{"id":120043,"date":"2017-04-19T10:47:47","date_gmt":"2017-04-19T12:47:47","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120043"},"modified":"2017-04-19T10:47:47","modified_gmt":"2017-04-19T12:47:47","slug":"breves-contos-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/breves-contos-iii","title":{"rendered":"Breves Contos III"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"454\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">O Branco e o Preto<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Jeannot e Colin<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Pot-Pourri<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Voltaire<\/h2>\n<p><strong>Apresenta&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Apresentamos tr&ecirc;s dentre os mais conhecidos contos de Voltaire. S&atilde;o<br \/>\n    textos cr&iacute;ticos mas n&atilde;o t&atilde;o ir&ocirc;nicos e sarc&aacute;sticos<br \/>\n    como os de outras obras. A preocupa&ccedil;&atilde;o maior parece fixar-se<br \/>\n    no estilo, na an&aacute;lise de contradi&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas<br \/>\n    e na prega&ccedil;&atilde;o moral.<\/p>\n<p> Em &#8220;O Branco e o Preto&#8221; Voltaire n&atilde;o se mostra t&atilde;o<br \/>\n    cr&iacute;tico em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s id&eacute;ias e institui&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    O conto vale pelo estilo, que lembra o romance oriental. No conte&uacute;do,<br \/>\n    a discuss&atilde;o principal se refere &agrave;s diferen&ccedil;as e similitudes<br \/>\n    entre o sonho e a realidade.<\/p>\n<p> &#8220;Jeannot e Colin&#8221; &eacute; menos um conto cr&iacute;tico que<br \/>\n    moral. A hist&oacute;ria envolve dois amigos que se separam ap&oacute;s o<br \/>\n    enriquecimento repentino de Jeannot, que a partir de ent&atilde;o despreza<br \/>\n    o antigo companheiro. Mas a fortuna se esvai rapidamente. Colin aceita tornar<br \/>\n    &agrave; antiga amizade, compreendendo que a felicidade est&aacute; no trabalho<br \/>\n    e na generosidade.<\/p>\n<p> &#8220;Pot-pourri&#8221; mostra o Voltaire agressivamente cr&iacute;tico.<br \/>\n    Ataca v&aacute;rias religi&otilde;es e culturas, os fil&oacute;sofos, a gan&acirc;ncia<br \/>\n    e a especula&ccedil;&atilde;o, a vaidade e o ego&iacute;smo.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>N&eacute;lson Jahr Garcia<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">O BRANCO E O PRETO<\/a><\/h4>\n<p> Certamente n&atilde;o h&aacute;, na prov&iacute;ncia de Candahar, quem n&atilde;o<br \/>\n    conhe&ccedil;a a aventura do jovem Rustan. Era filho &uacute;nico de um mirza,<br \/>\n    t&iacute;tulo este que corresponde a marqu&ecirc;s entre n&oacute;s, ou a<br \/>\n    bar&atilde;o entre os alem&atilde;es. O mirza seu pai era possuidor de uma<br \/>\n    bela fortuna honestamente adquirida. Deviam casar o jovem Rustan com uma.<br \/>\n    dama, ou mirzesa, da sua categoria. As duas fam&iacute;lias o desejavam ardentemente.<br \/>\n    Devia ele constituir o consolo dos pais, tornar a sua esposa feliz, e o ser<br \/>\n    com ela.<\/p>\n<p> Mas, por infelicidade, vira a princesa de Caxemira na feira de Cabul, que<br \/>\n    &eacute; a feira mais importante do mundo, e incomparavelmente mais freq&uuml;entada<br \/>\n    que as de Ba&ccedil;or&aacute; e Astrac&atilde;. E eis agora por que o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    de Caxemira comparecera &agrave; feira com a sua filha.<\/p>\n<p> Perdera ele as duas mais raras pe&ccedil;as de seu tesouro: uma era um diamante<br \/>\n    do tamanho de um polegar e no qual fora gravada a ef&iacute;gie de sua filha,<br \/>\n    com uma arte que os hindus possu&iacute;am ent&atilde;o e que depois se perdeu;<br \/>\n    a outra era uma azagaia que ia por si pr&oacute;pria aonde a gente o desejava,<br \/>\n    coisa n&atilde;o muito extraordin&aacute;ria entre n&oacute;s, mas que o era<br \/>\n    em Caxemira.<\/p>\n<p> Um faquir de Sua Alteza lhe roubara essas duas preciosidades e as entregara<br \/>\n    &agrave; princesa. &#8220;Guardai cuidadosamente estes dois objetos &#8211;<br \/>\n    disse-lhe ele. &#8211; Deles depende o vosso destino&#8221;. Partiu ent&atilde;o,<br \/>\n    e nunca mais o tornaram a ver. O duque de Caxemira, desesperado, e ignorando<br \/>\n    que ambas as coisas se achavam em poder da filha, resolveu ir &agrave; feira<br \/>\n    de Cabul, para ver se entre os mercadores que ali acorriam dos quatro cantos<br \/>\n    do mundo, n&atilde;o haveria algum que tivesse o seu diamante e a sua arma.<br \/>\n    Levava a filha consigo em todas as viagens que fazia. Trazia esta o diamante<br \/>\n    bem escondido no cinto; quanto &agrave; azagaia, que n&atilde;o podia ocultar<br \/>\n    t&atilde;o bem, encerrara-a cuidadosamente em Caxemira, no seu grande cofre<br \/>\n    chin&ecirc;s.<\/p>\n<p> Rustan e ela viram-se em Cabul; amaram-se com toda a boa-f&eacute; da sua<br \/>\n    idade e toda a ternura da sua terra. A princesa, em penhor de seu afeto, lhe<br \/>\n    deu o diamante, e Rustan, &agrave; despedida, prometeu ir v&ecirc;-la secretamente<br \/>\n    em Caxemira.<\/p>\n<p> Tinha o jovem mirza dois favoritos que lhe serviam de secret&aacute;rios,<br \/>\n    escudeiros, mordomos e criados de quarto. Um chamava-se Top&aacute;zio; era<br \/>\n    belo, bem feito, branco como uma circassiana, d&oacute;cil e servi&ccedil;al<br \/>\n    como um arm&ecirc;nio, s&aacute;bio como um guebro. O outro chamava-se &Eacute;bano;<br \/>\n    era um negro bastante bonito, mais ativo, mais industrioso que Top&aacute;zio,<br \/>\n    e que n&atilde;o achava nada dif&iacute;cil. Comunicou-lhes o seu projeto<br \/>\n    de viagem. Top&aacute;zio procurou dissuadi-lo com o zelo circunspecto de<br \/>\n    um servo que n&atilde;o queria desagradar-lhe; fez-lhe ver tudo o que arriscava.<br \/>\n    Como deixar duas fam&iacute;lias em desespero? Como cravar um punhal no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de seus pais? Chegou a abalar Rustan; mas &Eacute;bano o encorajou e varreu-lhe<br \/>\n    todos os escr&uacute;pulos.<\/p>\n<p> &#8212; Mas faltava-lhe dinheiro para t&atilde;o longa viagem. O s&aacute;bio<br \/>\n    Top&aacute;zio n&atilde;o faria com que lho emprestassem; &Eacute;bano o conseguiu.<br \/>\n    Sem que o patr&atilde;o o soubesse, apoderou-se do diamante e mandou fazer<br \/>\n    uma imita&ccedil;&atilde;o, que p&ocirc;s no seu lugar, empenhando o verdadeiro<br \/>\n    a um arm&ecirc;nio, por alguns milhares de r&uacute;pias.<\/p>\n<p> Quando o marqu&ecirc;s se viu de posse das suas r&uacute;pias, tudo ficou<br \/>\n    pronto para a partida. Carregaram um elefante com a bagagem; montaram a cavalo.<br \/>\n    Top&aacute;zio disse ao amo: &#8220;Tomei a liberdade de fazer algumas cr&iacute;ticas<br \/>\n    &agrave; sua empresa; mas, depois de criticar, cumpre-me obedecer; perten&ccedil;o-lhe,<br \/>\n    estimo-o, hei de segui-lo at&eacute; o fim do mundo; mas consultemos em caminho<br \/>\n    o or&aacute;culo que fica a duas parasangas daqui&#8221;. Rustan consentiu,<br \/>\n    O or&aacute;culo respondeu: se fores ao oriente, estar&aacute;s no ocidente.<br \/>\n    Rustan n&atilde;o compreendeu coisa alguma dessa resposta. Top&aacute;zio<br \/>\n    sustentou que n&atilde;o augurava nada de bom, &Eacute;bano, sempre complacente,<br \/>\n    persuadiu-o de que ela era bastante favor&aacute;vel.<\/p>\n<p> Havia ainda um outro or&aacute;culo em Cabul; foram tamb&eacute;m consult&aacute;-lo.<br \/>\n    O or&aacute;culo de Cabul respondeu nestes termos: Se possuis, n&atilde;o<br \/>\n    possuir&aacute;s; se &eacute;s vencedor, n&atilde;o vencer&aacute;s; se &eacute;s<br \/>\n    Rustan, n&atilde;o o ser&aacute;s. Esse or&aacute;culo afigurou-se-lhes ainda<br \/>\n    mais inintelig&iacute;vel que o outro. &#8211; Cuidado! &#8211; advertia-lhe<br \/>\n    Top&aacute;zio. Nada tema &#8211; dizia &#8211; &Eacute;bano, e este ministro,<br \/>\n    como era de prever, tinha sempre raz&atilde;o perante o amo, a quem estimulava<br \/>\n    a paix&atilde;o e a esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Deixando Cabul, internaram-se por uma grande floresta; sentaram-se na relva<br \/>\n    para comer, soltando os cavalos no pasto. Preparavam-se para descarregar o<br \/>\n    elefante que trazia os v&iacute;veres e o servi&ccedil;o, quando perceberam<br \/>\n    que Top&aacute;zio e &Eacute;bano n&atilde;o mais se achavam com a pequena<br \/>\n    caravana. Chamam-nos; reboa a floresta com os nomes de &Eacute;bano e Top&aacute;zio.<br \/>\n    Os criados procuram-nos por todas as dire&ccedil;&otilde;es e enchem a floresta<br \/>\n    com os seus gritos; voltam sem nada ter visto, sem que ningu&eacute;m lhes<br \/>\n    tenha respondido. &#8220;Apenas encontramos &#8211; disseram a Rustan &#8211;<br \/>\n    um abutre que se batia com uma &aacute;guia e que lhe arrancava todas as penas.&#8221;<br \/>\n    A narrativa desse combate espica&ccedil;ou a curiosidade de Rustan; dirigiu-se<br \/>\n    a p&eacute; at&eacute; o local; n&atilde;o avistou nem abutre nem &aacute;guia,<br \/>\n    mas viu o seu elefante, ainda com a carga, que era assaltado por um grande<br \/>\n    rinoceronte. Um investia com o chifre, o outro com a tromba. O rinoceronte,<br \/>\n    &agrave; vista de Rustan, abandonou a presa; recolheram o elefante, mas n&atilde;o<br \/>\n    puderam encontrar os cavalos. &#8220;Estranhas coisas acontecem quando se<br \/>\n    viaja pela floresta!&#8221; &#8211; exclamava Rustan. Os servos estavam consternados,<br \/>\n    e o amo em desespero, por haver perdido ao mesmo tempo os seus cavalos, o<br \/>\n    seu caro negro e o s&aacute;bio Top&aacute;zio, ao qual tinha grande amizade,<br \/>\n    embora este nunca fosse da sua opini&atilde;o.<\/p>\n<p> Consolava-se na esperan&ccedil;a de em breve se ver aos p&eacute;s da bela<br \/>\n    princesa de Caxemira, quando encontrou um grande asno malhado, a que um vigoroso<br \/>\n    e brutal camp&ocirc;nio enchia de pauladas. Nada mais belo, nem mais raro,<br \/>\n    nem mais veloz na corrida do que os asnos dessa esp&eacute;cie. Aos golpes<br \/>\n    do vil&atilde;o, respondia o asno a coices capazes de arrancar um carvalho.<br \/>\n    O jovem mirza tomou, como de raz&atilde;o, o partido do asno, que era uma<br \/>\n    criatura encantadora. O camp&ocirc;nio fugiu, dizendo ao asno: &#8220;Tu me<br \/>\n    pagar&aacute;s&#8221;. O asno agradeceu ao libertador na sua linguagem, aproximou-se,<br \/>\n    deixou-se acariciar, acariciou. Depois da refei&ccedil;&atilde;o, Rustan monta<br \/>\n    no asno e encaminha-se para Caxemira com os seus criados, que seguem, uns<br \/>\n    a p&eacute;, outros montados no elefante.<\/p>\n<p> Mal se havia ele acomodado no lombo do asno, quando este animal se volta<br \/>\n    na dire&ccedil;&atilde;o de Cabul, em vez de seguir o rumo de Caxemira. Por<br \/>\n    mais que o cavaleiro torcesse a r&eacute;dea e apertasse os joelhos, por mais<br \/>\n    que o sofreasse, por mais que lhe metesse o relho e as esporas, o teimoso<br \/>\n    animal corria sempre direito a Cabul.<\/p>\n<p> Rustan suava, debatia-se, exasperava-se, quando encontrou um vendedor de<br \/>\n    camelos que lhe disse: &#8220;Bastante velhaco &eacute; este seu burro, que<br \/>\n    o leva aonde o senhor n&atilde;o pretende ir; n&atilde;o quer troc&aacute;-lo<br \/>\n    por quatro de meus camelos, &agrave; escolha?&#8221; <br \/>\n    Rustan agradeceu &agrave; Provid&ecirc;ncia, por lhe haver deparado t&atilde;o<br \/>\n    bom neg&oacute;cio. &#8220;Muito enganado estava Top&aacute;zio &#8211; pensava<br \/>\n    ele &#8211; em me dizer que a minha viagem n&atilde;o seria feliz&#8221;.<br \/>\n    Monta no melhor camelo, os tr&ecirc;s outros o seguem; alcan&ccedil;a a sua<br \/>\n    caravana, e v&ecirc;-se a caminho da felicidade.<\/p>\n<p> Mal andara quatro parasangas, quando &eacute; detido por uma torrente profunda,<br \/>\n    larga e impetuosa, que rolava de rochedos brancos de espuma. As duas margens<br \/>\n    eram horr&iacute;veis precip&iacute;cios, que turbavam a vista e gelavam o<br \/>\n    sangue; nenhum meio de atravessar, nenhum meio de tomar pela direita ou pela<br \/>\n    esquerda. &#8220;Come&ccedil;o a temer &#8211; disse Rustan &#8211; que Top&aacute;zio<br \/>\n    tivesse raz&atilde;o em censurar minha viagem, e que eu tenha feito muito<br \/>\n    mal em partir; se ao menos ele estivesse aqui, poderia dar-me alguns bons<br \/>\n    conselhos. Se aqui estivesse &Eacute;bano, haveria de consolar-me e encontraria<br \/>\n    algum expediente; mas tudo me falha&#8221;. Seu embara&ccedil;o era aumentado<br \/>\n    pela consterna&ccedil;&atilde;o da caravana: a noite era sem estrelas, passaram-na<br \/>\n    a lamentar-se. Afinal a fadiga e o abatimento adormeceram o enamorado viajante.<br \/>\n    Desperta ao raiar do dia e v&ecirc; uma bela ponte de m&aacute;rmore erguida<br \/>\n    sobre a torrente, de uma margem &agrave; outra.