{"id":120055,"date":"2017-04-19T12:00:07","date_gmt":"2017-04-19T14:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120055"},"modified":"2017-04-19T12:00:07","modified_gmt":"2017-04-19T14:00:07","slug":"historia-de-jenni","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/historia-de-jenni","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de Jenni"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"444\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t  <\/strong>\n\t\t  <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Voltaire<\/h2>\n<p><strong>Apresenta&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p> A &#8220;Hist&oacute;ria de Jenni&#8221; foi escrita por Voltaire nos seus<br \/>\n    &uacute;ltimos anos de vida. O mesmo escritor cr&iacute;tico, ir&ocirc;nico<br \/>\n    e sarc&aacute;stico tornou-se mais severo. J&aacute; havia sido criticado<br \/>\n    com veem&ecirc;ncia, por suas id&eacute;ias e coment&aacute;rios desairosos<br \/>\n    ao clero, especialmente os jesu&iacute;tas, aos nobres e reis. Foi preso e<br \/>\n    depois perseguido por toda a Europa, mesmo quando enaltecido pelo indiscut&iacute;vel<br \/>\n    valor de seus conceitos, n&atilde;o deixou de sofrer persegui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Nesta obra Voltaire debru&ccedil;a sua l&iacute;ngua viperina sobre a &#8220;religi&atilde;o<br \/>\n    revelada&#8221; e os dogmas do catolicismo. Mas a carga maior de veneno recai<br \/>\n    sobre o ate&iacute;smo de D&#8217;Holbach. Veja-se com que peso desfere seu<br \/>\n    ataque a ateus e supersticiosos: <\/p>\n<p> A cren&ccedil;a num Deus remunerador das boas a&ccedil;&otilde;es, punidor<br \/>\n    das m&aacute;s, perdoador das faltas leves, &eacute; pois a cren&ccedil;a<br \/>\n    mais &uacute;til ao g&ecirc;nero humano; &eacute; o &uacute;nico freio dos<br \/>\n    poderosos, que cometem insolentemente os crimes p&uacute;blicos; &eacute;<br \/>\n    o &uacute;nico freio dos homens que cometem disfar&ccedil;adamente os crimes<br \/>\n    secretos. N&atilde;o vos digo, meus amigos, que junteis, a essa cren&ccedil;a<br \/>\n    necess&aacute;ria, supersti&ccedil;&otilde;es que a desonrariam e que at&eacute;<br \/>\n    poderiam torn&aacute;-la funesta: o ateu &eacute; um monstro que s&oacute;<br \/>\n    devorar&aacute; para apaziguar a fome; o supersticioso &eacute; outro monstro<br \/>\n    que estra&ccedil;alhar&aacute; os homens por dever. Sempre notei que se pode<br \/>\n    curar um ateu, mas jamais se cura radicalmente a um supersticioso; o ateu<br \/>\n    &eacute; um homem de talento que se engana, mas que pensa por si mesmo; o<br \/>\n    supersticioso &eacute; um tolo brutal que jamais teve sen&atilde;o as id&eacute;ias<br \/>\n    dos outros. <\/p>\n<p> Voltaire, como em outros textos, revela uma aparente ambiguidade quando<br \/>\n    se refere aos judeus, mas apenas aparente. Se critica os judeus da Hist&oacute;ria,<br \/>\n    pelos crimes e males cometidos; por outro lado os defende como seres humanos.<br \/>\n    Dois trechos s&atilde;o significativos: <\/p>\n<p> &#8212; E mesmo que ele fosse judeu &#8211; respondeu o nosso amigo com<br \/>\n    o seu sangue-frio habitual, &#8211; fica-lhe bem, senhor Caracucarador, assar<br \/>\n    pessoas porque pertencem a uma ra&ccedil;a que habitava outrora um pequeno<br \/>\n    cant&atilde;o pedregoso pr&oacute;ximo ao deserto da S&iacute;ria? Que lhe<br \/>\n    importa que um homem tenha ou n&atilde;o tenha prep&uacute;cio e que comemore<br \/>\n    a p&aacute;scoa na lua cheia de abril ou no domingo seguinte? <\/p>\n<p> Desertos t&atilde;o horrendos, t&atilde;o inabit&aacute;veis, que esses<br \/>\n    animais ferozes chamados judeus se julgaram no para&iacute;so terrestre quando<br \/>\n    passaram, daqueles lugares de horror, para um recanto de terra onde se podiam<br \/>\n    cultivar algumas jeiras. <\/p>\n<p> Tema recorrente, em Voltaire, &eacute; o canibalismo que, em sua &eacute;poca<br \/>\n    ainda era pr&aacute;tica encontradi&ccedil;a em diversas culturas. Se sempre<br \/>\n    se referiu ao costume de forma sat&iacute;rica, agora o faz com sarcasmo virulento:\n  <\/p>\n<p> Freind mostrou-se muito bem impressionado com essa m&aacute;xima; mas observou<br \/>\n    que o costume de devorar mulheres era indigno de t&atilde;o brava gente e<br \/>\n    que, com tantas virtudes, n&atilde;o deviam ser antrop&oacute;fagos.<\/p>\n<p> O chefe das montanhas perguntou-nos ent&atilde;o o que faz&iacute;amos com<br \/>\n    os nossos inimigos, depois de os matar.<\/p>\n<p> &#8212; N&oacute;s os enterramos &#8211; respondi-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Quer isto dizer &#8211; retrucou &#8211; que os dais de comer aos<br \/>\n    vermes. N&oacute;s queremos a primazia; nossos est&ocirc;magos s&atilde;o<br \/>\n    uma sepultura mais honrosa. <\/p>\n<p> O texto merece ser lido com especial carinho, cont&eacute;m uma s&iacute;ntese<br \/>\n    e soma das id&eacute;ias filos&oacute;ficas que Voltaire desenvolveu durante<br \/>\n    toda uma vida com extraordin&aacute;rio g&ecirc;nio e compet&ecirc;ncia que,<br \/>\n    infelizmente, muitos dos que viveram seu tempo n&atilde;o foram capazes de<br \/>\n    compreender.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>N&eacute;lson Jahr Garcia<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">CAP&Iacute;TULO I<\/a><\/p>\n<\/h4>\n<p> V&oacute;s me solicitais, senhor, alguns pormenores acerca de nosso amigo,<br \/>\n    o respeit&aacute;vel Freind, e de seu estranho filho. O lazer de que afinal<br \/>\n    disponho ap&oacute;s a reforma de milorde Peterborou permite-me atender-vos<br \/>\n    satisfatoriamente. Ficareis t&atilde;o espantado quanto eu, e compartilhareis<br \/>\n    de todos os meus sentimentos. <\/p>\n<p> Quase n&atilde;o vos avistastes com esse jovem e infeliz Jenni, filho &uacute;nico<br \/>\n    de Freind, que o levou consigo &agrave; Espanha quando era capel&atilde;o<br \/>\n    de nosso ex&eacute;rcito, em 1705. V&oacute;s partistes para Alep antes que<br \/>\n    milorde cercasse Barcelona; mas tendes raz&atilde;o em dizer que Jenni possu&iacute;a<br \/>\n    um aspecto dos mais am&aacute;veis e atraentes e denotava coragem e esp&iacute;rito.<br \/>\n    Nada mais verdadeiro; era imposs&iacute;vel v&ecirc;-lo sem estim&aacute;-lo.<br \/>\n    O pai o destinara primeiramente &agrave; Igreja; mas, tendo o jovem demonstrado<br \/>\n    repugn&acirc;ncia a essa condi&ccedil;&atilde;o que demanda tanto engenho,<br \/>\n    circunspe&ccedil;&atilde;o e finura, julgou aquele sensato pai que seria um<br \/>\n    crime e uma tolice for&ccedil;ar a natureza. <\/p>\n<p> Jenni ainda n&atilde;o contava vinte anos. Fez quest&atilde;o absoluta de<br \/>\n    servir como volunt&aacute;rio no ataque a Montjuich, que n&oacute;s vencemos,<br \/>\n    e onde foi morto o pr&iacute;ncipe de Hesse. O nosso pobre Jenni, ferido,<br \/>\n    foi feito prisioneiro e levado para a cidade. Eis uma fiel narrativa do que<br \/>\n    lhe aconteceu desde o ataque de Montjuich at&eacute; a tomada de Barcelona.<br \/>\n    Esse relato &eacute; devido a uma catal&atilde; um pouco livre e ing&ecirc;nua<br \/>\n    demais; tais escritos n&atilde;o chegam at&eacute; o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do s&aacute;bio. Apreendi o referido escrito em casa dela, quando entrei em<br \/>\n    Barcelona com milorde Peterborou. V&oacute;s o lereis sem esc&acirc;ndalo,<br \/>\n    como um fiel retrato dos costumes do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>AVENTURAS DE UM JOVEM INGL&Ecirc;S CHAMADO JENNI<\/p>\n<p> escritas por m&atilde;o de do&ntilde;a Las Nalgas<\/p>\n<p> Quando nos disseram que os mesmos selvagens que tinham chegado pelos ares,<br \/>\n    de uma ilha desconhecida, para tomar-nos Gibraltar, vinham cercar a nossa<br \/>\n    bela cidade de Barcelona, come&ccedil;amos por fazer novenas &agrave; Santa<br \/>\n    Virgem de Manreze, o que &eacute; sem d&uacute;vida a melhor maneira de nos<br \/>\n    defendermos. <\/p>\n<p> Esse povo, que nos vinha atacar de t&atilde;o longe, tem um nome dif&iacute;cil<br \/>\n    de pronunciar, pois &eacute; english. Nosso reverendo padre inquisidor dom<br \/>\n    Jer&oacute;nimo Bueno Caracucarador pregou contra esses salteadores. Lan&ccedil;ou<br \/>\n    contra eles uma excomunh&atilde;o-mor em Nossa Senhora del Pino. Assegurou-nos<br \/>\n    que os english tinham cauda de macaco, patas de urso e cabe&ccedil;a de papagaio;<br \/>\n    que na verdade falavam algumas vezes como os homens, mas que silvavam quase<br \/>\n    sempre; que eram, ali&aacute;s, notoriamente her&eacute;ticos; que a Santa<br \/>\n    Virgem, que &eacute; muito favor&aacute;vel aos outros pecadores e pecadoras,<br \/>\n    jamais perdoava aos her&eacute;ticos, e que por conseguinte seriam todos infalivelmente<br \/>\n    exterminados, sobretudo se se apresentassem diante de Montjuich. Mal acabara<br \/>\n    ele o seu serm&atilde;o, soubemos que Montjuich fora tomado de assalto. <\/p>\n<p> &Agrave; noite soubemos que nesse assalto hav&iacute;amos ferido a um jovem<br \/>\n    english e que ele se achava em nossas m&atilde;os. Gritaram por toda a cidade:<br \/>\n    Vit&oacute;ria! Vit&oacute;ria! e acenderam-se lumin&aacute;rias. <\/p>\n<p> Do&ntilde;a Boca Bermeja, que tinha a honra de ser amante do reverendo padre<br \/>\n    inquisidor, sentiu extremos desejos de ver como era feito um animal english<br \/>\n    e her&eacute;tico. Era minha amiga &iacute;ntima. Sentia-me t&atilde;o curiosa<br \/>\n    quanto ela. Mas foi preciso esperar que ele se curasse do ferimento, o que<br \/>\n    n&atilde;o demorou. <\/p>\n<p> Soubemos logo depois que ele deveria tomar banhos no estabelecimento de<br \/>\n    meu primo Elvob, que &eacute; como se sabe, o melhor cirurgi&atilde;o da cidade.<br \/>\n    Em minha amiga Boca Bermeja, redobrou a impaci&ecirc;ncia de ver tal monstro.<br \/>\n    N&atilde;o tivemos descanso, nem o demos a meu primo, enquanto n&atilde;o<br \/>\n    nos ocultou em um vesti&aacute;rio, atr&aacute;s de uma veneziana pela qual<br \/>\n    se enxergava o banheiro. Ali entramos na ponta das p&eacute;s, sem o m&iacute;nimo<br \/>\n    ru&iacute;do, sem uma palavra, sem nos atrevermos a respirar, precisamente<br \/>\n    no instante em que o english saia de dentro d&#8217;&aacute;gua. Seu rosto<br \/>\n    n&atilde;o se achava voltado para n&oacute;s; retirou um pequeno barrete sob<br \/>\n    o qual estavam enrolados os seus cabelos loiros que tombaram em grossos cachos<br \/>\n    sobre o mais belo dorso que j&aacute; vi em minha vida; seus bra&ccedil;os,<br \/>\n    suas coxas, suas pernas, me pareceram de uma carna&ccedil;&atilde;o, de um<br \/>\n    acabado, de uma eleg&acirc;ncia que se aproxima, a meu ver, do Apolo de Belvedere<br \/>\n    de Roma, cuja c&oacute;pia se acha em casa de meu tio escultor. <\/p>\n<p> Do&ntilde;a Boca Bermeja achava-se extasiada de surpresa e encantamento.<br \/>\n    Quanto a mim, sentia-me igualmente arrebatada. N&atilde;o pude deixar de dizer:<br \/>\n    Oh, que hermoso muchacho! Essas palavras, que me escaparam, fizeram o jovem<br \/>\n    voltar-se. Ai foi muito pior; vimos o rosto de Ad&ocirc;nis sobre o corpo<br \/>\n    de um jovem H&eacute;rcules. Por pouco do&ntilde;a Boca Bermeja n&atilde;o<br \/>\n    tombou para tr&aacute;s e eu tamb&eacute;m. Seus olhos se incenderam, cobrindo-se<br \/>\n    de leve orvalho, atrav&eacute;s do qual se entreviam flamas. N&atilde;o sei<br \/>\n    o que aconteceu aos meus. <\/p>\n<p> Quando voltou a si: &#8220;S. Tiago (me disse ela) e Santa Virgem! E assim<br \/>\n    que s&atilde;o os hereges? Oh! Como nos enganaram.&#8221; <\/p>\n<p> Sa&iacute;mos o mais tarde que pudemos. Boca Bermeja foi logo acometida<br \/>\n    do mais violento amor pelo monstro her&eacute;tico. Ela &eacute; mais bonita<br \/>\n    do que eu, confesso-o; e confesso tamb&eacute;m que me senti duplamente enciumada.<br \/>\n    Fiz-lhe ver que perdia a alma traindo o reverendo padre Inquisidor dom Jer&oacute;nimo<br \/>\n    Bueno Caracucarador, com um english. &#8220;Ai, minha querida Las Nalgas &#8211;<br \/>\n    disse-me ela (pois Las Nalgas &eacute; o meu nome) &#8211; eu seria capaz<br \/>\n    de trair Melquisedeque por esse belo rapaz&#8221;. Ela n&atilde;o deixou de<br \/>\n    o fazer e, j&aacute; que &eacute; preciso dizer tudo, concorri secretamente<br \/>\n    com muito mais do que o d&iacute;zimo das oferendas. <\/p>\n<p> Um dos familiares da Inquisi&ccedil;&atilde;o, que ouvia quatro missas por<br \/>\n    dia para obter de Nossa Senhora de Manreze o aniquilamento dos english, foi<br \/>\n    informado das nossos atos de devo&ccedil;&atilde;o. O reverendo padre dom<br \/>\n    Caracucarador mandou-nos vergastar a ambas. Mandou vinte e quatro alguazis<br \/>\n    da Santa Hermandad prenderem o nosso querido english. Jenni matou cinco deles<br \/>\n    e foi preso pelos dezenove que sobraram. Fizeram-no repousar num calabou&ccedil;o<br \/>\n    bem arejado. Resolveram queim&aacute;-lo no domingo seguinte, em grande cerimonial,<br \/>\n    paramentado com um grande sambenito e um chap&eacute;u em forma de p&atilde;o-de-a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    em honra de nosso Salvador e da Virgem Maria, sua m&atilde;e. Dom Caracucarador<br \/>\n    preparou um belo serm&atilde;o, mas n&atilde;o pode pronunci&aacute;-lo porque<br \/>\n    a cidade foi tomada &agrave;s quatro da madrugada daquele mesmo domingo.<\/p>\n<p> Aqui termina a narrativa de do&ntilde;a Las Nalgas. Era uma mulher que n&atilde;o<br \/>\n    deixava de ter essa esp&eacute;cie de esp&iacute;rito a que os espanh&oacute;is<br \/>\n    denominam agudeza.<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">CAP&Iacute;TULO II<\/a><\/h4>\n<p> Continua&ccedil;&atilde;o das aventuras do jovem ingl&ecirc;s Jenni e do<br \/>\n    senhor seu pai, doutor em teologia, membro do Parlamento e da Sociedade Real<\/p>\n<\/p>\n<p> Sabeis que admir&aacute;vel conduta manteve o conde de Peterborou quando<br \/>\n    se apoderou de Barcelona; como impediu a pilhagem; com que pronta sagacidade<br \/>\n    p&ocirc;s ordem em tudo; como arrancou a duquesa de Popoli das m&atilde;os<br \/>\n    de alguns soldados alem&atilde;es b&ecirc;bedos que a roubavam e violavam.<br \/>\n    Mas podereis acaso imaginar a surpresa, a dor, o aniquilamento, a c&oacute;lera,<br \/>\n    as l&aacute;grimas, os transportes de nosso amigo Freind, quando soube que<br \/>\n    Jenni estava nos calabou&ccedil;os do Santo Of&iacute;cio e j&aacute; se achava<br \/>\n    preparada a sua fogueira? Sabeis que as cabe&ccedil;as mais frias s&atilde;o<br \/>\n    as mais exaltadas nas grandes ocasi&otilde;es. Era de ver aquele pai, que<br \/>\n    conhecestes t&atilde;o grave e t&atilde;o imperturb&aacute;vel, voar do antro<br \/>\n    da Inquisi&ccedil;&atilde;o mais depressa do que correm os nossos cavalos<br \/>\n    de ra&ccedil;a em Neumarket. Cinq&uuml;enta soldados, que o seguiam arquejantes,<br \/>\n    estavam sempre a duzentos passos dele. Ei-lo que chega. Entra na caverna.<br \/>\n    Que momento! Que prantos e que alegria! Vinte v&iacute;timas destinadas &agrave;<br \/>\n    mesma cerim&ocirc;nia s&atilde;o libertadas com Jenni. Todos esses prisioneiros<br \/>\n    se armam; todos se juntam a nossos soldados; arrasam o Santo Of&iacute;cio<br \/>\n    em dez minutos e almo&ccedil;am sobre as ru&iacute;nas, com o vinho e o presunto<br \/>\n    dos inquisidores. <\/p>\n<p> Em meio desse tumulto, e das fanfarras, e dos tambores, e do troar de quatrocentos<br \/>\n    canh&otilde;es que anunciavam a nossa vit&oacute;ria na Catalunha, o nosso<br \/>\n    amigo Freind retomara a tranq&uuml;ilidade que lhe conheceis. Estava, calmo<br \/>\n    como o c&eacute;u de um belo dia ap&oacute;s a tempestade. Erguia a Deus um<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o sereno como o seu rosto, quando viu sair<br \/>\n    do respiradouro de um calabou&ccedil;o um espectro negro de sobrepeliz, que<br \/>\n    se lan&ccedil;ou a seus p&eacute;s, bradando miseric&oacute;rdia. <\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute;s tu? &#8211; indagou o nosso amigo. &#8211; Vens do<br \/>\n    inferno? <\/p>\n<p> &#8212; Mais ou menos &#8211; respondeu o outro. &#8211; Sou dom Jer&oacute;nimo<br \/>\n    Bueno Caracucarador, inquisidor da f&eacute;; pe&ccedil;o-vos humildemente<br \/>\n    perd&atilde;o por haver querido assar o senhor vosso filho em pra&ccedil;a<br \/>\n    p&uacute;blica: eu supunha que ele fosse judeu. <\/p>\n<p> &#8212; E mesmo que ele fosse judeu &#8211; respondeu o nosso amigo com<br \/>\n    o seu sangue-frio habitual, &#8211; fica-lhe bem, senhor Caracucarador, assar<br \/>\n    pessoas porque pertencem a uma ra&ccedil;a que habitava outrora um pequeno<br \/>\n    cant&atilde;o pedregoso pr&oacute;ximo ao deserto da S&iacute;ria? Que lhe<br \/>\n    importa que um homem tenha ou n&atilde;o tenha prep&uacute;cio e que comemore<br \/>\n    a p&aacute;scoa na lua cheia de abril ou no domingo seguinte?. Este homem<br \/>\n    &eacute; judeu; precisa pois ser queimado; e todos os seus bens me pertencem:<br \/>\n    eis um p&eacute;ssimo argumento; n&atilde;o se raciocina assim na Sociedade<br \/>\n    Real de Londres. <\/p>\n<p> E n&atilde;o sabia o senhor Caracucarador que Jesus Cristo era judeu? Que<br \/>\n    ele nasceu, viveu e morreu judeu; que celebrou a p&aacute;scoa, como judeu,<br \/>\n    na lua cheia; que todos os seus ap&oacute;stolos eram judeus; que foram ao<br \/>\n    templo judeu ap&oacute;s a desgra&ccedil;a de Cristo, como est&aacute; expressamente<br \/>\n    referido; e que os quinze primeiros bispos secretos de Jerusal&eacute;m eram<br \/>\n    judeus? Meu filho n&atilde;o &eacute; judeu, &eacute; anglicano: como lhe<br \/>\n    deu na telha a id&eacute;ia de o queimar? <\/p>\n<p> O inquisidor Caracucarador, aterrado com a erudi&ccedil;&atilde;o do senhor<br \/>\n    Freind, e sempre prosternado a seus p&eacute;s, respondeu: <\/p>\n<p> &#8212; Ai de n&oacute;s! N&atilde;o sab&iacute;amos nada de tudo isso na<br \/>\n    Universidade de Salamanca. Mais uma vez, perd&atilde;o. Mas o verdadeiro motivo<br \/>\n    &eacute; que o senhor vosso filho me tomou a minha amante Boca Bermeja. <\/p>\n<p> &#8212; Ah! se ele tomou a sua amante, &eacute; outra hist&oacute;ria; n&atilde;o<br \/>\n    se deve tomar os bens de outrem. Todavia, n&atilde;o se nos depara aqui uma<br \/>\n    raz&atilde;o suficiente (como diria Leibnitz) para queimar um jovem. As penas<br \/>\n    devem ser proporcionais aos delitos. V&oacute;s outros, crist&atilde;os de<br \/>\n    al&eacute;m do mar brit&acirc;nico tirante para o sul, sois mais expeditos<br \/>\n    em assar a um de vossos irm&atilde;os, seja o conselheiro Anne Dubourg, seja<br \/>\n    Michel &#8211; Servet, ou todos aqueles que foram sagrados sob Filipe II,<br \/>\n    cognominado o discreto, do que n&oacute;s, ingleses, em mandar preparar um<br \/>\n    rosbife em Londres. Mas tragam-me aqui a senhorita Boca Bermeja, para que<br \/>\n    eu saiba dela a verdade.&#8220; <\/p>\n<p> Boca Bermeja foi conduzida &agrave; sua presen&ccedil;a, toda chorosa, e<br \/>\n    embelezada pelas l&aacute;grimas, como &eacute; costume. <\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade que a senhorita amava ternamente a dom Caracucarador<br \/>\n    e que o meu filho Jenni a possuiu &agrave; for&ccedil;a? <\/p>\n<p> &#8212; A for&ccedil;a, senhor ingl&ecirc;s?! Qual nada! Foi de todo o meu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o. Nunca vi nada t&atilde;o lindo e tio digno de amor<br \/>\n    como o senhor vosso filho; e julgo-vos muito feliz em ser seu pai. Fui eu<br \/>\n    quem fiz todas as investidas; ele bem o merece: sou capaz de segui-lo at&eacute;<br \/>\n    o fim do mundo, se &eacute; que o mundo tem fim. Sempre detestei, no fundo<br \/>\n    d&#8217;alma, esse maldito inquisidor; ele mandou vergastar-me at&eacute;<br \/>\n    sair sangue, a mim e &agrave; senhorita Las Nalgas. Se quereis tornar-me a<br \/>\n    vida um verdadeiro encanto, mandareis enforcar esse celerado monge &agrave;<br \/>\n    minha janela, enquanto eu estiver jurando a vosso filho um amor eterno. Feliz<br \/>\n    de mim, se lhe pudesse um dia dar um filho que se pare&ccedil;a convosco!