{"id":119809,"date":"2017-04-17T19:33:21","date_gmt":"2017-04-17T21:33:21","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=119809"},"modified":"2017-04-17T19:33:21","modified_gmt":"2017-04-17T21:33:21","slug":"missa-do-galo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/missa-do-galo","title":{"rendered":"Missa do Galo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Nunca pude entender a conversa\u00e7\u00e3o que tive com uma senhora, h\u00e1 muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos \u00e0 missa do galo, preferi n\u00e3o dormir; combinei que eu iria acord\u00e1-lo \u00e0 meia-noite.<\/p>\n<p>A casa em que eu estava hospedado era a do escriv\u00e3o Meneses, que fora casado, em primeiras n\u00fapcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Concei\u00e7\u00e3o, e a m\u00e3e desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparat\u00f3rios. Vivia tranq\u00fcilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas rela\u00e7\u00f5es, alguns passeios. A fam\u00edlia era pequena, o escriv\u00e3o, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. \u00c0s dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; \u00e0s dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasi\u00f5es, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam \u00e0 socapa; ele n\u00e3o respondia, vestia-se, sa\u00eda e s\u00f3 tornava na manh\u00e3 seguinte. Mais tarde \u00e9 que eu soube que o teatro era um eufemismo em a\u00e7\u00e3o. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Concei\u00e7\u00e3o padecera, a princ\u00edpio, com a exist\u00eancia da combor\u00e7a; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.<\/p>\n<p>Boa Concei\u00e7\u00e3o! Chamavam-lhe &#8220;a santa&#8221;, e fazia jus ao t\u00edtulo, t\u00e3o facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes l\u00e1grimas, nem grandes risos. No cap\u00edtulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um har\u00e9m, com as apar\u00eancias salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O pr\u00f3prio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simp\u00e1tica. N\u00e3o dizia mal de ningu\u00e9m, perdoava tudo. N\u00e3o sabia odiar; pode ser at\u00e9 que n\u00e3o soubesse amar.<\/p>\n<p>Naquela noite de Natal foi o escriv\u00e3o ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu j\u00e1 devia estar em Mangaratiba, em f\u00e9rias; mas fiquei at\u00e9 o Natal para ver &#8220;a missa do galo na Corte&#8221;. A fam\u00edlia recolheu-se \u00e0 hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ningu\u00e9m. Tinha tr\u00eas chaves a porta; uma estava com o escriv\u00e3o, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Sr. Nogueira, que far\u00e1 voc\u00ea todo esse tempo? perguntou-me a m\u00e3e de Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Leio, D. In\u00e1cia.<\/p>\n<p>Tinha comigo um romance, os Tr\u00eas Mosqueteiros, velha tradu\u00e7\u00e3o creio do Jornal do Com\u00e9rcio. Sentei-me \u00e0 mesa que havia no centro da sala, e \u00e0 luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D\u2019Artagnan e fui-me \u00e0s aventuras. Dentro em pouco estava completamente \u00e9brio de Dumas. Os minutos voavam, ao contr\u00e1rio do que costumam fazer, quando s\u00e3o de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas \u00e0 de jantar; levantei a cabe\u00e7a; logo depois vi assomar \u00e0 porta da sala o vulto de Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o foi? Perguntou ela.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fui; parece que ainda n\u00e3o \u00e9 meia-noite.<\/p>\n<p>&#8211; Que paci\u00eancia!<\/p>\n<p>Concei\u00e7\u00e3o entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roup\u00e3o branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de vis\u00e3o rom\u00e2ntica, n\u00e3o disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canap\u00e9. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! qual! Acordei por acordar.<\/p>\n<p>Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos n\u00e3o eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam n\u00e3o ter ainda pegado no sono. Essa observa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, que valeria alguma coisa em outro esp\u00edrito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez n\u00e3o dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me n\u00e3o afligir ou aborrecer. J\u00e1 disse que ela era boa, muito boa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a hora j\u00e1 h\u00e1 de estar pr\u00f3xima, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211; Que paci\u00eancia a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! N\u00e3o tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.<\/p>\n<p>&#8211; Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que estava lendo? N\u00e3o diga, j\u00e1 sei, \u00e9 o romance dos Mosqueteiros.<\/p>\n<p>&#8211; Justamente: \u00e9 muito bonito.<\/p>\n<p>&#8211; Gosta de romances?<\/p>\n<p>&#8211; Gosto.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 leu a Moreninha?<\/p>\n<p>&#8211; Do Dr. Macedo? Tenho l\u00e1 em Mangaratiba.