{"id":119562,"date":"2017-04-13T12:00:22","date_gmt":"2017-04-13T14:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=119562"},"modified":"2017-04-13T12:00:22","modified_gmt":"2017-04-13T14:00:22","slug":"o-escravocrata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-escravocrata","title":{"rendered":"O Escravocrata"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"656\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Ato Primeiro<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Ato Segundo<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Ato Terceiro<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Urbano Duarte<\/h2>\n<p>Drama em 3 atos<br \/>\n    Em colabora\u00e7\u00e3o com Urbano Duarte &#8211; 1884<\/p>\n<p><strong>PR\u00d3DOMO<\/strong><\/p>\n<p><i>O Escravocrata<\/i>, escrito h\u00e1 dois anos e submetido \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do Conservat\u00f3rio<br \/>\n    Dram\u00e1tico Brasileiro sob o t\u00edtulo <i>A fam\u00edlia Salazar<\/i>, n\u00e3o mereceu o<br \/>\n    indispens\u00e1vel <i>placet. <\/i>Embora n\u00e3o trouxesse o manuscrito nota alguma<br \/>\n    com declara\u00e7\u00e3o dos motivos que ponderaram no \u00e2nimo dos ilustres censores,<br \/>\n    para induzi-los \u00e0 condena\u00e7\u00e3o do nosso trabalho, somos levados a crer que essa<br \/>\n    mudez significa &#8211; ofensa \u00e0 moral, visto como s\u00f3 nesse terreno legisla e prepondera<br \/>\n    a opini\u00e3o liter\u00e1ria daquela institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Resolvemos ent\u00e3o public\u00e1-lo, a fim de que o p\u00fablico julgue e pronuncie. <\/p>\n<p>Sabemos de antem\u00e3o quais os dois pontos em que a cr\u00edtica poder\u00e1 atac\u00e1-lo:<br \/>\n    imoralidade e inverossimilhan\u00e7a. Conhecendo isso, sangramo-nos em sa\u00fade.<\/p>\n<p>O fato capital da pe\u00e7a, pi\u00e3o em volta do qual gira toda a a\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica,<br \/>\n    s\u00e3o os antigos amores de um mulato escravo, cria de estima\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia<br \/>\n    burguesa, com a sua senhora, mulher nevr\u00f3tica e de imagina\u00e7\u00e3o desregrada;<br \/>\n    desta falta resulta um filho, que, at\u00e9 vinte e tantos anos de idade, \u00e9 considerado<br \/>\n    como se leg\u00edtimo fosse, tais os prod\u00edgios de dissimula\u00e7\u00e3o postos em pr\u00e1tica<br \/>\n    pela m\u00e3e e pelo pai escravo, a fim de guardarem o terr\u00edvel segredo.<\/p>\n<p>Bruscamente, por uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias imprevistas, desvenda-se a verdade;<br \/>\n    precipita-se ent\u00e3o o drama violento e r\u00e1pido, cujo desfecho natural \u00e9 a consequ\u00eancia<br \/>\n    rigorosa dos caracteres em jogo e da marcha da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Onde \u00e9 que se acha o imoral ou o inveross\u00edmil?<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es amorosas entre senhores e escravos foram e s\u00e3o, desgra\u00e7adamente,<br \/>\n    fatos comuns no nosso odioso regime social; s\u00f3 se surpreender\u00e1 deles quem<br \/>\n    tiver olhos para n\u00e3o ver e ouvidos para n\u00e3o ouvir.<\/p>\n<p>Se a cada leitor em particular pergunt\u00e1ssemos se lhe ocorre \u00e0 mem\u00f3ria um<br \/>\n    caso id\u00eantico ou an\u00e1logo ao referido no <i>Escravocrata, <\/i>certo estamos<br \/>\n    de que ele responderia afirmativamente.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o de moralidade teatral e liter\u00e1ria diz respeito t\u00e3o somente \u00e0 forma,<br \/>\n    \u00e0 linguagem, \u00e0 fatura, ao estilo. Se os moralistas penetrassem na subst\u00e2ncia,<br \/>\n    na medula das obras liter\u00e1rias, de qualquer \u00e9poca ou pa\u00eds que sejam, de l\u00e1<br \/>\n    voltariam profundamente escandalizados, com as rosas do pudor nas faces incendidas,<br \/>\n    e decididos a lan\u00e7ar no <i>index <\/i>todos os autores dram\u00e1ticos passados,<br \/>\n    presentes e futuros.<\/p>\n<p>Repetir estas coisas \u00e9 banalidade; h\u00e1, por\u00e9m, pessoas muito ilustradas, que<br \/>\n    s\u00f3 n\u00e3o sabem aquilo que deveriam saber.<\/p>\n<p>Seria muito bom que todas as mulheres casadas fossem fi\u00e9is aos seus maridos,<br \/>\n    honestas, ajuizadas, linf\u00e1ticas, e que os adult\u00e9rios infamantes n\u00e3o passassem<br \/>\n    de fantasias perversas de dramaturgos atrabili\u00e1rios; mas infelizmente assim<br \/>\n    n\u00e3o sucede, e o b\u00edpede implume comete todos os dias monstruosidades que n\u00e3o<br \/>\n    podem deixar de ser processadas neste supremo tribunal de justi\u00e7a &#8211; o teatro.<\/p>\n<p>N\u00e3o queremos mal ao Conservat\u00f3rio; reconhecemos o seu direito, e curvamos<br \/>\n    a cabe\u00e7a. Tanto mais que nos achamos plenamente convencidos de que, \u00e0 for\u00e7a<br \/>\n    de empenhos e de argumentos, alcan\u00e7ar\u00edamos a felicidade de ver o nosso drama<br \/>\n    \u00e0 luz da ribalta. Mas esses tr\u00e2mites seriam t\u00e3o demorados, e a id\u00e9ia abolicionista<br \/>\n    caminha com desassombro tal, que talvez no dia da primeira representa\u00e7\u00e3o do<br \/>\n    <i>Escravocrata <\/i>j\u00e1 n\u00e3o houvesse escravos no Brasil. A nossa pe\u00e7a deixaria<br \/>\n    de ser um trabalho audacioso de propaganda, para ser uma med\u00edocre especula\u00e7\u00e3o<br \/>\n    liter\u00e1ria. N\u00e3o nos ficaria a gl\u00f3ria, que ambicionamos, de haver concorrido<br \/>\n    com o pequenino impulso das nossas penas para o desmoronamento da fortaleza<br \/>\n    negra da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"right\">Janeiro de 1884<\/p>\n<p align=\"right\">Artur Azevedo e Urbano Duarte<\/p>\n<p><strong>Personagens<\/strong><\/p>\n<p>SALAZAR, negociante de escravos<br \/>\n    GUSTAVO, seu filho<br \/>\n    LOUREN\u00c7O, seu escravo<br \/>\n    SERAFIM, ex-s\u00f3cio do Clube Abolicionista Pai Tom\u00e1s<br \/>\n    DOUTOR EUG\u00caNIO, m\u00e9dico<br \/>\n    SEBASTI\u00c3O, s\u00f3cio de Salazar<br \/>\n    UM COMPRADOR DE ESCRAVOS.<br \/>\n    UM CREDOR.<br \/>\n    UM CAIXEIRO.<br \/>\n    JOSEFA, irm\u00e3 de Salazar<br \/>\n    GABRIELA, mulher de Salazar<br \/>\n    CAROLINA, sua filha<br \/>\n    Tr\u00eas mulatas baianas, escravos.<\/p>\n<p>A cena passa-se no Rio de Janeiro.<\/p>\n<h4><a name=\"1\"><strong>ATO PRIMEIRO<\/strong><\/a><\/h4>\n<p><i>Escrit\u00f3rio em uma casa de alugar escravos. \u00c0 esquerda, secret\u00e1ria; \u00e0 direita,<br \/>\n    sof\u00e1 sobre o qual est\u00e1 um n\u00famero do Jornal do Comm\u00e9rcio; cadeiras. Porta ao<br \/>\n    fundo, \u00e0 esquerda. Encostadas \u00e0 parede do fundo, \u00e0 esquerda, uma trouxa e<br \/>\n    uma esteira suja enroladas.<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA I<\/strong><\/p>\n<p>SALAZAR, <i>depois <\/i>UM CAIXEIRO. SALAZAR <i>escreve por algum tempo, sentado<br \/>\n    \u00e0 secret\u00e1ria; toca o t\u00edmpano; entra o caixeiro.<\/i><\/p>\n<p>O CAIXEIRO <i>(Da esquerda alta.) &#8211; <\/i>Pronto!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Levou os negros \u00e0 Pol\u00edcia?<\/p>\n<p>O CAIXEIRO &#8211; Sim, senhor; j\u00e1 est\u00e3o de volta.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Bem. Seguem para cima, amanh\u00e3, no expresso das quatro horas e meia.<br \/>\n    \u00c0s tr\u00eas em ponto, o senhor dever\u00e1 estar de p\u00e9, a fim de poder achar-se na<br \/>\n    Esta\u00e7\u00e3o \u00e0s quatro. S\u00e3o quarenta e quatro cabe\u00e7as, incluindo o Louren\u00e7o. Tome<br \/>\n    l\u00e1. V\u00e1 \u00e0 minha casa e entregue este bilhete a minha mulher. Ela deve entregar-lhe<br \/>\n    o Louren\u00e7o, e o senhor o reunir\u00e1 ao lote de escravos que vai embarcar. <i>(Levantando-se,<br \/>\n    passa \u00e0 direita.) <\/i>Resolvi desfazer-me daquele tratante, haja o que houver,<br \/>\n    e nada me demover\u00e1 deste prop\u00f3sito. Pode ir. <i>(O Caixeiro sai pelo fundo.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA II<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, SEBASTI\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O <i>(Da esquerda alta.) &#8211; <\/i>Possu\u00edmos a melhor fazenda que existe<br \/>\n    atualmente no mercado do Rio de Janeiro; n\u00e3o achas, Salazar?<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Sentando-se no sof\u00e1.) &#8211; <\/i>Gente superfina. Os nossos comitentes<br \/>\n    do Norte capricharam desta vez. S\u00f3 a renque da crioulada vale vinte e cinco,<br \/>\n    alto e mau, de olhos fechados. \u00c9<i> <\/i>para fazer \u00e1gua na boca! H\u00e1 pouco,<br \/>\n    quando o lote passava na rua, o Arruda da Prainha lan\u00e7ou-lhe um olhar de sete<br \/>\n    palmos e meio. \u00c9<i> <\/i>s\u00f3 para os moer!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; O Arruda nunca recebeu nem receber\u00e1 uma partida de negros como<br \/>\n    esta, que veio pelo Cear\u00e1.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; N\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 alcaide. Gente limpa, escorreita, mo\u00e7a, refor\u00e7ada<br \/>\n    e d\u00f3cil, que faz gosto. S\u00f3 do Cear\u00e1 nos vieram dez crioulos retintos, que<br \/>\n    valem o seu peso em ouro. Se tu n\u00e3o os venderes a vinte e cinco ou trinta<br \/>\n    dias, n\u00e3o te chamar\u00e1s Sebasti\u00e3o de Miranda, o famoso negreiro fluminense,<br \/>\n    s\u00f3cio e amigo \u00edntimo de Pedro Salazar, negociante de grosso trato e fazendeiro<br \/>\n    sem hipotecas.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Sim, espero fazer bom neg\u00f3cio. Por fora a gente \u00e9 de primeira<br \/>\n    qualidade, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, mas por dentro! Quem \u00e9 que pode l\u00e1 conhecer mazelas<br \/>\n    de negro? Negro \u00e9 bicho do diabo, Salazar! As vezes est\u00e3o cheios de mol\u00e9stias<br \/>\n    ocultas, que s\u00f3 confessam quando lhes faz conta.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Nem tanto! Pois h\u00e3o de iludir os m\u00e9dicos?<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Ora os m\u00e9dicos, os m\u00e9dicos! Por cinco mil r\u00e9is de mais ou de<br \/>\n    menos, fazem a inspe\u00e7\u00e3o conforme queremos.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Negro n\u00e3o tem licen\u00e7a para estar doente. Enquanto respira, h\u00e1 de<br \/>\n    poder com a enxada, quer queira, quer n\u00e3o.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; De acordo, mas hoje anda a\u00ed em moda trat\u00e1-los bem&#8230; com humanidade&#8230;<br \/>\n    n\u00e3o sei que mais&#8230;<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Tolices! Humanidade para negro! Para mol\u00e9stia de negro h\u00e1 um rem\u00e9dio<br \/>\n    supremo, infal\u00edvel e \u00fanico: o bacalhau. Deem-me um negro moribundo e um bacalhau,<br \/>\n    que eu lhes mostrarei se o n\u00e3o ponho l\u00e9pido e lampeiro com meia d\u00fazia de lambadas!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Perfeitamente de acordo. Mas, quer queiramos, quer n\u00e3o, temos<br \/>\n    de contemporizar com essas id\u00e9ias&#8230; Os tais senhores abolicionistas&#8230;<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Erguendo-se e descendo ao prosc\u00eanio.) &#8211; <\/i>Psiu! N\u00e3o me fales<br \/>\n    nessa gente, pelo amor de Deus! S\u00f3 o nome dessa c\u00e1fila de bandidos que ultimamente<br \/>\n    me t\u00eam feito perder mais de oitenta contos, irrita-me de um modo incr\u00edvel!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Tamb\u00e9m a mim. Regra geral e sem exce\u00e7\u00e3o: sujeito que nada tem<br \/>\n    a perder e n\u00e3o sabe onde cair morto declara-se abolicionista.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Eu vou mais adiante: sujeito que tentou sem resultado todos os<br \/>\n    empregos, profiss\u00f5es e ind\u00fastrias, e em nenhum conseguiu reputa\u00e7\u00e3o ou fortuna,<br \/>\n    por ser incapaz, indolente, prevaricador ou est\u00fapido, arvora-se por \u00faltimo<br \/>\n    em abolicionista, para ver se deste modo segura os pir\u00f5es.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O- E com que desprezo nos chamam de escravocratas! Dizem que negociamos<br \/>\n    em carne humana, quando s\u00e3o eles que traficam com a boa-f\u00e9 dos papalvos, e<br \/>\n    lhes v\u00e3o limpando as algibeiras, por meio de discursos e confer\u00eancias!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Exploram o elemento servil pelo avesso, sem os percal\u00e7os do of\u00edcio.