{"id":119622,"date":"2017-04-17T10:22:59","date_gmt":"2017-04-17T12:22:59","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=119622"},"modified":"2017-04-17T10:22:59","modified_gmt":"2017-04-17T12:22:59","slug":"a-grande-estreia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-grande-estreia","title":{"rendered":"A Grande Estr\u00e9ia!"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Valentim Magalh\u00e3es<\/h2>\n<p>Autor!<\/p>\n<p>Ele era autor, finalmente!<\/p>\n<p>Ali estava a sua obra.<\/p>\n<p>&#8211; O meu livro! &#8211; dizia ele dentro em si, com o cora\u00e7\u00e3o boiando em uma onda de j\u00fabilo.<\/p>\n<p>A\u00ed terminaram, por fim, as torturas inenarr\u00e1veis do ineditismo; terminaram as lutas, os labores, as ang\u00fastias inominadas de autor in partibus: o c\u00e9rebro atulhado de livros imortais&#8230; e nenhum na rua!<\/p>\n<p>Vencera!<\/p>\n<p>S\u00f3 ele, o autor, ele somente sabia o valor dessa vit\u00f3ria, porque mais ningu\u00e9m soubera, suspeitara sequer, que soma de esfor\u00e7os e desesperos lhe custara.<\/p>\n<p>Um ano, dois anos a incubar, a fecundar a id\u00e9ia: per\u00edodo da gesta\u00e7\u00e3o, \u00edntimo e ignorado, cheio dos j\u00fabilos da concep\u00e7\u00e3o e dos receios, dos sobressaltos inexplic\u00e1veis ante o futuro:<\/p>\n<p>&#8211; Se eu publicasse um livro?<\/p>\n<p>Depois &#8211; a resolu\u00e7\u00e3o: fase nova, em que a id\u00e9ia vai-se transmudando em fato:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 dito: publico o livro.<\/p>\n<p>\u00c9 dispens\u00e1vel dizer de que g\u00eanero \u00e9 o livro com que estr\u00e9ia este jovem, pois \u00e9 o mesmo com que toda a gente estr\u00e9ia &#8211; aqui, em Portugal, em Fran\u00e7a, em toda parte do mundo.<\/p>\n<p>Diz\u00ea-lo seria ocioso, t\u00e3o ocioso como perguntar a qualquer homem de letras se existe no seu pret\u00e9rito esse pecado universal, que se redime sempre: &#8211; versos.<\/p>\n<p>Quando a um mancebo lembra a id\u00e9ia de fazer um livro, o livro j\u00e1 est\u00e1 feito, e nem ele perde tempo a debater o g\u00eanero da obra.<\/p>\n<p>\u00c9 que a poesia \u00e9 como a puberdade.<\/p>\n<p>Um belo dia a crian\u00e7a deixa-se ficar na cama, adormecida ao lado dos tambores rotos e dos polichinelos estripados, e acorda o homem: um indiv\u00edduo novo, rec\u00e9m-nascido, desconhecido para todos, e ainda mais para si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Entre os muitos fen\u00f4menos novos que desse dia em diante v\u00e3o nele aparecendo, espontaneamente, por vontade do velho legislador &#8211; Natureza, &#8211; h\u00e1 um de que tamb\u00e9m n\u00e3o se apercebe o jovem. Deliciosa inebriez sonambuliza-lhe os atos e o pensamento&#8230;<\/p>\n<p>Mas um dia, por acaso, det\u00e9m-se em caminho para dar &#8220;bom-dia&#8221; ao sol, ou a uma &#8220;doce virgem&#8221; que passa, e, volvendo o olhar atr\u00e1s&#8230; &#8211; \u00f3 surpresa! \u00f3 encanto! &#8211; o caminho, o curto caminho andado est\u00e1 todo semeado, todo florido &#8211; de versos!<\/p>\n<p>&#8211; Sou poeta! exclama nesse instante, como ainda h\u00e1 pouco exclamara:<\/p>\n<p>&#8211; Sou homem!<\/p>\n<p>\u00c9 nesse momento \u00fanico, o mais puramente feliz de toda a exist\u00eancia, que lhe vem a id\u00e9ia da Gl\u00f3ria, do Futuro, do livro, enfim.<\/p>\n<p>Depois, o trabalho \u00e9 apenas de retroceder, e, colhendo as mais belas e cheirosas flores, fazer um ramalhete.