{"id":120016,"date":"2017-04-18T21:15:50","date_gmt":"2017-04-18T23:15:50","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120016"},"modified":"2017-04-18T21:15:50","modified_gmt":"2017-04-18T23:15:50","slug":"notas-semanais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/notas-semanais","title":{"rendered":"Notas Semanais"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>1878<\/h2>\n<h2>[13]<\/h2>\n<h2>[2 junho]<\/h2>\n<p>H\u00c1 HERAN\u00c7AS onerosas. ELEAZAR substituiu SIC, cuja pena, ali\u00e1s, lhe n\u00e3o deram, e conseguintemente n\u00e3o lhe deram os lavores de estilo, a gra\u00e7a \u00e1tica, e aquele pico e sabor, que s\u00e3o a alma da cr\u00f4nica. A cr\u00f4nica n\u00e3o se contenta da boa vontade; n\u00e3o se contenta sequer do talento; \u00e9-lhe precisa uma aptid\u00e3o especial e rara, que ningu\u00e9m melhor possui, nem em maior grau, do que o meu eminente antecessor. Onerosa e perigosa \u00e9 a heran\u00e7a; mas eu cedo \u00e0 necessidade da ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Resta que me torne digno, n\u00e3o direi do aplauso, mas da toler\u00e2ncia dos leitores.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Um pouco dessa toler\u00e2ncia, bem podiam t\u00ea-la as comiss\u00f5es sanit\u00e1rias, cuja locomo\u00e7\u00e3o me tem feito pensar nas tr\u00eas famosas passadas de Netuno. Vejamos um claro exemplo de intoler\u00e2ncia e de outra coisa.<\/p>\n<p>Descobriu uma de tais comiss\u00f5es que certa casa da rua tal, n\u00famero tantos, vende \u00e1gua de Vidago e de Vichy, sem que as ditas \u00e1guas venham efetivamente dos pontos designados nos an\u00fancios e nos r\u00f3tulos. As \u00e1guas s\u00e3o fabricadas c\u00e1 mesmo. A comiss\u00e3o entendeu obrigar a casa a dar um r\u00f3tulo \u00e0s garrafas, indicando o que as \u00e1guas eram; e, n\u00e3o sendo obedecida, multou-a.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas coisas no ato da comiss\u00e3o: ingenuidade e injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Com efeito, dizer a um cavalheiro que escreva nas suas \u00e1guas de Vidago estas n\u00e3o s\u00e3o de Vidago, s\u00e3o do Beco dos Aflitos &#8211; \u00e9 exigir mais do que pode dar a natureza humana. Suponho que a popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro morre por lebre, e que eu, n\u00e3o tendo lebre para lhe dar, lan\u00e7o m\u00e3o do gato, qual \u00e9 o meu empenho? Um somente: dar-lhe gato por lebre. Ora, obrigar-me a p\u00f4r na vianda o pr\u00f3prio nome da vianda; ou, quando menos, a escrever-lhe em cima esta pergunta: onde est\u00e1 o gato? \u00e9 supor-me uma simplicidade que exclui a beleza original do meu plano; \u00e9 fechar-me a porta. Restar-me-ia, em tal caso, o \u00fanico recurso de comparar a soma das multas com a soma dos ganhos, e se esta fosse superior, adotar o alvitre de fazer pagar as multas pelo p\u00fablico. O que seria fina flor da habilidade industrial.<\/p>\n<p>Ias pior do que a ingenuidade, \u00e9 a injusti\u00e7a da comiss\u00e3o, e maior do que a injusti\u00e7a \u00e9 a sua inadvert\u00eancia.<\/p>\n<p>A comiss\u00e3o multou a casa, Porque sup\u00f5e a exist\u00eancia de fontes minerais em Vidago e em Vichy,<br \/>\nquando \u00e9 sabido que uma e outra das \u00e1guas assim chamadas s\u00e3o puras combina\u00e7\u00f5es artificiais. V\u00e3o publicar-se as receitas. Acresce que as \u00e1guas de que se trata nem s\u00e3o vendidas ao p\u00fablico. H\u00e1, na verdade, muitas pessoas que as v\u00e3o buscar; mas as garrafas voltam intactas, \u00e0 noite, e tornam a sair no dia seguinte, para entrar outra vez; \u00e9 um jogo, um puro recreio, uma inocente divers\u00e3o, denominada o jogo das \u00e1guas, mais complicado que o jogo da bisca, e menos arriscado que o jogo da fortuna. A vizinhan\u00e7a, ao ver entrar e sair muita gente, est\u00e1 persuadida de que h\u00e1 grande venda do produto, &#8211; o que diverte infinitamente os parceiros, todos eles s\u00f3cios do Clube dos Misantropos Reunidos.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Quanto a receitas, n\u00e3o ser\u00e3o aquelas as \u00fanicas impressas. O Cruzeiro anunciou que um dos nossos mais h\u00e1beis confeiteiros medita coligir todas as suas, em volume de mais de trezentas p\u00e1ginas, que dar\u00e1 \u00e0 luz, oferecendo-o \u00e0s senhoras brasileiras.<\/p>\n<p>\u00c9 fora de d\u00favida, que a literatura confeitol\u00f3gica sentia necessidade de mais um livro em que fossem compendiadas as nov\u00edssimas f\u00f3rmulas inventadas pelo engenho humano para o fim de ado\u00e7ar as amarguras deste vale de l\u00e1grimas. Tem barreiras a filosofia; a ci\u00eancia pol\u00edtica acha um limite na testa do capanga. N\u00e3o est\u00e1 no mesmo caso a arte do arroz-doce, e acresce-lhe a vantagem de dispensar demonstra\u00e7\u00f5es e defini\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se demonstra uma cocada, come-se. Com\u00ea-la \u00e9 defini-la.<\/p>\n<p>No meio dos graves problemas sociais cuja solu\u00e7\u00e3o buscam os esp\u00edritos investigadores do nosso s\u00e9culo, a publica\u00e7\u00e3o de um manual de confeitaria, s\u00f3 pode parecer vulgar a esp\u00edritos vulgares; na realidade, \u00e9 um fen\u00f4meno eminentemente significativo. Digamos todo o nosso pensamento: \u00e9 uma restaura\u00e7\u00e3o, \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o do nosso princ\u00edpio social. O princ\u00edpio social do Rio de Janeiro, como se sabe, \u00e9 o doce de coco e a compota de marmelos. N\u00e3o foi outra tamb\u00e9m a origem da nossa ind\u00fastria dom\u00e9stica. No s\u00e9culo passado e no anterior, as damas, uma vez por ano, dan\u00e7avam o minuete, ou viam ver correr argolinhas; mas todos os dias faziam renda e todas as semanas faziam doce- de modo que o bilro e o tacho, mais ainda do que os falc\u00f5es pedreiros de Est\u00e1cio de S\u00e1, lan\u00e7aram os alicerces da sociedade carioca.