<br \/>\n    Ao menos n\u00f3s damos aos negros casa, cama, comida, roupa, botica e bacalhau.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Principalmente bacalhau. Porque o negro, sem ele, \u00e9 uma utopia!<br \/>\n    <i>(Indo examinar uns pap\u00e9is \u00e0 secret\u00e1ria.) <\/i>Recebeste hoje carta do Evaristo?<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(No prosc\u00eanio.) &#8211; <\/i>Sim; a safra promete ser excelente. Quatro<br \/>\n    mil arrobas de primeira. Tudo na melhor ordem.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Com um administrador como o Evaristo, vale a pena ser fazendeiro.<br \/>\n    \u00c9<i> <\/i>o nosso fact\u00f3tum!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Honesto, ativo, fiel; longa pr\u00e1tica do eito e chicote sempre na<br \/>\n    m\u00e3o!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Basta que visitemos uma ou duas vezes por ano a nossa fazenda<br \/>\n    do Pouso Alto, para que as coisas nos corram sem novidade. <i>(Salazar desce<br \/>\n    ao prosc\u00eanio.) <\/i>Mas ent\u00e3o levo ou n\u00e3o levo o Louren\u00e7o?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Sem d\u00favida; desta vez ele n\u00e3o escapa. Irra! que j\u00e1 ando aborrecid\u00edssimo<br \/>\n    com aquela peste! Preciso descartar-me dele, oponha-se quem se opuser! Nada<br \/>\n    me enraivece mais que ver um negro emproado! J\u00e1 por diversas vezes tenho querido<br \/>\n    tirar-lhe a proa com uma surra mestra; mas minha mulher, minha filha e meu<br \/>\n    filho metem-se de permeio e fazem-me uma choradeira de todos os diabos!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Pois ainda \u00e9s desse tempo? Atendes a s\u00faplica de fam\u00edlia, quando<br \/>\n    se trata de surrar negro?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Pois se eles sempre se colocam em sua frente para defend\u00ea-lo?!<br \/>\n    Ainda anteontem, minha mulher quase apanhou uma lambada que era destinada<br \/>\n    ao Louren\u00e7o! Protege-o escandalosamente, alegando ser ele cria da fam\u00edlia,<br \/>\n    e n\u00e3o sei mais o qu\u00ea&#8230; E h\u00e1 vinte e cinco anos, desde o meu casamento, que<br \/>\n    aturo as insol\u00eancias daquele patife! Leva a ousadia ao ponto de n\u00e3o abaixar<br \/>\n    a vista quando fala comigo! Oh! mas desta vez, vendo-o definitivamente!<\/p>\n<p><strong>CENA III<\/strong><\/p>\n<p><strong>OS MESMOS, SERAFIM<\/strong><\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Da porta do fundo.) &#8211; <\/i>O Senhor Pedro Salazar? <\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Que deseja, senhor? <i>(Serafim entrega-lhe uma carta.) <\/i><\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O <i>(\u00c0 parte, examinando Serafim.) &#8211; <\/i>Que tipo! Pol\u00edcia secreta,<br \/>\n    flor da gente, ou poeta! <i>(Vai sentar-se no sof\u00e1 e l\u00ea o Jornal do Comm\u00e9rcio.)<\/i><\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Depois de ler a carta.) &#8211; <\/i>Serafim Pechincha \u00e9 o senhor?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Em carne e osso.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; O compadre Ribeiro escreve-me: <i>(L\u00ea.) <\/i>&quot;O portador \u00e9<br \/>\n    o Senhor Serafim Pechincha, mo\u00e7o, filho de uma boa fam\u00edlia provinciana, o<br \/>\n    qual se acha desempregado e reduzido \u00e0 express\u00e3o mais simples. Parece ser<br \/>\n    ativo; \u00e9 inteligente. V\u00ea se o podes ocupar em algum servi\u00e7o.&quot;<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Reda\u00e7\u00e3o simples, mas eloq\u00fcente!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; A recomenda\u00e7\u00e3o do compadre Ribeiro \u00e9 muito valiosa; por\u00e9m, creio,<br \/>\n    n\u00e3o estranhar\u00e1 que eu procure saber das suas habilita\u00e7\u00f5es e precedentes. \u00c9<br \/>\n    natural&#8230; n\u00e3o acha?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Natural\u00edssimo. Julgo do meu dever falar-lhe com toda a franqueza,<br \/>\n    para que me fique conhecendo, e depois n\u00e3o diga que sim, mas que tamb\u00e9m&#8230;<br \/>\n    Eu c\u00e1 sou despachado.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O <i>(\u00c0 parte.) &#8211; <\/i>A linguagem n\u00e3o \u00e9 de pol\u00edcia secreta!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Diga.<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Come\u00e7o por declarar que sou um tipo arrebentado.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Arrebentado?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Arrebentad\u00edssimo. Consta-me, por informa\u00e7\u00f5es de terceiro, que perten\u00e7o<br \/>\n    a uma boa fam\u00edlia provinciana, ao que, ali\u00e1s, n\u00e3o ligo muito cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Como assim?<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O <i>(\u00c0 parte.) &#8211; <\/i>Flor da gente com certeza!<\/p>\n<p>SERAFIM <i>(\u00c0 Salazar.) <\/i>\u00c9 verdade; n\u00e3o tenho a mais vaga reminisc\u00eancia<br \/>\n    de pai nem m\u00e3e. Cuido mesmo que j\u00e1 nasci \u00f3rf\u00e3o. Oh! triste sina! <i>(Procura<br \/>\n    o len\u00e7o e n\u00e3o o acha; limpa uma l\u00e1grima \u00e0 aba do palet\u00f3.) <\/i>Quando, h\u00e1 tempos,<br \/>\n    o pr\u00edncipe Natureza dissertou sobre o choque de pai e m\u00e3e, senti que o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\n    se me dilacerava de saudades.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O <i>(\u00c0 parte.) &#8211; <\/i>Agora parece poeta.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Mas n\u00e3o tem parente algum?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; L\u00e1 chegarei&#8230; gosto de ir por partes&#8230; Aos dez anos, tenho lembran\u00e7a<br \/>\n    de que um tio nos meteu, a mim e a dois irm\u00e3os, em uma esp\u00e9cie de col\u00e9gio<br \/>\n    na Rua de S\u00e3o Diogo.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Mas at\u00e9 os dez anos? De nada se recorda?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; \u00c9 c\u00e9lebre!<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Celeb\u00e9rrimo! Mas todo eu sou celeb\u00e9rrimo! Como dizia, meteram-me<br \/>\n    no col\u00e9gio, a mim, ao Chico e ao Cazuza. A\u00ed estivemos tr\u00eas anos, durante os<br \/>\n    quais passamos fome de cachorro. O diretor era mais sovina que grosseiro,<br \/>\n    e mais est\u00fapido que sovina e grosseiro. Um belo dia, n\u00f3s, n\u00e3o podendo suport\u00e1-lo,<br \/>\n    tratamos uma conspira\u00e7\u00e3o, aplicamos-lhe uma co\u00e7a de marmeleiro, e fugimos<br \/>\n    do col\u00e9gio.<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(\u00c0 parte.) &#8211; <\/i>Bom precedente!<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Da\u00ed em diante, a minha vida tem sido um romance&#8230; sem palavras.<br \/>\n    Quem lhe dera, senhor Salazar, possuir de contos de r\u00e9is os dias que n\u00e3o tenho<br \/>\n    comido! <i>(Gesto de Salazar.) <\/i>N\u00e3o se admire disto! n\u00e3o me peja dizer<br \/>\n    a verdade nua e crua&#8230; Eu sou do tipo arrebentado. H\u00e1 dias em que acredito<br \/>\n    mais no bal\u00e3o J\u00falio C\u00e9sar do que numa nota de quinhentos r\u00e9is! Tenho tentado<br \/>\n    todos os empregos: fui manipulador de cigarros durante dois meses, exerci<br \/>\n    o nobre mister de testa-de-ferro, fiz-me cambista, redator do <i>Incendi\u00e1rio,<br \/>\n    <\/i>e at\u00e9 representei no teatro&#8230;<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O <i>(Vivamente.) &#8211; <\/i>Ah! foi c\u00f4mico?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; N\u00e3o, senhor: fiz uma das pernas do elefante do <i>Ali-bab\u00e1, <\/i>na<br \/>\n    F\u00eanix.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Mas que fim levaram seus irm\u00e3os? <\/p>\n<p>O SERAFIM &#8211; Ah! esses foram mais felizes que eu; arranjaram-se perfeitamente.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Est\u00e3o empregados?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Ou coisa que o valha: o Chico meteu-se no Hosp\u00edcio de Pedro II.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Como enfermeiro?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Como doido.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Enlouqueceu?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Qual! teve mais ju\u00edzo que eu; cama, mesa, m\u00e9dico, uma ducha de<br \/>\n    vez em quando para refrescar as id\u00e9ias, e uma camisola para o frio. Afinal,<br \/>\n    \u00e9 um meio de vida como outro qualquer!<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Surpreso.) <\/i>E o?&#8230; Como se chama?<\/p>\n<p>SERAFIM O Cazuza? <i>(Assobia.) <\/i>Um fin\u00f3rio! Tantos empenhos meteu, que<br \/>\n    conseguiu um lugar no Asilo da Mendicidade.<\/p>\n<p>SALAZAR Ah! &#8230; como inspetor de turma? <\/p>\n<p>SERAFIM Qual inspetor! qual turma! Como mendigo! <\/p>\n<p>O SEBASTI\u00c3O <i>(\u00c0 parte.) &#8211; <\/i>\u00c9<i> <\/i>um tipo \u00fanico!<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Vive hoje muito tranq\u00fcilo e satisfeito a desfiar estopa. Est\u00e3o<br \/>\n    ambos arranjados: eu \u00e9 que ainda n\u00e3o criei ju\u00edzo, e vivo ao deus-dar\u00e1!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Por que n\u00e3o se torna abolicionista?<\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Recuando indignado e tomando uma atitute teatral.) &#8211; <\/i>Senhor<br \/>\n    Jo\u00e3o Salazar&#8230;<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Pedro&#8230; Pedro, se me faz favor&#8230;<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Senhor Pedro Salazar! creio que todas as mis\u00e9rias que acabei de<br \/>\n    lhe relatar n\u00e3o o autorizam a cuspir-me em face tal inj\u00faria! Sou um tipo arrebentado,<br \/>\n    mas, gra\u00e7as a Deus, ainda n\u00e3o desci t\u00e3o baixo!<\/p>\n<p>SALAZAR Ent\u00e3o odeia?&#8230;<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Os abolicionistas? N\u00e3o os odeio: desprezo-os! <\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O <i>(Levantando-se entusiasmado e apertando-lhe a m\u00e3o.) &#8211; <\/i>Toque!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Toque <i>(Serafim tem cada uma das m\u00e3os apertadas por cada um dos<br \/>\n    s\u00f3cios.) <\/i>De hoje em diante pode considerar-se empregado de Salazar &amp;<br \/>\n    Miranda!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Entende alguma coisa de neg\u00f3cio?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Pouco, mas &#8211; mod\u00e9stia \u00e0 parte &#8211; sou muito inteligente. Com qualquer<br \/>\n    coisa, me ponho em dia&#8230; Se me dessem uma explica\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria&#8230;<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Pois n\u00e3o&#8230; agora mesmo&#8230; <i>(Tomando-lhe o bra\u00e7o.) <\/i>Venha<br \/>\n    comigo&#8230;<\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Saindo, \u00e0 parte.) &#8211; <\/i>Que dir\u00e3o os meus colegas do Clube Abolicionista<br \/>\n    Pai Tom\u00e1s?! <i>(Sebasti\u00e3o sai com Serafim pela esquerda alta.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA IV<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, GUSTAVO<\/strong><\/p>\n<p>SALAZAR <i>(S\u00f3.) &#8211; <\/i>Desta gente \u00e9 que eu preciso!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Entra do fundo amarrotando um jornal que tem na m\u00e3o.) &#8211; <\/i>Sacripantes!<br \/>\n    Safardanas! Leia isto, meu pai, veja se o infame mofineiro que publicou este<br \/>\n    aranzel contra vosmec\u00ea e a nossa fam\u00edlia n\u00e3o merece que se lhe corte a cara<br \/>\n    a vergalho! Leia isto!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o leio! Apesar de n\u00e3o ligar a m\u00ednima import\u00e2ncia ao grasnar<br \/>\n    desses miser\u00e1veis gazetilheiros, que s\u00f3 andam \u00e0 cata de quem os compre, as<br \/>\n    suas verrinas deixam-me numa irrita\u00e7\u00e3o nervosa, que me tira o apetite. Ah!<br \/>\n    se eu pilhasse os tais abolicionistas todos no eito!<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Quem sabe? Pode ser que um dia&#8230;<\/p>\n<p><strong>CENA V<\/strong><\/p>\n<p><strong>OS MESMOS, LOUREN\u00c7O, <\/strong><strong><i>o <\/i><\/strong><strong>CAIXEIRO<\/strong><\/p>\n<p>CAIXEIRO &#8211; C\u00e1 est\u00e1 o mulato.