<\/p>\n<p>Mas de improviso surge um \u00f3bice, uma dificuldade feia e repentina, como esses fantoches que saltam s\u00fabitos das bocetas de confeitos ao nariz das crian\u00e7as:<\/p>\n<p>&#8211; E a fita para enla\u00e7ar o bouquet?<\/p>\n<p>Ah! o t\u00edtulo para o livro!<\/p>\n<p>Que Adamastor!<\/p>\n<p>Que assunto para epop\u00e9ias!<\/p>\n<p>Quando ter\u00e1s tamb\u00e9m o teu Cam\u00f5es, \u00f3 monstro?<\/p>\n<p>Neste ponto, o azul enubla-se, abismos abrem-se fam\u00e9licos, montanhas pulam diab\u00f3licas ante os passos do poeta.<\/p>\n<p>O des\u00e2nimo invade-o, arrastando consigo para dentro do m\u00edsero &#8211; a d\u00favida, o medo, o desespero.<\/p>\n<p>E o grosso caderno do manuscrito dorme poento ao fundo da gaveta, como um pobre diabo que, na gare de uma linha f\u00e9rrea, adormeceu \u00e0 espera do sinal de partir.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo!<\/p>\n<p>Aqui, h\u00e1 tempos, assisti a uma luta horr\u00edvel, interessant\u00edssima, a \u00fanica que possa fornecer um p\u00e1lido simile da de um futuro autor com os t\u00edtulos: &#8211; a luta com as gravatas.<\/p>\n<p>Foi assim:<\/p>\n<p>Entrou em uma loja, em que eu por acaso me achava, um elegante; e, dirigindo-se ao caixeiro, disse-lhe com voz tr\u00eamula:<\/p>\n<p>&#8211; Desejo uma gravata.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o, senhor; em escancarando-lhe a vasta vitrine, acrescentou o caixeiro:<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a o favor de escolher.<\/p>\n<p>Escolher!<\/p>\n<p>A\u00ed o bus\u00edlis.<\/p>\n<p>O janota ficara-se im\u00f3vel. Estava pasmo: as m\u00e3os sem gestos, os olhos deslumbrados.<\/p>\n<p>Elas eram trezentas, seguramente.<\/p>\n<p>Eram trezentas gravatas: &#8211; pretas, verdes, roxas, brancas, douradas, prateadas, azuis, amarelas, havanas, opalinas, granada, esmeralda, safira, cor-de-caf\u00e9, cor-de-rosa, cor-de-garrafa, cor-de-gema-de-ovo, cor-de-azeitona, cor-de-manteiga, cor-de-leite, cor-de-chocolate, cor-de-creme, cor-de-carne-crua, cor-de-carne-assada, cor-de-vinho &#8211; cor de tudo!<\/p>\n<p>Pintadas, sarapintadas, chamalotadas, de listras, de pingos, de flores, de estrelas, de bichos!<\/p>\n<p>Ah! E as formas?<\/p>\n<p>Quedradas, redondas, oblongas; em la\u00e7o, em pasta, em fita, em tri\u00e2ngulo, em losango, em quadril\u00e1tero, em oct\u00e1gono; plastrons, mantas, len\u00e7os; de cetim, de gaze, de seda, de crepe, de linho, de chita, de l\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>Vendo-as, in\u00fameras, horr\u00edveis e formosas, esquisitas, de mil cores e de mil formas, a rir, a dan\u00e7ar, a vir sobre o janota ext\u00e1tico, atordoado, tr\u00eamulo de gozo, de assombro e de indecis\u00e3o, lembrou-me a marcha dos deuses-monstros por diante de Ant\u00f4nio, o santo eremita da Teba\u00edda, ca\u00eddo em del\u00edquio &#8211; no livro imortal de Flaubert.<\/p>\n<p>E o caixeiro repetia:<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a o favor de escolher.<\/p>\n<p>Depois de longa e penosa hesita\u00e7\u00e3o, decidiu-se o janota por uma gravata meio-plastron, estofada de veludo bleu fonc\u00e9.<\/p>\n<p>P\u00f4-la ao pesco\u00e7o, viu-se com ela ao espelho, e logo arrependeu-se.<\/p>\n<p>Tomou ent\u00e3o de uma outra, de seda creme, pontilhada de pequenos bot\u00f5es de rosa escarlates..<\/p>\n<p>&#8211; Prefiro esta disse. Fa\u00e7a o favor de embrulh\u00e1-la.<\/p>\n<p>E enquanto o empregado assim o fazia, continuou ext\u00e1tico ante a vitrine, a ver uma, a ver outra, a desej\u00e1-las todas. De repente, estremeceu de s\u00fabita alegria e exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, tire-me aquela acol\u00e1. N\u00e3o, a outra: granada e ouro. Essa; essa mesma.