<\/p>\n<p> E foram exclama&ccedil;&otilde;es, gritos de espanto e de alegria. &#8220;Ser&aacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel? N&atilde;o ser&aacute; um sonho? Que prod&iacute;gio! Que<br \/>\n    encantamento! Teremos coragem de passar?&#8221; Todo o bando se punha de joelhos,<br \/>\n    erguia-se, dirigia-se &agrave; ponte, beijava a terra, olhava o c&eacute;u,<br \/>\n    estendia as m&atilde;os, avan&ccedil;ava o p&eacute; a tremer, voltava, extasiava-se;<br \/>\n    e Rustan murmurava: &#8220;Sem d&uacute;vida o C&eacute;u me favorece; Top&aacute;zio<br \/>\n    n&atilde;o sabia o que dizia; os or&aacute;culos eram em meu favor; &Eacute;bano<br \/>\n    tinha raz&atilde;o; mas por que n&atilde;o est&aacute; ele aqui?&#8221; <br \/>\n    Mal a caravana atravessou a torrente, eis que a ponte se abisma nas &aacute;guas<br \/>\n    com terr&iacute;vel fragor. &#8220;Tanto melhor! Tanto melhor! &#8211; exclamou<br \/>\n    Rustan. &#8211; Louvado seja Deus! Ele n&atilde;o quer que eu volte para a<br \/>\n    minha terra, onde n&atilde;o passaria de simples gentil-homem; quer que eu<br \/>\n    despose aquela a quem amo. Serei pr&iacute;ncipe de Caxemira; &eacute; assim<br \/>\n    que, possuindo a minha amada, n&atilde;o possuirei o meu pequeno marquesado<br \/>\n    de Candahar. Serei Rustan, e n&atilde;o o serei, visto que vou tornar-me um<br \/>\n    grande pr&iacute;ncipe: eis a&iacute;, claramente explicada em meu favor,<br \/>\n    grande parte do or&aacute;culo, o resto se explicar&aacute; por si mesmo;<br \/>\n    hei de ser muito feliz. Mas por que n&atilde;o se acha &Eacute;bano comigo?<br \/>\n    Lamento-o muito mais do que a Top&aacute;zio&#8221;.<\/p>\n<p> Avan&ccedil;ou mais algumas parasangas na maior alegria; mas, ao escurecer,<br \/>\n    uma cadeia de montanhas mais abruptas que uma contra-escarpa e mais altas<br \/>\n    do que o seria a torre de Babel, se a tivessem conclu&iacute;do, barrou inteiramente<br \/>\n    a caravana transida de medo.<\/p>\n<p> &#8220;Deus quer que pere&ccedil;amos aqui &#8211; exclamavam todos. &#8211;<br \/>\n    Ele s&oacute; afundou a ponte para nos tirar toda esperan&ccedil;a de regresso;<br \/>\n    e ergueu a montanha para nos privar de qualquer meio de seguir avante. &Oacute;<br \/>\n    Rustan! &oacute; infeliz marqu&ecirc;s! jamais veremos Caxemira, nunca mais<br \/>\n    regressaremos &agrave; terra de Candahar&#8221;. A mais cruciante dor, o mais<br \/>\n    pesado abatimento, sucediam-se, na alma de Rustan, &agrave; imoderada alegria<br \/>\n    que sentira, &agrave;s esperan&ccedil;as com que se embriagara. Bem longe<br \/>\n    estava agora de interpretar as profecias em seu favor. &#8220;&Oacute; C&eacute;us!<br \/>\n    &oacute; Deus bondoso! Para que fui perder meu amigo Top&aacute;zio?!&#8221;<br \/>\n    <br \/>\n    Como pronunciasse tais palavras, soltando profundos suspiros e derramando<br \/>\n    l&aacute;grimas, em meio da comitiva em desespero, eis que se fende a base<br \/>\n    da montanha, e um longo t&uacute;nel, alumiado de cem mil archotes, se lhes<br \/>\n    apresenta &agrave;s vistas ofuscadas. E Rustan a exclamar, e sua gente a cair<br \/>\n    de joelhos, a tombar de espanto, a proclamar milagre! E a dizer: &#8220;Rustan<br \/>\n    &eacute; o favorito de Vixnu, o bem-amado de Brama; ser&aacute; o senhor do<br \/>\n    mundo&#8221;. Rustan o acreditava, estava fora de si, erguido acima de si<br \/>\n    mesmo. &#8220;Ah! &Eacute;bano, meu querido &Eacute;bano! Onde est&aacute;s,<br \/>\n    que n&atilde;o vens testemunhar estas maravilhas? Como te fui perder? E quando,<br \/>\n    bela princesa de Caxemira, quando tornarei a ver os teus encantos?&#8221;<br \/>\n    <br \/>\n    Avan&ccedil;a, com os seus criados, com o seu elefante, com o seu camelo,<br \/>\n    por debaixo da ab&oacute;bada da montanha, ao fim da qual penetra em um vale<br \/>\n    esmaltado de flores e bordado de arroios; e al&eacute;m do prado, alamedas<br \/>\n    a perder de vista; e al&eacute;m das alamedas, um rio, a cujas margens se<br \/>\n    erguem mil casas de recreio, com deliciosos jardins. Ouve, por toda parte,<br \/>\n    cantos e instrumentos; v&ecirc; gente dan&ccedil;ando; apressa-se em atravessar<br \/>\n    uma das pontes; indaga ao primeiro que lindo pa&iacute;s seria aquele.<\/p>\n<p> Aquele a quem se dirigia respondeu-lhe: &#8220;Esta &eacute; a prov&iacute;ncia<br \/>\n    de Caxemira; os habitantes entregam-se agora &agrave; alegria e aos folguedos,<br \/>\n    celebrando as n&uacute;pcias da nossa bela princesa, que vai casar-se com<br \/>\n    o senhor Barbabu, a quem o pai a prometeu; que Deus lhes perpetue a felicidade.&#8221;<br \/>\n    <br \/>\n    A estas palavras Rustan tombou desfalecido, e o senhor de Caxemira julgou-o<br \/>\n    sujeito a ataques epil&eacute;pticos; mandou lev&aacute;-lo para sua casa,<br \/>\n    onde se conservou por muito tempo sem sentidos. Mandou chamar os dois m&eacute;dicos<br \/>\n    mais h&aacute;beis do cant&atilde;o; tomaram o pulso ao doente que, tendo-se<br \/>\n    refeito um pouco, lan&ccedil;ava solu&ccedil;os e revirava os olhos, exclamando<br \/>\n    de tempos em tempos: &#8220;Top&aacute;zio, Top&aacute;zio, tu tinhas raz&atilde;o!&#8221;<br \/>\n    <br \/>\n    Um dos m&eacute;dicos disse ao senhor de Caxemira: &#8220;Vejo, pelo seu sotaque,<br \/>\n    que &eacute; um jovem de Candahar, a quem este clima n&atilde;o conv&eacute;m;<br \/>\n    deixe-o comigo, que o levarei de volta &agrave; sua p&aacute;tria e o curarei&#8221;.<br \/>\n    Assegurou o outro m&eacute;dico que Rustan s&oacute; estava doente de desgosto,<br \/>\n    que deviam lev&aacute;-lo &agrave;s n&uacute;pcias da princesa e faz&ecirc;-lo<br \/>\n    dan&ccedil;ar; os dois m&eacute;dicos foram dispensados e Rustan ficou a s&oacute;s<br \/>\n    com o seu h&oacute;spede.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor &#8211; lhe disse ele, &#8211; pe&ccedil;o-lhe perd&atilde;o<br \/>\n    por haver desmaiado na sua presen&ccedil;a, sei que isso n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    nada polido;, queira aceitar meu elefante como prova de reconhecimento pela<br \/>\n    bondade com que me honrou.<\/p>\n<p> Contou-lhe em seguida todas as suas aventuras, evitando referir-se ao objetivo<br \/>\n    da viagem.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &#8211; indagou ele, &#8211; em nome de Vixnu e Brama, diga-me<br \/>\n    quem &eacute; esse feliz Barbabu que desposa a princesa de Caxemira, por que<br \/>\n    seu pai escolheu para genro e por que a princesa o aceitou como esposo? <br \/>\n    &#8212; Senhor, a princesa absolutamente n&atilde;o aceitou Barbabu: pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio, est&aacute; em pranto, enquanto toda a prov&iacute;ncia<br \/>\n    celebra com alegria o seu casamento; encerrou-se na torre do pal&aacute;cio;<br \/>\n    n&atilde;o quer assistir a nenhum dos festejos que fazem em sua honra.<\/p>\n<p> Rustan, ao ouvir essas palavras, sentiu-se renascer; o brilho de suas cores,<br \/>\n    que a dor fanara, reapareceu-lhe nas faces.<\/p>\n<p> &#8212; Queira dizer-me &#8211; continuou ele &#8211; por que o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    de Caxemira se obstina em dar sua filha a um Barbabu a quem ela detesta? <br \/>\n    &#8212; N&atilde;o sabia o senhor que o nosso augusto pr&iacute;ncipe perdera<br \/>\n    um valioso diamante e uma azagaia de grande estima&ccedil;&atilde;o? <br \/>\n    &#8212; Ah! bem o sei.<\/p>\n<p> &#8212; Pois saiba que o nosso pr&iacute;ncipe, desesperado por n&atilde;o<br \/>\n    ter not&iacute;cias dessas preciosidades, depois de as ter mandado procurar<br \/>\n    por toda a terra, prometeu a m&atilde;o da filha a quem lhe trouxesse qualquer<br \/>\n    um dos dois objetos. Apareceu um senhor Barbabu, munido do diamante, e amanh&atilde;<br \/>\n    vai casar com a princesa.<\/p>\n<p> Rustan empalideceu, gaguejou um cumprimento, despediu-se, e correu de dromed&aacute;rio<br \/>\n    &agrave; capital, onde deveria realizar-se a cerim&ocirc;nia. Chega ao pal&aacute;cio<br \/>\n    do pr&iacute;ncipe; alega que tem coisas important&iacute;ssimas para lhe<br \/>\n    comunicar; pede uma audi&ecirc;ncia; respondem que &#8211; o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    est&aacute; ocupado nos preparativos do casamento.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; por isso mesmo que quero falar-lhe.<\/p>\n<p> E tanto instou que foi introduzido.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor &#8211; diz ele ao pr&iacute;ncipe, &#8211; que Deus coroe<br \/>\n    todos os vossos dias de gl&oacute;ria e magnific&ecirc;ncia! O vosso genro<br \/>\n    &eacute; um trapaceiro.<\/p>\n<p> &#8212; Como! um trapaceiro? Atreve-se a diz&ecirc;-lo? E assim que se fala<br \/>\n    a um duque de Caxemira do genro que ele escolheu? <br \/>\n    &#8212; Sim, um trapaceiro. E para o provar a Vossa Alteza, &eacute; que trago<br \/>\n    aqui vosso diamante.<\/p>\n<p> O duque, espantado, confrontou os dois diamantes e, como n&atilde;o entendia<br \/>\n    de pedras preciosas, n&atilde;o pode decidir qual fosse o verdadeiro. &#8220;Aqui<br \/>\n    est&atilde;o dois diamantes &#8211; disse ele &#8211; e s&oacute; tenho uma<br \/>\n    filha: eis-me num estranho embara&ccedil;o!&#8221; Mandou chamar Barbabu e<br \/>\n    perguntou-lhe se n&atilde;o o havia enganado. Barbabu jurou que comprara o<br \/>\n    seu diamante a um arm&ecirc;nio; o outro n&atilde;o dizia de quem houvera<br \/>\n    o seu, mas prop&ocirc;s um expediente: que aprouvesse a Sua Alteza faz&ecirc;-lo<br \/>\n    combater em seguida contra o rival.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o basta que vosso genro d&ecirc; um diamante &#8211; dizia<br \/>\n    ele, &#8211; &eacute; preciso que tamb&eacute;m d&ecirc; provas de valor.<br \/>\n    N&atilde;o achais bem que aquele que matar o outro despose a princesa? <br \/>\n    &#8212; Espl&ecirc;ndido &#8211; respondeu o pr&iacute;ncipe, &#8211; ser&aacute;<br \/>\n    um belo espet&aacute;culo para a Corte: batei-vos depressa os dois; o vencedor<br \/>\n    tomar&aacute; as armas do vencido, segundo o costume de Caxemira, e desposar&aacute;<br \/>\n    minha filha.<\/p>\n<p> Os dois pretendentes desceram logo &agrave; pista. Havia na escada uma pega<br \/>\n    e um corvo. O corvo gritava: &#8220;Batam-se, batam-se&#8221;; e a pega: &#8220;N&atilde;o<br \/>\n    se batam&#8221;. O que fez rir ao pr&iacute;ncipe; os dois rivais, mal lhes<br \/>\n    deram aten&ccedil;&atilde;o, iniciaram o combate; todos os cortes&atilde;os<br \/>\n    formavam circulo em torno deles. A princesa, sempre encerrada na torre, n&atilde;o<br \/>\n    quis assistir ao espet&aacute;culo; longe estava de imaginar que o seu apaixonado<br \/>\n    se achava em Caxemira, e tinha tamanho horror a Barbabu que nada queria ver.<br \/>\n    O combate desenvolveu-se o melhor poss&iacute;vel; Barbabu foi logo morto<br \/>\n    e o povo sentiu-se encantado, pois que Barbabu era feio e Rustan muito bonito:<br \/>\n    &eacute; o que decide quase sempre do favor p&uacute;blico.<\/p>\n<p> O vencedor vestiu a cota de malha, a charpa e o capacete do vencido e foi,<br \/>\n    ao som das fanfarras e seguido de toda a Corte, apresentar-se sob as janelas<br \/>\n    da bem-amada. &#8220;Bela princesa &#8211; gritavam todos, &#8211; vinde ver<br \/>\n    vosso belo marido que matou seu feio rival&#8221;. As aias repetiam tais palavras.<\/p>\n<p> A princesa, por desgra&ccedil;a, p&ocirc;s a cabe&ccedil;a &agrave; janela<br \/>\n    e, avistando a armadura do homem a quem abominava, correu desesperada ao cofre<br \/>\n    chin&ecirc;s e retirou a azagaia fatal, que foi ferir o seu querido Rustan<br \/>\n    na fenda da coura&ccedil;a; este lan&ccedil;a um grito e nesse grito a princesa<br \/>\n    julga reconhecer a voz de seu infeliz amado.<\/p>\n<p> Desce desgrenhada, com a morte nos olhos e no cora&ccedil;&atilde;o. Rustan,<br \/>\n    coberto de sangue, jazia tombado nos bra&ccedil;os do rei. Ela o v&ecirc;:<br \/>\n    &oacute; momento! &oacute; espet&aacute;culo, &oacute; reconhecimento, de<br \/>\n    que se n&atilde;o pode exprimir nem a ang&uacute;stia, nem a ternura, nem<br \/>\n    o horror! Lan&ccedil;a-se a ele, beija-o. &#8220;Tu recebes &#8211; lhe diz<br \/>\n    ela &#8211; os primeiros e os &uacute;ltimos beijos da tua amada e da tua<br \/>\n    assassina&#8221;. Retira o dardo da ferida, mergulha-o no pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e expira sobre aquele a quem adora. O pai, fora de si, alucinado, pronto a<br \/>\n    morrer com ela, tenta em v&atilde;o cham&aacute;-la &agrave; vida; a pobre<br \/>\n    n&atilde;o mais existia; ele amaldi&ccedil;oa aquele dardo fatal, quebra-o<br \/>\n    em peda&ccedil;os, lan&ccedil;a ao longe aqueles dois diamantes funestos;<br \/>\n    e, enquanto preparam os funerais da filha em vez de seu casamento, manda transportar<br \/>\n    para o pal&aacute;cio Rustan ensang&uuml;entado, que tinha ainda uns restos<br \/>\n    de vida. Colocam-no em um leito. A primeira coisa que v&ecirc; aos dois lados<br \/>\n    daquele leito de morte, &eacute; Top&aacute;zio e &Eacute;bano. A surpresa<br \/>\n    lhe devolve um pouco as for&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! cru&eacute;is &#8211; diz ele, &#8211; por que me abandonastes?