{"id":120047,"date":"2017-04-19T11:20:31","date_gmt":"2017-04-19T13:20:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120047"},"modified":"2017-04-19T11:20:31","modified_gmt":"2017-04-19T13:20:31","slug":"candido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/candido","title":{"rendered":"C\u00e2ndido"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"454\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XX<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#26\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#27\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#28\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#29\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#30\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXX<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Voltaire<\/h2>\n<p><strong>Apresenta&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;C&acirc;ndido&#8221; &eacute; uma das obras mais conhecidas de Voltaire.<\/p>\n<p> O texto contrap&otilde;e ingenuidade e esperteza, desprendimento e gan&acirc;ncia,<br \/>\n    caridade e ego&iacute;smo, delicadeza e viol&ecirc;ncia, amor e &oacute;dio.<br \/>\n    Tudo isso mesclado com discuss&otilde;es filos&oacute;ficas sobre causas e<br \/>\n    efeitos, raz&atilde;o suficiente, &eacute;tica.<\/p>\n<p> Como sempre Voltaire exp&otilde;e suas concep&ccedil;&otilde;es com fina<br \/>\n    ironia, sem abandonar o sarcasmo de quando em vez. O romance, em todos e cada<br \/>\n    um dos seus par&aacute;grafos, caracteriza-se como uma s&aacute;tira &agrave;s<br \/>\n    id&eacute;ias de Leibnitz.<\/p>\n<p> Leibnitz afirmara, pelo menos assim entendeu Voltaire, que o mundo &eacute;<br \/>\n    o melhor poss&iacute;vel, que Deus n&atilde;o poderia ter constru&iacute;do<br \/>\n    outro e que tudo corria &agrave;s mil maravilhas.<\/p>\n<p> Voltaire n&atilde;o podia partilhar dessa mesma vis&atilde;o otimista, suas<br \/>\n    id&eacute;ias tinham resultado em pris&otilde;es e persegui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a tal ponto que, por volta de 1753, j&aacute; n&atilde;o podia fixar-se, sem<br \/>\n    risco, em lugar algum da Europa.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido foi expulso de onde morava, foi preso e torturado, perdeu<br \/>\n    sua amada, seus melhores amigos; em todos os casos com requintes de crueldade.<br \/>\n    Mas a cada um desses fatos, meditava sobre como explicar o melhor dos mundos<br \/>\n    poss&iacute;veis, sempre com deboche mais ou menos sutil.<\/p>\n<p> Como &eacute; peculiar a todos os seus trabalhos,o fil&oacute;sofo tamb&eacute;m<br \/>\n    criticou acidamente os costumes, a cultura, as artes.<\/p>\n<p> Sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre sexos, uma passagem merece ser mencionada:\n  <\/p>\n<p> &#8220;Um dia, em que passeava nas proximidades do castelo, pelo pequeno<br \/>\n    bosque a que chamavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o doutor Pangloss<br \/>\n    que estava dando uma li&ccedil;&atilde;o de f&iacute;sica experimental &agrave;<br \/>\n    camareira de sua m&atilde;e, moreninha muito bonita e d&oacute;cil. Como a<br \/>\n    senhorita Cunegundes tivesse grande inclina&ccedil;&atilde;o para as ci&ecirc;ncias,<br \/>\n    observou, sem respirar, as repetidas experi&ecirc;ncias de que foi testemunha;<br \/>\n    viu com toda a clareza a raz&atilde;o suficiente do doutor, os efeitos e as<br \/>\n    causas, e regressou toda agitada e pensativa, cheia do desejo de se tornar<br \/>\n    s&aacute;bia, e pensando que bem poderia ela ser a raz&atilde;o suficiente<br \/>\n    do jovem C&acirc;ndido, o qual tamb&eacute;m podia ser a sua.&#8221; <\/p>\n<p> Nem mesmo as falcatruas das manufaturas europ&eacute;ias ficaram esquecidas:\n  <\/p>\n<p> &#8220;&#8230;levou-o para casa, limpou-o, deu-lhe p&atilde;o e cerveja, presenteou-o<br \/>\n    com dois florins, e at&eacute; quis ensinar-lhe a trabalhar na sua manufatura<br \/>\n    de tecidos da P&eacute;rsia fabricados na Holanda.&#8221; <\/p>\n<p> Sugestiva &eacute; a men&ccedil;&atilde;o sobre a recompensa divina para<br \/>\n    o mal menor: <\/p>\n<p> &#8220;T&iacute;nhamos um imame muito devoto e compassivo, que lhes pregou<br \/>\n    um belo serm&atilde;o, persuadindo-os a que n&atilde;o nos matassem.<\/p>\n<p> &#8212; Cortai &#8211; disse ele &#8211; apenas uma n&aacute;dega a cada<br \/>\n    uma dessas damas, e com isso vos regalareis. Se for necess&aacute;rio mais,<br \/>\n    tereis outro tanto daqui a alguns dias. Deus recompensar&aacute; t&atilde;o<br \/>\n    caridosa a&ccedil;&atilde;o, e sereis socorridos.&#8221; <\/p>\n<p> N&atilde;o faltou a refer&ecirc;ncia &agrave; rela&ccedil;&atilde;o entre<br \/>\n    exploradores e explorados, e &agrave; hipocrisia dos poderosos. <\/p>\n<p> &#8220;J&aacute; estiveste ent&atilde;o no Paraguai? &#8211; indagou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade. Servi de f&acirc;mulo no col&eacute;gio de Assun&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e conhe&ccedil;o o governo dos Padres como conhe&ccedil;o as ruas de C&aacute;diz.<br \/>\n    &Eacute; uma coisa admir&aacute;vel esse governo. O reino j&aacute; tem mais<br \/>\n    de trezentas l&eacute;guas de di&acirc;metro; &eacute; dividido em trinta<br \/>\n    prov&iacute;ncias. Os padres ali t&ecirc;m tudo, e o povo nada; &eacute; a<br \/>\n    obra prima da raz&atilde;o e da justi&ccedil;a. Quanto a mim, n&atilde;o conhe&ccedil;o<br \/>\n    nada mais divino do que os Padres, que aqui fazem guerra ao rei de Espanha<br \/>\n    e ao rei de Portugal, e que na Europa confessam esses reis; que aqui matam<br \/>\n    espanh&oacute;is e em Madrid os mandam para o c&eacute;u: isto me encanta.&#8221;\n  <\/p>\n<p> E com que gra&ccedil;a se refere &agrave; simplicidade da riqueza e do luxo:\n  <\/p>\n<p> &#8220;Entraram numa casa muito simples, pois a porta era apenas de prata<br \/>\n    e as salas modestamente revestidas de ouro, mas tudo trabalhado com tanto<br \/>\n    gosto que nada ficavam a dever aos mais ricos lambris. A antec&acirc;mara,<br \/>\n    na verdade, era incrustada somente de esmeraldas e rubis; mas a harmonia do<br \/>\n    conjunto compensava de sobra essa extrema simplicidade.&#8221; <\/p>\n<p> O respeitabil&iacute;ssimo Homero n&atilde;o escapou das farpas: <\/p>\n<p> &#8220;C&acirc;ndido, ao ver um Homero magnificamente encadernado, elogiou<br \/>\n    o ilustr&iacute;ssimo quanto ao seu bom gosto.<\/p>\n<p> &#8212; Eis &#8211; disse ele &#8211; um livro que fazia as del&iacute;cias<br \/>\n    do grande Pangloss, o maior fil&oacute;sofo da Alemanha.<\/p>\n<p> &#8212; Pois n&atilde;o faz as minhas &#8211; disse friamente Pococurante.<br \/>\n    &#8211; Fizeram-me acreditar outrora que eu sentia prazer em l&ecirc;-lo;<br \/>\n    mas essa repeti&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de combates que todos se<br \/>\n    assemelham, esses deuses que agem sempre para nada fazer de decisivo, essa<br \/>\n    Helena que &eacute; o motivo da guerra e que mal entra na pe&ccedil;a; essa<br \/>\n    Tr&oacute;ia que cercam e n&atilde;o tomam, tudo isso me causava um mortal<br \/>\n    aborrecimento. Perguntei a eruditos se eles se aborreciam tanto quanto eu<br \/>\n    nessa leitura. Os que eram sinceros confessaram-me que o livro lhes tombava<br \/>\n    das m&atilde;os, mas que sempre era preciso t&ecirc;-lo na biblioteca, como<br \/>\n    um monumento da Antig&uuml;idade, &eacute; como essas moedas enferrujadas<br \/>\n    que n&atilde;o podem circular.&#8221; <\/p>\n<p> Foi nesse romance que Voltaire escreveu uma de suas mais c&eacute;lebres<br \/>\n    frases. Ap&oacute;s ouvir uma breve disserta&ccedil;&atilde;o sobre o perigo<br \/>\n    das grandezas, que todos os acontecimentos estavam devidamente encadeados<br \/>\n    no melhor dos mundos poss&iacute;veis, que todo o sofrimento de C&acirc;ndido<br \/>\n    acabara por reverter em benef&iacute;cios, C&acirc;ndido, candidamente, respondeu:\n  <\/p>\n<p> &#8220;&#8212; Tudo isso est&aacute; bem dito&#8230; mas devemos cultivar nosso<br \/>\n    jardim.&#8221; <\/p>\n<h4><a name=\"1\">CAP&Iacute;TULO I<\/a><\/h4>\n<p> De como foi C&acirc;ndido criado em um lindo castelo, e como dali o escorra&ccedil;aram<\/p>\n<p> Havia em Vestf&aacute;lia, no castelo do senhor bar&atilde;o de Thunder-ten-tronckh,<br \/>\n    um jovem a quem a natureza dotara da &iacute;ndole mais suave. Sua fisionomia<br \/>\n    lhe anunciava a alma. Era reto de ju&iacute;zo e simples de esp&iacute;rito,<br \/>\n    raz&atilde;o pela qual, creio eu, o chamavam de C&acirc;ndido. Suspeitavam<br \/>\n    os velhos criados que fosse filho da irm&atilde; do senhor bar&atilde;o e<br \/>\n    de um bom e honrado gentil-homem da vizinhan&ccedil;a, com quem esta jamais<br \/>\n    consentira em casar-se, porque ele s&oacute; pudera alegar setenta e uma gera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    havendo as inj&uacute;rias do tempo destru&iacute;do o resto da sua arvore<br \/>\n    geneal&oacute;gica.<\/p>\n<p> Era o senhor bar&atilde;o um dos mais poderosos senhores de Vestf&aacute;lia.<br \/>\n    Sua sala de honra ostentava, at&eacute;, uma tape&ccedil;aria. Todos os seus<br \/>\n    c&atilde;es, reunidos, formavam, em caso de precis&atilde;o, uma boa matilha;<br \/>\n    o vig&aacute;rio da aldeia era o seu esmoler-mor. Tratavam-no todos por Monsenhor<br \/>\n    e riam quando ele contava hist&oacute;rias.<\/p>\n<p> A senhora baronesa, que pesava cerca de trezentas e cinq&uuml;enta libras,<br \/>\n    granjeava com isso enorme considera&ccedil;&atilde;o, e fazia as honras da<br \/>\n    casa com uma dignidade que a tornava ainda mais respeit&aacute;vel. Sua filha<br \/>\n    Cunegundes, que contava dezessete anos, era corada, fresca, rechonchuda, apetitosa.<br \/>\n    O filho do bar&atilde;o parecia em tudo digno do pai. o preceptor Pangloss<br \/>\n    era o or&aacute;culo da casa, e o pequeno C&acirc;ndido escutava as suas li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com toda a boa f&eacute; da sua idade e do seu car&aacute;ter.<\/p>\n<p> Pangloss ensinava metaf&iacute;sico &#8211; te&oacute;logo &#8211; cosmolonigologia.<br \/>\n    Provava admiravelmente que n&atilde;o h&aacute; efeito sem causa e que, neste<br \/>\n    que &eacute; o melhor poss&iacute;vel dos mundos, o castelo do senhor bar&atilde;o<br \/>\n    era o mais belo poss&iacute;vel dos castelos e a senhora a melhor das baronesas<br \/>\n    poss&iacute;veis.<\/p>\n<p> Est&aacute; demonstrado, dizia ele, que as coisas n&atilde;o podem ser de<br \/>\n    outra maneira: pois, como tudo foi feito para um fim, tudo est&aacute; necessariamente<br \/>\n    destinado ao melhor fim. Queiram notar que os narizes foram feitos para usar<br \/>\n    &oacute;culos, e por isso n&oacute;s temos &oacute;culos. As pernas foram<br \/>\n    visivelmente institu&iacute;das para as cal&ccedil;as, e por isso temos cal&ccedil;as.<br \/>\n    As pedras foram feitas para serem talhadas e edificar castelos, e por isso<br \/>\n    Monsenhor tem um lindo castelo; o mais consider&aacute;vel bar&atilde;o da<br \/>\n    prov&iacute;ncia deve ser o mais bem alojado; e, como os porcos foram feitos<br \/>\n    para serem comidos, n&oacute;s comemos porco o ano inteiro: por conseguinte,<br \/>\n    aqueles que asseveravam que tudo est&aacute; bem disseram uma tolice; deviam<br \/>\n    era dizer que tudo est&aacute; o melhor poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido ouvia com toda a aten&ccedil;&atilde;o e acreditava inocentemente;<br \/>\n    pois achava a senhorita Cunegundes extremamente formosa, embora jamais se<br \/>\n    atrevesse a lho dizer. Conclu&iacute;a que, depois da ventura de ter nascido<br \/>\n    bar&atilde;o de Thunder-ten-tronckh, o segundo grau de felicidade consistia<br \/>\n    em ser mademoiselle Cunegundes; o terceiro, em v&ecirc;-la todos os dias;<br \/>\n    e o quarto, em ouvir mestre Pangloss, o maior fil&oacute;sofo da prov&iacute;ncia,<br \/>\n    e por conseguinte de toda a terra.<\/p>\n<p> Um dia, em que passeava nas proximidades do castelo, pelo pequeno bosque<br \/>\n    a que chamavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o doutor Pangloss que<br \/>\n    estava dando uma li&ccedil;&atilde;o de f&iacute;sica experimental &agrave;<br \/>\n    camareira de sua m&atilde;e, moreninha muito bonita e d&oacute;cil. Como a<br \/>\n    senhorita Cunegundes tivesse grande inclina&ccedil;&atilde;o para as ci&ecirc;ncias,<br \/>\n    observou, sem respirar, as repetidas experi&ecirc;ncias de que foi testemunha;<br \/>\n    viu com toda a clareza a raz&atilde;o suficiente do doutor, os efeitos e as<br \/>\n    causas, e regressou toda agitada e pensativa, cheia do desejo de se tornar<br \/>\n    s&aacute;bia, e pensando que bem poderia ela ser a raz&atilde;o suficiente<br \/>\n    do jovem C&acirc;ndido, o qual tamb&eacute;m podia ser a sua.<\/p>\n<p> Encontrou C&acirc;ndido ao voltar para o castelo, e enrubesceu; C&acirc;ndido<br \/>\n    tamb&eacute;m corou; ela cumprimentou-o com voz entrecortada, e C&acirc;ndido<br \/>\n    falou-lhe sem saber o que dizia. No dia seguinte, depois do jantar, Cunegundes<br \/>\n    e C&acirc;ndido encontraram-se atr&aacute;s de um biombo; Cunegundes deixou<br \/>\n    cair o len&ccedil;o, C&acirc;ndido apanhou-o, ela tomou-lhe inocentemente<br \/>\n    a m&atilde;o, o jovem beijou inocentemente a m&atilde;o da mo&ccedil;a com<br \/>\n    uma vivacidade, uma sensibilidade, uma gra&ccedil;a toda especial; suas bocas<br \/>\n    encontraram-se, seus olhos fulguraram, seus joelhos tremeram, suas m&atilde;os<br \/>\n    perderam-se&#8230; Ora, o senhor bar&atilde;o de Thunder-ten-tronckh passou junto<br \/>\n    ao paravento e, vendo aquela causa e aquele efeito, correu C&acirc;ndido do<br \/>\n    castelo, a pontap&eacute;s no traseiro; Cunegundes desmaiou; logo que voltou<br \/>\n    a si, foi esbofeteada pela senhora baronesa; e houve a maior consterna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no mais lindo e mais agrad&aacute;vel dos castelos poss&iacute;veis.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">CAP&Iacute;TULO II <\/h4>\n<p><strong>Do que sucedeu a C&acirc;ndido entre os b&uacute;lgaros<\/strong><\/p>\n<p> C&acirc;ndido, expulso do para&iacute;so terrestre, caminhou muito tempo<br \/>\n    sem saber por onde andava, chorando, erguendo os olhos ao c&eacute;u, voltando-os<br \/>\n    seguidamente para o mais lindo dos castelos que encerrava a mais linda das<br \/>\n    baronesinhas. Deitou-se, sem comer, em pleno campo, entre dois sulcos de lavoura,<br \/>\n    enquanto caia neve em grandes flocos. C&acirc;ndido, transido, arrastou-se<br \/>\n    no dia seguinte at&eacute; a aldeia pr&oacute;xima, que se chama Valberghoff-trarbk-dikdorff,<br \/>\n    sem dinheiro, morto de fome e de cansa&ccedil;o. Parou tristemente &agrave;<br \/>\n    porta de uma estalagem. Dois homens trajados de azul deram com os olhos nele:<\/p>\n<p> &#8212; Camarada &#8211; disse um, &#8211; eis ali um rapaz de bom corpo<br \/>\n    e que tem a altura requerida.<\/p>\n<p> Dirigiram-se a C&acirc;ndido e convidaram-no polidamente para almo&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8212; Senhores &#8211; lhes disse C&acirc;ndido com encantadora mod&eacute;stia,<br \/>\n    &#8211; concedem-me uma grande honra, mas na verdade n&atilde;o tenho com<br \/>\n    que pagar a minha parte.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! senhor &#8211; retrucou um dos de azul, &#8211; as pessoas do<br \/>\n    seu porte e do seu merecimento nunca pagam nada: pois o amigo n&atilde;o tem<br \/>\n    cinco p&eacute;s e cinco polegadas!<\/p>\n<p> &#8212; Sim, &eacute; essa a minha altura &#8211; disse ele, fazendo uma<br \/>\n    rever&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! senhor, sente-se &agrave; mesa; n&atilde;o s&oacute; lhe pagaremos<br \/>\n    tudo, mas jamais, consentiremos que um homem como o senhor ande sem dinheiro;<br \/>\n    os homens foram feitos apenas para auxiliarem uns aos outros.<\/p>\n<p> &#8212; Os senhores t&ecirc;m toda raz&atilde;o &#8211; concordou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Foi o que sempre me disse o senhor Pangloss, e bem vejo que tudo<br \/>\n    est&aacute; o melhor poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Pedem-lhe que aceite alguns escudos; ele os embolsa e quer passar recibo;<br \/>\n    n&atilde;o lho consentem, e sentam-se os tr&ecirc;s &agrave; mesa:<\/p>\n<p> &#8212; O senhor n&atilde;o ama ternamente?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Oh! sim &#8211; respondeu ele, &#8211; amo ternamente a senhorita<br \/>\n    Cunegundes.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &#8211; diz um deles, &#8211; n&oacute;s perguntamos<br \/>\n    se n&atilde;o ama ternamente ao rei dos b&uacute;lgaros.<\/p>\n<p> &#8212; Absolutamente &#8211; retruca ele, &#8211; pois nunca o vi.<\/p>\n<p> &#8212; Como! &Eacute; o mais encantador dos reis, e devemos erguer-lhe<br \/>\n    um brinde.<\/p>\n<p> &#8212; Oh! com muito gosto, senhores.<\/p>\n<p> E C&acirc;ndido bebe &agrave; sa&uacute;de do rei.<\/p>\n<p> &#8212; Isso basta &#8211; dizem-lhe. &#8211; O senhor agora &eacute; o<br \/>\n    apoio, o sustent&aacute;culo, o defensor, o her&oacute;i dos b&uacute;lgaros;<br \/>\n    sua fortuna est&aacute; feita e sua gl&oacute;ria assegurada.<\/p>\n<p> Em seguida aplicam-lhe cadeias aos p&eacute;s e o levam para o regimento.<br \/>\n    Fazem-lhe volver &agrave; direita , &agrave; esquerda, tirar a vareta, botar<br \/>\n    a vareta, &#8211; deitar por terra, atirar, correr, e d&atilde;o-lhe trinta<br \/>\n    bastonadas; no dia seguinte, faz o exerc&iacute;cio um pouco menos mal e s&oacute;<br \/>\n    recebe vinte bastonadas; no outro dia s&oacute; recebe dez, e &eacute; olhado<br \/>\n    pelos camaradas como um verdadeiro prod&iacute;gio.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, estupefato, ainda n&atilde;o atinava muito bem como poderia<br \/>\n    ser um her&oacute;i. Por um belo dia de primavera, lembrou-se de dar um passeio<br \/>\n    e seguiu direito em frente, na cren&ccedil;a de que era um privil&eacute;gio<br \/>\n    da esp&eacute;cie humana, como da esp&eacute;cie animal, servir-se das pr&oacute;prias<br \/>\n    pernas como bem lhe aprouvesse. Ainda n&atilde;o andara duas l&eacute;guas,<br \/>\n    quando quatro outros her&oacute;is de seis p&eacute;s o alcan&ccedil;am, amarram-no<br \/>\n    bem amarrado, e o metem num calabou&ccedil;o. Perguntaram-lhe juridicamente<br \/>\n    se preferia ser fustigado trinta e seis vezes por todo o regimento ou receber,<br \/>\n    em uma s&oacute; descarga, trinta e seis balas de chumbo na cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Por mais que C&acirc;ndido alegasse que a vontade humana &eacute; livre, teve<br \/>\n    de fazer a escolha; resolveu, ent&atilde;o, em virtude desse dom de Deus a<br \/>\n    que chamam liberdade, ser passado trinta e seis vezes pela vara. Ag&uuml;entou<br \/>\n    dois turnos.<\/p>\n<p> O regimento compunha-se de dois mil homens; isso lhe valera, at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o, quatro mil varadas que, da nuca ao traseiro, lhe puseram a descoberto<br \/>\n    todos os m&uacute;sculos e nervos.<\/p>\n<p> Quando iam dar in&iacute;cio ao terceiro, C&acirc;ndido, n&atilde;o podendo<br \/>\n    mais, pediu por miseric&oacute;rdia que tivessem a bondade de lhe arrebentar<br \/>\n    os miolos. Concedem-lhe esse favor; vendam-lhe os olhos e fazem-no ajoelhar-se.<br \/>\n    Nesse momento passa o rei dos b&uacute;lgaros, informa-se do crime do paciente;<br \/>\n    e, como esse rei tinha um grande g&ecirc;nio, compreendeu, por tudo quanto<br \/>\n    soube de C&acirc;ndido, que se tratava de um jovem metaf&iacute;sico, muito<br \/>\n    ignorante das coisas deste mundo, e concedeu-lhe a sua gra&ccedil;a com uma<br \/>\n    dem&ecirc;ncia que ser&aacute; louvada em todos os jornais e em todos os s&eacute;culos.<br \/>\n    Um bravo cirurgi&atilde;o curou C&acirc;ndido em tr&ecirc;s semanas, com emolientes<br \/>\n    recomendados por Diosc&oacute;rides. Tinha j&aacute; um pouco de pele e podia<br \/>\n    amar, quando o rei dos b&uacute;lgaros travou batalha com o rei dos abaros.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">CAP&Iacute;TULO III<\/a><\/h4>\n<p> De como C&acirc;ndido escapou aos b&uacute;lgaros, e do que lhe sucedeu<br \/>\n    depois.<\/p>\n<p>Nada t&atilde;o belo, t&atilde;o lesto, t&atilde;o brilhante, t&atilde;o<br \/>\n    bem ordenado como aqueles dois ex&eacute;rcitos. As trombetas, os p&iacute;fanos,<br \/>\n    os obo&eacute;s, os tambores, os canh&otilde;es, formavam uma harmonia como<br \/>\n    jamais a houve no inferno. Primeiro os canh&otilde;es derrubaram cerca de<br \/>\n    seis mil homens de cada lado; em seguida a mosquetaria varreu do melhor dos<br \/>\n    mundos uns nove a dez mil marotos que lhe infetavam a superf&iacute;cie. A<br \/>\n    baioneta foi tamb&eacute;m a raz&atilde;o suficiente da morte de alguns milhares<br \/>\n    de homens. O que tudo montava a umas trinta mil almas. C&acirc;ndido, que<br \/>\n    tremia como um fil&oacute;sofo, ocultou-se o melhor que p&ocirc;de durante<br \/>\n    aquela her&oacute;ica mortandade.<\/p>\n<p> Enfim, enquanto os dois reis mandavam cantar Te Deuns cada qual no seu campo<br \/>\n    tomou ele o partido de ir raciocinar alhures sobre os efeitos e as causas.<br \/>\n    Passou por cima de mont&otilde;es de mortos e moribundos, e alcan&ccedil;ou<br \/>\n    primeiro uma aldeia vizinha; estava reduzida a cinzas: era uma aldeia abara<br \/>\n    que os b&uacute;lgaros haviam queimado, conforme as leis do direito p&uacute;blico.<br \/>\n    Aqui, velhos crivados de golpes viam agonizar suas mulheres degoladas de cujo<br \/>\n    ensang&uuml;entado seio pendiam crian&ccedil;as; al&eacute;m, soltavam os<br \/>\n    &uacute;ltimo suspiros raparigas destripadas: depois de haverem saciado os<br \/>\n    desejos naturais de alguns her&oacute;is; outras, meio queimadas, gritavam<br \/>\n    que lhes acabassem de vez com a vida. Miolos se espalhavam sobre a terra,<br \/>\n    ao lado de pernas e bra&ccedil;os amputados.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido fugiu o mais depressa poss&iacute;vel para outra aldeia: pertencia<br \/>\n    aos b&uacute;lgaros, e os her&oacute;is abaros a tinham tratado da mesma forma.<br \/>\n    C&acirc;ndido, sempre a andar por sobre membros palpitantes ou atrav&eacute;s<br \/>\n    de ru&iacute;nas, deixou enfim o teatro da guerra, levando algumas provis&otilde;es<br \/>\n    no alforje e sem nunca esquecer a senhorita Cunegundes. Acabaram-se-lhe as<br \/>\n    provis&otilde;es ao chegar &agrave; Holanda; mas, tendo ouvido dizer que nesse<br \/>\n    pa&iacute;s todos eram ricos e verdadeiramente crist&atilde;os, n&atilde;o<br \/>\n    duvidou que o tratassem t&atilde;o bem como no castelo do senhor bar&atilde;o,<br \/>\n    antes de ser dali escorra&ccedil;ado por amor dos lindos olhos da senhorita<br \/>\n    Cunegundes.<\/p>\n<p> Pediu esmola a v&aacute;rios personagens de ar grave e todos lhe responderam<br \/>\n    que, se continuasse a exercer tal of&iacute;cio, o mandariam encerrar numa<br \/>\n    casa de corre&ccedil;&atilde;o, para ensinar-lhe a viver direito.<\/p>\n<p> Dirigiu-se depois a um homem que acabava de falar sozinho uma hora inteira<br \/>\n    sobre a caridade, perante uma grande assembl&eacute;ia. Esse homem, olhando-o<br \/>\n    de soslaio, indagou:<\/p>\n<p> &#8212; Que vieste fazer aqui? &#8211; &Eacute;s pela boa causa?<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; efeito sem causa &#8211; respondeu modestamente<br \/>\n    C&acirc;ndido, &#8211; tudo est&aacute; perfeitamente encadeado e arranjado<br \/>\n    o melhor poss&iacute;vel Foi preciso que eu tivesse sido expulso de junto<br \/>\n    da senhorita Cunegundes e passado pelas varas, e &eacute; preciso que eu esmole<br \/>\n    o meu p&atilde;o antes que possa ganh&aacute;-lo; nada disso poderia ser de<br \/>\n    outro modo.<\/p>\n<p> &#8212; Meu amigo &#8211; perguntou o orador, &#8211; acreditas que o Papa<br \/>\n    seja o Anticristo?<\/p>\n<p> &#8212; Ainda n&atilde;o o ouvira dizer &#8211; respondeu C&acirc;ndido.<br \/>\n    &#8211; Mas, que o seja ou n&atilde;o seja, o fato &eacute; que eu n&atilde;o<br \/>\n    tenho p&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Nem mereces com&ecirc;-lo &#8211; retrucou o outro. &#8211; Anda,<br \/>\n    biltre, miser&aacute;vel! Desaparece das minhas vistas!<\/p>\n<p> A mulher do orador, chegando &agrave; janela e vendo um homem que duvidava<br \/>\n    que o Papa fosse o Anticristo, despejou-lhe na cabe&ccedil;a todo o conte&uacute;do<br \/>\n    de um&#8230; &Oacute; c&eacute;us! a que excessos n&atilde;o levam as damas o<br \/>\n    seu zelo religioso!<\/p>\n<p> Um homem que ainda n&atilde;o fora batizado, um bom anabatista, chamado<br \/>\n    Jaques, viu de que maneira cruel e ignominiosa era tratado um de seus irm&atilde;os,<br \/>\n    um b&iacute;pede implume, que possu&iacute;a uma alma; levou-o para casa,<br \/>\n    limpou-o, deu-lhe p&atilde;o e cerveja, presenteou-o com dois florins, e at&eacute;<br \/>\n    quis ensinar-lhe a trabalhar na sua manufatura de tecidos da P&eacute;rsia<br \/>\n    fabricados na Holanda. C&acirc;ndido, quase a prosternar-se diante dele, exclamava:<br \/>\n    &#8220;Bem me dizia Mestre Pangloss que tudo est&aacute; o melhor poss&iacute;vel<br \/>\n    neste mundo, pois sinto-me infinitamente mais tocado com a sua extrema generosidade<br \/>\n    do que com a dureza daquele senhor de negro e da senhora sua esposa?<\/p>\n<p> No dia seguinte, ao passear, encontrou um mendigo coberto de p&uacute;stulas,<br \/>\n    os olhos morti&ccedil;os, a ponta do nariz carcomida, a boca de vi&eacute;s,<br \/>\n    os dentes negros, falando pela garganta sacudido de acessos de tosse e cuspindo<br \/>\n    um dente a cada esfor&ccedil;o.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">CAP&Iacute;TULO IV<\/a><\/h4>\n<p> De como C&acirc;ndido encontrou o seu antigo mestre de filosofia, o doutor<br \/>\n    Pangloss, e do que sucedeu<\/p>\n<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, mais tocado ainda de compaix&atilde;o que de horror, deu<br \/>\n    &agrave;quele espantoso mendigo os dois florins que recebera do bom anabatista.<br \/>\n    O fantasma olha-o fixamente, derrama l&aacute;grimas, e salta-lhe ao pesco&ccedil;o.<br \/>\n    C&acirc;ndido, horrorizado, recua.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! &#8211; diz o miser&aacute;vel ao outro miser&aacute;vel, &#8211;<br \/>\n    ent&atilde;o n&atilde;o reconheces mais o teu caro Pangloss?<\/p>\n<p> &#8212; Que ou&ccedil;o? Tu, o meu querido mestre! Tu, nesse horrendo estado!<br \/>\n    Que desgra&ccedil;a te aconteceu? Por que n&atilde;o est&aacute;s ainda no<br \/>\n    mais lindo dos castelos? Que foi feito da senhorita Cunegundes, a p&eacute;rola<br \/>\n    das donzelas, a obra-prima da natureza?<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o posso mais comigo &#8211; gemeu Pangloss.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido o levou para o est&aacute;bulo do anabatista, onde lhe deu<br \/>\n    a comer um pouco de p&atilde;o. E, depois que Pangloss se refez:<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o &#8211; disse ele, &#8211; e Cunegundes?<\/p>\n<p> &#8212; Morreu. <\/p>\n<p> A esta palavra, C&acirc;ndido perdeu os sentidos; o amigo o fez voltar a<br \/>\n    si com um pouco de mau vinagre que havia por acaso no est&aacute;bulo. C&acirc;ndido<br \/>\n    reabre os olhos:<\/p>\n<p> &#8212; Cunegundes morta! Oh! onde &eacute; que est&aacute;s, &oacute; melhor<br \/>\n    dos mundos? Mas de que morreu? N&atilde;o seria por me ter visto expulsar<br \/>\n    a pontap&eacute;s do castelo do senhor seu pai?<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &#8211; disse Pangloss. &#8211; Ela foi estripada por<br \/>\n    soldados b&uacute;lgaros, depois de ter sido violada o mais poss&iacute;vel;<br \/>\n    rebentaram a cabe&ccedil;a do senhor bar&atilde;o, que queria defend&ecirc;-la;<br \/>\n    a senhora baronesa foi cortada em peda&ccedil;os; o meu pobre pupilo, tratado<br \/>\n    precisamente como a irm&atilde; e quanto ao castelo, n&atilde;o ficou pedra<br \/>\n    sobre pedra, nem uma granja, nem um carneiro, nem um pato, nem uma &aacute;rvore;<br \/>\n    mas fomos bem vingados, pois os abaros fizeram o mesmo em uma baronia vizinha<br \/>\n    que pertencia a um senhor b&uacute;lgaro.<\/p>\n<p> Ao ouvir tais coisas, C&acirc;ndido desmaiou outra vez; mas, voltando a<br \/>\n    si, e tendo dito tudo o que devia dizer, Indagou da causa e do efeito, e da<br \/>\n    raz&atilde;o suficiente que pusera Pangloss em t&atilde;o lastim&aacute;vel<br \/>\n    estado.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! &#8211; suspirou o outro. &#8211; Foi o amor; -, amor, o consolador<br \/>\n    do g&ecirc;nero humano, o conservador do universo, a alma de todos os seres<br \/>\n    sens&iacute;veis, o terno amor.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! &#8211; disse C&acirc;ndido. &#8211; Eu o conheci, esse amor,<br \/>\n    esse soberano dos cora&ccedil;&otilde;es, essa alma da nossa alma: nunca me<br \/>\n    rendeu mais que um beijo e vinte pontap&eacute;s por detr&aacute;s. Como p&ocirc;de<br \/>\n    essa bela causa produzir, na tua pessoa, t&atilde;o abomin&aacute;vel efeito?<\/p>\n<p> Pangloss respondeu nos seguintes termos:<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; meu caro C&acirc;ndido! Bem conheceste Paquette, a linda<br \/>\n    criadinha da nossa augusta baronesa; gozei nos seus bra&ccedil;os as del&iacute;cias<br \/>\n    do para&iacute;so, que produziram em mim estes tormentos do inferno de que<br \/>\n    me v&ecirc;s devorado; ela estava infetada e talvez tenha morrido disso. Paquette<br \/>\n    ganhara esse presente de um franciscano muito erudito, que havia remontado<br \/>\n    &agrave; fonte, pois o adquirira de uma velha condessa, que o recebera de<br \/>\n    um capit&atilde;o de cavalaria, que o devia a uma marquesa, que a tinha de<br \/>\n    um pajem, que o tomara de um jesu&iacute;ta que, quando novi&ccedil;o, o herdara<br \/>\n    em linha reta de um dos companheiros de Crist&oacute;v&atilde;o Colombo. Quanto<br \/>\n    a mim, n&atilde;o o passarei a ningu&eacute;m, pois estou para morrer. &Oacute;<br \/>\n    Pangloss! &#8211; exclamou C&acirc;ndido. &#8211; Que, estranha genealogia!<br \/>\n    N&atilde;o seria o diabo que foi o tronco? <\/p>\n<p> &#8212; Qual! &#8211; replicou o grande homem. &#8211; Era uma coisa indispens&aacute;vel<br \/>\n    no melhor dos mundos, um ingrediente necess&aacute;rio: pois, se Colombo n&atilde;o<br \/>\n    tivesse apanhado em uma ilha da Am&eacute;rica essa doen&ccedil;a que envenena<br \/>\n    a fonte da gera&ccedil;&atilde;o, e que &eacute; evidentemente o oposto da<br \/>\n    grande finalidade da natureza, n&oacute;s n&atilde;o ter&iacute;amos nem chocolate<br \/>\n    nem cochonilha; cumpre observar que at&eacute; hoje, no nosso continente,<br \/>\n    esta doen&ccedil;a nos &eacute; peculiar, como a controv&eacute;rsia, os turcos,<br \/>\n    os hindus, os pernas, os chins, os siameses, os nip&ocirc;nicos, ainda n&atilde;o<br \/>\n    a conhecem; mas h&aacute; uma raz&atilde;o suficiente para que a conhe&ccedil;am,<br \/>\n    por sua vez, em alguns s&eacute;culos. Enquanto isto, vai ela fazendo um maravilhoso<br \/>\n    progresso entre n&oacute;s, e principalmente nesses grandes ex&eacute;rcitos<br \/>\n    compostos de honrados mercen&aacute;rios, t&atilde;o bem educados, que decidem<br \/>\n    do destino das na&ccedil;&otilde;es; pode-se assegurar que, quando trinta<br \/>\n    mil homens combatem em forma&ccedil;&atilde;o contra tropas iguais em n&uacute;mero,<br \/>\n    h&aacute; cerca de vinte mil contaminados em cada campo.