{"id":120018,"date":"2017-04-18T21:19:50","date_gmt":"2017-04-18T23:19:50","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120018"},"modified":"2017-04-18T21:19:50","modified_gmt":"2017-04-18T23:19:50","slug":"o-corvo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-corvo","title":{"rendered":"O Corvo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Em certo dia, \u00e0 hora, \u00e0 hora<br \/>\nDa meia-noite que apavora,<br \/>\nEu, caindo de sono e exausto de fadiga,<br \/>\nAo p\u00e9 de muita lauda antiga,<br \/>\nDe uma velha doutrina agora morta,<br \/>\nIa pensando, quando ouvi \u00e0 porta<br \/>\nDo meu quarto um soar devagarinho<br \/>\nE disse estas tais palavras:<br \/>\n&#8220;\u00c9 algu\u00e9m que me bate \u00e0 porta de mansinho;<br \/>\nH\u00e1 de ser isso e nada mais.&#8221;<\/p>\n<p>Ah! bem me lembro! bem me lembro!<br \/>\nEra no glacial dezembro;<br \/>\nCada brasa do lar sobre o colch\u00e3o refletia<br \/>\nA sua \u00faltima agonia.<br \/>\nEu ansioso pelo Sol, buscava<br \/>\nSacar daqueles livros que estudava<br \/>\nRepouso (em v\u00e3o!) \u00e0 dor esmagadora<br \/>\nDestas saudades imortais<br \/>\nPela que ora nos c\u00e9us anjos chamam Lenora,<br \/>\nE que ningu\u00e9m chamar\u00e1 mais.<\/p>\n<p>E o rumor triste, vago, brando<br \/>\nDas cortinas ia acordando<br \/>\nDentro em meu cora\u00e7\u00e3o um rumor n\u00e3o sabido,<br \/>\nNunca por ele padecido.<br \/>\nEnfim, por aplac\u00e1-lo aqui, no peito,<br \/>\nLevantei-me de pronto, e &#8220;Com efeito,<br \/>\n(Disse) \u00e9 visita amiga e retardada<br \/>\nQue bate a estas horas tais.<br \/>\n\u00c9 visita que pede \u00e0 minha porta entrada:<br \/>\nH\u00e1 de ser isso e nada mais.&#8221;<\/p>\n<p>Minh&#8217;alma ent\u00e3o sentiu-se forte;<br \/>\nN\u00e3o mais vacilo, e desta sorte<br \/>\nFalo: &#8220;Imploro de v\u00f3s &#8211; ou senhor ou senhora,<br \/>\nMe desculpeis tanta demora.<br \/>\nMas como eu, precisando de descanso<br \/>\nJ\u00e1 cochilava, e t\u00e3o de manso e manso,<br \/>\nBatestes, n\u00e3o fui logo, prestemente,<br \/>\nCertificar-me que a\u00ed estais.&#8221;<br \/>\nDisse; a porta escancaro, acho a noite somente,<br \/>\nsomente a noite, e nada mais.<\/p>\n<p>Com longo olhar escruto a sombra<br \/>\nQue me amedronta, que me assombra.<br \/>\nE sonho o que nenhum mortal h\u00e1 j\u00e1 sonhado,<br \/>\nMas o sil\u00eancio amplo e calado,<br \/>\nCalado fica; a quieta\u00e7\u00e3o quieta;<br \/>\nS\u00f3 tu, palavra \u00fanica e dileta,<br \/>\nLenora, tu, como um suspiro escasso,<br \/>\nDa minha triste boca sais;<br \/>\nE o eco, que te ouviu, murmurou-te no espa\u00e7o;<br \/>\nFoi isso apenas, nada mais.<\/p>\n<p>Entro co&#8217;a alma incendiada.<br \/>\nLogo depois outra pancada<br \/>\nSoa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:<br \/>\n&#8220;Seguramente, h\u00e1 na janela<br \/>\nAlguma coisa que sussurra. Abramos,<br \/>\nEia, fora o temor, eia, vejamos<br \/>\nA explica\u00e7\u00e3o do caso misterioso<br \/>\nDessas duas pancadas tais,<br \/>\nDevolvamos a paz ao cora\u00e7\u00e3o medroso,<br \/>\nObra do vento, e nada mais.