<br \/>\n    Talvez a princesa ainda vivesse, se estiv&eacute;sseis perto do infeliz Rustan.<\/p>\n<p> &#8212; Eu nunca vos abandonei um &uacute;nico instante &#8211; diz Top&aacute;zio.<\/p>\n<p> &#8212; Sempre estive perto de v&oacute;s &#8211; afirma &Eacute;bano.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! que dizeis? Por que insultar meus &uacute;ltimos momentos? &#8211;<br \/>\n    lhes diz Rustan com voz d&eacute;bil.<\/p>\n<p> &#8212; Podeis acreditar-me &#8211; diz Top&aacute;zio, &#8211; bem sabeis<br \/>\n    que nunca aprovei essa fatal viagem, de que previa as horr&iacute;veis conseq&uuml;&ecirc;ncias.<br \/>\n    Era eu a &aacute;guia que lutou com o abutre; era eu o elefante que se sumiu<br \/>\n    com a bagagem, para for&ccedil;ar-vos a voltar &agrave; p&aacute;tria; era<br \/>\n    eu o asno malhado que vos reconduzia para a casa paterna; fui eu quem dispersou<br \/>\n    vossos cavalos; fui eu quem formou a torrente que vos impedia a passagem;<br \/>\n    fui eu quem ergueu a montanha que vos fechava um caminho t&atilde;o funesto;<br \/>\n    era eu o m&eacute;dico que vos aconselhava o clima natal; era eu a pega que<br \/>\n    vos gritava que combat&ecirc;sseis.<\/p>\n<p> &#8212; E eu &#8211; diz &Eacute;bano, &#8211; eu era o abutre que lutou<br \/>\n    com a &aacute;guia, eu era o rinoceronte que dava chifradas no elefante, o<br \/>\n    vil&atilde;o que castigava o asno malhado, o mercador que vos cedia camelos<br \/>\n    para a vossa perda; constru&iacute; a ponte sobre a qual passastes; cavei<br \/>\n    a galeria que atravessastes; sou o m&eacute;dico que vos animava a seguir,<br \/>\n    o corvo que vos gritava que combat&ecirc;sseis.<\/p>\n<p> &#8212;.Lembra-te dos or&aacute;culos &#8211; diz Top&aacute;zio. &#8211;<br \/>\n    Se vais ao oriente, estar&aacute;, no ocidente.<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; confirma &Eacute;bano, &#8211; aqui enterram os mortos<br \/>\n    com o rosto voltado para o ocidente. O or&aacute;culo era claro. Como n&atilde;o<br \/>\n    o compreendeste? Tu possu&iacute;as, e n&atilde;o possu&iacute;as: pois tinhas<br \/>\n    o diamante, mas era falso, e o ignoravas. &Eacute;s vencedor e morres; &eacute;s<br \/>\n    Rustan e deixas de o ser; tudo foi cumprido.<\/p>\n<p> Enquanto assim falava, quatro asas brancas cobriram o corpo de Top&aacute;zio,<br \/>\n    e quatro asas negras o de &Eacute;bano.<\/p>\n<p> &#8212; Que vejo?! &#8211; exclamou Rustan.<\/p>\n<p> Top&aacute;zio e &Eacute;bano responderam juntos: <br \/>\n    &#8212; Tu v&ecirc;s os teus dois g&ecirc;nios.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! &#8211; gemeu o infeliz Rustan. &#8211; Para que vos metestes<br \/>\n    nisso? E para que dois g&ecirc;nios para um pobre homem? <br \/>\n    &#8212; &Eacute; a lei &#8211; sentenciou Top&aacute;zio. &#8211; Cada homem<br \/>\n    tem os seus dois g&ecirc;nios, foi Plat&atilde;o quem primeiro o disse, e<br \/>\n    outros depois o repetiram; bem v&ecirc;s que nada &eacute; mais verdadeiro:<br \/>\n    eu, que te falo, sou o teu bom g&ecirc;nio, e o meu encargo era velar por<br \/>\n    ti at&eacute; o &uacute;ltimo instante da tua vida; desempenhei fielmente<br \/>\n    o meu papel <br \/>\n    &#8212; Mas &#8211; disse o moribundo, &#8211; se a tua fun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era servir-me, sou pois de uma natureza muito superior &agrave; tua; e depois,<br \/>\n    como ousas afirmar que &eacute;s o meu bom g&ecirc;nio, quando deixaste me<br \/>\n    enganarem em tudo o que empreendo; e nos deixas morrer miseravelmente, a mim<br \/>\n    e &agrave; minha bem-amada? <br \/>\n    &#8212; Era o teu destino &#8211; disse Top&aacute;zio.<\/p>\n<p> &#8212; Se &eacute; o destino que faz tudo &#8211; observou o moribundo,<br \/>\n    para que serve ent&atilde;o meu g&ecirc;nio? E tu, &Eacute;bano,- com as tuas<br \/>\n    quatro asas negras, &eacute;s, pelo que se v&ecirc;, o meu g&ecirc;nio mau?<br \/>\n    <br \/>\n    &#8212; Tu o disseste &#8211; respondeu &Eacute;bano.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o eras tamb&eacute;m o g&ecirc;nio mau da minha princesa?<br \/>\n    <br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, a princesa tinha o seu, e eu secundei-o perfeitamente.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! maldito &Eacute;bano, se &eacute;s t&atilde;o mau assim, n&atilde;o<br \/>\n    pertences ent&atilde;o ao mesmo senhor que Top&aacute;zio? S&atilde;o ambos<br \/>\n    formados por dois princ&iacute;pios diferentes, dos quais um &eacute; bom<br \/>\n    e o outro mau por natureza? <br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &eacute; uma conseq&uuml;&ecirc;ncia &#8211; disse &Eacute;bano,<br \/>\n    &#8211; mas &eacute; uma grande dificuldade.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, tornou o moribundo, que um<br \/>\n    ser favor&aacute;vel tenha criado um g&ecirc;nio t&atilde;o funesto.<\/p>\n<p> &#8212; Poss&iacute;vel ou n&atilde;o &#8211; retrucou &Eacute;bano, &#8211;<br \/>\n    a coisa &eacute; como te digo.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! meu pobre amigo &#8211; interrompeu Top&aacute;zio, &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o v&ecirc;s que esse velhaco tem ainda a mal&iacute;cia de te fazer<br \/>\n    discutir, para assanhar teu sangue e precipitar a hora da tua morte? <br \/>\n    &#8212; Vai-te, n&atilde;o estou mais contente contigo do que com ele &#8211;<br \/>\n    diz o triste Rustan. &#8211; Ele ao menos confessa que me quis fazer mal;<br \/>\n    e tu, que pretendias defender-me, n&atilde;o me serviste de nada.<\/p>\n<p> &#8212; Sinto-o muito &#8211; desculpou-se o bom g&ecirc;nio.<\/p>\n<p> &#8212; E eu tamb&eacute;m &#8211; afirmou o moribundo. &#8211; H&aacute;<br \/>\n    nisso tudo qualquer coisa que eu n&atilde;o compreendo.<\/p>\n<p> &#8212; Nem eu tampouco &#8211; disse o pobre do bom g&ecirc;nio.<\/p>\n<p> &#8212; Mas daqui a um instante saberei tudo &#8211; disse Rustan.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o que veremos &#8211; concluiu Top&aacute;zio.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o tudo desapareceu. Rustan achou-se na casa de seu pai, de onde<br \/>\n    n&atilde;o sa&iacute;ra, e no seu leito, onde havia dormido durante uma hora.<\/p>\n<p> Desperta em sobressalto, banhado em suor, perdido; apalpa-se, chama, grita,<br \/>\n    puxa a sineta. Seu criado Top&aacute;zio acorre de carapu&ccedil;a e bocejando.<\/p>\n<p> &#8212; Estou morto? Estou vivo? &#8211; exclamou Rustan. &#8211; E a bela<br \/>\n    princesa de Caxemira? Ser&aacute; que escapa? <br \/>\n    &#8212; O meu senhor est&aacute; sonhando? &#8211; disse friamente Top&aacute;zio.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; clamava Rustan. &#8211; Que &eacute; feito desse maldito<br \/>\n    &Eacute;bano, com as suas quatro asas negras? Foi ele que me fez morrer de<br \/>\n    morte t&atilde;o cruel.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor, deixei-o l&aacute; em cima, a roncar. Fa&ccedil;o-o descer<br \/>\n    tamb&eacute;m? <br \/>\n    &#8212; O celerado! H&aacute; seis meses inteiros que me persegue. Foi ele<br \/>\n    quem me levou a essa feira aziaga de Cabul. Foi ele quem escamoteou o diamante<br \/>\n    que me deu a princesa. &Eacute; ele o culpado da minha viagem, da morte da<br \/>\n    minha princesa, e do golpe de azagaia de que morro na flor da idade.<\/p>\n<p> &#8212; Tranq&uuml;ilizai-vos &#8211; disse Top&aacute;zio. &#8211; Nunca<br \/>\n    estivestes em Cabul; n&atilde;o existe nenhuma princesa de Caxemira; o seu<br \/>\n    pai tem apenas dois filhos var&otilde;es, que est&atilde;o atualmente no col&eacute;gio.<br \/>\n    Nunca tivestes diamante; a princesa n&atilde;o pode estar morta porque n&atilde;o<br \/>\n    nasceu; e a vossa sa&uacute;de &eacute; perfeita.<\/p>\n<p> &#8212; Como! N&atilde;o &eacute; verdade que assistias &agrave; minha morte<br \/>\n    no leito do pr&iacute;ncipe de Caxemira? N&atilde;o me confessaste que, para<br \/>\n    me preservar de tantos males, havias sido &aacute;guia, elefante, asno malhado,<br \/>\n    m&eacute;dico e pega? <br \/>\n    &#8212; Sonhastes isso tudo, senhor: as nossas id&eacute;ias n&atilde;o pendem<br \/>\n    mais de n&oacute;s no sono do que na vig&iacute;lia. Quis Deus que esse desfile<br \/>\n    de id&eacute;ias vos passasse pela cabe&ccedil;a, para vos dar decerto alguma<br \/>\n    instru&ccedil;&atilde;o, de que tirareis proveito.<\/p>\n<p> &#8212; Zombas de mim &#8211; tornou Rustan.. &#8211; Quanto tempo dormi?<br \/>\n    <br \/>\n    &#8212; Senhor, n&atilde;o dormistes ainda uma hora.<\/p>\n<p> &#8212; Pois ent&atilde;o, maldito argumentador, como queres tu que, em<br \/>\n    uma hora, tenha eu estado h&aacute; seis meses na feira de Cabul, de l&aacute;<br \/>\n    tenha voltado e ido a Caxemira, e que estejamos mortos, Barbabu, a princesa<br \/>\n    e eu? <br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; nada mais f&aacute;cil nem mais ordin&aacute;rio, senhor,<br \/>\n    e realmente poder&iacute;eis ter dado volta ao mundo e passado por mais aventuras<br \/>\n    em muito menos tempo. N&atilde;o &eacute; verdade que podeis ler em uma hora<br \/>\n    o comp&ecirc;ndio da hist&oacute;ria dos persas, escrito por Zoroastro? No<br \/>\n    entanto, esse comp&ecirc;ndio abrange oitocentos mil anos. Todos esses acontecimentos<br \/>\n    passam um ap&oacute;s outro, a vossos olhos, durante uma hora. E haveis de<br \/>\n    concordar que &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil a Brama comprimi-los todos<br \/>\n    no espa&ccedil;o de uma hora como estend&ecirc;-los no espa&ccedil;o de oitocentos<br \/>\n    mil anos; &eacute; exatamente a mesma coisa. Imaginai que o tempo gira sobre<br \/>\n    uma roda cujo di&acirc;metro &eacute; infinito. Nessa roda imensa h&aacute;<br \/>\n    uma multid&atilde;o inumer&aacute;vel de rodas, umas dentro das outras; a<br \/>\n    do centro &eacute; impercept&iacute;vel e d&aacute; um n&uacute;mero infinito<br \/>\n    de voltas precisamente no mesmo tempo em que a grande roda completa uma volta.<br \/>\n    &Eacute; claro que todos os acontecimentos, desde o princ&iacute;pio do mundo<br \/>\n    at&eacute; o seu fim, podem acontecer sucessivamente em muito menos tempo<br \/>\n    que a cent&eacute;sima mil&eacute;sima parte de um segundo; e pode-se afirmar<br \/>\n    que a coisa &eacute; mesmo assim.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o compreendo &#8211; disse Rustan.<\/p>\n<p> &#8212; Se quiserdes &#8211; disse Top&aacute;zio, &#8211; tenho um papagaio<br \/>\n    que vos far&aacute; fielmente compreender isso tudo. Nasceu algum tempo antes<br \/>\n    do Dil&uacute;vio; estava na Arca; viu muitas coisas; no entanto, tem apenas<br \/>\n    ano e meio: ele vos contar&aacute; a sua hist&oacute;ria, que &eacute; muito<br \/>\n    interessante.<\/p>\n<p> &#8212; Traze-me depressa o teu papagaio &#8211; disse Rustan, &#8211; Ele<br \/>\n    me divertir&aacute; at&eacute; que eu possa adormecer de novo.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; com a minha irm&atilde; religiosa &#8211; disse Top&aacute;zio.<br \/>\n    Vou busc&aacute;-lo, gostareis dele; a sua mem&oacute;ria &eacute; fiel, e<br \/>\n    ele conta simplesmente, sem procurar mostrar esp&iacute;rito &agrave; prop&oacute;sito<br \/>\n    de tudo, e sem fazer frases.<\/p>\n<p> Tanto melhor &#8211; observou Rustan, &#8211; &eacute; assim que me agradam<br \/>\n    as hist&oacute;rias.<\/p>\n<p> Trouxeram-lhe o papagaio, o qual assim falou:<\/p>\n<p> N. B.: Mademoiselle Catherine Vad&eacute; nunca pode encontrar a hist&oacute;ria<br \/>\n    do papagaio entre os pap&eacute;is de seu falecido primo Antoine Vad&eacute;,<br \/>\n    autor deste conto. O que &eacute; uma pena, dado o tempo em que vivera o papagaio.<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">JEANNOT E COLIN<\/a><\/h4>\n<p> V&aacute;rias pessoas dignas de f&eacute; viram Jeannot e Colin na escola<br \/>\n    da cidade de Issoire, em Auvergne, famosa em todo o universo por seus col&eacute;gios<br \/>\n    e seus tachos. Jeannot era filho de um conhecido vendedor de mulas, e Colin<br \/>\n    devia seus dias a um bravo lavrador dos arredores, que cultivava a terra com<br \/>\n    quatro animais e que depois de haver pago a talha, mais o imposto adicional,<br \/>\n    e as gabelas, o soldo por libra, a capta&ccedil;&atilde;o e os vig&eacute;simos,<br \/>\n    n&atilde;o se encontrava l&aacute; muito rico ao fim do ano.