{"id":120020,"date":"2017-04-18T21:21:58","date_gmt":"2017-04-18T23:21:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120020"},"modified":"2017-04-18T21:21:58","modified_gmt":"2017-04-18T23:21:58","slug":"ocidentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/ocidentais","title":{"rendered":"Ocidentais"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>O DESFECHO<\/h2>\n<p>Prometeu sacudiu os bra\u00e7os manietados<br \/>\nE s\u00faplice pediu a eterna compaix\u00e3o,<br \/>\nAo ver o desfilar dos s\u00e9culos que v\u00e3o<br \/>\nPausadamente, como um dobre de finados.<\/p>\n<p>Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bili\u00e3o,<br \/>\nUns cingidos de luz, outros ensang\u00fcentados&#8230;<br \/>\nS\u00fabito, sacudindo as asas de tuf\u00e3o,<br \/>\nFita-lhe a \u00e1gua em cima os olhos espantados.<\/p>\n<p>Pela primeira vez a v\u00edscera do her\u00f3i,<br \/>\nQue a imensa ave do c\u00e9u perpetuamente r\u00f3i,<br \/>\nDeixou de renascer \u00e0s raivas que a consomem.<\/p>\n<p>Uma invis\u00edvel m\u00e3o as cadeias dilui;<br \/>\nFrio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;<br \/>\nAcabara o supl\u00edcio e acabara o homem.<\/p>\n<h2>C\u00cdRCULO VICIOSO<\/h2>\n<p>Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:<br \/>\n&#8220;Quem me dera que fosse aquela loura estrela,<br \/>\nQue arde no eterno azul, como uma eterna vela!&#8221;<br \/>\nMas a estrela, fitando a lua, com ci\u00fame:<\/p>\n<p>&#8220;Pudesse eu copiar o transparente lume,<br \/>\nQue, da grega coluna \u00e0 g\u00f3tica janela,<br \/>\nContemplou, suspirosa, a fronte amada e bela&#8221;<br \/>\nMas a lua, fitando o sol, com azedume:<\/p>\n<p>&#8220;M\u00edsera! tivesse eu aquela enorme, \u00e0quela<br \/>\nClaridade imortal, que toda a luz resume!&#8221;<br \/>\nMas o sol, inclinando a r\u00fatila capela:<\/p>\n<p>&#8220;Pesa-me esta brilhante aur\u00e9ola de nume&#8230;<br \/>\nEnfara-me esta azul e desmedida umbela&#8230;<br \/>\nPor que n\u00e3o nasci eu um simples vaga-lume?&#8221;<\/p>\n<h2>UMA CRIATURA<\/h2>\n<p>Sei de uma criatura antiga e formid\u00e1vel,<br \/>\nQue a si mesma devora os membros e as entranhas<br \/>\nCom a sofreguid\u00e3o da fome insaci\u00e1vel.<\/p>\n<p>Habita juntamente os vales e as montanhas;<br \/>\nE no mar, que se rasga, \u00e0 maneira de abismo,<br \/>\nEspregui\u00e7a-se toda em convuls\u00f5es estranhas.<\/p>\n<p>Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;<br \/>\nCada olhar que despede, acerbo e mavioso,<br \/>\nParece uma expans\u00e3o de amor e de ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>Friamente contempla o desespero e o gozo,<br \/>\nGosta do colibri, como gosta do verme,<br \/>\nE cinge ao cora\u00e7\u00e3o o belo e o monstruoso.<\/p>\n<p>Para ela o chacal \u00e9, como a rola, inerme;<br \/>\nE caminha na terra imperturb\u00e1vel, como<br \/>\nPelo vasto areal um vasto paquiderme.<\/p>\n<p>Na \u00e1rvore que rebenta o seu primeiro gomo<br \/>\nVem a folha, que lento e lento se desdobra,<br \/>\nDepois a flor, depois o suspirado pomo.<\/p>\n<p>Pois essa criatura est\u00e1 em toda a obra:<br \/>\nCresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;<br \/>\nE \u00e9 nesse destruir que as suas for\u00e7as dobra.<\/p>\n<p>Ama de igual amor o poluto e o impoluto;<br \/>\nCome\u00e7a e recome\u00e7a uma perp\u00e9tua lida,<br \/>\nE sorrindo obedece ao divino estatuto.<br \/>\nTu dir\u00e1s que \u00e9 a Morte; eu direi que \u00e9 a Vida.<\/p>\n<h2>A ARTUR DE OLIVEIRA, ENFERMO<\/h2>\n<p>Sabes tu de um poeta enorme<br \/>\nQue andar n\u00e3o usa<br \/>\nNo ch\u00e3o, e cuja estranha musa,<br \/>\nQue nunca dorme,<\/p>\n<p>Cal\u00e7a o p\u00e9, melindroso e leve,<br \/>\nComo uma pluma,<br \/>\nDe folha e flor, de sol e neve,<br \/>\nCristal e espuma;<\/p>\n<p>E mergulha, como Leandro,<br \/>\nA forma rara<br \/>\nNo P\u00f3, no Sena, em Guanabara<br \/>\nE no Escamandro;<\/p>\n<p>Ouve a Tup\u00e3 e escuta a Momo,<br \/>\nSem controv\u00e9rsia,<br \/>\nE tanto ama o trabalho, como<br \/>\nAdora a in\u00e9rcia;<\/p>\n<p>Ora do f&#8217;uste, ora da ogiva,<br \/>\nSair parece;<br \/>\nOra o Deus do ocidente esquece<br \/>\nPelo deus Siva;<\/p>\n<p>Gosta do estr\u00e9pito infinito,<br \/>\nGosta das longas<br \/>\nSolid\u00f5es em que se ouve o grito<br \/>\nDas arapongas;<\/p>\n<p>E, se ama o l\u00e9pido besouro,<br \/>\nQue zumbe, zumbe,<br \/>\nE a mariposa que sucumbe<br \/>\nNa flama de ouro,<\/p>\n<p>Vaga-lumes e borboletas,<br \/>\nDa cor da chama,<br \/>\nRoxas, brancas, rajadas, prestas,<br \/>\nN\u00e3o menos ama<\/p>\n<p>Os hipop\u00f3tamos tranq\u00fcilos,<br \/>\nE os elefantes,<br \/>\nE mais os b\u00fafalos nadantes<br \/>\nE os crocodilos,<\/p>\n<p>Como as girafas e as panteras,<br \/>\nOn\u00e7as, condores,<br \/>\nToda a casta de bestas-feras<br \/>\nE voadores.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o sabes quem ele seja<br \/>\nTrepa de um salto,<br \/>\nAzul acima, onde mais alto<br \/>\nA \u00e1guia negreja;<\/p>\n<p>Onde morre o clamor in\u00edquo<br \/>\nDos violentos,<br \/>\nOnde n\u00e3o chega o riso obl\u00edquo<br \/>\nDos fraudulentos;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, olha de cima posto<br \/>\nPara o oceano,<br \/>\nVer\u00e1s num longo rosto humano<br \/>\nTeu pr\u00f3prio rosto.<\/p>\n<p>E h\u00e1s de rir, n\u00e3o do riso antigo,<br \/>\nPotente e largo,<br \/>\nRiso de eterno mo\u00e7o amigo,<br \/>\nMas de outro amargo,<\/p>\n<p>Como o riso de um deus enfermo<br \/>\nQue se aborrece<br \/>\nDa divindade, e que apetece<br \/>\nTamb\u00e9m um termo&#8230;<\/p>\n<h2>MUNDO INTERIOR<\/h2>\n<p>Ou\u00e7o que a Natureza \u00e9 uma lauda eterna<br \/>\nDe pompa, de fulgor, de movimento e lida,<br \/>\nUma escala de luz, uma escala de vida<br \/>\nDe sol \u00e0 \u00ednfima luzerna.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o que a natureza, \u2014 a natureza externa, \u2014<br \/>\nTem o olhar que namora, e o gesto que intimida<br \/>\nFeiticeira que ceva uma hidra de Lerna<br \/>\nEntre as flores da bela Armida.<\/p>\n<p>E contudo, se fecho os olhos, e mergulho<br \/>\nDentro em mim, vejo \u00e0 luz de outro sol, outro abismo<br \/>\nEm que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho<\/p>\n<p>Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,<br \/>\nE, como o outro, guarda em seu \u00e2mbito enorme,<br \/>\nUm segredo que atrai, que desafia \u2014 e dorme.<\/p>\n<h2>O CORVO<br \/>\n( EDGAR POE )<\/h2>\n<p>Em certo dia, \u00e0 hora, \u00e0 hora<br \/>\nDa meia-noite que apavora,<br \/>\nEu, caindo de sono e exausto de fadiga,<br \/>\nAo p\u00e9 de muita lauda antiga,<br \/>\nDe uma velha doutrina, agora morta,<br \/>\nIa pensando, quando ouvi \u00e0 porta<br \/>\nDo meu quarto um soar devagarinho,<br \/>\nE disse estas palavras tais:<br \/>\n&#8220;\u00c9 algu\u00e9m que me bate \u00e0 porta de mansinho;<br \/>\nH\u00e1 de ser isso e nada mais&#8221;.<\/p>\n<p>Ah! bem me lembro! bem me lembro!<br \/>\nEra no glacial dezembro;<br \/>\nCada brasa do lar sobre o ch\u00e3o refletia<br \/>\nA sua \u00faltima agonia.<br \/>\nEu, ansioso pelo sol, buscava<br \/>\nSacar daqueles livros que estudava<br \/>\nRepouso (em v\u00e3o!) \u00e0 dor esmagadora<br \/>\nDestas saudades imortais<br \/>\nPela que ora nos c\u00e9us anjos chamam Lenora.