Menos fortemente<br \/>\n      se liga a leve palha ao &acirc;mbar, a vinha ao olmo, a hera ao carvalho.<br \/>\n      Ouvia-se o suave murm&uacute;rio de seus suspiros; viam-se-lhe os olhos<br \/>\n      ora fulgurantes de amorosa flama, ora empanados com essas preciosas l&aacute;grimas<br \/>\n      que o amor faz derramar.<\/p>\n<p> Imagine-se em que surpresa n&atilde;o estariam mergulhadas a dama de honra<br \/>\n      e as damas de companhia! Logo que chegaram no pal&aacute;cio, contaram toda<br \/>\n      essa estranha aventura a seus res pectivos namorados, e cada uma com circunst&acirc;ncias<br \/>\n      diferentes que lhe aumentavam a singularidade e contribu&iacute;am para<br \/>\n      a variedade de todas as vers&otilde;es.<\/p>\n<p> Logo que Am&aacute;sis, rei de T&acirc;nis, foi informado do caso, seu<br \/>\n      cora&ccedil;&atilde;o real encheu-se de justa c&oacute;lera. Tal foi a indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      de Minos quando soube que sua filha Pasifa&eacute; prodigava seus ternos<br \/>\n      favores ao pai do Minotauro. Assim estremeceu Juno quando viu o seu esposo<br \/>\n      J&uacute;piter acariciar a bela vaca Io, filha do rio &Iacute;naco. Am&aacute;sis<br \/>\n      mandou encerrar a bela Amaside em seu quarto e p&ocirc;s-lhe &agrave; porta<br \/>\n      uma guarda de eunucos negros; depois convocou o conselho secreto.<\/p>\n<p> Presidia-o o grande m&aacute;gico Mambr&eacute;s, mas j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n      tinha o mesmo cr&eacute;dito de outrora. Todos os ministros de Estado conclu&iacute;ram<br \/>\n      que o touro branco era um feiticeiro. Dava-se exatamente o contr&aacute;rio:<br \/>\n      ele estava enfeiti&ccedil;ado; mas na corte sempre se enganam nesses delicados<br \/>\n      assuntos.<\/p>\n<p> Foi votado por unanimidade que se devia exorcismar a princesa e sacrificar<br \/>\n      o touro branco e a velha.<\/p>\n<p> O s&aacute;bio Mambr&eacute;s n&atilde;o queria impugnar a decis&atilde;o<br \/>\n      do rei e do conselho. Era a ele que competia fazer os exorcismos; podia<br \/>\n      diferi-los sob um pretexto bastante plaus&iacute;vel. Acabava de morrer<br \/>\n      em M&ecirc;nfis o deus &Aacute;pis. Pois um deus boi morre como qualquer<br \/>\n      boi. E no Egito n&atilde;o era permitido exorcismar ningu&eacute;m at&eacute;<br \/>\n      que se encontrasse um outro boi para substituir o defunto.<\/p>\n<p> O conselho resolveu esperar, pois, pela nomea&ccedil;&atilde;o do novo<br \/>\n      Deus em M&ecirc;nfis.<\/p>\n<p> O bom velho Mambr&eacute;s sentia a que perigo se achava exposta a sua<br \/>\n      querida princesa: sabia quem era o seu apaixonado. As s&iacute;labas Nabu,<br \/>\n      que ela deixara escapar, lhe haviam revelado todo o mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> A dinastia (5) de M&ecirc;nfis pertencia ent&atilde;o aos babil&ocirc;nios;<br \/>\n      conservavam eles esse resto das suas passadas conquistas, que haviam feito<br \/>\n      sob o maior rei do mundo, de que Am&aacute;sis era inimigo mortal. Mambr&eacute;s<br \/>\n      tinha necessidade de toda a sua sabedoria para bem se conduzir entre tantas<br \/>\n      dificuldades. Se o rei Am&aacute;sis descobrisse quem era o enamorado da<br \/>\n      princesa, ela estaria morta, jurara ele. O grande, o jovem, o belo rei por<br \/>\n      quem ela se apaixonara, tinha destronado o seu pai, que s&oacute; recuperara<br \/>\n      o reino de T&acirc;nis desde que se ignorava, fazia agora uns sete anos,<br \/>\n      o paradeiro do ador&aacute;vel monarca, o vencedor e &iacute;dolo das na&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n      o terno e generoso apaixonado da encantadora Amaside. Mas, sacrificando<br \/>\n      o touro, infalivelmente a fariam morrer de dor.<\/p>\n<p> Que poderia fazer Mambr&eacute;s em t&atilde;o espinhosas circunst&acirc;ncias?<br \/>\n      Vai procurar a princesa, ao sair do conselho, e diz-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Eu vos servirei, minha bela princesa; mas vos cortar&atilde;o<br \/>\n      o pesco&ccedil;o, repito-vos, se pronunciardes o nome de vosso amado.<\/p>\n<p> Ah! que me importa o meu pesco&ccedil;o &#8211; retruca a bela Amaside<br \/>\n      &#8211; se n&atilde;o posso enla&ccedil;ar o de Nabuco&#8230;? Meu pai &eacute;<br \/>\n      um homem muito mau! N&atilde;o s&oacute; recusou dar-me ao belo pr&iacute;ncipe<br \/>\n      que idolatro, mas declarou-lhe guerra; e, quando foi vencido pelo meu amado,<br \/>\n      descobriu o segredo de o transformar em boi. J&aacute; se viu mais tremenda<br \/>\n      mal&iacute;cia? Se meu pai n&atilde;o fosse meu pai, eu n&atilde;o sei o<br \/>\n      que lhe faria.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o foi vosso pai quem lhe pregou essa cruel partida &#8211;<br \/>\n      disse o s&aacute;bio Mambr&eacute;s. &#8211; Foi um palestino, um de nossos<br \/>\n      antigos inimigos, um habitante de um pequeno pa&iacute;s compreendido na<br \/>\n      multid&atilde;o dos Estados que o vosso augusto pretendente dominou para<br \/>\n      os civilizar. Essas metamorfoses n&atilde;o vos devem surpreender; bem sabeis<br \/>\n      que eu as fazia outrora muito mais belas: nada era mais comum ent&atilde;o<br \/>\n      do que essas mudan&ccedil;as que espantam hoje os s&aacute;bios. A hist&oacute;ria<br \/>\n      verdadeira que lemos juntos nos ensinou que Licaonte, rei da Arc&aacute;dia,<br \/>\n      foi transformado em lobo. A bela Calisto, sua filha, foi transformada em<br \/>\n      ursa; Io, filha de &Iacute;naco, a nossa vener&aacute;vel Isis em vaca;<br \/>\n      Dafne, em loureiro; Sirinx, em flauta. A bela Edith. mulher de Loth, o melhor,<br \/>\n      o mais carinhoso pai que j&aacute; se viu, n&atilde;o se mudou, em nossas<br \/>\n      vizinhan&ccedil;as, numa grande est&aacute;tua de sal muito bela e picante,<br \/>\n      que conservou todas as caracter&iacute;sticas do seu sexo e que tem mensalmente<br \/>\n      as suas regras (6), como o atestam os grandes homens que a viram? Fui testemunha<br \/>\n      dessa transforma&ccedil;&atilde;o, em minha juventude. Vi cinco poderosas<br \/>\n      cidades, no local mais seco e &aacute;rido do mundo, mudadas de s&uacute;bito<br \/>\n      em um belo lago. Ah! quando eu era mo&ccedil;o, s&oacute; se andava sobre<br \/>\n      metamorfoses. Enfim, Senhora, se os exemplos podem abrandar as vossas penas,<br \/>\n      lembrai-vos de que V&ecirc;nus transformou os Cerastes em bois.<\/p>\n<p> &#8212; Eu sei &#8211; murmurou a infeliz princesa. &#8211; mas quem disse<br \/>\n      que os exemplos consolam? Se o meu amado estivesse morto, acaso me consolaria<br \/>\n      a id&eacute;ia de que todos os homens morrem?