<\/p>\n<p> Jeannot e Colin eram muito bonitos para auvernheses; estimavam-se muito<br \/>\n    e tinham dessas pequenas intimidades, dessas pequenas confid&ecirc;ncias,<br \/>\n    que a gente sempre relembra com agrado, quando torna a encontrar-se mais tarde.<\/p>\n<p> Estava para findar o tempo de seus estudos, quando um alfaiate trouxe a<br \/>\n    Jeannot uma roupa de veludo de tr&ecirc;s cores, com uma jaqueta leonesa de<br \/>\n    excelente gosto: vinha tudo acompanhado de uma carta para o senhor de La Jeannoti&egrave;re.<br \/>\n    Colin admirou a roupa, sem sentir inveja; mas Jeannot tomou um ar de superioridade<br \/>\n    que afligiu Colin. Desde esse momento Jeannot n&atilde;o estudou mais, olhava-se<br \/>\n    ao espelho e desprezava a todo o mundo. Algum tempo depois, chega um criado<br \/>\n    de dilig&ecirc;ncia e traz uma segunda carta para o senhor marqu&ecirc;s de<br \/>\n    La Jeannoti&egrave;re: era uma ordem do senhor seu pai para que o senhor seu<br \/>\n    filho se dirigisse a Paris. Jeannot subiu para o carro, estendendo a m&atilde;o<br \/>\n    a Colin com um nobre sorriso protetor. Colin sentiu o seu pr&oacute;prio nada<br \/>\n    e chorou. Jeannot partiu em toda a pompa da sua gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> Os leitores que gostam de instruir-se devem saber que o senhor Jeannot pai<br \/>\n    adquirira uma fortuna imensa nos neg&oacute;cios. Indagais como se fica assim<br \/>\n    t&atilde;o rico? Mera quest&atilde;o de sorte. O senhor Jeannot era bem parecido,<br \/>\n    sua mulher tamb&eacute;m, e ainda estava bastante vi&ccedil;osa. Foram ambos<br \/>\n    a Paris, devido a um processo que os arruinava, quando a sorte, que eleva<br \/>\n    e rebaixa os homens a seu bel-prazer, os apresentou &agrave; esposa de um<br \/>\n    empreiteiro dos hospitais militares, homem de grande talento e que podia gabar-se<br \/>\n    de haver liquidado mais soldados em um ano do que o canh&atilde;o em dez.<br \/>\n    Jeannot agradou a Madame; a mulher de Jeannot agradou a Monsieur. Em breve<br \/>\n    Jeannot participava da empresa; meteu-se em outros neg&oacute;cios. Quando<br \/>\n    a gente est&aacute; na correnteza, &eacute; s&oacute; deixar-se carregar;<br \/>\n    e faz-se sem trabalho uma fortuna imensa. Os pobret&otilde;es que, da margem,<br \/>\n    nos v&ecirc;em vogar a todo o pano, arregalam os olhos; n&atilde;o atinam<br \/>\n    como pudemos vencer; invejam-nos pura e simplesmente e escrevem, contra n&oacute;s,<br \/>\n    panfletos que n&atilde;o lemos. Foi o que aconteceu a Jeannot pai, que em<br \/>\n    breve se transformou em senhor de La Jeannoti&egrave;re e que, tendo adquirido<br \/>\n    um marquesado ao cabo de seis meses, retirou da escola o senhor marqu&ecirc;s<br \/>\n    seu filho, para introduzi-lo na alta sociedade de Paris.<\/p>\n<p> Colin, sempre terno, escreveu uma carta de cumprimentos a seu antigo camarada,<br \/>\n    enviando-lhe estas linhas para congratular-me&#8230; O marquesinho n&atilde;o<br \/>\n    lhe deu resposta. Colin adoeceu de pesar.<\/p>\n<p> O pai e a m&atilde;e deram primeiro um preceptor ao jovem marqu&ecirc;s:<br \/>\n    esse preceptor, que era um homem da alta e que nada sabia, n&atilde;o pode<br \/>\n    ensinar coisa alguma a seu pupilo. Monsieur queria que o filho aprendesse<br \/>\n    latim, Madame n&atilde;o o queria. Tomaram por &aacute;rbitro um autor que<br \/>\n    era ent&atilde;o famoso por obras agrad&aacute;veis. Convidaram-no a jantar.<br \/>\n    O dono da casa come&ccedil;ou por lhe dizer: <br \/>\n    &#8212; O senhor que sabe latim e que &eacute; um homem da Corte&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu, senhor, latim?! N&atilde;o sei uma palavra de latim e me dou<br \/>\n    muito bem com isso: &eacute; claro que se fala muito melhor a pr&oacute;pria<br \/>\n    l&iacute;ngua quando n&atilde;o se divide a aplica&ccedil;&atilde;o entre<br \/>\n    ela e as l&iacute;nguas estrangeiras. Veja todas as nossas damas: t&ecirc;m<br \/>\n    um esp&iacute;rito mais agrad&aacute;vel que o dos homens; as suas cartas<br \/>\n    t&ecirc;m cem vezes mais gra&ccedil;a; e, se nos levam essa vantagem, &eacute;<br \/>\n    porque n&atilde;o sabem latim.<\/p>\n<p> &#8212; Pois n&atilde;o tinha eu raz&atilde;o? &#8211; disse Madame. &#8211;<br \/>\n    Eu quero que o meu filho seja um homem de esp&iacute;rito, que obtenha sucesso<br \/>\n    na sociedade; e bem se v&ecirc; que, se soubesse latim, estaria perdido. Acaso<br \/>\n    se representa com&eacute;dia e &oacute;pera em latim? Pleiteia-se em latim,<br \/>\n    quando se tem um processo? Ama-se em latim? <br \/>\n    Monsieur, ofuscado com essas raz&otilde;es, abdicou, e ficou assentado que<br \/>\n    o jovem marqu&ecirc;s n&atilde;o desperdi&ccedil;aria tempo em conhecer C&iacute;cero,<br \/>\n    Hor&aacute;cio e Virg&iacute;lio.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que aprender&aacute;. ele ent&atilde;o? &#8211; insistiu. &#8211;<br \/>\n    Pois &eacute; preciso que saiba alguma coisa. N&atilde;o se poderia ministrar-lhe<br \/>\n    um pouco de geografia? <br \/>\n    &#8212; De que lhe serviria? &#8211; retrucou o preceptor. &#8211; Quando<br \/>\n    o senhor marqu&ecirc;s for visitar suas terras, acaso os postilh&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o saber&atilde;o o caminho? Certamente que n&atilde;o h&atilde;o<br \/>\n    de extravi&aacute;-lo. N&atilde;o se tem necessidade de um esquadro para viajar,<br \/>\n    e vai-se muito comodamente de Paris a Auvergne sem que seja preciso tirar<br \/>\n    a latitude.<\/p>\n<p> Tem raz&atilde;o &#8211; replicou o pai. &#8211; Mas ouvi falar de uma bela<br \/>\n    ci&ecirc;ncia que se chama, creio eu, astronomia.<\/p>\n<p> &#8212; Qual! &#8211; disse o preceptor. &#8211; Quem &eacute; que se guia<br \/>\n    pelos astros neste mundo? E ser&aacute; preciso que o senhor marqu&ecirc;s<br \/>\n    se mate em calcular um eclipse quando o encontra indicado no almanaque, o<br \/>\n    qual, ainda por cima, o informa das festas m&oacute;veis, a idade da lua e<br \/>\n    de todas as princesas da Europa! <br \/>\n    Madame ficou de pleno acordo com o preceptor. O marquesinbo estava no auge<br \/>\n    da alegria; o pai hesitava.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que se deve ent&atilde;o ensinar a meu filho? &#8211; dizia.<\/p>\n<p> &#8212; A ser am&aacute;vel &#8211; respondeu o amigo a quem consultavam.<br \/>\n    &#8211; E, se sabe os meios de agradar, saber&aacute; tudo: &eacute; uma arte<br \/>\n    que aprender&aacute; com a senhora sua m&atilde;e, sem que nenhum dos dois<br \/>\n    se d&ecirc; ao m&iacute;nimo trabalho.<\/p>\n<p> Madame, a estas palavras, beijou o gracioso ignorante, e disse-lhe: <br \/>\n    &#8212; Bem se v&ecirc; que o senhor &eacute; o homem mais s&aacute;bio do<br \/>\n    mundo; meu filho lhe ficar&aacute; devendo toda a sua educa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Imagino que n&atilde;o ficaria mal se ele soubesse um pouco de hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Mas para que serve isso, Madame! s&oacute; &eacute; agrad&aacute;vel<br \/>\n    e &uacute;til a hist&oacute;ria do dia. Todas as hist&oacute;rias antigas,<br \/>\n    como o dizia um de nossos talentos, s&atilde;o apenas f&aacute;bulas admitidas;<br \/>\n    e, quanto &agrave;s modernas, s&atilde;o um verdadeiro caos que n&atilde;o<br \/>\n    se pode destrin&ccedil;ar. Que importa ao senhor seu filho que Carlos Magno<br \/>\n    haja institu&iacute;do os doze pares de Fran&ccedil;a e o seu sucessor fosse<br \/>\n    gago? <br \/>\n    &#8212; Muito bem! &#8211; exclamou o preceptor. &#8211; Abafa-se o esp&iacute;rito<br \/>\n    das crian&ccedil;as sob esse amontoado de conhecimentos in&uacute;teis; mas,<br \/>\n    de todas as ci&ecirc;ncias, a mais absurda, a meu ver, e a mais capaz de abafar<br \/>\n    toda esp&eacute;cie de g&ecirc;nio, &eacute; sem d&uacute;vida a geometria.<br \/>\n    Essa ci&ecirc;ncia rid&iacute;cula tem por objeto superf&iacute;cies, linhas<br \/>\n    e pontos que n&atilde;o existem na natureza. Faz-se passar, em esp&iacute;rito,<br \/>\n    cem mil linhas curvas entre um circulo e uma linha reta que o toca, embora<br \/>\n    na realidade n&atilde;o se lhe possa meter um fio de linha. A geometria, na<br \/>\n    verdade, n&atilde;o passa de uma brincadeira de mau gosto.<\/p>\n<p> Monsieur e Madame n&atilde;o compreendiam muito bem o que queria dizer o<br \/>\n    preceptor, mas mostraram-se de pleno acordo.<\/p>\n<p> &#8212; Um senhor como o jovem marqu&ecirc;s &#8211; continuou ele &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o deve secar o c&eacute;rebro nesses v&atilde;os estudos. Se um dia<br \/>\n    tiver necessidade de um sublime ge&ocirc;metra para fazer o levantamento de<br \/>\n    suas terras, manda-la-&aacute; medir a dinheiro. Se quiser evidenciar a antig&uuml;idade<br \/>\n    de sua nobreza, que remonta aos mais afastados tempos, mandar&aacute; buscar<br \/>\n    um beneditino. O mesmo acontece com todas as artes. Um jovem senhor de bom<br \/>\n    nascimento n&atilde;o &eacute; nem pintor, nem m&uacute;sico, nem arquiteto,<br \/>\n    nem escultor; mas faz florescerem todas as artes, animando-as com a sua munific&ecirc;ncia.<br \/>\n    Mais vale sem d&uacute;vida proteg&ecirc;-las que as exercer; basta que o<br \/>\n    senhor marqu&ecirc;s tenha bom gosto; compete aos artistas trabalharem para<br \/>\n    ele; eis por que h&aacute;, muita raz&atilde;o em dizer-se que as pessoas<br \/>\n    de qualidade (refiro-me &agrave;s bastante ricas) sabem tudo sem nada ter<br \/>\n    aprendido, pois, com o tempo, s&atilde;o capazes de julgar todas as coisas<br \/>\n    que encomendam e pagam.<\/p>\n<p><strong>O am&aacute;vel ignorante tomou ent&atilde;o a palavra e disse: <\/strong><\/p>\n<p> &#8212; Madame observou muito bem que o grande objetivo do homem &eacute;<br \/>\n    triunfar na sociedade. Mas, falando com sinceridade, ser&aacute; com as ci&ecirc;ncias<br \/>\n    que se obt&eacute;m esse triunfo? Algu&eacute;m j&aacute; se lembrou de falar<br \/>\n    sobre geometria em boa sociedade? Acaso se pergunta a um homem &agrave;s direitas<br \/>\n    que astro se ergue hoje com o sol? Quem &eacute; que se informa, numa ceia,<br \/>\n    se Cl&oacute;dio, o cabeludo, atravessou o Reno? <\/p>\n<p> &#8212; Certamente que n&atilde;o! &#8211; exclamou a marquesa de La Jeannoti&egrave;re,<br \/>\n    cujos encantos a tinham &agrave;s vezes introduzido na alta sociedade. &#8211;<br \/>\n    E o senhor meu filho n&atilde;o deve abafar seu engenho no estudo de toda<br \/>\n    essa trapalheira. Mas, afinal, que lhe mandaremos ensinar? Pois &eacute; bom<br \/>\n    que um jovem fidalgo possa brilhar de vez em quando, como diz o senhor meu<br \/>\n    marido. Ouvi um padre dizer que a mais agrad&aacute;vel das ci&ecirc;ncias<br \/>\n    era uma coisa de que esqueci o nome, mas que come&ccedil;a por b.<\/p>\n<p> &#8212; Por b, Madame? N&atilde;o ser&aacute; bot&acirc;nica? <br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o era de bot&acirc;nica que ele me falava; come&ccedil;ava<br \/>\n    por b e acabava por &otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! compreendo, Madame; trata-se da ci&ecirc;ncia dos bras&otilde;es:<br \/>\n    &eacute; na verdade uma ci&ecirc;ncia muito profunda; mas passou de moda depois<br \/>\n    que se perdeu o costume de mandar pintar as armas nas portas da carruagem<br \/>\n    era o que poderia haver de mais &uacute;til em um Estado devidamente civilizado.<br \/>\n    Ali&aacute;s, esses estudos n&atilde;o findariam nunca; n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    hoje barbeiro que n&atilde;o tenha o seu escudo; e Madame bem sabe que o que<br \/>\n    se torna comum &eacute; pouco apreciado.<\/p>\n<p> Afinal, depois de examinadas as vantagens e desvantagens das ci&ecirc;ncias,<br \/>\n    ficou resolvido que o marqu&ecirc;s aprenderia a dan&ccedil;ar.<\/p>\n<p> A natureza, que faz tudo, dera-lhe um talento que logo se desenvolveu com<br \/>\n    prodigioso sucesso: o de cantar agradavelmente vaudevilles. As gra&ccedil;as<br \/>\n    da mocidade, aliadas a esse dote superior, fizeram-no considerar como um dos<br \/>\n    jovens mais esperan&ccedil;osos da cidade. Foi amado das mulheres e, tendo<br \/>\n    a cabe&ccedil;a cheia de can&ccedil;&otilde;es, f&ecirc;-las aos centos para<br \/>\n    as suas namoradas. Pilhava Bacchus et l&#8217;Amour em um vaudeulle, la nuit<br \/>\n    et le jour em outro, les charmes et les alarmes em um terceiro. Mas, como<br \/>\n    sempre havia em seus versos alguns p&eacute;s de mais ou de menos do que cumpria,<br \/>\n    mandava-os corrigir a vinte luises por produ&ccedil;&atilde;o: e foi posto<br \/>\n    na Ann&eacute;e litt&eacute;raire, ao lado dos La Fare, dos Chaulieu, dos<br \/>\n    Hamilton, dos Sarrasin e dos Voiture.