\n  <\/p>\n<p> E, com efeito, enquanto Boca Bermeja pronunciava estas singelas palavras,<br \/>\n    milord Peterborou mandava procurar Caracucarador, que se havia sumido, para<br \/>\n    que n&atilde;o o enforcassem. N&atilde;o vos espantareis se eu disser que<br \/>\n    o senhor Freind se op&ocirc;s energicamente a isso. <\/p>\n<p> &#8212; Que vossa justa c&oacute;lera &#8211; disse ele &#8211; se curve<br \/>\n    ante vossa generosidade; s&oacute; se deve condenar um homem &agrave; morte<br \/>\n    quando tal coisa for absolutamente necess&aacute;ria ao bem p&uacute;blico.<br \/>\n    Os espanh&oacute;is iriam dizer que os ingleses s&atilde;o uns b&aacute;rbaros<br \/>\n    que matam todos os padres que encontram. Isso poderia prejudicar grandemente<br \/>\n    ao senhor arquiduque, em nome do qual acabais de tomar Barcelona. Estou assaz<br \/>\n    contente de que meu filho tenha sido salvo e de que o pulha desse frade n&atilde;o<br \/>\n    mais esteja em condi&ccedil;&otilde;es de exercer as suas fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inquisitoriais. <\/p>\n<p> Enfim, t&atilde;o bem falou o s&aacute;bio e caridoso Freind, que milorde<br \/>\n    se contentou em mandar vergastar Caracucarador, como esse miser&aacute;vel<br \/>\n    fizera a Miss Boca Bermeja e a Miss Las Nalgas. <\/p>\n<p> Tamanha dem&ecirc;ncia tocou o cora&ccedil;&atilde;o dos catal&atilde;es.<br \/>\n    Os que haviam sido libertados dos calabou&ccedil;os da Inquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    conclu&iacute;ram que a nossa religi&atilde;o valia infinitamente mais que<br \/>\n    a sua. Quase todos pediram para serem aceitos na igreja anglicana; e at&eacute;<br \/>\n    alguns bachar&eacute;is da Universidade de Salamanca, que estavam em Barcelona,<br \/>\n    desejaram ser esclarecidos. A maioria foi logo atendida. S&oacute; houve um<br \/>\n    deles, chamado dom Inigo y Medroso y Comodios y Papalamiendo, que se mostrou<br \/>\n    um tanto rebelde. <\/p>\n<p> Eis a s&uacute;mula da amig&aacute;vel discuss&atilde;o que o nosso querido<br \/>\n    amigo Freind e o bacharel dom Papalamiendo travaram na presen&ccedil;a de<br \/>\n    milorde Peterborou. Chamaram a essa conversa&ccedil;&atilde;o familiar o di&aacute;logo<br \/>\n    dos Mas. Vereis facilmente por que, ao l&ecirc;-la<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">CAP&Iacute;TULO III<\/a><\/h4>\n<p> S&uacute;mula da controv&eacute;rsia dos Mas, entre Mister Freind e dom<br \/>\n    Inigo y Medroso y Comodios y Papalamiendo, bacharel de Salamanca<\/p>\n<\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas, Senhor, apesar de todas as belas coisas que acabais<br \/>\n    de dizer-me, tereis de confessar que a vossa igreja anglicana, t&atilde;o<br \/>\n    respeit&aacute;vel, n&atilde;o existia antes de dom Lutero e antes de dom<br \/>\n    OEcolampadius. Sois muito recentes: portanto, n&atilde;o sois de casa. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; &Eacute; como se me dissessem que n&atilde;o descendo de<br \/>\n    meu av&ocirc;, porque um colateral, residente na It&aacute;lia, se apossara<br \/>\n    do seu testamento e dos meus t&iacute;tulos. Felizmente os recuperei, e &eacute;<br \/>\n    claro que sou neto de meu av&ocirc;. Somos ambos da mesma fam&iacute;lia,<br \/>\n    com a pequena diferen&ccedil;a de que n&oacute;s, ingleses, lemos o testamento<br \/>\n    de nosso av&ocirc; em nossa pr&oacute;pria l&iacute;ngua e de que vos &eacute;<br \/>\n    proibido l&ecirc;-lo na vossa. Sois escravos de um estrangeiro, e n&oacute;s<br \/>\n    estamos apenas submetidos &agrave; nossa raz&atilde;o. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas se a vossa raz&atilde;o vos perder?&#8230; porque afinal<br \/>\n    n&atilde;o creio, na nossa Universidade de Salamanca, a qual declarou a infalibilidade<br \/>\n    do papa e o seu direito incontest&aacute;vel sobre o passado, o presente,<br \/>\n    o futuro e o paulo-post-futuro. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Ah! Os ap&oacute;stolos tamb&eacute;m n&atilde;o acreditavam<br \/>\n    em nada disso. Est&aacute; escrito que esse Pedro, que renegou a seu mestre<br \/>\n    Jesus, foi severamente acusado por Paulo. N&atilde;o quero examinar qual dos<br \/>\n    dois estava errado; talvez ambos o estivessem, como acontece em quase todas<br \/>\n    as disputas; mas afinal n&atilde;o h&aacute; uma &uacute;nica passagem nos<br \/>\n    Atos dos Ap&oacute;stolos em que Pedro seja considerado como senhor de seus<br \/>\n    companheiros e do paulo-post-futuro. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que S. Pedro<br \/>\n    foi arcebispo de Roma, pois S&aacute;nchez nos ensina que esse grande homem<br \/>\n    ali chegou no tempo de Nero e que ali ocupou o trono arqui-episcopal durante<br \/>\n    vinte e cinco anos, sob esse mesmo Nero, que s&oacute; reinou treze. De resto,<br \/>\n    &eacute; mat&eacute;ria de f&eacute;, e &eacute; dom Grillandus, o prot&oacute;tipo<br \/>\n    da Inquisi&ccedil;&atilde;o, quem o afirma (pois n&oacute;s nunca lemos a<br \/>\n    B&iacute;blia Sagrada), &eacute; mat&eacute;ria de f&eacute;, digo eu, que<br \/>\n    S. Pedro estava em Roma certo ano; pois data uma de suas cartas de Babil&ocirc;nia;<br \/>\n    e, como Babil&ocirc;nia &eacute; visivelmente um anagrama de Roma, est&aacute;<br \/>\n    visto que o papa &eacute;, por direito divino, senhor de toda a terra: a,<br \/>\n    mais ainda, todos os licenciados de Salamanca demonstraram que Sim&atilde;o<br \/>\n    Virtude-Deus, feiticeiro-mor e conselheiro de Estado do Imperador Nero, mandou<br \/>\n    seu cachorro cumprimentar a S. Sim&atilde;o Barjonas, tamb&eacute;m chamado<br \/>\n    S. Pedro; que S. Pedro, n&atilde;o menos polido, enviou tamb&eacute;m cumprimentos<br \/>\n    a Sim&atilde;o Virtude-Deus, por interm&eacute;dio de seu cachorro; que em<br \/>\n    seguida apostaram qual dos dois ressuscitaria mais depressa a um primo de<br \/>\n    Nero, que Sim&atilde;o Virtude-Deus s&oacute; ressuscitou o seu morto pela<br \/>\n    metade e que Sim&atilde;o Barjonas ganhou a aposta, ressuscitando o primo<br \/>\n    por inteiro; que Virtude-Deus quis tirar desforra, voando nos ares como S.<br \/>\n    D&eacute;dalo, e que S. Pedro lhe quebrou as duas pernas, fazendo-o tombar.<br \/>\n    Eis por que S. Pedro recebeu a coroa do mart&iacute;rio, com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    para baixo e as pernas para cima.(1) Est&aacute; pois demonstrado a posteriori<br \/>\n    que nosso santo padre o papa deve reinar sobre todos aqueles que t&ecirc;m<br \/>\n    coroa na cabe&ccedil;a, e &eacute; senhor do passado, do presente e de todos<br \/>\n    os futuros do mundo. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; &Eacute; claro que todas essas coisas aconteceram no tempo<br \/>\n    em que H&eacute;rcules com um passe de m&aacute;gica, separou as duas montanhas<br \/>\n    de Calpe e Abila e tirou do chap&eacute;u o estreito de Gibraltar. Mas n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; nessas hist&oacute;rias, por mais aut&ecirc;nticas que sejam, que<br \/>\n    baseamos a nossa religi&atilde;o; &eacute; no Evangelho. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas em que passagens do Evangelho, senhor? Pois li uma<br \/>\n    parte desse Evangelho em nossos cadernos de teologia. E na passagem do anjo<br \/>\n    que desceu das nuvens para anunciar a Maria que ela seria engravidada pelo<br \/>\n    Esp&iacute;rito Santo? E na da viagem dos tr&ecirc;s reis e de uma estrela?<br \/>\n    No mortic&iacute;nio de todas as crian&ccedil;as do pa&iacute;s? No trabalho<br \/>\n    que teve o diabo em transportar Deus, no deserto, ao alto do templo e ao cimo<br \/>\n    de uma montanha de onde se descortinavam todos os reinos da terra? No milagre<br \/>\n    da &aacute;gua mudada em vinho, num casamento de aldeia? No milagre dos dois<br \/>\n    mil porcos que o diabo afogou num lago por ordem de Jesus? No&#8230; <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Senhor, n&oacute;s respeitamos todas essas coisas, porque<br \/>\n    est&atilde;o no Evangelho; e jamais nos referimos a elas, porque est&atilde;o<br \/>\n    muito acima da fr&aacute;gil raz&atilde;o humana. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas dizem que nunca chamais &agrave; Santa Virgem de<br \/>\n    m&atilde;e de Deus. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; N&oacute;s a veneramos e amamos; mas cremos que ela pouco<br \/>\n    se importa com os t&iacute;tulos que lhe d&atilde;o neste mundo. Ali&aacute;s,<br \/>\n    nunca &eacute; denominada m&atilde;e de Deus no Evangelho. Houve uma grande<br \/>\n    disputa, em 431, no conc&iacute;lio de &Eacute;feso, para saber se Maria era<br \/>\n    te&oacute;tocos, e se, sendo Jesus Cristo Deus e filho de Maria, poderia esta<br \/>\n    ser ao mesmo tempo m&atilde;e de Deus Pai e de Deus Filho. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas Senhor, falais em te&oacute;tocos&#8230; Que quer dizer<br \/>\n    isso, por favor? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Quer dizer m&atilde;e de Deus. Como?! Sois bacharel de Salamanca<br \/>\n    e n&atilde;o sabeis grego? <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas o grego&#8230; ora, o grego! De que pode o grego servir<br \/>\n    a um espanhol? Mas senhor, acreditais que Jesus tenha uma natureza, uma pessoa<br \/>\n    e uma vontade? Ou duas naturezas, duas pessoas e duas vontades? Ou uma vontade,<br \/>\n    duas naturezas e duas pessoas? Ou duas vontades, duas pessoas e uma natureza?<br \/>\n    Ou&#8230; <\/p>\n<p> Freind: &#8212; S&atilde;o quest&otilde;es de &Eacute;feso. Isso absolutamente<br \/>\n    n&atilde;o nos interessa. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas que &eacute; que vos interessa, ent&atilde;o? Pensais<br \/>\n    que haja tr&ecirc;s pessoas em Deus, ou tr&ecirc;s deuses em uma pessoa? Procede<br \/>\n    a segunda da primeira pessoa, e a terceira das duas outras, ou da segunda<br \/>\n    intrinsecus, ou apenas da primeira? Possui o Filho todos os atributos do Pai,<br \/>\n    exceto a paternidade? E essa terceira pessoa, vem por infus&atilde;o, ou por<br \/>\n    identifica&ccedil;&atilde;o, ou por espira&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; O Evangelho n&atilde;o trata dessa quest&atilde;o, e nunca<br \/>\n    S. Paulo escreveu o nome da Trindade. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas sempre me falais do Evangelho, e nunca de S. Boaventura,<br \/>\n    nem de Alberto o Grande, nem de Tamburini, nem de Grillandus, nem de Escobar.\n  <\/p>\n<p> Freind: &#8212; E que n&atilde;o sou nem dominicano, nem franciscano, nem<br \/>\n    jesu&iacute;ta; contento-me em ser crist&atilde;o. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas se sois crist&atilde;o, dizei-me de s&atilde; consci&ecirc;ncia:<br \/>\n    acreditais que o resto dos homens esteja condenado &agrave; dana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    eterna? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; A mim n&atilde;o me compete medir a justi&ccedil;a de Deus<br \/>\n    e sua miseric&oacute;rdia. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas afinal, se sois crist&atilde;o, em que &eacute;<br \/>\n    que acreditais? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Creio, com Jesus Cristo, que devemos amar a Deus e ao pr&oacute;ximo,<br \/>\n    perdoar as inj&uacute;rias e reparar os males que tenhamos feito. Crede-me:<br \/>\n    adorai a Deus, sede justo e caridoso; &eacute; quanto basta ao homem. Eis<br \/>\n    as m&aacute;ximas de Jesus. S&atilde;o t&atilde;o verdadeiras que nenhum legislador<br \/>\n    ou fil&oacute;sofo jamais teve outros princ&iacute;pios antes dele, e &eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel que haja outros. Tais verdades jamais tiveram nem podem<br \/>\n    ter outros advers&aacute;rios sen&atilde;o as nossas paix&otilde;es. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas&#8230; ah! a prop&oacute;sito de paix&otilde;es: &eacute;<br \/>\n    verdade que os vossos bispos, os vossos pastores e di&aacute;conos, s&atilde;o<br \/>\n    todos casados? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; &Eacute; verdade. S. Jos&eacute;, que passou por pai de<br \/>\n    Jesus, era casado. Teve por filho a Tiago, o mo&ccedil;o, cognominado Oblia,<br \/>\n    irm&atilde;o de Nosso Senhor; o qual, ap&oacute;s a morte de Jesus, passou<br \/>\n    a vida no templo. S. Paulo, o grande S. Paulo, era casado. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas Grillandus e Molina dizem o contr&aacute;rio. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Molina e Grillandus que digam o que quiserem, prefiro acreditar<br \/>\n    no pr&oacute;prio S. Paulo, que diz em sua primeira ep&iacute;stola aos cor&iacute;ntios(2)<br \/>\n    N&atilde;o temos o direito de comer e beber &agrave; vossa custa? N&atilde;o<br \/>\n    temos o direito de levar conosco nossa mulher, nossa irm&atilde;, como fazem<br \/>\n    os outros ap&oacute;stolos, e os irm&atilde;os de Nosso Senhor, e Cefas? Vai-se<br \/>\n    jamais para a guerra &agrave; pr&oacute;pria custa? Quando se plantou uma<br \/>\n    vinha, n&atilde;o se lhe come o fruto? etc. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas senhor, &eacute; mesmo verdade que S. Paulo tenha<br \/>\n    dito isso? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Sim, ele disse, e muitas coisas mais. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas como! Aquele verdadeiro prod&iacute;gio, aquele<br \/>\n    exemplo de gra&ccedil;a eficaz! <\/p>\n<p> Freind: &#8212; &Eacute; verdade, senhor, que a sua convers&atilde;o foi<br \/>\n    um grande prod&iacute;gio. Confesso que, segundo os Atos dos Ap&oacute;stolos,<br \/>\n    fora ele o mais cruel sat&eacute;lite dos inimigos de Jesus. Dizem os Atos<br \/>\n    que assistira &agrave; lapida&ccedil;&atilde;o de Santo Est&ecirc;v&atilde;o;<br \/>\n    ele pr&oacute;prio diz que, quando os judeus condenavam &agrave; morte um<br \/>\n    seguidor de Jesus, era ele quem levava a senten&ccedil;a, detuli sententiam.<br \/>\n    (3) <\/p>\n<p> Confesso que Abdias, seu disc&iacute;pulo, e J&uacute;lio Africano, seu<br \/>\n    tradutor, o acusam de ter mandado matar a Tiago Oblia, irm&atilde;o de Nosso<br \/>\n    Senhor;(4) mas a sua f&uacute;ria ainda mais admir&aacute;vel lhe torna a<br \/>\n    convers&atilde;o, e n&atilde;o o impediu de achar mulher. Era casado, digo-vos,<br \/>\n    como expressamente o declara S. Clemente de Alexandria. <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas no entanto era um digno, um excelente homem, esse<br \/>\n    S. Paulo! Sinto muito que ele haja assassinado a S. Tiago e a Santo Est&ecirc;v&atilde;o,<br \/>\n    e muito me surpreende que tenha ido ao terceiro c&eacute;u; mas continuai,<br \/>\n    por favor. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; S. Pedro, pelo que diz S. Clemente de Alexandria, teve filhos;<br \/>\n    e at&eacute; se encontra entre estes uma Santa Petronilha. Na sua Hist&oacute;ria<br \/>\n    da Igreja, diz Eus&eacute;bio que S. Nicolau, um dos primeiros disc&iacute;pulos,<br \/>\n    tinha uma bel&iacute;ssima mulher, e que os ap&oacute;stolos lhe censuraram<br \/>\n    preocupar-se muito com ela e parecer ciumento. &#8220;Pois tome-a quem quiser<br \/>\n    &#8211; respondeu-lhes o santo, &#8211; eu a cedo aos senhores.&#8221; (5)\n  <\/p>\n<p> Na economia judaica, que devia durar eternamente, e &agrave; qual no entanto<br \/>\n    sucedeu a economia crist&atilde;, o casamento era, n&atilde;o s&oacute; permitido,<br \/>\n    mas expressamente ordenado aos sacerdotes, pois que deviam ser da mesma ra&ccedil;a;<br \/>\n    e o celibato era uma esp&eacute;cie de inf&acirc;mia. <\/p>\n<p> Em verdade o celibato n&atilde;o deve ter sido considerado uma situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    muito pura e honrosa pelos primeiros crist&atilde;os, pois, entre os hereges<br \/>\n    anatematizados pelos primeiros conc&iacute;lios, encontram-se especialmente<br \/>\n    aqueles que se revoltavam contra o casamento dos padres, como os saturnianos,<br \/>\n    os basilidianos, os montanistas, os encratistas, e outros anos e istas. Eis<br \/>\n    porque a mulher de S. Greg&oacute;rio Nazianzeno deu &agrave; luz a outro<br \/>\n    S. Greg&oacute;rio Nazianzeno e teve a inestim&aacute;vel ventura de ser esposa<br \/>\n    e m&atilde;e de um canonizado, o que n&atilde;o aconteceu nem mesmo a Santa<br \/>\n    M&ocirc;nica, m&atilde;e de Santo Agostinho. Eis por que vos poderia eu nomear<br \/>\n    igual ou maior n&uacute;mero de antigos bispos casados do que o que tivestes,<br \/>\n    outrora, de bispos e papas concubin&aacute;rios, ad&uacute;lteros, ou pederastas,<br \/>\n    coisa que j&aacute; n&atilde;o se encontra em nenhum pa&iacute;s. Eis por<br \/>\n    que a Igreja grega, m&atilde;e da Igreja Latina, quer ainda que os curas sejam<br \/>\n    casados. Eis afinal porque eu, que vos falo, sou casado, e tenho o mais belo<br \/>\n    filho do mundo. <\/p>\n<p> E dizei-me, meu caro bacharel, n&atilde;o tendes v&oacute;s na vossa Igreja<br \/>\n    sete sacramentos, que s&atilde;o todos sinais vis&iacute;veis de uma coisa<br \/>\n    invis&iacute;vel? Ora, um bacharel de Salamanca desfruta das vantagens do<br \/>\n    batismo logo que nasce, da crisma, logo que come&ccedil;a a usar cal&ccedil;as;<br \/>\n    das confiss&atilde;o, logo que faz algumas loucuras, ou compreende as dos<br \/>\n    outros; da comunh&atilde;o, embora um pouco diferente da nossa, logo que chega<br \/>\n    aos treze ou catorze anos, da ordena&ccedil;&atilde;o quando &eacute; tonsurado<br \/>\n    e lhe d&atilde;o um benef&iacute;cio de vinte, ou trinta, ou quarenta mil<br \/>\n    piastras de renda, e enfim, da extrema-un&ccedil;&atilde;o, quando chega a<br \/>\n    hora. Deveremos priv&aacute;-lo do sacramento do matrim&ocirc;nio, quando<br \/>\n    se acha em plena sa&uacute;de, e sobretudo depois que o pr&oacute;prio Deus<br \/>\n    casou Ad&atilde;o e Eva: Ad&atilde;o, o primeiro dos bachar&eacute;is do mundo,<br \/>\n    pois tinha ci&ecirc;ncia infusa, segundo a vossa escola; Eva, a primeira bacharela,<br \/>\n    pois conheceu a &aacute;rvore da ci&ecirc;ncia antes do marido? <\/p>\n<p> O bacharel: &#8212; Mas, se assim &eacute;, acabo com os mas. Est&aacute;<br \/>\n    feito, sou da vossa religi&atilde;o; fa&ccedil;o-me anglicano. Quero casar<br \/>\n    com uma boa mulher que sempre fingir&aacute; amar-me, enquanto eu for jovem,<br \/>\n    que cuidar&aacute; de mim na velhice, e a quem enterrarei com todas as honras,<br \/>\n    se lhe sobrevivo; mais vale isso do que queimar homens e desonrar raparigas,<br \/>\n    como fez o meu primo dom Caracucarador, inquisidor da f&eacute;. <\/p>\n<p> Tal &eacute; o fiel apanhado da conversa&ccedil;&atilde;o que tiveram o<br \/>\n    doutor Freind e o bacharel dom Papalamiendo, chamado depois por n&oacute;s<br \/>\n    Papa Dejando. Essa curiosa entrevista foi redigida por Jacob Hulf, um dos<br \/>\n    secret&aacute;rios de Milorde. <\/p>\n<p> Ap&oacute;s esse encontro, o bacharel chamou-me &agrave; parte e disse-me:<br \/>\n    &#8220;Esse ingl&ecirc;s, que eu tomara a princ&iacute;pio por um antrop&oacute;fago,<br \/>\n    deve ser um excelente homem, pois &eacute; te&oacute;logo e n&atilde;o me<br \/>\n    disse inj&uacute;rias.&#8221; Respondi-lhe que o senhor Freind era tolerante<br \/>\n    e que descendia de uma filha de William Penn, o primeiro dos tolerantes, e<br \/>\n    fundador de Filad&eacute;lfia. &#8220;Tolerante e Filad&eacute;lfia! &#8211;<br \/>\n    exclamou ele. &#8211; Eu nunca tinha ouvido falar nessas seitas&#8221;. Informei-o<br \/>\n    de tudo: n&atilde;o podia acreditar-me, pensava estar em outro universo, e<br \/>\n    tinha raz&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">CAP&Iacute;TULO IV<\/a><\/h4>\n<p> <b>Regresso a Londres: Jenni come&ccedil;a a corromper-se<\/b><\/p>\n<p> Enquanto o nosso digno fil&oacute;sofo Freind esclarecia assim os barceloneses<br \/>\n    e o seu filho Jenni encantava as barcelonesas, milorde Peterborou viu-se perdido<br \/>\n    no conceito da rainha, e no do arquiduque, por lhes haver dado Barcelona.