<\/p>\n<p>Agora sim: estava satisfeito. O caixeiro substituiu a gravata no embrulho.<\/p>\n<p>O janota deu-lhe a paga, tomou do volumezinho, e foi saindo vagarosamente. Posto c\u00e1 fora, na rua, deteve-se ante a larga montre, opulenta de gravatarias rutilantes, espalhafatosas, e sentiu-se logo profundamente arrependido da espiga que se havia deixado impingir.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 t\u00e3o lindo aquele la\u00e7o de cetim creme! Diabo! Se eu trocasse&#8230;<\/p>\n<p>E, num enleio desgostoso, esteve por pouco a entrar de novo na loja, para fazer a troca. Mas envergonhou-se a tempo, e l\u00e1 se foi com a sua gravata nova, cheio de raivas biliosas contra ela &#8211; por ser t\u00e3o estupidamente feia, e contra si pr\u00f3prio &#8211; por ter um gosto t\u00e3o reles, t\u00e3o desgra\u00e7ado&#8230;<\/p>\n<p>Assim, exatamente assim nos sucede com a escolha de t\u00edtulo, a todos que de t\u00e3o perigosa coisa carecemos.<\/p>\n<p>Ao princ\u00edpio fica-se perplexo: s\u00e3o tantos! e todos t\u00e3o lindos! Qual escolher? Aquele, aquele belo t\u00edtulo vermelho, flamante como um carb\u00fanculo. Pois ser\u00e1 ele. E, sem demora, ata-se o t\u00edtulo escolhido ao pesco\u00e7o da obra e mira-se o efeito. Que desilus\u00e3o! A cor da gravata n\u00e3o diz com a roupa.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 todo azul claro e brancuras de neve: toalete risonha e fresca, toalete para passeio nos jardins de Armida; e o t\u00edtulo \u00e9 de um rubro t\u00e3o vivo, inopinado e grit\u00e3o!<\/p>\n<p>A que lhe vai a matar \u00e9 esta de escomilha branca, tirando a azul nas dobras, de um tom delicioso de leite puro.<\/p>\n<p>Bravos! Perfeitamente!<\/p>\n<p>E o autor, satisfeit\u00edssimo, ata a nova gravata ao seu dandy e sai com ele a passeio.<\/p>\n<p>Mas as decep\u00e7\u00f5es n\u00e3o tardam. Uns amigos acham que ela devia ser cor-de-rosa, curta, sem pregas.<\/p>\n<p>Aquela \u00e9 trivial, inexpressiva, t\u00e3o sem gra\u00e7a e sem express\u00e3o que, embora com a gravata ao pesco\u00e7o, parece o janota t\u00ea-la esquecido em casa&#8230;<\/p>\n<p>Outros amigos, por\u00e9m, (\u00f3 La Fontaine!) assobiam o pobre poeta, atiram-lhe remoques como pedriscos:<\/p>\n<p>&#8211; Que! Melhor fora ent\u00e3o p\u00f4r-lhe por t\u00edtulo: Vendavais, Cataratas ou Labaredas! Esse n\u00e3o presta: \u00e9 por demais pantafa\u00e7udo.<\/p>\n<p>E, corrido do seu mau gosto, o poeta arranca ao livro a gravata e recome\u00e7a a correria das lojas.<\/p>\n<p>Tais ang\u00fastias que as conte o pobre Eug\u00eanio Lopes, o &#8220;esperan\u00e7oso e jovem poeta&#8221; que hoje estr\u00e9ia.<\/p>\n<p>Foram dias, mais: &#8211; foram meses de luta e de ins\u00f4nia.<\/p>\n<p>Dez vezes achou a gravata da sua escolha, o non plus ultra das gravatas, a bela por excel\u00eancia, a deliciosa, a \u00fanica.<\/p>\n<p>Vinte vezes se arrepelou furioso, bezuntando-se de improp\u00e9rios, e pensando sinceramente, como quem se resolve ao suic\u00eddio: &#8211; O melhor \u00e9 p\u00f4r-lhe por t\u00edtulo &#8211; Sem t\u00edtulo! O pobre!<\/p>\n<p>Safiras, Flores singelas, Borboletas, Magn\u00f3lias, Harpejos, Serenatas, Suspiros d&#8217;alma, ai! tudo! tudo! &#8211; at\u00e9 nem mesmo faltou o venerando, o nunca ass\u00e1s surrado t\u00edtulo &#8211; Peregrinas! &#8211; tudo ocorreu \u00e0quele infeliz que andou atr\u00e1s de um t\u00edtutlo, como Tel\u00eamaco \u00e0 cata do perdido pai.<\/p>\n<p>Urgia, por\u00e9m, decidir.