<\/p>\n<p> A senhora marquesa julgou ent&atilde;o ser m&atilde;e de um bel esprit,<br \/>\n    e deu para oferecer jantares a todos, os beaux esprit de Paris. Isso logo<br \/>\n    virou a cabe&ccedil;a do jovem, que adquiriu a arte de falar sem entender-se<br \/>\n    e aperfei&ccedil;oou-se no h&aacute;bito de n&atilde;o prestar para coisa<br \/>\n    alguma. O pai, quando o viu t&atilde;o eloq&uuml;ente, sentiu n&atilde;o lhe<br \/>\n    ter mandado ensinar latim, pois nesse caso lhe compraria um alto cargo na<br \/>\n    justi&ccedil;a. A m&atilde;e, que tinha sentimentos mais nobres, encarregou-se<br \/>\n    de solicitar um regimento para o filho; e este, enquanto o regimento n&atilde;o<br \/>\n    vinha, dedicava-se ao amor. O amor &eacute; &agrave;s vezes mais caro que<br \/>\n    um regimento. Gastou muit&iacute;ssimo, enquanto seus pais tampouco olhavam<br \/>\n    a despesas, para viverem como gr&atilde;o-senhores.<\/p>\n<p> Ora, tinham eles como vizinha uma vi&uacute;va mo&ccedil;a e nobre, que<br \/>\n    resolveu salvar a fortuna do senhor e da senhora de La Jeannoti&egrave;re,<br \/>\n    apropriando-se dela e desposando o jovem marqu&ecirc;s. Soube atra&iacute;-lo<br \/>\n    &agrave; sua casa, deixou-se amar, deu-lhe a entender que n&atilde;o lhe era<br \/>\n    indiferente, governou-o pouco a pouco, encantou-o, subjugou-o sem dificuldade.<br \/>\n    Ora o elogiava, ora lhe dava conselhos; tornou-se a melhor amiga do pai e<br \/>\n    da m&atilde;e. Uma velha vizinha prop&otilde;e o casamento; os pais, deslumbrados<br \/>\n    com o esplendor de tal alian&ccedil;a, aceitaram com alegria a proposta: deram<br \/>\n    o seu filho &uacute;nico &agrave; sua amiga &iacute;ntima. O jovem marqu&ecirc;s<br \/>\n    ia desposar uma mulher a quem adorava e por quem era amado; os amigos da casa<br \/>\n    o felicitavam: iam redigir as cl&aacute;usulas, enquanto se trabalhava no<br \/>\n    enxoval e no epital&acirc;mio.<\/p>\n<p> Estava ele, certa manh&atilde;, aos joelhos da encantadora esposa que o<br \/>\n    amor, a estima e a amizade lhe iam dar; gozavam, num terno e animado col&oacute;quio,<br \/>\n    as prim&iacute;cias de sua ventura; arquitetavam uma exist&ecirc;ncia deliciosa,<br \/>\n    quando entra alarmado um camareiro da senhora m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8212; Diferentes not&iacute;cias lhes trago &#8211; assim os interrompe<br \/>\n    ele, &#8211; os meirinhos despejam a casa de Monsieur e de Madame; tudo est&aacute;<br \/>\n    sendo seq&uuml;estrado pelos credores: fala-se at&eacute; de pris&atilde;o,<br \/>\n    e eu vou tomar provid&ecirc;ncias para que me paguem os meus ordenados.<\/p>\n<p> &#8212; Espera! Que coisa me disse? Que hist&oacute;ria &eacute; essa?!<br \/>\n    &#8211; exclama o marqu&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8212; Anda, vai j&aacute; punir esses malandros! &#8211; Incita-o a vi&uacute;va.<\/p>\n<p> Corre, chega &agrave; casa, o pai j&aacute; estava preso, todos os criados<br \/>\n    haviam fugido cada um para o seu lado, carregando com tudo o que podiam. A<br \/>\n    m&atilde;e achava-se sozinha, sem amparo, sem consola&ccedil;&atilde;o, afogada<br \/>\n    em pranto: nada mais lhe restava que a lembran&ccedil;a da sua fortuna, da<br \/>\n    sua beleza, das suas faltas e das suas loucas despesas.<\/p>\n<p> O filho, depois de haver longamente chorado com a m&atilde;e, afinal lhe<br \/>\n    disse: <br \/>\n    &#8212; N&atilde;o desesperemos, a vi&uacute;va me ama loucamente, &eacute;<br \/>\n    ainda mais generosa que rica, respondo por ela; espere, que vou busc&aacute;-la.<\/p>\n<p> Volta, pois, &agrave; casa da noiva: encontra-a em col&oacute;quio com um<br \/>\n    jovem oficial muito am&aacute;vel.<\/p>\n<p> O marqu&ecirc;s, pasmado, com a c&oacute;lera no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    foi procurar o antigo preceptor, derramou-lhe no peito as suas dores, e lhe<br \/>\n    pediu conselhos. Este lhe prop&otilde;e fazer-se, como ele, preceptor de meninos.<br \/>\n    &#8220;Ai de mim! nada sei; o senhor n&atilde;o me ensinou coisa alguma, e<br \/>\n    foi o primeiro fator da minha desgra&ccedil;a&#8221;. E rompia em solu&ccedil;os,<br \/>\n    enquanto assim lhe falava. &#8220;Escreva romances&#8221; &#8211; disse um<br \/>\n    bel esprit que se achava presente.<\/p>\n<p> &#8212; &#8220;&Eacute; um &oacute;timo recurso em Paris.&#8221; <br \/>\n    O jovem, mais desesperado do que nunca, correu ao confessor de sua m&atilde;e.<br \/>\n    Era um teatino muito acreditado, que s&oacute; dirigia senhoras da alta sociedade.<br \/>\n    Logo que avistou Jeannot, precipitou-se para este: <br \/>\n    &#8212; Meu Deus, senhor marqu&ecirc;s! Onde esta a sua carruagem? Como passa<br \/>\n    a respeit&aacute;vel senhora marquesa sua m&atilde;e? <br \/>\n    O pobre infeliz contou-lhe o desastre da fam&iacute;lia. A medida que ele<br \/>\n    se explicava, o teatino assumia um ar mais grave, mais alheado, mais imponente:<br \/>\n    <br \/>\n    &#8212; Meu filho, eis aonde Deus queria chegar: as riquezas s&oacute; servem<br \/>\n    para corromper o cora&ccedil;&atilde;o. Com que ent&atilde;o Deus concedeu<br \/>\n    &agrave; sua m&atilde;e a gra&ccedil;a de reduzi-la &agrave; mendicidade?<br \/>\n    <br \/>\n    &#8212; Sim, meu padre.<\/p>\n<p> &#8212; Tanto melhor: agora ela pode ter certeza da sua .salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, meu padre, enquanto se espera, n&atilde;o haveria meio de obter<br \/>\n    algum socorro neste mundo? <br \/>\n    &#8212; Adeus, meu filho; est&aacute; uma dama da Corte &agrave; minha espera.<\/p>\n<p> O marqu&ecirc;s esteve a ponto de desmaiar; seus amigos trataram-no mais<br \/>\n    ou menos da mesma maneira e, numa s&oacute; tarde, aprendeu melhor a conhecer<br \/>\n    o mundo do que em todo o resto da sua vida.<\/p>\n<p> Estando assim acabrunhado pelo desespero, viu que se aproximava um carro<br \/>\n    antigo, esp&eacute;cie de aranha coberta, com cortinas de couro, seguido de<br \/>\n    quatro enormes carro&ccedil;as completamente carregadas. Achava-se no carro<br \/>\n    um homem grosseiramente vestido; tinha um rosto redondo e fresco, que respirava<br \/>\n    brandura e alegria. Sua mulherzinha, morena, e tamb&eacute;m rusticamente<br \/>\n    agrad&aacute;vel, era sacudida a seu lado. O ve&iacute;culo n&atilde;o corria<br \/>\n    como a carruagem de um peralvilho. O viajante tem tempo de sobra para contemplar<br \/>\n    o marqu&ecirc;s im&oacute;vel, abismado na dor.<\/p>\n<p> &#8212; Meu Deus! &#8211; exclamou ele. &#8211; Creio que &eacute; Jeannot.<\/p>\n<p> A este nome, o marqu&ecirc;s ergue os olhos, o carro det&eacute;m-se.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; Jeannot mesmo. &Eacute; Jeannot! <br \/>\n    E o homenzinho rechonchudo corre, de um salto, a abra&ccedil;ar o seu antigo<br \/>\n    camarada. Jeannot reconhece Colin;. a vergonha e as l&aacute;grimas cobrem-lhe<br \/>\n    as faces.<\/p>\n<p> &#8212; Tu me abandonaste &#8211; diz Colin, &#8211; mas, por mais fino<br \/>\n    que estejas agora, eu sempre te estimarei.<\/p>\n<p> Jeannot, confuso e enternecido, contou-lhe, entre solu&ccedil;os, uma parte<br \/>\n    da sua hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Anda comigo &agrave; hospedaria para contar-me o resto &#8211; lhe<br \/>\n    diz Colin, &#8211; abra&ccedil;a a minha mulherzinha e vamos jantar juntos.<\/p>\n<p> Seguem os tr&ecirc;s a p&eacute;, seguidos da bagagem.<\/p>\n<p> &#8212; Que trazes ai? Tudo isso &eacute; teu? <br \/>\n    &#8212; Meu e de minha mulher. Venho do interior; dirijo uma boa manufatura<br \/>\n    de ferro estanhado e cobre. Desposei a filha de um rico negociante de utens&iacute;lios<br \/>\n    necess&aacute;rios aos grandes e aos pequenos; trabalhamos muito; Deus nos<br \/>\n    ajuda: n&atilde;o mudamos de condi&ccedil;&atilde;o, estamos bem, e ajudaremos<br \/>\n    ao nosso amigo Jeannot. N&atilde;o sejas mais; marqu&ecirc;s; as grandezas<br \/>\n    deste mundo n&atilde;o valem um bom amigo. Voltar&aacute;s comigo &agrave;<br \/>\n    nossa terra, aprender&aacute;s meu of&iacute;cio; n&atilde;o &eacute; muito<br \/>\n    dificultoso; eu te darei sociedade, e viveremos alegremente no peda&ccedil;o<br \/>\n    de terra onde nascemos.<\/p>\n<p> Jeannot, desconcertado, sentia-se dividido entre a dor e a alegria, a ternura<br \/>\n    e a vergonha; e dizia baixinho: &#8220;Todos os meus amigos da alta me tra&iacute;ram,<br \/>\n    apenas Colin, a quem desprezei, vem em meu socorro. Que li&ccedil;&atilde;o!&#8221;<br \/>\n    A magnanimidade de Colin animou as generosas inclina&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    Jeannot, que a sociedade ainda n&atilde;o destru&iacute;ra. Sentiu que n&atilde;o<br \/>\n    podia abandonar o pai e a m&atilde;e. &#8220;Cuidaremos de tua m&atilde;e<br \/>\n    &#8211; disse Colin &#8211; e, quanto ao velho, que est&aacute; preso, eu<br \/>\n    c&aacute; entendo um pouco de neg&oacute;cios; seus credores, vendo que ele<br \/>\n    n&atilde;o tem mais nada, h&atilde;o de contentar-se com pouco; deixa a coisa<br \/>\n    comigo&#8221;. Tanto fez Colin, que tirou o pai da pris&atilde;o. Jeannot<br \/>\n    voltou para a sua terra, com os pais, que retomaram a sua primeira profiss&atilde;o.<br \/>\n    Jeannot desposou uma irm&atilde; de Colin, a qual, tendo e mesmo g&ecirc;nio<br \/>\n    do irm&atilde;o, o fez muito feliz.<\/p>\n<p> E Jeannot pai, e Jeanotte m&atilde;e, e Jeannot filho viram que a ventura<br \/>\n    n&atilde;o est&aacute; na vaidade.<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\"><strong>POT-POURRI<\/strong><\/a><\/h4>\n<p> <strong>&sect; I<\/strong><\/p>\n<p> O pai de Polichinelo foi Brioch&eacute;, n&atilde;o seu pai propriamente<br \/>\n    dito, mas pai espiritual. O pai de Brioch&eacute; era Guillot Gorju, que foi<br \/>\n    filho de Gilles, que foi filho de Gros-Ren&eacute;, que era descendente do<br \/>\n    rei dos bobos e da tia boba; &eacute; assim que o escreve o autor de &#8220;L&#8217;almanach<br \/>\n    de la Foire&#8221;. O sr. Parfait, escritor n&atilde;o menos digno de f&eacute;,<br \/>\n    d&aacute; por pai, a Brioch&eacute;, Tabarin; a Tabarin, Gros-Guillaume; a<br \/>\n    Gros-Guillaume, Jean-Boudin; mas remontando sempre ao rei dos bobos. Se se<br \/>\n    contradizem os dois historiadores, isto constitui uma prova da verdade para<br \/>\n    o padre Daniel, que os concilia com maravilhosa sagacidade, destruindo assim<br \/>\n    o pirronismo da Hist&oacute;ria.<\/p>\n<p><strong>&sect; II<\/strong><\/p>\n<p> Quando eu terminava o par&aacute;grafo primeiro dos cadernos de Merri Hissing,<br \/>\n    no meu gabinete, que d&aacute; para a rua de Saint-Antoine vi passar os s&iacute;ndicos<br \/>\n    dos apotic&aacute;rios, que iam apreender drogas e verdete que os jesu&iacute;tas<br \/>\n    da rua contrabandeavam. O meu vizinho sr. Husson, que &eacute; uma s&oacute;lida<br \/>\n    cabe&ccedil;a, veio ter comigo e disse-me: <br \/>\n    &#8212; O senhor ri, meu amigo, de ver os jesu&iacute;tas vilipendiados; e<br \/>\n    se alegra com saber que s&atilde;o acusados de um parric&iacute;dio em Portugal<br \/>\n    e de uma rebeli&atilde;o no Paraguai. O clamor p&uacute;blico que contra eles<br \/>\n    se eleva na Fran&ccedil;a, o &oacute;dio que lhes votam, os repetidos opr&oacute;brios<br \/>\n    de que s&atilde;o cobertos, parece tudo isso um consolo para o senhor; mas<br \/>\n    saiba que, se forem condenados, como todas as pessoas honradas o desejam,<br \/>\n    o senhor nada ganhar&aacute; com isso: ser&aacute; esmagado pela fac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos jansenistas. S&atilde;o entusiastas ferozes, almas de bronze, piores que<br \/>\n    os presbiterianos que derrubaram o trono de Carlos I. Considere que os fan&aacute;ticos<br \/>\n    s&atilde;o mais perigosos do que os velhacos. Jamais se convence um energ&uacute;meno;<br \/>\n    a um velhaco, sim. Discuti muito tempo com o sr. Husson; disse-lhe afinal:<br \/>\n    <br \/>\n    &#8212; Console-se, senhor, talvez venham a ser os jansenistas algum dia t&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;beis como os jesu&iacute;tas.<\/p>\n<p> Tratei de abrand&aacute;-lo; mas &eacute; uma cabe&ccedil;a dura, incapaz<br \/>\n    de mudar de id&eacute;ia.<\/p>\n<p><strong>&sect; III<\/strong><\/p>\n<p> Brioch&eacute;, vendo que Polichinelo era duplamente corcunda, quis ensinar-lhe<br \/>\n    a ler e a escrever. Ao cabo de dois anos, Polichinelo sabia soletrar passavelmente,<br \/>\n    mas jamais conseguiu servir-se de uma pena. Um dos narradores da sua vida<br \/>\n    observa que ele tentou um dia escrever o pr&oacute;prio nome, mas ningu&eacute;m<br \/>\n    p&ocirc;de l&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Brioch&eacute; era muito pobre; sua mulher e ele n&atilde;o tinham meios<br \/>\n    para sustentar Polichinelo, e muito menos para faz&ecirc;-lo aprender um of&iacute;cio.<br \/>\n    Polichinelo lhes disse: <br \/>\n    &#8212; Eu sou corcunda, e tenho mem&oacute;ria; tr&ecirc;s ou quatro de meus<br \/>\n    amigos e eu podemos estabelecer-nos com fantoches; ganharei algum dinheiro:<br \/>\n    os homens sempre gostaram de fantoches; algumas vezes d&aacute; preju&iacute;zo<br \/>\n    apresentar novos fantoches, mas tamb&eacute;m h&aacute; margem para grandes<br \/>\n    lucros.