<br \/>\nE que ningu\u00e9m chamar\u00e1 mais.<\/p>\n<p>E o rumor triste, vago, brando<br \/>\nDas cortinas ia acordando<br \/>\nDentro em meu cora\u00e7\u00e3o um rumor n\u00e3o sabido,<br \/>\nNunca por ele padecido.<br \/>\nEnfim., por aplac\u00e1-lo aqui no peito,<br \/>\nLevantei-me de pronto, e: &#8220;Com efeito,<br \/>\n(Disse) \u00e9 visita amiga e retardada<br \/>\nQue bate a estas horas tais.<br \/>\n\u00c9 visita que pede \u00e0 minha porta entrada:<br \/>\nH\u00e1 de ser isso e nada mais&#8221;.<\/p>\n<p>Minh&#8217;alma ent\u00e3o sentiu-se forte;<br \/>\nN\u00e3o mais vacilo e desta sorte<br \/>\nFalo: &#8220;Imploro de v\u00f3s,\u2014 ou senhor ou senhora,<br \/>\nMe desculpeis tanta demora.<br \/>\nMas como eu, precisando de descanso,<br \/>\nJ\u00e1 cochilava, e t\u00e3o de manso e manso<br \/>\nBatestes, n\u00e3o fui logo, prestemente,<br \/>\nCertificar-me que a\u00ed estais&#8221;.<br \/>\nDisse; a porta escancaro, acho a noite somente,<br \/>\nSomente a noite, e nada mais.<\/p>\n<p>Com longo olhar escruto a sombra,<br \/>\nQue me amedronta, que me assombra,<br \/>\nE sonho o que nenhum mortal h\u00e1 j\u00e1 sonhado,<br \/>\nMas o sil\u00eancio amplo e calado,<br \/>\nCalado fica; a quieta\u00e7\u00e3o quieta;<br \/>\nS\u00f3 tu, palavra \u00fanica e dileta,<br \/>\nLenora, tu, como um suspiro escasso,<br \/>\nDa minha triste boca sais;<br \/>\nE o eco, que te ouviu, murmurou-te no espa\u00e7o;<br \/>\nFoi isso apenas, nada mais.<\/p>\n<p>Entro coa alma incendiada.<br \/>\nLogo depois outra pancada<br \/>\nSoa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:<br \/>\n&#8220;Seguramente, h\u00e1 na janela<br \/>\nAlguma cousa que sussurra. Abramos,<br \/>\nEia, fora o temor, eia, vejamos<br \/>\nA explica\u00e7\u00e3o do caso misterioso<br \/>\nDessas duas pancadas tais.<br \/>\nDevolvamos a paz ao cora\u00e7\u00e3o medroso,<br \/>\nObra do vento e nada mais&#8221;.<\/p>\n<p>Abro a janela, e de repente,<br \/>\nVejo tumultuosamente<br \/>\nUm nobre corvo entrar, digno de antigos dias.<br \/>\nN\u00e3o despendeu em cortesias<br \/>\nUm minuto, um instante. Tinha o aspecto<br \/>\nDe um lord ou de uma lady. E pronto e reto,<br \/>\nMovendo no ar as suas negras alas,<br \/>\nAcima voa dos portais,<br \/>\nTrepa, no alto da porta, em um busto de Palas;<br \/>\nTrepado fica, e nada mais.<\/p>\n<p>Diante da ave feia e escura,<br \/>\nNaquela r\u00edgida postura,<br \/>\nCom o gesto severo, \u2014 o triste pensamento<br \/>\nSorriu-me ali por um momento,<br \/>\nE eu disse: &#8220;O tu que das noturnas plagas<br \/>\nVens, embora a cabe\u00e7a nua tragas,<br \/>\nSem topete, n\u00e3o \u00e9s ave medrosa,<br \/>\nDize os teus nomes senhoriais;<br \/>\nComo te chamas tu na grande noite umbrosa?&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais&#8221;.<\/p>\n<p>Vendo que o p\u00e1ssaro entendia<br \/>\nA pergunta que lhe eu fazia,<br \/>\nFico at\u00f4nito, embora a resposta que dera<br \/>\nDificilmente lha entendera.<br \/>\nNa verdade, jamais homem h\u00e1 visto<br \/>\nCousa na terra semelhante a isto:<br \/>\nUma ave negra, friamente posta<br \/>\nNum busto, acima dos portais,<br \/>\nOuvir uma pergunta e dizer em resposta<br \/>\nQue este \u00e9 seu nome: &#8220;Nunca mais&#8221;.<\/p>\n<p>No entanto, o corvo solit\u00e1rio<br \/>\nN\u00e3o teve outro vocabul\u00e1rio,<br \/>\nComo se essa palavra escassa que ali disse<br \/>\nToda a sua alma resumisse.<br \/>\nNenhuma outra proferiu, nenhuma,<br \/>\nN\u00e3o chegou a mexer uma s\u00f3 pluma,<br \/>\nAt\u00e9 que eu murmurei: &#8220;Perdi outrora<br \/>\nTantos amigos t\u00e3o leais!<br \/>\nPerderei tamb\u00e9m este em regressando a aurora&#8221;.<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais!&#8221;.<\/p>\n<p>Estreme\u00e7o. A resposta ouvida<br \/>\n\u00c9 t\u00e3o exata! \u00e9 t\u00e3o cabida!<br \/>\n&#8220;Certamente, digo eu, essa \u00e9 toda a ci\u00eancia<br \/>\nQue ele trouxe da conviv\u00eancia<br \/>\nDe algum mestre infeliz e acabrunhado<br \/>\nQue o implac\u00e1vel destino h\u00e1 castigado<br \/>\nT\u00e3o tenaz, t\u00e3o sem pausa, nem fadiga,<br \/>\nQue dos seus cantos usuais<br \/>\nS\u00f3 lhe ficou, na amarga e \u00faltima cantiga,<br \/>\nEsse estribilho: &#8220;Nunca mais&#8221;.<\/p>\n<p>Segunda vez, nesse momento,<br \/>\nSorriu-me o triste pensamento;<br \/>\nVou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;<br \/>\nE mergulhando no veludo<br \/>\nDa poltrona que eu mesmo ali trouxera<br \/>\nAchar procuro a l\u00fagubre quimera,<br \/>\nA alma, o sentido, o p\u00e1vido segredo<br \/>\nDaquelas s\u00edlabas fatais,<br \/>\nEntender o que quis dizer a ave do medo<br \/>\nGrasnando a frase: &#8220;Nunca mais&#8221;.<\/p>\n<p>Assim posto, devaneando,<br \/>\nMeditando, conjeturando,<br \/>\nN\u00e3o lhe falava mais; mas, se lhe n\u00e3o falava,<br \/>\nSentia o olhar que me abrasava.<br \/>\nConjeturando fui, tranq\u00fcilo a gosto,<br \/>\nCom a cabe\u00e7a no macio encosto<br \/>\nOnde os raios da l\u00e2mpada ca\u00edam,<br \/>\nOnde as tran\u00e7as angelicais<br \/>\nDe outra cabe\u00e7a outrora ali se desparziam,<br \/>\nE agora n\u00e3o se esparzem mais.<\/p>\n<p>Supus ent\u00e3o que o ar, mais denso,<br \/>\nTodo se enchia de um incenso,<br \/>\nObra de serafins que, pelo ch\u00e3o ro\u00e7ando<br \/>\nDo quarto, estavam meneando<br \/>\nUm ligeiro tur\u00edbulo invis\u00edvel;<br \/>\nE eu exclamei ent\u00e3o: &#8220;Um Deus sens\u00edvel<br \/>\nManda repouso \u00e0 dor que te devora<br \/>\nDestas saudades imortais.<br \/>\nEia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora&#8221;.<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Profeta, ou o que quer que sejas!<br \/>\nAve ou dem\u00f4nio que negrejas!<br \/>\nProfeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno<br \/>\nOnde reside o mal eterno,<br \/>\nOu simplesmente n\u00e1ufrago escapado<br \/>\nVenhas do temporal que te h\u00e1 lan\u00e7ado<br \/>\nNesta casa onde o Horror, o Horror profundo<br \/>\nTem os seus lares triunfais,<br \/>\nDize-me: existe acaso um b\u00e1lsamo no mundo?&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Profeta, ou o que quer que sejas!<br \/>\nAve ou dem\u00f4nio que negrejas!<br \/>\nProfeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!<br \/>\nPor esse c\u00e9u que al\u00e9m se estende,<br \/>\nPelo Deus que ambos adoramos, fala,<br \/>\nDize a esta alma se \u00e9 dado inda escut\u00e1-la<br \/>\nNo \u00e9den celeste a virgem que ela chora<br \/>\nNestes retiros sepulcrais,<br \/>\nEssa que ora nos c\u00e9us anjos chamam Lenora!&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ave ou dem\u00f4nio que negrejas!<br \/>\nProfeta, ou o que quer que sejas!<br \/>\nCessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!<br \/>\nRegressa ao temporal, regressa<br \/>\n\u00c0 tua noite, deixa-me comigo.<br \/>\nVai-te, n\u00e3o fique no meu casto abrigo<br \/>\nPluma que lembre essa mentira tua.<br \/>\nTira-me ao peito essas fatais<br \/>\nGarras que abrindo v\u00e3o a minha dor j\u00e1 crua.&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais&#8221;.<\/p>\n<p>E o corvo a\u00ed fica; ei-lo trepado<br \/>\nNo branco m\u00e1rmore lavrado<br \/>\nDa antiga Palas; ei-lo imut\u00e1vel, ferrenho.