<\/p>\n<p>A Gl\u00f3ria instava.<\/p>\n<p>E a continuar daquele modo perderia a Posteridade, envelhecendo \u00e0 espera de um t\u00edtulo &#8211; como de um bilhete de viagem para ir l\u00e1 ter.<\/p>\n<p>Decidiu-se, enfim.<\/p>\n<p>Arroubos: &#8211; foi a gravata que escolheu.<\/p>\n<p>Arrependeu-se mil vezes da elei\u00e7\u00e3o; chegou mesmo a tentar anul\u00e1-la em favor de um candidato novo; mas era tarde: &#8211; parte do livro j\u00e1 estava impressa, e ao alto de cada p\u00e1gina o t\u00edtulo dado.<\/p>\n<p>Ficou triste, desanimado.<\/p>\n<p>Arroubos!&#8230; Dava lugar a esta pilh\u00e9ria: Roubos!<\/p>\n<p>Uma pilh\u00e9ria grave!<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Agora, na tipografia &#8211; diante da longa banca da cartonagem, cercada de oper\u00e1rios em camisa, dobrando, cortando, cosendo, colando folhas de livros &#8211; um gozo intenso, profundo, atordoador, engasga solenemente o poeta Eug\u00eanio Lopes.<\/p>\n<p>O meu livro! O meu livro! &#8211; \u00e9 o estribilho \u00edntimo da muda can\u00e7\u00e3o de j\u00fabilo que o seu esp\u00edrito canta&#8230;<\/p>\n<p>Cora e sorri; e ante os seus olhos \u00famidos, dilatados no espasmo daquele deslumbramento, as oito letras do t\u00edtulo &#8211; Arroubos &#8211; impressas a carmim, em elzevir, sobre a capa de papel-granito do seu livro, passam gravemente, marchando a um de fundo, para os campos da Gl\u00f3ria. Os RR erguem as pernas \u00e0 frente, em um passo de marcha larga, majestosa: as grandes pernas de fuzileiros, vestidas das rubras cal\u00e7as de grande gala.<\/p>\n<p>E, em cima, ao alto, por sobre um filete de fantasia o nome do autor: &#8211; Eug\u00eanio Lopes!<\/p>\n<p>E, im\u00f3vel, como adormecido de olhos abertos sobre o livro fechado ainda, &#8211; sem se dar conta dos risinhos ir\u00f4nicos que entre a fumarada dos cigarros lhe mandam os oper\u00e1rios, &#8211; quantos planos gloriosos, quantas quimeras, quantos del\u00edrios mudos assaltam nesse momento o poeta!<\/p>\n<p>Seu nome, seu pobre nome, t\u00e3o singelo e humilde, o nome de filho de um modesto molhadista por atacado; seu nome desde este dia vai partir veloz sobre os quinhentos volumes da edi\u00e7\u00e3o; vai voar nas asas palpitantes da imprensa peri\u00f3dica!<\/p>\n<p>Vai ser conhecido, procurado, citado e recitado, querido, talvez famoso!<\/p>\n<p>&#8220;Eug\u00eanio Lopes, o mimoso poeta dos Arroubos.&#8221;<\/p>\n<p>Assim se previa designado em breve por toda a imprensa. Nas livrarias, entre Musset e V. Hugo, cercado pelos mais c\u00e9lebres poetas do mundo, est\u00e1 um poeta novo, chegado naquele instante das regi\u00f5es do anonimato, cheirando ainda a papel molhado e a tinta de impress\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem \u00e9? \u00c9 ele: &#8211; Eug\u00eanio Lopes.<\/p>\n<p>E, todo embebido desse luar invis\u00edvel e magnetizante da cisma, com um sorriso vago a lhe pairar na boca, o poeta voltou a capa do livro, a primeira p\u00e1gina, e ia a voltar a segunda; mas deteve-se, contemplando-a&#8230; Era a dedicat\u00f3ria. Dizia assim:<\/p>\n<p>A &#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Anjo, valqu\u00edria, deusa, a quem a vida<br \/>\nE o futuro, sorrindo, dediquei,<br \/>\nAceita os versos meus, mulher querida,<br \/>\nE nunca mais perguntes se te amei!&#8221;<\/p>\n<p>Como vai ela ficar contente e cheia de orgulho!<\/p>\n<p>Mas que dir\u00e3o seus pais? que dir\u00e3o os velhos?