<br \/>\n    Os cortes&atilde;os lhe censuraram haver tomado essa cidade contra todas as<br \/>\n    regras da arte, com um ex&eacute;rcito metade menos forte do que a guarni&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O arquiduque a princ&iacute;pio topou o jogo e o amigo Freind foi obrigado<br \/>\n    a imprimir a apologia do general. Todavia, o arquiduque, que viera conquistar<br \/>\n    o reino da Espanha, n&atilde;o tinha com que pagar seu chocolate. Tudo o que<br \/>\n    lhe dera a rainha Ana se evaporara. Diz Montecuculli, nas suas mem&oacute;rias,<br \/>\n    que tr&ecirc;s coisas s&atilde;o precisas para fazer guerra: 1o. dinheiro,<br \/>\n    2o. dinheiro, 3o. e dinheiro. O arquiduque escreveu de Guadalajara, onde se<br \/>\n    achava a 11 de agosto de 1706, a milorde Peterborou, uma grande carta assinada<br \/>\n    yo el rey, na qual o conjurava a que fosse imediatamente a G&ecirc;nova conseguir-lhe,<br \/>\n    sob fian&ccedil;a pessoal, cem mil libras esterlinas, para reinar.(6) Eis<br \/>\n    pois o nosso Sert&oacute;rio transformado de general de ex&eacute;rcito em<br \/>\n    banqueiro genov&ecirc;s. Confiou sua situa&ccedil;&atilde;o ao amigo Freind;<br \/>\n    dirigiram-se ambos a G&ecirc;nova; eu os acompanhei, pois bem sabeis que o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o me dirige. Admirei a habilidade e esp&iacute;rito de<br \/>\n    concilia&ccedil;&atilde;o de meu amigo nesse delicado assunto. Vi que um bom<br \/>\n    esp&iacute;rito pode prover a tudo; o nosso grande Locke era m&eacute;dico:<br \/>\n    pois foi o &uacute;nico metaf&iacute;sico da Europa e restabeleceu as finan&ccedil;as<br \/>\n    da Inglaterra. <\/p>\n<p> Freind, em tr&ecirc;s dias, conseguiu as cem mil libras esterlinas, que<br \/>\n    a corte de Carlos VI devorou em menos de tr&ecirc;s semanas. Ap&oacute;s o<br \/>\n    que, o general, acompanhado do seu te&oacute;logo, teve de ir justificar-se<br \/>\n    em Londres, em pleno Parlamento, de haver conquistado a Catalunha contra as<br \/>\n    regras e ter-se arruinado a servi&ccedil;o da causa comum. O assunto dilatou-se<br \/>\n    em extens&atilde;o e acrim&ocirc;nia, como todos os assuntos de partido. <\/p>\n<p> Bem sabeis que o senhor Freind fora deputado ao Parlamento antes de ser<br \/>\n    pastor, e o &uacute;nico a quem permitiram exercer essas fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    incompat&iacute;veis. Ora, um dia em que Freind meditava um discurso que devia<br \/>\n    pronunciar na C&acirc;mara dos Comuns, de que era um digno membro, anunciaram-lhe<br \/>\n    uma dama espanhola que pedia para lhe falar sobre assunto urgente. Era do&ntilde;a<br \/>\n    Boca Bermeja. Achava-se em pranto; o nosso bom amigo lhe mandou servir almo&ccedil;o.<br \/>\n    Ela enxugou as l&aacute;grimas, almo&ccedil;ou, e falou-lhe como se segue:\n  <\/p>\n<p> &#8212; Deveis estar lembrado, meu caro senhor, de que, ao seguir para G&ecirc;nova,<br \/>\n    ordenastes ao senhor vosso filho, que partisse de Barcelona para Londres,<br \/>\n    a fim de assumir o emprego de amanuense do Tesouro, que vossa influ&ecirc;ncia<br \/>\n    lhe obteve. Ele embarcou no Trit&atilde;o com o jovem bacharel dom Papa Dejando<br \/>\n    e alguns outros mais que convertestes. Bem deveis imaginar que eu tamb&eacute;m<br \/>\n    seguira em sua companhia, com a minha boa amiga Las Nalgas. Pois n&atilde;o<br \/>\n    ignorais que me permitistes amar ao senhor vosso filho, e que eu o adoro&#8230;\n  <\/p>\n<p> &#8212; Eu, senhorita! N&atilde;o, n&atilde;o lhe permiti isso, tolerei-o;<br \/>\n    &eacute; muito diferente. A fornica&ccedil;&atilde;o entre duas pessoas livres<br \/>\n    foi talvez outrora uma esp&eacute;cie de direito natural de que Jenni pode<br \/>\n    gozar com discri&ccedil;&atilde;o, sem que eu me intrometa; n&atilde;o o constranjo,<br \/>\n    quanto &agrave;s suas amantes, da mesma forma que o deixo jantar o que bem<br \/>\n    lhe pare&ccedil;a. Agora, se se tratasse de um adult&eacute;rio, confesso<br \/>\n    que seria mais severo, pois o adult&eacute;rio &eacute; um furto. Mas quanto<br \/>\n    &agrave;. senhorita, que n&atilde;o faz mal a ningu&eacute;m, nada tenho que<br \/>\n    dizer. <\/p>\n<p> Pois bem senhor, &eacute; de adult&eacute;rio que se trata! O belo Jenni<br \/>\n    me abandonou por uma jovem casada que n&atilde;o &eacute; t&atilde;o bonita<br \/>\n    como eu. Bem vedes que &eacute; uma inj&uacute;ria atroz. <\/p>\n<p> Ele fez mal &#8211; disse ent&atilde;o o senhor Freind. <\/p>\n<p> Boca Bermeja, derramando algumas l&aacute;grimas, contou-lhe como Jenni<br \/>\n    se enciumara, ou tinha fingido enciumar-se, do bacharel; como a senhora Clive-Hart,<br \/>\n    uma dama muito atrevida, muito arrebatada, muito masculina, muito m&aacute;,<br \/>\n    soubera apoderar-se do seu esp&iacute;rito; como vivia ele com libertinos<br \/>\n    que n&atilde;o temiam a Deus; como enfim desprezava a sua fiel Boca Bermeja<br \/>\n    pela esperta da Clive-Hart, porque a Clive-Hart tinha uma nuan&ccedil;a ou<br \/>\n    duas de brancura e rosado acima da pobre Boca Bermeja. <\/p>\n<p> &#8212; &#8220;Examinarei este assunto com mais vagar &#8211; disse o bom<br \/>\n    Freind. &#8211; Tenho de ir agora ao Parlamento para tratar do caso de milorde<br \/>\n    Peterborou&#8221;. <\/p>\n<p> Foi pois ao Parlamento: ouvi-o pronunciar um discurso firme e cerrado, sem<br \/>\n    nenhum lugar-comum, sem ep&iacute;tetos, sem o que n&oacute;s chamamos frases;<br \/>\n    ele n&atilde;o invocava um testemunho, uma lei; atestava-os, citava-os, reclamava-os;<br \/>\n    n&atilde;o dizia que haviam surpreendido a religi&atilde;o da Corte acusando<br \/>\n    Milorde Peterborou por haver arriscado as tropas da rainha Ana, pois; n&atilde;o<br \/>\n    se tratava de um assunto de religi&atilde;o; n&atilde;o prodigava a uma conjetura<br \/>\n    o nome de demonstra&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o faltava com o respeito &agrave;<br \/>\n    augusta assembl&eacute;ia por meio de ins&iacute;pidos gracejos burgueses;<br \/>\n    n&atilde;o chamava a milorde Peterborou seu cliente, porque a palavra cliente<br \/>\n    significa um homem da burguesia protegido por um senador. Freind falava com<br \/>\n    tanta mod&eacute;stia quanto firmeza; escutavam-no em sil&ecirc;ncio; n&atilde;o<br \/>\n    o interrompiam sen&atilde;o para dizer: &#8220;Hear him, hear him: ou&ccedil;am-no,<br \/>\n    ou&ccedil;am-no&#8221;. A C&acirc;mara dos Comuns votou que agradecessem ao<br \/>\n    conde de Peterborou em vez de o condenar. Milorde obteve a mesma justi&ccedil;a<br \/>\n    da Corte dos Pares, e preparou-se para partir com o seu caro Freind, a fim<br \/>\n    de dar o reino da Espanha ao arquiduque; o que todavia n&atilde;o aconteceu,<br \/>\n    pela raz&atilde;o de que nada acontece no mundo precisamente como se quer.\n  <\/p>\n<p> Ao sair do Parlamento, nada urgia tanto como nos informarmos da conduta<br \/>\n    de Jenni. Soubemos que efetivamente levava uma vida desbragada e crapulosa<br \/>\n    com a senhora Clive-Hart e um bando de jovens ateus, ali&aacute;s gente de<br \/>\n    esp&iacute;rito, a quem os pr&oacute;prios deboches haviam persuadido de &#8220;que<br \/>\n    o homem nada tem de superior ao animal, que nasce e morre como o animal, que<br \/>\n    s&atilde;o ambos igualmente formados de terra, que voltam igualmente &agrave;<br \/>\n    terra, e que n&atilde;o h&aacute; nada de bom e sensato sen&atilde;o em gozar<br \/>\n    e viver com aquela a quem se ama, como o afirma Salom&atilde;o no fim do cap&iacute;tulo<br \/>\n    terceiro do Coheleth, a que n&oacute;s chamamos Eclesiastes&#8221;. <\/p>\n<p> Essas id&eacute;ias lhes eram principalmente insufladas por um impudente<br \/>\n    malandro chamado Wirburton. Li algo dos manuscritos desse louco: Deus nos<br \/>\n    livre de os ver impressos algum dia! Pretende Wirburton que Mois&eacute;s<br \/>\n    n&atilde;o acreditava na imortalidade da alma; e, como, com efeito, Mois&eacute;s<br \/>\n    jamais falou nisso, conclui que seria aquela a &uacute;nica prova da sua miss&atilde;o<br \/>\n    divina. Essa, conclus&atilde;o absurda faz infelizmente concluir que a seita<br \/>\n    judaica era falsa; os &iacute;mpios concluem por conseq&uuml;&ecirc;ncia que<br \/>\n    a nossa, fundada na judaica, tamb&eacute;m &eacute; falsa e que, sendo falsa<br \/>\n    esta nossa, que &eacute; a melhor de todas, todas as outras s&atilde;o ainda<br \/>\n    mais falsas; e que, destarte, n&atilde;o h&aacute; religi&atilde;o. De onde<br \/>\n    concluem alguns que n&atilde;o h&aacute; Deus. Acrescentai a essas conclus&otilde;es<br \/>\n    que esse pequeno Wirburton &eacute; um intrigante e um caluniador. Imaginai<br \/>\n    que perigo! <\/p>\n<p> Um outro louco chamado Needham, que &eacute; em segredo jesu&iacute;ta,<br \/>\n    vai ainda mais longe. Esse animal, como ali&aacute;s o sabeis, e como tanto<br \/>\n    j&aacute; vos disseram, imagina que criou enguias com farinha de centeio e<br \/>\n    banha de carneiro; que imediatamente essas enguias produziram outras, sem<br \/>\n    cobertura. Da&iacute; decidirem os nossos fil&oacute;sofos que se pode fazer<br \/>\n    homens com farinha de trigo e banha de perdiz: pois devem ter origem mais<br \/>\n    nobre que a das enguias; pretendem que esses homens produzir&atilde;o outros<br \/>\n    incontinenti; que, assim, n&atilde;o foi Deus quem fez o homem; que tudo se<br \/>\n    fez por si mesmo; que se pode muito bem passar sem Deus; que n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    Deus. Imagina! que estragos o Coheleth mal compreendido, e Wirburton e Needham<br \/>\n    bem compreendidos, n&atilde;o podem fazer em cora&ccedil;&otilde;es mo&ccedil;os<br \/>\n    movidos de paix&otilde;es e que s&oacute; raciocinam segundo elas! <\/p>\n<p> Mas o pior de tudo &eacute; que Jenni estava enterrado em d&iacute;vidas<br \/>\n    at&eacute; o pesco&ccedil;o. Pagava-as de estranha maneira. Naquele mesmo<br \/>\n    dia, enquanto nos ach&aacute;vamos no Parlamento, um de seus credores lhe<br \/>\n    fora cobrar cem guin&eacute;us. O belo Jenni, que at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    permanecera muito d&oacute;cil e polido, batera-se com ele, dando-lhe, como<br \/>\n    &uacute;nico pagamento, uma boa estocada. Temia-se que o ferido viesse a morrer:<br \/>\n    Jenni ia ser preso e arriscava ir para a forca, apesar da prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de milorde Peterborou.<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">CAP&Iacute;TULO V<\/a><\/h4>\n<p> <b>Pretende-se casar Jenni<\/b><\/p>\n<p> Relembro ainda a dor e indigna&ccedil;&atilde;o que experimentara o vener&aacute;vel<br \/>\n    Freind ao saber que o seu querido Jenni se achava nas pris&otilde;es do Santo<br \/>\n    Of&iacute;cio, em Barcelona; pois podeis acreditar que foi tomado de transporte<br \/>\n    ainda mais violento, quando soube dos excessos daquele desgra&ccedil;ado filho,<br \/>\n    das suas orgias, das suas dissipa&ccedil;&otilde;es, da sua maneira de atender<br \/>\n    aos credores e do perigo, em que se achava,, de ir para a forca. Mas Freind<br \/>\n    conteve-se. &Eacute; uma coisa espantosa o dom&iacute;nio que esse homem exerce<br \/>\n    sobre si mesmo. A raz&atilde;o governa-lhe o cora&ccedil;&atilde;o, como um<br \/>\n    bom amo ao criado. Faz tudo a prop&oacute;sito, e age prudentemente com a<br \/>\n    mesma celeridade com que atuam os imprudentes. &#8220;N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    ocasi&atilde;o &#8211; disse ele &#8211; para pregar serm&otilde;es a Jenni;<br \/>\n    &eacute; preciso tir&aacute;-lo do precip&iacute;cio.&#8221; <\/p>\n<p> Na v&eacute;spera recebera o nosso amigo uma importante soma, da heran&ccedil;a<br \/>\n    de George Hubert, seu tio. Vai ele pr&oacute;prio procurar o nosso grande<br \/>\n    cirurgi&atilde;o Cheselden. Felizmente o encontramos; vamos juntos &agrave;<br \/>\n    casa do credor ferido. O senhor Freind manda-lhe examinar o ferimento; n&atilde;o<br \/>\n    era mortal. D&aacute; ao paciente os cem guin&eacute;us e mais cinq&uuml;enta<br \/>\n    &agrave; guisa de indeniza&ccedil;&atilde;o; pede-lhe perd&atilde;o por seu<br \/>\n    filho; exprime-lhe a sua dor com tanto sentimento e verdade que aquele pobre<br \/>\n    homem, que estava no leito, abra&ccedil;a-o chorando e quer devolver-lhe o<br \/>\n    dinheiro. Esse espet&aacute;culo espantava e comovia o jovem senhor Cheselden,<br \/>\n    que come&ccedil;a a adquirir grande reputa&ccedil;&atilde;o e cujo cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o bondoso como h&aacute;beis a sua m&atilde;o e seu golpe<br \/>\n    de vista. Eu estava emocionado, fora de mim; nunca venerara e amara tanto<br \/>\n    a nosso amigo. <\/p>\n<p> Perguntei-lhe, na volta, se n&atilde;o mandaria chamar o filho, para lhe<br \/>\n    exprobrar as faltas. &#8220;N&atilde;o &#8211; disse ele, &#8211; quero que<br \/>\n    ele as reconhe&ccedil;a antes que eu fale nelas. Vamos cear n&oacute;s dois,<br \/>\n    veremos o que posso fazer de melhor. Os exemplos corrigem muito mais do que<br \/>\n    as censuras.&#8221; <\/p>\n<p> Enquanto n&atilde;o chegava a hora da ceia, fui ter com Jenni; encontrei-o,<br \/>\n    como julgo se ache qualquer homem ap&oacute;s o seu primeiro crime, p&aacute;lido,<br \/>\n    com o olhar perdido, a voz rouca e entrecortada, o esp&iacute;rito perturbado,<br \/>\n    e dando respostas desconexas ao que lhe diziam. Contei-lhe afinal o que seu<br \/>\n    pai acabara de fazer. Ele permaneceu im&oacute;vel, olhou-me fixamente, e<br \/>\n    depois desviou a face um instante, para verter algumas l&aacute;grimas. Tirei<br \/>\n    bons aug&uacute;rios desta cena; e tive grandes esperan&ccedil;as de que Jenni<br \/>\n    ainda viria a ser um homem &agrave;s direitas Ia abra&ccedil;&aacute;-lo,<br \/>\n    quando entrou a senhora Clive-Hart, em companhia de um dos estroinas seus<br \/>\n    amigos, chamado Birton. <\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o? &#8211; disse a dama a rir. &#8211; &Eacute; verdade<br \/>\n    que mataste um homem hoje? Devia ser algum aborrecido; &eacute; bom livrar<br \/>\n    o mundo dessa esp&eacute;cie de gente. Quando te vier vontade de matar outro,<br \/>\n    pe&ccedil;o-te que d&ecirc;s prefer&ecirc;ncia a meu marido; pois ele me aborrece<br \/>\n    furiosamente. <\/p>\n<p> Eu contemplava aquela mulher da cabe&ccedil;a aos p&eacute;s. Era bela,<br \/>\n    mas pareceu-me ter qualquer coisa de sinistro na fisionomia. Jenni n&atilde;o<br \/>\n    ousava responder e baixava os olhos porque eu me achava presente. <\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; que tens, meu amigo? &#8211; indagou Birton. &#8211;<br \/>\n    At&eacute; parece que praticaste algum mal; pois eu venho remir os teus pecados.<br \/>\n    Olha, eis aqui um livrinho que acabo de comprar no Lintot; ele prova, como<br \/>\n    dois e dois s&atilde;o quatro, que n&atilde;o h&aacute; nem Deus, nem v&iacute;cio,<br \/>\n    nem virtude: isso &eacute; consolador. Vamos beber. <\/p>\n<p> Ante essas estranhas palavras, retirei-me o mais depressa poss&iacute;vel.<br \/>\n    Fiz ver discretamente ao senhor Freind o quanto necessitava o filho da sua<br \/>\n    presen&ccedil;a e dos seus conselhos. &#8220;O mesmo penso eu &#8211; disse<br \/>\n    aquele bom pai, &#8211; mas comecemos por lhe pagar as d&iacute;vidas.&#8221;<br \/>\n    Todas foram liquidadas na manh&atilde; seguinte. Jenni veio lan&ccedil;ar-se<br \/>\n    a seus p&eacute;s. Pois acreditais que o pai n&atilde;o lhe fez censura alguma?<br \/>\n    Abandonou-a &agrave; pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia, dizendo-lhe apenas:<br \/>\n    &#8220;Meu filho, lembra-te de que n&atilde;o h&aacute; felicidade sem virtude.&#8221;\n  <\/p>\n<p> Em seguida fez casar Boca Bermeja com o bacharel de Catalunha, pelo qual<br \/>\n    tinha ela uma secreta inclina&ccedil;&atilde;o, apesar das l&aacute;grimas<br \/>\n    que derramara por Jenni; pois tudo isso se combina maravilhosamente nas mulheres.<br \/>\n    Dizem que &eacute; nos seus cora&ccedil;&otilde;es que todas as contradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    se re&uacute;nem. Sem d&uacute;vida &eacute; porque foram originariamente<br \/>\n    formadas de uma costela nossa. <\/p>\n<p> O generoso Freind pagou o dote do casal; deixou bem colocados todos os seus<br \/>\n    novos conversos, gra&ccedil;as &agrave; prote&ccedil;&atilde;o de milorde<br \/>\n    Peterborou: pois n&atilde;o basta assegurar a salva&ccedil;&atilde;o dos outros;<br \/>\n    &eacute; preciso faz&ecirc;-los viver. <\/p>\n<p> Tendo despachado todas essas boas a&ccedil;&otilde;es com aquele ativo sangue-frio<br \/>\n    que sempre me espantava, concluiu que n&atilde;o havia outro partido para<br \/>\n    recolocar o filho no reto caminho, sen&atilde;o cas&aacute;-lo com uma criatura<br \/>\n    de bom nascimento, que tivesse beleza, car&aacute;ter, intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    e at&eacute; um pouco de riqueza; pois era o &uacute;nico meio de afastar<br \/>\n    Jenni dessa detest&aacute;vel Clive-Hart e dos perdidos que ele freq&uuml;entava.\n  <\/p>\n<p> Tinha eu ouvido falar na senhora Primerose, jovem herdeira, criada por milady<br \/>\n    Hervey, sua parenta. Milorde Peterborou introduziu-me em casa de milady Hervey.<br \/>\n    Vi Miss Primerose e achei-a capaz de satisfazer a todos os des&iacute;gnios<br \/>\n    de meu amigo Freind. Jenni, em meio &agrave; sua vida desregrada, dedicava<br \/>\n    profundo respeito e mesmo ternura ao pai. Agora, o que mais o sensibilizava<br \/>\n    &eacute; que o pai n&atilde;o lhe fazia nenhuma censura ao passado. Suas d&iacute;vidas<br \/>\n    saldadas sem avis&aacute;-lo, s&aacute;bios conselhos dados a prop&oacute;sito<br \/>\n    e sem reprimendas, mostras de amizade escapadas de tempos em tempos, sem nenhuma<br \/>\n    familiaridade que as pudesse aviltar, tudo isso penetrava Jenni, que nascera<br \/>\n    com sentimento e bastante intelig&ecirc;ncia. Todas as raz&otilde;es tinha<br \/>\n    eu para crer que a f&uacute;ria de suas desordens acabaria cedendo aos encantos<br \/>\n    de Primerose e &agrave;s admir&aacute;veis virtudes de meu amigo. <\/p>\n<p> O pr&oacute;prio milorde Peterborou apresentou primeiro o pai e depois Jenni<br \/>\n    em casa de milady Hervey. Notei que a extrema beleza de Jenni causou logo<br \/>\n    uma impress&atilde;o profunda no cora&ccedil;&atilde;o de Primerose; pois<br \/>\n    vi-a baixar os olhos, ergu&ecirc;-los e enrubescer. Jenni apenas se mostrou<br \/>\n    polido, e Primerose confessou a milady Hervey que desejaria muito que essa<br \/>\n    polidez fosse amor. <\/p>\n<p> Pouco a pouco o nosso belo jovem foi descobrindo todo o m&eacute;rito daquela<br \/>\n    incompar&aacute;vel mo&ccedil;a, embora estivesse subjugado pela infame Clive-Hart.<br \/>\n    Achava-se como aquele indiano convidado por um anjo a colher um fruto celeste,<br \/>\n    e retido pelas garras de um drag&atilde;o. Sufoca-me, neste instante, a lembran&ccedil;a<br \/>\n    do que vi. Minhas l&aacute;grimas molham o papel. Quando houver recobrado<br \/>\n    a calma, retomarei o fio de minha hist&oacute;ria.<\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">CAP&Iacute;TULO VI<\/a><\/h4>\n<p> <b>Terr&iacute;vel aventura<\/b><\/p>\n<p> Estava prestes a concluir-se o casamento da bela Primerose com o belo Jenni.<br \/>\n    O nosso amigo Freind jamais gozara de t&atilde;o pura alegria; eu a compartilhava.<br \/>\n    E eis como se transforma ela numa desgra&ccedil;a que mal Posso compreender.\n  <\/p>\n<p> A Clive-Hart amava Jenni, sem deixar de fazer-lhe cont&iacute;nuas trai&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    &Eacute; a sorte, dizem, de todas as mulheres que, desprezando demais o pudor,<br \/>\n    renunciaram &agrave; probidade. Ela tra&iacute;a principalmente o seu querido<br \/>\n    Jenni com o seu querido Birton e mais um outro debochado da mesma t&ecirc;mpera.<br \/>\n    Viviam juntos na cr&aacute;pula. E uma coisa que talvez s&oacute; se veja<br \/>\n    em nosso pa&iacute;s &eacute; que eles todos tinham esp&iacute;rito e valor.