{"id":120045,"date":"2017-04-19T11:03:28","date_gmt":"2017-04-19T13:03:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120045"},"modified":"2017-04-19T11:03:28","modified_gmt":"2017-04-19T13:03:28","slug":"as-cartas-de-amabed","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-cartas-de-amabed","title":{"rendered":"As Cartas de Amabed"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Voltaire<\/h2>\n<p><strong>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Voltaire \u00e9 surpreendente. Nunca chega ao superficial, seja qual for o texto. \u00c0s vezes \u00e9 mais cuidadoso e profundo, em outras mais leve, mas \u00e9 sempre ele. N\u00e3o se pode dizer o mesmo, por exemplo, de Shakespeare. Macbeth, Romeu e Julieta ou A Megera Domada parecem escritos por pessoas diferentes. H\u00e1 letristas (aqueles que fizeram curso de Letras) assegurando que Shakespeare era mais de um ou nenhum deles. Ora, continuem a fazer suas classifica\u00e7\u00f5es, compliquem a gram\u00e1tica que j\u00e1 conhec\u00edamos, mas deixem o maior dos dramaturgos em paz e, por favor, n\u00e3o incomodem Voltaire; a r\u00e9plica pode ser fatal.<\/p>\n<p>As cartas de Amabed carregam o mesmo estilo do pensador, que as obras did\u00e1ticas insistem em classificar entre os iluministas e racionalistas (custaria ler com um pouco mais de cuidado?).<\/p>\n<p>Falando a s\u00e9rio: s\u00e9culo XVIII, na Inglaterra, explodiam os romances em forma de correspond\u00eancia. Voltaire n\u00e3o simpatizava muito com essa moda, escreveu Abamed como par\u00f3dia do g\u00eanero liter\u00e1rio e o fez com a genialidade que lhe era peculiar; valorizou o estilo.<\/p>\n<p>A perspic\u00e1cia, o humor irreverente, a s\u00e1tira sutil ou grotesca continuam presentes.<\/p>\n<p>J\u00e1 vi muitos ironizarem o catolicismo, na sua vers\u00e3o apost\u00f3lico-romana; como Voltaire nunca. Esculhamba Roma, o Vaticano, a escolha do Papa (a quem chama de vice-Deus). Arrasa os padres, bispos, a religi\u00e3o em suma. Sempre compara com as cren\u00e7as da \u00cdndia, mais antigas, puras e honestas.<\/p>\n<p>Como sempre, satiriza os costumes; vejamos alguns exemplos:<br \/>\nDa It\u00e1lia, na verdade da l\u00edngua ali empregada, delicadamente comenta:<\/p>\n<p>\u201cEnsino a um deles a l\u00edngua hindu, e ele, em recompensa, ensina-me um jarg\u00e3o que tem curso na Europa e a que chamam italiano. \u00c9 uma l\u00edngua engra\u00e7ada. Quase todas as palavras terminam em a, em e, em i, em o; aprendo-o facilmente, e em breve terei o prazer de ler livros europeus.\u201d<br \/>\nSobre o eurocentrismo, que ainda hoje prejudica o nosso entendimento sobre a hist\u00f3ria universal, diz:<br \/>\n\u201cLemos juntos um livro de seu pa\u00eds, que me pareceu bastante estranho. \u00c9 uma hist\u00f3ria universal na qual n\u00e3o se diz uma s\u00f3 palavra sobre o nosso antigo imp\u00e9rio, nem nada das imensas regi\u00f5es de al\u00e9m do Ganges, nada da China, nada da vasta Tart\u00e1ria. Evidentemente, os autores, nesta parte da Europa, devem ser muito ignorantes. Comparo-os a alde\u00f5es que falam com \u00eanfase das suas choupanas e n\u00e3o sabem onde \u00e9 a capital; ou antes \u00e0queles que pensam que o mundo termina nos limites de seu horizonte.\u201d<br \/>\nA diverg\u00eancia entre seitas religiosas, dentro do mesmo catolicismo, n\u00e3o ficou inc\u00f3lume:<br \/>\n\u201cDisse-me o capit\u00e3o que esse esmoler \u00e9 franciscano e que, sendo o outro dominicano, v\u00eaem-se obrigados em consci\u00eancia a nunca estar de acordo. As suas seitas s\u00e3o inimigas declaradas uma da outra; assim, vestem-se eles diversamente, para marcar a sua diversidade de opini\u00f5es.\u201d<br \/>\nA B\u00edblia Sagrada n\u00e3o foi deixada de lado:<br \/>\n\u201cO nosso esmoler Fa Molto leu-nos coisas ainda mais maravilhosas. Ora \u00e9 um burro que fala, ora um dos seus santos que passa tr\u00eas dias e tr\u00eas noites no ventre de uma baleia e que dali sai de muito mau-humor. Aqui \u00e9 um pregador que foi pregar no c\u00e9u, sobre um carro de fogo puxado por quatro cavalos de fogo. Acol\u00e1 \u00e9 um doutor que atravessa o mar a seco, seguido de dois ou tr\u00eas milh\u00f5es de homens que fogem a seco. Outro doutor faz parar o sol e a lua; mas isto n\u00e3o me surpreende: tu mo ensinaste.<\/p>\n<p>O que mais me penaliza, a mim que fa\u00e7o quest\u00e3o de asseio e de pudor, \u00e9 que o Deus dessa gente ordena a um de seus pregadores que coma certa mat\u00e9ria com o seu p\u00e3o, e a um outro que durma por dinheiro com mulheres alegres e lhes fa\u00e7a filhos.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 pior. O erudito homem nos deu a conhecer as duas irm\u00e3s Oola e Ooliba. Tu bem as conheces, pois tudo leste. Esse trecho muito escandalizou a minha mulher, que enrubesceu at\u00e9 o branco dos olhos. Notei que a boa Dera ficava toda vermelha. Esse franciscano deve ser um p\u00e2ndego.\u201d<br \/>\nO conhecido alcoolismo, de muitos europeus, tamb\u00e9m teve seu espa\u00e7o:<br \/>\n\u201cHavia l\u00e1 dois marinheiros, que tamb\u00e9m se enciumaram. Terr\u00edvel paix\u00e3o, o ci\u00fame. Os dois marinheiros e os dois padres haviam bebido muito desse licor que dizem Inventado pelo seu No\u00e9 e cuja autoria atribu\u00edmos a Baco: funesto presente, que poderia ser \u00fatil, se n\u00e3o nos fosse t\u00e3o f\u00e1cil abusar dele. Dizem os europeus que essa beberagem lhes d\u00e1 esp\u00edrito. Como pode ser isso, se lhes tira a raz\u00e3o?\u201d<br \/>\nO Papa n\u00e3o escapou:<br \/>\n\u201cEsse Deus na terra chama-se Le\u00e3o, d\u00e9cimo do nome. \u00c9 um belo homem de trinta e quatro a trinta e cinco anos, e muito am\u00e1vel; as mulheres est\u00e3o loucas por ele. Achava-se atacado de um mal imundo, que s\u00f3 \u00e9 bem conhecido na Europa, mas que os portugueses come\u00e7am a introduzir no Indost\u00e3o. Julgavam que disso morreria, e foi por isso mesmo que o elegeram, a fim de que o sublime posto ficasse logo vago; mas curou-se, e zomba daqueles que o nomearam. Nada mais magn\u00edfico do que a sua coroa\u00e7\u00e3o, na qual gastou ele cinco milh\u00f5es de r\u00fapias, para prover \u00e0s necessidades de seu Deus, que foi t\u00e3o pobre! N\u00e3o pude escrever-te na agita\u00e7\u00e3o das festas; sucederam-se t\u00e3o rapidamente, tive de assistir a tantas divers\u00f5es, que n\u00e3o sobrou um momento de lazer.\u201d<br \/>\nTamb\u00e9m anunciou o perigo de um povo insatisfeito, id\u00e9ia que viria a ser defendida por Lenin e Mao-Tse-Tung, muitas d\u00e9cadas depois:<br \/>\n\u201cEra esse mesmo que fazia as raparigas dan\u00e7arem sem nenhum ornamento sup\u00e9rfluo. Seus esc\u00e2ndalos deviam inspirar desprezo, seus atos de barb\u00e1rie deviam agu\u00e7ar mil punhais contra ele; no entanto, viveu cheio de venera\u00e7\u00e3o e com toda a tranq\u00fcilidade, na sua corte. A raz\u00e3o disso, ao que me parece, \u00e9 que os padres afinal sa\u00edam ganhando com todos os seus crimes, e os povos n\u00e3o perdiam nada. Mas logo que estes se sentirem por demais afrontados, h\u00e3o de quebrar as cadeias. Cem golpes de ar\u00edete n\u00e3o puderam abalar o colosso: um seixo o deitar\u00e1 por terra. \u00c9 o que dizem por aqui as pessoas esclarecidas que gostam de profetizar.\u201d<br \/>\nO velho lema do cristianismo: \u201cofere\u00e7a a outra face\u201d, n\u00e3o ficou impune:<br \/>\n\u201cMas o de roxo nos disse:\u2014 Bem se v\u00ea que os amigos Amabed e Adate ainda n\u00e3o completaram a sua educa\u00e7\u00e3o: \u00e9 dever essencial neste pa\u00eds beijar os nossos maiores inimigos; na primeira oportunidade mandem envenen\u00e1-los, se puderem; mas, enquanto isto, n\u00e3o deixem de lhes demonstrar a mais profunda amizade.\u201d<br \/>\nVoltaire, mais uma vez, nos ensina a sorrir diante das contradi\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>N\u00e9lson Jahr Garcia<\/b><\/p>\n<h4>PRIMEIRA CARTA<\/h4>\n<p>de Amabed a Xastasid, grande br\u00e2mane de Madura<\/p>\n<p>Benares, a dois do m\u00eas do rato do ano 115.652 da renova\u00e7\u00e3o do mundo. (1)<\/p>\n<p>Luz de minh\u2019alma, pai de meus pensamentos, tu que conduzes os homens nas vias do Eterno, a ti, s\u00e1bio Xastasid, respeito e ternura.<\/p>\n<p>De tal forma j\u00e1 me familiarizei com a l\u00edngua chinesa, conforme os teus s\u00e1bios conselhos, que leio com proveito os seus cinco Kings, que me parecem igualar-se em antig\u00fcidade ao nosso Xasta, de que \u00e9s int\u00e9rprete, \u00e0s senten\u00e7as do primeiro Zoroastro e aos livros do eg\u00edpcio Thaut.<\/p>\n<p>Afigura-se a minh\u201calma, que sempre se abre diante de ti, que esses escritos e esses cultos nada tomaram uns dos outros: pois somos os \u00fanicos a quem Brama, confidente do Eterno, ensinou a rebeli\u00e3o das criaturas celestes, o perd\u00e3o que o Eterno lhes concede e a forma\u00e7\u00e3o do homem; os outros nada disseram, ao que me parece, dessas coisas sublimes.<\/p>\n<p>Creio sobretudo que nada tomamos, nem n\u00f3s, nem os chineses, aos eg\u00edpcios. N\u00e3o conseguiram formar uma sociedade policiada e sensata sen\u00e3o muito tempo depois de n\u00f3s, pois tiveram de dominar o Nilo antes que pudessem cultivar os campos e construir cidades.<\/p>\n<p>Confesso que o nosso divino Xasta tem apenas 4.552 anos de antig\u00fcidade; mas est\u00e1 provado por nossos monumentos que essa doutrina era ensinada de pai para filho e mais de cem s\u00e9culos antes da publica\u00e7\u00e3o desse livro sagrado. Espero, quanto a isto, as instru\u00e7\u00f5es de tua paternidade. Depois da tomada de Goa pelos portugueses, chegaram a Benares alguns doutores da Europa. Ensino a um deles a l\u00edngua hindu, e ele, em recompensa, ensina-me um jarg\u00e3o que tem curso na Europa e a que chamam italiano. \u00c9 uma l\u00edngua engra\u00e7ada. Quase todas as palavras terminam em a, em e, em i, em o; aprendo-o facilmente, e em breve terei o prazer de ler livros europeus.<\/p>\n<p>Esse doutor chama-se o padre Fa Tutto; parece polido e insinuante; apresentei-o a Encanto dos Olhos, a bela Adate, que os meus pais e os seus me destinam para esposa; ela aprende italiano comigo. Conjugamos juntos o verbo amar, logo no primeiro dia. Levamos dois dias com todos os outros verbos. Depois dela, \u00e9s tu o mortal mais perto de meu cora\u00e7\u00e3o. Rogo a Birma e a Brama que conservem teus dias at\u00e9 a idade de cento e trinta anos, passados os quais a vida n\u00e3o \u00e9 mais que um fardo.<\/p>\n<p><strong>RESPOSTA de Xastasid<\/strong><\/p>\n<p>Recebi tua carta, esp\u00edrito filho de meu esp\u00edrito. Possa Druga (2), montada no seu drag\u00e3o, estender sempre sobre ti os seus dez bra\u00e7os vencedores dos v\u00edcios.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade (e por isso n\u00e3o nos devemos envaidecer) que somos o povo mais antigamente civilizado do mundo. Os pr\u00f3prios chineses n\u00e3o o negam. Os eg\u00edpcios s\u00e3o um povo muito recente, que foi ensinado pelos caldeus. N\u00e3o nos gloriemos por sermos os mais antigos; e tratemos de ser sempre os mais justos.<\/p>\n<p>Saber\u00e1s, meu caro Amabed, que, n\u00e3o faz muito, chegou at\u00e9 os ocidentais uma fraca imagem da nossa revela\u00e7\u00e3o sobre a queda dos seres celestiais e a renova\u00e7\u00e3o do mundo. Encontro, numa tradu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe de um livro s\u00edrio, composto apenas h\u00e1 uns mil e quatrocentos anos, estas palavras textuais: E os anjos que n\u00e3o guardaram o seu principado, mas deixaram a sua pr\u00f3pria habita\u00e7\u00e3o, conservou-os o Senhor em pris\u00f5es eternas, at\u00e9 o ju\u00edzo daquele grande dia (3). Cita o autor em abono um livro composto por um de seus primeiros homens, chamado Enoch. Bem v\u00eas que as na\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras n\u00e3o foram jamais esclarecidas sen\u00e3o por um fl\u00e9bil raio enganoso, que at\u00e9 eles se desviou do seio da nossa luz.<\/p>\n<p>Muito receio, caro filho, a irrup\u00e7\u00e3o dos b\u00e1rbaros da Europa em nossas felizes plagas. Sei muito bem quem \u00e9 esse Albuquerque que aportou das ribas do Ocidente a estas terras prediletas do sol. E um dos mais ilustres salteadores que j\u00e1 assolaram a face da terra. Apoderou-se de Goa contra a f\u00e9 p\u00fablica. Afogou no sangue a homens justos e pac\u00edficos. Esses ocidentais habitam um pa\u00eds pobre que lhes d\u00e1 muito pouca seda: nada de algod\u00e3o, nada de a\u00e7\u00facar, nenhuma especiaria. Falta-lhes at\u00e9 a esp\u00e9cie de terra com que fabricamos porcelana. Deus lhes recusou o coqueiro, que d\u00e1 sombra, abriga, veste, nutre e dessedenta aos filhos de Brama. N\u00e3o conhecem sen\u00e3o um licor, que lhes tira a raz\u00e3o. Sua verdadeira divindade \u00e9 o ouro; saem em busca desse deus at\u00e9 os confins do mundo.<\/p>\n<p>Quero crer que o teu doutor seja um homem de bem; mas o Eterno nos permite desconfiar desses estrangeiros. Se s\u00e3o carneiros em Benares, dizem que s\u00e3o tigres nas regi\u00f5es onde os europeus se estabeleceram.<\/p>\n<p>Queira Deus que nem tu, nem a bela Adate tenha jamais a m\u00ednima raz\u00e3o de queixa contra o padre Fa Tutto! Mas alarma-me um secreto pressentimento. Adeus. Que em breve Adate, a ti unida por um santo matrim\u00f4nio, possa gozar nos teus bra\u00e7os as alegrias celestiais!<br \/>\nEsta carta te chegar\u00e1 por um baniano, que s\u00f3 partir\u00e1 na lua cheia do elefante.