<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(A Louren\u00e7o.) &#8211; <\/i>Prepara a tua trouxa; tens que seguir amanh\u00e3<br \/>\n    para cima.<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Fita-o e depois diz pausadamente.) &#8211; <\/i>Mais nada?<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Furioso.) &#8211; <\/i>Mais nada! Desavergonhado! Patife! C\u00e3o! Puxa<br \/>\n    j\u00e1 daqui!<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; N\u00e3o lhe quis faltar ao respeito&#8230; Este \u00e9 o meu modo de falar.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Modo de falar! Pois negro tem modo de falar? Quando estiveres em<br \/>\n    minha presen\u00e7a, abaixa a vista, ladr\u00e3o! <i>(Louren\u00e7o n\u00e3o lhe obedece.) <\/i>Abaixa<br \/>\n    a vista, cachorro! Corto-te a chicote se o n\u00e3o fizeres! <i>(Louren\u00e7o conserva-se<br \/>\n    imperturb\u00e1vel. Salazar avan\u00e7a com um chicote, mas Gustavo o cont\u00e9m.)<\/i><\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Pe\u00e7o por ele, meu pai! Louren\u00e7o \u00e9 um escravo d\u00f3cil e obediente.<br \/>\n    <i>(A Louren\u00e7o, com brandura.) <\/i>Abaixa a vista, Louren\u00e7o. <i>(Louren\u00e7o<br \/>\n    obedece.) <\/i>Ajoelha-te! <i>(Idem.) <\/i>Pede humildemente perd\u00e3o a meu pai<br \/>\n    de lhe n\u00e3o haveres obedecido incontinenti.<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; Pe\u00e7o humildemente perd\u00e3o a meu senhor&#8230;<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Puxa daqui, burro! <i>(Louren\u00e7o sai.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA VI<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, GUSTAVO<\/strong><\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Vai mand\u00e1-lo para fora?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Definitivamente. Escusam de pedir-me. Cada vez tem menos vergonha!<br \/>\n    \u00e9 uma peste!<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Nem tanto. Apesar da ojeriza e do desprezo que tenho por tudo quanto<br \/>\n    me cheira a negro cativo, conservo alguma estima pelo Louren\u00e7o.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; As tais amizades do senhor mo\u00e7o! Viu-te nascer, trouxe-te ao colo,<br \/>\n    etc., etc&#8230; Olha, podes estar certo de que, na primeira ocasi\u00e3o prop\u00edcia,<br \/>\n    ele te envenenar\u00e1 numa x\u00edcara de caf\u00e9 ou num copo d&#8217;\u00e1gua! Ainda \u00e9s muito<br \/>\n    mo\u00e7o: n\u00e3o sabes de quanto um negro \u00e9 capaz!<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Sei bastante; para esta ra\u00e7a amaldi\u00e7oada s\u00f3 h\u00e1 tr\u00eas princ\u00edpios:<br \/>\n    o eito, o bacalhau e a for\u00e7a! Mas n\u00e3o posso deixar de abrir uma exce\u00e7\u00e3o para<br \/>\n    o Louren\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p><strong>CENA VII<\/strong><\/p>\n<p><strong>OS MESMOS, <\/strong><strong><i>um <\/i><\/strong><strong>COMPRADOR<\/strong><\/p>\n<p>COMPRADOR &#8211; O senhor Pedro Salazar? <\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Um seu criado; que deseja?<\/p>\n<p>COMPRADOR &#8211; Sei que recebeu, pelo vapor Cear\u00e1, uma bela partida de raparigas:<br \/>\n    desejo comprar-lhe algumas. <i>(Gustavo, durante o di\u00e1logo, entret\u00eam-se a<br \/>\n    cortar com uma tesoura um artigo do <\/i>Jornal, <i>que trouxe na m\u00e3o, e guarda<br \/>\n    o retalho.)<\/i><\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Tenho o que lhe serve: fazenda nova, bonita e limpa. <\/p>\n<p>COMPRADOR &#8211; Pode-se ver?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Imediatamente. <i>(Toca o t\u00edmpano, entra o caixeiro.) <\/i>Traga<br \/>\n    as mulatas da Bahia. <i>(Sai o caixeiro.) <\/i>Crioulas n\u00e3o lhe servem? <i>(Gesto<br \/>\n    negativo do comprador.) <\/i>Sim, para o seu neg\u00f3cio&#8230; <i>(Abaixando a voz.)<br \/>\n    <\/i>\u00c9 coisa papa-fina e barata.<\/p>\n<p><strong>CENA VIII<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, GUSTAVO <\/strong><strong><i>o <\/i><\/strong><strong>COMPRADOR,<br \/>\n    SEBASTI\u00c3O, SERAFIM, <\/strong><strong><i>o <\/i><\/strong><strong>CAIXEIRO, <\/strong><strong><i>tr\u00eas<br \/>\n    mulatas.<\/i><\/strong><\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Empurrando as mulatas.) &#8211; <\/i>Vamos! Depressa! Negro n\u00e3o tem<br \/>\n    vergonha! Olha que ar de santa tem esta descarada! Tiro-te a santidade com<br \/>\n    couro cru! Formem as tr\u00eas para este lado!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Assim! <i>(\u00c0 parte.) <\/i>Tenho homem.<\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Ao Comprador.) <\/i>Foi o senhor que pediu as mulatas? Ei-las!<br \/>\n    Veja que tr\u00eas mucamas espl\u00eandidas? <i>(\u00e0 parte.) <\/i>Ol\u00e1! o Raposo c\u00e1ften!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(\u00c0 parte, indicando Salazar.) &#8211; <\/i>Ainda n\u00e3o achei situa\u00e7\u00e3o azada<br \/>\n    para lhe dar o bote&#8230; Preciso muito&#8230; muito&#8230;<\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Indicando as mulatas.) &#8211; <\/i>Esta daqui cozinha, lava e engoma<br \/>\n    perfeitamente. Aquela engoma, lava e cozinha admiravelmente. Aquela outra<br \/>\n    cozinha, engoma e lava como ningu\u00e9m ainda cozinhou, lavou e engomou neste<br \/>\n    mundo.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Possuem ainda uns dengues baianos, mas que se tiram com o chicote!<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Vai bem servido. <i>(A uma das mulatas.) <\/i>Faze a\u00ed um dengue,<br \/>\n    para aqui o senhor apreciar. Vamos l\u00e1! Dize assim: <i>\u00d3 <\/i>gentes, ioi\u00f4!<br \/>\n    Mec\u00ea tem partes! <i>(As mulatas conservam-se cabisbaixas e silenciosas.) <\/i>Fala,<br \/>\n    desavergonhada!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O <i>(Baixo a Serafim.) &#8211; <\/i>Deixe-se de patuscadas&#8230; O neg\u00f3cio<br \/>\n    \u00e9 coisa muito s\u00e9ria.<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Ao Comprador.) &#8211; <\/i>Que tal?<\/p>\n<p>COMPRADOR &#8211; Bom frontisp\u00edcio. <i>(A uma mulata.) <\/i>Abre a boca, rapariga.<br \/>\n    Boa dentadura! <i>(Passa-lhe grosseiramente a m\u00e3o pela face e pelos cabelos,<br \/>\n    vira-a e examina-a de todos os lados.) <\/i>Boa pe\u00e7a, sim, senhor! Tira fora<br \/>\n    este pano. <i>(A mulata n\u00e3o obedece.)<\/i><\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Tira fora este pano; n\u00e3o ouves? <i>(Arranca o pano e atira-o violentamente<br \/>\n    fora. A mulata corre a apanh\u00e1-lo, mas Sebasti\u00e3o empurra-a. Ela volta ao lugar<br \/>\n    e desfaz-se em pranto, cobrindo os seios com as m\u00e3os.}<\/i><\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Olhem! Quer ter pudor! Onde j\u00e1 se viu isto? Negra com pudor!<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; E chora! Ora n\u00e3o querem ver! Cachorra! Daqui a pouco \u00e9 que h\u00e1s<br \/>\n    de chorar deveras!<\/p>\n<p>COMPRADOR <i>(A Salazar, baixo.) &#8211; <\/i>Por esta que est\u00e1 chorando dou vinte<br \/>\n    e cinco, neg\u00f3cio fechado.<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Baixo.) &#8211; <\/i>Menos de trinta, nem um real&#8230; Tem pudor, homem!<br \/>\n    <i>(A Serafim.) <\/i>Leve-as. <i>(Sai Serafim, empurrando na sua frente as<br \/>\n    mulatas. Sai igualmente o Caixeiro.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA IX<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, o COMPRADOR, SEBASTI\u00c3O, GUSTAVO<\/strong><\/p>\n<p><strong><i>(Dois grupos. Salazar conversa com o Comprador, Sebasti\u00e3o com<br \/>\n    Gustavo.)<\/i><\/strong><\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(A Sebasti\u00e3o.) &#8211; <\/i>Estou em talas.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Como sempre.<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Mas desta vez a coisa \u00e9 s\u00e9ria, uma d\u00edvida de honra!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; J\u00e1 conhe\u00e7o as suas d\u00edvidas de honra: pagar a conta de alguma<br \/>\n    cocote.<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Juro-lhe que a coisa \u00e9<i> <\/i>de gravidade. Uma ninharia: quatrocentos<br \/>\n    mil r\u00e9is; mas, se os n\u00e3o arranjo, sou bem capaz de fazer saltar os miolos!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Seria sua primeira a\u00e7\u00e3o de ju\u00edzo.<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Acha que meu pai me negar\u00e1 esse dinheiro? Vou dar-lhe o bote!<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O &#8211; Se eu fosse seu pai, n\u00e3o lho daria, porque tenho a certeza de<br \/>\n    que voc\u00ea iria perd\u00ea-lo, at\u00e9 o \u00faltimo vint\u00e9m, na banca francesa.<\/p>\n<p>COMPRADOR <i>(A Salazar.) &#8211; <\/i>Pois ent\u00e3o est\u00e1 conclu\u00eddo o neg\u00f3cio. Hoje<br \/>\n    mesmo virei busc\u00e1-las.<\/p>\n<p>SEBASTI\u00c3O <i>(Ao Comprador.) &#8211; <\/i>Mas o senhor ainda n\u00e3o viu toda a gente<br \/>\n    que temos! Talvez encontre alguma que lhe agrade. Venha contempl\u00e1-la. <i>(Saem<br \/>\n    juntos.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA X<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, GUSTAVO<\/strong><\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Quero pedir-lhe um favor, meu pai.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Dinheiro? N\u00e3o h\u00e1!<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; N\u00e3o h\u00e1, j\u00e1 disse! N\u00e3o me aborre\u00e7a!<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; \u00c9 que&#8230;<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; N\u00e3o h\u00e1 qu\u00eas, nem k\u00e1s; ganhe-o com o suor de seu rosto, que eu n\u00e3o<br \/>\n    estou para alimentar v\u00edcios de malandros! <i>(Sai.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA XI<\/strong><\/p>\n<p><strong>GUSTAVO, <\/strong><strong><i>depois <\/i><\/strong><strong>LOUREN\u00c7O<\/strong><\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(S\u00f3.) &#8211; <\/i>Estou a bra\u00e7os com um caiporismo medonho! H\u00e1 tr\u00eas<br \/>\n    dias que n\u00e3o ganho uma parada! N\u00e3o me ponho no prego, por ser dif\u00edcil achar<br \/>\n    quem me queira! Joguei quatrocentos mil r\u00e9is sob palavra e n\u00e3o tenho com que<br \/>\n    os pagar! Os amigos a quem posso recorrer ou j\u00e1 s\u00e3o meus credores, ou s\u00e3o<br \/>\n    t\u00e3o forrecas como eu. Palavra que n\u00e3o sei de que expediente lan\u00e7ar m\u00e3o. <i>(Louren\u00e7o<br \/>\n    entra de mansinho e vem colocar-se junto de Gustavo, sem que ele o veja.)<\/i><\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; Vossemec\u00ea est\u00e1 incomodado?<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Ah! Louren\u00e7o, pregaste-me um susto! Estou incomodado, sim.<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; E Louren\u00e7o n\u00e3o pode saber?<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Ora! Saber para qu\u00ea? Que rem\u00e9dio podes dar-me? O que eu quero \u00e9<br \/>\n    dinheiro! \u00c9 de dinheiro que eu preciso! Tu o tens para mo emprestar?<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Tirando do bolso, dinheiro embrulhado num len\u00e7o sujo.) &#8211; <\/i>Aqui<br \/>\n    est\u00e3o minhas economias, juntadas vint\u00e9m por vint\u00e9m&#8230; Se vossemec\u00ea precisa,<br \/>\n    Louren\u00e7o faz muito gosto&#8230;<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Abrindo o embrulho e contando avidamente o dinheiro.) &#8211; <\/i>Cento<br \/>\n    e vinte mil, seiscentos e vinte r\u00e9is&#8230; <i>(\u00c0 parte.) <\/i>Soma esquisita!<br \/>\n    Oh! que palpite! Em meia d\u00fazia de paradas, isto pode render um conto de r\u00e9is!<br \/>\n    Louren\u00e7o, daqui a pouco te restituirei esse dinheiro e mais vinte mil r\u00e9is<br \/>\n    de gratifica\u00e7\u00e3o. <i>(Sai correndo.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA XII<\/strong><\/p>\n<p><strong>LOUREN\u00c7O, <\/strong><strong><i>depois <\/i><\/strong><strong>GABRIELA,<br \/>\n    CAROLINA<\/strong><\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Ergue os olhos aos c\u00e9us e enxuga uma l\u00e1grima.) &#8211; <\/i>O jogo,<br \/>\n    sempre o jogo! N\u00e3o posso, n\u00e3o devo, n\u00e3o quero sair de junto dele.