{"id":120037,"date":"2017-04-19T10:33:28","date_gmt":"2017-04-19T12:33:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120037"},"modified":"2017-04-19T10:33:28","modified_gmt":"2017-04-19T12:33:28","slug":"a-princesa-de-babilonia-1768","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-princesa-de-babilonia-1768","title":{"rendered":"A Princesa de Babil\u00f4nia (1768)"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"454\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n            <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t  <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Voltaire<\/h2>\n<p><strong>Apresenta&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p> &#8220;A princesa de Babil&ocirc;nia&#8221; &eacute; uma novela de leitura<br \/>\n    agrad&aacute;vel, al&eacute;m de extremamente instrutiva.<\/p>\n<p> Voltaire apresenta, concomitantemente: amor ing&ecirc;nuo e puro, amor carnal,<br \/>\n    fidelidade e trai&ccedil;&atilde;o, amizade, &oacute;dio, vingan&ccedil;a,<br \/>\n    inveja, prazer e dor, guerras, mortes, ressurrei&ccedil;&atilde;o, afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e respeito pelos animais.<\/p>\n<p> O jovem her&oacute;i Amazam se apaixona por Formosante, a princesa da Babil&ocirc;nia.<br \/>\n    Julgando-se tra&iacute;do resolve correr o mundo e Formosante sai em busca<br \/>\n    dele para desfazer o equ&iacute;voco e comprovar sua fidelidade. &Eacute;<br \/>\n    o recurso que Voltaire emprega para descrever os costumes e institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de in&uacute;meras na&ccedil;&otilde;es e culturas da antig&uuml;idade e,<br \/>\n    como sempre, critic&aacute;-las com ironia e acidez.<\/p>\n<p> O autor, nesta obra, &eacute; um pouco parcimonioso em suas irrever&ecirc;ncias,<br \/>\n    mas n&atilde;o deixa de ser c&aacute;ustico algumas vezes.<\/p>\n<p> Sobre as batalhas, t&atilde;o freq&uuml;entes na antig&uuml;idade como hoje,<br \/>\n    Voltaire &eacute; incisivo: <\/p>\n<p> Os homens que comem carne e tomam beberagens fortes t&ecirc;m todos um sangue<br \/>\n    azedo e adusto, que os torna loucos de mil maneiras diferentes. Sua principal<br \/>\n    dem&ecirc;ncia se manifesta na f&uacute;ria de derramar o sangue de seus irm&atilde;os<br \/>\n    e devastar terras f&eacute;rteis, para reinarem sobre cemit&eacute;rios. <br \/>\n    A respeito da ressurrei&ccedil;&atilde;o, tema que Voltaire tratava com desd&eacute;m,<br \/>\n    aqui fala com uma profundidade e percuci&ecirc;ncia dignas de medita&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p> &#8212; A ressurrei&ccedil;&atilde;o, Alteza &#8211; disse-lhe a f&ecirc;nix,<br \/>\n    &#8211; &eacute; a coisa mais simples deste mundo. N&atilde;o &eacute; mais<br \/>\n    surpreendente nascer duas vezes do que uma. <\/p>\n<p>Tudo &eacute; ressurrei&ccedil;&atilde;o no mundo; as lagartas ressuscitam<br \/>\n    em borboletas, uma semente ressuscita em &aacute;rvore; todos os animais,<br \/>\n    sepultados na terra, ressuscitam em ervas, em plantas, e alimentam outros<br \/>\n    animais, de que v&atilde;o constituir em breve uma parte da subst&acirc;ncia:<br \/>\n    todas as part&iacute;culas que compunham os corpos s&atilde;o transformadas<br \/>\n    em diferentes seres. &Eacute; verdade que sou o &uacute;nico a quem o poderoso<br \/>\n    Orosmade concedeu a gra&ccedil;a de ressuscitar na sua pr&oacute;pria natureza.\n  <\/p>\n<p> A mesma f&ecirc;nix demonstra qu&atilde;o rid&iacute;cula &eacute; a pretens&atilde;o<br \/>\n    humana de dominar o conhecimento sobre a origem dos homens e, enfim, de todas<br \/>\n    as coisas: <\/p>\n<p> &#8212; E tu &#8211; perguntou o rei da B&eacute;tica &agrave; f&ecirc;nix,<br \/>\n    &#8211; que pensas a respeito?<\/p>\n<p> &#8212; Sire &#8211; respondeu a f&ecirc;nix, &#8211; sou ainda muito jovem<br \/>\n    para estar informada da antig&uuml;idade. N&atilde;o vivi mais que uns vinte<br \/>\n    e sete mil anos; mas meu pai, que viveu cinco vezes essa idade, me dizia haver<br \/>\n    sabido, por meu av&ocirc;, que as regi&otilde;es do Oriente sempre foram mais<br \/>\n    povoadas e mais ricas que as outras. Sabia, por seus antepassados, que as<br \/>\n    gera&ccedil;&otilde;es de todos os animais tinham come&ccedil;ado &agrave;s<br \/>\n    margens do Ganges. Quanto a mim, n&atilde;o tenho a vaidade de ser dessa opini&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o posso acreditar que as raposas de Albion, as marmotas dos Alpes<br \/>\n    e os lobos das G&aacute;lias venham do meu pa&iacute;s; da mesma forma, n&atilde;o<br \/>\n    creio que os pinheiros e os carvalhos das vossas regi&otilde;es descendam<br \/>\n    das palmeiras e dos coqueiros da &Iacute;ndia.<br \/>\n    &#8212; Mas de onde vimos ent&atilde;o? &#8211; indagou o rei.<\/p>\n<p> &#8212; Nada sei &#8211; respondeu a f&ecirc;nix. &#8211; Desejaria apenas<br \/>\n    saber para onde poder&atilde;o ir a bela princesa da Babil&ocirc;nia e o meu<br \/>\n    querido amigo Amazan. <br \/>\n    Insistindo sobre a fragilidade do conhecimento humano, Voltaire, pelas palavras<br \/>\n    de milorde &#8220;What-then&#8221; (milorde Que Importa), habitante de Albion<br \/>\n    (Inglaterra), afirma: <\/p>\n<p> Com o mesmo esp&iacute;rito que nos fez conhecer e sustentar os direitos<br \/>\n    da natureza humana, elevamos as ci&ecirc;ncias ao mais alto ponto a que possam<br \/>\n    chegar entre os homens. Os vossos eg&iacute;pcios, que passam por t&atilde;o<br \/>\n    grandes mec&acirc;nicos; os vossos hindus, a quem julgam t&atilde;o grandes<br \/>\n    fil&oacute;sofos; os vossos babil&ocirc;nios, que se vangloriam de haver observado<br \/>\n    os astros durante quatrocentos e trinta mil anos; os gregos, que escreveram<br \/>\n    tantas frases e t&atilde;o poucas coisas, n&atilde;o sabem precisamente nada<br \/>\n    em compara&ccedil;&atilde;o com os nossos menores colegiais, que estudaram<br \/>\n    as descobertas de nossos grandes mestres. Arrancamos mais segredos &agrave;<br \/>\n    natureza no espa&ccedil;o de cem anos do que os descobriu o g&ecirc;nero humano<br \/>\n    na multid&atilde;o dos s&eacute;culos. <\/p>\n<p> Voltaire, finalmente, destila todo o amargor que sentia pelos ataques e<br \/>\n    persegui&ccedil;&otilde;es que sofreu, pedindo a prote&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    Musas: <\/p>\n<p> Nem por isso, &oacute; Musas, me havereis de proteger menos. Impedi que<br \/>\n    os continuadores temer&aacute;rios estraguem com as suas f&aacute;bulas as<br \/>\n    verdades que ensinei aos mortais nesta fiel narrativa, assim como ousaram<br \/>\n    falsificar C&acirc;ndido, o Ing&ecirc;nuo, e as castas aventuras da casta<br \/>\n    Joana que um ex-capuchinho desfigurou em versos dignos dos capuchinhos, em<br \/>\n    edi&ccedil;&otilde;es batavas.<\/p>\n<p> &Oacute; Musas, imponde sil&ecirc;ncio ao detest&aacute;vel Coger, professor<br \/>\n    de parolagem no col&eacute;gio Mazarino, que n&atilde;o ficou contente com<br \/>\n    os discursos morais de Belis&aacute;rio e do imperador Justiniano e escreveu<br \/>\n    infames libelos difamat&oacute;rios contra esses dois grandes homens.<\/p>\n<p> Musas, filhas do c&eacute;u, vosso inimigo Larcher ainda faz mais: estende-se<br \/>\n    em elogios &agrave; pederastia; ousa dizer que todos os bambinos do meu pa&iacute;s<br \/>\n    s&atilde;o sujeitos a essa inf&acirc;mia. Pensa salvar-se aumentando o n&uacute;mero<br \/>\n    dos culpados.<br \/>\n    Nobres e castas Musas, que detestais igualmente o pedantismo e a pederastia,<br \/>\n    protegei-me contra mestre Larcher! <\/p>\n<p> &Eacute; mais um trabalho extraordin&aacute;rio de um dos maiores pensadores<br \/>\n    que a Hist&oacute;ria j&aacute; registrou.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>N&eacute;lson Jahr Garcia<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"1\">CAP&Iacute;TULO I<\/a><\/h4>\n<p> O velho Belus, rei de Babil&ocirc;nia, julgava-se o primeiro homem do mundo,<br \/>\n    pois todos os seus cortes&atilde;os lho diziam e os seus histori&oacute;grafos<br \/>\n    lhe provavam. O que poderia desculpar-lhe esse rid&iacute;culo era que, com<br \/>\n    efeito, seus predecessores haviam constru&iacute;do Babil&ocirc;nia mais de<br \/>\n    trinta mil anos antes, mas ele a havia embelezado. Sabe-se que o seu pal&aacute;cio<br \/>\n    e o seu parque, situados a algumas parasangas de Babil&ocirc;nia, se estendiam<br \/>\n    entre o Eufrates e o Tigre, que banhavam aquelas ribas encantadas. Sua vasta<br \/>\n    resid&ecirc;ncia, de tr&ecirc;s mil passos de fachada, elevava-se at&eacute;<br \/>\n    as nuvens. A plataforma era cercada de uma balaustrada de m&aacute;rmore branco<br \/>\n    de cinq&uuml;enta p&eacute;s de altura que sustentava as est&aacute;tuas colossais<br \/>\n    de todos os reis e de todos os grandes homens do Imp&eacute;rio. Essa plataforma,<br \/>\n    composta de duas ordena de tijolos cobertos de densa camada de chumbo, continha<br \/>\n    terra numa espessura de doze p&eacute;s; e sobre essa terra havia erguido<br \/>\n    florestas de oliveiras, laranjeiras, limoeiros, palmeiras, cravos e caneleiras,<br \/>\n    que formavam alamedas impenetr&aacute;veis aos raios do sol.<\/p>\n<p> As &aacute;guas do Eufrates, elevadas por bombas em cem colunas ocas, vinham<br \/>\n    at&eacute; esses jardins encher vastos tanques de m&aacute;rmore e, retombando<br \/>\n    por outros canais, iam formar no parque cascatas de seis mil p&eacute;s e<br \/>\n    cem mil repuxos cuja altura mal se podia perceber: voltavam em seguida para<br \/>\n    o Eufrates, de onde provinham. Os jardins de Sem&iacute;ramis, que espantaram<br \/>\n    a &Aacute;sia v&aacute;rios s&eacute;culos depois, n&atilde;o passavam de<br \/>\n    uma fraca imita&ccedil;&atilde;o dessas antigas maravilhas; pois, no tempo<br \/>\n    de Sem&iacute;ramis, tudo come&ccedil;ava a degenerar entre os homens e as<br \/>\n    mulheres.<\/p>\n<p> Mas o que havia de mais admir&aacute;vel em Babil&ocirc;nia, o que eclipsava<br \/>\n    tudo o mais, era a filha &uacute;nica do rei chamada Formosante. Foi segundo<br \/>\n    os seus retratos e est&aacute;tuas que, s&eacute;culos ap&oacute;s, Prax&iacute;teles<br \/>\n    esculpiu a sua Afrodite e aquela a que chamaram a V&ecirc;nus das belas n&aacute;degas.<br \/>\n    Que diferen&ccedil;a, &oacute; c&eacute;us, do original para as c&oacute;pias!<br \/>\n    De modo que Belus era mais orgulhoso da sua filha que do seu reino. Tinha<br \/>\n    esta dezoito anos: era preciso um esposo digno dela; mas onde encontr&aacute;-lo?<br \/>\n    Ordenara um antigo Or&aacute;culo que Formosante s&oacute; poderia pertencer<br \/>\n    &agrave;quele que retesasse o arco de Nemrod. Esse Nemrod, o grande ca&ccedil;ador<br \/>\n    perante Deus, deixara um arco de sete p&eacute;s babil&ocirc;nicos de altura,<br \/>\n    de um &eacute;bano mais duro que o ferro do monte C&aacute;ucaso que se trabalha<br \/>\n    nas forjas de Derbente; e nenhum mortal depois de Nemrod pudera distender<br \/>\n    esse arco maravilhoso.<\/p>\n<p> Fora ainda dito que o bra&ccedil;o que distendesse esse arco mataria o le&atilde;o<br \/>\n    mais terr&iacute;vel e perigoso que fosse largado no circo de Babil&ocirc;nia.<br \/>\n    N&atilde;o era tudo: o lan&ccedil;ador do arco, o vencedor do le&atilde;o,<br \/>\n    devia abater a todos os seus rivais; mas devia principalmente ter muita intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    ser o mais magn&iacute;fico dos homens, o mais virtuoso, e possuir a coisa<br \/>\n    mais rara que existisse no universo inteiro.<\/p>\n<p> Apresentaram-se tr&ecirc;s reis que se atreveram a disputar Formosante:<br \/>\n    o fara&oacute; do Egito, o x&aacute; das &Iacute;ndias e o grande c&atilde;<br \/>\n    dos citas. Belus marcou o dia e o local do combate, que era no extremo de<br \/>\n    seu parque, no vasto espa&ccedil;o limitado pelas &aacute;guas do Eufrates<br \/>\n    e do Tigre reunidos. Ergueram em redor da li&ccedil;a um anfiteatro de m&aacute;rmore<br \/>\n    que podia conter quinhentos mil espectadores. Defronte ao anfiteatro, ficava<br \/>\n    o trono do rei que devia comparecer com Formosante, acompanhada de toda a<br \/>\n    Corte; e &agrave; direita e &agrave; esquerda, entre o trono e o anfiteatro,<br \/>\n    estavam outros tronos e outros assentos para os tr&ecirc;s reis e para todos<br \/>\n    os outros soberanos que tivessem a curiosidade de vir assistir &agrave;quela<br \/>\n    augusta cerim&ocirc;nia.<\/p>\n<p> Em primeiro lugar, chegou o rei do Egito, montando o boi Apis e segurando<br \/>\n    o sistro de Isis. Vinha seguido de dois mil sacerdotes vestidos de t&uacute;nicas<br \/>\n    de linho mais brancas que a neve, de dois mil eunucos, de dois mil m&aacute;gicos<br \/>\n    e de dois mil guerreiros.<\/p>\n<p> Depois chegou o rei das &Iacute;ndias, num carro tirado por doze elefantes.<br \/>\n    Tinha um s&eacute;quito ainda mais numeroso e mais brilhante que o do fara&oacute;<br \/>\n    do Egito.<\/p>\n<p> O &uacute;ltimo que apareceu foi o rei dos citas. N&atilde;o tinha junto<br \/>\n    de si sen&atilde;o guerreiros escolhidos, armados de arcos e de flechas. Sua<br \/>\n    montaria era um tigre soberbo que ele domara e que era t&atilde;o alto quanto<br \/>\n    os mais belos cavalos da P&eacute;rsia. O porte desse monarca, imponente e<br \/>\n    majestoso, apagava o de seus rivais; seus bra&ccedil;os nus, t&atilde;o musculosos<br \/>\n    quanto brancos, pareciam j&aacute; retesar o arco de Nemrod.<\/p>\n<p> Os tr&ecirc;s pr&iacute;ncipes se prosternaram primeiro diante de Belus<br \/>\n    e de Formosante.<\/p>\n<p> O rei do Egito ofereceu &agrave; princesa os dois mais belos crocodilos<br \/>\n    do Nilo, dois hipop&oacute;tamos, duas zebras, dois ratos do Egito e duas<br \/>\n    m&uacute;mias, com os livros do grande Hermes, que ele julgava o que havia<br \/>\n    de mais raro sobre a face da terra.<\/p>\n<p> O rei das &Iacute;ndias ofereceu-lhe cem elefantes, que carregavam cada<br \/>\n    um uma torre de madeira dourada, e dep&ocirc;s a seus p&eacute;s o Veidam,<br \/>\n    escrito pela m&atilde;o do pr&oacute;prio Xaca.<\/p>\n<p> O rei dos citas, que n&atilde;o sabia ler nem escrever, apresentou cem cavalos<br \/>\n    de batalha, cobertos de xair&eacute;is e peles de raposas negras.<\/p>\n<p> A princesa baixou os olhos diante de seus pretendentes e inclinou-se com<br \/>\n    uma gra&ccedil;a t&atilde;o modesta quanto nobre.<\/p>\n<p> Belus mandou conduzir os tr&ecirc;s monarcas aos tronos que lhes estavam<br \/>\n    reservados.<\/p>\n<p> &#8212; Quem me dera ter tr&ecirc;s filhas &#8211; disse-lhes, &#8211; e<br \/>\n    eu faria hoje seis pessoas felizes.<\/p>\n<p> Em seguida mandou tirar a sorte, para ver quem primeiro experimentaria o<br \/>\n    arco de Nemrod. Puseram num capacete de ouro os nomes dos tr&ecirc;s pretendentes.<br \/>\n    O do rei do Egito saiu em primeiro lugar; em seguida, o do rei das &Iacute;ndias.<br \/>\n    O rei cita, olhando o arco e os seus rivais, n&atilde;o se queixou de ser<br \/>\n    o terceiro.<\/p>\n<p> Enquanto se preparavam essas brilhantes provas, vinte mil pajens e vinte<br \/>\n    mil raparigas distribu&iacute;am com toda a ordem refrescos aos espectadores.<br \/>\n    Todos confessavam que os deuses s&oacute; haviam institu&iacute;do os reis<br \/>\n    para que dessem festas todos os dias, contanto que fossem variadas; que a<br \/>\n    vida &eacute; demasiado curta para que a empreguemos de outra forma; que os<br \/>\n    processos, as intrigas, a guerra, as disputas dos sacerdotes, que consomem<br \/>\n    a vida humana, s&atilde;o coisas absurdas e horr&iacute;veis; que o homem<br \/>\n    nasceu para a alegria; que n&atilde;o amaria apaixonada e continuamente os<br \/>\n    prazeres se n&atilde;o fora formado para eles; que ess&ecirc;ncia da natureza<br \/>\n    humana &eacute; deleitar-se, e todo o resto &eacute; loucura. Essa excelente<br \/>\n    moral nunca foi desmentida sen&atilde;o pelos fatos.<\/p>\n<p> Quando iam come&ccedil;ar as justas que deviam decidir do destino de Formosante,<br \/>\n    apresentou-se um jovem desconhecido montado num unic&oacute;rnio, acompanhado<br \/>\n    de seu escudeiro em igual montaria, e trazendo ao punho um grande p&aacute;ssaro.<br \/>\n    Os guardas ficaram surpresos ao ver em tal equipagem um vulto que tinha um<br \/>\n    ar de divindade. Era, como depois se disse, o rosto de Adonis sobre o corpo<br \/>\n    de H&eacute;rcules; era a majestade unida &agrave; gra&ccedil;a. Suas sobrancelhas<br \/>\n    negras e seus longos cabelos loiros, combina&ccedil;&atilde;o de beleza desconhecida<br \/>\n    em Babil&ocirc;nia, encantaram a assembl&eacute;ia; todo o anfiteatro ergueu-se<br \/>\n    para melhor o contemplar; todas as mulheres da Corte fixaram nele olhares<br \/>\n    at&ocirc;nitos. A pr&oacute;pria Formosante, que sempre baixava os olhos,<br \/>\n    ergueu-os e enrubesceu; os tr&ecirc;s reis empalideceram; todos os espectadores,<br \/>\n    comparando Formosante com o desconhecido, exclamavam: &#8220;N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    no mundo sen&atilde;o esse jovem que seja t&atilde;o belo como a princesa&#8221;.<\/p>\n<p> Os porteiros, espantados, perguntaram-lhe se ele era rei. O estrangeiro<br \/>\n    respondeu que n&atilde;o tinha essa honra, mas que viera de muito longe, por<br \/>\n    curiosidade, para ver se havia reis que fossem dignos de Formosante. Levaram-no<br \/>\n    para a primeira fila do anfiteatro, a ele, ao seu valete, aos seus dois unic&oacute;rnios<br \/>\n    e ao seu p&aacute;ssaro. O jovem fez uma profunda sauda&ccedil;&atilde;o a<br \/>\n    Belus, &agrave;. sua filha, aos tr&ecirc;s reis e a toda a assembl&eacute;ia.<br \/>\n    Depois acomodou-se, corando. Seus dois unic&oacute;rnios deitaram-se a seus<br \/>\n    p&eacute;s, o seu p&aacute;ssaro pousou-lhe no ombro, e seu valete, que carregava<br \/>\n    um pequeno saco, postou-se a seu lado.<\/p>\n<p> Come&ccedil;aram as provas. Retiraram de seu estojo de ouro o arco de Nemrod.<br \/>\n    O mestre de cerim&ocirc;nias, seguido de cinq&uuml;enta pajens e precedido<br \/>\n    de vinte trombetas, o apresentou ao rei do Egito, que o fez benzer por seus<br \/>\n    sacerdotes; e, tendo-o colocado sobre a cabe&ccedil;a do boi Apis, n&atilde;o<br \/>\n    mais duvidou de alcan&ccedil;ar essa primeira vit&oacute;ria. Desce &agrave;<br \/>\n    arena, experimenta o arco, esgota as suas for&ccedil;as, faz contor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que provocam o riso do anfiteatro e at&eacute; fazem Formosante sorrir.<\/p>\n<p> Aproxima-se dele o seu grande esmoler, e lhe diz:<br \/>\n    &#8212; Que Vossa Majestade renuncie a essas honras v&atilde;s, que n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o mais que as dos m&uacute;sculos e nervos: triunfareis no resto.<br \/>\n    Vencereis o le&atilde;o, pois tendes o sabre de Osiris. A princesa de Babil&ocirc;nia<br \/>\n    deve pertencer ao pr&iacute;ncipe que tenha mais intelig&ecirc;ncia, e j&aacute;<br \/>\n    tendes decifrado enigmas, Deve ela desposar o mais virtuoso, e v&oacute;s<br \/>\n    o sois, pois fostes educado pelos sacerdotes do Egito. O mais generoso deve<br \/>\n    vencer, e v&oacute;s lhe presenteastes os dois mais belos crocodilos e os<br \/>\n    dois mais belos ratos que havia no Delta. Possu&iacute;a o boi Apis e os livros<br \/>\n    de Hermes, que s&atilde;o a coisa mais rara do universo. Ningu&eacute;m vos<br \/>\n    pode disputar Formosante.<\/p>\n<p> &#8212; Tens raz&atilde;o &#8211; disse o rei do Egito, e voltou para o<br \/>\n    trono.<\/p>\n<p> Puseram o arco entre as m&atilde;os do rei das &Iacute;ndias, o qual ficou<br \/>\n    com empolas por quinze dias, e consolou-se pensando que o rei dos citas n&atilde;o<br \/>\n    seria mais feliz do que ele.<\/p>\n<p> O cita manejou o arco por sua vez. Juntava a habilidade &agrave; for&ccedil;a:<br \/>\n    o arco pareceu adquirir alguma elasticidade em suas m&atilde;os; f&ecirc;-lo<br \/>\n    ceder um pouco, mas n&atilde;o conseguiu distend&ecirc;-lo. O anfiteatro,<br \/>\n    a quem o bom aspecto desse pr&iacute;ncipe inspirava favor&aacute;veis inclina&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    lamentou seu pouco sucesso e julgou que a bela princesa jamais se casaria.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o jovem desconhecido desceu de um salto &agrave; arena e, dirigindo-se<br \/>\n    ao rei dos citas:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o se espante Vossa Majestade &#8211; disse-lhe ele &#8211;<br \/>\n    de n&atilde;o haver obtido inteiro sucesso. Esses arcos de &eacute;bano s&atilde;o<br \/>\n    fabricados na minha terra: h&aacute; determinado modo de os manejar. Tendes<br \/>\n    muito mais m&eacute;rito em hav&ecirc;-lo feito ceder do que eu possa ter<br \/>\n    em retes&aacute;-lo. Em seguida tomou uma flecha, ajustou-a na corda, retesou<br \/>\n    o arco de Nemrod e fez voar a flecha muito al&eacute;m das barreiras. Um milh&atilde;o<br \/>\n    de m&atilde;os aplaudiu esse prod&iacute;gio. Babil&ocirc;nia reboou de aclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e todas as mulheres diziam: &#8211; Que felicidade que t&atilde;o belo rapaz<br \/>\n    tenha tanta for&ccedil;a!<br \/>\n    Tirou em seguida do bolso uma l&acirc;mina de marfim, escreveu nela com um<br \/>\n    estilete de ouro, prendeu a chapa de marfim ao arco, e apresentou tudo &agrave;.<br \/>\n    princesa com uma gra&ccedil;a que encantava a todos os assistentes. Depois<br \/>\n    foi modestamente para o seu lugar, entre o seu criado e o seu valete. Babil&ocirc;nia<br \/>\n    inteira estava no auge da surpresa, os tr&ecirc;s reis desconcertados, e o<br \/>\n    desconhecido n&atilde;o parecia aperceber-se de nada disso.<\/p>\n<p> Formosante ainda ficou mais espantada quando leu, na chapa de marfim presa<br \/>\n    ao arco, estes versos em bela linguagem caldaica:<\/p>\n<p> O arco de Nemrod &eacute; o arco da guerra.<\/p>\n<p> Mas o arco do Amor &eacute; o da felicidade:<br \/>\n    Contigo o tens, Princesa. E, na verdade,<br \/>\n    E por isso que o Amor domina toda a terra.<\/p>\n<p> De tr&ecirc;s gloriosos reis, cada qual se presume<br \/>\n    Ser afinal teu &uacute;nico e ditoso rei.<\/p>\n<p> A quem escolher&aacute;s, Princesa? Apenas sei<br \/>\n    Que o universo inteiro h&aacute; de sentir-lhe ci&uacute;me.<\/p>\n<p> Esse pequeno madrigal n&atilde;o incomodou a princesa. Foi criticado por<br \/>\n    alguns senhores da antiga Corte, que disseram que outrora, nos bons tempos,<br \/>\n    teriam comparado Belus ao sol e Formosante &agrave; lua, seu pesco&ccedil;o<br \/>\n    a uma torre e seu colo, a um alqueire de trigo. Disseram que o estrangeiro<br \/>\n    n&atilde;o tinha imagina&ccedil;&atilde;o e que se afastava das regras da<br \/>\n    verdadeira poesia; mas todas as damas acharam os versos mui galantes. Maravilhavam-se<br \/>\n    de que um homem que t&atilde;o bem manejava o arco tivesse tanto talento.<br \/>\n    A dama de honor da princesa disse-lhe:<br \/>\n    &#8212; Quantas qualidades em pura perda! De que servir&aacute; a esse jovem<br \/>\n    o seu esp&iacute;rito e o arco de Belus?<br \/>\n    &#8212; Servir&aacute; para que o admirem &#8211; retrucou a princesa.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; disse a dama de honor entre dentes, &#8211; mais um<br \/>\n    madrigal, e ele ser&aacute; ent&atilde;o amado.<\/p>\n<p> Belus, no entanto, depois de consultar a seus magos, declarou que, visto<br \/>\n    que nenhum dos tr&ecirc;s reis pudera manejar o arco de Nemrod, nem por isso.<br \/>\n    sua filha deveria deixar de casar-se e que pertenceria &agrave;quele que conseguisse<br \/>\n    abater o grande le&atilde;o a que vinham tratando expressamente para isso.<br \/>\n    O rei do Egito, que fora educado com toda a sabedoria do seu pa&iacute;s,<br \/>\n    achou que era muito rid&iacute;culo expor um rei &agrave;s feras para o casar.