{"id":119514,"date":"2017-04-13T10:02:01","date_gmt":"2017-04-13T12:02:01","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=119514"},"modified":"2017-04-13T10:02:01","modified_gmt":"2017-04-13T12:02:01","slug":"marilia-de-dirceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/marilia-de-dirceu","title":{"rendered":"Mar\u00edlia de Dirceu"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"454\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Parte I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Parte II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Parte III<\/a><br \/>\n           <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Tom\u00e1s Ant&ocirc;nio Gonzaga<\/h2>\n<h4><a name=\"1\">PARTE I<\/a><\/h4>\n<p><strong>LIRA I<\/strong><\/p>\n<p>Eu, Mar&iacute;lia, n&atilde;o sou algum vaqueiro,<br \/>\n    Que viva de guardar alheio gado;<br \/>\n    De tosco trato, d&#8217; express&otilde;es grosseiro, <br \/>\n    Dos frios gelos, e dos s&oacute;is queimado.<br \/>\n    Tenho pr&oacute;prio casal, e nele assisto;<br \/>\n    D&aacute;-me vinho, legume, fruta, azeite;<br \/>\n    Das brancas ovelhinhas tiro o leite,<br \/>\n    E mais as finas l&atilde;s, de que me visto.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Gra&ccedil;as &agrave; minha Estrela! <br \/>\n    Eu vi o meu semblante numa fonte,<br \/>\n    Dos anos inda n&atilde;o est&aacute; cortado:<br \/>\n    Os pastores, que habitam este monte,<br \/>\n    Com tal destreza toco a sanfoninha,<br \/>\n    Que inveja at&eacute; me tem o pr&oacute;prio Alceste:<br \/>\n    Ao som dela concerto a voz celeste;<br \/>\n    Nem canto letra, que n&atilde;o seja minha,<br \/>\n    Gra&ccedil;as, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Gra&ccedil;as &agrave; minha Estrela! <\/p>\n<p>Mas tendo tantos dotes da ventura,<br \/>\n    S&oacute; apre&ccedil;o lhes dou, gentil Pastora,<br \/>\n    Depois que teu afeto me segura,<br \/>\n    Que queres do que tenho ser senhora.<br \/>\n    &Eacute; bom, minha Mar&iacute;lia, &eacute; bom ser dono<br \/>\n    De um rebanho, que cubra monte, e prado;<br \/>\n    Por&eacute;m, gentil Pastora, o teu agrado<br \/>\n    Vale mais q&#8217;um rebanho, e mais q&#8217;um trono.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Gra&ccedil;as &agrave; minha Estrela! <\/p>\n<p>Os teus olhos espalham luz divina,<br \/>\n    A quem a luz do Sol em v&atilde;o se atreve:<br \/>\n    Papoula, ou rosa delicada, e fina,<br \/>\n    Te cobre as faces, que s&atilde;o cor de neve.<br \/>\n    Os teus cabelos s&atilde;o uns fios d&#8217;ouro;<br \/>\n    Teu lindo corpo b&aacute;lsamos vapora.<br \/>\n    Ah! N&atilde;o, n&atilde;o fez o C&eacute;u, gentil Pastora,<br \/>\n    Para gl&oacute;ria de Amor igual tesouro.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Gra&ccedil;as &agrave; minha Estrela! <\/p>\n<p>Leve-me a sementeira muito embora<br \/>\n    O rio sobre os campos levantado:<br \/>\n    Acabe, acabe a peste matadora,<br \/>\n    Sem deixar uma r&ecirc;s, o n&eacute;dio gado.<br \/>\n    J&aacute; destes bens, Mar&iacute;lia, n&atilde;o preciso:<br \/>\n    Nem me cega a paix&atilde;o, que o mundo arrasta;<br \/>\n    Para viver feliz, Mar&iacute;lia, basta<br \/>\n    Que os olhos movas, e me d&ecirc;s um riso.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Gra&ccedil;as &agrave; minha Estrela! <\/p>\n<p> Ir&aacute;s a divertir-te na floresta,<br \/>\n    Sustentada, Mar&iacute;lia, no meu bra&ccedil;o;<br \/>\n    Ali descansarei a quente sesta,<br \/>\n    Dormindo um leve sono em teu rega&ccedil;o:<br \/>\n    Enquanto a luta jogam os Pastores,<br \/>\n    E emparelhados correm nas campinas,<br \/>\n    Toucarei teus cabelos de boninas,<br \/>\n    Nos troncos gravarei os teus louvores.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Gra&ccedil;as &agrave; minha Estrela! <\/p>\n<p>Depois de nos ferir a m&atilde;o da morte,<br \/>\n    Ou seja neste monte, ou noutra serra,<br \/>\n    Nossos corpos ter&atilde;o, ter&atilde;o a sorte<br \/>\n    De consumir os dois a mesma terra.<br \/>\n    Na campa, rodeada de ciprestes,<br \/>\n    Ler&atilde;o estas palavras os Pastores:<br \/>\n    &quot;Quem quiser ser feliz nos seus amores,<br \/>\n    Siga os exemplos, que nos deram estes.&quot;<br \/>\n    Gra&ccedil;as, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Gra&ccedil;as &agrave; minha Estrela! <\/p>\n<p><strong> Lira II <\/strong><\/p>\n<p>Pintam, Mar&iacute;lia, os Poetas<br \/>\n    A um menino vendado,<br \/>\n    Com uma aljava de setas,<br \/>\n    Arco empunhado na m&atilde;o;<br \/>\n    Ligeiras asas nos ombros,<br \/>\n    O tenro corpo despido,<br \/>\n    E de Amor, ou de Cupido<br \/>\n    S&atilde;o os nomes, que lhe d&atilde;o. <\/p>\n<p>Por&eacute;m eu, Mar&iacute;lia, nego, <br \/>\n    Que assim seja Amor; pois ele<br \/>\n    Nem &eacute; mo&ccedil;o, nem &eacute; cego,<br \/>\n    Nem setas, nem asas tem.<br \/>\n    Ora pois, eu vou formar-lhe<br \/>\n    Um retrato mais perfeito,<br \/>\n    Que ele j&aacute; feriu meu peito;<br \/>\n    Por isso o conhe&ccedil;o bem. <\/p>\n<p>Os seus compridos cabelos,<br \/>\n    Que sobre as costas ondeiam,<br \/>\n    S&atilde;o que os de Apolo mais belos;<br \/>\n    Mas de loura cor n&atilde;o s&atilde;o.<br \/>\n    T&ecirc;m a cor da negra noite;<br \/>\n    E com o branco do rosto<br \/>\n    Fazem, Mar&iacute;lia, um composto<br \/>\n    Da mais formosa uni&atilde;o. <\/p>\n<p>Tem redonda, e lisa testa,<br \/>\n    Arqueadas sobrancelhas;<br \/>\n    A voz meiga, a vista honesta,<br \/>\n    E seus olhos s&atilde;o uns s&oacute;is.<br \/>\n    Aqui vence Amor ao C&eacute;u,<br \/>\n    Que no dia luminoso<br \/>\n    O C&eacute;u tem um Sol formoso,<br \/>\n    E o travesso Amor tem dois. <\/p>\n<p>Na sua face mimosa,<br \/>\n    Mar&iacute;lia, est&atilde;o misturadas<br \/>\n    Purp&uacute;reas folhas de rosa,<br \/>\n    Brancas folhas de jasmim.<br \/>\n    Dos rubins mais preciosos<br \/>\n    Os seus bei&ccedil;os s&atilde;o formados;<br \/>\n    Os seus dentes delicados<br \/>\n    S&atilde;o peda&ccedil;os de marfim. <\/p>\n<p>Mal vi seu rosto perfeito<br \/>\n    Dei logo um suspiro, e ele<br \/>\n    Conheceu haver-me feito<br \/>\n    Estrago no cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Punha em mim os olhos, quando<br \/>\n    Entendia eu n&atilde;o olhava:<br \/>\n    Vendo o que via, baixava<br \/>\n    A modesta vista ao ch&atilde;o. <\/p>\n<p>Chamei-lhe um dia formoso:<br \/>\n    Ele, ouvindo os seus louvores,<br \/>\n    Com um gesto desdenhoso<br \/>\n    Se sorriu, e n&atilde;o falou.<br \/>\n    Pintei-lhe outra vez o estado,<br \/>\n    Em que estava esta alma posta;<br \/>\n    N&atilde;o me deu tamb&eacute;m resposta,<br \/>\n    Constrangeu-se, e suspirou. <\/p>\n<p>Conhe&ccedil;o os sinais, e logo<br \/>\n    Animado de esperan&ccedil;a,<br \/>\n    Busco dar um desafogo<br \/>\n    Ao cansado cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Pego em teus dedos nevados,<br \/>\n    E querendo dar-lhe um beijo,<br \/>\n    Cobriu-se todo de pejo,<br \/>\n    E fugiu-me com a m&atilde;o. <\/p>\n<p>Tu, Mar&iacute;lia, agora vendo<br \/>\n    De Amor o lindo retrato,<br \/>\n    Contigo estar&aacute;s dizendo,<br \/>\n    Que &eacute; este o retrato teu.<br \/>\n    Sim, Mar&iacute;lia, a c&oacute;pia &eacute; tua,<br \/>\n    Que Cupido &eacute; Deus suposto:<br \/>\n    Se h&aacute; Cupido, &eacute; s&oacute; teu rosto, <br \/>\n    Que ele foi quem me venceu. <\/p>\n<p><strong> Lira III <\/strong><\/p>\n<p> De amar, minha Mar&iacute;lia, a formosura<br \/>\n    N&atilde;o se podem livrar humanos peitos.<br \/>\n    Adoram os her&oacute;is; e os mesmos brutos <br \/>\n    Aos grilh&otilde;es de Cupido est&atilde;o sujeitos.<br \/>\n    Quem, Mar&iacute;lia, despreza uma beleza,<br \/>\n    A luz da raz&atilde;o precisa;<br \/>\n    E se tem discurso, pisa<br \/>\n    A lei, que lhe ditou a Natureza. <\/p>\n<p>Cupido entrou no C&eacute;u. O grande Jove<br \/>\n    Uma vez se mudou em chuva de ouro;<br \/>\n    Outras vezes tomou as v&aacute;rias formas<br \/>\n    De General de Tebas, velha, e touro.<br \/>\n    O pr&oacute;prio Deus da Guerra desumano<br \/>\n    N&atilde;o viveu de amor ileso;<br \/>\n    Quis a V&ecirc;nus, e foi preso<br \/>\n    Na rede, que lhe armou o Deus Vulcano. <\/p>\n<p>Mas sendo amor igual para os viventes,<br \/>\n    Tem mais desculpa, ou menos esta chama:<br \/>\n    Amar formosos rostos acredita,<br \/>\n    Amar os feios de algum modo infama.<br \/>\n    Que l&ecirc; que Jove amou, n&atilde;o l&ecirc; nem topa,<br \/>\n    Que ele amou vulgar donzela:<br \/>\n    L&ecirc; que amou a D&acirc;nae bela,<br \/>\n    Encontra que roubou a linda Europa. <\/p>\n<p>Se amar uma beleza se desculpa<br \/>\n    Em quem ao pr&oacute;prio C&eacute;u, e terra move:<br \/>\n    Qual &eacute; a minha gl&oacute;ria, pois igualo,<br \/>\n    Ou excedo no amor ao mesmo Jove?<br \/>\n    Amou o Pai dos Deuses Soberano<br \/>\n    Um semblante peregrino:<br \/>\n    Eu adoro o teu divino,<br \/>\n    O teu divino rosto, e sou humano. <\/p>\n<p><strong> Lira IV <\/strong><\/p>\n<p>Mar&iacute;lia, teus olhos<br \/>\n    S&atilde;o r&eacute;us, e culpados,<br \/>\n    Que sofra, e que beije<br \/>\n    Os ferros pesados<br \/>\n    De injusto Senhor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Mal vi o teu rosto,<br \/>\n    O sangue gelou-se,<br \/>\n    A l&iacute;ngua prendeu-se,<br \/>\n    Tremi, e mudou-se<br \/>\n    Das faces a cor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>A vista furtiva,<br \/>\n    O riso imperfeito,<br \/>\n    Fizeram a chaga,<br \/>\n    Que abriste no peito,<br \/>\n    Mais funda, e maior.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Dispus-me a servir-te;<br \/>\n    Levava o teu gado<br \/>\n    &Agrave; fonte mais clara,<br \/>\n    &Agrave; vargem, e prado<br \/>\n    De relva melhor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Se vinha da herdade,<br \/>\n    Trazia dos ninhos<br \/>\n    As aves nascidas,<br \/>\n    Abrindo os biquinhos<br \/>\n    De fome ou temor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Se algu&eacute;m te louvava,<br \/>\n    De gosto me enchia;<br \/>\n    Mas sempre o ci&uacute;me<br \/>\n    No rosto acendia<br \/>\n    Um vivo calor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Se estavas alegre,<br \/>\n    Dirceu se alegrava;<br \/>\n    Se estavas sentida,<br \/>\n    Dirceu suspirava<br \/>\n    &Agrave; for&ccedil;a da dor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Falando com Laura,<br \/>\n    Mar&iacute;lia dizia;<br \/>\n    Sorria-se aquela,<br \/>\n    E eu conhecia<br \/>\n    O erro de amor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Movida, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    De tanta ternura,<br \/>\n    Nos bra&ccedil;os me deste<br \/>\n    Da tua f&eacute; pura<br \/>\n    Um doce penhor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Tu mesma disseste<br \/>\n    Que tudo podia<br \/>\n    Mudar de figura;<br \/>\n    Mas nunca seria<br \/>\n    Teu peito traidor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Tu j&aacute; te mudaste;<br \/>\n    E a faia frondosa,<br \/>\n    Aonde escreveste<br \/>\n    A jura horrorosa,<br \/>\n    Tem todo o vigor.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p>Mas eu te desculpo,<br \/>\n    Que o fado tirano<br \/>\n    Te obriga a deixar-me;<br \/>\n    Pois basta o meu dano<br \/>\n    Da sorte, que for.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, escuta<br \/>\n    Um triste Pastor. <\/p>\n<p><strong> Lira V <\/strong><\/p>\n<p>Acaso s&atilde;o estes<br \/>\n    Os s&iacute;tios formosos.<br \/>\n    Aonde passava<br \/>\n    Os anos gostosos?<br \/>\n    S&atilde;o estes os prados,<br \/>\n    Aonde brincava,<br \/>\n    Enquanto passava<br \/>\n    O gordo rebanho,<br \/>\n    Que Alceu me deixou?<br \/>\n    S&atilde;o estes os s&iacute;tios?<br \/>\n    S&atilde;o estes; mas eu<br \/>\n    O mesmo n&atilde;o sou.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, tu chamas?<br \/>\n    Espera, que eu vou. <\/p>\n<p>Daquele penhasco<br \/>\n    Um rio ca&iacute;a;<br \/>\n    Ao som do sussurro<br \/>\n    Que vezes dormia!<br \/>\n    Agora n&atilde;o cobrem<br \/>\n    Espumas nevadas<br \/>\n    As pedras quebradas;<br \/>\n    Parece que o rio<br \/>\n    O curso voltou<br \/>\n    S&atilde;o estes os s&iacute;tios?<br \/>\n    S&atilde;o estes; mas eu<br \/>\n    O mesmo n&atilde;o sou.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, tu chamas?<br \/>\n    Espera, que eu vou.<br \/>\n    Meus versos alegre<br \/>\n    Aqui repetia:<br \/>\n    O eco as palavras<br \/>\n    Tr&ecirc;s vezes dizia,<br \/>\n    Se chamo por ele,<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o me responde;<br \/>\n    Parece se esconde,<br \/>\n    Casado de dar-me<br \/>\n    Os ais, que lhe dou.<br \/>\n    S&atilde;o estes os s&iacute;tios?<br \/>\n    S&atilde;o estes; mas eu<br \/>\n    O mesmo n&atilde;o sou.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, tu chamas?<br \/>\n    Espera, que eu vou. <\/p>\n<p>Aqui um regato<br \/>\n    Corria sereno<br \/>\n    Por margens cobertas <br \/>\n    De flores, e feno:<br \/>\n    &Agrave; esquerda se erguia<br \/>\n    Um bosque fechado,<br \/>\n    E o tempo apressado,<br \/>\n    Que nada respeita,<br \/>\n    J&aacute; tudo mudou.<br \/>\n    S&atilde;o estes os s&iacute;tios?<br \/>\n    S&atilde;o estes; mas eu<br \/>\n    O mesmo n&atilde;o sou.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, tu chamas?<br \/>\n    Espera, que eu vou. <\/p>\n<p>Mas como discorro?<br \/>\n    Acaso podia<br \/>\n    J&aacute; tudo mudar-se<br \/>\n    No espa&ccedil;o de um dia?<br \/>\n    Existem as fontes,<br \/>\n    E os freixos copados;<br \/>\n    D&atilde;o flores os prados,<br \/>\n    E corre a cascata,<br \/>\n    Que nunca secou.<br \/>\n    S&atilde;o estes os s&iacute;tios?<br \/>\n    S&atilde;o estes; mas eu<br \/>\n    O mesmo n&atilde;o sou.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, tu chamas?