&#8221;<\/p>\n<p>Abro a janela, e de repente,<br \/>\nVejo tumultuosamente<br \/>\nUm nobre corvo entrar, digno de antigos dias.<br \/>\nN\u00e3o despendeu em cortesias<br \/>\nUm minuto, um instante. Tinha o aspecto<br \/>\nde um lord ou de uma lady. E pronto e reto,<br \/>\nMovendo no ar as suas negras alas,<br \/>\nAcima voa dos portais,<br \/>\nTrepa, no alto da porta em um busto de Palas:<br \/>\nTrepado fica, e nada mais.<\/p>\n<p>Diante da ave feia e escura,<br \/>\nNaquela r\u00edgida postura,<br \/>\nCom o gosto severo, &#8211; o triste pensamento<br \/>\nSorriu-me ali por um momento,<br \/>\nE eu disse: &#8220;\u00d3 tu que das noturnas plagas<br \/>\nVens, embora a cabe\u00e7a nua tragas,<br \/>\nSem topete, n\u00e3o \u00e9s ave medrosa,<br \/>\nDize os teus nomes senhoriais;<br \/>\nComo te chamas tu na grande noite umbrosa?&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais.&#8221;<\/p>\n<p>Vendo que o p\u00e1ssaro entendia<br \/>\nA pergunta que eu lhe fazia,<br \/>\nFico at\u00f4nito, embora a resposta que dera<br \/>\nDificilmente lha entendera.<br \/>\nNa verdade, jamais homem h\u00e1 visto<br \/>\nCoisa na terra semelhante a isto:<br \/>\nUma ave negra, friamente posta<br \/>\nNum busto, acima dos portais,<br \/>\nOuvir uma pergunta a dizer em resposta<br \/>\nQue este \u00e9 seu nome: &#8220;Nunca mais.&#8221;<\/p>\n<p>No entanto, o corvo solit\u00e1rio<br \/>\nN\u00e3o teve outro vocabul\u00e1rio.<br \/>\nComo se essa palavra escassa que ali disse<br \/>\nToda sua alma resumisse,<br \/>\nNenhuma outra proferiu, nenhuma.<br \/>\nN\u00e3o chegou a mexer uma s\u00f3 pluma,<br \/>\nAt\u00e9 que eu murmurei: &#8220;Perdi outrora<br \/>\n&#8220;Tantos amigos t\u00e3o leais!<br \/>\n&#8220;Perderei tamb\u00e9m este em regressando a aurora.&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais.&#8221;<\/p>\n<p>Estreme\u00e7o. A resposta ouvida<br \/>\n\u00c9 t\u00e3o exata! \u00e9 t\u00e3o cabida!<br \/>\n&#8220;Certamente, digo eu, essa \u00e9 toda a ci\u00eancia<br \/>\nQue ele trouxe da conviv\u00eancia<br \/>\nDe algum mestre infeliz e acabrunhado<br \/>\nQue o implac\u00e1vel destino h\u00e1 castigado<br \/>\nT\u00e3o tenaz, t\u00e3o sem pausa, nem fadiga,<br \/>\nQue dos seus cantos usuais<br \/>\nS\u00f3 lhe ficou, na amarga e \u00faltima cantiga,<br \/>\nEsse estribilho: &#8220;Nunca mais.&#8221;<\/p>\n<p>Segunda vez nesse momento<br \/>\nSorriu-me o triste pensamento;<br \/>\nVou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;<br \/>\nE, mergulhando no veludo<br \/>\nDa poltrona que eu mesmo ali trouxera,<br \/>\nAchar procuro a l\u00fagubre quimera,<br \/>\nA alma, o sentido, o p\u00e1vido segredo<br \/>\nDaquelas s\u00edlabas fatais,<br \/>\nEntender o que quis dizer a ave do medo<br \/>\nGrasnando a frase: &#8220;Nunca mais.&#8221;<\/p>\n<p>Assim posto, devaneando,<br \/>\nMeditando, conjeturando,<br \/>\nN\u00e3o lhe falava mais; mas, se lhe n\u00e3o falava,<br \/>\nSentia o olhar que me abrasava.