<br \/>\n    Confessava que a posse de Formosante era um grande pr&ecirc;mio; mas considerava<br \/>\n    que, se o le&atilde;o o estra&ccedil;alhasse, jamais poderia ele desposar<br \/>\n    essa bela babil&ocirc;nia. O rei das &Iacute;ndias foi do mesmo parecer que<br \/>\n    o eg&iacute;pcio; conclu&iacute;ram que o rei de Babil&ocirc;nia estava fazendo<br \/>\n    pouco de ambos; que era preciso mandar vir ex&eacute;rcitos para o punirem;<br \/>\n    que tinham bastante s&uacute;ditos que se considerariam muito honrados de<br \/>\n    morrer a servi&ccedil;o de seus senhores, sem que isso custasse um fio de<br \/>\n    cabelo &agrave;s suas sagradas cabe&ccedil;as; que facilmente destronariam<br \/>\n    o rei da Babil&ocirc;nia e em seguida tirariam &agrave; sorte a bela Formosante.<\/p>\n<p> Feito esse acordo, os dois reis despacharam, cada um para o seu pa&iacute;s,<br \/>\n    uma ordem expressa de reunir um ex&eacute;rcito de trezentos mil homens, a<br \/>\n    fim de raptar Formosante.<\/p>\n<p> No entretanto, o rei dos citas desceu sozinho &agrave; arena, de cimitarra<br \/>\n    em punho. N&atilde;o estava perdidamente arrebatado pelos encantos de Formosante;<br \/>\n    at&eacute; ent&atilde;o fora a gl&oacute;ria a sua &uacute;nica paix&atilde;o;<br \/>\n    ela o conduzira at&eacute; Babil&ocirc;nia. Queria mostrar que, se os reis<br \/>\n    da &Iacute;ndia e do Egito eram bastante prudentes para que se comprometessem<br \/>\n    com feras, era ele bastante corajoso para n&atilde;o desdenhar esse combate,<br \/>\n    e que repararia a honra do diadema. Sua rara coragem n&atilde;o lhe permitiu<br \/>\n    ao menos que se servisse do seu tigre. Avan&ccedil;a sozinho, levemente armado,<br \/>\n    com um capacete de a&ccedil;o guarnecido de ouro, ornado de tr&ecirc;s caudas<br \/>\n    de cavalo brancas como a neve.<\/p>\n<p> Largam contra ele o maior le&atilde;o que jamais se criou nas montanhas<br \/>\n    do Anti-L&iacute;bano. Suas terr&iacute;veis garras pareciam capazes de estra&ccedil;alhar<br \/>\n    os tr&ecirc;s reis ao mesmo tempo, e sua vasta goela de os devorar. Seus horrendos<br \/>\n    rugidos faziam reboar o anfiteatro. Os dois feros campe&otilde;es precipitam-se<br \/>\n    um contra o outro a passo r&aacute;pido. O corajoso cita mergulha a espada<br \/>\n    na boca do le&atilde;o; mas a l&acirc;mina, encontrando um desses espessos<br \/>\n    dentes que nada pode atravessar, quebra-se em estilha&ccedil;os, e o monstro<br \/>\n    das florestas, furioso com o seu ferimento, j&aacute; imprimia as unhas sangrentas<br \/>\n    nos flancos do monarca.<\/p>\n<p> O jovem desconhecido, penalizado com o perigo de t&atilde;o bravo pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    lan&ccedil;a-se na arena mais r&aacute;pido que um rel&acirc;mpago; corta<br \/>\n    a cabe&ccedil;a do le&atilde;o com a mesma destreza com que, em nossos carross&eacute;is,<br \/>\n    juvenis cavaleiros arrebatam cabe&ccedil;as de mouros ou an&eacute;is.<\/p>\n<p> Depois, tirando uma pequena caixa, apresenta-a ao rei cita, dizendo-lhe:<br \/>\n    &#8212; Vossa Majestade encontrar&aacute; nesta caixinha o verdadeiro ditamno,<br \/>\n    que cresce na minha terra. Vossos gloriosos ferimentos ficar&atilde;o curados<br \/>\n    num instante. S&oacute; o acaso vos impediu de triunfar do le&atilde;o; nem<br \/>\n    por isso &eacute; menos admir&aacute;vel a vossa coragem.<\/p>\n<p> O rei cita, mais sens&iacute;vel ao reconhecimento que ao ci&uacute;me,<br \/>\n    agradeceu a seu salvador e, depois de t&ecirc;-lo abra&ccedil;ado efusivamente,<br \/>\n    recolheu-se para aplicar o ditamno nos ferimentos.<\/p>\n<p> O desconhecido entregou a cabe&ccedil;a do le&atilde;o a seu valete; este,<br \/>\n    depois de a lavar na grande fonte abaixo do anfiteatro e de lhe escorrer todo<br \/>\n    o sangue, tirou um ferro de seu pequeno saco, arrancou os quarenta dentes<br \/>\n    do le&atilde;o, e p&oacute;s em seu lugar quarenta diamantes de igual tamanho.<\/p>\n<p> Seu senhor, com a costumeira mod&eacute;stia, voltou para o seu lugar; e<br \/>\n    entregou a cabe&ccedil;a do le&atilde;o ao p&aacute;ssaro.<\/p>\n<p> &#8212; Belo p&aacute;ssaro &#8211; disse ele, &#8211; vai depor aos p&eacute;s<br \/>\n    de Formosante esta singela homenagem.<\/p>\n<p> O p&aacute;ssaro voa, carregando numa das garras o terr&iacute;vel trof&eacute;u;<br \/>\n    apresenta-o &agrave; princesa, baixando humildemente o pesco&ccedil;o e prosternando-se<br \/>\n    ante ela. Os quarenta brilhantes deslumbraram todos os olhos. Ainda n&atilde;o<br \/>\n    se conhecia tal magnific&ecirc;ncia na soberba Babil&ocirc;nia: a esmeralda,<br \/>\n    o top&aacute;zio, a safira, o piropo ainda eram considerados como os mais<br \/>\n    preciosos ornamentos. Belus e toda a Corte estavam cheios de admira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mais ainda os surpreendeu o p&aacute;ssaro que oferecia aquele presente. Era<br \/>\n    do talhe de uma &aacute;guia, mas os seus olhos eram t&atilde;o suaves e ternos<br \/>\n    quanto os da &aacute;guia s&atilde;o altivos e amea&ccedil;adores. Seu bico<br \/>\n    era cor-de-rosa e parecia ter algo da linda boca de Formosante. Seu pesco&ccedil;o<br \/>\n    reunia todas as cores do arco-&iacute;ris, por&eacute;m mais vivas e brilhantes.<br \/>\n    Em nuan&ccedil;as infinitas, brilhava-lhe o ouro na plumagem. Seus p&eacute;s<br \/>\n    pareciam uma mescla de prata e p&uacute;rpura; e a cauda dos belos p&aacute;ssaros<br \/>\n    que atrelaram depois ao carro de Juno n&atilde;o tinham compara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com a sua. A aten&ccedil;&atilde;o, a curiosidade, o espanto, o &ecirc;xtase<br \/>\n    de toda a Corte dividiam-se entre os quarenta diamantes e o p&aacute;ssaro.<br \/>\n    Pousara este na balaustrada, entre Belus e a sua filha Formosante; ela falava-lhe,<br \/>\n    acariciava-o, beijava-o. Ele parecia receber suas car&iacute;cias com um prazer<br \/>\n    mesclado de respeito. Quando a princesa lhe dava beijos, o p&aacute;ssaro<br \/>\n    lhos devolvia e olhava-a em seguida ternamente. Recebia dela biscoitos e pistaches,<br \/>\n    que apanhava com a sua pata purp&uacute;rea e argentada e levava ao bico com<br \/>\n    inexprim&iacute;vel gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Belus, que considerava atentamente os diamantes, achava que toda uma das<br \/>\n    suas prov&iacute;ncias mal daria para pagar t&atilde;o rico presente. Mandou<br \/>\n    que preparassem para o desconhecido oferendas ainda mais magn&iacute;ficas<br \/>\n    do que as que estavam destinadas aos tr&ecirc;s monarcas. &#8220;Esse jovem<br \/>\n    &#8211; dizia ele consigo &#8211; deve ser filho do rei da China, ou dessa<br \/>\n    parte do mundo que chamam Europa, de que ouvi falar, ou da &Aacute;frica que<br \/>\n    &eacute;, dizem, vizinha do reino do Egito&#8221;.<\/p>\n<p> Mandou imediatamente o escudeiro-mor cumprimentar o desconhecido e perguntar-lhe<br \/>\n    se era ele soberano de algum daqueles imp&eacute;rios e por que, possuindo<br \/>\n    t&atilde;o espantosos tesouros, viera apenas com um valete e com um pequeno<br \/>\n    saco.<\/p>\n<p> Enquanto o escudeiro-mor avan&ccedil;ava pelo anfiteatro para desincumbir-se<br \/>\n    da sua miss&atilde;o, chegou outro valete montado num unic&oacute;rnio, e<br \/>\n    que assim se dirigiu ao jovem:<br \/>\n    &#8212; Ormar, vosso pai est&aacute; para morrer, e eu vim avisar-vos.<\/p>\n<p> O desconhecido ergueu os olhos ao c&eacute;u, derramou algumas l&aacute;grimas<br \/>\n    e s&oacute; pronunciou esta palavra:<br \/>\n    &#8212; Partamos.<\/p>\n<p> O escudeiro-mor, depois de haver apresentado os cumprimentos de Belus ao<br \/>\n    vencedor do le&atilde;o, ao doador dos quarenta diamantes, ao dono do belo<br \/>\n    p&aacute;ssaro, perguntou ao valete de que reino era soberano o pai daquele<br \/>\n    jovem her&oacute;i.<\/p>\n<p> O valete respondeu:<br \/>\n    &#8212; Seu pai &eacute; um velho pastor que &eacute; muito estimado no cant&atilde;o.<\/p>\n<p> Durante esse curto di&aacute;logo, o desconhecido j&aacute; montara no seu<br \/>\n    unic&oacute;rnio. Disse ao escudeiro-mor:<br \/>\n    &#8212; Senhor, dignai-vos p&ocirc;r-me aos p&eacute;s de Belus e de sua filha.<br \/>\n    Ouso suplicar &agrave; princesa que tenha o maior cuidado com o p&aacute;ssaro<br \/>\n    que eu lhe deixo; ele &eacute; &uacute;nico como ela.<\/p>\n<p> Dizendo tais palavras, partiu como um rel&acirc;mpago; os dois valetes o<br \/>\n    seguiram; e perderam-nos de vista.<\/p>\n<p> Formosante n&atilde;o p&ocirc;de deixar de soltar um grande grito. O p&aacute;ssaro,<br \/>\n    voltando-se para o anfiteatro onde estivera sentado o seu dono, pareceu muito<br \/>\n    aflito de n&atilde;o mais o ver. Depois, fitando fixamente a princesa e esfregando<br \/>\n    suavemente o bico na sua linda m&atilde;o, pareceu significar-lhe que se votava<br \/>\n    a seu servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> Belus, mais espantado do que nunca, ao saber que aquele jovem t&atilde;o<br \/>\n    extraordin&aacute;rio era filho de um pastor, n&atilde;o p&ocirc;de acredit&aacute;-lo.<br \/>\n    Mandou que os seguissem; mas logo lhe vieram dizer que os unic&oacute;rnios<br \/>\n    nos quais corriam aqueles tr&ecirc;s homens n&atilde;o podiam ser alcan&ccedil;ados<br \/>\n    e que, pelo galope em que iam, deviam fazer cem l&eacute;guas por dia.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">CAP&Iacute;TULO II<\/a><\/h4>\n<p> Todos discutiam aquele estranho caso e perdiam-se em vis conjeturas. Como<br \/>\n    &eacute; que o filho de um pastor pode presentear quarenta enormes diamantes?<br \/>\n    Por que anda montado num unic&oacute;rnio? Ningu&eacute;m atinava com coisa<br \/>\n    alguma, e Formosante, acariciando o seu p&aacute;ssaro, achava-se mergulhada<br \/>\n    em profunda cisma.<\/p>\n<p> A princesa Ald&eacute;ia, sua prima em segundo grau, que era muito bem feita<br \/>\n    e quase t&atilde;o bela quanto Formosante, lhe disse:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o sei, minha prima, se esse jovem semideus &eacute; filho<br \/>\n    de um pastor; mas parece-me que preencheu todas as condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para o casamento. Manobrou o arco de Nemrod, venceu o le&atilde;o, tem bastante<br \/>\n    talento, pois te comp&ocirc;s um lindo improviso. Depois dos quarenta enormes<br \/>\n    diamantes que te deu, n&atilde;o podes negar que seja o mais generoso dos<br \/>\n    homens. Possu&iacute;a, com o seu p&aacute;ssaro, o que h&aacute; de mais<br \/>\n    raro na face da terra. Sua virtude n&atilde;o tem igual, pois, podendo permanecer<br \/>\n    perto de ti, partiu sem hesita&ccedil;&atilde;o logo que soube que o pai estava<br \/>\n    doente. O or&aacute;culo est&aacute;. cumprido em todos os pontos, exceto<br \/>\n    no que exige que ven&ccedil;a a seus rivais; mas ele fez mais, salvou a vida<br \/>\n    do &uacute;nico concorrente a quem podia temer; e, quando se tratar de bater<br \/>\n    os dois outros, creio que n&atilde;o duvidar&aacute;s que o consiga facilmente.<\/p>\n<p> &#8212; Tudo o que dizes &eacute; verdade &#8211; respondeu Formosante.<br \/>\n    &#8211; Mas ser&aacute; poss&iacute;vel que o maior dos homens, e talvez o<br \/>\n    mais am&aacute;vel, seja filho de um pastor?<br \/>\n    A dama de honor, metendo-se na conversa, disse que muitas vezes essa palavra<br \/>\n    pastor era aplicada aos reis; que os chamavam de pastores, porque eles tosquiam<br \/>\n    seu rebanho; que fora certamente um duvidoso gracejo do seu valete; que aquele<br \/>\n    jovem her&oacute;i viera t&atilde;o mal acompanhado apenas para mostrar o<br \/>\n    quanto o seu m&eacute;rito estava acima do fausto dos reis, e para n&atilde;o<br \/>\n    dever Formosante sen&atilde;o a si mesmo. A princesa s&oacute; respondeu dando<br \/>\n    mil carinhosos beijos no seu p&aacute;ssaro.<\/p>\n<p> Entrementes, preparava-se um grande festim para os tr&ecirc;s reis e para<br \/>\n    todos os pr&iacute;ncipes que tinham comparecido &agrave; festa. A filha e<br \/>\n    a sobrinha do rei deviam fazer-lhes as honras. Traziam para os reis presentes<br \/>\n    dignos da magnific&ecirc;ncia de Babil&ocirc;nia. Belus, enquanto n&atilde;o<br \/>\n    serviam, reuniu o conselho, para tratar do casamento da bela Formosante, e<br \/>\n    assim falou como grande pol&iacute;tico:<br \/>\n    &#8212; Estou velho, n&atilde;o sei mais que fazer, nem a quem dar minha filha.<br \/>\n    Aquele que a merecia n&atilde;o passa de um vil pastor. O rei das &Iacute;ndias<br \/>\n    e o do Egito s&atilde;o uns poltr&otilde;es; o rei dos citas me conviria bastante,<br \/>\n    mas n&atilde;o satisfez nenhuma das condi&ccedil;&otilde;es impostas. Enquanto<br \/>\n    isto, deliberai, e n&oacute;s concluiremos de acordo com o que disser o or&aacute;culo;<br \/>\n    pois um rei n&atilde;o se deve conduzir sen&atilde;o por ordem expressa dos<br \/>\n    deuses imortais.<\/p>\n<p> Dirige-se ent&atilde;o &agrave; sua capela; o or&aacute;culo responde-lhe<br \/>\n    em poucas palavras, segundo o seu costume: Tua filha s&oacute; se casar&aacute;<br \/>\n    depois que houver sa&iacute;do a correr mundo. Belus, at&ocirc;nito, volta<br \/>\n    ao conselho e comunica tal resposta.<\/p>\n<p> Todos os ministros votavam profundo respeito aos or&aacute;culos; todos<br \/>\n    convinham, ou fingiam convir, em que os or&aacute;culos eram o fundamento<br \/>\n    da religi&atilde;o; que a raz&atilde;o deve calar-se diante deles; que &eacute;<br \/>\n    por eles que os reis governam os povos, e os magos os reis; que, sem os or&aacute;culos,<br \/>\n    n&atilde;o haveria nem virtude nem descanso na terra. Enfim, ap&oacute;s haver<br \/>\n    testemunhado a mais profunda venera&ccedil;&atilde;o pelos or&aacute;culos,<br \/>\n    quase todos conclu&iacute;ram que aquele era impertinente e n&atilde;o se<br \/>\n    lhe devia obedecer; que nada era mais indecente para uma mo&ccedil;a, e sobretudo<br \/>\n    para a filha do grande rei de Babil&ocirc;nia, sair a vaguear sem saber por<br \/>\n    onde; que esse era o verdadeiro meio de n&atilde;o casar, ou de fazer um casamento<br \/>\n    clandestino, vergonhoso e rid&iacute;culo; que, numa palavra, esse or&aacute;culo<br \/>\n    n&atilde;o tinha senso comum.<\/p>\n<p> O mais jovem dos ministros, chamado Onadase, que tinha mais esp&iacute;rito<br \/>\n    do que eles, disse que o or&aacute;culo queria significar, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    alguma peregrina&ccedil;&atilde;o religiosa, e que ele se oferecia para ser<br \/>\n    o condutor da princesa. O conselho concordou, mas cada qual queria servir<br \/>\n    de escudeiro. O rei decidiu que a princesa poderia ir a trezentas parasangas,<br \/>\n    no Caminho da Ar&aacute;bia, a um templo cujo padroeiro tinha reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de conseguir bons casamentos para as mo&ccedil;as, e que seria o de&atilde;o<br \/>\n    do conselho quem a acompanharia. Depois dessa decis&atilde;o, foram todos<br \/>\n    cear.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">CAP&Iacute;TULO III<\/a><\/h4>\n<p> Em meio dos jardins, entre duas cascatas, elevava-se um sal&atilde;o oval<br \/>\n    de trezentos p&eacute;s de di&acirc;metro, cuja ab&oacute;bada de l&aacute;pislaz&uacute;li,<br \/>\n    semeada de estrelas de ouro, representava todas as constela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com os planetas, cada qual no seu verdadeiro lugar, e essa ab&oacute;bada<br \/>\n    girava como o c&eacute;u, por meio de m&aacute;quinas t&atilde;o invis&iacute;veis<br \/>\n    como aquelas que dirigem os movimentos celestes. Cem mil archotes, encerrados<br \/>\n    em cilindros de cristal de rocha, alumiavam o exterior e o interior da sala<br \/>\n    de jantar. Um aparador em degraus sustentava vinte mil vasos ou pratos de<br \/>\n    ouro; e defronte ao aparador havia outros degraus repletos de m&uacute;sicos.<br \/>\n    Dois outros anfiteatros se achavam carregados, um com os frutos de todas as<br \/>\n    esta&ccedil;&otilde;es, o outro de &acirc;nforas de cristal onde brilhavam<br \/>\n    todos os vinhos da terra.<\/p>\n<p> Os convivas acomodaram-se em torno &agrave; mesa, cujos assentos eram separados<br \/>\n    por grinaldas de pedras preciosas, que figuravam flores e frutos. A bela Formosante<br \/>\n    foi colocada entre o rei das &Iacute;ndias e o do Egito, a bela Ald&eacute;ia<br \/>\n    perto do rei dos citas. Havia cerca de trinta pr&iacute;ncipes e cada um deles<br \/>\n    se achava ao lado de uma das mais belas damas do pal&aacute;cio. O rei de<br \/>\n    Babil&ocirc;nia, ao centro, defronte &agrave; filha, parecia dividido entre<br \/>\n    o pesar de n&atilde;o a ter casado e o prazer de ainda a conservar consigo.<br \/>\n    Formosante pediu licen&ccedil;a para ficar com o p&aacute;ssaro a seu lado,<br \/>\n    na mesa, o que o rei achou muito bem.<\/p>\n<p> A m&uacute;sica, que come&ccedil;ou a tocar, deu a cada pr&iacute;ncipe<br \/>\n    inteira liberdade para entreter a sua vizinha. O festim pareceu t&atilde;o<br \/>\n    agrad&aacute;vel qu&atilde;o magn&iacute;fico. Tinham posto diante de Formosante<br \/>\n    um petisco que o rei seu pai muito apreciava. A princesa disse que o deviam<br \/>\n    levar a Sua Majestade. E imediatamente o p&aacute;ssaro se apodera do prato,<br \/>\n    com maravilhosa destreza, e vai apresent&aacute;-lo ao rei. Nunca se espantaram<br \/>\n    tanto numa ceia. Belus fez-lhe tantas car&iacute;cias quanto a filha. O p&aacute;ssaro<br \/>\n    retomou em seguida o v&ocirc;o, a fim de voltar para junto desta. Desenrolava,<br \/>\n    assim, t&atilde;o linda cauda, suas asas distendidas ostentavam t&atilde;o<br \/>\n    brilhantes cores, tamanho fulgor lan&ccedil;ava o ouro da sua plumagem, que<br \/>\n    todos os olhos s&oacute; se fixavam nele. Todos os m&uacute;sicos cessaram<br \/>\n    de tocar e permaneceram im&oacute;veis. Ningu&eacute;m comia, ningu&eacute;m<br \/>\n    falava, s&oacute; se ouvia um murm&uacute;rio de admira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A princesa de Babil&ocirc;nia beijou-o durante toda a ceia, sem ao menos pensar<br \/>\n    que havia reis neste mundo. O das &Iacute;ndias e do Egito sentiram redobrar<br \/>\n    seu despeito e indigna&ccedil;&atilde;o, e cada qual prometeu a si mesmo apressar<br \/>\n    a marcha de seus trezentos mil homens, para uma boa vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Quanto ao rei dos citas, estava ocupado em conversar com a bela Ald&eacute;ia:<br \/>\n    seu cora&ccedil;&atilde;o altivo, desprezando sem despeito as desaten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Formosante, concebera por ela mais indiferen&ccedil;a que c&oacute;lera.<\/p>\n<p> &#8212; Ela &eacute; bonita, confesso-o dizia ele. &#8211; Mas me parece<br \/>\n    dessas mulheres que s&oacute; se ocupam com a sua beleza, e que pensam que<br \/>\n    o g&ecirc;nero humano lhes deve ficar muito agradecido quando se dignam deixar-se<br \/>\n    ver em p&uacute;blico. N&atilde;o se adoram &iacute;dolos no meu pa&iacute;s.<br \/>\n    Eu preferia uma feiosa am&aacute;vel e prestativa, a essa bela est&aacute;tua.<br \/>\n    Quanto &agrave; senhora, tem tantos encantos como Formosante, e ao menos se<br \/>\n    digna conversar com os estrangeiros. Confesso-lhe, com a franqueza de um cita,<br \/>\n    que prefiro a senhora &agrave; sua prima.<\/p>\n<p> Enganava-se, contudo, a respeito do car&aacute;ter de Formosante: ela n&atilde;o<br \/>\n    era t&atilde;o desdenhosa como parecia; mas o cumprimento do rei foi muito<br \/>\n    bem recebido pela princesa Ald&eacute;ia. A conversa de ambos tornou-se muito<br \/>\n    interessante: estavam muito satisfeitos e j&aacute; seguros um do outro quando<br \/>\n    se levantaram da mesa.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s a ceia, foram passear pelos bosques. O rei dos citas e Ald&eacute;ia<br \/>\n    n&atilde;o deixaram de procurar um recanto solit&aacute;rio. Ald&eacute;ia,<br \/>\n    que era a franqueza em pessoa, assim falou &agrave;quele pr&iacute;ncipe:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o odeio a minha prima, embora seja mais bonita do que eu<br \/>\n    e esteja destinada ao trono de Babil&ocirc;nia: a honra de vos agradar me<br \/>\n    serve de atrativos. Prefiro a C&iacute;tia convosco &agrave; coroa de Babil&ocirc;nia<br \/>\n    sem v&oacute;s; mas essa coroa me pertence de direito, se h&aacute; direitos<br \/>\n    no mundo: pois sou do ramo mais antigo de Nemrod, e Formosante do mais novo.<br \/>\n    Seu av&ocirc; destronou o meu e fe-lo morrer.<\/p>\n<p> &#8212; Tal &eacute; ent&atilde;o a for&ccedil;a do sangue na casa de Babil&ocirc;nia!<br \/>\n    &#8211; disse o cita. &#8211; Como se chamava o vosso av&ocirc;?<br \/>\n    &#8212; Chamava-se Ald&eacute;ia como eu. Meu pai tinha o mesmo nome; foi<br \/>\n    relegado para os confins do imp&eacute;rio, com a minha m&atilde;e; e Belus,<br \/>\n    ap&oacute;s a morte deles, nada temendo de mim, resolveu educar-me junto com<br \/>\n    a sua filha. Mas decidiu que eu jamais me casasse.<\/p>\n<p> &#8212; Quero vingar vosso pai, e vosso av&ocirc;, e a v&oacute;s &#8211;<br \/>\n    disse o rei dos Citas. &#8211; Garanto-vos que casareis; virei raptar-vos<br \/>\n    depois de amanh&atilde;, pela madrugada, pois amanh&atilde; devo jantar com<br \/>\n    o rei de Babil&ocirc;nia, e voltarei para sustentar vossos direitos com um<br \/>\n    ex&eacute;rcito de trezentos mil homens.<\/p>\n<p> &#8212; Muito o desejo &#8211; disse a bela Ald&eacute;ia. E, ap&oacute;s<br \/>\n    haverem trocado sua palavra, separaram-se.<\/p>\n<p> Fazia muito que a incompar&aacute;vel Formosante fora deitar-se. Mandara<br \/>\n    colocar junto ao leito uma pequena laranjeira num vaso de prata, para que<br \/>\n    o seu p&aacute;ssaro ali repousasse. Os cortinados estavam fechados, mas a<br \/>\n    princesa n&atilde;o tinha nenhuma vontade de dormir. Seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e sua imagina&ccedil;&atilde;o se achavam demasiado alerta para isso, O encantador<br \/>\n    desconhecido estava diante de seus olhos; via-o disparar uma flecha com o<br \/>\n    arco de Nemrod; via-o cortar a cabe&ccedil;a do le&atilde;o; ela recitava<br \/>\n    o seu madrigal; via-o enfim escapar-se da multid&atilde;o, montado no seu<br \/>\n    unic&oacute;rnio; ent&atilde;o rebentava em solu&ccedil;os e exclamava entre<br \/>\n    l&aacute;grimas:<br \/>\n    &#8212; Nunca mais o verei. Ele n&atilde;o voltar&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Voltar&aacute;, senhora &#8211; respondeu-lhe o p&aacute;ssaro,<br \/>\n    do alto da sua laranjeira. &#8211; Pode-se acaso t&ecirc;-la visto sem tornar<br \/>\n    a v&ecirc;-la?<br \/>\n    &#8212; O c&eacute;us! &oacute; eternas pot&ecirc;ncias! o meu p&aacute;ssaro<br \/>\n    fala puro caldaico!<br \/>\n    Dizendo tais palavras, ela abre os cortinados, estende-lhe os bra&ccedil;os,<br \/>\n    p&otilde;e-se de joelhos no leito:<br \/>\n    &#8212; Ser&aacute;s um deus descido &agrave; terra? Ser&aacute;s o grande<br \/>\n    Orosmade oculto sob essa bela plumagem? Se &eacute;s um deus, restitui-me<br \/>\n    aquele lindo jovem.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o sou mais que um vol&aacute;til &#8211; replicou o<br \/>\n    outro. &#8211; Mas nasci no tempo em que todos os animais ainda falavam e<br \/>\n    em que os p&aacute;ssaros, as serpentes, as mulas, os cavalos e os grifos<br \/>\n    conversavam familiarmente com os homens. N&atilde;o quis falar diante das<br \/>\n    outras pessoas, de medo que as suas damas de honor me tomassem por um feiticeiro:<br \/>\n    s&oacute; quero entender-me com Vossa Alteza.<\/p>\n<p> Formosante, interdita, aturdida, &eacute;bria de tantas maravilhas, agitada<br \/>\n    da impaci&ecirc;ncia de fazer mil perguntas ao mesmo tempo, indagou primeiro<br \/>\n    que idade tinha ele.<\/p>\n<p> &#8212; Vinte e sete mil e novecentos anos e seis meses, Alteza. Sou do<br \/>\n    tempo da pequena revolu&ccedil;&atilde;o celeste que os vossos magos chamam<br \/>\n    a precess&atilde;o dos equin&oacute;cios e que se cumpre em cerca de vinte<br \/>\n    e oito mil de vossos anos. H&aacute; revolu&ccedil;&otilde;es infinitamente<br \/>\n    mais longas, de modo que temos criaturas muito mais velhas do que eu. Faz<br \/>\n    vinte e dois mil anos que aprendi caldaico em uma de minhas viagens. Sempre<br \/>\n    conservei muito gosto pela l&iacute;ngua caldaica, mas os outros animais meus<br \/>\n    confrades desistiram de falar sob os vossos climas.<\/p>\n<p> &#8212; E por que isso, meu divino p&aacute;ssaro?