<\/p>\n<p> &#8212; A vossa pena pode findar &#8211; disse o s&aacute;bio, &#8211;<br \/>\n      e j&aacute; que o vosso amado se transformou em boi, bem compreendeis que,<br \/>\n      de boi, poder&aacute; transformar-se em homem. Quanto a mim, deveria ser<br \/>\n      transformado em tigre ou em crocodilo, se n&atilde;o empregasse o pouco<br \/>\n      de poder que me resta a servi&ccedil;o de uma princesa digna das adora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n      da terra, a bela Amaside, a quem criei sobre os meus joelhos, e cujo fatal<br \/>\n      destino a submete a t&atilde;o cru&eacute;is prova&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">CAP&Iacute;TULO QUINTO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como o s&aacute;bio Mambr&eacute;s sabiamente se conduziu.<\/b><\/p>\n<p> Tendo dito &agrave; princesa tudo o que deveria dizer-lhe para a consolar,<br \/>\n      sem que ali&aacute;s o conseguisse, o divino Mambr&eacute;s foi imediatamente<br \/>\n      falar com a velha.<\/p>\n<p> &#8212; Minha camarada &#8211; come&ccedil;ou ele, &#8211; belo &eacute;<br \/>\n      o nosso of&iacute;cio, mas assaz perigoso: correis o risco de ser enforcada,<br \/>\n      e o vosso boi de ser queimado, ou afogado ou comido. N&atilde;o sei o que<br \/>\n      far&atilde;o dos outros animais, pois, embora profeta, de poucas coisas<br \/>\n      sou sabedor. Mas ocultai com todo o cuidado a serpente e o peixe; que um<br \/>\n      n&atilde;o ponha a cabe&ccedil;a fora d&#8217;&aacute;gua, e o outro n&atilde;o<br \/>\n      saia do seu buraco. Alojarei o boi em um dos meus est&aacute;bulos no campo;<br \/>\n      ali ficareis com ele, pois afirmais que n&atilde;o vos &eacute; permitido<br \/>\n      abandon&aacute;-lo. O bode emiss&aacute;rio poder&aacute; oportunamente<br \/>\n      servir de bode expiat&oacute;rio; n&oacute;s o enviaremos para o deserto,<br \/>\n      carregado dos pecados da tropa: est&aacute; acostumado a essa cerim&ocirc;nia,<br \/>\n      que n&atilde;o lhe faz mal nenhum; e &eacute; sabido que tudo se expia com<br \/>\n      um bode que passeia. Pe&ccedil;o-vos apenas que me empresteis desde j&aacute;<br \/>\n      o c&atilde;o de Tobias, que &eacute; um lebrel muito &aacute;gil, a jumenta<br \/>\n      de Bala&atilde;o, que corre mais que um dromed&aacute;rio; o corvo e a pomba<br \/>\n      da arca, que voam rapidamente. Quero envi&aacute;-los em embaixada a M&ecirc;nfis,<br \/>\n      para um assunto da m&aacute;xima import&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor &#8211; respondeu a velha ao mago, &#8211; podeis dispor<br \/>\n      &agrave; vontade do c&atilde;o de Tobias, da jumenta de Bala&atilde;o, do<br \/>\n      corvo e da pomba da arca, e do bode emiss&aacute;rio; mas o meu boi n&atilde;o<br \/>\n      pode dormir num est&aacute;bulo, Est&aacute; escrito que deve ficar preso<br \/>\n      a uma corrente de a&ccedil;o, estar sempre molhado de orvalho e pastar a<br \/>\n      relva sobre a terra (7) e que a sua por&ccedil;&atilde;o ser&aacute; com<br \/>\n      os animais selvagens. Ele me foi confiado, e eu devo obedecer. Que pensariam<br \/>\n      de mim Daniel, Ezequiel e Jeremias, se eu entregasse o meu boi a outras<br \/>\n      pessoas? Vejo que conheceis o segredo desse estranho animal. N&atilde;o<br \/>\n      tenho que censurar-me dessa revela&ccedil;&atilde;o. Vou lev&aacute;-lo<br \/>\n      para longe, desta terra impura, para o lago de Sirbon, longe das crueldades<br \/>\n      do rei de T&acirc;nis, O meu peixe e a minha serpente me defender&atilde;o;<br \/>\n      n&atilde;o temo a ningu&eacute;m quando sirvo a meu senhor.O s&aacute;bio<br \/>\n      Mambr&eacute;s assim lhe retrucou:<\/p>\n<p> &#8212; Fa&ccedil;a-se a vontade do Senhor! Contanto que eu encontre o<br \/>\n      nosso touro branco, n&atilde;o me importa nem o lago de Sirbon, nem o lago<br \/>\n      de Moeris, nem o lago de Sodoma; s&oacute; quero fazer-lhe bem, e a v&oacute;s<br \/>\n      igualmente. Mas por que me falastes de Daniel, de Ezequiel e de Jeremias?<\/p>\n<p> &#8212; Ah! senhor &#8211; tornou a velha, &#8211; sabeis t&atilde;o bem<br \/>\n      quanto eu o interesse que eles t&ecirc;m neste grave assunto. Mas n&atilde;o<br \/>\n      tenho tempo a perder; n&atilde;o quero ser enforcada; n&atilde;o quero que<br \/>\n      o meu touro seja queimado, ou afogado, ou comido. Vou para o lago de Sirbon,<br \/>\n      por Canope, com a minha serpente e o meu peixe. Adeus.<\/p>\n<p> O touro a seguiu pensativo, depois de haver testemunhado ao bom Mambr&eacute;s<br \/>\n      o reconhecimento que lhe devia.<\/p>\n<p> O s&aacute;bio Mambr&eacute;s achava-se numa cruel inquieta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n      Bem sabia que Am&aacute;sis, rei de T&acirc;nis, desesperado com a louca<br \/>\n      paix&atilde;o da sua filha pelo animal, e julgando-a enfeiti&ccedil;ada,<br \/>\n      mandaria perseguir por toda parte o infeliz touro, e que este seria infalivelmente<br \/>\n      queimado, como feiticeiro, na pra&ccedil;a p&uacute;blica de T&acirc;nis,<br \/>\n      ou entregue ao peixe de Jonas, ou queimado, ou servido &agrave; mesa. Queria,<br \/>\n      por qualquer pre&ccedil;o, poupar esse desgosto &agrave; princesa.<\/p>\n<p> Escreveu uma carta ao gr&atilde;o-sacerdote de M&ecirc;nfis, seu amigo,<br \/>\n      em caracteres sagrados, e em papel do Egito, que ainda n&atilde;o estava<br \/>\n      em uso. Eis, textualmente, o que dizia a carta:<\/p>\n<p> Luz do mundo, lugar-tenente de Isis, de Osiris e de H&oacute;rus, chefe<br \/>\n      dos circuncisos, &oacute; vos cujo altar se eleva, como &eacute; de justi&ccedil;a,<br \/>\n      acima de todos os tronos, acabo de saber que &eacute; morto vosso deus,<br \/>\n      o boi &Aacute;pis. Tenho outro a vosso dispor. Vinde depressa, com os vossos<br \/>\n      sacerdotes, reconhec&ecirc;-lo, ador&aacute;-lo, e conduzi-lo ao est&aacute;bulo<br \/>\n      de vosso templo. Que Isis, Osiris e H&oacute;rus vos tenham na sua santa<br \/>\n      e digna guarda; e a v&oacute;s senhores sacerdotes de M&ecirc;nfis, na sua<br \/>\n      santa guarda!<\/p>\n<p> Vosso afei&ccedil;oado amigo<\/p>\n<p> MAMBR&Eacute;S<\/p>\n<p> Fez quatro duplicatas dessa carta, por medo de algum acidente, e encerrou-os<br \/>\n      em estojos do mais rijo &eacute;bano. Chamando depois os quatro portadores<br \/>\n      que destinava para essa mensagem (eram a jumenta, o c&atilde;o, o corvo<br \/>\n      e a pomba), disse &agrave; jumenta:<\/p>\n<p> &#8212; Sei com que fidelidade serviste a meu confrade Bala&atilde;o;<br \/>\n      serve-me agora da mesma forma. N&atilde;o h&aacute; onocr&oacute;talo que<br \/>\n      te iguale na corrida; vai, minha amiga, entrega a minha carta em m&atilde;o<br \/>\n      pr&oacute;pria e regressa logo.<\/p>\n<p> &#8212; Como servi a Bala&atilde;o &#8211; respondeu a jumenta, &#8211;<br \/>\n      servirei a monsenhor: vou e volto.<\/p>\n<p> O s&aacute;bio lhe p&ocirc;s o estojo de &eacute;bano na boca e ela partiu<br \/>\n      como um raio.<\/p>\n<p> Mandou depois chamar o c&atilde;o de Tobias e disse-lhe: &#8211; C&atilde;o<br \/>\n      fiel, e mais veloz na corrida do que Aquiles dos p&eacute;s r&aacute;pidos,<br \/>\n      eu sei o que fizeste por Tobias, filho de Tobias, quando tu e o anjo Rafael<br \/>\n      o acompanhaste a de N&iacute;nive a Rag&eacute;s, na M&eacute;dia, e de<br \/>\n      Rag&eacute;s a N&iacute;nive, e quando ele trouxe a seu pai dez talentos<br \/>\n      (8) que o escravo Tobias pai emprestara ao escravo Gabelus; pois aqueles<br \/>\n      escravos eram muito ricos.