<br \/>\nParece, ao ver-lhe o duro cenho,<br \/>\nUm dem\u00f4nio sonhando. A luz ca\u00edda<br \/>\nDo lampi\u00e3o sobre a ave aborrecida<br \/>\nNo ch\u00e3o espraia a triste sombra; e, fora<br \/>\nDaquelas linhas funerais<br \/>\nQue flutuam no ch\u00e3o, a minha alma que chora<br \/>\nN\u00e3o sai mais, nunca, nunca mais!<\/p>\n<h2>PERGUNTAS SEM RESPOSTA<\/h2>\n<p>V\u00eanus Formosa, V\u00eanus fulgurava<br \/>\nNo azul do c\u00e9u da tarde que morria,<br \/>\nQuando \u00e0 janela os bra\u00e7os encostava<br \/>\nP\u00e1lida Maria.<\/p>\n<p>Ao ver o noivo pela rua umbrosa,<br \/>\nOs longos olhos \u00e1vidos enfia,<br \/>\nE fica de repente cor-de-rosa<br \/>\nP\u00e1lida Maria.<\/p>\n<p>Correndo vinha no cavalo baio,<br \/>\nQue ela de longe apenas distinguia,<br \/>\nCorrendo vinha o noivo, como um raio&#8230;<br \/>\nP\u00e1lida Maria!<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias s\u00e3o, tr\u00eas dias s\u00e3o apenas,<br \/>\nAntes que chegue o suspirado dia,<br \/>\nEm que eles por\u00e3o termo \u00e0s longas penas&#8230;<br \/>\nP\u00e1lida Maria!<\/p>\n<p>De confusa, naquele sobressalto,<br \/>\nQue a presen\u00e7a do amado lhe trazia,<br \/>\nOlhos acesos levantou ao alto<br \/>\nP\u00e1lida Maria.<\/p>\n<p>E foi subindo, foi subindo acima<br \/>\nNo azul do c\u00e9u da tarde que morria,<br \/>\nA ver se achava uma sonora rima&#8230;<br \/>\nP\u00e1lida Maria!<\/p>\n<p>Rima de amor, ou rima de ventura,<br \/>\nAs mesmas s\u00e3o na escala da harmonia.<br \/>\nPousa os olhos em V\u00eanus que fulgura<br \/>\nP\u00e1lida Maria.<\/p>\n<p>E o cora\u00e7\u00e3o, que de prazer lhe bate,<br \/>\nAcha no astro a fraterna melodia<br \/>\nQue \u00e0 natureza inteira d\u00e1 rebate&#8230;<br \/>\nP\u00e1lida Maria!<\/p>\n<p>Maria pensa: &#8220;Tamb\u00e9m tu, decerto,<br \/>\nEsperas ver, neste final do dia,<br \/>\nUm noivo amado que cavalga perto.<br \/>\nP\u00e1lida Maria?&#8221;<\/p>\n<p>Isto dizendo, s\u00fabito escutava<br \/>\nUm estr\u00e9pito, um grito e vozeria,<br \/>\nE logo a frente em \u00e2nsias inclinava<br \/>\nP\u00e1lida Maria.<\/p>\n<p>Era o cavalo, r\u00e1bido, arrastando<br \/>\nPelas pedras o noivo que morria;<br \/>\nMaria o viu e desmaiou gritando&#8230;<br \/>\nP\u00e1lida Maria !<\/p>\n<p>Sobem o corpo, vestem-lhe a mortalha,<br \/>\nE a mesma noiva, semimorta e fria,<br \/>\nSobre ele as folhas do noivado espalha.<br \/>\nP\u00e1lida Maria!<\/p>\n<p>Cruzam-se as m\u00e3os, na derradeira prece<br \/>\nMuda que o homem para cima envia,<br \/>\nAntes que des\u00e7a \u00e0 terra em que apodrece.<br \/>\nP\u00e1lida Maria!<\/p>\n<p>Seis homens tomam do caix\u00e3o fechado<br \/>\nE v\u00e3o lev\u00e1-lo \u00e0 cova que se abria;<br \/>\nTerra e cal e um responso recitado&#8230;<br \/>\nP\u00e1lida Maria!<\/p>\n<p>Quando, tr\u00eas s\u00f3is passados, rutilava<br \/>\nA mesma V\u00eanus, no morrer do dia,<br \/>\nTristes olhos ao alto levantava<br \/>\nP\u00e1lida Maria.<\/p>\n<p>E murmurou: &#8220;Tens a express\u00e3o do goivo,<br \/>\nTens a mesma roaz melancolia;<br \/>\nCertamente perdeste o amor e o noivo,<br \/>\nP\u00e1lida Maria?&#8221;<\/p>\n<p>V\u00eanus, por\u00e9m, V\u00eanus brilhante e bela,<br \/>\nQue nada ouvia, nada respondia,<br \/>\nDeixa rir ou chorar numa janela<br \/>\nP\u00e1lida Maria.<\/p>\n<h2>TO BE OR NOT TO BE<br \/>\n(SHAKESPEARE)<\/h2>\n<p>E mais nobre a cerviz curvar aos golpes<br \/>\nDa ultrajosa fortuna, ou j\u00e1 lutando<br \/>\nExtenso mar vencer de acerbos males?<br \/>\nMorrer, dormir, n\u00e3o mais. E um sono apenas,<br \/>\nQue as ang\u00fastias extingue e \u00e0 carne a heran\u00e7a<br \/>\nDa nossa dor eternamente acaba,<br \/>\nSim, cabe ao homem suspirar por ele.<br \/>\nMorrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe?<br \/>\nAi, eis a d\u00favida. Ao perp\u00e9tuo sono,<br \/>\nQuando o lodo mortal despido houvermos,<br \/>\nQue sonhos h\u00e3o de vir? Pes\u00e1-lo cumpre.<br \/>\nEssa a raz\u00e3o que os lutuosos dias<br \/>\nAlonga do infort\u00fanio. Quem do tempo<br \/>\nSofrer quisera ultrajes e castigos,<br \/>\nInj\u00farias da opress\u00e3o, bald\u00f5es do orgulho,<br \/>\nDo mal prezado amor choradas m\u00e1goas,<br \/>\nDas leis a in\u00e9rcia, dos mand\u00f5es a afronta,<br \/>\nE o v\u00e3o desd\u00e9m que de rasteiras almas<br \/>\nO paciente m\u00e9rito recebe,<br \/>\nQuem, se na ponta da despida l\u00e2mina<br \/>\nLhe acenara o descanso? Quem ao peso<br \/>\nDe uma vida de enfados e mis\u00e9rias<br \/>\nQuereria gemer, se n\u00e3o sentira<br \/>\nTerror de alguma n\u00e3o sabida cousa<br \/>\nQue aguarda o homem para l\u00e1 da morte,<br \/>\nEsse eterno pa\u00eds misterioso<br \/>\nDonde um viajor sequer h\u00e1 regressado?<br \/>\nEste s\u00f3 pensamento enleia o homem;<br \/>\nEste nos leva a suportar as dores<br \/>\nJ\u00e1 sabidas de n\u00f3s, em vez de abrirmos<br \/>\nCaminho aos males que o futuro esconde;<br \/>\nE a todos acovarda a consci\u00eancia.<br \/>\nAssim da reflex\u00e3o \u00e0 luz morti\u00e7a<br \/>\nA viva cor da decis\u00e3o desmaia;<br \/>\nE o firme, essencial cometimento,<br \/>\nQue esta id\u00e9ia abalou, desvia o curso,<br \/>\nPerde-se, at\u00e9 de a\u00e7\u00e3o perder o nome.<\/p>\n<h2>LIND\u00d3IA<\/h2>\n<p>Vem, vem das \u00e1guas, m\u00edsera Moema,<br \/>\nSenta-te aqui. As vozes lastimosas<br \/>\nTroca pelas cantigas deleitosas,<br \/>\nAo p\u00e9 da doce e p\u00e1lida Coema.<\/p>\n<p>V\u00f3s, sombras de Igua\u00e7u e de Iracema,<br \/>\nTrazei nas m\u00e3os, trazei no colo as rosas<br \/>\nQue o amor desabrochou e fez vi\u00e7osas<br \/>\nNas laudas de um poema e outro poema.<\/p>\n<p>Chegai, folgai, cantai. \u00c9 esta, \u00e9 esta<br \/>\nDe Lind\u00f3ia, que a voz suave e forte<br \/>\nDo vate celebrou, a alegre festa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do am\u00e1vel, gracioso porte,<br \/>\nVede o mimo, a ternura que lhe resta.<br \/>\nTanto inda \u00e9 bela no seu rosto a morte<\/p>\n<h2>SUAVE MARI MAGNO<\/h2>\n<p>Lembra-me que, em certo dia,<br \/>\nNa rua, ao sol de ver\u00e3o,<br \/>\nEnvenenado morria<br \/>\nUm pobre c\u00e3o.<\/p>\n<p>Arfava, espumava e ria,<br \/>\nDe um riso esp\u00fario e buf\u00e3o,<br \/>\nVentre e pernas sacudia<br \/>\nNa convuls\u00e3o.<\/p>\n<p>Nenhum, nenhum curioso<br \/>\nPassava, sem se deter,<br \/>\nSilencioso,<\/p>\n<p>Junto ao c\u00e3o que ia morrer,<br \/>\nComo se lhe desse gozo<br \/>\nVer padecer.<\/p>\n<h2>A MOSCA AZUL<\/h2>\n<p>Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,<br \/>\nFilha da China ou do Indost\u00e3o,<br \/>\nQue entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,<br \/>\nEm certa noite de ver\u00e3o.<\/p>\n<p>E zumbia, e voava, e voava, e zumbia<br \/>\nRefulgindo ao clar\u00e3o do sol<br \/>\nE da lua, \u2014 melhor do que refulgiria<br \/>\nUm brilhante do Gr\u00e3o-Mogol.<\/p>\n<p>Um pole\u00e1 que a viu, espantado e tristonho,<br \/>\nUm pole\u00e1 lhe perguntou:<br \/>\n&#8220;Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,<br \/>\nDize, quem foi que to ensinou?&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela, voando, e revoando, disse:<br \/>\n&#8220;Eu sou a vida, eu sou a flor<br \/>\nDas gra\u00e7as, o padr\u00e3o da eterna meninice,<br \/>\nE mais a gl\u00f3ria, e mais o amor&#8221;.<\/p>\n<p>E ele deixou-se estar a contempl\u00e1-la, mudo<br \/>\nE tranq\u00fcilo, como um faquir,<br \/>\nComo algu\u00e9m que ficou deslembrado de tudo,<br \/>\nSem comparar, nem refletir.