<\/p>\n<p>&#8211; Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances \u00e9 que voc\u00ea tem lido?<\/p>\n<p>Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Concei\u00e7\u00e3o ouvia-me com a cabe\u00e7a reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as p\u00e1lpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a l\u00edngua pelos bei\u00e7os, para umedec\u00ea-los. Quando acabei de falar, n\u00e3o me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabe\u00e7a, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos bra\u00e7os da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez esteja aborrecida, pensei eu.<\/p>\n<p>E logo alto:<\/p>\n<p>&#8211; D. Concei\u00e7\u00e3o, creio que v\u00e3o sendo horas, e eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, ainda \u00e9 cedo. Vi agora mesmo o rel\u00f3gio; s\u00e3o onze e meia. Tem tempo. Voc\u00ea, perdendo a noite, \u00e9 capaz de n\u00e3o dormir de dia?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 tenho feito isso.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, n\u00e3o; perdendo uma noite, no outro dia estou que n\u00e3o posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas tamb\u00e9m estou ficando velha.<\/p>\n<p>&#8211; Que velha o qu\u00ea, D. Concei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranq\u00fcilas; agora, por\u00e9m, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impress\u00e3o singular. Magra embora, tinha n\u00e3o sei que balan\u00e7o no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa fei\u00e7\u00e3o nunca me pareceu t\u00e3o distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posi\u00e7\u00e3o de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o c\u00edrculo das suas id\u00e9ias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto \u00e9, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e n\u00e3o queria perd\u00ea-la.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a mesma missa da ro\u00e7a; todas as missas se parecem.<\/p>\n<p>&#8211; Acredito; mas aqui h\u00e1 de haver mais luxo e mais gente tamb\u00e9m. Olhe, a semana santa na Corte \u00e9 mais bonita que na ro\u00e7a. S\u00e3o Jo\u00e3o n\u00e3o digo, nem Santo Ant\u00f4nio&#8230;<\/p>\n<p>Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no m\u00e1rmore da mesa e metera o rosto entre as m\u00e3os espalmadas. N\u00e3o estando abotoadas, as mangas, ca\u00edram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos bra\u00e7os, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista n\u00e3o era nova para mim, posto tamb\u00e9m n\u00e3o fosse comum; naquele momento, por\u00e9m, a impress\u00e3o que tive foi grande. As veias eram t\u00e3o azuis, que apesar da pouca claridade, podia cont\u00e1-las do meu lugar. A presen\u00e7a de Concei\u00e7\u00e3o espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da ro\u00e7a e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo \u00e0 boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por qu\u00ea, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para faz\u00ea-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela n\u00e3o eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:<\/p>\n<p>&#8211; Mais baixo! Mam\u00e3e pode acordar.<\/p>\n<p>E n\u00e3o sa\u00eda daquela posi\u00e7\u00e3o, que me enchia de gosto, t\u00e3o perto ficavam as nossas caras. Realmente, n\u00e3o era preciso falar alto para ser ouvido; cochich\u00e1vamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, \u00e0s vezes, ficava s\u00e9ria, muito s\u00e9ria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta \u00e0 mesa e veio sentar-se do meu lado, no canap\u00e9. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi s\u00f3 o tempo que ela gastou em sentar-se, o roup\u00e3o era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Concei\u00e7\u00e3o disse baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e est\u00e1 longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, t\u00e3o cedo n\u00e3o pegava no sono.<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m sou assim.<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.<\/p>\n<p>Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canap\u00e9 e repeti a palavra. Riu-se da coincid\u00eancia; tamb\u00e9m ela tinha o sono leve; \u00e9ramos tr\u00eas sonos leves.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 ocasi\u00f5es em que sou como mam\u00e3e: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, \u00e0 toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o que lhe aconteceu hoje.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, atalhou ela.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi a negativa; ela pode ser que tamb\u00e9m n\u00e3o a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto \u00e9, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma hist\u00f3ria de sonhos, e afirmou-me que s\u00f3 tivera um pesadelo, em crian\u00e7a. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narra\u00e7\u00e3o ou uma explica\u00e7\u00e3o, ela inventava outra pergunta ou outra mat\u00e9ria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:<\/p>\n<p>&#8211; Mais baixo, mais baixo&#8230;<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, n\u00e3o sei se apressada ou vagarosamente. H\u00e1 impress\u00f5es dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas \u00e9 que, em certa ocasi\u00e3o, ela, que era apenas simp\u00e1tica, ficou linda, ficou lind\u00edssima. Estava de p\u00e9, os bra\u00e7os cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; n\u00e3o consentiu, p\u00f4s uma das m\u00e3os no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canap\u00e9, falou de duas gravuras que pendiam da parede.<\/p>\n<p>&#8211; Estes quadros est\u00e3o ficando velhos. J\u00e1 pedi a Chiquinho para comprar outros.<\/p>\n<p>Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal neg\u00f3cio deste homem. Um representava &#8220;Cle\u00f3patra&#8221;; n\u00e3o me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo n\u00e3o me pareciam feios.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o bonitos, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211; Bonitos s\u00e3o; mas est\u00e3o manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas s\u00e3o mais pr\u00f3prias para sala de rapaz ou de barbeiro.<\/p>\n<p>&#8211; De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de mo\u00e7as e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de fam\u00edlia \u00e9 que n\u00e3o acho pr\u00f3prio. \u00c9 o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, n\u00e3o gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, minha madrinha, muito bonita; mas \u00e9 de escultura, n\u00e3o se pode p\u00f4r na parede, nem eu quero. Est\u00e1 no meu orat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia do orat\u00f3rio trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis diz\u00ea-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com do\u00e7ura, com gra\u00e7a, com tal moleza que trazia pregui\u00e7a \u00e0 minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devo\u00e7\u00f5es de menina e mo\u00e7a. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminisc\u00eancias de Paquet\u00e1, tudo de mistura, quase sem interrup\u00e7\u00e3o. Quando cansou do passado, falou do presente, dos neg\u00f3cios da casa, das canseiras de fam\u00edlia, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas n\u00e3o eram nada. N\u00e3o me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora n\u00e3o trocava de lugar, como a princ\u00edpio, e quase n\u00e3o sa\u00edra da mesma atitude. N\u00e3o tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar \u00e0 toa para as paredes.<\/p>\n<p>&#8211; Precisamos mudar o papel da sala, disse da\u00ed a pouco, como se falasse consigo.<\/p>\n<p>Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da esp\u00e9cie de sono magn\u00e9tico, ou o que quer que era que me tolhia a l\u00edngua e os sentidos. Queria e n\u00e3o queria acabar a conversa\u00e7\u00e3o; fazia esfor\u00e7o para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a id\u00e9ia de parecer que era aborrecimento, quando n\u00e3o era, levava-me os olhos outra vez para Concei\u00e7\u00e3o. A conversa ia morrendo. Na rua, o sil\u00eancio era completo.<\/p>\n<p>Chegamos a ficar por algum tempo, &#8211; n\u00e3o posso dizer quanto, &#8211; inteiramente calados. O rumor \u00fanico e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela esp\u00e9cie de sonol\u00eancia; quis falar dele, mas n\u00e3o achei modo. Concei\u00e7\u00e3o parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: &#8220;Missa do galo! missa do galo!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed est\u00e1 o companheiro, disse ela levantando-se. Tem gra\u00e7a; voc\u00ea \u00e9 que ficou de ir acord\u00e1-lo, ele \u00e9 que vem acordar voc\u00ea. V\u00e1, que h\u00e3o de ser horas; adeus.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 ser\u00e3o horas? perguntei.<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente.<\/p>\n<p>&#8211; Missa do galo! repetiram de fora, batendo.<\/p>\n<p>-V\u00e1, v\u00e1, n\u00e3o se fa\u00e7a esperar. A culpa foi minha. Adeus; at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>E com o mesmo balan\u00e7o do corpo, Concei\u00e7\u00e3o enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Sa\u00ed \u00e0 rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Concei\u00e7\u00e3o interp\u00f4s-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto \u00e0 conta dos meus dezessete anos. Na manh\u00e3 seguinte, ao almo\u00e7o, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Concei\u00e7\u00e3o. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversa\u00e7\u00e3o da v\u00e9spera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em mar\u00e7o, o escriv\u00e3o tinha morrido de apoplexia. Concei\u00e7\u00e3o morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: Biblio<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Nunca pude entender a conversa\u00e7\u00e3o que tive com uma senhora, h\u00e1 muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos \u00e0 missa do galo, preferi n\u00e3o dormir; combinei que eu iria acord\u00e1-lo \u00e0 meia-noite. 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