<\/p>\n<p> Entrega a seu destinat&aacute;rio esta carta minha, que &eacute; mais<br \/>\n      preciosa do que dez talentos de prata.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor &#8211; respondeu-lhe o c&atilde;o, &#8211; se eu segui<br \/>\n      outrora o mensageiro Rafael, posso igualmente desincumbir-me de vosso recado.<br \/>\n      Mambr&eacute;s lhe p&ocirc;s a carta na boca. E falou da mesma forma &agrave;<br \/>\n      pomba. Esta lhe respondeu:<\/p>\n<p> Senhor, se eu trouxe um ramo para a arca, igualmente trarei resposta &agrave;<br \/>\n      vossa carta.<\/p>\n<p> Tomou a carta no bico. E os tr&ecirc;s, num instante, perderam-se de vista.<br \/>\n      Depois disse ele ao corvo:<\/p>\n<p> &#8212; Sei que alimentaste o grande profeta Elias (9), quando ele estava<br \/>\n      oculto junto ao C&aacute;rites, t&atilde;o famoso em toda a terra. Todos<br \/>\n      os dias tu lhe levavas bom p&atilde;o e galinhas gordas; s&oacute; te pe&ccedil;o<br \/>\n      que leves esta carta a M&ecirc;nfis.<\/p>\n<p> O corvo respondeu-lhe nos seguintes termos:<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade, senhor, que eu levava diariamente comida ao<br \/>\n      grande profeta Elias, o tesbita, a quem vi subir na atmosfera sobre um carro<br \/>\n      de fogo puxado por quatro cavalos de fogo, embora n&atilde;o seja esse o<br \/>\n      costume; mas eu sempre ficava cm metade do almo&ccedil;o para mim. Estou<br \/>\n      disposto a levar vossa carta, contanto que me assegureis duas boas refei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n      por dia e que meu servi&ccedil;o seja pago &agrave; vista, adiantadamente.<\/p>\n<p> Mambr&eacute;s, fulo de raiva, disse ao animal:<\/p>\n<p> &#8212; Que glut&atilde;o e velhaco me sa&iacute;ste! N&atilde;o me admira<br \/>\n      que Apolo, de branco que eras como um cisne, te haja tornado negro como<br \/>\n      uma toupeira, quando, nas plan&iacute;cies de Tess&aacute;lia, tra&iacute;ste<br \/>\n      a bela Cor&ocirc;nis, infeliz m&atilde;e de Escul&aacute;pio. Dize-me uma<br \/>\n      coisa: comias diariamente lombo de vaca e frangos, durante os dez meses<br \/>\n      em que estiveste na arca?<\/p>\n<p> &#8212; Senhor, n&oacute;s ali pass&aacute;vamos muito bem &#8211; retrucou<br \/>\n      o corvo. &#8211; Serviam assado duas vezes por dia a todos os vol&aacute;teis<br \/>\n      da minha esp&eacute;cie, que s&oacute; vivem de ca&ccedil;a, como abutres,<br \/>\n      milhafres, &aacute;guias, b&uacute;tios, duques, gavi&otilde;es, falc&otilde;es,<br \/>\n      corujas, e &agrave; inumer&aacute;vel multid&atilde;o das aves de rapina.<br \/>\n      Com muito maior profus&atilde;o guarneciam a mesa dos le&otilde;es, dos<br \/>\n      leopardos, dos tigres, das panteras, das on&ccedil;as, das hienas, dos lobos,<br \/>\n      doa ursos, das raposas, das fuinhas, e de todos os quadr&uacute;pedes carn&iacute;voros.<br \/>\n      Havia na arca oito pessoas importantes, e as &uacute;nicas que ent&atilde;o<br \/>\n      existiam no mundo, incessantemente ocupadas com a nossa mesa e a limpeza<br \/>\n      das nossas privadas, a saber: No&eacute; e sua mulher, que n&atilde;o tinham<br \/>\n      mais de seiscentos anos, e seus tr&ecirc;s filhos com as respectivas esposas.<br \/>\n      Era um gosto ver com que cuidado, com que asseio, os nossos oito criados<br \/>\n      atendiam a mais de quatro mil comensais do mais voraz apetite, sem contar<br \/>\n      o prodigioso trabalho que exigiam outras dez a doze mil criaturas, desde<br \/>\n      o elefante e a girafa aos bichos de seda e &agrave;s moscas. O que me espanta<br \/>\n      &eacute; que o nosso despenseiro No&eacute; seja desconhecido de todas as<br \/>\n      na&ccedil;&otilde;es de que ele &eacute; o tronco; mas isso pouco me importa.<br \/>\n      J&aacute; estive em festa semelhante (10) com o rei Xisutra da Tr&aacute;cia.<br \/>\n      Essas coisas acontecem de tempos em tempos para edifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      dos corvos. Numa palavra, quero passar bem e ser muito bem pago, em dinheiro<br \/>\n      &agrave; vista.<\/p>\n<p> O s&aacute;bio Mambr&eacute;s desistiu de entregar sua carta a um animal<br \/>\n      t&atilde;o dif&iacute;cil de contentar e t&atilde;o tagarela. &#8211; Separaram-se<br \/>\n      muito descontentes um com o outro.<\/p>\n<p> Era preciso no entanto saber o que era feito do belo touro e n&atilde;o<br \/>\n      perder a pista da velha e da serpente. Mambr&eacute;s ordenou a criados<br \/>\n      inteligentes e fi&eacute;is que os seguissem; quanto a ele, avan&ccedil;ou<br \/>\n      de liteira para as margens do Nilo, sempre absorto em suas reflex&otilde;es.<\/p>\n<p> Como pode ser (dizia consigo) que essa serpente domine quase toda a terra,<br \/>\n      como ela pr&oacute;pria alardeia e tantos eruditos confessam, e no entanto<br \/>\n      obede&ccedil;a a uma velha? Como se explica que seja &agrave;s vezes convocada<br \/>\n      para o conselho das alturas, quando vive a rastejar na terra? Por que, por<br \/>\n      sua &uacute;nica virtude, entra diariamente no corpo das pessoas, de onde<br \/>\n      tantos s&aacute;bios procuram desaloj&aacute;-la com palavras. Enfim, como<br \/>\n      passa, entre um pequeno povo da vizinhan&ccedil;a, por haver perdido o g&ecirc;nero<br \/>\n      humano, e como &eacute; que o g&ecirc;nero humano nada sabe a esse respeito?<br \/>\n      Estou muito velho, estudei durante a vida inteira, e vejo nisso uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      de incompatibilidades que n&atilde;o posso conciliar. N&atilde;o saberia<br \/>\n      explicar o que aconteceu a mim mesmo, nem as grandes coisas que fiz outrora,<br \/>\n      nem aquelas de que fui testemunha. Pensando bem, come&ccedil;o a suspeitar<br \/>\n      que este mundo subsiste &agrave; custa de contradi&ccedil;&otilde;es: Rerum<br \/>\n      concordia discors, como outrora dizia na sua l&iacute;ngua o meu velho mestre<br \/>\n      Zoroastro.<\/p>\n<p> Enquanto se achava mergulhado nessa metaf&iacute;sica obscura, como o<br \/>\n      &eacute; toda metaf&iacute;sica, um barqueiro, cantando uma can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      de taberna, fez atracar &agrave; margem um pequeno barco. Dele sa&iacute;ram<br \/>\n      tr&ecirc;s graves personagens, semivestidos de trapos sujos, mas que conservavam,<br \/>\n      sob aquela indument&aacute;ria de mis&eacute;ria, o ar mais augusto e majestoso<br \/>\n      do mundo. Eram Daniel, Ezequiel e Jeremias.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">CAP&Iacute;TULO SEXTO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como Mambr&eacute;s encontrou tr&ecirc;s profetas e lhes ofereceu<br \/>\n      um bom almo&ccedil;o.