<br \/>\n    &#8212; Ai! &eacute; porque os homens adquiriram por fim o h&aacute;bito de<br \/>\n    nos comerem, em vez de conversar e instruir-se conosco. B&aacute;rbaros! N&atilde;o<br \/>\n    deviam estar convencidos de que, tendo os mesmos &oacute;rg&atilde;os que<br \/>\n    eles, os mesmos sentimentos, as mesmas necessidades, os mesmos desejos, t&iacute;nhamos<br \/>\n    o que se chama uma alma, exatamente como eles, e que s&oacute; deviam cozinhar<br \/>\n    e comer aos maus? E tanto somos vossos irm&atilde;os, que o grande Ser, o<br \/>\n    Ser eterno e criador, quando fez um pacto com os homens (1), nos incluiu expressamente<br \/>\n    no tratado. Ele proibiu que vos aliment&aacute;sseis de nosso sangue, e a<br \/>\n    n&oacute;s que sug&aacute;ssemos o vosso.<\/p>\n<p> As f&aacute;bulas de vosso antigo Locman, traduzidas em tantas l&iacute;nguas,<br \/>\n    ser&atilde;o um testemunho eternamente v&aacute;lido das felizes rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que outrora mantivestes conosco. Todas come&ccedil;am por estas palavras:<br \/>\n    No tempo em que os animais falavam&#8230; &Eacute; verdade que h&aacute; entre<br \/>\n    v&oacute;s muitas mulheres que continuam falando a seus c&atilde;es; mas estes<br \/>\n    resolveram n&atilde;o responder, desde que os for&ccedil;aram, a r&ecirc;lho,<br \/>\n    a ir &agrave; ca&ccedil;a ser c&uacute;mplices do mortic&iacute;nio de nossos<br \/>\n    velhos amigos comuns, os cervos, os gamos, as lebres e as perdizes.<\/p>\n<p> Tendes ainda antigos poemas nos quais os cavalos falam. E todos os dias<br \/>\n    os vossos cocheiros lhes dirigem a palavra, mas fazem-no com tamanha grosseria<br \/>\n    e pronunciando palavras t&atilde;o infames, que os cavalos, que tanto vos<br \/>\n    amavam outrora, hoje vos detestam.<\/p>\n<p> O pa&iacute;s onde mora o seu encantador desconhecido, o mais perfeito dos<br \/>\n    homens, &eacute; o &uacute;nico em que a sua esp&eacute;cie ainda sabe amar<br \/>\n    a nossa e falar-lhe; e &eacute; a &uacute;nica regi&atilde;o da terra onde<br \/>\n    os homens s&atilde;o justos.<\/p>\n<p> &#8212; E onde &eacute; esse pa&iacute;s de meu caro desconhecido? Qual<br \/>\n    &eacute; o nome desse her&oacute;i? Como se chama o seu Imp&eacute;rio? Pois<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o creio agora que ele seja um pastor como n&atilde;o creio<br \/>\n    que sejas um morcego.<\/p>\n<p> &#8212; O seu pa&iacute;s, Alteza, &eacute; o dos gang&aacute;ridas, povo<br \/>\n    virtuoso e invenc&iacute;vel que habita a margem esquerda do Ganges. O nome<br \/>\n    de meu amigo &eacute; Amazan. N&atilde;o &eacute; rei, e mesmo n&atilde;o<br \/>\n    sei se ele se baixaria a s&ecirc;-lo; ama muito a seus compatriotas: &eacute;<br \/>\n    pastor como eles. Mas n&atilde;o v&aacute; imaginar que esses pastores se<br \/>\n    assemelham aos vossos, que, mal cobertos de trapos rotos, guardam ovelhas<br \/>\n    infinitamente mais bem vestidas do que eles; que gemem sob o fardo da pobreza;<br \/>\n    e pagam a um exator metade do p&iacute;fio sal&aacute;rio que recebem dos<br \/>\n    amos. Os pastores gang&aacute;ridas nascidos todos iguais, s&atilde;o donos<br \/>\n    de inumer&aacute;veis rebanhos que cobrem os seus prados eternamente em flor.<br \/>\n    N&atilde;o os carneiam nunca; constitui ali um crime horr&iacute;vel matar<br \/>\n    e comer a seu semelhante. Sua l&atilde;, mais fina e brilhante que a mais<br \/>\n    bela seda, &eacute; o maior com&eacute;rcio do Oriente. Ali&aacute;s, a terra<br \/>\n    dos gang&aacute;ridas produz tudo o que pode contentar os desejos dos homens.<br \/>\n    Esses grandes diamantes que Amazan teve a honra de lhe oferecer s&atilde;o<br \/>\n    de uma mina da sua propriedade, O unic&oacute;rnio que Vossa Alteza o viu<br \/>\n    cavalgar &eacute; a montaria comum dos gang&aacute;ridas. &Eacute; o mais<br \/>\n    belo, o mais altivo, o mais terr&iacute;vel e o mais d&oacute;cil animal que<br \/>\n    orna a terra. Bastaria cem gang&aacute;ridas e cem unic&oacute;rnios para<br \/>\n    debandar ex&eacute;rcitos inumer&aacute;veis. H&aacute; cerca de dois s&eacute;culos,<br \/>\n    um rei das &Iacute;ndias foi bastante louco para querer conquistar aquela<br \/>\n    na&ccedil;&atilde;o: apresentou-se seguido de dez mil elefantes e de um milh&atilde;o<br \/>\n    de guerreiros. Os unic&oacute;rnios atravessaram os elefantes tal como vi,<br \/>\n    na sua mesa, cotovias enfiadas em espetos de ouro. Os guerreiros tombavam<br \/>\n    debaixo do sabre dos gang&aacute;ridas, como as searas de arroz ceifadas pelos<br \/>\n    orientais. O rei foi feito prisioneiro, com mais de seiscentos mil homens.<br \/>\n    Banharam-no nas &aacute;guas salutares do Ganges; submeteram-no ao regime<br \/>\n    do pa&iacute;s, que consiste em comer apenas os vegetais prodigalizados pela<br \/>\n    natureza para alimentar a tudo o que respira. Os homens que comem carne e<br \/>\n    tomam beberagens fortes t&ecirc;m todos um sangue azedo e adusto, que os torna<br \/>\n    loucos de mil maneiras diferentes. Sua principal dem&ecirc;ncia se manifesta<br \/>\n    na f&uacute;ria de derramar o sangue de seus irm&atilde;os e devastar terras<br \/>\n    f&eacute;rteis, para reinarem sobre cemit&eacute;rios. Levaram seis meses<br \/>\n    inteiros para curar da sua enfermidade ao rei das &Iacute;ndias. Quando julgaram<br \/>\n    os m&eacute;dicos que ele tinha o pulso mais tranq&uuml;ilo e o esp&iacute;rito<br \/>\n    mais assentado, apresentaram o competente certificado ao conselho dos gang&aacute;ridas.<br \/>\n    Esse conselho, depois de ouvir a opini&atilde;o dos unic&oacute;rnios, mandou<br \/>\n    humanamente de volta ao seu pa&iacute;s o rei das &Iacute;ndias, e mais a<br \/>\n    sua tola Corte e os seus imbecis guerreiros. Tal li&ccedil;&atilde;o os tornou<br \/>\n    sensatos e, desde essa &eacute;poca, os indianos t&ecirc;m respeitado os gang&aacute;ridas,<br \/>\n    como os ignorantes que desejam instruir-se respeitam, entre v&oacute;s, os<br \/>\n    fil&oacute;sofos caldeus, a que n&atilde;o podem igualar-se.<\/p>\n<p> &#8212; A prop&oacute;sito, meu querido p&aacute;ssaro &#8211; Indagou a<br \/>\n    princesa, &#8211; h&aacute; uma religi&atilde;o entre os gang&aacute;ridas?<br \/>\n    &#8212; Se h&aacute; uma religi&atilde;o? Todos os dias de lua cheia, n&oacute;s<br \/>\n    nos reunimos para dar gra&ccedil;as a Deus, os homens num grande templo de<br \/>\n    cedro, as mulheres em outro, para evitar distra&ccedil;&otilde;es, bem como<br \/>\n    todos os p&aacute;ssaros num bosque, e os quadr&uacute;pedes num belo prado.<br \/>\n    Agradecemos a Deus todos os bens que nos proporcionou. Temos principalmente<br \/>\n    papagaios, que pregam &agrave;s mil maravilhas.<\/p>\n<p> Tal &eacute; a p&aacute;tria do meu caro Amazan, &eacute; l&aacute; que<br \/>\n    eu resido; tanta amizade dedico a Amazan quanto amor ele inspirou a Vossa<br \/>\n    Alteza. Por vontade minha, partir&iacute;amos juntos agora, e a princesa lhe<br \/>\n    pagaria a visita.<\/p>\n<p> &#8212; Bela ocupa&ccedil;&atilde;o a tua, meu querido p&aacute;ssaro &#8211;<br \/>\n    respondeu, sorrindo, a princesa, que ardia de desejos de fazer a viagem, e<br \/>\n    n&atilde;o ousava confess&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Eu sirvo a meu amigo &#8211; disse o p&aacute;ssaro &#8211; e, depois<br \/>\n    da felicidade de vos amar, a maior &eacute; a de servir a vossos amores.<\/p>\n<p> Formosante n&atilde;o sabia mais onde se achava; julgava-se transportada<br \/>\n    al&eacute;m da terra. Tudo o que tinha visto naquele dia, tudo o que via,<br \/>\n    tudo o que ouvia, e principalmente o que sentia no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mergulhava-a numa embriaguez que ultrapassava de muito ao que sentem hoje<br \/>\n    os felizes mu&ccedil;ulmanos quando, desenvencilhados de seus bens terrenos,<br \/>\n    se v&ecirc;em no nono c&eacute;u entre os bra&ccedil;os das suas huris, cercados<br \/>\n    e penetrados da gl&oacute;ria e da felicidade celestiais.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">CAP&Iacute;TULO IV<\/a><\/h4>\n<p> Passou a noite inteira a falar de Amazan. N&atilde;o o chamava sen&atilde;o<br \/>\n    de seu pastor; &eacute; desde esse tempo que os nomes de pastor e enamorado<br \/>\n    s&atilde;o sempre empregados um pelo outro em algumas na&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Ora perguntava ao p&aacute;ssaro se Amazan tivera outras amadas. Este respondia<br \/>\n    que n&atilde;o, e ela sentia-se no auge da alegria. Ora queria saber como<br \/>\n    passava ele a vida, e ouvia, transportada, que a empregava a fazer o bem,<br \/>\n    a cultivar as artes, a penetrar os segredos da natureza, e a aperfei&ccedil;oar<br \/>\n    o esp&iacute;rito. Ora queria saber se a alma de seu p&aacute;ssaro era da<br \/>\n    mesma natureza que a de seu amado; por que vivera o primeiro cerca de vinte<br \/>\n    e oito mil anos, ao passo que o &uacute;ltimo n&atilde;o tinha mais que dezoito<br \/>\n    ou dezenove. Fazia mil perguntas semelhantes, &agrave;s quais o p&aacute;ssaro<br \/>\n    respondia com uma discri&ccedil;&atilde;o que lhe espica&ccedil;ava a curiosidade.<br \/>\n    Afinal o sono lhes fechou os olhos e entregou Formosante &agrave; doce ilus&atilde;o<br \/>\n    dos sonhos enviados pelos deuses, que ultrapassam &agrave;s vezes a pr&oacute;pria<br \/>\n    realidade, e que toda a filosofia dos caldeus tem tanto trabalho em interpretar.<\/p>\n<p> Formosante acordou-se muito tarde. Para ela ainda era cedo, quando o pai<br \/>\n    entrou no seu quarto. O p&aacute;ssaro recebeu Sua Majestade com respeitosa<br \/>\n    polidez, foi ao seu encontro, ruflou as asas, alongou o pesco&ccedil;o, e<br \/>\n    voltou para a sua laranjeira. O rei sentou-se no leito da filha, a quem os<br \/>\n    sonhos haviam tornado ainda mais bela. Sua grande barba branca aproximou-se<br \/>\n    daquele lindo rosto e, depois de lhe dar dois beijos, ele lhe falou nos seguintes<br \/>\n    termos:<br \/>\n    &#8212; Ontem, minha filha, n&atilde;o pudeste achar um marido como eu desejava;<br \/>\n    no entanto, precisas de um; assim o exige o futuro do Imp&eacute;rio. Consultei<br \/>\n    o or&aacute;culo, que, como bem sabes, n&atilde;o mente nunca e dirige todos<br \/>\n    os meus atos. Ele me ordenou que te fizesse correr mundo. &Eacute; preciso<br \/>\n    que viajes.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! At&eacute; aos gang&aacute;ridas, com certeza! &#8211; exclamou<br \/>\n    Formosante, que, enquanto deixava escapar tais palavras, compreendeu a sua<br \/>\n    tolice. O rei, que nada sabia de geografia, perguntou o que entendia ela por<br \/>\n    gang&aacute;ridas. Ela logo achou uma sa&iacute;da. O rei comunicou-lhe que<br \/>\n    era preciso fazer uma peregrina&ccedil;&atilde;o; que j&aacute; nomeara, para<br \/>\n    a sua comitiva, o decano dos conselheiros de Estado, o esmoler-mor, uma dama<br \/>\n    de honor, um m&eacute;dico, um botic&aacute;rio, e o seu p&aacute;ssaro, com<br \/>\n    toda a criadagem necess&aacute;ria. Formosante, que jamais sa&iacute;ra do<br \/>\n    pal&aacute;cio do rei seu pai, e que, at&eacute; a chegada dos tr&ecirc;s<br \/>\n    reis e de Amazan, levara uma vida muito ins&iacute;pida na etiqueta do fausto<br \/>\n    e na apar&ecirc;ncia dos prazeres, ficou encantada com a peregrina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em vista. &#8220;Quem sabe &#8211; dizia ela baixinho ao seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; se os deuses n&atilde;o inspirar&atilde;o ao meu querido gang&aacute;rida<br \/>\n    o mesmo desejo de ir &agrave; mesma capela, e se n&atilde;o terei a felicidade<br \/>\n    de rever o peregrino?&#8221; Agradeceu carinhosamente ao pai, dizendo que<br \/>\n    sempre tivera secreta devo&ccedil;&atilde;o pelo santo ao qual a enviavam.<\/p>\n<p> Belus ofereceu um excelente almo&ccedil;o a seus h&oacute;spedes; s&oacute;<br \/>\n    compareceram homens. Era tudo gente que n&atilde;o combinava: reis, pr&iacute;ncipes,<br \/>\n    ministros, pont&iacute;fices, todos ciumentos uns dos outros, todos a pesarem<br \/>\n    suas palavras, todos embara&ccedil;ados com os vizinhos e consigo mesmos.<br \/>\n    A refei&ccedil;&atilde;o foi triste, embora bebessem muito. As princesas ficaram<br \/>\n    nos seus aposentos, ocupadas com a partida. Comeram a s&oacute;s. Formosante<br \/>\n    foi em seguida passear pelos jardins com o seu querido p&aacute;ssaro que,<br \/>\n    para a distrair, voava de &aacute;rvore em &aacute;rvore, ostentando a sua<br \/>\n    soberba cauda e a sua divina plumagem.<\/p>\n<p> O rei do Egito, que estava bastante animado pelo vinho, para n&atilde;o<br \/>\n    dizer b&ecirc;bedo, pediu um arco e flechas a um dos pajens. Esse pr&iacute;ncipe<br \/>\n    era na verdade o mais desajeitado arqueiro do seu reino. Quando atirava ao<br \/>\n    alvo, o lugar onde se estava mais seguro era o ponto que ele visava. Mas o<br \/>\n    belo p&aacute;ssaro, voando t&atilde;o r&aacute;pido como a flecha, apresentou-se<br \/>\n    por si mesmo ao tiro, e tombou ensang&uuml;entado entre os bra&ccedil;os de<br \/>\n    Formosante. O eg&iacute;pcio retirou-se, a rir tolamente. A princesa feria<br \/>\n    o c&eacute;u com os gritos, chorava, lanhava as faces e o peito. O p&aacute;ssaro<br \/>\n    moribundo disse-lhe baixinho: &#8220;Queima-me, e n&atilde;o deixes de levar<br \/>\n    minhas cinzas para a Ar&aacute;bia Feliz, a leste da antiga cidade de Aden<br \/>\n    ou &Eacute;den, e exp&ocirc;-las ao sol sobre uma pequena fogueira de cravo<br \/>\n    e canela&#8221;. Dito isto, expirou. Formosante permaneceu por muito tempo<br \/>\n    sem sentidos, e s&oacute; voltou a si para romper em solu&ccedil;os. O pai,<br \/>\n    partilhando da sua dor, e soltando impreca&ccedil;&otilde;es contra o rei<br \/>\n    do Egito, n&atilde;o teve d&uacute;vida em que aquele caso anunciava um sinistro<br \/>\n    futuro. Foi logo consultar o or&aacute;culo da sua capela. O or&aacute;culo<br \/>\n    respondeu:<br \/>\n    Mistura de tudo; morto vivo, infidelidade e const&acirc;ncia, perda e ganho,<br \/>\n    calamidade e ventura. Nem o rei nem seu conselho nada puderam entender daquilo;<br \/>\n    mas ele afinal estava satisfeito de haver cumprido com os seus deveres religiosos.<\/p>\n<p> Enquanto o rei consultava o or&aacute;culo, a princesa, desolada, mandou<br \/>\n    prestar ao p&aacute;ssaro as honras f&uacute;nebres que ele ditara, e resolveu<br \/>\n    lev&aacute;-lo para a Ar&aacute;bia, com perigo da pr&oacute;pria vida. O<br \/>\n    p&aacute;ssaro foi queimado em linho incombust&iacute;vel, juntamente com<br \/>\n    a laranjeira em que pousara. Formosante recolheu-lhe as cinzas em um pequeno<br \/>\n    vaso de ouro todo cravejado de carb&uacute;nculos e brilhantes retirados da<br \/>\n    boca do le&atilde;o. Pudesse ela, em vez de cumprir esse f&uacute;nebre dever,<br \/>\n    queimar vivo o detest&aacute;vel rei do Egito! esse era todo o seu desejo.<br \/>\n    No seu despeito, mandou matar os seus dois crocodilos, os seus dois hipop&oacute;tamos,<br \/>\n    as suas duas zebras, os seus dois ratos, e mandou lan&ccedil;ar as suas duas<br \/>\n    m&uacute;mias no Eufrates; se tivesse &agrave; m&atilde;o o boi Apis, n&atilde;o<br \/>\n    o teria poupado.<\/p>\n<p> O rei do Egito, furioso com tal afronta, partiu imediatamente para movimentar<br \/>\n    seus trezentos mil homens. O rei das &Iacute;ndias, vendo partir o seu aliado,<br \/>\n    regressou no mesmo dia, no firme prop&oacute;sito de juntar seus trezentos<br \/>\n    mil indianos ao ex&eacute;rcito eg&iacute;pcio. O rei da C&iacute;tia fugiu<br \/>\n    de noite com a princesa Ald&eacute;ia, firmemente resolvido a combater por<br \/>\n    ela &agrave; frente de trezentos mil citas, e restituir-lhe a heran&ccedil;a<br \/>\n    de Babil&ocirc;nia, que lhe era devida, por descender do ramo mais antigo.<\/p>\n<p> Por seu lado, a bela Formosante p&ocirc;s-se a caminho &agrave;s tr&ecirc;s<br \/>\n    horas da madrugada, com a sua caravana de peregrinos, esperando poder ir &agrave;<br \/>\n    Ar&aacute;bia executar os &uacute;ltimos desejos de seu p&aacute;ssaro, e<br \/>\n    que a justi&ccedil;a dos deuses imortais lhe devolvesse o seu querido Amazan,<br \/>\n    sem o qual ela j&aacute; n&atilde;o podia viver.<\/p>\n<p> Assim, ao despertar, o rei da Babil&ocirc;nia n&atilde;o encontrou mais<br \/>\n    ningu&eacute;m. &#8220;Como terminam as grandes festas! &#8211; dizia ele<br \/>\n    consigo. &#8211; E que espantoso v&aacute;cuo nos deixam na alma, depois de<br \/>\n    passada a sua anima&ccedil;&atilde;o!&#8221; Mas foi acometido de uma c&oacute;lera<br \/>\n    verdadeiramente real quando soube que haviam raptado a princesa Ald&eacute;ia.<br \/>\n    Deu ordem para que despertassem a todos os seus ministros e se reunisse o<br \/>\n    conselho. Enquanto os esperava, n&atilde;o deixou de ir consultar o seu or&aacute;culo,<br \/>\n    mas s&oacute; lhe p&ocirc;de arrancar estas palavras, t&atilde;o famosas depois,<br \/>\n    no universo inteiro: Quando n&atilde;o casam as mo&ccedil;as, elas mesmas<br \/>\n    se casam.<\/p>\n<p> Logo foi expedida ordem de marcharem trezentos mil homens contra o rei dos<br \/>\n    citas. Eis, pois, deflagrada de todos os lados a mais terr&iacute;vel das<br \/>\n    guerras e que foi ocasionada pela mais bela festa que j&aacute; se deu no<br \/>\n    mundo. A &Aacute;sia ia ser assolada por quatro ex&eacute;rcitos de trezentos<br \/>\n    mil combatentes cada um. Bem se v&ecirc; que a guerra de Tr&oacute;ia, que<br \/>\n    estarreceu o mundo alguns s&eacute;culos depois, n&atilde;o passava, em compara&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de um brinquedo de crian&ccedil;a; mas deve-se considerar que, na disputa<br \/>\n    dos troianos, apenas se tratava de uma mulher j&aacute; velha e muito libertina<br \/>\n    que se fizera raptar duas vezes, ao passo que ora se tratava de duas mo&ccedil;as<br \/>\n    e um p&aacute;ssaro.<\/p>\n<p> O rei das &Iacute;ndias ia esperar seu ex&eacute;rcito na grande e magn&iacute;fica<br \/>\n    estrada que se dirigia, numa reta, de Babil&ocirc;nia a Caxemira. O rei dos<br \/>\n    citas corria com Ald&eacute;ia pela bela estrada que levava ao monte Ima&uacute;s.<br \/>\n    Todos esses caminhos desapareceram depois, devido &agrave; m&aacute; administra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O rei do Egito marchara para o ocidente, e costeava o pequeno mar Mediterr&acirc;neo,<br \/>\n    que os ignorantes hebreus chamaram depois o grande mar.<\/p>\n<p> Quanto &agrave; bela Formosante, seguia a estrada de Ba&ccedil;or&aacute;,<br \/>\n    bordada de altas palmeiras que forneciam uma sombra eterna e frutas em todas<br \/>\n    as esta&ccedil;&otilde;es. O templo aonde ia em peregrina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    situava-se na pr&oacute;pria Ba&ccedil;or&aacute;. O santo a quem fora dedicado<br \/>\n    o templo era mais ou menos &agrave; moda, daquele que adoraram depois em L&acirc;mpsaco.<br \/>\n    N&atilde;o s&oacute; conseguia marido para as mo&ccedil;as, mas muitas vezes<br \/>\n    fazia papel de marido. Era o santo mais festejado de toda a &Aacute;sia.<\/p>\n<p> Formosante n&atilde;o se preocupava absolutamente com o santo de Ba&ccedil;or&aacute;;<br \/>\n    s&oacute; invocava o seu caro pastor gang&aacute;rida, o seu belo Amazan.<br \/>\n    Contava embarcar em Ba&ccedil;or&aacute; para a Ar&aacute;bia, a fim de fazer<br \/>\n    o que o p&aacute;ssaro lhe ordenara.<\/p>\n<p> Na terceira pousada, mal entrara numa hospedaria onde os seus furri&eacute;is<br \/>\n    lhe haviam preparado tudo, soube que o rei do Egito ali tamb&eacute;m chegava.<br \/>\n    Informado, por seus espi&otilde;es, da marcha da princesa, mudara imediatamente<br \/>\n    de caminho, seguido de numerosa escolta. Chega; manda colocar sentinelas em<br \/>\n    todas as portas; entra no quarto da bela Formosante e diz-lhe:<br \/>\n    &#8212; Jovem, era a ti mesma que eu buscava; fizeste pouco de mim quando<br \/>\n    eu estava em Babil&ocirc;nia; &eacute; justo punir as desdenhosas e as caprichosas:<br \/>\n    vais ter a amabilidade de cear comigo esta noite; n&atilde;o ter&aacute;s<br \/>\n    outro leito sen&atilde;o o meu, e eu me conduzirei contigo como bem me aprouver.<br \/>\n    Formosante compreendeu que n&atilde;o era a mais forte; sabia que o bom senso<br \/>\n    consiste em conformar-se com a situa&ccedil;&atilde;o; tomou o partido de<br \/>\n    livrar-se do rei do Egito por meio de uma inocente esperteza; olhou-o com<br \/>\n    o rabo do olho, o que v&aacute;rios s&eacute;culos depois se chamou namorar;<br \/>\n    e eis como lhe falou, com uma mod&eacute;stia, uma gra&ccedil;a, uma do&ccedil;ura,<br \/>\n    um embara&ccedil;o e uma multid&atilde;o de encantos que teriam enlouquecido<br \/>\n    o mais s&aacute;bio dos homens e cegado o mais clarividente:<br \/>\n    &#8212; Confesso, senhor, que sempre baixei os olhos perante v&oacute;s quando<br \/>\n    destes ao rei meu pai a honra de ir a seu pal&aacute;cio. Temia o meu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    temia a minha ing&ecirc;nua simplicidade: temia que meu pai e vossos rivais<br \/>\n    se apercebessem da prefer&ecirc;ncia que eu vos concedia e tanto merec&iacute;eis.<br \/>\n    Posso agora entregar-me a meus sentimentos. Juro pelo boi Apis, que &eacute;,<br \/>\n    depois de v&oacute;s, o que mais respeito no mundo, que as vossas propostas<br \/>\n    me encantaram. J&aacute; ceei convosco no pal&aacute;cio de meu pai; e de<br \/>\n    novo o farei, sem a sua presen&ccedil;a; s&oacute; o que pe&ccedil;o &eacute;<br \/>\n    que o vosso esmoler-mor beba conosco; pareceu-me em Babil&ocirc;nia um espl&ecirc;ndido<br \/>\n    conviva; tenho excelente vinho de Chiraz, quero que ambos o experimentem.<br \/>\n    Quanto &agrave; vossa segunda proposta, &eacute; muito tentadora, mas n&atilde;o<br \/>\n    conv&eacute;m, a uma mo&ccedil;a bem nascida, falar em tais coisas; baste-vos<br \/>\n    saber que eu vos considero como o maior dos reis e o mais am&aacute;vel dos<br \/>\n    homens. Essa fala virou a cabe&ccedil;a do rei do Egito; concordou em que<br \/>\n    o esmoler-mor fosse o terceiro &agrave; mesa.<\/p>\n<p> &#8212; Desejo ainda outro favor &#8211; disse-lhe a princesa. &#8211; &Eacute;<br \/>\n    uma permiss&atilde;o vossa para que o meu botic&aacute;rio venha falar-me;<br \/>\n    as mo&ccedil;as sempre t&ecirc;m certos pequenos inc&ocirc;modos, que demandam<br \/>\n    certos cuidados, como tonturas, palpita&ccedil;&otilde;es, c&oacute;licas,<br \/>\n    faltas de ar, em que &eacute; preciso p&ocirc;r certa ordem em certas circunst&acirc;ncias;<br \/>\n    numa palavra, tenho urgente necessidade de meu botic&aacute;rio, e espero<br \/>\n    que n&atilde;o me recusareis essa pequena demonstra&ccedil;&atilde;o de amor.<\/p>\n<p> &#8212; Senhorita &#8211; respondeu-lhe o rei do Egito, &#8211; embora um<br \/>\n    botic&aacute;rio tenha id&eacute;ias exatamente opostas &agrave;s minhas,<br \/>\n    e o objeto de sua arte seja o contr&aacute;rio do de minha arte, sou bastante<br \/>\n    complacente para n&atilde;o recusar t&atilde;o justo pedido. Vou ordenar que<br \/>\n    ele venha falar-te enquanto se prepara a ceia. Compreendo que devas estar<br \/>\n    um pouco fatigada da viagem; deves tamb&eacute;m ter necessidade de uma criada<br \/>\n    de quarto; podes mandar chamar a que melhor te agrade; aguardarei em seguida<br \/>\n    as tuas ordens.<\/p>\n<p> Ele retirou-se; chegaram o botic&aacute;rio e a criada de quarto, chamada<br \/>\n    Irla, na qual a princesa depositava inteira confian&ccedil;a. Ordenou-lhe<br \/>\n    que mandasse trazer seis garrafas de vinho de Chiraz para a ceia e servisse<br \/>\n    outras tantas &agrave;s sentinelas que vigiavam a seus oficiais. Recomendou<br \/>\n    ao botic&aacute;rio que metesse em todas as garrafas certas drogas da sua<br \/>\n    farm&aacute;cia, que faziam dormir vinte e quatro horas, e de que .ele estava<br \/>\n    sempre munido. Foi estritamente obedecida. Ao cabo de meia hora, voltou o<br \/>\n    rei com o esmoler-mor: a ceia foi muito alegre; o rei e o sacerdote esvaziaram<br \/>\n    as seis garrafas e confessaram que n&atilde;o havia um vinho igual no Egito;<br \/>\n    a camareira teve o cuidado de dar de beber aos criados que haviam servido.