<br \/>\n    Espera, que eu vou. <\/p>\n<p>Minha alma, que tinha<br \/>\n    Liberta a vontade,<br \/>\n    Agora j&aacute; sente<br \/>\n    Amor, e saudade,<br \/>\n    Os s&iacute;tios formosos me agradaram,<br \/>\n    Ah! N&atilde;o se mudaram;<br \/>\n    Mudaram-se os olhos,<br \/>\n    De triste que estou.<br \/>\n    S&atilde;o estes os s&iacute;tios?<br \/>\n    S&atilde;o estes; mas eu<br \/>\n    O mesmo n&atilde;o sou.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, tu chamas?<br \/>\n    Espera, que eu vou. <\/p>\n<p><strong> Lira VI <\/strong><\/p>\n<p>Oh! Quanto pode em n&oacute;s a v&aacute;ria Estrela!<br \/>\n    Que diversos que s&atilde;o os g&ecirc;nios nossos!<br \/>\n    Qual solta a branca vela,<br \/>\n    E afronta sobre o pinho os mares grossos;<br \/>\n    Qual cinge com a malha o peito duro,<br \/>\n    E marchando na frente das coortes,<br \/>\n    Faz a torre voar, cair o muro. <\/p>\n<p>O s&oacute;rdido avarento em v&atilde;o defende<br \/>\n    Que possa o filho entrar no seu tesouro;<br \/>\n    Aqui fechado estende<br \/>\n    Sobre a t&aacute;bua, que verga, as barras d&#8217;ouro.<br \/>\n    Sacode o jogador do copo os dados;<br \/>\n    E numa noite s&oacute;, que ao sono rouba,<br \/>\n    Perde o resto dos bens, do pai herdados. <\/p>\n<p>O que da voraz gula o v&iacute;cio adora,<br \/>\n    Da lauta mesa os seus prazeres fia.<br \/>\n    E o terno Alceste chora<br \/>\n    Ao som dos versos, a que o g&ecirc;nio o guia.<br \/>\n    O s&aacute;bio Galileu toma o compasso,<br \/>\n    E sem voar ao C&eacute;u, calcula, e mede<br \/>\n    Das Estrelas, e Sol o imenso espa&ccedil;o. <\/p>\n<p>Enquanto pois, Mar&iacute;lia, a v&aacute;ria gente<br \/>\n    Se deixa conduzir do pr&oacute;prio gosto,<br \/>\n    Passo as horas contente<br \/>\n    Notando as gra&ccedil;as do teu lindo rosto.<br \/>\n    Sem cansar-me a saber se o Sol se move;<br \/>\n    Ou se a terra volteia, assim conhe&ccedil;o<br \/>\n    Aonde chega o poder do grande Jove. <\/p>\n<p>Noto, gentil Mar&iacute;lia, os teus cabelos.<br \/>\n    E noto as faces de jasmins, e rosas:<br \/>\n    Noto os teus olhos belos,<br \/>\n    Os brancos dentes, e as fei&ccedil;&otilde;es mimosas:<br \/>\n    Quem faz uma obra t&atilde;o perfeita, e linda,<br \/>\n    Minha bela Mar&iacute;lia, tamb&eacute;m pode<br \/>\n    Fazer os C&eacute;us, e mais, se h&aacute; mais ainda. <\/p>\n<p><strong> Lira VII <\/strong><\/p>\n<p>Vou retratar a Mar&iacute;lia,<br \/>\n    A Mar&iacute;lia, meus amores;<br \/>\n    Por&eacute;m como? Se eu n&atilde;o vejo<br \/>\n    Quem me empreste as finas cores:<br \/>\n    Dar-mas a terra n&atilde;o pode;<br \/>\n    N&atilde;o, que a sua cor mimosa<br \/>\n    Vence o l&iacute;rio, vence a rosa,<br \/>\n    O jasmim, e as outras flores.<br \/>\n    Ah! Socorre, Amor, socorre<br \/>\n    Ao mais grato empenho meu!<br \/>\n    Voa sobre os Astros, voa,<br \/>\n    Traze-me as tintas do C&eacute;u. <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o se esmore&ccedil;a logo;<br \/>\n    Busquemos um pouco mais;<br \/>\n    Nos mares talvez se encontrem<br \/>\n    Cores, que sejam iguais.<br \/>\n    Por&eacute;m n&atilde;o, que em paralelo<br \/>\n    Da minha Ninfa adorada<br \/>\n    P&eacute;rolas n&atilde;o valem nada,<br \/>\n    E nada valem corais.<br \/>\n    . Ah! Socorre, Amor, socorre<br \/>\n    Ao mais grato empenho meu!<br \/>\n    Voa sobre os Astros, voa,<br \/>\n    Traze-me as tintas do C&eacute;u. <\/p>\n<p>S&oacute; no C&eacute;u achar-se podem<br \/>\n    Tais belezas, como aquelas,<br \/>\n    Que Mar&iacute;lia tem nos olhos,<br \/>\n    E que tem nas faces belas.<br \/>\n    Mas &agrave;s faces graciosas,<br \/>\n    Aos negros olhos, que matam,<br \/>\n    N&atilde;o imitam, n&atilde;o retratam<br \/>\n    Nem Auroras, nem Estrelas.<br \/>\n    Ah! Socorre, Amor, socorre<br \/>\n    Ao mais grato empenho meu!<br \/>\n    Voa sobre os Astros, voa,<br \/>\n    Traze-me as tintas do C&eacute;u. <\/p>\n<p>Entremos, Amor, entremos,<br \/>\n    Entremos na mesma Esfera,<br \/>\n    Venha Palas, venha Juno,<br \/>\n    Venha a Deusa de Citera,<br \/>\n    Por&eacute;m n&atilde;o, que se Mar&iacute;lia<br \/>\n    No certame antigo entrasse,<br \/>\n    Bem que a P&aacute;ris n&atilde;o peitasse,<br \/>\n    A todas as tr&ecirc;s vencera.<br \/>\n    Vai-te, Amor, em v&atilde;o socorres<br \/>\n    Ao mais grato empenho meu:<br \/>\n    Para formar-lhe o retrato<br \/>\n    N&atilde;o bastam tintas do C&eacute;u <\/p>\n<p><strong> Lira VIII <\/strong><\/p>\n<p>Mar&iacute;lia, de que te queixas?<br \/>\n    De que te roubou Dirceu<br \/>\n    O sincero cora&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    N&atilde;o te deu tamb&eacute;m o seu?<br \/>\n    E tu, Mar&iacute;lia, primeiro<br \/>\n    N&atilde;o lhe lan&ccedil;aste o grilh&atilde;o?<br \/>\n    Todos amam: s&oacute; Mar&iacute;lia<br \/>\n    Desta Lei da Natureza<br \/>\n    Queria ter isen&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p>Em torno das castas pombas,<br \/>\n    N&atilde;o rulam ternos pombinhos?<br \/>\n    E rulam, Mar&iacute;lia, em v&atilde;o?<br \/>\n    N&atilde;o se afagam c&#8217;os biquinhos?<br \/>\n    E a prova de mais ternura<br \/>\n    N&atilde;o os arrasta a paix&atilde;o?<br \/>\n    Todos amam: s&oacute; Mar&iacute;lia<br \/>\n    Desta Lei da Natureza<br \/>\n    Queria ter isen&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p>J&aacute; viste, minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Avezinhas, que n&atilde;o fa&ccedil;am<br \/>\n    Os seus ninhos no ver&atilde;o?<br \/>\n    Aquelas, com que se enla&ccedil;am,<br \/>\n    N&atilde;o v&atilde;o cantar-lhes defronte<br \/>\n    Do mole pouso, em que est&atilde;o?<br \/>\n    Todos amam: s&oacute; Mar&iacute;lia<br \/>\n    Desta Lei da Natureza<br \/>\n    Queria ter isen&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p> Se os peixes, Mar&iacute;lia, geram<br \/>\n    Nos bravos mares, e rios,<br \/>\n    Tudo efeitos de Amor s&atilde;o.<br \/>\n    Amam os brutos impios,<br \/>\n    A serpente venenosa,<br \/>\n    A on&ccedil;a, o tigre, o le&atilde;o.<br \/>\n    Todos amam: s&oacute; Mar&iacute;lia<br \/>\n    Desta Lei da Natureza<br \/>\n    Queria ter isen&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p>As grandes Deusas do C&eacute;u<br \/>\n    Sentem a seta tirana<br \/>\n    Da amorosa inclina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Diana, com ser Diana,<br \/>\n    N&atilde;o se abrasa, n&atilde;o suspira<br \/>\n    Pelo amor de Endimi&atilde;o?<br \/>\n    Todos amam: s&oacute; Mar&iacute;lia<br \/>\n    Desta Lei da Natureza<br \/>\n    Queria ter isen&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p>Desiste, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    De uma queixa sustentada<br \/>\n    S&oacute; na altiva opini&atilde;o.<br \/>\n    Esta chama &eacute; inspirada<br \/>\n    Pelo C&eacute;u; pois nela assenta<br \/>\n    A nossa conserva&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Todos amam: s&oacute; Mar&iacute;lia<br \/>\n    Desta Lei da Natureza<br \/>\n    N&atilde;o deve ter isen&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><strong> Lira IX <\/strong><\/p>\n<p>Eu sou, gentil Mar&iacute;lia, eu sou cativo;<br \/>\n    Por&eacute;m n&atilde;o me venceu a m&atilde;o armada<br \/>\n    De ferro, e de furor:<br \/>\n    Uma alma sobre todas elevada<br \/>\n    N&atilde;o cede a outra for&ccedil;a, que n&atilde;o seja<br \/>\n    A tenra m&atilde;o de amor. <\/p>\n<p>Arrastem pois os outros muito embora<br \/>\n    Cadeias nas bigornas trabalhadas<br \/>\n    Com pesados martelos:<br \/>\n    Eu tenho as minhas m&atilde;o ao carro atadas<br \/>\n    Com duros ferros n&atilde;o, com fios d&#8217;ouro,<br \/>\n    Que s&atilde;o os teus cabelos. <\/p>\n<p>Oculto nos teus meigos vivos olhos<br \/>\n    Cupido a tudo faz tirana guerra:<br \/>\n    Sacode a seta ardente;<br \/>\n    E sendo despedida c&aacute; da terra,<br \/>\n    As nuvens rompe, chega ao alto Emp&iacute;reo:<br \/>\n    E chega ainda quente. <\/p>\n<p>As abelhas nas asas suspendidas<br \/>\n    Tiram, Mar&iacute;lia, os sucos saborosos<br \/>\n    Das orvalhadas flores:<br \/>\n    Pendentes dos teus beijos graciosos<br \/>\n    O mel n&atilde;o chupam, chupam ambrosias<br \/>\n    Nunca fartos Amores. <\/p>\n<p>O Vento quando parte em largas fitas<br \/>\n    As folhas, que meneia com brandura;<br \/>\n    A fonte cristalina,<br \/>\n    Que sobre as pedras cai de imensa altura,<br \/>\n    N&atilde;o forma um som t&atilde;o doce, como forma<br \/>\n    A tua voz divina. <\/p>\n<p>Em torno dos teus peitos, que palpitam,<br \/>\n    Exaltam mil suspiros desvelados<br \/>\n    Enxames de desejos;<br \/>\n    Se encontram os teus olhos descuidados,<br \/>\n    Por mais que se atropelem, voam, chegam;<br \/>\n    E d&atilde;o furtivos beijos. <\/p>\n<p>O Cisne, quando corta o manso largo,<br \/>\n    Erguendo as brancas asas, e o pesco&ccedil;o;<br \/>\n    A Nau, que ao longe passa,<br \/>\n    Quando o vento lhe infuna o pano grosso,<br \/>\n    O teu garbo n&atilde;o tem, minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    N&atilde;o tem a tua gra&ccedil;a. <\/p>\n<p>Estima pois os mais a liberdade;<br \/>\n    Eu prezo o cativeiro: sim, nem chamo<br \/>\n    &Agrave; m&atilde;o de amor impia:<br \/>\n    Honro a virtude, e os teus dotes amo:<br \/>\n    Tamb&eacute;m o grande Aquiles veste a saia,<br \/>\n    Tamb&eacute;m Alcides fia. <\/p>\n<p><strong> Lira X <\/strong><\/p>\n<p>Se existe um peito,<br \/>\n    Que isento viva<br \/>\n    Da chama ativa,<br \/>\n    Que acende Amor;<br \/>\n    Ah! N&atilde;o habite<br \/>\n    Neste montado,<br \/>\n    Fuja apressado<br \/>\n    Do vil traidor. <\/p>\n<p>Corra, que o impio<br \/>\n    Aqui se esconde,<br \/>\n    N&atilde;o sei aonde;<br \/>\n    Mas sei que o vi.<br \/>\n    Traz novas setas,<br \/>\n    Arco robusto;<br \/>\n    Tremi de susto,<br \/>\n    Em v&atilde;o fugi. <\/p>\n<p>Eu vou mostrar-vos,<br \/>\n    Tristes mortais,<br \/>\n    Quantos sinais<br \/>\n    O impio tem.<br \/>\n    Oh! Como p&eacute; justo<br \/>\n    Que todo o humano<br \/>\n    Um tal tirano<br \/>\n    Conhe&ccedil;a bem! <\/p>\n<p>No corpo ainda<br \/>\n    Menino existe;<br \/>\n    Mas quem resiste<br \/>\n    Ao bra&ccedil;o seu?<br \/>\n    Ao negro Inferno<br \/>\n    Levou a guerra;<br \/>\n    Venceu a terra,<br \/>\n    Venceu o C&eacute;u. <\/p>\n<p>Jamais se cobrem<br \/>\n    Seus membros belos;<br \/>\n    E os seus cabelos<br \/>\n    Que lindos s&atilde;o!<br \/>\n    Vendados olhos,<br \/>\n    Que tudo alcan&ccedil;am,<br \/>\n    E jamais lan&ccedil;am<br \/>\n    A seta em v&atilde;o. <\/p>\n<p>As suas faces<br \/>\n    S&atilde;o cor de neve;<br \/>\n    E a boca breve<br \/>\n    S&oacute; risos tem.<br \/>\n    Mas, ah! respira<br \/>\n    Negros venenos,<br \/>\n    Que nem ao menos,<br \/>\n    Os olhos v&ecirc;em. <\/p>\n<p>Aljava grande<br \/>\n    Dependurada,<br \/>\n    Sempre atacada<br \/>\n    De bons farp&otilde;es.<br \/>\n    Fere com estas<br \/>\n    Agudas lan&ccedil;as<br \/>\n    Pombinhas mansas,<br \/>\n    Bravos le&otilde;es. <\/p>\n<p>Se a seta falta,<br \/>\n    Tem outra pronta,<br \/>\n    Que a dura ponta<br \/>\n    Jamais torceu.<br \/>\n    Ningu&eacute;m resiste<br \/>\n    Aos golpes dela:<br \/>\n    Mar&iacute;lia bela<br \/>\n    Foi quem lha deu. <\/p>\n<p>Ah! N&atilde;o sustente<br \/>\n    Dura peleja<br \/>\n    O que deseja<br \/>\n    Ser vencedor.<br \/>\n    Fuja, e n&atilde;o olhe,<br \/>\n    Que s&oacute; fugindo<br \/>\n    De um rosto lindo <br \/>\n    Se vence Amor. <\/p>\n<p><strong> Lira XI <\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o toques, minha Musa, n&atilde;o, n&atilde;o toques<br \/>\n    Na sonorosa Lira,<br \/>\n    Que &agrave;s almas, como a minha, namoradas<br \/>\n    Doces can&ccedil;&otilde;es inspira:<br \/>\n    Assopra no clarim, que apenas soa,<br \/>\n    Enche de assombro a terra!<br \/>\n    Naquele, a cujo som cantou Homero,<br \/>\n    Cantou Virg&iacute;lio a Guerra. <\/p>\n<p>Busquemos, &oacute; Musa,<br \/>\n    Empresa maior;<br \/>\n    Deixemos as ternas<br \/>\n    Fadigas do Amor. <\/p>\n<p>Eu j&aacute; n&atilde;o vejo as gra&ccedil;as, de que forma<br \/>\n    Cupido o seu tesouro;<br \/>\n    Vivos olhos, e faces cor-de-rosa,<br \/>\n    Com crespos fios de ouro:<br \/>\n    Meus olhos s&oacute; v&ecirc;em gra&ccedil;as, e loureiros;<br \/>\n    V&ecirc;em carvalhos, e palmas;<br \/>\n    V&ecirc;em os ramos honrosos, que distinguem<br \/>\n    As vencedoras almas. <\/p>\n<p>Busquemos, &oacute; Musa,<br \/>\n    Empresa maior;<br \/>\n    Deixemos as ternas<br \/>\n    Fadigas do Amor. <\/p>\n<p>Cantemos o her&oacute;i, que j&aacute; no ber&ccedil;o<br \/>\n    As serpes despeda&ccedil;a;<br \/>\n    Que fere os Cacos, que destrona as hidras;<br \/>\n    Mais os le&otilde;es, que abra&ccedil;a.<br \/>\n    Cantemos, se isto &eacute; pouco, a dura guerra<br \/>\n    Dos Tit&atilde;es, e Tifeus,<br \/>\n    Que arrancam as montanhas, e atrevidos<br \/>\n    Levam armas aos C&eacute;us. <\/p>\n<p>Busquemos, &oacute; Musa,<br \/>\n    Empresa maior;<br \/>\n    Deixemos as ternas<br \/>\n    Fadigas do Amor. <\/p>\n<p>Anima pois, &oacute; Musa, o instrumento,<br \/>\n    Que a voz tamb&eacute;m levanto,<br \/>\n    Por&eacute;m tu deste muito acima o ponto,<br \/>\n    Dirceu n&atilde;o sobe tanto:<br \/>\n    Abaixa, minha Musa, o tom, qu&#8217;ergueste;<br \/>\n    Eu j&aacute;, eu j&aacute; te sigo.<br \/>\n    Mas, ah! vou a dizer Her&oacute;i, e Guerra,<br \/>\n    E s&oacute; MAR&Iacute;LIA digo. <\/p>\n<p>Deixemos, &oacute; Musa,<br \/>\n    Empresa maior;<br \/>\n    S&oacute; posso seguir-te<br \/>\n    Cantando de Amor. <\/p>\n<p>Feres as cordas d&#8217;ouro? Ah! Sim, agora<br \/>\n    Meu canto j&aacute; se afina:<br \/>\n    E a humana voz parece que ao som delas<br \/>\n    Se faz tamb&eacute;m divina.