<\/b><\/p>\n<p> Esses tr&ecirc;s grandes homens, que tinham na face a luz prof&eacute;tica,<br \/>\n      reconheceram o s&aacute;bio Mambr&eacute;s como um de seus confrades, pelos<br \/>\n      poucos raios dessa mesma luz que ainda lhe restavam, e prosternaram-se diante<br \/>\n      do seu palanquim. Mambr&eacute;s tamb&eacute;m os reconheceu como profetas,<br \/>\n      mais pela sua indument&aacute;ria do que pelos raios que partiam daquelas<br \/>\n      augustas cabe&ccedil;as. Desconfiou que vinham saber not&iacute;cias do<br \/>\n      touro branco; e, usando da sua prud&ecirc;ncia ordin&aacute;ria, desceu<br \/>\n      da viatura e avan&ccedil;ou alguns passos ao encontro deles, com um misto<br \/>\n      de polidez e dignidade. F&ecirc;-los erguerem-se, mandou armar tendas e<br \/>\n      preparar um almo&ccedil;o, de que julgava muito necessitados os tr&ecirc;s<br \/>\n      profetas.<\/p>\n<p> Mandou convidar a velha, que se achava a uns quinhentos passos. Ela compareceu,<br \/>\n      sempre trazendo a cabresto o touro branco.<\/p>\n<p> Serviram duas sopas, uma de caranguejo, outra &agrave; la reine; as entradas<br \/>\n      consistiram de uma torta de l&iacute;ngua de carpa, de f&iacute;gados de<br \/>\n      lota e s&ocirc;lha de frangos com pistache, de pombinhos com trufas e azeitonas,<br \/>\n      de dois perus com molho de lagosta, cogumelos e morchelas e uma chipolata.<br \/>\n      Os assados eram constitu&iacute;dos de fais&otilde;es, perdizes, gelinotas,<br \/>\n      codornizes e hortulanas, com quatro saladas. No meio havia um centro-de-mesa<br \/>\n      do melhor gosto. Nada foi mais delicado que o entremets; nada mais magn&iacute;fico,<br \/>\n      mais brilhante e engenhoso que a sobremesa.<\/p>\n<p> De resto, o discreto Mambr&eacute;s tivera o m&aacute;ximo cuidado de<br \/>\n      que n&atilde;o houvesse naquela refei&ccedil;&atilde;o, nem cozidos, nem<br \/>\n      lombo, nem l&iacute;ngua, nem palato de boi, nem ubres de vaca, de medo<br \/>\n      que o infortunado monarca, assistindo de longe ao almo&ccedil;o fosse pensar<br \/>\n      que o insultavam.<\/p>\n<p> Esse grande e infeliz pr&iacute;ncipe pastava perto da tenda. Nunca sentiu<br \/>\n      t&atilde;o cruelmente a fatal revolu&ccedil;&atilde;o que por sete anos<br \/>\n      inteiros o tinha privado do trono.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! &#8211; suspirava ele, &#8211; esse Daniel, que me transformou<br \/>\n      em touro, e essa feiticeira, que me guarda, gozam o melhor passadio do mundo;<br \/>\n      e eu, o soberano da &Aacute;sia, vejo-me reduzido a comer capim e a beber<br \/>\n      &aacute;gua!<\/p>\n<p> Beberam; &agrave; farta, vinho de Engaddi, de Tadmor e de Chiraz. Quando<br \/>\n      ficaram um pouco tocados, os profetas e a pitonisa puseram-se a falar com<br \/>\n      mais franqueza do que durante os primeiros pratos.<\/p>\n<p> &#8212; Confesso &#8211; disse Daniel &#8211; que n&atilde;o passava t&atilde;o<br \/>\n      bem quando me achava na cova dos le&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Como! Puseram-vos na cova dos le&otilde;es?! &#8211; exclamou<br \/>\n      Mambr&eacute;s. &#8211; E como n&atilde;o fostes devorado?<\/p>\n<p> &#8212; Senhor &#8211; respondeu Daniel, &#8211; bem sabeis que os le&otilde;es<br \/>\n      nunca devoram profetas.<\/p>\n<p> &#8212; Quanto a mim &#8211; disse Jeremias, &#8211; passei toda a vida<br \/>\n      a morrer de fome; nunca fiz uma boa refei&ccedil;&atilde;o, a n&atilde;o<br \/>\n      ser hoje. Se tivesse de renascer, e pudesse escolher a minha condi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      confesso que estimaria mil vezes mais ser inspetor geral, ou bispo em Babil&ocirc;nia,<br \/>\n      que profeta em Jerusal&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Pois a mim &#8211; confessou Ezequiel, &#8211; ordenaram-me uma<br \/>\n      vez que dormisse trezentos e noventa dias seguido sobre o lado esquerdo,<br \/>\n      e que, durante todo esse tempo, comesse p&atilde;o de cevada, de milho,<br \/>\n      de ervilha&ccedil;a, de fava e de trigo, coberto com&#8230; (11) nem ouso diz&ecirc;-lo.<br \/>\n      O mais que pude obter foi o privil&eacute;gio de o cobrir apenas com bosta<br \/>\n      de vaca. Confesso que a cozinha do senhor Mambr&eacute;s &eacute; mais delicada.<br \/>\n      Contudo, o of&iacute;cio de profeta tem o seu lado bom: e a prova disso<br \/>\n      &eacute; que h&aacute; tanta gente que se mete a profeta.<\/p>\n<p> &#8212; A prop&oacute;sito &#8211; disse Mambr&eacute;s, &#8211; explicai-me<br \/>\n      o que entendeis pelo vosso Oolla e o vosso Ooliba, que tanto se preocupavam<br \/>\n      com cavalos e burros.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; respondeu Ezequiel, &#8211; s&atilde;o flores de ret&oacute;rica.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s essas expans&otilde;es, Mambr&eacute;s falou de neg&oacute;cios.<br \/>\n      Perguntou aos tr&ecirc;s peregrinos por que tinham vindo aos Estados do<br \/>\n      rei de T&acirc;nis. Daniel tomou a palavra: disse que o reino de Babil&ocirc;nia<br \/>\n      ficara em polvorosa ap&oacute;s o desaparecimento de Nabucodonosor; que<br \/>\n      haviam perseguido todos os profetas, segundo o costume da Corte; que eles,<br \/>\n      profetas, passavam a exist&ecirc;ncia ora vendo reis a seus p&eacute;s,<br \/>\n      ora recebendo a&ccedil;oites; que enfim tinham sido obrigados a refugiar-se<br \/>\n      no Egito, para n&atilde;o ser lapidados. Ezequiel e Jeremias tamb&eacute;m<br \/>\n      falaram, longamente, num bel&iacute;ssimo estilo, que mal se podia compreender.<br \/>\n      Quanto &agrave; pitonisa, trazia sempre o seu animal de olho. O peixe de<br \/>\n      Jonas mantinha-se no Nilo, defronte &agrave; tenda, e a serpente espairecia<br \/>\n      sobre a relva. Depois do caf&eacute;, foram passear &agrave; margem do Nilo.<br \/>\n      Ent&atilde;o o touro branco, avistando os profetas seus inimigos, soltou<br \/>\n      terr&iacute;veis mugidos; lan&ccedil;ou-se impetuosamente sobre eles, com<br \/>\n      os cornos em riste; e, como os profetas nunca tiveram mais que pele e osso,<br \/>\n      fatalmente os teria atravessado de um lado a outro, tirando-lhes a vida;<br \/>\n      mas o Senhor das coisas, que v&ecirc; tudo e a tudo remedeia, transformou-os<br \/>\n      imediatamente em gralhas, e eles continuaram a falar como dantes.<\/p>\n<p> A mesma coisa aconteceu depois &agrave;s Pi&eacute;rides, de tal modo<br \/>\n      a f&aacute;bula imita a hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> Esse, novo incidente provocava novas reflex&otilde;es no esp&iacute;rito<br \/>\n      do s&aacute;bio Mambr&eacute;s.<\/p>\n<p> Eis, pois, (dizia ele consigo) tr&ecirc;s grandes profetas transformados<br \/>\n      em gralhas; isto nos deve ensinar a n&atilde;o falar demais e a guardar<br \/>\n      sempre uma conveniente discri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Conclu&iacute;a que a sabedoria vale mais que a eloq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n      e meditava profundamente, segundo o seu costume, quando um grande e terr&iacute;vel<br \/>\n      espet&aacute;culo lhe ofuscou os olhos.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">CAP&Iacute;TULO S&Eacute;TIMO<\/a><\/h4>\n<p> <b>Chega o rei de T&acirc;nis. Sua filha e o touro v&atilde;o ser sacrificados.