<br \/>\n    Infelizmente, nunca tinham tanto esp&iacute;rito como contra Deus. A casa<br \/>\n    da senhora Clive-Hart era o sal&atilde;o dos ateus. Se ao menos fossem ateus<br \/>\n    honrados, como Epicuro e Leontium, como Lucr&eacute;cio e Memmius, como Spinoza,<br \/>\n    que dizem ter sido um dos homens mais honestos da Holanda, como Hobbes, t&atilde;o<br \/>\n    fiel a seu desgra&ccedil;ado soberano Carlos I&#8230; <\/p>\n<p> Como quer que seja, Clive-Hart, furiosamente enciumada da terna e inocente<br \/>\n    Primerose, sem que fosse fiel a Jenni, n&atilde;o p&ocirc;de suportar aquele<br \/>\n    feliz enlace. Medita uma vingan&ccedil;a de que n&atilde;o creio haja exemplo<br \/>\n    em nossa cidade de Londres, onde no entanto nossos pais viram tantos e t&atilde;o<br \/>\n    diversos crimes. <\/p>\n<p> Soube que Primerose devia passar pela sua porta ao voltar do centro, onde<br \/>\n    fora a compras, com a camareira. Manda ent&atilde;o consertar um encanamento<br \/>\n    subterr&acirc;neo que levava &aacute;gua a sua casa. <\/p>\n<p> A carruagem de Primerose foi obrigada, na volta, a parar ante o obst&aacute;culo.<br \/>\n    A Clive-Hart aparece, pede-lhe que des&ccedil;a, que descanse um pouco, que<br \/>\n    tome alguns refrescos, enquanto n&atilde;o fica desimpedida a passagem. A<br \/>\n    bela Primerose tremia ante este convite; mas Jenni achava-se no vest&iacute;bulo.<br \/>\n    Um movimento involunt&aacute;rio, mais forte que a reflex&atilde;o, f&ecirc;-la<br \/>\n    descer. Jenni corria a seu encontro, oferecendo-lhe a m&atilde;o. Ela entra;<br \/>\n    o marido de Clive-Hart era um b&ecirc;bedo imbecil, odioso a sua mulher tanto<br \/>\n    quanto submisso, e talvez exatamente por suas complac&ecirc;ncias. Balbuciando,<br \/>\n    oferece primeiro uns refrescos &agrave; senhorita que lhe honra a casa, e<br \/>\n    tamb&eacute;m se serve depois dela. A senhora Clive-Hart leva-os em seguida<br \/>\n    e manda trazer outros. Nesse meio tempo, a rua &eacute; desembara&ccedil;ada<br \/>\n    e Primerose sobe no carro e regressa &agrave; casa da m&atilde;e. <\/p>\n<p> Um quarto de hora ap&oacute;s, queixa-se de n&aacute;useas e vertigens.<br \/>\n    Atribui-se esse pequeno desarranjo ao movimento da carruagem. Mas o mal aumenta<br \/>\n    de instante a instante; e, no dia seguinte, estava &agrave; morte. O senhor<br \/>\n    Freind e eu corremos &agrave; sua resid&ecirc;ncia. Fomos encontrar aquela<br \/>\n    encantadora criatura p&aacute;lida, l&iacute;vida, agitada de convuls&otilde;es,<br \/>\n    os l&aacute;bios contra&iacute;dos, os olhos ora apagados, ora fulgurantes,<br \/>\n    e sempre fixos. Manchas negras lhe desfiguravam a bela garganta e o belo rosto.<br \/>\n    Sua m&atilde;e achava-se desmaiada junto ao leito. O prestativo Cheselden<br \/>\n    prodigalizava em v&atilde;o todos os recursos da sua arte. N&atilde;o vos<br \/>\n    pintarei o desespero de Freind; era inexprim&iacute;vel. Corro &agrave; casa<br \/>\n    da Clive-Hart. Informo-me de que seu marido acaba de morrer, e que sua mulher<br \/>\n    desertara de casa. Procuro Jenni; imposs&iacute;vel encontr&aacute;-lo. Conta-me<br \/>\n    uma criada que a sua patroa se lan&ccedil;ara aos p&eacute;s de Jenni, conjurando-o<br \/>\n    a n&atilde;o abandon&aacute;-la na sua desgra&ccedil;a. Diz mais que ela partira<br \/>\n    com Jenni e Birton, e que ningu&eacute;m sabe para onde foram. <\/p>\n<p> Esmagado com esses repentinos e m&uacute;ltiplos golpes, o esp&iacute;rito<br \/>\n    agitado de terr&iacute;veis suspeitas que eu repelia e que voltavam, arrasto-me<br \/>\n    at&eacute; a casa da moribunda. &#8220;No entanto &#8211; dizia eu comigo<br \/>\n    mesmo, &#8211; se aquela abomin&aacute;vel mulher se lan&ccedil;ou aos joelhos<br \/>\n    de Jenni, se lhe pediu miseric&oacute;rdia, &eacute; que ent&atilde;o ele<br \/>\n    n&atilde;o era c&uacute;mplice. Jenni &eacute; incapaz de um crime t&atilde;o<br \/>\n    covarde, t&atilde;o medonho, que n&atilde;o teria nenhum interesse, nenhum<br \/>\n    motivo para cometer, que o privaria de uma mulher ador&aacute;vel e da sua<br \/>\n    fortuna, que o tornaria execr&aacute;vel ao g&ecirc;nero humano. Fraco, ter-se-&aacute;<br \/>\n    deixado subjugar por uma infeliz cuja perversidade desconhece. N&atilde;o<br \/>\n    viu, como eu, Primerose moribunda; n&atilde;o teria deixado a cabeceira de<br \/>\n    seu leito para seguir a envenenadora de sua futura esposa.&#8221; Devorado<br \/>\n    por esses pensamentos, penetro, tr&ecirc;mulo, na casa daquela que n&atilde;o<br \/>\n    mais esperava encontrar com vida. Ela respirava. O velho Clive-Hart sucumbira<br \/>\n    em um instante, porque seu corpo se achava, desgastado pelos excessos; mas<br \/>\n    a jovem Primerose era sustentada por uma natureza t&atilde;o robusta como<br \/>\n    pura era a sua alma. Avistou-me e, com voz terna, me perguntou onde estava<br \/>\n    Jenni. Diante disto, confesso que uma torrente de l&aacute;grimas me correu<br \/>\n    dos olhos. N&atilde;o pude responder-lhe; n&atilde;o pude falar ao pai. Foi<br \/>\n    preciso deix&aacute;-la enfim entre as m&atilde;os fi&eacute;is que a serviam.\n  <\/p>\n<p> Fomos informar milorde dessa desgra&ccedil;a. V&oacute;s lhe conheceis o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o: &eacute; t&atilde;o terno para com os amigos como terr&iacute;vel<br \/>\n    para os inimigos. Nunca um homem se mostrou t&atilde;o compassivo com mais<br \/>\n    dura fisionomia. Tanto se esfor&ccedil;ou por socorrer a moribunda, por descobrir<br \/>\n    o ref&uacute;gio de Jenni e da sua celerada companheira, como se esfor&ccedil;ara<br \/>\n    antes por dar a Espanha ao arquiduque. Todas as nossas pesquisas foram in&uacute;teis.<br \/>\n    Acreditei que Freind fosse morrer de desgosto. Corr&iacute;amos, ora &agrave;<br \/>\n    casa de Primerose, cuja agonia se prolongava, ora a Rochester, a Douvres,<br \/>\n    a Portsmouth; enviava-se correio a toda parte, estava-se em toda parte, errava-se<br \/>\n    ao acaso como c&atilde;es de ca&ccedil;a que houvessem perdido a pista; e,<br \/>\n    enquanto isto, a desgra&ccedil;ada m&atilde;e da desgra&ccedil;ada Primerose<br \/>\n    via de hora a hora ir morrendo a filha. <\/p>\n<p> Soubemos afinal que uma mulher muito mo&ccedil;a e bonita, acompanhada de<br \/>\n    tr&ecirc;s jovens e alguns criados, embarcara em Neuport, no condado de Pembroke,<br \/>\n    em um pequeno navio cheio de contrabandistas, que ali se achava ancorado,<br \/>\n    e que esse navio partira para a Am&eacute;rica Setentrional. <\/p>\n<p> Freind, a esta not&iacute;cia, lan&ccedil;ou um profundo suspiro; concentrou-se<br \/>\n    um momento e, apertando-me a m&atilde;o, declarou: <\/p>\n<p> &#8212; Devo ir &agrave; Am&eacute;rica. <\/p>\n<p> Cheio de admira&ccedil;&atilde;o e em pranto, respondi-lhe: <\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o vos deixarei. Mas que podereis fazer? <\/p>\n<p> &#8212; Restituir meu filho &uacute;nico &agrave; sua p&aacute;tria e &agrave;<br \/>\n    virtude, ou sepultar-me junto dele. <\/p>\n<p> N&atilde;o pod&iacute;amos duvidar, com efeito, pelos sinais que nos deram,<br \/>\n    de que era Jenni que havia embarcado com aquela horr&iacute;vel mulher e Birton,<br \/>\n    e os mais do seu cortejo. <\/p>\n<p> O bom pai, tendo tomado o seu partido, despediu-se de milorde Peterborou,<br \/>\n    que logo regressou &agrave; Catalunha, e fomos fretar em Bristol um navio<br \/>\n    at&eacute; Delaware e Maryland. Conclu&iacute;a Freind que, estando essas<br \/>\n    paragens em meio &agrave;s possess&otilde;es inglesas, para l&aacute; dever&iacute;amos<br \/>\n    navegar, tivesse o filho rumado para o sul ou para o norte. Muniu-se de dinheiro,<br \/>\n    de letras de c&acirc;mbio e de v&iacute;veres, deixando em Londres um empregado<br \/>\n    com o encargo de lhe mandar not&iacute;cias pelos navios que partiam semanalmente<br \/>\n    para Maryland ou a Pensilv&acirc;nia. <\/p>\n<p> Partimos; o pessoal de bordo, vendo a serenidade de Freind, supunha que<br \/>\n    se tratava de uma viagem de recreio. Mas, quando tinha s&oacute; a mim por<br \/>\n    testemunha, os seus suspiros assaz denotavam o sofrimento que lhe ia na alma.<br \/>\n    Algumas vezes eu me aplaudia, em segredo, da honra de consolar t&atilde;o<br \/>\n    bela alma. Um vento de oeste nos reteve longo tempo &agrave; altura das Sorlingas.<br \/>\n    Fomos obrigados a rumar para a Nova Inglaterra. Quantas informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tomamos por toda a costa! Quanto tempo e quanto passo perdido! Afinal, tendo-se<br \/>\n    levantado um vento do nordeste, tocamos para Maryland. Foi l&aacute; que nos<br \/>\n    deram not&iacute;cias de Jenni, da Clive-Hart e seus companheiros. <\/p>\n<p> Haviam-se demorado mais de um m&ecirc;s no litoral, espantando toda a col&ocirc;nia<br \/>\n    com orgias e magnific&ecirc;ncias at&eacute; ent&atilde;o desconhecidas naquela<br \/>\n    parte do globo; depois haviam desaparecido, e ningu&eacute;m sabia not&iacute;cias<br \/>\n    suas. <\/p>\n<p> Avan&ccedil;amos pela ba&iacute;a, com o intento de ir at&eacute; Baltimore<br \/>\n    colher novas informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\">CAP&Iacute;TULO VII<\/a><\/h4>\n<p> <b>O que aconteceu na Am&eacute;rica<\/b><\/p>\n<p> Deparou-se-nos &agrave; direita, no litoral, uma habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    muito bem edificada. Era uma casa baixa, c&ocirc;moda e limpa, entre uma granja<br \/>\n    espa&ccedil;osa e um vasto est&aacute;bulo, tudo cercado de um parque onde<br \/>\n    vicejavam todos os frutos da regi&atilde;o. A propriedade pertencia a um velho<br \/>\n    que nos convidou a desembarcar, para visit&aacute;-la. N&atilde;o tinha aspecto<br \/>\n    de ingl&ecirc;s, e vimos logo, pelo sotaque, que se tratava de um estrangeiro.<br \/>\n    Deitamos &acirc;ncora; descemos; o bom do homem recebeu-nos cordialmente,<br \/>\n    e ofereceu-nos a melhor refei&ccedil;&atilde;o que se possa fazer no novo<br \/>\n    mundo. <\/p>\n<p> Discretamente lhe insinuamos nosso desejo de saber a quem dev&iacute;amos<br \/>\n    a bondade de tal recep&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p> &#8212; Sou &#8211; disse ele &#8211; um desses a quem chamais selvagens.<br \/>\n    Nasci numa das montanha. azuis que bordam esta regi&atilde;o, e que daqui<br \/>\n    avistais no ocidente. Quando menino, fui mordido por uma cascavel, numa dessas<br \/>\n    montanhas; estava abandonado, ia morrer. Mas o pai do lorde Baltimore de hoje,<br \/>\n    encontrando-me, entregou-me aos cuidados de seu m&eacute;dico, e a ele devi<br \/>\n    a minha salva&ccedil;&atilde;o. Em breve retribui o que lhe devia; pois lhe<br \/>\n    salvei a vida durante um combate com uma horda vizinha. Como recompensa, deu-me<br \/>\n    ele esta casa, onde vivo feliz. <\/p>\n<p> Perguntou-lhe o senhor Freind se ele n&atilde;o era da mesma religi&atilde;o<br \/>\n    de Lorde Baltimore. <\/p>\n<p> &#8212; Eu? &#8211; disse ele. &#8211; Eu sou da minha. Porque h&aacute;<br \/>\n    de querer o senhor que eu seja da religi&atilde;o de um outro homem? <\/p>\n<p> Essa curta e en&eacute;rgica resposta nos fez refletir um pouco. <\/p>\n<p> &#8212; Tendes ent&atilde;o &#8211; lhe disse eu &#8211; o vosso Deus e<br \/>\n    a vossa lei? <\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; respondeu-nos, com uma seguran&ccedil;a que nada tinha<br \/>\n    de altivez. &#8211; L&aacute; est&aacute; o meu Deus (e apontou para o c&eacute;u)<br \/>\n    e aqui a minha lei (e p&ocirc;s a m&atilde;o no cora&ccedil;&atilde;o). <\/p>\n<p> Disse-me o sr. Freind, cheio de admira&ccedil;&atilde;o: <\/p>\n<p> &#8212; Essa pura natureza sabe mais sobre o assunto do que todos os bachar&eacute;is<br \/>\n    que discutiram conosco em Barcelona. <\/p>\n<p> Estava ansioso por saber, se poss&iacute;vel, alguma not&iacute;cia certa<br \/>\n    acerca de seu filho Jenni. Era um peso que o oprimia. Perguntou se n&atilde;o<br \/>\n    tinham ouvido falar daquele bando de jovens que tanto estardalha&ccedil;o<br \/>\n    fizera pelas redondezas. <\/p>\n<p> &#8212; Como? Se me falaram neles?! &#8211; exclamou o velho. <\/p>\n<p> &#8212; Mas eu pr&oacute;prio os vi, hospedei-os em casa, e ficaram t&atilde;o<br \/>\n    satisfeitos com a minha recep&ccedil;&atilde;o, que partiram com uma de minhas<br \/>\n    filhas. <\/p>\n<p> Imaginai qual n&atilde;o foi o choque e o terror de meu amigo, ao ouvir<br \/>\n    tais palavras. N&atilde;o pode deixar de exclamar, no primeiro impulso: <\/p>\n<p> Como! Ent&atilde;o foi raptada por meu filho?! <\/p>\n<p> Bom ingl&ecirc;s &#8211; retrucou o velho, &#8211; n&atilde;o te incomodes;<br \/>\n    estimo muito que aquele que partiu de minha casa com minha filha seja teu<br \/>\n    filho; pois &eacute; belo, bem proporcionado e parece corajoso. N&atilde;o,<br \/>\n    ele n&atilde;o raptou a minha querida Paruba; pois deves saber que Paruba<br \/>\n    &eacute; o seu nome, porque Paruba &eacute; o meu. Se ele houvesse raptado<br \/>\n    a minha Paruba, seria um roubo; e os meus cinco filhos machos, que est&atilde;o<br \/>\n    a ca&ccedil;ar pela vizinhan&ccedil;a, a quarenta ou cinq&uuml;enta milhas<br \/>\n    daqui, n&atilde;o teriam suportado essa afronta. &Eacute; um grande pecado<br \/>\n    roubar o bem alheio. A minha filha foi por sua pr&oacute;pria vontade com<br \/>\n    esses jovens; quis visitar o pa&iacute;s; &eacute; uma pequena satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que n&atilde;o se deve recusar a uma criatura da sua idade. Esses viajantes<br \/>\n    ma devolver&atilde;o em menos de um m&ecirc;s, tenho certeza, pois assim me<br \/>\n    prometeram. <\/p>\n<p> Tais palavras me teriam feito rir, se a dor em que eu via absorto o meu<br \/>\n    amigo tamb&eacute;m n&atilde;o me houvesse penetrado a alma. <\/p>\n<p> &Agrave; noite, quando est&aacute;vamos prestes a partir, aproveitando o<br \/>\n    vento, chega um dos filhos de Paruba, sem f&ocirc;lego, com a palidez, o horror<br \/>\n    e o desespero estampado no rosto. <\/p>\n<p> &#8212; Que tens, meu filho? De onde vens? Eu te supunha na ca&ccedil;a.<br \/>\n    Que te aconteceu? Foste fendo por algum animal selvagem? <\/p>\n<p> N&atilde;o, meu pai, n&atilde;o fui ferido, mas estou morrendo. Mas de onde<br \/>\n    vens, mais uma vez te pergunto, meu caro filho? <\/p>\n<p> &#8212; Venho de quarenta milhas de dist&acirc;ncia, mas estou morto. <\/p>\n<p> O pai, tr&ecirc;mulo, obriga-o a descansar. D&atilde;o-lhe estimulantes;<br \/>\n    apressuramo-nos em torno dele, os seus irm&atilde;ozinhos, as suas irm&atilde;zinhas,<br \/>\n    o sr. Freind, eu e nossos criados. Depois que se refez, lan&ccedil;ou-se ao<br \/>\n    pesco&ccedil;o do bom velho Paruba. <\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; disse ele solu&ccedil;ando. &#8211; A minha irm&atilde;<br \/>\n    Paruba &eacute; prisioneira de guerra, e provavelmente vai ser devorada. <\/p>\n<p> A estas palavras, o velho Paruba caiu por terra. O senhor Freind, que tamb&eacute;m<br \/>\n    era pai, sentiu um aperto nas entranhas. Afinal Paruba filho nos relatou que<br \/>\n    um bando de jovens ingleses muito estouvados atacara por passatempo os habitantes<br \/>\n    da montanha azul. <\/p>\n<p> &#8212; Levavam consigo &#8211; disse ele &#8211; uma bela mulher e sua<br \/>\n    criada; e n&atilde;o sei como &eacute; que minha irm&atilde; se encontrava<br \/>\n    em tal companhia. A bela inglesa foi morta e comida; minha irm&atilde; foi<br \/>\n    feita prisioneira e ser&aacute; igualmente devorada. Venho aqui procurar aux&iacute;lio<br \/>\n    contra os habitantes da montanha azul; quero mat&aacute;-los, com&ecirc;-los<br \/>\n    por minha vez, tomar-lhes minha irm&atilde;, ou morrer. <\/p>\n<p> Foi ent&atilde;o a vez do senhor Freind desmaiar; mas o h&aacute;bito de<br \/>\n    dominar-se sustentou-o. <\/p>\n<p> Deus me deu um filho &#8211; disse-me ele. &#8211; Retomar&aacute; o filho<br \/>\n    e o pai, quando for chegado o momento de executar seus eternos des&iacute;gnios.<br \/>\n    Meu amigo, sou tentado a crer que Deus age &agrave;s vezes por meio de uma<br \/>\n    provid&ecirc;ncia particular, submetida &agrave;s suas leis gerais, visto<br \/>\n    que pune na Am&eacute;rica os crimes cometidos na Europa e que a celerada<br \/>\n    Clive-Hart morreu como devia. Talvez o soberano fabricador de tantos mundos<br \/>\n    haja arranjado as coisas de modo que os grandes males cometidos em um globo<br \/>\n    sejam algumas vezes expiados nesse mesmo globo. N&atilde;o ouso acredit&aacute;-lo,<br \/>\n    mas desejo-o; e assim acreditaria, se essa id&eacute;ia n&atilde;o fosse contr&aacute;ria<br \/>\n    a todas as regras da boa metaf&iacute;sica. <\/p>\n<p> Ap&oacute;s reflex&otilde;es t&atilde;o tristes sobre t&atilde;o fatais<br \/>\n    aventuras, muito comuns na Am&eacute;rica, Freind tomou incontinenti o seu<br \/>\n    partido, como costumava. <\/p>\n<p> &#8212; Tenho &#8211; disse ele a seu hospedeiro &#8211; um bom navio, bem<br \/>\n    aprovisionado; remontemos o golfo com a mar&eacute;, o mais perto poss&iacute;vel<br \/>\n    das montanhas azuis. Meu mais urgente empenho &eacute; agora salvar a vossa<br \/>\n    filha. Vamos ter com os vossos antigos compatriotas; direis a eles que lhes<br \/>\n    venho trazer o cachimbo da paz e que sou neto de Penn: este nome bastar&aacute;.\n  <\/p>\n<p> A esse nome de Penn, t&atilde;o venerado em toda a Am&eacute;rica boreal,<br \/>\n    o bom Paruba e seu filho sentiram-se tomados do mais profundo respeito e da<br \/>\n    mais grata esperan&ccedil;a. Embarcamos, velejamos e, em trinta e seis horas,<br \/>\n    j&aacute; est&aacute;vamos desembarcando nas proximidades de Baltimore. <\/p>\n<p> Apenas nos ach&aacute;vamos &agrave; vista dessa pra&ccedil;a, ent&atilde;o<br \/>\n    quase deserta, quando divisamos de longe um numeroso bando de habitantes das<br \/>\n    montanhas azuis, que desciam para a plan&iacute;cie com ma&ccedil;as, machados<br \/>\n    e esses mosquet&otilde;es que os europeus t&atilde;o tolamente lhes haviam<br \/>\n    vendido para conseguir peles. J&aacute; se ouviam terr&iacute;veis gritos.<br \/>\n    De outro lado, avan&ccedil;avam quatro cavaleiros, seguidos de alguns homens<br \/>\n    a p&eacute;. Essa pequena tropa nos tomou por gente de Baltimore que lhes<br \/>\n    fosse dar combate: Os cavaleiros correm para n&oacute;s a toda brida, com<br \/>\n    o sabre em punho. Nossos companheiros preparavam-se para os receber. O senhor<br \/>\n    Freind, depois de olhar fixamente os cavaleiros, estremeceu um instante; mas,<br \/>\n    retomando logo o sangue-frio, disse-nos com voz comovida: <\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se movam, meu amigos; deixem-me agir sozinho. Avan&ccedil;a<br \/>\n    com efeito sozinho, sem armas, a passo lento, ao encontro da tropa. Vemos,<br \/>\n    num &aacute;pice, o chefe abandonar as r&eacute;deas de seu cavalo, lan&ccedil;ar-se<br \/>\n    por terra, e tombar prosternado. Lan&ccedil;amos um grito de espanto; aproximamo-nos:<br \/>\n    era o pr&oacute;prio Jenni que banhava de l&aacute;grimas os p&eacute;s do<br \/>\n    pai, o qual o enla&ccedil;ava com suas m&atilde;os tr&ecirc;mulas. Nenhum<br \/>\n    dos dois podia falar. Birton e os dois jovens cavaleiros que o acompanhavam<br \/>\n    apearam do cavalo. Mas Birton, conservando o seu car&aacute;ter, disse-lhe:\n  <\/p>\n<p> &#8212; Oh! meu caro Freind, eu n&atilde;o te esperava por aqui. Fomos feitos<br \/>\n    para as aventuras. Francamente, muito prazer em ver-te. <\/p>\n<p> Freind, sem se dignar responder-lhe, voltou-se para o ex&eacute;rcito das<br \/>\n    montanhas azuis, que avan&ccedil;ava. E encaminhou-se na sua dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apenas com Paruba, que servia de int&eacute;rprete. <\/p>\n<p> &#8212; Compatriotas &#8211; disse-lhes Paruba, &#8211; eis aqui o descendente<br \/>\n    de Penn, que vos traz o cachimbo da paz. <\/p>\n<p> A estas palavras, respondeu o mais antigo do povo, erguendo as m&atilde;os<br \/>\n    e os olhos ao c&eacute;u. <\/p>\n<p> &#8212; Um filho de Penn! Que eu lhe beije os p&eacute;s e as m&atilde;os,<br \/>\n    e as partes sagradas da gera&ccedil;&atilde;o. Possa ele fazer uma longa ra&ccedil;a<br \/>\n    de Penn! Que os Penn vivam para sempre! O grande Penn &eacute; o nosso manitu,<br \/>\n    o nosso Deus. Foi quase o &uacute;nico europeu que n&atilde;o nos enganou,<br \/>\n    que n&atilde;o se apoderou de nossas terras &agrave; for&ccedil;a. Comprou<br \/>\n    a regi&atilde;o que lhe cedemos; pagou-a liberalmente; manteve a conc&oacute;rdia<br \/>\n    entre n&oacute;s; trouxe rem&eacute;dios para as poucas doen&ccedil;as que<br \/>\n    nos comunicava o nosso contato com europeus; ensinou-nos artes que ignor&aacute;vamos.