<\/p>\n<p>Entre as asas do inseto, a voltear no espa\u00e7o,<br \/>\nUma cousa lhe pareceu<br \/>\nQue surdia, com todo o resplendor de um pa\u00e7o.<br \/>\nE viu um rosto, que era o seu.<\/p>\n<p>Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,<br \/>\nQue tinha sobre o colo nu<br \/>\nUm imenso colar de opala, e uma safira<br \/>\nTirada do corpo de Vichnu.<\/p>\n<p>Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,<br \/>\nAos p\u00e9s dele, no liso ch\u00e3o,<br \/>\nEspregui\u00e7am sorrindo as suas gra\u00e7as finas,<br \/>\nE todo o amor que t\u00eam lhe d\u00e3o.<\/p>\n<p>Mudos, graves, de p\u00e9, cem et\u00edopes feios,<br \/>\nCom grandes leques de avestruz,<br \/>\nRefrescam-lhes de manso os aromados seios<br \/>\nVoluptuosamente nus.<\/p>\n<p>Vinha a gl\u00f3ria depois; \u2014 quatorze reis vencido:<br \/>\nE enfim as p\u00e1reas triunfais<br \/>\nDe trezentas na\u00e7\u00f5es, e os parab\u00e9ns unidos<br \/>\nDas coroas ocidentais.<\/p>\n<p>Mas o melhor de tudo \u00e9 que no rosto aberto<br \/>\nDas mulheres e dos var\u00f5es,<br \/>\nComo em \u00e1gua que deixa o fundo descoberto<br \/>\nVia limpos os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele, estende a m\u00e3o calosa e tosca,<br \/>\nAfeita a s\u00f3 carpintejar<br \/>\nCom um gesto pegou na fulgurante mosca,<br \/>\nCurioso de a examinar.<\/p>\n<p>Quis v\u00ea-la, quis saber a causa do mist\u00e9rio.<br \/>\nE, fechando-a na m\u00e3o, sorriu<br \/>\nDe contente, ao pensar que ali tinha um imp\u00e9rio,<br \/>\nE para casa se partiu.<\/p>\n<p>Alvoro\u00e7ado chega, examina, e parece<br \/>\nQue se houve nessa ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nMiudamente, como um homem que quisesse<br \/>\nDissecar a sua ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,<br \/>\nRota, ba\u00e7a, nojenta, vil,<br \/>\nSucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela<br \/>\nVis\u00e3o fant\u00e1stica e subtil.<\/p>\n<p>Hoje, quando ele a\u00ed vai, de alo\u00e9 e cardamomo<br \/>\nNa cabe\u00e7a, com ar taful,<br \/>\nDizem que ensandeceu, e que n\u00e3o sabe como<br \/>\nPerdeu a sua mosca azul.<\/p>\n<h2>ANTONIO JOSE<br \/>\n(21 de outubro de 1739)<\/h2>\n<p>Ant\u00f4nio, a sapi\u00eancia da Escritura<br \/>\nClama que h\u00e1 para a humana criatura<br \/>\nTempo de rir e tempo de chorar,<br \/>\nComo h\u00e1 um sol no ocaso, e outro na aurora.<br \/>\nTu, sangue de Efraim e de Issacar,<br \/>\nPois que j\u00e1 riste, chora.<\/p>\n<h2>ESPINOSA<\/h2>\n<p>Gosto de ver-te, grave e solit\u00e1rio,<br \/>\nSob o fumo de esqu\u00e1lida candeia,<br \/>\nNas m\u00e3os a ferramenta de oper\u00e1rio,<br \/>\nE na cabe\u00e7a a coruscante id\u00e9ia.<\/p>\n<p>E enquanto o pensamento delineia<br \/>\nUma filosofia, o p\u00e3o di\u00e1rio<br \/>\nA tua m\u00e3o a labutar granjeia<br \/>\nE achas na independ\u00eancia o teu sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Soem c\u00e1 fora agita\u00e7\u00f5es e lutas,<br \/>\nSibile o bafo asp\u00e9rrimo do inverno,<br \/>\nTu trabalhas, tu pensas, e executas<\/p>\n<p>S\u00f3brio, tranq\u00fcilo, desvelado e terno,<br \/>\nA lei comum, e morres, e transmutas<br \/>\nO suado labor no pr\u00eamio eterno.<\/p>\n<h2>GON\u00c7ALVES CRESPO<\/h2>\n<p>Esta musa da p\u00e1tria, esta saudosa<br \/>\nNiobe dolorida,<br \/>\nEsquece acaso a vida,<br \/>\nMas n\u00e3o esquece a morte gloriosa.<\/p>\n<p>E p\u00e1lida, e chorosa,<br \/>\nAo Tejo voa, onde no ch\u00e3o ca\u00edda<br \/>\nJaz aquela evadida<br \/>\nLira da nossa Am\u00e9rica vi\u00e7osa.<\/p>\n<p>Com ela torna, e, dividindo os ares,<br \/>\nTr\u00e9pido, mole, doce movimento<br \/>\nSente nas frouxas cordas singulares.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a asa do vento,<br \/>\nMas a sombra do filho, no momento<br \/>\nDe entrar perpetuamente os p\u00e1trios lares.<\/p>\n<h2>ALENCAR<\/h2>\n<p>H\u00e3o de anos volver, \u2014 n\u00e3o como as neves<br \/>\nDe alheios climas, de geladas cores;<br \/>\nH\u00e3o de os anos volver, mas como as flores,<br \/>\nSobre o teu nome, v\u00edvidos e leves&#8230;<\/p>\n<p>Tu, cearense musa, que os amores<br \/>\nMeigos e tristes, r\u00fasticos e breves,<br \/>\nDa indiana escreveste,\u2014ora os escreves<br \/>\nNo volume dos p\u00e1trios esplendores.<\/p>\n<p>E ao tornar este sol, que te h\u00e1 levado,<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o acha a tristeza. Extinto \u00e9 o dia<br \/>\nDa nossa dor, do nosso amargo espanto.<\/p>\n<p>Porque o tempo implac\u00e1vel e pausado,<br \/>\nQue o homem consumiu na terra fria,<br \/>\nN\u00e3o consumiu o engenho, a flor, o encanto&#8230;<\/p>\n<h2>CAM\u00d5ES<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p>Tu quem \u00e9s? Sou O s\u00e9culo que passa.<br \/>\nQuem somos n\u00f3s? A multid\u00e3o fremente.<br \/>\nQue cantamos? A gl\u00f3ria resplendente.<br \/>\nDe quem? De quem mais soube a for\u00e7a e a gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Que cantou ele? A vossa mesma ra\u00e7a.<br \/>\nDe que modo? Na lira alta e potente.<br \/>\nA quem amou? A sua forte gente.<br \/>\nQue lhe deram? Pen\u00faria, ermo, desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Nobremente sofreu? Como homem forte.<br \/>\nEsta imensa obla\u00e7\u00e3o?&#8230; \u00c9-lhe devida.<br \/>\nPaga?&#8230; Paga-lhe toda a adversa sorte.<\/p>\n<p>Chama-se a isto? A gl\u00f3ria apetecida.<br \/>\nN\u00f3s, que o cantamos?&#8230; Volvereis \u00e0 morte.<br \/>\nEle, que \u00e9 morto?&#8230; Vive a eterna vida.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Quando, transposta a l\u00fagubre morada<br \/>\nDos castigos, ascende o florentino<br \/>\nA regi\u00e3o onde o clar\u00e3o divino<br \/>\nEnche de intensa luz a alma nublada,<\/p>\n<p>A saudosa Beatriz, a antiga amada,<br \/>\nA m\u00e3o lhe estende e guia o peregrino,<br \/>\nE aquele olhar et\u00e9reo e cristalino<br \/>\nRompe agora da p\u00e1lpebra sagrada.<\/p>\n<p>Tu que tamb\u00e9m o Purgat\u00f3rio andaste<br \/>\nTu que rompeste os c\u00edrculos do Inferno,<br \/>\nCam\u00f5es, se o teu amor fugir deixaste,<\/p>\n<p>Ora o tens. como um guia alto e superno<br \/>\nQue a Nat\u00e9rcia da vida que choraste<br \/>\nChama-se Gl\u00f3ria e tem o amor eterno.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Quando, torcendo a chave misteriosa<br \/>\nQue os cancelos fechava do Oriente,<br \/>\nO Gama abriu a nova terra ardente<br \/>\nAos olhos da companha valorosa,<\/p>\n<p>Talvez uma vis\u00e3o resplandecente<br \/>\nLhe amostrou no futuro a sonorosa<br \/>\nTuba. que cantaria a a\u00e7\u00e3o famosa<br \/>\nAos ouvidos da pr\u00f3pria e estranha gente.<\/p>\n<p>E disse: &#8220;Se j\u00e1 noutra, antiga idade,<br \/>\nTr\u00f3ia bastou aos homens, ora quero<br \/>\nMostrar que \u00e9 mais humana a humanidade.<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o ser\u00e1s her\u00f3i de um canto fero,<br \/>\nMas vencer\u00e1s o tempo e a imensidade<br \/>\nNa voz de outro moderno e brando Homero&#8221;.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>Um dia, junto \u00e0 foz de brando e amigo<br \/>\nRio de estranhas gentes habitado,<br \/>\nPelos mares asp\u00e9rrimos levado,<br \/>\nSalvaste o livro que viveu contigo.