<\/p>\n<p> &#8212; Admir&aacute;vel disse C&acirc;ndido, mas &eacute; preciso que te<br \/>\n    cures.<\/p>\n<p> &#8212; Mas como? N&atilde;o tenho um vint&eacute;m, meu amigo; e, em toda<br \/>\n    a extens&atilde;o deste globo, n&atilde;o me pode nem fazer uma sangria, nem<br \/>\n    tomar uma lavagem, sem pagar, ou sem que haja algu&eacute;m que pague por<br \/>\n    n&oacute;s.<\/p>\n<p> Estas &uacute;ltimas palavras decidiram C&acirc;ndido; foi lan&ccedil;ar-se<br \/>\n    aos p&eacute;s do caridoso anabatista Jaques e fez-lhe uma pintura t&atilde;o<br \/>\n    comovente do estado a que se achava reduzido o seu amigo, que o nosso homem<br \/>\n    n&atilde;o hesitou em recolher o doutor Pangloss; mandou-o tratar &agrave;<br \/>\n    sua custa. Pangloss, com a cura, s&oacute; perdeu um olho e uma orelha. Como<br \/>\n    tinha boa letra e sabia aritm&eacute;tica, o anabatista empregou-o como guarda-livros.<br \/>\n    Dois meses depois, sendo obrigado a ir a Lisboa a neg&oacute;cios, embarcou<br \/>\n    consigo os dois fil&oacute;sofos. Pangloss explicou-lhe como tudo marchava<br \/>\n    o melhor poss&iacute;vel. Jaques n&atilde;o era dessa opini&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; visto &#8211; dizia ele &#8211; que os homens corromperam<br \/>\n    um pouco a natureza, pois n&atilde;o nasceram lobos, e tornaram-se lobos.<br \/>\n    Deus n&atilde;o lhes deu nem canh&otilde;es nem baionetas, e eles fabricaram<br \/>\n    baionetas e canh&otilde;es para se aniquilarem. Eu poderia ainda levar em<br \/>\n    conta as fal&ecirc;ncias, e a justi&ccedil;a, que se apodera dos bens dos<br \/>\n    falidos para ludibriar os credores.<\/p>\n<p> &#8212; Tudo isso era indispens&aacute;vel &#8211; replicava o doutor caolho,<br \/>\n    &#8211; e os males particulares constituem o bem geral, de sorte que, quanto<br \/>\n    mais males particulares houver, tanto melhor ir&atilde;o as coisas.<\/p>\n<p> Enquanto assim arrazoava, o c&eacute;u escureceu, os ventos sopraram dos<br \/>\n    quatro cantos do mundo, e o navio foi assaltado pela mais tremenda tempestade,<br \/>\n    &agrave; vista do porto de Lisboa.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">CAP&Iacute;TULO V<\/a><\/h4>\n<p> Da tempestade, naufr&aacute;gio, terremoto, e do que sucedeu ao doutor Pangloss,<br \/>\n    a C&acirc;ndido e ao anabatista Jaques.<\/p>\n<\/p>\n<p> &#8212; Metade dos passageiros, enfraquecidos, agoniados com a inconceb&iacute;vel<br \/>\n    indisposi&ccedil;&atilde;o em que a instabilidade de um navio deixa a todos<br \/>\n    os nervos e humores do corpo, agitados em sentidos contr&aacute;rios, n&atilde;o<br \/>\n    tinham nem mesmo for&ccedil;as para inquietar-se com o perigo. A outra metade<br \/>\n    soltava gritos e rezava; as velas estavam rotas, os mastros quebrados, o navio<br \/>\n    fendido. Trabalhava quem pudesse, ningu&eacute;m se entendia, ningu&eacute;m<br \/>\n    comandava, o anabatista auxiliava um pouco a manobra; achava-se no conv&eacute;s;<br \/>\n    um marinheiro furioso bate-lhe rudemente e derruba-o sobre as pranchas, mas,<br \/>\n    com o golpe que lhe deu, caiu ele pr&oacute;prio para fora do navio, ficando<br \/>\n    suspenso a um toco de mastro. O bom Jaques corre em seu aux&iacute;lio, ajuda-o<br \/>\n    a subir e, com o esfor&ccedil;o que faz, &eacute; precipitado no mar, sem<br \/>\n    que o marinheiro fizesse o m&iacute;nimo gesto para salv&aacute;-lo. C&acirc;ndido<br \/>\n    aproxima-se, v&ecirc; o seu benfeitor que reaparece um momento &agrave; tona<br \/>\n    e &eacute; tragado para sempre. Quer lan&ccedil;ar-se ao mar, mas Pangloss<br \/>\n    lho impede, provando-lhe que a enseada de Lisboa fora feita expressamente<br \/>\n    para afogar o anabatista. Enquanto o provava a priori, o navio parte-se ao<br \/>\n    meio e todos perecem, com exce&ccedil;&atilde;o de Pangloss, de C&acirc;ndido<br \/>\n    e do brutal marinheiro que afogara o virtuoso anabatista; o fac&iacute;nora<br \/>\n    nadou at&eacute; a margem, onde Pangloss e C&acirc;ndido arribaram, agarrados<br \/>\n    a uma t&aacute;bua.<\/p>\n<p> Depois que se refizeram um pouco, encaminharam-se para Lisboa; restava-lhes<br \/>\n    algum dinheiro, com o qual esperavam salvar-se da fome, depois de haverem<br \/>\n    escapado &agrave; tempestade.<\/p>\n<p> Mal entravam na cidade, chorando a morte do benfeitor, quando sentem o solo<br \/>\n    tremer sob os seus p&eacute;s; o mar, furioso, galga o porto e despeda&ccedil;a<br \/>\n    os navios que ali me acham ancorados. Turbilh&otilde;es de chama e cinza cobrem<br \/>\n    as ruas e pra&ccedil;as p&uacute;blicas; as casas desabam; abatem-se os tetos<br \/>\n    sobre os alicerces que se abalam; trinta mil habitantes s&atilde;o esmagados<br \/>\n    sob as ru&iacute;nas. Assobiando e praguejando, dizia consigo o marinheiro:<br \/>\n    &#8211; Muito h&aacute; que aproveitar aqui. &#8211; Qual poder&aacute; ser<br \/>\n    a raz&atilde;o suficiente deste fen&ocirc;meno? &#8211; indagava Pangloss.<\/p>\n<p> Chegou o &uacute;ltimo dia do mundo! exclamava C&acirc;ndido. O marinheiro<br \/>\n    corre imediatamente para o meio dos destro&ccedil;os, afronta a morte em busca<br \/>\n    de dinheiro, acha-o, embriaga-se; depois de cozinhar a bebedeira, compra os<br \/>\n    favores da primeira rapariga de boa vontade que encontra sobre as ru&iacute;nas<br \/>\n    das casas e em meio dos mortos e moribundos. Enquanto isto, Pangloss puxava-o<br \/>\n    pela manga. &#8211; Meu amigo &#8211; dizia-lhe, &#8211; isto n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    direito, ofendes a raz&atilde;o universal, empregas muito mal o teu tempo.<br \/>\n    &#8211; Com os diabos! &#8211; responde o outro, &#8211; sou marinheiro e<br \/>\n    nasci em Bat&aacute;via; marchei quatro vezes sobre o crucifixo, em quatro<br \/>\n    viagens que fiz ao Jap&atilde;o; e ainda me vens com a raz&atilde;o universal!<\/p>\n<p> Alguns estilha&ccedil;os de pedra haviam ferido C&acirc;ndido, que se achava<br \/>\n    estendido no meio da rua e coberto de destro&ccedil;os.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! &#8211; dizia ele a Pangloss, consegue-me um pouco de vinho<br \/>\n    e de &oacute;leo, que estou morrendo.<\/p>\n<p> &#8212; Este terremoto n&atilde;o &eacute; novidade nenhuma &#8211; respondeu<br \/>\n    Pangloss. &#8211; A cidade de Lima experimentou os mesmos tremores de terra<br \/>\n    no ano passado; iguais causas, iguais efeitos: h&aacute; com certeza uma corrente<br \/>\n    subterr&acirc;nea de enxofre, desde Lima at&eacute; Lisboa.<\/p>\n<p> &#8212; Nada mais prov&aacute;vel &#8211; respondeu C&acirc;ndido, &#8211;<br \/>\n    mas, por amor de Deus, arranja-me &oacute;leo e vinho.<\/p>\n<p> &#8212; Como, prov&aacute;vel? &#8211; replicou. &#8211; Sustento que &eacute;<br \/>\n    a coisa mais demonstrada que existe.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido perdeu os sentidos, e Pangloss trouxe-lhe um pouco de &aacute;gua<br \/>\n    de uma fonte vizinha.<\/p>\n<p> No dia seguinte, havendo encontrado alguma provis&atilde;o de boca em meio<br \/>\n    aos escombros, repararam um pouco as for&ccedil;as. Em seguida puseram-se<br \/>\n    a trabalhar como os outros para auxiliar os habitantes escapados &agrave;<br \/>\n    morte. Alguns cidad&atilde;os por eles socorridos deram-lhes o melhor almo&ccedil;o<br \/>\n    que poderiam encontrar em tais circunst&acirc;ncias. Verdade que a refei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era triste; os convivas regavam o p&atilde;o com l&aacute;grimas. Mas Pangloss<br \/>\n    consolou-os, assegurando-lhes que as coisas n&atilde;o poderiam ser de outra<br \/>\n    maneira: &#8220;Pois tudo isto &#8211; dizia ele &#8211; &eacute; o que h&aacute;<br \/>\n    de melhor. Pois, se h&aacute; um vulc&atilde;o em Lisboa, n&atilde;o poderia<br \/>\n    estar noutra parte. Pois &eacute; imposs&iacute;vel que as coisas n&atilde;o<br \/>\n    estejam onde est&atilde;o. Pois tudo est&aacute; bem&#8221;.<\/p>\n<p> Um homenzinho de preto, familiar da Inquisi&ccedil;&atilde;o, que se achava<br \/>\n    a seu lado, tomou polidamente a palavra e disse:<\/p>\n<p> &#8212; Pelo visto, o senhor n&atilde;o cr&ecirc; no pecado original; pois,<br \/>\n    se tudo est&aacute; o melhor poss&iacute;vel, n&atilde;o houve nem queda,<br \/>\n    nem castigo.<\/p>\n<p> &#8212; Pe&ccedil;o humildemente perd&atilde;o a Vossa Excel&ecirc;ncia<br \/>\n    &#8211; disse Pangloss ainda mais polidamente, &#8211; pois a queda do homem<br \/>\n    e a maldi&ccedil;&atilde;o entravam necessariamente no melhor dos mundos poss&iacute;veis.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor n&atilde;o cr&ecirc; ent&atilde;o na liberdade? &#8211;<br \/>\n    perguntou o familiar.<\/p>\n<p> &#8212; Vossa Excel&ecirc;ncia me desculpar&aacute; &#8211; disse Pangloss;<br \/>\n    &#8211; a liberdade pode subsistir com a necessidade absoluta; pois era necess&aacute;rio<br \/>\n    que f&ocirc;ssemos livres, porque enfim a liberdade determinada&#8230;<\/p>\n<p> Pangloss estava no meio da frase, quando o familiar fez um sinal de cabe&ccedil;a<br \/>\n    para o seu lacaio, que lhe servia vinho do Porto.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">CAP&Iacute;TULO VI<\/a><\/h4>\n<p> De como se fez um belo auto-de-f&eacute; para evitar os terremotos, e de<br \/>\n    como C&acirc;ndido foi a&ccedil;oitado.<\/p>\n<\/p>\n<p> Depois do tremor de terra que destruiu tr&ecirc;s quartas partes de Lisboa,<br \/>\n    os s&aacute;bios do pa&iacute;s n&atilde;o encontraram meio mais eficaz para<br \/>\n    prevenir uma ru&iacute;na total do que oferecer ao povo um belo auto-de-f&eacute;;<br \/>\n    foi decidido pela Universidade de Coimbra que o espet&aacute;culo de algumas<br \/>\n    pessoas queimadas a fogo lento, em grande cerimonial, era um infal&iacute;vel<br \/>\n    segredo para impedir que a terra se pusesse a tremer.<\/p>\n<p> Tinham, pois, prendido um biscainho que casara com a pr&oacute;pria comadre,<br \/>\n    e dois portugueses que, ao comer um frango, lhe haviam retirado a gordura:<br \/>\n    vieram, depois do almo&ccedil;o, prender o doutor Pangloss e o seu disc&iacute;pulo<br \/>\n    C&acirc;ndido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprova&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    foram ambos conduzidos em separado para apartamentos extremamente frescos,<br \/>\n    onde nunca se era incomodado pelo sol; oito dias depois vestiram-lhe um sambenito<br \/>\n    e ornaram-lhe a cabe&ccedil;a com mitras de papel: a mitra e o sambenito de<br \/>\n    C&acirc;ndido eram pintados de chamas invertidas e diabos que n&atilde;o tinham<br \/>\n    cauda nem garras; mas os diabos de Pangloss tinham cauda e garras, e as flamas<br \/>\n    eram verticais. Assim vestidos, marcharam em prociss&atilde;o, e ouviram um<br \/>\n    serm&atilde;o muito pat&eacute;tico, seguido de uma bela m&uacute;sica em<br \/>\n    fabord&atilde;o. C&acirc;ndido foi a&ccedil;oitado em cad&ecirc;ncia, enquanto<br \/>\n    cantavam; o blacainho e os dois homens que n&atilde;o tinham querido comer<br \/>\n    gordura foram queimados, e Pangloss enforcado, embora n&atilde;o fosse esse<br \/>\n    o costume. No mesmo dia a terra tremeu de novo, com espantoso fragor.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, em p&acirc;nico, desvairado, todo ensang&uuml;entado e palpitante,<br \/>\n    dizia consigo: &#8220;Se este &eacute; o melhor dos mundos poss&iacute;veis,<br \/>\n    como n&atilde;o ser&atilde;o os outros! Se eu apenas fosse a&ccedil;oitado,<br \/>\n    como entre os b&uacute;lgaros, ainda passava! Mas tu, meu querido Pangloss,<br \/>\n    o maior dos fil&oacute;sofos, ver-te enforcar sem saber por qu&ecirc;! E tu,<br \/>\n    meu querido anabatista, o melhor dos homens, ver-te afogado &agrave; vista<br \/>\n    do porto! E tu, &oacute; Cunegundes, &oacute; p&eacute;rola. das donzelas,<br \/>\n    era preciso que te abrissem o ventre?!&#8221;<\/p>\n<p> E assim doutrinado, a&ccedil;oitado, absolvido e aben&ccedil;oado, mal sustendo-se<br \/>\n    nas pernas, vinha ele de volta, quando uma velha o abordou e disse-lhe: &#8220;Tem<br \/>\n    coragem, meu filho, e segue-me&#8221;.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">CAP&Iacute;TULO VII<\/a><\/h4>\n<p> De como uma velha tratou de C&acirc;ndido, e como este encontrou o objeto<br \/>\n    amado.<\/p>\n<p> Coragem n&atilde;o a tinha, mas seguiu a velha at&eacute; um casebre: esta<br \/>\n    lhe deu pomada para fomentar-se, deixou-lhe mantimentos e bebida, e indicou-lhe<br \/>\n    um leito bastante limpo, junto do qual havia um vestu&aacute;rio completo.<\/p>\n<p> &#8212; Come, bebe, dorme &#8211; disse-lhe ela &#8211; e que Nossa Senhora<br \/>\n    de Atocha, o senhor Santo Ant&ocirc;nio de P&aacute;dua e o senhor S. Jaques<br \/>\n    de Compostella te conservem na sua guarda: voltarei amanh&atilde;.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, ainda espantado de tudo o que vira, de tudo o que sofrera,<br \/>\n    e ainda mais da caridade da velha, quis beijar-lhe a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; a minha m&atilde;o que deves beijar &#8211;<br \/>\n    disse a velha. &#8211; Voltarei amanh&atilde;. Esfrega-te, come e dorme. C&acirc;ndido,<br \/>\n    apesar de tantas desgra&ccedil;as, comeu e dormiu. No dia seguinte a velha<br \/>\n    lhe traz a primeira refei&ccedil;&atilde;o. examina-lhe as costas, fomenta-o<br \/>\n    com outra pomada; mais tarde lhe traz almo&ccedil;o, e volta &agrave; noite<br \/>\n    com a ceia. No terceiro dia fez as mesmas cerim&ocirc;nias.<\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute; a senhora? &#8211; perguntava-lhe C&acirc;ndido. &#8211;<br \/>\n    Quem lhe inspirou tamanha bondade? Que agradecimentos lhe posso dar?<\/p>\n<p> A boa mulher jamais respondia; no outro dia de tarde n&atilde;o trouxe comida.<\/p>\n<p> &#8212; Vem comigo &#8211; disse ela &#8211; e n&atilde;o digas coisa alguma.<\/p>\n<p> Ampara-o e marcha com ele pelo campo, cerca de um quarto de milha: chegam<br \/>\n    a uma casa solit&aacute;ria, cercada de jardins e canais. A velha bate a uma<br \/>\n    pequena porta. Abrem; conduz C&acirc;ndido, por uma escada oculta, a um sal&atilde;o<br \/>\n    dourado, deixa-o num canap&eacute; de brocado, fecha a porta e retira-se.<br \/>\n    C&acirc;ndido julgava sonhar, e considerava toda a sua vida como um pesadelo,<br \/>\n    e o momento atual como um agrad&aacute;vel sonho.<\/p>\n<p> A velha voltou logo; amparava com dificuldade uma mulher tr&ecirc;mula;<br \/>\n    de porte majestoso, toda resplandecente de pedrarias e coberta com um v&eacute;u.<\/p>\n<p> &#8212; Retira esse v&eacute;u &#8211; disse a velha a C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> O jovem aproxima-se; ergue-o timidamente. Que momento! que surpresa! julga<br \/>\n    ver a senhorita Cunegundes; via-a com efeito, era ela pr&oacute;pria. Faltam-lhe<br \/>\n    as for&ccedil;as, n&atilde;o pode dizer uma s&oacute; palavra, e tomba a seus<br \/>\n    p&eacute;s. Cunegundes, essa, tomba no canap&eacute;. A velha enche-os de<br \/>\n    licores; recuperam os sentidos, falam-se: s&atilde;o a princ&iacute;pio frases<br \/>\n    entrecortadas, perguntas e respostas que se entrecruzam, suspiros, l&aacute;grimas,<br \/>\n    gritos. A velha lhes recomenda que fa&ccedil;am menos bulha, e deixa-os em<br \/>\n    liberdade.<\/p>\n<p> &#8212; Como! &Eacute;s tu? Est&aacute;s viva?! E encontro-te em Portugal!<br \/>\n    Ent&atilde;o n&atilde;o te violaram? N&atilde;o te fenderam o ventre, como<br \/>\n    me disse o fil&oacute;sofo Pangloss?<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; disse a bela Cunegundes, &#8211; mas nem sempre se morre<br \/>\n    desses dois acidentes.<\/p>\n<p> &#8212; Mas teu pai e tua m&atilde;e n&atilde;o foram mortos?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade &#8211; disse Cunegundes em pranto.<\/p>\n<p> &#8212; E teu irm&atilde;o?<\/p>\n<p> &#8212; Meu irm&atilde;o tamb&eacute;m foi morto.<\/p>\n<p> &#8212; E como est&aacute;s em Portugal? Corno soubeste que eu aqui estava?<br \/>\n    E por que estranha aventura me mandaste trazer a esta casa?<\/p>\n<p> &#8212; Tudo Isso direi &#8211; respondeu a dama, &#8211; mas &eacute; preciso<br \/>\n    que primeiro me contes o que te aconteceu desde o beijo inocente que me deste<br \/>\n    e os pontap&eacute;s que recebeste.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido obedeceu com profundo respeito; e, embora ainda o dominasse<br \/>\n    a confus&atilde;o, embora a voz lhe estivesse fraca e tr&ecirc;mula, embora<br \/>\n    ainda lhe doesse um pouco a espinha, contou-lhe da maneira mais singela tudo<br \/>\n    o que sofrera desde o momento da separa&ccedil;&atilde;o. Cunegundes erguia<br \/>\n    os olhos ao c&eacute;u; chorou pela morte do bom anabatista e de Pangloss.<br \/>\n    Depois falou nos seguintes termos a C&acirc;ndido, que n&atilde;o perdia uma<br \/>\n    palavra e a devorava com os olhos.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">CAP&Iacute;TULO VIII<\/a><\/h4>\n<p><strong>Hist&oacute;ria de Cunegundes<\/strong><\/p>\n<p> Estava eu no meu leito e dormia profundamente, quando aprouve aos C&eacute;us<br \/>\n    enviar os b&uacute;lgaros ao nosso lindo castelo de Thunder-ten-tronckh; degolaram<br \/>\n    meu pai e meu irm&atilde;o e cortaram minha m&atilde;e em peda&ccedil;os.<br \/>\n    Um grande b&uacute;lgaro de seis p&eacute;s de altura, vendo que eu perdera<br \/>\n    os sentidos a esse espet&aacute;culo, p&ocirc;s-se a violar-me; isso me fez<br \/>\n    recuperar os sentidos, gritei, debati-me, mordi, arranhei, queria arrancar<br \/>\n    os olhos do b&uacute;lgaro, sem saber que tudo o que acontecia no castelo<br \/>\n    de meu pai era uma coisa costumeira: o bruto deu-me uma facada no lado esquerdo,<br \/>\n    de que ainda guardo a cicatriz.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! quero v&ecirc;-la &#8211; disse o ing&ecirc;nuo C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Tu a ver&aacute;s &#8211; respondeu Cunegundes, &#8211; mas continuemos.<\/p>\n<p> &#8212; Continua &#8211; disse C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> E Cunegundes assim retomou o fio da hist&oacute;ria:<\/p>\n<p> &#8212; Nisto entrou um capit&atilde;o b&uacute;lgaro, viu-me toda ensang&uuml;entada,<br \/>\n    e o soldado n&atilde;o se arredava. O capit&atilde;o ficou furioso com a falta<br \/>\n    de respeito que lhe testemunhava aquele bruto, e matou-o em cima do meu corpo.<br \/>\n    Em seguida ordenou que me fizessem os curativos necess&aacute;rios e mandou-me<br \/>\n    como prisioneira para o seu acampamento. Eu lavava as poucas camisas que ele<br \/>\n    tinha e preparava-lhe a comida. O capit&atilde;o achava-me bastante bonita,<br \/>\n    devo confess&aacute;-lo; e, quanto a mim, n&atilde;o negarei que ele era muito<br \/>\n    bem feito de corpo e tinha a pele branca e suave; mas pouco esp&iacute;rito<br \/>\n    e pouca filosofia: bem se via que n&atilde;o fora educado pelo doutor Pangloss.<br \/>\n    Ao cabo de tr&ecirc;s meses, depois de ter perdido todo o dinheiro, e j&aacute;<br \/>\n    estando aborrecido de mim, vendeu-me a um judeu chamado dom Issacar, que traficava<br \/>\n    na Holanda e em Portugal, e que era louco por mulheres. Esse judeu sentia<br \/>\n    grande atra&ccedil;&atilde;o por mim, mas n&atilde;o conseguia vencer-me;<br \/>\n    resisti-lhe melhor do que ao soldado b&uacute;lgaro. Quando a gente tem honra,<br \/>\n    pode ser violada uma vez, mas com isso ainda mais se fortalece a virtude.<\/p>\n<p> O judeu, para me abrandar, mandou-me para esta casa de campo que tu v&ecirc;s.<br \/>\n    At&eacute; ent&atilde;o eu julgara que n&atilde;o havia nada no mundo mais<br \/>\n    bonito do que o castelo de Thunder-ten-tronckh; enganava-me.<\/p>\n<p> O grande inquisidor me viu um dia na missa; n&atilde;o tirava os olhos de<br \/>\n    mim, e me mandou dizer que precisava falar-me sobre assuntos secretos. Fui<br \/>\n    levada a pal&aacute;cio; revelei-lhe a minha origem; fez-me ver o quanto estava<br \/>\n    abaixo da minha categoria pertencer a um israelita. Propuseram, da sua parte,<br \/>\n    a dom Issacar que me cedesse a Monsenhor. Dom Issacar, que &eacute; banqueiro<br \/>\n    da Corte e homem de grande influ&ecirc;ncia, n&atilde;o se demoveu. O inquisidor<br \/>\n    amea&ccedil;ou-o com um auto-de-f&eacute;. Afinal o judeu, intimidado, chegou<br \/>\n    a um acordo. Ficou combinado que a casa e eu pertencer&iacute;amos a ambos,<br \/>\n    que o judeu disporia das segundas, ter&ccedil;as e s&aacute;bados, e o inquisidor<br \/>\n    dos outros dias da semana. H&aacute; seis meses que dura essa conven&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Dificuldades n&atilde;o faltam; pois muitas vezes h&aacute; controv&eacute;rsia<br \/>\n    quanto a saber se a noite de s&aacute;bado para domingo pertence &agrave;<br \/>\n    antiga ou &agrave; nova lei. At&eacute; agora tenho resistido ao judeu e ao<br \/>\n    inquisidor, e creio que &eacute; por esse motivo que continuo amada por ambos.<\/p>\n<p> Enfim, para afastar o flagelo dos terremotos e intimidar dom Issacar, aprouve<br \/>\n    a Monsenhor celebrar um auto-de-f&eacute;. Deu-me a honra de me convidar para<br \/>\n    o espet&aacute;culo. Fiquei muito bem colocada; entre a missa e a execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foram servidos refrescos &agrave;s damas. Na verdade, estremeci de horror<br \/>\n    ao ver queimarem aqueles dois judeus e o honrado biscainho que casara com<br \/>\n    a comadre; mas qual n&atilde;o foi a minha surpresa, o meu terror, a minha<br \/>\n    perturba&ccedil;&atilde;o quando vi, de sambenito e mitra, um vulto que. se<br \/>\n    assemelhava a Pangloss. Esfreguei os olhos, olhei atentamente vi-o pender<br \/>\n    da forca; tombei desmaiada. Mal recuperava os sentidos, avistei-te na li&ccedil;a,<br \/>\n    inteiramente nu: foi o c&uacute;mulo do horror, da consterna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    da dor, do desespero. Na verdade te direi que a tua pele &eacute; mais clara<br \/>\n    e de um colorido mais perfeito que a do meu capit&atilde;o b&uacute;lgaro.<br \/>\n    Essa vis&atilde;o redobrou todos os sentimentos que me aniquilavam, que me<br \/>\n    devoravam. Quis gritar: &#8220;Basta, b&aacute;rbaros!&#8221;, mas faltou-me<br \/>\n    a voz, e os meus gritos seriam in&uacute;teis. Depois que foste bem a&ccedil;oitado:<br \/>\n    &#8220;Como pode ser &#8211; dizia eu comigo &#8211; que o am&aacute;vel C&acirc;ndido<br \/>\n    e o s&aacute;bio Pangloss tenham vindo parar em Lisboa, um para receber cem<br \/>\n    a&ccedil;oites e outro para ser enforcado, por ordem do senhor inquisidor,<br \/>\n    de quem sou amada? Pangloss enganou-me cruelmente quando me dizia que tudo<br \/>\n    est&aacute; o melhor do mundo.&#8221;<\/p>\n<p> Agitada, desvairada, umas vezes fora de mim, outras vezes a morrer de abatimento,<br \/>\n    tinha eu a cabe&ccedil;a cheia do massacre de meu pai, de minha m&atilde;e,<br \/>\n    de meu irm&atilde;o, da insol&ecirc;ncia do meu maldito soldado b&uacute;lgaro,<br \/>\n    da facada que ele me deu, da minha escravid&atilde;o, do meu of&iacute;cio<br \/>\n    de cozinheira, do meu maldito dom Issacar, do meu abomin&aacute;vel inquisidor,<br \/>\n    do enforcamento do doutor Pangloss, daquele miserere em fabord&atilde;o durante<br \/>\n    o qual te a&ccedil;oitavam, e principalmente do beijo que eu te dera atr&aacute;s<br \/>\n    de um biombo, no dia em que te vi pela &uacute;ltima vez. Louvei a Deus que<br \/>\n    te reconduzia a mim depois de tantas prova&ccedil;&otilde;es. Pedi &agrave;<br \/>\n    minha velha que te cuidasse e te trouxesse para aqui logo que fosse poss&iacute;vel.<br \/>\n    Ela executou muito bem o meu mandado; gozei do inexprim&iacute;vel prazer<br \/>\n    de tornar a ver-te, de te ouvir, de te falar. Deves estar com uma terr&iacute;vel<br \/>\n    fome; eu estou com muito apetite; comecemos por cear.<\/p>\n<p> Ei-los, pois, que se sentam &agrave; mesa; e, depois da ceia, v&atilde;o<br \/>\n    para o belo canap&eacute; j&aacute; mencionado; ali estavam eles quando chega<br \/>\n    o senhor dom Issacar, um dos donos da casa. Era um s&aacute;bado. Vinha ele<br \/>\n    gozar de seus direitos e dar demonstra&ccedil;&otilde;es de seu terno amor.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">CAP&Iacute;TULO IX<\/a><\/h4>\n<p> Do que aconteceu a Cunegundes, a C&acirc;ndido, ao Inquisidor e ao judeu.<\/p>\n<p> Esse Issacar era o mais col&eacute;rico judeu que j&aacute; se viu em Israel<br \/>\n    desde o cativeiro de Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<p> &#8212; Cadela de Galil&eacute;ia &#8211; exclama ele, &#8211; ent&atilde;o<br \/>\n    j&aacute;. n&atilde;o te basta o senhor inquisidor? &Eacute; preciso que esse<br \/>\n    maroto tamb&eacute;m compartilhe de ti?<\/p>\n<p> Dizendo tais palavras, saca de um longo punhal que sempre trazia consigo<br \/>\n    e, n&atilde;o imaginando que o advers&aacute;rio estivesse armado, avan&ccedil;a<br \/>\n    para C&acirc;ndido; mas o nosso bom vestfaliano recebera uma bela espada da<br \/>\n    velha, juntamente com o vestu&aacute;rio completo. Puxa ele da espada, embora<br \/>\n    fosse de g&ecirc;nio mui tranq&uuml;ilo, e estende o israelita morto aos p&eacute;s<br \/>\n    de Cunegundes.<\/p>\n<p> &#8212; Virgem Santa! &#8211; exclama ela. &#8211; Que ser&aacute; de n&oacute;s?<br \/>\n    um homem assassinado em minha casa! Se vier a pol&iacute;cia, estamos perdidos.<\/p>\n<p> &#8212; Se Pangloss n&atilde;o tivesse sido enforcado &#8211; disse C&acirc;ndido,<br \/>\n    &#8211; nos daria um bom conselho em tal emerg&ecirc;ncia, pois era um grande<br \/>\n    fil&oacute;sofo. Na sua falta, consultemos a velha.<\/p>\n<p> Era esta muito prudente e come&ccedil;ava a dar sua opini&atilde;o quando<br \/>\n    se abriu outra pequena porta. Passava uma hora da meia-noite e principiava<br \/>\n    o domingo. Esse dia era do senhor Inquisidor, que entra e v&ecirc; C&acirc;ndido<br \/>\n    de espada em punho, um cad&aacute;ver no ch&atilde;o, Cunegundes como louca<br \/>\n    e a velha a dar conselhos.<\/p>\n<p> Eis o que se passou em tal instante na alma de C&acirc;ndido e como ele<br \/>\n    raciocinou: &#8220;Se esse santo homem pede socorro, estou queimado vivo;<br \/>\n    o mesmo poder&aacute; suceder a Cunegundes; ele mandou a&ccedil;oitar-me impiedosamente;<br \/>\n    &eacute; meu rival; posso mat&aacute;-lo agora; n&atilde;o h&aacute; que escolher&#8221;.<\/p>\n<p> Esse racioc&iacute;nio foi n&iacute;tido e instant&acirc;neo; e, antes que<br \/>\n    o inquisidor tivesse tempo de refazer-se da surpresa, C&acirc;ndido lhe atravessa<br \/>\n    o corpo com a espada, e abate-o por terra, ao lado do judeu.<\/p>\n<p> &#8212; Mais um &#8211; disse Cunegundes, &#8211; agora n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    mais salva&ccedil;&atilde;o; estamos excomungados, chegou o nosso derradeiro<br \/>\n    instante. Como &eacute; que tu, que tens um g&ecirc;nio t&atilde;o bom, pudeste<br \/>\n    matar, em dois minutos, um judeu e um prelado?<\/p>\n<p> &#8212; Formosa senhorita &#8211; respondeu C&acirc;ndido, &#8211; quando<br \/>\n    se est&aacute; enamorado, com ci&uacute;mes, e ainda por cima a&ccedil;oitado<br \/>\n    pela Inquisi&ccedil;&atilde;o, a gente n&atilde;o se reconhece mais.<\/p>\n<p> A velha tomou ent&atilde;o a palavra e disse:<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; tr&ecirc;s cavalos andaluzes na estrebaria, com os arreios;<br \/>\n    que o bravo C&acirc;ndido os apronte; a senhora tem pistolas e diamantes:<br \/>\n    montemos depressa, embora eu apenas possa sentar de um lado s&oacute;, e vamos<br \/>\n    para C&aacute;diz; est&aacute; fazendo o mais belo tempo do mundo, e assim<br \/>\n    &eacute; um prazer viajar de noite.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido em seguida arreia os tr&ecirc;s cavalos. Cunegundes, a velha<br \/>\n    e ele fazem tr&ecirc;s milhas de um f&ocirc;lego. Enquanto se afastavam, chega<br \/>\n    a Santa Hermandad &agrave; casa do campo: enterram Monsenhor numa bela igreja<br \/>\n    e lan&ccedil;am Issacar no monturo.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, Cunegundes e a velha estavam agora na aldeia de Avicena,<br \/>\n    em meio &agrave; Sierra Morena; e assim falavam, numa hospedaria.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">CAP&Iacute;TULO X<\/a><\/h4>\n<p> Da situa&ccedil;&atilde;o em que chegam os tr&ecirc;s a Cadiz e do seu embarque.<\/p>\n<p> &#8212; Quem me teria roubado as minhas pistolas e os meus diamantes? &#8211;<br \/>\n    solu&ccedil;ava Cunegundes. &#8211; De que viveremos? Que faremos n&oacute;s?<br \/>\n    Onde vou encontrar inquisidores e judeus que me d&ecirc;em mais j&oacute;ias<br \/>\n    e dinheiro?<\/p>\n<p> &#8212; Desconfio muito &#8211; disse a velha &#8211; de um reverendo franciscano<br \/>\n    que pousou ontem em Badajos, no mesmo albergue em que paramos. Deus me livre<br \/>\n    de formar um ju&iacute;zo precipitado! Mas o fato &eacute; que ele entrou<br \/>\n    duas vezes em nosso quarto e partiu muito antes de n&oacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; E o bom Pangloss &#8211; suspirou C&acirc;ndido, &#8211; que tantas<br \/>\n    vezes me provou que os bens terrenos s&atilde;o comuns a todos os mortais!<br \/>\n    Segundo esses princ&iacute;pios, bem que o franciscano podia deixar-nos alguma<br \/>\n    coisa para que prossegu&iacute;ssemos viagem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Quer dizer que n&atilde;o te resta coisa alguma, linda Cunegundes?<\/p>\n<p> &#8212; Nem um maravedi.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; vender um dos cavalos &#8211; prop&ocirc;s a velha. &#8211;<br \/>\n    Irei &agrave; garupa da senhorita, embora apenas me possa sentar de um lado<br \/>\n    s&oacute;. E assim chegaremos a C&aacute;diz.<\/p>\n<p> Havia no mesmo albergue um prior beneditino, que lhes comprou o cavalo por<br \/>\n    uma ninharia. C&acirc;ndido, Cunegundes e a velha passaram por Lucena, por<br \/>\n    Chulas, por Lebrixa, e chegaram enfim a C&aacute;diz. Ali se equipava uma<br \/>\n    frota e reuniam-se tropas para chamar &agrave; raz&atilde;o os reverendos<br \/>\n    padres jesu&iacute;tas do Paraguai, aos quais acusavam de haverem revoltado<br \/>\n    uma de suas hordas, em Sacramento, contra os reis de Espanha e Portugal. Tendo<br \/>\n    servido com os b&uacute;lgaros. C&acirc;ndido fez os respectivos exerc&iacute;cios,<br \/>\n    diante do general do pequeno ex&eacute;rcito, com tanta gra&ccedil;a, presteza,<br \/>\n    agilidade e garbo, que lhe deram o comando de uma companhia de infantes. Ei-lo<br \/>\n    capit&atilde;o; embarca com a senhorita Cunegundes, a velha, dois criados<br \/>\n    e os dois cavalos andaluzes que haviam pertencido ao senhor inquisidor-mor<br \/>\n    de Portugal.<\/p>\n<p> Durante toda a travessia, discutiram multo sobre a filosofia do pobre Pangloss.<\/p>\n<p> Vamos para um outro universo &#8211; dizia C&acirc;ndido. &#8211; &Eacute;<br \/>\n    l&aacute; sem d&uacute;vida que tudo est&aacute; bem. Pois cumpre confessar<br \/>\n    que em nosso mundo n&atilde;o faltava o que chorar quanto ao lado f&iacute;sico<br \/>\n    e moral das coisas.<\/p>\n<p> &#8212; Amo-te de todo o cora&ccedil;&atilde;o &#8211; dizia Cunegundes,<br \/>\n    &#8211; mas ainda sinto a alma aterrada de tudo quanto. vi e experimentei<\/p>\n<p> &#8212; Tudo ir&aacute; bem &#8211; replicava C&acirc;ndido. &#8211; S&oacute;<br \/>\n    o mar desse novo mundo j&aacute; vale mais que os mares da nossa Europa: &eacute;<br \/>\n    mais calmo, e os ventos mais constantes. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida<br \/>\n    alguma de que o novo mundo &eacute; que &eacute; o melhor dos universos poss&iacute;veis\n  <\/p>\n<p> &#8212; Deus o queira! &#8211; dizia Cunegundes. &#8211; Mas fui t&atilde;o<br \/>\n    horrivelmente infeliz no meu, que meu cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; quase<br \/>\n    fechado &agrave; esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda se queixam! &#8211; disse-lhes a velha. &#8211; Mas n&atilde;o<br \/>\n    passaram nem pela metade do que eu j&aacute; sofri. Cunegundes quase chegou<br \/>\n    a rir, pela pretens&atilde;o daquela boa mulher, em ser mais infeliz do que<br \/>\n    ela.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, minha velha! A menos que tenhas sido violada por dois b&uacute;lgaros,<br \/>\n    que tenhas recebido duas facadas na barriga, que destru&iacute;ssem dois de<br \/>\n    teus castelos, que hajam degolado na tua frente duas m&atilde;es e dois pais<br \/>\n    e que tenhas visto dois dos teus pretendentes a&ccedil;oitados num auto-de-f&eacute;,<br \/>\n    n&atilde;o vejo como poder&aacute;s ganhar de mim; e n&atilde;o te esque&ccedil;as<br \/>\n    que nasci baronesa de setenta e dois quart&eacute;is e cheguei a cozinheira.<\/p>\n<p> &#8212; Bem vejo &#8211; retrucou a velha &#8211; que a senhorita ignora<br \/>\n    o meu nascimento; e, se eu lhe mostrasse o meu traseiro, n&atilde;o falaria<br \/>\n    assim e suspenderia o seu ju&iacute;zo. Tais palavras deixaram Cunegundes<br \/>\n    e C&acirc;ndido extremamente curiosos. E a velha lhes falou nos seguintes<br \/>\n    termos.<\/p>\n<h4><a name=\"11\">CAP&Iacute;TULO XI <\/a><\/h4>\n<p><strong>Hist&oacute;ria da velha<\/strong><\/p>\n<p> Nem sempre tive os olhos empapu&ccedil;ados e debruados de vermelho; nem<br \/>\n    sempre o meu nariz tocou no queixo, e nem sempre fui criada. Sou filha do<br \/>\n    Papa Urbano X e da princesa de Palestrina. Criaram-me, at&eacute; os catorze<br \/>\n    anos, em um pal&aacute;cio junto do qual todo, os castelos dos bar&otilde;es<br \/>\n    alem&atilde;es n&atilde;o serviriam para est&aacute;bulo; e um s&oacute; de<br \/>\n    meus vestidos valia mais que todas as magnific&ecirc;ncias da Vestf&aacute;lia.<br \/>\n    Crescia em beleza, em gra&ccedil;a, em talentos, em meio dos prazeres, dos<br \/>\n    respeitos e das esperan&ccedil;as. J&aacute; inspirava amor, meu seio se formava;<br \/>\n    e que seio! branco, firme, talhado como o da V&ecirc;nus de M&eacute;dicis;<br \/>\n    e que olhos! que p&aacute;lpebras! que negras pestanas! que flamas brilhavam<br \/>\n    nas minhas duas pupilas, que apagavam a cintila&ccedil;&atilde;o das estrelas,<br \/>\n    como me diziam os poetas da vizinhan&ccedil;a. As mulheres que me vestiam<br \/>\n    e despiam ca&iacute;am em &ecirc;xtase ao olhar-me por diante e por tr&aacute;s,<br \/>\n    e todos os homens desejariam estar no lugar delas.<\/p>\n<p> Fiquei noiva de um pr&iacute;ncipe soberano de Massa-Carrara! Que pr&iacute;ncipe!<br \/>\n    t&atilde;o belo como eu, cheio de encantos e virtudes, brilhante de esp&iacute;rito<br \/>\n    e ardente de amor. Eu o amava como se ama da primeira vez, com idolatria,<br \/>\n    com arrebatamento. Prepararam-se as n&uacute;pcias. Era uma pompa, uma magnific&ecirc;ncia<br \/>\n    inaudita; eram festas, cavalhadas, &oacute;peras-bufas cont&iacute;nuas; e<br \/>\n    toda a It&aacute;lia me comp&ocirc;s sonetos, dos quais n&atilde;o havia um<br \/>\n    &uacute;nico que fosse pass&aacute;vel. Aproximava-se o instante da minha<br \/>\n    felicidade, quando uma velha marquesa que fora amante de meu pr&iacute;ncipe<br \/>\n    convidou-o a tomar chocolate com ela. Morreu em menos de duas horas, em terr&iacute;veis<br \/>\n    convuls&otilde;es. Mas isso n&atilde;o passou de uma bagatela. Minha m&atilde;e,<br \/>\n    desesperada, e n&atilde;o menos aflita do que eu, resolveu afastar-se, por<br \/>\n    algum tempo, de lugar t&atilde;o funesto. Possu&iacute;a uma bela propriedade<br \/>\n    nos arredores de Gaeta. Embarcamos numa galera do Estado, dourada como o altar<br \/>\n    de S. Pedro em Roma. Eis que um cors&aacute;rio de Sales nos ataca. Nossos<br \/>\n    soldados defenderam-se como soldados do Papa: tombaram de joelho., soltando<br \/>\n    as armas, e pedindo ao cors&aacute;rio uma absolvi&ccedil;&atilde;o in articulo<br \/>\n    mortis.<\/p>\n<p> Em seguida os deixaram nus como macacos, e &agrave; minha m&atilde;e tamb&eacute;m,<br \/>\n    e &agrave;s nossas aias, e a mim tamb&eacute;m. E uma coisa admir&aacute;vel<br \/>\n    a presteza com que esses indiv&iacute;duos despem a gente. Mas o que mais<br \/>\n    me surpreendeu foi que nos meteram o dedo em um lugar onde n&oacute;s, mulheres,<br \/>\n    geralmente s&oacute; deixamos introduzir c&acirc;nulas. Tal cerim&ocirc;nia<br \/>\n    me pareceu muito estranha: eis como a gente julga as coisas quando nunca saiu<br \/>\n    da terra natal. Soube logo que era para ver se n&atilde;o t&iacute;nhamos<br \/>\n    ocultado ali alguns diamantes: &eacute; um uso estabelecido, desde tempos<br \/>\n    imemoriais, entre as na&ccedil;&otilde;es civilizadas que exercem a navega&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Soube que os reverendos cavaleiros de Malta nunca deixam de o fazer quando<br \/>\n    aprisionam turcos e turcas; &eacute; uma lei do direito das gentes, que jamais<br \/>\n    foi infringida. N&atilde;o direi o quanto &eacute; duro para uma jovem princesa<br \/>\n    ser conduzida como escrava a Marrocos, juntamente com sua m&atilde;e. Imaginem<br \/>\n    o que n&atilde;o sofremos no navio cors&aacute;rio! Minha m&atilde;e era ainda<br \/>\n    muito bonita; e nossas aias, nossas simples criadas, tinham mais encantos<br \/>\n    do que se poderiam encontrar por toda a &Aacute;frica. Quanto a mim, era encantadora,<br \/>\n    era a beleza, a gra&ccedil;a em pessoa, e era virgem; n&atilde;o o fui por<br \/>\n    muito tempo: essa flor que eu reservara para o belo pr&iacute;ncipe de Massa-Carrara<br \/>\n    me foi arrebatada pelo capit&atilde;o cors&aacute;rio; era um negro abomin&aacute;vel<br \/>\n    que ainda por cima estava crente de que me fazia uma grande honra. A senhora<br \/>\n    princesa de Palestrina e eu t&iacute;nhamos de ser mesmo muito fortes para<br \/>\n    resistir a tudo o que experimentamos at&eacute; a nossa chegada a Marrocos.<br \/>\n    Mas passemos adiante; s&atilde;o coisas comuns, em que n&atilde;o vale a pena<br \/>\n    insistir.<\/p>\n<p> Marrocos nadava em sangue quando ali chegamos. Os cinq&uuml;enta filhos<br \/>\n    do imperador Muley-Ismael tinham cada um o seu partido: o que constitu&iacute;a<br \/>\n    de fato cinq&uuml;enta guerras civis, de negro. contra negro, de negros contra<br \/>\n    trigueiro, de trigueiros contra trigueiros, de mulatos contra mulatos. Era<br \/>\n    uma carnagem cont&iacute;nua em toda a extens&atilde;o do Imp&eacute;rio.<\/p>\n<p> Apenas desembarcamos, os negros de uma fac&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria<br \/>\n    &agrave; do nosso cors&aacute;rio vieram arrebatar-lhe a presa. Depois dos<br \/>\n    diamantes e do ouro, &eacute;ramos n&oacute;s o que ele tinha de mais precioso.<br \/>\n    Fui testemunha de um combate como n&atilde;o se v&ecirc; igual em climas europeus,<br \/>\n    Os povos setentrionais n&atilde;o t&ecirc;m sangue bastante ardente. N&atilde;o<br \/>\n    tem esse furor pelas mulheres que se v&ecirc; na &Aacute;frica. Parece que<br \/>\n    o. europeus t&ecirc;m leite nas veias; pois &eacute; vitr&iacute;olo, &eacute;<br \/>\n    fogo que corre nas veias dos habitantes do monte Atlas e dos pa&iacute;ses<br \/>\n    vizinhos. Combateram com a sanha dos le&otilde;es, dos tigres e das serpentes<br \/>\n    da regi&atilde;o para ver quem nos possuiria. Um mouro agarrou minha m&atilde;e<br \/>\n    pelo bra&ccedil;o direito, um lugar-tenente de meu capit&atilde;o segurou-a<br \/>\n    pelo esquerdo; um soldado mouro pegou-a por uma perna, um dos nossos piratas<br \/>\n    pela outra. Em um instante, quase todas as nossas mulheres se viram assim<br \/>\n    puxadas por quatro soldados. Meu capit&atilde;o me conservava oculta atr&aacute;s<br \/>\n    de si. Empunhava. a cimitarra e matava quem quer que se lhe opusesse. Vi afinal<br \/>\n    todas as nossas italianas e a minha m&atilde;e despeda&ccedil;adas, retalhadas,<br \/>\n    massacradas pelos monstros que as disputavam. Os meus companheiros cativos,<br \/>\n    os que os haviam aprisionado, soldados, marinheiros, negros, trigueiros, brancos,<br \/>\n    mulatos, e o meu capit&atilde;o, foi tudo assassinado, e eu ali fiquei, agonizante,<br \/>\n    sobre um mont&atilde;o de cad&aacute;veres. Cenas tais ocorriam numa extens&atilde;o<br \/>\n    de trezentas l&eacute;guas, sem que ningu&eacute;m faltasse &agrave;s cinco<br \/>\n    preces di&aacute;rias ordenadas por Maom&eacute;.<\/p>\n<p> Com muita dificuldade desembaracei-me daquela multid&atilde;o de corpos<br \/>\n    sangrentos e arrastei-me para debaixo de uma laranjeira &agrave; margem de<br \/>\n    um arroio pr&oacute;ximo; tombei por terra, de medo, de cansa&ccedil;o, de<br \/>\n    desespero e de fome. Em breve meus sentidos exaustos se entregaram a um sono<br \/>\n    que mais se aproximava do desmaio que do repouso. Estava naquele estado de<br \/>\n    fraqueza e de insensibilidade, entre a morte e a vida, quando senti alguma<br \/>\n    coisa que se agitava sobre o meu corpo. Abri os olhos e vi um homem branco<br \/>\n    e de fisionomia simp&aacute;tica que suspirava e dizia entre dentes: O che<br \/>\n    sciagura d&#8217;essere senza coglioni!<\/p>\n<h4><a name=\"12\">CAP&Iacute;TULO XII <\/a><\/h4>\n<p> <strong>Continua&ccedil;&atilde;o das desgra&ccedil;as da velha.<\/strong><\/p>\n<p> At&ocirc;nita e encantada de ouvir a l&iacute;ngua da minha p&aacute;tria,<br \/>\n    e n&atilde;o menos surpresa das palavras que proferia aquele homem, respondi-lhe<br \/>\n    que havia maiores, desgra&ccedil;as do que aquela de que ele se queixava.<br \/>\n    Informei-o em poucas palavras dos horrores por que passara, e desmaiei de<br \/>\n    novo. Levou-me para uma casa vizinha, fez com que me dessem leite e comida,<br \/>\n    atendeu-me, consolou-me, lisonjeou-me, disse-me que nada vira de t&atilde;o<br \/>\n    lindo como eu e que nunca lamentara tanto aquilo que ningu&eacute;m lhe poderia<br \/>\n    devolver.<\/p>\n<p> &#8212; Nasci em N&aacute;poles &#8211; me disse ele. &Eacute; sabido que<br \/>\n    ali costumam castrar de dois a tr&ecirc;s mil meninos por ano; uns morrem<br \/>\n    da opera&ccedil;&atilde;o, outros adquirem uma voz mais bela que a das mulheres,<br \/>\n    outros v&atilde;o governar Estados. Fizeram-me a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com grande. sucesso, e fui m&uacute;sico da capela da senhora princesa da<br \/>\n    Palestrina.<\/p>\n<p> &#8212; Da minha m&atilde;e! &#8211; exclamei.<\/p>\n<p> &#8212; Da sua m&atilde;e! &#8211; bradou ele, chorando. &#8211; Como! Ent&atilde;o<br \/>\n    a senhora &eacute; aquela jovem princesa que eu criei at&eacute; a idade de<br \/>\n    seis anos e que j&aacute; prometia ser t&atilde;o linda assim? <\/p>\n<p> &#8212; Sou eu mesma; minha m&atilde;o se acha a quatrocentos passos daqui,<br \/>\n    esquartejada sob um mont&atilde;o de mortos&#8230;<\/p>\n<p> Contei-lhe tudo o que me sucedera e ele contou-me as suas aventuras. Naquela<br \/>\n    &eacute;poca fora enviado em miss&atilde;o junto ao rei de Marrocos, da parte<br \/>\n    de uma pot&ecirc;ncia crist&atilde;, a fim de concluir um tratado com nosso<br \/>\n    monarca. Mediante esse tratado, se forneceria ao maometano p&oacute;lvora,<br \/>\n    canh&otilde;es e navios, a fim de auxiliar a parte contratante a exterminar<br \/>\n    o com&eacute;rcio dos outros crist&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8212; Minha miss&atilde;o est&aacute; cumprida &#8211; disse aquele honrado<br \/>\n    eunuco. &#8211; Vou embarcar em Ceuta e a levarei comigo para a It&aacute;lia.<br \/>\n    Ma che sciagura d&#8217;essere senza coglioni!<\/p>\n<p> Agradeci-lhe com l&aacute;grimas de enternecimento; e, em vez de conduzir-me<br \/>\n    &agrave; It&aacute;lia, levou-me para a Arg&eacute;lia e vendeu-me ao bei<br \/>\n    dessa prov&iacute;ncia. Mal fora vendida, quando essa peste que deu volta<br \/>\n    &agrave; &Aacute;frica, &agrave; &Aacute;sia e &agrave; Europa, se alastrou<br \/>\n    na Alg&eacute;ria com furor. Meus amigos j&aacute; viram terremoto. Mas e<br \/>\n    a peste? A senhorita nunca apanhou peste?<\/p>\n<p> &#8212; Nunca &#8211; respondeu a baronesa.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! se a tivesse apanhado &#8211; tornou a velha, &#8211; confessaria<br \/>\n    que &eacute; muito pior que um terremoto. E muito comum na &Aacute;frica;<br \/>\n    fui atacada. Imaginem que situa&ccedil;&atilde;o para a filha de um papa,<br \/>\n    que tinha apenas quinze anos de idade, e que, no espa&ccedil;o de tr&ecirc;s<br \/>\n    meses, conhecera a pobreza, a escravid&atilde;o, fora violada quase todos<br \/>\n    os dias, vira esquartejarem a sua m&atilde;e, sofrera a fome e a guerra, e<br \/>\n    estava para morrer de peste na Arg&eacute;lia. No entanto n&atilde;o morri.<br \/>\n    Mas o meu eunuco e o bei pereceram, juntamente com quase todo o serralho da<br \/>\n    Arg&eacute;lia.<\/p>\n<p> Passadas as primeiras devasta&ccedil;&otilde;es dessa horr&iacute;vel peste,<br \/>\n    foram postas em leil&atilde;o as escravas do bei. Um mercador arrematou-me,<br \/>\n    levando-me para T&uacute;nis; vendeu-me a outro mercador, que me revendeu<br \/>\n    em Tr&iacute;poli; de Tr&iacute;poli fui revendida em Alexandria, de Alexandria<br \/>\n    em Esmirna, de Esmirna em Constantinopla. Fiquei enfim pertencendo a um ag&aacute;<br \/>\n    dos jan&iacute;zaros, que em breve foi incumbido de defender Azof contra os<br \/>\n    russos que a cercavam.<\/p>\n<p> O ag&aacute;, homem muito galante, levou consigo todo o seu serralho, e<br \/>\n    nos alojou em um fortim sobre os Pauis-Me&oacute;tides, guarnecido por dois<br \/>\n    eunucos negros e vinte soldados. Mataram um n&uacute;mero prodigioso de russos,<br \/>\n    mas estes nos pagaram na mesma moeda. Azof foi posto a ferro e fogo, e n&atilde;o<br \/>\n    poupavam nem sexo nem idade; afinal s&oacute; restou nosso pequeno forte;<br \/>\n    os inimigos resolveram vencer-nos pela fome. Os vinte jan&iacute;zaros tinham<br \/>\n    jurado n&atilde;o render-se nunca. A fome extrema a que se viram reduzidos<br \/>\n    os obrigou a comer as nossos dois eunucos, por modo de quebrarem o juramento.<br \/>\n    Passados alguns dias, decidiram comer as mulheres.<\/p>\n<p> T&iacute;nhamos um imame muito devoto e compassivo, que lhes pregou um belo<br \/>\n    serm&atilde;o, persuadindo-os a que n&atilde;o nos matassem.<\/p>\n<p> &#8212; Cortai &#8211; disse ele &#8211; apenas uma n&aacute;dega a cada<br \/>\n    uma dessas damas, e com isso vos regalareis. Se for necess&aacute;rio mais,<br \/>\n    tereis outro tanto daqui a alguns dias. Deus recompensar&aacute; t&atilde;o<br \/>\n    caridosa a&ccedil;&atilde;o, e sereis socorridos.<\/p>\n<p> Tinha bastante eloqu&ecirc;ncia, e convenceu-os. Fizeram-nos essa horr&iacute;vel<br \/>\n    opera&ccedil;&atilde;o. O imame nos aplicou o mesmo b&aacute;lsamo que se<br \/>\n    p&otilde;e no menino. que acabam de circuncidar. Est&aacute;vamos todas pela<br \/>\n    hora da morte. Mal haviam os jan&iacute;zaros terminado a refei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhes fornec&ecirc;ramos, quando chegam os russos em chatas; n&atilde;o<br \/>\n    sobrou um &uacute;nico jan&iacute;zaro. Os russos n&atilde;o deram a m&iacute;nima<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o ao estado em que nos ach&aacute;vamos. H&aacute; por<br \/>\n    toda parte cirurgi&otilde;es franceses: um deles, que era muito h&aacute;bil,<br \/>\n    nos socorreu; curou-nos satisfatoriamente, e toda a minha vida hei de lembrar-me<br \/>\n    que, quando as minhas feridas ficaram bem cicatrizadas, ele me fez propostas.<br \/>\n    De resto, nos disse a todas que nos consol&aacute;ssemos, assegurando-nos<br \/>\n    que em v&aacute;rios cercos sucedera a mesma coisa, e que essa era a lei da<br \/>\n    guerra.<\/p>\n<p> Logo que pudemos caminhar, mandaram-no para Moscou. Quanto a mim, coube<br \/>\n    em partilha a um boiardo que me fez trabalhar na sua horta e me dava vinte<br \/>\n    la&ccedil;a&ccedil;os por dia. Mas, dois anos depois, tendo sido esse cavaleiro<br \/>\n    mandado a supl&iacute;cio, por alguma intriga de Corte, em companhia de trinta<br \/>\n    colegas seus, aproveitei a emerg&ecirc;ncia e fugi: atravessei toda a R&uacute;ssia;<br \/>\n    fui por muito tempo criada de taverna em Riga, depois em Rostock, em Vismar,<br \/>\n    em Leipzig, em Camel, em Utrecht, em Leyde, em Haya, em Rotterdam. Envelheci<br \/>\n    na mis&eacute;ria e no opr&oacute;brio, n&atilde;o tendo mais que a metade<br \/>\n    do traseiro, e sempre a lembrar-me de que era filha de um papa; cem vezes<br \/>\n    quis matar-me, mas ainda amava a vida. Essa rid&iacute;cula fraqueza &eacute;<br \/>\n    talvez um dos nossos pendores mais funestos: pois haver&aacute; coisa mais<br \/>\n    tola do que carregar continuamente um fardo que sempre se quer lan&ccedil;ar<br \/>\n    por terra? Ter horror &agrave; pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia e apegar-se<br \/>\n    a ela. Acariciar, enfim, a serpente que nos devora, at&eacute; que nos haja<br \/>\n    engolido o cora&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p> Vi, nos pa&iacute;ses que a sorte me fez percorrer e nas estalagens onde<br \/>\n    servi, um n&uacute;mero prodigioso de pessoas que execravam a sua vida; mas<br \/>\n    apenas encontrei doze que acabaram voluntariamente com a pr&oacute;pria mis&eacute;ria:<br \/>\n    tr&ecirc;s negros, quatro ingleses, quatro genebrinos e um professor alem&atilde;o<br \/>\n    chamado Robeck. Terminei como criada do judeu dom Issacar, que me encarregou<br \/>\n    de a servir, minha linda senhorita; liguei-me a seu destino, e tenho-me ocupado<br \/>\n    mais das suas aventuras que das minhas. E jamais falaria de minhas desgra&ccedil;as<br \/>\n    se a senhorita n&atilde;o me houvesse melindrado e se n&atilde;o fosse costume<br \/>\n    a bordo contar hist&oacute;rias para enganar o aborrecimento. Enfim, senhorita,<br \/>\n    tenho experi&ecirc;ncia, conhe&ccedil;o o mundo. Quer distrair-se? Convide<br \/>\n    cada passageiro a contar a sua hist&oacute;ria; e, se encontrar um s&oacute;<br \/>\n    que n&atilde;o haja amaldi&ccedil;oado a vida muitas vezes e que muitas vezes<br \/>\n    n&atilde;o tenha dito consigo que era o mais infeliz dos homens, pode ent&atilde;o<br \/>\n    lan&ccedil;ar-me de cabe&ccedil;a ao mar.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">CAP&Iacute;TULO XIII<\/a><\/h4>\n<p> De como C&acirc;ndido se viu obrigado a separar-se da bela Cunegundes e<br \/>\n    da velha<\/p>\n<p> Tendo ouvido a hist&oacute;ria da velha, a bela Cunegundes dispensou-lhe<br \/>\n    todas as aten&ccedil;&otilde;es que se deviam a uma pessoa da sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e do seu m&eacute;rito. Aceitou a proposta; induziu todos os passageiros a<br \/>\n    contarem um ap&oacute;s outro as suas aventuras.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido e ela confessaram que a velha tinha raz&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma pena &#8211; dizia C&acirc;ndido &#8211; que o s&aacute;bio<br \/>\n    Pangloss tenha sido enforcado, contra o costume, em um auto-de-f&eacute;;<br \/>\n    ele nos diria coisas admir&aacute;veis sobre o mal f&iacute;sico e o mal moral<br \/>\n    que cobrem a terra e o mar, e eu me sentiria com bastante &acirc;nimo para<br \/>\n    me atrever a fazer-lhe respeitosamente algumas obje&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> A medida que cada um contava a sua hist&oacute;ria, o navio avan&ccedil;ava.<br \/>\n    Aportaram em Buenos Aires. Cunegundes, o capit&atilde;o C&acirc;ndido e a<br \/>\n    velha foram ter com o governador Dom Fernando de Ibarra y Figueroa y Mascare&ntilde;as<br \/>\n    y Lampurdos y Sousa. Esse senhor tinha uma altivez adequada a um homem que<br \/>\n    usava tantos nomes. Falava aos homens com o mais nobre desd&eacute;m, erguendo<br \/>\n    t&atilde;o alto o nariz, elevando t&atilde;o implacavelmente a voz, assumindo<br \/>\n    um ar t&atilde;o imponente, afetando um andar t&atilde;o altaneiro, que todos<br \/>\n    os que o cumprimentavam sentiam ganas de bater-lhe. Amava as mulheres com<br \/>\n    loucura. Cunegundes lhe pareceu a criatura mais linda que j&aacute; vira no<br \/>\n    mundo. A primeira coisa que fez foi perguntar se n&atilde;o era esposa do<br \/>\n    capit&atilde;o. O tom da pergunta alarmou C&acirc;ndido: n&atilde;o ousou<br \/>\n    dizer-lhe que era sua esposa porque de fato n&atilde;o o era; n&atilde;o ousava<br \/>\n    dizer que era sua irm&atilde;, porque tampouco o era; e, embora essa mentira<br \/>\n    oficiosa estivesse outrora muito em moda entre os antigos e pudesse ser &uacute;til<br \/>\n    aos modernos, a sua alma era demasiado pura para trair a verdade.<\/p>\n<p> &#8212; A senhorita Cunegundes &#8211; disse ele &#8211; deve conceder-me<br \/>\n    a honra de casar comigo, e suplicamos a Vossa Excel&ecirc;ncia que se digne<br \/>\n    mandar celebrar as nossas n&uacute;pcias.<\/p>\n<p> Dom Fernando de Ibarra y Figueroa y Mascare&ntilde;as y Lampurdos y Sousa,<br \/>\n    cofiando o bigode, sorriu amargamente e ordenou ao capit&atilde;o C&acirc;ndido<br \/>\n    que fosse passar em revista a sua companhia. C&acirc;ndido obedeceu; o governador<br \/>\n    ficou com a senhorita Cunegundes. Declarou-lhe a sua paix&atilde;o, protestou<br \/>\n    que no dia seguinte a desposaria em face da Igreja, ou de qualquer outra maneira,<br \/>\n    conforme aprouvesse a seus encantos. Cunegundes pediu um quarto de hora para<br \/>\n    refletir, para consultar a velha e tomar uma decis&atilde;o.<\/p>\n<p> Disse a velha a Cunegundes:<\/p>\n<p> &#8212; A senhorita tem setenta e dois quart&eacute;is e nem um &oacute;bulo;<br \/>\n    s&oacute; depende de si ser esposa do maior senhor da Am&eacute;rica do Sul<br \/>\n    e que tem t&atilde;o belos bigodes; e acaso est&aacute; em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de ostentar uma fidelidade a toda prova? Pois n&atilde;o foi violada pelos<br \/>\n    b&uacute;lgaros? Um judeu e um inquisidor n&atilde;o gozaram da sua boa vontade?<br \/>\n    As desgra&ccedil;as outorgam direitos. Confesso que, se estivesse em seu lugar,<br \/>\n    n&atilde;o teria nenhum escr&uacute;pulo em desposar o senhor governador e<br \/>\n    fazer a fortuna do senhor capit&atilde;o C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> Enquanto a velha falava com toda a prud&ecirc;ncia que d&atilde;o a experi&ecirc;ncia<br \/>\n    e a idade, viram entrar no porto um pequeno navio; trazia um alcaide e alguazis,<br \/>\n    e eis o que sucedera.<\/p>\n<p> Bem adivinhara a velha que fora um franciscano que havia roubado o dinheiro<br \/>\n    e as j&oacute;ias de Cunegundes, na cidade de Badajoz. O monge procurou vender<br \/>\n    algumas das pedras a um joalheiro. O negociante reconheceu-as como pertencentes<br \/>\n    ao inquisidor-mor. Antes de ser enforcado, o franciscano confessou de quem<br \/>\n    as roubara; indicou as pessoas e o rumo que tomavam. A fuga de Cunegundes<br \/>\n    e C&acirc;ndido era j&aacute; conhecida. Seguiram-lhes o rastro at&eacute;<br \/>\n    C&aacute;diz; sem perda de tempo, despacharam um navio em sua persegui&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Esse navio j&aacute; estava agora no porto de Buenos Aires. Logo se espalhou<br \/>\n    que um alcaide ia desembarcar e que perseguiam os assassinos do inquisidor-mor.<br \/>\n    A prudente velha viu num instante tudo o que se devia fazer.<\/p>\n<p> &#8212; A senhorita n&atilde;o pode fugir &#8211; disse ela a Cunegundes,<br \/>\n    e nada tem a temer; n&atilde;o foi a senhorita quem matou Monsenhor; e ali&aacute;s<br \/>\n    o governador que a ama, n&atilde;o permitir&aacute; que a maltratem; fique<br \/>\n    onde est&aacute;.<\/p>\n<p> Corre imediatamente a C&acirc;ndido: &#8211; Fuja &#8211; lhe diz ela, &#8211;<br \/>\n    ou dentro em uma hora ser&aacute; queimado.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia um momento a perder. Mas como separar-se de Cunegundes?<br \/>\n    E onde refugiar-se?<\/p>\n<h4><a name=\"14\">CAP&Iacute;TULO XIV <\/a><\/h4>\n<p> De como C&acirc;ndido e Cacambo foram acolhidos pelos jesu&iacute;tas do<br \/>\n    Paraguai<\/p>\n<p> C&acirc;ndido trouxera de C&aacute;diz um criado como os h&aacute; em quantidade<br \/>\n    nas costas da Espanha e nas col&ocirc;nias. Tinha um quarto de espanhol, pois<br \/>\n    nascera de um mesti&ccedil;o, em Tucuman; fora menino de coro, sacrist&atilde;o,<br \/>\n    marinheiro, monge, carregador, soldado, lacaio. Chamava-se Cacambo e estimava<br \/>\n    muito a seu patr&atilde;o, porque o seu patr&atilde;o era um excelente homem.<br \/>\n    Selou &agrave;s pressas os dois cavalos andaluzes.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, patr&atilde;o. Siga o conselho da velha, e corramos sem olhar<br \/>\n    para tr&aacute;s.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido p&otilde;e-se a chorar:<\/p>\n<p> &#8212; Ai minha querida Cunegundes! Devo eu abandonar-te quando o senhor<br \/>\n    governador vai preparar as tuas n&uacute;pcias? Eu que te trouxe de t&atilde;o<br \/>\n    longe! Que vai ser de ti?<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; o que puder &#8211; disse Cacambo, &#8211; as mulheres<br \/>\n    nunca se embara&ccedil;am; Deus as ajuda; corramos.<\/p>\n<p> &#8212; Aonde me levas? Aonde vamos? Que faremos sem Cunegundes? &#8211;<br \/>\n    dizia C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Por S. Jaques de Compostella &#8211; disse Cacambo. &#8211; O patr&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o ia combater contra os jesu&iacute;tas? Pois combata agora pelos<br \/>\n    jesu&iacute;tas. Conhe&ccedil;o bem os caminhos; vou lev&aacute;-lo at&eacute;<br \/>\n    o reino deles; ficar&atilde;o encantados de ter um capit&atilde;o que saiba<br \/>\n    fazer exerc&iacute;cios &agrave; moda b&uacute;lgara. O senhor far&aacute;<br \/>\n    uma fortuna prodigiosa. Quando a gente n&atilde;o se ajeita num mundo, procura<br \/>\n    arranjar-se noutro. &Eacute; um prazer extraordin&aacute;rio ver e fazer coisas<br \/>\n    novas.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; estiveste ent&atilde;o no Paraguai? &#8211; indagou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade. Servi de f&acirc;mulo no col&eacute;gio de Assun&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e conhe&ccedil;o o governo dos Padres como conhe&ccedil;o as ruas de C&aacute;diz.<br \/>\n    &Eacute; uma coisa admir&aacute;vel esse governo. O reino j&aacute; tem mais<br \/>\n    de trezentas l&eacute;guas de di&acirc;metro; &eacute; dividido em trinta<br \/>\n    prov&iacute;ncias. Os padres ali t&ecirc;m tudo, e o povo nada; &eacute; a<br \/>\n    obra prima da raz&atilde;o e da justi&ccedil;a. Quanto a mim, n&atilde;o conhe&ccedil;o<br \/>\n    nada mais divino do que os Padres, que aqui fazem guerra ao rei de Espanha<br \/>\n    e ao rei de Portugal, e que na Europa confessam esses reis; que aqui matam<br \/>\n    espanh&oacute;is e em Madrid os mandam para o c&eacute;u: isto me encanta.<br \/>\n    Avancemos. O. patr&atilde;o vai ser o mais feliz de todos os homens. Que prazer<br \/>\n    n&atilde;o ter&atilde;o os Padres quando souberem que lhes chega um capit&atilde;o<br \/>\n    que conhece manobras b&uacute;lgaras!<\/p>\n<p> Logo que chegaram &agrave; primeira barreira, Cacambo disse &agrave; guarda<br \/>\n    avan&ccedil;ada que um capit&atilde;o pedia para falar ao monsenhor comandante.<br \/>\n    Foram avisar a grande guarda. Um oficial paraguaio correu aos p&eacute;s do<br \/>\n    comandante para lhe dar a not&iacute;cia. C&acirc;ndido e Cacambo foram primeiramente<br \/>\n    desarmados; apoderaram-se de seus cavalos andaluzes. Os dois estrangeiros<br \/>\n    s&atilde;o introduzidos em meio de duas filas de soldados, a cuja extremidade<br \/>\n    se achava o comandante, de chap&eacute;u de tr&ecirc;s bicos, batina arrepanhada,<br \/>\n    espadim &agrave; cinta, lan&ccedil;a em punho. Fez um sinal; e logo vinte<br \/>\n    e quatro milicianos cercam os rec&eacute;m-chegados. Informa-lhes um sargento<br \/>\n    que &eacute; preciso esperar, que o comandante n&atilde;o pode atend&ecirc;-los,<br \/>\n    pois o reverendo padre provincial n&atilde;o permite que nenhum espanhol abra<br \/>\n    a boca a n&atilde;o ser em sua presen&ccedil;a nem permane&ccedil;a mais de<br \/>\n    tr&ecirc;s horas no pa&iacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; E onde est&aacute; o reverendo padre provincial? &#8211; Indagou<br \/>\n    Cacambo.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; na parada, depois que rezou missa; e s&oacute; daqui<br \/>\n    a tr&ecirc;s horas &eacute; que voc&ecirc;s lhe podem beijar as esporas.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &#8211; observou Cacambo &#8211; o senhor capit&atilde;o, que<br \/>\n    est&aacute; a morrer de fome como eu, n&atilde;o &eacute; espanhol, &eacute;<br \/>\n    alem&atilde;o; n&atilde;o poder&iacute;amos almo&ccedil;ar enquanto esperamos<br \/>\n    Sua Reverend&iacute;ssima?<\/p>\n<p> O sargento foi imediatamente comunicar tais palavras ao comandante.<\/p>\n<p> &#8212; Gra&ccedil;as a Deus que ele &eacute; alem&atilde;o &#8211; disse<br \/>\n    este, &#8211; pois assim lhe posso falar. Que o tragam ao meu caramanchel<\/p>\n<p> Conduzem C&acirc;ndido a uma esp&eacute;cie de sal&atilde;o de folhagens,<br \/>\n    cercado de uma linda colunata de m&aacute;rmore verde e dourado e de avi&aacute;rios<br \/>\n    que encerravam papagaios, colibris, beija-flores, pintadas, e todos os p&aacute;ssaros,<br \/>\n    dos mais raros. Achava-se servido um excelente almo&ccedil;o, em baixelas<br \/>\n    de ouro; e, enquanto os paraguaios comiam canjica em escudelas de pau, ao<br \/>\n    ardor do sol, o reverendo padre comandante entrou no caramanchel.<\/p>\n<p> Era um belo jovem, de rosto cheio, faces coradas, sobrancelhas erguidas,<br \/>\n    olho vivo, orelhas rosadas, l&aacute;bios rubros, o ar altivo, mas de uma<br \/>\n    altivez que n&atilde;o era nem a de um espanhol nem a de um jesu&iacute;ta.<br \/>\n    Devolveram a C&acirc;ndido e Cacambo as armas que lhe haviam retirado, bem<br \/>\n    como os dois cavalos andaluzes; Cacambo f&ecirc;-los comer aveia, junto ao<br \/>\n    caramanch&atilde;o, e sempre trazendo-os de olho, para evitar alguma surpresa.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido beijou primeiro a fimbria da batina do comandante, e em seguida<br \/>\n    sentaram-se &agrave; mesa.<\/p>\n<p> &#8212; Com que ent&atilde;o o senhor &eacute; alem&atilde;o? &#8211; perguntou-lhe<br \/>\n    o jesu&iacute;ta nesse idioma.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, meu reverendo.<\/p>\n<p> Tanto um como outro, enquanto pronunciavam tais palavras, se olhavam com<br \/>\n    grande surpresa e uma emo&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o podiam dominar.<\/p>\n<p> &#8212; E de que regi&atilde;o da Alemanha &eacute; o senhor? &#8211; indagou<br \/>\n    o jesu&iacute;ta.<\/p>\n<p> &#8212; Da maldita prov&iacute;ncia de Vestf&aacute;lia &#8211; disse C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Nasci no castelo de Thunder-ten-tronckh.<\/p>\n<p> &#8212; O C&eacute;us! Ser&aacute; poss&iacute;vel! &#8211; exclamou o comandante.<\/p>\n<p> &#8212; Que milagre! &#8211; bradou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute;s tu mesmo? &#8211; disse o comandante.