<\/p>\n<h4>SEGUNDA CARTA de Amabed a Xastasid<\/h4>\n<p>Pai de meus pensamentos, tive tempo de aprender esse jarg\u00e3o da Europa antes que o teu comerciante baniano chegasse \u00e0s margens do Ganges. O padre Fa Tutto continua a testemunhar-me sincera amizade. Na verdade, come\u00e7o a crer que ele n\u00e3o se assemelha em nada aos p\u00e9rfidos cuja maldade temes com tamanha raz\u00e3o. A \u00fanica coisa que me poderia causar desconfian\u00e7a \u00e9 que ele me louva em demasia e n\u00e3o louva suficientemente a Encanto dos Olhos; parece-me, contudo, cheio de virtude e un\u00e7\u00e3o. Lemos juntos um livro de seu pa\u00eds, que me pareceu bastante estranho. \u00c9 uma hist\u00f3ria universal na qual n\u00e3o se diz uma s\u00f3 palavra sobre o nosso antigo imp\u00e9rio, nem nada das imensas regi\u00f5es de al\u00e9m do Ganges, nada da China, nada da vasta Tart\u00e1ria. Evidentemente, os autores, nesta parte da Europa, devem ser muito ignorantes. Comparo-os a alde\u00f5es que falam com \u00eanfase das suas choupanas e n\u00e3o sabem onde \u00e9 a capital; ou antes \u00e0queles que pensam que o mundo termina nos limites de seu horizonte. O que mais me surpreendeu \u00e9 que eles contam o tempo, desde a cria\u00e7\u00e3o do seu mundo, de maneira inteiramente diversa da nossa. O meu doutor europeu mostrou-me um de seus almanaques sagrados, pelo qual os seus patr\u00edcios est\u00e3o agora no ano 5.552 da sua cria\u00e7\u00e3o, ou no ano 6.244, ou ent\u00e3o no ano 6.940, \u00e0 vontade (4). Essa esquisitice muito me surpreendeu. Perguntei-lhe como podiam ter tr\u00eas \u00e9pocas diferentes da mesma aventura. \u201cN\u00e3o podes ter ao mesmo tempo \u2013 disse-lhe eu \u2013 trinta, quarenta e cinq\u00fcenta anos. Como pode o teu mundo ter tr\u00eas datas que se contrariam?\u201d Respondeu-me que essas tr\u00eas datas se encontram no mesmo livro e que, entre eles, se \u00e9 obrigado a acreditar nas contradi\u00e7\u00f5es para humilhar a soberbia do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Esse mesmo livro trata de um primeiro homem que se chamava Ad\u00e3o, de um Caim, de um Matusal\u00e9m, de um No\u00e9 que plantou vinhas depois que o oceano submergiu todo o globo; enfim, de uma infinidade de coisas de que nunca ouvi falar e que n\u00e3o li em nenhum dos nossos livros. Isso tudo nos fez rir, \u00e0 bela Adate e a mim, na aus\u00eancia do padre Fa Tutto: pois somos muito bem educados e muito c\u00f4nscios das tuas m\u00e1ximas para rirmos das pessoas na sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Lamento esses infelizes da Europa que s\u00f3 foram criados h\u00e1 6940 anos, quando muito; ao passo que a nossa era \u00e9 de 115.652 anos. Muito mais os lamento por n\u00e3o terem pimenta, canela, cravo, ch\u00e1, caf\u00e9, algod\u00e3o, verniz, incenso, ar\u00f4matas e tudo quanto pode tornar a vida agrad\u00e1vel: na verdade a Provid\u00eancia deve t\u00ea-los negligenciado por muito tempo. Mas ainda mais os lamento por virem de t\u00e3o longe, em meio a tantos perigos, arrebatar de arma em punho os nossos g\u00eaneros. Dizem que em Calicute, por causa da pimenta, cometeram crueldades espantosas: isso faz fremir a natureza indiana, que \u00e9 muito diferente da sua, pois os seus peitos e coxas s\u00e3o peludos. Usam longas barbas, e seus est\u00f4magos s\u00e3o carn\u00edvoros. Embriagam-se com o suco fermentado da vinha, plantada, dizem eles, pelo seu No\u00e9. O pr\u00f3prio padre Fa Tutto, por mais polido que seja, torceu o pesco\u00e7o a dois franguinhos; mandou-os cozinhar numa caldeira e comeu-os impiedosamente. Esse b\u00e1rbaro ato atraiu-lhes o \u00f3dio de toda a vizinhan\u00e7a, que s\u00f3 com muita dificuldade pudemos apaziguar. Deus me perdoe! Creio que esse estrangeiro seria capaz de comer as nossas vacas sagradas, que nos d\u00e3o leite, se lho tivessem permitido. Ele prometeu que n\u00e3o mais cometeria assass\u00ednio contra os frangos, e que se contentaria com ovos frescos, leite, arroz, os nossos excelentes legumes, pistaches, t\u00e2maras, cocos, doces de am\u00eandoas, biscoitos, ananazes, laranjas e tudo o que produz o nosso clima aben\u00e7oado pelo Eterno. De alguns dias para c\u00e1, parece mais sol\u00edcito com Encanto dos Olhos. Chegou a fazer para ela dois versos italianos que terminam em o. Agrada-me essa polidez, pois sabes que a minha maior felicidade \u00e9 que fa\u00e7am justi\u00e7a \u00e0 minha querida Adate.<\/p>\n<p>Adeus. Coloco-me a teus p\u00e9s, que sempre te levaram pelo caminho reto, e beijo as tuas m\u00e3os, que jamais escreveram sen\u00e3o a verdade.<\/p>\n<p><strong>RESPOSTA de Xastasid<\/strong><\/p>\n<p>Meu caro filho em Birma, em Brama, n\u00e3o gosto do teu Fa Tutto que mata frangos e que faz versos para a tua querida Adate. Praza a Birma tornar v\u00e3s as minhas suspeitas!<\/p>\n<p>Posso jurar-te que jamais foram conhecidos o Ad\u00e3o nem o No\u00e9 deles em nenhuma parte do mundo, apesar de t\u00e3o recentes. A pr\u00f3pria Gr\u00e9cia, que era a assembl\u00e9ia de todas f\u00e1bulas quando Alexandre se aproximou de nossas fronteiras, nunca ouviu falar de tais nomes. N\u00e3o me espanta que amadores de vinho como os povos ocidentais fa\u00e7am tanto caso daquele que, segundo eles, plantou a vinha; mas podes ficar certo de que No\u00e9 foi ignorado de toda a antig\u00fcidade conhecida. \u00c9 verdade que nos tempos de Alexandre havia, em um recanto da Fen\u00edcia, um pequeno povo de corretores e usur\u00e1rios, que durante muito tempo estivera cativo em Babil\u00f4nia. Durante a sua escravid\u00e3o, arranjaram eles uma hist\u00f3ria, e \u00e9 essa a \u00fanica hist\u00f3ria do mundo em que se trata de No\u00e9. Esse pequeno povo, depois que obteve privil\u00e9gios em Alexandria, traduziu ali os seus anais para o grego. Foram depois traduzidos para o \u00e1rabe, e s\u00f3 nos \u00faltimos tempos \u00e9 que os nossos s\u00e1bios tiveram algum conhecimento dos referidos anais. Mas essa hist\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o desprezada por eles quanto a miser\u00e1vel horda que a escreveu (5).<\/p>\n<p>Seria muito engra\u00e7ado, com efeito, que todos os homens, que s\u00e3o irm\u00e3os, tivessem perdido os seus t\u00edtulos de fam\u00edlia, e que esses t\u00edtulos s\u00f3 se encontrem num pequeno ramo de usur\u00e1rios e leprosos. Receio, meu caro amigo, que os concidad\u00e3os do teu padre Fa Tutto, que, como dizes, adotaram tais id\u00e9ias, sejam t\u00e3o insensatos e rid\u00edculos quanto interesseiros, p\u00e9rfidos e cru\u00e9is.<\/p>\n<p>Desposa o quanto antes a tua encantadora Adate, pois, inda uma vez te digo, temo mais os Fa Tutto que os No\u00e9s.<\/p>\n<h4>TERCEIRA CARTA de Amabed a Xastasid<\/h4>\n<p>Aben\u00e7oado seja para sempre Birma, que fez o homem para a mulher! Aben\u00e7oado sejas tu, \u00f3 caro Xastasid, que tanto te interessas pela minha felicidade! Encanto dos Olhos \u00e9 minha; desposei-a. J\u00e1 n\u00e3o toco a terra, estou no c\u00e9u: s\u00f3 tu me faltavas nessa divina cerim\u00f4nia. O doutor Fa Tutto foi testemunha de nossos santos compromissos; e, embora n\u00e3o perten\u00e7a \u00e0 nossa religi\u00e3o, n\u00e3o fez obje\u00e7\u00e3o alguma em escutar os nossos cantos e preces; esteve muito alegre no festim das n\u00fapcias. Sucumbo de felicidade. Tu gozas de outra esp\u00e9cie de ventura, tu possu\u00eda a sabedoria; mas a incompar\u00e1vel Adate me possui. S\u00ea por muito tempo feliz, sem paix\u00f5es, enquanto a minha me afoga num mar de vol\u00fapias. Nada mais te posso dizer: torno a voar para os bra\u00e7os de Adate.<\/p>\n<h4>QUARTA CARTA de Amabed a Xastasid<\/h4>\n<p>Caro amigo, caro pai, n\u00f3s partimos, a terna Adate e eu, para te pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nossa felicidade seria incompleta se n\u00e3o cumpr\u00edssemos esse dever de nossos cora\u00e7\u00f5es; mas \u2013 acreditas? \u2013 passamos por Goa, em companhia do famoso comerciante Coursom e sua esposa. Diz Fa Tutto que Goa se tornou a mais bela cidade da \u00cdndia, que o grande Albuquerque nos receber\u00e1 como embaixadores, que nos ceder\u00e1 um navio de tr\u00eas velas para nos levar a Madura. Fa Tutto convenceu minha mulher; e eu concordei com a viagem logo que ela concordou. Fa Tutto nos garante que em Goa se fala mais italiano do que portugu\u00eas Encanto dos Olhos anseia por fazer uso de uma l\u00edngua que acaba de aprender. Dizem que h\u00e1 pessoas que t\u00eam duas vontades; mas Adate e eu n\u00e3o temos mais que uma, porque, entre os dois, possu\u00edmos uma \u00fanica alma. Enfim, partimos amanh\u00e3, com a doce esperan\u00e7a de derramar nos teus bra\u00e7os, antes de dois meses, as l\u00e1grimas da alegria e da ternura.<\/p>\n<h4>PRIMEIRA CARTA de Adate a Xastasid<\/h4>\n<p>Goa, 5 do m\u00eas do tigre do ano 115.652 da renova\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Birma, ouve meus gritos, v\u00ea minhas l\u00e1grimas, salva meu caro esposo! Brama, filho de Birma, leva minha dor e meu temor a teu pai! Generoso Xastasid, mais s\u00e1bio do que n\u00f3s, bem que havias previsto os nossos males. O meu caro Amabed, teu disc\u00edpulo, meu terno esposo, n\u00e3o mais te escrever\u00e1; acha-se em uma fossa a que os b\u00e1rbaros chamam pris\u00e3o. Indiv\u00edduos que n\u00e3o posso definir (aqui s\u00e3o chamados de inquisitori, n\u00e3o sei o que essa palavra significa) esses monstros, no dia seguinte ao da nossa chegada, prenderam a meu marido e a mim, e nos puseram cada um em uma fossa separada, corno se estiv\u00e9ssemos mortos. Mas, se o estiv\u00e9ssemos, teriam ao menos de nos sepultar juntos. N\u00e3o sei o que fizeram de meu querido Amabed. Disse a meus antrop\u00f3fagos: \u201cOnde est\u00e1 Amabed? N\u00e3o o matem. Matem a mim\u201d. Nada me responderam. \u201cOnde est\u00e1 ele? Por que me separaram dele?\u201d Conservaram-se em sil\u00eancio, e puseram-me grilh\u00f5es. H\u00e1 j\u00e1 uma hora que desfruto de um pouco mais de liberdade; o comerciante Coursom achou meios de conseguir-me papel, um pincel e tinta. Minhas l\u00e1grimas embebem tudo, minha m\u00e3o treme, meus olhos se turvam, eu morro.<\/p>\n<h4>SEGUNDA CARTA de Adate a Xastasid<\/h4>\n<p>Escrita da pris\u00e3o da Inquisi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Divino Xastasid, estive ontem por muito tempo desfalecida; n\u00e3o pude terminar a carta. Dobrei-a quando recuperei um pouco os sentidos; guardei-a no seio, que n\u00e3o amamentar\u00e1 os filhos que eu esperava ter de Amabed; morrerei antes que Birma me haja concedido a fecundidade.<\/p>\n<p>Esta manh\u00e3, ao clarear do dia, entraram na minha fossa dois espectros, armados de alabardas e trazendo cada um ao pesco\u00e7o uns gr\u00e3os enfiados e no peito quatro pequenas fitas vermelhas cruzadas. Tomaram-me pelas m\u00e3os, sempre sem me dizer palavra, e levaram-me para uma pe\u00e7a onde, por toda mob\u00edlia, havia uma grande mesa, cinco cadeiras, e um enorme quadro que representava um homem nu, com os bra\u00e7os estendidos e os p\u00e9s juntos.<\/p>\n<p>Entram em seguida cinco personagens de vestido negro e uma camisa por cima do vestido e duas longas tiras, de um tecido variegado, sobre a camisa. Tombei de terror. Mas qual n\u00e3o foi a minha surpresa! Vi o padre Fa Tutto entre aqueles cinco fantasmas. Vi-o, ele enrubesceu; mas olhou-me com um ar de do\u00e7ura e compaix\u00e3o que me tranq\u00fcilizou um pouco por um momento.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! padre Fa Tutto \u2013 disse eu, \u2013 onde \u00e9 que estou? Que \u00e9 feito de Amabed? Em que abismo me lan\u00e7ou o senhor? Dizem que h\u00e1 na\u00e7\u00f5es que se alimentam de sangue humano: v\u00e3o matar-nos? v\u00e3o devorar-nos?<br \/>\nEle s\u00f3 me respondeu erguendo os olhos e as m\u00e3os ao c\u00e9u, mas com uma atitude t\u00e3o dolorosa e t\u00e3o terna que eu n\u00e3o sabia mais o que pensar.<\/p>\n<p>O presidente daquele conselho de mudos desprendeu afinal a l\u00edngua e dirigiu-se a mim; disse-me estas palavras: \u201c\u00c9 verdade que foste batizada?\u201d T\u00e3o abismada estava eu no meu pasmo e na minha dor que a princ\u00edpio n\u00e3o pude responder. Repetiu a mesma pergunta com voz terr\u00edvel Meu sangue gelou-se, e minha l\u00edngua grudou no c\u00e9u da boca. Ele repetiu as mesmas palavras pela segunda vez, e afinal eu respondi sim, pois nunca se deve mentir. Fui batizada no Ganges, como o s\u00e3o todos os fi\u00e9is filhos de Brama, como tu o foste, divino Xastasid, como o foi o meu querido e infeliz Amabed. Sim, eu sou batizada, \u00e9 o meu consolo, \u00e9 a minha gl\u00f3ria. Confessei-o diante daqueles espectros.<\/p>\n<p>Mal essa palavra sim, s\u00edmbolo da verdade, saiu de minha boca, um dos cinco monstros negros e brancos gritou: Ap\u00f3stata! os outros repetiram: Ap\u00f3stata! N\u00e3o sei o que quer dizer esta palavra, mas eles a pronunciaram num tom t\u00e3o l\u00fagubre e terr\u00edvel que os meus tr\u00eas dedos se convulsionam ao escrev\u00ea-la.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o padre Fa Tutto, tomando a palavra, e sempre a fitar-me com olhar benigno, assegurou-lhes que eu tinha no fundo bons sentimentos, que ele respondia por mim, que a gra\u00e7a operaria, que ele se encarregaria de minha consci\u00eancia; e terminou seu discurso, do qual eu n\u00e3o compreendia nada, com estas palavras: Io la converter\u00f3. Isso significa em italiano, pelo que eu posso alcan\u00e7ar: Eu a reverterei.<\/p>\n<p>Como! dizia eu comigo, ele me reverter\u00e1! Que entende ele por reverter-me? Quer dizer que me devolver\u00e1 \u00e0 minha p\u00e1tria!<br \/>\n\u2014 Ah! padre Fa Tutto \u2013 disse-lhe eu, \u2013 reverta ent\u00e3o o jovem Amabed, meu terno esposo; devolva a minha alma, devolva a minha vida.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele baixou os olhos; falou em segredo aos quatro fantasmas, a um canto da pe\u00e7a. Partiram com os dois alabardeiros. Todos fizeram uma profunda rever\u00eancia ao quadro que representa um homem nu; e o padre Fa Tutto ficou a s\u00f3s comigo.<\/p>\n<p>Conduziu-me a um quarto bastante limpo e prometeu-me que, se eu quisesse abandonar-me a seus conselhos, n\u00e3o mais seria encerrada em uma fossa.<\/p>\n<p>\u2014 Estou t\u00e3o desesperado como a senhora \u2013 me disse ele \u2013 com tudo o que aconteceu. Opus-me o quanto pude; mas as nossas santas leis me ataram as m\u00e3os; afinal, gra\u00e7as ao c\u00e9u e a mim, a senhora est\u00e1 livre, em um bom quarto, de onde n\u00e3o pode sair. Virei v\u00ea-la seguidamente tratarei de a consolar, trabalharei por sua felicidade presente e futura.