<\/p>\n<p>Ora qual \u00e9 nossa situa\u00e7\u00e3o h\u00e1 dez ou quinze anos? H\u00e1 dez ou quinze anos, penetrou nos nossos h\u00e1bitos um corpo estranho, o bife cru. Esse anglicismo s\u00f3 toler\u00e1vel a uns sujeitos, como os rapazes de Oxford, que alternam os estudos com regatas, e travam do remo com as mesmas m\u00e3os que folheiam Hes\u00edodo, esse anglicismo, al\u00e9m de n\u00e3o quadrar ao est\u00f4mago fluminense, repugna aos nossos costumes e origens. N\u00e3o obstante, o bife cru entrou nos h\u00e1bitos da terra; bife cru for ever, tal \u00e9 a divisa da recente gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embalde alguns fi\u00e9is cidad\u00e3os v\u00e3o ao Castel\u00f5es, \u00e0s quatro horas da tarde, absorver duas ou tr\u00eas m\u00e3es-bentas, excelente processo para abrir a vontade de jantar. Embalde um partido ecl\u00e9tico se lan\u00e7a ao uso do pastel de carne com a\u00e7\u00facar, conciliando assim, num s\u00f3 bocado, o jantar e a sobremesa. Embalde as confeitarias continuam a comemorar a morte de Jesus, na quinta-feira santa, armando-se das mais vermelhas sanefas, encarapitando os mais belos cartuchos de bon-bons, que em algum tempo se chamaram confeitos, recebendo enfim um povo \u00e1vido de misturar balas de chocolate com as l\u00e1grimas de Si\u00e3o. Eram, e s\u00e3o esfor\u00e7os generosos; mas a corru\u00e7\u00e3o dos tempos n\u00e3o permite faz\u00ea-los gerar alguma coisa \u00fatil. A grande maioria acode \u00e0s urg\u00eancias do est\u00f4mago com o sandu\u00edche, n\u00e3o menos peregrino que o bife cru, e n\u00e3o menos s\u00f3rdido; ou com o croquete, estrangeirize do mesmo quilate; e a decad\u00eancia e a morte do doce parecem inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Nesta grave situa\u00e7\u00e3o, anuncia-se o novo manual de confeitaria. Direi desde j\u00e1 que o merecimento do autor \u00e9 inferior ao que se pensa. Sem d\u00favida, h\u00e1 algum m\u00e9rito nesse cavalheiro, que vem desbancar certo s\u00e1bio do s\u00e9culo anterior. Dizia o s\u00e1bio que se tivesse a m\u00e3o cheia de verdades, nunca mais a abriria; o confeiteiro tem as m\u00e3os cheias de receitas, e abre-as, espalma-as, sacode-as aos quatro ventos do c\u00e9u, como dizendo ao fregueses: &#8211; Habilitai-vos a fazer por vossas m\u00e3os a compota de ara\u00e7\u00e1, em vez de a vir comprar \u00e0 minha confeitaria. Vendo-vos este livro, para vos n\u00e3o vender mais coisa nenhuma; ou, se me permitis uma met\u00e1fora ao sabor do moderno gongorismo, abro-vos as portas dos meus tachos. Concorrentemente, auxilio o desenvolvimento das liberdades p\u00fablicas, porquanto, alguns vos dir\u00e3o que tendes o direito do jejum e o direito da indigest\u00e3o: \u00e9 apenas uma verdade abstrata. Eu congrego ambos os direitos sob a forma do bom-bocado: \u00e9 uma verdade concreta. Abstende-vos ou abarrotai-vos; est\u00e1 ao alcance da vossa m\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o vai al\u00e9m o m\u00e9rito do autor do novo manual. Sua iniciativa tem um lado inconsciente, que o constitui simplesmente fen\u00f4meno. H\u00e1 certa ordem de fatos na vida dos povos, cujo princ\u00edpio gerador est\u00e1 antes na lei hist\u00f3rica do que na delibera\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. Aparentemente, \u00e9 largo o abismo, entre um Confeiteiro Port\u00e1til e a \u00faltima batalha de Pompeu, mas estudai em suas origens os dois produtos, e vereis que, se C\u00e9sar desloca a base do poder pol\u00edtico, p\u00f5e por obra uma evolu\u00e7\u00e3o da sociedade romana, &#8211; e se o nosso confeiteiro publica as suas trezentas p\u00e1ginas de receitas, obedece \u00e0 necessidade de restaurar o princ\u00edpio social do manu\u00ea. Naquele caso, a queda da rep\u00fablica; neste, a proscri\u00e7\u00e3o do bife sangrento. Diferente meio; a\u00e7\u00e3o diversa; lei id\u00eantica, an\u00e1logo fen\u00f4meno; resultado igual.<\/p>\n<p>Trata-se pois de nada menos que voltar ao reg\u00edmen da sobremesa. Quando o Marechal L\u00f3pez, nas \u00faltimas convuls\u00f5es de seu est\u00e9ril despotismo, soltava esta frase c\u00e9lebre: il faut finir pour commencer, indicava \u00e0s nossas confeitarias, ainda que de modo obscuro, a verdadeira teoria gastron\u00f4mica. Com efeito, importa muito que a sobremesa tenha o primeiro lugar; acrescendo que come\u00e7ar uma coisa pelo fim, pode n\u00e3o ser o melhor modo de a acabar bem, mas \u00e9 com certeza, o melhor modo de a acabar depressa. Vejam, por exemplo, as conseq\u00fc\u00eancias que pode ter este princ\u00edpio da sobremesa antes da 50pa~ aplicado \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos Estados. A Banda Oriental do Uruguai, apenas se sentou \u00e0 mesa das na\u00e7\u00f5es, ingeriu no est\u00f4mago um cartucho de pralinas constitucionais, abarrotou-se, e nem por isso teve indigest\u00e3o, ao contr\u00e1rio, digeriu todas as pralinas em poucos anos; digeriu mais uns quinhentos quilos de governos \u00e0 la minute; mais uns dez ou dez pires de congressos em calda; viveu, enfim, numa completa marmelada pol\u00edtica. \u00c9 verdade que o est\u00f4mago lhe adoeceu, e que a puseram no reg\u00edmen de uns caldos substanciais \u00e0 Latorre, para combater a dispepsia republicana; mas \u00e9 tamb\u00e9m verdade que, se n\u00e3o acabou bem, acabou depressa.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>N\u00e3o acabou menos depressa o pa\u00e7o municipal de Macacu, que ali\u00e1s acabou mais radicalmente; ardeu. Sobre as causas do desastre perde-se a imagina\u00e7\u00e3o em conjeturas, sendo a mais veross\u00edmil de todas a da combust\u00e3o espont\u00e2nea. Se n\u00e3o foi isso, foi talvez o mau costume que t\u00eam todos os pa\u00e7os municipais de dormirem com luz e lerem at\u00e9 alta madrugada. O de Macacu parece que at\u00e9 fumava na cama. Imprud\u00eancia que se n\u00e3o combina com a madureza pr\u00f3pria de um pa\u00e7o municipal.<\/p>\n<p>Seja como for, h\u00e1 de ser muito dif\u00edcil achar agora os pap\u00e9is do munic\u00edpio, e fica truncada a hist\u00f3ria de Macacu. Tamb\u00e9m a hist\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o loureira, t\u00e3o disposta a dizer o sim e o n\u00e3o, que o melhor que pode acontecer a uma cidade, a uma vila, a uma povoa\u00e7\u00e3o qualquer, \u00e9 n\u00e3o a ter absolutamente, e para isso a maior fortuna seria aplicar o niilismo aos documentos. Entreguemos os s\u00e1bios vindouros ao simples recurso da conjetura; aplica\u00e7\u00e3o higi\u00eanica, algo fant\u00e1stica, e sobretudo pac\u00edfica.