<\/p>\n<p> &#8212; Imposs&iacute;vel! &#8211; disse C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> Recuam de espanto, abra&ccedil;am-se, vertem rios de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; Como, &eacute;s tu, meu reverendo Padre? Tu, o irm&atilde;o da bela<br \/>\n    Cunegundes! Tu, que foste morto pelos b&uacute;lgaros! Tu, o filho do senhor<br \/>\n    bar&atilde;o! Tu, jesu&iacute;ta no Paraguai! Tem-se de confessar que este<br \/>\n    mundo &eacute; uma coisa estranha! &Oacute; Pangloss! &oacute; Pangloss! Como<br \/>\n    n&atilde;o estarias contente agora, se n&atilde;o te houvessem enforcado!<\/p>\n<p> O comandante mandou embora os escravos negros e os paraguaios que serviam<br \/>\n    bebida em tigelas de cristal de rocha. Agradeceu mil vezes a Nosso Senhor<br \/>\n    e a Santo In&aacute;cio; estreitava C&acirc;ndido nos bra&ccedil;os; as suas<br \/>\n    faces estavam banhadas de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; Mais espantado ficarias &#8211; disse C&acirc;ndido, &#8211; mais<br \/>\n    comovido, mais fora de ti mesmo, se eu te dissesse que a senhorita Cunegundes<br \/>\n    tua irm&atilde;, a quem julgavas destripada, se acha agora cheia de sa&uacute;de.<br \/>\n    &#8212; Onde?<\/p>\n<p> &#8212; Na tua vizinhan&ccedil;a, com o senhor governador de Buenos Aires.<br \/>\n    E eu tinha vindo para combater-te&#8230;<\/p>\n<p> Cada palavra que pronunciavam nessa longa conversa&ccedil;&atilde;o acumulava<br \/>\n    prod&iacute;gios sobre prod&iacute;gios. A alma inteira lhes voava na ponta<br \/>\n    da l&iacute;ngua, mantinha-se atenta nos ouvidos, fulgurante nos olhos. Como<br \/>\n    eram alem&atilde;es, demoraram-se por muito tempo &aacute; mesa, enquanto<br \/>\n    n&atilde;o vinha o padre provincial. E o comandante assim falou a seu querido<br \/>\n    C&acirc;ndido.<\/p>\n<h4><a name=\"15\">CAP&Iacute;TULO XV<\/a><\/h4>\n<p> De como C&acirc;ndido matou o irm&atilde;o de sua querida Cunegundes.<\/p>\n<p> Nunca me sair&aacute; da mem&oacute;ria o dia horr&iacute;vel em que vi<br \/>\n    matarem meu pai e minha m&atilde;e e violarem minha irm&atilde;. Quando os<br \/>\n    b&uacute;lgaros se retiraram, havia desaparecido aquela irm&atilde; ador&aacute;vel,<br \/>\n    e meu pai, minha m&atilde;e, eu, duas criadas e tr&ecirc;s meninos degolados<br \/>\n    fomos colocados numa carro&ccedil;a, a fim de nos enterrarem em uma capela<br \/>\n    de jesu&iacute;ta, a duas l&eacute;guas do castelo. Um jesu&iacute;ta aspergiu-nos<br \/>\n    com &aacute;gua benta; estava horrivelmente salgada; entraram-me algumas gotas<br \/>\n    nos olhos; o padre percebeu que minhas p&aacute;lpebras se agitavam levemente:<br \/>\n    p&ocirc;s a m&atilde;o no meu peito e sentiu palpitar-me o cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    fui socorrido e, ao cabo de tr&ecirc;s semanas, estava como dantes. Bem sabes,<br \/>\n    meu caro C&acirc;ndido, que eu era bastante bonito; pois mais bonito fiquei<br \/>\n    depois; de modo que o reverendo padre Croust, superior do convento, sentiu-se<br \/>\n    tomado por mim da mais terna amizade; fez-me envergar o h&aacute;bito de novi&ccedil;o;<br \/>\n    algum tempo depois fui enviado a Roma. O vig&aacute;rio geral tinha necessidade<br \/>\n    de uma leva de jovens jesu&iacute;tas alem&atilde;es. Os soberanos do Paraguai<br \/>\n    recebem o menos que podem de jesu&iacute;tas espanh&oacute;is; preferem os<br \/>\n    estrangeiros, de quem se julgam mais senhores. Fui julgado apto pelo reverendo<br \/>\n    vig&aacute;rio geral, para vir trabalhar nesta vinha. Partimos, um tirol&ecirc;s,<br \/>\n    um polaco e eu. Honraram-me, de chegada, com um subdiaconato e uma lugar-ten&ecirc;ncia;<br \/>\n    hoje sou coronel e padre. Recebemos &agrave; altura as tropas do rei de Espanha;<br \/>\n    garanto-te que ser&atilde;o devidamente excomungadas e batidas. A Provid&ecirc;ncia<br \/>\n    te mandou aqui para nos secundares. Mas &eacute; verdade mesmo que a minha<br \/>\n    querida irm&atilde; Cunegundes se acha nas vizinhan&ccedil;as, em poder do<br \/>\n    governador de Buenos Aires?<\/p>\n<p> C&acirc;ndido jurou que nada era mais verdadeiro. E puseram-se ambos a chorar.<\/p>\n<p> O bar&atilde;o n&atilde;o se cansava de abra&ccedil;ar C&acirc;ndido; chamava-lhe<br \/>\n    de seu irm&atilde;o e salvador.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, meu querido C&acirc;ndido, talvez possamos os dois entrar vencedores<br \/>\n    na cidade e arrebatar a minha irm&atilde; Cunegundes.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o que mais desejo neste mundo &#8211; disse C&acirc;ndido,<br \/>\n    &#8211; pois tencionava despos&aacute;-la, e espero faz&ecirc;-lo ainda.<\/p>\n<p> &#8212; Tu, insolente! &#8211; exclamou o bar&atilde;o. &#8211; Tens ent&atilde;o<br \/>\n    a imprud&ecirc;ncia de querer desposar a minha irm&atilde;, que possui setenta<br \/>\n    e dois quart&eacute;is?! O que me admira &eacute; o teu descaramento em ousar<br \/>\n    falar-me de um desejo t&atilde;o atrevido!<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, estarrecido, retrucou-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Todos os quart&eacute;is do mundo, meu Reverendo Padre, agora nada<br \/>\n    significam; tirei a sua irm&atilde; dos bra&ccedil;os de um judeu e de um<br \/>\n    inquisidor; ela me deve muitas obriga&ccedil;&otilde;es, e quer casar comigo.<br \/>\n    Mestre Pangloss sempre me disse que os homens s&atilde;o iguais, e eu hei<br \/>\n    de casar com Cunegundes.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o que veremos, patife! &#8211; bradou o jesu&iacute;ta<br \/>\n    bar&atilde;o de Thunder-ten-tronckh, ao mesmo tempo que lhe desfecha no rosto<br \/>\n    um violento golpe com a folha da espada. C&acirc;ndido no mesmo instante puxa<br \/>\n    da sua e mergulha-a at&eacute; a guarda no ventre do bar&atilde;o jesu&iacute;ta;<br \/>\n    mas, ao retir&aacute;-la &uacute;mida de sangue quente, p&otilde;e-se a chorar:<br \/>\n    &#8220;Oh! Meu Deus! Matei o meu antigo senhor, o meu amigo, o meu cunhado;<br \/>\n    sou o melhor homem do mundo e j&aacute; s&atilde;o tr&ecirc;s homens que mato;<br \/>\n    e, desses tr&ecirc;s, dois s&atilde;o padres!&#8221;<\/p>\n<p> Cacambo, que montava guarda &agrave; entrada do caramanch&atilde;o, acorreu<br \/>\n    em seguida.<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute; nos resta vender caro a nossa vida &#8211; lhe disse C&acirc;ndido.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o tardar&atilde;o a chegar; deveremos morrer de arma em punho.<\/p>\n<p> Cacambo, que j&aacute; passara por outras, n&atilde;o perdeu a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Despiu a batina do bar&atilde;o, vestiu-a sem demora em C&acirc;ndido, deu-lhe<br \/>\n    o chap&eacute;u de tr&ecirc;s bicos e o fez montar a cavalo. Tudo isto se<br \/>\n    passou enquanto o diabo esfrega um olho.<\/p>\n<p> &#8212; Corramos, patr&atilde;o; todos o v&atilde;o tomar por um jesu&iacute;ta<br \/>\n    que anda a servi&ccedil;o; e teremos passado as fronteiras antes que possam<br \/>\n    sair em nosso encal&ccedil;o.<\/p>\n<p> J&aacute; voava ao dizer Isto, e gritava em espanhol:<\/p>\n<p> &#8212; Alas! alas! para o reverendo padre coronel!<\/p>\n<h4><a name=\"16\">CAP&Iacute;TULO XVI<\/a><\/h4>\n<p> Do que aconteceu aos dois viajantes com duas raparigas, dois macacos e os<br \/>\n    selvagens chamados orelh&otilde;es.<\/p>\n<p> J&aacute; haviam os dois atravessado a fronteira, e no acampamento ainda<br \/>\n    ningu&eacute;m sabia da morte do jesu&iacute;ta alem&atilde;o. O diligente<br \/>\n    Cacambo teve cuidado de encher o alforje de p&atilde;o, chocolate, presunto,<br \/>\n    frutas, e algumas medidas de vinho. Adentraram-se numa regi&atilde;o desconhecida,<br \/>\n    onde n&atilde;o descobriram estrada alguma. Afinal deparou-se-lhes &agrave;<br \/>\n    vista um belo prado cortado de arroios. Os nossos dois viajantes puseram os<br \/>\n    cavalos a pastar. Cacambo prop&otilde;e uma refei&ccedil;&atilde;o, e d&aacute;<br \/>\n    o exemplo, principiando a comer com apetite.<\/p>\n<p> &#8212; Como queres tu &#8211; dizia C&acirc;ndido &#8211; que eu coma presunto,<br \/>\n    quando matei o filho do senhor bar&atilde;o e me vejo condenado a nunca mais<br \/>\n    rever a bela Cunegundes? De que me servir&aacute; prolongar meus miser&aacute;veis<br \/>\n    dias, se deve arrast&aacute;-los longe dela, no remorso e no desespero? E<br \/>\n    que dir&aacute; o jornal de Tr&eacute;voux?<\/p>\n<p> Enquanto assim falava, n&atilde;o cessava de comer. O sol ia tombando. Os<br \/>\n    dois extraviados ouviram alguns gritos agudos, que pareciam de mulheres. N&atilde;o<br \/>\n    sabiam se esses gritos eram de dor ou de alegria; mas ergueram-se precipitadamente<br \/>\n    com essa inquieta&ccedil;&atilde;o e alarma que tudo inspira em uma regi&atilde;o<br \/>\n    desconhecida. Partiam os clamores de duas raparigas nuas que corriam pela<br \/>\n    orla do bosque, enquanto dois macacos as perseguiam, mordendo-lhes as n&aacute;degas.<br \/>\n    C&acirc;ndido encheu-se de piedade; tinha aprendido a atirar com os b&uacute;lgaros,<br \/>\n    e seria capaz de abater uma noz sem tocar nas folhas. Toma do seu fuzil espanhol<br \/>\n    de dois tiros, faz pontaria e mata os dois macacos.<\/p>\n<p> &#8212; Louvado seja Deus, meu caro Cacambo! Livrei de um grande perigo<br \/>\n    essas duas pobres criaturas; e se cai em pecado matando um inquisidor e um<br \/>\n    jesu&iacute;ta, j&aacute; o remi agora, salvando a vida de duas mulheres.<br \/>\n    Devem ser damas de boa condi&ccedil;&atilde;o, e esta aventura nos pode trazer<br \/>\n    grandes vantagens no pa&iacute;s.<\/p>\n<p> Ia continuar, mas o espanto lhe paralisou a l&iacute;ngua ao ver aquelas<br \/>\n    duas raparigas beijarem ternamente os dois macacos, desatando em pranto sobre<br \/>\n    os seus corpos e enchendo o ar com os gritos mais pungentes.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o esperava tanta bondade de alma &#8211; disse afinal<br \/>\n    a Cacambo, o qual replicou:<\/p>\n<p> &#8212; Bela coisa fez o patr&atilde;o! Acaba de matar os amantes dessas<br \/>\n    mo&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8212; Seus amantes! Ser&aacute; poss&iacute;vel? Est&aacute;s zombando<br \/>\n    de mim, Cacambo. Como vou acreditar numa coisa dessas?<\/p>\n<p> &#8212; O senhor, meu caro patr&atilde;o, anda sempre a espantar-se de tudo;<br \/>\n    por que acha t&atilde;o estranho que nalguns pa&iacute;ses haja macacos que<br \/>\n    obt&eacute;m favores femininos? Eles t&ecirc;m um quarto de homens, como eu<br \/>\n    tenho um quarto de espanhol.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; disse C&acirc;ndido, &#8211; lembro-me de ter ouvido<br \/>\n    a Pangloss que outrora aconteciam tais acidentes, e que tal mescla produzira<br \/>\n    egip&atilde;s, faunos, s&aacute;tiros; que v&aacute;rias personagens da antig&uuml;idade<br \/>\n    os haviam visto; mas eu tomava tudo isso por f&aacute;bulas.<\/p>\n<p> &#8212; Agora deve estar convencido de que &eacute; verdade &#8211; disse<br \/>\n    Cacambo, &#8211; e bem v&ecirc; como se comportam nesse ponto as pessoas que<br \/>\n    n&atilde;o receberam certa educa&ccedil;&atilde;o. O que eu temo &eacute;<br \/>\n    que essas damas nos metam em maus len&ccedil;&oacute;is.<\/p>\n<p> Essas reflex&otilde;es induziram C&acirc;ndido a deixar o prado e meter-se<br \/>\n    no bosque, onde jantaram. E, depois de terem amaldi&ccedil;oado o inquisidor<br \/>\n    de Portugal, o governador de Buenos Aires e o bar&atilde;o, adormeceram sobre<br \/>\n    a relva. Ao despertar, sentiram que n&atilde;o podiam mover-se; era que, durante<br \/>\n    a noite, os orelh&otilde;es, habitantes da regi&atilde;o, a quem as duas damas<br \/>\n    os denunciaram, os haviam amarrado com cip&oacute;s. Estavam cercados de uns<br \/>\n    cinq&uuml;enta orelh&otilde;es nus, armados de flechas, ma&ccedil;as e machados<br \/>\n    de pedra. Uns punham ao fogo uma grande caldeira; outros preparavam espetos.<br \/>\n    E todos gritavam:<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um jesu&iacute;ta, &eacute; um jesu&iacute;ta! Estamos<br \/>\n    vingados! Agora sim! Vamos comer jesu&iacute;ta! Vamos comer jesu&iacute;ta!<\/p>\n<p> &#8212; Bem que eu lhe dizia, patr&atilde;o &#8211; exclamou tristemente<br \/>\n    Cacambo, &#8211; que aquelas duas nos iam pregar uma boa!<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, atentando na caldeira e nos espetos, lamentou-se:<\/p>\n<p> Com toda a certeza vamos ser assados ou fervidos. Ah! o que n&atilde;o diria<br \/>\n    Mestre Pangloss, se visse como &eacute; a pura natureza! Tudo est&aacute;<br \/>\n    bem; seja, mas confesso que &eacute; muito cruel perder a senhorita Cunegundes<br \/>\n    e ser assado ao espeto pelos orelh&otilde;es.<\/p>\n<p> Cacambo, esse, nunca perdia a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o desespere de nada &#8211; disse ele ao desolado C&acirc;ndido.<br \/>\n    &#8211; Entendo um pouco o jarg&atilde;o dessa gente; vou falar-lhes.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o te esque&ccedil;as &#8211; recomendou C&acirc;ndido &#8211;<br \/>\n    de lhes significar o quanto &eacute; desumano cozinhar pessoas, e como esse<br \/>\n    procedimento &eacute; pouco crist&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Senhores &#8211; disse-lhes Cacambo, &#8211; pretendeis comer hoje<br \/>\n    um jesu&iacute;ta: muito bem; nada mais justo do que tratar assim aos inimigos.<br \/>\n    O direito natural nos autoriza, com efeito, a matar o pr&oacute;ximo, e &eacute;<br \/>\n    assim que se faz em toda a terra. Se n&atilde;o usamos do direito de o comer,<br \/>\n    &eacute; que temos com que passar bem de outra maneira; mas v&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    tendes os mesmos recursos que n&oacute;s; e sem d&uacute;vida mais vale comer<br \/>\n    o inimigos que abandonar ao corvos e gralhas o fruto da vit&oacute;ria. Acreditais<br \/>\n    p&ocirc;r um jesu&iacute;ta no espeto, e no entanto &eacute; ao vosso defensor,<br \/>\n    ao inimigo de vossos inimigos que ides assar. Quanto a mim, nasci em vossa<br \/>\n    terra; e o cavalheiro que vede. &eacute; meu patr&atilde;o e, longe de ser<br \/>\n    um jesu&iacute;ta, acaba exatamente de matar um deles e apoderar-se de seus<br \/>\n    despojos: da&iacute; o vosso engano. Para verificar o que vos digo, tomai<br \/>\n    a sua batina e levai-a &agrave; primeira barreira do reino dos Padres; informai-vos<br \/>\n    se o meu patr&atilde;o n&atilde;o matou um oficial jesu&iacute;ta. Isso demandar&aacute;<br \/>\n    pouco tempo; e podereis comer-nos depois, se descobrirdes que estou mentindo.<br \/>\n    Mas eu vos disse a verdade, e muito bem conheceis os princ&iacute;pios do<br \/>\n    direito p&uacute;blico, os costumes e as leis, para que n&atilde;o deixeis<br \/>\n    de nos poupar a vida.<\/p>\n<p> Os orelh&otilde;es acharam muito razo&aacute;vel tal discurso; deputaram<br \/>\n    dois not&aacute;veis para irem em comiss&atilde;o Informar-se da verdade;<br \/>\n    os dois emiss&aacute;rios desempenharam-se a contento e voltaram logo com<br \/>\n    a boa not&iacute;cia. Os orelh&otilde;es soltaram os dois prisioneiros, fizeram-lhes<br \/>\n    toda sorte de gentilezas, ofereceram-lhes mo&ccedil;as, serviram-lhes refrescos<br \/>\n    e os conduziram at&eacute; as fronteiras de seus Estados, gritando alegremente:<br \/>\n    &#8220;Ele n&atilde;o &eacute; jesu&iacute;ta! Ele n&atilde;o &eacute; jesu&iacute;ta!&#8221;<\/p>\n<p> C&acirc;ndido n&atilde;o se cansava de admirar-se do motivo da liberta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8220;Que povo! &#8211; dizia ele. &#8211; Que homens! Que costumes! Se eu<br \/>\n    n&atilde;o tivesse tido a ventura de atravessar a espada o irm&atilde;o da<br \/>\n    senhorita Cunegundes, seria comido sem remiss&atilde;o. Afinal de contas,<br \/>\n    a pura natureza &eacute; boa mesmo, pois essa gente, em vez de me devorar,<br \/>\n    cumulou-me de gentilezas ao saber que eu n&atilde;o era jesu&iacute;ta!<\/p>\n<h4><a name=\"17\">CAP&Iacute;TULO XVII<\/a><\/h4>\n<p> Da chegada de C&acirc;ndido e Cacambo &agrave; terra do Eldorado, e do que<br \/>\n    ali presenciaram.<\/p>\n<p> Chegados que foram &agrave; fronteira, dos orelh&otilde;es, disse Cacambo<br \/>\n    a C&acirc;ndido:<\/p>\n<p> &#8212; Bem v&ecirc; o patr&atilde;o que este hemisf&eacute;rio n&atilde;o<br \/>\n    vale mais que o outro: voltemos &agrave; Europa pelo caminho mais curto.<\/p>\n<p> &#8212; Como voltar? E para onde ir? Se vou para a minha terra, l&aacute;<br \/>\n    andam os b&uacute;lgaros e abaros a degolar a torto e a direito; se volto<br \/>\n    a Portugal, me queimam vivo; se ficamos por aqui, arriscamo-nos a todo momento<br \/>\n    a ir para o espeto. Mas como me resolver a deixar a parte do mundo em que<br \/>\n    reside a senhorita Cunegundes?<\/p>\n<p> &#8212; Vamos para Caiena &#8211; prop&otilde;e Cacambo. &#8211; L&aacute;<br \/>\n    encontraremos franceses, que andam por toda parte; poder&atilde;o ajudar-nos.<br \/>\n    Deus talvez se amerceie de n&oacute;s.<\/p>\n<p> N&atilde;o era f&aacute;cil irem a Caiena; sabiam mais ou menos em que rumo<br \/>\n    deveriam marchar, mas rios, montanhas, precip&iacute;cios, bandoleiros, selvagens,<br \/>\n    constitu&iacute;am por toda parte terr&iacute;veis obst&aacute;culos.<\/p>\n<p> Os cavalos morreram de fadiga; as provis&otilde;es findaram; alimentaram-se<br \/>\n    um m&ecirc;s inteiro de frutos silvestres e foram dar enfim a um rio marginado<br \/>\n    de coqueiros, que lhes sustentaram a vida e as esperan&ccedil;as. Cacambo,<br \/>\n    que dava sempre t&atilde;o bons conselhos como a velha, disse a C&acirc;ndido:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o podemos ag&uuml;entar mais, j&aacute; caminhamos demasiado.<br \/>\n    Vejo uma canoa abandonada &agrave; margem. Vamos ench&ecirc;-la de coco e<br \/>\n    deixemo-nos vogar na correnteza: um rio leva sempre a algum lugar habitado.<br \/>\n    Se n&atilde;o encontrarmos coisas agrad&aacute;veis, encontraremos pelo menos<br \/>\n    coisas novas.<\/p>\n<p> Vamos &#8211; disse C&acirc;ndido, &#8211; e recomendemo-nos &agrave; Provid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Vogaram algumas l&eacute;guas entre margens ora luxuriantes, ora desertas,<br \/>\n    ora planas, ora escarpadas. O rio cada vez se alargava mais, at&eacute; perder-se<br \/>\n    debaixo de uma ab&oacute;bada de rochedos temerosos que se erguiam at&eacute;<br \/>\n    as nuvens. O rio, apertado naquele local, arrastou-os com uma rapidez e fragor<br \/>\n    terr&iacute;veis. Ao cabo de vinte e quatro horas tornaram a ver a luz do<br \/>\n    dia; mas a canoa se espatifou contra os recifes; foi preciso arrastarem-se<br \/>\n    de rochedo em rochedo durante uma l&eacute;gua inteira; afinal descobriram<br \/>\n    um horizonte imenso, bordado de montanhas inacess&iacute;veis.<\/p>\n<p> Toda aquela regi&atilde;o era cultivada tanto para o prazer como para a<br \/>\n    necessidade; por toda parte o &uacute;til era agrad&aacute;vel. Os caminhos<br \/>\n    eram transitados, ou antes, ornados de viaturas de forma original e de um<br \/>\n    material espl&ecirc;ndido, que conduziam homens e mulheres de singular beleza.<br \/>\n    Puxavam-nas grandes carneiros vermelhos que ultrapassavam, em rapidez, os<br \/>\n    mais belos cavalos da Andaluzia, de Tetuan e de Mequinez.<\/p>\n<p> &#8212; C&aacute; est&aacute; &#8211; um pa&iacute;s &#8211; disse C&acirc;ndido<br \/>\n    &#8211; que vale mais do que a Vestf&aacute;lia.<\/p>\n<p> Parou com Cacambo na primeira aldeia que encontraram. Alguns meninos, vestidos<br \/>\n    de brocados de ouro bastante rasgados, jogavam patela &agrave; entrada do<br \/>\n    burgo; os nossos dois homens do outro mundo se distra&iacute;ram a olh&aacute;-los:<br \/>\n    as pedras com que jogavam eram redondas, bastante volumosas, amarelas, vermelhas,<br \/>\n    verdes, e lan&ccedil;avam um brilho singular. Os viajantes sentiram desejos<br \/>\n    de as apanhar; eram pepitas de ouro e esmeraldas e rubis, a menor das quais<br \/>\n    seria o maior ornamento do trono do Gr&atilde;o Mogol.<\/p>\n<p> &#8212; Sem d&uacute;vida &#8211; disse Cacambo, &#8211; s&atilde;o os filhos<br \/>\n    do rei que est&atilde;o jogando patela.<\/p>\n<p> Nesse instante apareceu o mestre-escola, para os fazer regressarem &agrave;.<br \/>\n    aulas.<\/p>\n<p> Eis &#8211; disse C&acirc;ndido &#8211; o preceptor da fam&iacute;lia real.<br \/>\n    Os pequenos maltrapilhos abandonaram imediatamente o jogo, deixando no ch&atilde;o<br \/>\n    as suas pedras e tudo o que lhes servira para o brinquedo. C&acirc;ndido apanha-as,<br \/>\n    corre ao preceptor, e lhas apresenta humildemente, dando-lhe a entender, por<br \/>\n    sinais, que suas Altezas haviam esquecido o seu ouro e pedrarias. O mestre-escola,<br \/>\n    sorrindo, jogou fora tudo aquilo, olhou muito surpreendido para o rosto de<br \/>\n    C&acirc;ndido, e continuou seu caminho.<\/p>\n<p> Os viajantes n&atilde;o deixaram de apanhar o ouro, os rubis e as esmeraldas.<\/p>\n<p> &#8212; Onde estamos? &#8211; exclamou C&acirc;ndido. &#8211; Os pr&iacute;ncipes<br \/>\n    deste pa&iacute;s devem ser multo bem educados, pois lhes ensinam a desprezar<br \/>\n    o ouro e as pedrarias.<\/p>\n<p> Cacambo estava t&atilde;o surpreso como C&acirc;ndido. Aproximaram-se enfim<br \/>\n    da primeira casa da aldeia; era constru&iacute;da como um pal&aacute;cio da<br \/>\n    Europa. Grande multid&atilde;o se acotovelava &agrave; porta, e mais ainda<br \/>\n    no interior da casa, ouvia-se agrad&aacute;vel m&uacute;sica e vinha l&aacute;<br \/>\n    de dentro um delicioso cheiro de cozinha. Cacambo aproximou-se da porta e<br \/>\n    percebeu que falavam peruviano; era a sua l&iacute;ngua materna: pois todo<br \/>\n    o mundo sabe que Cacambo nascera em Tucuman, em uma aldeia onde s&oacute;<br \/>\n    conheciam essa l&iacute;ngua.<\/p>\n<p> &#8212; Isto aqui &eacute; uma estalagem &#8211; disse ele a C&acirc;ndido,<br \/>\n    &#8211; entremos, que eu lhe servirei de int&eacute;rprete.<\/p>\n<p> Em seguida, dois rapazes e duas raparigas da casa, com roupas de tecido<br \/>\n    de ouro e os cabelos atados com fitas, os convidam a sentar-se &agrave; mesa<br \/>\n    comum. Serviram quatro qualidades de sopa, acompanhadas cada uma de dois papagaios,<br \/>\n    um condor ensopado que pesava duzentas libras, dois macacos grelhados de excelente<br \/>\n    gosto, uma travessa com trezentos colibris, massas deliciosas; e tudo em pratos<br \/>\n    de uma esp&eacute;cie de cristal de rocha, os criados e criadas da estalagem<br \/>\n    serviam v&aacute;rias bebidas feitas da cana de a&ccedil;&uacute;car.<\/p>\n<p> Os convivas eram na maior parte comerciantes e cocheiros, todos de extrema<br \/>\n    polidez; fizeram algumas perguntas a Cacambo com a discri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais circunspecta, e responderam &agrave;s suas de maneira satisfat&oacute;ria.<\/p>\n<p> Terminada a refei&ccedil;&atilde;o, Cacambo achou, assim como C&acirc;ndido,<br \/>\n    que pagaria muito bem a sua parte deixando sobre a mesa duas grandes pepitas<br \/>\n    de ouro que apanhara, o que provocou no estalajadeiro e sua mulher uma explos&atilde;o<br \/>\n    de riso, que n&atilde;o acabava mais. Afinal se dominaram: &#8211; Senhores<br \/>\n    &#8211; disse o patr&atilde;o, &#8211; bem vemos que s&atilde;o estrangeiros;<br \/>\n    n&atilde;o estamos acostumados a v&ecirc;-los todos os dias. Perdoem se come&ccedil;amos<br \/>\n    a rir quando nos deram em pagamento as pedras da rua. Com certeza n&atilde;o<br \/>\n    possuem os senhores moeda nacional, mas n&atilde;o &eacute; preciso dinheiro<br \/>\n    para almo&ccedil;ar aqui. Todas as estalagens estabelecidas para comodidade<br \/>\n    do com&eacute;rcio s&atilde;o pagas pelo governo. Os senhores n&atilde;o passaram<br \/>\n    muito bem aqui porque esta &eacute; uma aldeia muito pobre, mas noutras localidades<br \/>\n    h&atilde;o de ser recebidos como merecem. Cacambo explica a C&acirc;ndido<br \/>\n    as palavras do estalajadeiro, e C&acirc;ndido as escutava com a mesma admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e espanto com que seu amigo Cacambo lhas transmitia.<\/p>\n<p> &#8212; Que pais &eacute; este &#8211; pensavam eles, &#8211; desconhecido<br \/>\n    do resto do mundo, e onde toda a natureza &eacute; de uma esp&eacute;cie t&atilde;o<br \/>\n    diferente da nossa? Provavelmente &eacute; o pa&iacute;s onde tudo est&aacute;<br \/>\n    bem &#8211; considerava C&acirc;ndido, &#8211; pois &eacute; preciso absolutamente<br \/>\n    que haja um dessa esp&eacute;cie. E, apesar do que dizia mestre Pangloss,<br \/>\n    muitas vezes desconfiei que tudo estava mal em Vestf&aacute;lia.<\/p>\n<h4><a name=\"18\">CAP&Iacute;TULO XVIII <\/a><\/h4>\n<p><strong>Das coisas que presenciaram na terra do Eldorado.<\/strong><\/p>\n<p> Cacambo manifestou ao hospedeiro toda a sua curiosidade; e este lhe disse:<br \/>\n    &#8211; Sou muito ignorante, e ali&aacute;s me dou bem assim; mas temos aqui<br \/>\n    um velho retirado da Corte, que &eacute; o homem mais s&aacute;bio do reino,<br \/>\n    e muito comunicativo. Em seguida conduz Cacambo &agrave; resid&ecirc;ncia<br \/>\n    do velho. C&acirc;ndido n&atilde;o desempenhava mais que o papel de segunda<br \/>\n    personagem, e acompanhava a seu criado. Entraram numa casa muito simples,<br \/>\n    pois a porta era apenas de prata e as salas modestamente revestidas de ouro,<br \/>\n    mas tudo trabalhado com tanto gosto que nada ficavam a dever aos mais ricos<br \/>\n    lambris. A antec&acirc;mara, na verdade, era incrustada somente de esmeraldas<br \/>\n    e rubis; mas a harmonia do conjunto compensava de sobra essa extrema simplicidade.<\/p>\n<p> O velho recebeu os dois estrangeiros num sof&aacute; forrado de penas de<br \/>\n    colibri, e lhes mandou servir licores em ta&ccedil;as de diamante. Depois<br \/>\n    disso, satisfez-lhes a curiosidade nos seguintes termos:<\/p>\n<p> &#8212; Tenho cento e setenta e dois anos e ouvi de meu falecido pai, escudeiro<br \/>\n    do Rei, as espantosas revolu&ccedil;&otilde;es do Peru, de que ele foi testemunha.<br \/>\n    O reino onde estamos &eacute; a antiga p&aacute;tria dos incas, que daqui<br \/>\n    sa&iacute;ram imprudentemente para ir subjugar uma parte do mundo, e que foram<br \/>\n    afinal reduzidos ao aniquilamento pelos espanh&oacute;is. Mais s&aacute;bios<br \/>\n    se mostraram os pr&iacute;ncipes que permaneceram em seu pa&iacute;s natal;<br \/>\n    ordenaram, com o consentimento da na&ccedil;&atilde;o, que nenhum habitante<br \/>\n    jamais sa&iacute;sse do nosso pequeno reino; e foi isso que nos conservou<br \/>\n    a nossa inoc&ecirc;ncia e felicidade. Os espanh&oacute;is tiveram um confuso<br \/>\n    conhecimento deste pa&iacute;s, a que chamaram Eldorado, e um ingl&ecirc;s,<br \/>\n    o cavaleiro Raleigh. chegou at&eacute; a aproximar-se daqui h&aacute; cerca<br \/>\n    de cem anos; mas, como estamos cercados de rochedos inacess&iacute;veis e<br \/>\n    de precip&iacute;cios, conservamo-nos at&eacute; agora ao abrigo da rapacidade<br \/>\n    dos europeus, que t&ecirc;m uma inconceb&iacute;vel loucura pelas pedras e<br \/>\n    a lama da nossa terra, e que, para as conseguir, s&atilde;o capazes de nos<br \/>\n    matar a todos, at&eacute; o &uacute;ltimo.<\/p>\n<p> A conversa&ccedil;&atilde;o foi longa; versou sobre a forma de governo,<br \/>\n    os costumes, as mulheres, os espet&aacute;culos p&uacute;blicos, as artes.<br \/>\n    Afinal C&acirc;ndido, que sempre tivera gosto pela metaf&iacute;sica, indagou,<br \/>\n    por interm&eacute;dio de Cacambo, se no pa&iacute;s n&atilde;o havia uma religi&atilde;o.<\/p>\n<p> O velho enrubesceu um pouco.<\/p>\n<p> &#8212; Como pode o senhor duvidar de tal coisa? &#8211; perguntou ele.<br \/>\n    &#8211; Ser&aacute; que nos toma por ingratos?<\/p>\n<p> Cacambo perguntou humildemente qual era a religi&atilde;o do Eldorado.<\/p>\n<p> O velho corou de novo.<\/p>\n<p> &#8212; Acaso pode haver duas religi&otilde;es? &#8211; disse ele. &#8211;<br \/>\n    Temos, creio eu, a religi&atilde;o de todo o mundo: adoramos a Deus dia e<br \/>\n    noite.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o adoram sen&atilde;o a um &uacute;nico Deus? &#8211; interrogou<br \/>\n    Cacambo, sempre servindo de int&eacute;rprete &agrave;s d&uacute;vidas de<br \/>\n    C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Quer-me parecer &#8211; tornou o velho, formalizado, &#8211; que<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; nem dois, nem tr&ecirc;s, nem quatro deuses. Francamente,<br \/>\n    fazem cada pergunta!<\/p>\n<p> C&acirc;ndido n&atilde;o se cansava de interrogar o bom do velho; quis saber<br \/>\n    como rezavam a Deus no Eldorado.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhe rezamos &#8211; disse o bom e respeit&aacute;vel s&aacute;bio.<br \/>\n    &#8211; Nada temos que lhe pedir; ele nos deu tudo o que precisamos; n&oacute;s<br \/>\n    lhe agradecemos sem cessar.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido teve curiosidade de ver os sacerdotes; e perguntou onde estavam.<\/p>\n<p> O bom do velho sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; Meus amigos &#8211; disse ele, &#8211; nos todos somos sacerdotes;<br \/>\n    cada manh&atilde;, o rei e todos os chefes de fam&iacute;lia entoam, solenemente,<br \/>\n    c&acirc;nticos de a&ccedil;&otilde;es de gra&ccedil;a; e cinco ou seis mil<br \/>\n    m&uacute;sicos os acompanham.<\/p>\n<p> &#8212; Como, os senhores n&atilde;o t&ecirc;m padres que ensinam, que disputam,<br \/>\n    que governam, que cabalam, e que mandam queimar as pessoas que n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o da sua opini&atilde;o?<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute; se f&ocirc;ssemos loucos- disse o velho. &#8211; Aqui<br \/>\n    somos todos da mesma opini&atilde;o, e n&atilde;o entendemos o que quer o<br \/>\n    senhor dizer com os seus padres.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, a cada uma dessas palavras, cala em &ecirc;xtase e dizia<br \/>\n    consigo: &#8220;Como tudo isto &eacute; diferente da Vestf&aacute;lia e do<br \/>\n    castelo do senhor bar&atilde;o! Se o nosso amigo Pangloss visse o Eldorado,<br \/>\n    n&atilde;o diria mais que o castelo de Thunder-ten-tronckh era o que havia<br \/>\n    de melhor sobre a face da terra; n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que<br \/>\n    &eacute; preciso viajar&#8221;.<\/p>\n<p> Depois dessa longa conversa&ccedil;&atilde;o, o velho mandou atrelar uma<br \/>\n    carruagem de seis carneiros e cedeu, aos dois viajantes, doze de seus criados,<br \/>\n    para os conduzirem &agrave; Corte.<\/p>\n<p> &#8212; Desculpem-me &#8211; lhes disse ele, &#8211; se a minha idade me<br \/>\n    priva da honra de os acompanhar, o Rei os receber&aacute; de maneira que n&atilde;o<br \/>\n    fiquem descontentes; e sem d&uacute;vida h&atilde;o de perdoar aos costumes<br \/>\n    do pa&iacute;s, se houver alguns que lhes desagradem.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido e Cacambo sobem na carruagem; os seis carneiros voavam, e<br \/>\n    em menos de duas horas chegaram os visitantes ao pal&aacute;cio do rei, situado<br \/>\n    num extremo da capital. O p&oacute;rtico media duzentos e vinte p&eacute;s<br \/>\n    de altura por cem de largura; imposs&iacute;vel dizer de que material era<br \/>\n    constru&iacute;do. Mas bem se imagina que superioridade prodigiosa n&atilde;o<br \/>\n    deveria ter sobre esses calhaus a que chamamos ouro e pedrarias.