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2013 respondi-lhe \u2013 n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o o meu querido Amabed que a possa fazer, essa felicidade, e acha-se em uma fossa! Por que me puseram l\u00e1? Quem s\u00e3o esses espectros que me perguntaram se eu tinha sido banhada? Aonde me conduziu o senhor? N\u00e3o me ter\u00e1 enganado? Ser\u00e1 o causador destas horr\u00edveis crueldades? Mande chamar o negociante Coursom, que \u00e9 de meu pa\u00eds e homem de bem. Devolvam-me a minha aia, a minha companheira, a minha amiga Dera, de quem me separaram. Estar\u00e1 ela tamb\u00e9m num calabou\u00e7o por haver sido banhada? Que venha; que eu torne a ver Amabed, ou que morra!<br \/>\nRespondeu \u00e0s minhas palavras, e aos solu\u00e7os que as entrecortavam, com protestos de dedica\u00e7\u00e3o e zelo, que bastante me comoveram. Prometeu-me que me esclareceria as causas de toda esta espantosa aventura, e que faria que me devolvessem a minha pobre Dera, enquanto trataria de libertar a meu marido. Ele me lamentou; notei at\u00e9 que tinha os olhos um tanto \u00famidos. Enfim, quando bateu um sino, retirou-se do meu quarto e, tomando a minha m\u00e3o, colocou-a sobre o seu peito. \u00c9 o sinal vis\u00edvel, como bem sabes, da sinceridade, que \u00e9 invis\u00edvel. J\u00e1 que ele p\u00f4s a minha m\u00e3o sobre o seu peito, n\u00e3o me enganar\u00e1. E por que me h\u00e1 de enganar? Que lhe fiz eu, para que me persiga? N\u00f3s o tratamos t\u00e3o bem em Benares, o meu marido e eu! Dei-lhe tantos presentes, quando me ensinava italiano! E ele, que fez versos em italiano para mim, n\u00e3o me poder\u00e1 odiar. Hei de consider\u00e1-lo como meu benfeitor, se ele me devolver meu infeliz esposo, se pudermos ambos sair desta terra invadida e habitada por antrop\u00f3fagos, se pudermos ir abra\u00e7ar teus joelhos em Madura e receber a tua santa ben\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4>TERCEIRA CARTA de Adate a Xastasid<\/h4>\n<p>Sem d\u00favida permites, generoso Xastasid, que eu te envie o di\u00e1rio de meus inauditos infort\u00fanios; tu amas Amabed, tens piedade de minhas l\u00e1grimas, l\u00eas com interesse num cora\u00e7\u00e3o ferido de todos os lados, que te exp\u00f5e as suas inconsol\u00e1veis afli\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Devolveram-me a minha amiga Dera, e eu choro com ela. Os monstros a tinham posto numa fossa, como a mim. N\u00e3o temos not\u00edcia alguma de Amabed. Estamos na mesma casa, e h\u00e1 entre n\u00f3s um espa\u00e7o infinito, um caos impenetr\u00e1vel. Mas aqui est\u00e3o coisas que h\u00e3o de arrepiar tua virtude e dilacerar tua alma justa.<\/p>\n<p>Minha pobre Dera soube, por um desses dois sat\u00e9lites que marcham sempre \u00e0 frente dos cinco antrop\u00f3fagos, que esta na\u00e7\u00e3o tem um batismo, como n\u00f3s. Ignoro como puderam chegar at\u00e9 eles os nossos ritos sagrados. Pretenderam que hav\u00edamos sido batizados segundo os ritos de sua seita. S\u00e3o t\u00e3o ignorantes que n\u00e3o sabem que adotaram de n\u00f3s o batismo, h\u00e1 muito poucos s\u00e9culos. Imaginaram esses b\u00e1rbaros que \u00e9ramos da sua seita e hav\u00edamos renunciado ao seu culto. Eis o que queria dizer essa palavra ap\u00f3stata, que os antrop\u00f3fagos faziam reboar a meus ouvidos com tamanha ferocidade. Dizem que \u00e9 um crime horr\u00edvel e digno dos maiores supl\u00edcios pertencer a outra religi\u00e3o que n\u00e3o a sua. Quando o padre Fa Tutto lhes dizia: Io la converter\u00f3 \u2013 eu a reverterei \u2013 entendia que me faria reverter \u00e0 religi\u00e3o dos bandidos. N\u00e3o compreendo nada; meu esp\u00edrito acha-se coberto de uma nuvem, como os meus olhos. Talvez o desespero me perturbe o entendimento; mas n\u00e3o posso compreender como \u00e9 que esse Fa Tutto, que me conhece t\u00e3o bem, pode dizer que me traria de volta a uma religi\u00e3o que eu jamais conheci; e que \u00e9 t\u00e3o ignorada em nossos climas como o eram os portugueses quando chegaram pela primeira vez \u00e0 \u00cdndia para procurar pimenta de armas em punho. Perdemo-nos em nossas conjeturas, a boa Dera e eu. Ela suspeita o padre Fa Tutto de alguns secretos des\u00edgnios; mas livre-me Birma de formar um ju\u00edzo temer\u00e1rio!<br \/>\nQuis escrever ao grande bandido Albuquerque para implorar sua justi\u00e7a, e para lhe pedir a liberdade de meu caro esposo. Mas disseram-me que havia partido para atacar e pilhar Bombaim. Como! vir de t\u00e3o longe no intento de assolar nossas habita\u00e7\u00f5es e matar-nos! e no entanto esses monstros s\u00e3o batizados como n\u00f3s! Dizem todavia que esse Albuquerque fez algumas belas a\u00e7\u00f5es. Enfim, s\u00f3 tenho esperan\u00e7a no Ser dos seres, que deve punir o crime e proteger a inoc\u00eancia. Mas vi esta manh\u00e3 um tigre devorar dois cordeiros. Muito receio n\u00e3o ser bastante preciosa perante o Ser dos seres para que ele se digne socorrer-me.<\/p>\n<h4>QUARTA CARTA de Adate a Xastasid<\/h4>\n<p>Acaba de sair de meu quarto esse padre Fa Tutto: que entrevista! que complica\u00e7\u00f5es de perf\u00eddias, de paix\u00f5es e de torpezas! O cora\u00e7\u00e3o humano \u00e9 ent\u00e3o capaz de reunir tantas atrocidades? Como as descrever a um justo?<br \/>\nEle tremia quando entrou. Seus olhos estavam baixos; eu tremi mais do que ele. Logo se acalmou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei \u2013 disse-me \u2013 se poderei salvar teu marido. Os juizes daqui \u00e0s vezes mostram compaix\u00e3o para com as mulheres mo\u00e7as, mas s\u00e3o muito severos com os homens.<\/p>\n<p>\u2014 Como! A vida de meu esposo n\u00e3o est\u00e1 em seguran\u00e7a?<br \/>\nE tombei desfalecida. Ele procurou \u00e1guas espirituosas para me reanimar; n\u00e3o as havia. Mandou minha aia Dera compr\u00e1-las na casa de um baniano, no outro extremo da rua. Enquanto isto, desenla\u00e7ou-me o corpete, para dar passagem aos vapores que me sufocavam. Fiquei at\u00f4nita, quando recuperei os sentidos, ao notar suas m\u00e3os sobre o meu seio e sua boca sobre a minha. Lancei um grito terr\u00edvel e recuei de horror. Ele disse:<br \/>\n\u2014 Estava tomando umas precau\u00e7\u00f5es que a simples caridade indicava. Era preciso que o teu peito, ficasse desafogado e eu verificava a tua respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! tome as precau\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que meu marido respire. Ainda est\u00e1 naquela fossa horr\u00edvel?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o. Consegui, com muita dificuldade, fazer que o transferissem para um calabou\u00e7o mais c\u00f4modo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, ainda uma vez, qual \u00e9 o crime dele, qual \u00e9 o meu? De que prov\u00e9m essa terr\u00edvel desumanidade? Por que violar conosco os direitos da hospitalidade, o das gentes, o da natureza?<br \/>\n\u2014 A nossa santa religi\u00e3o \u00e9 que nos exige essas pequenas severidades. Pesa sobre ti e teu marido a acusa\u00e7\u00e3o de haverem renegado ambos o batismo.<\/p>\n<p>\u2014 Que quer dizer?! \u2013 exclamei ent\u00e3o. \u2013 Jamais fomos batizados \u00e0 vossa moda; fomos batizados no Ganges, em nome de Brama. Foi o senhor quem impingiu essa execr\u00e1vel impostura aos espectros que me interrogaram? Qual seria o seu des\u00edgnio?<br \/>\nEle refugou tal id\u00e9ia. Falou-me de virtude, de verdade, de caridade; quase dissipou por um momento as minhas suspeitas, assegurando-me que aqueles espectros s\u00e3o pessoas de bem, homens de Deus, juizes da alma, que t\u00eam por toda parte santos espi\u00f5es, e principalmente junto aos estrangeiros que aportam a Goa. Esses espi\u00f5es, disse ele, juraram a seus confrades, juizes da alma, diante do quadro do homem nu, que Amabed e eu fomos batizados \u00e0 moda dos salteadores portugueses, e que Amabed \u00e9 ap\u00f3stato e eu sou ap\u00f3stata.<\/p>\n<p>\u00d3 virtuoso Xastasid, o que eu ou\u00e7o, o que eu vejo, de momento para momento me enche de terror, desde a raiz dos cabelos at\u00e9 a unha do dedo m\u00ednimo do p\u00e9!<br \/>\n\u2014 Como! Ent\u00e3o o senhor \u00e9 \u2013 disse eu ao padre Fa Tutto \u2013 um dos cinco homens de Deus, um dos juizes da alma?<br \/>\n\u2014 Sim, minha cara Adate, sim, Encanto dos Olhos, eu sou um dos cinco dominicanos delegados pelo vice-Deus do universo para dispor soberanamente das almas e dos corpos.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 um dominicano? Que \u00e9 um vice-Deus?<br \/>\n\u2014 Um dominicano \u00e9 um sacerdote, filho de S. Domingos, inquisidor da f\u00e9. E um vice-Deus \u00e9 um sacerdote que Deus escolheu para represent\u00e1-lo, para dispor de dez milh\u00f5es de r\u00fapias por ano, e para enviar a toda a terra dominicanos vig\u00e1rios do vig\u00e1rio de Deus.<\/p>\n<p>\u2014 Espero, grande Xastasid, que me expliques essa algaravia infernal, essa incompreens\u00edvel mistura de absurdos e de horrores, de hipocrisia e de barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Fa Tutto disse-me tudo aquilo com tal ar de compun\u00e7\u00e3o, tal acento de verdade, que, em qualquer outra \u00e9poca, poderia produzir algum efeito em minha alma simples e ignorante. Ora erguia os olhos ao c\u00e9u, ora os pousava em mim. Estavam animados e cheios de enternecimento. Mas esse enternecimento lan\u00e7ava em todo o meu corpo um fr\u00eamito de horror e medo. Amabed est\u00e1 continuamente em minha boca como em meu cora\u00e7\u00e3o. \u201cDevolvam-me o meu querido Amabed\u201d era o come\u00e7o, o meio, o fim de tudo quanto eu dizia.<\/p>\n<p>Neste momento chega a minha boa Dera; traz-me \u00e1guas de cinnamum e de amomum. Essa encantadora criatura achou meios de entregar ao comerciante Coursom as minhas tr\u00eas cartas precedentes. Coursom parte esta noite; dentro em pouco estar\u00e1 em Madura. Serei pranteada pelo grande Xastasid; ele derramar\u00e1 l\u00e1grimas sobre a sorte de meu marido, me dar\u00e1 conselhos, um raio da sua sabedoria penetrar\u00e1 na noite de meu t\u00famulo.<\/p>\n<p><strong>RESPOSTA do br\u00e2mane Xastasid \u00e0s quatro cartas precedentes de Adate<\/strong><\/p>\n<p>Virtuosa e infortunada Adate, esposa de meu caro disc\u00edpulo Amabed, Encanto dos Olhos, os meus lan\u00e7aram rios de l\u00e1grimas sobre as tuas quatro cartas. Que dem\u00f4nio inimigo da natureza desencadeou do fundo das trevas da Europa os monstros a cuja merc\u00ea se acha a \u00cdndia? Como! terna esposa de meu caro disc\u00edpulo, n\u00e3o v\u00eas que o padre Fa Tutto \u00e9 um celerado que te fez cair numa armadilha? N\u00e3o v\u00eas que n\u00e3o foi sen\u00e3o ele quem mandou encerrar teu marido numa fossa, e a ti fez o mesmo, para que lhe devesses a obriga\u00e7\u00e3o de te retirar dali? O que n\u00e3o ir\u00e1 exigir do teu reconhecimento! Tremo contigo: acabo de denunciar essa viola\u00e7\u00e3o do direito das gentes a todos os pont\u00edfices de Brama, a todos os omras, a todos os raias, aos nababos, e at\u00e9 mesmo ao grande imperador das \u00cdndias, o sublime Babar, rei dos reis, primo do sol e da lua, filho de Mirsamacamed, filho de Semcor, filho de Abucaid, filho de Miraca, filho de Timur, a fim de que se oponham de todos os lados aos abusos dos ladr\u00f5es da Europa. Que abismos de banditismo! Jamais os sacerdotes de Timur, de Gengisc\u00e3, de Alexandre, de Oguskan, de Sesac, de Baco, que vieram sucessivamente subjugar as nossas santas e pac\u00edficas regi\u00f5es, permitiram esses hip\u00f3critas horrores; pelo contr\u00e1rio, Alexandre deixou por toda parte eternas marcas da sua generosidade. Baco s\u00f3 fez o bem: era o favorito do c\u00e9u; uma coluna de fogo conduzia o seu ex\u00e9rcito durante a noite, e uma nuvem lhe marchava \u00e0 frente durante o dia (6); atravessava o Mar Vermelho a p\u00e9 enxuto; quando lhe convinha, ordenava ao sol e \u00e0 lua que parassem; dois feixes de raios divinos lhe sa\u00edam da fronte; o anjo exterminador estava de p\u00e9 a seu lado; mas ele empregava sempre o anjo da alegria. Quanto a Albuquerque, pelo contr\u00e1rio, s\u00f3 veio com monges, comerciantes velhacos e com assassinos. Coursom, o justo, confirmou-me a infelicidade de Amabed e a tua. Possa eu, antes de minha morte, salvar a ambos, ou vingar-vos! Possa o eterno Birma arrebatar-vos das m\u00e3os do monge Fa Tutto! O meu cora\u00e7\u00e3o sangra com os ferimentos do teu. N.B. Esta carta s\u00f3 chegou a Encanto dos Olhos muito tempo depois, quando ela partiu da cidade de Goa.<\/p>\n<h4>QUINTA CARTA de Adate ao grande br\u00e2mane Xastasid<\/h4>\n<p>De que termos ousarei servir-me para exprimir a minha nova desgra\u00e7a! Como poder\u00e1 o pudor falar da vergonha? Birma viu o crime, e o sofreu! Que ser\u00e1 de mim? A fossa onde eu estava enterrada \u00e9 menos horr\u00edvel que a minha situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nO padre Fa Tutto entrou esta manh\u00e3 no meu quarto, todo perfumado, e coberto de uma simarra de seda leve. Eu estava no leito. \u201cVit\u00f3ria! \u2013 exclamou ele. \u2013 Foi assinada a ordem de liberta\u00e7\u00e3o de teu marido\u201d.<\/p>\n<p>A tais palavras, os transportes da alegria se apoderaram de todos os meus sentidos; chamei-o meu protetor, meu pai. Ele inclinou-se sobre mim, abra\u00e7ou-me. Julguei a princ\u00edpio que se tratava de uma car\u00edcia inocente, um testemunho casto da sua bondade para comigo; mas, no mesmo instante, afastando-me as cobertas, despindo a simarra, lan\u00e7ando-se sobre mim como uma ave de rapina sobre uma pomba, apertando-me com o peso de seu corpo, tirando com seus bra\u00e7os nervosos todo movimento a meus fr\u00e1geis bra\u00e7os, afogando no meu l\u00e1bio a voz queixosa com criminosos beijos, inflamado, invenc\u00edvel, inexor\u00e1vel&#8230; Que momento! E por que foi que eu n\u00e3o morri?