<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Entrando com Carolina.) &#8211; <\/i>Louren\u00e7o, onde est\u00e1 o senhor Salazar?<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; No escrit\u00f3rio do guarda-livros.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Carolina, vai l\u00e1 dentro ter com teu pai. V\u00ea como lhe fazes o pedido.<br \/>\n    Lembra-te de que ele \u00e9 arrebatado; s\u00f3 com muita brandura se pode lev\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; N\u00e3o lhe d\u00ea cuidado, mam\u00e3e&#8230; <i>(Saindo, a Louren\u00e7o.) <\/i>Trata-se<br \/>\n    de vossemec\u00ea senhor Louren\u00e7o&#8230; Veja l\u00e1 como lhe queremos bem! <i>(Sai.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA XIII<\/strong><\/p>\n<p><strong>LOUREN\u00c7O, GABRIELA<\/strong><\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Baixo e em tom de amea\u00e7a.) &#8211; <\/i>N\u00e3o quero absolutamente afastar-me<br \/>\n    de junto dele.<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Muito nervosa.) &#8211; <\/i>Sim, sim&#8230; Farei tudo quanto estiver<br \/>\n    ao meu alcance, mas n\u00e3o fales nesse tom, porque se nos ouvem&#8230;<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; N\u00e3o tenhas susto; h\u00e1 vinte e dois anos que guardo este segredo,<br \/>\n    e ainda n\u00e3o pronunciei uma palavra que pudesse despertar desconfian\u00e7as. Prometo<br \/>\n    guard\u00e1-lo at\u00e9 \u00e0 morte, se a senhora fizer que eu me conserve sempre ao lado<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Sim&#8230; prometo&#8230; prometo&#8230; <i>(\u00c0 parte.) <\/i>Oh! Deus! mere\u00e7o<br \/>\n    eu tamanho castigo? <i>(Alto.) <\/i>Sai daqui&#8230; Aproxima-se o senhor Salazar.<br \/>\n    <i>(Louren\u00e7o sai.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA XIV<\/strong><\/p>\n<p><strong>GABRIELA, SALAZAR, CAROLINA<\/strong><\/p>\n<p>CAROLINA <i>(A Salazar.) &#8211; <\/i>Perdoe ainda esta vez. Garanto-lhe que de<br \/>\n    hoje em diante ele abaixar\u00e1 a vista quando estiver, em sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; T\u00e1 t\u00e1 t\u00e1! O Louren\u00e7o segue amanh\u00e3 com o lote tocado pelo Sebasti\u00e3o,<br \/>\n    e vai apanhar caf\u00e9 na fazenda, com instru\u00e7\u00f5es ao Evaristo para castig\u00e1-lo<br \/>\n    com todo o rigor \u00e0 menor falta. \u00c9 resolu\u00e7o inabal\u00e1vel! N\u00e3o cederei aos anjos<br \/>\n    do c\u00e9u, que venham em comiss\u00e3o.<\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Com voz tr\u00eamula pela como\u00e7\u00e3o.) &#8211; <\/i>Se as minhas palavras n\u00e3o<br \/>\n    o comovem, meu pai, ao menos as minhas l\u00e1grimas&#8230; <i>(Desata em pranto.)<\/i><\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Valha-me Deus! Vem c\u00e1, pequena, dize-me: que interesse t\u00eam voc\u00eas<br \/>\n    em proteger aquele tratante?<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; N\u00e3o \u00e9 interesse, senhor, \u00e9 amizade. O Louren\u00e7o \u00e9 cria de fam\u00edlia&#8230;<br \/>\n    viu-a nascer&#8230; e ao Gustavo. Trouxe-os ao colo. Tratou-os sempre com carinho.<br \/>\n    Al\u00e9m disso, \u00e9 bom escravo: o senhor, s\u00f3 o senhor antipatiza com ele.<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Sem raz\u00e3o, sem raz\u00e3o. Aquilo nele \u00e9 natural. Cada qual como nasceu.<br \/>\n    Vossemec\u00ea preferia que o Louren\u00e7o fosse desses escravos que na frente se derretem<br \/>\n    em humilha\u00e7\u00f5es e por detr\u00e1s s\u00e3o inimigos encarni\u00e7ados de seus senhores?<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Depois de uma pausa.) &#8211; <\/i>Bem&#8230; Ainda desta vez, cedo.<\/p>\n<p>AS DUAS &#8211; Ah!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Mas sob uma condi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Qual?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; De me deixarem livre e desembara\u00e7adamente ir-lhe ao p\u00ealo, quando<br \/>\n    n\u00e3o andar muito direitinho.<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Pois bem.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Levem-no com todos os diabos!<\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Abra\u00e7ando-o.) &#8211; <\/i>Ah! obrigado, paizinho. Louren\u00e7o! <i>(Louren\u00e7o<br \/>\n    aparece.) <\/i>Vamos para casa. Vem conosco.<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(A Louren\u00e7o.) &#8211; <\/i>V\u00e1 l\u00e1, mas sem exemplo! Agrade\u00e7a \u00e0 sinhazinha,<br \/>\n    ladr\u00e3o. <i>(Ouve dentro pancadaria e choradeira.) <\/i>Que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Enquanto Salazar volta as costas.) &#8211; <\/i>Vamos, vamos! <i>(Sai<br \/>\n    com Carolina. Louren\u00e7o acompanha-as.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA XV<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, SERAFIM<\/strong><\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Trazendo um vergalho em uma das m\u00e3os e uma grande palmat\u00f3ria<br \/>\n    na outra.) &#8211; <\/i>Arre! Estreei-me perfeitamente!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Que foi?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Esta corja de moleques e negrinhas! Faziam uma algazarra de ensurdecer!<br \/>\n    Distribu\u00ed chicotadas da direita para a esquerda! N\u00e3o perdi uma!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Toque! O senhor \u00e9 o homem que me serve! <i>(Depois de lhe apertar<br \/>\n    a m\u00e3o.) <\/i>Vou v\u00ea-los! Vou v\u00ea-los! <i>(Sai.)<\/i><\/p>\n<p>SERAFIM (<i>S\u00f3.)<\/i> &#8211; Que dir\u00e3o os meus colegas do Clube Abolicionista Pai<br \/>\n    Tom\u00e1s?<\/p>\n<p><strong>FIM DO PRIMEIRO ATO<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>&nbsp;<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><strong>ATO SEGUNDO<\/strong><\/a><\/h4>\n<p><strong><i>Em casa de Salazar.<\/i><\/strong><\/p>\n<p><strong>CENA I<\/strong><\/p>\n<p><strong>DOUTOR ENG\u00caNIO, CAROLINA <\/strong><strong><i>ao piano<\/i><\/strong><\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; N\u00e3o gosta desta <i>habanera?<\/i><\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Prefiro a mais vulgar m\u00fasica a um trecho sublime de Beethoven ou<br \/>\n    de Mozart&#8230;<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Como assim?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Quando esta m\u00fasica vulgar \u00e9 executada pelos seus dedos.<\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Enleada.) &#8211; <\/i>Oh! Doutor&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o me trate pelo meu t\u00edtulo; as afei\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas<br \/>\n    excluem essas formalidades banais. A sua cerim\u00f4nia faz-me supor n\u00e3o ser correspondido.<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Oh! porventura v\u00ea alguma coisa em mim que possa autorizar esse<br \/>\n    ju\u00edzo?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; S\u00f3 tenho lido nos seus olhos, amor, candura e inoc\u00eancia. Oh! amo-a<br \/>\n    muito, adoro-a, Carolina! Tenho uma vaga reminisc\u00eancia de haver visto o seu<br \/>\n    semblante em um mundo ideal&#8230; no mundo dos sonhos talvez! <i>(\u00c0 parte.) <\/i>Flor<br \/>\n    entre cardos! P\u00e9rola no lameir\u00e3o! A eterna ant\u00edtese! Oh! mas hei de tir\u00e1-la<br \/>\n    pura do meio impuro em que vive. Porque amo-a!<\/p>\n<p><strong>CENA II<\/strong><\/p>\n<p><strong>OS MESMOS, JOSEFA<\/strong><\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Entrando a praquejar.) &#8211; M\u00e1 <\/i>raios te partam, te enconjuro,<br \/>\n    credo! Que azucrina\u00e7\u00e3o de todos os diabos! Esta molecada n\u00e3o me deixa sossegar!<br \/>\n    <i>(Vendo o doutor e Carolina.) <\/i>E estes dois aqui sozinhos! Que pouca<br \/>\n    vergonha! Vou participar ao mano que n\u00e3o posso mais viver nesta casa! De todos<br \/>\n    os lados s\u00f3 se v\u00ea m\u00e1-cria\u00e7\u00e3o, patifaria e pouca vergonha!<\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Deixando o piano.) &#8211; <\/i>Est\u00e1 zangada, tia Josefa?<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Estou, sim! Pois se aqui ningu\u00e9m me respeita, ningu\u00e9m faz caso de<br \/>\n    mim. Sou um dois-de-paus!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Engana-se.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Deixe-me falar&#8230; que eu s\u00f3 falo quando tenho rez\u00e3o<i>.<\/i> Mandei<br \/>\n    um desses moleques \u00e0 venda comprar quatro vint\u00e9ns de pimenta-do-reino e o<br \/>\n    diabo levou duas horas na rua. Que lembran\u00e7a teve o mano em mandar para c\u00e1<br \/>\n    os negros que n\u00e3o couberam na Casa de Comiss\u00e3o! \u00c9 uma negralhada, que nem<br \/>\n    santo pode aturar!<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Por\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Deixe-me falar, com a breca! N\u00e3o fazem caso de mim os tais senhores<br \/>\n    negros! Se dou uma ordem, ela entra por um ouvido e sai por outro. Ainda ontem<br \/>\n    disse \u00e0 pernambucana que queria o meu vestido de fust\u00e3o engomado hoje, e at\u00e9<br \/>\n    agora a excomungada nem ao menos o p\u00f4s na goma.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Deixe-me falar, homem de Deus! Eu levantava as m\u00e3os para o c\u00e9u e<br \/>\n    acendia uma vela a Nossa Senhora das Candeias, no dia em que visse enforcados<br \/>\n    todos os negros desta terra! <i>(Olhando ironicamente para o doutor Eug\u00eanio.)<br \/>\n    <\/i>Eu bem sei que esta opini\u00e3o desagrada a certos sujeitinhos que s\u00e3o abolicionistas,<br \/>\n    mas andam \u00e0 coca de meninas que tem escravos.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Perd\u00e3o, parece-me&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Deixe-me falar&#8230; <i>(Carolina toma o doutor pela m\u00e3o e leva-o para<br \/>\n    o jardim. Josefa n\u00e3o d\u00e1 pela sa\u00edda dos dois.) <\/i>Se a carapu\u00e7a serviu a algu\u00e9m,<br \/>\n    esse algu\u00e9m que a deite na cabe\u00e7a, e v\u00e1 para todos os diabos, que eu n\u00e3o tenho<br \/>\n    a quem dar satisfa\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o as dava nem a meu pai, que ressuscitasse! <i>(Vendo-se<br \/>\n    s\u00f3.) <\/i>Foram-se? n\u00e3o importa! Hei de falar at\u00e9 n\u00e3o poder mais! Hei de falar<br \/>\n    mesmo sozinha, porque com certeza algu\u00e9m estar\u00e1 escutando \u00e0 porta. Doutor<br \/>\n    das d\u00fazias! ainda aqui com partes de abolicionista, e quer casar com a filha<br \/>\n    de um homem que ele sabe que tem toda a sua fortuna em escravos. Ah! inveja!<br \/>\n    inveja!<\/p>\n<p><strong>CENA III<\/strong><\/p>\n<p><strong>JOSEFA, SERAFIM<\/strong><\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Senhora dona Josefa, o patr\u00e3o manda buscar as crioulas Jacinta<br \/>\n    e Quit\u00e9ria.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Ah! \u00c9 voc\u00ea? Sente-se aqui e ou\u00e7a-me <i>(Obriga-o a sentar-se.) <\/i>Veja<br \/>\n    se eu tenho ou n\u00e3o rez\u00e3o quando falo. Vivo aqui no inferno, seu Serafim, sou<br \/>\n    tratada como uma negra! Ningu\u00e9m me respeita, ningu\u00e9m faz caso de mim. Estou<br \/>\n    morta por me ir embora. Aqui eu fico maluca, se j\u00e1 o n\u00e3o estou!<\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Querendo levantar-se.) &#8211; <\/i>O patr\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Obrigando-o a sentar-se.) &#8211; <\/i>Deixe-me falar! Tamb\u00e9m voc\u00ea?<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Tem toda a raz\u00e3o, mas \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Ainda ontem&#8230;<\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Mexendo-se.) &#8211; <\/i>O patr\u00e3o tem pressa!<\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Gritando.) &#8211; <\/i>Deixe-me falar! Ainda ontem tinha eu dado ordem<br \/>\n    para mudar o coradouro.<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Nada! Vou eu mesmo buscar as crioulas&#8230; <i>(Sai rapidamente.)<\/i><\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Perseguindo-o.) &#8211; <\/i>Ou\u00e7a o resto, homem do diabo! Ainda ontem&#8230;<br \/>\n    Olhe! Seu Serafim! <i>(Perde-se a voz nos bastidores.