<br \/>\n    Quanto &agrave; princesa, absteve-se de beber, dizendo que o seu m&eacute;dico<br \/>\n    a pusera em regime. Em breve estavam todos adormecidos.<\/p>\n<p> O esmoler do rei do Egito tinha a mais bela barba que pudesse carregar um<br \/>\n    homem da sua condi&ccedil;&atilde;o. Formosante cortou-a habilmente; depois,<br \/>\n    mandando-a coser a uma fita, amarrou-a ao pr&oacute;prio queixo, envergou<br \/>\n    a t&uacute;nica do sacerdote, sem esquecer as ins&iacute;gnias da sua dignidade,<br \/>\n    e vestiu a camareira de sacrist&atilde; da deusa Isis. Tomando, enfim, a urna<br \/>\n    e as pedras preciosas, saiu da hospedaria por entre os guardas, que dormiam,<br \/>\n    como o seu senhor. A camareira tivera o cuidado de deixar dois cavalos selados<br \/>\n    &agrave; porta. N&atilde;o podia a princesa levar consigo nenhum dos oficiais<br \/>\n    da sua comitiva: pois teriam sido presos pela guarda.<\/p>\n<p> Formosante e Irla passaram por entre as fileiras dos soldados que, tomando<br \/>\n    a princesa pelo gr&atilde;o-Sacerdote, a chamavam de Meu Reverend&iacute;ssimo<br \/>\n    Pai em Deus e lhe pediam a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o. As duas fugitivas chegam<br \/>\n    em vinte e quatro horas a Ba&ccedil;or&aacute;, antes que o rei houvesse despertado.<br \/>\n    Deixaram ent&atilde;o os disfarces, que poderiam despertar suspeitas. Fretaram<br \/>\n    imediatamente um navio que as levou, pelo estreito de Ormuz, &agrave;s belas<br \/>\n    ribas do &Eacute;den, na Ar&aacute;bia Feliz. Desse &Eacute;den, cujos jardins<br \/>\n    eram t&atilde;o famosos, foi que se fez depois a morada dos justos: foram<br \/>\n    o modelo dos Campos El&iacute;sios, dos jardins das Hesp&eacute;rides e dos<br \/>\n    das Ilhas Afortunadas; pois, naqueles climas quentes, n&atilde;o imaginam<br \/>\n    os homens maior beatitude que as sombras e o murm&uacute;rio das &aacute;guas.<br \/>\n    Viver eternamente com o Ser Supremo, ou ir passear pelo jardim no para&iacute;so,<br \/>\n    dava no mesmo para os homens, que falam sempre sem entender-se e ainda n&atilde;o<br \/>\n    puderam ter id&eacute;ias n&iacute;tidas nem express&otilde;es justas.<\/p>\n<p> Logo que ali se encontrou, o primeiro cuidado da princesa foi prestar ao<br \/>\n    seu querido p&aacute;ssaro as honras f&uacute;nebres que este lhe exigira.<br \/>\n    Suas belas m&atilde;os ergueram uma pira de cravo e canela. Qual n&atilde;o<br \/>\n    foi a sua surpresa quando, depois de espalhar sobre essa lenha as cinzas do<br \/>\n    p&aacute;ssaro, a viu acender-se por si mesma! Tudo se consumiu num instante.<br \/>\n    S&oacute; ficou, no lugar das cinzas, um grande ovo, de que viu sair o seu<br \/>\n    belo p&aacute;ssaro, mais espl&ecirc;ndido do que nunca. Foi o mais belo instante<br \/>\n    que a princesa experimentou em toda a vida; n&atilde;o havia sen&atilde;o<br \/>\n    outro que lhe pudesse ser mais caro: ela o desejava, mas n&atilde;o o esperava.<\/p>\n<p> &#8212; Bem vejo &#8211; disse ela ao p&aacute;ssaro &#8211; que &eacute;s<br \/>\n    a f&ecirc;nix de que tanto me haviam falado. Estou prestes a morrer de espanto<br \/>\n    e de alegria. N&atilde;o acreditava na ressurrei&ccedil;&atilde;o; mas a minha<br \/>\n    ventura convenceu-me.<\/p>\n<p> &#8212; A ressurrei&ccedil;&atilde;o, Alteza &#8211; disse-lhe a f&ecirc;nix,<br \/>\n    &#8211; &eacute; a coisa mais simples deste mundo. N&atilde;o &eacute; mais<br \/>\n    surpreendente nascer duas vezes do que uma. Tudo &eacute; ressurrei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no mundo; as lagartas ressuscitam em borboletas, uma semente ressuscita em<br \/>\n    &aacute;rvore; todos os animais, sepultados na terra, ressuscitam em ervas,<br \/>\n    em plantas, e alimentam outros animais, de que v&atilde;o constituir em breve<br \/>\n    uma parte da subst&acirc;ncia: todas as part&iacute;culas que compunham os<br \/>\n    corpos s&atilde;o transformadas em diferentes seres. &Eacute; verdade que<br \/>\n    sou o &uacute;nico a quem o poderoso Orosmade concedeu a gra&ccedil;a de ressuscitar<br \/>\n    na sua pr&oacute;pria natureza.<\/p>\n<p> Formosante, que, desde o dia em que vira Amazan e a f&ecirc;nix pela primeira<br \/>\n    vez, passara as horas a espantar-se, disse-lhe:<br \/>\n    &#8212; Compreendo muito bem que o Ser Supremo tenha podido formar das tuas<br \/>\n    cinzas uma f&ecirc;nix mais ou menos semelhante a ti; mas, que sejas precisamente<br \/>\n    o mesmo ser, que tenhas a mesma alma, &eacute; coisa que eu n&atilde;o compreendo<br \/>\n    claramente. Que era feito de tua alma, enquanto eu, te carregava no bolso,<br \/>\n    ap&oacute;s a tua morte?<br \/>\n    &#8212; O meu Deus, Alteza! Pois n&atilde;o &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil,<br \/>\n    para o grande Orosmade, continuar a sua a&ccedil;&atilde;o sobre uma pequena<br \/>\n    fagulha de mim mesma, como principiar essa a&ccedil;&atilde;o? Ele me concedera,<br \/>\n    antes, o sentimento, a mem&oacute;ria e o pensamento: ainda mos concede agora;<br \/>\n    que haja arrancado esse favor a um &aacute;tomo de fogo elementar oculto em<br \/>\n    mim, ou ao conjunto de meus &oacute;rg&atilde;os, isso no fundo nada quer<br \/>\n    dizer: as f&ecirc;nix e os homens sempre ignorar&atilde;o como se passa a<br \/>\n    coisa; mas a maior gra&ccedil;a que me concedeu o Ser Supremo foi a de fazer-me<br \/>\n    renascer para a Princesa.<\/p>\n<p> &#8212; Minha f&ecirc;nix &#8211; tornou a princesa, &#8211; considera que<br \/>\n    as primeiras palavras que me disseste em Babil&ocirc;nia e que eu jamais esquecerei,<br \/>\n    me encheram da esperan&ccedil;a de tornar a ver aquele pastor a quem idolatro;<br \/>\n    &eacute; preciso absolutamente partirmos para a terra dos gang&aacute;ridas,<br \/>\n    para que eu o traga de volta a Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; tamb&eacute;m o meu desejo &#8211; disse a f&ecirc;nix.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o h&aacute; um momento a perder. &Eacute; preciso ir buscar<br \/>\n    Amazan pelo caminho mais curto, isto &eacute; pelos ares. H&aacute; na Ar&aacute;bia<br \/>\n    Feliz dois grifos, meus amigos &iacute;ntimos, que apenas moram a cinq&uuml;enta<br \/>\n    l&eacute;guas daqui: vou escrever-lhes pelos pombos-correios; eles chegar&atilde;o<br \/>\n    antes do anoitecer. Teremos tempo suficiente para mandar fazer um pequeno<br \/>\n    canap&eacute; c&ocirc;modo, com gavetas, onde colocar as provis&otilde;es<br \/>\n    de boca. A princesa estar&aacute; perfeitamente &agrave; vontade nessa viatura,<br \/>\n    com a sua camareira. Os dois grifos s&atilde;o os mais vigorosos da sua esp&eacute;cie;<br \/>\n    cada um segurar&aacute; um dos bra&ccedil;os do canap&eacute; entre as garras.<br \/>\n    Mas ainda uma vez: o tempo urge.<\/p>\n<p> Foi imediatamente, com Formosante, encomendar o canap&eacute; a um marceneiro<br \/>\n    seu conhecido. Ficou pronto em quatro horas. Puseram nas gavetas p&atilde;ezinhos<br \/>\n    da rainha, biscoitos melhores que os de Babil&ocirc;nia, cidras, ananases,<br \/>\n    cocos, pistaches e vinho do &Eacute;den, que est&aacute; para o de Chiraz<br \/>\n    como o de Chiraz est&aacute; acima do de Suresnes.<\/p>\n<p> O canap&eacute; era t&atilde;o leve quanto c&ocirc;modo e s&oacute;lido.<br \/>\n    Os dois grifos chegaram ao &Eacute;den na hora justa. Formosante e Irla acomodaram-se<br \/>\n    na viatura. Os dois grifos ergueram-na como uma pluma. A f&ecirc;nix ora voava<br \/>\n    &agrave; frente, ora se empoleirava no espaldar. Os dois grifos rumaram para<br \/>\n    o Ganges com a rapidez de uma flecha que fende os ares. Os viajantes s&oacute;<br \/>\n    repousavam alguns momentos &agrave; noite, para comer, e para dar um trago<br \/>\n    aos dois carregadores.<\/p>\n<p> Chegaram enfim &agrave; terra dos gang&aacute;ridas. O cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da princesa palpitava de esperan&ccedil;a, de amor e de alegria. A f&ecirc;nix<br \/>\n    faz parar a viatura defronte &agrave; casa de Amazan; pede para lhe falar;<br \/>\n    mas fazia tr&ecirc;s horas que ele partira, sem que ningu&eacute;m soubesse<br \/>\n    aonde teria ido.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute;, nem na pr&oacute;pria l&iacute;ngua dos gang&aacute;ridas,<br \/>\n    uma palavra que possa exprimir o desespero de Formosante.<\/p>\n<p> &#8212; Ai! Eis o que eu temia &#8211; disse a f&ecirc;nix. &#8211; As tr&ecirc;s<br \/>\n    horas que a princesa passou na hospedaria a caminho de Bacor&aacute;, com<br \/>\n    esse desgra&ccedil;ado rei do Egito, arrebataram talvez para sempre a felicidade<br \/>\n    de sua vida: tenho muito medo de havermos perdido Amazan irremediavelmente.<\/p>\n<p> Perguntou ent&atilde;o aos criados se se podia cumprimentar a senhora m&atilde;e<br \/>\n    de Amazan. Responderam que, havendo morrido o seu esposo na ante-v&eacute;spera,<br \/>\n    n&atilde;o recebia ela ningu&eacute;m. A f&ecirc;nix, que era muito considerada<br \/>\n    na casa, n&atilde;o deixou de fazer entrar a princesa de Babil&ocirc;nia em<br \/>\n    um sal&atilde;o cujas paredes eram revestidas de pau de laranjeira com filetes<br \/>\n    de marfim; os subpastores e subpastoras, em longas t&uacute;nicas brancas<br \/>\n    com cintos cor de aurora, serviram-lhe, em cem travessas de simples porcelana,<br \/>\n    cem iguarias deliciosas, entre as quais n&atilde;o se via nenhum cad&aacute;ver<br \/>\n    disfar&ccedil;ado: era arroz, sagu, s&ecirc;mola, aletria, macarr&atilde;o,<br \/>\n    omeletes, ovos com molho branco, queijos, massas de toda esp&eacute;cie, legumes,<br \/>\n    frutas de um perfume e de um sabor de que n&atilde;o se tem id&eacute;ia em<br \/>\n    outros climas; e havia uma profus&atilde;o de licores refrigerantes, superiores<br \/>\n    aos melhores vinhos.<\/p>\n<p> Enquanto a princesa comia, estendida num leito de rosas, quatro pav&otilde;es,<br \/>\n    felizmente mudos, a abanavam com suas brilhantes asas; duzentos p&aacute;ssaros,<br \/>\n    cem pastores e cem pastoras lhe deram um concerto de dois coros; os rouxin&oacute;is,<br \/>\n    os can&aacute;rios, as toutinegras, os tentilh&otilde;es faziam soprano com<br \/>\n    as pastoras; os pastores faziam o contralto e o baixo: era em tudo a bela<br \/>\n    e simples natureza. A princesa confessou que, se havia mais magnific&ecirc;ncia<br \/>\n    em Babil&ocirc;nia, a natureza era mil vezes mais agrad&aacute;vel entre os<br \/>\n    gang&aacute;ridas; mas, enquanto lhe ofereciam aquela m&uacute;sica t&atilde;o<br \/>\n    consoladora e voluptuosa, derramava l&aacute;grimas e dizia &agrave; sua jovem<br \/>\n    companheira Irla:<br \/>\n    &#8212; Esses pastores e pastoras, esses rouxin&oacute;is e can&aacute;rios,<br \/>\n    est&atilde;o todos amando, enquanto me sinto privada do her&oacute;i gang&aacute;rida,<br \/>\n    digno objeto dos meus mais ternos e impacientes desejos.<\/p>\n<p> Enquanto assim fazia a sua refei&ccedil;&atilde;o, e admirava, e chorava,<br \/>\n    dizia a f&ecirc;nix &agrave;, m&atilde;e de Amazan:<br \/>\n    &#8212; Senhora, n&atilde;o podeis deixar de ver a princesa de Babil&ocirc;nia;<br \/>\n    bem sabeis que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sei tudo &#8211; disse ela, &#8211; at&eacute; a sua aventura na<br \/>\n    hospedaria da estrada de Ba&ccedil;or&aacute;; um melro me contou tudo esta<br \/>\n    manh&atilde;; e esse melro cruel foi o causante de que meu filho, desesperado,<br \/>\n    ficasse como louco e abandonasse a casa paterna.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sabeis ent&atilde;o &#8211; tornou a f&ecirc;nix &#8211;<br \/>\n    que a princesa me ressuscitou?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o,, meu filho; pelo melro, sabia eu que estavas morto, o<br \/>\n    que me deixava inconsol&aacute;vel. Estava t&atilde;o aflita com essa perda,<br \/>\n    com a morte de meu marido e a s&uacute;bita partida de meu filho, que proibira<br \/>\n    toda e qualquer visita. Mas, j&aacute; que a princesa de Babil&ocirc;nia me<br \/>\n    d&aacute; a honra de vir visitar-me, faze-a logo entrar; tenho coisas da m&aacute;xima<br \/>\n    import&acirc;ncia para lhe dizer, e quero que estejas presente.<\/p>\n<p> Dirigiu-se em seguida a um outro sal&atilde;o, onde deveria encontrar-se<br \/>\n    com a princesa. N&atilde;o andava com facilidade: era uma dama de cerca de<br \/>\n    trezentos anos; mas tinha ainda vest&iacute;gios de beleza e bem se via que,<br \/>\n    entre os duzentos e trinta e os duzentos e quarenta anos, fora mesmo encantadora.<br \/>\n    Recebeu Formosante com uma nobreza respeitosa, a que se mesclava um ar de<br \/>\n    interesse e de dor, e que causou &agrave; princesa uma viva impress&atilde;o.<\/p>\n<p>Formosante lhe apresentou primeiro as condol&ecirc;ncias pela morte do marido.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8211; exclamou a vi&uacute;va. &#8211; Deveis interessar-vos<br \/>\n    pela sua perda mais do que pensais.<\/p>\n<p> &#8212; Sem d&uacute;vida que me sinto abalada &#8211; disse Formosante.<br \/>\n    &#8211; Ele era pai de&#8230;<\/p>\n<p> A estas palavras, ela p&ocirc;s-se a chorar:<br \/>\n    &#8212; Eu n&atilde;o tinha vindo sen&atilde;o por causa dele, e atrav&eacute;s<br \/>\n    de muitos perigos. Deixei, por ele, a meu pai e &agrave; mais brilhante Corte<br \/>\n    do universo; fui raptada por um rei do Egito a quem detesto. Escapando a este,<br \/>\n    atravessei os ares para ver aquele a quem amo; chego, e ele me foge!<br \/>\n    As l&aacute;grimas e os solu&ccedil;os impediram-na de continuar.<\/p>\n<p> &#8212; Alteza &#8211; disse-lhe ent&atilde;o a m&atilde;e, enquanto orei<br \/>\n    do Egito vos seq&uuml;estrava, enquanto ceavam ambos numa hospedaria da estrada<br \/>\n    de Ba&ccedil;or&aacute;, quando as vossas belas m&atilde;os lhe serviam vinho<br \/>\n    de Chiraz, n&atilde;o vos lembrais de ter visto um melro que revoava pela<br \/>\n    sala?<br \/>\n    &#8212; &Eacute; verdade, v&oacute;s me reavivais a mem&oacute;ria; eu n&atilde;o<br \/>\n    tinha prestado aten&ccedil;&atilde;o; mas, concentrando-me, bem me lembro<br \/>\n    que, no momento em que o rei do Egito se erguia da mesa para me dar um beijo,<br \/>\n    o melro voou pela janela lan&ccedil;ando um grito, e n&atilde;o mais reapareceu.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, Alteza! &#8211; suspirou a m&atilde;e de Amazan &#8211; Eis<br \/>\n    exatamente a causa das nossas desgra&ccedil;as. O meu filho mandara esse melro<br \/>\n    informar-se do vosso estado de sa&uacute;de e de tudo o que se passava em<br \/>\n    Babil&ocirc;nia; esperava regressar em breve para lan&ccedil;ar-se a vossos<br \/>\n    p&eacute;s e consagrar-vos a vida. Nem sabeis a que ponto ele vos adora. Todos<br \/>\n    os gang&aacute;ridas s&atilde;o amorosos e fi&eacute;is; mas o meu filho &eacute;<br \/>\n    o mais apaixonado e o mais constante de todas. O melro vos encontrou numa<br \/>\n    estalagem, a beber alegremente com o rei do Egito e um maldito sacerdote;<br \/>\n    ele vos viu enfim dar um terno beijo &agrave;quele monarca que matara a f&ecirc;nix<br \/>\n    e ao qual meu filho tem invenc&iacute;vel horror. A vista disso, o melro foi<br \/>\n    tomado de justa indigna&ccedil;&atilde;o; voou amaldi&ccedil;oando os vossos<br \/>\n    funestos amores. Regressou hoje e contou tudo. Mas em que momento, meu Deus!<br \/>\n    No momento em que meu filho chorava comigo a morte de seu pai e a da f&ecirc;nix,<br \/>\n    no momento em que ele sabia, por mim, que &eacute; vosso primo!<br \/>\n    &#8212; O c&eacute;us! Meu primo! Ser&aacute; poss&iacute;vel, senhora? E<br \/>\n    por que aventura? Como? Ent&atilde;o sou eu feliz a tal ponto?! E seria t&atilde;o<br \/>\n    desgra&ccedil;ada ao mesmo tempo, por hav&ecirc;-lo ofendido?!<br \/>\n    &#8212; Meu filho &eacute; vosso primo &#8211; tornou a m&atilde;e, &#8211;<br \/>\n    e j&aacute; vos dou a prova; mas, tornando-vos parente minha, v&oacute;s me<br \/>\n    arrancais o filho; ele n&atilde;o poder&aacute; sobreviver &agrave; dor que<br \/>\n    lhe causou vosso beijo ao rei do Egito.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! minha tia &#8211; exclamou a bela Formosante, &#8211; juro por<br \/>\n    ele e pelo poderoso Orosmade que aquele beijo funesto, longe de ser criminoso,<br \/>\n    era a mais forte prova de amor que eu poderia dar a vosso filho. Por causa<br \/>\n    de Amazan, eu desobedecia a meu pai. Ia, por causa dele, do Eufrates ao Ganges.<br \/>\n    Ca&iacute;da nas m&atilde;os do indigno fara&oacute; do Egito, n&atilde;o<br \/>\n    podia escapar-lhe sen&atilde;o enganando-o. Atestam-no as cinzas e a alma<br \/>\n    da f&ecirc;nix, que estavam ent&atilde;o comigo; ela pode fazer-me justi&ccedil;a.<br \/>\n    Mas como &eacute; que vosso filho, nascido &agrave;s margens do Ganges, pode<br \/>\n    ser meu primo, quando minha fam&iacute;lia reina h&aacute; tantos s&eacute;culos<br \/>\n    nas margens do Eufrates?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o sabeis &#8211; tornou a vener&aacute;vel gang&aacute;rida<br \/>\n    &#8211; que o vosso tio-av&ocirc; Ald&eacute;ia era rei de Babil&ocirc;nia<br \/>\n    e que foi destronado pelo pai de Belus?<br \/>\n    &#8212; Sim, Senhora.<\/p>\n<p> &#8212; Sabeis que seu filho Ald&eacute;ia tivera de seu casamento a princesa<br \/>\n    Ald&eacute;ia, criada e educada na vossa Corte. Pois foi esse pr&iacute;ncipe<br \/>\n    que, perseguido por vosso pai, veio refugiar-se em nossa terra, sob um nome<br \/>\n    suposto; foi ele quem me desposou; e dele tive o pr&iacute;ncipe Ald&eacute;ia-Amazan,<br \/>\n    o mais belo, o mais forte, o mais corajoso, o mais virtuoso dos mortais, e<br \/>\n    hoje o mais louco. Foi &agrave;s festas de Babil&ocirc;nia levado por vossa<br \/>\n    reputa&ccedil;&atilde;o de beleza: desde esse tempo ele vos idolatra, e eu<br \/>\n    talvez nunca mais torne a ver o meu querido filho.<\/p>\n<p> Fez ent&atilde;o mostrar &agrave; princesa todos os t&iacute;tulos da casa<br \/>\n    dos Ald&eacute;ias; Formosante mal se dignou olh&aacute;-los.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! senhora! &#8211; exclamou. &#8211; Acaso a gente examina o que<br \/>\n    deseja? Meu cora&ccedil;&atilde;o o cr&ecirc; de sobra. Mas onde est&aacute;<br \/>\n    Ald&eacute;ia-Amazan? Onde est&aacute; o meu parente, o meu amado, o meu rei?<br \/>\n    Onde est&aacute; a minha vida? Que caminho tomou? Iria procur&aacute;-lo em<br \/>\n    todos os globos que o Eterno formou e de que ele &eacute; o mais belo ornamento.<br \/>\n    Iria &agrave; estr&eacute;ia Canope, a Sheat, a Aldebar&atilde;; iria convenc&ecirc;-lo<br \/>\n    do meu amor e da minha inoc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> A f&ecirc;nix absolveu a princesa do crime que lhe imputara o melro, de<br \/>\n    haver dado um beijo de amor ao rei do Egito; mas era preciso desenganar Amazan<br \/>\n    e traz&ecirc;-lo de volta. Envia p&aacute;ssaros a todas as estradas, p&otilde;e<br \/>\n    em campo os unic&oacute;rnios: vem dizer-lhe afinal que Amazan tomara o caminho<br \/>\n    da China.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem, vamos &agrave; China! &#8211; exclamou a princesa. &#8211;<br \/>\n    A viagem n&atilde;o &eacute; longa; espero trazer vosso filho de volta, dentro<br \/>\n    em quinze dias, o mais tardar.<\/p>\n<p> A estas palavras, quantas l&aacute;grimas de ternura n&atilde;o lan&ccedil;aram<br \/>\n    a m&atilde;e gang&aacute;rida e a princesa de Babil&ocirc;nia! Quantos abra&ccedil;os!<br \/>\n    Quantas efus&otilde;es!<br \/>\n    A f&ecirc;nix encomendou imediatamente uma carruagem de cem unic&oacute;rnios.<br \/>\n    A m&atilde;e forneceu duzentos cavalheiros e deu de presente &agrave; princesa,<br \/>\n    sua sobrinha, alguns milhares dos mais belos diamantes do pa&iacute;s. A f&ecirc;nix,<br \/>\n    aflita com o mal que havia causado a indiscri&ccedil;&atilde;o do melro, ordenou<br \/>\n    a expuls&atilde;o de todos os melros. &Eacute; desde essa &eacute;poca que<br \/>\n    n&atilde;o mais se encontram melros &agrave; margem do Ganges.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">CAP&Iacute;TULO V<\/a><\/h4>\n<p> Em menos de oito dias, os unic&oacute;rnios conduziram Formosante, Irla<br \/>\n    e a f&ecirc;nix a Cambalu, capital da China. Era uma cidade maior que Babil&ocirc;nia,<br \/>\n    e de uma esp&eacute;cie de magnific&ecirc;ncia completamente diversa. Aqueles<br \/>\n    novos objetos, aqueles costumes novos, teriam distra&iacute;do Formosante,<br \/>\n    se ela se pudesse ocupar de outra coisa que n&atilde;o fosse Amazan.<\/p>\n<p> Logo que o imperador da China soube que a princesa da Babil&ocirc;nia se<br \/>\n    achava numa das portas da cidade, enviou a seu encontro quatro mil mandarins<br \/>\n    em trajes de cerim&ocirc;nia; todos se prosternaram diante dela e cada um<br \/>\n    lhe apresentou uma sauda&ccedil;&atilde;o escrita em caracteres de ouro sobre<br \/>\n    seda purp&uacute;rea. Formosante lhes disse que, se tivesse quatro mil l&iacute;nguas,<br \/>\n    n&atilde;o deixaria de responder imediatamente a cada um deles; mas, n&atilde;o<br \/>\n    possuindo mais que uma, pedia-lhes para servir-se da mesma a fim de fazer<br \/>\n    um agradecimento geral. Os mandarins conduziram-na respeitosamente &agrave;<br \/>\n    presen&ccedil;a do Imperador.<\/p>\n<p> Era este o mais justo, mais polido e mais s&aacute;bio monarca do mundo.<br \/>\n    Foi ele quem, em primeiro lugar, lavrou um pequeno campo com as suas m&atilde;os<br \/>\n    imperiais, para tornar a agricultura respeit&aacute;vel, ao povo. Foi quem<br \/>\n    primeiro instituiu pr&ecirc;mios para a virtude. As leis, por toda parte ali&aacute;s,<br \/>\n    se restringiam vergonhosamente a punir os crimes. Esse imperador acabava de<br \/>\n    expulsar de seus Estados um bando de bonzos estrangeiros que tinham vindo<br \/>\n    dos confins do Ocidente, na insana esperan&ccedil;a de for&ccedil;ar toda<br \/>\n    a China a pensar como eles, e que, sob o pretexto de anunciar verdades, j&aacute;<br \/>\n    tinham adquirido riquezas e honrarias. Dissera-lhes, ao expuls&aacute;-los,<br \/>\n    estas palavras textuais, registradas nos anais do imp&eacute;rio:<br \/>\n    Poder&iacute;eis fazer aqui tanto mal quanto fizestes alhures: viestes pregar<br \/>\n    dogmas de intoler&acirc;ncia na na&ccedil;&atilde;o mais tolerante da terra.<br \/>\n    Mando-vos de volta para nunca me ver for&ccedil;ado a punir-vos. Sereis honrosamente<br \/>\n    reconduzidos at&eacute; as minhas fronteiras; ser-vos-&aacute; fornecido o<br \/>\n    necess&aacute;rio para voltardes aos limites do hemisf&eacute;rio de onde<br \/>\n    partistes. Ide em paz, se puderdes ir em paz, e nunca mais volteis.<\/p>\n<p> Foi com alegria que a princesa de Babil&ocirc;nia soube desse julgamento<br \/>\n    e dessas palavras; tanto mais certeza tinha de ser recebida na Corte, pois<br \/>\n    estava muito longe de professar dogmas intolerantes. O imperador da China,<br \/>\n    jantando a s&oacute;s com ela, teve a gentileza de banir o embara&ccedil;o<br \/>\n    de qualquer etiqueta constrangedora. Ela apresentou-lhe a f&ecirc;nix, que<br \/>\n    foi muito acariciada pelo imperador e se empoleirou na sua cadeira. Formosante,<br \/>\n    no fim da refei&ccedil;&atilde;o, confiou-lhe ingenuamente o motivo de sua<br \/>\n    viagem, e pediu-lhe que mandasse procurar em Cambalu o belo Amazan, cuja aventura<br \/>\n    lhe contou, sem nada lhe ocultar da fatal paix&atilde;o de que se inflamara<br \/>\n    por aquele jovem her&oacute;i.