<br \/>\nDera, quase nua, veio em meu socorro, mas quando s\u00f3 um raio me poderia socorrer. O provid\u00eancia de Birma! o raio n\u00e3o tombou, e o detest\u00e1vel Fa Tutto fez chover em meu seio o ardente orvalho de seu crime. N\u00e3o, nem a pr\u00f3pria Druga, com os seus dez bra\u00e7os celestes, poderia afastar aquele indom\u00e1vel Mosasor (7).<\/p>\n<p>A minha querida Dera puxava-o com todas as suas for\u00e7as, mas imagina tu um passarinho que bicasse a ponta das penas de um abutre encarni\u00e7ado sobre uma rola: \u00e9 a imagem do Padre Fa Tutto, de Dera e da pobre Adate.<\/p>\n<p>Para se vingar das importuna\u00e7\u00f5es de Dera, ele agarra-a, derruba-a com uma das m\u00e3os, retendo-me com a outra; trata-a da mesma forma como a mim me tratou, sem miseric\u00f3rdia; em seguida sai altivamente, como um senhor que acaba de castigar a duas escravas, e nos diz: \u201cFiquem sabendo que eu punirei assim as duas, quando se mostrarem teimosas\u201d.<\/p>\n<p>Ficamos, Dera e eu, um quarto de hora sem que ous\u00e1ssemos dizer uma palavra, sem coragem de olhar uma para a outra. Afinal Dera exclamou: \u201cAh! minha querida ama, que homem! Todos os da sua esp\u00e9cie ser\u00e3o t\u00e3o cru\u00e9is como ele\u201d<br \/>\nQuanto a mim, s\u00f3 pensava no infeliz Amabed. Prometeram-me devolv\u00ea-lo, e n\u00e3o mo devolvem. Matar-me, seria abandon\u00e1-lo; por isso n\u00e3o me matei.<\/p>\n<p>H\u00e1 j\u00e1 um dia que eu n\u00e3o me alimentava sen\u00e3o de minha dor. N\u00e3o nos trouxeram comida na hora do costume. Dera se espantava e queixava-se. Parecia-me vergonhoso comer depois do que nos acontecera. No entanto, est\u00e1vamos com um apetite devorador. Nada vinha e, depois de desfalecer de dor, desmai\u00e1vamos de fome.<\/p>\n<p>Enfim, \u00e0 noite, serviram-nos uma torta de pombos, um frango e duas perdizes, com um \u00fanico p\u00e3ozinho; e, para c\u00famulo do ultraje, uma garrafa de vinho sem \u00e1gua. Era a pe\u00e7a mais cruel que podiam pregar a duas mulheres como n\u00f3s, depois de tudo o que j\u00e1 t\u00ednhamos sofrido; mas, que fazer? Pus-me de joelhos: \u201cO Birma! \u00f3 Vixnu! \u00f3 Brama! sabem que a alma n\u00e3o \u00e9 maculada pelo que entra no corpo. Se me destes uma alma, perdoai-lhe a necessidade funesta em que se acha meu corpo de n\u00e3o poder restringir-se aos legumes; sei que \u00e9 um pecado horr\u00edvel comer frango, mas a isso somos for\u00e7adas. Possam tantos crimes retumbar sobre a cabe\u00e7a do padre Fa Tutto! Que ele seja, ap\u00f3s a morte, transformado em uma jovem e infeliz indiana; que eu seja transformada em dominicano: que eu lhe devolva todos os males que me fez, e que eu seja ainda mais impiedosa com ele do que ele o foi comigo.\u201d N\u00e3o fiques escandalizado, perdoa, virtuoso Xastasid. Sentamo-nos \u00e0 mesa. Como \u00e9 duro ter prazeres que nos censuramos.<\/p>\n<p>P. S. Imediatamente ap\u00f3s o jantar, escrevi ao magistrado de Goa a que chamam o corregedor. Pe\u00e7o-lhe a liberdade de Amabed e a minha; informo-o de todos os crimes do padre Fa Tutto. Minha querida Dera diz que far\u00e1 chegar minha carta ao seu destino, por interm\u00e9dio desse aguazil dos inquisidores que \u00e0s vezes vem visit\u00e1-la na minha antec\u00e2mara e que lhe tem grande estima. Vejamos em que poder\u00e1 dar esse arrojado passo.<\/p>\n<h4>SEXTA CARTA de Adate<\/h4>\n<p>Crer\u00e1s em mim, s\u00e1bio instrutor dos homens? H\u00e1 justos em Goa! E dom Jer\u00f4nimo, o corregedor, \u00e9 um deles. Sentiu-se tocado com a minha desgra\u00e7a e a de Amabed. A injusti\u00e7a o revolta, o crime o indigna. Transportou-se com oficiais de justi\u00e7a \u00e0 pris\u00e3o que nos encerra. Acabo de saber que chamam a este covil o pal\u00e1cio do Santo Oficio. Mas, o que te espantar\u00e1, negaram entrada ao corregedor. Os cinco espectros, seguidos de seus alabardeiros, apresentaram-se \u00e0 porta, e disseram \u00e0 justi\u00e7a:<br \/>\n\u2014 Em nome de Deus, n\u00e3o entrar\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Entrarei em nome do rei \u2013 disse o corregedor, \u2013 \u00e9 um caso real.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um caso sagrado \u2013 responderam os espectros.<\/p>\n<p>Dom Jer\u00f4nimo, o justo, disse ent\u00e3o:<br \/>\n\u2014 Devo interrogar Amabed, Adate, Dera e o padre Fa Tutto.<\/p>\n<p>\u2014 Interrogar um inquisidor, um dominicano! \u2013 exclamou o chefe dos espectros. \u2013 E um sacril\u00e9gio: scommunicao, scommunicao.<\/p>\n<p>Dizem que s\u00e3o palavras terr\u00edveis, e que um homem sobre quem as pronunciaram morre ordinariamente ao cabo de tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>As partes se acaloraram e estavam prestes a chegar a vias de fato, quando afinal resolveram recorrer ao bispo de Goa. Um bispo \u00e9 mais ou menos entre estes b\u00e1rbaros o que tu \u00e9s entre os filhos de Brama; \u00e9 um intendente de sua religi\u00e3o; veste-se de roxo e usa nas m\u00e3os sapatos roxos. Traz \u00e0 cabe\u00e7a, nos dias de cerim\u00f4nia, um p\u00e3o-de-a\u00e7\u00facar dividido em dois. Esse homem decidiu que nenhuma das duas partes estava com a raz\u00e3o, e que s\u00f3 ao seu vice-Deus competia julgar o padre Fa Tutto. Ficou combinado que o enviariam a Sua Divindade, comigo e Amabed, e a minha fiel Dera.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei onde mora esse vice, se na vizinhan\u00e7a do Gr\u00e3o Lama ou na P\u00e9rsia, mas n\u00e3o importa. Tornarei a ver Amabed; iria com ele ao fim do mundo, ao c\u00e9u, ao inferno. Esque\u00e7o neste momento a minha fossa, a minha pris\u00e3o, as viol\u00eancias de Fa Tutto, suas perdizes, que tive a covardia de comer, e seu vinho, que tive a fraqueza de beber.<\/p>\n<h4>S\u00c9TIMA CARTA de Adate<\/h4>\n<p>Tornei a v\u00ea-lo, o meu terno esposo; reuniram-nos, tive-o em meus bra\u00e7os. Ele apagou a mancha do crime com que esse abomin\u00e1vel Fa Tutto me maculara; semelhante \u00e0 \u00e1gua santa do Ganges, que lava todas as m\u00e1culas das almas, ele me deu uma nova vida. S\u00f3 essa pobre Dera \u00e9 que ainda permanece profanada; mas as tuas preces e as tuas b\u00ean\u00e7\u00e3os recolocar\u00e3o a inoc\u00eancia dela em todo o seu esplendor<\/p>\n<p>Fazem-nos partir, amanh\u00e3, em um navio que veleja para Lisboa. E a p\u00e1tria do altivo Albuquerque. \u00c9 l\u00e1 sem d\u00favida que habita esse vice-Deus que deve decidir entre Fa Tutto e n\u00f3s. Se \u00e9 vice-Deus, como todos aqui asseguram, \u00e9 certo que causar\u00e1 a perdi\u00e7\u00e3o de Fa Tutto. \u00c9 um pequeno consolo, mas eu procuro menos a puni\u00e7\u00e3o desse terr\u00edvel culpado que a felicidade do terno Amabed.<\/p>\n<p>Qual o destino dos fracos mortais, dessas folhas que o vento arrebata! Nascemos, Amabed e eu, \u00e0s margens do Ganges; levam-nos a Portugal; v\u00e3o julgar-nos em um mundo desconhecido, a n\u00f3s que nascemos livres! Tornaremos a ver a nossa p\u00e1tria um dia? Poderemos cumprir \u00e0 peregrina\u00e7\u00e3o que projet\u00e1vamos, at\u00e9 a tua sagrada pessoa? Como poderemos, eu e minha querida Dera, ficar encerradas no mesmo navio com o padre Fa Tutto? Esta id\u00e9ia me faz tremer. Felizmente terei o meu bravo esposo para defender-me. Mas que ser\u00e1 de Dera, que n\u00e3o tem marido? Enfim, recomendamo-nos \u00e0 Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>Daqui por diante, vai ser o meu querido Amabed quem te escrever\u00e1; far\u00e1 o di\u00e1rio de nossos destinos e te pintar\u00e1 as novas terras e novos c\u00e9us que vamos ver. Possa Brama conservar por muito tempo a tua cabe\u00e7a calva e o entendimento divino que colocou no miolo de teu c\u00e9rebro!<\/p>\n<h4>PRIMEIRA CARTA de Amabed a Xastasid, ap\u00f3s o seu cativeiro<\/h4>\n<p>Estou pois ainda no n\u00famero dos vivos! Portanto, quem te escreve sou eu pr\u00f3prio, divino Xastasid! Eu soube de tudo, e tu sabes de tudo. Encanto dos Olhos n\u00e3o teve culpa; n\u00e3o pode t\u00ea-la. A virtude est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o alhures. Esse rinoceronte do Fa Tutto, que cosera \u00e0 sua pele a da raposa, sustenta ousadamente que nos havia batizado, a Adate e a mim, em Benares, \u00e0 moda da Europa; que eu sou ap\u00f3stato e que Encanto dos Olhos \u00e9 ap\u00f3stata. Jura, pelo homem nu que est\u00e1 aqui pintado em quase todas as paredes, que \u00e9 injustamente acusado de ter violado a minha querida esposa e a jovem Dera. Encanto dos Olhos, por sua vez, e a suave Dera, juram que foram violadas. Os esp\u00edritos europeus n\u00e3o podem varar essa densa nuvem; dizem todos que s\u00f3 o seu vice-Deus \u00e9 que pode discernir nisso tudo alguma coisa, visto que \u00e9 infal\u00edvel.<\/p>\n<p>Dom Jer\u00f4nimo, o corregedor, faz-nos embarcar a todos amanh\u00e3, para comparecermos perante essa criatura extraordin\u00e1ria que jamais se engana. Esse grande juiz dos b\u00e1rbaros n\u00e3o tem assento em Lisboa, mas muito mais longe, em uma cidade magnifica chamada Roma, nome este completamente desconhecido entre os indianos. Terr\u00edvel viagem essa! A que n\u00e3o est\u00e3o expostos os filhos de Brama nesta curta vida! Temos, como companheiros de viagem, comerciantes europeus, cantoras, dois velhos oficiais das tropas do rei de Portugal, que ganharam muito dinheiro em nosso pa\u00eds, sacerdotes do vice-Deus, e alguns soldados.<\/p>\n<p>\u00c9 uma grande felicidade termos aprendido italiano, que \u00e9 a l\u00edngua corrente de todos eles; pois como poder\u00edamos entender o jarg\u00e3o portugu\u00eas? Mas o horr\u00edvel \u00e9 estar no mesmo barco com um Fa Tutto. Fazem-nos dormir a bordo, para zarpar amanh\u00e3, de madrugada. Minha mulher, eu e Dera teremos um pequeno quarto de seis p\u00e9s de comprimento por quatro de largura. Dizem que \u00e9 um grande favor. A multid\u00e3o precipita-se. Encanto dos Olhos chora. Dera treme. \u00c9 preciso coragem. Adeus; dirige por n\u00f3s as tuas santas preces ao Eterno que criou os infelizes mortais h\u00e1 justamente cento e quinze mil seiscentos e cinq\u00fcenta e duas revolu\u00e7\u00f5es anuais do sol em torno da terra, ou da terra em torno do sol.<\/p>\n<h4>SEGUNDA CARTA de Amabed, em viagem<\/h4>\n<p>Ap\u00f3s um dia de viagem, est\u00e1vamos \u00e0 vista de Bombaim, da qual se apoderou o exterminador Albuquerque, a quem chamam aqui o grande. Logo em seguida se ouviu um ru\u00eddo infernal: o nosso navio disparou nove tiros de canh\u00e3o; responderam com outros tantos da fortaleza da cidade. Encanto dos Olhos e a jovem Dera julgaram que era chegado o seu \u00faltimo dia. Est\u00e1vamos cobertos de um fumo espesso. Pois acreditas, s\u00e1bio Xastasid, que isso tudo s\u00e3o delicadezas? E o modo como esses b\u00e1rbaros se sa\u00fadam. Uma chalupa trouxe cartas para Portugal; velejamos para o alto mar, deixando \u00e0 direita o grande rio Zombudipo, a que os b\u00e1rbaros chamam Indo.<\/p>\n<p>N\u00e3o vemos nada mais que os ares, chamados de c\u00e9u por estes bandidos t\u00e3o pouco dignos do c\u00e9u, e este grande mar que a cobi\u00e7a e a crueldade os fez atravessar.<\/p>\n<p>Contudo, o capit\u00e3o parece \u00e0s direitas \u00e9 sensato. N\u00e3o permite que o padre Fa Tutto esteja no tombadilho quando ali tomamos a fresca; e, quando ele est\u00e1 em cima, n\u00f3s nos conservamos embaixo. Somos como o dia e a noite, que nunca aparecem juntos no mesmo horizonte. N\u00e3o cesso de refletir sobre o destino, que zomba dos infelizes mortais. Vogamos sobre o mar das \u00cdndias com um dominicano, para sermos julgados em Roma, a seis mil l\u00e9guas de nossa p\u00e1tria.<\/p>\n<p>H\u00e1 a bordo um personagem consider\u00e1vel a que chamam esmoler. N\u00e3o quer dizer que ele distribua esmola; pelo contr\u00e1rio, d\u00e3o-lhe dinheiro para rezar em uma l\u00edngua que n\u00e3o \u00e9 nem a portuguesa nem a italiana, e que ningu\u00e9m da equipagem entende; talvez nem ele pr\u00f3prio a entenda: pois est\u00e1 sempre a discutir sobre o sentido das palavras com o padre Fa Tutto. Disse-me o capit\u00e3o que esse esmoler \u00e9 franciscano e que, sendo o outro dominicano, v\u00eaem-se obrigados em consci\u00eancia a nunca estar de acordo. As suas seitas s\u00e3o inimigas declaradas uma da outra; assim, vestem-se eles diversamente, para marcar a sua diversidade de opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse Franciscano chama-se Fa Molto. Empresta-me livros italianos referentes \u00e0 religi\u00e3o do vice-Deus perante o qual compareceremos. Lemos esses livros, a minha querida Adate e eu. Dera assiste \u00e0 leitura. A princ\u00edpio ela sentiu repugn\u00e2ncia, temendo desagradar a Brama; mas, quanto mais lemos, mais fortalecidos ficamos no amor dos santos dogmas que tu ensinas aos fi\u00e9is.<\/p>\n<h4>TERCEIRA CARTA do di\u00e1rio de Amabed<\/h4>\n<p>Lemos com o esmoler as ep\u00edstolas de um dos grandes santos da religi\u00e3o italiana e portuguesa. Seu nome \u00e9 Paulo. Tu que possu\u00eda a ci\u00eancia universal conheces Paulo, sem d\u00favida. E um grande homem: foi jogado fora do cavalo por uma voz, e cegado por um raio; gaba-se de ter estado, como eu, na pris\u00e3o; acrescenta que recebeu, por cinco vezes, trinta e nove vergastadas, o que soma cento e noventa e cinco verg\u00f5es nas n\u00e1degas; depois, por tr\u00eas vezes, bastonadas, sem especificar o n\u00famero; depois diz que foi lapidado uma vez, o que \u00e9 estranho, pois disso a gente n\u00e3o se refaz; jura, depois, que esteve um dia e uma noite no fundo do mar. Lamento-o muito; mas, em compensa\u00e7\u00e3o foi arrebatado ao terceiro c\u00e9u. Confesso-te, iluminado Xastasid, que desejaria fazer o mesmo, ainda que devesse comprar essa gl\u00f3ria por noventa e cinco vergastadas bem aplicadas no traseiro:<\/p>\n<p>\u00c9 belo que um mortal se eleve ao C\u00e9u;<br \/>\n\u00c9 belo at\u00e9 cair de l\u00e1,<br \/>\ncomo diz um dos nossos mais estim\u00e1veis poetas hindus, que \u00e9 algumas vezes sublime.