<\/p>\n<p>E esse que foi \u00e0s ondas arrancado,<br \/>\nJ\u00e1 livre agora do mortal perigo,<br \/>\nServe de arca imortal, de eterno abrigo,<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 a ti, mas ao teu ber\u00e7o amado.<\/p>\n<p>Assim, um homem s\u00f3, naquele dia,<br \/>\nNaquele escasso ponto do universo,<br \/>\nL\u00edngua, hist\u00f3ria, na\u00e7\u00e3o, armas, poesia,<\/p>\n<p>Salva das frias m\u00e3os do tempo adverso.<br \/>\nE tudo aquilo agora o desafia.<br \/>\nE t\u00e3o sublime pre\u00e7o cabe em verso.<\/p>\n<h2>1802-1885<\/h2>\n<p>Um dia, celebrando o g\u00eanio e a eterna vida,<br \/>\nVitor Hugo escreveu numa p\u00e1gina forte<br \/>\nEstes nomes que v\u00e3o galgando a eterna morte,<br \/>\nIsa\u00edas, a voz de bronze, alma sa\u00edda<br \/>\nDa coxa de Davi; \u00c9squilo que a Orestes<br \/>\nE a Prometeu, que sofre as vingan\u00e7as celestes<br \/>\nDeu a nota imortal que abala e persuade,<br \/>\nE transmite o terror, como excita a piedade.<br \/>\nHomero, que cantou a c\u00f3lera potente<br \/>\nDe Aquiles, e colheu as l\u00e1grimas troianas<br \/>\nPara gl\u00f3ria maior da sua amada gente,<br \/>\nE com ele Virg\u00edlio e as gra\u00e7as virgilianas;<br \/>\nJuvenal que marcou com ferro em brasa o ombro<br \/>\nDos tiranos, e o velho e grave florentino,<br \/>\nQue mergulha no abismo, e caminha no assombro,<br \/>\nBaixa humano ao inferno e regressa divino;<br \/>\nLogo ap\u00f3s Calder\u00f3n, e logo ap\u00f3s Cervantes;<br \/>\nVoltaire, que mofava, e Rabelais que ria;<br \/>\nE, para coroar esses nomes vibrantes,<br \/>\nShakespeare, que resume a universal poesia.<\/p>\n<p>E agora que ele a\u00ed vai, galgando a eterna morte,<br \/>\nPega a Hist\u00f3ria da pena e na p\u00e1gina forte,<br \/>\nPara continuar a s\u00e9rie interrompida,<br \/>\nEscreve o nome dele, e d\u00e1-lhe a eterna vida.<\/p>\n<h2>JOS\u00c9 DE ANCHIETA<\/h2>\n<p>Esse que as vestes \u00e1speras cingia,<br \/>\nE a viva flor da ardente juventude<br \/>\nDentro do peito a todos escondia;<\/p>\n<p>Que em p\u00e1ginas de areia vasta e rude<br \/>\nOs versos escrevia e encomendava<br \/>\nA mente, como esfor\u00e7o de virtude;<\/p>\n<p>Esse nos rios de Babel achava,<br \/>\nJerusal\u00e9m, os cantos primitivos,<br \/>\nE novamente aos ares os cantava.<\/p>\n<p>N\u00e3o procedia ent\u00e3o como os cativos<br \/>\nDe Si\u00e3o, consumidos de saudade,<br \/>\nVelados de tristeza, e pensativos.<\/p>\n<p>Os cantos de outro clima e de outra idade<br \/>\nEnsinava sorrindo \u00e0s novas gentes<br \/>\nPela l\u00edngua do amor e da piedade.<\/p>\n<p>E iam caindo os versos excelentes<br \/>\nNo aben\u00e7oado ch\u00e3o, e iam caindo<br \/>\nDo mesmo modo as m\u00edsticas sementes.<\/p>\n<p>Nas florestas os p\u00e1ssaros, ouvindo<br \/>\nO nome de Jesus e os seus louvores,<br \/>\nIam cantando o mesmo canto lindo.<\/p>\n<p>Eram as notas como alheias flores<br \/>\nQue verdejam no meio de verduras<br \/>\nDe diversas origens e primores.<\/p>\n<p>Anchieta, soltando as vozes puras,<br \/>\nAchas outra Si\u00e3o neste hemisf\u00e9rio,<br \/>\nE a mesma f\u00e9 e igual amor apuras.<\/p>\n<p>Certo, ferindo as cordas do salt\u00e9rio,<br \/>\nUnicamente contas divulg\u00e1-la<br \/>\nA palavra crist\u00e3 e o seu mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Trepar n\u00e3o cuidas a luzente escala<br \/>\nQue os her\u00f3is cabe e leva \u00e0 clara esfera<br \/>\nOnde eterna se faz a humana fala.<\/p>\n<p>Onde os tempos n\u00e3o s\u00e3o esta quimera<br \/>\nQue apenas brilha e logo se esvaece,<br \/>\nComo folhas de escassa primavera.<\/p>\n<p>Onde nada se perde nem se esquece,<br \/>\nE no dorso dos s\u00e9culos trazido<br \/>\nO nome de Anchieta resplandece<br \/>\nAo vivo nome do Brasil unido.<\/p>\n<h2>SONETO DE NATAL<\/h2>\n<p>Um homem, \u2014 era aquela noite amiga,<br \/>\nNoite crist\u00e3, ber\u00e7o do Nazareno,\u2014<br \/>\nAo relembrar os dias de pequeno,<br \/>\nE a viva dan\u00e7a, e a l\u00e9pida cantiga,<\/p>\n<p>Quis transportar ao verso doce e ameno<br \/>\nAs sensa\u00e7\u00f5es da sua idade antiga,<br \/>\nNaquela mesma velha noite amiga,<br \/>\nNoite crist\u00e3, ber\u00e7o do Nazareno.<\/p>\n<p>Escolheu o soneto&#8230; A folha branca<br \/>\nPede-lhe a inspira\u00e7\u00e3o; mas, frouxa e manca.<br \/>\nA pena n\u00e3o acode ao gesto seu.<\/p>\n<p>E, em v\u00e3o lutando contra o metro adverso,<br \/>\nS\u00f3 lhe saiu este pequeno verso:<br \/>\n&#8220;Mudaria o Natal ou mudei eu?&#8221;<\/p>\n<h2>OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE<br \/>\n( LA FONTAINE )<\/h2>\n<p>Mal que se espalha o terror e que a ira celeste<br \/>\nInventou para castigar<br \/>\nOs pecados do mundo, a peste, em suma, a peste,<br \/>\nCapaz de abastecer o Aqueronte num dia<br \/>\nVeio entre os animais lavrar;<br \/>\nE, se nem tudo sucumbia,<br \/>\nCerto \u00e9 que tudo adoecia.<br \/>\nJ\u00e1 nenhum, por dar mate ao moribundo alento,<br \/>\nCatava mais nenhum sustento,<br \/>\nN\u00e3o havia manjar que o apetite abrisse,<br \/>\nRaposa ou lobo que sa\u00edsse<br \/>\nContra a presa inocente e mansa,<br \/>\nRola que \u00e0 rola n\u00e3o fugisse,<br \/>\nE onde amor falta, adeus, folgan\u00e7a.<br \/>\nO le\u00e3o convocou uma assembl\u00e9ia e disse:<br \/>\n&#8220;S\u00f3cios meus, certamente este infort\u00fanio veio<br \/>\nA castigar-nos de pecados.<br \/>\nQue, o mais culpado entre os culpados<br \/>\nMorra por aplacar a c\u00f3lera divina.<br \/>\nPara a comum sa\u00fade esse \u00e9, talvez, o meio.<br \/>\nEm casos tais \u00e9 de uso haver sacrificados;<br \/>\nAssim a hist\u00f3ria no-lo ensina.<br \/>\nSem nenhuma ilus\u00e3o, sem nenhuma indulg\u00eancia,<br \/>\nPesquisemos a consci\u00eancia.<br \/>\nQuanto a mim, por dar mate ao \u00edmpeto glut\u00e3o,<br \/>\nDevorei muita carneirada.<br \/>\nEm que \u00e9 que me ofendera? em nada.<br \/>\nE tive mesmo ocasi\u00e3o<br \/>\nDe comer igualmente o guarda da manada.<br \/>\nPortanto, se \u00e9 mister sacrificar-me, pronto.<br \/>\nMas, assim como me acusei,<br \/>\nBom \u00e9 que cada um se acuse, de tal sorte<br \/>\nQue (devemos quer\u00ea-lo, e \u00e9 de todo ponto<br \/>\nJusto) caiba ao maior dos culpados a morte&#8221;.<br \/>\n&#8220;Meu senhor, acudiu a raposa, \u00e9 ser rei<br \/>\nBom demais; \u00e9 provar melindre exagerado.<br \/>\nPois ent\u00e3o devorar carneiros,<br \/>\nRa\u00e7a lorpa e vil\u00e3, pode l\u00e1 ser pecado?<br \/>\nN\u00e3o. V\u00f3s fizestes-lhes, senhor,<br \/>\nEm os comer, muito favor.<br \/>\nE no que toca aos pegureiros,<br \/>\nToda a calamidade era bem merecida,<br \/>\nPois s\u00e3o daquelas gentes tais<br \/>\nQue imaginaram ter posi\u00e7\u00e3o mais subida<br \/>\nQue a de n\u00f3s outros animais&#8221;.<br \/>\nDisse a raposa, e a corte aplaudiu-lhe o discurso.<br \/>\nNingu\u00e9m do tigre nem do urso,<br \/>\nNingu\u00e9m de outras iguais senhorias do mato,<br \/>\nInda entre os atos mais daninhos,<br \/>\nOusava esmerilhar um ato;<br \/>\nE at\u00e9 os \u00faltimos rafeiros,<br \/>\nTodos os bichos rezingueiros,<br \/>\nN\u00e3o eram, no entender geral, mais que uns santinhos.<br \/>\nEis chega o burro: &#8220;Tenho id\u00e9ia que no prado<br \/>\nDe um convento, indo eu a passar, e picado<br \/>\nDa ocasi\u00e3o, da fome e do capim vi\u00e7oso,<br \/>\nE pode ser que do tinhoso,<br \/>\nUm bocadinho lambisquei<br \/>\nDa planta\u00e7\u00e3o. Foi um abuso, isso \u00e9 verdade&#8221;.