<\/p>\n<p> &#8212; A quem vindes falar! &#8211; exclamou o imperador da China. &#8211;<br \/>\n    Ele deu-me o prazer de vir &agrave; Corte. Encantou-me, esse am&aacute;vel<br \/>\n    Amazan; &eacute; verdade que est&aacute; profundamente aflito; mas isso torna<br \/>\n    as suas gra&ccedil;as ainda mais tocantes. Nenhum de meus favoritos tem mais<br \/>\n    esp&iacute;rito do que ele; nenhum mandarim togado tem mais vastos conhecimentos;<br \/>\n    nenhum mandarim de espada tem o ar mais her&oacute;ico e marcial; a sua extrema<br \/>\n    juventude d&aacute; novo pre&ccedil;o a todos os seus talentos: se eu fosse<br \/>\n    t&atilde;o desgra&ccedil;ado, t&atilde;o desamparado do Tien e do Changti<br \/>\n    para abalan&ccedil;ar-me a fazer conquistas, pediria a Amazan que se pusesse<br \/>\n    &agrave; frente de meus ex&eacute;rcitos, e estaria certo de triunfar do universo<br \/>\n    inteiro. &Eacute; pena que o seu pesar &agrave;s vezes lhe perturbe o esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Senhor &#8211; disse-lhe Formosante com ar arrebatado e um tom<br \/>\n    de dor, de abalo e de censura, &#8211; por que n&atilde;o me fizestes cear<br \/>\n    com ele? V&oacute;s me matais; mandai-o convidar agora mesmo.<\/p>\n<p> &#8212; Ele partiu esta manh&atilde;, senhora, e n&atilde;o disse para que<br \/>\n    regi&atilde;o se dirigiam seus passos.<\/p>\n<p> Formosante voltou-se para a f&ecirc;nix:<br \/>\n    &#8212; J&aacute;. viste, minha f&ecirc;nix &#8211; disse ela, &#8211; uma<br \/>\n    mo&ccedil;a mais desgra&ccedil;ada do que eu? Mas, Senhor &#8211; continuou<br \/>\n    ela, &#8211; como, e por que p&ocirc;de ele deixar t&atilde;o repentinamente<br \/>\n    uma Corte assim refinada como a vossa e na qual me parece que se desejaria<br \/>\n    passar a vida?<br \/>\n    &#8212; Eis, Senhora, o que aconteceu. Uma princesa de sangue real, das mais<br \/>\n    am&aacute;veis, apaixonou-se por ele, e marcou-lhe um encontro ao meio-dia;<br \/>\n    ele partiu ao amanhecer, deixando este bilhete, que muitas l&aacute;grimas<br \/>\n    custou &agrave; minha parente:<br \/>\n    Bela princesa do sangue da China, mereceu um cora&ccedil;&atilde;o que nunca<br \/>\n    tenha sido sen&atilde;o vosso; jurei aos deuses imortais s&oacute; amar a<br \/>\n    Formosante, princesa de Babil&ocirc;nia, e ensinar-lhe como podemos dominar<br \/>\n    os desejos, em viagem; teve ela a desgra&ccedil;a de sucumbir com um indigno<br \/>\n    rei do Egito: sou o mais infeliz dos homens; perdi meu pai e a f&ecirc;nix,<br \/>\n    e a esperan&ccedil;a de ser amado por Formosante; deixei minha m&atilde;e<br \/>\n    aflita e minha p&aacute;tria, sem poder mais viver um s&oacute; momento no<br \/>\n    lugar onde soube que Formosante amava a outro que n&atilde;o eu; jurei percorrer<br \/>\n    o mundo e ser fiel. V&oacute;s me desprezar&iacute;eis, e os deuses me puniriam,<br \/>\n    se eu violasse meu juramento; tomai um noivo, Senhora, e que possais ter uma<br \/>\n    fidelidade igual &agrave; minha.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! deixai comigo essa admir&aacute;vel carta &#8211; disse a bela<br \/>\n    Formosante, &#8211; ela ser&aacute; o meu consolo; sinto-me feliz no meu infort&uacute;nio.<br \/>\n    Amazan me ama; Amazan renuncia, por mim, &agrave; posse das princesas da China;<br \/>\n    s&oacute; ele, no mundo, &eacute; capaz de tal vit&oacute;ria; d&aacute;-me<br \/>\n    um grande exemplo; mas bem sabe a f&ecirc;nix que eu n&atilde;o precisava<br \/>\n    disso; &eacute; muito cruel ver-se a gente privada de quem ama s&oacute; por<br \/>\n    causa do mais inocente dos beijos dado por pura fidelidade. Mas afinal, aonde<br \/>\n    foi ele? Que caminho tomou? Dignai-vos dizer-me, e eu parto.<\/p>\n<p> O Imperador da China respondeu que, pelos relatos que lhe haviam trazido,<br \/>\n    seguira Amazan uma estrada que levava para a C&iacute;tia. Em seguida foram<br \/>\n    atrelados os unic&oacute;rnios, e a princesa, depois dos mais am&aacute;veis<br \/>\n    cumprimentos, despediu-se do imperador, com a f&ecirc;nix, a camareira Irla,<br \/>\n    e toda a comitiva.<\/p>\n<p> Logo ao chegar &agrave; C&iacute;tia, viu, mais do que nunca, como os homens<br \/>\n    e os governos diferem, e diferir&atilde;o sempre, at&eacute; que um dia um<br \/>\n    povo mais esclarecido que os outros comunique a luz, de vizinho para vizinho,<br \/>\n    ap&oacute;s mil s&eacute;culos de trevas, e quando se encontrem, em climas<br \/>\n    b&aacute;rbaros, almas her&oacute;icas que tenham a for&ccedil;a e perseveran&ccedil;a<br \/>\n    de transformar os brutos em homens.<\/p>\n<p> Nenhuma cidade havia na C&iacute;tia e, por conseguinte, nada de artes agrad&aacute;veis.<br \/>\n    N&atilde;o se viam sen&atilde;o vastas plan&iacute;cies, e povos inteiros<br \/>\n    debaixo de tendas ou em cima de carros. Tal aspecto causava terror. Formosante<br \/>\n    Indagou em que tenda ou em que carreta se alojava o rei. Disseram-lhe que,<br \/>\n    oito dias antes, se pusera em marcha &agrave; frente de trezentos mil cavaleiros,<br \/>\n    para ir ao encontro do rei de Babil&ocirc;nia, a quem havia raptado a sobrinha,<br \/>\n    a bela princesa Ald&eacute;ia.<\/p>\n<p> &#8212; Raptou minha prima?! &#8211; exclamou Formosante. &#8211; Por essa<br \/>\n    nova aventura eu n&atilde;o esperava. Como! A minha prima, que se dava por<br \/>\n    muito feliz em me fazer a corte, se tornou rainha, e eu ainda n&atilde;o me<br \/>\n    casei!<br \/>\n    Fez-se conduzir imediatamente &agrave;s tendas da rainha.<\/p>\n<p> Seu inesperado encontro naqueles remotos climas, as coisas singulares que<br \/>\n    tinham mutuamente a contar-se, deram &agrave; sua entrevista um encanto que<br \/>\n    as fez esquecer que jamais se haviam estimado; reviram-se com transporte;<br \/>\n    uma suave ilus&atilde;o tomou o lugar da verdadeira ternura; beijaram-se chorando;<br \/>\n    e at&eacute; cordialidade e franqueza houve entre ambas, uma vez que a entrevista<br \/>\n    n&atilde;o se realizava num pal&aacute;cio.<\/p>\n<p> Ald&eacute;ia reconheceu a f&ecirc;nix e a confidente Irla; presenteou peles<br \/>\n    de zibelina &agrave; prima, que, por sua vez, a presenteou com diamantes.<br \/>\n    Falaram da guerra que os dois reis empreendiam; deploraram a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos homens, que os monarcas, por fantasia, mandam entredegolar-se, devido<br \/>\n    a diferen&ccedil;as que dois homens sensatos poderiam solucionar numa hora;<br \/>\n    mas falaram principalmente do belo estrangeiro vencedor dos le&otilde;es,<br \/>\n    doador dos maiores diamantes do universo, autor dos madrigais, possuidor da<br \/>\n    f&ecirc;nix, e tornado, por causa de um melro, o mais infeliz dos homens.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o meu querido irm&atilde;o &#8211; dizia Ald&eacute;ia.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o meu amado! &#8211; exclamava Formosante. Sem d&uacute;vida<br \/>\n    o viste, talvez ainda esteja aqui, pois sabe que &eacute; teu irm&atilde;o<br \/>\n    e n&atilde;o haveria de deixar-te bruscamente, como deixou ao rei da China.<\/p>\n<p> &#8212; Se eu o vi, meu Deus! &#8211; tornou Ald&eacute;ia. &#8211; Passou<br \/>\n    quatro dias inteiros comigo. Ah! minha prima, como o meu irm&atilde;o &eacute;<br \/>\n    digno de l&aacute;stima! Uma falsa hist&oacute;ria o tornou inteiramente louco;<br \/>\n    corre o mundo sem saber aonde vai. Imagina tu que levou a loucura a ponto<br \/>\n    de recusar os favores da mais bela cita de toda a C&iacute;tia! Partiu ontem,<br \/>\n    depois de lhe haver escrito uma carta que a deixou desesperada. Ele foi &agrave;<br \/>\n    terra dos cim&eacute;rios.<\/p>\n<p> &#8212; Louvado seja Deus! &#8211; exclamou Formosante. &#8211; Mais outra<br \/>\n    recusa em meu favor! Minha felicidade ultrapassou minha esperan&ccedil;a,<br \/>\n    como minha desgra&ccedil;a ultrapassou a todos os meus temores. Manda-me entregar<br \/>\n    essa encantadora carta. Que eu parta, e o siga, com as m&atilde;os cheias<br \/>\n    de seus sacrif&iacute;cios. Adeus, minha prima: Amazan est&aacute; entre os<br \/>\n    cim&eacute;rios, vou voando para l&aacute;.<\/p>\n<p> Ald&eacute;ia achou que a princesa sua prima estava ainda mais louca que<br \/>\n    o seu irm&atilde;o Amazan. Mas como j&aacute; conhecia por experi&ecirc;ncia<br \/>\n    pr&oacute;pria os ataques dessa epidemia, como deixara as delicias e magnific&ecirc;ncias<br \/>\n    de Babil&ocirc;nia pelo rei dos citas, como as mulheres sempre se interessam<br \/>\n    pelas loucuras de que o amor &eacute; causa, enterneceu-se verdadeiramente<br \/>\n    com o caso de Formosante, desejou-lhe feliz viagem, e prometeu servir a sua<br \/>\n    paix&atilde;o, se ela tivesse a felicidade de tornar a ver Amazan.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">CAP&Iacute;TULO VI<\/a><\/h4>\n<p> Em breve a princesa de Babil&ocirc;nia e a f&ecirc;nix chegaram ao imp&eacute;rio<br \/>\n    dos cim&eacute;rios, na verdade muito menos povoado que a China, mas duas<br \/>\n    vezes mais extenso, outrora semelhante &agrave; C&iacute;tia e agora, desde<br \/>\n    alguns tempos, t&atilde;o florescente como os reinos que. se vangloriavam<br \/>\n    de instruir os outros Estados.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s alguns dias de marcha, entraram numa grande cidade que a imperatriz<br \/>\n    reinante mandava embelezar. Mas esta ali n&atilde;o se achava; viajava ent&atilde;o,<br \/>\n    das fronteiras da Europa &agrave;s da &Aacute;sia, para. conhecer seus Estados<br \/>\n    pelos seus pr&oacute;prios olhos, para julgar dos males e lhes aplicar os<br \/>\n    rem&eacute;dios, para aumentar as vantagens j&aacute; conseguidas, para semear<br \/>\n    a instru&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Um dos primeiros oficiais dessa antiga capital, informado da chegada, da<br \/>\n    babil&ocirc;nia e da f&ecirc;nix, apressou-se em ir apresentar suas homenagens<br \/>\n    &agrave; princesa e fazer-lhe as honras do pa&iacute;s, certo de que a sua<br \/>\n    soberana, que era a mais polida e magnifica das rainhas, lhe ficaria grata<br \/>\n    por haver recebido t&atilde;o alta dama com as mesmas aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que ela pr&oacute;pria lhe prodigalizaria.<\/p>\n<p> Alojaram Formosante no pal&aacute;cio, de que afastaram uma importuna multid&atilde;o;<br \/>\n    ofereceram-lhe festas engenhosas. O senhor cim&eacute;rio, que era um grande<br \/>\n    naturalista, conversou muito com o p&aacute;ssaro enquanto a princesa se achava<br \/>\n    retirada a seus aposentos. A f&ecirc;nix confessou-lhe que outrora viajara<br \/>\n    muito entre os cim&eacute;rios, mas que hoje n&atilde;o mais conhecia o pa&iacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Como &eacute; que t&atilde;o prodigiosas mudan&ccedil;as &#8211;<br \/>\n    dizia &#8211; puderam operar-se em t&atilde;o curto prazo? N&atilde;o faz<br \/>\n    trezentos anos que vi aqui a natureza selvagem em todo o seu horror; e hoje<br \/>\n    encontro aqui as artes, o esplendor, a gl&oacute;ria e a polidez.<\/p>\n<p> &#8212; Um &uacute;nico homem come&ccedil;ou essa grande obra &#8211; respondeu<br \/>\n    o cim&eacute;rio, &#8211; uma mulher a aperfei&ccedil;oou; uma mulher foi<br \/>\n    melhor legisladora que a Isis dos eg&iacute;pcios e a Ceres dos gregos. A<br \/>\n    maioria dos legisladores tiveram um g&ecirc;nio estreito e desp&oacute;tico,<br \/>\n    que confinou sua vis&atilde;o aos pa&iacute;ses que governaram; cada qual<br \/>\n    considerou seu povo como o &uacute;nico sobre a face da terra, ou como destinado<br \/>\n    a ser inimigo do resto da terra. Formaram institui&ccedil;&otilde;es para<br \/>\n    esse &uacute;nico povo, introduziram usos para ele s&oacute;, estabeleceram<br \/>\n    uma religi&atilde;o s&oacute; para ele. &Eacute; assim que os eg&iacute;pcios,<br \/>\n    t&atilde;o famosos por mont&otilde;es de pedras, se embruteceram e desonraram<br \/>\n    com as suas supersti&ccedil;&otilde;es b&aacute;rbaras. Julgam profanas as<br \/>\n    outras na&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o se comunicam com elas, e, com exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Corte, que &agrave;s vezes se eleva acima dos preconceitos vulgares, n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; um eg&iacute;pcio que queira comer num prato de que j&aacute; se<br \/>\n    haja servido um estrangeiro. Seus sacerdotes s&atilde;o cru&eacute;is e absurdos.<br \/>\n    Melhor seria n&atilde;o ter leis e s&oacute; escutar a natureza, que gravou<br \/>\n    nos nossos cora&ccedil;&otilde;es os caracteres do justo e do injusto, do<br \/>\n    que submeter a sociedade a leis t&atilde;o insoci&aacute;veis.<\/p>\n<p> A nossa imperatriz alimenta projetos inteiramente opostos; considera o seu<br \/>\n    vasto Estado, sobre o qual todos os meridianos v&ecirc;m juntar-se, como correspondente<br \/>\n    a todos os povos que habitam sob esses diversos meridianos. A primeira de<br \/>\n    suas leis foi a toler&acirc;ncia de todas as religi&otilde;es e a compaix&atilde;o<br \/>\n    por todos os erros. Seu poderoso g&ecirc;nio reconheceu que, se os ,cultos<br \/>\n    s&atilde;o diferentes, a moral &eacute; por toda parte a mesma; por esse princ&iacute;pio,<br \/>\n    ligou sua na&ccedil;&atilde;o a todas as na&ccedil;&otilde;es do mundo, e<br \/>\n    os cim&eacute;rios olham o escandinavo e o chin&ecirc;s como seus irm&atilde;os.<br \/>\n    Fez mais: quis que essa preciosa toler&acirc;ncia, o primeiro elo dos homens,<br \/>\n    se estabelecesse entre os Estados vizinhos; assim mereceu o t&iacute;tulo<br \/>\n    de m&atilde;e da p&aacute;tria, e ter&aacute; o de benfeitora do g&ecirc;nero<br \/>\n    humano, se perseverar.<\/p>\n<p> Antes dela, homens infelizmente poderosos mandavam tropas de assassinos<br \/>\n    devastarem popula&ccedil;&otilde;es desconhecidas, que assim regavam com o<br \/>\n    seu pr&oacute;prio sangue a heran&ccedil;a que haviam recebido dos pais; chamavam<br \/>\n    a esses bandidos de her&oacute;is; a sua atrocidade chamava-se gl&oacute;ria.<br \/>\n    Outra gl&oacute;ria tem a nossa soberana: fez marchar ex&eacute;rcitos para<br \/>\n    disseminar a paz, para impedir que os homens se prejudicassem, para os for&ccedil;ar<br \/>\n    a suportarem-se uns aos outros; e seus estandartes foram os da conc&oacute;rdia<br \/>\n    p&uacute;blica.<\/p>\n<p> A f&ecirc;nix, encantada do que ouvia, disse ao seu interlocutor:<br \/>\n    &#8212; Senhor, faz vinte e sete mil novecentos anos e sete meses que estou<br \/>\n    neste mundo; e ainda nada vi que se compare ao que acaba de dizer-me.<\/p>\n<p> Pediu-lhe novas de seu amigo Amazan; o cim&eacute;rio contou-lhe as coisas<br \/>\n    que haviam dito &agrave; princesa entre os chineses e os citas. Amazan fugia<br \/>\n    de todas as Cortes que visitava logo que alguma dama lhe marcava um encontro<br \/>\n    a que temia sucumbir. A f&ecirc;nix logo informou a princesa dessa nova prova<br \/>\n    de fidelidade que lhe dava Amazan, fidelidade tanto mais espantosa quanto<br \/>\n    n&atilde;o podia ele suspeitar que a princesa viesse um dia a sab&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Partira para a Escandin&aacute;via. Foi nesses climas que novos espet&aacute;culos<br \/>\n    o impressionaram. Aqui a realeza e a liberdade subsistiam juntas, por um acordo<br \/>\n    que pareceria imposs&iacute;vel em outros Estados: os agricultores tinham<br \/>\n    parte na legisla&ccedil;&atilde;o, bem como os grandes do reino; e um jovem<br \/>\n    pr&iacute;ncipe dava as maiores esperan&ccedil;as de ser digno de governar<br \/>\n    uma na&ccedil;&atilde;o livre. E nisso havia algo de mais estranho: o &uacute;nico<br \/>\n    rei que tinha direito desp&oacute;tico sobre a sua terra, por um contrato<br \/>\n    formal com o seu povo era ao mesmo tempo o mais jovem e o mais justo dos reis.<\/p>\n<p> Entre os s&aacute;matras, Amazan viu um fil&oacute;sofo no trono; podia<br \/>\n    ser chamado o rei da anarquia, pois era chefe de cem. mil pequenos reis, um<br \/>\n    s&oacute; dos quais podia, com uma palavra, anular as resolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de todos os outros. &Eacute;olo n&atilde;o tinha mais dificuldade em contar<br \/>\n    todos os ventos que se combatem incessantemente do que aquele monarca em conciliar<br \/>\n    os esp&iacute;ritos; era um piloto cercado de eterna tempestade, e no entanto<br \/>\n    o barco n&atilde;o se quebrava: pois o pr&iacute;ncipe era um excelente piloto.<\/p>\n<p> Percorrendo todos esses pa&iacute;ses t&atilde;o diferentes da sua p&aacute;tria,<br \/>\n    Amazan evitava constantemente todas as aventuras galantes que se lhe apresentavam,<br \/>\n    sempre desesperado com o beijo de Formosante ao rei do Egito, sempre firme<br \/>\n    na sua inconceb&iacute;vel resolu&ccedil;&atilde;o de dar a Formosante o exemplo<br \/>\n    de uma fidelidade &uacute;nica e inabal&aacute;vel.<\/p>\n<p> A princesa de Babil&ocirc;nia, com a sua f&ecirc;nix, sempre lhe seguia<br \/>\n    o rastro, nunca desencontrando-se de Amazan, a n&atilde;o ser por um dia ou<br \/>\n    dois, sem que este jamais se cansasse de correr, nem ela de o seguir.<\/p>\n<p> Atravessaram assim toda a Germ&acirc;nia; admiraram os progressos que faziam<br \/>\n    no Norte a raz&atilde;o e a filosofia; todos os pr&iacute;ncipes eram ali<br \/>\n    instru&iacute;dos, todos autorizavam a liberdade de pensamento sua educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o fora confiada a homens que tivessem interesse em engan&aacute;-los<br \/>\n    ou que estivessem eles pr&oacute;prios enganados; tinham-nos educado no conhecimento<br \/>\n    da moral universal e no desprezo das supersti&ccedil;&otilde;es; haviam banido<br \/>\n    de todos aqueles Estados um insensato costume que enervava e despovoava diversos<br \/>\n    pa&iacute;ses meridionais: o de enterrar vivos, em vastos calabou&ccedil;os,<br \/>\n    um n&uacute;mero infinito de pessoas dos dois sexos, eternamente separados<br \/>\n    um dos outros, e de os fazer jurar que nunca teriam rela&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Esse c&uacute;mulo da dem&ecirc;ncia, respeitado durante tantos s&eacute;culos,<br \/>\n    tinha devastado o mundo da mesma forma que as guerras mais cru&eacute;is.<\/p>\n<p> Os pr&iacute;ncipes do Norte haviam compreendido que, para ter haras, n&atilde;o<br \/>\n    se deviam separar das &eacute;guas os mais fortes cavalos. Tinham tamb&eacute;m<br \/>\n    destru&iacute;do erros n&atilde;o menos bizarros nem menos perniciosos. Afinal<br \/>\n    os homens se atreviam a ser razo&aacute;veis naquelas vastas regi&otilde;es,<br \/>\n    enquanto que alhures ainda se acreditava que s&oacute; podem ser governados<br \/>\n    na medida da sua imbecilidade.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">CAP&Iacute;TULO VII<\/a><\/h4>\n<p> Amazan chegou &agrave; terra dos batavos; em meio do seu pesar, suave alegria<br \/>\n    lhe penetrou o cora&ccedil;&atilde;o ao encontrar ali como que uma p&aacute;lida<br \/>\n    imagem do pa&iacute;s gang&aacute;rida: a liberdade, a igualdade, a limpeza,<br \/>\n    a abund&acirc;ncia, a toler&acirc;ncia; mas as damas do pa&iacute;s eram t&atilde;o<br \/>\n    frias que nenhuma lhe fez propostas, como acontecera em toda parte; ele n&atilde;o<br \/>\n    teve o trabalho de resistir. Se quisesse atacar &agrave;quelas damas, t&ecirc;-las-ia<br \/>\n    subjugado uma ap&oacute;s outra, sem ser amado por nenhuma; mas longe estava<br \/>\n    de pensar em conquistas.<\/p>\n<p> Formosante esteve a ponto de o alcan&ccedil;ar nessa na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ins&iacute;pida: foi quest&atilde;o de momentos. Ouvira Amazan tantos elogios,<br \/>\n    entre os batavos, a certa ilha chamada Albion que resolveu tomar um navio<br \/>\n    com os seus unic&oacute;rnios, o qual, pegando vento favor&aacute;vel, o levou<br \/>\n    em quatro horas &agrave;s costas daquela terra mais formosa que Tiro e a ilha<br \/>\n    Atl&acirc;ntida.<\/p>\n<p> A bela Formosante, que o seguira at&eacute; o Du&iacute;na, o V&iacute;stula,<br \/>\n    o Elba e o V&eacute;ser, chega enfim &agrave;s bocas do Reno, que despejava<br \/>\n    suas &aacute;guas r&aacute;pidas no Mar Germ&acirc;nico.<\/p>\n<p> E informada de que seu amado vogara para as costas de Albion; julga avistar<br \/>\n    o seu navio; lan&ccedil;a gritos de alegria, de que muito se surpreendem as<br \/>\n    damas batavas, pois n&atilde;o imaginam possa um jovem causar tamanha alegria;<br \/>\n    e, quanto &agrave; f&ecirc;nix, n&atilde;o lhe deram maior import&acirc;ncia,<br \/>\n    pois acharam que as suas penas n&atilde;o podiam provavelmente ser t&atilde;o<br \/>\n    bem vendidas como as dos patos e marrecos de seus banhados. A princesa de<br \/>\n    Babil&ocirc;nia fretou dois navios para a transportarem, com toda a sua gente,<br \/>\n    &agrave;quela ilha feliz que ia possuir o &uacute;nico objeto de todos os<br \/>\n    seus desejos, a alma de sua vida, o deus de seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Um funesto vento do oeste ergueu-se de s&uacute;bito no preciso instante<br \/>\n    em que o fiel e infeliz Amazan desembarcava em Albion: os navios da princesa<br \/>\n    de Babil&ocirc;nia n&atilde;o puderam partir. Um aperto de cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma dor amarga, uma profunda melancolia apoderaram-se de Formosante; no seu<br \/>\n    sofrimento, meteu-se no leito, &agrave; espera que o vento mudasse; mas este<br \/>\n    soprou oito dias inteiros com uma viol&ecirc;ncia desesperadora. A princesa,<br \/>\n    durante aquele s&eacute;culo de oito dias, fazia a camareira ler-lhe romances:<br \/>\n    n&atilde;o que os batavos os soubessem fazer, mas, como eram os empreiteiros<br \/>\n    do universo, vendiam o esp&iacute;rito das outras na&ccedil;&otilde;es, assim<br \/>\n    como os seus g&ecirc;neros. A princesa mandou comprar no estabelecimento de<br \/>\n    Marc-Michel Rey todas as hist&oacute;rias que haviam escrito entre os ausonianos<br \/>\n    e velches, e cuja venda era sabiamente proibida nessas na&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    para enriquecer os batavos; esperava encontrar naquelas hist&oacute;rias alguma<br \/>\n    aventura que se assemelhasse &agrave; sua e que: embalasse o seu pesar. Irla<br \/>\n    lia, a f&ecirc;nix dava a sua opini&atilde;o, e a princesa nada encontrava<br \/>\n    na Camponesa Enriquecida, nem no Sof&aacute;, nem nos Quatro Facardenses,<br \/>\n    que tivesse a m&iacute;nima rela&ccedil;&atilde;o com as suas aventuras; a<br \/>\n    todo instante interrompia e leitura para indagar de que lado soprava o vento.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">CAP&Iacute;TULO VIII<\/a><\/h4>\n<p> Entrementes, j&aacute; ia Amazan, a caminho da capital de Albion, na sua<br \/>\n    carruagem de seis unic&oacute;rnios, e pensava na sua princesa. Avistou uma<br \/>\n    equipagem derribada num fosso; os criados se haviam afastado em busca de socorro;<br \/>\n    o patr&atilde;o permanecia tranq&uuml;ilamente em seu carro, sem demonstrar<br \/>\n    a m&iacute;nima impaci&ecirc;ncia, e divertindo-se em fumar: pois ent&atilde;o<br \/>\n    se fumava; chamava-se milorde What-then, o que significa mais ou menos milorde<br \/>\n    Que Importa, na l&iacute;ngua para a qual traduzo estas mem&oacute;rias.<\/p>\n<p> Amazan precipitou-se para auxili&aacute;-lo; ergueu sozinho o carro, t&atilde;o<br \/>\n    superior era sua for&ccedil;a &agrave; do comum dos homens. Milorde Que Importa<br \/>\n    contentou-se em dizer: &#8220;Isso &eacute; que &eacute; for&ccedil;a&#8221;.<br \/>\n    Havendo acorrido alguns r&uacute;sticos da vizinhan&ccedil;a, zangaram-se<br \/>\n    por haver sido chamados inutilmente, descarregando a c&oacute;lera no estrangeiro;<br \/>\n    amea&ccedil;aram-no, chamando-o de c&atilde;o estrangeiro, e quiseram bater-lhe.<\/p>\n<p> Amazan segurou dois deles em cada m&atilde;o e arremessou-os a vinte passos<br \/>\n    de dist&acirc;ncia; os outros criaram-lhe respeito, cumprimentaram-no e pediram-lhe<br \/>\n    algum troco para beber:<br \/>\n    Amazan lhes deu mais dinheiro do que eles jamais viram em toda a vida. Milorde<br \/>\n    Que Importa disse-lhe:<br \/>\n    &#8212; Estimo-o; venha jantar comigo na minha casa de campo, que s&oacute;<br \/>\n    fica a tr&ecirc;s milhas daqui. Subiu na carruagem de Amazan, porque a sua<br \/>\n    ficara desarranjada com o choque.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s um quarto de hora de sil&ecirc;ncio, fitou um momento Amazan<br \/>\n    e disse-lhe: How d&#8217;ye do?, literalmente: Como vos fazeis fazer?, e na<br \/>\n    l&iacute;ngua do tradutor: Como passa o senhor? Depois acrescentou: &#8220;O<br \/>\n    senhor tem ai seis bonitos unic&oacute;rnios&#8221; e recome&ccedil;ou a fumar.