<br \/>\n    Jamais fumamos contra ele nem contra seus filhos o cachimbo da guerra; para<br \/>\n    os Penn, s&oacute; temos o cachimbo da adora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p> Tendo assim falado em nome de seu povo, correu com efeito a beijar as m&atilde;os<br \/>\n    e os p&eacute;s do senhor Freind; mas absteve-se de chegar &agrave;s partes<br \/>\n    sagradas quando lhe disseram que isso n&atilde;o era costume na Inglaterra<br \/>\n    e que cada terra tem as suas cerim&ocirc;nias. <\/p>\n<p> Freind mandou trazer imediatamente de bordo umas tr&ecirc;s d&uacute;zias<br \/>\n    de presuntos, outros tantos pastel&otilde;es e frangos recheados e duzentos<br \/>\n    garraf&otilde;es de vinho de Pontac. Jenni e seus companheiros tomaram parte<br \/>\n    no festim; mas Jenni preferia achar-se a cem p&eacute;s abaixo da terra. O<br \/>\n    pai n&atilde;o lhe dizia palavra; e tal sil&ecirc;ncio ainda mais lhe aumentava<br \/>\n    a vergonha. <\/p>\n<p> Birton, a quem tudo era igual, mostrava uma estouvada alegria. Antes de<br \/>\n    come&ccedil;arem a comer, disse Freind ao bom Paruba: &#8220;S&oacute; nos<br \/>\n    falta aqui uma estimada criatura, a vossa filha.&#8221; Imediatamente o comandante<br \/>\n    das montanhas azuis a mandou buscar; n&atilde;o lhe tinham feito nenhum ultraje;<br \/>\n    ela abra&ccedil;ou o pai e o irm&atilde;o como se voltasse de um passeio.\n  <\/p>\n<p> Aproveitei-me da liberdade do repasto para indagar porque motivo haviam<br \/>\n    os guerreiros das montanhas azuis matado o devorado a senhora Clive-Hart,<br \/>\n    e nada tinham feito &agrave; filha de Paruba. <\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; porque somos justos &#8211; respondeu o comandante. &#8211;<br \/>\n    Essa orgulhosa inglesa era do bando que nos atacou, matou um dos nossos por<br \/>\n    tr&aacute;s, com um tiro de pistola. Nada fizemos a Paruba ao saber que era<br \/>\n    filha de um dos nossos antigos camaradas e que aqui s&oacute; viera divertir-se;<br \/>\n    a cada qual pelo que faz. <\/p>\n<p> Freind mostrou-se muito bem impressionado com essa m&aacute;xima; mas observou<br \/>\n    que o costume de devorar mulheres era indigno de t&atilde;o brava gente e<br \/>\n    que, com tantas virtudes, n&atilde;o deviam ser antrop&oacute;fagos. <\/p>\n<p> O chefe das montanhas perguntou-nos ent&atilde;o o que faz&iacute;amos com<br \/>\n    os nossos inimigos, depois de os matar. <\/p>\n<p> &#8212; N&oacute;s os enterramos &#8211; respondi-lhe. <\/p>\n<p> &#8212; Quer isto dizer &#8211; retrucou &#8211; que os dais de comer aos<br \/>\n    vermes. N&oacute;s queremos a primazia; nossos est&ocirc;magos s&atilde;o<br \/>\n    uma sepultura mais honrosa. <\/p>\n<p> Birton divertiu-se em sustentar a opini&atilde;o das montanhas azuis. Disse<br \/>\n    que o costume de levar o pr&oacute;ximo para a panela ou para o espeto era<br \/>\n    o mais antigo, e o mais natural, pois j&aacute; o haviam encontrado assente<br \/>\n    em ambos os hemisf&eacute;rios; que estava por conseguinte provado tratar-se<br \/>\n    de uma id&eacute;ia inata; que tinham sa&iacute;do &agrave; ca&ccedil;a de<br \/>\n    homens antes de ir &agrave; ca&ccedil;a de animais, pela raz&atilde;o de que<br \/>\n    era mais f&aacute;cil matar um homem do que matar um lobo; que, se os judeus,<br \/>\n    nos seus livros por tanto tempo ignorados, imaginaram que um chamado Caim<br \/>\n    matou um chamado Abel, talvez fosse apenas para o comer; que esses pr&oacute;prios<br \/>\n    judeus confessam claramente haver-se alimentado v&aacute;rias vezes de carne<br \/>\n    humana; que, segundo os melhores historiadores, os judeus devoraram as carnes<br \/>\n    sangrentas dos romanos assassinados por eles no Egito, em Chipre, na &Aacute;sia,<br \/>\n    quando das suas revoltas contra os imperadores Trajano e Adriano. <\/p>\n<p> Deixamo-lo dizer esses duros gracejos, cujo fundo podia infelizmente ser<br \/>\n    verdadeiro, mas que nada tinham do aticismo grego e da urbanidade romana.\n  <\/p>\n<p> O bom Freind, sem lhe responder, dirigiu a palavra aos nativos. Paruba interpretava-o<br \/>\n    frase a frase. Jamais o grave Tillotson falou com tanta energia. Jamais o<br \/>\n    insinuante Smalridge teve gra&ccedil;as t&atilde;o tocantes. O grande segredo<br \/>\n    est&aacute; em demonstrar com eloq&uuml;&ecirc;ncia. Ele lhes demonstrou,<br \/>\n    pois, que esses festins, onde &eacute; servida a carne de nossos semelhantes,<br \/>\n    s&atilde;o repastos de abutres, e n&atilde;o de homens; que esse execr&aacute;vel<br \/>\n    costume inspira uma ferocidade destrutiva do g&ecirc;nero humano; que era<br \/>\n    a raz&atilde;o pela qual n&atilde;o conheciam eles nem as consola&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da sociedade nem o cultivo da terra. Afinal juraram pelo seu grande Manitu<br \/>\n    que n&atilde;o mais comeriam nem homens nem mulheres. <\/p>\n<p> Freind, em uma s&oacute; conversa&ccedil;&atilde;o, tornou-se o seu legislador:<br \/>\n    era Orfeu que dominava os tigres. Os jesu&iacute;tas, por mais que se atribuam<br \/>\n    milagres em suas Cartas curiosas e edificantes, que raramente s&atilde;o uma<br \/>\n    coisa ou outra, jamais igualar&atilde;o a nosso amigo Freind. <\/p>\n<p> Ap&oacute;s haver cumulado de presentes os senhores das montanhas, trouxe<br \/>\n    a bordo, de volta para casa, o velho Paruba, bem como o jovem Paruba e sua<br \/>\n    irm&atilde;; os outros irm&atilde;os prosseguiram a ca&ccedil;ada, para as<br \/>\n    bandas da Carolina. Jenni, Birton e seus camaradas tamb&eacute;m vinham a<br \/>\n    bordo, O s&aacute;bio Freind persistia no m&eacute;todo de n&atilde;o dirigir<br \/>\n    a m&iacute;nima censura a seu filho quando este fazia alguma das suas. Deixava-o<br \/>\n    examinar-se e devorar seu pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o, como diz Pit&aacute;goras.<br \/>\n    No entanto, tomou tr&ecirc;s vezes a carta que lhe haviam mandado da Inglaterra<br \/>\n    e, enquanto a relia, olhava para o filho, que sempre baixava os olhos; e no<br \/>\n    rosto do jovem liam-se o respeito e o arrependimento. <\/p>\n<p> Quanto a Birton, estava t&atilde;o alegre e desenvolto como se voltasse<br \/>\n    do teatro: era um car&aacute;ter mais ou menos ao gosto do falecido conde<br \/>\n    de Rochester, extremo no deboche, na bravura, nas id&eacute;ias, nas express&otilde;es,<br \/>\n    na filosofia epicurista, sem nunca estar ligado a coisa alguma, sen&atilde;o<br \/>\n    &agrave;s coisas extraordin&aacute;rias, de que logo se aborrecia; com essa<br \/>\n    sorte de esp&iacute;rito que toma as verossimilhan&ccedil;as por demonstra&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    mais s&aacute;bio, mais eloq&uuml;ente do que nenhum jovem da sua idade, mas<br \/>\n    sem nunca se dar ao trabalho de aprofundar coisa alguma. <\/p>\n<p> Ao sr. Freind, escapou dizer-me, enquanto jantava conosco a bordo: <\/p>\n<p> &#8212; Na verdade, meu amigo, espero que Deus h&aacute; de inspirar melhores<br \/>\n    costumes a esses jovens, que o terr&iacute;vel exemplo da Clive-Hart os possa<br \/>\n    corrigir. <\/p>\n<p> Tendo ouvido essas palavras, disse-lhe Birton, em tom um pouco desdenhoso:\n  <\/p>\n<p> &#8212; Fazia muito que eu n&atilde;o estava nada contente com essa malvada<br \/>\n    Clive-Hart: n&atilde;o me importo mais com ela do que com uma franga gorda<br \/>\n    que houvessem mandado para o espeto. Mas, falando s&eacute;rio, achais que<br \/>\n    exista, n&atilde;o sei onde, um ser continuamente ocupado em punir todas as<br \/>\n    m&aacute;s mulheres e todos os homens perversos que povoam e despovoam os<br \/>\n    quatro cantos do nosso pequeno mundo? Esqueceis que a nossa detest&aacute;vel<br \/>\n    Maria, filha de Henrique VIII, foi feliz at&eacute; a morte? E no entanto<br \/>\n    fizera morrer, nas chamas, mais de oitocentos cidad&atilde;os e cidad&atilde;s,<br \/>\n    sob o pretexto de que n&atilde;o acreditavam nem na transubstancia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nem no papa. Seu pai, quase t&atilde;o b&aacute;rbaro quanto ela, e seu marido,<br \/>\n    mais profundamente mau, viveram nos prazeres. O papa Alexandre VI, mais criminoso<br \/>\n    do que eles todos, foi tamb&eacute;m o mais afortunado: todos os seus crimes<br \/>\n    lhe sa&iacute;ram bem, e ele morreu aos setenta e dois anos, poderoso, rico,<br \/>\n    cortejado por todos os reis. Onde est&aacute;, pois, o Deus justo e vingador?<br \/>\n    N&atilde;o, por Deus! n&atilde;o existe Deus. <\/p>\n<p> O senhor Freind, com um ar austero, mas tranq&uuml;ilo, retrucou-lhe: <\/p>\n<p> &#8212; Quer-me parecer que n&atilde;o dev&iacute;eis jurar pelo pr&oacute;prio<br \/>\n    Deus que esse mesmo Deus n&atilde;o existe. Atentai em que Newton e Locke<br \/>\n    jamais pronunciaram esse nome sagrado sen&atilde;o com um ar de recolhimento<br \/>\n    e adora&ccedil;&atilde;o secreta que foi notado por todo o mundo. <\/p>\n<p> &#8212; Pox! &#8211; exclamou Birton. &#8211; Pouco me importa a cara que<br \/>\n    dois homens tenham feito. Que cara teria Newton quando comentava o Apocalipse?<br \/>\n    E que careta fazia Locke quando narrava a conversa&ccedil;&atilde;o de um<br \/>\n    papagaio com o pr&iacute;ncipe Maur&iacute;cio? <\/p>\n<p> Ent&atilde;o Freind pronunciou estas belas palavras de ouro, que se gravaram<br \/>\n    em meu cora&ccedil;&atilde;o: Esque&ccedil;amos os sonhos dos grandes homens,<br \/>\n    e lembremo-nos das verdades que eles nos ensinaram. <\/p>\n<p> Essa resposta provocou uma disputa regular, mais interessante que a conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com o bacharel de Salamanca. Meti-me a um canto e anotei tudo quanto se disse.<br \/>\n    O p&uacute;blico cercou os dois contendores: o velho Paruba, o seu filho,<br \/>\n    e principalmente a sua filha, e os companheiros de Jenni, escutavam, com o<br \/>\n    pesco&ccedil;o estendido, os olhos fixos; e Jenni, de cabe&ccedil;a baixa,<br \/>\n    com os cotovelos sobre os joelhos, as m&atilde;os sobre os olhos, parecia<br \/>\n    mergulhado na mais profunda medita&ccedil;&atilde;o. Eis a pol&ecirc;mica,<br \/>\n    palavra por palavra.<\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">CAP&Iacute;TULO VIII<\/a><\/h4>\n<p> <b>Di&aacute;logo de Freind e de Birton sobre o ate&iacute;smo<\/b><\/p>\n<p> Freind: &#8212; N&atilde;o vos repetirei, Senhor, os argumentos metaf&iacute;sicos<br \/>\n    de nosso famoso Clarke. Exorto-vos simplesmente a l&ecirc;-los; s&atilde;o<br \/>\n    mais pr&oacute;prios para vos esclarecer do que para vos comover: n&atilde;o<br \/>\n    vos quero trazer sen&atilde;o raz&otilde;es, que talvez falem mais a vosso<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Com muito prazer; quero que me divirtam e que me interessem;<br \/>\n    odeio os sofismas: as disputas metaf&iacute;sicas se assemelham a bolas cheias<br \/>\n    de vento que os combatentes atiram um ao outro. As bexigas rebentam, o ar<br \/>\n    escapa-se: nada sobra. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Talvez nas profundezas do respeit&aacute;vel ariano Clarke<br \/>\n    haja algumas obscuridades, algumas bexigas; talvez se haja ele enganado sobre<br \/>\n    a realidade do infinito atual e do espa&ccedil;o, etc.; talvez, fazendo-se<br \/>\n    comentador de Deus, tenha imitado as vezes os comentadores de Homero, que<br \/>\n    lhe atribuem id&eacute;ias que a Homero jamais ocorreram. <\/p>\n<p> A estas palavras de infinito, espa&ccedil;o, Homero, comentadores, o velho<br \/>\n    Paruba e sua filha, e at&eacute; alguns ingleses, resolveram ir tomar a fresca<br \/>\n    no tombadilho; mas Freind prometeu ser intelig&iacute;vel, e eles permaneceram;<br \/>\n    e eu expliquei baixinho a Paruba algumas palavras um pouco cient&iacute;ficas,<br \/>\n    que criaturas nascidas nas montanhas azuis n&atilde;o podiam compreender t&atilde;o<br \/>\n    comodamente como doutores de Oxford e de Cambridge. <\/p>\n<p> O amigo Freind continuou assim: <\/p>\n<p> Seria triste que, para ter certeza da exist&ecirc;ncia de Deus, fosse necess&aacute;rio<br \/>\n    ser um profundo metaf&iacute;sico: n&atilde;o haveria, quando muito, na Inglaterra,<br \/>\n    mais que uns cem esp&iacute;ritos versados nessa &aacute;rdua ci&ecirc;ncia<br \/>\n    do pr&oacute; e do contra que fossem capazes de sondar esse abismo, e o resto<br \/>\n    da terra inteira jazeria numa ignor&acirc;ncia invenc&iacute;vel, abandonado<br \/>\n    a suas paix&otilde;es brutais, governado t&atilde;o s&oacute; pelo instinto,<br \/>\n    e s&oacute; raciocinando passavelmente sobre as grosseiras no&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de seus interesses carnais. Para saber se h&aacute; um Deus, s&oacute; vos<br \/>\n    pe&ccedil;o uma coisa: &eacute; abrirdes os olhos. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Ah! j&aacute; sei: recorrer a esse velho e batido argumento<br \/>\n    de que o sol gira em torno do seu eixo em vinte e cinco dias e meio, a despeito<br \/>\n    da absurda Inquisi&ccedil;&atilde;o de Roma; que a luz nos chega refletida<br \/>\n    de Saturno em catorze minutos, apesar das suposi&ccedil;&otilde;es absurdas<br \/>\n    de Descartes; que cada estrela fixa &eacute; um sol como o nosso, cercado<br \/>\n    de planetas; que todos esses astros inumer&aacute;veis, colocados nas profundezas<br \/>\n    do espa&ccedil;o, obedecem &agrave;s leis matem&aacute;ticas descobertas e<br \/>\n    demonstradas pelo grande Newton; que um catequista anuncia Deus &agrave;s<br \/>\n    crian&ccedil;as, e que Newton o prova aos s&aacute;bios, como o disse um fil&oacute;sofo<br \/>\n    frenchman, perseguido no seu engra&ccedil;ado pa&iacute;s por hav&ecirc;-lo<br \/>\n    dito. <\/p>\n<p> N&atilde;o vos atormenteis em patentear-me essa ordem constante que reina<br \/>\n    em todas as partes do universo: afinal de contas, tudo o que existe deve estar<br \/>\n    numa ordem qualquer; a mat&eacute;ria mais rarefeita deve elevar-se acima<br \/>\n    da mais maci&ccedil;a, o mais forte deve fazer press&atilde;o, em todos os<br \/>\n    sentidos, sobre o mais fraco, o que &eacute; impulsionado com maior movimento<br \/>\n    deve correr mais depressa que o seu igual; tudo se arranja assim por si mesmo.<br \/>\n    Ainda que beb&ecirc;sseis uma pinta de vinho, como Esdras, e fal&aacute;sseis,<br \/>\n    como ele, novecentas e sessenta horas seguidas, sem fechar a boca, nem por<br \/>\n    isso eu vos acreditaria mais. Quer&iacute;eis que eu adotasse um Ser eterno,<br \/>\n    infinito e imut&aacute;vel, a quem aprouve, n&atilde;o sei em que tempo, criar,<br \/>\n    do nada, coisas que mudam a todo instante, e fazer aranhas para que destripem<br \/>\n    moscas? Quer&iacute;eis que eu dissesse, com esse impertinente de Nienventyd,<br \/>\n    que Deus nos deu ouvidos para termos f&eacute;, porque a f&eacute; nos vem<br \/>\n    por ouvir dizer. N&atilde;o, n&atilde;o acreditarei em charlat&atilde;es que<br \/>\n    venderam caro a sua droga a imbecis. <\/p>\n<p> Reporto-me ainda ao livrinho desse frenchman que disse que nada existe e<br \/>\n    nada pode existir, sen&atilde;o a natureza; que a natureza faz tudo, que a<br \/>\n    natureza &eacute; tudo, que &eacute; imposs&iacute;vel e contradit&oacute;rio<br \/>\n    que exista alguma coisa al&eacute;m do tudo; numa palavra, s&oacute; creio<br \/>\n    na natureza. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; E se eu vos dissesse que n&atilde;o h&aacute; natureza,<br \/>\n    e que em n&oacute;s, em torno de n&oacute;s, e a cem milh&otilde;es de l&eacute;guas,<br \/>\n    tudo &eacute; arte sem nenhuma exce&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Como! Tudo &eacute; arte? Mais outra! <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Quase ningu&eacute;m atenta nisso; e no entanto nada &eacute;<br \/>\n    mais verdadeiro. Sempre hei de dizer: Servi-vos de vossos olhos, e reconhecereis,<br \/>\n    adorareis um Deus. Pensai em como esses globos imensos, que vedes rolar em<br \/>\n    sua imensa carreira, observam as leis de uma profunda matem&aacute;tica: h&aacute;,<br \/>\n    pois, um grande matem&aacute;tico, a que Plat&atilde;o chamava o Eterno Ge&ocirc;metra.\n  <\/p>\n<p> Admirais essas m&aacute;quinas rec&eacute;m-inventadas a que chamam oreri,<br \/>\n    porque milorde Oreri as p&ocirc;s em moda, protegendo o oper&aacute;rio com<br \/>\n    suas liberalidades; &eacute; uma c&oacute;pia muito fraca do nosso mundo planet&aacute;rio<br \/>\n    e das suas revolu&ccedil;&otilde;es, o pr&oacute;prio per&iacute;odo da mudan&ccedil;a<br \/>\n    dos solst&iacute;cios e dos equin&oacute;cios, que nos traz dia a dia uma<br \/>\n    nova estrela polar. <\/p>\n<p> Esse per&iacute;odo, esse curso t&atilde;o lento de cerca de vinte e seis<br \/>\n    mil anos, n&atilde;o p&ocirc;de ser executado por m&atilde;os humanas em nosso<br \/>\n    oreri. Essa m&aacute;quina &eacute; muito imperfeita: &eacute; preciso acion&aacute;-la<br \/>\n    a manivela; no entanto, &eacute; uma obra-prima da habilidade de nossos art&iacute;fices.<br \/>\n    Julgai, pois, qual n&atilde;o &eacute; o poder, qual n&atilde;o &eacute; o<br \/>\n    g&ecirc;nio do eterno arquiteto, se nos podemos servir desses termos impr&oacute;prios,<br \/>\n    t&atilde;o mal adequados ao Ser Supremo. <\/p>\n<p> Dei a Paruba uma ligeira id&eacute;ia do oreri. Pile disse: &#8220;Se h&aacute;<br \/>\n    g&ecirc;nio nessa c&oacute;pia tamb&eacute;m o deve haver no original. Eu<br \/>\n    desejaria ver um oreri; mas o c&eacute;u &eacute; mais belo.&#8221; Todos<br \/>\n    os assistentes, ingleses e americanos, ao ouvir tais palavras, sentiram-se<br \/>\n    igualmente tocados da verdade, e ergueram as m&atilde;os ao c&eacute;u. Birton<br \/>\n    permaneceu pensativo, depois exclamou: &#8220;Como! Tudo seria ent&atilde;o<br \/>\n    arte, e a natureza n&atilde;o mais que a obra de um supremo art&iacute;fice!<br \/>\n    Ser&aacute; poss&iacute;vel?&#8221; <\/p>\n<p> O s&aacute;bio Freind continuou assim: <\/p>\n<p> Volvei agora os olhos para v&oacute;s mesmos. Examinai com que arte espantosa,<br \/>\n    e nunca assaz desvendada, tudo a&iacute; est&aacute; constru&iacute;do, por<br \/>\n    dentro e por fora, para todos os vossos usos e todos os vossos desejos; n&atilde;o<br \/>\n    pretendo dar aqui uma li&ccedil;&atilde;o de anatomia, bem sabeis que n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; uma v&iacute;scera que n&atilde;o seja necess&aacute;ria e que n&atilde;o<br \/>\n    seja socorrida, quando em perigo, pelo jogo cont&iacute;nuo das v&iacute;sceras<br \/>\n    vizinhas. Os socorros, no corpo, se acham t&atilde;o artificiosamente preparados,<br \/>\n    que n&atilde;o h&aacute; nenhuma veia que n&atilde;o tenha as suas v&aacute;lvulas<br \/>\n    e eclusas, para abrir passagem ao sangue. Desde a raiz dos cabelos at&eacute;<br \/>\n    os dedos dos p&eacute;s, tudo &eacute; arte, tudo &eacute; prepara&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    meio e fim. E, na verdade, s&oacute; se pode sentir indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contra aqueles que ousam negar as verdadeiras causas finais, e que t&ecirc;m<br \/>\n    bastante m&aacute; f&eacute; ou f&uacute;ria para dizerem que a boca n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; feita para falar e comer; nem que os olhos n&atilde;o estejam maravilhosamente<br \/>\n    dispostos para ver, nem os ouvidos para ouvir; nem as partes da gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para engendrar: t&atilde;o louca &eacute; essa aud&aacute;cia que tenho dificuldade<br \/>\n    em compreend&ecirc;-la. <\/p>\n<p> Confessemos que cada animal &eacute; um testemunho do supremo art&iacute;fice.