<br \/>\nMal o ouviu, a assembl\u00e9ia exclama: &#8220;Aqui del-rei!&#8221;<br \/>\nUm lobo, algo letrado, arenga e persuade<br \/>\nQue era for\u00e7a imolar esse bicho nefando,<br \/>\nEmpesteado autor de tal calamidade;<br \/>\nE o pecadilho foi julgado<br \/>\nUm atentado.<br \/>\nPois comer erva alheia! \u00f3 crime abominando!<br \/>\nEra visto que s\u00f3 a morte<br \/>\nPoderia purgar um pecado t\u00e3o duro.<br \/>\nE o burro foi ao reino escuro.<br \/>\nSegundo sejas tu miser\u00e1vel ou forte<br \/>\n\u00c1ulicos te far\u00e3o detest\u00e1vel ou puro.<\/p>\n<h2>DANTE<br \/>\n(INFERNO, canto XXV)<\/h2>\n<p>Acabara o ladr\u00e3o, e, ao ar erguendo<br \/>\nAs m\u00e3os em figas, deste modo brada:<br \/>\n&#8220;Olha, Deus, para ti o estou fazendo!&#8221;<\/p>\n<p>E desde ent\u00e3o me foi a serpe amada,<br \/>\nPois uma vi que o colo lhe prendia,<br \/>\nComo a dizer: &#8220;n\u00e3o falar\u00e1s mais nada!&#8221;<\/p>\n<p>Outra os bra\u00e7os na frente lhe cingia<br \/>\nCom tantas voltas e de tal maneira<br \/>\nQue ele fazer um gesto n\u00e3o podia.<\/p>\n<p>Ah! Pist\u00f3ia, por que numa fogueira<br \/>\nN\u00e3o ardes tu, se a mais e mais impuros,<br \/>\nTeus filhos v\u00e3o nessa mortal carreira?<\/p>\n<p>Eu, em todos os c\u00edrculos escuros<br \/>\nDo inferno, alma n\u00e3o vi t\u00e3o rebelada.<br \/>\nNem a que em Tebas resvalou dos muros.<\/p>\n<p>E ele fugiu sem proferir mais nada.<br \/>\nLogo um centauro furioso assoma<br \/>\nA bradar: &#8220;Onde, aonde a alma danada?&#8221;<\/p>\n<p>Marema n\u00e3o ter\u00e1 tamanha soma<br \/>\nDe reptis quanta vi que lhe ouri\u00e7ava<br \/>\nO dorso inteiro desde a humana coma.<\/p>\n<p>Junto \u00e0 nuca do monstro se elevava<br \/>\nDe asas abertas um drag\u00e3o que enchia<br \/>\nDe fogo a quanto ali se aproximava.<\/p>\n<p>&#8220;Aquele \u00e9 Caco, \u2014 o Mestre me dizia, \u2014<br \/>\nQue, sob as rochas do Aventino, ousado<br \/>\nLagos de sangue tanta vez abria.<\/p>\n<p>N\u00e3o vai de seus irm\u00e3os acompanhado<br \/>\nPorque roubou malicioso o armento<br \/>\nQue ali pascia na campanha ao lado.<\/p>\n<p>H\u00e9rcules com a ma\u00e7a e golpes cento,<br \/>\nSem lhe doer um d\u00e9cimo ao nefando,<br \/>\nP\u00f4s remate a tamanho atrevimento&#8221;.<\/p>\n<p>Ele falava, e o outro foi andando.<br \/>\nNo entanto embaixo vinham para n\u00f3s<br \/>\nTr\u00eas esp\u00edritos que s\u00f3 vimos quando<\/p>\n<p>Atroara este grito: &#8220;Quem sois v\u00f3s?&#8221;<br \/>\nNisto a conversa nossa interrompendo<br \/>\nEle, como eu, no grupo os olhos p\u00f4s.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o os conheci, mas sucedendo,<br \/>\nComo outras vezes suceder \u00e9 certo,<br \/>\nQue o nome de um estava outro dizendo,<\/p>\n<p>&#8220;Cianfa aonde ficou?&#8221; Eu, por que esperto<br \/>\nE atento fosse o Mestre em escut\u00e1-lo,<br \/>\nPus sobre a minha boca o dedo aberto.<\/p>\n<p>Leitor, n\u00e3o maravilha que aceit\u00e1-lo<br \/>\nOra te custe o que vais ter presente<br \/>\nPois eu, que o vi, mal ouso acredit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Eu contemplava, quando uma serpente<br \/>\nDe seis p\u00e9s temerosa se lhe atira<br \/>\nA um dos tr\u00eas e o colhe de repente.<\/p>\n<p>Com os p\u00e9s do meio o ventre lhe cingira,<br \/>\nCom os da frente os bra\u00e7os lhe peava,<br \/>\nE ambas as faces lhe mordeu com ira.<\/p>\n<p>Os outros dous \u00e0s coxas lhe alongava,<br \/>\nE entre elas insinua a cauda que ia<br \/>\nTocar-lhes os rins e dura os apertava.<\/p>\n<p>A hera n\u00e3o se enrosca nem se enfia<br \/>\nPela \u00e1rvore, como a horr\u00edvel fera<br \/>\nAo pecador os membros envolvia.<\/p>\n<p>Como se fossem derretida cera,<br \/>\nUm s\u00f3 vulto, uma cor iam tomando,<br \/>\nQuais tinham sido nenhum deles era.<\/p>\n<p>Tal o papel, se o fogo o vai queimando,<br \/>\nAntes de negro estar, e j\u00e1 depois<br \/>\nQue o branco perde, fusco vai ficando.<\/p>\n<p>Os outros dous bradavam: &#8220;Ora pois,<br \/>\nAgnel, ai triste, que mudan\u00e7a \u00e9 essa?<br \/>\nOlha que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9s nem um nem dois!&#8221;<\/p>\n<p>Faziam ambas uma s\u00f3 cabe\u00e7a,<br \/>\nE na \u00fanica face um rosto misto,<br \/>\nOnde eram dois, a aparecer come\u00e7a<\/p>\n<p>Dos quatro bra\u00e7os dous restavam, e isto,<br \/>\nPernas, coxas e o mais ia mudado<br \/>\nNum tal composto que jamais foi visto.<\/p>\n<p>Todo o primeiro aspecto era acabado;<br \/>\nDous e nenhum era a cruel figura,<br \/>\nE tal se foi a passo demorado.<\/p>\n<p>Qual camele\u00e3o, que variar procura<br \/>\nDe sebe \u00e0s horas em que o sol esquenta,<br \/>\nE correndo parece que fulgura,<\/p>\n<p>Tal uma curta serpe se apresenta,<br \/>\nPara o ventre dos dous corre acendida,<br \/>\nL\u00edvida e cor de um bago de pimenta.<\/p>\n<p>E essa parte por onde foi nutrida<br \/>\nTenra crian\u00e7a antes que \u00e0 luz sa\u00edsse,<br \/>\nNum deles morde, e cai toda estendida.<\/p>\n<p>O ferido a encarou, mas nada disse;<br \/>\nFirme nos p\u00e9s, apenas bocejava,<br \/>\nQual se de febre ou sono ali ca\u00edsse.<\/p>\n<p>Frente a frente, um ao outro contemplava,<br \/>\nE \u00e0 chaga de um, e \u00e0 boca de outro, forte<br \/>\nFumo sa\u00eda e no ar se misturava.<\/p>\n<p>Cale agora Lucano a triste morte<br \/>\nDe Sabelo e Nas\u00eddio, e atento esteja<br \/>\nQue o que lhe vou dizer \u00e9 de outra sorte.<\/p>\n<p>Cale-se Ov\u00eddio e neste quadro veja<br \/>\nQue, se Aretusa em fonte nos h\u00e1 posto<br \/>\nE Cadmo em serpe, n\u00e3o lhe tenho inveja.<\/p>\n<p>Pois duas naturezas rosto a rosto<br \/>\nN\u00e3o transmudou, com que elas de repente<br \/>\nTrocassem a mat\u00e9ria e o ser oposto.<\/p>\n<p>Tal era o acordo entre ambas que a serpente<br \/>\nA cauda em duas caudas fez partidas<br \/>\nE a alma os p\u00e9s ajuntava estreitamente.<\/p>\n<p>Pernas e coxas vi-as t\u00e3o unidas<br \/>\nQue nem leve sinal dava a juntura<br \/>\nDe que tivessem sido divididas.<\/p>\n<p>Imita a cauda b\u00edfida a figura<br \/>\nQue ali se perde, e a pele abranda, ao passo<br \/>\nQue a pele do homem se tornava dura.<\/p>\n<p>Em cada axila vi entrar um bra\u00e7o,<br \/>\nA tempo que iam esticando \u00e0 fera.<br \/>\nOs dous p\u00e9s que eram de tamanho escasso.<\/p>\n<p>Os p\u00e9s de tr\u00e1s a serpe os retorcera<br \/>\nAt\u00e9 formarem-lhe a encoberta parte<br \/>\nQue no infeliz em p\u00e9s se convertera.<\/p>\n<p>Enquanto o fumo os cobre, e de tal arte<br \/>\nA cor lhes muda e p\u00f5e \u00e0 serpe o velo<br \/>\nQue j\u00e1 da pele do homem se lhe parte,<\/p>\n<p>Um caiu, o outro ergueu-se, sem torc\u00ea-lo<br \/>\nAquele torvo olhar com que ambos iam<br \/>\nA trocar entre si o rosto e a v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Ao que era em p\u00e9 as carnes lhe fugiam<br \/>\nPara as fontes, e ali do que abundava<br \/>\nDuas orelhas de homem lhe sa\u00edam.<\/p>\n<p>E o que de sobra ainda lhe ficava<br \/>\nO nariz lhe comp\u00f5e e lhe perfaz<br \/>\nE o l\u00e1bio lhe engrossou quanto bastava.<\/p>\n<p>A boca estende o que por terra jaz<br \/>\nE as orelhas recolhe na cabe\u00e7a,<br \/>\nBem como o caracol \u00e0s pontas faz.<\/p>\n<p>A l\u00edngua, que era ent\u00e3o de uma s\u00f3 pe\u00e7a,<br \/>\nE prestes a falar, fendida vi-a,<br \/>\nEnquanto a do outro se une, e o fumo cessa.