<\/p>\n<p> O viajante disse que os seis unic&oacute;rnios estavam &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    que vinha com ele do pa&iacute;s dos gang&aacute;ridas; e aproveitou a ocasi&atilde;o<br \/>\n    para falar da princesa de Babil&ocirc;nia e daquele beijo fatal que ela dera<br \/>\n    no rei do Egito: ao que o outro n&atilde;o replicou absolutamente nada, pouco<br \/>\n    se lhe dando que houvesse no mundo um rei do Egito e uma princesa de Babil&ocirc;nia.<br \/>\n    Esteve ainda um quarto de hora sem dizer coisa alguma; depois tornou a perguntar<br \/>\n    ao companheiro como ele se fazia e se comiam bom roast-beef. O viajante respondeu-lhe<br \/>\n    com a habitual polidez que nas margens do Ganges ningu&eacute;m comia seus<br \/>\n    irm&atilde;os. Explicou-lhe o sistema que foi, depois de tantos s&eacute;culos,<br \/>\n    o de Pit&aacute;goras, de P&oacute;rfiro, de J&acirc;mblico, com o que o milorde<br \/>\n    adormeceu e n&atilde;o fez mais que um sono at&eacute; chegarem &agrave; sua<br \/>\n    casa.<\/p>\n<p> Tinha ele uma mulher jovem e encantadora, a quem a natureza dera uma alma<br \/>\n    t&atilde;o viva e sens&iacute;vel quanto a do marido era indiferente. V&aacute;rios<br \/>\n    senhores albionenses tinham ido jantar com ela naquele dia. Havia caracteres<br \/>\n    de toda esp&eacute;cie; pois como o pais quase nunca fora governado a n&atilde;o<br \/>\n    ser por estrangeiros, as fam&iacute;lias vindas com esses pr&iacute;ncipes<br \/>\n    tinham quase todas trazido costumes diferentes. Havia na companhia pessoas<br \/>\n    muito am&aacute;veis, outras de esp&iacute;rito superior, outras de profundo<br \/>\n    saber.<\/p>\n<p> A dona da casa nada tinha desse ar posti&ccedil;o e esquerdo, dessa rigidez,<br \/>\n    desse falso pudor que censuravam ent&atilde;o nas jovens de Albion; n&atilde;o<br \/>\n    ocultava, numa atitude desdenhosa e num sil&ecirc;ncio afetado, a esterilidade<br \/>\n    de suas id&eacute;ias e o humilhante embara&ccedil;o de n&atilde;o ter nada<br \/>\n    que dizer: n&atilde;o havia mulher mais insinuante. Recebeu Amazan com a polidez<br \/>\n    e gra&ccedil;a que lhe eram naturais. A extrema beleza daquele estrangeiro,<br \/>\n    e a s&uacute;bita compara&ccedil;&atilde;o que fez entre ele e seu marido,<br \/>\n    logo a abalaram sensivelmente.<\/p>\n<p> Foram para a mesa. Fez Amazan sentar-se a seu lado e serviu-lhe pudins de<br \/>\n    toda esp&eacute;cie, pois soubera dele que os gang&aacute;ridas n&atilde;o<br \/>\n    se alimentavam de nada que houvesse recebido dos deuses o dom celestial da<br \/>\n    vida. Sua beleza, sua for&ccedil;a, os costumes dos gang&aacute;ridas, o progresso<br \/>\n    das artes, a religi&atilde;o e o governo, foram assunto de uma conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o agrad&aacute;vel qu&atilde;o instrutiva durante a refei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que durou at&eacute;. a noite, e durante a qual milorde Que Importa bebeu<br \/>\n    muito e n&atilde;o disse palavra.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s o jantar, enquanto milady servia o ch&aacute; e devorava o jovem<br \/>\n    com os olhos, conversava este com um membro do parlamento, pois &eacute; sabido<br \/>\n    que j&aacute; ent&atilde;o havia um parlamento e que se chamava Wittenagemot,<br \/>\n    o que significa assembl&eacute;ia dos pessoas de esp&iacute;rito. Amazan informava-se<br \/>\n    da constitui&ccedil;&atilde;o, dos usos e costumes, das leis, das for&ccedil;as,<br \/>\n    das artes, que t&atilde;o recomend&aacute;vel tornavam aquele pa&iacute;s;<br \/>\n    e o referido senhor falava-lhe nos seguintes termos:<br \/>\n    &#8212; Por muito tempo andamos inteiramente nus, embora o clima n&atilde;o<br \/>\n    seja quente. Durante muito tempo fomos tratados como escravos por gente vinda<br \/>\n    da antiga terra de Saturno, regada pelas &aacute;guas do Tibre. Mas a n&oacute;s<br \/>\n    mesmos temos causado maiores males do que os sofremos da parte de nossos primeiros<br \/>\n    vencedores. Um de nossos reis levou a baixeza a ponto de se declarar s&uacute;dito<br \/>\n    de um sacerdote que tamb&eacute;m morava &agrave; margem do Tibre, e a quem<br \/>\n    chamavam o Velho das Sete Colinas; de tal modo foi destino dessas sete montanhas<br \/>\n    dominarem por muito tempo uma grande parte da Europa, habitada ent&atilde;o<br \/>\n    por brutos.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s. esses tempos de aviltamento, vieram s&eacute;culos de ferocidade<br \/>\n    e anarquia. A nossa terra, mais tempestuosa que os mares que a cercam, foi<br \/>\n    sacudida e ensang&uuml;entada por nossas disc&oacute;rdias. V&aacute;rios<br \/>\n    testas-coroadas pereceram no &uacute;ltimo supl&iacute;cio. Mais de cem pr&iacute;ncipes<br \/>\n    do sangue dos reis acabaram seus dias no cadafalso. Arrancaram o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a todos os seus adeptos e bateram-lhes com ele nas faces. Ao carrasco &eacute;<br \/>\n    que competia escrever a hist&oacute;ria da nossa ilha, pois fora ele quem<br \/>\n    terminara todas as grandes quest&otilde;es.<\/p>\n<p> N&atilde;o faz muito que, para c&uacute;mulo do horror, algumas pessoas<br \/>\n    de manto negro e outros que usavam uma camisa branca por cima da jaqueta foram<br \/>\n    mordidas por c&atilde;es raivosos e acabaram comunicando a raiva &agrave;<br \/>\n    na&ccedil;&atilde;o inteira. Todos os cidad&atilde;os foram ou assassinos<br \/>\n    ou vitimas, ou carrascos ou supliciados, ou depredadores ou escravos, em nome<br \/>\n    do c&eacute;u e em busca do Senhor. Quem diria que desse abismo temeroso,<br \/>\n    desse caos de dissen&ccedil;&otilde;es, de atrocidades, de, ignor&acirc;ncia<br \/>\n    e de fanatismo tenha resultado talvez o mais perfeito governo que hoje existe<br \/>\n    no mundo? Um rei venerado e rico, todo poderoso para fazer o bem, impotente<br \/>\n    para fazer o mal, est&aacute; &agrave; frente de uma na&ccedil;&atilde;o livre,<br \/>\n    guerreira, comerciante e esclarecida. Os grandes de um lado, e os representantes<br \/>\n    das cidades de outro, compartilham da legisla&ccedil;&atilde;o com o monarca.<\/p>\n<p> Vira-se, por singular fatalidade, a desordem, as guerras civis, a anarquia<br \/>\n    e a pobreza assolarem o pa&iacute;s quando os reis exerciam o poder arbitr&aacute;rio.<br \/>\n    A tranq&uuml;ilidade, a riqueza, a felicidade p&uacute;blica, s&oacute; reinaram<br \/>\n    entre n&oacute;s quando os reis reconheceram que n&atilde;o eram absolutos.<br \/>\n    Tudo estava subvertido quando disputavam sobre coisas inintelig&iacute;veis;<br \/>\n    tudo entrou em ordem depois que as desprezaram. Nossas frotas vitoriosas levam<br \/>\n    a nossa gl&oacute;ria a todos os mares, e as leis p&otilde;em em seguran&ccedil;a<br \/>\n    as nossas fortunas; jamais um juiz as pode interpretar arbitrariamente; jamais<br \/>\n    se d&aacute; uma senten&ccedil;a que n&atilde;o seja motivada. Punir&iacute;amos<br \/>\n    como assassinos os juizes que ousassem condenar um cidad&atilde;o &agrave;<br \/>\n    morte sem invocar os testemunhos que o acusam e a lei que o condena.<\/p>\n<p> E verdade que h&aacute; sempre, entre n&oacute;s, dois partidos que se combatem<br \/>\n    com a pena e com intrigas; mas tamb&eacute;m se re&uacute;nem sempre que se<br \/>\n    trata de pegar em armas para defender a p&aacute;tria e a liberdade. Esses<br \/>\n    dois partidos vigiam um ao outro; impedem-se mutuamente de violar o sagrado<br \/>\n    dep&oacute;sito das leis; odeiam-se, mas amam o Estado: s&atilde;o amantes<br \/>\n    ciumentos que servem &agrave; porfia a mesma amante.<\/p>\n<p> Com o mesmo esp&iacute;rito que nos fez conhecer e sustentar os direitos<br \/>\n    da natureza humana, elevamos as ci&ecirc;ncias ao mais alto ponto a que possam<br \/>\n    chegar entre os homens. Os vossos eg&iacute;pcios, que passam por t&atilde;o<br \/>\n    grandes mec&acirc;nicos; os vossos hindus, a quem julgam t&atilde;o grandes<br \/>\n    fil&oacute;sofos; os vossos babil&ocirc;nios, que se vangloriam de haver observado<br \/>\n    os astros durante quatrocentos e trinta mil anos; os gregos, que escreveram<br \/>\n    tantas frases e t&atilde;o poucas coisas, n&atilde;o sabem precisamente nada<br \/>\n    em compara&ccedil;&atilde;o com os nossos menores colegiais, que estudaram<br \/>\n    as descobertas de nossos grandes mestres. Arrancamos mais segredos &agrave;<br \/>\n    natureza no espa&ccedil;o de cem anos do que os descobriu o g&ecirc;nero humano<br \/>\n    na multid&atilde;o dos s&eacute;culos.<\/p>\n<p> Eis na verdade o estado em que nos achamos. N&atilde;o lhe ocultei nem o<br \/>\n    bem, nem o mal, nem os nossos opr&oacute;brios, nem a nossa gl&oacute;ria;<br \/>\n    e nada exagerei.<\/p>\n<p> Amazan, a tais palavras, sentiu-se penetrado do desejo de se instruir naquelas<br \/>\n    sublimes ci&ecirc;ncias de que lhe falavam; e se a sua paix&atilde;o pela<br \/>\n    princesa de Babil&ocirc;nia, o seu filial respeito &agrave; m&atilde;e, a<br \/>\n    quem deixara, e o amor &agrave; p&aacute;tria, n&atilde;o lhe houvessem falado<br \/>\n    fortemente ao cora&ccedil;&atilde;atilde;o despeda&ccedil;ado, desejaria passar a<br \/>\n    vida na ilha de Albion. Mas aquele desgra&ccedil;ado beijo da sua princesa<br \/>\n    para o rei do Egito n&atilde;o lhe deixava suficiente liberdade de esp&iacute;rito<br \/>\n    para estudar as altas ci&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> &#8212; Confesso &#8211; disse ele &#8211; que, tendo-me imposto a lei de<br \/>\n    correr mundo e evitar-me a mim mesmo, teria curiosidade de ver essa antiga<br \/>\n    terra de Saturno, esse povo do Tibre e das sete montanhas, a quem outrora<br \/>\n    obedecestes; deve ser, sem d&uacute;vida, o primeiro povo da terra.<\/p>\n<p> &#8212; Aconselho-o a fazer essa viagem &#8211; disse o albionense &#8211;<br \/>\n    se aprecia a m&uacute;sica e a pintura. N&oacute;s pr&oacute;prios vamos seguidamente<br \/>\n    levar o nosso t&eacute;dio &agrave;s sete montanhas. Mas o amigo h&aacute;<br \/>\n    de ficar muito espantado quando vir os descendentes de nossos vencedores.<\/p>\n<p> A conversa&ccedil;&atilde;o foi longa. O belo Amazan, embora tivesse o c&eacute;rebro<br \/>\n    um tanto perturbado, falava com tal gra&ccedil;a, t&atilde;o tocante era a<br \/>\n    sua voz, t&atilde;o nobre e am&aacute;vel a sua atitude, que a dona da casa<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de deixar, por sua vez, de conversar a s&oacute;s com ele.<br \/>\n    Enquanto lhe falava, apertava-lhe ternamente a m&atilde;o, e fitava-o com<br \/>\n    olhos &uacute;midos e brilhantes que acordavam os desejos em todas as molas<br \/>\n    vitais. Reteve-o para a ceia e a pousada. Cada instante, cada palavra, cada<br \/>\n    olhar mais inflamavam a paix&atilde;o da dama. Logo que todos se recolheram,<br \/>\n    escreveu-lhe um bilhetinho, esperando que ele fosse fazer-lhe a corte no leito,<br \/>\n    enquanto milorde Que Importa dormia no seu. Amazan teve ainda coragem de resistir,<br \/>\n    tal o maravilhoso efeito que produz um gr&atilde;o de loucura numa alma forte<br \/>\n    e profundamente atingida.<\/p>\n<p> Amazan, segundo o seu costume, escreveu &agrave; dama uma resposta respeitosa,<br \/>\n    em que alegava a santidade do seu juramento e a estrita obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que se achava de ensinar a princesa de Babil&ocirc;nia a dominar as suas<br \/>\n    paix&otilde;es. Depois mandou atrelar os unic&oacute;rnios e regressou &agrave;<br \/>\n    Bat&aacute;via, deixando todos encantados com ele e a dona da casa desesperada.<br \/>\n    No seu desespero, esqueceu-se ela de guardar a carta de Amazan; milorde Que<br \/>\n    Importa leu-a na manh&atilde; seguinte. &#8220;Quanta baboseira!&#8221; &#8211;<br \/>\n    disse ele, dando de ombros, e foi &agrave; ca&ccedil;a da raposa com alguns<br \/>\n    b&ecirc;bedos da vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Amazan j&aacute; navegava em alto mar, munido de uma carta geogr&aacute;fica<br \/>\n    que lhe presenteara o s&aacute;bio albionense com quem conversara em casa<br \/>\n    de milorde Que Importa. Via com surpresa uma grande parte da terra sobre uma<br \/>\n    folha de papel. Seus olhos e sua imagina&ccedil;&atilde;o perdiam-se naquele<br \/>\n    pequeno espa&ccedil;o; olhava o. Reno, o Dan&uacute;bio, os Alpes do Tirol,<br \/>\n    designados ent&atilde;o por outros nomes, e todos os pa&iacute;ses por onde<br \/>\n    devia passar antes de chegar &agrave; cidade das sete montanhas; mas principalmente<br \/>\n    olhava para a regi&atilde;o dos gang&aacute;ridas, para Babil&ocirc;nia, onde<br \/>\n    vira a sua querida princesa, e para a fatal Ba&ccedil;or&aacute;, onde ela<br \/>\n    beijara o rei do Egito. Suspirava, vertia l&aacute;grimas; mas reconhecia<br \/>\n    que o albionense que lhe fizera presente do universo em miniatura n&atilde;o<br \/>\n    deixava de ter raz&atilde;o quando afirmava que havia mil vezes mais instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave;s margens do T&acirc;misa do que &agrave;s margens do Nilo, do Eufrates<br \/>\n    e do Ganges.<\/p>\n<p> Enquanto voltava ele para Bat&aacute;via, corria Formosante para Albion<br \/>\n    com os seus dois navios, que velejavam a todo o pano. O de Amazan e o da princesa<br \/>\n    cruzaram-se, quase que se tocaram: os dois enamorados estavam perto um do<br \/>\n    outro e n&atilde;o podiam suspeit&aacute;-lo. Ah, se o soubessem! Mas n&atilde;o<br \/>\n    o permitiu o imperioso destino.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">CAP&Iacute;TULO IX<\/a><\/h4>\n<p> Logo que desembarcou no solo raso e lamacento da Bat&aacute;via, Amazan<br \/>\n    partiu como um raio para a cidade das sete montanhas. Teve de atravessar a<br \/>\n    parte meridional da Germ&acirc;nia. De quatro em quatro milhas, topava com<br \/>\n    um pr&iacute;ncipe e uma princesa, aias e mendigos. Espantava-se das galanterias<br \/>\n    que aquelas damas e aias lhe faziam por toda parte, com a boa f&eacute; germ&acirc;nica;<br \/>\n    e s&oacute; lhes respondia com modestas recusas. Depois de franquear os Alpes,<br \/>\n    atravessou o mar de Dalm&aacute;cia, e desembarcou numa cidade que em nada<br \/>\n    se parecia com o que vira at&eacute; ent&atilde;o. O mar formava as ruas,<br \/>\n    as casas eram constru&iacute;das n&#8217;&aacute;gua. As poucas pra&ccedil;as<br \/>\n    p&uacute;blicas que ornavam aquela cidade estavam cheias de homens e mulheres<br \/>\n    que tinham um duplo rosto, o que a natureza lhes dera, e um rosto de cart&atilde;o<br \/>\n    mal pintado que aplicavam por cima; de maneira que a na&ccedil;&atilde;o parecia<br \/>\n    composta de espectros. Os rec&eacute;m-chegados come&ccedil;avam por comprar<br \/>\n    um rosto, como em outros lugares se adquire um barrete ou um par de sapatos.<br \/>\n    Amazan desprezou essa moda contra a natureza; apresentou-se tal como era.<br \/>\n    Havia na cidade doze mil raparigas registradas na escrita da rep&uacute;blica:<br \/>\n    raparigas &uacute;teis ao Estado, encarregadas do mais vantajoso e agrad&aacute;vel<br \/>\n    com&eacute;rcio que j&aacute; enriqueceu uma na&ccedil;&atilde;o. Os negociantes<br \/>\n    comuns, com grandes gastos e riscos, enviavam estofos para o Oriente; aquelas<br \/>\n    belas negociantes faziam, sem o m&iacute;nimo risco, um sempre renovado tr&aacute;fico<br \/>\n    de seus encantos. Vieram todas apresentar-se ao belo Amazan e oferecer-lhe<br \/>\n    a escolha. Ele escapou-se o mais depressa poss&iacute;vel, pronunciando o<br \/>\n    nome da incompar&aacute;vel princesa de Babil&ocirc;nia e jurando pelos deuses<br \/>\n    imortais que ela era mais linda que todas as doze mil raparigas venezianas.<br \/>\n    &#8220;Sublime traidora &#8211; exclamava ele nos seus transportes, &#8211;<br \/>\n    eu te ensinarei a seres fiel!&#8221;<br \/>\n    Afinal, as ondas amarelas do Tibre, p&acirc;ntanos empestados, habitantes<br \/>\n    macilentos, descarnados e raros, cobertos de velhos mantos esburacados que<br \/>\n    entremostravam a pele seca e curtida, se lhe apresentaram aos olhos, anunciando-lhe<br \/>\n    que se achava &agrave;s portas da cidade das sete montanhas, aquela cidade<br \/>\n    de her&oacute;is e legisladores que haviam conquistado e civilizado grande<br \/>\n    parte do mundo.<\/p>\n<p> Tinha imaginado que veria &agrave; porta triunfal quinhentos batalh&otilde;es<br \/>\n    comandados por her&oacute;is e, no Senado, uma assembl&eacute;ia de semideuses<br \/>\n    ditando leis &agrave; terra; como &uacute;nico e todo ex&eacute;rcito, achou<br \/>\n    umas tr&ecirc;s d&uacute;zias de marotos montando guarda com um parassol,<br \/>\n    com certeza por modo de se queimarem. Penetrando num templo que lhe pareceu<br \/>\n    muito belo, mas menos que o de Babil&ocirc;nia, ficou muito surpreendido ao<br \/>\n    ouvir uma m&uacute;sica executada por homens que tinham voz de mulher.<\/p>\n<p> &#8212; Que esquisito pa&iacute;s esta antiga terra de Saturno! &#8211;<br \/>\n    disse ele. &#8211; Vi uma cidade onde ningu&eacute;m tinha o pr&oacute;prio<br \/>\n    rosto, e agora vejo outra onde os homens n&atilde;o t&ecirc;m nem a respectiva<br \/>\n    voz nem as respectivas barbas.<\/p>\n<p> Disseram-lhe que aqueles cantores n&atilde;o eram mais homens, que os haviam<br \/>\n    despojado de sua virilidade a fim de que mais agradavelmente entoassem loas<br \/>\n    a uma prodigiosa quantidade de pessoas merit&oacute;rias. Amazan nada compreendeu.<br \/>\n    Os referidos senhores pediram-lhe que cantasse; ele cantou uma can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    gang&aacute;rida com a sua gra&ccedil;a ordin&aacute;ria. Tinha uma bela voz<br \/>\n    de bar&iacute;tono.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Monsignor &#8211; disseram eles, &#8211; que delicioso soprano<br \/>\n    n&atilde;o daria! Ah! se&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Se o qu&ecirc;? Que querem dizer?<br \/>\n    &#8212; Ah, Monsignor!<br \/>\n    &#8212; E da&iacute;?<br \/>\n    &#8212; Se Monsignor n&atilde;o tivesse barba!<br \/>\n    Explicaram-lhe ent&atilde;o muito divertidamente e com gestos muito c&ocirc;micos,<br \/>\n    segundo o seu costume, de que coisa se tratava. Amazan ficou perplexo: &#8220;Tenho<br \/>\n    viajado &#8211; disse ele, &#8211; mas nunca ouvira falar de tal fantasia&#8221;.<\/p>\n<p> Depois de cantarem bastante, o Velho das Sete Colinas chegou, em pomposo<br \/>\n    cortejo, &agrave; porta do templo; cortou o ar em quatro com o polegar erguido,<br \/>\n    dois dedos estendidos e os dois outros dobrados, dizendo estas palavras em<br \/>\n    uma l&iacute;ngua que ningu&eacute;m mais falava. &Agrave; cidade e ao universo<br \/>\n    (2). O gang&aacute;rida n&atilde;o conseguia compreender que dois dedos pudessem<br \/>\n    alcan&ccedil;ar t&atilde;o longe.<\/p>\n<p> Viu logo desfilar toda a corte do senhor do mundo: compunha-se de graves<br \/>\n    personagens, uns de vermelho, outros de violeta; quase todos fitavam o belo<br \/>\n    Amazan com olhos dengosos; faziam-lhe rever&ecirc;ncias e diziam entre si:<br \/>\n    San Martino, che bel ragazzo! San Pancratio, che bel fanciullo!<br \/>\n    Os ardentes cujo of&iacute;cio consistia em mostrar aos estrangeiros as curiosidades<br \/>\n    da cidade, empenharam-se em faz&ecirc;-lo ver constru&ccedil;&otilde;es onde<br \/>\n    um arrieiro n&atilde;o desejaria passar a noite, mas que tinham sido outrora<br \/>\n    dignos monumentos da grandeza de um povo-rei. Viu ainda quadros de duzentos<br \/>\n    anos e est&aacute;tuas de mais de vinte s&eacute;culos, que lhe pareceram<br \/>\n    obras-primas.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda fazem obras assim?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, Excel&ecirc;ncia &#8211; respondeu-lhe um dos guias, &#8211;<br \/>\n    mas desprezamos o resto do mundo porque conservamos essas raridades. Somos<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de adelos que nos orgulhamos das velhas roupas que ficaram<br \/>\n    em nosso estabelecimento. Amazan mostrou desejo de ver o pal&aacute;cio do<br \/>\n    pr&iacute;ncipe; levaram-no at&eacute; l&aacute;. Viu homens de violeta que<br \/>\n    contavam o dinheiro das rendas do Estado: tanto de uma terra situada &agrave;<br \/>\n    margem do Dan&uacute;bio, tanto de outra &agrave; margem do Loire, ou do Guadalquivir,<br \/>\n    ou do V&iacute;stula.<\/p>\n<p> &#8212; Oh! Oh! &#8211; exclamou Amazan, ap&oacute;s haver consultado a<br \/>\n    sua carta geogr&aacute;fica, &#8211; o seu senhor possui ent&atilde;o toda<br \/>\n    a Europa, como esses antigos her&oacute;is das sete montanhas?<br \/>\n    &#8212; Deve possuir o universo inteiro, por direito divino &#8211; respondeu-lhe<br \/>\n    um dos violetas, &#8211; e at&eacute; houve tempo em que os seus predecessores<br \/>\n    se aproximaram da monarquia universal; mas os seus sucessores t&ecirc;m hoje<br \/>\n    a bondade de contentar-se com algum dinheiro que os reis seus s&uacute;ditos<br \/>\n    lhes pagam em forma de tributo.<\/p>\n<p> &#8212; O seu senhor &eacute; ent&atilde;o, de fato, o rei dos reis? N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; esse o seu t&iacute;tulo?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, Excel&ecirc;ncia, o seu t&iacute;tulo &eacute; servo dos<br \/>\n    servos; &eacute; originariamente pescador e porteiro, e eis por que os emblemas<br \/>\n    da sua dignidade s&atilde;o chaves e redes; mas continua dando ordens a todos<br \/>\n    os reis. N&atilde;o faz muito, enviou cento e um mandamentos a um rei do pa&iacute;s<br \/>\n    dos celtas, e o rei obedeceu.<\/p>\n<p> &#8212; O seu pescador &#8211; disse Amazan &#8211; enviou ent&atilde;o<br \/>\n    quinhentos ou seiscentos mil homens para fazer executar as suas cento e uma<br \/>\n    disposi&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    &#8212; De forma alguma, Excel&ecirc;ncia; o nosso santo senhor n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; suficientemente rico para pagar dez mil soldados; mas disp&otilde;e<br \/>\n    de quatrocentos a quinhentos mil profetas divinos distribu&iacute;dos pelos<br \/>\n    outros pa&iacute;ses. Esses profetas de todas as cores s&atilde;o, como &eacute;<br \/>\n    razo&aacute;vel, alimentados &agrave; custa do povo de cada na&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    anunciam da parte do c&eacute;u que o meu senhor, com as suas chaves, pode<br \/>\n    abrir e fechar todos os cadeados, e principalmente os dos cofres fortes. Um<br \/>\n    padre normando, que tinha junto ao rei de que lhe falo o cargo de confidente,<br \/>\n    convenceu-o de que devia obedecer, sem tugir nem mugir, &agrave;s cento e<br \/>\n    uma delibera&ccedil;&otilde;es de meu senhor; pois &eacute; bom saber que<br \/>\n    uma das prerrogativas do Velho das Sete Colinas &eacute; a de ter sempre raz&atilde;o,<br \/>\n    seja falando, seja escrevendo.<\/p>\n<p> &#8212; Sim senhor! Que homem mais singular! &#8211; exclamou Amazan. &#8211;<br \/>\n    Teria curiosidade de jantar com ele. &#8211; Ainda que Vossa Excel&ecirc;ncia<br \/>\n    fosse rei, n&atilde;o poderia comer &agrave; sua mesa; o mais que ele poderia<br \/>\n    fazer pelo senhor seria mandar servir-lhe uma a seu lado, menor e mais baixa<br \/>\n    que a sua pr&oacute;pria. Mas, se quiser ter a honra de lhe falar, solicitarei<br \/>\n    audi&ecirc;ncia para o senhor, mediante a buona mancia que o senhor ter&aacute;<br \/>\n    a bondade de dar-me.<\/p>\n<p> &#8212; Com muito gosto &#8211; respondeu o gang&aacute;rida.<\/p>\n<p> O violeta inclinou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Eu o introduzirei amanh&atilde; &#8211; disse ele. &#8211; O senhor<br \/>\n    far&aacute; tr&ecirc;s genuflex&otilde;es e beijar&aacute; os p&eacute;s do<br \/>\n    Velho das Sete Colinas.<\/p>\n<p> &#8212; A tais palavras, Amazan soltou t&atilde;o prodigiosas gargalhadas<br \/>\n    que quase sufocou; saiu segurando as ilhargas e riu at&eacute; as l&aacute;grimas<br \/>\n    durante todo o caminho para a hospedaria, onde riu ainda por muito tempo.