<\/b><\/p>\n<p> Turbilh&otilde;es de poeira erguiam-se de sul a norte. Ouvia-se o ru&iacute;do<br \/>\n      dos tambores, das trombetas, dos p&iacute;fanos, dos salt&eacute;rios, das<br \/>\n      citaras, dos sambucos; v&aacute;rios esquadr&otilde;es com v&aacute;rios<br \/>\n      batalh&otilde;es avan&ccedil;avam, e Am&aacute;sis, rei de T&acirc;nis,<br \/>\n      vinha &agrave; sua frente, num cavalo coberto de um xairel escarlate recamado<br \/>\n      a ouro; e os arautos gritavam:<\/p>\n<p> &#8212; &#8220;Que apanhem o touro branco, que o amarrem, que o lancem<br \/>\n      ao Nilo, e que o d&ecirc;em de comer ao peixe de Jonas: pois o rei meu senhor,<br \/>\n      que &eacute; justo, quer vingar-se do touro branco, que enfeiti&ccedil;ou<br \/>\n      a sua filha.&#8221;<\/p>\n<p> O bom velho Mambr&eacute;s fez mais reflex&otilde;es do que nunca. Compreendeu<br \/>\n      que o perverso corvo fora contar tudo ao rei e que a princesa corria o risco<br \/>\n      de lhe cortarem o pesco&ccedil;o. Disse ent&atilde;o &agrave; serpente:<\/p>\n<p> &#8212; Corre a consolar a bela Amaside; dize-lhe que n&atilde;o tema<br \/>\n      coisa alguma, haja o que houver, e conta-lhe hist&oacute;rias distrair suas<br \/>\n      penas, pois as hist&oacute;rias sempre divertem as mo&ccedil;as, e &eacute;<br \/>\n      com hist&oacute;rias que a gente vence na vida .<\/p>\n<p> Depois prosternou-se diante de Am&aacute;sis, rei de T&acirc;nis, e disse-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; rei! que vivas para sempre. O touro branco deve ser sacrificado,<br \/>\n      pois Vossa Majestade tem sempre raz&atilde;o, mas o Senhor das coisas disse:<br \/>\n      Esse touro s&oacute; deve ser comido pelo peixe de Jonas depois que M&ecirc;nfis<br \/>\n      houver encontrado um deus para colocar no lugar do seu deus que &eacute;<br \/>\n      morto. Ent&atilde;o sereis vingado, e vossa filha exorcismada, pois ela<br \/>\n      est&aacute; possessa. Tendes bastante religi&atilde;o para n&atilde;o obedecer<br \/>\n      &agrave;s ordens do Senhor das coisas.<\/p>\n<p> Am&aacute;sis, rei de T&acirc;nis, ficou pensativo; depois disse:<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; morto o boi &Aacute;pis; que Deus lhe tenha a alma! Quando<br \/>\n      acreditais que se possa achar outro boi para reinar sobre fecundo Egito?<\/p>\n<p> &#8212; Sire &#8211; disse Mambr&eacute;s, &#8211; n&atilde;o vos pe&ccedil;o<br \/>\n      mais que oito dias.<\/p>\n<p> O rei, que era muito devoto, disse:<\/p>\n<p> &#8212; Concedo-os, e quero permanecer aqui esses oito dias; ap&oacute;s<br \/>\n      o que, sacrificarei o sedutor de minha filha.<\/p>\n<p> E mandou vir suas tendas, seus cozinheiros, seus m&uacute;sicos, e permaneceu<br \/>\n      oito dias naquele local, como est&aacute; escrito em Manethon.<\/p>\n<p> A velha desesperava-se por ver que o touro a que guardava n&atilde;o tinha<br \/>\n      mais que oito dias de vida. Todas as noites, fazia ela aparecerem fantasmas<br \/>\n      ao rei, para o desviar de seu cruel des&iacute;gnio. Mas o rei, pela manh&atilde;,<br \/>\n      n&atilde;o se lembrava mais dos fantasmas que vira &agrave; noite, da mesma<br \/>\n      forma que Nabucodonosor esquecera os seus sonhos.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">CAP&Iacute;TULO OITAVO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como a serpente contou hist&oacute;rias &agrave; princesa, para<br \/>\n      a consolar.<\/b> <\/p>\n<p> E a serpente contava hist&oacute;rias &agrave; bela Amaside, para acalmar<br \/>\n      seus sofrimentos. Dizia-lhe como curara outrora um povo inteiro da mordedura<br \/>\n      de certas pequenas cobras, apenas mostrando-se na extremidade de um bast&atilde;o.<br \/>\n      Narrava-lhe as conquistas do her&oacute;i que fez t&atilde;o belo contraste<br \/>\n      com Anfi&atilde;o, arquiteto de Tebas, na Be&oacute;cia. Esse Anfi&atilde;o<br \/>\n      fazia amontoarem-se as pedras de cantaria ao som do violino: bastava-lhe<br \/>\n      um rigod&atilde;o ou um minuete para construir uma cidade; mas o outro as<br \/>\n      destru&iacute;a ao som de uma corneta de chifre; mandou enforcar trinta<br \/>\n      e um poderosos reis num cant&atilde;o de dezesseis l&eacute;guas quadradas;<br \/>\n      fez chover grandes pedras do c&eacute;u sobre um batalh&atilde;o de inimigos<br \/>\n      que lhe fugiam; e, tendo-os assim exterminado, fez parar o sol e a lua em<br \/>\n      pleno meio-dia para os exterminar de novo entre Gabaon e Aialon, no caminho<br \/>\n      de Bethhoron, a exemplo de Baco que, na sua viagem &agrave;s &Iacute;ndias,<br \/>\n      mandara parar o sob e a lua. A prud&ecirc;ncia que deve ter toda serpente<br \/>\n      n&atilde;o lhe permitiu falar &agrave; bela Amaside do poderoso bastardo<br \/>\n      Jeft&eacute;, que cortou o pesco&ccedil;o &agrave; filha porque havia vencido<br \/>\n      uma batalha; teria enchido de terror o cora&ccedil;&atilde;o da bela princesa;<br \/>\n      mas contou-lhe as aventuras do grande Sans&atilde;o, que matava mil filisteus<br \/>\n      com uma queixada de burro, que atava trezentas raposas pela cauda, e que<br \/>\n      tombou nos la&ccedil;os de uma rapariga menos bela, menos terna e menos<br \/>\n      fiel que a encantadora Amaside.<\/p>\n<p> Contava-lhe os desgra&ccedil;ados amores de Siquem e da am&aacute;vel<br \/>\n      Dina, que tinha seis anos de idade, e os amores mais felizes de Booz e de<br \/>\n      Ruth, os de Jud&aacute; com a sua nora Tamar, os de Loth com as suas duas<br \/>\n      filhas que n&atilde;o queriam que o mundo acabasse, os de Abra&atilde;o<br \/>\n      e de Jacob com suas criadas, os de Rubem com sua m&atilde;e, os de David<br \/>\n      e Betsab&eacute;, os do grande rei Salom&atilde;o, em suma, tudo quanto<br \/>\n      pudesse dissipar as penas de uma bela princesa.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">CAP&Iacute;TULO NONO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como a serpente n&atilde;o a consolou.<\/b><\/p>\n<p> Essas hist&oacute;rias me aborrecem &#8211; respondeu a bela Amaside,<br \/>\n      que tinha intelig&ecirc;ncia e bom gosto. &#8211; S&oacute; servem para<br \/>\n      ser comentadas entre os irlandeses por esse louco do Abbadie, ou entre os<br \/>\n      velches por esse frasista do Houteville As hist&oacute;rias que podiam contar<br \/>\n      &agrave; tatarav&oacute; da tatarav&oacute; da minha av&oacute; j&aacute;<br \/>\n      n&atilde;o servem para mim, que fui educada pelo s&aacute;bio Mambr&eacute;s<br \/>\n      e que li o Entendimento Humano do fil&oacute;sofo eg&iacute;pcio chamado<br \/>\n      Locke e a Matrona de &Eacute;feso. Quero uma hist&oacute;ria que seja fundada<br \/>\n      na verossimilhan&ccedil;a e que n&atilde;o se assemelhe sempre a um sonho.<br \/>\n      Desejo que n&atilde;o tenha nada de trivial nem de extravagante. Desejaria<br \/>\n      sobretudo que, sob o v&eacute;u da f&aacute;bula, deixasse transparecer<br \/>\n      aos olhos exercitados alguma fina verdade que escapa ao vulgo. Estou cansada<br \/>\n      do sol e da lua de que uma velha disp&otilde;e a seu bel-prazer, das montanhas<br \/>\n      que dan&ccedil;am, dos rios que remontam &agrave; sua fonte, e dos mortos<br \/>\n      que ressuscitam; mas, quando essas tolices s&atilde;o escritas em estilo<br \/>\n      empolado e inintelig&iacute;vel, ai sim, que me desgostam horrivelmente.