<\/p>\n<p>A velha, santa mulher que o adora, vai certamente chorar de j\u00fabilo ao saber que seu filho &#8211; o seu Eug\u00eanio &#8220;anda nas folhas e nos livros&#8221;, todo enfeitado de adjetivos elogiosos&#8230; Quanto ao velho&#8230;<\/p>\n<p>E ensombrou-se-lhe a fronte. Ah! \u00e9 o destino de todos n\u00f3s&#8230; pensava o poeta, enrolando um cigarro em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Balzac, Baudelaire, Henri Conscience, Casimiro de Abreu &#8211; quantos e quantos! &#8211; encheram de m\u00e1goa e de vergonha seus velhos pais, porque se deram \u00e0 gl\u00f3ria, porque foram poetas e pensadores, em vez de agiotas e negociantes.<\/p>\n<p>Paci\u00eancia! Tudo sofreria resignado. Era o seu destino: havia de cumpri-lo!<\/p>\n<p>Mas os cr\u00edticos?&#8230; Que dir\u00e3o os cr\u00edticos?&#8230;<\/p>\n<p>Que dir\u00e1 dos Arroubos o Jornal, esse velho inimigo de sonhadores, t\u00e3o severo, t\u00e3o duro, t\u00e3o parco de elogios? Que dir\u00e1 o Jornal? Naturalmente o que s\u00f3i dizer semore: &#8211; Recebemos do Sr. Fulano o seu livro de versos, intitulado Isto ou aquilo. E mais nada.<\/p>\n<p>\u00d3 sequid\u00e3o antipo\u00e9tica!<\/p>\n<p>Ah! se o Jornal dissesse ao menos: &#8211; bonitos versos, ou esperan\u00e7oso, inspirado poeta&#8230; Como para o velho o Jornal \u00e9 a palavra de Deus escrita na terra&#8230; do Brasil, lendo aquilo, talvez o velho embrandecesse&#8230;<\/p>\n<p>E a Gazeta? que dir\u00e1 a Gazeta, t\u00e3o ben\u00e9vola para os que principiam, t\u00e3o delicada na censura&#8230; mas tamb\u00e9m \u00e0s vezes t\u00e3o trocista?&#8230; Que dir\u00e1 ela? Bem ou mal?<\/p>\n<p>E, por uma s\u00fabita liga\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias, lembraram-lhe uns versos frouxos, outros &#8211; \u00e1speros, que s\u00f3 agora reconhecia como tais&#8230;<\/p>\n<p>Ah! estava perdido: &#8211; era horr\u00edvel o seu livro!<\/p>\n<p>Mas aquela poesia Flores mortas? Era bem feita e bonita: havia de agradar&#8230;<\/p>\n<p>Logo na primeira estrofe, \u00faltimo verso, exatamente um dos que antes julgava melhores, encontrou formid\u00e1vel asneira&#8230;<\/p>\n<p>Atirou o livro, empalidecendo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, muito cedo, comprou todas as folhas da manh\u00e3, &#8211; tremendo como um r\u00e9u, a quem se vai ler a sua senten\u00e7a &#8211; e, percorrendo-as&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta, por\u00e9m.<\/p>\n<p>Nem mais uma palavra sobre esse poema tr\u00e1gico, de que havemos sido todos, mais ou menos, her\u00f3is.<\/p>\n<p>Talvez que um dia o poeta dos Arroubos nos d\u00ea as suas Mem\u00f3rias, e ent\u00e3o, se ele as houver escrito de todo o cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 quem se n\u00e3o comova e sorria, lendo esse cap\u00edtulo, escrito com o pr\u00f3prio sangue, cap\u00edtulo negro e rutilante, cheio de l\u00e1grimas e estrelado de sorrisos, que s\u00f3 se escreve uma vez na vida: &#8211; A grande estr\u00e9ia!<\/p>\n<p><b>(Vinte contos, 1886.)<\/b><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Valentim Magalh\u00e3es Autor! Ele era autor, finalmente! Ali estava a sua obra. &#8211; O meu livro! &#8211; dizia ele dentro em si, com o cora\u00e7\u00e3o boiando em uma onda de j\u00fabilo. A\u00ed terminaram, por fim, as torturas inenarr\u00e1veis do ineditismo; terminaram as lutas, os labores, as ang\u00fastias inominadas de autor in partibus: o c\u00e9rebro atulhado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-119622","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Grande Estr\u00e9ia! 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