<\/p>\n<p> Vinte belas mo&ccedil;as da guarda real receberam C&acirc;ndido e Cacambo<br \/>\n    &agrave; entrada, conduziram-nos aos banhos, vestiram-nos com uma roupa de<br \/>\n    um tecido de penugem de colibri, Depois disso, os altos dignit&aacute;rios<br \/>\n    e as altas dignit&aacute;rias da Coroa os levaram ao apartamento de Sua Majestade,<br \/>\n    em meio de duas filas de mil m&uacute;sicos cada uma, segundo o costume ordin&aacute;rio.<br \/>\n    Quando se aproximavam da sala do trono, perguntou Cacambo a um alto dignit&aacute;rio<br \/>\n    como se deveria fazer para saudar a Sua Majestade; se a gente se lan&ccedil;ava<br \/>\n    de joelhos ou de bru&ccedil;os; se devia p&ocirc;r as m&atilde;os na cabe&ccedil;a<br \/>\n    ou &agrave;s costas; se era preciso lamber a poeira da sala; numa palavra,<br \/>\n    qual era o cerimonial. &#8220;O uso &#8211; disse o alto dignit&aacute;rio<br \/>\n    &#8211; &eacute; abra&ccedil;ar o rei e beij&aacute;-lo nas duas faces&#8221;,<br \/>\n    C&acirc;ndido e Cacambo saltaram ao pesco&ccedil;o de Sua Majestade, que os<br \/>\n    recebeu com toda a gra&ccedil;a imagin&aacute;vel e os convidou polidamente<br \/>\n    para cear.<\/p>\n<p> Enquanto esperavam, mostraram-lhes a cidade, os edif&iacute;cios p&uacute;blicos<br \/>\n    que iam at&eacute; as nuvens, os mercados de mil colunas, as fontes de &aacute;gua<br \/>\n    pura, as fontes de &aacute;gua de rosas, as de licor de cana de a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    que corriam continuamente nas grandes pra&ccedil;as, pavimentadas de uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de pedraria que exalava um cheiro semelhante ao do cravo e da canela. C&acirc;ndido<br \/>\n    pediu para ver o pal&aacute;cio da justi&ccedil;a; disseram-lhe que era coisa<br \/>\n    que n&atilde;o havia e que n&atilde;o pleiteavam nunca. Informou-se se havia<br \/>\n    pris&otilde;es, e disseram-lhe que n&atilde;o, o que mais o surpreendeu, e<br \/>\n    maior prazer lhe causou, foi o pal&aacute;cio das ci&ecirc;ncias, no qual<br \/>\n    viu uma galeria de dois mil passos, cheia de instrumentos de matem&aacute;tica<br \/>\n    e f&iacute;sica.<\/p>\n<p> Depois de haverem percorrido, toda a tarde, mais ou menos a mil&eacute;sima<br \/>\n    parte da cidade, reconduziram-nos a pal&aacute;cio. C&acirc;ndido sentou-se<br \/>\n    &agrave; mesa entre Sua Majestade, seu criado, Cacambo e v&aacute;rias damas.<br \/>\n    Jamais houve melhor passadio, e nunca se demonstrou tanto esp&iacute;rito<br \/>\n    &agrave; mesa como Sua Majestade. Cacambo explicava as frases do rei a C&acirc;ndido,<br \/>\n    as quais, embora traduzidas, pareciam sempre boas frases. De tudo quanto espantava<br \/>\n    C&acirc;ndido, n&atilde;o foi isso o que menos o espantou.<\/p>\n<p> Passaram um m&ecirc;s de h&oacute;spedes. C&acirc;ndido n&atilde;o cessava<br \/>\n    de confessar a Cacambo:<\/p>\n<p> &#8212; Mais uma vez te digo que o castelo onde nasci n&atilde;o vale, na<br \/>\n    verdade, o pa&iacute;s em que nos achamos; mas, afinal de contas, aqui n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; a senhorita Cunegundes, e tu, sem d&uacute;vida, amas algu&eacute;m<br \/>\n    na Europa. Se ficarmos aqui, n&atilde;o seremos mais que os outros; ao passo<br \/>\n    que, se voltarmos para o nosso mundo apenas com doze carneiros carregados<br \/>\n    com o cascalho do Eldorado, seremos mais ricos que todos os reis em conjunto,<br \/>\n    n&atilde;o mais teremos que temer a inquisidores e poderemos facilmente recuperar<br \/>\n    a senhorita Cunegundes.<\/p>\n<p> Tais palavras agradaram a Cacambo. O fato &eacute; que a gente gosta tanto<br \/>\n    de fazer-se valer entre os seus, de paradear o que viu pelo mundo, que os<br \/>\n    dois felizardos resolveram n&atilde;o mais o ser, e pediram a Sua Majestade<br \/>\n    licen&ccedil;a para deixar o pa&iacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Cometeis uma tolice &#8211; lhes disse o rei. &#8211; Bem sei que<br \/>\n    o meu pa&iacute;s pouco vale; mas, quando se est&aacute; passavelmente nalguma<br \/>\n    parte, o mais acertado &eacute; n&atilde;o mudar de ares. N&atilde;o me assiste<br \/>\n    o direito de reter a estrangeiros; seria uma tirania que n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    nem nos nossos costumes nem nas nossas leis: todos os homens s&atilde;o livres;<br \/>\n    podeis partir quando bem quiserdes; a sa&iacute;da, por&eacute;m, &eacute;<br \/>\n    muito dif&iacute;cil. &Eacute; imposs&iacute;vel remontar a r&aacute;pida<br \/>\n    torrente sobre a qual chegastes por milagre e que corre sob as ab&oacute;badas<br \/>\n    dos rochedos. As montanhas, que circundam todo o meu reino, t&ecirc;m dez<br \/>\n    mil p&eacute;s de altura e s&atilde;o verticais como muralhas; ocupam cada<br \/>\n    uma, em largura, um espa&ccedil;o de mais de dez l&eacute;guas; e, depois<br \/>\n    de galgadas, s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel desce-las por perigosos precip&iacute;cios.<br \/>\n    No entanto, se quereis absolutamente partir, vou ordenar aos intendentes das<br \/>\n    m&aacute;quinas que construam uma que vos possa transportar comodamente. Depois<br \/>\n    de vos conduzirem ao alto das montanhas, ningu&eacute;m vos poder&aacute;<br \/>\n    acompanhar; pois os meus s&uacute;ditos fizeram o juramento de nunca sair<br \/>\n    desse recinto, e s&atilde;o bastante sensatos para que possam faltar &agrave;<br \/>\n    palavra. Podeis, em todo caso, pedir-me tudo o que quiserdes.<\/p>\n<p> &#8212; Apenas pedimos a Vossa Majestade &#8211; disse Cacambo &#8211; alguns<br \/>\n    carneiros carregados de v&iacute;veres e dessas pedras e da lama do Eldorado.<\/p>\n<p> O rei p&ocirc;s-se a rir.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o posso conceber &#8211; disse ele &#8211; que gosto t&ecirc;m<br \/>\n    os europeus pela nossa lama amarela, mas levai quanta quiserdes e bom proveito<br \/>\n    vos fa&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ordenou imediatamente que seus engenheiros constru&iacute;ssem uma poderosa<br \/>\n    m&aacute;quina para guindar al&eacute;m do reino aqueles dois homens extraordin&aacute;rios.<br \/>\n    Tr&ecirc;s mil bons f&iacute;sicos puseram m&atilde;os &agrave; obra; ficou<br \/>\n    pronta ao cabo de quinze dias, e n&atilde;o custou mais de vinte milh&otilde;es<br \/>\n    de libras esterlinas, na moeda do pa&iacute;s. Puseram C&acirc;ndido e Cacambo<br \/>\n    sobre a m&aacute;quina; havia dois grandes carneiros vermelhos para lhes servirem<br \/>\n    de montaria quando houvessem franqueado as montanhas, &#8211; vinte -, outros<br \/>\n    carregados de viveres, trinta com presentes do que o pa&iacute;s possu&iacute;a<br \/>\n    de mais curioso, e cinq&uuml;enta carregados de ouro, de pedrarias e diamantes,<br \/>\n    o rei beijou afavelmente os dois vagabundos.<\/p>\n<p> Foi um belo espet&aacute;culo a sua partida, e a engenhosa maneira como<br \/>\n    foram i&ccedil;ados, eles e os carneiros, ao alto das montanhas. Os f&iacute;sicos<br \/>\n    se despediram depois de os ter deixado em seguran&ccedil;a. E C&acirc;ndido<br \/>\n    n&atilde;o teve mais outro desejo e objeto que ir apresentar seus carneiros<br \/>\n    &agrave; senhorita Cunegundes.<\/p>\n<p> &#8212; Temos &#8211; disse ele &#8211; com que pagar ao governador de Buenos<br \/>\n    Aires, se a senhorita Cunegundes pudesse ser posta a pr&ecirc;mio. Marchemos<br \/>\n    para Caiena, embarquemos, e veremos depois que reino se poder&aacute; comprar.<\/p>\n<h4><a name=\"19\">CAP&Iacute;TULO XIX<\/a><\/h4>\n<p><strong>Do que lhes sucedeu no Surinam e de como C&acirc;ndido travou conhecimento<br \/>\n    com Martinho.<\/strong><\/p>\n<p> O primeiro dia dos nossos dois viajantes foi bastante agrad&aacute;vel.<br \/>\n    Animava-os a id&eacute;ia de se saberem donos de mais tesouros do que poderiam<br \/>\n    reunir a &Aacute;sia, a Europa e a &Aacute;frica. C&acirc;ndido, transportado,<br \/>\n    ia gravando nas &aacute;rvores o nome de Cunegundes. No dia seguinte, dois<br \/>\n    dos carneiros tombaram num p&acirc;ntano, desaparecendo com a carga; dois<br \/>\n    outros morreram de fadiga alguns dias depois; sete ou oito pereceram em seguida<br \/>\n    de fome num deserto; outros, ao fim de alguns dias, tombaram em precip&iacute;cios.<br \/>\n    Afinal, ap&oacute;s cem dias de marcha, s&oacute; lhes restavam dois carneiros.<\/p>\n<p> &#8212; V&ecirc;, meu amigo &#8211; disse C&acirc;ndido a Cacambo, &#8211;<br \/>\n    como s&atilde;o perec&iacute;veis as riquezas do mundo; s&oacute; h&aacute;<br \/>\n    de s&oacute;lido a virtude, e a ventura de tornar a ver a senhorita Cunegundes.<\/p>\n<p> &#8211; Confesso-o &#8211; disse Cacambo, &#8211; mas restam-nos ainda dois<br \/>\n    carneiros com maiores riquezas do que jamais as poder&aacute; ter o rei da<br \/>\n    Espanha, e vejo ao longe uma cidade que suponho ser Surinam, pertencente aos<br \/>\n    holandeses. Estamos no fim de nossas penas e o come&ccedil;o de nossa felicidade.<br \/>\n    Quando se aproximavam da cidade, encontraram um negro ca&iacute;do no ch&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o tendo mais que metade do vestu&aacute;rio, isto &eacute;, umas<br \/>\n    cal&ccedil;as de pano azul; faltava &agrave;quele pobre homem a perna esquerda<br \/>\n    e a m&atilde;o direita. &#8212; Meu Deus! &#8211; lhe disse C&acirc;ndido<br \/>\n    em holand&ecirc;s. &#8211; Que fazes a&iacute;, meu amigo, no horr&iacute;vel<br \/>\n    estado em que te vejo?<\/p>\n<p> &#8212; Espero meu patr&atilde;o, o famoso negociante senhor Vanderdendur.<\/p>\n<p> &#8212; E foi o senhor Vanderdendur quem te deixou nesse estado?<\/p>\n<p> &#8212; Sim, &eacute; o costume &#8211; disse o negro. &#8211; Por todo<br \/>\n    vestu&aacute;rio, d&atilde;o-nos umas cal&ccedil;as duas vezes por ano. Quando<br \/>\n    trabalhamos nas usinas de a&ccedil;&uacute;car e o rebolo nos apanha o dedo,<br \/>\n    cortam-nos a m&atilde;o; quando tentamos fugir, cortam-nos a perna: incorri<br \/>\n    em ambos os casos. &Eacute; por esse pre&ccedil;o que os senhores comem a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    na Europa. No entanto, quando me vendeu por dois escudos patag&ocirc;nicos<br \/>\n    na Costa da Guin&eacute;, minha m&atilde;e me dizia: &#8220;Bendiz a nossos<br \/>\n    fetiches, meu querido filho, adora-os sempre, eles far&atilde;o com que vivas<br \/>\n    feliz; tens a honra de ser escravo dos nossos senhores brancos, e com isso<br \/>\n    fazes a fortuna de teu pai e de tua m&atilde;e&#8221;. Ai! se fiz a fortuna<br \/>\n    deles &eacute; coisa que eu n&atilde;o sei, mas eles n&atilde;o fizeram a<br \/>\n    minha. Os cachorros, macacos. e papagaios s&atilde;o mil vezes menos infelizes<br \/>\n    que n&oacute;s. Todos os domingos, os fetiches holandeses que me converteram<br \/>\n    me dizem que n&oacute;s, brancos e negros, somos todos filhos de Ad&atilde;o<br \/>\n    N&atilde;o sou genealogista mas se esses pregadores dizem a verdade, somos<br \/>\n    todos primos-irm&atilde;os. Ora, h&atilde;o de confessar-me que &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    tratar os parentes de modo mais horr&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; Pangloss! &#8211; exclamou C&acirc;ndido. &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    tinhas imaginado esta abomina&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio,<br \/>\n    acabo renegando o teu otimismo.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; otimismo? &#8211; Indagou Cacambo.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; a mania de sustentar que tudo est&aacute; bem quando tudo<br \/>\n    est&aacute; mal &#8211; suspirou, C&acirc;ndido. E derramava l&aacute;grimas<br \/>\n    ao contemplar o negro, e, assim chorando, entrou em Surinam.<\/p>\n<p> A primeira coisa de que se informam &eacute; se n&atilde;o haveria no porto<br \/>\n    algum navio que se pudesse enviar a Buenos Aires. Aquele a quem se dirigiram<br \/>\n    era justamente um capit&atilde;o espanhol, que se ofereceu para fechar com<br \/>\n    eles um honesto contrato. Marcou-lhes encontro numa taverna. C&acirc;ndido<br \/>\n    e o fiel Cacambo foram esper&aacute;-lo com seus dois carneiros.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, que tinha o cora&ccedil;&atilde;o na boca, contou ao espanhol<br \/>\n    todas as suas aventuras, e confessou-lhe que queria raptar a senhorita Cunegundes.<\/p>\n<p> &#8212; Deus me livre de o levar a Buenos Aires &#8211; disse o capit&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Eu seria enforcado, e o senhor tamb&eacute;m. A bela Cunegundes &eacute;<br \/>\n    a amante favorita do senhor governador. Tais palavras causaram em C&acirc;ndido<br \/>\n    o efeito de um raio.<\/p>\n<p> Depois de muito chorar, chamou Cacambo &agrave; parte:<\/p>\n<p> &#8212; Eis o que deves fazer, meu caro amigo. Temos cada um no bolso uns<br \/>\n    cinco ou seis milh&otilde;es em diamantes; tu &eacute;s mais h&aacute;bil<br \/>\n    do que eu; vai buscar a senhorita Cunegundes em Buenos Aires. Se o governador<br \/>\n    opuser algumas dificuldades, d&aacute;-lhe um milh&atilde;o; se n&atilde;o<br \/>\n    render-se, d&aacute;-lhe dois; n&atilde;o mataste nenhum inquisidor, ningu&eacute;m<br \/>\n    desconfiar&aacute; de ti. Equiparei outro navio; irei esperar-te em Veneza;<br \/>\n    &eacute; um pa&iacute;s livre, onde nada se tem a temer nem de b&uacute;lgaros,<br \/>\n    nem de abaros, nem de judeus, nem de inquisidores. Cacambo aplaudiu esta s&aacute;bia<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o. Achava-se desesperado por ter de separar-se de um<br \/>\n    bom patr&atilde;o, que se tornara seu amigo &iacute;ntimo; mas o prazer de<br \/>\n    lhe ser &uacute;til venceu a dor de o deixar. Abra&ccedil;aram-se em pranto.<br \/>\n    C&acirc;ndido recomendou-lhe que n&atilde;o se esquecesse da boa velha. Cacambo<br \/>\n    partiu no mesmo dia: era um excelente homem, esse Cacambo.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido permaneceu ainda algum tempo em Surinam, esperando que outro<br \/>\n    comandante quisesse lev&aacute;-lo &agrave; It&aacute;lia, com os dois carneiros<br \/>\n    que lhe restavam. Contratou criados e adquiriu o necess&aacute;rio para t&atilde;o<br \/>\n    longa viagem. Afinal o senhor Vanderdendur, capit&atilde;o de um grande navio,<br \/>\n    veio apresentar-se a ele.<\/p>\n<p> &#8212; Quanto quer &#8211; perguntou-lhe C&acirc;ndido &#8211; para me<br \/>\n    levar diretamente a Veneza, com o meu pessoal, a minha bagagem e estes dois<br \/>\n    carneiros?<\/p>\n<p> O capit&atilde;o prop&ocirc;s dez mil piastras. C&acirc;ndido n&atilde;o<br \/>\n    hesitou.<\/p>\n<p> Oh! Oh! &#8211; disse consigo o prudente Vanderdendur, esse estrangeiro<br \/>\n    desembolsa dez mil piastras sem pestanejar! Deve ter muito dinheiro!<\/p>\n<p> Voltando logo depois, fez-lhe ver que n&atilde;o poderia partir por menos<br \/>\n    de vinte mil.<\/p>\n<p> &#8212; Por isso n&atilde;o haja d&uacute;vida &#8211; disse C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Sim senhor! &#8211; disse baixinho o comandante. &#8211; Com que<br \/>\n    ent&atilde;o esse homem d&aacute; vinte mil piastras com a mesma facilidade<br \/>\n    com que desembolsa dez mil!! <\/p>\n<p> Voltou de novo e disse que n&atilde;o podia conduzi-lo a Veneza por menos<br \/>\n    de trinta mil piastras.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, o senhor ter&aacute; as suas trinta mil piastras &#8211; respondeu<br \/>\n    C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Oh! Oh! &#8211; pensou ainda, o holand&ecirc;s. &#8211; Trinta mil<br \/>\n    piastras n&atilde;o custam nada a esse homem. Decerto os dois carneiros carregam<br \/>\n    tesouros imensos. N&atilde;o insistamos: agora &eacute; receber as trinta<br \/>\n    mil. Depois veremos.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido vendeu dois pequenos diamantes, o menor dos quais valia mais<br \/>\n    que todo o dinheiro que exigia o capit&atilde;o. Pagou adiantado. Foram embarcados<br \/>\n    os dois carneiros. C&acirc;ndido seguia num pequeno barco para alcan&ccedil;ar<br \/>\n    o navio na enseada; o patr&atilde;o n&atilde;o perde tempo, p&otilde;e o navio<br \/>\n    em marcha; o vento o favorece. C&acirc;ndido, estupefato e desvairado, perde-o<br \/>\n    logo de vista. &#8220;Ela um golpe digno do velho mundo!&#8221; &#8211; exclama<br \/>\n    ele. Volta para a margem, cheio de dor; pois afinal de contas perdera o bastante<br \/>\n    para fazer a fortuna de vinte monarcas.<\/p>\n<p> Vai ter com o juiz holand&ecirc;s; e, como estava um pouco perturbado, bate<br \/>\n    violentamente &agrave; porta; entra e exp&otilde;e a sua aventura, gritando<br \/>\n    um pouco mais alto do que convinha. O juiz come&ccedil;ou por obrig&aacute;-lo<br \/>\n    a pagar dez mil piastras pelo barulho que fizera. Depois escutou-o pacientemente<br \/>\n    e prometeu examinar o seu caso logo que o capit&atilde;o regressasse, e cobrou<br \/>\n    mais dez mil piastras pelos gastos da audi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Isso acabou de exasperar a C&acirc;ndido; passara na verdade &#8211; por<br \/>\n    coisas dez mil vezes mais dolorosas, mas o sangue frio do juiz e do comandante<br \/>\n    que o roubara lhe assanharam a b&iacute;lis, mergulhando-o em negra melancolia.<br \/>\n    A maldade dos homens apresentava-se-lhe ao espirito em toda a sua hediondez:<br \/>\n    C&acirc;ndido s&oacute; alimentava id&eacute;ias tristes. Afinal, estando<br \/>\n    um navio franc&ecirc;s de partida para Bord&eacute;us, e como ele n&atilde;o<br \/>\n    mais tinha carneiros carregados de diamantes para embarcar, alugou a pre&ccedil;o<br \/>\n    razo&aacute;vel um camarote, mandando espalhar pela cidade que pagaria a passagem,<br \/>\n    a comida, e daria duas mil piastras, ao homem que fizesse a viagem em sua<br \/>\n    companhia, sob a condi&ccedil;&atilde;o de que esse fosse o homem mais desgostoso<br \/>\n    da sua condi&ccedil;&atilde;o e o mais infeliz da prov&iacute;ncia.<\/p>\n<p> Apresentou-se uma multid&atilde;o de pretendentes que uma frota n&atilde;o<br \/>\n    poderia conter. C&acirc;ndido escolheu umas vinte pessoas que lhe pareceram<br \/>\n    bastante soci&aacute;veis e que pretendiam merecer a prefer&ecirc;ncia. Convidou-as<br \/>\n    a cear numa estalagem, com a condi&ccedil;&atilde;o de que cada uma jurasse<br \/>\n    contar fielmente a sua hist&oacute;ria, prometendo escolher aquele que lhe<br \/>\n    parecesse mais digno de l&aacute;stima e mais raz&otilde;es tivesse de descontentamento,<br \/>\n    e distribuir aos outros algumas gratifica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> A sess&atilde;o durou at&eacute; as quatro da madrugada. C&acirc;ndido,<br \/>\n    escutando todas aquelas aventuras, lembrava-se do que lhe dissera a velha<br \/>\n    na viagem para Buenos Aires, e da aposta que fizera, de que n&atilde;o havia<br \/>\n    ningu&eacute;m a bordo a quem n&atilde;o houvessem acontecido as maiores desgra&ccedil;as.<br \/>\n    &#8220;Esse Pangloss &#8211; pensava ele &#8211; deveria ficar muito embara&ccedil;ado<br \/>\n    para demonstrar o seu sistema. Queria que ele estivesse aqui. Certamente,<br \/>\n    se tudo vai bem, &eacute; no Eldorado, e n&atilde;o no resto da terra&#8221;.<br \/>\n    Decidiu-se afinal per um pobre s&aacute;bio que trabalhara dez anos para os<br \/>\n    livreiros de Amsterd&atilde;. Julgou que n&atilde;o havia of&iacute;cio no<br \/>\n    mundo de que se pudesse ficar mais desgostado.<\/p>\n<p> O referido s&aacute;bio, que era ali&aacute;s um excelente homem, for a<br \/>\n    roubado pela mulher, batido pelo filho e abandonado pela filha, que se fizera<br \/>\n    raptar por um portugu&ecirc;s. Acabava de ser privado de um modesto emprego<br \/>\n    de que vivia, e os pregadores de Surinam o perseguiam porque o tomavam por<br \/>\n    sociniano. Cumpre confessar que os outros eram pelo menos t&atilde;o infelizes<br \/>\n    quanto ele; mas C&acirc;ndido esperava que o s&aacute;bio o distra&iacute;sse<br \/>\n    durante a viagem. Os rivais acharam que C&acirc;ndido lhes fazia uma grande<br \/>\n    injusti&ccedil;a, mas este os sossegou, dando cem piastras a cada um.<\/p>\n<h4><a name=\"20\">CAP&Iacute;TULO XX<\/a><\/h4>\n<p><strong>Do que aconteceu a C&acirc;ndido e Martinho durante a viagem.<\/strong><\/p>\n<p> O velho s&aacute;bio, que se chamava Martinho, embarcou pois para Bord&eacute;us<br \/>\n    em companhia de C&acirc;ndido. Um e outro j&aacute; tinham muito visto e sofrido;<br \/>\n    e, mesmo que o navio zarpasse de Surinam para o Jap&atilde;o, pelo cabo da<br \/>\n    Boa Esperan&ccedil;a, teriam eles com que discorrer sobre o mal moral e o<br \/>\n    mal f&iacute;sico durante toda a viagem.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, no entanto, levava grande vantagem sobre Martinho: esperava<br \/>\n    rever a senhorita Cunegundes, e Martinho n&atilde;o esperava coisa alguma;<br \/>\n    de mais a mais, possu&iacute;a ouro e diamantes; e, embora houvesse perdido<br \/>\n    cem grandes carneiros vermelhos carregados dos maiores tesouros da terra,<br \/>\n    embora continuasse a doer-lhe a velhacaria do capit&atilde;o holand&ecirc;s,<br \/>\n    quando pensava no que lhe restava nos bolsos, e quando falava de Cunegundes,<br \/>\n    sobretudo ao fim do jantar, sentia-se ent&atilde;o inclinado para o sistema<br \/>\n    de Pangloss.<\/p>\n<p> &#8212; Mas e o senhor &#8211; perguntou ele a Martinho, &#8211; que pensa<br \/>\n    de tudo isso? Qual &eacute; a sua id&eacute;ia sobre o mal moral e o mal f&iacute;sico?<\/p>\n<p> &#8212; Senhor &#8211; respondeu Martinho, &#8211; os sacerdotes me acusaram<br \/>\n    de sociniano; mas a verdade &eacute; que eu sou maniqueu.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor est&aacute; tro&ccedil;ando &#8211; observou C&acirc;ndido,<br \/>\n    &#8211; pois n&atilde;o existem mais maniqueus no mundo.<\/p>\n<p> &#8212; Existo eu &#8211; protestou Martinho, &#8211; n&atilde;o sei o que<br \/>\n    fazer, mas n&atilde;o posso pensar de outra maneira.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor deve estar com o diabo no corpo &#8211; disse C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Tanto se mete ele nas coisas deste mundo &#8211; respondeu Martinho,<br \/>\n    &#8211; que bem poderia estar no meu corpo, como em toda parte ali&aacute;s.<br \/>\n    Mas confesso-lhe que, lan&ccedil;ando o olhar sobre este globo, ou antes,<br \/>\n    sobre este gl&oacute;bulo, penso que Deus o abandonou a algum ser mal&eacute;fico;<br \/>\n    excetuo contudo o Eldorado. Nunca vi cidade que n&atilde;o desejasse a ru&iacute;na<br \/>\n    da cidade vizinha, nem fam&iacute;lia que n&atilde;o quisesse exterminar alguma<br \/>\n    outra fam&iacute;lia. Por toda parte, os fracos abominam os poderosos perante<br \/>\n    os quais rastejam, e os poderosos os tratam como rebanhos de que vendem a<br \/>\n    l&atilde; e a carne. Um milh&atilde;o de assassinos arregimentados, correndo<br \/>\n    de um a outro extremo da Europa, exercem o mortic&iacute;nio e a pilhagem<br \/>\n    com toda a disciplina, porque n&atilde;o t&ecirc;m of&iacute;cio mais honrado;<br \/>\n    e, nas cidades que parecem desfrutar da paz e onde florescem as artes, os<br \/>\n    homens s&atilde;o devorados de mais inveja, de mais cuidados e inquieta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do que experimenta de flagelos uma cidade cercada pelo inimigo. Os pesares<br \/>\n    secretos s&atilde;o ainda mais cru&eacute;is do que as mis&eacute;rias p&uacute;blicas.<br \/>\n    Numa palavra, tanto vi e tanto sofri, que sou maniqueu.<\/p>\n<p> &#8212; No entanto, algo existe de bom &#8211; replicava C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Pode ser &#8211; dizia Martinho, &#8211; mas n&atilde;o o conhe&ccedil;o.<br \/>\n    Em meio a essa disputa, ouve-se um ru&iacute;do de canh&atilde;o. O fragor<br \/>\n    redobra de instante a instante. Cada qual empunha a sua luneta. Avistam-se<br \/>\n    dois navios que combatiam a uma dist&acirc;ncia de cerca de tr&ecirc;s milhas;<br \/>\n    o vento os arrastou para t&atilde;o pr&oacute;ximo do navio franc&ecirc;s,<br \/>\n    que todos tiveram o prazer de assistir comodamente ao combate. Afinal um dos<br \/>\n    navios mandou ao outro um tiro t&atilde;o baixo e t&atilde;o certeiro, que<br \/>\n    o p&ocirc;s a pique. C&acirc;ndido e Martinho avistaram nitidamente uma centena<br \/>\n    de homens sobre o conv&eacute;s do navio que afundava; erguiam todos as m&atilde;os<br \/>\n    ao c&eacute;u e lan&ccedil;avam terr&iacute;veis clamores; em um momento,<br \/>\n    tudo desapareceu.<\/p>\n<p> &#8212; Bem! Eis como se tratam os homens uns aos outros &#8211; disse Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; bem verdade &#8211; assentiu C&acirc;ndido &#8211; que<br \/>\n    h&aacute; nisso alguma coisa de diab&oacute;lico.<\/p>\n<p> Enquanto assim falava, percebeu um vulto de um vermelho vivo, que nadava<br \/>\n    perto do navio. Baixaram uma chalupa para ver o que seria: era um de seus<br \/>\n    carneiros. Maior foi a alegra de C&acirc;ndido ao encontrar aquele carneiro<br \/>\n    do que a sua afli&ccedil;&atilde;o ao perder cem deles com os diamantes do<br \/>\n    Eldorado.<\/p>\n<p> O capit&atilde;o franc&ecirc;s viu logo que o capit&atilde;o do navio vencedor<br \/>\n    era espanhol, e o do navio afundado um pirata holand&ecirc;s, exatamente o<br \/>\n    mesmo que roubara a C&acirc;ndido. As riquezas imensas de que se apoderara<br \/>\n    o celerado foram sepultadas com ele no fundo do mar, e, do que vinha a bordo,<br \/>\n    s&oacute; se salvou um carneiro.<\/p>\n<p> &#8212; Bem v&ecirc; &#8211; disse C&acirc;ndido a Martinho &#8211; que<br \/>\n    o crime &eacute; &agrave;s vezes punido; esse patife do capit&atilde;o holand&ecirc;s<br \/>\n    teve a sorte que merecia.<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; disse Martinho, &#8211; mas era preciso que os passageiros<br \/>\n    que estavam a bordo tamb&eacute;m perecessem? Deus puniu esse patife, o diabo<br \/>\n    afogou os outros.<\/p>\n<p> Entrementes, o navio franc&ecirc;s e o espanhol continuaram viagem, e C&acirc;ndido<br \/>\n    continuou suas conversa&ccedil;&otilde;es com Martinho. Discutiram quinze<br \/>\n    dias seguidos, e, ao fim de quinze dias, estavam t&atilde;o adiantados como<br \/>\n    no primeiro. Mas afinal falavam, trocavam id&eacute;ias, consolavam-se C&acirc;ndido<br \/>\n    acariciava o seu carneiro. &#8220;J&aacute; que eu te encontrei &#8211; dizia<br \/>\n    ele, -, bem poderei encontrar Cunegundes&#8221;.<\/p>\n<h4><a name=\"21\">CAP&Iacute;TULO XXI <\/a><\/h4>\n<p><strong>De como filosofam C&acirc;ndido e Martinho ao avistar a costa francesa.<\/strong><\/p>\n<p> Avistaram enfim o litoral da Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Nunca esteve na Fran&ccedil;a? &#8211; indagou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, percorri v&aacute;rias prov&iacute;ncias. Algumas h&aacute;<br \/>\n    de que metade dos habitantes s&atilde;o loucos, algumas onde s&atilde;o demasiado<br \/>\n    espertos, outras onde s&atilde;o geralmente pac&iacute;ficos e simpl&oacute;rios,<br \/>\n    outras onde afetam esp&iacute;rito; e, em todas, a principal ocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o amor, a segunda a maledic&ecirc;ncia, e a terceira dizer tolices.<\/p>\n<p> &#8212;.Mas j&aacute; esteve em Paris, senhor Martinho?<\/p>\n<p> &#8212; Sim, j&aacute; estive; Paris possui todas essas esp&eacute;cies;<br \/>\n    &eacute; um caos, uma aglomera&ccedil;&atilde;o onde todos buscam o prazer<br \/>\n    e onde quase ningu&eacute;m o encontra, pelo que me pareceu. Ali&aacute;s,<br \/>\n    demorei-me pouco em Paris; na feira de Saint-Germain roubaram-me tudo o que<br \/>\n    tinha; eu pr&oacute;prio fui tomado por ladr&atilde;o e estive preso durante<br \/>\n    oito dias; depois me fiz revisor para ganhar com que voltar a p&eacute; para<br \/>\n    a Holanda. Conheci a canalha escrevente, a canalha cabalante e a canalha convulsion&aacute;ria.<br \/>\n    Dizem que h&aacute; gente muito polida em Paris; quero crer que assim seja.<\/p>\n<p> &#8212; Quanto a mim &#8211; disse C&acirc;ndido, &#8211; n&atilde;o tenho<br \/>\n    a m&iacute;nima curiosidade de conhecer a Fran&ccedil;a. Bem compreende o<br \/>\n    senhor que, depois que se passou um m&ecirc;s no Eldorado, a gente s&oacute;<br \/>\n    se preocupa de ver a senhorita Cunegundes; vou esper&aacute;-la em Veneza;<br \/>\n    atingirei a It&aacute;lia atrav&eacute;s da Fran&ccedil;a. O senhor n&atilde;o<br \/>\n    me acompanha?<\/p>\n<p> &#8212; Com muito gosto &#8211; respondeu Martinho. &#8211; Dizem que Veneza<br \/>\n    s&oacute; &eacute; boa para os nobres venezianos, mas que no entanto recebem<br \/>\n    muito bem aos estrangeiros que t&ecirc;m bastante dinheiro. N&atilde;o o tenho,<br \/>\n    o senhor o tem, segu&iacute;-lo-ei por toda a parte.<\/p>\n<p> &#8212; A prop&oacute;sito &#8211; disse C&acirc;ndido, &#8211; acha que<br \/>\n    a terra foi primitivamente um mar como se afirma nesse cartap&aacute;cio que<br \/>\n    pertence ao capit&atilde;o?<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o creio absolutamente nisso &#8211; respondeu Martinho,<br \/>\n    &#8211; nem tampouco em nenhuma dessas fantasias que nos t&ecirc;m impingido<br \/>\n    ultimamente.<\/p>\n<p> &#8212; Mas para que fim foi ent&atilde;o formado este mundo? &#8211; indagou<br \/>\n    C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Para nos enraivecer &#8211; respondeu Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se admira o senhor do caso que lhe contei, daquelas raparigas<br \/>\n    do pa&iacute;s dos orelh&otilde;es, que amavam a uns macacos?<\/p>\n<p> &#8212; Absolutamente. Nada vejo de estranho em tal paix&atilde;o. Vi tantas<br \/>\n    coisas extraordin&aacute;rias, que para mim n&atilde;o h&aacute; mais nada<br \/>\n    de extraordin&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Acredita &#8211; perguntou C&acirc;ndido &#8211; que os homens se<br \/>\n    hajam sempre massacrado, como o fazem hoje? &#8211; Que sempre tenham sido<br \/>\n    mentirosos, trapaceiros, p&eacute;rfidos, ingratos, ladr&otilde;es, fracos,<br \/>\n    inconstantes, covardes, invejosos, glut&otilde;es, b&ecirc;bedos, avarentos,<br \/>\n    ambiciosos, sanguin&aacute;rios, caluniadores, debochados, fan&aacute;ticos,<br \/>\n    hip&oacute;critas e tolos?<\/p>\n<p> &#8212; E o senhor acredita &#8211; indagou por sua vez Martinho &#8211;<br \/>\n    que os gavi&otilde;es tenham sempre devorado os pombos quando se lhes apresentava<br \/>\n    ocasi&atilde;o?<\/p>\n<p> &#8212; Sim, certamente.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o &#8211; tornou Martinho, &#8211; se os gavi&otilde;es<br \/>\n    sempre tiveram o mesmo car&aacute;ter, como quer que os homens hajam mudado<br \/>\n    o seu?<\/p>\n<p> &#8212; Oh! h&aacute; alguma diferen&ccedil;a &#8211; objetou C&acirc;ndido<br \/>\n    &#8211; pois o livre arb&iacute;trio&#8230;<\/p>\n<p> Enquanto assim filosofavam, chegaram a Bord&eacute;us.<\/p>\n<h4><a name=\"22\">CAP&Iacute;TULO XXII <\/a><\/h4>\n<p><strong>Do que aconteceu na Fran&ccedil;a a C&acirc;ndido e Martinho.<\/strong><\/p>\n<p> C&acirc;ndido s&oacute; se demorou em Bord&eacute;us o necess&aacute;rio<br \/>\n    para vender algum cascalho do Eldorado e adquirir uma boa liteira de dois<br \/>\n    lugares, pois n&atilde;o mais podia passar sem o seu fil&oacute;sofo Martinho.<br \/>\n    Sentiu apenas separar-se de seu carneiro, que doou &agrave; Academia de Ci&ecirc;ncias<br \/>\n    de Bord&eacute;us, a qual prop&ocirc;s para tese do concurso daquele ano a<br \/>\n    explica&ccedil;&atilde;o do estranho pelo do referido animal; e o pr&ecirc;mio<br \/>\n    foi adjudicado a um s&aacute;bio do Norte, que demonstrou por A mais B, menos<br \/>\n    C, dividido por Z, que o carneiro devia ser vermelho e morrer gafento.