<\/p>\n<p> O sr. e a sra. Brioch&eacute; admiraram o bom senso do jovem; constituiu-se<br \/>\n    a companhia, que foi armar seu tablado num burgo su&iacute;&ccedil;o, na estrada<br \/>\n    de Appenzell a Mil&atilde;o.<\/p>\n<p> Fora justamente nessa aldeia que os charlat&atilde;es de Orvieto haviam<br \/>\n    fundado a loja do seu orviet&atilde;o. Aperceberam-se que insensivelmente<br \/>\n    a canalha ia para os fantoches e que eles vendiam agora metade menos de sabonetes<br \/>\n    e ung&uuml;entos para queimaduras. Acusaram Polichinelo de v&aacute;rios desmandos<br \/>\n    e apresentaram queixa ao magistrado. Dizia a acusa&ccedil;&atilde;o que se<br \/>\n    tratava de um b&ecirc;bedo perigoso; que um dia dera cem pontap&eacute;s no<br \/>\n    ventre, em pleno mercado, a camponeses que vendiam n&ecirc;speras.<\/p>\n<p> Alegavam tamb&eacute;m que havia molestado um vendedor de galos da &Iacute;ndia;<br \/>\n    acusaram-no, enfim, de feiticeiro. O Sr. Parfait, na sua Hist&oacute;ria do<br \/>\n    Teatro, pretende que ele foi engolido por um sapo; mas o padre Daniel pensa,<br \/>\n    ou pelo menos fala, de outro modo. N&atilde;o se sabe o que foi feito de Brioch&eacute;<br \/>\n    Como era apenas pai putativo de Polichinelo, o historiador n&atilde;o julgou<br \/>\n    a prop&oacute;sito dar-nos not&iacute;cias suas<\/p>\n<p><strong>&sect; IV<\/strong><\/p>\n<p> Assegurava o falecido senhor de Marsais que o maior dos abusos era a venalidade<br \/>\n    dos cargos. &Eacute; uma grande desgra&ccedil;a para o Estado &#8211; dizia<br \/>\n    ele &#8211; que um homem de m&eacute;rito, sem fortuna, n&atilde;o possa chegar<br \/>\n    a nada. Quantos talentos enterrados, e quantos n&eacute;scios em evid&ecirc;ncia!<br \/>\n    Que detest&aacute;vel pol&iacute;tica haver extinguido a emula&ccedil;&atilde;o&#8220;<br \/>\n    O senhor de Marsais pleiteava sem querer, a sua pr&oacute;pria causa; vira-se<br \/>\n    reduzido a ensinar latim, quando teria prestado grandes servi&ccedil;os ao<br \/>\n    Estado se lhe houvessem dado um cargo p&uacute;blico. Conhe&ccedil;o rabiscadores<br \/>\n    de papel que teriam enriquecido uma prov&iacute;ncia se estivessem no lugar<br \/>\n    daqueles que a roubaram. Mas, para obter esse lugar, &eacute; preciso ser<br \/>\n    filho de um rico que nos deixe com que comprar um cargo, um of&iacute;cio,<br \/>\n    e o que se chama uma dignidade.<\/p>\n<p> Assegurava Marsais que um Montaigne, um Charron, um Descartes, um Gassendi,<br \/>\n    um Bayle, jamais teriam condenado &agrave;s gal&eacute;s estudantes que defendessem<br \/>\n    teses contr&aacute;rias &agrave; filosofia de Arist&oacute;teles, nem teriam<br \/>\n    mandado queimar o cura Urbano Grandier, o cura Ganfredi, e que n&atilde;o<br \/>\n    teriam etc., etc.<\/p>\n<p><strong>&sect; V<\/strong><\/p>\n<p> N&atilde;o faz muito que o cavaleiro Roginante, gentil-homem ferrarense,<br \/>\n    querendo constituir uma cole&ccedil;&atilde;o de quadros da escola flamenga,<br \/>\n    foi adquiri-los em Amsterd&atilde;. Negociou um belo Cristo com o senhor Vandergru.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; poss&iacute;vel &#8211; disse o ferrarense ao batavo<br \/>\n    &#8211; que o senhor, que n&atilde;o &eacute; crist&atilde;o (pois que &eacute;<br \/>\n    holand&ecirc;s), tenha em casa um Jesus? <br \/>\n    &#8212; Sou crist&atilde;o e &#8211; cat&oacute;lico &#8211; respondeu o sr.<br \/>\n    Vandergru sem se zangar; e vendeu o seu quadro bastante caro.<\/p>\n<p> &#8212; Acredita ent&atilde;o que Jesus Cristo &eacute; Deus? &#8211; perguntou-lhe<br \/>\n    Roginante.<\/p>\n<p> &#8212; Naturalmente &#8211; retrucou Vandergru.<\/p>\n<p> Um outro amador, que residia &agrave; porta cont&iacute;gua, era sociniano.<br \/>\n    Vendeu-lhe uma Sagrada Fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &#8212; Que pensa do &#8211; filho? &#8211; indagou o ferrarense.<\/p>\n<p> &#8212; Penso &#8211; respondeu o outro &#8211; que foi a criatura mais<br \/>\n    perfeita que Deus p&ocirc;s no mundo.<\/p>\n<p> Dali, dirigiu-se o ferrarense ao estabelecimento de Mois&eacute;s Mansebo,<br \/>\n    que apenas tinha belas paisagens. e nenhuma Sagrada Fam&iacute;lia. Roginante<br \/>\n    perguntou-lhe por que n&atilde;o se encontravam tais assuntos em sua casa.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; porque n&oacute;s execramos essa fam&iacute;lia &#8211;<br \/>\n    disse ele.<\/p>\n<p> Roginante passou por casa de um famoso anabatista, que tinha os mais belos<br \/>\n    filhos do mundo. Perguntou-lhes em que igreja haviam sido batizados.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, senhor! N&oacute;s, gra&ccedil;as a Deus, ainda n&atilde;o<br \/>\n    somos batizados.<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o chegara Roginante &agrave; metade da rua e j&aacute; tinha<br \/>\n    visto uma d&uacute;zia de seitas inteiramente opostas umas &agrave;s outras.<br \/>\n    Disse-lhe ent&atilde;o o sr. Sacrito, seu companheiro de viagem: <br \/>\n    &#8212; Escapemo-nos depressa, que chegou a hora da Bolsa: toda essa gente<br \/>\n    vai sem d&uacute;vida engalfinhar-se, segundo o antigo costume, pois todos<br \/>\n    pensam de modo diverso; e o populacho dar&aacute; cabo de n&oacute;s, por<br \/>\n    sermos s&uacute;ditos do papa.<\/p>\n<p> Muito espantados ficaram quando viram todas aquelas excelentes criaturas<br \/>\n    sa&iacute;rem de casa com os empregados, cumprimentar-se polidamente e dirigir-se<br \/>\n    para a Bolsa. Naquele dia, contando os arm&ecirc;nios e os jansenistas, havia<br \/>\n    ao todo cinq&uuml;enta e tr&ecirc;s religi&otilde;es no local. Negociaram<br \/>\n    cerca de cinq&uuml;enta e tr&ecirc;s milh&otilde;es, da maneira mais pac&iacute;fica<br \/>\n    do mundo, e o ferrarense voltou &agrave; sua terra, onde encontrou mais Agnus<br \/>\n    Dei do que letras de c&acirc;mbio.<\/p>\n<p> V&ecirc;-se todos os dias a mesma cena em Londres, em Hamburgo, em Danzig,<br \/>\n    na pr&oacute;pria Veneza, etc. Mas o que vi de mais edificante foi em Constantinopla.<\/p>\n<p> H&aacute; cinq&uuml;enta anos tive a honra de assistir &agrave; instala&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um patriarca grego, pelo sult&atilde;o Achmet III, a quem Deus haja. Entregou<br \/>\n    ele ao sacerdote crist&atilde;o o anel e o b&aacute;culo. Realizou-se em seguida<br \/>\n    uma prociss&atilde;o de crist&atilde;os na rua Cle&oacute;bulo; dois jan&iacute;zaros<br \/>\n    marchavam &agrave; frente da prociss&atilde;o. Tive o prazer de comungar publicamente<br \/>\n    na igreja patriarcal, e s&oacute; dependeu da minha vontade obter um canonicato.<\/p>\n<p> &#8212; Confesso que, no meu regresso a Marselha, fiquei muito espantado<br \/>\n    de n&atilde;o encontrar ali uma mesquita. Externei minha surpresa ao senhor<br \/>\n    intendente e ao senhor bispo. Disse-lhes que isso era muito incivil e que,<br \/>\n    se os crist&atilde;os tinham Igrejas entre os mu&ccedil;ulmanos, podia-se<br \/>\n    pelo menos fazer aos turcos a galanteria de algumas capelas. Prometeram-me<br \/>\n    ambos escrever para as Cortes; mas o assunto ficou nesse p&eacute;, devido<br \/>\n    &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o Unigenitus.<\/p>\n<p> &Oacute; meus irm&atilde;os jesu&iacute;tas, n&atilde;o fostes tolerantes<br \/>\n    e n&atilde;o o s&atilde;o para convosco. Consolai-vos; outros por sua vez,<br \/>\n    Se tornar&atilde;o perseguidores, e ser&atilde;o, por sua vez, execrados.<\/p>\n<p><strong>&sect; VI<\/strong><\/p>\n<p> H&aacute; poucos dias, contava eu essas coisas ao senhor de Boucacous, languedoquiano<br \/>\n    exaltado e huguenote zeloso.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; vendo?! &#8211; exclamou ele. &#8211; Tratam-nos ent&atilde;o<br \/>\n    em Fran&ccedil;a como aos turcos: a eles recusam mesquitas e a n&oacute;s<br \/>\n    n&atilde;o concedem templos! <br \/>\n    &#8212; Quanto &agrave;s mesquitas &#8211; disse eu, &#8211; os turcos ainda<br \/>\n    n&atilde;o as pediram; e aventuro-me a afirmar que obter&atilde;o tantas quantas<br \/>\n    quiserem, pois que s&atilde;o nossos bons aliados. Mas duvido muito que restabele&ccedil;am<br \/>\n    os vossos templos, apesar de toda a polidez de que fazemos gala. A raz&atilde;o<br \/>\n    disso &eacute; que os huguenotes s&atilde;o um tanto inimigos nossos.<\/p>\n<p> &#8212; Inimigos vossos! &#8211; exclamou o senhor de Boucacous. &#8211;<br \/>\n    N&oacute;s que somos os mais ardentes servidores do rei! <br \/>\n    &#8212; &Eacute; que sois demasiado ardentes, que fizestes nove guerras civis,<br \/>\n    sem contar os massacres de C&eacute;vennes.<\/p>\n<p> &#8212; Mas se fizemos guerras civis, &eacute; porque nos cozinhavam em<br \/>\n    pra&ccedil;a p&uacute;blica e afinal a gente se cansa de ser cozido, n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; paci&ecirc;ncia de santo que o ag&uuml;ente. Que nos deixem em paz,<br \/>\n    e juro que seremos os mais fi&eacute;is dos s&uacute;ditos.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; justamente o que fazem. Fecham os olhos, e vos permitem<br \/>\n    especular &agrave; vontade, tendes liberdade suficiente.<\/p>\n<p> &#8212; Linda liberdade! &#8211; exclamou o senhor de Boucacous. &#8211;<br \/>\n    Mal nos reunimos quatro ou cinco mil, para cantar salmos em pleno campo, logo<br \/>\n    chega um regimento de drag&otilde;es, que nos faz voltar para casa. Isso l&aacute;<br \/>\n    &eacute; vida? Isso &eacute; ser livre? <br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; nenhum pa&iacute;s no mundo &#8211; retruquei &#8211;<br \/>\n    onde a gente se possa reunir sem ordem do soberano; toda reuni&atilde;o em<br \/>\n    bandos &eacute; contra a lei. Servi Deus &agrave; vossa moda em vossas pr&oacute;prias<br \/>\n    casas, n&atilde;o atordoeis ningu&eacute;m com urros a que chamais m&uacute;sica.<br \/>\n    Pensais que Deus h&aacute; de ficar muito contente quando cantais os seus<br \/>\n    mandamentos com a m&uacute;sica de Desperta, &oacute; bela adormecida, e quando<br \/>\n    dizeis com os judeus, falando de um povo vizinho: &#8220;Feliz aquele que<br \/>\n    pegar em teus filhos e der com eles nas pedras&#8221;? Ser&aacute; que Deus<br \/>\n    quer absolutamente que arrebentem as cabe&ccedil;as das criancinhas? Ser&aacute;<br \/>\n    isso humano? E, de resto, gostar&aacute; Deus de maus versos e pior m&uacute;sica?<br \/>\n    <br \/>\n    O senhor de Boucacous interrompeu-me, Indagando se acaso valia mais o latim<br \/>\n    de cozinha de nossos salmos.<\/p>\n<p> &#8212; Certamente que n&atilde;o &#8211; respondi. &#8211; E acredito at&eacute;<br \/>\n    que haja um pouco de esterilidade de imagina&ccedil;&atilde;o em s&oacute;<br \/>\n    rezarmos a Deus numa tradu&ccedil;&atilde;o bastante viciosa de velhos c&acirc;nticos<br \/>\n    de um povo a quem abominamos; somos todos judeus &agrave; hora das v&eacute;speras,<br \/>\n    como somos todos pag&atilde;os na &Oacute;pera.<\/p>\n<p> S&oacute; me desagrada que, por mal&iacute;cia do dem&ocirc;nio, sejam as<br \/>\n    Metamorfoses de Ov&iacute;dio muito mais bem escritas e mais agrad&aacute;veis<br \/>\n    que os c&acirc;nticos judeus; pois cumpre confessar que essa montanha de Si&atilde;o,<br \/>\n    e essas faces de basilisco, e essas colinas que saltam como carneiros, e todas<br \/>\n    essas repeti&ccedil;&otilde;es fastidiosas, n&atilde;o valem nem a poesia<br \/>\n    grega, nem a latina, nem a francesa. Por mais que fa&ccedil;a o frio Racininho,<br \/>\n    nunca esse filho desnaturado impedir&aacute; (profanamente falando) que o<br \/>\n    seu pai seja melhor poeta que David.<\/p>\n<p> Mas afinal constitu&iacute;mos a religi&atilde;o predominante em nossa terra;<br \/>\n    na Inglaterra n&atilde;o vos permitem agrupamentos: per que haveis de exigir<br \/>\n    essa liberdade em Fran&ccedil;a? Fazei o que quiserdes em casa, e tenho a<br \/>\n    palavra do senhor governador e do senhor intendente de que, se vos comportardes<br \/>\n    bem, vos deixar&atilde;o em paz; s&oacute; a imprud&ecirc;ncia tem ocasionado,<br \/>\n    e ocasionar&aacute; as persegui&ccedil;&otilde;es. Acho mau que os vossos<br \/>\n    casamentos, a situa&ccedil;&atilde;o de vossos filhos, o direito de heran&ccedil;a,<br \/>\n    sofram o m&iacute;nimo obst&aacute;culo. N&atilde;o &eacute; justo que vos<br \/>\n    sangrem e vos purguem porque os vossos pais estiveram doentes. Mas que quereis?<br \/>\n    Este mundo &eacute; um grande Bedlam onde loucos encarceram outros loucos.<\/p>\n<p> Assim fal&aacute;vamos, o senhor de Boucacous e eu, quando vimos passar<br \/>\n    precipitadamente Jean-Jacques Rousseau.<\/p>\n<p> &#8212; Ou&ccedil;a! Aonde vai t&atilde;o depressa, senhor Jean-Jacques?