<br \/>\nConjeturando fui, tranq\u00fcilo, a gosto,<br \/>\nCom a cabe\u00e7a no macio encosto<br \/>\nOnde os raios da l\u00e2mpada ca\u00edam,<br \/>\nOnde as tran\u00e7as angelicais<br \/>\nDe outra cabe\u00e7a outrora ali se desparziam<br \/>\nE agora n\u00e3o se esparzem mais.<\/p>\n<p>Supus ent\u00e3o que o ar, mais denso,<br \/>\nTodo se enchia de um incenso,<br \/>\nObra de serafins que, pelo ch\u00e3o ro\u00e7ando<br \/>\nDo quarto, estavam meneando<br \/>\nUm ligeiro tur\u00edbulo invis\u00edvel:<br \/>\nE eu exclamei ent\u00e3o: &#8220;Um Deus sens\u00edvel<br \/>\nManda repouso \u00e0 dor que te devora<br \/>\nDestas saudades imortais.<br \/>\nEia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Profeta, ou o que quer que sejas!<br \/>\nAve ou dem\u00f4nio que negrejas!<br \/>\nProfeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno<br \/>\nOnde reside o mal eterno,<br \/>\nOu simplesmente n\u00e1ufrago escapado<br \/>\nVenhas do temporal que te h\u00e1 lan\u00e7ado<br \/>\nNesta casa onde o Horror, o Horror profundo<br \/>\nTem os seus lares triunfais,<br \/>\nDize-me: existe acaso um b\u00e1lsamo no mundo?&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Profeta, ou o que quer que sejas!<br \/>\nAve ou dem\u00f4nio que negrejas!<br \/>\nProfeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!<br \/>\nPor esse c\u00e9u que al\u00e9m se estende,<br \/>\nPelo Deus que ambos adoramos, fala,<br \/>\nDize a esta alma se \u00e9 dado inda escut\u00e1-la<br \/>\nNo \u00c9den celeste a virgem que ela chora<br \/>\nNestes retiros sepulcrais,<br \/>\n&#8220;Essa que ora nos c\u00e9us anjos chamam Lenora!&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ave ou dem\u00f4nio que negrejas!<br \/>\nProfeta, ou o que quer que sejas!<br \/>\nCessa, ai, cessa! (clamei, levantando-me) cessa!<br \/>\nRegressando ao temporal, regressa<br \/>\n\u00c0 tua noite, deixa-me comigo&#8230;<br \/>\nVai-te, n\u00e3o fique no meu casto abrigo<br \/>\nPluma que lembre essa mentira tua.<br \/>\nTira-me ao peito essas fatais<br \/>\nGarras que abrindo v\u00e3o a minha dor j\u00e1 crua.&#8221;<br \/>\nE o corvo disse: &#8220;Nunca mais.&#8221;<\/p>\n<p>E o corvo a\u00ed fica; ei-lo trepado<br \/>\nNo branco m\u00e1rmore lavrado<br \/>\nDa antiga Palas; ei-lo imut\u00e1vel, ferrenho.<br \/>\nParece, ao ver-lhe o duro cenho,<br \/>\nUm dem\u00f4nio sonhando. A luz ca\u00edda<br \/>\nDo lampi\u00e3o sobre a ave aborrecida<br \/>\nNo ch\u00e3o espraia a triste sombra; e fora<br \/>\nDaquelas linhas funerais<br \/>\nQue flutuam no ch\u00e3o, a minha alma que chora<br \/>\nN\u00e3o sai mais, nunca, nunca mais!<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Em certo dia, \u00e0 hora, \u00e0 hora Da meia-noite que apavora, Eu, caindo de sono e exausto de fadiga, Ao p\u00e9 de muita lauda antiga, De uma velha doutrina agora morta, Ia pensando, quando ouvi \u00e0 porta Do meu quarto um soar devagarinho E disse estas tais palavras: &#8220;\u00c9 algu\u00e9m que me 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