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se o pa\u00e7o municipal estaria seguro em alguma companhia. Pode ser que n\u00e3o. Eu inclino-me a crer que dev\u00edamos segurar tudo, at\u00e9 as casacas, sobretudo as carteiras e algumas vezes o ju\u00edzo. Um pa\u00e7o municipal entra no n\u00famero das primeiras: \u00e9 a casaca do munic\u00edpio. Se a de Macacu j\u00e1 estava sebenta, n\u00e3o era isso raz\u00e3o para que o munic\u00edpio fique agora em mangas de camisa; \u00e9 mais fresco, mas muito menos grave.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p>Sucessos em terra, sucessos no mar. Voa um pr\u00e9dio; inaugura-se a linha de navega\u00e7\u00e3o entre este porto e o de New York. No fim de uma coisa que acaba, h\u00e1 outra que come\u00e7a, e a morte paga com a vida: eterna id\u00e9ia e velha verdade. Que monta? Ao cabo, s\u00f3 h\u00e1 verdades velhas, caiadas de novo.<\/p>\n<p>O vapor \u00e9 grande demais para estas colunas m\u00ednimas; h\u00e1 muita coisa que dizer dele, mas n\u00e3o \u00e9 este o lugar id\u00f4neo. Tinha que ver se eu entrasse a dar \u00e0 pregui\u00e7a dos leitores um caldo suculento de reflex\u00f5es, observa\u00e7\u00f5es e conclus\u00f5es, acerca da boa amizade entre este pa\u00eds e os Estados Unidos! Que o digam vozes pr\u00f3prias e cabais. Mais depressa lhes faiaria do fon\u00f3grafo, se o houvera escutado. O fon\u00f3grafo. . . creiam que agora \u00e9 que trato de suster o v\u00f4o, porque estou a ver o fim da lauda, e o fon\u00f3grafo era capaz de levar-me at\u00e9 o fim da edi\u00e7\u00e3o. Vir\u00e1 dia em que o fa\u00e7a com descanso.<\/p>\n<p>Que os Estados Unidos come\u00e7am de galantear-nos, \u00e9 coisa fora de d\u00favida; correspondamos ao galanteio; flor por flor, olhadela por olhadela, apert\u00e3o por apert\u00e3o. Conjuguemos os nossos interesses, e um pouco tamb\u00e9m os nossos sentimentos; para este h\u00e1 um elo, a liberdade; para aqueles, h\u00e1 outro, que \u00e9 o trabalho; e o que s\u00e3o o trabalho e a liberdade sen\u00e3o as duas grandes necessidades do homem? Com um e outro se conquistam a ci\u00eancia, a prosperidade e a ventura p\u00fablica. Esta nova linha de navega\u00e7\u00e3o afigura-se-me que n\u00e3o \u00e9 uma simples linha de barcos. J\u00e1 conhecemos melhor os Estados Unidos j\u00e1 eles come\u00e7am a conhecer-nos melhor. Conhe\u00e7amo-nos de todo, e o proveito ser\u00e1 comum.<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p>E agora um tra\u00e7o negro. Registrou a semana um fato triste e consolador ao mesmo tempo. Morreu um homem, que era inteligente, ilustrado e laborioso; mas que era tamb\u00e9m um homem bom. Os qualificativos est\u00e3o j\u00e1 t\u00e3o gastos que dizer homem bom, parece que \u00e9 n\u00e3o dizer nada. Mas quantos merecem rigorosamente esta qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e3o simples e t\u00e3o curta? O grande assombra, o glorioso ilumina, o intr\u00e9pido arrebata; o bom n\u00e3o produz nenhum desses efeitos. Contudo, h\u00e1 uma grandeza, h\u00e1 uma gl\u00f3ria, h\u00e1 uma intrepidez em ser simplesmente bom, sem aparato, nem interesse, nem c\u00e1lculo; e sobretudo sem arrependimento.<\/p>\n<p>Era-o o Dr. Dias da Cruz; e se a sua morte foi um caso triste, o seu saimento foi um caso consolador, porque essa virtude sem m\u00e1cula p\u00f4de subir ao c\u00e9u sem desgosto. levou as l\u00e1grimas dos olhos que enxugara.<\/p>\n<h2>[14]<\/h2>\n<h2>[16 junho]<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p>ESTRUGIRAM OS \u00faltimos foguetes de Santo Ant\u00f4nio; n\u00e3o tarda chegar a vez de S. Jo\u00e3o e de S. Pedro. O \u00faltimo destes santos, com ser festivo, n\u00e3o o \u00e9 tanto como os dois primeiros, nem, sobretudo, como o segundo. Deve-o talvez \u00e0 sua qualidade especial de disc\u00edpulo, e primaz dos disc\u00edpulos. N\u00e3o o era o Batista, ali\u00e1s precursor e admoestador, e menos ainda o bem-aventurado de P\u00e1dua.<\/p>\n<p>Indague quem quiser o motivo hist\u00f3rico deste foguetear os tr\u00eas santos, uso que herdamos dos nossos maiores; a realidade \u00e9 que, n\u00e3o obstante o ceticismo do tempo, muita e muita dezena de anos h\u00e1 de correr, primeiro que o povo perca os seus antigos amores. Nestas noites aben\u00e7oadas \u00e9 que as crendices s\u00e3s abrem todas as velas. As consultas, as sortes, os ovos guardados em \u00e1gua, e outras sublimes ridicularias, ria-se delas quem quiser; eu vejo-as com respeito, com simpatia e se alguma coisa me molestam \u00e9 por eu n\u00e3o as saber j\u00e1 praticar. Os anos que passam tiram \u00e0 f\u00e9 o que h\u00e1 nela pueril, para s\u00f3 lhe deixar o que h\u00e1 s\u00e9rio; e triste daquele a quem nem isso fica: esse perde o melhor das recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Venhamos \u00e0 boa prosa, que \u00e9 o meu dom\u00ednio. Vimos o lado po\u00e9tico dos foguetes; vejamos o lado legal.<\/p>\n<p>Os dias passam, e os meses, e os anos, e as situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, e as gera\u00e7\u00f5es e os sentimentos, e as id\u00e9ias. Cada olimp\u00edada traz nas m\u00e3os uma nova andaina do tempo. O tempo, que a tradi\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica nos pinta com alvas barbas, \u00e9 pelo contr\u00e1rio um eterno rapag\u00e3o, rosado, gamenho, pueril; s\u00f3 parece velho \u00e0queles que j\u00e1 o est\u00e3o; em si mesmo traz a perp\u00e9tua e vers\u00e1til juventude.<\/p>\n<p>Duas coisas, entretanto, perduram no meio da instabilidade universal: &#8211; 1.\u00ba a const\u00e2ncia da pol\u00edcia que todos os anos declara editalmente ser proibido queimar fogos, por ocasi\u00e3o das festas de S. Jo\u00e3o e seus comensais; 2\u00ba a disposi\u00e7\u00e3o do povo em desobedecer \u00e0s ordens da pol\u00edcia. A proibi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples vontade do chefe; \u00e9 uma postura municipal de 1856. Anualmente aparece o mesmo edital, escrito com os mesmos termos; o chefe rubrica essa chapa inofensiva, que \u00e9 impressa, lida e desrespeitada. Da tenacidade com que a pol\u00edcia pro\u00edbe, e da teimosia com que o povo infringe a proibi\u00e7\u00e3o, fica um res\u00edduo comum: o trecho impresso e os fogos queimados.