<\/p>\n<p>Vejo finalmente que, exatamente como eu, Paulo foi conduzido a Roma, para ser julgado. Como, meu caro Xastasid! Ent\u00e3o Roma tem julgado a totalidade das mortais, em todos os tempos? Nesta cidade deve haver com certeza algo superior ao resto da terra, todas as pessoas que est\u00e3o a bordo s\u00f3 juram por essa Roma. Tudo o que se fazia em Goa era em nome de Roma.<\/p>\n<p>Digo-te mais. O Deus do nosso esmoler Fa Molto, que \u00e9 o mesmo que o de Fa Tutto, nasceu e morreu em um pa\u00eds dependente de Roma, e pagou tributo ao samorim que reinava nessa cidade. N\u00e3o achas tudo isso surpreendente? Quanto a mim, parece-me que sonho, e que todos os que me cercam tamb\u00e9m est\u00e3o sonhando.<\/p>\n<p>O nosso esmoler Fa Molto leu-nos coisas ainda mais maravilhosas. Ora \u00e9 um burro que fala, ora um dos seus santos que passa tr\u00eas dias e tr\u00eas noites no ventre de uma baleia e que dali sai de muito mau-humor. Aqui \u00e9 um pregador que foi pregar no c\u00e9u, sobre um carro de fogo puxado por quatro cavalos de fogo. Acol\u00e1 \u00e9 um doutor que atravessa o mar a seco, seguido de dois ou tr\u00eas milh\u00f5es de homens que fogem a seco. Outro doutor faz parar o sol e a lua; mas isto n\u00e3o me surpreende: tu mo ensinaste.<\/p>\n<p>O que mais me penaliza, a mim que fa\u00e7o quest\u00e3o de asseio e de pudor, \u00e9 que o Deus dessa gente ordena a um de seus pregadores que coma certa mat\u00e9ria com o seu p\u00e3o (8), e a um outro que durma por dinheiro com mulheres alegres e lhes fa\u00e7a filhos (9).<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 pior. O erudito homem nos deu a conhecer as duas irm\u00e3s Oola e Ooliba (10). Tu bem as conheces, pois tudo leste. Esse trecho muito escandalizou a minha mulher, que enrubesceu at\u00e9 o branco dos olhos. Notei que a boa Dera ficava toda vermelha. Esse franciscano deve ser um p\u00e2ndego. Mas fechou o livro logo que viu como Encanto dos Olhos e eu est\u00e1vamos alarmados, e retirou-se para ir meditar sobre o texto.<\/p>\n<p>Deixou-me com o seu livro sagrado. Li algumas p\u00e1ginas ao acaso. \u00d3 Brama! \u00d3 justi\u00e7a eterna! Que gente aquela! Deitam todos com as criadas, na velhice. Um faz coisas \u00e0 sua sogra, outro \u00e0 sua nora. Aqui \u00e9 uma cidade inteira que quer absolutamente tratar um pobre sacerdote como a uma linda rapariga (11). Acol\u00e1, duas senhoritas de condi\u00e7\u00e3o embriagam o pai, deitam com ele uma ap\u00f3s outra, e ambas engravidam (12).<\/p>\n<p>Mas o que mais me espantou, o que mais me horrorizou, \u00e9 que os habitantes de uma cidade magn\u00edfica, a que Deus enviara duas criaturas eternas que est\u00e3o sempre ao p\u00e9 de seu trono, dois esp\u00edritos puros resplandecentes de luz divina&#8230; minha pena estremece como minh\u201calma&#8230; ousarei diz\u00ea-lo? sim, esses habitantes fizeram o poss\u00edvel para violar aqueles mensageiros de Deus (13). Que pecado abomin\u00e1vel com homens! Mas, com anjos, ser\u00e1 mesmo poss\u00edvel? Caro Xastasid, aben\u00e7oemos Birma, Vixnu e Brama. Agrade\u00e7amo-lhes n\u00e3o termos jamais conhecido essas inconceb\u00edveis torpezas. Dizem que o conquistador Alexandre pretendeu outrora introduzir entre n\u00f3s esse costume supersticioso; que conspurcava, publicamente, o seu mignon Efesti\u00e3o. O C\u00e9u o puniu. Efesti\u00e3o e ele morreram na flor da idade Sa\u00fado-te, senhor de minha alma, esp\u00edrito de meu esp\u00edrito. Adate, a triste Adate recomenda-me \u00e0s tuas preces.<\/p>\n<h4>QUARTA CARTA de Amabed a Xastasid<\/h4>\n<p>Do cabo a que chamam da Boa Esperan\u00e7a, a 15 do m\u00eas do rinoceronte.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito que n\u00e3o estendo minhas folhas de algod\u00e3o sobre uma prancha, nem mergulho o pincel na laca negra l\u00edquida, para te fazer um fiel relato de nossa vida. Deixamos atr\u00e1s o golfo de Bab-el-Mandeb, que entra no famoso Mar Vermelho, cujas ondas outrora se apartavam, acumulando-se como montanhas, para que passasse Baco com o seu ex\u00e9rcito. Lamentava que n\u00e3o houv\u00e9ssemos aportado \u00e0s costas da Ar\u00e1bia Feliz, esse pa\u00eds quase t\u00e3o belo como o nosso, e no qual Alexandre queria estabelecer a sede do seu imp\u00e9rio e o entreposto comercial do mundo. Desejaria ver esse \u00c1den ou \u00c9den, cujos jardins sagrados foram t\u00e3o famosos na antig\u00fcidade; essa Moca famosa pelo seu caf\u00e9, que at\u00e9 hoje s\u00f3 ali \u00e9 produzido; Meca, onde o grande profeta dos mu\u00e7ulmanos estabeleceu a sede do seu imp\u00e9rio, e onde tantos povos da \u00c1sia, da \u00c1frica e da Europa v\u00eam todos os anos beijar uma pedra negra ca\u00edda do c\u00e9u, que n\u00e3o manda todos os dias essas pedras aos mortais; mas n\u00e3o nos \u00e9 permitido satisfazer a curiosidade. Navegamos sempre e sempre para ir a Lisboa, e dali a Roma.<\/p>\n<p>J\u00e1 passamos alinha equinocial; desembarcamos no reino de Melinde, onde os portugueses t\u00eam um porto consider\u00e1vel. Nossa equipagem ali embarcou marfim, \u00e2mbar cinzento, cobre, prata e ouro. Eis-nos chegados ao grande cabo: \u00e9 a terra dos hotentotes. Essa gente n\u00e3o parece descender dos filhos de Brama. Ali a natureza deu \u00e0s mulheres um avental formado pela sua pele; esse avental cobre o seu tesouro, de que os hotentotes s\u00e3o id\u00f3latras e para o qual fazem madrigais e can\u00e7\u00f5es. Andam completamente nus. Essa moda \u00e9 muito natural; mas n\u00e3o me parece nem correta nem h\u00e1bil. Um hotentote \u00e9 muito infeliz; nada mais tem que desejar, depois que viu a sua hotentote por diante e por tr\u00e1s. Falta-lhe o encanto dos obst\u00e1culos. N\u00e3o h\u00e1 mais nada de picante para ele. Os vestidos de nossas indianas, inventados para serem erguidos, denotam um g\u00eanio bastante superior. Estou persuadido de que o s\u00e1bio hindu, a quem devemos o jogo do xadrez e o do trique-traque, inventou tamb\u00e9m a indument\u00e1ria das damas, para felicidade nossa.<\/p>\n<p>Ficaremos dois dias neste cabo, que \u00e9 o marco do mundo e que parece separar o Oriente do Ocidente. Quanto mais reflito sobre a cor destes povos, sobre o murmurejo de que se servem para se fazerem entender, em vez de uma linguagem articulada, sobre o seu aspecto, sobre o avental de suas damas, mais me conven\u00e7o de que tal ra\u00e7a n\u00e3o pode ter a mesma origem que a nossa. Seria o mesmo que dizer que as galinhas, as \u00e1rvores e a relva deste pa\u00eds prov\u00e9m das galinhas, das \u00e1rvores e da relva de Benares ou de Pequim.<\/p>\n<h4>QUINTA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>16 \u00e0 noite, no cabo chamado da Boa Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mais outra aventura. O capit\u00e3o passeava com Encanto dos Olhos e comigo por uma vasta rocha ao p\u00e9 da qual vem quebrar o mar as suas vagas. O esmoler Fa Molto levou jeitosamente a nossa jovem Dera a uma pequena casa rec\u00e9m-constru\u00edda a que chamam estalagem. A pobre mo\u00e7a n\u00e3o via nenhum mal naquilo, e julgava que nada havia a temer, visto que o referido esmoler n\u00e3o \u00e9 dominicano. Pois acreditas que o Padre Fa Tutto ficou todo enciumado com isso? Entrou como uma f\u00faria na estalagem. Havia l\u00e1 dois marinheiros, que tamb\u00e9m se enciumaram. Terr\u00edvel paix\u00e3o, o ci\u00fame. Os dois marinheiros e os dois padres haviam bebido muito desse licor que dizem Inventado pelo seu No\u00e9 e cuja autoria atribu\u00edmos a Baco: funesto presente, que poderia ser \u00fatil, se n\u00e3o nos fosse t\u00e3o f\u00e1cil abusar dele. Dizem os europeus que essa beberagem lhes d\u00e1 esp\u00edrito. Como pode ser isso, se lhes tira a raz\u00e3o?<br \/>\nOs dois homens do mar e os dois bonzos da Europa esmurraram-se valentemente, batendo um marinheiro em Fa Tutto, este no esmoler, este \u00faltimo no segundo marinheiro, que devolvia o que recebia; todos os quatro mudavam de m\u00e3o a cada momento, dois contra dois, tr\u00eas contra um, todos contra todos, e cada qual a praguejar, cada qual a puxar para si a nossa desgra\u00e7ada, que lan\u00e7ava gritos lancinantes. Ao ru\u00eddo, acorreu o capit\u00e3o; esbordoou indiferentemente os quatro advers\u00e1rios; e, para p\u00f4r Dera em seguran\u00e7a, levou-a para os seus aposentos, onde ficaram ambos encerrados durante duas horas inteiras. Os oficiais e os passageiros, que s\u00e3o muito polidos, reuniram-se todos em redor de n\u00f3s, e nos garantiram que os dois monges (\u00e9 assim que os chamam) seriam severamente castigados pelo vice-Deus, assim que chegassem a Roma. Essa esperan\u00e7a nos consolou um pouco. Ao cabo de duas horas, voltou o capit\u00e3o, trazendo-nos Dera, com muitas aten\u00e7\u00f5es e cumprimentos, de que minha querida mulher se mostrou muito satisfeita. \u00d3 Brama, que estranhas coisas sucedem em viagem, e que sensato \u00e9 nunca sair de casa!<\/p>\n<h4>SEXTA CARTA de Amabed, em viagem<\/h4>\n<p>N\u00e3o te escrevi desde a aventura da nossa pequena Dera. O capit\u00e3o, durante a travessia, sempre lhe demonstrou a mais atenta solicitude. Eu tinha medo de que ele tamb\u00e9m se desfizesse em aten\u00e7\u00f5es com minha mulher; mas esta fingiu estar gr\u00e1vida de quatro meses. Os portugueses consideram as mulheres gr\u00e1vidas como pessoas sagradas, a quem n\u00e3o \u00e9 permitido importunar. E ao menos um bom costume, que p\u00f5e em seguran\u00e7a a honra de Adate. O dominicano recebeu ordem de n\u00e3o se apresentar jamais diante de n\u00f3s, e obedeceu.<\/p>\n<p>O franciscano, alguns dias ap\u00f3s a cena da estalagem, veio pedir-nos perd\u00e3o. Chamei-o \u00e0 parte. Perguntei-lhe como era que, tendo feito voto de castidade, se havia emancipado daquela maneira. Respondeu-me: \u201c\u00c9 verdade que fiz tal voto; mas, se tivesse prometido que meu sangue n\u00e3o correria nas veias e que minhas unhas e cabelos n\u00e3o cresceriam, seria o primeiro a confessar que me era imposs\u00edvel cumprir tal promessa. Em vez de nos fazerem jurar que seremos castos, seria preciso for\u00e7ar-nos a s\u00ea-lo e tornar eunucos a todos os monges. Quando um p\u00e1ssaro tem penas, voa. O \u00fanico meio de impedir que um cervo corra \u00e9 cortar-lhe as pernas. N\u00e3o tenhas d\u00favida de que os padres vigorosos como eu, e que n\u00e3o disp\u00f5em de mulheres, abandonam-se, mau grado seu, a excessos que fazem corar a natureza, ap\u00f3s o que v\u00e3o celebrar os santos mist\u00e9rios.\u201d<br \/>\nMuito aprendi na conversa\u00e7\u00e3o com esse homem. Instruiu-me de todos esses mist\u00e9rios da sua religi\u00e3o, que me espantaram imenso. \u201cO reverendo padre Fa Tutto, disse-me ele, \u00e9 um velhaco que n\u00e3o acredita uma palavra de tudo o que ensina; quanto a mim, tenho fortes d\u00favidas, mas afasto-as, ponho uma venda nos olhos, repilo os meus pensamentos, e marcho como posso no caminho que sigo. Todos os monges se acham reduzidos a esta alternativa: ou a incredulidade lhes faz detestar a profiss\u00e3o, ou a estupidez a torna suport\u00e1vel.\u201d<br \/>\nAcreditas que, depois de tais confid\u00eancias, ele ainda me prop\u00f4s fazer-me crist\u00e3o?<br \/>\n\u2014 Como podes \u2013 disse-lhe eu \u2013 oferecer-me uma religi\u00e3o de que nem tu mesmo est\u00e1s persuadido, a mim que fui criado na mais antiga religi\u00e3o do mundo, cujo culto existia, segundo a vossa pr\u00f3pria confiss\u00e3o, no m\u00ednimo uns cento e quinze mil e trezentos anos antes que houvesse franciscanos no mundo?<br \/>\n\u2014 Ah! meu caro indiano, se eu conseguisse fazer-vos crist\u00e3os, a ti e a bela Adate, faria rebentar de raiva aquele maroto do dominicano que n\u00e3o acredita na imaculada concep\u00e7\u00e3o da Virgem. Far\u00edeis a minha fortuna; eu poderia tornar-me bispo (14): uma boa a\u00e7\u00e3o que Deus vos saberia recompensar.<\/p>\n<p>\u00c9 assim, divino Xastasid, que entre esses b\u00e1rbaros da Europa se encontram homens que s\u00e3o um misto de erro, fraqueza, avidez e tolice, e outros que s\u00e3o patifes declarados e empedernidos. Contei essa conversa a Encanto dos Olhos, que sorriu de piedade. Quem diria que havia de ser a bordo de um navio, em plena costa da \u00c1frica, que aprender\u00edamos a conhecer os homens?!<\/p>\n<h4>S\u00c9TIMA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Que belo clima o destas costas meridionais, mas que tristes nativos! que brutos! Quanto mais faz por n\u00f3s a natureza, menos fazemos n\u00f3s por ela. Nenhuma arte \u00e9 conhecida entre todos esses povos. Um grande problema seu \u00e9 saber se descendem dos macacos, ou se os macacos \u00e9 que descendem deles Disseram nossos s\u00e1bios que o homem \u00e9 a imagem de Deus: fresca imagem de Deus, essas cabe\u00e7as negras e de nariz chato, e com pouqu\u00edssima ou nenhuma intelig\u00eancia! Dia vir\u00e1, sem d\u00favida, em que esses animais saber\u00e3o cultivar devidamente a terra, embelez\u00e1-la com casas e jardins, e conhecer a rota dos astros. Datamos n\u00f3s outros os nossos conhecimentos de cento e quinze mil seiscentos e cinq\u00fcenta e dois anos: na verdade, salvo o respeito que te devo, penso que estamos enganados; na verdade \u00e9 preciso muito mais tempo para chegar ao ponto a que chegamos. Ponhamos apenas vinte mil anos para inventar uma linguagem toler\u00e1vel, outro tanto para escrever por meio de um alfabeto, outro tanto para a metalurgia, outro tanto para a charrua e o tear, outro tanto para a navega\u00e7\u00e3o; e quantas outras artes ainda n\u00e3o exigem s\u00e9culos! Os caldeus datam de quatrocentos mil anos, e ainda n\u00e3o \u00e9 bastante.<\/p>\n<p>Na costa chamada de Angola, o capit\u00e3o comprou seis negros, pelo pre\u00e7o corrente de seis bois. Essa terra deve ser muito mais povoada que a nossa, visto vender os homens t\u00e3o barato. Mas, por outro lado, como \u00e9 que t\u00e3o abundante popula\u00e7\u00e3o se coaduna com tamanha ignor\u00e2ncia?