<\/p>\n<p>A alma, que assim tornado em serpe havia,<br \/>\nPelo vale fugiu assobiando,<br \/>\nE esta lhe ia falando e lhe cuspia.<\/p>\n<p>Logo a recente esp\u00e1dua lhe foi dando<br \/>\nE \u00e0 outra disse: &#8220;Ora com Buoso mudo,<br \/>\nRasteje, como eu vinha rastejando!&#8221;<\/p>\n<p>Assim na cova s\u00e9tima vi tudo<br \/>\nMudar e transmudar; a novidade<br \/>\nMe absolva o estilo desornado e rudo.<\/p>\n<p>Mas que um tanto perdesse a claridade<br \/>\nDos olhos meus, e turva a mente houvesse,<br \/>\n\u00e3o fugiram com tanta brevidade,<\/p>\n<p>Nem t\u00e3o ocultos, que eu n\u00e3o conhecesse<br \/>\nPuccio Sciancato, \u00fanica ali vinda<br \/>\nAlma que a forma pr\u00f3pria n\u00e3o perdesse;<br \/>\nO outro chora-lo tu, Gaville, ainda.<\/p>\n<h2>A FEL\u00cdCIO DOS SANTOS<\/h2>\n<p>Fel\u00edcio amigo, se eu disser que os anos<br \/>\nPassam correndo ou passam vagarosos,<br \/>\nSegundo s\u00e3o alegres ou penosos,<br \/>\nTecidos de afei\u00e7\u00f5es ou desenganos,<\/p>\n<p>&#8220;Filosofia \u00e9 esta de ran\u00e7osos!&#8221;<br \/>\nDir\u00e1s. Mas n\u00e3o h\u00e1 outra entre os humanos.<br \/>\nN\u00e3o se contam sorrisos pelos danos,<br \/>\nNem das tristezas desabrocham gozos.<\/p>\n<p>Banal, confesso. O precioso e o raro<br \/>\n\u00c9, seja o c\u00e9u nublado ou seja claro,<br \/>\nTragam os tempos amargura ou gosto,<\/p>\n<p>N\u00e3o desdizer do mesmo velho amigo,<br \/>\nSer com os teus o que eles s\u00e3o contigo,<br \/>\nTer um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o, ter um s\u00f3 rosto.<\/p>\n<h2>MARIA<\/h2>\n<p>Maria, h\u00e1 no seu gesto airoso e nobre,<br \/>\nNos olhos meigos e no andar t\u00e3o brando,<br \/>\nUm n\u00e3o sei qu\u00ea suave que descobre,<br \/>\nQue lembra um grande p\u00e1ssaro marchando.<\/p>\n<p>Quero, \u00e0s vezes, pedir-lhe que desdobre<br \/>\nAs asas, mas n\u00e3o pe\u00e7o, reparando<br \/>\nQue, desdobradas, podem ir voando<br \/>\nLev\u00e1-la ao tecto azul que a terra cobre.<\/p>\n<p>E penso ent\u00e3o, e digo ent\u00e3o comigo:<br \/>\n&#8220;Ao c\u00e9u, que v\u00ea passar todas as gentes<br \/>\nBastem outros primores de valia.<\/p>\n<p>P\u00e1ssaro ou mo\u00e7a, fique o olhar amigo,<br \/>\nO nobre gesto e as gra\u00e7as excelentes<br \/>\nDa nossa cara e l\u00e9pida Maria&#8221;.<\/p>\n<h2>A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS<\/h2>\n<p>Pensa em ti mesma, achar\u00e1s<br \/>\nMelhor poesia,<br \/>\nViveza, gra\u00e7a, alegria,<br \/>\nDo\u00e7ura e paz.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 dei flores um dia,<br \/>\nQuando rapaz,<br \/>\nAs que ora dou t\u00eam assaz<br \/>\nMelancolia.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 das horas tuas<br \/>\nValem um m\u00eas<br \/>\nDas almas j\u00e1 ressequidas.<\/p>\n<p>Os s\u00f3is e as luas<br \/>\nCreio bem que Deus os fez<br \/>\nPara outras vidas.<\/p>\n<h2>CL\u00d3DIA<\/h2>\n<p>Era Cl\u00f3dia a verg\u00f4ntea ilustre e rara<br \/>\nDe uma fam\u00edlia antiga. Tez morena,<br \/>\nComo a casca do p\u00eassego, deixava<br \/>\nTransparecer o sangue e a juventude.<br \/>\nEra a romana ardente e imperiosa<br \/>\nQue os ecos fatigou de Roma inteira<br \/>\nCoa narra\u00e7\u00e3o das longas aventuras.<br \/>\nNunca mais gentil fronte o sol da It\u00e1lia<br \/>\nAmoroso beijou, nem mais gracioso<br \/>\nCorpo envolveram t\u00fanicas de Tiro.<br \/>\nSombrios, como a morte, os olhos eram.<br \/>\nA vermelha botina em si guardava<br \/>\nBreve, divino p\u00e9. \u00damida boca,<br \/>\nComo a rosa que os z\u00e9firos convida,<br \/>\nOs beijos convidava. Era o modelo<br \/>\nDa luxuosa L\u00e2mia, \u2014 aquela mo\u00e7a<br \/>\nQue o marido esqueceu, e amou sem pejo<br \/>\nO m\u00fasico Poli\u00e3o. De mais, fazia<br \/>\nA ilustre Cl\u00f3dia trabalhados versos;<br \/>\nA cabe\u00e7a curvava pensativa<br \/>\nSobre as tabelas nuas; invocava<br \/>\nDo cl\u00e1ssico Parnaso as musas belas,<br \/>\nE, se n\u00e3o mente linguaruda fama<br \/>\nDavam-lhe inspira\u00e7\u00e3o vadias musas.<br \/>\nO ideal da matrona austera e fria,<br \/>\nCaseira e nada mais, esse acabava.<br \/>\nBem hajas tu, patr\u00edcia desligada<br \/>\nDe preconceitos v\u00e3os, tu que presides<br \/>\nAo festim dos rapazes, tu que estendes<br \/>\nSobre verdes coxins airosas formas,<br \/>\nEnquanto o esposo, consultando os dados,<br \/>\nPerde risonho v\u00e1lidos sest\u00e9rcios&#8230;<br \/>\nE tu, vi\u00fava m\u00edsera, deixada<br \/>\nNa flor dos anos, merenc\u00f3ria e triste,<br \/>\nQue seria de ti, se o gozo e o luxo<br \/>\nN\u00e3o te alegrassem a alma? Cedo esquece<br \/>\nA mem\u00f3ria de um \u00f3bito. E bem hajas,<br \/>\nDiscreto esposo, que morreste a tempo.<br \/>\nPerdes, bem sei, dos teus rivais sem conta<br \/>\nOs custosos presentes, as ceatas,<br \/>\nOs jantares op\u00edparos. Contudo,<br \/>\nN\u00e3o ver\u00e1s cheia a casa de crian\u00e7as<br \/>\nLoiras obras de art\u00edfices estranhos.<br \/>\nBaias recebe a celebrada mo\u00e7a<br \/>\nEntre festins e j\u00fabilos. Faltava<br \/>\nAo pomposo jardim das l\u00e1cias flores<br \/>\nEsta rosa de Paestum. Chega; \u00e9 ela,<br \/>\n\u00c9 ela, a am\u00e1vel dona. O c\u00e9u ostenta<br \/>\nA larga face azul, que o sol no ocaso<br \/>\nCoos frouxos raios desmaiado tinge.<br \/>\nTerno e brando abre o mar o esp\u00fameo seio;<br \/>\nMoles respiram vira\u00e7\u00f5es do golfo.<br \/>\nCl\u00f3dia chega. Tremei, mo\u00e7as amadas;<br \/>\nOvelhinhas dos pl\u00e1cidos id\u00edlios,<br \/>\nRoma vos manda esta faminta loba.<br \/>\nPrendei, prendei com v\u00ednculos de ferro,<br \/>\nOs vol\u00faveis amantes, que os n\u00e3o veja<br \/>\nEsta formosa P\u00e1ris. Inventai-lhes<br \/>\nUm filtro protetor, um filtro ardente,<br \/>\nQue o fogo leve aos cora\u00e7\u00f5es rendidos,<br \/>\nE aos vossos p\u00e9s eternamente os prenda;<br \/>\nCl\u00f3dia&#8230; Mas, quem pudera, a frio e a salvo,<br \/>\nUm requebro afrontar daqueles olhos<br \/>\nVer-lhe o t\u00fargido seio, as m\u00e3os, o talhe,<br \/>\nO andar, a voz, ficar m\u00e1rmore frio<br \/>\nAnte as s\u00faplices gra\u00e7as? Menor pasmo<br \/>\nFora, se ao gladiador, em pleno circo,<br \/>\nA pantera africana os p\u00e9s lambesse,<br \/>\nOu se, \u00e0 cauda de ind\u00f4mito cavalo,<br \/>\nOvantes hostes arrastassem C\u00e9sar.<\/p>\n<p>Coroados de rosas os convivas<br \/>\nEntram. Trajam com gra\u00e7a vestes novas<br \/>\nTafuis de It\u00e1lia, finos e galhardos<br \/>\nPatr\u00edcios da rep\u00fablica expirante,<br \/>\nE madamas faceiras. Vem entre eles<br \/>\nC\u00e9lio, a flor dos vadios, nobre mo\u00e7o,<br \/>\nE opulento, o que \u00e9 mais. Ambicioso<br \/>\nQuer triunfar na cl\u00e1ssica tribuna<br \/>\nE honras aspira at\u00e9 do consulado,<br \/>\nMais custoso lavor n\u00e3o vestem damas,<br \/>\nNem aroma melhor do seio exalam.<br \/>\nTem na altivez do olhar sincero orgulho,<br \/>\nE certo que o merece. Entre os rapazes<br \/>\nQue \u00e0 noite correm solit\u00e1rias ruas,<br \/>\nOu nos jardins de Roma o luxo ostentam,<br \/>\nNenhum como ele, com mais ternas falas,<br \/>\nGalanteou, vencendo, as raparigas.<\/p>\n<p>Entra: pregam-se nele cobi\u00e7osos<br \/>\nOlhos que amor venceu, que amor domina,<br \/>\nOlhos fi\u00e9is ao f\u00e9rvido Catulo.