<\/p>\n<p>Se eu tivesse a honra de falar do alto de uma tribuna, n\u00e3o perdia esta ocasi\u00e3o de expor longa e prudhommescamente o princ\u00edpio da soberania da na\u00e7\u00e3o, cujos delegados s\u00e3o os poderes p\u00fablicos, diria que, se a na\u00e7\u00e3o transmitiu o direito de legislar, de judiciar, de administrar, n\u00e3o \u00e9 muito que reservasse para si o de atacar uma carta de bichas; diria que, sendo a na\u00e7\u00e3o a fonte constitucional da vida politica, excede o limite m\u00e1ximo do atrevimento empecer-lhe o uso mais inofensivo do mundo, o uso do busca-p\u00e9. Levantando a discuss\u00e3o \u00e0 altura da grande ret\u00f3rica, diria que o pior busca-p\u00e9 n\u00e3o \u00e9 o que verdadeiramente busca o p\u00e9, mas o que busca a liberdade, a propriedade, o sossego, todos esses p\u00e9s morais (se assim me pudesse exprimir), que nem sempre s\u00f3em caminhar tranq\u00fcilos na estrada social; diria, enfim, que as gir\u00e2ndolas criminosas n\u00e3o s\u00e3o as que ardem em honra de um santo , mas as que se queimam para glorifica\u00e7\u00e3o dos grandes crimes.<\/p>\n<p>Que tal? Infelizmente n\u00e3o disponho de tribuna, sou apenas um pobre-diabo, condenado ao lado pr\u00e1tico das coisas; de mais a mais m\u00edope, cabe\u00e7udo e prosaico. Da\u00ed vem que, enquanto um homem de outro porte v\u00ea no busca-p\u00e9 uma simples beleza constitucional, eu vejo nele um argumento mais em favor da minha tese, a saber, que o leitor nasceu com a bossa da ilegalidade. Note que n\u00e3o me refiro aos sobrinhos do leitor, nem a seus compadres, nem a seus amigos; mas t\u00e3o-somente ao pr\u00f3prio leitor. Todos os demais cidad\u00e3os ficam isentos da m\u00e1cula se a h\u00e1.<\/p>\n<p>Que um urbano, excedendo o limite legal das suas atribui\u00e7\u00f5es, se lembre de p\u00f4r em contacto a sua espada com as costas do leitor, \u00e9 fora de d\u00favida que o dito leitor bradar\u00e1 contra esse abuso do poder; far\u00e1 gemer os prelos; mostrar\u00e1 a lei maltratada na sua pessoa. N\u00e3o menos certo \u00e9 que, assinado o protesto, ir\u00e1 com a mesma m\u00e3o acender uma pistola de l\u00e1grimas; e se outro urbano vier mostrar-lhe polidamente o edital do chefe, o referido leitor aconselhar-lhe-\u00e1 que o v\u00e1 ler \u00e0 fam\u00edlia, que o empregue em cartuchos, que lhe n\u00e3o estafe a paci\u00eancia. Tal \u00e9 a nossa concep\u00e7\u00e3o da legalidade; um guarda-chuva escasso, que n\u00e3o dando para cobrir a todas as pessoas, apenas pode cobrir as nossas; noutros termos, um pau de dois bicos.<\/p>\n<p>Agora, o que o leitor n\u00e3o compreende \u00e9 que esse urbano excessivo no uso das suas atribui\u00e7\u00f5es, esse subalterno que transgride as barreiras da lei, \u00e9 simplesmente um produto do pr\u00f3prio leitor; n\u00e3o compreende que o agregado nada mais representa do que as somas das unidades, com suas tend\u00eancias, virtudes e lacunas. O leitor (perdoe a sua aus\u00eancia) \u00e9 um estim\u00e1vel cavalheiro, patriota, resoluto, manso, mas persuadido de que as coisas p\u00fablicas andam mal, ao passo que as coisas particulares andam bem; sem advertir que, a ser exata a primeira parte, a segunda for\u00e7osamente n\u00e3o o \u00e9; e, a s\u00ea-lo a segunda, n\u00e3o o \u00e9 a primeira. Um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o daria ao leitor um pouco mais de eq\u00fcidade.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 tempo de deixar as cartas de bichas.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Uns devotos riem, enquanto outros devotos choram.<\/p>\n<p>A provid\u00eancia, em seus inescrut\u00e1veis des\u00edgnios, tinha assentado dar a esta cidade um benef\u00edcio grande; e nenhum lhe pareceu maior nem melhor do que certo gozo superfino, espiritual e grave, que patenteasse a brandura dos nossos costumes e a gra\u00e7a das nossas maneiras: deu-nos os touros.<\/p>\n<p>Talvez poucas pessoas se lembrem que h\u00e1 bons vinte e cinco anos ou mais, creio que mais, houve uma tentativa de tauromaquia nesta cidade. A tentativa durou pouco. Uma civiliza\u00e7\u00e3o imberbe n\u00e3o tolera melhoramentos de certo porte. Cada fruto tem a sua saz\u00e3o. O circo desapareceu, mas a semente ficou, e germinou, e brotou e cresceu, e fez-se a magn\u00edfica \u00e1rvore, a cuja sombra se pode hoje estirar a nossa filosofia.<\/p>\n<p>Na verdade, os prazeres intelectuais h\u00e3o de sempre dominar nesta gera\u00e7\u00e3o. Atualmente, \u00e9 sabido que o teatro, copioso, elevado, profundo, puro S\u00f3focles, tem enriquecido quarenta e tantas empresas, ao passo que s\u00f3 quebram as que recorrem \u00e0s m\u00e1gicas. Ningu\u00e9m ainda esqueceu os ferimentos, as rusgas, os apert\u00f5es que houve por ocasi\u00e3o da primeira r\u00e9cita do Jesu\u00edta, cuja concorr\u00eancia de espectadores foi tamanha, que o empres\u00e1rio do teatro comprou, um ano depois, o pal\u00e1cio Friburgo.