<\/p>\n<p> &Agrave; mesa, apresentaram-se vinte homens sem barba e vinte violinos,<br \/>\n    que lhe deram um concerto. Foi cortejado o resto do dia pelos senhores mais<br \/>\n    importantes da cidade; fizeram-lhe propostas ainda mais esquisitas do que<br \/>\n    a de beijar os p&eacute;s do Velho das Sete Colinas. Como era extremamente<br \/>\n    polido, julgou a princ&iacute;pio que aqueles senhores o tomavam por uma dama,<br \/>\n    e os advertiu de seu engano com a mais circunspecta lisura. Mas, sendo assediado<br \/>\n    um pouco vivamente por dois ou tr&ecirc;s dos mais decididos violetas, arremessou-os<br \/>\n    pela janela, sem julgar fazer grande sacrif&iacute;cio &agrave; bela Formosante.<br \/>\n    Deixou o mais depressa poss&iacute;vel aquela cidade dos senhores do mundo,<br \/>\n    onde se tinha de beijar um velho no artelho, como se a sua face estivesse<br \/>\n    no p&eacute;, e onde s&oacute; se abordavam os jovens com cerim&ocirc;nias<br \/>\n    ainda mais estranhas.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">CAP&Iacute;TULO X<\/a><\/h4>\n<p> De prov&iacute;ncia em prov&iacute;ncia, sempre repelindo provoca&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de toda esp&eacute;cie, sempre fiel &agrave; princesa de Babil&ocirc;nia,<br \/>\n    sempre em c&oacute;lera contra o rei do Egito, chegou aquele modelo de const&acirc;ncia<br \/>\n    &agrave; nova capital das G&aacute;lias. Passara esta cidade, como tantas<br \/>\n    outras, por todos os graus da barb&aacute;rie, da ignor&acirc;ncia, da tolice<br \/>\n    e da mis&eacute;ria. O seu primeiro nome fora lama e excremento; depois tomara<br \/>\n    o de Isis, do culto de Isis, que chegara at&eacute; ela. Seu primeiro senado<br \/>\n    fora uma companhia de barqueiros. Estivera por muito tempo escravizada aos<br \/>\n    her&oacute;is depredadores das sete montanhas; e, alguns s&eacute;culos depois,<br \/>\n    outros her&oacute;is salteadores, vindos da margem ulterior do Reno, se haviam<br \/>\n    apoderado de seu pequeno solo.<\/p>\n<p> O tempo, que transforma tudo, fizera dela uma cidade cuja metade era muito<br \/>\n    nobre e agrad&aacute;vel, e a outra um pouco grosseira e rid&iacute;cula:<br \/>\n    eram os atributos de seus habitantes. Havia no seu recinto cerca de cem mil<br \/>\n    pessoas pelo menos que n&atilde;o tinham nada que fazer sen&atilde;o jogar<br \/>\n    e divertir-se. Esse povo de ociosos julgava as artes que os outros cultivavam.<br \/>\n    Nada sabiam do que se passava na Corte; embora ficasse esta apenas a quatro<br \/>\n    escassas milhas dali, era como se estivesse pelo menos a umas seiscentas milhas.<br \/>\n    As do&ccedil;uras da sociedade, a alegria, a frivolidade, eram o seu &uacute;nico<br \/>\n    e importante neg&oacute;cio: governavam-nos como a crian&ccedil;as a quem<br \/>\n    se enche de brinquedos para as impedir de chorar. Se lhes falavam dos horrores<br \/>\n    que, dois s&eacute;culos antes, haviam desolado a sua p&aacute;tria e dos<br \/>\n    espantosos dias em que metade da na&ccedil;&atilde;o massacrava a outra por<br \/>\n    causa de sofismas, diziam que na verdade aquilo n&atilde;o estava direito;<br \/>\n    e depois punham-se a rir e a cantar.<\/p>\n<p> Quanto mais corteses, divertidos e am&aacute;veis se mostravam os ociosos,<br \/>\n    tanto mais triste era o contraste que se observava entre eles e os ocupados.<\/p>\n<p> Havia entre esses ocupados, ou que pretendiam s&ecirc;-lo, um bando de sombrios<br \/>\n    fan&aacute;ticos, meio absurdos, meio velhacos, cujo simples aspecto contristava<br \/>\n    a terra, e que a teriam abalado, se pudessem, para conseguir um pouco de considera&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas a na&ccedil;&atilde;o dos ociosos, dan&ccedil;ando e cantando, fazia-os<br \/>\n    entrar nas suas cavernas, como os p&aacute;ssaros obrigam as corujas a voltar<br \/>\n    para o esconderijo das ru&iacute;nas.<\/p>\n<p> Outros ocupados, em menor n&uacute;mero, eram zeladores de antigas usan&ccedil;as<br \/>\n    b&aacute;rbaras contra as quais bradava a natureza; n&atilde;o consultavam<br \/>\n    sen&atilde;o os seus registros ro&iacute;dos de tra&ccedil;as. Se ali encontravam<br \/>\n    algum costume Insensato e horr&iacute;vel, consideravam-no como uma lei sagrada.<br \/>\n    Devido a esse covarde h&aacute;bito de n&atilde;o ousarem pensar por si mesmos,<br \/>\n    e de haurirem suas id&eacute;ias nos destro&ccedil;os dos tempos em que n&atilde;o<br \/>\n    se pensava, &eacute; que, na cidade dos prazeres, ainda existiam costumes<br \/>\n    atrozes. &Eacute; por esse motivo que n&atilde;o havia nenhuma propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre os delitos e as penas. Faziam &agrave;s vezes um inocente sofrer mil<br \/>\n    mortes para obrig&aacute;-lo a confessar um crime que n&atilde;o havia cometido.<br \/>\n    Puniam uma leviandade de rapaz como teriam punido um envenenamento os um parric&iacute;dio.<br \/>\n    Os ociosos lan&ccedil;avam gritos lancinantes e no dia seguinte n&atilde;o<br \/>\n    pensavam mais no caso e s&oacute; falavam em novas modas.<\/p>\n<p> Esse povo vira escoar um s&eacute;culo inteiro durante o qual as belas-artes<br \/>\n    se elevaram a um grau de perfei&ccedil;&atilde;o que jamais se ousaria esperar;<br \/>\n    os estrangeiros vinham ent&atilde;o, como a Babil&ocirc;nia, admirar os grandes<br \/>\n    monumentos de arquitetura, os prod&iacute;gios dos jardins, os sublimes esfor&ccedil;os<br \/>\n    da escultura e da pintura. Encantavam-se com uma m&uacute;sica que ia direito<br \/>\n    &agrave; alma sem espantar os ouvidos.<\/p>\n<p> A verdadeira poesia, isto &eacute;, aquela que &eacute; natural e harmoniosa,<br \/>\n    aquela que tanto fala ao cora&ccedil;&atilde;o como ao esp&iacute;rito, s&oacute;<br \/>\n    a conheceu a na&ccedil;&atilde;o naquele venturoso s&eacute;culo. Novos g&ecirc;neros<br \/>\n    de eloq&uuml;&ecirc;ncia ostentaram sublimes belezas. Os teatros, sobretudo,<br \/>\n    ecoaram de obras-primas de que nenhum povo jamais se aproximou. O bom-gosto,<br \/>\n    enfim, se espalhou por todas as profiss&otilde;es, a tal ponto que houve bons<br \/>\n    escritores at&eacute; mesmo entre os druidas.<\/p>\n<p> Tantos louros, que se haviam erguido at&eacute; as nuvens, em breve secaram<br \/>\n    numa terra exausta. N&atilde;o restou mais que um insignificante n&uacute;mero,<br \/>\n    cujas folhas eram de um verde p&aacute;lido e moribundo. A decad&ecirc;ncia<br \/>\n    foi produzida pela facilidade de fazer e a pregui&ccedil;a de fazer bem, pela<br \/>\n    saciedade do belo e o gosto do exc&ecirc;ntrico. A vaidade protegeu artistas<br \/>\n    que faziam voltar os tempos da barb&aacute;rie; e essa mesma vaidade, perseguindo<br \/>\n    os verdadeiros talentos, for&ccedil;ou-os a deixar a p&aacute;tria; os zang&atilde;os<br \/>\n    fizeram desaparecer as abelhas.<\/p>\n<p> Quase que n&atilde;o havendo verdadeiras artes, quase n&atilde;o havia g&ecirc;nio;<br \/>\n    todo o m&eacute;rito do s&eacute;culo passado; o borrador das paredes de uma<br \/>\n    taverna criticava sapientemente os quadros dos grandes pintores; os borradores<br \/>\n    de papel desfiguravam as obras dos grandes escritores. A ignor&acirc;ncia<br \/>\n    e o mau gosto tinham outros borradores a seu servi&ccedil;o; repetiam-se as<br \/>\n    mesmas coisas em cem volumes, sob t&iacute;tulos diferentes. Tudo era ou dicion&aacute;rio<br \/>\n    ou brochura. Um gazeteiro druida escrevia duas vezes por semana os anais obscuros<br \/>\n    de alguns energ&uacute;menos ignorados da na&ccedil;&atilde;o e prod&iacute;gios<br \/>\n    celestes operados em &aacute;guas-furtadas por pequenos maltrapilhos; outros<br \/>\n    ex-druidas, vestidos de negro, prestes a morrer de raiva e de fome, queixavam-se<br \/>\n    em cem escritos de que n&atilde;o mais lhes permitissem enganar os homens,<br \/>\n    e que deixassem esse direito a bodes vestidos de cinzento. Alguns arquidruidas<br \/>\n    imprimiam libelos difamat&oacute;rios.<\/p>\n<p> Amazan nada sabia disso tudo; e, mesmo que o soubesse, pouco lhe importaria,<br \/>\n    t&atilde;o ocupado tinha o esp&iacute;rito com a princesa de Babil&ocirc;nia,<br \/>\n    o rei do Egito, e o seu inviol&aacute;vel juramento de desprezar as faceirices<br \/>\n    das damas, em qualquer pa&iacute;s onde o sofrimento lhe conduzisse os passos.<\/p>\n<p> Todo o populacho leviano, ignorante, e sempre exagerado nessa curiosidade<br \/>\n    peculiar ao g&ecirc;nero humano, se comprimiu por muito tempo em torno dos<br \/>\n    seus unic&oacute;rnios; as mulheres, mais sensatas, for&ccedil;aram-lhe as<br \/>\n    portas da moradia para contemplar a sua pessoa.<\/p>\n<p> Testemunhou, no princ&iacute;pio, a seu hospedeiro, desejos de ir &agrave;<br \/>\n    Corte; mas alguns ociosos da boa vida, que ali se encontravam por acaso, lhe<br \/>\n    disseram que isso passara de moda, que os tempos eram outros e s&oacute; havia<br \/>\n    prazeres na cidade. Na mesma noite, recebeu convite para cear em casa de uma<br \/>\n    dama cujo esp&iacute;rito e talentos eram conhecidos fora de sua p&aacute;tria,<br \/>\n    e que tinha viajado em alguns pa&iacute;ses por onde Amazan passara. Apreciou<br \/>\n    muito aquela dama e a sociedade reunida em seus sal&otilde;es. A liberdade<br \/>\n    era ali decente, a alegria n&atilde;o era ruidosa, a ci&ecirc;ncia nada tinha<br \/>\n    de desgostante, nem o esp&iacute;rito nada de afetado. Viu que o nome de boa<br \/>\n    sociedade n&atilde;o &eacute; um nome v&atilde;o, embora seja muitas vezes<br \/>\n    usurpado. No dia seguinte jantou numa sociedade n&atilde;o menos am&aacute;vel,<br \/>\n    mas muito mais voluptuosa. Quanto mais satisfeito estava com os convivas,<br \/>\n    tanto mais se agradavam dele. Sentia a alma abrandar e dissolver-se como os<br \/>\n    ar&ocirc;matas de seu pa&iacute;s se fundem suavemente a um fogo moderado,<br \/>\n    exalando-se em perfumes deliciosos.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s o jantar, levaram-no a um espet&aacute;culo encantador, condenado<br \/>\n    pelos druidas, porque lhes roubava o audit&oacute;rio de que eram mais ciumentos.<br \/>\n    Esse espet&aacute;culo era um conjunto de versos agrad&aacute;veis, de cantos<br \/>\n    deliciosos, de dan&ccedil;as que exprimiam os movimentos da alma, e de perspectivas<br \/>\n    que encantavam os olhos, iludindo-os. Esse g&ecirc;nero de espet&aacute;culo,<br \/>\n    que reunia tantos g&ecirc;neros, era conhecido sob um nome estrangeiro: chamava-se<br \/>\n    &oacute;pera, o que significava outrora na l&iacute;ngua das sete montanhas<br \/>\n    trabalho, cuidado, ocupa&ccedil;&atilde;o, ind&uacute;stria, empresa, neg&oacute;cio.<\/p>\n<p> Aquele neg&oacute;cio o encantou. Uma rapariga, sobretudo, fascinou-o com<br \/>\n    a sua voz melodiosa e as gra&ccedil;as que a acompanhavam; essa rapariga de<br \/>\n    neg&oacute;cio foi-lhe apresentada ap&oacute;s o espet&aacute;culo por seus<br \/>\n    novos amigos. Ele lhe fez presente de um punhado de diamantes. T&atilde;o<br \/>\n    reconhecida lhe ficou a rapariga que n&atilde;o o p&ocirc;de deixar no resto<br \/>\n    da noite. Ceou com ela, e durante a ceia, esqueceu a sua sobriedade; e, ap&oacute;s<br \/>\n    a ceia, esqueceu o seu juramento de se conservar sempre insens&iacute;vel<br \/>\n    &agrave; beleza e inexor&aacute;vel ante as coqueterias. Que exemplo da fraqueza<br \/>\n    humana!<br \/>\n    A bela princesa de Babil&ocirc;nia chegava ent&atilde;o com a f&ecirc;nix,<br \/>\n    a sua camareira Irla, e seus duzentos cavaleiros gang&aacute;ridas montados<br \/>\n    em seus unic&oacute;rnios. Foi preciso esperar muito at&eacute; que abrissem<br \/>\n    as portas. Ela perguntou primeiro se o mais belo, o mais corajoso, o mais<br \/>\n    inteligente e o mais, fiel dos homens ainda n&atilde;o havia chegado &agrave;quela<br \/>\n    cidade. Os magistrados logo compreenderam que queria referir-se a Amazan.<br \/>\n    Fez-se conduzir onde ele se achava hospedado; entrou, com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    palpitante de amor: toda a sua alma estava penetrada da inexprim&iacute;vel<br \/>\n    alegria de tornar a ver enfim, na pessoa do bem-amado, o modelo da const&acirc;ncia.<br \/>\n    Nada a p&ocirc;de impedir de entrar no seu quarto; os cortinados estavam abertos:<br \/>\n    ela viu o belo Amazan adormecido entre os bra&ccedil;os de uma linda morena.<br \/>\n    Tinham ambos grande necessidade de repouso.<\/p>\n<p> Formosante lan&ccedil;ou um grito de dor que ecoou por toda a casa, mas<br \/>\n    que n&atilde;o p&ocirc;de despertar nem a seu primo, nem &agrave; mulher de<br \/>\n    neg&oacute;cio. Tombou desmaiada nos bra&ccedil;os de Irla. Logo que recobrou<br \/>\n    os sentidos, retirou-se daquele quarto fatal com um misto de dor e c&oacute;lera.<br \/>\n    Irla informou-se sobre quem era aquela que passava t&atilde;o doces horas<br \/>\n    com o belo Amazan. Disseram-lhe que era uma rapariga de neg&oacute;cio, muito<br \/>\n    complacente, que reunia aos seus outros talentos o de cantar com muita gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; c&eacute;us! &oacute; poderoso Orosmade! &#8211; exclamava,<br \/>\n    chorando, a bela princesa de Babil&ocirc;nia. &#8211; Por quem sou eu tra&iacute;da,<br \/>\n    e com quem! Ent&atilde;o aquele que recusou por mim tantas princesas abandona-me<br \/>\n    agora por uma farsante das G&aacute;lias! N&atilde;o, n&atilde;o poderei sobreviver<br \/>\n    a esta afronta!<br \/>\n    &#8212; Eis, senhora &#8211; lhe disse Irla, &#8211; como s&atilde;o os rapazes,<br \/>\n    de um extremo a outro do mundo. Ainda que estejam enamorados de uma beleza<br \/>\n    descida do c&eacute;u, podem ser-lhe infi&eacute;is, em certos momentos, com<br \/>\n    uma criada de taverna.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; decidido &#8211; disse a princesa, &#8211; nunca mais<br \/>\n    o verei em toda a vida; partamos imediatamente, e que atrelem meus unic&oacute;rnios.<\/p>\n<p> A f&ecirc;nix pediu-lhe para esperar ao menos que Amazan despertasse, a<br \/>\n    fim de que lhe pudesse falar. &#8211; Amazan n&atilde;o merece que lhe fales<br \/>\n    &#8211; disse a princesa, e assim me ofenderias cruelmente; julgaria ele que<br \/>\n    eu te pedi para o censurares e que desejo reconciliar-me com ele. Se me estimas,<br \/>\n    n&atilde;o acrescentes esta inj&uacute;ria &agrave; inj&uacute;ria que ele<br \/>\n    me fez. A f&ecirc;nix, que afinal de contas devia a vida &agrave; filha do<br \/>\n    rei de Babil&ocirc;nia, n&atilde;o p&ocirc;de desobedecer-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Para onde vamos, senhora? &#8211; perguntou-lhe Irla.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei &#8211; dizia a princesa, &#8211; tomaremos o primeiro caminho<br \/>\n    que encontrarmos: desde que me afaste para sempre de Amazan, estou satisfeita.<\/p>\n<p> A f&ecirc;nix, mais sensata do que Formosante, porque era sem paix&atilde;o,<br \/>\n    consolava-a em caminho observava com brandura que era triste castigar-se pelas<br \/>\n    faltas de outrem; que Amazan j&aacute; lhe dera significativas e numerosas<br \/>\n    provas de fidelidade para que lhe pudesse perdoar o haver-se esquecido um<br \/>\n    momento; que era um justo a quem faltara a gra&ccedil;a de Orosmade; que depois<br \/>\n    disso tanto mais constante seria ele no amor e na virtude; que o desejo de<br \/>\n    expiar a falta o faria exceder-se a si mesmo; que tanto mais feliz seria ela;<br \/>\n    que v&aacute;rias princesas haviam perdoado semelhantes deslizes, com o que<br \/>\n    se deram muito bem: citava-lhe exemplos; tal era a sua arte de contar, que<br \/>\n    afinal o cora&ccedil;&atilde;o de Formosante ficou mais calmo e apaziguado;<br \/>\n    ela desejaria n&atilde;o ter partido t&atilde;o cedo; achava que os seus unic&oacute;rnios<br \/>\n    iam demasiado depressa, mas n&atilde;o ousava desandar o caminho; dividida<br \/>\n    entre o desejo de perdoar e o de mostrar sua c&oacute;lera, entre o amor e<br \/>\n    a vaidade, deixava os unic&oacute;rnios seguirem; ela corria o mundo, conforme<br \/>\n    a predi&ccedil;&atilde;o do or&aacute;culo de seu pai.<\/p>\n<p> Amazan, ao despertar, cientifica-se da chegada e partida de Formosante e<br \/>\n    da f&ecirc;nix; sabe do desespero e da c&oacute;lera da princesa; dizem-lhe<br \/>\n    que ela jurou que nunca o perdoaria.<\/p>\n<p> &#8212; Agora &#8211; exclamou ele &#8211; s&oacute; me resta segui-la e<br \/>\n    matar-me a seus p&eacute;s!<br \/>\n    Seus amigos da boa companhia dos ociosos acorreram ao rumor dessa aventura;<br \/>\n    todos lhe demonstraram que era infinitamente melhor ficar com eles; que nada<br \/>\n    era compar&aacute;vel &agrave; doce vida que levavam no seio das artes e de<br \/>\n    uma voluptuosidade tranq&uuml;ila e refinada; que v&aacute;rios estrangeiros,<br \/>\n    e at&eacute; reis, haviam preferido aquele repouso, t&atilde;o agradavelmente<br \/>\n    ocupado e t&atilde;o encantador, &agrave; sua p&aacute;tria e ao seu trono;<br \/>\n    que ali&aacute;s a sua carruagem se achava quebrada e um marceneiro lhe estava<br \/>\n    fabricando outra do mais recente modelo; que o melhor alfaiate da cidade j&aacute;<br \/>\n    lhe cortara uma d&uacute;zia de roupas &agrave; &uacute;ltima moda; que as<br \/>\n    damas mais inteligentes e am&aacute;veis da cidade, em cuja casa representavam<br \/>\n    muito bem, estavam cada qual com um dia marcado para lhe oferecerem festas.<br \/>\n    A rapariga de neg&oacute;cios, durante esse tempo, tomava o seu chocolate<br \/>\n    na alcova, ria, cantava e fazia mil nega&ccedil;as ao belo Amazan, que afinal<br \/>\n    se apercebia de que ela n&atilde;o tinha mais senso do que um ganso.<\/p>\n<p> Como a sinceridade, a cordialidade, a franqueza, bem como a magnanimidade<br \/>\n    e a coragem compunham o car&aacute;ter desse grande pr&iacute;ncipe, j&aacute;<br \/>\n    havia ele contado as suas desgra&ccedil;as e viagens aos amigos; sabiam que<br \/>\n    era primo da princesa; estavam informados do funesto beijo que ela dera no<br \/>\n    rei do Egito.<\/p>\n<p> &#8212; Perdoam-se essas pequenas extravag&acirc;ncias, entre parentes &#8211;<br \/>\n    lhes disseram eles, &#8211; sem o que ter&iacute;amos de passar a vida em<br \/>\n    eternas querelas.<\/p>\n<p> Nada o demoveu da inten&ccedil;&atilde;o de sair emp&oacute;s de Formosante;<br \/>\n    mas, como o carro ainda n&atilde;o estivesse pronto, foi obrigado a passar<br \/>\n    tr&ecirc;s dias com os ociosos, entre festas e prazeres. Afinal despediu-se<br \/>\n    deles, beijando-os, fazendo-os aceitar os mais bem montados diamantes do seu<br \/>\n    pa&iacute;s, e recomendando-lhes que fossem sempre levianos e fr&iacute;volos,<br \/>\n    pois tanto mais am&aacute;veis e venturosos seriam. &#8220;Os germanos &#8211;<br \/>\n    dizia ele &#8211; s&atilde;o os velhos da Europa; os povos de Albion s&atilde;o<br \/>\n    os homens feitos; os habitantes das G&aacute;lias s&atilde;o as crian&ccedil;as,<br \/>\n    e eu gosto de brincar com eles.&#8221;<\/p>\n<h4><a name=\"11\">CAP&Iacute;TULO XI<\/a><\/h4>\n<p> Os guias n&atilde;o tiveram dificuldade em seguir pista da princesa; n&atilde;o<br \/>\n    se falava sen&atilde;o dela e do seu grande p&aacute;ssaro. Todos os habitantes<br \/>\n    estavam ainda cheios de entusiasmo e admira&ccedil;&atilde;o. Os povos da<br \/>\n    Dalm&aacute;cia e das Marcas d&#8217;Ancona n&atilde;o tiveram t&atilde;o<br \/>\n    deliciosa surpresa quando viram, mais tarde, uma casa voar; nas margens do<br \/>\n    Loire, do Dordonha, do Garona, do Gironda, ainda ecoavam as aclama&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Quando Amazan chegou ao sop&eacute; dos Pireneus, os magistrados e os druidas<br \/>\n    do pa&iacute;s obrigaram-no, contra a vontade, a dan&ccedil;ar com um pandeiro;<br \/>\n    mas, logo que franqueou os Pireneus, n&atilde;o viu mais alegria nem contentamento.<br \/>\n    Se ouviu algumas can&ccedil;&otilde;es de longe em longe, eram todas numa<br \/>\n    toada triste: os habitantes caminhavam gravemente, de ros&aacute;rio, e punhal<br \/>\n    &agrave; cinta. O povo, vestido de preto, parecia estar de luto. Se os criados<br \/>\n    de Amazan interrogavam os passantes, estes respondiam por sinais; se entravam<br \/>\n    numa estalagem, o propriet&aacute;rio informava em tr&ecirc;s palavras que<br \/>\n    n&atilde;o havia nada no estabelecimento, e que podiam mandar buscar a algumas<br \/>\n    milhas as coisas de que tinham necessidade urgente.<\/p>\n<p> Quando perguntavam &agrave;queles silenci&aacute;rios se tinham visto passar<br \/>\n    a bela princesa da Babil&ocirc;nia, respondiam com menos laconismo:<br \/>\n    &#8212; N&oacute;s a vimos, sim; ela n&atilde;o &eacute; t&atilde;o bonita;<br \/>\n    s&oacute; os tipos trigueiros &eacute; que s&atilde;o bonitos; ela ostenta<br \/>\n    um colo de alabastro que &eacute; a coisa mais desgostante do mundo e quase<br \/>\n    n&atilde;o se encontra em nossos climas.<\/p>\n<p> Amazan dirigia-se para a prov&iacute;ncia regada pelo B&eacute;tis. Ainda<br \/>\n    n&atilde;o haviam decorrido doze mil anos que essa regi&atilde;o fora descoberta<br \/>\n    pelos t&iacute;rios, no mesmo tempo em que fizeram a descoberta da grande<br \/>\n    ilha Atl&acirc;ntida, submersa alguns s&eacute;culos depois. Os t&iacute;rios<br \/>\n    cultivaram a B&eacute;tica, que os naturais da regi&atilde;o deixavam ao Deus<br \/>\n    dar&aacute;, achando que n&atilde;o deviam meter-se em coisa alguma e que<br \/>\n    era aos gauleses seus vizinhos que competia cultivar a sua terra. Os t&iacute;rios<br \/>\n    tinham levado consigo uns palestinos, que desde aquele tempo corriam todas<br \/>\n    as terras, onde quer que houvesse algum dinheiro a ganhar. Esses palestinos,<br \/>\n    emprestando a 50%, tinham acumulado em suas m&atilde;os quase todas as riquezas<br \/>\n    do pa&iacute;s. Isso fez crer aos povos da B&eacute;tica que os palestinos<br \/>\n    eram feiticeiros; e todos os palestinos acusados de magia eram queimados sem<br \/>\n    miseric&oacute;rdia por uma companhia de druidas a quem chamavam os inquiridores<br \/>\n    ou antropokaias. Esses sacerdotes lhes vestiam primeiro um h&aacute;bito de<br \/>\n    carnaval, apoderavam-se de seus bens, e recitavam devotamente as pr&oacute;prias<br \/>\n    ora&ccedil;&otilde;es dos palestinos, enquanto os queimavam a fogo lento por<br \/>\n    amor de Dios.<\/p>\n<p> A princesa de Babil&ocirc;nia desembarcara na cidade a que chamaram depois<br \/>\n    Sevilha. Sua inten&ccedil;&atilde;o era seguir pelo B&eacute;tis para voltar<br \/>\n    por Tiro &agrave; Babil&ocirc;nia, ver o rei Belus seu pai, e esquecer, se<br \/>\n    pudesse, o seu infiel amado, ou ent&atilde;o pedi-lo em casamento. Mandou<br \/>\n    chamar dois palestinos que faziam os neg&oacute;cios da Corte. Deviam fornecer-lhe<br \/>\n    tr&ecirc;s navios. A f&ecirc;nix fez com eles todos os arranjos necess&aacute;rios<br \/>\n    e combinou o pre&ccedil;o, depois de regatear um pouco.<\/p>\n<p> A hospedeira era muito devota, e o seu marido, n&atilde;o menos devoto,<br \/>\n    era familiar, Isto &eacute;, espi&atilde;o dos druidas inquiridores antropokaias;<br \/>\n    n&atilde;o deixou de os avisar que havia em sua casa. uma feiticeira e dois<br \/>\n    palestinos que negociavam um pacto com o diabo, disfar&ccedil;ado em grande<br \/>\n    p&aacute;ssaro dourado. Os inquiridores, sabendo que a dama tinha uma prodigiosa<br \/>\n    quantidade de diamantes, logo a declararam feiticeira; esperaram a noite para<br \/>\n    prender os duzentos cavaleiros e os unic&oacute;rnios que dormiam em vastas<br \/>\n    estrebarias: pois os inquiridores s&atilde;o poltr&otilde;es.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s haverem barricado fortemente as portas, apoderaram-se da princesa<br \/>\n    e de Irla; mas n&atilde;o puderam apanhar a f&ecirc;nix, que saiu voando a<br \/>\n    v&ocirc;o solto: bem esperava encontrar Amazan no caminho das G&aacute;lias<br \/>\n    para Sevilha.