<\/p>\n<p> Ora, sucedeu que todos os viajantes que C&acirc;ndido encontrava nas estalagens<br \/>\n    do caminho lhe diziam: &#8220;N&oacute;s vamos a Paris&#8221;. Pelo que tamb&eacute;m<br \/>\n    lhe deu vontade de ir a essa capital: n&atilde;o seria afastar-se muito do<br \/>\n    caminho de Veneza.<\/p>\n<p> Entrou pelo Faubourg Saint-Marceau e julgou achar-se na pior aldeia da Vestf&aacute;lia.<\/p>\n<p> Mal chegou ao seu albergue, foi C&acirc;ndido acometido de uma leve indisposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    proveniente da fadiga. Como trazia ao dedo um enorme diamante, e como haviam<br \/>\n    notado na sua bagagem um cofre extraordinariamente pesado, teve em seguida<br \/>\n    junto a si dois m&eacute;dicos que n&atilde;o mandara chamar, alguns amigos<br \/>\n    &iacute;ntimos que n&atilde;o o deixavam, e duas devotas que lhe preparavam<br \/>\n    os caldos. &#8220;Lembro-me &#8211; dizia Martinho de que tamb&eacute;m adoeci<br \/>\n    em Paris durante a minha primeira viagem; era muito pobre: de modo que n&atilde;o<br \/>\n    tive nem amigos, nem devotas, nem m&eacute;dicos, e sarei.&#8221;<\/p>\n<p> No entanto, a for&ccedil;a de rem&eacute;dios e sangrias, a doen&ccedil;a<br \/>\n    de C&acirc;ndido se tornou grave. Um padre da freguesia veio com todo o jeito<br \/>\n    pedir-lhe uma promiss&oacute;ria pag&aacute;vel ao portador no outro mundo.<br \/>\n    C&acirc;ndido n&atilde;o quis saber de conversas. As devotas lhe garantiram<br \/>\n    que era uma nova moda. C&acirc;ndido respondeu que n&atilde;o era homem de<br \/>\n    modas. Martinho quis atirar o padre pela janela. O cl&eacute;rigo jurou que<br \/>\n    n&atilde;o enterrariam C&acirc;ndido. Martinho jurou que enterraria o cl&eacute;rigo<br \/>\n    se este continuasse a importun&aacute;-los. A disputa acalorou-se; Martinho<br \/>\n    pegou-o pelos ombros e escorra&ccedil;ou-o rudemente; o que causou enorme<br \/>\n    esc&acirc;ndalo, tendo-se lavrado um auto.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido sarou e, durante a convalescen&ccedil;a, nunca lhe faltou<br \/>\n    companhia &agrave; mesa. Jogavam &agrave; grande. C&acirc;ndido muito se espantava<br \/>\n    de que nunca lhe viesse um &aacute;s; Martinho n&atilde;o se espantava nada.<\/p>\n<p> Entre os que lhe faziam as honras da cidade, havia um padre do P&eacute;rigord,<br \/>\n    um desses sujeitinhos expeditos, sempre alerta, sempre servi&ccedil;ais, descarados,<br \/>\n    aduladores, complacentes, que espiam a chegada dos forasteiros, contam-lhes<br \/>\n    o esc&acirc;ndalo do dia e oferecem-lhes prazeres de todos os pre&ccedil;os.<br \/>\n    Este levou primeiro C&acirc;ndido e Martinho ao teatro. C&acirc;ndido ficou<br \/>\n    colocado junto de alguns belos esp&iacute;ritos. O que n&atilde;o o impediu<br \/>\n    de chorar nas cenas perfeitamente representadas. Um dos cr&iacute;ticos que<br \/>\n    estavam a seu lado lhe disse num entreato:<\/p>\n<p> &#8212; O senhor faz muito mal em chorar: essa atriz &eacute; p&eacute;ssima;<br \/>\n    o ator que contracena com ela ainda &eacute; pior; a pe&ccedil;a &eacute;<br \/>\n    pior que os atores; o autor n&atilde;o sabe uma palavra de &aacute;rabe, e<br \/>\n    no entanto a cena se passa na Ar&aacute;bia; e, de resto, &eacute; um homem<br \/>\n    que n&atilde;o acredita nas id&eacute;ias inatas: amanh&atilde; lhe trarei<br \/>\n    vinte brochuras contra ele.<\/p>\n<p> &#8212; Quantas pe&ccedil;as de teatro h&aacute;. em Fran&ccedil;a? &#8211;<br \/>\n    perguntou C&acirc;ndido ao padre.<\/p>\n<p> &#8212; Cinco ou seis mil.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; muito &#8211; disse C&acirc;ndido. &#8211; E quantas pe&ccedil;as<br \/>\n    boas existem entre estas?<\/p>\n<p> &#8212; Quinze ou dezesseis &#8211; replicou o outro.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; muito &#8211; disse Martinho.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido muito se agradou de uma atriz que fazia o papel de rainha<br \/>\n    Elizabeth em uma trag&eacute;dia bastante insulsa que se representa algumas<br \/>\n    vezes.<\/p>\n<p> &#8212; Aprecio muito essa atriz &#8211; disse ele a Martinho. &#8211; Parece-se<br \/>\n    com a senhorita Cunegundes. Gostaria de ir cumpriment&aacute;-la.<\/p>\n<p> O padre ofereceu-se para fazer as apresenta&ccedil;&otilde;es. C&acirc;ndido,<br \/>\n    educado na Alemanha, perguntou qual era a etiqueta e como se tratavam na Fran&ccedil;a<br \/>\n    as rainhas da Inglaterra.<\/p>\n<p> &#8212; Cumpre distinguir &#8211; disse o padre. &#8211; Na prov&iacute;ncia,<br \/>\n    levam-nas &agrave; estalagem; em Paris, respeitam-nas quando s&atilde;o belas,<br \/>\n    e lan&ccedil;am-nas ao lixo depois de mortas.<\/p>\n<p> &#8212; Rainhas no lixo! &#8211; exclamou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade &#8211; confirmou Martinho. &#8211; o senhor padre<br \/>\n    tem raz&atilde;o: estava eu em Paris quando Mademoiselle Monime passou, como<br \/>\n    se diz, desta para melhor; recusaram-lhe o que chamam, aqui, as honras da<br \/>\n    sepultura, isto &eacute;, de apodrecer com todos os mendigos do bairro em<br \/>\n    um mau cemit&eacute;rio, foi enterrada, inteiramente s&oacute;, ao fim da.<br \/>\n    rua de Borgonha; o que lhe deve causar uma pena extrema, pois pensava muito<br \/>\n    nobremente.<\/p>\n<p> &#8212; Isto n&atilde;o &eacute; nada polido &#8211; observou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Que mais quer? &#8211; retrucou Martinho. &#8211; Esta gente &eacute;<br \/>\n    assim. Imagine todas as contradi&ccedil;&otilde;es, todas as incompatibilidades<br \/>\n    poss&iacute;veis, que as h&aacute; de encontrar no governo, nos tribunais,<br \/>\n    nas igrejas, nos teatros desta divertida na&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E verdade que riem sempre em Paris? &#8211; indagou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; disse o padre, &#8211; mas riem de raiva; pois aqui<br \/>\n    se queixam de tudo &agrave;s gargalhadas; at&eacute; praticam, a rir, as mais<br \/>\n    detest&aacute;veis a&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; E quem &eacute; &#8211; perguntou C&acirc;ndido &#8211; esse animal<br \/>\n    que arrasava de tal maneira a pe&ccedil;a que tanto me fez chorar e os atores<br \/>\n    que me causaram tanto prazer?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um pobre diabo &#8211; respondeu o padre &#8211; que ganha<br \/>\n    a vida falando mal de todas as pe&ccedil;as e de todos os livros; odeia a<br \/>\n    todos os que triunfam, como os eunucos odeiam os que est&atilde;o no gozo<br \/>\n    de seus atributos: &eacute; uma dessas serpentes da literatura que se alimentam<br \/>\n    de lama e veneno: &eacute; um folicul&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; A que chama o senhor de folicul&aacute;rio?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; &#8211; respondeu o padre &#8211; um escrevinhador de panfletos,<br \/>\n    um Fr&eacute;ror.<\/p>\n<p> Era assim que C&acirc;ndido, Martinho e o padre conversavam na escadaria<br \/>\n    do teatro, vendo desfilar o p&uacute;blico.<\/p>\n<p> &#8212; Embora esteja ansioso por tornar a ver a senhorita Cunegundes &#8211;<br \/>\n    disse C&acirc;ndido, &#8211; gostaria de cear com a senhorita Clairon, pois<br \/>\n    ela me pareceu admir&aacute;vel.<\/p>\n<p> O padre n&atilde;o era homem que se aproximasse de Mademoiselle Clairon,<br \/>\n    que tinha somente boas rela&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Ela est&aacute; comprometida para esta noite &#8211; disse ele,<br \/>\n    &#8211; mas terei a honra de lev&aacute;-lo ao sal&atilde;o de uma dama de<br \/>\n    qualidade, onde o senhor ficar&aacute; conhecendo Paris como se aqui passasse<br \/>\n    quatro anos.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, que era naturalmente curioso, deixou-se conduzir &agrave;<br \/>\n    casa da dama, no Faubourg Saint-Honor&eacute;. Ali se achavam entretidos num<br \/>\n    voltarete doze m&iacute;seros parceiros, cada qual segurando um pequeno leque<br \/>\n    de cartas, desparelho registo dos seus infort&uacute;nios. Reinava profundo<br \/>\n    sil&ecirc;ncio; estampava-se a palidez na face dos jogadores, e a inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na do banqueiro. A dona da casa, sentada junto ao implac&aacute;vel banqueiro,<br \/>\n    observava com olhos de lince todas as manobras com que os jogadores marcavam<br \/>\n    as cartas. Obrigava-os a desmarcarem, com a sua fiscaliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    severa mas polida, e sem nunca zangar-se, por medo de perder os clientes.<br \/>\n    A dama fazia-se tratar por marquesa de Parolignac. Sua filha, de quinze anos,<br \/>\n    tamb&eacute;m jogava, e denunciava, com um piscar de olhos, as trapa&ccedil;as<br \/>\n    daquela pobre gente, que procurava assim compensar as crueldades da sorte.<\/p>\n<p> O padre, C&acirc;ndido e Martinho entraram no sal&atilde;o; ningu&eacute;m<br \/>\n    se ergueu, n&atilde;o os cumprimentou nem os olhou, t&atilde;o absortos estavam<br \/>\n    no jogo.<\/p>\n<p> &#8212; A senhora baronesa de Thunder-ten-tronckh era mais polida &#8211;<br \/>\n    observou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> O padre achegou-se ao ouvido da marquesa, que se ergueu a meio, honrando<br \/>\n    a C&acirc;ndido com um gracioso sorriso e a Martinho com um nobre aceno de<br \/>\n    cabe&ccedil;a. Mandou dar uma cadeira e um baralho a C&acirc;ndido, que perdeu<br \/>\n    cinq&uuml;enta mil francos em duas paradas; depois do que, cearam alegremente,<br \/>\n    e todos se admiravam de que C&acirc;ndido n&atilde;o se houvesse impressionado<br \/>\n    com as suas perdas; os lacaios murmuravam entre si, na sua linguagem de lacaios;<br \/>\n    &#8220;Deve ser algum milorde ingl&ecirc;s&#8221;.<\/p>\n<p> A ceia foi como a maioria das ceias de Paris: primeiro, sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    depois uma indistinta vozearia, em seguida gracejos quase sempre ins&iacute;pidos,<br \/>\n    boatos, argumentos pobres, um pouco de pol&iacute;tica e muito de maledic&ecirc;ncia;<br \/>\n    falou-se at&eacute; de livros novos.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; leram &#8211; perguntou o padre do Perigord. &#8211; o<br \/>\n    romance do senhor Gauchat, doutor em teologia?<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; respondeu um dos convivas, &#8211; mas n&atilde;o pude<br \/>\n    termin&aacute;-lo. Temos uma profus&atilde;o de escritos impertinentes, mas<br \/>\n    todos eles, em conjunto, n&atilde;o se aproximam sequer da impertin&ecirc;ncia<br \/>\n    de Gauchat, doutor em teologia; ando t&atilde;o farto dessa imensidade de<br \/>\n    detest&aacute;veis livros que nos inundam que me pus a jogar voltarete.<\/p>\n<p> &#8212; E que me diz das M&eacute;langes do arquidi&aacute;cono T&#8230;? &#8211;<br \/>\n    interrogou o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; exclamou Madame de Parolignac, &#8211; que indiv&iacute;duo<br \/>\n    mais aborrecido! Com que compenetra&ccedil;&atilde;o nos diz ele o que todo<br \/>\n    o mundo sabe! Como discute pesadamente o que apenas merece ser notado! Com<br \/>\n    que falta de esp&iacute;rito se apropria do esp&iacute;rito alheio! Como estraga<br \/>\n    o que pilha! Como me aborrece! Mas isso n&atilde;o mais acontecer&aacute;<br \/>\n    basta-me ter lido algumas p&aacute;ginas do arquidi&aacute;cono.<\/p>\n<p>Havia ali um homem s&aacute;bio e de bom gosto, que apoiou o que dizia a<br \/>\n    marquesa. Falou-se em seguida de trag&eacute;dias. Perguntou a dama por que<br \/>\n    havia trag&eacute;dias que se representavam algumas vezes, mas que n&atilde;o<br \/>\n    se podiam ler. O homem explicou muito bem como uma pe&ccedil;a podia ter algum<br \/>\n    interesse e n&atilde;o possuir quase nenhum m&eacute;rito. Provou em poucas<br \/>\n    palavras que n&atilde;o bastava conduzir uma ou duas dessas situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que se encontram em todos os romances e que sempre seduzem os espectadores,<br \/>\n    mas que cumpre ser novo sem ser estranho, muita vez sublime, e sempre natural;<br \/>\n    conhecer o cora&ccedil;&atilde;o humano e faz&ecirc;-lo falar; ser grande<br \/>\n    poeta sem que nenhum dos personagens pare&ccedil;a poeta; conhecer perfeitamente<br \/>\n    a l&iacute;ngua, fal&aacute;-la com pureza, com uma harmonia cont&iacute;nua,<br \/>\n    sem que jamais a rima custe nada ao sentido. Quem quer que n&atilde;o observe<br \/>\n    todas essas regras, pode fazer uma ou duas trag&eacute;dias aplaudidas no<br \/>\n    teatro, mas nunca ser&aacute; contado entre os bons escritores; trag&eacute;dias<br \/>\n    boas, existem pouqu&iacute;ssimas; umas s&atilde;o id&iacute;lios em di&aacute;logos,<br \/>\n    bem escritos e bem rimados; outras, arrazoados po1iticos que fazem dormir,<br \/>\n    ou amplifica&ccedil;&otilde;es que entediam; outras, sonhos de energ&uacute;menos,<br \/>\n    em estilo b&aacute;rbaro, frases interrompidas, longas ap&oacute;strofes aos<br \/>\n    deuses, porque n&atilde;o sabem falar aos homens, m&aacute;ximas falsas, lugares-comuns<br \/>\n    empolados. C&acirc;ndido ouviu atentamente tais palavras e formou a melhor<br \/>\n    id&eacute;ia de quem as proferia; e, como estivesse ao lado da marquesa, tomou<br \/>\n    a liberdade de perguntar em voz baixa quem era aquele homem que falava t&atilde;o<br \/>\n    bem.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um s&aacute;bio &#8211; disse a dama, &#8211; que n&atilde;o<br \/>\n    joga e que o padre me traz algumas vezes para cear; entende perfeitamente<br \/>\n    de trag&eacute;dias e livros, e escreveu uma trag&eacute;dia vaiada e um livro,<br \/>\n    cujo &uacute;nico exemplar que j&aacute; se viu fora das prateleiras do seu<br \/>\n    editor foi um que ele me dedicou.<\/p>\n<p> Que grande homem! &#8211; disse C&acirc;ndido. &#8211; um outro Pangloss.<\/p>\n<p> E voltando-se para ele perguntou-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Decerto acha o senhor que tudo est&aacute; o melhor poss&iacute;vel<br \/>\n    no mundo f&iacute;sico e moral, e que nada podia ser de outra maneira?<\/p>\n<p> &#8212; Eu, senhor, &#8211; retrucou o s&aacute;bio, &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    penso nada disso: acho que tudo anda &agrave;s avessas; que ningu&eacute;m<br \/>\n    sabe qual &eacute; a sua posi&ccedil;&atilde;o, nem o seu cargo, nem o que<br \/>\n    faz, nem o que deve fazer e que, excetuada esta ceia, que &eacute; bastante<br \/>\n    divertida e onde transparece suficiente harmonia, todo o resto do tempo se<br \/>\n    passa em impertinentes querelas: jansenistas contra molinistas, parlamentares<br \/>\n    contra eclesi&aacute;sticos, homens de letras contra homens de letras, cortes&atilde;os<br \/>\n    contra cortes&atilde;os, financistas contra o povo, mulheres contra maridos,<br \/>\n    parentes contra parentes; &eacute; uma guerra eterna.<\/p>\n<p> &#8212; Pior j&aacute; vi eu &#8211; replicou C&acirc;ndido. &#8211; Mas<br \/>\n    um s&aacute;bio, que depois teve a desgra&ccedil;a de ser enforcado, ensinou-me<br \/>\n    que tudo vai &agrave;s mil maravilhas; s&atilde;o tudo sombras num belo quadro.<\/p>\n<p> &#8212; O seu enforcado zombava do mundo &#8211; disse Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; As tais sombras s&atilde;o manchas horr&iacute;veis.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o os homens que fazem as manchas &#8211; disse C&acirc;ndido<br \/>\n    &#8211; e n&atilde;o podem deixar de o fazer.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o a culpa n&atilde;o &eacute; deles &#8211; observou<br \/>\n    Martinho.<\/p>\n<p> A maioria dos parceiros, que nada entendiam dessa linguagem, bebiam comodamente.<br \/>\n    Martinho discutiu com o s&aacute;bio e C&acirc;ndido contou uma parte das<br \/>\n    suas aventuras &agrave; dona da casa.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s a ceia, a marquesa levou C&acirc;ndido para o seu gabinete e<br \/>\n    f&ecirc;-lo sentar num canap&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o, ainda continua a amar perdidamente a senhorita Cunegundes<br \/>\n    de Thunder-ten-tronckh?<\/p>\n<p> &#8212; Sim, Madame &#8211; respondeu C&acirc;ndido. A marquesa replicou-lhe<br \/>\n    com um terno sorriso:<\/p>\n<p> &#8212; O senhor me responde como um jovem de Vestf&aacute;lia; um franc&ecirc;s<br \/>\n    teria dito: &#8220;&Eacute; verdade que amei a senhorita Cunegundes; mas,<br \/>\n    depois que vi a senhora marquesa, receio n&atilde;o mais am&aacute;-la&#8221;.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, Madame! &#8211; disse C&acirc;ndido. &#8211; Respondere1 como<br \/>\n    a senhora quiser.<\/p>\n<p> &#8212; A sua paix&atilde;o por ela &#8211; tornou a marquesa &#8211; come&ccedil;ou<br \/>\n    quando lhe apanhou o len&ccedil;o. Pois bem: quero que apanhe a minha liga.<\/p>\n<p> &#8212; De todo o cora&ccedil;&atilde;o &#8211; disse C&acirc;ndido, e apanhou-a.<\/p>\n<p> &#8212; Mas eu quero que a coloque no seu lugar &#8211; disse a dama. E<br \/>\n    C&acirc;ndido colocou-a no devido lugar.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor &eacute; estrangeiro &#8211; disse a marquesa. &#8211;<br \/>\n    Pois saiba que eu &agrave;s vezes fa&ccedil;o penarem os meus pretendentes<br \/>\n    de Paris durante quinze dias, mas logo &agrave; primeira noite me rendo ao<br \/>\n    senhor, porque afinal &eacute; preciso fazer as honras do pais a um jovem<br \/>\n    da Vestf&aacute;lia.<\/p>\n<p> E a bela, tendo percebido dois enormes diamantes nos dedos do seu jovem<br \/>\n    estrangeiro, p&ocirc;s-se a elogi&aacute;-los com uma boa f&eacute; t&atilde;o<br \/>\n    natural que insensivelmente eles passaram dos dedos de C&acirc;ndido para<br \/>\n    os dedos da marquesa.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, ao voltar com o seu padre, sentiu remorsos de haver cometido<br \/>\n    uma infidelidade para com a senhorita Cunegundes; o padre compartilhou das<br \/>\n    suas penas; s&oacute; lhe cabia uma pequena parte das cinq&uuml;enta mil libras<br \/>\n    perdidas ao jogo por C&acirc;ndido e do valor dos brilhantes meio dados, meio<br \/>\n    extorquidos, o seu intuito era aproveitar-se, o mais poss&iacute;vel, das<br \/>\n    vantagens que lhe poderiam trazer as suas rela&ccedil;&otilde;es com C&acirc;ndido.<br \/>\n    Falou-lhe muito de Cunegundes; e C&acirc;ndido lhe disse que pediria perd&atilde;o<br \/>\n    a ela da sua infidelidade, quando a encontrasse em Veneza.<\/p>\n<p> O padre redobrava de polidez e aten&ccedil;&otilde;es, e tomava um carinhoso<br \/>\n    interesse por tudo o que C&acirc;ndido dizia, por tudo o que ele fazia, por<br \/>\n    tudo o que queria fazer.<\/p>\n<p> &#8212; Com que ent&atilde;o t&ecirc;m os dois um encontro em Veneza?<\/p>\n<p> &#8212; Sim, senhor padre: &eacute; preciso absolutamente que eu me v&aacute;<br \/>\n    encontrar com a senhorita Cunegundes.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, dominado pelo prazer de falar do que amava, contou, segundo<br \/>\n    o seu costume, uma parte das aventuras que tivera com essa ilustre vestfaliana.<\/p>\n<p> Suponho &#8211; disse o padre &#8211; que a senhorita Cunegundes tem muito<br \/>\n    esp&iacute;rito e deve escrever cartas encantadoras&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nunca recebi nenhuma carta da sua parte &#8211; confessou C&acirc;ndido.<br \/>\n    &#8211; Pois imagine que, tendo sido expulso do castelo por causa dela, n&atilde;o<br \/>\n    me foi poss&iacute;vel escrever-lhe; depois soube que ela morrera, em seguida<br \/>\n    a encontrei, e perdi-a de novo, e ultimamente lhe enviei um pr&oacute;prio<br \/>\n    a duas mil e quinhentas l&eacute;guas daqui, e estou esperando alguma resposta.<\/p>\n<p> O padre ouvia atentamente, e parecia um pouco pensativo. Logo se despediu<br \/>\n    dos dois estrangeiros, depois de os abra&ccedil;ar com todo o carinho.<\/p>\n<p> No dia seguinte, ao despertar, C&acirc;ndido recebeu uma carta concebida<br \/>\n    nos seguintes termos:<\/p>\n<p> Meu querido, j&aacute; faz oito dias que estou enferma nesta cidade, e acabo<br \/>\n    de saber que aqui tamb&eacute;m te achas. Voaria logo para os teus bra&ccedil;os,<br \/>\n    se pudesse mover-me. Soube da tua passagem em Bord&eacute;us; ah deixei o<br \/>\n    fiel Cacambo e a velha, que devem em seguida vir a meu encontro. O governador<br \/>\n    de Buenos Aires tudo me tomou, mas ainda me resta o teu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Vem, a tua presen&ccedil;a me devolver&aacute; a vida, ou me far&aacute; morrer<br \/>\n    de alegria.<\/p>\n<p> Essa encantadora e inesperada carta transportou C&acirc;ndido ao mais inexprim&iacute;vel<br \/>\n    j&uacute;bilo, ao passo que a doen&ccedil;a da sua querida Cunegundes o acabrunhava<br \/>\n    de dor. Dividido entre esses dois sentimentos, toma o seu ouro e os seus diamantes<br \/>\n    e faz-se conduzir com Martinho ao hotel onde se achava a senhorita Cunegundes.<br \/>\n    Entra, tr&ecirc;mulo de emo&ccedil;&atilde;o, com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    palpitante, a voz embargada; procura abrir as cortinas do leito, pede que<br \/>\n    tragam luzes.<\/p>\n<p> &#8212; Cuidado &#8211; lhe diz a criada, &#8211; que a luz a mata. E fecha<br \/>\n    de s&uacute;bito as cortinas.<\/p>\n<p> &#8212; Como est&aacute;s, minha querida Cunegundes? &#8211; diz C&acirc;ndido<br \/>\n    a solu&ccedil;ar. &#8211; Se n&atilde;o me podes ver, ao menos fala comigo.<\/p>\n<p> &#8212; Ela n&atilde;o pode falar &#8211; diz a criada. A dama estende ent&atilde;o<br \/>\n    para fora do leito uma m&atilde;ozinha rechonchuda que C&acirc;ndido umedece<br \/>\n    longamente com as suas l&aacute;grimas, e que enche depois de diamantes, deixando<br \/>\n    ainda uma bolsa cheia de ouro sobre a cadeira.<\/p>\n<p> Em meio desses transportes, chega um esbirro acompanhado do padre do P&eacute;rigord<br \/>\n    e de uma escolta.<\/p>\n<p> &#8212; Com que ent&atilde;o s&atilde;o estes os dois estrangeiros suspeitos?<br \/>\n    &#8211; diz aquela autoridade. Imediatamente lhes d&aacute; ordem de pris&atilde;o<br \/>\n    e manda a escolta conduzi-los.<\/p>\n<p> &#8212; No Eldorado n&atilde;o se tratava assim aos viajantes &#8211; disse<br \/>\n    C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Eu me sinto mais maniqueu do que nunca &#8211; tornou Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; Mas para onde nos leva, senhor? &#8211; perguntou C&acirc;ndido<br \/>\n    ao esbirro.<\/p>\n<p> &#8212; Para um calabou&ccedil;o &#8211; respondeu a autoridade.<\/p>\n<p> Tendo recuperado o seu sangue frio, Martinho declarou que a dama que se<br \/>\n    dizia Cunegundes era uma tratante, que o senhor padre do P&eacute;rigord era<br \/>\n    um tratante que abusara da inoc&ecirc;ncia de C&acirc;ndido, e o esbirro um<br \/>\n    outro tratante de que seria f&aacute;cil desembara&ccedil;ar-se.<\/p>\n<p> Esclarecido pelo seu conselho, e pouco desejoso de se expor aos tr&acirc;mites<br \/>\n    da justi&ccedil;a, e, por outro lado, sempre impaciente por encontrar a verdadeira<br \/>\n    Cunegundes, C&acirc;ndido oferece ao esbirro tr&ecirc;s pequenos diamantes<br \/>\n    de cores de tr&ecirc;s mil pistolas cada um.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, meu senhor! &#8211; lhe diz o homem do bast&atilde;o de marfim,<br \/>\n    &#8211; ainda que o senhor tenha cometido todos os crimes imagin&aacute;veis,<br \/>\n    &eacute; o mais honrado homem do mundo. Tr&ecirc;s diamantes! Cada um de tr&ecirc;s<br \/>\n    mil pistolas! Eu me deixaria matar pelo senhor, em vez de o levar para um<br \/>\n    calabou&ccedil;o. Est&atilde;o prendendo todos os estrangeiros, mas deixe<br \/>\n    a coisa comigo. Tenho um irm&atilde;o em Dieppe, na Normandia; vou lev&aacute;-lo<br \/>\n    at&eacute; l&aacute;; e se tiver algum diamante para lhe dar, ele zelar&aacute;<br \/>\n    pelo senhor como eu pr&oacute;prio.<\/p>\n<p> &#8212; E por que prendem todos os estrangeiros? &#8211; perguntou C&acirc;ndido.<br \/>\n    O padre do P&eacute;rigord tomou ent&atilde;o a palavra e disse:<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; porque um vagabundo de Atreb&aacute;cia deu ouvido a tolices,<br \/>\n    o que bastou para lev&aacute;-lo a um parric&iacute;dio, n&atilde;o como o<br \/>\n    de maio de 1610, mas como o de dezembro de 1594, e como v&aacute;rios outros<br \/>\n    cometidos em outros anos e outros meses, por outros vagabundos que tamb&eacute;m<br \/>\n    ouviram tolices.<\/p>\n<p> O beleguim explicou ent&atilde;o do que se tratava.<\/p>\n<p> Que monstros! &#8211; exclamou C&acirc;ndido. &#8211; H&aacute; ent&atilde;o<br \/>\n    tais horrores entre um povo que dan&ccedil;a e que canta?! N&atilde;o poderei<br \/>\n    sair o mais depressa poss&iacute;vel deste pa&iacute;s, onde os macacos provocam<br \/>\n    os tigres? Vi ursos no meu pa&iacute;s; mas homens, s&oacute; os vi no Eldorado.<br \/>\n    Em nome de Deus, senhor esbirro, leve-me a Veneza, onde devo esperar a senhorita<br \/>\n    Cunegundes.<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute; o posso levar &agrave; Baixa-Normandia &#8211; diz o beleguim.<br \/>\n    Em seguida manda retirar-lhe os ferros, diz que se enganara, despacha a escolta,<br \/>\n    e conduz C&acirc;ndido e Martinho a Dieppe, onde os entrega ao irm&atilde;o.<br \/>\n    Estava surto no porto um pequeno navio holand&ecirc;s. O normando que, por<br \/>\n    obra e gra&ccedil;a de tr&ecirc;s outros diamantes, se tornara o mais servi&ccedil;al<br \/>\n    dos homens, embarca a C&acirc;ndido e seu pessoal no navio que ia zarpar para<br \/>\n    Portsmouth, na Inglaterra. N&atilde;o era a rota de Veneza; mas C&acirc;ndido<br \/>\n    julgava ter-se livrado do inferno, e contava partir para o seu verdadeiro<br \/>\n    destino na primeira ocasi&atilde;o que se apresentasse.<\/p>\n<h4><a name=\"23\">CAP&Iacute;TULO XXIII <\/a><\/h4>\n<p><strong>Do que viram C&acirc;ndido e Martinho na costa da Inglaterra.<\/strong><\/p>\n<p> &#8212; Ai, Pangloss, Pangloss! Ai, Martinho, Martinho! Ai, minha querida<br \/>\n    Cunegundes! Que mundo &eacute; este? &#8211; exclamava C&acirc;ndido a bordo<br \/>\n    do navio holand&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8212; Alguma coisa de louco e abomin&aacute;vel &#8211; retrucava Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor que conhece a Inglaterra, ser&aacute; que por l&aacute;<br \/>\n    se &eacute; t&atilde;o louco como na Fran&ccedil;a?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; outra esp&eacute;cie de loucura &#8211; asseverou Martinho.<br \/>\n    &#8211; Bem sabe que essas duas na&ccedil;&otilde;es est&atilde;o em guerra<br \/>\n    por algumas bra&ccedil;as de neve no Canad&aacute;, e que despendem nessa<br \/>\n    linda guerra muito mais do que vale todo o Canad&aacute;. Quanto a dizer precisamente<br \/>\n    se h&aacute; mais loucos varridos em um pa&iacute;s do que no outro, &eacute;<br \/>\n    coisa que as minhas fracas luzes n&atilde;o me permitem. Sei apenas que as<br \/>\n    pessoas a quem vamos ver s&atilde;o em geral muito atrabili&aacute;rias.<\/p>\n<p> Assim conversando, chegaram a Portsmouth; grande multid&atilde;o cobria<br \/>\n    a margem, olhando atentamente para um homem corpulento, que se achava de joelhos,<br \/>\n    com os olhos vendados, no conv&eacute;s de um dos navios da frota; quatro<br \/>\n    soldados, alinhados &agrave; sua frente, meteram-lhe cada um tr&ecirc;s balas<br \/>\n    no cr&acirc;nio, com o ar mais tranq&uuml;ilo deste mundo; feito o que, todos<br \/>\n    se retiraram muito satisfeitos.<\/p>\n<p> &#8212; Que significa tudo isso? &#8211; disse C&acirc;ndido. &#8211; E<br \/>\n    que dem&ocirc;nio exerce por toda parte o seu imp&eacute;rio? <\/p>\n<p> Perguntou ent&atilde;o quem era aquele homem que acabavam de matar com toda<br \/>\n    a cerim&ocirc;nia.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um almirante &#8211; responderam-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; E por que matar esse almirante?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; &#8211; disseram-lhe &#8211; porque n&atilde;o matou bastante<br \/>\n    gente; travou combate com um almirante franc&ecirc;s, e acharam que n&atilde;o<br \/>\n    se mantivera suficientemente perto deste &uacute;ltimo.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &#8211; objetou C&acirc;ndido &#8211; o almirante franc&ecirc;s<br \/>\n    estava t&atilde;o longe do almirante ingl&ecirc;s como este daquele.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; incontest&aacute;vel &#8211; replicaram, &#8211; mas<br \/>\n    neste pa&iacute;s &eacute; bom matar de vez em quando um almirante para estimular<br \/>\n    os outros.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido ficou t&atilde;o atordoado e chocado com o que via e ouvia,<br \/>\n    que nem ao menos quis desembarcar, e fechou contrato com o capit&atilde;o<br \/>\n    holand&ecirc;s (ainda que este devesse roub&aacute;-lo como o de Surinam para<br \/>\n    que o conduzisse sem demora a Veneza.<\/p>\n<p> O patr&atilde;o fez os preparativos em dois dias. Costearam a Fran&ccedil;a;<br \/>\n    passaram &agrave; vista de Lisboa, e C&acirc;ndido estremeceu. Entraram no<br \/>\n    estreito e no Mediterr&acirc;neo.<\/p>\n<p> &#8212; Louvado seja Deus! &#8211; disse C&acirc;ndido, abra&ccedil;ando<br \/>\n    Martinho; &eacute; aqui que tornarei a ver a bela Cunegundes. Tenho tanta<br \/>\n    confian&ccedil;a em Cacambo como em mim mesmo. Tudo est&aacute; bem, tudo<br \/>\n    vai bem, tudo est&aacute; o melhor poss&iacute;vel.<\/p>\n<h4><a name=\"24\">CAP&Iacute;TULO XXIV <\/a><\/h4>\n<p><strong>De Paquette e do Irm&atilde;o Girofl&eacute;e<\/strong><\/p>\n<p> Logo que chegou a Veneza, mandou procurar Cacambo em todas as tavernas,<br \/>\n    em todos os caf&eacute;s, em todas as casas de mulheres alegres, e n&atilde;o<br \/>\n    o encontrou. Diariamente mandava gente sua ao encontro de todos os barcos<br \/>\n    e de todos os navios que chegavam: nem sinal de Cacambo.<\/p>\n<p> &#8212; Como! &#8211; dizia ele a Martinho, &#8211; tive tempo de ir de<br \/>\n    Surinam a Bord&eacute;us, de Bord&eacute;us a Paris, de Paris a Dieppe, de<br \/>\n    Dieppe a Portsmouth, de costear Portugal e Espanha, de atravessar todo o Mediterr&acirc;neo,<br \/>\n    de passar alguns meses em Veneza, e a bela Cunegundes ainda n&atilde;o chegou!<br \/>\n    S&oacute; encontrei, em vez dela, uma aventureira e um padre do Perigord!<br \/>\n    Decerto Cunegundes morreu, e agora s&oacute; me resta morrer tamb&eacute;m.<br \/>\n    Ah! por que n&atilde;o fiquei no Para&iacute;so do Eldorado, em vez de voltar<br \/>\n    para esta maldita Europa? Tens raz&atilde;o, meu caro Martinho: tudo, neste<br \/>\n    mundo, nada mais &eacute; que ilus&atilde;o e calamidade!<\/p>\n<p> Caiu numa negra melancolia, e n&atilde;o tomou parte na &oacute;pera alla<br \/>\n    moda nem nos outros divertimentos do carnaval; nenhuma dama lhe causou a m&iacute;nima<br \/>\n    tenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; muita ingenuidade da sua parte &#8211; lhe disse Martinho<br \/>\n    &#8211; imaginar que um criado mesti&ccedil;o, com cinco ou seis milh&otilde;es<br \/>\n    no bolso, lhe v&aacute; procurar a sua amante no fim do mundo para lha entregar<br \/>\n    em Veneza. Qual nada! Ficar&aacute; com ela, se a encontrar. Se n&atilde;o<br \/>\n    a encontrar, arranjar&aacute; outra; aconselho-o que esque&ccedil;a o seu<br \/>\n    criado Cacambo e a sua amante Cunegundes.