<br \/>\nO capit\u00e3o traz alguns m\u00fasicos a bordo: mandou-os que tocassem, e eis que aqueles pobres negros come\u00e7aram a dan\u00e7ar com uma justeza quase igual \u00e0 dos nossos elefantes. Ser\u00e1 poss\u00edvel que, amando assim a m\u00fasica, n\u00e3o tenham sabido inventar a rabeca, ou ao menos a gaita? H\u00e1s de dizer-me, grande Xastasid, que nem a habilidade dos pr\u00f3prios elefantes conseguiu chegar a esse resultado, e que cumpre esperarmos. A isto, nada tenho que replicar.<\/p>\n<h4>OITAVA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Logo \u00e0 entrada do Ano Novo, avistamos Lisboa, \u00e0 margem do rio Tejo, o qual tem fama de que rola ouro em suas \u00e1guas. Se assim \u00e9, por que \u00e9 que os portugueses, v\u00e3o procur\u00e1-lo t\u00e3o longe? Toda essa gente da Europa retruca que ouro nunca \u00e9 demais Lisboa \u00e9, como me havias dito, a capital de um pequenino reino a p\u00e1tria desse Albuquerque que me fez tanto mal. Confesso que h\u00e1 algo de grande nesses portugueses, que subjugaram parte dos nossos belos dom\u00ednios. O desejo de conseguir pimenta deve dar mesmo habilidade e coragem.<\/p>\n<p>Encanto dos Olhos e eu esper\u00e1vamos entrar na cidade; mas n\u00e3o o permitiram, porque dizem que somos prisioneiros do vice-Deus, e que o dominicano Fa Tutto, o franciscano esmoler Fa Molto, Dera, Adate e eu, devemos todos ser julgados em Roma.<\/p>\n<p>Fomos transferidos para um outro navio que parte para a cidade do vice-Deus.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o \u00e9 um velho espanhol diferente em tudo do portugu\u00eas, que t\u00e3o cavalheirescamente nos tratava. S\u00f3 fala por monoss\u00edlabos, e ainda assim muito raramente. Traz \u00e0 cinta uns gr\u00e3os enfiados, que n\u00e3o cessa de contar: dizem que \u00e9 isso grande sinal de virtude.<\/p>\n<p>Dera lamenta muito a falta do outro capit\u00e3o; acha que ele era muito mais polido. Entregaram ao espanhol um grande ma\u00e7o de pap\u00e9is para instruir nosso processo na corte de Roma. Um escriba do navio os leu em voz alta. Julga ele que o padre Fa Tutto ser\u00e1 condenado a remar numa das galeras do vice-Deus e que o esmoler Fa Molto ser\u00e1 fustigado de chegada. Toda a equipagem \u00e9 da mesma opini\u00e3o; o capit\u00e3o guardou os pap\u00e9is sem nada dizer. Partimos. Que Brama tenha piedade de n\u00f3s e te cumule de seus favores! Brama \u00e9 justo; mas \u00e9 uma coisa muito singular, que, tendo eu nascido \u00e0s margens do Ganges, v\u00e1 ser julgado em Roma. Assegura-se no entanto que o mesmo aconteceu a mais de um estrangeiro.<\/p>\n<h4>NONA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Nada de novo; toda a equipagem \u00e9 silenciosa e sombria como o capit\u00e3o. Bem conheces o prov\u00e9rbio indiano: Amarra-se o burro \u00e0 vontade do dono. Atravessamos um mar que tem apenas nove mil passos de largura entre duas montanhas; entramos em outro mar semeado de ilhas, uma das quais \u00e9 bastante estranha. Os que a governam s\u00e3o religiosos crist\u00e3os, que usam chap\u00e9u e vestes curtas e juraram matar todos aqueles que usam barrete e h\u00e1bito. Devem tamb\u00e9m fazer ora\u00e7\u00f5es. Ancoramos numa ilha maior e muito linda, a que chamam Sic\u00edlia; era muito mais bela antigamente; fala-se de cidades admir\u00e1veis, de que s\u00f3 existem ru\u00ednas. Foi habitada por deuses, deusas, gigantes, her\u00f3is; ali se forjava o raio. Uma deusa chamada Cerca a cobriu de ricas messes. O vice-Deus mudou tudo isso; v\u00eaem-se agora ali muitas prociss\u00f5es e gatunos.<\/p>\n<h4>D\u00c9CIMA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Eis-nos enfim na terra sagrada do vice-Deus. Lera eu no livro do esmoler que esse pa\u00eds era todo ouro e azul; que as muralhas eram de esmeraldas e rubis; que eram de azeite os arroios, as fontes de leite, e os campos cobertos de vinhas, que produziam cada uma cem toneladas (15). Talvez encontremos tudo isso quando nos aproximarmos de Roma.<\/p>\n<p>Abordamos com dificuldade, num pequeno porto muito incomodo, chamado cidade velha. Tomba em ru\u00ednas, e tem um nome bastante apropriado. Conduziram-nos em carro\u00e7as puxadas a boi. Esses animais devem vir de longe, pois as terras que margeiam o caminho n\u00e3o s\u00e3o cultivadas; tudo uns p\u00e2ntanos infetos, charnecas, landes est\u00e9reis. Vimos pela estrada gente vestida com a metade de um manto, e sem camisa, que nos pedia esmola altivamente. S\u00f3 se alimentam, dizem-nos, de p\u00e3ezinhos min\u00fasculos que lhes d\u00e3o de gra\u00e7a pela manh\u00e3 e s\u00f3 bebem \u00e1gua benta.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fossem esses bandos de maltrapilhos, que d\u00e3o cinco ou seis mil passos para obter, com suas lamenta\u00e7\u00f5es, a trig\u00e9sima parte de uma r\u00fapia, este cant\u00e3o seria um medonho deserto. Avisaram-nos at\u00e9 de que a pessoa que passasse aqui a noite estaria em perigo de morte. Com certeza Deus se acha incomodado com o seu vig\u00e1rio, pois lhe deu um pa\u00eds que \u00e9 a cloaca da natureza. Acabo de saber que esta regi\u00e3o foi outrora muito linda e f\u00e9rtil e que s\u00f3 se tornou t\u00e3o miser\u00e1vel depois que esses vig\u00e1rios se apoderaram dela.<\/p>\n<p>Escrevo-te, s\u00e1bio Xastasid, sobre a minha carro\u00e7a, para desenfastiar-me. Adate mostra-se muito espantada. Escrever-te-ei logo que chegar a Roma.<\/p>\n<h4>UND\u00c9CIMA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Eis-nos aqui, nesta cidade de Roma. Chegamos em pleno dia, a 3 do m\u00eas da ovelha, que corresponde aqui a 15 de mar\u00e7o de 1513. Presenciamos, no princ\u00edpio, exatamente o contr\u00e1rio do que esper\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Mal cheg\u00e1ramos \u00e0 porta chamada de S. Pancr\u00e1cio (16), vimos dois bandos de espectros, um vestido \u00e0 maneira do nosso esmoler, o outro \u00e0 maneira do padre Fa Tutto. Cada bando trazia \u00e0 frente um estandarte e um grande bast\u00e3o, no qual estava esculpido um homem nu, na mesma atitude que o de Goa. Marchavam dois a dois e entoavam uma cantoria de fazer bocejar uma prov\u00edncia inteira. Quando essa prociss\u00e3o chegou \u00e0 carro\u00e7a, um bando gritou: \u201cE S\u00e3o Fa Tutto!\u201d E o outro: \u201cE S\u00e3o Fa Molto!\u201d Beijaram-lhes as batinas. O povo ajoelhou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Quantos hindus converteu, meu Reverendo Padre?<br \/>\n\u2014 Quinze mil e setecentos \u2013 dizia um.<\/p>\n<p>\u2014 Onze mil e novecentos \u2013 dizia o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Louvada seja a Virgem Maria!<br \/>\nTodo o mundo tinha os olhos pregados em n\u00f3s, todo o mundo nos cercava.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o seus catec\u00famenos, meu Reverendo Padre?<br \/>\n\u2014 Sim, n\u00f3s os batizamos.<\/p>\n<p>\u2014 Na verdade s\u00e3o muito bonitos. Gl\u00f3ria nas alturas! Gl\u00f3ria nas alturas!<br \/>\nO padre Fa Tutto e o padre Fa Molto foram conduzidos, cada um por sua prociss\u00e3o, a uma casa magn\u00edfica e, quanto a n\u00f3s, rumamos para a hospedaria. O povo nos seguiu, at\u00e9 a porta, gritando Cazzo, Cazzo, aben\u00e7oando-nos, beijando-nos as m\u00e3os, louvando a Adate, a Dera e, a mim. Infind\u00e1vel era a nossa surpresa.<\/p>\n<p>Mal nos instal\u00e1ramos, um homem vestido de roxo, acompanhado de dois outros de manto negro, veio apresentar-nos as boas-vindas. A primeira coisa que fez foi oferecer-nos dinheiro, da parte da Propaganda, caso tiv\u00e9ssemos necessidade. Respondi-lhe que ainda nos restava dinheiro e muitos diamantes (com efeito, sempre tivera eu o cuidado de ocultar nas ceroulas a minha bolsa e um cofre de brilhantes). Imediatamente o homem quase se prosternou diante de mim, tratando-me por Excel\u00eancia \u201cSua Excel\u00eancia a signora n\u00e3o est\u00e1 muito fatigada da viagem? N\u00e3o vai repousar? Temo importun\u00e1-la mas estarei sempre \u00e0s suas ordens. O signor Amabed pode dispor de mim; eu lhe enviarei um cicerone que ficar\u00e1 a seu servi\u00e7o; \u00e9 s\u00f3 ordenar. Depois de bem descansados, n\u00e3o querem ambos dar-me a honra de tomar uns refrescos em minha casa? Terei a honra de lhes enviar uma carruagem.\u201d<br \/>\nCumpre confessar, meu divino Xastasid, que os chineses n\u00e3o s\u00e3o mais polidos do que este povo ocidental. O referido senhor retirou-se. Dormimos seis horas, a bela Adate e eu. Ao anoitecer, veio a carruagem buscar-nos. Dirigimo-nos \u00e0 casa daquele homem t\u00e3o am\u00e1vel. Seu apartamento era iluminado e ornado de quadros muito mais agrad\u00e1veis que o do homem nu que vimos em Goa. Uma numerosa companhia nos encheu de carinhos; admiraram-nos por sermos hindus, felicitaram-nos pelo nosso batismo, e ofereceram-nos os seus pr\u00e9stimos por todo o tempo em que quis\u00e9ssemos permanecer em Roma.<\/p>\n<p>Quer\u00edamos solicitar a puni\u00e7\u00e3o do padre Fa Tutto. N\u00e3o nos deram tempo de falar nisso. Fomos reconduzidas afinal at\u00f4nitos, confusos com tal acolhida, e sem compreender coisa alguma.<\/p>\n<h4>DUOD\u00c9CIMA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Recebemos hoje In\u00fameras visitas, e uma princesa de Piombino mandou-nos dois escudeiros com um convite para irmos jantar com ela. Dirigimo-nos \u00e0 sua casa em uma equipagem magn\u00edfica. L\u00e1 se achava o homem de roxo. Soube que era um dos senhores, isto \u00e9, um dos servos do vice-Deus, a que chamam prediletos, prelati. Ningu\u00e9m mais am\u00e1vel do que essa princesa de Piombino. Fez-me sentar a seu lado. Muito a surpreendeu a nossa repugn\u00e2ncia em comer pombos romanos e perdizes. Disse-nos o predileto que, como \u00e9ramos batizados, t\u00ednhamos de comer perdizes e beber vinho de Montepulciano; que todos os vice-Deus assim faziam; que era esse o sinal distintivo de um verdadeiro crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Retrucou a bela Adate, com a sua habitual simplicidade, que n\u00e3o era crist\u00e3, que fora batizada no Ganges.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 minha senhora! \u2013 exclamou o predileto. \u2013 Por amor de Deus! No Ganges, no Tibre, ou numa bacia, isso que importa? A senhora \u00e9 dos nossos. A senhora foi convertida pelo padre Fa Tutto; \u00e9 para n\u00f3s uma honra que n\u00e3o queremos perder. Veja que superioridade tem a nossa religi\u00e3o sobre a dos hindus!<br \/>\nE em seguida encheu os nossos pratos de asas de frango. A princesa bebeu pela nossa sa\u00fade e salva\u00e7\u00e3o. Instaram-nos com tanta gra\u00e7a, com t\u00e3o am\u00e1veis express\u00f5es, mostraram-se t\u00e3o polidos, t\u00e3o alegres, t\u00e3o sedutores, que afinal, enfeiti\u00e7ados pelo prazer (pe\u00e7o perd\u00e3o a Brama), fizemos, Adate e eu, a mais op\u00edpara refei\u00e7\u00e3o do mundo, com o firme prop\u00f3sito de nos lavarmos no Ganges at\u00e9 as orelhas, ao regressar, para apagar nosso pecado. N\u00e3o tinham a menor d\u00favida de que f\u00f4ssemos crist\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Esse padre Fa Tutto \u2013 dizia a princesa \u2013 deve ser mesmo um grande mission\u00e1rio. Tenho vontade de toma-lo para confessor.<\/p>\n<p>N\u00f3s cor\u00e1vamos e baix\u00e1vamos os olhos, minha pobre mulher e eu.<\/p>\n<p>De tempos em tempos, a signora Adate dizia que vi\u00e9ramos para ser julgados pelo vice-Deus e que tinha o maior desejo de avistar-se com ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos nenhum por enquanto \u2013 explicou-nos a princesa. \u2013 Ele morreu. Est\u00e3o ocupados em fazer um outro: logo que este fique pronto, sereis apresentados a Sua Santidade. Assistireis ent\u00e3o \u00e0 mais augusta festa que os humanos possam ver, e da qual sereis o mais belo ornamento.<\/p>\n<p>Adate respondeu com esp\u00edrito, e a princesa ficou muito afei\u00e7oada a ela.<\/p>\n<p>No final da. refei\u00e7\u00e3o tivemos m\u00fasica, que era (se assim ouso dizer) superior \u00e0 de Benares e de Madura.<\/p>\n<p>Ao sairmos da mesa, a princesa mandou aprestar quatro carruagens douradas; fez-nos subir na sua. Mostrou-nos belos edif\u00edcios, est\u00e1tuas, pinturas. \u00c0 noite, dan\u00e7ou-se. Eu comparava secretamente essa encantadora recep\u00e7\u00e3o com o calabou\u00e7o a que f\u00f4ramos lan\u00e7ados em Goa, e mal conseguia compreender, como o mesmo governo e a mesma religi\u00e3o podiam ter tamanha do\u00e7ura e encanto em Roma, e exercer ao longe tantos horrores.<\/p>\n<h4>D\u00c9CIMA-TERCEIRA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Enquanto esta cidade se acha surdamente dividida em pequenas fac\u00e7\u00f5es para eleger um vice-Deus, enquanto estas fac\u00e7\u00f5es, animadas do mais ferrenho \u00f3dio, se tratam todas com uma polidez que se assemelha \u00e0 afei\u00e7\u00e3o, enquanto o povo olha os padres Fa Tutto e Fa Molto como favoritos da Divindade, enquanto nos assediam com uma curiosidade respeitosa, eu fa\u00e7o, meu caro Xastasid, profundas reflex\u00f5es sobre o governo de Roma.<\/p>\n<p>Comparo-o \u00e0 ceia que nos ofereceu a princesa de Piombino. A sala era limpa, c\u00f4moda, ornamentada; o ouro e a prata fulgiam nos aparadores; a alegria, o esp\u00edrito e as gra\u00e7as animavam os convivas; mas, na cozinha, escorria o sangue e a graxa; as peles dos quadr\u00fapedes, as penas das aves, as suas entranhas, tudo misturado, revoltavam o est\u00f4mago e espalhavam a infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal \u00e9, ao que me parece, a corte romana. Polida e lisonjeira em sua terra, trai\u00e7oeira e desp\u00f3tica nos demais lugares. Quando dizemos que esperamos obter justi\u00e7a contra Fa Tutto, todos riem com brandura; dizem que estamos muito acima dessas bagatelas; que o governo nos considera muito para permitir que guardemos lembran\u00e7a de tal fac\u00e9cia; que os Fa Tutto e os Fa Molto s\u00e3o esp\u00e9cies de macacos cuidadosamente amestrados para fazer peloticagens diante do povo; e terminam com protestos de respeito e amizade para conosco. Que partido queres tu que tomemos, grande Xastasid? Creio que o mais s\u00e1bio \u00e9 rir com os outros e ser polidos como eles Vou estudar Roma, que bem vale a pena.