<br \/>\n      Bem compreendeis que uma pobre mo&ccedil;a que receia ver seu amado engolido<br \/>\n      por um grande peixe e ser ela pr&oacute;pria decapitada pelo pr&oacute;prio<br \/>\n      pai, tem muita necessidade de que a divirtam; mas tratai de divertir-me<br \/>\n      conforme o meu gosto.<\/p>\n<p> &#8212; Dif&iacute;cil coisa me ordenais &#8211; respondeu a serpente.<br \/>\n      &#8211; Antigamente poderia eu fazer-vos passar alguns quartos de hora bastante<br \/>\n      agrad&aacute;veis; mas perdi h&aacute; algum tempo a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      e a mem&oacute;ria. Ai! onde est&atilde;o os tempos em que eu divertia as<br \/>\n      mo&ccedil;as? Vejamos no entanto se poderei lembrar-me de algum conto moral,<br \/>\n      para vos ser agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> H&aacute; vinte e cinco mil anos, o rei Gnaof e a rainha Patra ocupavam<br \/>\n      o trono da Tebas das cem portas. O rei Gnaof era muito belo, e a rainha<br \/>\n      Patra ainda mais bela; mas n&atilde;o podiam ter filhos. O rei Gnaof instituiu<br \/>\n      um pr&ecirc;mio para quem indicasse o melhor m&eacute;todo de perpetuar<br \/>\n      a ra&ccedil;a real.<\/p>\n<p> A Faculdade de Medicina e a Academia de Cirurgia fizeram excelentes tratados<br \/>\n      sobre essa importante quest&atilde;o: nenhum vingou. Mandaram a rainha a<br \/>\n      banhos; ela rezou novenas; deu muito dinheiro ao templo de J&uacute;piter<br \/>\n      Amon, de onde vem o sal amon&iacute;aco: tudo in&uacute;til. Afinal apresentou-se<br \/>\n      ao rei um jovem sacerdote de vinte e cinco anos, que lhe disse: &#8211;<br \/>\n      Sire, creio que sei fazer o exorcismo necess&aacute;rio para o que Vossa<br \/>\n      Majestade deseja com tanto ardor. &Eacute; preciso que eu fale em segredo<br \/>\n      ao ouvido da senhora vossa esposa; e, se ela n&atilde;o se tornar fecunda,<br \/>\n      consinto em ser enforcado. &#8211; Aceito a vossa proposta &#8211; disse<br \/>\n      o rei Gnaof.<\/p>\n<p> A rainha e o sacerdote ficaram juntos apenas durante um quarto de hora.<br \/>\n      A rainha ficou gr&aacute;vida, e o rei quis mandar enforcar o sacerdote.<\/p>\n<p> &#8212; Meu Deus! &#8211; exclamou a princesa, &#8212; sei no que d&atilde;o<br \/>\n      essas coisas: essa &eacute; uma hist&oacute;ria muito comum; direi at&eacute;<br \/>\n      que escandaliza o meu pudor. Contai-me qualquer f&aacute;bula bem verdadeira,<br \/>\n      bem averiguada e bem moral, de que nunca me tenham falado, para que eu termine<br \/>\n      de me formar o esp&iacute;rito e o cora&ccedil;&atilde;o, como diz o professor<br \/>\n      eg&iacute;pcio Linro.<\/p>\n<p> &#8212; Eis aqui uma, Senhora &#8211; disse a bela serpente &#8211; e<br \/>\n      que &eacute; das mais aut&ecirc;nticas.<\/p>\n<p> Havia tr&ecirc;s profetas, todos eles igualmente ambiciosos e aborrecidos<br \/>\n      da sua condi&ccedil;&atilde;o. Sua loucura consistia em quererem ser reis;<br \/>\n      pois de profeta a monarca n&atilde;o h&aacute; mais que um passo, e o homem<br \/>\n      aspira sempre a subir todos os degraus da escada da fortuna. Ali&aacute;s,<br \/>\n      os seus gostos e prazeres eram absolutamente diversos. O primeiro pregava<br \/>\n      admiravelmente ante seus irm&atilde;os reunidos, que lhe batiam palmas;<br \/>\n      o segundo era louco por m&uacute;sica; e o terceiro amava apaixonadamente<br \/>\n      as mulheres. O anjo Ituriel apresentou-se a eles, num dia em que estavam<br \/>\n      &agrave; mesa e falavam sobre as do&ccedil;uras do trono.<\/p>\n<p> &#8212; O Senhor das coisas (disse-lhe o anjo) me envia para recompensar<br \/>\n      vossa virtude. N&atilde;o s&oacute; haveis de reinar, mas satisfareis continuamente<br \/>\n      as vossas paix&otilde;es dominantes. A ti, primeiro profeta, fa&ccedil;o-te<br \/>\n      rei do Egito, e ter&aacute;s sempre reunido o conselho, que aplaudir&aacute;<br \/>\n      tua eloq&uuml;&ecirc;ncia e tua sabedoria. Tu, segundo profeta, ocupar&aacute;s<br \/>\n      o trono da P&eacute;rsia, e ouvir&aacute;s continuamente uma m&uacute;sica<br \/>\n      divina. E a ti, terceiro profeta, entrego o trono da &Iacute;ndia e uma<br \/>\n      encantadora amante que jamais te abandonar&aacute;.<\/p>\n<p> O que teve em partilha o Egito come&ccedil;ou por reunir seu conselho<br \/>\n      privado, que era composto de duzentos s&aacute;bios, apenas. Fez-lhes, segundo<br \/>\n      a etiqueta, um longo discurso que foi muito aplaudido, e o monarca experimentou<br \/>\n      a doce satisfa&ccedil;&atilde;o de embriagar-se de louvores que n&atilde;o<br \/>\n      eram corrompidos pela lisonja.<\/p>\n<p> Ao conselho privado sucedeu-se o conselho dos neg&oacute;cios estrangeiros.<br \/>\n      Foi muito mais numeroso, e um novo discurso recebeu maiores louvores. O<br \/>\n      mesmo aconteceu nos outros conselhos. Nada interrompia o prazer e a gl&oacute;ria<br \/>\n      do profeta rei do Egito. A fama da sua eloq&uuml;&ecirc;ncia encheu toda<br \/>\n      a terra.<\/p>\n<p> O profeta rei da P&eacute;rsia come&ccedil;ou por mandar representar uma<br \/>\n      &oacute;pera italiana, cujos coros eram cantados por mil e quinhentos eunucos.<br \/>\n      Suas vozes lhe comoviam a alma at&eacute; a medula dos ossos, onde ela reside.<br \/>\n      A essa &oacute;pera sucedia uma outra, e a essa segunda uma terceira, sem<br \/>\n      interrup&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O rei da &Iacute;ndia encerrou-se com a sua amante, com quem desfrutou<br \/>\n      uma vol&uacute;pia perfeita. Considerava soberana ventura a necessidade<br \/>\n      de a acariciar sempre, e lamentava a triste sorte de seus dois confrades,<br \/>\n      um reduzido a estar sempre em conselho, e o outro sempre a ouvir &oacute;pera.<\/p>\n<p> Cada qual, dias depois, ouviu pela janela uns lenhadores que saiam de<br \/>\n      uma taverna para ir ao mato cortar lenha, e que enla&ccedil;avam as suas<br \/>\n      doces amigas, que eles podiam mudar &agrave; vontade. Os nossos reis pediram<br \/>\n      a Ituriel para interceder por eles junto ao Senhor das coisas, e que os<br \/>\n      fizesse lenhadores.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei &#8211; respondeu a terna Amaside, &#8211; se o<br \/>\n      Senhor das coisas lhes satisfez o pedido, e pouco me importa; mas o que<br \/>\n      eu sei &eacute; que n&atilde;o pediria nada a ningu&eacute;m se estivesse<br \/>\n      encerrada a s&oacute;s com o meu bem-amado, o meu querido Nabucodonosor.<\/p>\n<p> As ab&oacute;badas do pal&aacute;cio ecoaram esse grande nome. No princ&iacute;pio<br \/>\n      Amaside s&oacute; pronunciara Na, em seguida Nabu, depois Nabuco, mas afinal<br \/>\n      a paix&atilde;o arrebatou-a, e ela pronunciou por inteiro o nome fatal apesar<br \/>\n      do juramento que fizera ao rei seu pai. Todas as damas do pal&aacute;cio<br \/>\n      repetiram Nabucodonosor e o vil&atilde;o do corvo n&atilde;o deixou de ir<br \/>\n      avisar ao rei. O rosto de Am&aacute;sis, rei de T&acirc;nis, perturbou-se,<br \/>\n      porque seu peito estava cheio de perturba&ccedil;&atilde;o. E eis como a<br \/>\n      serpente, o mais prudente e sutil dos animais, sempre fazia mal &agrave;s<br \/>\n      mulheres, supondo auxili&aacute;-las.