<br \/>\n    O mesmo, que cercou de muro a Tebas,<br \/>\n    N&atilde;o canta assim t&atilde;o terno;<br \/>\n    Nem pode competir comigo aquele,<br \/>\n    Que desceu ao negro Inferno. <\/p>\n<p>Deixemos, &oacute; Musa,<br \/>\n    Empresa maior;<br \/>\n    S&oacute; posso seguir-te<br \/>\n    Cantando de Amor. <\/p>\n<p>Mal repito MAR&Iacute;LIA, as doces aves<br \/>\n    Mostram sinais de espanto;<br \/>\n    Erguem os colos, voltam as cabe&ccedil;as,<br \/>\n    Param o ledo canto:<br \/>\n    Move-se o tronco, o vento se suspende;<br \/>\n    Pasma o gado, e n&atilde;o come:<br \/>\n    Quanto podem meus versos! Quanto pode<br \/>\n    S&oacute; de Mar&iacute;lia o nome! <\/p>\n<p>Deixemos, &oacute; Musa,<br \/>\n    Empresa maior;<br \/>\n    S&oacute; posso seguir-te<br \/>\n    Cantando de Amor. <\/p>\n<p><strong> Lira XII <\/strong><\/p>\n<p>Topei um dia<br \/>\n    Ao Deus vendado,<br \/>\n    Que descuidado<br \/>\n    N&atilde;o tinha as setas<br \/>\n    Na impia m&atilde;o.<br \/>\n    Mal o conhe&ccedil;o,<br \/>\n    Me sobe logo<br \/>\n    Ao rosto o fogo,<br \/>\n    Que a raiva acende<br \/>\n    No cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&quot;Morre, tirano;<br \/>\n    Morre, inimigo.&quot;<br \/>\n    Mal isto digo,<br \/>\n    Raivoso o aperto<br \/>\n    Nos bra&ccedil;os meus.<br \/>\n    Tanto que o mo&ccedil;o<br \/>\n    Sente apertar-se,<br \/>\n    Para salvar-se<br \/>\n    Tamb&eacute;m me aperta<br \/>\n    Nos bra&ccedil;os seus. <\/p>\n<p>O leve corpo<br \/>\n    Ao ar levanto;<br \/>\n    Ah! e com quanto<br \/>\n    Impulso o trago<br \/>\n    Do ar ao ch&atilde;o!<br \/>\n    P&ocirc;de suster-se<br \/>\n    A vez primeira;<br \/>\n    Mas &agrave; terceira<br \/>\n    Nos p&eacute;s, que alarga,<br \/>\n    Se firma em v&atilde;o. <\/p>\n<p>Mal o derrubo,<br \/>\n    Ferro agu&ccedil;ado<br \/>\n    No j&aacute; cansado<br \/>\n    Peito, que arqueja,<br \/>\n    Mil golpes deu.<br \/>\n    Suou seu rosto;<br \/>\n    Tremeu gemendo;<br \/>\n    E a cor perdendo,<br \/>\n    Bateu as asas;<br \/>\n    Enfim morreu. <\/p>\n<p>Qual bravo Alcides,<br \/>\n    Que a hirsuta pele<br \/>\n    Vestiu daquele<br \/>\n    Grenhoso bruto,<br \/>\n    A quem matou;<br \/>\n    Para que prove<br \/>\n    A empresa honrada,<br \/>\n    Co&#8217;a m&atilde;o manchada<br \/>\n    Recolho as setas,<br \/>\n    Que me deixou. <\/p>\n<p>Ouviu Mar&iacute;lia<br \/>\n    Que Amor gritava;<br \/>\n    E como estava <br \/>\n    Vizinha ao s&iacute;tio<br \/>\n    Valer-lhe vem.<br \/>\n    Mas quando chega<br \/>\n    Espavorida,<br \/>\n    Nem j&aacute; de vida<br \/>\n    O fero monstro<br \/>\n    Ind&iacute;cio tem. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Que o v&ecirc; de perto<br \/>\n    De p&oacute; coberto,<br \/>\n    E todo envolto<br \/>\n    No sangue seu,<br \/>\n    As m&atilde;os aperta<br \/>\n    No peito brando,<br \/>\n    E aflita dando<br \/>\n    Um ai, os olhos<br \/>\n    Levanta ao C&eacute;u. <\/p>\n<p>Chega-se a ele<br \/>\n    Compadecida;<br \/>\n    Lava a ferida<br \/>\n    C&#8217;o prato amargo,<br \/>\n    Que derramou.<br \/>\n    Ent&atilde;o o monstro<br \/>\n    Dando um suspiro,<br \/>\n    Fazendo um giro<br \/>\n    Co&#8217;a ba&ccedil;a vista,<br \/>\n    Ressuscitou. <\/p>\n<p>Respira a Deusa;<br \/>\n    E vem o gosto<br \/>\n    Fazer no rosto<br \/>\n    O mesmo efeito,<br \/>\n    Que fez a dor.<br \/>\n    Que louca id&eacute;ia<br \/>\n    Foi, a que tive!<br \/>\n    Enquanto vive<br \/>\n    Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    N&atilde;o morre Amor. <\/p>\n<p><strong> Lira XIII <\/strong><\/p>\n<p>Oh! quantos riscos,<br \/>\n    Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    N&atilde;o atropela<br \/>\n    Quem cego arrasta<br \/>\n    Grilh&otilde;es de Amor!<br \/>\n    Um peito forte,<br \/>\n    De acordo falto,<br \/>\n    Zomba do assalto<br \/>\n    Do vil traidor. <\/p>\n<p>O amante de Hero<br \/>\n    Da luz guiado,<br \/>\n    C&#8217;o peito ousado<br \/>\n    Na escura noite<br \/>\n    Rompia o mar.<br \/>\n    Se o Helesponto<br \/>\n    Se encapelava,<br \/>\n    Ah! n&atilde;o deixava<br \/>\n    De lhe ir falar. <\/p>\n<p>Do Cantor Tr&aacute;cio<br \/>\n    A herocidade<br \/>\n    Esta verdade,<br \/>\n    Minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Prova tamb&eacute;m.<br \/>\n    Cheio de esfor&ccedil;o<br \/>\n    Vai ao Cocito<br \/>\n    Buscar aflito,<br \/>\n    Seu doce bem. <\/p>\n<p>Que a&ccedil;&atilde;o t&atilde;o grande<br \/>\n    Nunca intentada!<br \/>\n    Ao p&eacute; da entrada<br \/>\n    J&aacute; tudo assusta<br \/>\n    O cora&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    Pendentes rochas,<br \/>\n    Campos adustos,<br \/>\n    Nem ervas d&atilde;o. <\/p>\n<p>Na funda fralda<br \/>\n    De calvo monte,<br \/>\n    Corre Aqueronte,<br \/>\n    Rio de ardente,<br \/>\n    Mortal licor.<br \/>\n    Tem o barqueiro<br \/>\n    Testa enrugada,<br \/>\n    Vista inflamada,<br \/>\n    Que mete horror. <\/p>\n<p>Que seguran&ccedil;as!<br \/>\n    Que fechaduras!<br \/>\n    As portas duras<br \/>\n    N&atilde;o s&atilde;o de lenhos;<br \/>\n    De ferro s&atilde;o.<br \/>\n    Por tr&ecirc;s gargantas,<br \/>\n    Quando algu&eacute;m bate,<br \/>\n    Raivoso late <br \/>\n    O negro c&atilde;o. <\/p>\n<p>Dentro da cova<br \/>\n    Soam lamentos;<br \/>\n    N&atilde;o mostra aos olhos<br \/>\n    A escassa luz!<br \/>\n    Minos a pena<br \/>\n    Manda se intime<br \/>\n    Igual ao crime,<br \/>\n    Que ali conduz. <\/p>\n<p>Grande penedo<br \/>\n    Este carrega;<br \/>\n    E apenas chega<br \/>\n    Do monte ao cume,<br \/>\n    O faz rolar.<br \/>\n    A pedra sempre<br \/>\n    Ao vele desce,<br \/>\n    Sem que ele cesse<br \/>\n    De a ir buscar. <\/p>\n<p>Nas limpas &aacute;guas<br \/>\n    Habita aquele:<br \/>\n    Por cima dele<br \/>\n    Verdejam ramos,<br \/>\n    Que pomos d&atilde;o.<br \/>\n    Debalde a boca<br \/>\n    Molhar pretende.<br \/>\n    Debalde estende<br \/>\n    Faminta m&atilde;o. <\/p>\n<p>Tem outro o peito<br \/>\n    Despeda&ccedil;ado:<br \/>\n    Monstro esfaimado<br \/>\n    Jamais descansa<br \/>\n    De lho roer.<br \/>\n    A roxa carne,<br \/>\n    Que o abutre come,<br \/>\n    N&atilde;o se consome,<br \/>\n    Torna a crescer. <\/p>\n<p>Mas bem que tudo<br \/>\n    Pavor inspira,<br \/>\n    Tocando a lira<br \/>\n    Desce ao Averno<br \/>\n    O bom Cantor.<br \/>\n    N&atilde;o se entorpece<br \/>\n    A l&iacute;ngua, e bra&ccedil;o;<br \/>\n    N&atilde;o treme o passo,<br \/>\n    N&atilde;o perde a cor. <\/p>\n<p>Ah! tamb&eacute;m quanto<br \/>\n    Dirceu obrara,<br \/>\n    Se precisara<br \/>\n    Mar&iacute;lia bela<br \/>\n    De esfor&ccedil;o seu!<br \/>\n    Rompera os mares<br \/>\n    C&#8217;o peito terno,<br \/>\n    Fora ao Inferno,<br \/>\n    Subira ao C&eacute;u. <\/p>\n<p>Aos dois amantes<br \/>\n    De Tr&aacute;cia, e Abido<br \/>\n    N&atilde;o deu Cupido<br \/>\n    Do que aos mais todos<br \/>\n    Maior valor.<br \/>\n    Por seus vassalos<br \/>\n    For&ccedil;as reparte,<br \/>\n    Como lhes parte<br \/>\n    Os graus de Amor. <\/p>\n<p><strong> Lira XIV <\/strong><\/p>\n<p> Minha bela Mar&iacute;lia, tudo passa;<br \/>\n    A sorte deste mundo &eacute; mal segura;<br \/>\n    Se vem depois dos males a ventura,<br \/>\n    Vem depois dos prazeres a desgra&ccedil;a.<br \/>\n    Est&atilde;o os mesmos Deuses<br \/>\n    Sujeitos ao poder impio Fado:<br \/>\n    Apolo j&aacute; fugiu do C&eacute;u brilhante,<br \/>\n    J&aacute; foi Pastor de gado. <\/p>\n<p>A devorante m&atilde;o da negra Morte<br \/>\n    Acaba de roubar o bem, que temos;<br \/>\n    At&eacute; na triste campa n&atilde;o podemos<br \/>\n    Zombar do bra&ccedil;o da inconstante sorte.<br \/>\n    Qual fica no sepulcro,<br \/>\n    Que seus av&oacute;s ergueram, descansado;<br \/>\n    Qual no campo, e lhe arranca os brancos ossos<br \/>\n    Ferro do torto arado. <\/p>\n<p>Ah! enquanto os Destinos impiedosos<br \/>\n    N&atilde;o voltam contra n&oacute;s a face irada,<br \/>\n    Fa&ccedil;amos, sim fa&ccedil;amos, doce amada,<br \/>\n    Os nossos breves dias mais ditosos.<br \/>\n    Um cora&ccedil;&atilde;o, que frouxo<br \/>\n    A grata posse de seu bem difere,<br \/>\n    A si, Mar&iacute;lia, a si pr&oacute;prio rouba,<br \/>\n    E a si pr&oacute;prio fere. <\/p>\n<p>Ornemos nossas testas com as flores.<br \/>\n    E fa&ccedil;amos de feno um brando leito,<br \/>\n    Prendamo-nos, Mar&iacute;lia, em la&ccedil;o estreito,<br \/>\n    Gozemos do prazer de s&atilde;os Amores.<br \/>\n    Sobre as nossas cabe&ccedil;as,<br \/>\n    Sem que o possam deter, o tempo corre;<br \/>\n    E para n&oacute;s o tempo, que se passa,<br \/>\n    Tamb&eacute;m, Mar&iacute;lia, morre. <\/p>\n<p>Com os anos, Mar&iacute;lia, o gosto falta,<br \/>\n    E se entorpece o corpo j&aacute; cansado;<br \/>\n    triste o velho cordeiro est&aacute; deitado,<br \/>\n    e o leve filho sempre alegre salta.<br \/>\n    A mesma formosura<br \/>\n    &Eacute; dote, que s&oacute; goza a mocidade:<br \/>\n    Rugam-se as faces, o cabelo alveja,<br \/>\n    Mal chega a longa idade. <\/p>\n<p>Que havemos de esperar, Mar&iacute;lia bela?<br \/>\n    Que v&atilde;o passando os florescentes dias?<br \/>\n    As gl&oacute;rias, que v&ecirc;m tarde, j&aacute; v&ecirc;m frias;<br \/>\n    E pode enfim mudar-se a nossa estrela.<br \/>\n    Ah! N&atilde;o, minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Aproveite-se o tempo, antes que fa&ccedil;a<br \/>\n    O estrago de roubar ao corpo as for&ccedil;as<br \/>\n    E ao semblante a gra&ccedil;a. <\/p>\n<p><strong> Lira XV <\/strong><\/p>\n<p>A minha bela Mar&iacute;lia<br \/>\n    Tem de seu um bom tesouro;<br \/>\n    N&atilde;o &eacute;, doce Alceu, formado<br \/>\n    Do buscado<br \/>\n    Metal louro.<br \/>\n    &Eacute; feito de uns alvos dentes,<br \/>\n    &Eacute; feito de uns olhos belos,<br \/>\n    De umas faces graciosas,<br \/>\n    De crespos, finos cabelos;<br \/>\n    E de outras gra&ccedil;as maiores,<br \/>\n    Que a natureza lhe deu:<br \/>\n    Bens, que valem sobre a terra<br \/>\n    E que t&ecirc;m valor no C&eacute;u. <\/p>\n<p>Eu posso romper os montes,<br \/>\n    Dar &agrave;s correntes espa&ccedil;osos<br \/>\n    Nos caudosos<br \/>\n    Turvos rios.<br \/>\n    Posso emendar a ventura<br \/>\n    Ganhando astuto a riqueza;<br \/>\n    Mas, ah! caro Alceu, quem pode <br \/>\n    Ganhar uma s&oacute; beleza<br \/>\n    Das belezas, que Mar&iacute;lia<br \/>\n    No seu tesouro meteu?<br \/>\n    Bens, que valem sobre a terra,<br \/>\n    E que t&ecirc;m valor no C&eacute;u. <\/p>\n<p>Da sorte que vive o rico<br \/>\n    Entre o fausto alegremente,<br \/>\n    Vive o guardador do gado<br \/>\n    Apoucado,<br \/>\n    Mas contente.<br \/>\n    Beije pois torpe avarento<br \/>\n    As arcas de barras cheias:<br \/>\n    Eu n&atilde;o beijo os vis tesouros,<br \/>\n    Beijo as douradas cadeias,<br \/>\n    Beijo as setas, beijo as armas<br \/>\n    Com que o cego Amor venceu:<br \/>\n    Bens, que valem sobre a terra,<br \/>\n    E que t&ecirc;m valor no C&eacute;u. <\/p>\n<p>Ama Apolo, e o fero Marte;<br \/>\n    Ama, Alceu, o mesmo Jove:<br \/>\n    N&atilde;o &eacute;, n&atilde;o, a v&atilde; riqueza,<br \/>\n    Sim beleza,<br \/>\n    Quem os move.<br \/>\n    Posto ao lado de Mar&iacute;lia<br \/>\n    Mais que mortal me contemplo:<br \/>\n    Deixo os bens, que aos homens cegam,<br \/>\n    Sigo dos Deuses o exemplo:<br \/>\n    Amo virtudes, e dotes;<br \/>\n    Amo enfim, prezado Alceu,<br \/>\n    Bens, que valem sobre a terra,<br \/>\n    E que t&ecirc;m valor no C&eacute;u. <\/p>\n<p><strong> Lira XVI <\/strong><\/p>\n<p>Eu, Glauceste, n&atilde;o duvido<br \/>\n    Ser a tua Eulina amada<br \/>\n    Pastora formosa,<br \/>\n    Pastora engra&ccedil;ada,<br \/>\n    Vejo a sua cor-de-rosa,<br \/>\n    Vejo o seu olhar divino,<br \/>\n    Vejo os seus purp&uacute;reos bei&ccedil;os,<br \/>\n    Vejo o peito cristalino;<br \/>\n    Nem h&aacute; coisa, que assemelhe<br \/>\n    Ao crespo cabelo louro.<br \/>\n    Ah! que a tua Eulina vale,<br \/>\n    Vale um imenso tesouro! <\/p>\n<p>Ela vence muito, e muito<br \/>\n    &Agrave; laranjeira copada,<br \/>\n    Estando de flores,<br \/>\n    E de frutos ornada.<br \/>\n    &Eacute;, Glauceste, os teus Amores;<br \/>\n    E nem por outra Pastora,<br \/>\n    Que menos dotes tivera,<br \/>\n    Ou que menos bela fora,<br \/>\n    O meu Glauceste cansara<br \/>\n    As divinas cordas de ouro.<br \/>\n    Ah! que a tua Eulina vale,<br \/>\n    Vale um imenso tesouro! <\/p>\n<p>Sim, Eulina &eacute; uma Deusa;<br \/>\n    Mas anima a formosura<br \/>\n    De uma alma de fera;<br \/>\n    Ou inda mais dura.<br \/>\n    Ah! quando Dirceu pondera<br \/>\n    Que o seu Glauceste suspira,<br \/>\n    Perde, perde o sofrimento,<br \/>\n    E qual enfermo delira!<br \/>\n    Tenha embora brancas faces,<br \/>\n    Meigos olhos, fios de ouro,<br \/>\n    A tua Eulina n&atilde;o vale,<br \/>\n    N&atilde;o vale imenso tesouro. <\/p>\n<p>O fuzil, que imita a cobra,<br \/>\n    Tamb&eacute;m aos olhos &eacute; belo:<br \/>\n    Mas quando alumeia,<br \/>\n    Tu tremes de v&ecirc;-lo.<br \/>\n    Que importa se mostra cheia<br \/>\n    De mil belezas a ingrata?<br \/>\n    N&atilde;o se julga formosura <br \/>\n    A formosura, que mata.<br \/>\n    Evita, Glauceste, evita<br \/>\n    O teu estrago, e desdouro;<br \/>\n    A tua Eulina n&atilde;o vale,<br \/>\n    N&atilde;o vale imenso tesouro. <\/p>\n<p>A minha Mar&iacute;lia quanto<br \/>\n    &Agrave; natureza n&atilde;o deve!<br \/>\n    Tem divino rosto,<br \/>\n    E tem m&atilde;os de neve.<br \/>\n    Se mostro na face o gosto,<br \/>\n    Ri-se Mar&iacute;lia contente;<br \/>\n    Se canto, canta comigo,<br \/>\n    E apenas triste me sente,<br \/>\n    Limpa os olhos com as tran&ccedil;as<br \/>\n    De fino cabelo louro.<br \/>\n    A minha Mar&iacute;lia vale,<br \/>\n    Vale um imenso tesouro. <\/p>\n<p><strong> Lira XVII <\/strong><\/p>\n<p>Minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Tu enfadada?<br \/>\n    Que m&atilde;o ousada<br \/>\n    Perturbar pode<br \/>\n    A paz sagrada<br \/>\n    Do peito teu?<br \/>\n    Por&eacute;m que muito<br \/>\n    Que irado esteja<br \/>\n    O teu semblante!<br \/>\n    Tamb&eacute;m troveja<br \/>\n    O claro C&eacute;u. <\/p>\n<p>Eu sei, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Que outra Pastora<br \/>\n    A toda hora,<br \/>\n    Em toda a parte<br \/>\n    Cega namora<br \/>\n    Ao teu Pastor.