<br \/>\n    <br \/>\n    &#8212; Vou fugindo, pois Joly de Fleury afirmou, num requisit&oacute;rio,<br \/>\n    que eu pregava contra a intoler&acirc;ncia e contra a exist&ecirc;ncia da<br \/>\n    religi&atilde;o crist&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Ele quis dizer evid&ecirc;ncia &#8211; respondi-lhe. &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    nos queimemos por uma palavra.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, meu Deus! &#8211; tornou Jean-Jacques, &#8211; bem queimado<br \/>\n    estou; por toda parte lan&ccedil;am ao fogo o meu livro. Saio de Paris como<br \/>\n    o senhor D&#8217;Assouci de Montpellier, de medo que queimem a minha pessoa.<\/p>\n<p> &#8212; Isso acontecia no tempo de Anne du Bourg e de Michel Servet, mas<br \/>\n    agora j&aacute; se &eacute; mais humano. Que esp&eacute;cie de livro &eacute;<br \/>\n    esse que queimaram? <br \/>\n    &#8212; Eu educava, &agrave; minha maneira, um rapazinho, em quatro tomos.<br \/>\n    Sentia que talvez me tornasse enfadonho; e resolvi, para arejar a mat&eacute;ria,<br \/>\n    incluir habilmente umas cinq&uuml;enta p&aacute;ginas em favor do te&iacute;smo.<br \/>\n    Julguei que, dizendo inj&uacute;rias aos fil&oacute;sofos, o meu te&iacute;smo<br \/>\n    passaria, mas estava muito enganado.<\/p>\n<p> &#8212; E que quer dizer te&iacute;smo? <br \/>\n    &#8212; &Eacute; a adora&ccedil;&atilde;o de um Deus, enquanto n&atilde;o<br \/>\n    estou melhor informado.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! se este &eacute; o seu &uacute;nico crime, n&atilde;o se aflija.<br \/>\n    Mas por que injuriar os fil&oacute;sofos? <br \/>\n    &#8212; Fiz mal &#8211; confessou ele. &#8211; <br \/>\n    &#8212; Mas como se tornou te&iacute;sta, senhor Jean-Jacques? Que cerim&ocirc;nia<br \/>\n    &eacute; preciso para isso? <br \/>\n    &#8212; Nenhuma. Nasci protestante, cortei tudo o que os protestantes condenam<br \/>\n    na religi&atilde;o romana. Em seguida, cortei tudo o que as outras religi&otilde;es<br \/>\n    condenam no protestantismo. S&oacute; me restou Deus. Adorei-o. E Joly de<br \/>\n    Fleury apresentou um requisit&oacute;rio contra mim.<\/p>\n<p> Falamos ent&atilde;o a fundo do te&iacute;smo com Jean-Jacques, o qual nos<br \/>\n    informou que havia trezentos mil teistas em Londres, e cerca de cinq&uuml;enta<br \/>\n    mil apenas em Paris, pois os parisienses nunca chegam a nada sen&atilde;o<br \/>\n    muito depois dos ingleses; haja vista a inocula&ccedil;&atilde;o, a gravita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a semeadeira, etc., etc. Acrescentou que o norte da Alemanha formigava de<br \/>\n    te&iacute;stas e de gente que se batia bem.<\/p>\n<p> O senhor de Boucacous ouviu atentamente e prometeu fazer-se te&iacute;sta.<br \/>\n    Quanto a mim, fiquei firme. N&atilde;o sei no entanto se queimar&atilde;o<br \/>\n    este escrito, como uma obra de Jean-Jacques, ou uma pastoral de bispo; mas<br \/>\n    um mal que nos amea&ccedil;a nem sempre me impede de ser sens&iacute;vel aos<br \/>\n    males de outrem; e, como tenho bom cora&ccedil;&atilde;o, lamentei as atribula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Jean Jacques.<\/p>\n<p><strong>&sect; VII<\/strong><\/p>\n<p> Reduzidos &agrave; mis&eacute;ria, que era o seu estado natural, os companheiros<br \/>\n    de Polichinelo associaram-se com alguns ciganos, saindo a percorrer as aldeias.<br \/>\n    Chegaram a uma cidadezinha e alojaram-se num quarto andar, onde come&ccedil;aram<br \/>\n    a fabricar drogas, o que os ajudou a subsistir, por algum tempo Chegaram at&eacute;<br \/>\n    a curar da sarna o fraldiqueiro de uma dama de considera&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    os vizinhos clamaram que era um milagre; mas, apesar de toda a sua habilidade,<br \/>\n    o bando n&atilde;o fez fortuna. Lamentavam-se de sua obscuridade e mis&eacute;ria,<br \/>\n    quando ouviram um dia um ru&iacute;do acima das suas cabe&ccedil;as, como<br \/>\n    o de um carrinho de m&atilde;o que estivesse a rodar. Subiram ao quinto andar<br \/>\n    e ali encontraram um homem que fabricava fantoches; chamava-se Bienfait; e<br \/>\n    tinha justamente o talento necess&aacute;rio &agrave; sua arte.<\/p>\n<p> N&atilde;o se entendia patavina do que ele dizia, mas tinha uma algaravia<br \/>\n    bastante pass&aacute;vel; e n&atilde;o faziam mal os seus bonecos. Um companheiro,<br \/>\n    igualmente versado em algaravia, assim lhe falou: <br \/>\n    &#8212; Cremos que estais destinado a ressuscitar os nossos t&iacute;teres;<br \/>\n    pois lemos em Nostradamus estas palavras textuais: nelo chi li porata cisus<br \/>\n    res fait en bi, as quais, tomadas &agrave;s avessas, significam evidentemente:<br \/>\n    Bienfait ressuscitar&aacute; Polichinelo. O nosso foi engolido por um sapo,<br \/>\n    mas encontramos o seu chap&eacute;u, a sua bossa e a sua gaita. V&oacute;s<br \/>\n    fornecereis o fio de arame. Creio ali&aacute;s que v&oacute;s ser&aacute;<br \/>\n    f&aacute;cil lhe fabricardes um bigode semelhante ao que ele possu&iacute;a;<br \/>\n    e, quando estivermos associados, &eacute; de esperar consider&aacute;vel lucro.<br \/>\n    Elevaremos Polichinelo &agrave; custa de Nostradamus, e Nostradamus &agrave;<br \/>\n    custa de Polichinelo.<\/p>\n<p> O senhor Bienfait aceitou a proposta. Perguntaram-lhe o que queria pelo<br \/>\n    seu trabalho.<\/p>\n<p> &#8212; Eu quero &#8211; disse ele &#8211; muitas honrarias e muito dinheiro.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o temos nada disso &#8211; respondeu o orador do bando,<br \/>\n    mas, com o tempo, tudo se consegue.<\/p>\n<p> O senhor Bienfait juntou-se, pois, com os ciganos; e foram todos a Mil&atilde;o,<br \/>\n    inaugurar o seu teatro, sob a prote&ccedil;&atilde;o da senhora Carminetta.<br \/>\n    Anunciaram que o mesmo Polichinelo que fora engolido por um sapo da aldeia<br \/>\n    do cant&atilde;o de Appenzell, reapareceria no teatro de Mil&atilde;o e dan&ccedil;aria<br \/>\n    com a senhora Gigogne. Por mais que protestassem os vendedores de electu&aacute;rio,<br \/>\n    o senhor Bienfait, que tamb&eacute;m possu&iacute;a o segredo da sua fabrica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sustentou que o seu era o melhor; vendeu muito &agrave;s mulheres, que eram<br \/>\n    loucas por Polichinelo, e ficou t&atilde;o rico que se tornou diretor da companhia.<\/p>\n<p> Logo que obteve o que queria (e o que todos querem), isto &eacute;, honrarias<br \/>\n    e bens, mostrou-se muito ingrato com a senhora Carminetta. Comprou uma bela<br \/>\n    casa fronteira &agrave; da sua benfeitora e descobriu o segredo de fazer que<br \/>\n    seus s&oacute;cios a pagassem. N&atilde;o mais o viram cortejar a senhora<br \/>\n    Carminetta; pelo contr&aacute;rio, fez quest&atilde;o que esta fosse almo&ccedil;ar<br \/>\n    em casa dele, e, no dia em que ela se dignou comparecer, mandou fechar-lhe<br \/>\n    a porta no nariz, etc.<\/p>\n<p><strong>&sect; VIII<\/strong><\/p>\n<p> Como nada houvesse compreendido do precedente cap&iacute;tulo de Merri Hissing,<br \/>\n    fui &agrave; casa de meu amigo sr. Husson, para solicitar uma explica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Disse-me que era uma profunda alegoria, a respeito do padre La Valette, negociante<br \/>\n    falido da Am&eacute;rica. Mas que fazia muito que n&atilde;o se preocupava<br \/>\n    com essas tolices, nunca ia aos fantoches e que naquela noite representavam<br \/>\n    Polyeucte, a que ele queria assistir. Acompanhei-o ao teatro.<\/p>\n<p> Durante o primeiro ato, o sr. Husson n&atilde;o parava de sacudir a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Perguntei-lhe, no intervalo, por que sua cabe&ccedil;a sacudia tanto.<\/p>\n<p> &#8212; Confesso &#8211; disse ele &#8211; que estou indignado com esse<br \/>\n    tolo Polyeucte e com esse impudente Nearco. Que me diria de um genro do senhor<br \/>\n    governador de Paris, que fosse huguenote e que, acompanhando o sogro a Notre-Dame<br \/>\n    no dia da P&aacute;scoa, espatifasse o cib&oacute;rio e o c&aacute;lice e<br \/>\n    se pusesse a dar pontap&eacute;s na barriga do arcebispo e dos c&ocirc;negos?<br \/>\n    Estaria justificado se nos dissesse que somos uns id&oacute;latras? E que<br \/>\n    isso ele o soubera por interm&eacute;dio do senhor Lubolier, pregador de Amsterd&atilde;,<br \/>\n    e do senhor Monfi&eacute;, compilador de Berlim, autor da Biblioteca Germ&acirc;nica,<br \/>\n    o qual por sua vez o soubera pelo pregador Urieju? Eis a fiel imagem do procedimento<br \/>\n    de Polyeucte. Acaso pode a gente interessar-se por esse vulgar fan&aacute;tico,<br \/>\n    seduzido pelo fan&aacute;tico Nearco? <br \/>\n    Assim me dizia ele amigavelmente a sua opini&atilde;o, nos entreatos. P&ocirc;s-se<br \/>\n    a rir quando viu Polyeucte ceder a mulher ao rival, e achou-a um pouco burguesa<br \/>\n    quando ela diz ao amante que vai para o quarto, em vez de ir com ele &agrave;<br \/>\n    igreja;.<\/p>\n<p>Adieu, trop vertueux objet, et top charmant;<br \/>\n    Adieu, trop g&eacute;n&eacute;reux et trop parfait amant;<br \/>\n    Je vais seule en ma chambre enfermer mes regrets.<\/p>\n<p> Mas admirou a cena em que ela implora ao amante o perd&atilde;o do marido.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; aqui &#8211; disse ele &#8211; um governador da Arm&ecirc;nia<br \/>\n    que &eacute; mesmo o mais covarde, o mais baixo dos homens; esse, o pai de<br \/>\n    Paulina, chega a confessar que tem os sentimentos de um patife:<\/p>\n<p>Polyeucte est ici l&#8217;appui de ma famille,<br \/>\n    Mais, si par son tr&eacute;pas l&#8217;autre &eacute;pousait ma fille,<br \/>\n    J&#8217;acquerrais bien l&agrave; de plus puissants appuis,<br \/>\n    Qui me mettraient plus haut cent fois que je ne suis.<\/p>\n<p> Um procurador no Ch&acirc;telet n&atilde;o poderia pensar nem exprimir-se<br \/>\n    de outro modo. H&aacute; boas almas que engolem tudo isso, eu n&atilde;o sou<br \/>\n    desses. Se tais mis&eacute;rias podem entrar numa trag&eacute;dia do pa&iacute;s<br \/>\n    das G&aacute;lias, cumpre queimar o &Eacute;dipo dos Gregos.<\/p>\n<p> O sr. Husson &eacute; um homem rude. Fiz o poss&iacute;vel para abrand&aacute;-lo;<br \/>\n    mas nada consegui. Ele persistiu na sua id&eacute;ia, e eu na minha.<\/p>\n<p><strong>&sect; IX<\/strong><\/p>\n<p> Deixamos o senhor Bienfait muito rico e muito insolente. Tanto fez, que<br \/>\n    foi reconhecido como empreiteiro de grande n&uacute;mero de fantoches. Logo<br \/>\n    que se viu investido dessa dignidade, passeou Polichinelo por todas as cidades,<br \/>\n    mandando afixar que todos teriam de chamar Senhor ao fantoche, sem o que,<br \/>\n    este n&atilde;o representaria. Vem dai que, em todos os espet&aacute;culos<br \/>\n    de fantoches, ele s&oacute; responde ao comparsa quando o comparsa o chama<br \/>\n    de senhor Polichinelo. Pouco a pouco se tornou Polichinelo t&atilde;o importante<br \/>\n    que n&atilde;o deram mais nenhum espet&aacute;culo sem lhe pagar uma retribui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como as &oacute;peras da prov&iacute;ncia pagam uma &agrave; Opera de Paris.<\/p>\n<p> Um dia o porteiro e varredor do teatro foi despedido e revoltou-se contra<br \/>\n    Bienfait, abrindo outro teatro de fantoches, que desacreditaram todas as dan&ccedil;as<br \/>\n    da senhora Gigogne e todos os truques de Bienfait. Cortou mais de cinq&uuml;enta<br \/>\n    ingredientes que entravam no electu&aacute;rio, comp&ocirc;s o seu com cinco<br \/>\n    ou seis drogas e, vendendo-o muito mais barato, arrebatou uma infinidade de<br \/>\n    fregueses a Bienfait; o que suscitou um furioso processo, e houve tremendas<br \/>\n    brigas, durante muito tempo &agrave; porta do teatro, na feira.<\/p>\n<p><strong>&sect; X<\/strong><\/p>\n<p> O sr. Husson falava-me ontem de suas viagens. Com efeito, passou v&aacute;rios<br \/>\n    anos no Levante, foi &agrave; P&eacute;rsia, demorou-se nas &Iacute;ndias<br \/>\n    e viu toda a Europa.<\/p>\n<p> &#8212; Observei &#8211; dizia-me ele &#8211; que h&aacute; um n&uacute;mero<br \/>\n    prodigioso de judeus que esperam o Messias e que prefeririam deixar-se empalar<br \/>\n    a confessar que ele j&aacute; veio. Vi milhares de turcos persuadidos de que<br \/>\n    Maom&eacute; escondia metade da lua na manga. O populacho, de um extremo a<br \/>\n    outro da terra, acredita piamente nas coisas mais absurdas. No entanto, se<br \/>\n    um fil&oacute;sofo tiver de dividir um escudo com o mais imbecil desses infelizes<br \/>\n    em que a raz&atilde;o humana se acha t&atilde;o horrivelmente obscurecida,<br \/>\n    &eacute; certo que o imbecil levar&aacute; a melhor. Como &eacute; que toupeiras<br \/>\n    t&atilde;o cegas quanto ao maior dos interesses, s&atilde;o uns verdadeiros<br \/>\n    linces nos menores? Por que &eacute; que o mesmo judeu que nos esfola na sexta-feira<br \/>\n    n&atilde;o roubaria um ceitil no s&aacute;bado? Essa contradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da esp&eacute;cie humana bem merece um detido exame.