<\/p>\n<p> Am&aacute;sis, irado, mandou doze de seus alguazis lhe trazerem a filha,<br \/>\n      os quais est&atilde;o sempre prontos a executar todas as barbaridades que<br \/>\n      o rei ordena, e que d&atilde;o como motivo: &#8220;N&oacute;s somos pagos<br \/>\n      para isso&#8221;.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">CAP&Iacute;TULO D&Eacute;CIMO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como quiseram cortar o pesco&ccedil;o &agrave; princesa, e de como<br \/>\n      lho n&atilde;o cortaram.<\/b><\/p>\n<p> Logo que a princesa chegou toda tr&ecirc;mula ao acampamento do rei seu<br \/>\n      pai, disse-lhe este:<\/p>\n<p> &#8212; Minha filha, bem sabeis que as princesas que desobedecem aos reis<br \/>\n      seus pais s&atilde;o condenadas &agrave; morte, sem o que n&atilde;o poderia<br \/>\n      um reino ser bem governado. Eu te proibira que proferisses o nome de teu<br \/>\n      apaixonado Nabucodonosor, meu inimigo mortal, que me destronou h&aacute;<br \/>\n      quase sete anos, e que desapareceu da face da terra. Escolheste em seu lugar<br \/>\n      um touro branco, e gritaste: &#8220;Nabucodonosor!&#8221; &Eacute; justo<br \/>\n      que eu te corte o pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Que seja feita a vossa vontade, meu pai &#8211; respondeu a princesa.<br \/>\n      &#8211; Mas concedei-me tempo para chorar a minha virgindade.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; justo &#8211; disse o rei Am&aacute;sis. &#8211; Essa<br \/>\n      &eacute; uma lei assentada entre todos os pr&iacute;ncipes esclarecidos<br \/>\n      e prudentes. Concedo-te o dia inteiro para chorares a tua virgindade, pois<br \/>\n      dizes que a tens. Amanh&atilde;, que &eacute; o oitavo dia do meu acampamento,<br \/>\n      providenciarei para que o touro branco seja devorado pelo peixe e te cortarei<br \/>\n      o pesco&ccedil;o &agrave;s nove horas.<\/p>\n<p> A bela Amaside foi pois chorar, ao longo do Nilo, com as suas damas palacianas,<br \/>\n      tudo o que lhe restava da virgindade. O s&aacute;bio Mambr&eacute;s refletia<br \/>\n      a seu lado, e contava as horas e os instantes.<\/p>\n<p> &#8212; Como! meu caro Mambr&eacute;s &#8211; disse-lhe ela, &#8211; mudaste<br \/>\n      as &aacute;guas do Nilo em sangue, segundo o costume, e n&atilde;o podes<br \/>\n      mudar o cora&ccedil;&atilde;o de Am&aacute;sis, meu pai, rei de T&acirc;nis!<br \/>\n      Suportar&aacute;s que ele me corte o pesco&ccedil;o amanh&atilde; de manh&atilde;<br \/>\n      &agrave;s nove horas? &#8212; Isso depende &#8211; respondeu o cogitabundo<br \/>\n      Mambr&eacute;s &#8211; da presteza de meus mensageiros.<\/p>\n<p> No dia seguinte, logo que a sombra dos obeliscos e das pir&acirc;mides<br \/>\n      marcaram sobre a terra a nona hora do dia, amarraram o touro branco para<br \/>\n      jog&aacute;-lo ao peixe de Jonas e levaram ao rei o seu grande sabre.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! &#8211; gemia Nabucodonosor no fundo do seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n      &#8211; eu, o rei, sou boi h&aacute; quase sete anos e, mal encontro a minha<br \/>\n      bem-amada, sou devorado por um peixe!<\/p>\n<p> Jamais o s&aacute;bio Mambr&eacute;s fizera t&atilde;o profundas reflex&otilde;es.<\/p>\n<p> Estava engolfado nos seus tristes pensamentos quando avistou ao longe<br \/>\n      tudo o que esperava. Vinha-se aproximando inumer&aacute;vel multid&atilde;o.<br \/>\n      As tr&ecirc;s imagens de Isis, de Osiris e de H&oacute;rus avan&ccedil;avam<br \/>\n      juntas, sobre um andor de ouro e pedrarias carregadas por cem senadores<br \/>\n      de M&ecirc;nfis, e precedidas por cem raparigas tocando o sistro sagrado.<br \/>\n      Quatro mil sacerdotes, com a cabe&ccedil;a raspada e coroada de flores,<br \/>\n      vinham montados cada um num hipop&oacute;tamo. Mais al&eacute;m, surgiam,<br \/>\n      na mesma pompa, a ovelha de Tebas, o c&atilde;o de Bubasta, o gato de Febe,<br \/>\n      o crocodilo de Arsinoe, o bode de Mend&eacute;s, e todos os deuses inferiores<br \/>\n      do Egito, que vinham render homenagem ao grande boi, ao grande deus Apis,<br \/>\n      t&atilde;o poderoso quanto Isis, Osiris e H&oacute;rus juntos.<\/p>\n<p> No meio de todos esses semideuses, quarenta sacerdotes carregavam um enorme<br \/>\n      cesto cheio de cebolas sagradas, que n&atilde;o eram deuses, mas que muito<br \/>\n      se lhes assemelhavam.<\/p>\n<p> Nos dois flancos dessa fila de deuses seguidos de numerosa multid&atilde;o,<br \/>\n      marchavam quarenta mil guerreiros, de capacete, cimitarra &agrave; cinta,<br \/>\n      carcaz a tiracolo e arco em punho.<\/p>\n<p> Todos os sacerdotes cantavam em coro, com uma harmonia que elevava a alma<br \/>\n      e a enternecia:<\/p>\n<p> O nosso boi, n&oacute;s o perdemos,<\/p>\n<p> Outro mais belo ganharemos.<\/p>\n<p> E, a cada pausa, ouviam-se ressoar os sistros, as castanholas, os pandeiros,<br \/>\n      os salt&eacute;rios, as cornamusas, as harpas e os sambucos.<\/p>\n<h4><a name=\"11\">CAP&Iacute;TULO UND&Eacute;CIMO<\/a><\/h4>\n<p> <b>De como a princesa desposou o seu boi.<\/b><\/p>\n<p> Am&aacute;sis, rei de T&acirc;nis, surpreso com aquele espet&aacute;culo,<br \/>\n      n&atilde;o cortou o pesco&ccedil;o &agrave; filha: recolocou a cimitarra<br \/>\n      na bainha. E Mambr&eacute;s lhe disse:<\/p>\n<p> &#8212; Grande rei! a ordem das coisas est&aacute; mudada; &eacute; preciso<br \/>\n      que Vossa Majestade d&ecirc; o exemplo. &Oacute; rei! desamarrai v&oacute;s<br \/>\n      mesmo sem tardan&ccedil;a o touro branco, e sede o primeiro a ador&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Am&aacute;sis obedeceu e prosternou-se com todo o seu povo. O gr&atilde;o-sacerdote<br \/>\n      de M&ecirc;nfis apresentou ao novo boi &Aacute;pis a primeira mancheia de<br \/>\n      feno. A princesa Amaside prendia-lhe aos belos cornos fest&otilde;es de<br \/>\n      rosas, de an&ecirc;monas, de rain&uacute;nculos, de tulipas, de cravos e<br \/>\n      de jacintos. Tomava a liberdade de o beijar, mas com profundo respeito.<br \/>\n      Os sacerdotes juncavam de palmas e flores o caminho por onde o conduziam<br \/>\n      a M&ecirc;nfis. E o s&aacute;bio Mambr&eacute;s, sempre a fazer reflex&otilde;es,<br \/>\n      dizia baixinho &agrave; sua amiga serpente:<\/p>\n<p> &#8212; Daniel transformou esse homem em boi, e eu transformei esse boi<br \/>\n      em Deus.<\/p>\n<p> Regressavam a M&ecirc;nfis na mesma ordem. O rei de T&acirc;nis, confuso,<br \/>\n      seguia o cortejo. Ia a seu lado Mambr&eacute;s, com o ar sereno e recolhido.