<\/p>\n<p>Faltavam-nos os touros. Os touros vieram, e com eles toda a fraseologia, a nova, a elegante, a longa fraseologia taurom\u00e1quica; enfim, veio o bandarilheiro Pontes. N\u00e3o tive a honra de ver este cavalheiro, que os doutores da institui\u00e7\u00e3o proclamam artista de alta escala; mas ele pertence ao n\u00famero das coisas, em que eu creio sem ver, digo mais, das coisas, em que eu tanto mais creio, quando menos avisto. Porque \u00e9 de saber que, em rela\u00e7\u00e3o a essa nobre divers\u00e3o do esp\u00edrito, eu sou nada menos que um patarata; nunca vi corridas de touros provavelmente, n\u00e3o as verei jamais. N\u00e3o \u00e9 que me falte incentivo. Em primeiro lugar, possuo um amigo, esp\u00edrito delicado, que as adora e freq\u00fcenta; depois, sempre me h\u00e1 de lembrar Santo Agostinho. Conta o grande bispo que o seu amigo Al\u00edpio, seduzido a voltar ao anfiteatro, ali foi de olhos fechados, resoluto a n\u00e3o os abrir; mas o clamor das turbas e a curiosidade os abriram de novo e de uma vez, t\u00e3o certo \u00e9 que esses espet\u00e1culos de sangue alguma coisa t\u00eam que fascinam e arrastam o homem.Pode ser que algum dia tamb\u00e9m eu v\u00e1 atirar len\u00e7os e charutos aos p\u00e9s de algum bandarilheiro c\u00e9lebre; pode ser&#8230;<\/p>\n<p>Por hora, n\u00e3o estou entre os inconsol\u00e1veis admiradores do Pontes que l\u00e1 se vai, mar em fora. Perd\u00e3o, do artista Pontes. Sejamos do nosso s\u00e9culo e da nossa l\u00edngua. No tempo em que uma v\u00e3 teoria regulava as coisas do esp\u00edrito, estes nomes de artista e de arte tinham restrito emprego: exprimiam certa aplica\u00e7\u00e3o de certas faculdades. Mas as l\u00ednguas e os costumes modificam-se com as institui\u00e7\u00f5es. Num reg\u00edmen menos exclusivo, essencialmente democr\u00e1tico, a arte teve de vulgarizar-se: \u00e9 a subdivis\u00e3o da moeda de Licurgo. Cada um possui com que beber um trago. Da\u00ed vem que farpear um touro ou esculpir o Mois\u00e9s \u00e9 o mesmo fato intelectual: s\u00f3 difere a mat\u00e9ria e o instrumento. Intrinsecamente, \u00e9 a mesma coisa. Tempo vir\u00e1 em que um artista nos sirva a sopa de legumes, e outro artista nos leve, em t\u00edlburi, \u00e0 f\u00e1brica do g\u00e1s.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>Nesse tempo n\u00e3o viver\u00e1, decerto, um pobre velho que veio ontem lan\u00e7ar-se a meus p\u00e9s. Mandei-o levantar, consolei-o, dei-lhes alguma coisa &#8211; um n\u00edquel &#8211; e ofereci-lhe o meu valimento, se dele necessitasse.<\/p>\n<p>&#8211; Agrade\u00e7o os bons desejos, disse ele; mas todos os esfor\u00e7os ser\u00e3o in\u00fateis. Minha desgra\u00e7a n\u00e3o tem rem\u00e9dio. Um b\u00e1rbaro ministro reduziu-me a este estado, sem aten\u00e7\u00e3o aos meus servi\u00e7os, sem reparar que sou pai de fam\u00edlia e votante circunspecto; e se o fez sem escr\u00fapulo, \u00e9 porque o fez sem nenhuma veleidade de emendar a m\u00e3o. Arrancou-me o p\u00e3o, o arrimo, o pec\u00falio de meus netos, enfim, matou-me. Saiba que sou o arsenal de marinha. O ministro tirou-me as bandeiras, sob pretexto de que eu exigia um pre\u00e7o excessivamente elevado, como se a bandeira da na\u00e7\u00e3o, esse estandarte glorioso que os nossos bravos fincaram em Humait\u00e1, pudesse decentemente custar 7$804, ainda sendo de dois panos! Era caro o meu pre\u00e7o, \u00e9 poss\u00edvel; mas o pundonor nacional, n\u00e3o vale alguma coisa o pundonor nacional? O ministro n\u00e3o atendeu a essa grave raz\u00e3o, n\u00e3o atendeu ao decoro p\u00fablico. Tirou-me as bandeiras. N\u00e3o tente nada, em meu favor, que perde o tempo; deixe-me entregue \u00e0 minha desgra\u00e7a. Esta na\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem ideal, meu senhor; n\u00e3o tem coisa nenhuma. O pend\u00e3o auriverde, o nobre pend\u00e3o, custa menos do que um chap\u00e9u-de-sol, menos do que uma d\u00fazia de len\u00e7os de tabaco; sete mil e tanto: \u00e9 o opr\u00f3brio dos opr\u00f3brios.<\/p>\n<p>N\u00e3o menor opr\u00f3brio para a ci\u00eancia foi a pris\u00e3o de Miroli e Locatelli. Descanse a leitora; n\u00e3o se trata de nenhum tenor nem soprano, subtra\u00eddo \u00e0s futuras del\u00edcias da fashion. N\u00e3o se trata de dois can\u00e1rios; trata-se de dois melros.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 melro quem quer. O primeiro daqueles merece dois dedos de admira\u00e7\u00e3o. Sucessivamente m\u00e9dico, domador de feras, volantim, mestre de dan\u00e7a, e ultimamente adivinho, n\u00e3o se pode dizer que seja homem vulgar; \u00e9 um fura-vidas, que se atira \u00e0 strugh for life com unhas e dentes, sobretudo com unhas. De unhas dadas com a dama Locatelli, fundou uma Delfos na Rua do Esp\u00edrito Santo, e entrou a predizer as coisas futuras, a descobrir as coisas perdidas, e a farejar as coisas vedadas. O processo era o sonambulismo ou o espiritismo. Os cr\u00e9dulos, que j\u00e1 no tempo da Escritura eram a maioria do g\u00eanero humano, acudiram \u00e0s li\u00e7\u00f5es de t\u00e3o ilustre par, at\u00e9 que a pol\u00edcia o convidou a ir meditar nos destinos de Galileu e outras v\u00edtimas da autoridade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Pior que tudo \u00e9 que, se a pol\u00edcia os castiga neste mundo, o demo os castigar\u00e1 no outro; e aqui chamo eu a aten\u00e7\u00e3o do leitor para a estrita realidade da poesia. O famoso casal ficou neste mundo de cara \u00e0 banda, como h\u00e1 de ficar no outro, segundo a vers\u00e3o dantesca; l\u00e1 aos adivinhos como Miroli, torcem o nariz para tr\u00e1s, e os olhos choram-lhes pelas costas:<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;.. che&#8217;l pianto degli occhi<br \/>\nLe natiche bagnava per lo ferro.<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p>Anuncia-se um congresso agr\u00edcola, um congresso oficial, presidido pelo Ministro da Agricultura, reuni\u00e3o que n\u00e3o tratar\u00e1 de coron\u00e9is, nem de elei\u00e7\u00f5es, mas de lavoura, de m\u00e1quinas e de bra\u00e7os. A cr\u00f4nica menciona o fato com prazer; e atreve-se a manifestar o desejo de que seja imitado em an\u00e1logas circunst\u00e2ncias. A administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o perde nunca, antes ganha, quando entra em contacto com as for\u00e7as vivas da na\u00e7\u00e3o, ouvir diretamente uma classe \u00e9 o melhor caminho para conhecer as necessidades dela e prov\u00ea-la de modo \u00fatil.