<br \/>\n    H&aacute; sempre fumo<br \/>\n    Aonde h&aacute; fogo:<br \/>\n    Assim, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    H&aacute; zelos, logo<br \/>\n    Que existe amor. <\/p>\n<p>Olha, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Na fonte pura<br \/>\n    A tua alvura,<br \/>\n    A tua boca,<br \/>\n    E a compostura<br \/>\n    Das mais fei&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Quem tem teu rosto<br \/>\n    Ah! n&atilde;o receia<br \/>\n    Que terno amante<br \/>\n    Solte a cadeia,<br \/>\n    Quebre os grilh&otilde;es. <\/p>\n<p>N&atilde;o anda Laura<br \/>\n    Nestas campinas<br \/>\n    Sem as boninas<br \/>\n    No seu cabelo,<br \/>\n    Sem peles finas<br \/>\n    No seu jub&atilde;o.<br \/>\n    Por&eacute;m que importa?<br \/>\n    O rico asseio<br \/>\n    N&atilde;o d&aacute;, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Ao rosto feio<br \/>\n    A perfei&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Quando apareces<br \/>\n    Na madrugada,<br \/>\n    Mal embrulhada<br \/>\n    Na larga roupa,<br \/>\n    E desgrenhada<br \/>\n    Sem fita, ou flor;<br \/>\n    Ah! que ent&atilde;o brilha<br \/>\n    A natureza!<br \/>\n    Est&atilde;o se mostra<br \/>\n    Tua beleza<br \/>\n    Inda maior. <\/p>\n<p>O C&eacute;u formoso,<br \/>\n    Quando alumia<br \/>\n    O Sol de dia,<br \/>\n    Ou estrelado<br \/>\n    Noa noite fria,<br \/>\n    Parece bem.<br \/>\n    Tamb&eacute;m tem gra&ccedil;a<br \/>\n    Quando amanhece;<br \/>\n    At&eacute;, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Quando anoitece<br \/>\n    Tamb&eacute;m a tem. <\/p>\n<p>Que tens, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Que ela suspire!<br \/>\n    Que ela delire!<br \/>\n    Que corra os vales!<br \/>\n    Que os montes gire<br \/>\n    Louca de amor!<br \/>\n    Ela &eacute; que sente<br \/>\n    Esta desdita,<br \/>\n    E na repulsa<br \/>\n    Mais se acredita<br \/>\n    O teu Pastor. <\/p>\n<p>Quando h&aacute;, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Alguma festa<br \/>\n    L&aacute; na floresta,<br \/>\n    (Fala a verdade)<br \/>\n    dan&ccedil;a com esta<br \/>\n    o bom Dirceu?<br \/>\n    E se ela o busca,<br \/>\n    Vendo buscar-se<br \/>\n    N&atilde;o se levanta,<br \/>\n    N&atilde;o vai sentar-se<br \/>\n    Ao lado teu? <\/p>\n<p>Quando um por outro<br \/>\n    Na rua passa,<br \/>\n    Se ela diz gra&ccedil;a,<br \/>\n    Ou muda o gesto,<br \/>\n    Esta nega&ccedil;a<br \/>\n    Faz-lhe impress&atilde;o?<br \/>\n    Se est&aacute; fronteira,<br \/>\n    E brandamente<br \/>\n    Lhe fita os olhos,<br \/>\n    N&atilde;o p&otilde;e prudente<br \/>\n    Os seus no ch&atilde;o?<br \/>\n    Deixa o ci&uacute;me,<br \/>\n    Que te desvela:<br \/>\n    Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Nunca receies<br \/>\n    Dano daquela<br \/>\n    Que igual n&atilde;o for.<br \/>\n    Que mais desejas?<br \/>\n    Tens lindo aspecto;<br \/>\n    Dirceu se alenta<br \/>\n    De puro afeto,<br \/>\n    E pundonor. <\/p>\n<p><strong> Lira XVIII <\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o v&ecirc;s aquele velho respeit&aacute;vel<br \/>\n    Que &agrave; muleta encostado<br \/>\n    Apenas mal se move, e mal se arrasta?<br \/>\n    Oh! quanto estrago n&atilde;o lhe fez o tempo!<br \/>\n    O tempo arrebatado,<br \/>\n    Que o mesmo bronze gasta. <\/p>\n<p>Enrugaram-se as faces, e perderam<br \/>\n    Seus olhos a viveza;<br \/>\n    Voltou-se o seu cabelo em branca neve:<br \/>\n    J&aacute; lhe treme a cabe&ccedil;a, a m&atilde;o, o queixo,<br \/>\n    N&atilde;o tem uma beleza<br \/>\n    Das belezas, que teve. <\/p>\n<p>Assim tamb&eacute;m serei, minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Daqui a poucos anos;<br \/>\n    Que o impio tempo para todos corre.<br \/>\n    Os dentes cair&atilde;o, e os meus cabelos,<br \/>\n    Ah! sentirei os danos,<br \/>\n    Que evita s&oacute; quem morre. <\/p>\n<p>Mas sempre passarei uma velhice<br \/>\n    Muito menos penosa.<br \/>\n    N&atilde;o trarei a muleta carregada:<br \/>\n    Descansarei o j&aacute; vergado corpo<br \/>\n    Na tua m&atilde;o piedosa,<br \/>\n    Na tua m&atilde;o nevada. <\/p>\n<p>Nas frias tardes, em que negra nuvem<br \/>\n    Os chuveiros n&atilde;o lance,<br \/>\n    Irei contigo ao prado florescente:<br \/>\n    Aqui me buscar&aacute;s um s&iacute;tio ameno;<br \/>\n    Onde os membros descanse,<br \/>\n    E o brando sol me aquente. <\/p>\n<p>Apenas me sentar, ent&atilde;o movendo<br \/>\n    Os olhos por aquela<br \/>\n    Vistosa parte, que ficar fronteira;<br \/>\n    Apontando direi: &quot;Ali falamos,<br \/>\n    &quot;Ali, &oacute; minha bela,<br \/>\n    &quot;Te vi a vez primeira.&quot; <\/p>\n<p>Verter&atilde;o os meus olhos duas fontes,<br \/>\n    Nascidas de alegria:<br \/>\n    Far&atilde;o teus olhos ternos outro tanto:<br \/>\n    Ent&atilde;o darei, Mar&iacute;lia, frios beijos<br \/>\n    Na m&atilde;o formosa, e pia,<br \/>\n    Que me limpar o pranto. <\/p>\n<p>Assim ir&aacute;, Mar&iacute;lia, docemente<br \/>\n    Meu corpo suportando<br \/>\n    Do tempo desumano a dura guerra.<br \/>\n    Contente morrerei, por ser Mar&iacute;lia<br \/>\n    Quem sentida chorando<br \/>\n    Meus bra&ccedil;os olhos cerra. <\/p>\n<p><strong> Lira XIX <\/strong><\/p>\n<p>Enquanto pasta alegre o manso gado,<br \/>\n    Minha bela Mar&iacute;lia, nos sentemos<br \/>\n    &Agrave; sombra deste cedro levantado.<br \/>\n    Um pouco meditemos<br \/>\n    Na regular beleza,<br \/>\n    Que em tudo quanto vive, nos descobre<br \/>\n    A s&aacute;bia natureza. <\/p>\n<p>Atende, como aquela vaca preta<br \/>\n    O novilhinho seu dos mais separa,<br \/>\n    E o lambe, enquanto chupa a lisa teta.<br \/>\n    Atende mais, &oacute; cara,<br \/>\n    Como a ruiva cadela<br \/>\n    Suporta que lhe morda o filho o corpo,<br \/>\n    E salte em cima dela. <\/p>\n<p>Repara, como cheia de ternura <br \/>\n    Entre as asas ao filho essa ave aquenta,<br \/>\n    Como aquela esgravata a terra dura,<br \/>\n    E os seus assim sustenta;<br \/>\n    Como se encoleriza,<br \/>\n    E salta sem receio a todo o vulto,<br \/>\n    Que junto deles pisa. <\/p>\n<p>Que gosto n&atilde;o ter&aacute; a esposa amante,<br \/>\n    Quando der ao filhinho o peito brando,<br \/>\n    E refletir ent&atilde;o no seu semblante!<br \/>\n    Quando, Mar&iacute;lia, quando<br \/>\n    Disser consigo: &quot;&Eacute; esta<br \/>\n    &quot;De teu querido pai a mesma barba,<br \/>\n    &quot;A mesma boca, e testa.&quot; <\/p>\n<p>Que gosto n&atilde;o ter&aacute; a m&atilde;e, que toca,<br \/>\n    Quando o tem nos seus bra&ccedil;os, c&#8217;o dedinho<br \/>\n    Nas faces graciosas, e na boca<br \/>\n    Do inocente filhinho!<br \/>\n    Quando, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    O tenro infante j&aacute; com risos mudos<br \/>\n    Come&ccedil;a a conhec&ecirc;-la! <\/p>\n<p>Que prazer n&atilde;o ter&atilde;o os pais ao verem<br \/>\n    Com as m&atilde;es um dos filhos abra&ccedil;ados;<br \/>\n    Jogar outros luta, outros correrem<br \/>\n    Nos cordeiros montados!<br \/>\n    Que estado de ventura!<br \/>\n    Que at&eacute; naquilo, que de peso serve,<br \/>\n    Inspira Amor, do&ccedil;ura. <\/p>\n<p><strong>Lira XX <\/strong><\/p>\n<p>Era uma frondosa<br \/>\n    Roseira se abria<br \/>\n    Um lindo bot&atilde;o.<br \/>\n    Mar&iacute;lia formosa<br \/>\n    O p&eacute; lhe torcia<br \/>\n    Com a branca m&atilde;o. <\/p>\n<p>Nas folhas vi&ccedil;osas<br \/>\n    A abelha enraivada<br \/>\n    O corpo escondeu.<br \/>\n    Tocou-lhe Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Na m&atilde;o descuidada<br \/>\n    A fera mordeu. <\/p>\n<p>Apenas lhe morde,<br \/>\n    Mar&iacute;lia gritando,<br \/>\n    C&#8217;o dedo fugiu.<br \/>\n    Amor, que no bosque<br \/>\n    Estava brincando,<br \/>\n    Aos ais acudiu. <\/p>\n<p>Mal viu a rotura,<br \/>\n    E o sangue espargido,<br \/>\n    Que a Deusa mostrou;<br \/>\n    Risonho beijando<br \/>\n    O dedo ofendido,<br \/>\n    Assim lhe falou: <\/p>\n<p>&quot;Se tu por n&atilde;o t&atilde;o pouco<br \/>\n    &quot;O pranto desatas,<br \/>\n    &quot;Ah! d&aacute;-me aten&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    &quot;E como daquele,<br \/>\n    &quot;Que feres, e matas,<br \/>\n    &quot;N&atilde;o tens compaix&atilde;o?&quot; <\/p>\n<p><strong>Lira XXI <\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o sei, Mar&iacute;lia, que tenho,<br \/>\n    Depois que vi o teu rosto;<br \/>\n    Pois quanto n&atilde;o &eacute; Mar&iacute;lia,<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o posso ver com gosto.<br \/>\n    Noutra idade me alegrava,<br \/>\n    At&eacute; quando conversava<br \/>\n    Com o mais rude vaqueiro:<br \/>\n    Hoje, &oacute; Bela, me aborrece<br \/>\n    Inda o trato lisonjeiro<br \/>\n    Do mais discreto pastor <br \/>\n    Que efeitos s&atilde;o os que sinto?<br \/>\n    Ser&atilde;o efeitos de Amor? <\/p>\n<p>Saio da minha cabana<br \/>\n    Sem reparar no que fa&ccedil;o:<br \/>\n    Busco o s&iacute;tio aonde moras,<br \/>\n    Suspendo defronte o passo.<br \/>\n    Fito os olhos na janela,<br \/>\n    Aonde, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Tu chegas ao fim do dia;<br \/>\n    Se algu&eacute;m passa, e te sa&uacute;da,<br \/>\n    Bem que seja cortesia,<br \/>\n    Se acende na face a cor.<br \/>\n    Que efeitos s&atilde;o os que sinto?<br \/>\n    Ser&atilde;o os efeitos de Amor? <\/p>\n<p>Se estou, Mar&iacute;lia, contigo,<br \/>\n    N&atilde;o tenho um leve cuidado;<br \/>\n    Nem me lembra se s&atilde;o horas<br \/>\n    De levar &agrave; fonte o gado.<br \/>\n    Se vivo de ti distante,<br \/>\n    Ao minuto, ao breve instante<br \/>\n    Finge um dia o meu desgosto:<br \/>\n    Jamais, Pastora, te vejo<br \/>\n    Que em seu semblante composto<br \/>\n    N&atilde;o veja gra&ccedil;a maior.<br \/>\n    Que efeitos s&atilde;o os que sinto?<br \/>\n    Ser&atilde;o os efeitos de Amor? <\/p>\n<p>Ando j&aacute; com o ju&iacute;zo,<br \/>\n    Mar&iacute;lia, t&atilde;o perturbado,<br \/>\n    Que no mesmo aberto sulco<br \/>\n    Meto de novo o arado.<br \/>\n    Aqui no centeio pego,<br \/>\n    Noutra parte em v&atilde;o o sego:<br \/>\n    Se algu&eacute;m comigo conversa,<br \/>\n    Ou n&atilde;o respondo, ou respondo<br \/>\n    Noutra coisa t&atilde;o diversa,<br \/>\n    Que nexo n&atilde;o tem menor.<br \/>\n    Que efeitos s&atilde;o os que sinto?<br \/>\n    Ser&atilde;o os efeitos de Amor? <\/p>\n<p>Se geme o bufo agoureiro,<br \/>\n    S&oacute; Mar&iacute;lia me desvela,<br \/>\n    Enche-se o peito de m&aacute;goa,<br \/>\n    E n&atilde;o sei a causa dela.<br \/>\n    Mal durmo, Mar&iacute;lia, sonho<br \/>\n    Que fero le&atilde;o medonho<br \/>\n    Te devora nos meus bra&ccedil;os:<br \/>\n    Gela-se o sangue nas veias,<br \/>\n    E solto do sono os la&ccedil;os<br \/>\n    &Agrave; for&ccedil;a da imensa dor.<br \/>\n    Ah! que os efeitos, que sinto,<br \/>\n    S&oacute; s&atilde;o efeitos de Amor. <\/p>\n<p><strong> Lira XXII <\/strong><\/p>\n<p>Muito embora, Mar&iacute;lia, muito embora<br \/>\n    Outra beleza, que n&atilde;o seja a tua,<br \/>\n    Com avermelha roda, a seis puxada,<br \/>\n    Fa&ccedil;a tremer a rua. <\/p>\n<p>As paredes da sala, aonde habita,<br \/>\n    Adorne a seda, e o trem&oacute; dourado;<br \/>\n    Pendam largas cortinas, penda o lustre<br \/>\n    Do teto apainelado. <\/p>\n<p>Tu n&atilde;o habitar&aacute;s pal&aacute;cios grande,<br \/>\n    Nem andar&aacute;s no coches voadores;<br \/>\n    Por&eacute;m ter&aacute;s um Vate, que te preze,<br \/>\n    Que cante os teus louvores. <\/p>\n<p>O tempo n&atilde;o respeita a formosura;<br \/>\n    E da p&aacute;lida morte a m&atilde;o tirana<br \/>\n    Arrasa os edif&iacute;cios dos Augustos,<br \/>\n    E arrasa a vil choupana. <\/p>\n<p>Que belezas, Mar&iacute;lia, floresceram,<br \/>\n    De quem nem sequer temos a mem&oacute;ria!<br \/>\n    S&oacute; podem conservar um nome eterno<br \/>\n    Os versos, ou a hist&oacute;ria. <\/p>\n<p>Se n&atilde;o houvesse Tasso, nem Petrarca,<br \/>\n    Por mais que qualquer delas fosse linda,<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o sabia o mundo, se existiram<br \/>\n    Nem Laura, nem Clorinda. <\/p>\n<p>&Eacute; melhor, minha Bela, ser lembrada<br \/>\n    Por quantos h&atilde;o de vir s&aacute;bios humanos,<br \/>\n    Que ter urcos, ter coches, e tesouros,<br \/>\n    Que morrem com os anos. <\/p>\n<p><strong> Lira XXIII <\/strong><\/p>\n<p>Num s&iacute;tio ameno<br \/>\n    Cheio de rosas,<br \/>\n    De brancos l&iacute;rios,<br \/>\n    Murtas vi&ccedil;osas; <\/p>\n<p>Dos seus amores<br \/>\n    Na companhia<br \/>\n    Dirceu passava<br \/>\n    Alegre o dia. <\/p>\n<p>Em tom de gra&ccedil;a<br \/>\n    Ao terno amante<br \/>\n    Manda Mar&iacute;lia<br \/>\n    Que toque, e cante. <\/p>\n<p>Pega na lira,<br \/>\n    Sem que a tempere,<br \/>\n    A voz levanta,<br \/>\n    E as cordas fere. <\/p>\n<p>C&#8217;os doces pontos<br \/>\n    A m&atilde;o atina,<br \/>\n    E a voz iguala<br \/>\n    &Agrave; voz divina. <\/p>\n<p>Ela, que teve <br \/>\n    De rir-se a id&eacute;ia,<br \/>\n    Nem move os olhos<br \/>\n    De assombro cheia: <\/p>\n<p>Ent&atilde;o cupido<br \/>\n    Aparecendo,<br \/>\n    &Agrave; Bela fala<br \/>\n    Assim dizendo: <\/p>\n<p>&quot;Do teu amado<br \/>\n    &quot;A lira fias,<br \/>\n    &quot;S&oacute; porque dele<br \/>\n    &quot;Zombando rias? <\/p>\n<p>&quot;Quando num peito<br \/>\n    &quot;Assento fa&ccedil;o,<br \/>\n    &quot;Do peito subo<br \/>\n    &quot;&Agrave; l&iacute;ngua, e bra&ccedil;o. <\/p>\n<p>&quot;Nem creias que outro<br \/>\n    &quot;Estilo tome,<br \/>\n    &quot;Sendo eu o mestre,<br \/>\n    &quot;A a&ccedil;&atilde;o teu nome.&quot; <\/p>\n<p><strong> Lira XXIV <\/strong><\/p>\n<p>Encheu, minha Mar&iacute;lia, o grande Jove<br \/>\n    De imensos animais de toda a esp&eacute;cie<br \/>\n    As terras, mais os ares,<br \/>\n    O grande espa&ccedil;o dos salobros, rios,<br \/>\n    Dos negros, fundos mares,<br \/>\n    Para sua defesa,<br \/>\n    A todos deu as armas, que convinha<br \/>\n    A s&aacute;bia natureza. <\/p>\n<p>Deu as asas aos p&aacute;ssaros ligeiros,<br \/>\n    Deu ao peixe escamoso as barbatanas;<br \/>\n    Deu veneno &agrave; serpente,<br \/>\n    Ao membrudo elefante a enorme tromba,<br \/>\n    E ao javali o dente.