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ser&aacute; &#8211; disse eu &#8211; porque os homens<br \/>\n    s&atilde;o supersticiosos por costume e velhacos por instinto <br \/>\n    &#8212; Vou pensar nisso &#8211; respondeu-me o sr. Husson, &#8211; essa id&eacute;ia<br \/>\n    me parece bastante apreci&aacute;vel.<\/p>\n<p><strong>&sect; XI<\/strong><\/p>\n<p> Depois da aventura do porteiro, Polichinelo passou por muitas desgra&ccedil;as.<br \/>\n    Os ingleses, que s&atilde;o raciocinadores e sombrios, preferiram-lhe Shakespeare;<br \/>\n    mas alhures as suas farsas t&ecirc;m estado muito em voga; e, n&atilde;o fora<br \/>\n    a &oacute;pera-bufa, o seu teatro seria o primeiro dos teatros. Houve muitas<br \/>\n    querelas com Scaramouche e Arlequim, e ainda n&atilde;o se sabe quem ganhar&aacute;.<br \/>\n    Mas&#8230;<\/p>\n<p><strong>&sect; XII<\/strong><\/p>\n<p> &#8212; Mas, meu caro senhor &#8211; dizia eu, &#8211; como se pode ser<br \/>\n    ao mesmo tempo t&atilde;o b&aacute;rbaro e t&atilde;o divertido? Como &eacute;<br \/>\n    que na hist&oacute;ria de um povo pode haver ao mesmo tempo S. Bartolomeu<br \/>\n    e os contos de La Fontaine, etc,? Ser&aacute; efeito do clima? Ser&aacute;<br \/>\n    efeito das leis? <br \/>\n    &#8212; O g&ecirc;nero humano &#8211; respondeu o sr. Husson &#8211; &eacute;<br \/>\n    capaz de tudo. Nero chorou quando teve de assinar a senten&ccedil;a de morte<br \/>\n    de um criminoso, representou farsas, e assassinou a m&atilde;e. Os macacos<br \/>\n    fazem coisas engra&ccedil;ad&iacute;ssimas e esganam os filhos. Nada mais<br \/>\n    suave, mais t&iacute;mido que uma galga, mas estra&ccedil;alha uma lebre e<br \/>\n    mergulha o longo focinho no sangue da v&iacute;tima.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor deveria &#8211; disse-lhe eu &#8211; escrever um belo tratado<br \/>\n    onde desenvolvesse todas essas contradi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Esse tratado j&aacute; est&aacute; pronto &#8211; respondeu-me.<br \/>\n    &#8211; E s&oacute; olharmos para um catavento: gira, ora ao suave bafejo<br \/>\n    do Z&eacute;firo, ora ao sopro violento do aquil&atilde;o: eis o homem.<\/p>\n<p><strong>&sect; XIII<\/strong><\/p>\n<p> Nada pode ser por vezes mais conveniente do que amar a uma prima. Pode-se<br \/>\n    tamb&eacute;m amar a pr&oacute;pria sobrinha, mas custa dezoito mil libras,<br \/>\n    pag&aacute;veis em Roma, para desposar uma prima, e oitenta mil francos para<br \/>\n    dormir com a sobrinha em leg&iacute;timo matrim&ocirc;nio.<\/p>\n<p> Calculando quarenta casamentos por ano de tios com sobrinhas e cem entre<br \/>\n    primos, eis a&iacute; seis milh&otilde;es e oitocentas mil libras em sacramentos<br \/>\n    que saem anualmente do reino. Acrescente-se a isto cerca de seiscentos mil<br \/>\n    francos para o que se chama as anatas das terras de Fran&ccedil;a, que o rei<br \/>\n    de Fran&ccedil;a d&aacute; a franceses, em benef&iacute;cios; juntem-se ainda<br \/>\n    algumas despesas mi&uacute;das; s&atilde;o cerca de oito milh&otilde;es e<br \/>\n    quatrocentas mil libras que damos liberalmente ao Santo Padre por ano. Talvez<br \/>\n    exageremos um pouco; mas convenhamos que, se tivermos muitas primas e sobrinhas<br \/>\n    bonitas, e se a mortalidade se coloca entre os benefici&aacute;rios, a soma<br \/>\n    pode chegar ao dobro. Seria um pesado fardo, quando temos de construir navios,<br \/>\n    pagar ex&eacute;rcitos e rendeiros.<\/p>\n<p> Espanta-me que, entre a enorme quantidade de livros, cujos autores v&ecirc;m<br \/>\n    governando h&aacute; vinte anos o Estado, em nenhuma se tenha pensado em sanar<br \/>\n    tais abusos. Pedi a um doutor da Sorbonne meu amigo que me dissesse em que<br \/>\n    passagem das Escrituras se encontra que a Fran&ccedil;a deva pagar a Roma<br \/>\n    a supradita quantia: nunca a pode encontrar. Falei a um jesu&iacute;ta: respondeu-me<br \/>\n    que tal imposto fora lan&ccedil;ado por S. Pedro sobre as G&aacute;lias, logo<br \/>\n    no primeiro ano em que foi a Roma; e como eu duvidava que S. Pedro tivesse<br \/>\n    feito tal viagem, o jesu&iacute;ta convenceu-me, dizendo que ainda se v&ecirc;em<br \/>\n    em Roma as chaves do Para&iacute;so que ele carregava sempre &agrave; cinta.<br \/>\n    &#8220;&Eacute; verdade &#8211; disse-me ele &#8211; que nenhum autor can&ocirc;nico<br \/>\n    fala da tal viagem desse Sim&atilde;o Barjonas; mas temos uma bela carta dele,<br \/>\n    datada de Babil&ocirc;nia: ora, certamente Babil&ocirc;nia quer dizer Roma;<br \/>\n    deveis, pois, dinheiro ao Papa, quando casais com as vossas primas.&#8221;<br \/>\n    Confesso que fiquei impressionado com a for&ccedil;a desse argumento.<\/p>\n<p><strong>&sect; XIV<\/strong><\/p>\n<p> Tenho um velho parente que serviu o rei durante cinq&uuml;enta e dois anos.<br \/>\n    Retirou-se para a alta Als&aacute;cia, onde possui uma pequena terra que cultiva,<br \/>\n    na diocese de Poventru. Quis um dia dar a &uacute;ltima lavra a seu campo;<br \/>\n    a esta&ccedil;&atilde;o ia avan&ccedil;ada, o servi&ccedil;o urgia. O. empregados<br \/>\n    recusaram-se, dando como motivo ser aquele o dia de Santa B&aacute;rbara,<br \/>\n    a santa mais festejada em Poventru.<\/p>\n<p> &#8212; Mas meus amigos &#8211; observou-lhes meu parente. &#8211; j&aacute;<br \/>\n    estivestes na missa em honra de B&aacute;rbara, destes a B&aacute;rbara o<br \/>\n    que lhe pertence, dai-me a mim o que me deveis: cultivai meu campo em vez<br \/>\n    de ir &agrave; taverna; Santa B&aacute;rbara ordena acaso que a gente se embriague<br \/>\n    para lhe prestar honras e que me falte trigo este ano? <br \/>\n    &#8212; Senhor &#8211; disse-lhe o capataz, &#8211; bem sabeis que perderia<br \/>\n    minh&#8217;alma se trabalhasse num dia santo; Santa B&aacute;rbara &eacute;<br \/>\n    a maior santa do Para&iacute;so; ela gravou o sinal da cruz em uma coluna<br \/>\n    de m&aacute;rmore, com a ponta do dedo; e, com o mesmo dedo e com o mesmo<br \/>\n    sinal, fez cair todos os dentes a um cachorro que lhe mordera as n&aacute;degas:<br \/>\n    n&atilde;o trabalharei no dia de Santa B&aacute;rbara.<\/p>\n<p> Meu parente mandou procurar trabalhadores luteranos, e seu campo foi cultivado.<br \/>\n    O bispo de Poventru excomungou-o. Meu parente apelou do abuso; .0 processo<br \/>\n    ainda n&atilde;o foi julgado. Ningu&eacute;m por certo est&aacute; mais persuadido<br \/>\n    de que o meu parente de que cumpre venerar os santos, mas acha tamb&eacute;m<br \/>\n    que &eacute; preciso cultivar a terra.<\/p>\n<p> Suponho que haja em Fran&ccedil;a cerca de cinco milh&otilde;es de oper&aacute;rios,<br \/>\n    simples trabalhadores ou artes&atilde;os, que ganham cada um, em m&eacute;dia,<br \/>\n    vinte &#8220;sous&#8221; por dia, que s&atilde;o devotamente for&ccedil;ados<br \/>\n    a nada ganhar durante trinta dias do ano, n&atilde;o contando os domingos;<br \/>\n    isso importa em cento e cinq&uuml;enta milh&otilde;es a menos na circula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e cento e cinq&uuml;enta milh&otilde;es a menos em m&atilde;o de obra. Que<br \/>\n    prodigiosa superioridade n&atilde;o devem ter sobre n&oacute;s os reinos vizinhos,<br \/>\n    que n&atilde;o possuem nem Santa B&aacute;rbara nem arcebispo de Poventru!<br \/>\n    Respondiam a esta obje&ccedil;&atilde;o que as tabernas abertas nos dias santos<br \/>\n    d&atilde;o muito lucro. Meu parente concordava, mas pretendia que era uma<br \/>\n    leve indeniza&ccedil;&atilde;o e que, por outro lado, se se pode trabalhar<br \/>\n    ap&oacute;s a missa, pode-se muito bem ir &agrave; taberna depois do trabalho.<br \/>\n    Sustenta que &eacute; um assunto puramente da al&ccedil;ada da policia, e<br \/>\n    nada tem de episcopal; sustenta que vale mais lavrar do que embriagar-se.<br \/>\n    Tenho muito medo de que ele perca o processo.&raquo;<\/p>\n<p><strong>&sect; XV<\/strong><\/p>\n<p> Faz alguns anos, viajando eu pela Borgonha, em companhia do sr. Evrard,<br \/>\n    que todos v&oacute;s conheceis, vimos um vasto pal&aacute;cio em constru&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Perguntei a que pr&iacute;ncipe pertencia. Respondeu-me um pedreiro que pertencia<br \/>\n    ao senhor abade de Citeaux; que a constru&ccedil;&atilde;o fora or&ccedil;ada<br \/>\n    em um milh&atilde;o e setecentas mil libras, mas que provavelmente custaria<br \/>\n    muito mais.<\/p>\n<p> Aben&ccedil;oei a Deus que pusera seu servidor em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de erguer t&atilde;o belo monumento e de espalhar tanto dinheiro pelo pa&iacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; brincando &#8211; disse o senhor Evrard. &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; abomin&aacute;vel que a ociosidade seja recompensada com duzentas<br \/>\n    e cinq&uuml;enta mil libras de renda, e que a abnega&ccedil;&atilde;o de um<br \/>\n    pobre cura de campanha seja punida com uma c&ocirc;ngrua de cem escudos! N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; essa desigualdade a coisa mais injusta e odiosa do mundo? Que suceder&aacute;<br \/>\n    ao Estado quando um monge for alojado num pal&aacute;cio de dois milh&otilde;es?<br \/>\n    Vinte fam&iacute;lias de pobres oficiais, que compartilhassem desses dois<br \/>\n    milh&otilde;es, teriam cada qual uma fortuna decente e dariam ao rei novos<br \/>\n    oficiais. Os monges, que s&atilde;o hoje s&uacute;ditos in&uacute;teis de<br \/>\n    um dos seus, por eles eleito, se tornariam membros do Estado, ao passo que<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o mais do que cancros que o corroem.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor vai muito longe e muito depressa &#8211; respondi eu, &#8211;<br \/>\n    tenha paci&ecirc;ncia: o que me diz acontecer&aacute; certamente daqui a duzentos<br \/>\n    ou trezentos anos.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; precisamente porque s&oacute; acontecer&aacute; dentro<br \/>\n    de dois ou tr&ecirc;s s&eacute;culos, que eu perco toda paci&ecirc;ncia; estou<br \/>\n    cansado de todos os abusos a que assisto: parece-me que marcho nos deserto,<br \/>\n    da L&iacute;bia, onde o nosso sangue &eacute; sugado por insetos quando os<br \/>\n    le&otilde;es n&atilde;o nos devoram. &raquo; <br \/>\n    &#8212; Eu tinha &#8211; continuou ele &#8211; uma irm&atilde; bastante imbecil<br \/>\n    para ser jansenista de boa-f&eacute;, e n&atilde;o por esp&iacute;rito partid&aacute;rio.<br \/>\n    A bela aventura dos certificados de confiss&atilde;o a fez morrer de desespero.<br \/>\n    Meu irm&atilde;o tinha um processo que fora ganho em primeira inst&acirc;ncia<br \/>\n    e de que dependia a sua fortuna. N&atilde;o sei como aconteceu, mas os juizes<br \/>\n    pararam de distribuir justi&ccedil;a, e o meu irm&atilde;o ficou arruinado.<br \/>\n    Tenho um velho tio crivado de ferimentos, que transportava seus m&oacute;veis<br \/>\n    e baixela de uma prov&iacute;ncia a outra; comiss&aacute;rios expertos apreenderam<br \/>\n    tudo, sob o pretexto do n&atilde;o preenchimento de uma pequena formalidade;<br \/>\n    meu tio n&atilde;o pode pagar os tr&ecirc;s vig&eacute;simos, e morreu na<br \/>\n    pris&atilde;o. &raquo; <br \/>\n    O sr. Evrard contou-me aventuras desse g&ecirc;nero durante duas horas inteiras.<\/p>\n<p> &#8212; Meu caro senhor Evrard, passei por muito piores que o senhor; os<br \/>\n    homens s&atilde;o todos a mesma coisa, de um extremo a outro do mundo; supomos<br \/>\n    que s&oacute; existem abusos em nossa terra; somos os dois como Astolphe e<br \/>\n    Joconde que pensavam a princ&iacute;pio que s&oacute; as suas mulheres eram<br \/>\n    infi&eacute;is; puseram-se a viajar, e encontraram por toda parte gente da<br \/>\n    sua confraria.<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8211; disse o Sr. Evrard, &#8211; mas tiveram o prazer de<br \/>\n    devolver por toda parte o que generosamente lhes haviam emprestado em casa.<\/p>\n<p> &#8212; Pois trate &#8211; disse-lhe eu &#8211; de ser apenas durante tr&ecirc;s<br \/>\n    anos diretor de&#8230; ou de&#8230; ou de&#8230; e o senhor se vingar&aacute; com usura<br \/>\n    <br \/>\n    O sr. Evrard acreditou-me; &eacute; agora em Fran&ccedil;a o homem que rouba<br \/>\n    ao rei, ao Estado e aos particulares da maneira mais nobre, que tem o melhor<br \/>\n    passadio e que julga mais convencidamente uma nova pe&ccedil;a de teatro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: O Branco e o Preto Jeannot e Colin Pot-Pourri Voltaire Apresenta&ccedil;&atilde;o Apresentamos tr&ecirc;s dentre os mais conhecidos contos de Voltaire. S&atilde;o textos cr&iacute;ticos mas n&atilde;o t&atilde;o ir&ocirc;nicos e sarc&aacute;sticos como os de outras obras. 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