\n  <\/p>\n<p> A mais pequena relva basta para confundir a intelig&ecirc;ncia humana; e<br \/>\n    t&atilde;o verdade &eacute; isso, que &eacute; imposs&iacute;vel aos esfor&ccedil;os<br \/>\n    de todos os homens reunidos produzir uma folhinha de capim se o germe n&atilde;o<br \/>\n    estiver na terra. E n&atilde;o se deve dizer que os germes apodrecem para<br \/>\n    produzir; pois tais asneiras n&atilde;o se dizem mais. <\/p>\n<p> A assembl&eacute;ia sentiu a verdade dessas provas mais vivamente que todo<br \/>\n    o resto, porque eram mais palp&aacute;veis. Birton dizia entre dentes: &#8220;Ser&aacute;<br \/>\n    preciso submeter-me a reconhecer um Deus? Veremos isso; por Deus, &eacute;<br \/>\n    um assunto que se deve examinar.&#8221; Jenni, que continuava imerso em profunda<br \/>\n    cisma, sentia-se abalado; e o nosso Freind terminou a sua frase: <\/p>\n<p> N&atilde;o, meus amigos, n&oacute;s n&atilde;o fazemos nada, nada podemos<br \/>\n    fazer; &eacute;-nos dado arranjar, unir, desunir, numerar, pesar, medir; mas<br \/>\n    fazer! Qual! S&oacute; quem faz &eacute; o Ser necess&aacute;rio, o Ser eternamente<br \/>\n    existente por si mesmo. Eis porque os charlat&atilde;es que procuram a pedra<br \/>\n    filosofal s&atilde;o sempre tamanhos imbecis ou tamanhos velhacos. Gabam-se<br \/>\n    de criar ouro, e seriam incapazes de criar lama. <\/p>\n<p> Confessemos pois, meus amigos, que existe um Ser supremo, necess&aacute;rio,<br \/>\n    incompreens&iacute;vel, que nos fez a todos. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; E esse Ser, onde est&aacute;? Se h&aacute; um, por que se<br \/>\n    esconde? Quem jamais o viu Devemo-nos esconder depois de ter feito o bem?\n  <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Vistes alguma vez Cristov&atilde;o Ken, que construiu S.<br \/>\n    Paulo de Londres? No entanto, est&aacute; demonstrado que esse edif&iacute;cio<br \/>\n    &eacute; obra de um h&aacute;bil arquiteto. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Todos concebem facilmente que Ken haja constru&iacute;do<br \/>\n    com muito dinheiro esse vasto edif&iacute;cio, onde Burgess nos adormece quando<br \/>\n    prega. Bem sabemos por que e como ergueram os nossos pais essa constru&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas por que e como teria um Deus criado do nada este universo? Conheceis a<br \/>\n    velha m&aacute;xima de toda a Antig&uuml;idade: Nada se pode criar, nada volta<br \/>\n    a nada. &Eacute; uma verdade de que ningu&eacute;m jamais duvidou. At&eacute;<br \/>\n    a vossa B&iacute;blia diz expressamente que o vosso Deus fez o c&eacute;u<br \/>\n    e a terra, embora o c&eacute;u, isto &eacute;, a reuni&atilde;o de todos os<br \/>\n    astros seja t&atilde;o superior &agrave; terra como a terra o &eacute; ao<br \/>\n    menor dos gr&atilde;os de areia; mas a vossa B&iacute;blia jamais disse que<br \/>\n    Deus tenha feito o c&eacute;u e a terra absolutamente com coisa alguma: n&atilde;o<br \/>\n    pretende que Deus tenha feito a mulher de nada. Formou-a singularmente de<br \/>\n    uma costela que arrancou ao marido. O caos existia, segundo a pr&oacute;pria<br \/>\n    B&iacute;blia, antes da terra: a mat&eacute;ria era, pois, t&atilde;o eterna<br \/>\n    quanto o vosso Deus. <\/p>\n<p> Elevou-se ent&atilde;o um pequeno murm&uacute;rio na assembl&eacute;ia;<br \/>\n    dizia-se: &#8220;&Eacute; bem poss&iacute;vel que Birton esteja com a raz&atilde;o&#8221;;<br \/>\n    mas Freind respondeu: <\/p>\n<p> J&aacute; vos provei, creio eu, que existe uma intelig&ecirc;ncia suprema,<br \/>\n    uma pot&ecirc;ncia eterna a que devemos uma exist&ecirc;ncia passageira: n&atilde;o<br \/>\n    vos prometi explicar o &#8220;por que&#8221; nem o &#8220;como&#8221;. Deus<br \/>\n    me deu suficiente raz&atilde;o para compreender que ele existe, mas n&atilde;o<br \/>\n    o bastante para saber ao certo se a mat&eacute;ria lhe foi eternamente submissa,<br \/>\n    ou se ele a fez nascer no tempo. Que vos importa a eternidade ou a cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da mat&eacute;ria, contanto que reconhe&ccedil;ais um Deus, um senhor da mat&eacute;ria<br \/>\n    e senhor vosso? <\/p>\n<p> Perguntais onde est&aacute; Deus; nada sei, e n&atilde;o devo sab&ecirc;-lo.<br \/>\n    Sei que ele existe, sei que ele &eacute; nosso senhor, que faz tudo, que tudo<br \/>\n    devemos esperar da sua bondade. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Da sua bondade! Estais tro&ccedil;ando comigo. Dissestes:<br \/>\n    &#8220;Servi-vos dos olhos&#8221;. Pois eu vos digo: &#8220;Servi-vos dos<br \/>\n    vossos.&#8221; Lan&ccedil;ai um &uacute;nico olhar que seja, &agrave; terra<br \/>\n    inteira, e vede se o vosso Deus &eacute; bom. <\/p>\n<p> O sr. Freind sentiu que ai &eacute; que estava o forte da discuss&atilde;o,<br \/>\n    e que Birton lhe preparava um rude assalto. Percebeu que os ouvintes, principalmente<br \/>\n    os americanos, tinham necessidade de tomar ares para escutar e eles para falar.<br \/>\n    Recomendou-se a Deus; foram passear pelo tombadilho; em seguida tomaram ch&aacute;<br \/>\n    no iate, e recome&ccedil;ou a discuss&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\">CAP&Iacute;TULO IX<\/a><\/h4>\n<p> <b>Sobre o ate&iacute;smo<\/b><\/p>\n<p> Birton: &#8212; Por Deus, senhor! N&atilde;o vos saireis t&atilde;o bem<br \/>\n    no artigo da bondade como no referente ao poder e &agrave; ind&uacute;stria;<br \/>\n    falarei primeiro dos enormes defeitos deste globo, que s&atilde;o precisamente<br \/>\n    o oposto dessa t&atilde;o gabada ind&uacute;stria; em seguida vos farei ver<br \/>\n    os crimes e males perp&eacute;tuos dos habitantes, e julgareis do paternal<br \/>\n    afeto que, na vossa opini&atilde;o, lhes dedica o Senhor. <\/p>\n<p> Come&ccedil;o por vos dizer que os naturais de Glocestershire, minha terra,<br \/>\n    quando fazem nascer cavalos nos seus haras, criam-nos em belas pastagens,<br \/>\n    d&atilde;o-lhes depois uma boa estrebaria, e aveia e feno com fartura; mas<br \/>\n    dizei-me, que alimento e que abrigo tinham esses pobres americanos do norte,<br \/>\n    quando os descobrimos passados tantos s&eacute;culos. Tinham de correr trinta<br \/>\n    a quarenta milhas para conseguir o que comer. Toda a costa boreal do nosso<br \/>\n    antigo mundo definha mais ou menos sob a mesma necessidade; e, desde a Lap&ocirc;nia<br \/>\n    sueca at&eacute; os mares setentrionais do Jap&atilde;o, cem povos arrastam<br \/>\n    a sua vida, t&atilde;o curta qu&atilde;o insuport&aacute;vel, numa mis&eacute;ria<br \/>\n    terr&iacute;vel, em meio das neves eternas. <\/p>\n<p> Os mais belos climas est&atilde;o continuamente expostos a flagelos destruidores.<br \/>\n    A&iacute; marchamos sobre acesos abismos recobertos de terrenos f&eacute;rteis,<br \/>\n    que s&atilde;o ciladas de morte. N&atilde;o h&aacute; outros infernos sem<br \/>\n    d&uacute;vida; e esses infernos se abriram milhentas vezes sob nossos passos.\n  <\/p>\n<p> Falam-nos de um dil&uacute;vio universal, fisicamente imposs&iacute;vel,<br \/>\n    e de que riem todas as pessoas sensatas; mas ao menos consolam-nos dizendo<br \/>\n    que somente durou dez meses: devia ele ter apagado esses fogos que depois<br \/>\n    destru&iacute;ram tantas cidades florescentes. Informa-nos o vosso Santo Agostinho<br \/>\n    que um s&oacute; terremoto, na L&iacute;bia, abrasou e subverteu cem cidades<br \/>\n    inteiras; esses vulc&otilde;es abalaram toda a bela It&aacute;lia. Para c&uacute;mulo<br \/>\n    de males, nem os tristes habitantes das zonas glaciais se acham isentos desses<br \/>\n    pegos subterr&acirc;neos; os islandeses, sempre amea&ccedil;ados, v&ecirc;em,<br \/>\n    pela frente, a fome, e, &agrave; direita e &agrave; esquerda, cem p&eacute;s<br \/>\n    de flama e cem p&eacute;s de gelo no seu monte Hecla: pois todos os grandes<br \/>\n    vulc&otilde;es ficam situados naquelas horr&iacute;veis montanhas. <\/p>\n<p> E n&atilde;o nos venham dizer que essas montanhas de duas mil toesas de<br \/>\n    altura n&atilde;o s&atilde;o nada em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; terra,<br \/>\n    que tem tr&ecirc;s mil l&eacute;guas de di&acirc;metro; que s&atilde;o como<br \/>\n    as granula&ccedil;&otilde;es da casca de uma laranja sobre a redondeza desse<br \/>\n    fruto; que se acham na raz&atilde;o de um p&eacute; para tr&ecirc;s mil. Ai!<br \/>\n    que somos n&oacute;s ent&atilde;o, se as altas montanhas s&oacute; fazem sobre<br \/>\n    a terra a figura de um p&eacute; sobre tr&ecirc;s mil e de quatro polegadas<br \/>\n    sobre nove mil p&eacute;s? Somos portanto animais absolutamente impercept&iacute;veis;<br \/>\n    e no entanto vemo-nos esmagados por tudo o que nos cerca, embora a nossa infinita<br \/>\n    pequenez, t&atilde;o vizinha do nada, nos devesse colocar ao abrigo de todos<br \/>\n    os acidentes. Ap&oacute;s essa infinidade de cidades destru&iacute;das, reconstru&iacute;das<br \/>\n    e novamente destru&iacute;das como formigueiros, que diremos desses mares<br \/>\n    de areia que atravessam o meio da &Aacute;frica e cujas vagas ardentes, amontoadas<br \/>\n    pelos ventos, engoliram ex&eacute;rcitos inteiros? De que servem esses vastos<br \/>\n    desertos ao lado da velha S&iacute;ria? Desertos t&atilde;o horrendos, t&atilde;o<br \/>\n    inabit&aacute;veis, que esses animais ferozes chamados judeus se julgaram<br \/>\n    no para&iacute;so terrestre quando passaram, daqueles lugares de horror, para<br \/>\n    um recanto de terra onde se podiam cultivar algumas jeiras. <\/p>\n<p> E ainda n&atilde;o basta que o homem, essa nobre criatura, tenha sido t&atilde;o<br \/>\n    mal alojado, t&atilde;o mal vestido, t&atilde;o mal alimentado durante s&eacute;culos.<br \/>\n    Nasce, entre a urina e a mat&eacute;ria fecal, para respirar dois dias; e,<br \/>\n    durante esses dois dias, compostos de enganadoras esperan&ccedil;as e de aborrecimentos<br \/>\n    reais, o seu corpo, formado com uma arte in&uacute;til, est&aacute; &agrave;<br \/>\n    merc&ecirc; de todos os males que resultam dessa mesma arte; vive entre a<br \/>\n    peste e a s&iacute;filis; a fonte de seu ser se acha envenenada; n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; quem possa reter na mem&oacute;ria a lista de todas as doen&ccedil;as<br \/>\n    que nos perseguem; e o m&eacute;dico das urinas na Su&iacute;&ccedil;a, pretende<br \/>\n    cur&aacute;-las todas! <\/p>\n<p> Enquanto Birton assim falava, o audit&oacute;rio se mostrava atento e impressionado.<br \/>\n    &#8220;Vejamos &#8211; dizia consigo Paruba &#8211; como o nosso doutor se<br \/>\n    sair&aacute; desta.&#8221; O pr&oacute;prio Jenni deixou escapar em voz baixa:<br \/>\n    &#8220;Palavra, ele tem raz&atilde;o; tolo fui eu em me impressionar com os<br \/>\n    discursos de meu pai.&#8221; O senhor Freind deixou passar essa onda, que<br \/>\n    agitava todas as imagina&ccedil;&otilde;es, e depois disse: <\/p>\n<p> Um jovem te&oacute;logo responderia com sofismas a essa torrente de tristes<br \/>\n    verdades e vos citaria S. Bas&iacute;lio e S. Cirilo, que n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    o que fazer aqui; quanto a mim, senhores, confessarei sem rodeios que h&aacute;<br \/>\n    muito mal f&iacute;sico sobre a face da terra; n&atilde;o lhe subestimo a<br \/>\n    exist&ecirc;ncia; mas o sr. Birton exagerou-a demasiado. Reporto-me a v&oacute;s,<br \/>\n    meu caro Paruba: este clima foi feito para os americanos, e n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    assim t&atilde;o mau, j&aacute; que nem v&oacute;s, nem os vossos compatriotas,<br \/>\n    jamais quisestes deix&aacute;-lo. Os esquim&oacute;s, os islandeses, os lap&otilde;es,<br \/>\n    os ost&iacute;acos, os samoiedos, igualmente jamais quiseram abandonar o seu.<br \/>\n    Os rang&iacute;feres, os renas, que Deus lhes deu para os alimentar, vestir<br \/>\n    e carregar, morrem quando transportados para outras zonas. Os pr&oacute;prios<br \/>\n    lap&otilde;es tamb&eacute;m morrem em climas um pouco meridionais; o clima<br \/>\n    da Sib&eacute;ria &eacute; demasiado quente para eles: sentir-se-iam abrasados<br \/>\n    na paragem em que nos achamos. <\/p>\n<p> &Eacute; claro que Deus fez cada esp&eacute;cie de animais e de vegetais<br \/>\n    para o local onde se perpetuam. Os negros, essa esp&eacute;cie de homens t&atilde;o<br \/>\n    diferente da nossa, nasceram de tal modo para a sua p&aacute;tria, que milhares<br \/>\n    desses negros animais se suicidaram, quando a nossa b&aacute;rbara cupidez<br \/>\n    os transportou alhures. O Camelo e o avestruz vivem constantemente nas areias<br \/>\n    da &Aacute;frica: o touro e suas companheiras movimentam-se nas regi&otilde;es<br \/>\n    f&eacute;rteis em que a relva continuamente se renova para seu sustento; a<br \/>\n    canela e o cravo s&oacute; crescem na &Iacute;ndia, o trigo s&oacute; &eacute;<br \/>\n    bom nos poucos pa&iacute;ses em que Deus o fez nascer. Temos outros alimentos,<br \/>\n    em toda a vossa Am&eacute;rica, desde a Calif&oacute;rnia at&eacute; o estreito<br \/>\n    de Lemaire; n&atilde;o podemos cultivar a vinha em nossa f&eacute;rtil Inglaterra;<br \/>\n    nem tampouco na Su&eacute;cia e no Canad&aacute;. Eis por que aqueles que,<br \/>\n    em certos pa&iacute;ses, fundam os seus ritos religiosos em p&atilde;o e vinho,<br \/>\n    n&atilde;o fizeram mais que consultar o seu clima; bem fazem eles em agradecer<br \/>\n    a Deus o alimento e a bebida que auferem da sua bondade; e v&oacute;s, americanos,<br \/>\n    fareis bem em lhe dar gra&ccedil;as, pelo vosso milho, a vossa mandioca e<br \/>\n    a vossa farinha. Deus, por toda a terra, proporcionou os &oacute;rg&atilde;os<br \/>\n    e faculdades dos animais, desde o homem ao caracol, aos locais onde lhes deu<br \/>\n    vida: n&atilde;o acusemos sempre a Provid&ecirc;ncia quando tantas vezes lhe<br \/>\n    devemos a&ccedil;&otilde;es de gra&ccedil;as. <\/p>\n<p> Consideremos os flagelos, as inunda&ccedil;&otilde;es, os vulc&otilde;es,<br \/>\n    os terremotos. Se n&atilde;o reparais sen&atilde;o nessas calamidades, se<br \/>\n    s&oacute; reunis um medonho conjunto de todos os incidentes que entravaram<br \/>\n    algumas engrenagens da m&aacute;quina deste universo, Deus &eacute; um tirano;<br \/>\n    se atentais em seus inumer&aacute;veis benef&iacute;cios, Deus &eacute; um<br \/>\n    pai. V&oacute;s me citais Santo Agostinho, o ret&oacute;rico, que, no seu<br \/>\n    livro dos milagres, fala de cem cidades destru&iacute;das ao mesmo tempo na<br \/>\n    L&iacute;bia; mas considerai que esse africano, que passou a vida a contradizer-se,<br \/>\n    prodigava em seus escritos a figura da &ecirc;nfase: tratava os terremotos<br \/>\n    como a gra&ccedil;a eficaz e a dana&ccedil;&atilde;o eterna de todas as criancinhas<br \/>\n    mortas sem batismo. N&atilde;o disse ele, no seu trig&eacute;simo-s&eacute;timo<br \/>\n    serm&atilde;o, ter visto na Eti&oacute;pia uma ra&ccedil;a de homens providos<br \/>\n    de um grande olho no meio da fronte, como os ciclopes, e povos inteiros sem<br \/>\n    cabe&ccedil;a? <\/p>\n<p> N&oacute;s, que n&atilde;o somos doutores da Igreja, n&atilde;o devemos<br \/>\n    ficar muito al&eacute;m nem muito aqu&eacute;m da verdade: essa verdade &eacute;<br \/>\n    que, dentre cem mil casas, pode-se contar quando muito uma destru&iacute;da<br \/>\n    cada s&eacute;culo pelos fogos necess&aacute;rios &agrave; forma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste globo. <\/p>\n<p> T&atilde;o necess&aacute;rio &eacute; o fogo ao universo inteiro que, se<br \/>\n    n&atilde;o fora ele, n&atilde;o haveria na terra nem animais, nem vegetais,<br \/>\n    nem minerais: n&atilde;o haveria nem sol nem estrelas no espa&ccedil;o. Esse<br \/>\n    fogo, espalhado por debaixo da primeira crosta da terra, obedece &agrave;s<br \/>\n    leis gerais estabelecidas pelo pr&oacute;prio Deus; imposs&iacute;vel que<br \/>\n    disso n&atilde;o resultem alguns desastres particulares: n&atilde;o se pode<br \/>\n    dizer que um artes&atilde;o seja mau oper&aacute;rio quando uma m&aacute;quina<br \/>\n    imensa, constru&iacute;da por ele s&oacute;, vem durando h&aacute; tantos<br \/>\n    s&eacute;culos sem desarranjar-se. Se um homem tivesse inventado uma m&aacute;quina<br \/>\n    hidr&aacute;ulica que regasse e fertilizasse toda uma prov&iacute;ncia, haver&iacute;eis<br \/>\n    de censurar-lhe que a &aacute;gua que ele vos propinou afogasse alguns insetos?\n  <\/p>\n<p> J&aacute; vos provei que a m&aacute;quina do mundo &eacute; obra de um ser<br \/>\n    soberanamente inteligente e poderoso: v&oacute;s, que sois inteligentes, deveis<br \/>\n    admir&aacute;-lo; v&oacute;s, que sois cumulados de seus benef&iacute;cios,<br \/>\n    deveis am&aacute;-lo. <\/p>\n<p> Mas os infelizes, direis, condenados a sofrer toda a vida, acabrunhados<br \/>\n    de mol&eacute;stias incur&aacute;veis, podem acaso admir&aacute;-lo e am&aacute;-lo?<br \/>\n    Eu vos direi, meus amigos, que essas doen&ccedil;as t&atilde;o cru&eacute;is<br \/>\n    v&ecirc;m quase todas por culpa nossa, ou por culpa dos nossos pais, que abusaram<br \/>\n    do seu corpo, e n&atilde;o por culpa do grande art&iacute;fice. Quase n&atilde;o<br \/>\n    se conheciam outras enfermidades al&eacute;m da decrepitude, em toda a Am&eacute;rica<br \/>\n    setentrional, antes de que para c&aacute; houv&eacute;ssemos trazido essa<br \/>\n    &aacute;gua de morte a que chamamos eau-de-vie (7) e, e que traz mil males<br \/>\n    diversos a quem quer que a beba em demasia. O cont&aacute;gio secreto das<br \/>\n    Cara&iacute;bas, a quem v&oacute;s, os jovens, chamais de pox, n&atilde;o<br \/>\n    passava de uma leve indisposi&ccedil;&atilde;o cuja origem, ignor&aacute;vamos<br \/>\n    e de que nos cur&aacute;vamos em dois dias com guaiaco ou caldo de tartaruga;<br \/>\n    a incontin&ecirc;ncia dos europeus transplantou para o resto do mundo esse<br \/>\n    inc&ocirc;modo, que tomou entre n&oacute;s um car&aacute;ter t&atilde;o funesto<br \/>\n    e se transformou em t&atilde;o abomin&aacute;vel flagelo. Lemos que vieram<br \/>\n    a morrer desse mal o papa J&uacute;lio II, o papa Le&atilde;o X, um arcebispo<br \/>\n    de Mog&uacute;ncia chamado Benneberg e o rei de Fran&ccedil;a Francisco I.\n  <\/p>\n<p> A var&iacute;ola, originada na Ar&aacute;bia Felix, era t&atilde;o somente<br \/>\n    uma fraca erup&ccedil;&atilde;o, uma ebuli&ccedil;&atilde;o passageira e sem<br \/>\n    perigo, uma simples depura&ccedil;&atilde;o do sangue: tornou-se mortal na<br \/>\n    Inglaterra, como em tantos outros climas; nossa cupidez a trouxe para este<br \/>\n    mundo; ela o despovoou. <\/p>\n<p> Cumpre lembrar que, no poema de Milton, esse tolo do Ad&atilde;o pergunta<br \/>\n    ao anjo Gabriel se viver&aacute; por muito tempo. &#8220;Sim &#8211; respondeu-lhe<br \/>\n    o anjo, &#8211; se observares a grande regra: Nada em excesso.&#8221; Observai<br \/>\n    todos essa regra, meus amigos; acaso vos atrever&iacute;eis a exigir que Deus<br \/>\n    vos fizesse viver sem dor durante s&eacute;culos inteiros, em recompensa da<br \/>\n    vossa gula, da vossa embriaguez, da vossa incontin&ecirc;ncia, do vosso abandono<br \/>\n    a infames paix&otilde;es que corrompem o sangue e abreviam fatalmente a vida?\n  <\/p>\n<p> Aprovei tal resposta; Paruba ficou muito satisfeito com ela; mas Birton<br \/>\n    n&atilde;o se abalou; e notei pelos olhos de Jenni, que este ainda se achava<br \/>\n    bastante indeciso. Birton replicou como segue: <\/p>\n<p> J&aacute; que vos servistes de lugares-comuns de envolta com algumas reflex&otilde;es<br \/>\n    novas, empregarei tamb&eacute;m um lugar comum ao qual jamais se respondeu<br \/>\n    sen&atilde;o com fic&ccedil;&otilde;es e verbiagem. Se existisse mesmo um<br \/>\n    Deus t&atilde;o poderoso e t&atilde;o bom, n&atilde;o teria ele posto o mal<br \/>\n    na terra; n&atilde;o teria devotado as suas criaturas ao sofrimento e ao crime.