<br \/>\n    Coube ao le&atilde;o a garra;<br \/>\n    Com leve p&eacute; saltando o cervo foge;<br \/>\n    E o bravo touro marra. <\/p>\n<p>Ao homem deu as armas do discurso,<br \/>\n    Que valem muito mais que as outras armas;<br \/>\n    Deu-lhe dedos ligeiros,<br \/>\n    Que podem converter em seu servi&ccedil;o<br \/>\n    Os ferros, e os madeiros;<br \/>\n    Que tecem fortes la&ccedil;os,<br \/>\n    E forjam raios, com que aos brutos cortam<br \/>\n    Os v&ocirc;os, mais os passos. <\/p>\n<p>&Agrave;s t&iacute;midas donzelas pertenceram<br \/>\n    Outras armas, que t&ecirc;m dobrada for&ccedil;a,<br \/>\n    Deu-lhes a Natureza<br \/>\n    Al&eacute;m do entendimento, al&eacute;m dos bra&ccedil;os<br \/>\n    As armas da beleza.<br \/>\n    S&oacute; ela ao C&eacute;u se atreve;<br \/>\n    S&oacute; ela mudar pode o gelo em fogo,<br \/>\n    Mudar o fogo em neve. <\/p>\n<p>Eu vejo, eu vejo ser a formosura,<br \/>\n    Quem arrancou da m&atilde;o de Coriolano<br \/>\n    A cortadora espada.<br \/>\n    Vejo que foi de Helena o lindo rosto,<br \/>\n    Quem p&ocirc;s em campo armada<br \/>\n    Toda a for&ccedil;a da Gr&eacute;cia.<br \/>\n    E quem tirou o cetro aos reis de Roma?<br \/>\n    S&oacute; foi, s&oacute; foi Lucr&eacute;cia. <\/p>\n<p>Se podem lindos rostos, mal suspiram,<br \/>\n    O bra&ccedil;o desarmar do mesmo Aquiles;<br \/>\n    Se estes rostos irados<br \/>\n    Podem soprar o fogo da disc&oacute;rdia<br \/>\n    Em povos aliados;<br \/>\n    &Eacute;s &aacute;rbitra da terra:<br \/>\n    Tu podes dar, Mar&iacute;lia, a todo o mundo<br \/>\n    A paz, e a dura guerra. <\/p>\n<p><strong> Lira XXV <\/strong><\/p>\n<p>O cego Cupido um dia<br \/>\n    Com os seus G&ecirc;nios falava<br \/>\n    Do modo, que lhe restava<br \/>\n    De cativar a Dirceu.<br \/>\n    Depois de larga disputa,<br \/>\n    Um dos G&ecirc;nios mais sagazes<br \/>\n    Este conselho lhe deu: <\/p>\n<p>As setas mais agu&ccedil;adas,<br \/>\n    Como se em rocha batessem,<br \/>\n    D&atilde;o no peito seu, e descem<br \/>\n    Todas quebradas ao ch&atilde;o.<br \/>\n    S&oacute; as gra&ccedil;as de Mar&iacute;lia<br \/>\n    Podem vencer um t&atilde;o duro,<br \/>\n    T&atilde;o isento cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>A fortuna desta empresa<br \/>\n    Consiste em armar-se o la&ccedil;o,<br \/>\n    Sem que sinta ser o bra&ccedil;o,<br \/>\n    Que lho prepara, de Amor:<br \/>\n    Que ele vive como as aves,<br \/>\n    Que j&aacute; deixaram as penas<br \/>\n    No visco do ca&ccedil;ador. <\/p>\n<p>Na for&ccedil;a deste conselho<br \/>\n    O raivoso Deus sossega,<br \/>\n    E &agrave; tropa a honra entrega<br \/>\n    De o fazer executar.<br \/>\n    Todos pretendem ganh&aacute;-la;<br \/>\n    Batem as asas ligeiros,<br \/>\n    E v&atilde;o as armas buscar. <\/p>\n<p>Os primeiros se ocultaram<br \/>\n    Da Deusa nos olhos belos:<br \/>\n    Qual se enla&ccedil;ou nos cabelos,<br \/>\n    Qual &agrave;s faces se prendeu.<br \/>\n    Um amorinho cansado<br \/>\n    Caiu dos l&aacute;bios ao seio,<br \/>\n    E nos peitos se escondeu. <\/p>\n<p>Outro G&ecirc;nio mais astuto<br \/>\n    Este novo ardil alcan&ccedil;a,<br \/>\n    Muda-se numa crian&ccedil;a<br \/>\n    De divino parecer.<br \/>\n    Esconde as asas, e a venda;<br \/>\n    Esconde as setas, e quanto<br \/>\n    Pode d&aacute;-lo a conhecer. <\/p>\n<p>Ela que v&ecirc; um menino<br \/>\n    Todo de gra&ccedil;as coberto,<br \/>\n    T&atilde;o risonho, e t&atilde;o esperto<br \/>\n    Ali sozinho brincar,<br \/>\n    A ele endireita os passos;<br \/>\n    Finge Amor ter medo, e a Deusa<br \/>\n    Mais que empenha em lhe pegar. <\/p>\n<p>Ela corria chamando;<br \/>\n    Ele fugia, e chorava:<br \/>\n    Assim foram onde estava<br \/>\n    O descuidado Pastor.<br \/>\n    Este, mal viu a beleza,<br \/>\n    E o gentil menino, entende<br \/>\n    A mal&iacute;cia do traidor. <\/p>\n<p>P&otilde;e as m&atilde;os sobre os ouvidos,<br \/>\n    Cerra os olhos, e constante<br \/>\n    N&atilde;o quer ver o seu semblante,<br \/>\n    N&atilde;o o quer ouvir falar.<br \/>\n    Qual Ulisses noutra idade<br \/>\n    Para iludir as Sereias<br \/>\n    Mandou tambores tocar. <\/p>\n<p>Cupido, que a empresa via,<br \/>\n    Julga o intento frustrado,<br \/>\n    E de raiva transportado <br \/>\n    O corpo na ch&atilde;o lan&ccedil;ou.<br \/>\n    Tra&ccedil;ou a l&iacute;ngua nos dentes;<br \/>\n    Meteu as unhas no rosto,<br \/>\n    E os cabelos arrancou. <\/p>\n<p>O G&ecirc;nio, que se escondia<br \/>\n    Entre os peitos da Pastora,<br \/>\n    Ergueu a cabe&ccedil;a fora,<br \/>\n    E o sucesso conheceu.<br \/>\n    Deixa o sossego em que estava,<br \/>\n    E vai ligeiro meter-se<br \/>\n    No peito do bom Dirceu. <\/p>\n<p>Apenas do brando peito<br \/>\n    Lhe tocou a neve fria,<br \/>\n    Com o calor, que trazia,<br \/>\n    Lhe abrasou o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    D&aacute; o Pastor um suspiro,<br \/>\n    Abre os seus olhos, e solta<br \/>\n    Do apertado ouvido a m&atilde;o. <\/p>\n<p>Logo que viram os G&ecirc;nios<br \/>\n    Ao triste Pastor disposto<br \/>\n    Para ver o lindo rosto,<br \/>\n    Para as palavras ouvir,<br \/>\n    Cada um as armas toma,<br \/>\n    Cada um com elas busca<br \/>\n    Seu terno peito ferir. <\/p>\n<p>Com os cabelos da Deusa<br \/>\n    Lhe forma um Cupido la&ccedil;os,<br \/>\n    Que lhe seguram os bra&ccedil;os,<br \/>\n    Como se fossem grilh&otilde;es.<br \/>\n    O Pastor j&aacute; n&atilde;o resiste;<br \/>\n    Antes beija satisfeito<br \/>\n    As suas doces pris&otilde;es. <\/p>\n<p><strong> Lira XXVI <\/strong><\/p>\n<p>O destro Cupido um dia<br \/>\n    Extraiu mimosas cores<br \/>\n    De frescos l&iacute;rios, e rosas,<br \/>\n    De jasmins, e de outras flores. <\/p>\n<p>Com as mais delgadas penas<br \/>\n    Usa de uma, e de outra tinta,<br \/>\n    E nos &acirc;ngulos do cobre<br \/>\n    A quatro belezas pinta. <\/p>\n<p>Por fazer pensar a todos<br \/>\n    No seu liso centro escreve<br \/>\n    Um letreiro, que pergunta:<br \/>\n    &quot;Este espa&ccedil;o a quem se deve?&quot; <\/p>\n<p>V&ecirc;nus, que viu a pintura,<br \/>\n    E leu a letra engenhosa,<br \/>\n    P&ocirc;s por baixo &quot;Eu dele cedo;<br \/>\n    &quot;D&ecirc;-se a Mar&iacute;lia formosa.&quot; <\/p>\n<p><strong> Lira XXVII <\/strong><\/p>\n<p>Alexandre, Mar&iacute;lia, qual o rio,<br \/>\n    Que engrossando no inverno tudo arrasa,<br \/>\n    Na frente das coortes<br \/>\n    Cerca, vence, abrasa<br \/>\n    As cidades mais fortes.<br \/>\n    Foi na gl&oacute;ria das armas o primeiro;<br \/>\n    Morreu na flor dos anos, e j&aacute; tinha<br \/>\n    Vencido o mundo inteiro. <\/p>\n<p>Mas este bom soldado, cujo nome<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; poder algum, que n&atilde;o abata,<br \/>\n    Foi, Mar&iacute;lia, somente<br \/>\n    Um ditoso pirata,<br \/>\n    Um salteador valente.<br \/>\n    Se n&atilde;o tem uma fama baixa, e escura,<br \/>\n    Foi por se p&ocirc;r ao lado da injusti&ccedil;a<br \/>\n    A insolente ventura. <\/p>\n<p>O grande C&eacute;sar, cujo nome voa,<br \/>\n    &Agrave; sua mesma P&aacute;tria a f&eacute; quebranta;<br \/>\n    Na m&atilde;o a espada toma,<br \/>\n    Oprime-lhe a garganta,<br \/>\n    D&aacute; Senhores a Roma.<br \/>\n    Consegue ser her&oacute;i por um delito;<br \/>\n    Se acaso n&atilde;o vencesse, ent&atilde;o seria<br \/>\n    Um vil traidor proscrito. <\/p>\n<p>O ser her&oacute;i, Mar&iacute;lia, n&atilde;o consiste<br \/>\n    Em queimar os Imp&eacute;rios: move a guerra,<br \/>\n    Espalha o sangue humano,<br \/>\n    E despovoa a terra<br \/>\n    Tamb&eacute;m o mau tirano.<br \/>\n    Consiste o ser her&oacute;i em viver justo:<br \/>\n    E tanto pode ser her&oacute;i pobre,<br \/>\n    Como o maior Augusto. <\/p>\n<p>Eu &eacute; que sou her&oacute;i, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    Segundo da virtude a honrosa estrada:<br \/>\n    Ganhei, ganhei um trono,<br \/>\n    Ah! n&atilde;o manchei a espada,<br \/>\n    N&atilde;o roubei ao dono.<br \/>\n    Ergui-o no teu peito, e nos teus bra&ccedil;os:<br \/>\n    E valem muito mais que o mundo inteiro<br \/>\n    Uns t&atilde;o ditosos la&ccedil;os. <\/p>\n<p>Aos b&aacute;rbaros, injustos vencedores<br \/>\n    Atormentam remorsos, e cuidados;<br \/>\n    Nem descansam seguros<br \/>\n    Nos pal&aacute;cios cercados<br \/>\n    De tropa, e de altos muros.<br \/>\n    E a quantos nos n&atilde;o mostra a s&aacute;bia hist&oacute;ria<br \/>\n    A quem mudou o Fado em negro opr&oacute;brio<br \/>\n    A mal ganhada gl&oacute;ria. <\/p>\n<p>Eu vivo, minha Bela, sim, eu vivo<br \/>\n    Nos bra&ccedil;os do descanso, e mais do gosto:<br \/>\n    Quando estou acordado<br \/>\n    Contemplo no teu rosto<br \/>\n    De gra&ccedil;as adornado:<br \/>\n    Se durmo, logo sonho, e ali te vejo.<br \/>\n    Ah! nem desperto, nem dormindo sobe<br \/>\n    A mais o meu desejo. <\/p>\n<p><strong>Lira XXVIII <\/strong><\/p>\n<p>Cupido tirando<br \/>\n    Dos ombros a aljava<br \/>\n    Num campo de flores<br \/>\n    Contente brincava. <\/p>\n<p>E o corpo tenrinho<br \/>\n    Depois, enfadado,<br \/>\n    Incauto reclina<br \/>\n    Na relva do prado. <\/p>\n<p>Mar&iacute;lia formosa,<br \/>\n    Que ao Deus conhecia,<br \/>\n    Oculta espreitava <br \/>\n    Quanto ele fazia. <\/p>\n<p>Mal julga que dorme<br \/>\n    Se chega contente,<br \/>\n    As armas lhe furta,<br \/>\n    E o Deus a n&atilde;o sente. <\/p>\n<p>Os Faunos, mal viram<br \/>\n    As armas roubadas,<br \/>\n    Sa&iacute;ram das grutas<br \/>\n    Soltando risadas. <\/p>\n<p>Acorda Cupido,<br \/>\n    E a causa sabendo,<br \/>\n    A quantos o insultam<br \/>\n    Responde, dizendo: <\/p>\n<p>&quot;Tem&iacute;eis as setas<br \/>\n    &quot;Nas minhas m&atilde;os cruas!<br \/>\n    &quot;Vereis o que podem<br \/>\n    &quot;Agora nas suas.&quot; <\/p>\n<p><strong> Lira XXIX <\/strong><\/p>\n<p>O tirano Amor risonho<br \/>\n    Me aparece e me convida<br \/>\n    Para que seu jugo aceite;<br \/>\n    E quer que eu passe em deleite<br \/>\n    O resto da triste vida. <\/p>\n<p>&quot;O sonoro Anacreonte<br \/>\n    (Astuto o mo&ccedil;o dizia)<br \/>\n    &quot;J&aacute; perto da morte estava,<br \/>\n    &quot;Inda de amores cantava;<br \/>\n    &quot;Por isso alegre vivia. <\/p>\n<p>&quot;Aos negros, duros pesares<br \/>\n    &quot;N&atilde;o resiste um peito fraco<br \/>\n    &quot;Se o amor o n&atilde;o fortalece:<br \/>\n    &quot;O mesmo Jove carece<br \/>\n    &quot;De Cupido, e mais de Baco.&quot; <\/p>\n<p>Eu lhe respondo: &quot;Perjuro,<br \/>\n    &quot;Nada creio do que dizes;<br \/>\n    &quot;Porque j&aacute; te fui sujeito,<br \/>\n    &quot;Inda conservo no peito<br \/>\n    &quot;Estas frescas cicatrizes. <\/p>\n<p>&quot;Se o mundo conhece males,<br \/>\n    &quot;Tu os maiores fizeste,<br \/>\n    &quot;Sim, tu a Tr&oacute;ia queimaste,<br \/>\n    &quot;Tu a Cartago abrasaste,<br \/>\n    &quot;E tu a Ant&ocirc;nio perdeste.&quot; <\/p>\n<p>Amor, vendo que da oferta<br \/>\n    Algum apre&ccedil;o n&atilde;o fa&ccedil;o,<br \/>\n    Me diz afoito que trate<br \/>\n    De ir com ele a combate<br \/>\n    Peito a peito, bra&ccedil;o a bra&ccedil;o. <\/p>\n<p>Vou buscar as minhas armas;<br \/>\n    Cinjo primeiro que tudo<br \/>\n    O brilhante arn&ecirc;s, e &agrave; pressa<br \/>\n    Ponho um elmo na cabe&ccedil;a,<br \/>\n    Tomo a lan&ccedil;a, e o grosso escudo. <\/p>\n<p>Mal no campo me apresento,<br \/>\n    Mar&iacute;lia (oh C&eacute;us!) me aparece:<br \/>\n    Logo que os olhos me fita,<br \/>\n    O meu cora&ccedil;&atilde;o palpita,<br \/>\n    A minha m&atilde;o desfalece. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o me diz o tirano:<br \/>\n    &quot;Confessa, louco, o teu erro;<br \/>\n    &quot;Contra as armas da beleza<br \/>\n    &quot;N&atilde;o vale a externa defesa<br \/>\n    &quot;Dessa armadura de ferro.&quot; <\/p>\n<p><strong> Lira XXX <\/strong><\/p>\n<p>Junto a uma clara fonte<br \/>\n    A m&atilde;e de Amor s assentou,<br \/>\n    Encostou na m&atilde;o o rosto,<br \/>\n    No leve sono pegou. <\/p>\n<p>Cupido, que a viu de longe,<br \/>\n    Contente ao lugar correu;<br \/>\n    Cuidando que era Mar&iacute;lia<br \/>\n    Na face um beijo lhe deu. <\/p>\n<p>Acorda V&ecirc;nus irada:<br \/>\n    Amor a conhece; e ent&atilde;o<br \/>\n    Da ousadia, que teve,<br \/>\n    Assim lhe pede o perd&atilde;o: <\/p>\n<p>&quot;Foi f&aacute;cil, &oacute; M&atilde;e formosa,<br \/>\n    &quot;Foi f&aacute;cil o engano meu;<br \/>\n    &quot;Que o semblante de Mar&iacute;lia<br \/>\n    &quot;&Eacute; todo o semblante teu.&quot; <\/p>\n<p><strong> Lira XXXI <\/strong><\/p>\n<p>Minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Se tens beleza,<br \/>\n    Da Natureza<br \/>\n    &Eacute; um favor.<br \/>\n    Mas se aos vindouros<br \/>\n    Teu nome passa,<br \/>\n    &Eacute; s&oacute; por gra&ccedil;a<br \/>\n    Do Deus de amor,<br \/>\n    Que tanto inflama<br \/>\n    A mente, o peito<br \/>\n    Do teu Pastor. <\/p>\n<p>Em v&atilde;o se viram<br \/>\n    Perlas mimosas,<br \/>\n    Jasmins, e rosas<br \/>\n    No rosto teu.<br \/>\n    Em v&atilde;o terias <br \/>\n    Essas estrelas,<br \/>\n    E as tran&ccedil;as belas,<br \/>\n    Que o C&eacute;u te deu;<br \/>\n    Se em doce versos<br \/>\n    N&atilde;o as cantasse<br \/>\n    O bom Dirceu. <\/p>\n<p>O voraz tempo<br \/>\n    Ligeiro corre:<br \/>\n    Com ele morre<br \/>\n    A perfei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Essa, que o Egito<br \/>\n    S&aacute;bia modera,<br \/>\n    De Marco impera<br \/>\n    No cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    Mas j&aacute; Ot&aacute;vio<br \/>\n    N&atilde;o sente a for&ccedil;a<br \/>\n    Do seu grilh&atilde;o. <\/p>\n<p>Ah! vem, &oacute; Bela,<br \/>\n    E o teu querido,<br \/>\n    Ao Deus Cupido<br \/>\n    Louvores dar;<br \/>\n    Pois faz que todos<br \/>\n    Com igual sorte<br \/>\n    Do tempo, e morte<br \/>\n    Possam zombar:<br \/>\n    Tu por formosa,<br \/>\n    E ele, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Por te cantar. <\/p>\n<p>Mas ai! Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Que de um amante,<br \/>\n    Por mais que cante,<br \/>\n    Gl&oacute;ria n&atilde;o vem!<br \/>\n    Amor se pinta<br \/>\n    Menino, e cego:<br \/>\n    No doce emprego<br \/>\n    Do caro bem<br \/>\n    N&atilde;o v&ecirc; defeitos,<br \/>\n    E aumenta quantas<br \/>\n    Belezas tem. <\/p>\n<p>Nenhum dos Vates,<br \/>\n    Em teu conceito,<br \/>\n    Nutriu no peito<br \/>\n    N&eacute;scia paix&atilde;o?<br \/>\n    Todas aquelas,<br \/>\n    Que v&ecirc;s cantadas,<br \/>\n    Foram dotadas<br \/>\n    De perfei&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Foram queridas;<br \/>\n    Por&eacute;m formosas<br \/>\n    Talvez que n&atilde;o. <\/p>\n<p>Por&eacute;m que importa<br \/>\n    N&atilde;o valha nada<br \/>\n    Seres cantada<br \/>\n    Do teu Dirceu?<br \/>\n    Tu tens, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Cantor celeste;<br \/>\n    O meu Glauceste<br \/>\n    A voz ergueu;<br \/>\n    Ir&aacute; teu nome<br \/>\n    Aos fins da terra,<br \/>\n    E ao mesmo C&eacute;u. <\/p>\n<p>Quando nas asas<br \/>\n    Do leve vento<br \/>\n    Ao firmamento<br \/>\n    Teu nome for:<br \/>\n    Mostrando Jove<br \/>\n    Gra&ccedil;a extremosa,<br \/>\n    Mudando a Esposa<br \/>\n    De inveja a cor;<br \/>\n    De todos h&aacute; de,<br \/>\n    Voltando o rosto,<br \/>\n    Sorrir-se Amor. <\/p>\n<p>Ah! n&atilde;o se manche<br \/>\n    Teu brando peito<br \/>\n    Do vil defeito<br \/>\n    Da ingratid&atilde;o:<br \/>\n    Os versos beija,<br \/>\n    Gentil Pastora,<br \/>\n    A pena adora,<br \/>\n    Respeita a m&atilde;o,<br \/>\n    A m&atilde;o discreta,<br \/>\n    Que te segura<br \/>\n    A dura&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><strong> Lira XXXII <\/strong><\/p>\n<p>Num noite sossegado<br \/>\n    Velhos pap&eacute;is revolvia,<br \/>\n    E por ver de que tratavam <br \/>\n    Um por um a todos lia. <\/p>\n<p>Eram c&oacute;pias emendadas,<br \/>\n    De quantos versos melhores<br \/>\n    Eu compus na tenra idade<br \/>\n    A meus diversos amores. <\/p>\n<p>Aqui leio justas queixas<br \/>\n    Contra a ventura formadas,<br \/>\n    Leio excessos mal aceitos,<br \/>\n    Doces promessas quebradas. <\/p>\n<p>Vendo sem-raz&otilde;es tamanhas<br \/>\n    Eu exclamo transportado:<br \/>\n    &quot;Que finezas t&atilde;o mal-feitas!<br \/>\n    &quot;Que tempo t&atilde;o mal passado!&quot; <\/p>\n<p>Junto pois num grande monte<br \/>\n    Os soltos pap&eacute;is, e logo,<br \/>\n    Porque rel&iacute;quias n&atilde;o fiquem,<br \/>\n    Os intento p&ocirc;r no fogo. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o vejo que o Deus cego<br \/>\n    Com semblante carregado<br \/>\n    Assim me fala, e crimina<br \/>\n    O meu intento acertado: <\/p>\n<p>&quot;Queres queimar esses versos?<br \/>\n    &quot;Dize, Pastor atrevido,<br \/>\n    &quot;Essas Liras n&atilde;o te foram<br \/>\n    &quot;Inspiradas por Cupido? <\/p>\n<p>&quot;Achas que de tais amores<br \/>\n    &quot;N&atilde;o deve existir mem&oacute;ria?<br \/>\n    &quot;Sepultando esses triunfos,<br \/>\n    &quot;N&atilde;o roubas a minha gl&oacute;ria?&quot; <\/p>\n<p>Disse Amor; e mal se cala,<br \/>\n    Nos seus ombros a m&atilde;o pondo,<br \/>\n    Com um semblante sereno<br \/>\n    Assim &agrave; queixa respondo: <\/p>\n<p>&quot;Depois, Amor, de me dares<br \/>\n    &quot;A minha Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    &quot;Devo guardar umas liras,<br \/>\n    &quot;Que n&atilde;o s&atilde;o em honra dela? <\/p>\n<p>&quot;E que importa, Amor, que importa,<br \/>\n    &quot;Que a estes pap&eacute;is destrua;<br \/>\n    &quot;Se &eacute; tua esta m&atilde;o, que os rasga,<br \/>\n    &quot;Se a chama, que os queima, &eacute; tua?&quot; <\/p>\n<p>Apenas Amor me escuta<br \/>\n    Manda que os lance nas brasas;<br \/>\n    E ergue a chama c&#8217;o vento,<br \/>\n    Que formou batendo as asas. <\/p>\n<p><strong>Lira XXXIII <\/strong><\/p>\n<p>Pega na lira sonora,<br \/>\n    Pega, meu caro Glauceste;<br \/>\n    E ferindo as cordas de ouro,<br \/>\n    Mostra aos r&uacute;sticos Pastores<br \/>\n    A formosura celeste<br \/>\n    De Mar&iacute;lia, meus amores.<br \/>\n    Ah! pinta, pinta<br \/>\n    A minha Bela!<br \/>\n    E em nada a c&oacute;pia<br \/>\n    Se afaste dela. <\/p>\n<p>Que concurso, meu Glauceste,<br \/>\n    Que concurso t&atilde;o ditoso!<br \/>\n    Tu &eacute;s digno de cantares<br \/>\n    O seu semblante divino;<br \/>\n    E o teu canto sonoroso<br \/>\n    Tamb&eacute;m do seu rosto &eacute; digno.<br \/>\n    Ah! pinta, pinta<br \/>\n    A minha Bela!<br \/>\n    E em nada a c&oacute;pia<br \/>\n    Se afaste dela. <\/p>\n<p>Para pintares ao vivo<br \/>\n    As suas faces mimosas,<br \/>\n    A discreta natureza<br \/>\n    Que provid&ecirc;ncia n&atilde;o teve!<br \/>\n    Criou no jardim as rosas,<br \/>\n    Fez o l&iacute;rio, e fez a neve.<br \/>\n    Ah! pinta, pinta<br \/>\n    A minha Bela!<br \/>\n    E em nada a c&oacute;pia<br \/>\n    Se afaste dela. <\/p>\n<p>A pintar as negras tran&ccedil;as<br \/>\n    Pe&ccedil;o que mais te desveles,<br \/>\n    Pinta chusmas de amorinhos<br \/>\n    Pelos seus fios trepando;<br \/>\n    Uns tecendo cordas deles,<br \/>\n    Outros com eles brincando.<br \/>\n    Ah! pinta, pinta<br \/>\n    A minha Bela!<br \/>\n    E em nada a c&oacute;pia<br \/>\n    Se afaste dela. <\/p>\n<p> Para pintares, Glauceste,<br \/>\n    Os seus bei&ccedil;os graciosos,<br \/>\n    Entre as flores tens o cravo,<br \/>\n    Entre as pedras a granada,<br \/>\n    E para os olhos formosos,<br \/>\n    A estrela da madrugada.<br \/>\n    Ah! pinta, pinta<br \/>\n    A minha Bela!<br \/>\n    E em nada a c&oacute;pia<br \/>\n    Se afaste dela. <\/p>\n<p>Mal retratares do rosto<br \/>\n    Quanto julgares preciso,<br \/>\n    N&atilde;o d&ecirc;s a c&oacute;pia por feita;<br \/>\n    Passa o outros dotes, passa,<br \/>\n    Pinta da vista, e do riso<br \/>\n    A mod&eacute;stia, mais a gra&ccedil;a.<br \/>\n    Ah! pinta, pinta<br \/>\n    A minha Bela!<br \/>\n    E em nada a c&oacute;pia<br \/>\n    Se afaste dela. <\/p>\n<p>Os seus p&eacute;s, quando passeiam,<br \/>\n    Pisando ternos amores;<br \/>\n    E as mesmas plantas calcadas<br \/>\n    Brotando vi&ccedil;osas flores.<br \/>\n    Ah! pinta, pinta<br \/>\n    A minha Bela!<br \/>\n    E em nada a c&oacute;pia<br \/>\n    Se afaste dela. <\/p>\n<p>Pinta mais, prezado amigo,<br \/>\n    Um terno amante beijando<br \/>\n    Suas douradas cadeias;<br \/>\n    E em doce pranto desfeito,<br \/>\n    Ao monte, que temo no peito.<br \/>\n    Ah! pinta, pinta<br \/>\n    A minha Bela!<br \/>\n    E em nada a c&oacute;pia<br \/>\n    Se afaste dela. <\/p>\n<p>Nem suspendas o teu canto,<br \/>\n    Inda que, Pastor, se veja<br \/>\n    Que a minha boca suspira,<br \/>\n    Que se banha em pranto o rosto;<br \/>\n    Que os outros choram de inveja,<br \/>\n    E chora Dirceu de gosto.<br \/>\n    Ah! pinta, pinta<br \/>\n    A minha Bela!<br \/>\n    E em nada a c&oacute;pia<br \/>\n    Se afaste dela. <\/p>\n<h4><a name=\"2\">PARTE II <\/a><\/h4>\n<p><strong>Lira I <\/strong><\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o cinjo de louro a minha testa;<br \/>\n    Nem sonoras can&ccedil;&otilde;es o Deus me inspira:<br \/>\n    Ah! que nem me resta<br \/>\n    Uma j&aacute; quebrada,<br \/>\n    Mal sonora Lira! <\/p>\n<p>Mas neste mesmo estado, em que me vejo,<br \/>\n    Pede, Mar&iacute;lia, Amor que v&aacute; cantar-te:<br \/>\n    Cumpro o seu desejo;<br \/>\n    E ao que resta supra<br \/>\n    A paix&atilde;o, e a arte. <\/p>\n<p>A fuma&ccedil;a, Mar&iacute;lia, da candeia,<br \/>\n    Que a molhada parede ou suja, ou pinta,<br \/>\n    Bem que tosca, e feia,<br \/>\n    Agora me pode<br \/>\n    Ministrar a tinta. <\/p>\n<p>Aos mais preparos o discurso apronta:<br \/>\n    Ele me diz, que fa&ccedil;a do p&eacute; de uma<br \/>\n    M&aacute; laranja ponta,<br \/>\n    E dele me sirva<br \/>\n    Em lugar de pluma. <\/p>\n<p>Perder as &uacute;teis horas n&atilde;o, n&atilde;o devo;<br \/>\n    Ver&aacute;s, Mar&iacute;lia, uma id&eacute;ia nova:<br \/>\n    Sim, eu j&aacute; te escrevo,<br \/>\n    Do que esta alma dita<br \/>\n    Quando amor aprova. <\/p>\n<p>Quem vive no rega&ccedil;o da ventura<br \/>\n    Nada obra em te adorar, que assombro fa&ccedil;a:<br \/>\n    Mostra mais ternura<br \/>\n    Quem te ensina, e morre<br \/>\n    Nas m&atilde;os da desgra&ccedil;a. <\/p>\n<p>Nesta cruel masmorra tenebrosa<br \/>\n    Ainda vendo estou teus olhos belos,<br \/>\n    A testa formosa,<br \/>\n    Os dentes nevados,<br \/>\n    Os negros cabelos. <\/p>\n<p>Vejo, Mar&iacute;lia, sim, e vejo ainda<br \/>\n    A chusma dos Cupidos, que pendentes<br \/>\n    Dessa boca linda,<br \/>\n    Nos ares espalham<br \/>\n    Suspiros ardentes. <\/p>\n<p>Se algu&eacute;m me perguntar onde eu te vejo,<br \/>\n    Responderei: No peito, que uns Amores<br \/>\n    De casto desejo<br \/>\n    Aqui te pintaram,<br \/>\n    E s&atilde;o bons Pintores. <\/p>\n<p>Mal meus olhos te riam, ah! nessa hora<br \/>\n    Teu retrato fizeram, e t&atilde;o forte,<br \/>\n    Que entendo, que agora<br \/>\n    S&oacute; pode apag&aacute;-lo<br \/>\n    O pulso da Morte. <\/p>\n<p>Isto escrevia, quando, &oacute; C&eacute;us, que vejo!<br \/>\n    Descubro a ler-me os versos o Deus louro:<br \/>\n    Ah! d&aacute;-lhes um beijo,<br \/>\n    E diz-me que valem<br \/>\n    Mais que letras de ouro. <\/p>\n<p><strong> Lira II <\/strong><\/p>\n<p>Esprema a vil cal&uacute;nia muito embora<br \/>\n    Enter as m&atilde;os denegridas, e insolentes,<br \/>\n    Os venenos das plantas,<br \/>\n    E das bravas serpentes. <\/p>\n<p>Chovam raios e raios, no meu rosto<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute;s de ver, Mar&iacute;lia, o medo escrito:<br \/>\n    O medo perturbador,<br \/>\n    Que infunde o vil delito. <\/p>\n<p>Podem muito, conhe&ccedil;o, podem muito,<br \/>\n    As f&uacute;rias infernais, que Pluto move;<br \/>\n    Mas pode mais que todas <br \/>\n    Um dedo s&oacute; de Jove. <\/p>\n<p>Este Deus converteu em flor mimosa,<br \/>\n    A quem seu nome dera, a Narciso;<br \/>\n    Fez de muitos os Astros,<br \/>\n    Qu&#8217;inda no C&eacute;u diviso. <\/p>\n<p>Ele pode livrar-me das inj&uacute;rias<br \/>\n    Do n&eacute;scio, do atrevido ingrato povo;<br \/>\n    Em nova flor mudar-me,<br \/>\n    Mudar-me em Astro novo. <\/p>\n<p>Por&eacute;m se os justos C&eacute;us, por fins ocultos,<br \/>\n    Em t&atilde;o tirano mal me n&atilde;o socorrem;<br \/>\n    Ver&aacute;s ent&atilde;o, que os s&aacute;bios,<br \/>\n    Bem como vivem, morrem. <\/p>\n<p>Eu tenho um cora&ccedil;&atilde;o maior que o mundo!<br \/>\n    Tu, formosa Mar&iacute;lia, bem o sabes:<br \/>\n    Um cora&ccedil;&atilde;o&#8230;, e basta,<br \/>\n    Onde tu mesma cabes. <\/p>\n<p><strong>Lira III <\/strong><\/p>\n<p>Sucede, Mar&iacute;lia bela,<br \/>\n    &Agrave; medonha noite o dia;<br \/>\n    A esta&ccedil;&atilde;o chuvosa e fria<br \/>\n    &Agrave; quente seca esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Muda-se a sorte dos tempos;<br \/>\n    S&oacute; a minha sorte n&atilde;o? <\/p>\n<p>Os troncos nas Primaveras<br \/>\n    Brotam em flores vi&ccedil;osos,<br \/>\n    Nos Invernos escabrosos<br \/>\n    Largam as folhas no ch&atilde;o.<br \/>\n    Muda-se a sorte dos troncos;<br \/>\n    S&oacute; a minha sorte n&atilde;o? <\/p>\n<p>Aos brutos, Mar&iacute;lia, cortam<br \/>\n    Armadas redes os passos,<br \/>\n    Rompem depois os seus la&ccedil;os,<br \/>\n    Fogem da dura pris&atilde;o.<br \/>\n    Muda-se a sorte dos brutos;<br \/>\n    S&oacute; a minha sorte n&atilde;o? <\/p>\n<p>Nenhum dos homens conserva<br \/>\n    Alegre sempre o seu rosto;<br \/>\n    Depois das penas vem gosto,<br \/>\n    Depois de gosto afli&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Muda-se a sorte dos homens;<br \/>\n    S&oacute; a minha sorte n&atilde;o? <\/p>\n<p>Aos altos Deuses moveram<br \/>\n    Soberbos Gigantes guerra;<br \/>\n    No mais tempos o C&eacute;u, e a Terra<br \/>\n    Lhes tributa adora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Muda-se a sorte dos Deuses;<br \/>\n    S&oacute; a minha sorte n&atilde;o? <\/p>\n<p>H&aacute; de, Mar&iacute;lia, mudar-se<br \/>\n    Do destino a inclem&ecirc;ncia;<br \/>\n    Tenho por mim a inoc&ecirc;ncia,<br \/>\n    Tenho por mim a raz&atilde;o.<br \/>\n    Muda-se a sorte de tudo;<br \/>\n    S&oacute; a minha sorte n&atilde;o? <\/p>\n<p>O tempo, &oacute; Bela, que gasta<br \/>\n    Os troncos, pedras, e o cobre,<br \/>\n    O v&eacute;u rompe, com que encobre<br \/>\n    &Agrave; verdade a vil trai&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Muda-se a sorte de tudo;<br \/>\n    S&oacute; a minha sorte n&atilde;o? <\/p>\n<p>Qual eu sou, ver&aacute; o mundo;<br \/>\n    Mais me dar&aacute; do que eu tinha,<br \/>\n    Tornarei a ver-te minha;<br \/>\n    Que feliz consola&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; de tudo mudar-se;<br \/>\n    S&oacute; a minha sorte n&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Lira IV <\/strong><\/p>\n<p>J&aacute;, j&aacute; me vai, Mar&iacute;lia, branquejando<br \/>\n    Louro cabelo, que circula a testa;<br \/>\n    Este mesmo, que alveja, vai caindo<br \/>\n    E pouco j&aacute; me resta. <\/p>\n<p>As faces v&atilde;o perdendo as vivas cores,<br \/>\n    E v&atilde;o-se sobre os ossos enrugando,<br \/>\n    Vai fugindo a viveza dos meus olhos;<br \/>\n    Tudo se vai mudando. <\/p>\n<p>Se quero levantar-me, as costas vergam;<br \/>\n    As for&ccedil;as dos meus membros j&aacute; se gastam,<br \/>\n    Vou a dar ela casa uns curtos passos,<br \/>\n    Pesam-me os p&eacute;s, e arrastam. <\/p>\n<p>Se algum dia me vires destas sorte,<br \/>\n    V&ecirc; que assim me n&atilde;o p&ocirc;s a m&atilde;o dos anos:<br \/>\n    Os trabalhos, Mar&iacute;lia, os sentimentos,<br \/>\n    Fazem os mesmos danos. <\/p>\n<p>Mal te vir, me dar&aacute; em poucos dias<br \/>\n    A minha mocidade o doce gosto;<br \/>\n    Ver&aacute;s burnir-se a pele, o corpo encher-se,<br \/>\n    Voltar a cor ao rosto. <\/p>\n<p>No calmoso Ver&atilde;o as plantas secam;<br \/>\n    Na Primavera, que os mortais encanta,<br \/>\n    Apenas cai do C&eacute;u o fresco orvalho,<br \/>\n    Verdeja logo a planta. <\/p>\n<p>A doen&ccedil;a deforma a quem padece;<br \/>\n    Mas logo que a doen&ccedil;a faz seu termo,<br \/>\n    Torna, Mar&iacute;lia, a ser quem era dantes,<br \/>\n    O definhado enfermo. <\/p>\n<p>Sup&otilde;e-me qual doente, ou mal a planta,<br \/>\n    No meio da desgra&ccedil;a, que me altera;<br \/>\n    Eu tamb&eacute;m te suponho qual sa&uacute;de,<br \/>\n    Ou qual a Primavera. <\/p>\n<p>Se d&atilde;o esses teus meigos, vivos olhos<br \/>\n    Aos mesmos Astros luz, e vida &agrave;s flores,<br \/>\n    Que efeitos n&atilde;o far&atilde;o, em quem por eles<br \/>\n    Sempre morreu de amores? <\/p>\n<p><strong> Lira V <\/strong><\/p>\n<p>Os mares, minha bela, n&atilde;o se movem,<br \/>\n    O brando Norte assopra, nem diviso<br \/>\n    Uma nuvem sequer na Esfera toda;<br \/>\n    O destro Nauta aqui n&atilde;o &eacute; preciso;<br \/>\n    Do seu governo a roda. <\/p>\n<p>Mas ah! que o sul carrega, o mar se empola,<br \/>\n    Rasga-se a vela, o mastar&eacute;u se parte!