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA IV<\/strong><\/p>\n<p><strong>UM CREDOR, <\/strong><strong><i>introduzido por <\/i><\/strong><strong>LOUREN\u00c7O<\/strong><strong><i>,<br \/>\n    depois <\/i><\/strong><strong>GABRIELA<\/strong><\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; Fa\u00e7a favor de entrar&#8230; Eu vou chamar minha senhora&#8230; <i>(Sa\u00edda<br \/>\n    falsa.) <\/i>N\u00e3o \u00e9 preciso: ela a\u00ed vem. <i>(Entra Gabriela.) <\/i>Minha senhora,<br \/>\n    este senhor deseja falar com vossemec\u00ea. <i>(Gabriela cumprimenta o credor<br \/>\n    com a cabe\u00e7a. Louren\u00e7o afasta-se e fica escutando ao fundo.)<\/i><\/p>\n<p>O CREDOR &#8211; Minha senhora, eu vim procurar seu filho, o senhor Gustavo; o<br \/>\n    criado disse-me que ele n\u00e3o est\u00e1 em casa; far\u00e1 vossa excel\u00eancia o obs\u00e9quio<br \/>\n    de me informar do lugar e da ocasi\u00e3o em que poderei encontr\u00e1-lo?<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Sou a \u00faltima a saber da vida de meu filho, senhor. Raras vezes<br \/>\n    o vejo. Passam-se dias e dias que n\u00e3o vem a casa, e nunca diz para onde vai.<\/p>\n<p>O CREDOR &#8211; Se vossa excel\u00eancia me concedesse alguns momentos de aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\n    desejava fazer-lhe revela\u00e7\u00f5es importantes a respeito do senhor seu filho;<br \/>\n    revela\u00e7\u00f5es que com certeza h\u00e3o de mago\u00e1-la muito, mas que julgo necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; N\u00e3o me surpreende. J\u00e1 estou tristemente habituada aos desmandos<br \/>\n    de Gustavo; tudo tenho em v\u00e3o tentado para traz\u00ea-lo ao bom caminho. &#8211; Queira<br \/>\n    sentar-se. <i>(Sentam-se ambos.)<\/i><\/p>\n<p>O CREDOR &#8211; Mas cuido que Vossa Excel\u00eancia ignora a que ponto chegaram as<br \/>\n    coisas.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Infelizmente sei. Apaixonou-se por uma mulher perdida, e, n\u00e3o<br \/>\n    podendo suprir as despesas extraordin\u00e1rias que acarretam essas loucuras, recorre<br \/>\n    ao jogo.<\/p>\n<p>O CREDOR &#8211; Recorre a coisa pior, minha senhora.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Como?<\/p>\n<p>O CREDOR <i>(Tirando um papel do bolso.) &#8211; <\/i>Tenha a bondade de ver.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; \u00c9 uma letra de quinhentos mil r\u00e9is, assinada por meu marido.<\/p>\n<p>O CREDOR &#8211; Examine bem a assinatura.<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Lendo.) &#8211; <\/i>Pedro Salazar.<\/p>\n<p>O CREDOR &#8211; Reconhece a assinatura como do pr\u00f3prio punho do senhor Salazar?<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Depois de uma pausa.) &#8211; <\/i>Meu Deus! <i>(\u00c0 parte.) <\/i>Falsa!<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Corre, toma freneticamente a letra das m\u00e3os do credor e rasga-a.)<br \/>\n    &#8211; <\/i>Oh!<\/p>\n<p>O CREDOR &#8211; Estou duas vezes roubado! Vou ter com a Pol\u00edcia!<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Tomando-o pelo bra\u00e7o.) &#8211; <\/i>Por quem \u00e9, n\u00e3o o fa\u00e7a! \u00c9 uma m\u00e3e<br \/>\n    que lho pede! Queira esperar aqui um momento. <i>(Sai.)<\/i><\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Ajoelhando-se em frente ao Credor.) &#8211; <\/i>Por tudo quanto h\u00e1<br \/>\n    de mais sagrado, pelo amor que tem a sua m\u00e3e, n\u00e3o lhe fa\u00e7a mal, meu senhor!<br \/>\n    Juro por Maria Sant\u00edssima que lhe pagarei esse dinheiro dentro de pouco tempo,<br \/>\n    com o juro que quiser. <i>(Ergue-se.)<\/i><\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Voltando.) &#8211; <\/i>Aqui est\u00e3o algumas de minhas j\u00f3ias. Leve-as,<br \/>\n    venda-as e pague-se, senhor!<\/p>\n<p>O CREDOR <i>(Depois de uma pausa.) &#8211; <\/i>A pr\u00e1tica dos neg\u00f3cios e o atrito<br \/>\n    dos interesses ego\u00edstas blindam-nos o cora\u00e7\u00e3o e nos tornam insens\u00edveis aos<br \/>\n    dissabores alheios; por\u00e9m n\u00e3o tanto como o propalam os senhores sentimentalistas&#8230;<br \/>\n    sem vint\u00e9m. Quando \u00e9 necess\u00e1rio, temos cora\u00e7\u00e3o. Guarde as suas j\u00f3ias, minha<br \/>\n    senhora! Nada transpirar\u00e1 deste fato, e, quanto ao pagamento, fa-lo-\u00e1 quando<br \/>\n    e como lhe for poss\u00edvel. \u00c0s ordens de vossa excel\u00eancia.<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Apertando-lhe a m\u00e3o.) &#8211; <\/i>Obrigada!<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Beijando-lhe as m\u00e3os.) &#8211; <\/i>Sou um pobre escravo; mas as a\u00e7\u00f5es<br \/>\n    generosas fazem-me chorar&#8230; <i>(Sai o Credor acompanhado por Louren\u00e7o.)<\/i><\/p>\n<p>GABRIELA (<i>S\u00f3<\/i>.) &#8211; Meu Deus! meu Deus! quando acabar\u00e1 este mart\u00edrio?<br \/>\n    <i>(Cai numa cadeira a solu\u00e7ar. Disfar\u00e7a as l\u00e1grimas ao ver entrar a filha<br \/>\n    pelo bra\u00e7o do doutor.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA V<\/strong><\/p>\n<p><strong>GABRIELA, DOUTOR, CAROLINA, <\/strong><strong><i>que entram sem ver<br \/>\n    GABRIELA<\/i><\/strong><\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Tenha coragem, Eug\u00eanio! Declare-se-lhe francamente. Afian\u00e7o-lhe<br \/>\n    que ser\u00e1 bem tratado e receber\u00e1 o preciso consentimento.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o o creio, Carolina. Basta ver-me para ficar de mau humor. Vota-me<br \/>\n    uma antipatia invenc\u00edvel, leio-a nos seus olhos, no seu modo de falar, em<br \/>\n    tudo! E se, sendo t\u00e3o mal visto pelo dono da casa, ainda me atrevo a p\u00f4r aqui<br \/>\n    os p\u00e9s, \u00e9 porque&#8230; \u00e9 porque&#8230;<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Interpondo-se.) &#8211; <\/i>\u00c9 porque ama-a, e deseja casar-se com<br \/>\n    ela. Quanto a mim, honro-me muito em t\u00ea-lo por genro. Mas meu marido \u00e9 contr\u00e1rio<br \/>\n    a esta id\u00e9ia, e meu marido \u00e9 teimoso.<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Minha m\u00e3e!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Ignoro a causa desta avers\u00e3o que ele me volta.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Pois ignora?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Decerto. Sou perfeitamente inocente.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; N\u00e3o consta que o doutor tem id\u00e9ias emancipadoras?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Sim. Se bem que n\u00e3o apresente como paladino, fa\u00e7o modestamente tudo<br \/>\n    quanto posso pela causa da emancipa\u00e7\u00e3o dos escravos. <i>(Pausa.) <\/i>Estou<br \/>\n    perfeitamente convicto de que a escravid\u00e3o \u00e9 a maior das iniquidades sociais,<br \/>\n    absolutamente incompat\u00edvel com os princ\u00edpios em que se esteiam as sociedades<br \/>\n    modernas. \u00c9<i> <\/i>ela, \u00e9 s\u00f3 ela a causa real do nosso atraso material, moral<br \/>\n    e intelectual, visto como, sendo a base \u00fanica da nossa constitui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica,<br \/>\n    exerce a sua funesta influ\u00eancia sobre todos os outros ramos da atividade social<br \/>\n    que se derivam logicamente da cultura do solo. Mesmo no Rio de Janeiro, esta<br \/>\n    grande capital cosmopolita, feita de elementos heterog\u00eaneos, j\u00e1 hoje possuidora<br \/>\n    de importantes melhoramentos, o elemento servil \u00e9 a pedra angular da riqueza.<br \/>\n    O estrangeiro que o visita, maravilhado pelos esplendores da nossa incompar\u00e1vel<br \/>\n    natureza, mal suspeita das amargas decep\u00e7\u00f5es que o esperam. Nos ricos pal\u00e1cios<br \/>\n    como nas vivendas burguesas, nos estabelecimentos de instru\u00e7\u00e3o como nos de<br \/>\n    caridades, nas ruas e pra\u00e7as p\u00fablicas, nos jardins e parques, nos pitorescos<br \/>\n    e decantados arrabaldes, no cimo dos montes, onde tudo respira vida e liberdade,<br \/>\n    no \u00edntimo do lar dom\u00e9stico, por toda a parte, em suma, depara-se-lhe o sinistro<br \/>\n    aspecto do escravo, exalando um gemido de dor, que \u00e9 ao mesmo tempo uma impreca\u00e7\u00e3o<br \/>\n    e um protesto. E junto do negro o azorrague, o tronco e a for\u00e7a, tr\u00edpode l\u00fagubre<br \/>\n    em que se baseia a prosperidade do meu pa\u00eds! Oh! n\u00e3o! Cada dia que continua<br \/>\n    este estado de coisas, \u00e9 uma cusparada que se lan\u00e7a \u00e0 face da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\n    e da humanidade! Sei que me acoimar\u00e3o de idealista, alegando que n\u00e3o se governam<br \/>\n    na\u00e7\u00f5es com sentimentalismos e ret\u00f3ricas. Pois bem, h\u00e1 um fato incontroverso<br \/>\n    e palp\u00e1vel, que vem corroborar as minhas utopias. E sabido que os imigrantes<br \/>\n    estrangeiros n\u00e3o procuram o Brasil ou n\u00e3o se conservam nele, por n\u00e3o quererem<br \/>\n    emparceirar-se com os escravos. A escravid\u00e3o \u00e9 uma barreira insuper\u00e1vel \u00e0<br \/>\n    torrente imigrat\u00f3ria. Portanto penso que s\u00f3 h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o para o problema<br \/>\n    da transforma\u00e7\u00e3o do trabalho: a espada de Alexandre!<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Muito bem, Eug\u00eanio: daria um jornalista espl\u00eandido!<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; As suas id\u00e9ias, doutor, chegaram aos ouvidos do senhor Salazar,<br \/>\n    e foi quanto bastou para consider\u00e1-lo seu inimigo natural. <i>(Ouve-se a voz<br \/>\n    de Josefa, que descomp\u00f5e algu\u00e9m, gritando.)<\/i><\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Nesse caso, deverei perder as esperan\u00e7as, porque, acima dos impulsos<br \/>\n    do meu cora\u00e7\u00e3o, acham-se os princ\u00edpios sagrados da liberdade e do direito<br \/>\n    conculcado.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Mas n\u00e3o perca a esperan\u00e7a. Com paci\u00eancia muito se conseguir\u00e1.<br \/>\n    Sobretudo, n\u00e3o precipite os acontecimentos.<\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Que ouve a voz de Josefa, a qual n\u00e3o tem cessado de ralhar.)<br \/>\n    <\/i>Titia Josefa destemperou! Vou bulir com ela! <i>(Alto.) <\/i>\u00d3<i> <\/i>titia,<br \/>\n    que \u00e9 l\u00e1 isso, pegou fogo na casa?<\/p>\n<p>A VOZ DE JOSEFA <i>(Mais pr\u00f3xima, enquanto o doutor conversa com Gabriela.)<br \/>\n    &#8211; <\/i>Tamb\u00e9m voc\u00ea, sua delambida? Quer tomar ch\u00e1 de garfo comigo? Vem para<br \/>\n    c\u00e1, que te ponho as orelhas em piment\u00e3o!<\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Sempre \u00e0 porta.) &#8211; <\/i>N\u00e3o seja t\u00e3o mazinha, titia do cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n    <i>(Foge para junto da m\u00e3e.)<\/i><\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Nos bastidores.) &#8211; <\/i>Tomara que j\u00e1 chegue o dia da minha morte,<br \/>\n    s\u00f3 para ver se eu descanso um dia na minha vida. <i>(Atravessa a cena com<br \/>\n    uma vassoura na m\u00e3o e uma ca\u00e7arola na outra.) <\/i>Amanh\u00e3<i> <\/i>me mudo desta<br \/>\n    casa. N\u00e3o posso mais com esta vida! Que inferneira! te arrenego! <i>(Sai.<br \/>\n    Carolina arremeda-a.)<\/i><\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Venha c\u00e1, titia, olhe, escute!<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Ao doutor.) &#8211; <\/i>Depois de amanh\u00e3 vamos para a fazenda, onde<br \/>\n    passaremos um m\u00eas. O doutor n\u00e3o nos quer fazer companhia?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Eu? Depois do que acabo de saber?<\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Que se tem aproximado.) &#8211; <\/i>Sem d\u00favida que h\u00e1 de ir, e por<br \/>\n    isso mesmo. Papai ter\u00e1 l\u00e1 muito pouca gente com quem se entreter, e ser\u00e1 obrigado<br \/>\n    a fazer as pazes com o senhor. Eu serei a intermedi\u00e1ria. Ele n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mau<br \/>\n    como dizem.<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Al\u00e9m disso, o ar do campo tem a virtude de abrandar um tanto&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Bem; nesse caso, aceito&#8230; <i>(Baixo a Carolina, passando.) <\/i>A<br \/>\n    tudo me sujeito para estar ao p\u00e9 de ti. <i>(Apertando-lhe a m\u00e3o.) <\/i>Adeus!\n  <\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; At\u00e9 quando?