<br \/>\n    Se ele n&atilde;o p&ocirc;de impedir o mal, &eacute; impotente, se o p&ocirc;de<br \/>\n    e n&atilde;o o quis, &eacute; b&aacute;rbaro. <\/p>\n<p> S&oacute; temos anais de cerca de oito mil anos, conservados entre os br&acirc;manes;<br \/>\n    s&oacute; os temos de uns cinco mil anos entre os chineses; o que conhecemos<br \/>\n    &eacute; de ontem; mas, nesse ontem, tudo &eacute; horror. Degolamos de um<br \/>\n    extremo a outro da terra, e fomos bastante imbecis para dar o nome de grandes<br \/>\n    homens, de her&oacute;is, de semideuses, de deuses at&eacute;, &agrave;queles<br \/>\n    que mataram o maior n&uacute;mero de seus semelhantes. <\/p>\n<p> Restavam na Am&eacute;rica duas grandes na&ccedil;&otilde;es civilizadas<br \/>\n    que come&ccedil;avam a gozar das do&ccedil;uras da paz: chegam os espanh&oacute;is<br \/>\n    e massacram doze milh&otilde;es desses nativos; partem &agrave; ca&ccedil;a<br \/>\n    de homens, como c&atilde;es; e Fernando, rei de Castela, concede uma pens&atilde;o<br \/>\n    a esses c&atilde;es, por terem-no t&atilde;o bem servido. Os her&oacute;is<br \/>\n    vencedores do novo mundo, que massacram tantos inocentes desarmados e nus,<br \/>\n    mandam servir &agrave; mesa assados de homens e mulheres, n&aacute;degas,<br \/>\n    bra&ccedil;os e panturrilhas ensopadas. Mandam assar num braseiro o rei Guatimozin<br \/>\n    do M&eacute;xico; correm ao Peru, a converter o rei Atabalipa. Um chamado<br \/>\n    Almagro, padre, filho de padre, condenado &agrave; forca na Espanha por ter<br \/>\n    sido ladr&atilde;o de estrada, vai, com um chamado Pizarro, comunicar ao rei,<br \/>\n    por voz de um outro padre, que um terceiro padre, chamado Alexandre VI, manchado<br \/>\n    de incestos, de assass&iacute;nios e de homic&iacute;dios, dera, por sua livre<br \/>\n    vontade, pr&oacute;prio motu, e por seus plenos poderes, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    o Peru, mas a metade do novo mundo ao rei de Espanha; que Atabalipa deve imediatamente<br \/>\n    submeter-se, sob pena de incorrer na indigna&ccedil;&atilde;o dos ap&oacute;stolos<br \/>\n    S. Pedro e S. Paulo. E, como esse rei n&atilde;o entendesse a l&iacute;ngua<br \/>\n    latina mais do que o padre que lia a bula, foi logo declarado incr&eacute;u<br \/>\n    e her&eacute;tico: mandaram queimar Atabalipa, como fizeram com Guatimozin;<br \/>\n    trucidaram o seu povo, e tudo isso para roubar uma terra amarela endurecida,<br \/>\n    que s&oacute; serviu para despovoar e empobrecer a Espanha: pois lhe fez negligenciar<br \/>\n    a verdadeira terra que sustenta os homens quando cultivada. <\/p>\n<p> Com efeito, meu caro sr. Freind, se o ser fant&aacute;stico e rid&iacute;culo<br \/>\n    a que chamam Diabo tivesse querido fazer homens &agrave; sua imagem e semelhan&ccedil;a,<br \/>\n    acaso os teria formado de outro modo? Deixai, pois, de atribuir a um Deus<br \/>\n    uma obra t&atilde;o abomin&aacute;vel. <\/p>\n<p> Esta tirada colocou toda a assembl&eacute;ia do lado de Birton. Eu via Jenni<br \/>\n    triunfar em segredo; at&eacute; a jovem Paruba se sentiu tomada de horror<br \/>\n    ante o padre Almagre, o padre que lera a bula em latim, o padre Alexandre<br \/>\n    Vi, todos os crist&atilde;os que haviam cometido t&atilde;o inconceb&iacute;veis<br \/>\n    crimes por devo&ccedil;&atilde;o e para roubar ouro. Confesso que tremi pelo<br \/>\n    amigo Freind; desesperava da sua causa; eis no entanto como ele respondeu,<br \/>\n    sem perturbar-se.: <\/p>\n<p> Meus amigos, lembrai-vos sempre de que existe um Ser supremo; eu vo-lo provei,<br \/>\n    e concordastes comigo, e, ap&oacute;s ter sido for&ccedil;ados a confessar<br \/>\n    que ele existe, v&oacute;s vos esfor&ccedil;astes por lhe achar imperfei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    v&iacute;cios e maldades. <\/p>\n<p> Longe estou de vos afian&ccedil;ar, como certos arrazoadores, que os males<br \/>\n    particulares formam o bem geral. Essa extravag&acirc;ncia &eacute; demasiado<br \/>\n    rid&iacute;cula. Convenho com pesar em que existe muito mal moral e mal f&iacute;sico;<br \/>\n    mas, j&aacute; que a exist&ecirc;ncia de Deus &eacute; certa, tamb&eacute;m<br \/>\n    &eacute; certo que esses males todos n&atilde;o podem impedir que Deus exista.<br \/>\n    Ele n&atilde;o pode ser mau; pois que interesse teria em s&ecirc;-lo? H&aacute;<br \/>\n    males terr&iacute;veis, meus amigos: pois bem! n&atilde;o lhes aumentemos<br \/>\n    o n&uacute;mero. &Eacute; imposs&iacute;vel que Deus n&atilde;o seja bom;<br \/>\n    mas os homens s&atilde;o perversos; fazem um detest&aacute;vel uso da liberdade<br \/>\n    que esse Grande Ser lhes deu e lhes deve ter dado, isto &eacute;, o poder<br \/>\n    de executarem suas pr&oacute;prias vontades, sem o que n&atilde;o passariam<br \/>\n    de puras m&aacute;quinas formadas por um ser mau, para serem por ele quebradas.\n  <\/p>\n<p> Todos os espanh&oacute;is esclarecidos concordam em que um pequeno n&uacute;mero<br \/>\n    de seus antepassados abusou dessa liberdade at&eacute; a pr&aacute;tica de<br \/>\n    crimes que fazem fremir a natureza. Dom Carlos, segundo do nome (de quem possa<br \/>\n    o senhor arquiduque ser sucessor!) reparou o quanto p&ocirc;de as atrocidades<br \/>\n    a que se entregaram os espanh&oacute;is sob Fernando e sob Carlos Quinto.\n  <\/p>\n<p> Meus amigos, se existe o crime na face da terra, aqui tamb&eacute;m existe<br \/>\n    a virtude. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Ah! ah! ah! a virtude! Engra&ccedil;ado, isto. Por Deus!<br \/>\n    Eu bem queria saber que cara tem a virtude, e onde encontr&aacute;-la. <\/p>\n<p> A estas palavras, n&atilde;o me contive e interrompi por minha vez a Birton:<br \/>\n    &#8212; &#8220;V&oacute;s a encontrareis no sr. Freind, no bom Paruba, em<br \/>\n    v&oacute;s mesmo, quando tiverdes limpado o cora&ccedil;&atilde;o dos v&iacute;cios<br \/>\n    que os recobrem.&#8221; Ele corou, Jenni tamb&eacute;m; depois Jenni baixou<br \/>\n    os olhos, e pareceu sentir remorsos. O pai olhou-o com alguma compaix&atilde;o<br \/>\n    e prosseguiu nos seguintes termos: <\/p>\n<p> Sim, meus caros amigos, se houve crimes, sempre houve virtudes. Atenas,<br \/>\n    Se viu Anitos, viu tamb&eacute;m S&oacute;crates; Roma, se teve Silas, tamb&eacute;m<br \/>\n    teve Cat&otilde;es; Cal&iacute;gula, Nero, horrorizaram o mundo com as suas<br \/>\n    atrocidades; mas Tito, Trajano Antonino Pio, Marco Aur&eacute;lio consolaram-no<br \/>\n    com a sua benefic&ecirc;ncia: o meu Sherloc dir&aacute; em poucas palavras<br \/>\n    ao bom Paruba quem eram esses a que me refiro. Tenho felizmente o meu Epicteto<br \/>\n    aqui no bolso: esse Epicteto n&atilde;o passava de um escravo, mas, pelos<br \/>\n    seus sentimentos, era igual a Marco Aur&eacute;lio. Escutai, e possam todos<br \/>\n    aqueles que se arvoram em doutrinadores escutar o que Epicteto diz a si mesmo:<br \/>\n    Foi Deus quem me criou, eu o trago em mim; ousaria desonr&aacute;-lo com pensamentos<br \/>\n    infames, com a&ccedil;&otilde;es criminosas, com desejos indignos? A sua vida<br \/>\n    foi conforme as suas palavras. Marco Aur&eacute;lio, no trono da Europa e<br \/>\n    de duas outras partes de nosso hemisf&eacute;rio, n&atilde;o pensou diversamente<br \/>\n    de Epicteto; jamais se humilhou este da sua baixeza, jamais se deslumbrou<br \/>\n    da sua grandeza; e, quando escreveram seus pensamentos, fizeram-no para si<br \/>\n    mesmos e para seus disc&iacute;pulos, e n&atilde;o para serem louvados nos<br \/>\n    jornais. E, na vossa opini&atilde;o, Locke, Newton, Tillotson, Penn, Clarke,<br \/>\n    aquele a que chamam the man of Ross, e tantos outros da nossa ilha e fora<br \/>\n    da nossa ilha, que eu vos poderia citar, n&atilde;o foram modelos de virtude?<br \/>\n    Falastes das guerras t&atilde;o cru&eacute;is qu&atilde;atilde;o injustas de que<br \/>\n    tantas na&ccedil;&otilde;es se tornaram culpadas, descrevestes as abomina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos crist&atilde;os no M&eacute;xico e no Peru, podeis acrescentar a isso<br \/>\n    a noite de S. Bartolomeu na Fran&ccedil;a e os mortic&iacute;nios da Irlanda;<br \/>\n    mas n&atilde;o h&aacute; povos inteiros que sempre tiveram horror ao derramamento<br \/>\n    de sangue? Os br&acirc;manes n&atilde;o deram sempre tal exemplo ao mundo?<br \/>\n    E, sem sair do pa&iacute;s onde nos achamos, n&atilde;o temos aqui perto a<br \/>\n    Pensilv&acirc;nia, onde os nossos primitivos, que desfiguram em v&atilde;o<br \/>\n    com o nome de quakers, sempre detestaram a guerra? N&atilde;o temos a Carolina,<br \/>\n    onde o grande Locke ditou as suas leis? Nessas duas p&aacute;trias da virtude,<br \/>\n    todos os cidad&atilde;os s&atilde;o iguais, todas as consci&ecirc;ncias s&atilde;o<br \/>\n    livres, todas as religi&otilde;es s&atilde;o boas, desde que se adore a um<br \/>\n    Deus; todos os homens s&atilde;o ali irm&atilde;os. Vistes como, &agrave;<br \/>\n    simples men&ccedil;&atilde;o de um descendente de Penn, os habitantes das<br \/>\n    montanhas azuis, que podiam exterminar-vos, logo largaram as armas. Eles sentiram<br \/>\n    o que &eacute; a virtude, e v&oacute;s vos obstinais em ignor&aacute;-lo!<br \/>\n    Se a terra tanto produz venenos como alimentos salutares, ides acaso alimentar-vos<br \/>\n    unicamente de veneno? <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Ah! senhor, para que tantos venenos? Se Deus tudo fez, os<br \/>\n    venenos s&atilde;o obra sua; ele &eacute; o senhor de tudo; ele faz tudo;<br \/>\n    ele dirige a m&atilde;o de Cromwell que assina a morte de Carlos I; ele conduz<br \/>\n    o bra&ccedil;o do carrasco que lhe corta a cabe&ccedil;a; n&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    posso admitir um Deus homicida. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Nem eu tampouco. Escutai, pe&ccedil;o-vos; haveis de convir<br \/>\n    comigo em que Deus governa o mundo por meio de leis gerais. Segundo essas<br \/>\n    leis, Cromwell, monstro de fanatismo e de hipocrisia, decidiu a morte de Carlos<br \/>\n    I, por seu interesse, que todos os homens necessariamente amam e que nem todos<br \/>\n    interpretam do mesmo modo. Segundo as leis do movimento estabelecidas pelo<br \/>\n    pr&oacute;prio Deus, o carrasco cortou a cabe&ccedil;a desse rei. Mas sem<br \/>\n    d&uacute;vida Deus n&atilde;o assassinou Carlos I por um ato particular da<br \/>\n    sua vontade. Deus n&atilde;o foi nem Cromwell, nem Jeffrys, nem Ravaillac,<br \/>\n    nem Balthazar G&eacute;rard, nem o irm&atilde;o pregador Jacques Cl&eacute;ment.<br \/>\n    Deus n&atilde;o comete, nem ordena, nem permite o crime; mas fez o homem,<br \/>\n    e fez as leis do movimento; essas leis eternas do movimento s&atilde;o igualmente<br \/>\n    executadas pela m&atilde;o do homem caridoso que socorre o pobre e pela m&atilde;o<br \/>\n    do celerado que degola seu irm&atilde;o. Da mesma forma que Deus n&atilde;o<br \/>\n    extingue o sol e n&atilde;o afunda a Espanha no mar, para punir Cortez, Almagro<br \/>\n    e Pizarro, que inundaram de sangue humano a metade de um hemisf&eacute;rio,<br \/>\n    assim tamb&eacute;m n&atilde;o envia um bando de anjos a Londres, nem faz<br \/>\n    baixarem do c&eacute;u cem mil ton&eacute;is de vinho de Borgonha, para causar<br \/>\n    prazer a seus queridos ingleses quando estes praticam uma boa a&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Sua provid&ecirc;ncia geral seria rid&iacute;cula se baixasse em cada momento<br \/>\n    a cada indiv&iacute;duo; e t&atilde;o palp&aacute;vel &eacute; essa verdade<br \/>\n    que Deus puniu imediatamente a um criminoso, com um golpe teatral da sua onipot&ecirc;ncia:<br \/>\n    deixa brilhar o seu sol sobre os bons e sobre os maus. Se alguns celerados<br \/>\n    morrem imediatamente ap&oacute;s seus crimes, aconteceu-lhes isso por obra<br \/>\n    das leis gerais que presidem o mundo. Li no grande livro de um frenchman chamado<br \/>\n    M&eacute;seray que Deus fizera morrer o nosso grande Henrique V de uma f&iacute;stula<br \/>\n    no orif&iacute;cio final do intestino grosso porque ele ousara sentar-se no<br \/>\n    trono do rei cristian&iacute;ssimo; n&atilde;o, ele morreu por que as leis<br \/>\n    gerais emanadas da onipot&ecirc;ncia tinham de tal modo arranjado a mat&eacute;ria<br \/>\n    que a f&iacute;stula no orif&iacute;cio final do intestino grosso acabaria<br \/>\n    com a vida daquele her&oacute;i Todo o mal f&iacute;sico de uma a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    m&aacute; &eacute; efeito das leis gerais impostas pela m&atilde;o de Deus<br \/>\n    &agrave; mat&eacute;ria; todo o mal moral da a&ccedil;&atilde;o criminosa<br \/>\n    &eacute; efeito da liberdade de que o homem abusa. <\/p>\n<\/p>\n<p>  Enfim, sem nos perdermos no nevoeiro da metaf&iacute;sica, lembremo-nos que<br \/>\n  est&aacute; demonstrada a exist&ecirc;ncia de Deus; n&atilde;o h&aacute; que<br \/>\n  discutir quanto &agrave; sua exist&ecirc;ncia. Tirai Deus ao mundo, e acaso<br \/>\n  se tornar&aacute; mais leg&iacute;timo o assass&iacute;nio de Carlos I? Mais<br \/>\n  caro vos ser&aacute; o seu carrasco? Deus existe, &eacute; justo. Sede pois<br \/>\n  justos. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; E v&oacute;s, sr. Freind, que falais t&atilde;o bem, n&atilde;o<br \/>\n    lestes o livro intitulado O Bom-Senso? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Sim, eu o li, e n&atilde;o sou daqueles que condenam tudo<br \/>\n    em seus advers&aacute;rios. H&aacute; nesse livro verdades bem expostas, mas<br \/>\n    prejudicadas por um grande defeito. O autor quer continuamente destruir o<br \/>\n    Deus de Scot, de Albert, de Boaventura, o Deus dos rid&iacute;culos escol&aacute;sticos<br \/>\n    e dos monges. Notai que n&atilde;o ousa dizer uma palavra contra o Deus de<br \/>\n    S&oacute;crates, de Plat&atilde;o, de Epicteto, de Marco Aur&eacute;lio, contra<br \/>\n    o Deus de Newton e de Locke, contra o meu Deus, ouso diz&ecirc;-lo. Perde<br \/>\n    o tempo a deblaterar contra supersti&ccedil;&otilde;es absurdas e abomin&aacute;veis<br \/>\n    cujo rid&iacute;culo e horror todas as pessoas sensatas hoje reconhecem. &Eacute;<br \/>\n    como se se escrevesse contra a natureza porque os turbilh&otilde;es de Descartes<br \/>\n    a desfiguraram; &eacute; como se se dissesse que o bom gosto n&atilde;o existe<br \/>\n    porque a maioria dos autores n&atilde;o tem gosto nenhum. Aquele que escreveu<br \/>\n    o livro do Bom-Senso julga haver atacado a Deus, e com isso demonstra absoluta<br \/>\n    falta de bom-senso: s&oacute; escreveu contra certos padres antigos e modernos.<br \/>\n    Julga haver aniquilado o senhor por ter repetido que ele foi muitas vezes<br \/>\n    servido por velhacos. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Escutai, n&oacute;s poder&iacute;amos aproximar-nos. Eu<br \/>\n    poderia respeitar o senhor se me entreg&aacute;sseis os servos. Amo a verdade;<br \/>\n    mostrai-ma, e eu a seguirei.<\/p>\n<h4><a name=\"10\" id=\"10\">CAP&Iacute;TULO X<\/a><\/h4>\n<p> <b>Sobre o ate&iacute;smo<\/b><\/p>\n<p> Descera a noite. Era bela, a atmosfera era uma ab&oacute;bada de transparente<br \/>\n    azul, semeada de estrelas de ouro; esse espet&aacute;culo sempre toca os homens<br \/>\n    e lhes inspira doces medita&ccedil;&otilde;es: o bom Paruba admirava o c&eacute;u,<br \/>\n    como um alem&atilde;o admira a bas&iacute;lica de S. Pedro, ou a &Oacute;pera<br \/>\n    de N&aacute;poles, ao v&ecirc;-la pela primeira vez. <\/p>\n<p> &#8212; Essa ab&oacute;bada &eacute; bastante ousada &#8211; dizia Paruba<br \/>\n    a Freind, e Freind lhe retrucava: <\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; nenhuma ab&oacute;bada, meu caro Paruba; essa<br \/>\n    c&uacute;pula azul n&atilde;o &eacute; mais que um estendal de nuvens ligeiras,<br \/>\n    que Deus de tal modo disp&ocirc;s e combinou de tal modo com a mec&acirc;nica<br \/>\n    de vossos olhos, que, em qualquer ponto em que vos acheis, estais sempre no<br \/>\n    centro do vosso passeio, e avistais isso a que chamam c&eacute;u, e que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o c&eacute;u, arqueado sobre a vossa cabe&ccedil;a. <\/p>\n<p> &#8212; E essas estrelas, sr. Freind? <\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o, como j&aacute; o disse, outros tantos s&oacute;is em<br \/>\n    torno dos quais giram outros mundos; longe de estarem ligados a essa ab&oacute;bada<br \/>\n    azul, lembrai-vos que est&atilde;o a dist&acirc;ncias diferentes e prodigiosas:<br \/>\n    aquela que estais vendo acha-se a mil e duzentos milh&otilde;es de mil passos<br \/>\n    do nosso sol. <\/p>\n<p> Mostrou-lhe ent&atilde;o o telesc&oacute;pio que trouxera: fez-lhe ver nossos<br \/>\n    planetas, J&uacute;piter com as suas quatro luas, Saturno com as suas cinco<br \/>\n    luas e o seu inconceb&iacute;vel anel luminoso; &eacute; a mesma luz, dizia-lhe<br \/>\n    ele, que parte de todos esses globos, e que chega a nossos olhos, daquele<br \/>\n    planeta em um quarto de hora, daquela estrela em seis meses. Paruba p&ocirc;s-se<br \/>\n    de joelhos e disse: &#8220;Os c&eacute;us anunciam Deus.&#8221; Toda a equipagem<br \/>\n    cercava o vener&aacute;vel Freind, olhava, e admirava. O cori&aacute;ceo Birton<br \/>\n    avan&ccedil;ou sem nada olhar, e falou assim: <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Pois bem, seja! h&aacute; um Deus, concedo-vos; mas que<br \/>\n    importa a v&oacute;s e a mim? Que h&aacute; entre o Ser infinito e n&oacute;s,<br \/>\n    vermes da terra? Que rela&ccedil;&atilde;o pode existir entre a sua ess&ecirc;ncia<br \/>\n    e a nossa? Epicuro, admitindo deuses nos planetas, tinha raz&atilde;o em ensinar<br \/>\n    que eles n&atilde;o se misturavam absolutamente &agrave;s nossas tolices e<br \/>\n    aos nossos horrores; que n&atilde;o pod&iacute;amos nem ofend&ecirc;-los nem<br \/>\n    lhes agradar; que n&atilde;o tinham nenhuma necessidade de n&oacute;s, nem<br \/>\n    n&oacute;s deles: admitis um Deus mais digno do esp&iacute;rito humano que<br \/>\n    os deuses de Epicuro e que todos os deuses dos orientais e ocidentais. Mas<br \/>\n    se dizeis, como tantos outros, que esse Deus formou ao mundo e a n&oacute;s<br \/>\n    para sua gl&oacute;ria; que exigiu outrora sacrif&iacute;cios de bois, para<br \/>\n    sua gl&oacute;ria; que apareceu, para gl&oacute;ria sua, sob a nossa forma<br \/>\n    de b&iacute;pedes, etc., estareis dizendo, parece-me, uma coisa absurda, que<br \/>\n    faria rir a todas as pessoas que pensam. O amor da gl&oacute;ria n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; outra coisa que orgulho, e o orgulho n&atilde;o passa de vaidade;<br \/>\n    um orgulhoso &eacute; um tolo personagem que Shakespeare representava no seu<br \/>\n    teatro: esse ep&iacute;teto n&atilde;o pode convir mais a Deus que o de injusto,<br \/>\n    de cruel, de inconstante. Se Deus se dignou fazer, ou antes, arranjar o universo,<br \/>\n    s&oacute; deve ter sido em vista de fazer felizes as criaturas. Deixo a vosso<br \/>\n    entendimento o afirmar se ele atingiu tal des&iacute;gnio, o &uacute;nico,<br \/>\n    no entanto, que poderia convir &agrave; natureza divina. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Sim, sem d&uacute;vida, ele o conseguiu com todas as almas<br \/>\n    justas: elas ser&atilde;o felizes um dia, se j&aacute; n&atilde;o o s&atilde;o<br \/>\n    hoje. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Felizes! Que sonho! Que hist&oacute;ria da Carochinha! Onde?<br \/>\n    Como? Quando? Quem vos disse tal? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; A sua justi&ccedil;a. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; N&atilde;o me digais, depois de tantos declamadores, que<br \/>\n    n&oacute;s viveremos eternamente quando n&atilde;o mais existirmos; que possu&iacute;mos<br \/>\n    uma alma imortal, ou antes, que ela nos possui, ap&oacute;s nos haverdes confessado<br \/>\n    que os pr&oacute;prios judeus, os judeus a quem vos gabais de haver substitu&iacute;do,<br \/>\n    jamais suspeitaram ao menos essa imortalidade da alma, at&eacute; o tempo<br \/>\n    de Herodes? Essa id&eacute;ia de uma alma imortal fora inventada pelos br&acirc;manes,<br \/>\n    adotada pelos persas, os caldeus, os gregos, ignorada muito tempo pela infeliz<br \/>\n    horda judaica, m&atilde;e das mais infames supersti&ccedil;&otilde;es. Ah,<br \/>\n    senhor, sabemos ao menos se possu&iacute;mos uma alma? Sabemos se os animais<br \/>\n    cujo sangue lhes constitui a vida, como constitui a nossa, que t&ecirc;m,<br \/>\n    como n&oacute;s, vontades, apetites, paix&otilde;es, id&eacute;ias, mem&oacute;ria,<br \/>\n    ind&uacute;stria, sabeis se essas criaturas, t&atilde;o incompreens&iacute;veis<br \/>\n    quanto n&oacute;s, possuem uma alma, como pretendem que n&oacute;s possu&iacute;mos?