<\/p>\n<p> Martinho n&atilde;o era nada consolador. A melancolia de C&acirc;ndido aumentou,<br \/>\n    e Martinho n&atilde;o cessava de lhe provar que havia pouca virtude e pouca<br \/>\n    felicidade na face da terra, exceto talvez no Eldorado, onde ningu&eacute;m<br \/>\n    podia ir.<\/p>\n<p> Enquanto discutia essa importante mat&eacute;ria e esperava Cunegundes,<br \/>\n    C&acirc;ndido avistou um jovem teatino na pra&ccedil;a de S. Marco, de bra&ccedil;o<br \/>\n    dado com uma rapariga. O teatino era cheio de vi&ccedil;o, rechonchudo e vigoroso;<br \/>\n    tinha os olhos brilhantes, o ar seguro, o porte altivo. A rapariga era bastante<br \/>\n    linda e cantava; olhava amorosamente para o seu teatino e de vez em quando<br \/>\n    lhe beliscava as polpudas bochechas.<\/p>\n<p> &#8212; Ao menos me h&aacute; de confessar &#8211; disse C&acirc;ndido a<br \/>\n    Martinho &#8211; que esses dois s&atilde;o felizes. At&eacute; agora, em toda<br \/>\n    a terra habit&aacute;vel, s&oacute; encontrei infelizes, exceto no Eldorado;<br \/>\n    mas, quanto a essa rapariga e a esse teatino, aposto que s&atilde;o criaturas<br \/>\n    venturosas.<\/p>\n<p> &#8212; Aposto que n&atilde;o &#8211; disse Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; s&oacute; convid&aacute;-los para cear &#8211; respondeu<br \/>\n    C&acirc;ndido &#8211; e ver&aacute; se n&atilde;o tenho raz&atilde;o.<\/p>\n<p> Em seguida os aborda, cumprimenta-os e convida-os para irem a seu hotel<br \/>\n    comer talharim, perdizes da Lombardia, ovas de esturj&atilde;o e beber vinho<br \/>\n    de Montepulciano, Lacryma-christi, Chipre e Samos. A rapariga enrubesceu,<br \/>\n    o teatino aceitou o convite, e ela acompanhou, fitando C&acirc;ndido com um<br \/>\n    olhar de surpresa e confus&atilde;o, empanado de algumas l&aacute;grimas.<br \/>\n    Mal entrou no quarto de C&acirc;ndido, lhe disse:<\/p>\n<p> &#8212; Como! Ent&atilde;o o senhor C&acirc;ndido n&atilde;o conhece mais<br \/>\n    a Paquette?!<\/p>\n<p> A estas palavras, C&acirc;ndido, que at&eacute; aquele momento n&atilde;o<br \/>\n    lhe dera aten&ccedil;&atilde;o, pois s&oacute; pensava em Cunegundes, exclamou:<\/p>\n<p> &#8212; Ai. minha pobre menina, foi ent&atilde;o voc&ecirc; quem deixou<br \/>\n    o doutor Pangloss no belo estado em que o encontrei?<\/p>\n<p> &#8212; Ai de mim, fui eu mesma, e vejo que o senhor est&aacute; a par de<br \/>\n    tudo. Soube das terr&iacute;veis desgra&ccedil;as acontecidas a toda a casa<br \/>\n    da senhora baronesa e &agrave; bela Cunegundes. Juro-lhe que o meu destino<br \/>\n    n&atilde;o foi menos triste. Eu era muito inocente quando o senhor me conheceu.<br \/>\n    Um franciscano meu confessor seduziu-me facilmente. As conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    foram terr&iacute;veis; fui obrigada a sair do castelo algum tempo depois<br \/>\n    que o senhor bar&atilde;o o expulsou a pontap&eacute;s no traseiro. Se um<br \/>\n    famoso m&eacute;dico n&atilde;o se tivesse apiedado de mim, estava morta.<br \/>\n    Por gratid&atilde;o, fui algum tempo sua amante. Sua mulher, que era muito<br \/>\n    ciumenta, batia-me impiedosamente todos os dias; era uma verdadeira f&uacute;ria.<br \/>\n    Esse m&eacute;dico era o homem mais frio do mundo, e eu a mais infeliz de<br \/>\n    todas as criaturas, por ser batida a toda hora por causa de um homem a quem<br \/>\n    n&atilde;o amava. Bem sabe o senhor como &eacute; perigoso para uma mulher<br \/>\n    rabugenta ser esposa de um m&eacute;dico. Este; farto das cenas da mulher,<br \/>\n    deu-lhe um dia, para cur&aacute;-la de um resfriado, um rem&eacute;dio t&atilde;o<br \/>\n    eficaz que ela morreu dali a duas horas em convuls&otilde;es terr&iacute;veis.<br \/>\n    Os parentes da falecida processaram o vi&uacute;vo; este fugiu e eu fui para<br \/>\n    a cadeia. Minha inoc&ecirc;ncia de nada me teria servido se eu n&atilde;o<br \/>\n    fosse um pouco bonita, o juiz absolveu-me sob a condi&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    que sucederia ao m&eacute;dico. Fui logo suplantada por uma rival, escorra&ccedil;ada<br \/>\n    sem recompensa, e obrigada a continuar nesse of&iacute;cio abomin&aacute;vel<br \/>\n    que parece t&atilde;o divertido aos homens e que para n&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    passa de um abismo de mis&eacute;rias. Vim exercer a profiss&atilde;o em Veneza.<br \/>\n    Ah! se o senhor pudesse imaginar o que &eacute; ser obrigada a acariciar indiferentemente<br \/>\n    um velho negociante, um advogado, um monge, um gondoleiro, um frade; ser exposta<br \/>\n    a todos os insultos, a todas as afrontas p&uacute;blicas; ser muitas vezes<br \/>\n    obrigada a pedir de empr&eacute;stimo uma saia para que venha levant&aacute;-la<br \/>\n    um homem asqueroso; ver-se roubada por um do que se ganhou com outro; ser<br \/>\n    extorquida por oficiais de justi&ccedil;a, e n&atilde;o ter em perspectiva<br \/>\n    mais que uma velhice horr&iacute;vel, um hospital e um monturo, &#8211; logo<br \/>\n    haveria de concluir que eu sou uma das criaturas mais infelizes do mundo.<\/p>\n<p> Paquette abria assim o seu cora&ccedil;&atilde;o ao bom C&acirc;ndido, em<br \/>\n    um gabinete reservado, na presen&ccedil;a de Martinho, que dizia ao primeiro:<\/p>\n<p> &#8212; Bem v&ecirc; que j&aacute; ganhei metade da aposta.<\/p>\n<p> O irm&atilde;o Girofl&eacute;e ficara no refeit&oacute;rio e bebia um gole<br \/>\n    enquanto esperava a ceia.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &#8211; disse C&acirc;ndido a Paquette &#8211; estavas com um<br \/>\n    ar t&atilde;o alegre, t&atilde;o contente, quando te encontrei, cantavas e<br \/>\n    acariciavas o teatino com um ar t&atilde;o natural, que na verdade me parecias<br \/>\n    t&atilde;o feliz quanto te julgas desgra&ccedil;ada.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! senhor! &#8211; retrucou Paquette. &#8211; Esta &eacute; mais<br \/>\n    uma das mis&eacute;rias do of&iacute;cio. Fui ontem roubada e batida por um<br \/>\n    oficial e devo hoje aparentar bom humor para agradar a um monge.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido n&atilde;o quis ouvir mais nada; confessou que Martinho estava<br \/>\n    com a raz&atilde;o. Sentaram-se &agrave; mesa com Paquette e o teatino, a<br \/>\n    ceia foi bastante divertida, e afinal a conversa se tornou &iacute;ntima.<\/p>\n<p> &#8212; Meu padre &#8211; disse C&acirc;ndido, &#8211; o senhor me parece<br \/>\n    gozar de um destino que deve causar inveja a todos; as rosas da sa&uacute;de<br \/>\n    brilham em suas faces, o seu ar anuncia felicidade; tem uma linda rapariga<br \/>\n    para divertir-se, e parece muito satisfeito com a sua condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de teatino.<\/p>\n<p> &#8212; Palavra, senhor &#8211; disse o Irm&atilde;o Girofl&eacute;e, &#8211;<br \/>\n    eu desejaria que todos os teatinos estivessem no fundo do mar. Cem vezes fui<br \/>\n    tentado a atear fogo ao convento, e fazer-me turco. Meus pais me obrigaram,<br \/>\n    na idade de quinze anos, a tomar este detestado h&aacute;bito, para deixar<br \/>\n    maior fortuna a um maldito primog&ecirc;nito que Deus confunda! A inveja,<br \/>\n    a disc&oacute;rdia, o rancor, habitam no convento. E verdade que preguei alguns<br \/>\n    maus serm&otilde;es que me valeram algum dinheiro, de que o prior me rouba<br \/>\n    metade: o resto me serve para sustentar raparigas. Mas, quando entro &agrave;<br \/>\n    noite no mosteiro, tenho vontade de quebrar a cabe&ccedil;a contra as paredes<br \/>\n    do dormit&oacute;rio; e todos o. meus confrades est&atilde;o no mesmo caso.<\/p>\n<p> E Martinho, voltando-se para C&acirc;ndido, com o seu sangue frio ordin&aacute;rio:<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o, n&atilde;o ganhei a aposta inteira?<\/p>\n<p> C&acirc;ndido deu duas mil piastras a Paquette e mil piastras ao Irm&atilde;o<br \/>\n    Girofl&eacute;e.<\/p>\n<p> &#8212; Garanto-lhe &#8211; disse ele a Martinho &#8211; que com isto ser&atilde;o<br \/>\n    felizes.<\/p>\n<p> &#8212; Duvido muito &#8211; retrucou Martinho. &#8211; Com essas piastras,<br \/>\n    talvez consiga torn&aacute;-los ainda mais infelizes.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; o que puder ser &#8211; disse C&acirc;ndido. &#8211;<br \/>\n    Mas uma coisa me consola: vejo que muitas vezes a gente encontra pessoas que<br \/>\n    supunha perdidas para sempre. Tendo encontrado o meu carneiro vermelho e Paquette,<br \/>\n    &eacute; bem poss&iacute;vel que encontre tamb&eacute;m Cunegundes.<\/p>\n<p> &#8212; Desejo &#8211; disse Martinho &#8211; que um dia ela o fa&ccedil;a<br \/>\n    feliz; mas duvido muito.<\/p>\n<p> &#8212; Como o senhor &eacute; duro &#8211; queixou-se C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; que eu tenho vivido &#8211; retrucou Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; Mas olhe esses gondoleiros &#8211; tornou C&acirc;ndido. &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o vivem continuamente a cantar?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; que n&atilde;o os v&ecirc; no seu lar, com suas mulheres<br \/>\n    e seus pirralhos &#8211; disse Martinho. &#8211; O doge tem seus cuidados,<br \/>\n    os gondoleiros t&ecirc;m os seus. Verdade &eacute; que, no total, a sorte<br \/>\n    de um gondoleiro &eacute; prefer&iacute;vel &agrave; de um doge; mas julgo<br \/>\n    t&atilde;o med&iacute;ocre a diferen&ccedil;a, que n&atilde;o vale a pena<br \/>\n    ser examinada.<\/p>\n<p> &#8212; Fala-se &#8211; disse C&acirc;ndido &#8211; no senador Pococurante,<br \/>\n    que mora nesse belo pal&aacute;cio junto ao Brenta e que recebe muito bem<br \/>\n    os estrangeiros. Dizem que &eacute; um homem que nunca teve contrariedades.<\/p>\n<p> &#8212; Desejaria ver um esp&eacute;cime t&atilde;o raro &#8211; disse Martinho.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido em seguida mandou pedir permiss&atilde;o ao senhor Pococurante,<br \/>\n    para ir visit&aacute;-lo no dia seguinte.<\/p>\n<h4><a name=\"25\">CAP&Iacute;TULO XXV <\/a><\/h4>\n<p> <strong>Da visita que fizeram ao senhor Pococurante, nobre veneziano.<\/strong><\/p>\n<p> C&acirc;ndido e Martinho chegaram de g&ocirc;ndola ao pal&aacute;cio do<br \/>\n    nobre Pococurante. Os jardins eram bem desenhados, e ornado, de belas est&aacute;tuas<br \/>\n    de m&aacute;rmore; o pal&aacute;cio de bela arquitetura. O dono da casa, homem<br \/>\n    dos seus sessenta anos, muito rico, recebeu polidamente os dois curiosos,<br \/>\n    mas com pouca solicitude, o que desconcertou a C&acirc;ndido e n&atilde;o<br \/>\n    desagradou a Martinho. Duas lindas criadinhas, muito asseadas, serviram chocolate<br \/>\n    bem espumado. C&acirc;ndido n&atilde;o pode deixar de lhes louvar a beleza<br \/>\n    e amabilidade.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o excelentes criaturas &#8211; disse o senador Pococurante.<br \/>\n    &#8211; Levo-as &agrave;s vezes para o meu leito, pois j&aacute; estou farto<br \/>\n    das damas da cidade, das suas mesquinhezas, do seu orgulho, das suas tolices,<br \/>\n    e dos sonetos que &eacute; preciso fazer ou encomendar para elas. Mas, afinal<br \/>\n    de contas, essas duas raparigas come&ccedil;am a aborrecer-me.<\/p>\n<p> Quando passeava por uma comprida galeria, ap&oacute;s o almo&ccedil;o, C&acirc;ndido<br \/>\n    ficou extasiado com a beleza dos quadros. Perguntou de que mestre eram os<br \/>\n    dois primeiros.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o de Rafael &#8211; disse o senador. &#8211; Comprei-os<br \/>\n    bastante caro, h&aacute; alguns anos, por pura vaidade. Dizem que &eacute;<br \/>\n    o que existe de mais belo na It&aacute;lia, mas absolutamente n&atilde;o me<br \/>\n    agradam: a cor &eacute; muito escura; as figuras s&atilde;o pouco cheias e<br \/>\n    n&atilde;o t&ecirc;m o suficiente realce; os panejamentos n&atilde;o se parecem<br \/>\n    em nada com um tecido. Numa palavra, por mais que digam, n&atilde;o vejo nisso<br \/>\n    uma verdadeira imita&ccedil;&atilde;o da natureza. S&oacute; gostarei de um<br \/>\n    quadro quando me parecer estar vendo a pr&oacute;pria natureza: e dessa esp&eacute;cie,<br \/>\n    n&atilde;o os h&aacute;. Possuo muitos quadros; mas n&atilde;o olho para nenhum.<\/p>\n<p> Pococurante, enquanto n&atilde;o chegava a hora do jantar, encomendou um<br \/>\n    concerto. C&acirc;ndido achou a m&uacute;sica deliciosa.<\/p>\n<p> &#8212; Esse barulho &#8211; disse Pococurante &#8211; pode divertir durante<br \/>\n    uma meia hora; mas, se dura mais tempo, fatiga a todo o mundo, embora ningu&eacute;m<br \/>\n    se atreva a confess&aacute;-lo. A m&uacute;sica moderna n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mais do que a arte de executar coisas dif&iacute;ceis, e o que n&atilde;o<br \/>\n    passa de dif&iacute;cil acaba n&atilde;o agradando. Preferiria a &oacute;pera,<br \/>\n    se n&atilde;o tivessem encontrado o segredo de fazer dela um monstro que me<br \/>\n    revolta. Veja-as quem quiser, essas p&eacute;ssimas trag&eacute;dias em m&uacute;sica,<br \/>\n    onde as cenas s&oacute; s&atilde;o conduzidas para impingir, muito fora de<br \/>\n    prop&oacute;sito, duas ou tr&ecirc;s &aacute;rias rid&iacute;culas que p&otilde;em<br \/>\n    em evid&ecirc;ncia a garganta de uma atriz; delicie-se quem quiser, ou quem<br \/>\n    puder, ao ver um castrado cantarolar o papel de C&eacute;sar ou de Cat&atilde;o<br \/>\n    ou pavonear-se desajeitadamente no palco; quanto a mim, faz muito que renunciei<br \/>\n    a essas pequices, que constituem hoje a gl&oacute;ria da It&aacute;lia, e<br \/>\n    que os soberanos pagam t&atilde;o caro.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido discutiu um pouco, mas com discri&ccedil;&atilde;o. Martinho<br \/>\n    mostrou-se inteiramente de acordo com o senador.<\/p>\n<p> Sentaram-se &agrave; mesa e, ap&oacute;s um excelente jantar, foram para<br \/>\n    a biblioteca. C&acirc;ndido, ao ver um Homero magnificamente encadernado,<br \/>\n    elogiou o ilustr&iacute;ssimo quanto ao seu bom gosto.<\/p>\n<p> &#8212; Eis &#8211; disse ele &#8211; um livro que fazia as del&iacute;cias<br \/>\n    do grande Pangloss, o maior fil&oacute;sofo da Alemanha.<\/p>\n<p> &#8212; Pois n&atilde;o faz as minhas &#8211; disse friamente Pococurante.<br \/>\n    &#8211; Fizeram-me acreditar outrora que eu sentia prazer em l&ecirc;-lo;<br \/>\n    mas essa repeti&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de combates que todos se<br \/>\n    assemelham, esses deuses que agem sempre para nada fazer de decisivo, essa<br \/>\n    Helena que &eacute; o motivo da guerra e que mal entra na pe&ccedil;a; essa<br \/>\n    Tr&oacute;ia que cercam e n&atilde;o tomam, tudo isso me causava um mortal<br \/>\n    aborrecimento. Perguntei a eruditos se eles se aborreciam tanto quanto eu<br \/>\n    nessa leitura. Os que eram sinceros confessaram-me que o livro lhes tombava<br \/>\n    das m&atilde;os, mas que sempre era preciso t&ecirc;-lo na biblioteca, como<br \/>\n    um monumento da Antig&uuml;idade, e como essas moedas enferrujadas que n&atilde;o<br \/>\n    podem circular.<\/p>\n<p> &#8212; Vossa Excel&ecirc;ncia pensa o mesmo de Virg&iacute;lio? &#8211;<br \/>\n    perguntou C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> &#8212; Convenho que o segundo, o quarto e o sexto livro da sua Eneida s&atilde;o<br \/>\n    excelentes; mas quanto ao seu pio En&eacute;ias, e o forte Cloanto, e o amigo<br \/>\n    Achates, e o pequeno Asc&acirc;nio, e o imbecil rei Latinus, e a burguesa<br \/>\n    Amata, e a ins&iacute;pida Lav&iacute;nia, n&atilde;o creio que haja nada<br \/>\n    de mais frio e desagrad&aacute;vel Prefiro o Tasso e as hist&oacute;rias para<br \/>\n    dormir em p&eacute;, de Ariosto.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;-me permitido perguntar-lhe, Senhor, se n&atilde;o sente<br \/>\n    um grande prazer em ler Hor&aacute;cio?<\/p>\n<p> Tem ele m&aacute;ximas de que um homem discreto pode tirar proveito e que,<br \/>\n    estando condensadas em versos en&eacute;rgicos, se gravam mais facilmente<br \/>\n    na mem&oacute;ria. Mas pouco se me d&aacute; da sua viagem a Brindes, e da<br \/>\n    sua descri&ccedil;&atilde;o de um mau jantar, e da discuss&atilde;o de carregadores<br \/>\n    entre um tal Pupilus, cujas palavras, diz ele, eram cheias de pus, e outro<br \/>\n    cujas palavras eram vinagre. Foi com repugn&acirc;ncia que li seus grosseiros<br \/>\n    versos contra velhas e feiticeiras; e n&atilde;o sei que m&eacute;rito possa<br \/>\n    haver em dizer a seu amigo Mecenas que, se for posto por este no rol dos poetas<br \/>\n    l&iacute;ricos, tocar&aacute; os astros com a sua fronte sublime. Os tolos<br \/>\n    admiram tudo em um autor estimado. Leio apenas para mim; s&oacute; gosto do<br \/>\n    que est&aacute; na minha medida.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, que fora educado de modo a nada julgar por conta pr&oacute;pria,<br \/>\n    estava muito admirado do que ouvia; e Martinho achava muito razo&aacute;vel<br \/>\n    o ponto de vista de Pococurante.<\/p>\n<p> &#8212; Oh! eis aqui um C&iacute;cero &#8211; disse C&acirc;ndido. &#8211;<br \/>\n    Quanto a esse grande homem, penso que Vossa Excel&ecirc;ncia jamais se cansa<br \/>\n    de o ler.<\/p>\n<p> &#8212; Nunca o leio &#8211; respondeu o veneziano. &#8211; Que me importa<br \/>\n    que ele haja pleiteado a favor de Rabirio ou de Clu&ecirc;ncio? Bastam-me<br \/>\n    os processos que tenho de julgar. Dar-me-ia melhor com as suas obras filos&oacute;ficas;<br \/>\n    mas, quando vi que C&iacute;cero duvidava de tudo, cheguei &agrave; conclus&atilde;o<br \/>\n    de que sabia tanto quanto ele, e que n&atilde;o tinha necessidade de ningu&eacute;m<br \/>\n    para ser ignorante.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; exclamou Martinho. &#8211; Eis aqui oitenta volumes<br \/>\n    dos anais de uma academia de ci&ecirc;ncias; deve haver nisso tudo alguma<br \/>\n    coisa de bom.<\/p>\n<p> &#8212; Haveria &#8211; disse Pococurante &#8211; se um s&oacute; dos autores<br \/>\n    dessa moxinifada tivesse inventado ao menos a arte de fabricar alfinetes;<br \/>\n    mas em todos esses volumes n&atilde;o h&aacute; mais que in&oacute;cuos sistemas<br \/>\n    e nenhuma coisa &uacute;til.<\/p>\n<p> &#8212; Quantas pe&ccedil;as de teatro vejo aqui! &#8211; disse C&acirc;ndido,<br \/>\n    &#8211; em italiano, em espanhol, em franc&ecirc;s!<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o tr&ecirc;s mil ao todo &#8211; disse o senador, &#8211;<br \/>\n    mas n&atilde;o h&aacute; tr&ecirc;s d&uacute;zias que prestem. Quanto a essas<br \/>\n    colet&acirc;neas de serm&otilde;es, que n&atilde;o valem em conjunto uma p&aacute;gina<br \/>\n    de S&ecirc;neca, e todos esses grossos volumes de teologia, bem compreende<br \/>\n    o senhor que n&atilde;o os abro nunca, nem eu nem ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> Martinho divisou prateleiras cheias de livros ingleses.<\/p>\n<p> &#8212; Creio &#8211; disse ele. &#8211; que um republicano deve comprazer-se<br \/>\n    na leitura dessas obras escritas com tanta liberdade.<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; respondeu Pococurante, &#8211; &eacute; belo escrever-se<br \/>\n    o que se pensa; &eacute; o privil&eacute;gio do homem. Por toda a nossa It&aacute;lia,<br \/>\n    s&oacute; se escreve o que n&atilde;o se pensa; aqueles que habitam a p&aacute;tria<br \/>\n    dos C&eacute;sares e dos Antoninos n&atilde;o buscam ter uma id&eacute;ia<br \/>\n    sem a permiss&atilde;o de um jacobino. Muito me alegraria com a liberdade<br \/>\n    que inspira os g&ecirc;nios ingleses se a paix&atilde;o e o esp&iacute;rito<br \/>\n    faccioso n&atilde;o corrompessem tudo o que tem de estim&aacute;vel essa preciosa<br \/>\n    liberdade.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, descobrindo um Milton, perguntou-lhe se n&atilde;o considerava<br \/>\n    esse autor como um grande homem.<\/p>\n<p> &#8212; Quem? &#8211; explodiu Pococurante. &#8211; Esse b&aacute;rbaro<br \/>\n    que faz um longo coment&aacute;rio do primeiro cap&iacute;tulo do G&ecirc;nesis<br \/>\n    em dez livros de versos duros? Esse grosseiro imitador dos gregos, que desfigura<br \/>\n    a Cria&ccedil;&atilde;o, e que, enquanto Mois&eacute;s representa o Ser Eterno<br \/>\n    criando o mundo com o verbo, faz com que o Messias retire um grande compasso<br \/>\n    de um arm&aacute;rio do c&eacute;u, para tra&ccedil;ar a sua obra? Eu, estimar<br \/>\n    aquele que estragou o inferno e o diabo do Tasso; que disfar&ccedil;a L&uacute;cifer<br \/>\n    ora de sapo, ora de pigmeu; que o faz repetir cem vezes as mesmas tiradas;<br \/>\n    que o faz discutir teologia; que, imitando seriamente a inven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    c&ocirc;mica das armas de fogo em Ariosto, obriga os diabos a disparar canh&otilde;es<br \/>\n    pelo c&eacute;u?! Nem eu, nem ningu&eacute;m na It&aacute;lia, jamais p&ocirc;de<br \/>\n    apreciar essas tristes extravag&acirc;ncias. O casamento do pecado e da morte,<br \/>\n    e as cobras que o pecado deita &agrave; luz, fazem vomitar qualquer homem<br \/>\n    que tenha o gosto um pouco delicado, e a sua longa descri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um hospital s&oacute; &eacute; boa para coveiros. Esse poema obscuro, extravagante<br \/>\n    e enfadonho, foi desprezado ao aparecer; eu o trato agora como foi tratado<br \/>\n    na sua p&aacute;tria pelos contempor&acirc;neos. De resto, digo o que penso;<br \/>\n    e pouco me importa se os outros pensam ou n&atilde;o como eu.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido sentia-se aflito com tais palavras; respeitava Homero, gostava<br \/>\n    um pouco de Milton.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! &#8211; dizia ele em voz baixa a Martinho, &#8211; tenho muito<br \/>\n    medo de que esse homem dedique um soberano desprezo aos nossos poetas alem&atilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o haveria grande mal nisso &#8211; retrucou Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; Oh, que homem superior! &#8211; continuava C&acirc;ndido a murmurar.<br \/>\n    &#8211; Que g&ecirc;nio esse Pococurante! N&atilde;o lhe agrada coisa alguma.<\/p>\n<p> Depois de terem assim passado em revista todos os livros, desceram para<br \/>\n    o jardim. C&acirc;ndido louvou-lhe todas as belezas.<\/p>\n<p> Nunca vi nada de t&atilde;o mau gosto &#8211; disse o propriet&aacute;rio<br \/>\n    &#8211; &Eacute; uma bagatela; mas j&aacute; amanh&atilde; vou mandar construir<br \/>\n    outro de um tra&ccedil;ado mais nobre.<\/p>\n<p> Depois que os dois curiosos se despediram de Sua Excel&ecirc;ncia, disse<br \/>\n    C&acirc;ndido a Martinho:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o pode negar que &eacute; esse o mais feliz dos homens,<br \/>\n    pois est&aacute; acima de tudo o que possui.<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o v&ecirc; o senhor que ele est&aacute; &eacute; enfarado<br \/>\n    de tudo o que possui? Disse Plat&atilde;o, h&aacute; muito, que os melhores<br \/>\n    est&ocirc;magos n&atilde;o s&atilde;o aqueles que repelem todos os alimentos.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; ent&atilde;o prazer em tudo criticar &#8211;<br \/>\n    disse C&acirc;ndido, em sentir defeitos onde os outros julgam ver belezas?<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute;, pois, prazer em n&atilde;o sentir prazer? &#8211; tornou<br \/>\n    Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, quer ent&atilde;o dizer que, feliz, s&oacute; eu mesmo, quando<br \/>\n    encontrar a senhorita Cunegundes!<\/p>\n<p> &#8212; Sempre &eacute; bom esperar &#8211; disse Martinho.<\/p>\n<p> Entrementes, passavam-se os dias e semanas; Cacambo n&atilde;o voltava,<br \/>\n    e t&atilde;o abismado se achava C&acirc;ndido nos seus pesares, que nem mesmo<br \/>\n    notou que Paquette e o Irm&atilde;o Girofl&eacute;e n&atilde;o tinham vindo<br \/>\n    ao menos agradecer-lhe.<\/p>\n<h4><a name=\"26\">CAP&Iacute;TULO XXVI <\/a><\/h4>\n<p><strong>De uma ceia que C&acirc;ndido e Martinho fizeram com seis estrangeiros,<br \/>\n    quem eram estes.<\/strong><\/p>\n<p> Uma noite em que C&acirc;ndido, em companhia de Martinho, ia sentar-se &agrave;<br \/>\n    mesa com os estrangeiros que paravam na mesma hospedaria, aborda-o pelas costas<br \/>\n    um homem de rosto bronzeado que, tomando-o pelo bra&ccedil;o, lhe diz: &#8220;Apronte-se<br \/>\n    para partir conosco, sem falta.&#8221; C&acirc;ndido se volta e d&aacute;<br \/>\n    de rosto com Cacambo. S&oacute; a vista de Cunegundes lhe poderia causar maior<br \/>\n    espanto e alegria. Abra&ccedil;a o seu caro amigo.<\/p>\n<p> &#8212; E Cunegundes est&aacute; aqui, n&atilde;o &eacute;? Leva-me a sua<br \/>\n    presen&ccedil;a, para que eu morra de alegria com ela.<\/p>\n<p> &#8212; Cunegundes n&atilde;o est&aacute; aqui; est&aacute; em Constantinopla.<\/p>\n<p> &#8212; Meus Deus! Em Constantinopla?! Mesmo que esteja: na China, corramos,<br \/>\n    sem demora!<\/p>\n<p> &#8212; Partiremos depois da ceia &#8211; tornou Cacambo. &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    lhe posso dizer mais nada; sou escravo, o meu senhor me espera; tenho de ir<br \/>\n    servi-lo &agrave; mesa; n&atilde;o diga nada, coma e apronte-se.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido, dividido entre a alegria e a dor, encantado de rever seu<br \/>\n    fiel agente, at&ocirc;nito de o ver escravo, cheio da preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de encontrar a sua amada, com o cora&ccedil;&atilde;o palpitante, o espirito<br \/>\n    agitado, sentou-se &agrave; mesa com Martinho que considerava de sangue frio<br \/>\n    todas aquelas aventuras, e com seis estrangeiros que tinham vindo passar o<br \/>\n    carnaval em Veneza. Cacambo, que servia bebida a um desses estrangeiros, achegou-se<br \/>\n    ao ouvido de seu amo, ao fim da ceia, e disse-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Sire, Vossa Majestade pode partir quando quiser, o navio est&aacute;<br \/>\n    pronto.<\/p>\n<p> Dito isto, retirou-se. Os convivas, at&ocirc;nitos, se entreolharam em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    quando outro criado. aproximando-se de seu amo, lhe diz:<\/p>\n<p> &#8212; Sire, a liteira de Vossa Majestade o espera em P&aacute;dua, e o<br \/>\n    barco est&aacute; pronto.<\/p>\n<p> O amo fez um gesto, e o criado partiu. Todos os convivas se entreolharam<br \/>\n    de novo, e a surpresa comum redobrou. Um terceiro criado, aproximando-se tamb&eacute;m<br \/>\n    de um terceiro viajante, disse-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Sire, Vossa Majestade n&atilde;o pode demorar-se mais aqui: vou<br \/>\n    preparar tudo. &#8211; E retirou-se.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido e Martinho n&atilde;o duvidaram mais de que se tratava de<br \/>\n    uma mascarada do carnaval. Um quarto criado disse ao quarto amo:<\/p>\n<p> &#8212; Vossa Majestade poder&aacute; partir quando quiser. &#8211; E retirou-se<br \/>\n    como os outros. O quinto criado disse o mesmo ao quinto amo. Mas o sexto falou<br \/>\n    diferentemente ao sexto estrangeiro, que se achava ao lado de C&acirc;ndido;<br \/>\n    disse-lhe:<\/p>\n<p> &#8212; Sire, n&atilde;o querem conceder mais cr&eacute;dito a Vossa Majestade,<br \/>\n    nem a mim tampouco. Estamos em perigo de ser presos esta noite, Vossa Majestade<br \/>\n    e eu. Adeus, vou tratar dos meus assuntos.<\/p>\n<p> Tendo desaparecido todos os criados, os seis forasteiros, C&acirc;ndido<br \/>\n    e Martinho permaneceram em profundo sil&ecirc;ncio, at&eacute; que afinal<br \/>\n    C&acirc;ndido o rompeu:<\/p>\n<p> &#8212; Que singular brincadeira, meus senhores! Com que ent&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    todos reis aqui? Quanto a mim, confesso que nem eu nem Martinho o somos.<\/p>\n<p> O amo de Cacambo tomou ent&atilde;o a palavra e disse gravemente em italiano:<\/p>\n<p> N&atilde;o estou brincando, chamo-me Achmet III. Fui sult&atilde;o durante<br \/>\n    v&aacute;rios anos; destronei meu irm&atilde;o; meu sobrinho me destronou;<br \/>\n    cortaram a cabe&ccedil;a a meus vizires; termino os meus dias no velho serralho;<br \/>\n    meu sobrinho, o sult&atilde;o Mahmoud, me permite viajar algumas vezes, por<br \/>\n    motivos de sa&uacute;de, e eu vim passar o carnaval em Veneza.<\/p>\n<p> Falou depois um jovem que estava ao lado de Achmet:<\/p>\n<p> &#8212; Chamo-me Ivan; fui imperador de todas as R&uacute;ssias; destronaram-me<br \/>\n    ainda no ber&ccedil;o; meu pai e minha m&atilde;e foram presos e eu criei-me<br \/>\n    numa pris&atilde;o; tenho &agrave;s vezes permiss&atilde;o de viajar, acompanhado<br \/>\n    de meus guardas, e vim passar o carnaval em Veneza.<\/p>\n<p> Disse o terceiro:<\/p>\n<p> &#8212; Sou Carlos Eduardo, rei da Inglaterra; meu pai cedeu-me seus direitos<br \/>\n    ao reino; lutei para sustent&aacute;-los; arrancaram o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a oitocentos de meus partid&aacute;rios, com o qual lhes bateram as faces.<br \/>\n    Fui aprisionado; vou a Roma fazer uma visita ao rei meu pai, destronado como<br \/>\n    eu e meu av&ocirc;, e vim passar o carnaval em Veneza.<\/p>\n<p> O quarto tomou ent&atilde;o a palavra e disse:<\/p>\n<p> &#8212; Sou rei da Pol&ocirc;nia; a sorte da guerra privou-me de meus Estados<br \/>\n    heredit&aacute;rios; meu pai sofreu os mesmos reveses; resigno-me &agrave;<br \/>\n    Provid&ecirc;ncia, como o sult&atilde;o Achmet, o imperador Ivan e o rei Carlos<br \/>\n    Eduardo, a quem Deus conceda longa vida, e vim passar o carnaval em Veneza.<\/p>\n<p> Falou ent&atilde;o o quinto:<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m sou rei da Pol&ocirc;nia. Por duas vezes perdi meu<br \/>\n    reino, mas a Provid&ecirc;ncia deu-me outro Estado, onde fiz mais benef&iacute;cios<br \/>\n    do que todos os reis dos s&aacute;rmatas, reunidos, jamais o puderam fazer<br \/>\n    &agrave;s margens do Vistula. Resigno-me tamb&eacute;m &agrave; Provid&ecirc;ncia,<br \/>\n    e vim passar o carnaval em Veneza.<\/p>\n<p> Faltava falar o sexto soberano:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sou t&atilde;o grande monarca como Vossas Majestades<br \/>\n    &#8211; disse ele. &#8211; Mas afinal fui rei como qualquer outro. Sou Teodoro;<br \/>\n    elegeram-me rei da C&oacute;rsega; chamaram-me de Vossa Majestade e agora<br \/>\n    apenas me chamam de Senhor. Mandei cunhar moedas, e n&atilde;o possuo uma<br \/>\n    &uacute;nica; tive dois secret&aacute;rios de Estado, e tenho apenas um criado;<br \/>\n    j&aacute; me vi sobre um trono, e estive preso muito tempo em Londres, sobre<br \/>\n    umas palhas. Receio muito ser tratado do mesmo modo aqui, embora tenha vindo,<br \/>\n    como Vossas Majestades, passar o carnaval em Veneza.<\/p>\n<p> Os cinco outros reis ouviram tais palavras cheios de nobre compaix&atilde;o.<br \/>\n    Cada um deles deu vinte sequins ao rei Teodoro, para comprar vestu&aacute;rios<br \/>\n    e camisas. C&acirc;ndido presenteou-o com um diamante de dois mil sequins.<br \/>\n    &#8220;Quem ser&aacute; esse simples particular &#8211; diziam os cinco reis<br \/>\n    &#8211; que pode dar (e d&aacute;) cem vezes mais que cada um de n&oacute;s?&#8221;<\/p>\n<p> No instante em que se levantavam da mesa, chegaram &agrave; mesma hospedaria<br \/>\n    quatro altezas seren&iacute;ssimas que tamb&eacute;m haviam perdido seus Estados<br \/>\n    pela sorte das armas e que vinham passar o resto do carnaval em Veneza. Mas<br \/>\n    C&acirc;ndido n&atilde;o deu a m&iacute;nima aten&ccedil;&atilde;o aos rec&eacute;m-chegados.<br \/>\n    S&oacute; se preocupava em ir ter com a sua querida Cunegundes em Constantinopla.