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; At\u00e9 sempre. <i>(Aperta a m\u00e3o de Gabriela.) <\/i>Dona Gabriela&#8230;\n  <\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; At\u00e9 sempre, doutor&#8230;<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Apare\u00e7a para combinarmos na viagem. <i>(O doutor cumprimenta e<br \/>\n    sai. \u00c0 m\u00e3e.) <\/i>Felizmente Eug\u00eanio \u00e9 o m\u00e9dico da casa&#8230; Se n\u00e3o fosse isso,<br \/>\n    papai seria capaz de dar a entender que o n\u00e3o queria ver aqui&#8230;<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; E se ainda o n\u00e3o deu, \u00e9 por ignorar que ele te requesta. Mas vamos<br \/>\n    para dentro. <i>(Toma as j\u00f3ias.)<\/i><\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; As suas j\u00f3ias? Por que est\u00e3o aqui?<\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Por nada&#8230; Vamos, Carolina. <i>(Saem.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA VI<\/strong><\/p>\n<p><strong>SERAFIM, <\/strong><strong><i>entrando a tocar duas escravas diante<br \/>\n    de si, e acompanhado por <\/i><\/strong><strong>JOSEFA<\/strong><\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Mas ou\u00e7a, homem de Deus!<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Desculpe, minha senhora, desculpe, n\u00e3o posso ouvir. A senhora j\u00e1<br \/>\n    me tem demorado tanto! \u00c9<i> <\/i>at\u00e9 poss\u00edvel que o patr\u00e3o me ponha no andar<br \/>\n    da rua! Eu sou t\u00e3o caipora&#8230; sou um tipo t\u00e3o arrebentado! Vamos raparigas!<br \/>\n    Vamos! Toca!<\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Tomando-o pelo bra\u00e7o.) &#8211; <\/i>Ou\u00e7a, e veja se n\u00e3o tenho raz\u00e3o<i><br \/>\n    <\/i>quando falo&#8230; escute&#8230;<\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Virgem Nossa Senhora! N\u00e3o posso agora! Estou com muita pressa!<br \/>\n    Logo mais!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; N\u00e3o, h\u00e1 de ser j\u00e1&#8230; escute! <i>(Serafim sai correndo, tocando as<br \/>\n    negras adiante de si. \u00c0 porta.) <\/i>Malcriado! Trampolineiro! <i>(Indo \u00e0 janela.)<br \/>\n    <\/i>Patife! Desavergonhado! Vou descomp\u00f4-lo pela janela do beco! <i>(Saindo.)<br \/>\n    <\/i>H\u00e1s de pagar-me! Hei de ensinar-te a prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas mais velhas!<br \/>\n    <i>(Sai gritando sempre. A cena fica vazia por alguns momentos. Por algum<br \/>\n    tempo, ouve-se ao longe a voz de Josefa. Entra Gustavo e atira, de mau humor,<br \/>\n    o chap\u00e9u ao ch\u00e3o.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA VII<\/strong><\/p>\n<p><strong>GUSTAVO, <\/strong><strong><i>depois <\/i><\/strong><strong>LOUREN\u00c7O<\/strong><\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Desgra\u00e7a! Desgra\u00e7a! S\u00f3 me falta, para solu\u00e7\u00e3o final, cravar uma<br \/>\n    bala nos miolos. J\u00e1 o tentei uma vez, mas falhou-me a energia e tremeu-me<br \/>\n    o bra\u00e7o. <i>(Louren\u00e7o ao fundo espreita-o.) <\/i>Uma coisa por demais! N\u00e3o<br \/>\n    h\u00e1 meio de desforrar mil r\u00e9is que sejam! <i>(Pausa.) <\/i>Mas \u00e9 indispens\u00e1vel,<br \/>\n    urgente, imprescind\u00edvel, que eu, de qualquer modo, resgate aquela letra, para<br \/>\n    ao menos ressalvar o resto de vergonha e honradez compat\u00edvel com a deplor\u00e1vel<br \/>\n    vida que levo! <i>(Atira-se no sof\u00e1 e fecha os olhos. Pausa.) <\/i>Treze&#8230;<br \/>\n    Treze&#8230; Quatorze! Quinze! Chorrilho de grandes! Em um quarto de hora posso<br \/>\n    ganhar uma fortuna, deixando a dobrar! <i>(Abre os olhos, olha em roda de<br \/>\n    si e aponta para o gabinete.) <\/i>\u00c9 ali. <i>(Tirando uma chave do bolso.)<br \/>\n    <\/i>A chave cabe perfeitamente&#8230; Tiro o dinheiro, e em menos de meia hora<br \/>\n    o reponho! Ningu\u00e9m o saber\u00e1. <i>(Dirige-se para o gabinete e estaca na porta.)<br \/>\n    <\/i>Gustavo! Gustavo! que vais fazer? Miser\u00e1vel! Ah! Por\u00e9m&#8230; Ora! N\u00e3o h\u00e1<br \/>\n    d\u00favida! Bastar\u00e1 um chorrilho de oito grandes para endireitar tudo! <i>(Sai.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA VIII<\/strong><\/p>\n<p><strong>LOUREN\u00c7O, <\/strong><strong><i>depois <\/i><\/strong><strong>GUSTAVO<\/strong><\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Que tem acompanhado ao fundo todo o mon\u00f3logo de Gustavo, dirige-se<br \/>\n    \u00e0 porta do gabinete e espreita.) &#8211; <\/i>Que faz ele? Jesus! Miseric\u00f3rdia! Abre<br \/>\n    a secret\u00e1ria com uma chave falsa! Ah! n\u00e3o! custe o que custar, hei de impedir<br \/>\n    aquela inf\u00e2mia, que o desonra&#8230; e que me desonra tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Voltando, sem ver Louren\u00e7o, contando o dinheiro.) &#8211; <\/i>Trezentos!<br \/>\n    Trezentos e cinquenta! Um chorrilho de oito grandes \u00e9 coisa muito comum nos<br \/>\n    dados. Pondo cinquenta mil r\u00e9is a dobrar, levanto quatro contos e oitocentos<br \/>\n    num abrir e fechar d&#8217;olhos! <i>(Vai a sair.)<\/i><\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Interpondo-se.) &#8211; <\/i>D\u00ea-me isto?!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Surpreendido.) &#8211; <\/i>Isto qu\u00ea?!<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; D\u00ea c\u00e1 este dinheiro!<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Enlouqueceste! Quem \u00e9s tu para me falares assim?<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; Eu, Louren\u00e7o. Sou eu.<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Arreda, b\u00eabado! Deixa-me passar!<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; N\u00e3o h\u00e1 de sair daqui com o que tem na m\u00e3o!<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; N\u00e3o estou agora para aturar-te a cacha\u00e7a! Se estivesses bom da<br \/>\n    cabe\u00e7a, pagavas-me caro o desaforo! <i>(Vai a sair.)<\/i><\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Colocando-se na porta.) &#8211; <\/i>N\u00e3o sair\u00e1 sem me entregar este<br \/>\n    dinheiro!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Encolerizado.) &#8211; <\/i>Deixa-me, diabo!<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; N\u00e3o! <i>(Segura Gustavo, que tenta sair.)<\/i><\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; C\u00e3o! Olha que \u00e9s um negro cativo, e eu sou teu senhor!<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O &#8211; Pouco importa! N\u00e3o posso consentir no que faz! Entregue-me o dinheiro!<br \/>\n    <i>(Pequena luta, finda a qual, Louren\u00e7o tem-se apoderado do dinheiro.)<\/i><\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Miser\u00e1vel! Ladr\u00e3o! Patife! Corto-te a chicote! <i>(D\u00e1-lhe uma bofetada<br \/>\n    no momento em que aparece Gabriela.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA IX<\/strong><\/p>\n<p><strong>LOUREN\u00c7O, GUSTAVO, GABRIELA<\/strong><\/p>\n<p>GABRIELA &#8211; Louren\u00e7o! Gustavo! Meu Deus!&#8230;<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Em tom singular.) &#8211; <\/i>Esta bofetada ser\u00e1 um direito perante<br \/>\n    os homens, mas perante Deus \u00e9 um sacril\u00e9gio. Eu&#8230;<\/p>\n<p>GABRIELA <i>(Correndo para Louren\u00e7o.) &#8211; <\/i>Louren\u00e7o, n\u00e3o o digas!<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Desvencilhando-se.) &#8211; <\/i>Eu sou teu pai! <i>(Tomando Gabriela<br \/>\n    pelo bra\u00e7o.) <\/i>Negue! Negue, se \u00e9 capaz! <i>(Gabriela d\u00e1 um grito e cai<br \/>\n    desfalecida. Longa pausa. Gustavo fulminado recua paulatinamente, fitando<br \/>\n    Louren\u00e7o com o olhar desvairado. Entra Salazar, que estaca no fundo ao ver<br \/>\n    a cena.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA X<\/strong><\/p>\n<p><strong>OS MESMOS, SALAZAR<\/strong><\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Descendo.) &#8211; <\/i>Que \u00e9 isto?! Minha mulher desmaiada&#8230; Meu filho<br \/>\n    desvairado&#8230; Este negro&#8230; <i>(Vendo dinheiro.) <\/i>Dinheiro! <i>(Tomando-lhe<br \/>\n    das m\u00e3os.) <\/i>Dinheiro?! Onde o roubaste?<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(Caindo de joelhos a solu\u00e7ar.) &#8211; <\/i>Da sua secret\u00e1ria, meu senhor.<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Col\u00e9rico.) &#8211; <\/i>Ladr\u00e3o! Al\u00e9m do mais, \u00e9 ladr\u00e3o!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Como voltando a si, febrilmente.) &#8211; <\/i>Negro?! Eu! Filho de<br \/>\n    um escravo! Oh!&#8230; Imposs\u00edvel! Meu Deus!<\/p>\n<p><strong><i>FIM DO SEGUNDO ATO<\/i><\/strong><\/p>\n<p><strong><i><\/i><\/strong>&nbsp;<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><strong>ATO TERCEIRO<\/strong><\/a><\/h4>\n<p><i>Na fazenda do Pouso-alto. Sala interior, vendo-se ao fundo o terreiro,<br \/>\n    com dep\u00f3sito de cereais e aparelhos agr\u00edcolas. Arvoredos, etc., etc. Ao levantar<br \/>\n    do pano, ouve-se a voz do feitor dando ordens.<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA I<\/strong><\/p>\n<p><strong>JOSEFA, EVARISTO<\/strong><\/p>\n<p>A VOZ DE EVARISTO &#8211; Se n\u00e3o tens for\u00e7a, vou eu ensinar-te<i>! (Ouve-se estalar<br \/>\n    o chicote) <\/i>Tira o couro deste animal! Grita, burro, que quanto mais barulho<br \/>\n    fizeres, pior ser\u00e1. <i>(Gemidos de dor.) <\/i>Levem-no para o ro\u00e7ado novo,<br \/>\n    \u00e0 beira d&#8217;\u00e1gua, amarrem-no a um tronco de \u00e1rvore! L\u00e1 poder\u00e1 berrar \u00e0<br \/>\n    vontade. <i>(Esvaem-se os gemidos e a voz.)<\/i><\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Entrando.) &#8211; <\/i>\u00c9<i> <\/i>s\u00f3 o que se v\u00ea <i>desde menh\u00e3 <\/i>at\u00e9<br \/>\n    de noite! Negro, caf\u00e9, chicote, tronco; tronco; caf\u00e9, chicote, negro. <i>Despois<\/i><br \/>\n    que aqui <i>cheguemos, <\/i>h\u00e1 mais de quinze dias, inda n\u00e3o vi nem ouvi outra<br \/>\n    coisa! Quem \u00e9 que pode com esta vida? <i>Despois <\/i>dizem que eu sou faladeira&#8230;<br \/>\n    Eu s\u00f3 falo quando tenho <i>rez\u00e3o. <\/i>Se n\u00e3o querem me ouvir, vou pro meio<br \/>\n    do cafezal, e hei de falar, falar, at\u00e9 n\u00e3o poder mais! Quem \u00e9 que pode ficar<br \/>\n    calado quando assunta coisas daquelas! A gente perde at\u00e9 a vontade de comer!<br \/>\n    Ora, quem <i>havera <\/i>de pensar! &#8230; Bem sei por que ela ficou maluca&#8230;<br \/>\n    Desde muito tempo que o tal nhonh\u00f4 Gustavinho me dava que pensar! Ela \u00e9 branca,<br \/>\n    o mano \u00e9 muito disfar\u00e7ado&#8230; Como \u00e9 que saiu um filho moreno e de cabelos<br \/>\n    duros? Isto sempre me intrigou; mas, enfim, n\u00e3o dizia nada, porque eu s\u00f3 falo<br \/>\n    quando tenho <i>rez\u00e3o&#8230; <\/i>Por\u00e9m, <i>despois <\/i>que vi o tal Gustavinho<br \/>\n    variando por causa da mol\u00e9stia, confirmaram-se as minhas desconfian\u00e7as, e<br \/>\n    vou dar parte ao mano, aconte\u00e7a o que acontecer. E sabe Deus, sabe Deus, se<br \/>\n    ela est\u00e1 doida, e se aquilo de estar no hosp\u00edcio n\u00e3o \u00e9 manha! E de fam\u00edlia!<br \/>\n    J\u00e1 a m\u00e3e n\u00e3o se falava bem dela, e a irm\u00e3&#8230;.cala-te, boca! Elas, pelo menos,<br \/>\n    procuravam gente branca. Mas n\u00e3o um escravo, um negro! Oh! fico toda arrepiada<br \/>\n    quando penso nisso! <i>(\u00c0 parte.) <\/i>Com um escravo! parede. <i>(A uma cadeira.)<br \/>\n    <\/i>Com um negro, cadeira! <i>(Ao sof\u00e1.) <\/i>Um negro! <i>(Repete a todos<br \/>\n    os objetos que se acham na sala com tremeliques nervosos e sai com as m\u00e3os<br \/>\n    na cabe\u00e7a e repetindo.) <\/i>Um negro! Um negro!&#8230;<\/p>\n<p><strong>CENA II<\/strong><\/p>\n<p><strong>DOUTOR, CAROLINA; entra <\/strong><strong><i>cada um de seu lado<\/i><\/strong><\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Indo ao encontro do doutor.) &#8211; <\/i>Como o acha, Eug\u00eanio?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Posso quase assegurar-lhe que est\u00e1 livre de perigo, salvo complica\u00e7\u00f5es<br \/>\n    imprevistas; Gustavo foi presa de uma fort\u00edssima como\u00e7\u00e3o cerebral que, se<br \/>\n    devesse mat\u00e1-lo, j\u00e1 o teria feito. Consegui debelar a febre que o prostava,<br \/>\n    e cuido que o seu estado deixou de ser melindroso.<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; E minha m\u00e3e, e minha pobre m\u00e3e?!