<br \/>\nO poeta estremece. Brando e frio,<br \/>\nO marido de Cl\u00f3dia os olhos lan\u00e7a<br \/>\nAo mancebo, e um sorriso complacente<br \/>\nA boca lhe abre. Imparcial na luta,<br \/>\nVen\u00e7a Catulo ou C\u00e9lio, ou ven\u00e7am ambos,<br \/>\nN\u00e3o se lhe op\u00f5e o dono: o aresto aceita.<\/p>\n<p>Vistes j\u00e1 como as ondas tumultuosas,<br \/>\nUma ap\u00f3s outra, v\u00eam morrer \u00e0 praia,<br \/>\nE mal se rompe o esp\u00fameo seio \u00e0quela,<br \/>\nJ\u00e1 esta corre e expira? Tal no peito<br \/>\nDa calorosa L\u00e9sbia nascem, morrem<br \/>\nAs vol\u00faveis paix\u00f5es. Vestal do crime,<br \/>\nDos amores vigia a chama eterna,<br \/>\nN\u00e3o a deixa apagar; pronto lhe lan\u00e7a<br \/>\n\u00d3leo com que a alimente. Enrubescido<br \/>\nDe ternura e desejo o rosto volve<br \/>\nAo mancebo gentil. Baldado empenho!<br \/>\nIndiferente aos m\u00e1gicos encantos,<br \/>\nC\u00e9lio contempla a mo\u00e7a. Olhar mais frio,<br \/>\nNingu\u00e9m deitou jamais a gra\u00e7as tantas.<br \/>\nEla insiste; ele foge-lhe. Vexada,<br \/>\nA mo\u00e7a inclina l\u00e2nguida a cabe\u00e7a&#8230;<br \/>\nTu nada v\u00eas, desapegado esposo,<br \/>\nMas o amante v\u00ea tudo.<\/p>\n<p>Cl\u00f3dia arranca<br \/>\nUma rosa da fronte, e as folhas deita<br \/>\nNa ta\u00e7a que enche generoso vinho.<br \/>\n&#8220;C\u00e9lio, um brinde aos amores!&#8221;, diz, e entrega-lha.<br \/>\nO cortejado mo\u00e7o os olhos lan\u00e7a,<br \/>\nN\u00e3o \u00e0 Cl\u00f3dia, que a ta\u00e7a lhe oferece<br \/>\nMas a outra n\u00e3o menos afamada,<br \/>\nDama de igual pros\u00e1pia e iguais campanhas,<br \/>\nE ta\u00e7a igual lhe aceita. Afronta \u00e9 esta<br \/>\nQue \u00e0 mo\u00e7a faz subir o sangue \u00e0s faces,<br \/>\nAquele sangue antigo, e raro, e ilustre,<br \/>\nQue atravessou pur\u00edssimo e sem mescla<br \/>\nA corrente dos tempos&#8230; Uma Cl\u00f3dia!<br \/>\nTamanha inj\u00faria! Ai, n\u00e3o! mais que a vaidade,<br \/>\nMais que o orgulho de ra\u00e7a, o que te pesa,<br \/>\nO que te faz doer, viciosa dama,<br \/>\n\u00c9 ver que um rival merece o zelo<br \/>\nDeste pimp\u00e3o de amores e aventuras.<br \/>\nPega na ta\u00e7a o n\u00e9scio esposo e bebe,<br \/>\nCom o vinho, a vergonha. Sombra triste,<br \/>\nSombra de ocultas e profundas m\u00e1goas,<br \/>\nTolda a fronte ao poeta.<br \/>\nOs mais, alegres,<br \/>\nV\u00e3o ruminando a saborosa ceia;<br \/>\nCircula o dito equ\u00edvoco e chistoso,<br \/>\nComentam-se os decretos do senado,<br \/>\nO molho mais da moda, os versos \u00faltimos<br \/>\nDe Catulo, os le\u00f5es mandados de \u00c1frica<br \/>\nE as vit\u00f3rias de C\u00e9sar. O epigrama<br \/>\nRasga a pele ao caudilho triunfante;<br \/>\nChama-lhe este: &#8220;O lar\u00e1pio endividado&#8221;,<br \/>\nAquele: &#8220;V\u00eanus calva&#8221;, outro: &#8220;O bit\u00ednio&#8230;&#8221;<br \/>\nOposi\u00e7\u00e3o de ceias e jantares,<br \/>\nQue a marcha n\u00e3o impede ao crime e \u00e0 gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sem liteira, nem l\u00edbicos escravos,<br \/>\nCl\u00f3dia vai consultar arm\u00eanio ar\u00faspice.<br \/>\nQuer saber se h\u00e1 de C\u00e9lio am\u00e1-la um dia<br \/>\nOu desprez\u00e1-la sempre. O arm\u00eanio estava<br \/>\nMeditabundo, \u00e0 luz escassa e incerta<br \/>\nDe uma candeia etrusca; aos ombros dele<br \/>\nDecr\u00e9pita coruja os olhos abre.<br \/>\n&#8220;Velho, aqui tens dinheiro (a mo\u00e7a fala),<br \/>\nSe \u00e0 tua inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 dado agora<br \/>\nAdivinhar as cousas do futuro,<br \/>\nConta-me&#8230;&#8221; O resto exp\u00f5e. Ergue-se o velho<br \/>\nS\u00fabito. Os olhos lan\u00e7a cobi\u00e7osos<br \/>\n\u00c0 fulgente moeda. &#8220;Saber queres<br \/>\nSe te h\u00e1 de amar esse mancebo esquivo?&#8221;<br \/>\n&#8220;Sim&#8221;. Cochilava a um canto descuidada<br \/>\nA avezinha de V\u00eanus, branca pomba.<br \/>\nLan\u00e7a m\u00e3o dela o ar\u00faspice, e de um golpe<br \/>\nDas entranhas lhe arranca o sangue e a vida,<br \/>\nOlhos fitos no velho a mo\u00e7a aguarda<br \/>\nA senten\u00e7a da sorte; empalidece<br \/>\nOu ri, conforme do anci\u00e3o no rosto<br \/>\nOcultas impress\u00f5es vem debuxar-se.<br \/>\n&#8220;Bem haja V\u00eanus! A vit\u00f3ria \u00e9 tua!<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o da v\u00edtima palpita<br \/>\nInda que morto j\u00e1&#8230;&#8221;<br \/>\nN\u00e3o eram ditas.<br \/>\nEstas palavras, entra um vulto&#8230; \u00c9 ele?<br \/>\n\u00c9s tu, cioso amante!<br \/>\nA voz lhes falta<br \/>\nAos dous (contemplam-se ambos, interrogam-se);<br \/>\nRompe afinal o l\u00fagubre sil\u00eancio&#8230;<\/p>\n<p>Quando o vate acabou, tinha nos bra\u00e7os<br \/>\nA namorada mo\u00e7a. Lacrimosa,<br \/>\nTudo confessa. Tudo lhe perdoa<br \/>\nO desvairado amante. &#8220;Nuvem leve<br \/>\nIsto foi; deixa l\u00e1 mem\u00f3rias tristes,<br \/>\nErros que te perd\u00f4o; amemos, L\u00e9sbia;<br \/>\nA vida \u00e9 nossa; \u00e9 nossa a juventude&#8221;.<br \/>\n&#8220;Oh! tu \u00e9s bom!&#8221; &#8220;N\u00e3o sei; amo e mais nada.<br \/>\nFoge o mal donde amor plantou seus lares.<br \/>\nAmar \u00e9 ser do c\u00e9u&#8221;. S\u00faplices olhos<br \/>\nQue a dor umedecera e que umedecem<br \/>\nL\u00e1grimas de ternura, os olhos buscam<br \/>\nDo poeta; um sorriso lhes responde,<br \/>\nE um beijo sela esta alian\u00e7a nova.<\/p>\n<p>Quem jamais construiu s\u00f3lida torre<br \/>\nSobre a areia vol\u00favel? Poucos dias<br \/>\nDecorreram; vi\u00e7osas esperan\u00e7as<br \/>\nS\u00fabito renascidas, folha a folha,<br \/>\nAlastraram a terra. Ingrata e fria,<br \/>\nL\u00e9sbia esqueceu Catulo. Outro lhe pede<br \/>\nPr\u00eamio \u00e0 recente, abrasadora chama;<br \/>\nFaz-se agora importuno o que era esquivo.<br \/>\nVit\u00f3ria \u00e9 dela; o ar\u00faspice acertara.<\/p>\n<h2>NO ALTO<\/h2>\n<p>O poeta chegara ao alto da montanha,<br \/>\nE quando ia a descer a vertente do oeste,<br \/>\nViu uma cousa estranha,<br \/>\nUma figura m\u00e1.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste,<br \/>\nAo gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,<br \/>\nNum tom medroso e agreste<br \/>\nPergunta o que ser\u00e1.<\/p>\n<p>Como se perde no ar um som festivo e doce,<br \/>\nOu bem como se fosse<br \/>\nUm pensamento v\u00e3o,<\/p>\n<p>Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.<br \/>\nPara descer a encosta<br \/>\nO outro estendeu-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>FIM<br \/>\nDE &#8220;OCIDENTAIS&#8221;<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis O DESFECHO Prometeu sacudiu os bra\u00e7os manietados E s\u00faplice pediu a eterna compaix\u00e3o, Ao ver o desfilar dos s\u00e9culos que v\u00e3o Pausadamente, como um dobre de finados. Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bili\u00e3o, Uns cingidos de luz, outros ensang\u00fcentados&#8230; S\u00fabito, sacudindo as asas de tuf\u00e3o, Fita-lhe a \u00e1gua [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120020","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Ocidentais, Machado de Assis, Obra Completa Ocidentais<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Ocidentais, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Ocidentais\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta 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