<\/p>\n<p> Encontrou-o na fronteira da B&eacute;tica e comunicou-lhe o desastre da<br \/>\n    princesa. Amazan nem p&ocirc;de falar, t&atilde;o impressionado e enfurecido<br \/>\n    ficou. Arma-se de uma coura&ccedil;a de a&ccedil;o damasquinada de ouro, de<br \/>\n    uma lan&ccedil;a de doze p&eacute;s, de duas azagaias e de uma cortante espada<br \/>\n    chamada a fulminante, que podia fender, de um s&oacute; golpe, &aacute;rvores,<br \/>\n    rochedos e druidas; cobre a bela cabe&ccedil;a com um capacete de ouro sombreado<br \/>\n    de plumas de gar&ccedil;a e de avestruz. Era a antiga armadura de Magog, que<br \/>\n    sua irm&atilde; Ald&eacute;ia lhe dera de presente em sua viagem &agrave;<br \/>\n    C&iacute;tia; os poucos companheiros que o seguiam montam, igualmente, cada<br \/>\n    um o seu unic&oacute;rnio.<\/p>\n<p> Amazan, abra&ccedil;ando sua querida f&ecirc;nix, n&atilde;o lhe diz mais<br \/>\n    que estas tristes palavras:<br \/>\n    &#8212; A culpa &eacute; minha; se eu n&atilde;o houvesse pernoitado com uma<br \/>\n    mulher de neg&oacute;cios, na cidade dos ociosos, n&atilde;o se acharia a<br \/>\n    bela princesa de Babil&ocirc;nia nesta espantosa situa&ccedil;&atilde;o; corramos<br \/>\n    aos antropokaias.<\/p>\n<p> Entra logo em Sevilha: mil e quinhentos aguazis guardavam as portas do recinto<br \/>\n    onde os duzentos gang&aacute;ridas e os seus unic&oacute;rnios estavam presos<br \/>\n    sem comer; achava-se tudo preparado para o pr&oacute;ximo sacrif&iacute;cio<br \/>\n    da princesa de Babil&ocirc;nia, da sua camareira Irla e dos dois ricos palestinos.<\/p>\n<p> O grande antropokaia, cercado de seus pequenos antropokaias, j&aacute; se<br \/>\n    encontrava em seu tribunal sagrado; uma, multid&atilde;o de sevilhanos, com<br \/>\n    as contas enfiadas &agrave; cinta, juntava as duas m&atilde;os sem dizer palavra;<br \/>\n    e conduziam a bela princesa, Irla e os dois palestinos, as m&atilde;os atadas<br \/>\n    &agrave;s costas, e com h&aacute;bitos de carnaval.<\/p>\n<p> A f&ecirc;nix entra por uma lucarna na pris&atilde;o, cujas portas J&aacute;<br \/>\n    come&ccedil;avam a ser for&ccedil;adas pelos gang&aacute;ridas. O invenc&iacute;vel<br \/>\n    Amazan as investe por fora. Saem todos armados, cada qual no seu unic&oacute;rnio;<br \/>\n    Amazan posta-se &agrave; frente deles. N&atilde;o tem dificuldade em derribar<br \/>\n    os aguazis, os familiares, os sacerdotes antropokaias; cada unic&oacute;rnio<br \/>\n    espetava d&uacute;zias deles ao mesmo tempo. A fulminante de Amazan cortava<br \/>\n    em dois todos aqueles que se lhe deparavam; o povo fugia com suas capas negras<br \/>\n    e golas sujas, tendo sempre na m&atilde;o as contas bentas por amor de Dios.<\/p>\n<p> Amazan abotoa o grande inquiridor no seu tribunal e lan&ccedil;a-o sobre<br \/>\n    a fogueira que estava preparada a quarenta passas; ali tamb&eacute;m lan&ccedil;ou,<br \/>\n    de um em um, os outros pequenos inquiridores. Prosterna-se em seguida aos<br \/>\n    p&eacute;s de Formosante<br \/>\n    &#8212; Ah! como sois encantador &#8211; disse ela. &#8211; E como eu vos<br \/>\n    adoraria se n&atilde;o me tiv&eacute;sseis feito uma infidelidade com uma<br \/>\n    mulher de neg&oacute;cio!<br \/>\n    Enquanto fazia as pazes com a princesa, enquanto os gang&aacute;ridas empilhavam<br \/>\n    na fogueira os corpos de todos os antropokaias e as chamas se elevavam at&eacute;<br \/>\n    as nuvens, viu Amazan, ao longe, como que um ex&eacute;rcito que se aproximava.<br \/>\n    Um velho monarca, com a coroa na. cabe&ccedil;a, avan&ccedil;ava num carro<br \/>\n    puxado por oito mulas atreladas com cordas; seguiam-se cem outros carros.<br \/>\n    Eram acompanhados por graves personagens de trajes pretos com gargantilhas,<br \/>\n    montados em belos cavalos; seguia-os uma multid&atilde;o de gente a p&eacute;,<br \/>\n    silenciosa e de cabelos engordurados.<\/p>\n<p> Amazan disp&ocirc;s em torno de si os seus gang&aacute;ridas e avan&ccedil;ou<br \/>\n    de lan&ccedil;a em riste. Logo que o rei o avistou, tirou a coroa, desceu<br \/>\n    do carro, beijou o estribo de Amazan e disse-lhe:<br \/>\n    &#8212; Homem enviado de Deus, sois o vingador do g&ecirc;nero humano, &oacute;<br \/>\n    libertador de minha p&aacute;tria, o meu protetor. Esses monstros sagrados<br \/>\n    de que purgastes a terra eram os meus senhores em nome do Velho das Sete Colinas;<br \/>\n    via-me obrigado a suportar seu criminoso poder. Se pretendesse ao menos moderar<br \/>\n    as suas abomin&aacute;veis atrocidades, o meu povo me teria abandonado. Hoje<br \/>\n    eu respiro, eu reino, e a v&oacute;s o devo.<\/p>\n<p> Em seguida beijou respeitosamente a m&atilde;o de Formosante e pediu-lhe<br \/>\n    que subisse, com Amazan, Irla e a f&ecirc;nix, no seu carro de oito mulas.<br \/>\n    Os dois palestinos, banqueiros da Corte ainda prosternados de terror e reconhecimento,<br \/>\n    afinal se ergueram; e a tropa dos unic&oacute;rnios escoltou o rei da B&eacute;tica<br \/>\n    at&eacute; o pal&aacute;cio.<\/p>\n<p> Como a dignidade do rei de um povo grave exigia que suas mulas marchassem<br \/>\n    a passo, Amazan e Formosante tiveram tempo de contar-lhe as suas aventuras.<br \/>\n    Ele tamb&eacute;m conversou com a f&ecirc;nix, admirou-a, e beijou-a mil vezes.<br \/>\n    Reconheceu quanto eram ignorantes, brutais e b&aacute;rbaros os povos do Ocidente,<br \/>\n    que comiam os animais e n&atilde;o mais compreendiam a sua linguagem; que<br \/>\n    s&oacute; os gang&aacute;ridas haviam conservado a natureza e a dignidade<br \/>\n    primitiva dos homens; mas convinha sobretudo em que os mais b&aacute;rbaros<br \/>\n    dos mortais eram aqueles inquiridores antropokaias de que Amazan acabava de<br \/>\n    purgar o mundo. N&atilde;o cessava de o aben&ccedil;oar e agradecer-lhe. A<br \/>\n    bela Formosante esquecia j&aacute; a aventura da mulher de neg&oacute;cio<br \/>\n    e s&oacute; tinha a alma cheia do valor daquele her&oacute;i que lhe salvara<br \/>\n    a vida. Amazan, ciente da inoc&ecirc;ncia do beijo dado no rei do Egito e<br \/>\n    da ressurrei&ccedil;&atilde;o da f&ecirc;nix, experimentava uma pura alegria<br \/>\n    e estava embriagado do mais violento amor.<\/p>\n<p> Jantaram em pal&aacute;cio e passaram muito mal. Os cozinheiros da B&eacute;tica<br \/>\n    eram os piores da Europa. Amazan aconselhou que os mandassem buscar nas G&aacute;lias.<br \/>\n    Os m&uacute;sicos do rei executaram durante a refei&ccedil;&atilde;o aquela<br \/>\n    pe&ccedil;a famosa que foi chamada, no decorrer dos s&eacute;culos, as Loucuras<br \/>\n    da Espanha. Depois da refei&ccedil;&atilde;o, falaram de neg&oacute;cios.<\/p>\n<p> O rei perguntou ao belo Amazan, &agrave; bela Formosante e &agrave; bela<br \/>\n    f&ecirc;nix o que pretendiam fazer.<\/p>\n<p> &#8212; Quanto a mim &#8211; disse Amazan &#8211; a minha inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; &eacute; voltar &agrave; Babil&ocirc;nia, de cujo trono sou herdeiro<br \/>\n    presuntivo, e pedir a meu tio Belus a m&atilde;o de minha prima, a incompar&aacute;vel<br \/>\n    Formosante, a menos que ela prefira viver comigo entre os gang&aacute;ridas.<\/p>\n<p> &#8212; O meu desejo &#8211; disse a princesa &#8211; &eacute; certamente<br \/>\n    jamais me separar de meu primo. Mas creio conveniente ir ter com meu pai,<br \/>\n    tanto mais quanto ele s&oacute; me deu licen&ccedil;a para ir em peregrina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a Ba&ccedil;or&aacute;, e eu sa&iacute; a correr mundo.<\/p>\n<p> &#8212; Quanto a mim &#8211; disse a f&ecirc;nix, &#8211; seguirei por toda<br \/>\n    parte esses dois ternos e generosos amantes.<\/p>\n<p> &#8212; Tem raz&atilde;o &#8211; disse o rei da B&eacute;tica, &#8211; mas<br \/>\n    o regresso a Babil&ocirc;nia n&atilde;o &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil como<br \/>\n    pensam. Todos os dias tenho not&iacute;cias desse pa&iacute;s, pelos navios<br \/>\n    t&iacute;rios e por meus banqueiros palestinos, que mant&ecirc;m correspond&ecirc;ncia<br \/>\n    com todos os povos da terra. Tudo est&aacute; em p&eacute; de guerra para<br \/>\n    as bandas do Eufrates e do Nilo. O rei da C&iacute;tia reclama a heran&ccedil;a<br \/>\n    de sua mulher, &agrave; frente de trezentos mil guerreiros a cavalo. O rei<br \/>\n    do Egito e o rei das &Iacute;ndias assolam tamb&eacute;m as margens do Tigre<br \/>\n    e do Eufrates, cada um &agrave; frente de trezentos mil homens, para vingar-se<br \/>\n    de haverem zombado deles. Enquanto o rei do Egito se acha fora de seu pa&iacute;s,<br \/>\n    o rei da Eti&oacute;pia depreda o Egito com trezentos mil homens; e o rei<br \/>\n    de Babil&ocirc;nia s&oacute; tem seiscentos mil homens de prontid&atilde;o.<\/p>\n<p> Confesso &#8211; continuou o rei &#8211; que, quando ou&ccedil;o falar &#8211;<br \/>\n    desses prodigiosos ex&eacute;rcitos que o Oriente vomita de seu seio, e da<br \/>\n    sua espantosa magnific&ecirc;ncia; quando os comparo a nossos pequenos corpos<br \/>\n    de vinte a trinta mil soldados, t&atilde;o dif&iacute;ceis de vestir e alimentar,<br \/>\n    sou tentado a crer que o Oriente foi feito muito tempo antes do Ocidente.<br \/>\n    Parece que sa&iacute;mos anteontem do caos, e ontem da barb&aacute;rie.<\/p>\n<p> &#8212; Sire &#8211; disse Amazan, -: os &uacute;ltimos a chegar ganham<br \/>\n    &agrave;s vezes dos que entraram primeiro na corrida. Pensam no meu pa&iacute;s<br \/>\n    que o homem &eacute; origin&aacute;rio da &Iacute;ndia, mas eu n&atilde;o<br \/>\n    tenho certeza alguma.<\/p>\n<p> &#8212; E tu &#8211; perguntou o rei da B&eacute;tica &agrave; f&ecirc;nix,<br \/>\n    &#8211; que pensas a respeito?<br \/>\n    &#8212; Sire &#8211; respondeu a f&ecirc;nix, &#8211; sou ainda muito jovem<br \/>\n    para estar informada da antig&uuml;idade. N&atilde;o vivi mais que uns vinte<br \/>\n    e sete mil anos; mas meu pai, que viveu cinco vezes essa idade, me dizia haver<br \/>\n    sabido, por meu av&ocirc;, que as regi&otilde;es do Oriente sempre foram mais<br \/>\n    povoadas e mais ricas que as outras. Sabia, por seus antepassados, que as<br \/>\n    gera&ccedil;&otilde;es de todos os animais tinham come&ccedil;ado &agrave;s<br \/>\n    margens do Ganges. Quanto a mim, n&atilde;o tenho a vaidade de ser dessa opini&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o posso acreditar que as raposas de Albion, as marmotas dos Alpes<br \/>\n    e os lobos das G&aacute;lias venham do meu pa&iacute;s; da mesma forma, n&atilde;o<br \/>\n    creio que os pinheiros e os carvalhos das vossas regi&otilde;es descendam<br \/>\n    das palmeiras e dos coqueiros da &Iacute;ndia.<\/p>\n<p> &#8212; Mas de onde vimos ent&atilde;o? &#8211; indagou o rei.<\/p>\n<p> &#8212; Nada sei &#8211; respondeu a f&ecirc;nix. &#8211; Desejaria apenas<br \/>\n    saber para onde poder&atilde;o ir a bela princesa da Babil&ocirc;nia e o meu<br \/>\n    querido amigo Amazan.<\/p>\n<p> &#8212; Duvido muito &#8211; observou o rei &#8211; de que, com os seus<br \/>\n    duzentos unic&oacute;rnios, possa ele atravessar tantos ex&eacute;rcitos de<br \/>\n    trezentos mil homens cada um.<\/p>\n<p> &#8212; Por que n&atilde;o? &#8211; disse Amazan.<\/p>\n<p> O rei da B&eacute;tica sentiu o sublime do por que n&atilde;o?; mas achou<br \/>\n    que s&oacute; o sublime n&atilde;o bastava contra ex&eacute;rcitos inumer&aacute;veis.<\/p>\n<p> &#8212; Aconselho-vos &#8211; disse ele &#8211; a procurardes o rei da Eti&oacute;pia;<br \/>\n    mantenho rela&ccedil;&otilde;es com esse pr&iacute;ncipe negro por interm&eacute;dio<br \/>\n    de meus palestinos. Dar-vos-ei cartas para ele. Como &eacute; inimigo do rei<br \/>\n    do Egito, h&aacute; de sentir-se muito feliz de se ver fortalecido pela vossa<br \/>\n    alian&ccedil;a. Posso auxiliar-vos com dois mil homens muito s&oacute;brios<br \/>\n    e muito bravos; s&oacute; depender&aacute; de v&oacute;s engajardes outros<br \/>\n    tantos entre os povos que moram, ou antes, que saltam, ao p&eacute; dos Pireneus,<br \/>\n    e a quem chamam vascos ou vascon&ccedil;os. Manda um de teus guerreiros, num<br \/>\n    unic&oacute;rnio, com alguns diamantes, e n&atilde;o haver&aacute; vasco que<br \/>\n    n&atilde;o deixe o castelo, isto &eacute;, a choupana de seu pai, para servir-te.<br \/>\n    S&atilde;o infatig&aacute;veis, corajosos e alegres; ficar&aacute;s muito<br \/>\n    satisfeito com eles. Enquanto n&atilde;o chegam, n&oacute;s vos ofereceremos<br \/>\n    festas e vos aprestaremos navios. Para o servi&ccedil;o que me prestastes,<br \/>\n    todo reconhecimento &eacute; pouco. Amazan desfrutava do prazer de haver reencontrado<br \/>\n    Formosante e de gozar em paz, na sua conversa&ccedil;&atilde;o, todos os encantos<br \/>\n    do amor reconciliado, que quase valem os do amor nascente.<\/p>\n<p> Em breve chegou uma tropa vigorosa e alegre de vascon&ccedil;os, dan&ccedil;ando<br \/>\n    ao som dos pandeiros; outra tropa vigorosa e s&eacute;ria de guerreiros da<br \/>\n    B&eacute;tica se achava a postos. O velho rei trigueiro abra&ccedil;ou ternamente<br \/>\n    os dois enamorados. Mandou carregar seus navios de armas, leitos, jogos de<br \/>\n    xadrez, trajos negros, gorjeiras, cebolas, carneiros, galinhas, farinha e<br \/>\n    bastante alho, desejando-lhes feliz travessia, um amor constante e vit&oacute;rias.<\/p>\n<p> A frota ancorou &agrave; margem onde se diz que, tantos s&eacute;culos depois,<br \/>\n    a fen&iacute;cia Dido, irm&atilde; de Pigmali&atilde;o, esposa de Siqueu,<br \/>\n    tendo deixado a cidade de Tiro, foi fundar a soberba cidade de Cartago, cortando<br \/>\n    um couro de boi em loros, segundo o testemunho dos mais graves autores da<br \/>\n    antig&uuml;idade, os quais nunca contavam f&aacute;bulas, e de acordo com<br \/>\n    os professores que escrevem para meninos; embora jamais tivesse havido ningu&eacute;m<br \/>\n    em Tiro que se chamasse Pigmali&atilde;o, ou Dido, ou Siqueu, que s&atilde;o<br \/>\n    nomes inteiramente gregos, e embora n&atilde;o houvesse rei em Tiro naquele<br \/>\n    tempo.<\/p>\n<p> A soberba Cartago n&atilde;o era ainda um porto de mar; n&atilde;o havia<br \/>\n    ali sen&atilde;o alguns n&uacute;midas que secavam peixe ao sol. Costearam<br \/>\n    Bizacene e Sirtes, as f&eacute;rteis plagas onde existiram mais tarde Cirene<br \/>\n    e a grande Quersoneso.<\/p>\n<p> Chegaram enfim &agrave;. primeira embocadura do rio sagrado do Nilo. Era<br \/>\n    na extremidade dessa terra f&eacute;rtil que o porto de Canope j&aacute; recebia<br \/>\n    os navios de todas as na&ccedil;&otilde;es comerciantes, sem que se soubesse<br \/>\n    se o Deus Canope fundara o porto, ou se os habitantes haviam fabricado o deus,<br \/>\n    nem se a estrela Canope dera seu nome &agrave; cidade, ou se a cidade dera<br \/>\n    o seu &agrave; estrela. S&oacute; o que se sabia &eacute; que a cidade e a<br \/>\n    estrela eram muito antigas e &eacute; s&oacute; o que se pode saber da origem<br \/>\n    das coisas, qualquer que seja a natureza delas.<\/p>\n<p> Foi l&aacute; que o rei da Eti&oacute;pia, tendo assolado todo o Egito,<br \/>\n    viu desembarcar o invenc&iacute;vel Amazan e a ador&aacute;vel Formosante.<br \/>\n    Pensou que ele fosse o deus dos combates e ela a deusa da beleza. Amazan apresentou-lhe<br \/>\n    a carta de recomenda&ccedil;&atilde;o do rei da Espanha. O rei da Eti&oacute;pia<br \/>\n    come&ccedil;ou dando festas admir&aacute;veis, segundo o indispens&aacute;vel<br \/>\n    costume dos tempos her&oacute;icos; em seguida falaram de ir exterminar os<br \/>\n    trezentos mil homens do rei do Egito, os trezentos mil do imperador das &Iacute;ndias<br \/>\n    e os trezentos mil do grande Kan dos citas, que cercavam a imensa, a altiva,<br \/>\n    a voluptuosa cidade de Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<p> Os dois mil espanh&oacute;is que Amazan trouxera consigo disseram-lhe que<br \/>\n    n&atilde;o precisavam do rei da Eti&oacute;pia para socorrer Babil&ocirc;nia;<br \/>\n    que era suficiente que seu rei lhes houvesse ordenado que a fossem libertar;<br \/>\n    que bastavam eles para tal expedi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Quanto aos vascon&ccedil;os, disseram que j&aacute; tinham feito muitas<br \/>\n    daquelas; que bateriam sozinhos os eg&iacute;pcios, os indianos e os citas,<br \/>\n    e que s&oacute; marchariam com os espanh&oacute;is sob a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que estes ficassem &agrave; retaguarda.<\/p>\n<p> Os duzentos gang&aacute;ridas puseram-se a rir das pretens&otilde;es de<br \/>\n    seus aliados e garantiram que, apenas com cem unic&oacute;rnios, fariam fugir<br \/>\n    todos os reis da terra. A bela Formosante os apaziguou com a sua prud&ecirc;ncia<br \/>\n    e as suas encantadoras falas. Amazan apresentou ao monarca negro os seus gang&aacute;ridas,<br \/>\n    os seus unic&oacute;rnios, os espanh&oacute;is, os vascos e o seu belo p&aacute;ssaro.<\/p>\n<p> Em breve tudo estava preparado para marchar por M&ecirc;nfis, Heli&oacute;polis,<br \/>\n    Ars&iacute;noe, Petra, Artemite, Sora, Apam&eacute;ia, a fim de ir atacar<br \/>\n    aos tr&ecirc;s reis e dar in&iacute;cio a essa guerra memor&aacute;vel, diante<br \/>\n    da qual todas as guerras que os homens fizeram depois n&atilde;o foram mais<br \/>\n    que rinhas de galos e codornizes.<\/p>\n<p> Todos sabem como o rei da Eti&oacute;pia se enamorou da bela Formosante<br \/>\n    e como a foi surpreender no leito, quando um suave sono lhe fechava os longos<br \/>\n    c&iacute;lios. Recorda-se que Amazan, testemunha daquele espet&aacute;culo,<br \/>\n    julgou ver o dia e a noite deitados juntos. N&atilde;o se ignora que Amazan,<br \/>\n    indignado com a afronta, sacou de s&uacute;bito a sua fulminante, cortou a<br \/>\n    cabe&ccedil;a perversa do insolente negro e expulsou todos os et&iacute;opes<br \/>\n    do Egito. Pois n&atilde;o est&atilde;o esses prod&iacute;gios registrados<br \/>\n    no livro de cr&ocirc;nicas do Egito? A fama espalhou com as suas mil bocas<br \/>\n    as vit&oacute;rias que ele obteve sobre os tr&ecirc;s reis, com os seus espanh&oacute;is,<br \/>\n    seus vascos e seus unic&oacute;rnios. Entregou a bela Formosante ao pai; libertou<br \/>\n    todo o s&eacute;quito da sua amada, que o rei do Egito reduzira &agrave; escravid&atilde;o.<br \/>\n    O grande c&atilde; dos citas se declarou vassalo, vendo confirmado o seu casamento<br \/>\n    com a princesa Ald&eacute;ia. O invenc&iacute;vel e generoso Amazan, reconhecido<br \/>\n    herdeiro do reino de Babil&ocirc;nia, entrou na cidade, em triunfo, com a<br \/>\n    f&ecirc;nix, na presen&ccedil;a de cem reis tribut&aacute;rios. A festa de<br \/>\n    seu casamento ultrapassou em tudo a que o rei Belus oferecera. Foi servido<br \/>\n    &agrave; mesa o boi Apis assado. O rei do Egito e o das &Iacute;ndias serviram<br \/>\n    bebidas aos dois esposos. E essas n&uacute;pcias foram celebradas por quinhentos<br \/>\n    grandes poetas de Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<p> &Oacute; Musas, a quem sempre invocam no princ&iacute;pio das obras, somente<br \/>\n    no fim eu vos imploro. &Eacute; em v&atilde;o que me censuram dar gra&ccedil;as<br \/>\n    sem ter dito o benedicite. Nem por isso, &oacute; Musas, me havereis de proteger<br \/>\n    menos. Impedi que os continuadores temer&aacute;rios estraguem com as suas<br \/>\n    f&aacute;bulas as verdades que ensinei aos mortais nesta fiel narrativa, assim<br \/>\n    como ousaram falsificar C&acirc;ndido, o Ing&ecirc;nuo, e as castas aventuras<br \/>\n    da casta Joana que um ex-capuchinho desfigurou em versos dignos dos capuchinhos,<br \/>\n    em edi&ccedil;&otilde;es batavas. Que n&atilde;o causem tal transtorno a meu<br \/>\n    tip&oacute;grafo, encarregado de numerosa fam&iacute;lia, e que mal possui<br \/>\n    com que adquirir caracteres, papel e tinta.<\/p>\n<p> &Oacute; Musas, imponde sil&ecirc;ncio ao detest&aacute;vel Coger, professor<br \/>\n    de parolagem no col&eacute;gio Mazarino, que n&atilde;o ficou contente com<br \/>\n    os discursos morais de Belis&aacute;rio e do imperador Justiniano e escreveu<br \/>\n    infames libelos difamat&oacute;rios contra esses dois grandes homens.<\/p>\n<p> Ponde uma morda&ccedil;a no pedante Larcher que, sem saber uma palavra do<br \/>\n    antigo babil&ocirc;nio, sem ter viajado, como eu, pelas margens do Eufrates<br \/>\n    e do Tigre, teve a imprud&ecirc;ncia de sustentar que a bela Formosante, e<br \/>\n    a princesa Ald&eacute;ia, e todas as mulheres daquela respeit&aacute;vel Corte,<br \/>\n    iam dormir, por dinheiro, com todos os palafreneiros da &Aacute;sia, no grande<br \/>\n    templo de Babil&ocirc;nia, devido a princ&iacute;pios religiosos. Esse libertino<br \/>\n    de col&eacute;gio, vosso inimigo e inimigo do pudor, acusa as belas eg&iacute;pcias<br \/>\n    de Mendes de s&oacute; terem amado os bodes, tencionando secretamente, sob<br \/>\n    esse exemplo, fazer uma viagem ao Egito, para conseguir afinal aventuras galantes.<br \/>\n    Como n&atilde;o conhece nem o moderno nem o antigo, insinua, na esperan&ccedil;a<br \/>\n    de se introduzir junto a alguma velha, que a nossa incompar&aacute;vel Ninon,<br \/>\n    na idade de oitenta anos, dormiu com o padre G&eacute;doin, da Academia Francesa<br \/>\n    e da Academia de Inscri&ccedil;&otilde;es e Belas Letras. Nunca ouviu falar<br \/>\n    do padre de Ch&acirc;teauneuf, que toma pelo padre G&eacute;doin. N&atilde;o<br \/>\n    conhece mais Ninon que as mulheres de Babil&ocirc;nia.<\/p>\n<p> Musas, filhas do c&eacute;u, vosso inimigo Larcher ainda faz mais: estende-se<br \/>\n    em elogios &agrave; pederastia; ousa dizer que todos os bambinos do meu pa&iacute;s<br \/>\n    s&atilde;o sujeitos a essa inf&acirc;mia. Pensa salvar-se aumentando o n&uacute;mero<br \/>\n    dos culpados.<\/p>\n<p> Nobres e castas Musas, que detestais igualmente o pedantismo e a pederastia,<br \/>\n    protegei-me contra mestre Larcher!<\/p>\n<p> E v&oacute;s, mestre Aliboron, mais conhecido por Fr&eacute;ron, ex-pseudo-jesu&iacute;ta,<br \/>\n    v&oacute;s, cujo Parnaso ora est&aacute; no manic&ocirc;mio, ora na taverna<br \/>\n    da esquina; v&oacute;s, a quem fizeram tanta justi&ccedil;a em todos os teatros<br \/>\n    da Europa, na honesta com&eacute;dia da Escocesa; v&oacute;s, digno filho<br \/>\n    do padre Desfontaines, que nascestes de seus amores com um desses belos efebos<br \/>\n    que trazem a lan&ccedil;a e a venda, como o filho de V&ecirc;nus, e que se<br \/>\n    al&ccedil;am como ele aos ares, embora nunca tenham ido al&eacute;m do alto<br \/>\n    das chamin&eacute;s; meu caro Aliboron, por quem sempre tive tamanha ternura,<br \/>\n    e que me fizestes rir um m&ecirc;s inteiro no tempo dessa Escocesa, eu vos<br \/>\n    recomendo a minha Princesa de Babil&ocirc;nia; dize bastante mal dela, a fim<br \/>\n    de que a leiam.<\/p>\n<p> N&atilde;o vos esquecerei aqui, gazeteiro eclesi&aacute;stico, ilustre orador<br \/>\n    dos convulsion&aacute;rios, membro da igreja fundada pelo padre B&eacute;cherand<br \/>\n    e por Abraham Chaumeix; n&atilde;o deixeis de dizer nas vossas gazetas, t&atilde;o<br \/>\n    pias qu&atilde;o eloq&uuml;entes e sensatas, que a Princesa de Babil&ocirc;nia<br \/>\n    &eacute; her&eacute;tica, de&iacute;sta e at&eacute;ia. Tratai sobretudo de<br \/>\n    induzir o senhor Riballier a fazer condenar a Princesa de Babil&ocirc;nia<br \/>\n    pela Sorbona; causareis assim grande prazer a meu livreiro, a quem dei esta<br \/>\n    pequena hist&oacute;ria como presente de Ano Bom.<\/p>\n<p><b>NOTAS<\/b><\/p>\n<p>(1) &#8211; Vide o cap&iacute;tulo 9 do G&ecirc;nesis e os cap&iacute;tulos<br \/>\n    3, 18 e 19 do Eclesiastes<br \/>\n    (2) &#8211; Em latim: Urbi et orbi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Voltaire Apresenta&ccedil;&atilde;o &#8220;A princesa de Babil&ocirc;nia&#8221; &eacute; uma novela de leitura agrad&aacute;vel, al&eacute;m de extremamente instrutiva. Voltaire apresenta, concomitantemente: amor ing&ecirc;nuo e puro, amor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120037","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Princesa de Babil\u00f4nia (1768), Voltaire, Literatura, A Princesa de Babil\u00f4nia (1768)<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Princesa de Babil\u00f4nia (1768), Voltaire, Obra Liter\u00e1ria, Hist\u00f3ria, Romance, Belus, Literatura, A Princesa de Babil\u00f4nia (1768)\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta 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