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Talvez recupere a raz\u00e3o no Hosp\u00edcio de Pedro II, para o qual foi<br \/>\n    necess\u00e1rio remov\u00ea-la. Mas n\u00e3o tenho esperan\u00e7a alguma. A sua loucura apresenta<br \/>\n    um car\u00e1ter horr\u00edvel.<\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Chorando, apoia-se ao ombro do doutor.) &#8211; <\/i>Eug\u00eanio! No meio<br \/>\n    de que desgra\u00e7as e dissabores tem se alimentado o nosso amor!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Consola-te, Carolina.<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; E por mais que procure, n\u00e3o atino com a causa de tanto infort\u00fanio.<br \/>\n    Minha m\u00e3e louca&#8230;. Gustavo doente&#8230; Louren\u00e7o&#8230; N\u00e3o sei por qu\u00ea, mas parece-me<br \/>\n    que Louren\u00e7o n\u00e3o \u00e9 estranho a estas desgra\u00e7as&#8230; A c\u00f3lera de papai, a fugida<br \/>\n    de Louren\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Louren\u00e7o subtraiu dinheiro da secret\u00e1ria de seu pai&#8230; A exalta\u00e7\u00e3o<br \/>\n    do senhor Salazar impressionou dona Gabriela a ponto de lhe tirar a raz\u00e3o&#8230;<br \/>\n    A doen\u00e7a de Gustavo \u00e9 causada, sem d\u00favida, pelo estado em que viu sua m\u00e3e!<\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Vamos ter com Gustavo&#8230; \u00c9<i> <\/i>preciso n\u00e3o abandon\u00e1-lo um s\u00f3<br \/>\n    momento&#8230; Pobre irm\u00e3o! Venha comigo, Eug\u00eanio. <i>(Saem)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA III<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, EVARISTO, FEITOR<\/strong><\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Encampo tudo quanto fizer. Para negros n\u00e3o h\u00e1 contempla\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>EVARISTO &#8211; Eu c\u00e1 n\u00e3o brindo. \u00c0 menor falta que cometam, trabalha o bacalhau<br \/>\n    feio e forte!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Assim! Entendo que o negro s\u00f3 deixa resultado com o seguinte sistema:<br \/>\n    das cinco da manh\u00e3 \u00e0s sete da noite \u00e9 ro\u00e7ar, derrubar matas e apanhar caf\u00e9;<br \/>\n    \u00e0s oito da manh\u00e3 e \u00e0<i> <\/i>uma da tarde \u00e9 angu, ab\u00f3bora e couve. E sempre<br \/>\n    que for poss\u00edvel, chicote e tronco, para tirar-lhes a pregui\u00e7a! <\/p>\n<p>EVARISTO &#8211; \u00c9<i> <\/i>o sistema por mim seguido desde que o senhor me confiou<br \/>\n    a administra\u00e7\u00e3o desta fazenda. Tenho-me dado muito bem com ele, e n\u00e3o pretendo<br \/>\n    mud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; S\u00e3o todos mansos como cordeiros.<\/p>\n<p>EVARISTO &#8211; A maior parte. H\u00e1 um grupo de quatro ou cinco um tanto rebeldes.<br \/>\n    Negros novos. Gente do Cear\u00e1. Antipatizam comigo; mas essa ojeriza t\u00eam-lhes<br \/>\n    custado caro. Ainda h\u00e1 pouco, mandei surrar um deles com todos os sacramentos&#8230;<br \/>\n    Prometo que hei de p\u00f4-los a todos no bom caminho! E o tal Louren\u00e7o? Nada?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; J\u00e1 foi filado, segundo um telegrama de Serafim, que hoje recebi.<br \/>\n    O rapaz \u00e9 esperto, foi uma bela aquisi\u00e7\u00e3o, o Serafim!<\/p>\n<p>EVARISTO &#8211; Ainda bem! Agora sua licen\u00e7a: vou dar provid\u00eancias sobre o embarque<br \/>\n    do caf\u00e9!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; V\u00e1, v\u00e1, senhor Evaristo. <i>(Evaristo sai) <\/i>\u00c9<i> <\/i>o<br \/>\n    beijinho dos feitores.<\/p>\n<p><strong>CENA IV<\/strong><\/p>\n<p><strong>JOSEFA, SALAZAR<\/strong><\/p>\n<p>SALAZAR <i>(A Josefa, que entra.) &#8211; <\/i>Como vai o rapaz, mana?<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Sei c\u00e1! Pode ir melhor, ou pior, ou na mesma, pouco se me d\u00e1!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Oh! n\u00e3o tanto assim! Gustavo \u00e9 um estr\u00f3ina, \u00e9 um in\u00fatil, convenho;<br \/>\n    mas afinal, \u00e9 meu filho, e portanto seu sobrinho&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Meu, n\u00e3o! Lavo a testada!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Hein?&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Nunca!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Nunca?!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Jamais!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Explique-se! N\u00e3o gosto de meias palavras.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Quantos dedos tenho eu nesta m\u00e3o?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Cinco, creio.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; E nesta outra?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Cinco tamb\u00e9m, parece-me!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; E nas duas juntas?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Ora v\u00e1 para o inferno.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Diga!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Dez! Vamos l\u00e1!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Pois tenho tanta certeza de ter cinco nesta, cinco nesta, e dez<br \/>\n    nas duas juntas, como tenho a certeza de que o tal Gustavinho n\u00e3o \u00e9 seu filho,<br \/>\n    e muito menos meu sobrinho.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Voc\u00ea est\u00e1 caducando ou deu na aguardente do alambique!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Mano, eu s\u00f3 falo&#8230;<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Quando tem raz\u00e3o: os doidos dizem a mesma coisa.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Desculpo as suas m\u00e1-cria\u00e7\u00f5es, porque eu s\u00f3 quero o seu bem. Est\u00e1<br \/>\n    ent\u00e3o convencido de que esse coisinha \u00e9 obra sua?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; N\u00e3o! provavelmente h\u00e1 de ser do vig\u00e1rio.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Olhe que eu estou falando s\u00e9rio. Quem dera que fosse do vig\u00e1rio!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Ent\u00e3o h\u00e1 de ser do di\u00e1cono!?<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Des\u00e7a!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Do sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Des\u00e7a mais!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Ora des\u00e7a voc\u00ea para as profundezas do inferno com a sua l\u00edngua<br \/>\n    de v\u00edbora, e v\u00e1 aborrecer ao diabo que a carregue!<\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Segurando-lhe no bra\u00e7o) &#8211; <\/i>Diga-me uma coisa: que dia \u00e9 hoje?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Sexta-feira.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Quantos do m\u00eas?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Doze.<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Deve ser dez. Ora, senhor! J\u00e1 me n\u00e3o bastava a mulher doida! Tamb\u00e9m<br \/>\n    esta!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Pois bem: tome nota do que lhe disse, m\u00eas, semana, dia, hora, e<br \/>\n    lugar<i>.(Saindo, com ironia.) <\/i>Eu \u00e9 que sou maluca! Eu \u00e9 que sou maluca!<br \/>\n    <i>(Sa\u00edda falsa.)<\/i><\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Segurando-a com for\u00e7a pelo bra\u00e7o.) &#8211; <\/i>Velha maldita! explique-se<br \/>\n    ou a esgano! N\u00e3o sei a quem se referem as suas suspeitas. Voc\u00ea n\u00e3o passa de<br \/>\n    uma miser\u00e1vel caluniadora, de uma vil intrigrante, de uma envenenadora de<br \/>\n    profiss\u00e3o! Eis a\u00ed !<i> (D\u00e1-lhe um empurr\u00e3o, Josefa vai cair sobre o sof\u00e1.)<\/i><\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Erguendo-se.) &#8211; Apare <\/i>o carro! Quer que eu me explique? Pois<br \/>\n    eu me explico. <i>(Pausa.) <\/i>De que cor \u00e9 a sua pele?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; A\u00ed vem o estilo cabal\u00edstico! <i>(Com for\u00e7a.) <\/i>Branca!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Sim&#8230; . apesar de que o nosso bisav\u00f4 materno era pardo.<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Tapando-lhe a boca.) &#8211; <\/i>Psit, mulher!&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Bem pardo!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Mana!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; E foi escravo at\u00e9 a idade de cinco anos!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Cala-te, diabo!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Ningu\u00e9m nos ouve. Era mulato e escravo; mas a alian\u00e7a com galegos<br \/>\n    purificou a ra\u00e7a, de sorte que tanto voc\u00ea como eu somos perfeitamente brancos&#8230;<br \/>\n    Temos cabelos lisos e corridos, bei\u00e7os finos e testa larga.<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Bem; que mais?<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Qual \u00e9 a cor de sua mulher?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Branca&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; E bem branca. Ora, sim, senhor. Como \u00e9 que explica que seu filho<br \/>\n    seja bastante moreno, tenha bei\u00e7os grossos e cabelos duros? Hein?<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Sorrindo.) &#8211; <\/i>Voc\u00ea \u00e9 uma toleirona. Tamb\u00e9m a mim, isto causava<br \/>\n    esp\u00e9cie; mas disse-me um m\u00e9dico ser este fato observado em fam\u00edlias que contam<br \/>\n    um ou mais ascendentes remotos de cor. Desgostou-me muito isso; mas enfim!<br \/>\n    S\u00e3o caprichos da natureza! Uma ra\u00e7a n\u00e3o se purifica inteiramente sen\u00e3o depois<br \/>\n    de s\u00e9culos&#8230; A mesti\u00e7agem com africanos produz atavismos&#8230;<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Bem&#8230; n\u00e3o digo mais nada&#8230; Prefiro deix\u00e1-lo na doce ilus\u00e3o. <i>(Vai<br \/>\n    a sair.)<\/i><\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Segurando-a.) &#8211; <\/i>Com mil diabos! J\u00e1 agora quero saber!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Quer?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Sim!<\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Pois ou\u00e7a l\u00e1, mesmo porque j\u00e1 estou engasgada. Sou capaz de estourar,<br \/>\n    se fico calada! Ontem \u00e0 noite fui ao quarto de Gustavo&#8230; Ele estava ardendo<br \/>\n    em febre e delirava&#8230; Sabe o que dizia? Dizia assim &#8211; Eu? Filho de um negro?<br \/>\n    Eu? Negro? Eu? Ladr\u00e3o?!<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Muito agitado.) &#8211; <\/i>E o que conclui voc\u00ea da\u00ed?<\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Hipocritamente.) &#8211; <\/i>Concluo&#8230; concluo que o Louren\u00e7o \u00e9 uma<br \/>\n    cria de fam\u00edlia&#8230; muito estimado&#8230; escandalosamente protegido por sua mulher.<br \/>\n    Deus lhe perdoe, e.. <i>(Salazar agarra na garganta da velha, d\u00e1 um grito<br \/>\n    e sai correndo.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA V<\/strong><\/p>\n<p><strong>JOSEFA <\/strong><strong><i>(S\u00f3.)<\/i><\/strong><\/p>\n<p>JOSEFA &#8211; Quase me estrangula! Ih! Nunca pensei que a coisa causasse tanto<br \/>\n    barulho! <i>(Com voz medrosa e de m\u00e3os postas.) <\/i>Meu Santo Ant\u00f4nio, fazei<br \/>\n    com que n\u00e3o aconte\u00e7a alguma desgra\u00e7a, porque tal n\u00e3o era a minha inten\u00e7\u00e3o!<br \/>\n    Juro que n\u00e3o era a minha inten\u00e7\u00e3o! Juro que n\u00e3o era! <i>(Jura com os dedos<br \/>\n    em cruz.) <\/i>V\u00f3s bem sabeis, meu bom santo, que s\u00f3 falo quando tenho <i>rez\u00e3o.<br \/>\n    <\/i>Vou para o meu orat\u00f3rio rezar dez padre-nossos e dez ave-marias, para<br \/>\n    que fique tudo em paz nesta casa! <i>(Benze-se.) <\/i>Minha Nossa Senhora das<br \/>\n    Candeias! Ainda bem que eu estou fora de toda esta intrigalhada <i>(Fora de<br \/>\n    cena.)&#8230;<\/i> e tenho a minha consci\u00eancia limpinha. S\u00f3 me meto com a minha<br \/>\n    vida&#8230; <i>(Perde-se a voz.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA VI<\/strong><\/p>\n<p><strong>GUSTAVO. <\/strong><strong><i>magro, p\u00e1lido, alquebrado, amparado<br \/>\n    pelo <\/i><\/strong><strong>DOUTOR <\/strong><strong><i>e por <\/i><\/strong><strong>CAROLINA<\/strong><\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; \u00c9<i> <\/i>uma imprud\u00eancia! Faz mal, faz mal, senhor Gustavo!