<br \/>\n    Qualquer var&atilde;o prudente aqui j&aacute; teme;<br \/>\n    N&atilde;o tenho a necess&aacute;ria for&ccedil;a, e arte.<br \/>\n    Corra o s&aacute;bio Piloto, corra, e venha<br \/>\n    Reger o duro leme. <\/p>\n<p>Como sucede &agrave; nau no mar, sucede<br \/>\n    Aos homens na ventura, e na desgra&ccedil;a;<br \/>\n    Basta ao feliz n&atilde;o ter total dem&ecirc;ncia;<br \/>\n    Mas quem de venturoso a triste passa,<br \/>\n    Deve entregar o leme do discurso<br \/>\n    Nas m&atilde;os da s&atilde; prud&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Todo o C&eacute;u se cobriu, os raios chovem:<br \/>\n    E esta alma, em tanta pena consternada,<br \/>\n    Nem sabe aonde possa achar conforto.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o, n&atilde;o tardes, vem, Mar&iacute;lia amada,<br \/>\n    Toma o leme da nau, mareia o pano,<br \/>\n    Vai-a salvar no porto. <\/p>\n<p>Mas ou&ccedil;o j&aacute; de Amor as s&aacute;bias vozes:<br \/>\n    Ele me diz que sofra, sen&atilde;o morro,<br \/>\n    E perco ent&atilde;o, se morro, uns doces la&ccedil;os;<br \/>\n    N&atilde;o quero j&aacute;, Mar&iacute;lia, mais socorro;<br \/>\n    Oh! ditoso sofrer, que lucrar pode<br \/>\n    A gl&oacute;ria dos teus bra&ccedil;os! <\/p>\n<p><strong> Lira VI <\/strong><\/p>\n<p>De que te queixas,<br \/>\n    L&iacute;ngua importuna?<br \/>\n    De que a Fortuna<br \/>\n    Roubar-te queira<br \/>\n    O que te deu?<br \/>\n    Este foi sempre<br \/>\n    O g&ecirc;nio seu. <\/p>\n<p>Levou, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    A impia sorte<br \/>\n    Cat&otilde;es &agrave; morte;<br \/>\n    Nem sepultura<br \/>\n    Lhes concedeu.<br \/>\n    Este foi sempre<br \/>\n    O g&ecirc;nio seu. <\/p>\n<p>A outros muitos,<br \/>\n    Que vis nasceram,<br \/>\n    Nem mereceram,<br \/>\n    A grandes tronos<br \/>\n    A impia ergueu.<br \/>\n    Este foi sempre<br \/>\n    O g&ecirc;nio seu. <\/p>\n<p>Espalha a Cega<br \/>\n    Sobre os humanos<br \/>\n    Os bens, e os danos,<br \/>\n    E a quem se devam<br \/>\n    Nunca escolheu.<br \/>\n    Este foi sempre<br \/>\n    O g&ecirc;nio seu. <\/p>\n<p>A quanto &eacute; justo<br \/>\n    Jamais se dobra;<br \/>\n    Nem igual obra<br \/>\n    C&#8217;os mesmos Deuses<br \/>\n    Do claro C&eacute;u.<br \/>\n    Este foi sempre<br \/>\n    O g&ecirc;nio seu.<br \/>\n    Sobe, ao C&eacute;u, V&ecirc;nus<br \/>\n    Num carro ufano;<br \/>\n    E cai Vulcano<br \/>\n    Da pura esfera,<br \/>\n    Em que nasceu.<br \/>\n    Este foi sempre<br \/>\n    O g&ecirc;nio seu. <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o me rouba,<br \/>\n    Bem que se mude,<br \/>\n    Honra, e virtude:<br \/>\n    Que o mais &eacute; dela,<br \/>\n    Mas isto &eacute; meu.<br \/>\n    Este foi sempre<br \/>\n    O g&ecirc;nio seu. <\/p>\n<p><strong> Lira VII <\/strong><\/p>\n<p>Meu prezado Glauceste,<br \/>\n    Se fazes o conceito,<br \/>\n    Que, bem que r&eacute;u, abrigo<br \/>\n    A c&acirc;ndida virtude no meu peito;<br \/>\n    Se julgas, digo, que mere&ccedil;o ainda<br \/>\n    Da tua m&atilde;o socorro,<br \/>\n    Ah! vem dar-mo agora,<br \/>\n    Agora sim que morro. <\/p>\n<p>N&atilde;o quero, que montado<br \/>\n    No P&eacute;gaso fogoso,<br \/>\n    Venhas com dura lan&ccedil;a<br \/>\n    Ao monstro infame traspassar raivoso.<br \/>\n    Deixa que viva a p&eacute;rfida cal&uacute;nia,<br \/>\n    E forje o meu tormento:<br \/>\n    Com menos, meu Glauceste,<br \/>\n    Com menos me contento. <\/p>\n<p>Toma a lira dourada,<br \/>\n    E toca um pouco nela:<br \/>\n    Levanta a voz celeste<br \/>\n    Em parte que te escute a minha Bela;<br \/>\n    Enche todo o contorno de alegria;<br \/>\n    N&atilde;o sofras, que o desgosto<br \/>\n    Afogue em pranto amargo<br \/>\n    O seu divino rosto. <\/p>\n<p>Eu sei, eu sei, Glauceste,<br \/>\n    Que um bom cantor havia,<br \/>\n    Que os brutos amansava;<br \/>\n    Que os troncos, e os penedos atra&iacute;a.<br \/>\n    De outro destro Cantor tamb&eacute;m afirma<br \/>\n    A s&aacute;bia antig&uuml;idade,<br \/>\n    Que as muralhas erguera<br \/>\n    De uma grande Cidade. <\/p>\n<p>Orfeu as cordas fere;<br \/>\n    O som delgado, e terno<br \/>\n    Ao Rei Plut&atilde;o abranda,<br \/>\n    E o deixa, que penetre o fundo Averno.<br \/>\n    Ah! tu a nenhum cedes, meu Glauceste,<br \/>\n    Na lira, e mais no canto;<br \/>\n    Podes fazer prod&iacute;gios,<br \/>\n    Obrar ou mais, ou tanto. <\/p>\n<p>Levanta pois as vozes:<br \/>\n    Que mais, que mais esperas?<br \/>\n    Consola um peito aflito;<br \/>\n    Que &eacute; menos ainda, que domar as feras.<br \/>\n    Com isto me dar&aacute;s no meu tormento<br \/>\n    Um doce lenitivo;<br \/>\n    Que enquanto a Bela vive,<br \/>\n    Tamb&eacute;m, Glauceste, vivo. <\/p>\n<p><strong>Lira VIII <\/strong><\/p>\n<p>Eu vejo, &oacute; minha Bela, aquele Nume <br \/>\n    A quem o nome deram de Fortuna; <br \/>\n    Pega-me pelo bra&ccedil;o, <br \/>\n    E com voz importuna <br \/>\n    Me diz que mova o passo;<br \/>\n    Que ente no grande Templo, em que se encerra <br \/>\n    Quanto o destino manda, <br \/>\n    Que ela obre sobre a terra. <\/p>\n<p>Que coisas portentosas nele encontro! <br \/>\n    Eu vejo a pobre funda&ccedil;&atilde;o de Roma; <br \/>\n    Vejo-a queimar Cartago; <br \/>\n    Vejo que as gentes doma; <br \/>\n    E vejo o seu estrago.<br \/>\n    L&aacute; floresce o poder do Ass&iacute;rio Povo; <br \/>\n    Aqui os Medos crescem, <br \/>\n    E os perde um bra&ccedil;o novo.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o me diz a Deusa: &quot;E que pretendes? <br \/>\n    &quot;Todas estas medalhas ver agora? <br \/>\n    &quot;Ah! n&atilde;o, n&atilde;o sejas louco! <br \/>\n    &quot;Espa&ccedil;o de anos fora <br \/>\n    &quot;Para isso ainda pouco;<br \/>\n    &quot;Deixa estranhos sucessos, vem comigo; <br \/>\n    &quot;Ver&aacute;s quanto inda deve <br \/>\n    &quot;Acontecer contigo.&quot;<\/p>\n<p>Levou-me aonde estava a minha hist&oacute;ria, <br \/>\n    Que toda me explicou com modo, e arte. <br \/>\n    &quot;Tirei-te libras de ouro&quot;, <br \/>\n    Me diz, &quot;e quero dar-te <br \/>\n    &quot;Todo aquele tesouro.<br \/>\n    &quot;N&atilde;o suspira por bens um peito nobre? <br \/>\n    Severo lhe respondo, <br \/>\n    &quot;Vivo afeito a ser pobre.&quot;<\/p>\n<p>Aqui me enruga a Deusa irada a testa, <br \/>\n    E fica sem falar um breve espa&ccedil;o. <br \/>\n    &quot;Alegra, alegra o rosto&quot;, <br \/>\n    Prossegue, &quot;ali te fa&ccedil;o <br \/>\n    &quot;Restituir o posto.&quot;<br \/>\n    Respondo em ar de mofa, e tom sereno: <br \/>\n    &quot;Conhe&ccedil;o-te, Fortuna, <br \/>\n    &quot;Posso morrer pequeno.&quot;<\/p>\n<p>&quot;Aqui te dou, me diz, a tua amada.&quot; <br \/>\n    Ent&atilde;o me banho todo de alegria. <br \/>\n    &quot;Cuidei, me torna a cega, <br \/>\n    &quot;Que essa alma n&atilde;o queria <br \/>\n    &quot;Nem esta mesma entrega.&quot;<br \/>\n    &quot;&Eacute; esse o bem, respondo, que me move, <br \/>\n    &quot;Mas este bem &eacute; santo, <br \/>\n    &quot;Vem s&oacute; da m&atilde;o de Jove.&quot;<\/p>\n<p>Queria mais falar; eu insofrido <br \/>\n    Desta maneira rompo os seus acentos: <br \/>\n    &quot;Basta, Fortuna, basta, <br \/>\n    &quot;Estes breves momentos <br \/>\n    &quot;L&aacute; noutras coisas gasta;<br \/>\n    &quot;Da minha sorte nada mais contemplo.&quot; <br \/>\n    E, chamando Mar&iacute;lia, <br \/>\n    Suspiro, e deixo o Templo.<\/p>\n<p><strong> Lira IX <\/strong><\/p>\n<p>A estas horas<br \/>\n    Eu procurava<br \/>\n    Os meus Amores;<br \/>\n    Tinham-me inveja<br \/>\n    Os mais Pastores. <\/p>\n<p>A porta abria,<br \/>\n    Inda esfregando<br \/>\n    Os olhos belos,<br \/>\n    Sem flor, nem fita,<br \/>\n    Nos seus cabelos. <\/p>\n<p>Ah! que assim mesmo<br \/>\n    Sem compostura,<br \/>\n    &Eacute; mais formosa,<br \/>\n    Que a estrela d&#8217;alva,<br \/>\n    Que a fresca rosa. <\/p>\n<p>Mal eu a via,<br \/>\n    Um ar mais leve,<br \/>\n    (Que doce efeito!)<br \/>\n    J&aacute; respirava<br \/>\n    Meu terno peito. <\/p>\n<p>Do cerco apenas<br \/>\n    Soltava o gado,<br \/>\n    Eu lhe amimava<br \/>\n    Aquela ovelha<br \/>\n    Que mais amava. <\/p>\n<p>Dava-lhe sempre<br \/>\n    No rio, e fonte,<br \/>\n    No prado, e selva,<br \/>\n    &Aacute;gua mais clara,<br \/>\n    Mais branda relva. <\/p>\n<p>No colo a punha;<br \/>\n    Ent&atilde;o brincando<br \/>\n    A mim a unia;<br \/>\n    Mil coisas ternas<br \/>\n    Aqui dizia. <\/p>\n<p>Mar&iacute;lia vendo,<br \/>\n    Que eu s&oacute; com ela<br \/>\n    &Eacute; que falava,<br \/>\n    Ria-se a furto,<br \/>\n    E disfar&ccedil;ava. <\/p>\n<p>Desta maneira<br \/>\n    Nos castos peitos,<br \/>\n    De dia em dia<br \/>\n    A nossa chama<br \/>\n    Mais se acendia. <\/p>\n<p>Ah! quantas vezes,<br \/>\n    No ch&atilde;o sentado,<br \/>\n    Eu lhes lavrava<br \/>\n    As finas rocas,<br \/>\n    Em que fiava! <\/p>\n<p>Da mesma sorte<br \/>\n    Que &agrave; sua amada,<br \/>\n    Que est&aacute; no ninho,<br \/>\n    Fronteiro canta<br \/>\n    O passarinho; <\/p>\n<p>Na quente sesta,<br \/>\n    Dela defronte,<br \/>\n    Eu me entretinha<br \/>\n    Movendo o ferro<br \/>\n    Da sanfoninha. <\/p>\n<p>Ela por dar-me<br \/>\n    De ouvir o gosto,<br \/>\n    Mais se chegava;<br \/>\n    Ent&atilde;o vaidoso<br \/>\n    Assim cantava: <\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o h&aacute; Pastora,<br \/>\n    &quot;Que chegar possa<br \/>\n    &quot;&Agrave; minha Bela,<br \/>\n    &quot;Nem quem me iguale<br \/>\n    &quot;Tamb&eacute;m na estrela; <\/p>\n<p>&quot;Se amor concede<br \/>\n    &quot;Que eu me recline<br \/>\n    &quot;No branco peito,<br \/>\n    &quot;Eu n&atilde;o invejo<br \/>\n    &quot;De Jove o feito; <\/p>\n<p>&quot;Ornam seu peito<br \/>\n    &quot;As s&atilde;s virtudes,<br \/>\n    &quot;Que nos namoram;<br \/>\n    &quot;No seu semblante<br \/>\n    &quot;As Gra&ccedil;as moram.&quot; <\/p>\n<p>Assim vivia&#8230;<br \/>\n    Hoje em suspiros<br \/>\n    O canto mudo;<br \/>\n    Assim, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Se acaba tudo. <\/p>\n<p><strong> Lira X <\/strong><\/p>\n<p>Arde o velho barril, arde a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    Em honra de Jo&atilde;o na larga rua;<br \/>\n    O cr&eacute;dulo mortal agora indaga<br \/>\n    Qual seja a sorte sua? <\/p>\n<p>Eu n&atilde;o tenho alcachofra, que &agrave; luz chegue,<br \/>\n    E nela orvalhe o C&eacute;u de madrugada,<br \/>\n    Para ver se rebentam novas folhas<br \/>\n    Aonde foi queimada. <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m n&atilde;o tenho um ovo, que despeje<br \/>\n    Dentro dum copo d&#8217;&aacute;gua, e possa nela<br \/>\n    Fingir pal&aacute;cios grandes, altas torres,<br \/>\n    E uma nau &agrave; vela. <\/p>\n<p>Mas, ah! em bem me lembre; eu tenho ouvido<br \/>\n    Que a boca um bochecho d&#8217;&aacute;gua tome,<br \/>\n    E atr&aacute;s de qualquer porta atento esteja,<br \/>\n    At&eacute; ouvir um nome. <\/p>\n<p>Que o nome, que primeiro ouvir, &eacute; esse<br \/>\n    O nome, que h&aacute; de Ter a minha amada;<br \/>\n    Pode verdade ser; se for mentira,<br \/>\n    Tamb&eacute;m n&atilde;o custa nada. <\/p>\n<p>Vou tudo executar, e de repente<br \/>\n    Ouvi dizer o nome de Filena:<br \/>\n    Despejo logo a boca: ah! n&atilde;o sei como<br \/>\n    N&atilde;o morro ali de pena! <\/p>\n<p>Aparece Cupido: ent&atilde;o soltando<br \/>\n    Em ar de zombaria uma risada,<br \/>\n    &quot;E que tal, me pergunta, esteve a pe&ccedil;a?<br \/>\n    &quot;N&atilde;o foi bem pregada? <\/p>\n<p>&quot;Eu j&aacute; te disse, que Mar&iacute;lia &eacute; tua:<br \/>\n    &quot;Tu fazes do meu dito tanta conta,<br \/>\n    &quot;Que vais acreditar o que te ensina<br \/>\n    &quot;Velha mulher j&aacute; tonta.&quot; <\/p>\n<p>Humilde lhe respondo: &quot;Quem debaixo<br \/>\n    &quot;Do a&ccedil;oite da Fortuna aflito geme,<br \/>\n    &quot;Nas mesmas coisas, que s&oacute; s&atilde;o brinquedos<br \/>\n    &quot;Se agouram males, e teme.