<\/p>\n<p>S\u00f3 poderia haver um receio \u00e9 que os interessados n\u00e3o acudissem todos ao convite. Mas al\u00e9m de ser gratuito supor que o doente se esquive a narrar o mal, podemos contar com o elemento paulista, que h\u00e1 de ser talvez o mais numeroso. N\u00e3o \u00e9 menos importante a lavoura fluminense, nem a das outras prov\u00edncias convocadas; mas os homens que as dirigem s\u00e3o mais sedent\u00e1rios; falta-lhes um pouco de atividade bandeirante. Agora, por\u00e9m, corre-lhes o dever de se desmentirem a si pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Venhamos \u00e0 pol\u00edtica pr\u00e1tica, \u00fatil, progressiva; metamos na alcofa os trechos de ret\u00f3rica, as frases-feitas, todos os fard\u00f5es da grande gala eleitoral. N\u00e3o digo que os queimemos, demo-lhes somente algum descanso. Encaremos os problemas que nos cercam e pedem solu\u00e7\u00e3o. Liberais e conservadores de Campinas, de Araruama, de Juiz de Fora, batei-vos nas elei\u00e7\u00f5es de agosto com ardor, com tenacidade; mas por alguns dias, ao menos, lembrai-vos que sois lavradores, isto \u00e9, colaboradores de uma natureza forte, imparcial e c\u00e9ptica.<\/p>\n<h2>[15]<\/h2>\n<h2>[7 julho]<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p>HOJE \u00c9 DIA de festa c\u00e1 em casa, recebo Luculo \u00e0 minha mesa. Como o jantar do costume \u00e9 r\u00fastico e parco, sem os requintes do gosto nem a abund\u00e2ncia da gula, entendi que, por melhor agasalhar o h\u00f3spede, devia imitar o avaro de uma velha farsa portuguesa: mandar deitar ao caldeir\u00e3o &#8220;mais uns cinco r\u00e9is de espinafres&#8221;. Noutros termos, enfunar um pouco o estilo. N\u00e3o foi preciso; Luculo traz consigo os fais\u00f5es, os tordos, os figos, os licores, e as finas toalhas, e os vasos murrinos, o luxo todo, em suma, de um homem de gosto e de dinheiro.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso que tenho diante de mim o relat\u00f3rio do diretor das escolas normais de uma das nossas prov\u00edncias, cujo nome, ali\u00e1s, n\u00e3o digo, por n\u00e3o ofender a mod\u00e9stia daquele cavalheiro. N\u00e3o havia nada que saborear num relat\u00f3rio, se o de que trato fosse parecido com os outros, seus anteriores e contempor\u00e2neos. Mas n\u00e3o; o distinto funcion\u00e1rio entendeu, e entendeu muito bem, que lhe cumpria temperar o estilo oficial com algumas especiarias liter\u00e1rias. Na verdade, o estilo oficial ou administrativo \u00e9 pesado e seco, e o tipo geral dos relat\u00f3rios poder\u00edamos figur\u00e1-lo bem em um sujeito pautado, gravata de sete voltas, casac\u00e3o at\u00e9 os p\u00e9s, bota inglesa, sobra\u00e7ando um guarda-chuva de fam\u00edlia. N\u00e3o foi esse o modelo do diretor das escolas normais. Escritor ameno, imaginoso, erudito, deu um pouco mais de vida ao tipo cl\u00e1ssico, atou-lhe ao pesco\u00e7o um len\u00e7o azul, trocou-lhe o casac\u00e3o em fraque, substituiu-lhe o guarda-chuva por uma bengala de Petr\u00f3polis. Ao peito p\u00f4s-lhe uma rosa fresca. Talvez n\u00e3o agrade tanto aos p\u00e9s-de-boi da administra\u00e7\u00e3o: n\u00e3o faltar\u00e1 quem lhe ache um ar pelintra, nos ademanes de petit crev\u00e9. \u00c9 natural, e at\u00e9 necess\u00e1rio. Nenhuma reforma se fez \u00fatil e definitiva sem padecer primeiro as resist\u00eancias da tradi\u00e7\u00e3o, a coliga\u00e7\u00e3o da rotina, da pregui\u00e7a e da incapacidade. \u00c9 o batismo das boas id\u00e9ias; \u00e9 ao mesmo tempo o seu purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Isto dito, intercalarei nesta cr\u00f4nica de hoje algumas boas amostras do documento de que trato, impresso com outros submetidos ao presidente, e para em tudo conservar o estilo figurado das primeiras linhas, e porque o folhetim requer um ar brinc\u00e3o e galhofeiro, ainda tratando de coisas s\u00e9rias, darei a cada uma de tais amostras o nome de um prato fino e especial, &#8211; um extra, como dizem as listas dos restaurants.<\/p>\n<p>Sirvamos o primeiro prato.<\/p>\n<h2>L\u00cdNGUAS DE ROUXINOL<\/h2>\n<p>Vassalo das normas legais e regulamentares, tenho a honra de vir, tirando for\u00e7as da minha fraqueza, cumprir esse meu embargoso dever, depondo nas amestradas m\u00e3os de V. Ex.a, pelo ilustre ve\u00edculo, que me \u00e9 prescrito (a laureada diretoria de instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica), o fruto desenvolvido das emendas do meu secret\u00e1rio, esse tributo obediencial, que compete a V. Ex.a .<br \/>\n&#8230; assim, pois, com a paci\u00eancia com que a miseric\u00f3rdia s\u00f3i acompanhar a justi\u00e7a, em sua marcha salutar , espero V.Ex.a, para compreender-me, me siga pelos andurriais por onde, perdido de monte em monte, serei for\u00e7ado a peregrinar.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 patina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 corridas de cavalos, n\u00e3o h\u00e1 nada que nestes dias possa dominar o sucesso m\u00e1ximo, o sujeito que em Caravelas, na Bahia, deu \u00e0 luz uma crian\u00e7a. Quando eu era pequeno, ouvia dizer que o galo, chegando \u00e0 velhice, punha ovos, como as galinhas; n\u00e3o o averig\u00fcei mais tarde, mas j\u00e1 agora devo crer que o conto n\u00e3o era da carocha, sen\u00e3o pura e real verdade.<\/p>\n<p>O sujeito de Caravelas \u00e9 um quadragen\u00e1rio, que tinha cor de icter\u00edcia, e padecia h\u00e1 muito uma forte opress\u00e3o no peito. Ultimamente, di-lo o m\u00e9dico, sentiu uma dor agud\u00edssima na regi\u00e3o precordial, movimentos desordenados do cora\u00e7\u00e3o, dispn\u00e9ia, forte edemacia em todo o lado esquerdo. Entrou em uso de rem\u00e9dios, at\u00e9 que, com geral surpresa, trouxe a este vale de l\u00e1grimas uma crian\u00e7a, que n\u00e3o era exatamente uma crian\u00e7a, porque eram as t\u00edbias, as omoplatas, as costelas, os f\u00eamures, trechos soltos da infeliz criatura, que n\u00e3o chegou a viver.<\/p>\n<p>A mitologia deu-nos um Baco meio gerado na coxa de J\u00fapiter; e da cabe\u00e7a deste fez nascer Minerva armada. Eram f\u00e1bulas naquele tempo; hoje devemos t\u00ea-las por simples realidade, e, quando menos, um pren\u00fancio do nosso patr\u00edcio. Assim o creio e proclamo. E porque n\u00e3o suponho que o caso de Caravelas deve ser o \u00fanico, acontece-me que n\u00e3o posso ver agora nenhum amigo, opresso e p\u00e1lido, sem supor que me vai cair nos bra\u00e7os, a bradar com um grito angustioso: &#8220;Eleazar, sou m\u00e3e!&#8221;. Esta palavra retine-me aos ouvidos, e gela-me a alma&#8230; imaginem o que ser\u00e1 de n\u00f3s, se tivermos de dar \u00e0 luz os nossos livros e os nossos pequenos; gerar herdeiros e conspira\u00e7\u00f5es;conceber um plano de campanha e Bonaparte.