<br \/>\n      A velha marchava at&ocirc;nita e maravilhada; acompanhavam-na a serpente,<br \/>\n      o c&atilde;o, a jumenta, o corvo, a pomba e o bode emiss&aacute;rio. O grande<br \/>\n      peixe remontava o Nilo. Daniel, Ezequiel e Jeremias, transformados em gralhas,<br \/>\n      fechavam o cortejo. Quando chegaram &agrave;s fronteiras do reino, que n&atilde;o<br \/>\n      eram muito distantes, o rei Am&aacute;sis despediu-se do boi &Aacute;pis<br \/>\n      e disse &agrave; filha:<\/p>\n<p> &#8212; Minha filha, voltemos para nossos Estados, a fim de que eu te<br \/>\n      corte o pesco&ccedil;o, tal como ficou resolvido em meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      real, porque pronunciaste o nome de Nabucodonosor, meu inimigo, que me destronou<br \/>\n      h&aacute; uns sete anos. Depois que um pai jura que h&aacute; de cortar<br \/>\n      o pesco&ccedil;o &agrave; filha, tem de cumprir o juramento, sem o que ser&aacute;<br \/>\n      precipitado para sempre nos infernos, e eu n&atilde;o quero danar-me por<br \/>\n      amor de ti.<\/p>\n<p> A bela princesa respondeu nos seguintes termos ao rei Am&aacute;sis:<\/p>\n<p> &#8212; Ide cortar o pesco&ccedil;o de quem quiserdes, meu querido pai,<br \/>\n      mas n&atilde;o o meu. Acho-me nas terras de Isis, de Osiris, de H&oacute;rus<br \/>\n      e de Apis; n&atilde;o deixarei o meu belo touro branco; beij&aacute;-lo-ei<br \/>\n      durante todo o caminho, at&eacute; que tenha visto a sua apoteose no grande<br \/>\n      est&aacute;bulo da santa cidade de M&ecirc;nfis: fraqueza perdo&aacute;vel<br \/>\n      a uma jovem bem nascida.<\/p>\n<p> Mal pronunciara ela tais palavras, quando o boi Apis exclamou:<\/p>\n<p> &#8212; Querida Amaside, eu te amarei durante toda a minha vida. Desde<br \/>\n      os quarenta mil anos que o vinham adorando, era a primeira vez que se ouvia<br \/>\n      no Egito o boi Pis falar. &#8220;Os sete anos est&atilde;o cumpridos!&#8221;<br \/>\n      exclamaram a serpente e a jumenta, e as tr&ecirc;s gralhas repetiram: &#8220;Os<br \/>\n      sete anos est&atilde;o cumpridos!&#8221; Todos os sacerdotes do Egito ergueram<br \/>\n      as m&atilde;os ao c&eacute;u. Viu-se de s&uacute;bito o rei perder as pernas<br \/>\n      traseiras; as dianteiras transformaram-se em duas pernas humanas; dois belos<br \/>\n      bra&ccedil;os, carnudos, musculosos e brancos lhe brotaram dos ombros; seu<br \/>\n      focinho de touro cedeu lugar ao rosto de um her&oacute;i encantador; ele<br \/>\n      tornou-se de novo o mais belo homem da terra, e disse:<\/p>\n<p> &#8212; Prefiro ser esposo de Amaside a ser um deus. Eu sou Nabucodonosor,<br \/>\n      rei dos reis.<\/p>\n<p> Essa nova metamorfose espantou a todo o mundo, com exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n      do meditativo Mambr&eacute;s. Mas o que a ningu&eacute;m surpreendeu foi<br \/>\n      Nabucodonosor desposar imediatamente a bela Amaside, em presen&ccedil;a<br \/>\n      daquela grande assembl&eacute;ia. Conservou o sogro no reino de T&acirc;nis<br \/>\n      e instituiu belas subven&ccedil;&otilde;es para a jumenta, a serpente, o<br \/>\n      c&atilde;o, a pomba, e at&eacute; para o corvo, as tr&ecirc;s gralhas e<br \/>\n      o grande peixe, mostrando assim a todo o universo que tanto sabia perdoar<br \/>\n      como triunfar. A velha obteve uma consider&aacute;vel pens&atilde;o. O bode<br \/>\n      emiss&aacute;rio foi enviado, por um dia, para o deserto, a fim de que fossem<br \/>\n      expiados todos os pecados antigos; depois disso lhe deram doze cabras, para<br \/>\n      que se consolasse. O s&aacute;bio Mambr&eacute;s voltou a seu pal&aacute;cio<br \/>\n      para entregar-se a reflex&otilde;es. Nabucodonosor, depois de o ter abra&ccedil;ado,<br \/>\n      come&ccedil;ou a governar tranq&uuml;ilamente o reino de M&ecirc;nfis, o<br \/>\n      de Babil&ocirc;nia, de Damasco, de Balbec, de Tiro, a S&iacute;ria, a &Aacute;sia<br \/>\n      Menor, a C&iacute;tia, as regi&otilde;es de Chiraz, de Mosok, de Tubal,<br \/>\n      de Madai, de Gog, de Magog, de Javan, a Sogdiana, a Bactriana, as &Iacute;ndias<br \/>\n      e as ilhas.<\/p>\n<p> Os povos dessa vasta monarquia gritavam todas as manh&atilde;s:<\/p>\n<p> &#8212; Viva o grande rei Nabucodonosor, rei dos reis, que n&atilde;o<br \/>\n      &eacute; mais boi!<\/p>\n<p> &#8212; E desde ent&atilde;o, todas as vezes em que o soberano (tendo<br \/>\n      sido grosseiramente enganado pelos seus s&aacute;trapas, ou pelos seus magos,<br \/>\n      ou pelos seus tesoureiros, ou pelas suas mulheres) reconhecia enfim o engano<br \/>\n      e modificava o seu proceder, todos os babil&ocirc;nios costumavam ir gritar<br \/>\n      &agrave; sua porta:<\/p>\n<p> &#8212; Viva o nosso grande rei, que n&atilde;o &eacute; mais boi.<\/p>\n<p><b>NOTAS<\/b><\/p>\n<p> (1) &#8211; Querub, em caldeu e sir&iacute;aco, significa &#8220;boi&#8221;.<\/p>\n<p>(2) &#8211; Os br&acirc;manes foram, com efeito, os primeiros que imaginaram<br \/>\n      uma revolta no c&eacute;u, e essa f&aacute;bula serviu, muito tempo depois,<br \/>\n      como esquema &agrave; hist&oacute;ria da guerra dos gigantes contra os deuses,<br \/>\n      e a algumas outras hist&oacute;rias.<\/p>\n<p>(3) &#8211; Primeiro livro dos Reis, cap. XXII, v. 21 e 22.<\/p>\n<p>(4) &#8211; Toda a antig&uuml;idade empregava indiferentemente os termos<br \/>\n      de boi e touro.<\/p>\n<p>(5) &#8211; Dinastia significa propriamente poder. Neste sentido se pode<br \/>\n      empregar tal palavra, apesar das cavila&ccedil;&otilde;es de Larcher. Dinastia<br \/>\n      vem do fen&iacute;cio dunast, e Larcher &eacute; um ignorante que n&atilde;o<br \/>\n      sabe nem fen&iacute;cio, nem sir&iacute;aco, nem copta.<\/p>\n<p>(6) &#8211; Diz Tertuliano, no seu poema de Sodoma:<\/p>\n<p> Dicitur et vivens alio sub corpore sexus<\/p>\n<p> Munificos solito dispungere sanguine menses.<\/p>\n<p> E Santo Irineu, liv. IV:<\/p>\n<p> Per naturalia ea quae sunt consuetudinis feminae ostendens.<\/p>\n<p>(7) &#8211; Daniel cap.V.<\/p>\n<p>(8) &#8211; Vinte mil escudos de prata francesa, pelo c&acirc;mbio atual<br \/>\n      (1773).<\/p>\n<p>(9) &#8211; Terceiro livro dos Reis, cap. XVII<\/p>\n<p>(10) &#8211; Ber&oacute;sio, autor caldeu, refere com efeito ter acontecido<br \/>\n      a mesma aventura ao rei Xisutra da Tr&aacute;cia: foi ainda mais maravilhosa,<br \/>\n      pois a sua arca tinha cinco est&aacute;dios de comprimento por dois de largura.<br \/>\n      Travou-se grande discuss&atilde;o entre os s&aacute;bios para destrin&ccedil;ar<br \/>\n      qual dos dois era o mais antigo, se Xisutra ou No&eacute;.<\/p>\n<p>(11) &#8211; Ezequiel, cap. IV.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Voltaire Apresenta&ccedil;&atilde;o N&atilde;o se conhece muito bem a inten&ccedil;&atilde;o de Voltaire ao escrever &#8220;O Touro Branco&#8221;. H&aacute; hip&oacute;teses: plaus&iacute;veis, l&oacute;gicas, mas hip&oacute;teses. Uma delas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120063","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Touro Branco, Voltaire, Obra Liter\u00e1ria, Literatura O Touro Branco<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Touro Branco, Voltaire, Obra Liter\u00e1ria, Romance Picaresco, S\u00e1tira, Princesa Amaside, Literatura O Touro Branco\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta 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