<\/p>\n<h4>D\u00c9CIMA QUARTA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Grande \u00e9 o intervalo entre minha \u00faltima carta. e a presente. Li, vi, conversei, meditei. Juro-te que jamais houve no mundo maior contradi\u00e7\u00e3o do que a existente entre o governo romano e a sua religi\u00e3o. Falava eu nisso ontem a um te\u00f3logo do vice-Deus. Um te\u00f3logo \u00e9, nesta corte, o que s\u00e3o os \u00faltimos criados numa casa; encarregam-se do trabalho pesado, fazem os despejos e, se encontram algum trapo que possa servir, guardam-no para o que der e vier.<\/p>\n<p>\u2014 O vosso Deus \u2013 dizia-lhe eu \u2013 nasceu em um est\u00e1bulo, entre um boi e um burro; foi criado, viveu e morreu na pobreza; ordenou expressamente a pobreza a seus disc\u00edpulos; declarou-lhes que n\u00e3o haveria entre eles nem primeiro nem \u00faltimo e que aquele que quisesse comandar aos outros os serviria. No entanto, vejo que fazem aqui exatamente o contr\u00e1rio do que quer o vosso Deus. O vosso pr\u00f3prio culto \u00e9 inteiramente diverso do seu. Obrigais os homens a acreditar em coisas de que ele n\u00e3o disse uma \u00fanica palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo isso \u00e9 verdade \u2013 respondeu-me. \u2013 O nosso Deus n\u00e3o ordenou formalmente a nossos superiores que enriquecessem \u00e0 custa dos povos, nem que se apoderassem dos bens alheios; mas ordenou-o virtualmente. Nasceu entre um boi e um burro; mas tr\u00eas reis vieram ador\u00e1-lo no seu est\u00e1bulo. Os bois e os burros figuram os povos a quem doutrinamos; e os tr\u00eas reis figuram os monarcas que est\u00e3o a nossos p\u00e9s. Seus disc\u00edpulos viviam na indig\u00eancia; portanto, os nossos superiores devem hoje regurgitar de riquezas. Pois, se aqueles primeiros vice-Deus apenas tiveram necessidade de um escudo, os de hoje t\u00eam premente necessidade de dez milh\u00f5es de escudos. Ora, ser pobre \u00e9 n\u00e3o ter sen\u00e3o o estritamente necess\u00e1rio. Portanto, os nossos superiores, n\u00e3o dispondo nem mesmo do necess\u00e1rio, seguem a rigor o voto de pobreza.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto aos dogmas \u2013 continuou ele, \u2013 o nosso Deus jamais escreveu coisa alguma, e n\u00f3s sabemos escrever; portanto, a n\u00f3s compete escrever os dogmas: de modo que os temos fabricado com o tempo, conforme a necessidade. Por exemplo, fizemos do casamento o sinal vis\u00edvel de uma coisa invis\u00edvel; isso faz que todos os processos suscitados por causa de casamentos venham ter, de todos os recantos da Europa, ao nosso tribunal de Roma, visto que s\u00f3 n\u00f3s \u00e9 que podemos ver coisas invis\u00edveis. \u00c9 uma copiosa fonte de tesouros que v\u00eam despejar-se em nossa sagrada c\u00e2mara de finan\u00e7as, para estancar a sede da nossa pobreza.<\/p>\n<p>Perguntei-lhe se a sagrada c\u00e2mara n\u00e3o dispunha de outros recursos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o descuramos disso \u2013 afian\u00e7ou-me o te\u00f3logo. \u2013 Tiramos partido dos vivos e dos mortos. Por exemplo, logo que algu\u00e9m morre, n\u00f3s enviamos a respectiva alma para uma enfermaria; fazemo-la tomar mezinhas na botica das almas; e o senhor nem imagina quanto nos rende essa botica.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim, monsenhor? Pois a mim me parece que a bolsa de uma alma se acha ordinariamente muito mal recheada.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 isso \u00e9 verdade, Signor; mas as almas possuem parentes que se apressam em retirar seus parentes mortos da enfermaria, acomodando-os em local mais apraz\u00edvel. \u00c9 triste para uma alma passar toda uma eternidade a tomar rem\u00e9dios. Entendemo-nos ent\u00e3o com os vivos; compram eles a sa\u00fade das almas de seus falecidos parentes, uns mais caro, outros mais barato, conforme as posses. Entregamo-lhes cart\u00f5es de indulg\u00eancia para a botica. Asseguro-lhe que \u00e9 uma das nossas melhores rendas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Monsenhor, como podem esses cart\u00f5es de indulg\u00eancia chegar at\u00e9 \u00e0s almas?<br \/>\nEle p\u00f4s-se a rir:<br \/>\n\u2014 Isso \u00e9 com os parentes; e de resto, n\u00e3o lhe disse eu que temos um poder incontest\u00e1vel sobre as coisas invis\u00edveis?<br \/>\nEsse monsenhor me parece bastante esperto; muito tenho aprendido com ele, e j\u00e1 me sinto inteiramente outro.<\/p>\n<h4>D\u00c9CIMA-QUINTA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Deves saber, meu caro Xastasid, que o cicerone a quem monsenhor me recomendou e de quem te falei algo nas cartas precedentes, \u00e9 um homem muito inteligente que mostra aos estrangeiros as curiosidades da antiga e da nova Roma. Uma e outra, como v\u00eas, governaram os reis; mas os primeiros romanos adquiriram o poder com a espada, e os \u00faltimos com a pena. A disciplina militar deu o Imp\u00e9rio aos C\u00e9sares, cuja hist\u00f3ria conheces; a disciplina mon\u00e1stica d\u00e1 outra esp\u00e9cie de Imp\u00e9rio a esses vice-Deus a que chamam Papas. V\u00eaem-se prociss\u00f5es no mesmo local onde outrora se viam triunfos. Os cicerones explicam tudo isso aos estrangeiros; fornecem-lhes livros e raparigas. Quanto a mim (por mais jovem que, seja) n\u00e3o quero ser infiel \u00e0 minha bela Adate; limito-me pois aos livros; e estudo principalmente a religi\u00e3o do pa\u00eds, que muito me diverte.<\/p>\n<p>Lia com o meu cicerone a hist\u00f3ria da vida do Deus da terra. \u00c9 deveras extraordin\u00e1ria. Era um homem que secava figueiras com uma s\u00f3 palavra, que mudava \u00e1gua em vinho e que afogava porcos. Tinha muitos inimigos. Bem sabes que ele nascera em um burgo pertencente ao imperador de Roma. Seus inimigos eram mesmo astutos; perguntaram-lhe um dia se deviam pagar tributo ao imperador, ao que ele lhes respondeu: \u201cDai ao pr\u00edncipe o que \u00e9 do pr\u00edncipe, mas dai a Deus o que \u00e9 de Deus.\u201d Essa resposta me parece s\u00e1bia, e nisso fal\u00e1vamos, o meu cicerone e eu, quando chegou monsenhor. Falei-lhe muito bem do seu Deus e pedi-lhe que me explicasse como a sua c\u00e2mara de finan\u00e7as observava tal preceito, tomando tudo para si, sem dar coisa alguma ao imperador. Pois deves saber que os romanos, embora tenham um vice-Deus t\u00eam tamb\u00e9m um imperador, ao qual d\u00e3o o t\u00edtulo de rei dos romanos. Eis o que me respondeu aquele homem t\u00e3o avisado:<br \/>\n\u2014 \u00c9 verdade que temos um imperador; mas s\u00f3 o \u00e9 em apar\u00eancia. Acha-se banido de Roma; nem ao menos possui uma casa; deixamo-lo habitar perto de um grande rio que gela durante quatro meses por ano, em um pa\u00eds cuja linguagem nos arranha os ouvidos. O verdadeiro imperador \u00e9 o papa, visto que reina na capital do imp\u00e9rio. Assim, dai ao imperador quer dizer dai ao papa; e dai a Deus tamb\u00e9m significa dai ao papa, pois com efeito \u00e9 ele vice-Deus. E o \u00fanico senhor de todos os cora\u00e7\u00f5es e de todas as bolsas. Se o outro imperador que mora \u00e0 margem de um grande rio ousasse dizer ao menos uma palavra, n\u00f3s ent\u00e3o sublevar\u00edamos contra ele todos os habitantes das margens do grande rio, que s\u00e3o na maioria uns grandes corpos sem esp\u00edrito, e armar\u00edamos contra ele os outros reis, que partilhariam, com o papa, dos seus despojos.<\/p>\n<p>Eis-te, divino Xastasid, inteirado do esp\u00edrito de Roma. O papa \u00e9, em ponto grande, o que \u00e9, em ponto pequeno, o dalai-lama; se n\u00e3o \u00e9 imortal como o lama, \u00e9 todo-poderoso durante a vida, o que \u00e9 coisa muito melhor. Se algumas vezes lhe resistem, se o dep\u00f5em, se lhe d\u00e3o bofetadas, se at\u00e9 mesmo o matam (17) entre os bra\u00e7os da amante, como por vezes aconteceu, esses inconvenientes jamais atingem o seu car\u00e1ter divino. Podem dar-lhe mil estriba\u00e7os, mas cumpre acreditar sempre em tudo quanto ele diz, O papa morre, o papado \u00e9 imortal, J\u00e1 houve tr\u00eas ou quatro vice-Deus que disputavam tal lugar ao mesmo tempo. A divindade achava-se ent\u00e3o dividida entre eles: cada qual tinha o seu bocado, cada qual era infal\u00edvel no seu partido.<\/p>\n<p>Perguntei a monsenhor por que artes conseguira a sua corte governar todas as outras cortes. \u201cDe pouca arte necessitam as pessoas de esp\u00edrito \u2013 disse-me ele \u2013 para governar aos tolos\u201d. Quis eu saber se nunca se haviam revoltado contra as decis\u00f5es do vice-Deus. Confessou-me que homens houvera bastante temer\u00e1rios para erguerem os olhos, mas que lhos haviam vasado em seguida, ou tinham exterminado esses miser\u00e1veis, e que tais revoltas at\u00e9 agora s\u00f3 tinham servido para melhor firmar a infalibilidade no trono da verdade.<\/p>\n<p>Acabam de nomear um novo vice-Deus. Repicam sinos, rufam tambores, ressoam trombetas, atroa o canh\u00e3o, a que cem mil vozes fazem eco. Escreverei informando-te de tudo o que tiver visto.<\/p>\n<h4>D\u00c9CIMA-SEXTA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Foi a 25 do m\u00eas do crocodilo, e a 13 do planeta Marte (18), como se diz aqui, que homens de vermelho e inspirados elegeram o homem infal\u00edvel perante o qual devia eu ser julgado, tal como Encanto dos Olhos, na qualidade de ap\u00f3stata.<\/p>\n<p>Esse Deus na terra chama-se Le\u00e3o, d\u00e9cimo do nome. \u00c9 um belo homem de trinta e quatro a trinta e cinco anos, e muito am\u00e1vel; as mulheres est\u00e3o loucas por ele. Achava-se atacado de um mal imundo, que s\u00f3 \u00e9 bem conhecido na Europa, mas que os portugueses come\u00e7am a introduzir no Indost\u00e3o. Julgavam que disso morreria, e foi por isso mesmo que o elegeram, a fim de que o sublime posto ficasse logo vago; mas curou-se, e zomba daqueles que o nomearam. Nada. mais magn\u00edfico do que a sua coroa\u00e7\u00e3o, na qual gastou ele cinco milh\u00f5es de r\u00fapias, para prover \u00e0s necessidades de seu Deus, que foi t\u00e3o pobre! N\u00e3o pude escrever-te na agita\u00e7\u00e3o das festas; sucederam-se t\u00e3o rapidamente, tive de assistir a tantas divers\u00f5es, que n\u00e3o sobrou um momento de lazer.<\/p>\n<p>O vice-Deus Le\u00e3o ofereceu espet\u00e1culos de que n\u00e3o tens id\u00e9ia. H\u00e1 principalmente um, chamado com\u00e9dia, que me agradou mais que todos os outros. \u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o da vida humana; \u00e9 um quadro vivo; os personagens falam e agem; exp\u00f5em os seus interesses; desenvolvem as suas paix\u00f5es: abalam a alma dos espectadores.<\/p>\n<p>A com\u00e9dia que vi anteontem no pal\u00e1cio do papa intitula-se A Mandr\u00e1gora. O argumento da pe\u00e7a \u00e9 a hist\u00f3ria de um jovem espertalh\u00e3o que quer dormir com a mulher do vizinho. Contrata por dinheiro um monge, um Fa Tutto ou um Fa Molto, para seduzir a amante do marido e faz\u00ea-lo cair numa rid\u00edcula cilada. Zomba-se, durante toda a com\u00e9dia, da religi\u00e3o que a Europa professa, de que Roma \u00e9 o centro, e cujo trono \u00e9 o assento papal. Tais prazeres talvez te pare\u00e7am indecentes, meu caro e pio Xastasid. Encanto dos Olhos ficou escandalizada; mas a com\u00e9dia \u00e9 t\u00e3o linda que o prazer sobrepuja o esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Os festins, os bailes, as belas cerim\u00f4nias religiosas, os dan\u00e7arinos de corda, sucedem-se sem interrup\u00e7\u00e3o. Principalmente os bailes s\u00e3o muito divertidos. Cada convidado veste um h\u00e1bito estranho e p\u00f5e sobre o pr\u00f3prio rosto outro rosto de papel\u00e3o. Assim disfar\u00e7ados, dizem coisas de rebentar de riso. Durante as refei\u00e7\u00f5es toca sempre uma m\u00fasica muito agrad\u00e1vel; em suma, um verdadeiro encanto.<\/p>\n<p>Contaram-me que um vice-Deus, predecessor de Le\u00e3o, chamado Alexandre, dera, por ocasi\u00e3o das n\u00fapcias de um bastardo seu, uma festa muito mais extraordin\u00e1ria, durante a qual fez dan\u00e7ar cinq\u00fcenta raparigas inteiramente nuas. Os br\u00e2manes jamais institu\u00edram semelhantes dan\u00e7as: bem v\u00eas que cada pa\u00eds tem os seus costumes. Abra\u00e7o-te com respeito e deixo-te para ir dan\u00e7ar com a bela Adate. Que Birma te cumule de b\u00ean\u00e7\u00e3os!<\/p>\n<h4>D\u00c9CIMA-S\u00c9TIMA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Na verdade, meu grande br\u00e2mane, nem todos os vice-Deus foram t\u00e3o divertidos como este. \u00c9 um verdadeiro prazer viver sob o seu dom\u00ednio. O falecido, por nome J\u00falio, era de car\u00e1ter muito diverso; tratava-se de um velho soldado turbulento, que amava a guerra como um louco; sempre a cavalo, sempre de capacete, distribuindo b\u00ean\u00e7\u00e3os e espada\u00e7os, atacando a todos os seus vizinhos, danando-lhes as almas e matando-lhes os corpos o mais que podia: morreu de um acesso de raiva. Que diabo de vice-Deus era aquele! Imagina que, com um peda\u00e7o de papel, pretendia ele despojar os reis de seus reinos! Resolveu destronar dessa maneira o rei de um pa\u00eds muito lindo, chamado Fran\u00e7a. Esse rei era um bom homem. Passa aqui por tolo porque n\u00e3o foi feliz. O pobre pr\u00edncipe viu-se um dia obrigado a reunir os mais esclarecidos homens de seu reino (19) para lhes perguntar se lhe era permitido defender-se de um vice-Deus que o destronava com um peda\u00e7o de papel.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ser mesmo muito bom para fazer tal pergunta! Testemunhava eu minha surpresa ao senhor de roxo que me tomou amizade.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1. poss\u00edvel \u2013 lhe dizia eu \u2013 que se seja t\u00e3o tolo na Europa?