<\/p>\n<h4><a name=\"27\">CAP&Iacute;TULO XXVII <\/a><\/h4>\n<p><strong>Da viagem de C&acirc;ndido a Constantinopla.<\/strong><\/p>\n<p> O fiel Cacambo j&aacute; conseguira, com o capit&atilde;o turco que deveria<br \/>\n    levar o sult&atilde;o Achmet a Constantinopla, que recebesse a bordo C&acirc;ndido<br \/>\n    e Martinho. Ambos se dirigiram para o navio, depois de se haverem prosternado<br \/>\n    perante Sua Miser&aacute;vel Alteza. C&acirc;ndido, em caminho, dizia ao companheiro:<\/p>\n<p> &#8212; Vimos, pois, seis reis destronados, e com eles jantamos, e dentre<br \/>\n    esses, ainda houve um a quem dei esmola. Talvez haja muitos outros pr&iacute;ncipes<br \/>\n    mais desgra&ccedil;ados. Quanto a mim, s&oacute; perdi cem carneiros, e vou<br \/>\n    para os bra&ccedil;os de Cunegundes. Mais uma vez Pangloss teve raz&atilde;o,<br \/>\n    meu caro Martinho: tudo est&aacute; bem.<\/p>\n<p> &#8212; Assim o desejo &#8211; disse Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &#8211; tornou C&acirc;ndido, &#8211; em todo caso foi uma aventura<br \/>\n    muito pouco veross&iacute;mil a que nos aconteceu. Jamais se ouviu contar<br \/>\n    que seis reis destronados jantassem juntos numa estalagem.<\/p>\n<p> &#8212; Isso n&atilde;o &eacute; mais extraordin&aacute;rio &#8211; respondeu<br \/>\n    Martinho &#8211; que a maior parte das nossas aventuras. E, quanto &agrave;<br \/>\n    honra que tivemos de jantar com eles, &eacute; isso uma bagatela que n&atilde;o<br \/>\n    merece a nossa aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mal se viu a bordo, C&acirc;ndido saltou ao pesco&ccedil;o de seu antigo<br \/>\n    criado e amigo Cacambo:<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o? Que faz Cunegundes? Continua um prod&iacute;gio<br \/>\n    de beleza? Ainda me ama? Como est&aacute; ela? N&atilde;o lhe compraste um<br \/>\n    pal&aacute;cio em Constantinopla?<\/p>\n<p> &#8212; Cunegundes, meu caro patr&atilde;o, &eacute; quem lava a lou&ccedil;a,<br \/>\n    na Prop&ocirc;ntida, em casa de um pr&iacute;ncipe que tem muito pouca lou&ccedil;a;<br \/>\n    &eacute; escrava da casa de um antigo soberano chamado Ragotski, a quem o<br \/>\n    Gr&atilde;o Turco d&aacute; tr&ecirc;s escudos por dia para o sustentar no<br \/>\n    ex&iacute;lio, mas o mais triste &eacute; que ela perdeu a. beleza e se tornou<br \/>\n    horrivelmente feia.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! bela ou feia &#8211; disse C&acirc;ndido, eu sou um homem honrado,<br \/>\n    e meu dever &eacute; am&aacute;-la toda a vida. Mas como pode estar ela reduzida<br \/>\n    a t&atilde;o miser&aacute;vel estado, com os cinco ou seis milh&otilde;es<br \/>\n    que levava?<\/p>\n<p> &#8212; Pois n&atilde;o tive de dar dois milh&otilde;es ao senhor Dom Fernando<br \/>\n    de Ibarra y Figueroa y Mascare&ntilde;as y Lampurdos y Sousa, governador de<br \/>\n    Buenos Aires, para que me fosse permitido levar comigo a senhorita Cunegundes?<br \/>\n    E depois &#8211; continuou Cacambo &#8211; um pirata n&atilde;o nos despojou<br \/>\n    de todo o resto? E esse pirata n&atilde;o nos levou ao cabo de Matapan, a<br \/>\n    Milo, a Nic&aacute;ria, a Samos, a Petra, aos Dardanelos, a M&aacute;rmora,<br \/>\n    a Sentari? Cunegundes e a velha servem na casa do pr&iacute;ncipe de que lhe<br \/>\n    falei, e eu sou escravo do sult&atilde;o destronado.<\/p>\n<p> &#8212; Que espantosas calamidades encadeadas umas &agrave;s outras! &#8211;<br \/>\n    exclamou C&acirc;ndido. &#8211; Mas afinal ainda tenho alguns diamantes; libertarei<br \/>\n    facilmente a senhorita Cunegundes. &Eacute; pena que ela se haja tornado t&atilde;o<br \/>\n    feia. Depois, voltando-se para Martinho:<\/p>\n<p> &#8212; A quem acha mais digno de l&aacute;stima &#8211; perguntou-lhe,<br \/>\n    &#8211; o sult&atilde;o Achmet, o imperador Ivan, o rei Carlos Eduardo, ou<br \/>\n    a mim?<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei &#8211; disse Martinho, &#8211; era preciso que eu<br \/>\n    conhecesse o &iacute;ntimo de cada um.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! se aqui estivesse, Pangloss o saberia dizer.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei com que balan&ccedil;a &#8211; disse Martinho &#8211;<br \/>\n    poderia o seu Pangloss pesar os infort&uacute;nios dos homens e avaliar os<br \/>\n    seus sofrimentos. S&oacute; o que eu presumo &eacute; que deve haver milh&otilde;es<br \/>\n    de homens no mundo cem vezes mais dignos de l&aacute;stima que o rei Carlos<br \/>\n    Eduardo, o imperador Ivan e o sult&atilde;o Achmet.<\/p>\n<p> &#8212; Pode ser &#8211; disse C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> Dentro em poucos dias se achavam no canal do Mar Negro. A primeira coisa<br \/>\n    que fez C&acirc;ndido foi resgatar Cacambo bastante caro e, sem perda de tempo,<br \/>\n    meteu-se numa galera, com os companheiros, para ir &agrave; Prop&ocirc;ntida<br \/>\n    procurar Cunegundes, por mais feia que pudesse estar.<\/p>\n<p> Havia nas gal&eacute;s dois for&ccedil;ados que remavam muito mal e a quem<br \/>\n    o patr&atilde;o levantino aplicava de vez em quando alguns golpes de nervo<br \/>\n    de boi sobre as esp&aacute;duas nuas. C&acirc;ndido, por um natural sentimento,<br \/>\n    olhou-os mais atentamente do que aos outros, e aproximou-se deles com piedade.<br \/>\n    Alguns tra&ccedil;os de suas fisionomias desfiguradas pareceram-lhe apresentar<br \/>\n    um qu&ecirc; de semelhan&ccedil;a com Pangloss e com aquele infeliz jesu&iacute;ta,<br \/>\n    o bar&atilde;o, irm&atilde;o da senhorita Cunegundes. Essa id&eacute;ia o<br \/>\n    encheu de como&ccedil;&atilde;o e tristeza. Considerou-os mais atentamente.<\/p>\n<p> &#8212; Na verdade &#8211; disse ele a Cacambo, &#8211; se eu n&atilde;o<br \/>\n    tivesse visto enforcar mestre Pangloss e se n&atilde;o me houvesse acontecido<br \/>\n    a infelicidade de matar o bar&atilde;o, julgaria que s&atilde;o eles que est&atilde;o<br \/>\n    remando nesta galera.<\/p>\n<p> Ao nome do bar&atilde;o e de Pangloss, os dois for&ccedil;ados soltaram<br \/>\n    um grito, estacaram e deixaram cair os remos. O levantino acorreu, e redobraram<br \/>\n    os golpes de nervo de boi.<\/p>\n<p> Basta! basta! &#8211; exclamou C&acirc;ndido. &#8211; Eu lhe darei todo<br \/>\n    o dinheiro que quiser.<\/p>\n<p> &#8212; Como! &Eacute; C&acirc;ndido! &#8211; bradava um dos for&ccedil;ados.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; C&acirc;ndido! &#8211; bradava o outro.<\/p>\n<p> &#8212; Estarei sonhando? Estarei acordado? Estou mesmo nesta galera? &#8211;<br \/>\n    indagava C&acirc;ndido. &#8211; &Eacute; este o senhor bar&atilde;o que eu<br \/>\n    matei? &Eacute; este Mestre Pangloss que eu vi enforcar?<\/p>\n<p> &#8212; Somos n&oacute;s mesmos, somos n&oacute;s mesmos &#8211; respondiam<br \/>\n    eles.<\/p>\n<p> &#8212; Como! &Eacute; esse o grande fil&oacute;sofo? &#8211; dizia Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; Escute, senhor patr&atilde;o levantino &#8212; disse C&acirc;ndido, &#8211;<br \/>\n    quanto quer pelo resgate do senhor de Thunder-ten-tronckh, um dos primeiros<br \/>\n    bar&otilde;es do Imp&eacute;rio, e do senhor Pangloss, o mais profundo metaf&iacute;sico<br \/>\n    da Alemanha?<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; que esses dois c&atilde;es de for&ccedil;ados crist&atilde;os<br \/>\n    &#8211; respondeu o levantino &#8211; s&atilde;o bar&otilde;es e metaf&iacute;sicos,<br \/>\n    o que &eacute; sem d&uacute;vida uma grande dignidade na sua terra, tu, c&atilde;o<br \/>\n    de crist&atilde;o, me pagar&aacute;s por eles cinq&uuml;enta mil sequins.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o seus. Leve-me como um rel&acirc;mpago a Constantinopla,<br \/>\n    e ser&aacute; pago imediatamente. N&atilde;o, n&atilde;o; leve-me &agrave;<br \/>\n    senhorita Cunegundes.<\/p>\n<p> &Agrave; primeira oferta de C&acirc;ndido, j&aacute; o levantino virara<br \/>\n    a proa para a cidade, e fazia remar mais depressa do que um p&aacute;ssaro<br \/>\n    fende os ares.<\/p>\n<p> C&acirc;ndido abra&ccedil;ou cem vezes o bar&atilde;o e Pangloss. Como foi<br \/>\n    que eu n&atilde;o te matei, meu caro bar&atilde;o? E tu, meu Pangloss, como<br \/>\n    &eacute; que est&aacute;s vivo depois de ter sido enforcado? E por que est&atilde;o<br \/>\n    os dois em gal&eacute;s na Turquia?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade que a minha querida irm&atilde; est&aacute; nesse<br \/>\n    pa&iacute;s? &#8211; indagava o bar&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; respondia Cacambo.<\/p>\n<p> &#8212; Com que ent&atilde;o torno a ver o meu querido C&acirc;ndido! &#8211;<br \/>\n    exclamava Pangloss.<\/p>\n<p> &#8212; C&acirc;ndido lhes apresentava Martinho e Cacambo. Todos se abra&ccedil;avam,<br \/>\n    todos falavam ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> A galera voava, estava j&aacute; no porto. Mandaram chamar um judeu, a quem<br \/>\n    C&acirc;ndido vendeu por cinq&uuml;enta mil sequins um diamante do valor de<br \/>\n    cem mil, e que jurou por Abra&atilde;o que n&atilde;o lhe poderia oferecer<br \/>\n    mais. C&acirc;ndido pagou incontinenti o resgate do bar&atilde;o e de Pangloss.<br \/>\n    Este lan&ccedil;ou-se aos p&eacute;s de seu libertador e banhou-os de l&aacute;grimas;<br \/>\n    o bar&atilde;o agradeceu-lhe com um sinal de cabe&ccedil;a e prometeu devolver-lhe<br \/>\n    a quantia na primeira oportunidade.<\/p>\n<p> &#8212; Mas ser&aacute; poss&iacute;vel que minha irm&atilde; esteja na<br \/>\n    Turquia? &#8211; dizia ele.<\/p>\n<p> Nada mais poss&iacute;vel &#8211; respondeu Cacambo, &#8211; pois lava pratos<br \/>\n    na cozinha de um pr&iacute;ncipe da Transilv&acirc;nia.<\/p>\n<p> Mandaram em seguida chamar dois judeus; C&acirc;ndido vendeu mais diamantes;<br \/>\n    e partiram todos em outra galera, para ir libertar Cunegundes.<\/p>\n<h4><a name=\"28\">CAP&Iacute;TULO XXVIII <\/a><\/h4>\n<p><strong>Do que aconteceu a C&acirc;ndido, a Cunegundes, a Pangloss, a Martinho<br \/>\n    etc.<\/strong><\/p>\n<p> Mais uma vez perd&atilde;o, meu reverendo, por lhe haver atravessado o corpo<br \/>\n    com a espada &#8211; disse C&acirc;ndido ao bar&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, n&atilde;o falemos mais nisso; confesso que fui um pouco exaltado.<br \/>\n    J&aacute; que pretendes saber por que acaso me viste nas gal&eacute;s, eu<br \/>\n    te direi que, depois de ter sido curado pelo irm&atilde;o botic&aacute;rio<br \/>\n    do Col&eacute;gio, fui atacado e feito prisioneiro por uma fac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espanhola, e nessas condi&ccedil;&otilde;es cheguei em Buenos Aires quando<br \/>\n    minha irm&atilde; acabava de partir. Pedi que me enviassem a Roma, para junto<br \/>\n    do vig&aacute;rio geral. Fui nomeado esmoler em Constantinopla, adido ao senhor<br \/>\n    embaixador da Fran&ccedil;a. N&atilde;o fazia oito dias que assumira o meu<br \/>\n    cargo, quando numa tarde encontrei um jovem icogl&atilde; muito simp&aacute;tico.<br \/>\n    O calor estava terr&iacute;vel: o jovem quis banhar-se; aproveitei a ocasi&atilde;o<br \/>\n    para tamb&eacute;m tomar um banho. N&atilde;o sabia que constitu&iacute;sse<br \/>\n    crime capital, para um crist&atilde;o, ser encontrado nu com um jovem mu&ccedil;ulmano.<br \/>\n    Um cadi mandou-me dar cem bastonadas na sola dos p&eacute;s e condenou-me<br \/>\n    &agrave;s gal&eacute;s perp&eacute;tuas. N&atilde;o creio que jamais se haja<br \/>\n    cometido t&atilde;o horr&iacute;vel injusti&ccedil;a. Mas eu s&oacute; desejaria<br \/>\n    saber por que &eacute; que minha irm&atilde; se acha na cozinha de um soberano<br \/>\n    da Transilv&acirc;nia asilado na Turquia.<\/p>\n<p> &#8212; Mas tu, meu caro Pangloss &#8211; perguntou C&acirc;ndido, &#8211;<br \/>\n    como &eacute; poss&iacute;vel que eu te torne a ver?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade &#8211; disse Pangloss &#8211; que me viste enforcar.<br \/>\n    Eu deveria ser queimado; mas deves lembrar-te que chovia a c&acirc;ntaros<br \/>\n    quando me iam assar: a tempestade era t&atilde;o violenta que desesperaram<br \/>\n    de acender o fogo; fui enforcado porque n&atilde;o acharam melhor solu&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    Um cirurgi&atilde;o comprou meu corpo, levou-me para casa e dissecou-me. Fez-me<br \/>\n    primeiro uma incis&atilde;o crucial, do umbigo &agrave; clav&iacute;cula.<br \/>\n    Imposs&iacute;vel ser t&atilde;o mal enforcado como eu o fora. O carrasco<br \/>\n    da Santa Inquisi&ccedil;&atilde;o, que era subdi&aacute;cono, sabia queimar<br \/>\n    a gente &agrave;s mil maravilhas, mas n&atilde;o estava acostumado a enforcar:<br \/>\n    a corda, muito molhada, deslizou mal e enroscou-se; em suma, eu respirava<br \/>\n    ainda: a incis&atilde;o crucial me fez lan&ccedil;ar tamanho grito, que meu<br \/>\n    cirurgi&atilde;o tombou de costas, e, julgando que dissecava o diabo, fugiu<br \/>\n    morto de medo, rolando outra vez, escada abaixo. Ao ru&iacute;do, acorreu<br \/>\n    a mulher do cirurgi&atilde;o; viu-me estendido na mesa com a minha incis&atilde;o<br \/>\n    crucial; teve ainda mais medo que o marido, abalou a correr e caiu sobre ele.<br \/>\n    Depois que se refizeram um pouco, ouvi a cirurgi&atilde; dizer ao cirurgi&atilde;o:<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m, que id&eacute;ia essa tua de dissecar um her&eacute;tico?<br \/>\n    N&atilde;o sabes que o diabo est&aacute; sempre no corpo dessa gente? Vou<br \/>\n    j&aacute; procurar um padre para exorcism&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Estremeci ao ouvir tal coisa, e reuni o pouco de for&ccedil;as que me restavam<br \/>\n    para gritar:<\/p>\n<p> &#8212; Tenham piedade de mim!<\/p>\n<p> Afinal o barbeiro portugu&ecirc;s criou coragem; costurou minha pele; tamb&eacute;m<br \/>\n    a mulher cuidou de mim; fiquei bom ao cabo de quinze dias. O barbeiro conseguiu<br \/>\n    empregar-me como lacaio de um cavaleiro de Malta que ia a Veneza; mas, como<br \/>\n    o meu patr&atilde;o n&atilde;o tinha com que me pagar, pus-me a servi&ccedil;o<br \/>\n    de um mercador veneziano e acompanhei-o at&eacute; Constantinopla.<\/p>\n<p> Deu-me um dia a fantasia de entrar numa mesquita. S&oacute; se encontrava<br \/>\n    ali um velho imame e uma jovem devota muito bonita que dizia as suas ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e estava com o colo inteiramente nu. Tinha ela entre os dois seios um belo<br \/>\n    ramalhete de tulipas, rosas, an&ecirc;monas, ran&uacute;nculos, jacintos e<br \/>\n    orelhas-de-urso; deixou cair o ramalhete; eu logo o apanhei, colocando-o no<br \/>\n    seu lugar com respeitosa solicitude. Levei tanto tempo para o arrumar bem<br \/>\n    direitinho, que o imame se encolerizou e, vendo que eu era crist&atilde;o,<br \/>\n    gritou por socorro. Levaram-me ao c&aacute;di, que me mandou dar cem varadas<br \/>\n    nas plantas dos p&eacute;s e condenou-me &agrave;s galeras. Fui encadeado<br \/>\n    precisamente na mesma galera e no mesmo banco que o senhor bar&atilde;o. Havia,<br \/>\n    entre os condenados, quatro jovens de Marselha, cinco padres napolitanos e<br \/>\n    dois monges de Corfu, que nos disseram que tais aventuras aconteciam todos<br \/>\n    os dias. O senhor bar&atilde;o alegava que sofrera maior injusti&ccedil;a<br \/>\n    do que eu; da minha parte, achava eu que era muito mais permiss&iacute;vel<br \/>\n    ajeitar umas flores no seio de uma mulher do que estar nu com um icogl&atilde;.<br \/>\n    Discut&iacute;amos sem cessar e receb&iacute;amos vinte golpes de nervo-de-boi<br \/>\n    por dia, quando o encadeamento dos sucessos deste universo te conduziu &agrave;<br \/>\n    nossa galera e fez com que nos resgatasses.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem! meu caro Pangloss &#8211; disse C&acirc;ndido, &#8211;<br \/>\n    enquanto eras enforcado, dissecado, espancado e remavas nas galeras, sempre<br \/>\n    achavas que tudo ia o melhor poss&iacute;vel?<\/p>\n<p> Mantenho a minha primitiva opini&atilde;o &#8211; respondeu Pangloss, &#8211;<br \/>\n    pois afinal sou fil&oacute;sofo: n&atilde;o me conv&eacute;m desfazer-me,<br \/>\n    visto que Leibnitz n&atilde;o pode incorrer em erro, e a harmonia preestabelecida<br \/>\n    &eacute; a mais bela coisa do mundo, bem como o todo e a mat&eacute;ria sutil.<\/p>\n<p> &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<h4><a name=\"29\">CAP&Iacute;TULO XXIX<\/a><\/h4>\n<p> <strong>De como C&acirc;ndido encontrou Cunegundes e a velha.<\/strong><\/p>\n<p> Enquanto C&acirc;ndido, o bar&atilde;o, Pangloss, Martinho e Cacambo contavam<br \/>\n    as suas aventuras, filosofando sobre os acontecimentos contingentes ou n&atilde;o<br \/>\n    contingentes deste universo, e discutindo sobre os efeitos e as causas, o<br \/>\n    mal moral ,e o mal f&iacute;sico, a liberdade e a necessidade, e o consolo<br \/>\n    que se pode ter depois de haver remado numa galera turca, chegaram &agrave;<br \/>\n    costa da Prop&ocirc;ntida. onde se achava a casa do pr&iacute;ncipe da Transilv&acirc;nia.<br \/>\n    O primeiro espet&aacute;culo que se apresentou a seus olhos, foi Cunegundes<br \/>\n    e a velha, a estender toalhas no coradouro.<\/p>\n<p> O bar&atilde;o empalideceu. E o enamorado C&acirc;ndido, ao ver a sua bela<br \/>\n    Cunegundes com a pele tisnada, os olhos empapu&ccedil;ados, os seios murchos,<br \/>\n    as faces enrugadas, os bra&ccedil;os vermelhos e pelancudos, recuou tr&ecirc;s<br \/>\n    passos, horrorizado, mas em seguida avan&ccedil;ou, por delicadeza. Ela abra&ccedil;ou<br \/>\n    C&acirc;ndido e o irm&atilde;o; abra&ccedil;aram a velha; C&acirc;ndido resgatou<br \/>\n    as duas.<\/p>\n<p> Havia na vizinhan&ccedil;a uma pequena granja; a velha prop&ocirc;s a C&acirc;ndido<br \/>\n    que ali se acomodassem todos, enquanto esperavam melhor destino. Cunegundes<br \/>\n    n&atilde;o sabia que tinha ficado feia, pois ningu&eacute;m lho dissera: lembrou<br \/>\n    a C&acirc;ndido a sua promessa, com um ar t&atilde;o positivo, que o bondoso<br \/>\n    C&acirc;ndido n&atilde;o se atreveu a desengan&aacute;-la. Disse, pois, ao<br \/>\n    bar&atilde;o, que ia desposar a sua irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Jamais consentirei &#8211; disse o bar&atilde;o &#8211; tal baixeza<br \/>\n    da parte dela e tal insol&ecirc;ncia da tua parte; essa inf&acirc;mia nunca<br \/>\n    me ser&aacute; exprobrada: os filhos de minha irm&atilde; n&atilde;o poderiam<br \/>\n    entrar nos cabidos da Alemanha. N&atilde;o, a minha irm&atilde; s&oacute;<br \/>\n    se casar&aacute; com um bar&atilde;o do Imp&eacute;rio.<\/p>\n<p> Cunegundes lan&ccedil;ou-se-lhe aos p&eacute;s e banhou-os de l&aacute;grimas;<br \/>\n    ele foi inflex&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Louco varrido &#8211; disse-lhe C&acirc;ndido, &#8211; eu te salvei<br \/>\n    das gal&eacute;s, eu paguei o teu resgate, eu paguei o resgate da tua irm&atilde;;<br \/>\n    ela aqui lavava pratos, ela est&aacute; feia, tenho a bondade de despos&aacute;-la,<br \/>\n    e tu ainda queres opor-te! Por minha vontade, eu te mataria de novo.<\/p>\n<p> &#8212; Podes matar-me outra vez &#8211; disse o bar&atilde;o, &#8211; mas,<br \/>\n    enquanto eu for vivo, n&atilde;o desposar&aacute;s minha irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<h4><a name=\"30\">CAP&Iacute;TULO XXX<\/a><\/h4>\n<p><strong>Conclus&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>C&acirc;ndido, no fundo do cora&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o tinha o m&iacute;nimo<br \/>\n    desejo de casar com Cunegundes. Mas a inaudita insol&ecirc;ncia do bar&atilde;o<br \/>\n    o decidiu a efetuar o casamento, e Cunegundes instava t&atilde;o vivamente<br \/>\n    que ele n&atilde;o podia desdizer-se. Consultou Pangloss, Martinho e o fiel<br \/>\n    Cacambo. Pangloss apresentou um belo memorial em que provava que o bar&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o tinha o m&iacute;nimo direito sobre a sua irm&atilde;, e que esta<br \/>\n    podia, segundo todas as leis do Imp&eacute;rio, desposar C&acirc;ndido com<br \/>\n    a m&atilde;o esquerda. Martinho prop&ocirc;s lan&ccedil;ar o bar&atilde;o<br \/>\n    ao mar. Cacambo opinou que deveriam devolv&ecirc;-lo ao capit&atilde;o levantino<br \/>\n    e &agrave;s gal&eacute;s, enquanto n&atilde;o o mandavam para Roma, ao vig&aacute;rio<br \/>\n    geral. A proposta foi considerada excelente; a velha aprovou-a; nada disseram<br \/>\n    &agrave; sua irm&atilde;; a coisa foi efetuada com algum dinheiro, e tiveram<br \/>\n    o prazer de enganar um jesu&iacute;ta e punir o orgulho de um bar&atilde;o<br \/>\n    germ&acirc;nico.<\/p>\n<p> Nada mais natural do que imaginar-se que, ap&oacute;s tantos desastres,<br \/>\n    C&acirc;ndido, casado com a sua amada, e na companhia do fil&oacute;sofo Pangloss,<br \/>\n    do fil&oacute;sofo Martinho, do prudente Cacambo e da velha, e ainda com os<br \/>\n    diamantes que trouxera da p&aacute;tria dos antigos incas, levava agora a<br \/>\n    vida mais agrad&aacute;vel deste mundo. Mas foi t&atilde;o explorado pelos<br \/>\n    judeus, que afinal s&oacute; lhe restou a pequena granja. A mulher, cada dia<br \/>\n    mais feia, ficara rabugenta e insuport&aacute;vel. A velha estava inv&aacute;lida<br \/>\n    e tornou-se ainda pior de g&ecirc;nio que Cunegundes. Cacambo, que trabalhava<br \/>\n    na horta e ia vender legumes em Constantinopla, andava exausto de trabalho<br \/>\n    e amaldi&ccedil;oava o seu destino. Pangloss desesperava-se por n&atilde;o<br \/>\n    poder brilhar nalguma universidade da Alemanha. Quanto a Martinho, achava-se<br \/>\n    firmemente persuadido de que se est&aacute; igualmente mal em toda parte,<br \/>\n    e encarava tudo com paci&ecirc;ncia. C&acirc;ndido, Martinho e Pangloss discutiam<br \/>\n    &agrave;s vezes metaf&iacute;sica e moral. Muitas vezes avistavam, pelas janelas<br \/>\n    da granja, barcos carregados de ef&ecirc;ndis, de pax&aacute;s, de c&aacute;dis,<br \/>\n    a quem mandavam para o ex&iacute;lio em Lemmas, em Mitilene, em Erzerum. Viam<br \/>\n    chegar outros c&aacute;dis, outros paxis, outros ef&ecirc;ndis, que tomavam<br \/>\n    o lugar dos depostos e eram, por sua vez expulsos. Viam tamb&eacute;m cabe&ccedil;as<br \/>\n    muito bem empalhadas, para serem apresentadas ante a Sublime Porta. Tais espet&aacute;culos<br \/>\n    faziam redobrar as disserta&ccedil;&otilde;es. E, quando n&atilde;o discutiam,<br \/>\n    tamanho era o aborrecimento, que a velha ousou dizer-lhes um dia:<\/p>\n<p> &#8212; Desejaria saber qual &eacute; o pior: ser violada cem vezes por<br \/>\n    piratas negros, perder uma n&aacute;dega, receber a&ccedil;oites dos b&uacute;lgaros,<br \/>\n    ser batido e enforcado num auto-de-f&eacute;, ser dissecado, remar numa galera,<br \/>\n    experimentar enfim todas as mis&eacute;rias por que j&aacute; passamos, ou<br \/>\n    ficar aqui sem. fazer nada?<\/p>\n<p> Eis uma grande quest&atilde;o &#8211; disse C&acirc;ndido.<\/p>\n<p> Tais palavras provocaram novas discuss&otilde;es; e Martinho concluiu que<br \/>\n    o homem nascera ou para viver nas convuls&otilde;es da inquietude ou na letargia<br \/>\n    do t&eacute;dio. C&acirc;ndido n&atilde;o concordava, mas tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    afirmava coisa alguma. Pangloss confessava que sempre sofrera horrivelmente;<br \/>\n    mas, tendo uma vez afirmado que tudo ia &agrave;s mil maravilhas, continuava<br \/>\n    a sustent&aacute;-lo, mas n&atilde;o o cria.<\/p>\n<p> Uma &uacute;ltima coisa veio firmar a Martinho nos seus detest&aacute;veis<br \/>\n    princ&iacute;pios, fazer com que C&acirc;ndido hesitasse mais do que nunca,<br \/>\n    e embara&ccedil;ar a Pangloss. &Eacute; que viram chegar um dia &agrave; granja,<br \/>\n    e na mais extrema mis&eacute;ria., a nossa Paquette e o Irm&atilde;o Girofl&eacute;e.<br \/>\n    Tinham em tr&ecirc;s tempos devorado as suas tr&ecirc;s mil piastras; separaram-se,<br \/>\n    juntaram-se, brigaram, foram para a cadeia, fugiram, e afinal o Irm&atilde;o<br \/>\n    Girofl&eacute;e tinha virado turco. Paquette continuava, por toda. parte,<br \/>\n    a exercer o seu of&iacute;cio, que n&atilde;o lhe rendia mais nada.<\/p>\n<p> &#8212; Bem dizia eu &#8211; observou Martinho &#8211; que os presentes<br \/>\n    logo haviam de sumir-se e s&oacute; os tornariam mais miser&aacute;veis. Quanto<br \/>\n    a C&acirc;ndido e Cacambo, abarrotaram-se de milh&otilde;es de piastras, e<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o mais felizes do que o Irm&atilde;o Glrofl&eacute;e e<br \/>\n    Paquette.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, minha pobre menina &#8211; dizia Pangloss a Paquette, &#8211;<br \/>\n    com que ent&atilde;o o Destino te trouxe para junto de n&oacute;s? E n&atilde;o<br \/>\n    sabes que me custaste a ponta do nariz, um olho e uma orelha? Como est&aacute;s<br \/>\n    agora! E como &eacute; este mundo!<\/p>\n<p> Essa nova aventura f&ecirc;-los filosofar mais do que nunca. Havia na vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    um derviche muito famoso, que passava pelo maior fil&oacute;sofo da Turquia;<br \/>\n    foram consult&aacute;-lo; Pangloss tomou a palavra:<\/p>\n<p> &#8212; Mestre, vimos pedir-lhe que nos esclare&ccedil;a por que foi criado<br \/>\n    um animal t&atilde;o estranho como o homem.<\/p>\n<p> &#8212; Em que te vens meter? &#8211; disse o derviche. &#8211; Acaso &eacute;<br \/>\n    isso da tua conta?<\/p>\n<p> &#8212; Mas reverendo Mestre &#8211; aventurou C&acirc;ndido, &#8211; &eacute;<br \/>\n    verdadeiramente terr&iacute;vel todo esse mal que h&aacute; na terra.<\/p>\n<p> Que importa que haja mal ou bem &#8211; tornou o derviche. &#8211; Quando<br \/>\n    Sua Alteza envia um navio ao Egito, acaso se importa que os ratos de bordo<br \/>\n    se sintam bem ou n&atilde;o?<\/p>\n<p> &#8212; Que fazer ent&atilde;o? &#8211; perguntou Pangloss.<\/p>\n<p> Calar-te &#8211; respondeu o derviche.<\/p>\n<p> &#8212; Eu muito desejava &#8211; disse Pangloss &#8211; discutir um pouco<br \/>\n    com o reverendo Mestre acerca dos efeitos e das causas, do melhor dos mundos<br \/>\n    poss&iacute;veis, da origem do mal, da natureza da alma e da harmonia preestabelecida.<\/p>\n<p> O derviche, a estas palavras, bateu-lhe com a porta no nariz.<\/p>\n<p> Durante essa conversa&ccedil;&atilde;o, espalhara-se a noticia de que acabavam<br \/>\n    de estrangular em Constantinopla dois vizires do banco e o mufti, e que haviam<br \/>\n    empalado v&aacute;rios de seus amigos. Essa cat&aacute;strofe causava por<br \/>\n    toda parte enorme sensa&ccedil;&atilde;o durante algumas horas. Pangloss,<br \/>\n    C&acirc;ndido e Martinho, de volta &agrave; granja, encontraram um bom velho<br \/>\n    que tomava a fresca &agrave; sua porta, debaixo de um laranjal. Pangloss,<br \/>\n    que era t&atilde;o curioso como discutidor, perguntou-lhe como se chamava<br \/>\n    o mufti que acabavam de estrangular.<\/p>\n<p> &#8212; Nada sei &#8211; respondeu o bom do velho, &#8211; eu nunca soube<br \/>\n    o nome de nenhum mufti nem de nenhum vizir ignoro absolutamente a aventura<br \/>\n    de que me falam; presumo que em geral aqueles que se metem nos neg&oacute;cios<br \/>\n    p&uacute;blicos acabam miseravelmente, e bem o merecem; mas nunca me informo<br \/>\n    do que se faz em Constantinopla; contento-me em mandar vender por l&aacute;<br \/>\n    os frutos que cultivo.<\/p>\n<p> Dito isto, convidou os estrangeiros a entrar: seus dois filhos e suas duas<br \/>\n    filhas lhes ofereceram diversas esp&eacute;cies de refrescos que eles pr&oacute;prios<br \/>\n    fabricavam, kalmac temperado com casca de cidra, e laranjas, limas, abacaxis,<br \/>\n    pistaches e um bom moca n&atilde;o misturado com o mau caf&eacute; de Bat&aacute;via<br \/>\n    e das ilhas. Ap&oacute;s o que, as duas filhas daquele bom mu&ccedil;ulmano<br \/>\n    perfumaram as barbas de C&acirc;ndido, de Pangloss e de Martinho.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor com certeza possui uma vasta e magn&iacute;fica terra&#8230;<br \/>\n    &#8211; disse C&acirc;ndido ao turco.<\/p>\n<p> &#8212; Tenho apenas vinte jeiras, que cultivo com os meus filhos; o trabalho<br \/>\n    afasta de n&oacute;s tr&ecirc;s grandes males: o t&eacute;dio, o v&iacute;cio<br \/>\n    e a necessidade.<\/p>\n<p> De volta &agrave; sua granja, C&acirc;ndido p&ocirc;s-se a refletir profundamente<br \/>\n    sobre as palavras do turco. Disse a Pangloss e a Martinho:<\/p>\n<p> &#8212; Esse bom velho me parece ter conseguido um estado bastante prefer&iacute;vel<br \/>\n    ao dos seis monarcas com quem tivemos a honra de cear.<\/p>\n<p> &#8212; As grandezas &#8211; disse Pangloss, s&atilde;o muito perigosas,<br \/>\n    conforme o testemunho de todos os fil&oacute;sofos: pois, afinal, Eglon, rei<br \/>\n    dos moabitas, foi assassinado por Aod; Absal&atilde;o, suspenso pelos cabelos,<br \/>\n    foi varado com tr&ecirc;s dardos; o rei Nadab, filho de Jerobo&atilde;o, foi<br \/>\n    morto por Baasa; o rei Ela, por Zambri; Ochosias, por Je&uacute;; Atalia,<br \/>\n    por Joiada; os reis Joaquim, Jecofias, Sed&eacute;cias foram escravizados.<br \/>\n    Bem sabem como morreram Creso, Ast&iacute;ages, Dario, Dion&iacute;sio de<br \/>\n    Siracusa, Pirro, Perseu, Anibal, Jugurta, Ariovisto, C&eacute;sar, Pompeu,<br \/>\n    Nero, Ot&atilde;o, Vit&eacute;lio, Domiciano, Ricardo II da Inglaterra, Eduardo<br \/>\n    II, Henrique VI, Ricardo III, Maria Stuart, Carlos I, os tr&ecirc;s Henriques<br \/>\n    da Fran&ccedil;a, o imperador Henrique IV. Bem sabem que&#8230;,<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m sei &#8211; disse C&acirc;ndido &#8211; que &eacute;<br \/>\n    preciso cultivar nosso jardim.<\/p>\n<p> &#8212; Tens raz&atilde;o &#8211; disse Pangloss, &#8211; pois quando o<br \/>\n    homem foi posto no jardim do &Eacute;den, ali foi posto ut operaretur eum,<br \/>\n    para que trabalhasse; o que prova que o homem n&atilde;o nasceu para o repouso.<\/p>\n<p> &#8212; Trabalhemos sem filosofar &#8211; disse Martinho, &#8211; &eacute;<br \/>\n    a &uacute;nica maneira de tornar a vida suport&aacute;vel.<\/p>\n<p> Todo o grupo se compenetrou desse louv&aacute;vel des&iacute;gnio. A pequena<br \/>\n    propriedade rendeu bastante. Cunegundes estava, na verdade, muito feia, mas<br \/>\n    tornou-se uma excelente doceira. Paquette bordava. A velha costurava. Nem<br \/>\n    mesmo o Irm&atilde;o Girofl&eacute;e se furtou ao trabalho; revelou-se um<br \/>\n    bom marceneiro; e at&eacute; se tornou honesto.<\/p>\n<p> &#8212; Todos os acontecimentos &#8211; dizia &agrave;s vezes Pangloss a<br \/>\n    C&acirc;ndido &#8211; est&atilde;o devidamente encadeados no melhor dos mundos<br \/>\n    poss&iacute;veis; pois, afinal, se n&atilde;o tivesses sido expulso de um<br \/>\n    lindo castelo, a pontap&eacute;s no traseiro, por amor da senhorita Cunegundes,<br \/>\n    se a Inquisi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o te houvesse apanhado, se n&atilde;o<br \/>\n    tivesses percorrido a Am&eacute;rica a p&eacute;, se n&atilde;o tivesses mergulhado<br \/>\n    a espada no bar&atilde;o, se n&atilde;o tivesses perdido todos os teus carneiros<br \/>\n    da boa terra do Eldorado, n&atilde;o estarias aqui agora comendo doce de cidra<br \/>\n    e pistache.<\/p>\n<p> &#8212; Tudo isso est&aacute; muito bem dito &#8211; respondeu C&acirc;ndido,<br \/>\n    &#8211; mas devemos cultivar nosso jardim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Cap\u00edtulo XXIII Cap\u00edtulo XXIII [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120047","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO 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