\n  <\/p>\n<p> Julgara at&eacute; agora que existia na natureza uma for&ccedil;a ativa<br \/>\n    de que recebemos o dom de viver em todo o nosso corpo, de marchar com os p&eacute;s,<br \/>\n    de aprender com as m&atilde;os, de ver com os olhos, de ouvir com os ouvidos,<br \/>\n    de sentir com os nervos, de pensar com a cabe&ccedil;a, e que tudo isso era<br \/>\n    o que chamamos alma, palavra vaga que n&atilde;o significa, no fundo, mais<br \/>\n    que o princ&iacute;pio desconhecido de nossas faculdades. Chamarei Deus, convosco,<br \/>\n    a esse princ&iacute;pio inteligente e poderoso que anima a natureza inteira;<br \/>\n    mas acaso se dignou ele em dar-se a conhecer a n&oacute;s? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Sim, pelas suas obras. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Ditou-nos as suas leis? Falou-nos? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Sim, pela voz da vossa consci&ecirc;ncia. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade que, se houv&eacute;sseis matado vosso pai e vossa m&atilde;e, essa<br \/>\n    consci&ecirc;ncia vos despeda&ccedil;aria com remorsos t&atilde;o horrendos<br \/>\n    qu&atilde;o involunt&aacute;rios? Essa verdade n&atilde;o &eacute; sentida<br \/>\n    e confessada pelo universo inteiro? Baixemos agora a menores crimes. Haver&aacute;<br \/>\n    um &uacute;nico que n&atilde;o vos assuste &agrave; primeira vista, que n&atilde;o<br \/>\n    vos fa&ccedil;a empalidecer na primeira vez em que o cometeis, e que n&atilde;o<br \/>\n    vos deixe no cora&ccedil;&atilde;o o aguilh&atilde;o do arrependimento? <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Tenho de o confessar. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Deus portanto expressamente ordenou, falando a vosso cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que nunca vos manch&aacute;sseis com um crime evidente. E quanto a todas essas<br \/>\n    a&ccedil;&otilde;es equ&iacute;vocas, que uns condenam e outros justificam,<br \/>\n    que de melhor temos a fazer sen&atilde;o seguir esta grande lei do primeiro<br \/>\n    dos Zoroastros, t&atilde;o celebrada em nossos dias por um autor franc&ecirc;s:<br \/>\n    &#8220;Quando n&atilde;o sabes se a a&ccedil;&atilde;o que meditas &eacute;<br \/>\n    boa ou m&aacute;, abst&eacute;m-te&#8221;? <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Essa m&aacute;xima &eacute; admir&aacute;vel; &eacute; sem<br \/>\n    d&uacute;vida o que jamais se disse de mais belo, isto &eacute;, de mais &uacute;til<br \/>\n    em moral; e isso quase me faria pensar que Deus suscitou de tempos em tempos<br \/>\n    alguns s&aacute;bios que ensinaram a virtude aos homens transviados. Pe&ccedil;o-vos<br \/>\n    perd&atilde;o de haver escarnecido da virtude. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Pedi perd&atilde;o ao Ser eterno, que pode recompens&aacute;-lo<br \/>\n    eternamente, e punir os transgressores. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Como! Deus me puniria eternamente por me haver entregue<br \/>\n    a paix&otilde;es que ele me deu? <\/p>\n<p> Freind: &#8212; Ele vos deu paix&otilde;es com as quais se pode fazer o<br \/>\n    bem e o mal Eu n&atilde;o disse que ele vos punir&aacute; para sempre, nem<br \/>\n    como vos punir&aacute;, pois ningu&eacute;m pode saber nada a respeito; digo-vos<br \/>\n    que ele o pode. Foram os br&acirc;manes os primeiros que imaginaram uma pris&atilde;o<br \/>\n    eterna para as subst&acirc;ncias celestes que se haviam revoltado contra Deus<br \/>\n    no seu pr&oacute;prio pal&aacute;cio; encerrou-os numa esp&eacute;cie de inferno<br \/>\n    a que chamavam ondera; mas, ao cabo de alguns milhares de s&eacute;culos,<br \/>\n    suavizou-lhes as penas, colocou-os na terra, f&ecirc;-los homens: &eacute;<br \/>\n    da&iacute; que vem a nossa mescla de v&iacute;cios e de virtudes, de prazeres<br \/>\n    e de calamidades. &Eacute; engenhosa essa imagina&ccedil;&atilde;o; e ainda<br \/>\n    mais o &eacute; a f&aacute;bula de Pandora e de Prometeu. Na&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    grosseiras imitaram grosseiramente a bela f&aacute;bula de Pandora; essas<br \/>\n    inven&ccedil;&otilde;es s&atilde;o sonhos da filosofia oriental; tudo o que<br \/>\n    vos posso dizer &eacute; que, se cometestes crimes abusando da vossa liberdade,<br \/>\n    ser-vos-&aacute; imposs&iacute;vel provar que Deus seja incapaz de vos punir;<br \/>\n    desafio-vos a isso. <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Esperai; dizeis que n&atilde;o vos posso demonstrar que<br \/>\n    ao grande Ser &eacute; imposs&iacute;vel punir-me: palavra, tendes raz&atilde;o;<br \/>\n    fiz o que pude para provar-me que isso era imposs&iacute;vel, e jamais o consegui.<br \/>\n    Confesso que abusei da minha liberdade, e que Deus me pode castigar; mas,<br \/>\n    por Deus! n&atilde;o serei punido quando n&atilde;o mais existir. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; O melhor partido &eacute; serdes honesto enquanto existis.\n  <\/p>\n<p> Birton: &#8212; Ser honesto enquanto existo?&#8230; Sim, confesso-o, tendes<br \/>\n    raz&atilde;o, &eacute; o partido que se deve tomar. <\/p>\n<p> Desejaria, caro amigo, que houv&eacute;sseis testemunhado o efeito que as<br \/>\n    palavras de Freind produziram em todos os ingleses e americanos. Birton, t&atilde;o<br \/>\n    leviano e audacioso, tomou de s&uacute;bito um ar recolhido e modesto; Jenni,<br \/>\n    com os olhos &uacute;midos de pranto, lan&ccedil;ou-se aos joelhos de seu<br \/>\n    pai, e o pai o abra&ccedil;ou. Eis enfim a &uacute;ltima cena dessa disputa<br \/>\n    t&atilde;o espinhosa e t&atilde;o interessante.<\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\">CAP&Iacute;TULO XI<\/a><\/h4>\n<p> <b>Do ate&iacute;smo<\/b><\/p>\n<p> Birton: &#8212; Concebo perfeitamente que o grande Ser, o senhor da natureza,<br \/>\n    seja eterno; mas n&oacute;s, que n&atilde;o exist&iacute;amos ontem, poderemos<br \/>\n    ter a louca ousadia de aspirar a uma eternidade futura? Tudo parece sem remiss&atilde;o<br \/>\n    em torno de n&oacute;s, desde o inseto devorado pela andorinha at&eacute;<br \/>\n    o elefante devorado pelos vermes. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; N&atilde;o, nada perece: tudo se transforma: os germes impalp&aacute;veis<br \/>\n    dos animais e dos vegetais subsistem, desenvolvem-se, e perpetuam as esp&eacute;cies.<br \/>\n    Por que n&atilde;o hav&iacute;eis de querer que Deus conservasse o princ&iacute;pio<br \/>\n    que vos faz agir e pensar, de qualquer natureza que ele possa ser? Deus me<br \/>\n    livre de construir um sistema; mas certamente h&aacute; em n&oacute;s qualquer<br \/>\n    coisa que pensa e que quer: essa qualquer coisa, a que chamavam outrora uma<br \/>\n    m&ocirc;nada, essa qualquer coisa, &eacute; impercept&iacute;vel. Deus no-la<br \/>\n    deu, ou talvez, para falar mais justo, Deus nos deu a ela. Estais bem certo<br \/>\n    de que ele n&atilde;o a pode conservar? Pensai, examinai, podeis fornecer-me<br \/>\n    alguma demonstra&ccedil;&atilde;o disso? <\/p>\n<p> Birton: &#8212; N&atilde;o;. procurei-a em meu entendimento, em todos os<br \/>\n    livros dos ateus, e sobretudo no terceiro canto de Lucr&eacute;cio; confesso<br \/>\n    que nunca encontrei sen&atilde;o verossimilhan&ccedil;as. <\/p>\n<p> Freind: &#8212; E, louvados nessas simples verossimilhan&ccedil;as, nos<br \/>\n    entregar&iacute;amos a todas as nossas funestas paix&otilde;es? Viver&iacute;amos<br \/>\n    como brutos, n&atilde;o tendo como regra sen&atilde;o os nossos apetites e<br \/>\n    como freio o temor dos outros homens, eternamente inimigos uns dos outros<br \/>\n    devido a esse m&uacute;tuo temor! pois a gente sempre quer destruir aquilo<br \/>\n    a que teme. Pensai bem nisso, Sr. Birton, reflete profundamente sobre isso,<br \/>\n    meu filho Jenni; n&atilde;o esperar de Deus nem castigo nem recompensa, &eacute;<br \/>\n    ser verdadeiramente ateu. De que serviria a id&eacute;ia de um Deus que n&atilde;o<br \/>\n    tivesse nenhum poder sobre n&oacute;s? &Eacute; como se dissessem: h&aacute;<br \/>\n    um rei da China que &eacute; muito poderoso. Que lhe fa&ccedil;a bom proveito,<br \/>\n    &#8211; responderia eu; &#8211; que fique na sua terra e eu na minha n&atilde;o<br \/>\n    me preocupo mais com ele do que ele comigo; ele n&atilde;o tem mais jurisdi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre a minha pessoa do que um c&ocirc;nego de Windsor sobre um membro do<br \/>\n    nosso Parlamento; ent&atilde;o sou eu o meu pr&oacute;prio Deus: sacrifico<br \/>\n    o mundo inteiro as minhas fantasias, se se apresentar uma ocasi&atilde;o;<br \/>\n    sou sem lei, e s&oacute; importo a mim mesmo. Se os outros seres s&atilde;o<br \/>\n    carneiros, fa&ccedil;o-me lobo; se s&atilde;o galinhas, fa&ccedil;o-me raposa.\n  <\/p>\n<p> Suponhamos (queira Deus o contr&aacute;rio) que toda a nossa Inglaterra<br \/>\n    seja at&eacute;ia por princ&iacute;pios. Convenho em que poder&aacute; haver<br \/>\n    v&aacute;rios cidad&atilde;os que, nascidos com um g&ecirc;nio tranq&uuml;ilo<br \/>\n    e brando, bastante ricos para n&atilde;o terem necessidade de ser injustos,<br \/>\n    governados pela honra e por isso atentos a seu procedimento, conseguir&atilde;o<br \/>\n    viver em sociedade: cultivar&atilde;o as belas artes, que suavizam os costumes:<br \/>\n    poder&atilde;o viver na paz, na inocente alegria da gente honrada. Mas o ateu<br \/>\n    pobre e violento, seguro da sua impunidade, ser&aacute; um tolo se n&atilde;o<br \/>\n    vos assassinar para roubar vosso dinheiro. De ent&atilde;o, todos os elos<br \/>\n    da sociedade s&atilde;o rompidos, todos os crimes secretos inundam a terra,<br \/>\n    como os gafanhotos, no princ&iacute;pio mal percebidos, v&ecirc;m assolar<br \/>\n    nossos campos; o baixo povo n&atilde;o passar&aacute; de uma horda de salteadores,<br \/>\n    como os nossos ladr&otilde;es de que n&atilde;o se enforca a d&eacute;cima<br \/>\n    parte: passam a sua miser&aacute;vel vida em tavernas, com prostitutas, batem-lhes,<br \/>\n    batem-se entre si; tombam b&ecirc;bedos no meio de seus canec&otilde;es com<br \/>\n    os quais quebram a cabe&ccedil;a uns aos outros; despertam para roubar e para<br \/>\n    assassinar; recome&ccedil;am cada dia esse c&iacute;rculo abomin&aacute;vel<br \/>\n    de brutalidades! <\/p>\n<p> Quem conter&aacute; os grandes e os reis nas suas vingan&ccedil;as, na sua<br \/>\n    ambi&ccedil;&atilde;o, &agrave; qual tudo querem imolar? Um rei ateu &eacute;<br \/>\n    mais perigoso que um Ravaillac fan&aacute;tico. <\/p>\n<p> Os ateus formigavam na It&aacute;lia, no s&eacute;culo XV; que resultou<br \/>\n    da&iacute;? Tornou-se t&atilde;o comum envenenar como oferecer uma ceia, e<br \/>\n    mergulhar um punhal no cora&ccedil;&atilde;o de um amigo como abra&ccedil;&aacute;-lo;<br \/>\n    houve professores de crime, como h&aacute; hoje mestres de m&uacute;sica e<br \/>\n    de matem&aacute;tica. Escolhiam expressamente os templos para ai assassinar<br \/>\n    os pr&iacute;ncipes ao p&eacute; dos altares. O papa Sixto IV e um arcebispo<br \/>\n    de Floren&ccedil;a mandaram assassinar assim os dois pr&iacute;ncipes mais<br \/>\n    distintos da Europa. (Dizei, meu caro Sherloc, a Paruba e a seus filhos, o<br \/>\n    que &eacute; um papa e um arcebispo, e dizei-lhes sobretudo que j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o existem semelhantes monstros.) Mas continuemos. Um duque de Mil&atilde;o<br \/>\n    foi assassinado da mesma forma no interior de uma igreja. S&atilde;o por demais<br \/>\n    conhecidos os espantosos horrores de Alexandre VI. Se houvessem subsistido<br \/>\n    tais costumes, a It&aacute;lia teria ficado mais deserta do que o Peru ap&oacute;s<br \/>\n    a invas&atilde;o. <\/p>\n<p> A cren&ccedil;a num Deus remunerador, das boas a&ccedil;&otilde;es, punidor<br \/>\n    das m&aacute;s, perdoador das faltas leves, &eacute; pois a cren&ccedil;a<br \/>\n    mais &uacute;til ao g&ecirc;nero humano; &eacute; o &uacute;nico freio dos<br \/>\n    poderosos, que cometem insolentemente os crimes p&uacute;blicos; &eacute;<br \/>\n    o &uacute;nico freio dos homens que cometem disfar&ccedil;adamente os crimes<br \/>\n    secretos. N&atilde;o vos digo, meus amigos, que junteis, a essa cren&ccedil;a<br \/>\n    necess&aacute;ria, supersti&ccedil;&otilde;es que a desonrariam e que at&eacute;<br \/>\n    poderiam torn&aacute;-la funesta: o ateu &eacute; um monstro que s&oacute;<br \/>\n    devorar&aacute; para apaziguar a fome; o supersticioso &eacute; outro monstro<br \/>\n    que estra&ccedil;alhar&aacute; os homens por dever. Sempre notei que se pode<br \/>\n    curar um ateu, mas jamais se cura radicalmente a um supersticioso; o ateu<br \/>\n    &eacute; um homem de talento que se engana, mas que pensa por si mesmo; o<br \/>\n    supersticioso &eacute; um tolo brutal que jamais teve sen&atilde;o as id&eacute;ias<br \/>\n    dos outros. O ateu violar&aacute; Ifig&ecirc;nia, prestes a desposar Aquiles,<br \/>\n    mas o fan&aacute;tico a degolar&aacute; piedosamente sobre o altar, e julgar&aacute;<br \/>\n    que J&uacute;piter lhe ficar&aacute; devendo obriga&ccedil;&otilde;es; o ateu<br \/>\n    roubar&aacute; um vaso de ouro a uma igreja, para cear com mulheres. alegres,<br \/>\n    mas um fan&aacute;tico celebrar&aacute; um auto-de-f&eacute; nessa igreja<br \/>\n    e entoar&aacute; um c&acirc;ntico judeu, a plenos pulm&otilde;es, enquanto<br \/>\n    faz queimar judeus, sim, meus amigos, o ate&iacute;smo e o fanatismo s&atilde;o<br \/>\n    os dois p&oacute;los de um universo de confus&atilde;o e de horror. A pequena<br \/>\n    zona da virtude est&aacute; entre esses dois p&oacute;los; marchai a passo<br \/>\n    firme por esse caminho; acreditai num Deus bom, e sede bons. &Eacute; tudo<br \/>\n    quanto os grandes legisladores Locke e Penn pedem a seus povos. <\/p>\n<p> Respondei-me, senhor Birton, v&oacute;s e vossos amigos: que mal vos pode<br \/>\n    fazer a adora&ccedil;&atilde;o de um Deus, junta &agrave; ventura de ser um<br \/>\n    homem honrado? Neste momento em que vos falo, podemos todos ser atacados de<br \/>\n    uma doen&ccedil;a mortal: qual de n&oacute;s n&atilde;o desejaria ent&atilde;o<br \/>\n    ter vivido na inoc&ecirc;ncia? Vede como o nosso mau Ricardo III morre em<br \/>\n    Shakespeare; como os espectros de todos aqueles que ele matou v&ecirc;m aterrorizar<br \/>\n    sua imagina&ccedil;&atilde;o. Vede como expira Carlos IX de Fran&ccedil;a<br \/>\n    ap&oacute;s S. Bartolomeu. Por mais que lhe diga o capel&atilde;o que ele<br \/>\n    fez bem, seu crime o dilacera, seu sangue jorra-lhe pelos poros, e todo o<br \/>\n    sangue que fez correr brada contra ele. Acreditai-me: de todos esses monstros,<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; nenhum que n&atilde;o tenha vivido nos tormentos do remorso<br \/>\n    e que n&atilde;o tenha acabado no desespero.<\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">CAP&Iacute;TULO XII<\/a><\/h4>\n<p> <b>Regresso &agrave; Inglaterra. Casamento de Jenni<\/b> <\/p>\n<p> Birton e seus amigos n&atilde;o mais puderam conter-se; lan&ccedil;aram-se<br \/>\n    aos joelhos de Freind. <\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; disse Birton, &#8211; eu creio em Deus e em v&oacute;s.\n  <\/p>\n<p> J&aacute; estavam perto da casa de Paruba. Ali cearam; mas Jenni n&atilde;o<br \/>\n    pode comer: mantinha-se afastado, derramava l&aacute;grimas; o pai foi procur&aacute;-lo<br \/>\n    para o consolar. <\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; disse-lhe Jenni, &#8211; eu n&atilde;o merecia ter um<br \/>\n    pai como v&oacute;s; morrerei de dor de me haver deixado seduzir por essa<br \/>\n    abomin&aacute;vel Clive-Hart: sou a causa, embora inocente, da morte de Primerose;<br \/>\n    e, ainda h&aacute; pouco, quando nos falastes de envenenamento, senti um calafrio;<br \/>\n    pareceu-me ver Clive-Hart apresentando a Primerose a horr&iacute;vel beberagem.<br \/>\n    Meu Deus! Como pude ter o esp&iacute;rito bastante alienado para seguir uma<br \/>\n    criatura t&atilde;o criminosa? Ela enganou-me; eu estava cego. S&oacute; me<br \/>\n    desenganei um pouco antes de os selvagens a terem apanhado: num assomo de<br \/>\n    c&oacute;lera, ela quase me fez a confiss&atilde;o de seu crime. Desde esse<br \/>\n    momento, tive-lhe horror. E, para meu supl&iacute;cio, a imagem de Primerose<br \/>\n    est&aacute; incessantemente diante de meus olhos; eu a vejo, eu a ou&ccedil;o;<br \/>\n    ela me diz: &#8220;Eu estou morta porque te amava.&#8221; <\/p>\n<p> O senhor Freind esbo&ccedil;ou um sorriso de bondade, cujo motivo Jenni<br \/>\n    n&atilde;o compreendeu; disse-lhe o pai que s&oacute; uma vida impec&aacute;vel<br \/>\n    poderia reparar as faltas passadas; levou-o para a mesa como um homem a quem<br \/>\n    acabam de retirar das vagas onde se afogava; eu pr&oacute;prio o abracei,<br \/>\n    agradei-lhe, animei-o; est&aacute;vamos todos comovidos. <\/p>\n<p> Aparelhamo-nos no dia seguinte para voltar &agrave; Inglaterra, depois de<br \/>\n    ter dado presentes a toda a fam&iacute;lia de Paruba: nossos adeuses foram<br \/>\n    mesclados de l&aacute;grimas sinceras; Birton e seus camaradas, que nunca<br \/>\n    tinham sido sen&atilde;o levianos, pareciam agora completamente sensatos.\n  <\/p>\n<p> Est&aacute;vamos em alto mar, quando Freind disse a Jenni em minha presen&ccedil;a:\n  <\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o, meu filho, a lembran&ccedil;a da linda, da virtuosa<br \/>\n    e terna Primerose ainda te &eacute; muito cara? <\/p>\n<p> Jenni desesperou-se a essas palavras; as flechas de um eterno e in&uacute;til<br \/>\n    arrependimento lhe varavam o cora&ccedil;&atilde;o, e eu temi que ele se precipitasse<br \/>\n    no mar. <\/p>\n<p> &#8212; Pois bem &#8211; disse-lhe Freind, &#8211; consola-te; Primerose<br \/>\n    est&aacute;. viva, e ama-te. <\/p>\n<p> Freind, com efeito, recebia not&iacute;cias seguras, gra&ccedil;as &agrave;quele<br \/>\n    fiel empregado que lhe escrevia por todos os navios que partiam para Maryland.<br \/>\n    O senhor Mead, que depois adquiriu tamanha reputa&ccedil;&atilde;o no conhecimento<br \/>\n    de todos os venenos, tivera a felicidade de arrancar Primerose aos bra&ccedil;os<br \/>\n    da morte. O sr. Freind mostrou ao filho aquela carta que ele relera tantas<br \/>\n    vezes e com tanta emo&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p> Jenni passou, em um &aacute;pice, do auge do desespero ao da felicidade.<br \/>\n    N&atilde;o vos descreverei o efeito dessa t&atilde;o repentina mudan&ccedil;a;<br \/>\n    quanto mais me impressionou, menos posso exprimi-lo; foi o mais belo momento<br \/>\n    da vida de Jenni. Birton e seus camaradas compartilharam t&atilde;o pura alegria.\n  <\/p>\n<p> Que mais vos direi? O excelente Freind lhes serviu de pai a todos. O casamento<br \/>\n    do belo Jenni e da bela Primerose efetuou-se em casa do doutor Mead. Tamb&eacute;m<br \/>\n    casamos Birton, que estava completamente mudado. Jenni e ele s&atilde;o hoje<br \/>\n    as pessoas mais honradas da Inglaterra. Haveis de convir em que um s&aacute;bio<br \/>\n    pode curar loucos.<\/p>\n<p><b>NOTAS<\/b><\/p>\n<p> (1) &#8211; Toda essa hist&oacute;ria &eacute; narrada por Abdias, Marcelo<br \/>\n    e Hegesipo. Eus&eacute;bio refere-lhe uma parte.<br \/>\n    (2) &#8211; Cap. IX.<br \/>\n    (3) &#8211; Atos, Cap. XXVI.<br \/>\n    (4) &#8211; Hist&oacute;ria Apost&oacute;lica de Abdias. Tradu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de J&uacute;lio Africano, livro VI, pp. 395 e seguintes.<br \/>\n    (5) &#8211; Eus&eacute;bio, liv. III, cap. XXX.<br \/>\n    (6) &#8211; Vem transcrita na Apologia do Conde de Peterborou, pelo doutor<br \/>\n    Freind, pag. 143.<br \/>\n    (7) &#8211; Em franc&ecirc;s eau-de-vie, isto &eacute;, &aacute;gua de vida.(bebida<br \/>\n    alco&oacute;lica).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Voltaire Apresenta&ccedil;&atilde;o A &#8220;Hist&oacute;ria de Jenni&#8221; foi escrita por Voltaire nos seus &uacute;ltimos anos de vida. 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