<\/p>\n<p>Imaginem&#8230;<\/p>\n<h2>COXINHAS DE ROLA<\/h2>\n<p>Digitus Dei. As feridas abertas em minha alma precisavam do doce lenitivo desse b\u00e1lsamo metaf\u00edsico, superior em propriedades aglutinadoras aos mais afamados de Fioravanti.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Dize-me se patinas, dir-te-ei quem \u00e9s. Tal ser\u00e1 dentro de pouco tempo o mote da suprema eleg\u00e2ncia. As corridas de cavalos correriam o risco de ficar por baixo, e at\u00e9 perecer de todo, se n\u00e3o fora a poule, tempero acomodado ao homem em geral, e ao fluminense em particular. Digo fluminense, porque essa variedade do g\u00eanero humano \u00e9 educada especialmente entre a loteria e as sortes de S. Jo\u00e3o: e a poule d\u00e1 as como\u00e7\u00f5es de ambas as coisas, com o acr\u00e9scimo de fazer com que um homem ponha toda a alma nas unhas do cavalo. N\u00e3o \u00e9 nas unhas do cavalo que havemos de p\u00f4-la quando formos ao Skating-rink, mas nas pr\u00f3prias unhas, ou melhor dito, nos patins que as substituem. No Prado Fluminense a gente faz correr o seu dinheiro nas ancas do quadr\u00fapede, e por mais que se identifique com este, o amor-pr\u00f3prio s\u00f3 pode receber alguns arranh\u00f5es, mais ou menos leves. Na patina\u00e7\u00e3o, a queda or\u00e7a pelo rid\u00edculo, e cada sorriso equivale a uma surriada. Sem contar que n\u00e3o se arrisca somente o amor-pr\u00f3prio, mas tamb\u00e9m o p\u00ealo, que n\u00e3o \u00e9 menos pr\u00f3prio, nem menos digno do nosso amor.<\/p>\n<p>E da\u00ed, n\u00e3o sei por que n\u00e3o se h\u00e1 de introduzir a poule na patina\u00e7\u00e3o. \u00c9 um travozinho de pimenta. Aposta-se no vestido azul e no chap\u00e9u de escumilha, e perde o \u00faltimo que chegar ou o primeiro que cair. Ser\u00e1 mais um campo de rivalidade entre os vestidos e os chap\u00e9us&#8230; os chap\u00e9us de escumilha, entenda-se.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 Em\u00edlia Rosa&#8230; Interrompamo-nos; chega outro pratinho.<\/p>\n<h2>PEITO DE PERDIZ \u00c0 MILANESA<\/h2>\n<p>N\u00e3o passarei adiante , sem lembrar a V . Ex.a . a que a nova organiza\u00e7\u00e3o dada ao curso pelo \u00faltimo dos regulamentos, tendo feito passar disciplinas do 2o para o 1o ano, e vice-versa, obrigou os normalistas que iam concluir seu tiroc\u00ednio a freq\u00fcentarem em comum com os que o come\u00e7avam, as aulas dessas disciplinas transplantadas, fazendo destarte o que em linguagem coreogr\u00e1fica se chama laisser croiser.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>Em\u00edlia Rosa \u00e9 uma senhora, vinda da Europa, com a nota secreta de que trazia um contrabando de notas falsas. Rien n&#8217;est sacr\u00e9 pour un sapeur; nem as malas do belo sexo, nem as algibeiras, nem as ligas. A pol\u00edcia, com a den\u00fancia em m\u00e3o, tratou de examinar o caso. Desconfiar com mulheres! O Tolentino contou o caso de uma que dissimulou um colch\u00e3o no toucador. Onde entra um colch\u00e3o, podem entrar vinte, trinta, cinq\u00fcenta contos. A pol\u00edcia esmiu\u00e7ou o neg\u00f3cio como p\u00f4de e lhe cumpria, esteve a ponto de fazer cantar a passageira, a ver se lhe encontrava as notas falsas na garganta. Afinal, a den\u00fancia das notas era t\u00e3o verdadeira como a not\u00edcia das cabe\u00e7as a pr\u00eamio, em Maca\u00fabas, onde parece que apenas h\u00e1 um mote a pr\u00eamio, e nada mais: o mote eleitoral.<\/p>\n<p>Trata-se, n\u00e3o de notas falsas, mas de salames verdadeiros, ou quaisquer outros comest\u00edveis, que a passageira trazia efetivamente por contrabando. A diferen\u00e7a entre um paio e um bilhete do banco \u00e9 enorme, posto que \u00e0s vezes os bilhetes do banco andem nas algibeiras dos &#8220;paios&#8221;, donde passam para o toucador das senhoritas. Valha-nos isso; podemos dormir confiados na honestidade das nossas carteiras.<\/p>\n<p>Isto de notas falsas, libras falsas, e letras falsas, creio que tudo vai entroncar-se numa palavra de Guizot: Enriquecei! palavra sinistra, se n\u00e3o \u00e9 acompanhada de alguma coisa que a tempere. Enriquecer \u00e9 bom; mas h\u00e1 de ser a passo de boi, quando muito a passo de carro\u00e7a d&#8217;\u00e1gua. N\u00e3o \u00e9 esse o desejo das impaci\u00eancias, que nos d\u00e3o libras de metal amarelo; o passo que as seduz \u00e9 o dos cavalos do Prado,- o da Mobilis\u00e9e, que se esfalfa para chegar a raia. Vejam o Secret, seu astuto competidor. Esse deixa-se ficar; n\u00e3o se fatiga, \u00e0 toa, imagem do ambicioso de boa t\u00eampera, que sabe esperar. Talvez por isso o desligaram da Mobilis\u00e9e, nas corridas de hoje. Esta radical n\u00e3o quer emparelhar com aquele oportunista.<\/p>\n<p>Sinto um cheiro delicioso&#8230;<\/p>\n<h2>FAIS\u00c3O ASSADO<\/h2>\n<p>Declaro a V. Ex.a algum tanto aflato de amor-pr\u00f3prio, que nenhum fato agraz perturbou durante o ano letivo a disciplina e boa ordem dos dois estabelecimentos a meu cargo. Diretor, professores, alunos e porteiros, todos souberam respeitar-se mutuamente. V. Ex.a n\u00e3o ignora que o respeito \u00e9 a base da amizade.<\/p>\n<p>Como C\u00edcero, sou um dos mais ardentes apologistas da lei natural, da eq\u00fcidade; como ele, entendo que a lei \u00e9 a equidade;- a raz\u00e3o suprema gravada em nossa natureza, inscrita em todos os cora\u00e7\u00f5es, imut\u00e1vel, eterna, cuja voz nos tra\u00e7a nossos deveres, de que o Senado n\u00e3o nos pode desligar, e cujo imp\u00e9rio se estende a todos os povos; lei que s\u00f3 Deus concebera, discutira e publicara.<\/p>\n<p>Partindo deste cantinho das minhas cren\u00e7as, proponho a V. Ex.a que fa\u00e7a submeter o Sr. professor do 1.o ano a exame de uma junta m\u00e9dica&#8230;<\/p>\n<p>Se achares tr\u00eas mil-r\u00e9is, leva-os \u00e0 pol\u00edcia; se achares tr\u00eas contos, leva-os a um banco. Esta m\u00e1xima, que eu dou de gra\u00e7a ao leitor, n\u00e3o \u00e9 a do cavalheiro, que nesta semana restituiu fielmente dois contos e setecentos mil-r\u00e9is \u00e0 Caixa da Amortiza\u00e7\u00e3o; fato comezinho e sem valor, se viv\u00eassemos antes do dil\u00favio, mas digno de nota desde que o dil\u00favio j\u00e1 l\u00e1 vai. N\u00e3o menos digno de nota \u00e9 o caso do homem que, depois de subtrair uma salva de prata , foi restitu\u00ed-lo ao ourives , seu dono. Direi at\u00e9 que este fica mais perto do c\u00e9u do que o primeiro, se \u00e9 certo que h\u00e1 l\u00e1 mais alegria por um arrependimento do que por um imaculado.