<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; N\u00e3o, doutor&#8230; ficarei sossegado&#8230; aqui&#8230; nesta poltrona&#8230; <i>(Sentam-no.)<\/i><\/p>\n<p>CAROLINA &#8211; Meu irm\u00e3o, atende ao teu m\u00e9dico&#8230;<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Deixem-me&#8230; quero estar s\u00f3! <i>(Fecha os olhos. Carolina, depois<br \/>\n    de uma pausa, julgando-o a dormir, imp\u00f5e sil\u00eancio ao doutor, toma-o pelo bra\u00e7o<br \/>\n    e saem ambos p\u00e9 ante p\u00e9. S\u00f3.) <\/i>Terr\u00edvel! terr\u00edvel pesadelo de todos os<br \/>\n    momentos! Oh! por que me n\u00e3o fulminou um raio, minutos depois daquela monstruosa<br \/>\n    revela\u00e7\u00e3o?! Deus! Destino! Provid\u00eancia! Acaso! Qualquer que seja o teu nome,<br \/>\n    \u00e9s bem cruel para aquele cujo \u00fanico crime foi a leviandade e a inexperi\u00eancia<br \/>\n    pr\u00f3prias da mocidade! <i>(Nervosamente.) <\/i>Gustavo Salazar, \u00e9s filho de<br \/>\n    um escravo! Ferve-te nas veias o sangue africano! Pertences \u00e0 ra\u00e7a maldita<br \/>\n    dos p\u00e1rias negros! \u00c0 qual sempre votaste o desprezo mais profundo! Tua m\u00e3e<br \/>\n    prevaricou com um escravo&#8230; Oh! <i>(Solu\u00e7a amargamente.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA VII<\/strong><\/p>\n<p><strong>O MESMO, SERAFIM, LOUREN\u00c7O<\/strong><\/p>\n<p>SERAFIM <i>traz pelo c\u00f3s da cal\u00e7a <\/i>LOUREN\u00c7O, <i>que tem as m\u00e3os amarradas<br \/>\n    sobre as costas, e est\u00e1 magro, hirsuto e com ar idiota.<\/i><\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Aqui est\u00e1 o negro! Safa! Custei! <i>(\u00c0 parte.) <\/i>Quando ia entrar<br \/>\n    na esta\u00e7\u00e3o da estrada de ferro, encontrei o presidente do Clube Abolicionista<br \/>\n    Pai Tom\u00e1s&#8230; Mas \u00e9 preciso ganhar a vida! <i>(Gustavo ergue-se e recua espavorido<br \/>\n    para o canto oposto do teatro, fitando Louren\u00e7o com o olhar desvairado.) <\/i>Admira-se,<br \/>\n    n\u00e3o \u00e9 assim? Ah! eu c\u00e1, quando porfio, mato ca\u00e7a. Eu e dois pedestres andamos<br \/>\n    por ceca e meca e Olivares de Santar\u00e9m, mas afinal seguramos o negro, e bem<br \/>\n    seguro! <i>(A Louren\u00e7o.) <\/i>Foge agora, se \u00e9s capaz, tratante! cachorro!<br \/>\n    peste! descara&#8230;<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Segurando-o pela garganta.) &#8211; <\/i>Cale-se!<\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Engasgado.) &#8211; <\/i>Fala comigo?<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Se ousar dirigir-lhe a mais leve inj\u00faria, mato-o! <i>(Larga-o).<\/i><\/p>\n<p>SERAFIM <i>(\u00c0 parte.) &#8211; <\/i>Esta agora! que bicho o mordeu? <i>(Alto.) <\/i>Mas<br \/>\n    senhor Gustavo&#8230;<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Saia! <i>(Empurra-o.)<\/i><\/p>\n<p>SERAFIM <i>(Saindo, \u00e0 parte.) <\/i>&#8211; Ora, d\u00e1-se! Homessa!&#8230;<\/p>\n<p><strong>CENA VIII<\/strong><\/p>\n<p><strong>GUSTAVO, LOUREN\u00c7O, <\/strong><strong><i>depois o <\/i><\/strong><strong>DOUTOR<\/strong><\/p>\n<p><strong><i>Cena muda. Ficam em frente um do outro, silenciosos.<\/i><\/strong><\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Consigo.) &#8211; <\/i>Sonho terr\u00edvel! Meu&#8230; pai, aquele que ali est\u00e1!<br \/>\n    Mas, n\u00e3o! \u00c9 o del\u00edrio da febre&#8230; Imposs\u00edvel! <i>(Pausa. Inclina-se sobre<br \/>\n    o sof\u00e1 e oculta o rosto, solu\u00e7ando.) <\/i>Dilata-se-me o cora\u00e7\u00e3o&#8230; estala-se-me<br \/>\n    o peito que mal o pode conter&#8230; \u00c9 o grito fatal da natureza! \u00c9 a voz sagrada<br \/>\n    do sangue! <i>(Por tr\u00eas vezes sucessivas Gustavo vai dirigir-se a Louren\u00e7o,<br \/>\n    mas, ao aproximar-se dele, recua convulsivamente, com certa repugn\u00e2ncia. Louren\u00e7o<br \/>\n    curva a cabe\u00e7a e solu\u00e7a. Neste momento, o doutor vai entrar, mas, vendo o<br \/>\n    quadro, volta e assiste \u00e0 cena, da porta, sem ser visto pelos dois.) <\/i>Aquele<br \/>\n    que ali est\u00e1 amarrado e vi ipendiado, que em breve vai sentir nos seus p\u00e9s<br \/>\n    o ferro da ignom\u00ednia e em suas costas o a\u00e7oite infamante do cativeiro, \u00e9&#8230;<br \/>\n    \u00e9 meu pai. <i>(A tira-se aos bra\u00e7os de Louren\u00e7o, o qual, com um supremo esfor\u00e7o<br \/>\n    e dando tr\u00eas solavancos, quebra as cordas que lhe algemam os pulsos. Ficam<br \/>\n    abra\u00e7ados.)<\/i><\/p>\n<p>DOUTOR <i>(\u00c0 parte.) &#8211; <\/i>Compreendi tudo! meu Deus!&#8230; <i>(Desaparece.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA IX<\/strong><\/p>\n<p><strong>GUSTAVO, LOUREN\u00c7O,. SALAZAR, SERAFIM, <\/strong><strong><i>depois<br \/>\n    <\/i><\/strong><strong>EVARISTO<\/strong><\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Depois de fit\u00e1-los com \u00f3dio, a Serafim.) &#8211; <\/i>V\u00e1 chamar o Evaristo.<br \/>\n    <i>(Serafim sai.)<\/i><\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Para que o Evaristo?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Com que direito me faz essa pergunta?<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; N\u00e3o sei! Pergunto para que manda chamar o Evaristo?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Para arrancar o couro \u00e0quele negro!<\/p>\n<p>EVARISTO <i>(Entrando.) &#8211; <\/i>Pronto!<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Apontando para Louren\u00e7o.) &#8211; <\/i>Ei-lo! Entrego-lho \u00e0 discri\u00e7\u00e3o.<br \/>\n    <i>(Evaristo, com um gesto de amea\u00e7a, dirige-se para Louren\u00e7o.)<\/i><\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; N\u00e3o lhe toque!<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(\u00c0 parte.) &#8211; <\/i>Ah! <i>(Alto, brandindo o chicote que arranca<br \/>\n    das m\u00e3os do feitor.) <\/i>Pois come\u00e7arei eu mesmo!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Interpondo-se.) &#8211; <\/i>Por Deus, que o n\u00e3o h\u00e1 de fazer!<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Furioso.) &#8211; <\/i>Afaste-se! Afaste-se! sen\u00e3o aplico-lhe uma chicotada!&#8230;<\/p>\n<p>LOUREN\u00c7O <i>(A Gustavo.) &#8211; <\/i>Deixe-o, meu senhor&#8230; Eu sei o que devo fazer.<br \/>\n    <i>(Sai. Evaristo acompanha-o, Gustavo quer tamb\u00e9m acompanh\u00e1-lo, mas cai abatido<br \/>\n    e tenta em v\u00e3o erguer-se.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA X<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, GUSTAVO<\/strong><\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Filho do meu escravo!<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; J\u00e1 o sabia?! Tanto agora como mais tarde!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Esta sala n\u00e3o \u00e9 lugar de moleques. Saia!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Erguendo-se a custo.) &#8211; <\/i>Sairei&#8230; Antes, por\u00e9m, h\u00e1 de ouvir-me&#8230;<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; N\u00e3o discuto com os filhos dos meus escravos!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Com calma terr\u00edvel.) &#8211; <\/i>Sou filho do seu escravo, sim, e nem<br \/>\n    por isso me julgo mais desprez\u00edvel do que quando supunha ser seu filho, percebe?<br \/>\n    A febre escalda-me.., o del\u00edrio faz-me ver a nu a verdade das coisas&#8230; Ou\u00e7a-me&#8230;<br \/>\n    <i>(Segurando-o.) <\/i>Desde o momento em que soube que me corria nas veias<br \/>\n    o sangue de um escravo, senti que este sangue vinha, n\u00e3o deturpar ou desonrar,<br \/>\n    mas sim tonificar o meu organismo, corrompido pela educa\u00e7\u00e3o que o senhor me<br \/>\n    deu! Agora, ao menos, tenho no cora\u00e7\u00e3o um sentimento, coisa que s\u00f3 de nome<br \/>\n    conhecia&#8230; Dinheiro! estolidez! v\u00edcios! crueldade! insol\u00eancia! bestialidade!<br \/>\n    eis tudo quanto eu sabia do mundo. E foi o senhor que me ensinou! Percebe?<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; J\u00e1 disse que n\u00e3o discuto com um negro!&#8230;<\/p>\n<p>GUSTAVO &#8211; Negro, sim! Sou da ra\u00e7a escravizada! Sinto as faces abrazadas pelo<br \/>\n    sangue ardente dos filhos do deserto, que os seus predecessores algemam \u00e0<br \/>\n    trai\u00e7\u00e3o, para virem com eles poluir o seio virgem das florestas americanas!<br \/>\n    Negro, sim! Sou negro! Estou aqui em sua frente como uma solene repres\u00e1lia<br \/>\n    de milhares de desgra\u00e7ados cujas l\u00e1grimas o t\u00eam locupletado. Ah! os senhores<br \/>\n    pisam a tac\u00f5es a ra\u00e7a maldita, cospem-lhe na face?! Ela vinga-se como pode,<br \/>\n    introduzindo a desonra no seio de suas fam\u00edlias! <i>(Cai extenuado e em prantos.)<br \/>\n    <\/i>\u00d3<i> <\/i>minha m\u00e3e!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; N\u00e3o me fale em sua m\u00e3e, senhor! se n\u00e3o estivesse louca, eu&#8230;<\/p>\n<p><strong>CENA XI<\/strong><\/p>\n<p><strong>OS MESMOS, SERAFIM, <\/strong><strong><i>que entra esbaforido, depois<br \/>\n    <\/i><\/strong><strong>JOSEFA<\/strong><\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Patr\u00e3o.., patr\u00e3o&#8230; O Louren\u00e7o enforcou-se!<\/p>\n<p>GUSTAVO <i>(Com um grito.) &#8211; <\/i>Enforcou-se! <i>(Sai como um louco, mal<br \/>\n    podendo suster. Salazar tem um sorriso de satisfa\u00e7\u00e3o.)<\/i><\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Os negros, ao verem-no morto, revoltam-se, e, armados de foices,<br \/>\n    perseguem o feitor pelo cafezal a dentro! Acuda-o!<\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Miser\u00e1veis! <i>(Agarra uma espingarda que est\u00e1 a um canto e sai<br \/>\n    arrebatadamente)<\/i><\/p>\n<p>SERAFIM <i>(S\u00f3.) &#8211; <\/i>Escapei de boas! Qual! Decididamente n\u00e3o me serve<br \/>\n    o of\u00edcio! \u00c9<i> <\/i>muito perigoso e eu tenho amor \u00e0 pele! Vou fazer-me de<br \/>\n    novo abolicionista, e voltar ao Clube Pai Tom\u00e1s, para ver se melhoro de condi\u00e7\u00e3o&#8230;\n  <\/p>\n<p>JOSEFA <i>(Entrando com muito medo.) &#8211; <\/i>Senhor Serafim! Senhor Serafim!<br \/>\n    <i>(Ouve-se fora vozeria confusa.) <\/i>Miseric\u00f3rdia! <i>(Foge, benzendo-se.)<\/i><\/p>\n<p>SERAFIM &#8211; Eu aqui n\u00e3o estou seguro! Vou esconder-me no quarto da velha. <i>(Sai.<br \/>\n    Continua a vozeria.)<\/i><\/p>\n<p><strong>CENA XII<\/strong><\/p>\n<p><strong>SALAZAR, <\/strong><strong><i>depois <\/i><\/strong><strong>CAROLINA,<br \/>\n    <\/strong><strong><i>depois escravos, o <\/i><\/strong><strong>DOUTOR<\/strong><\/p>\n<p><i>O ru\u00eddo cresce e aproxima-se. Ouve-se a detona\u00e7\u00e3o de uma espingarda. Salazar<br \/>\n    entra perseguido e coloca-se contra a porta, que de fora tentam arrombar.<\/i><\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; Venham! Morrerei no meu posto e venderei caro a vida!<\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Entrando.) &#8211; <\/i>N\u00e3o se exponha! Fuja por ali, meu pai!<\/p>\n<p>SALAZAR <i>(Louco de furor.) &#8211; <\/i>Seu pai? Eu! Procure-o no meio desses<br \/>\n    que v\u00eam me assassinar. Talvez o encontre!<\/p>\n<p><i>(Arrombam a porta. Entra uma multid\u00e3o de escravos armados de foices e<br \/>\n    machados. Avan\u00e7am para Salazar. Carolina, interpondo-se, ajoelha.)<\/i><\/p>\n<p>CAROLINA <i>(Com l\u00e1grimas na voz.) &#8211; <\/i>\u00c9 meu pai! Piedade! <i>(Os negros<br \/>\n    ficam interditos, olham uns para os outros, abatem as armas e retiram-se resmungando,<br \/>\n    Salazar abra\u00e7a Carolina e chora.)<\/i><\/p>\n<p>SALAZAR &#8211; S\u00e3o as minhas primeiras l\u00e1grimas, Carolina! <i>(Longa pausa, durante<br \/>\n    a qual Salazar solu\u00e7a apoiado ao colo da filha.) <\/i>Mas&#8230; Gustavo?<\/p>\n<p>DOUTOR <i>(Entrando.) &#8211; <\/i>Fui encontr\u00e1-lo morto, junto ao cad\u00e1ver de seu<br \/>\n    pai.<\/p>\n<p><strong>FIM DA PE\u00c7A<\/strong><\/p>\n<p><strong><i>(Cai o pano)<\/i><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Ato Primeiro Ato Segundo Ato Terceiro Urbano Duarte Drama em 3 atos Em colabora\u00e7\u00e3o com Urbano Duarte &#8211; 1884 PR\u00d3DOMO O Escravocrata, escrito h\u00e1 dois anos e submetido \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do Conservat\u00f3rio Dram\u00e1tico Brasileiro sob o t\u00edtulo A fam\u00edlia Salazar, n\u00e3o mereceu o indispens\u00e1vel placet. 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