<br \/>\n\u2014 Receio muito \u2013 respondeu-me \u2013 que tanto abusem os vice-Deus da complac\u00eancia dos homens que acabar\u00e3o por lhes dar intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 de presumir, pois, que haja revoltas contra a religi\u00e3o da Europa. O que te surpreender\u00e1, douto e penetrante Xastasid, \u00e9 que n\u00e3o as houve sob o vice-Deus Alexandre, que reinava antes de J\u00falio. Mandava assassinar, enforcar, afogar, envenenar impunemente a todos os senhores seus vizinhos. E o instrumento dessa multid\u00e3o de crimes, cometidos \u00e0 vista de toda a It\u00e1lia, foi um dos seus cinco bastardos. Como puderam persistir os povos na religi\u00e3o desse monstro!! Era esse mesmo que fazia as raparigas dan\u00e7arem sem nenhum ornamento sup\u00e9rfluo. Seus esc\u00e2ndalos deviam inspirar desprezo, seus atos de barb\u00e1rie deviam agu\u00e7ar mil punhais contra ele; no entanto, viveu cheio de venera\u00e7\u00e3o e com toda a tranq\u00fcilidade, na sua corte. A raz\u00e3o disso, ao que me parece, \u00e9 que os padres afinal sa\u00edam ganhando com todos os seus crimes, e os povos n\u00e3o perdiam nada. Mas logo que estes se sentirem por demais afrontados, h\u00e3o de quebrar as cadeias. Cem golpes de ar\u00edete n\u00e3o puderam abalar o colosso: um seixo o deitar\u00e1 por terra. \u00c9 o que dizem por aqui as pessoas esclarecidas que gostam de profetizar.<\/p>\n<p>Enfim, acabaram-se as comemora\u00e7\u00f5es; de festas n\u00e3o se deve abusar: nada cansa tanto como as coisas extraordin\u00e1rias quando se tornam comuns S\u00f3 as verdadeiras necessidades, que quotidianamente renascem, podem dar prazer todos os dias Recomendo-me \u00e0s tuas santas ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h4>D\u00c9CIMA-OITAVA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>O Infal\u00edvel nos quis ver em particular, a Encanto dos Olhos e a mim. O nosso monsenhor nos conduziu a seu pal\u00e1cio. Mandou-nos ajoelhar tr\u00eas vezes. O vice-Deus nos fez beijar seu p\u00e9 direito, enquanto segurava as ilhargas de tanto rir. Perguntou-nos se o padre Fa Tutto nos convertera e se com efeito \u00e9ramos crist\u00e3os. Minha mulher respondeu que o padre Fa Tutto era um atrevido, e o papa se p\u00f4s a rir com redobrado gosto. Beijou duas vezes a minha mulher, e a mim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Em seguida nos mandou sentar ao lado do seu banquinho de beija-p\u00e9. Perguntou-nos como se praticava o amor em Benares, em que idade casavam geralmente as mo\u00e7as, se o grande Brama possu\u00eda um serralho. Minha mulher corava; eu respondia com respeitoso recato. Depois nos despediu, recomendando-nos o cristianismo, beijando-nos, e dando-nos palmadinhas nas n\u00e1degas, em sinal de benevol\u00eancia. Encontramos, na sa\u00edda, os padres Fa Tutto e Fa Molto, que nos beijaram a f\u00edmbria das vestes. O primeiro impulso, que vem sempre da alma, fez-nos a princ\u00edpio recuar de horror. Mas o de roxo nos disse:<br \/>\n\u2014 Bem se v\u00ea que os amigos Amabed e Adate ainda n\u00e3o completaram a sua educa\u00e7\u00e3o: \u00e9 dever essencial neste pa\u00eds beijar os nossos maiores inimigos; na primeira oportunidade mandem envenen\u00e1-los, se puderem; mas, enquanto isto, n\u00e3o deixem de lhes demonstrar a mais profunda amizade.<\/p>\n<p>Beijei-os, pois, mas Encanto dos Olhos fez-lhes uma sauda\u00e7\u00e3o muito seca, e Fa Tutto fitava-a com o rabo do olho, inclinando-se at\u00e9 o ch\u00e3o diante dela. Um verdadeiro encantamento, tudo isto. Passamos os dias a espantar-nos. Na verdade duvido que Madura seja mais agrad\u00e1vel do que Roma.<\/p>\n<h4>D\u00c9CIMA-NONA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Nada de castigarem o padre Fa Tutto! Ontem de manh\u00e3 a nossa jovem Dera resolveu ir por curiosidade a um pequeno templo. O povo estava de joelhos. Um br\u00e2mane da terra, magnificamente vestido, curvava-se sobre uma mesa; tinha o traseiro voltado para o p\u00fablico, Dizem que ele fazia Deus. Depois que fez Deus, mostrou-nos a dianteira. Dera soltou um grito e exclamou: \u201cOlhem o patife que me pegou \u00e0 for\u00e7a!\u201d Felizmente, no auge da revolta e da surpresa, ela pronunciou tais palavras em hindu. Asseguram-me, que se a tivessem compreendido, o populacho se lan\u00e7aria a ela como a uma feiticeira. Fa Tutto respondeu-lhe em italiano: \u201cQue a gra\u00e7a da Virgem te acompanhe, minha filha! Fala mais baixo.\u201d<br \/>\nEla veio, desesperada, contar-nos a sua hist\u00f3ria. Nossos amigos nos aconselharam que nunca nos queix\u00e1ssemos. Disseram-nos que Fa Tutto era um santo, e que nunca se devia falar mal dos santos. Que queres tu? O que est\u00e1 feito est\u00e1 feito. Aceitamos pacientemente todas as divers\u00f5es em que nos fazem tomar parte neste pa\u00eds. Cada dia nos ensinam coisas de que nem suspeit\u00e1vamos. As viagens educam muito a gente.<\/p>\n<p>Chegou \u00e0 corte de Le\u00e3o um grande poeta; seu nome \u00e9 messer Ariosto: n\u00e3o gosta de padres; eis como se refere a eles:<br \/>\nNon sa quel che sia amor, non sa che vaglia<br \/>\nLa caritade e quindi avvien che i frati<br \/>\nSono si ingorda e si crudel canaglia (20).<\/p>\n<p>O que quer dizer em hindu:<\/p>\n<p>Modermen sebar eso<br \/>\nLa te ben sofa meso.<\/p>\n<p>Bem v\u00eas que superioridade a l\u00edngua indiana, que \u00e9 t\u00e3o antiga, sempre conservar\u00e1 sobre todos esses recentes jarg\u00f5es da Europa: exprimimos em quatro palavras o que eles, com tanta dificuldade exprimem em dez. Compreendo perfeitamente que esse Ariosto diga que os monges s\u00e3o uma verdadeira canalha, mas n\u00e3o sei por que pretende que eles desconhecem o amor. N\u00f3s que o digamos! Com certeza quer dizer que eles apenas gozam, e n\u00e3o amam.<\/p>\n<h4>VIG\u00c9SIMA CARTA de Amabed<\/h4>\n<p>Faz alguns dias que n\u00e3o te escrevo, meu estimado grande br\u00e2mane. \u00c9 devido \u00e0s solicitudes com que aqui nos honram. O nosso monsenhor ofereceu-nos uma excelente ceia, a que compareceram dois jovens vestidos de vermelho da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Sua dignidade \u00e9 a de cardeal, que \u00e9 como quem diz gonzo de porta. Um \u00e9 o cardeal Sacripante e o outro o cardeal Faquinetti. S\u00e3o os primeiros na terra depois do vice-Deus; de maneira que os intitulam vig\u00e1rios do vig\u00e1rio. O seu direito, sem d\u00favida um direito divino, consiste em serem iguais aos reis e superiores aos pr\u00edncipes, e em possu\u00edrem sobretudo imensas riquezas.<\/p>\n<p>Esses dois gentis-homens, durante a ceia, nos convidaram para passar alguns dias em sua casa de campo, pois cada qual porfia em nos ter consigo. Ap\u00f3s disputarem a prefer\u00eancia o mais divertidamente poss\u00edvel, Faquinetti apoderou-se da bela Adate, sob a condi\u00e7\u00e3o de trocarem de convidados no dia seguinte e de nos reunirmos os quatro no terceiro dia. Dera tamb\u00e9m ia conosco. N\u00e3o sei com que palavras contar-te o que nos aconteceu, mas vou tent\u00e1-lo como melhor puder.<\/p>\n<p>Nota: Aqui termina o manuscrito das Cartas de Amabed Procurou-se em todas as bibliotecas de Madura e Benares a continua\u00e7\u00e3o destas cartas. E seguro que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Assim, no caso de que algum infeliz fals\u00e1rio edite um dia o resto das aventuras dos dois jovens indianos, Novas Cartas de Amabed, Novas Cartas de Encanto dos Olhos, Respostas do Grande Br\u00e2mane Xastasid, pode estar certo o leitor de que o enganam, e de que o aborrecem, como mil vezes tem acontecido em casos tais.<\/p>\n<p><b>NOTAS<\/b><\/p>\n<p>(1) \u2013 Corresponde tal data ao ano 1512 da nossa era vulgar, dois anos depois da tomada de Goa, por Afonso de Albuquerque. Cumpre saber que os br\u00e2manes contavam 111.100 anos desde a rebeli\u00e3o e queda dos seres celestiais 4.552 anos desde a promulga\u00e7\u00e3o do Xasta, seu primeiro livro sagrado; o que dava 115.652 para o ano correspondente ao nosso ano de 1512, tempo em que reinava Babar na Mong\u00f3lia, Ismael Bophi na P\u00e9rsia, Selim na Turquia, Maximiliano I na Alemanha, Lu\u00eds XII na Fran\u00e7a, J\u00falio II em Roma, Joana a Louca na Espanha, Manuel em Portugal.<\/p>\n<p>(2) \u2013 Druga \u00e9 a palavra indiana que significa \u201cvirtude\u201d. \u00c9 representada com dez bra\u00e7os e montada num drag\u00e3o para combater os v\u00edcios, que s\u00e3o a intemperan\u00e7a, a incontin\u00eancia, o furto, o assass\u00ednio, a inj\u00faria, a maledic\u00eancia, a cal\u00fania, a ociosidade, a resist\u00eancia aos pais, a ingratid\u00e3o. Foi essa figura que v\u00e1rios mission\u00e1rios tomaram pelo diabo.<\/p>\n<p>(3) \u2013 V\u00ea-se que Xastasid lera a nossa B\u00edblia em \u00e1rabe, atentando ali na ep\u00edstola de S. Judas, onde com efeito se encontram estas palavras, no vers\u00edculo 6. 0 livro ap\u00f3crifo que jamais existiu \u00e9 o de Enoch, citado por S. Judas no vers\u00edculo 14.<\/p>\n<p>(4) \u2013 \u00c9 a diferen\u00e7a entre os textos hebraico, samaritano e dos Setenta.<\/p>\n<p>(5) \u2013 Bem se v\u00ea que Xastasid fala aqui como br\u00e2mane que n\u00e3o tem o dom da f\u00e9 e a quem foi negada a gra\u00e7a.<\/p>\n<p>(6) \u2013 \u00c9 indubit\u00e1vel que as f\u00e1bulas concernentes a Baco eram muito comuns na Ar\u00e1bia e na Gr\u00e9cia, muito tempo antes de que as na\u00e7\u00f5es fossem informadas se os judeus tinham ou n\u00e3o uma hist\u00f3ria. Josephus confessa at\u00e9 que os judeus sempre conservaram os seus livros ocultos para os povos vizinhos. Baco era venerado no Egito, na Ar\u00e1bia, na Gr\u00e9cia, muito antes que o nome de Mois\u00e9s penetrasse nessas regi\u00f5es. Os antigos versos \u00f3rficos chamam a Baco de Misa ou Mesa. Foi criado na montanha de Nisa, que \u00e9 precisamente o monte Sina. Fugiu em dire\u00e7\u00e3o ao Mar Vermelho; ali reuniu um ex\u00e9rcito e atravessou com ele esse mar, a p\u00e9 enxuto. Fez parar o sol e a lua. Seu c\u00e3o o seguiu em todas as expedi\u00e7\u00f5es, e o nome de Caleb, um dos conquistadores hebreus, significa \u201cc\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os s\u00e1bios muito discutiram e ainda n\u00e3o chegaram a um acordo sobre se Mois\u00e9s \u00e9 anterior a Baco, ou Baco a Mois\u00e9s. Ambos s\u00e3o grandes homens; mas Mois\u00e9s, ao bater um rochedo com a sua vara, s\u00f3 fez sair \u00e1gua, ao passo que Baco, ao bater a terra com o seu tirso, fez sair vinho. Vem dai que todas as can\u00e7\u00f5es de mesa celebram a Baco, n\u00e3o havendo talvez duas can\u00e7\u00f5es em favor de Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>(7) \u2013 Esse Mosasor \u00e9 um dos principais anjos rebeldes que combateram contra o Eterno, como o relata o Autoraxasta, o mais antigo livro dos br\u00e2manes, e onde est\u00e1 provavelmente a origem de todas as guerras dos Tit\u00e3s e de todas as f\u00e1bulas imaginadas depois conforme esse modelo.<\/p>\n<p>(8) \u2013 Ezequiel \u2013 Cap. IV.<\/p>\n<p>(9) \u2013 Oseas \u2013 Cap. I.<\/p>\n<p>(10) \u2013 Ezequiel \u2013 Cap. XVI.<\/p>\n<p>(11) \u2013 Juizes \u2013 Cap. XIX<\/p>\n<p>(12) \u2013 G\u00eanesis \u2013 Cap. XIX.<\/p>\n<p>(13) \u2013 G\u00eanesis \u2013 Cap. XIX.<\/p>\n<p>(14) \u2013 Palavra portuguesa que significa episcopus N\u00e3o est\u00e1 em nenhum dos quatro Evangelhos.<\/p>\n<p>(15) \u2013 Aparentemente quer ele referir-se \u00e2 santa Jerusal\u00e9m descrita no minucioso livro do Apocalipse, em Justino, Tertuliano, Irineu e outros grandes personagens. Mas bem se v\u00ea que esse pobre br\u00e2mane tinha disso uma id\u00e9ia muito imperfeita.<\/p>\n<p>(16) \u2013 Era outrora a porta do Jan\u00edculo, vede como a nova Roma sobrepujou a antiga.<\/p>\n<p>(17) \u2013 Jo\u00e3o VIII, assassinado a martelo por um marido ciumento. Jo\u00e3o X, amante de Teodora, estrangulado no leito da mesma. Est\u00eav\u00e3o VIII, aprisionado no castelo a que chamam hoje de Sto. \u00c2ngelo. Est\u00eav\u00e3o IX, acutilado no rosto pelos romanos. Jo\u00e3o XII, deposto pelo imperador Ot\u00e3o I e assassinado em casa de uma de suas amantes. Benedito V, exilado pelo imperador Ot\u00e3o I Benedito VII, estrangulado pelo bastardo de Jo\u00e3o X. Benedito IX, que comprou, com mais dois outros, o pontificado, e revendeu a sua parte. Etc,, etc, Todos eles eram infal\u00edveis.<\/p>\n<p>(18) \u2013 Mars, Mar\u00e7o, Mars, Marte.<\/p>\n<p>(19) \u2013 Em 1510 o papa J\u00falio II excomungou o rei de Fran\u00e7a Luis XII e interditou o reino de Fran\u00e7a, oferecendo-o ao primeiro que dele se quisesse apoderar, excomunh\u00e3o e interdi\u00e7\u00e3o estas que foram reiteradas em 1512. Custa acreditar hoje em tal excesso de insol\u00eancia e rid\u00edculo Mas, desde Greg\u00f3rio VII, n\u00e3o houve quase nenhum bispo de Roma que n\u00e3o fizesse ou n\u00e3o quisesse fazer e desfazer soberanos, a seu bel-prazer. Os soberanos mereciam todos esse infame tratamento, pois haviam sido bastante imbecis para fortalecerem, eles pr\u00f3prios, em seus s\u00faditos, a convic\u00e7\u00e3o da infalibilidade do papa e do seu poder sobre todas as Igrejas. Eles mesmos \u00e9 que forjavam as pr\u00f3prias cadeias, t\u00e3o dif\u00edceis de quebrar. O governo era por toda parte um caos formado pela supersti\u00e7\u00e3o. S\u00f3 muito tarde penetrou a raz\u00e3o nos povos do Ocidente; curou algumas feridas que fizera essa supersti\u00e7\u00e3o inimiga do g\u00eanero humano, mas ainda restam profundas cicatrizes.<\/p>\n<p>(20) \u2013 N\u00e3o sabe o que \u00e9 o amor, nem o que vale a caridade, e assim acontece que os frades sejam t\u00e3o \u00e1vida e cruel canalha.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte:<\/span> www.ebooksbrasil.org<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltaire Apresenta\u00e7\u00e3o Voltaire \u00e9 surpreendente. Nunca chega ao superficial, seja qual for o texto. \u00c0s vezes \u00e9 mais cuidadoso e profundo, em outras mais leve, mas \u00e9 sempre ele. N\u00e3o se pode dizer o mesmo, por exemplo, de Shakespeare. Macbeth, Romeu e Julieta ou A Megera Domada parecem escritos por pessoas diferentes. 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