<\/p>\n<p>Fa\u00e7am de conta que este \u00faltimo rasgo de virtude s\u00e3o uns \u00f3culos de cor azul para melhor encararmos a trag\u00e9dia dos Viriatos. H\u00e3o de ter lido que esses malfeitores entrincheiraram-se em uma vila cearense, aonde o governo foi obrigado a mandar uma for\u00e7a de 240 pra\u00e7as de linha, que a investiram \u00e0 escala vista; muito fogo, mortos, feridos; pris\u00e3o de alguns, fuga dos restantes. H\u00e1 revolu\u00e7\u00f5es na Bol\u00edvia que n\u00e3o apresentam maior n\u00famero de gente em campo; digo de gente, sem me referir aos generais. Pobre Cear\u00e1! Al\u00e9m da seca os ladr\u00f5es de estrada.<\/p>\n<p>Est\u00e1-me a cair da pena um ros\u00e1rio de reflex\u00f5es acerca da generalidade e da coronelite, dois fen\u00f4menos de uma terr\u00edvel castelhana; mas iria longe&#8230;<\/p>\n<p>Prefiro servir-lhes uns pastelinhos.<\/p>\n<h2>PASTELINHOS<\/h2>\n<p>A hipocrisia n\u00e3o tem um leito de flores no rega\u00e7o da minha alma.<\/p>\n<p>Sempre as finan\u00e7as da prov\u00edncia!&#8230; eterno clar\u00e3o das almas timoratas!<\/p>\n<p>As finan\u00e7as e sempre as finan\u00e7as, esse hipogrifo que&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; preferir\u00e1 ver lacradas as portas das escolas prim\u00e1rias a ver sentados nas espinhosas cadeiras do magist\u00e9rio indiv\u00edduos cujos cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram cuidadosamente arroteados, antes de lhes acenderem almenaras em suas cabe\u00e7as<\/p>\n<p>&#8230;o mestre, esse grande Davi da lira ps\u00edquica da infancia&#8230;<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p>Parece que o Primo Bas\u00edlio, transportado ao teatro, n\u00e3o correspondeu ao que legitimamente se esperava do sucesso do livro e do talento do Sr. Dr. Cardoso de Meneses. Era visto: em primeiro lugar, porque em geral as obras, geradas originalmente sob uma forma, dificilmente toleram outra; depois, porque as qualidades do livro do Sr. E\u00e7a de Queir\u00f3s e do talento deste, ali\u00e1s fortes, s\u00e3o as mais avessas ao teatro. O robusto Balzac, com quem se h\u00e1 comparado o Sr. E\u00e7a de Queir\u00f3s, fez m\u00e1 figura no teatro, onde apenas se salvar\u00e1 o Mercadet; ningu\u00e9m que conhe\u00e7a mediocremente a hist\u00f3ria liter\u00e1ria do nosso tempo, ignora o monumental desastre de Quinola.<\/p>\n<p>Se o mau \u00eaxito c\u00eanico do Primo Basilio nada prova contra o livro e o autor do drama, \u00e9 positivo tamb\u00e9m que nada prova contra a escola realista e seus sect\u00e1rios. N\u00e3o h\u00e1 motivo para tristezas nem desapontamentos; a obra original fica isenta do efeito teatral; e os realistas podem continuar na doce convic\u00e7\u00e3o de que a \u00faltima palavra da est\u00e9tica \u00e9 suprimi-la. Outra convic\u00e7\u00e3o, igualmente doce, \u00e9 que todo o movimento liter\u00e1rio do mundo est\u00e1 contido nos nossos livros; da\u00ed resulta a forte persuas\u00e3o em que se acham de que o realismo triunfa no universo inteiro; e que toda a gente jura por Zola e Baudelaire. Este \u00faltimo nome \u00e9 um dos feiti\u00e7os da nova e nossa igreja; e, entretanto,sem desconhecer o belo talento do poeta, ningu\u00e9m em Fran\u00e7a o colocou ao p\u00e9 dos grandes poetas; e toda a gente continua a deliciar-se nas estrofes de Musset, e a preferir L&#8217;Espoir en Dieu a Charogne. Caprichos de gente velha.<\/p>\n<h2>COMPOTA DE MARMELOS<\/h2>\n<p>Era assim preciso; os recursos do regulamento isolavam, n\u00e3o atra\u00edam. Mais tarde, entendo-me particularmente com os deputados, deram-me eles duas pequenas ma\u00e7anetas para embutir nas portas das escolas; o \u00a7 8.o do art. 1.o da resolu\u00e7\u00e3o n.o 1.079, e o \u00a7 8.o do referido artigo.<\/p>\n<p>&#8230; a institui\u00e7\u00e3o que, devidamente reparada da terr\u00edvel exaust\u00e3o da vida que tem sofrido desde o seu primeiro instante, pode se dizer sem medo de errar, \u00e9 o pal\u00e1cio da grandeza moral e da opul\u00eancia material da pequena prov\u00edncia que, em face do velho Atl\u00e2ntico, embriagada de perfumes, circundada de luzes, ergue para Deus, donde h\u00e1 de vir sua prosperidade, os olhos prenhes de esperan\u00e7a.<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p>Re\u00fane-se amanh\u00e3 o congresso agr\u00edcola; e folgo de crer que dar\u00e1 resultados \u00fateis e pr\u00e1ticos. Conhecida a nossa \u00edndole caseira, a tal ou qual in\u00e9rcia de esp\u00edrito, que \u00e9 menos um fen\u00f4meno da ra\u00e7a, que da idade social, a aflu\u00eancia dos lavradores parece exceder \u00e0 expecta\u00e7\u00e3o. A obra ser\u00e1 completa, se todos puserem ombros \u00e0 empresa comurn.<\/p>\n<h2>BRINDE FINAL<\/h2>\n<p>Aqui tenho a honra de concluir, fazendo votos para que, afei\u00e7oando as id\u00e9ias que, n\u00e3o edulcoradas para perderem o ress\u00e1bio da origem, a\u00ed ficam mal expostas, digne-se tirar-lhes os \u00e1cidos&#8230;<\/p>\n<h2>VIII<\/h2>\n<p>Mas eu seria injusto, se n\u00e3o fechasse estas linhas notando um ato benem\u00e9rito do digno diretor, que o confessa no relat\u00f3rio, tem auxiliado com dinheiro seu a matr\u00edcula de estudantes. V\u00ea-se que \u00e9 um entusiasta da pedagogia; e, se lhe recusarem o estilo, n\u00e3o lhe d\u00e3o de recusar a dedica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muitos estilos para relatar; h\u00e1 s\u00f3 um para merecer.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis 1878 [13] [2 junho] H\u00c1 HERAN\u00c7AS onerosas. ELEAZAR substituiu SIC, cuja pena, ali\u00e1s, lhe n\u00e3o deram, e conseguintemente n\u00e3o lhe deram os lavores de estilo, a gra\u00e7a \u00e1tica, e aquele pico e sabor, que s\u00e3o a alma da cr\u00f4nica. 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