&quot; <\/p>\n<p><strong> Lira XI <\/strong><\/p>\n<p>Se acaso n&atilde;o estou no fundo Averno,<br \/>\n    Padece, &oacute; minha Bela, sim padece<br \/>\n    O peito amante, e terno,<br \/>\n    As afli&ccedil;&otilde;es tiranas, que aos Precitos<br \/>\n    Arbitra Radamanto em justa pena<br \/>\n    Dos b&aacute;rbaros delitos. <\/p>\n<p>As F&uacute;rias infernais, rangendo os dentes,<br \/>\n    Com a m&atilde;o escarnada n&atilde;o me aplicam<br \/>\n    As raivosas serpentes;<br \/>\n    Mas cercam-me outros monstros mais irados:<br \/>\n    Mordem-se sem cessar as bravas serpes<br \/>\n    De mil, e mil cuidados. <\/p>\n<p>Eu n&atilde;o gasto, Mar&iacute;lia, a vida toda<br \/>\n    Em lan&ccedil;ar o penedo da montanha;<br \/>\n    Ou em mover a roda;<br \/>\n    Mas tenho ainda mais cruel tormento:<br \/>\n    Por coisas que me afligem, roda, e gira<br \/>\n    Cansado pensamento. <\/p>\n<p>Com retorcidas unhas agarrado<br \/>\n    &Agrave;s t&eacute;pidas entranhas n&atilde;o me come<br \/>\n    Um abutre esfaimado;<br \/>\n    Mas sinto de outro monstro a crueldade:<br \/>\n    Devora o cora&ccedil;&atilde;o, que mal palpita,<br \/>\n    O abutre da saudade. <\/p>\n<p>N&atilde;o vejo os pomos, nem as &aacute;guas vejo,<br \/>\n    Que de mim se retiram quando busco<br \/>\n    Fartar o meu desejo;<br \/>\n    Mas quer, Mar&iacute;lia, o meu destino ingrato<br \/>\n    Que lograr-se n&atilde;o possa, estando vendo<br \/>\n    Nesta alma o teu retrato. <\/p>\n<p>Estou no Inferno, estou, Mar&iacute;lia bela;<br \/>\n    E numa coisa s&oacute; &eacute; mais humana<br \/>\n    A minha dura estrela:<br \/>\n    Uns n&atilde;o podem mover do Inferno os passos;<br \/>\n    Eu pretendo voar, e voar cedo<br \/>\n    &Agrave; gl&oacute;ria dos teus bra&ccedil;os. <\/p>\n<p><strong> Lira XII <\/strong><\/p>\n<p>Ah! Mar&iacute;lia, que tormento<br \/>\n    N&atilde;o tens de sentir saudosa!<br \/>\n    N&atilde;o podem ver os teus olhos<br \/>\n    A campina deleitosa,<br \/>\n    Nem a tua mesma aldeia,<br \/>\n    Que tiranos n&atilde;o proponham<br \/>\n    &Agrave; inda inquieta id&eacute;ia<br \/>\n    Uma imagem de afli&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mandar&aacute;s aos surdos Deuses<br \/>\n    Novos suspiros em v&atilde;o. <\/p>\n<p>Quando levares, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Teu ledo rebanho ao prado,<br \/>\n    Tu dir&aacute;s: &quot;Aqui trazia<br \/>\n    &quot;Dirceu tamb&eacute;m o seu gado.&quot;<br \/>\n    Ver&aacute;s os s&iacute;tios ditosos<br \/>\n    Onde, Mar&iacute;lia, te dava<br \/>\n    Doces beijos amorosos<br \/>\n    Nos dedos da branca m&atilde;o.<br \/>\n    Mandar&aacute;s aos surdos Deuses<br \/>\n    Novos suspiros em v&atilde;o. <\/p>\n<p>Quando &agrave; janela sa&iacute;res,<br \/>\n    Sem quereres, descuidada,<br \/>\n    A minha pobre morada.<br \/>\n    Tu dir&aacute;s ent&atilde;o contigo:<br \/>\n    &quot;Ali Dirceu esperava<br \/>\n    &quot;Para me levar consigo;<br \/>\n    E ali sofreu a pris&atilde;o.&quot;<br \/>\n    Mandar&aacute;s aos surdos Deuses<br \/>\n    Novos suspiros em v&atilde;o. <\/p>\n<p>Quando vires igualmente<br \/>\n    Do caro Glauceste a cho&ccedil;a,<br \/>\n    Onde alegre se juntavam<br \/>\n    Os poucos da escolha nossa,<br \/>\n    Pondo os olhos na varanda<br \/>\n    Tu dir&aacute;s de m&aacute;goa cheia:<br \/>\n    &quot;Todo o congresso ali anda,<br \/>\n    &quot;S&oacute; o meu amado n&atilde;o.&quot;<br \/>\n    Mandar&aacute;s aos surdos Deuses<br \/>\n    Novos suspiros em v&atilde;o. <\/p>\n<p>Quando passar pela rua<br \/>\n    O meu companheiro honrado,<br \/>\n    Sem que me vejas com ele<br \/>\n    Caminhar emparelhado,<br \/>\n    Tu dir&aacute;s: &quot;N&atilde;o foi tirana<br \/>\n    &quot;Somente comigo a sorte;<br \/>\n    &quot;Tamb&eacute;m cortou desumana<br \/>\n    &quot;A mais fiel uni&atilde;o.&quot;<br \/>\n    Mandar&aacute;s aos surdos Deuses<br \/>\n    Novos suspiros em v&atilde;o. <\/p>\n<p>Numa masmorra metido,<br \/>\n    Eu n&atilde;o vejo imagens destas,<br \/>\n    Imagens, que s&atilde;o por certo<br \/>\n    A quem adora funestas.<br \/>\n    Mas se existem separadas<br \/>\n    Dos inchados, roxos olhos,<br \/>\n    Est&atilde;o, que &eacute; mais, retratadas<br \/>\n    No fundo do cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Tamb&eacute;m mando aos surdos Deuses<br \/>\n    Tristes suspiros em v&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Lira XIII <\/strong><\/p>\n<p>V&ecirc;s, Mar&iacute;lia, um cordeiro<br \/>\n    De flores enramado,<br \/>\n    Como alegre corre<br \/>\n    A ser sacrificado?<br \/>\n    O Povo para Templo j&aacute; concorre;<br \/>\n    A Pira sacrossanta j&aacute; se acende;<br \/>\n    O Ministro o fere, ele bala, e morre. <\/p>\n<p>V&ecirc;s agora o novilho,<br \/>\n    A quem segura o la&ccedil;o,<br \/>\n    No ch&atilde;o as m&atilde;os especa,<br \/>\n    Nem quer mover um passo.<br \/>\n    N&atilde;o conhece que sai de um mau terreno;<br \/>\n    Que o forte pulso, que a seguir o arrasta,<br \/>\n    O conduz a viver num campo ameno. <\/p>\n<p>Ignora o bruto como<br \/>\n    Lhe dispomos a sorte;<br \/>\n    Um vai for&ccedil;ado &agrave; vida,<br \/>\n    Vai outro alegre &agrave; morte:<br \/>\n    N&oacute;s temos, minha bela, igual dem&ecirc;ncia;<br \/>\n    N&atilde;o sabemos os fins, com que nos move<br \/>\n    A s&aacute;bia, oculta M&atilde;o da Provid&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>De Jac&oacute; ao bom filho<br \/>\n    Os maus matar quiseram.<br \/>\n    De conselho o muraram.<br \/>\n    Como escravo o venderam.<br \/>\n    Jos&eacute; n&atilde;o corre a ser um servo aflito;<br \/>\n    Vai subindo os degraus, por onde chega<br \/>\n    A ser um quase Deus no grande Egito. <\/p>\n<p>Quem sabe o Destino<br \/>\n    Hoje, &oacute; Bela, me prende.<br \/>\n    S&oacute; porque nisto de outros<br \/>\n    Mais danos me defende?<br \/>\n    Pode ainda raiar um claro dia.<br \/>\n    Mas quer raie, quer n&atilde;o, ao C&eacute;u adoro;<br \/>\n    E beijo a santa m&atilde;o, que assim me guia. <\/p>\n<p><strong> Lira XIV <\/strong><\/p>\n<p>Alma digna de mil Av&oacute;s Augustos!<br \/>\n    Tu sentes, tu solu&ccedil;as,<br \/>\n    Ao ver cair os justos;<br \/>\n    Honras as santas leis da Humanidade:<br \/>\n    E os teus exemplos deve<br \/>\n    Gravar com letras de ouro no seu Templo<br \/>\n    A c&acirc;ndida Amizade. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute;, n&atilde;o &eacute; de Her&oacute;i uma alma forte,<br \/>\n    Que v&ecirc; com rosto enxuto<br \/>\n    No seu igual a morte.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m de Her&oacute;i um peito duro,<br \/>\n    Que a sua gl&oacute;ria firma<br \/>\n    Em que lhe n&atilde;o resiste ao ferro, e fogo,<br \/>\n    Nem legi&atilde;o, nem muro. <\/p>\n<p>Oh! quanto ousado Chefe me namora,<br \/>\n    Quando v&ecirc; a cabe&ccedil;a<br \/>\n    Do bom Pompeu, e chora!<br \/>\n    &Eacute; grande para mim, quem move os passos,<br \/>\n    E de Dario aos filhos,<br \/>\n    Que como escravos seus tratar pudera,<br \/>\n    Recebe nos seus bra&ccedil;os. <\/p>\n<p>Se alcan&ccedil;a En&eacute;ias, capit&atilde;o piedoso,<br \/>\n    Entre os Her&oacute;is do Mundo<br \/>\n    Um nome glorioso,<br \/>\n    N&atilde;o &eacute;, porque levanta uma cidade;<br \/>\n    &Eacute; sim, porque nos ombros<br \/>\n    Salvou do inc&ecirc;ndio ao Pai, a quem destina<br \/>\n    A m&atilde;o de longa idade. <\/p>\n<p>Ah! se ao meu contr&aacute;rio entre as chamas vira,<br \/>\n    Eu mesmo, sim, da morte<br \/>\n    Aos ombros o remira.<br \/>\n    Inda por ele muito mais obrara.<br \/>\n    E se nada servisse,<br \/>\n    Fizera ent&atilde;o, Amigo, o que fizeste;<br \/>\n    Gemera, e suspirara. <\/p>\n<p>Oh! quanto s&atilde;o dur&aacute;veis as cadeias<br \/>\n    De uma amizade, quando<br \/>\n    Se d&atilde;o iguais id&eacute;ias!<br \/>\n    Se apesar dos estorvos se sustinha<br \/>\n    Nossa uni&atilde;o sincera,<br \/>\n    Foi por ser a minha alma igual &agrave; tua,<br \/>\n    E a tu igual &agrave; minha. <\/p>\n<p>Se o caro Amigo te merece tanto,<br \/>\n    L&aacute; lhe fica a sua alma,<br \/>\n    Limpa-lhe o terno pranto.<br \/>\n    De quem eu falo, &eacute;s tu, Mar&iacute;lia bela.<br \/>\n    Ah! sim, honrado Amigo,<br \/>\n    Se enxugar n&atilde;o puderes os seus olhos,<br \/>\n    Pranteia ent&atilde;o com ela. <\/p>\n<p><strong>Lira XV <\/strong><\/p>\n<p>Eu, Mar&iacute;lia, n&atilde;o fui nenhum Vaqueiro,<br \/>\n    Fui honrado Pastor da tua aldeia;<br \/>\n    Vestia finas l&atilde;s, e tinha sempre<br \/>\n    A minha cho&ccedil;a do preciso cheia.<br \/>\n    Tiraram-me o casal, e o manso gado,<br \/>\n    Nem tenho, a que me encoste, um s&oacute; cajado. <\/p>\n<p>Para ter que te dar, &eacute; que eu queria<br \/>\n    De mor rebanho ainda ser o dono;<br \/>\n    Prezava o teu semblante, os teus cabelos<br \/>\n    Ainda muito mais que um grande Trono.<br \/>\n    Agora que te oferte j&aacute; n&atilde;o vejo<br \/>\n    Al&eacute;m de um puro amor, de um s&atilde;o desejo. <\/p>\n<p>Se o rio levantado me causava,<br \/>\n    Levando a sementeira, preju&iacute;zo,<br \/>\n    Eu alegre ficava apenas via<br \/>\n    Na tua breve boca um ar de riso.<br \/>\n    Tudo agora perdi; nem tenho o gosto<br \/>\n    De ver-te aos menos compassivo o rosto. <\/p>\n<p>Propunha-me dormir no teu rega&ccedil;o<br \/>\n    As quentes horas da comprida sesta,<br \/>\n    Escrever teus louvores nos olmeiros,<br \/>\n    Toucar-te de papoulas na floresta.<br \/>\n    Julgou o justo C&eacute;u, que n&atilde;o convinha<br \/>\n    Que a tanto grau subisse a gl&oacute;ria minha. <\/p>\n<p>Ah! minha Bela, se a Fortuna volta,<br \/>\n    Se o bem, que j&aacute; perdi, alcan&ccedil;o, e provo;<br \/>\n    Por essas brancas m&atilde;os, por essas faces<br \/>\n    Te juro renascer um homem novo;<br \/>\n    Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,<br \/>\n    Amar no C&eacute;u a Jove, e a ti na terra. <\/p>\n<p>Fiadas comprarei as ovelhinhas,<br \/>\n    Que pagarei dos poucos do meu ganho;<br \/>\n    E dentro em pouco tempo nos veremos<br \/>\n    Senhores outra vez de um bom rebanho.<br \/>\n    Para o cont&aacute;gio lhe n&atilde;o dar, sobeja<br \/>\n    Que as afague Mar&iacute;lia, ou s&oacute; que as veja. <\/p>\n<p>Sen&atilde;o tivermos l&atilde;s, e peles finas,<br \/>\n    Podem mui bem cobrir as carnes nossas<br \/>\n    As peles dos cordeiros mal curtidas,<br \/>\n    E os panos feitos com as l&atilde;s mais grossas.<br \/>\n    Mas ao menos ser&aacute; o teu vestido<br \/>\n    Por m&atilde;os de amor, por minhas m&atilde;o cosido. <\/p>\n<p>N&oacute;s iremos pescar na quente sesta<br \/>\n    Com canas, e com cestos os peixinhos:<br \/>\n    N&oacute;s iremos ca&ccedil;ar nas manh&atilde;s frias<br \/>\n    Com a vara envisgada os passarinhos.<br \/>\n    Para nos divertir faremos quanto <br \/>\n    Reputa o var&atilde;o s&aacute;bio, honesto e santo. <\/p>\n<p>Nas noites de ser&atilde;o nos sentaremos<br \/>\n    C&#8217;os filhos, se os tivermos, &agrave; fogueira;<br \/>\n    Entre as falsas hist&oacute;rias, que contares,<br \/>\n    Lhes contar&aacute;s a minha verdadeira.<br \/>\n    Pasmados te ouvir&atilde;o; eu entretanto<br \/>\n    Ainda o rosto banharei de pranto. <\/p>\n<p>Quando passarmos juntos pela rua,<br \/>\n    Nos mostrar&atilde;o c&#8217;o dedo os mais Pastores;<br \/>\n    Dizendo uns para os outros: &quot;Olha os nosso<br \/>\n    &quot;Exemplos da desgra&ccedil;a, e s&atilde;o amores&quot;.<br \/>\n    Contentes viveremos desta sorte,<br \/>\n    At&eacute; que chegue a um dos dois a morte. <\/p>\n<p><strong> Lira XVI <\/strong><\/p>\n<p>Vejo, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Que o n&eacute;dio gado<br \/>\n    Anda disperso<br \/>\n    No monte, e prado;<br \/>\n    Que assim sucede<br \/>\n    Ao desgra&ccedil;ado,<br \/>\n    Que a perder chega<br \/>\n    O seu Pastor.<br \/>\n    Mas inda sofro<br \/>\n    A viva dor. <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m conhe&ccedil;o,<br \/>\n    Que os Pegureiros,<br \/>\n    Que apascentavam<br \/>\n    Os meus cordeiros,<br \/>\n    D&atilde;o suspiros,<br \/>\n    E verdadeiros,<br \/>\n    Porque perderam<br \/>\n    Um pai no amor.<br \/>\n    Mas inda sofro<br \/>\n    A viva dor. <\/p>\n<p>Eu mais alcan&ccedil;o,<br \/>\n    Que a minha herdade,<br \/>\n    Estando eu preso,<br \/>\n    Sofrer n&atilde;o h&aacute; de<br \/>\n    Nem a charrua,<br \/>\n    E nem a grade;<br \/>\n    Que a m&atilde;o lhe falta<br \/>\n    Do Lavrador.<br \/>\n    Mas inda sofro<br \/>\n    A viva dor. <\/p>\n<p>Mas quando sobe<br \/>\n    &Agrave; minha id&eacute;ia,<br \/>\n    Que tu ficaste<br \/>\n    L&aacute; nessa aldeia,<br \/>\n    De mil cuidados<br \/>\n    E m&aacute;goa cheia,<br \/>\n    Das paix&otilde;es minhas<br \/>\n    N&atilde;o sou senhor.<br \/>\n    Eu j&aacute; n&atilde;o sofro<br \/>\n    A viva dor. <\/p>\n<p>A quanto chega<br \/>\n    A pena forte!<br \/>\n    Pesa-me a vida,<br \/>\n    Desejo a morte,<br \/>\n    A Jove acuso,<br \/>\n    Maldigo a sorte,<br \/>\n    Trato a Cupido<br \/>\n    Por um traidor.<br \/>\n    Eu j&aacute; n&atilde;o sofro<br \/>\n    A viva dor. <\/p>\n<p>Mas este excesso<br \/>\n    Perd&atilde;o merece,<br \/>\n    E dele Jove<br \/>\n    Compadece:<br \/>\n    Que Jove, &oacute; Bela,<br \/>\n    Mui bem conhece,<br \/>\n    Aonde chega<br \/>\n    Paix&atilde;o de amor.<br \/>\n    Eu j&aacute; n&atilde;o sofro<br \/>\n    A viva dor. <\/p>\n<p><strong>Lira XVII <\/strong><\/p>\n<p>Dirceu te deixa, &oacute; Bela,<br \/>\n    De padecer cansado;<br \/>\n    Frio suor j&aacute; banha<br \/>\n    Seu rosto descorado;<br \/>\n    O sangue j&aacute; n&atilde;o gira pela veia,<br \/>\n    Seus pulsos j&aacute; n&atilde;o batem,<br \/>\n    E a clara luz dos olhos se baceia:<br \/>\n    A l&aacute;grima sentida j&aacute; lhe corre;<br \/>\n    J&aacute; p&aacute;ra a convuls&atilde;o, suspira, e morre. <\/p>\n<p>Seu esp&iacute;rito chega<br \/>\n    Onde se pune o erro:<br \/>\n    Grossos port&otilde;es de ferro.<br \/>\n    Aos severos Ju&iacute;zes se apresenta,<br \/>\n    E com sentidas vozes<br \/>\n    Toda a sua trag&eacute;dia representa;<br \/>\n    Enche-se de ternura, e novo espanto<br \/>\n    O mesmo inexor&aacute;vel Radamanto. <\/p>\n<p>Abre um pasmado a boca,<br \/>\n    E a pedra n&atilde;o despede;<br \/>\n    Outro j&aacute; n&atilde;o se lembra<br \/>\n    Da fome, e mais da sede;<br \/>\n    Descansa o curvo bico, e a garra impia<br \/>\n    Negro abutre esfaimado;<br \/>\n    Nem na roca medonha a Parca fia.<br \/>\n    At&eacute; as mesmas F&uacute;rias inclementes<br \/>\n    Deixam cair das unhas as serpentes. <\/p>\n<p>J&aacute; votam os Ju&iacute;zes;<br \/>\n    E o Rei Plut&atilde;o lhe ordena<br \/>\n    Deixe o s&iacute;tio, em que moram<br \/>\n    Almas dignas de pena.<br \/>\n    J&aacute; sai do escuro Reino, e da mem&oacute;ria<br \/>\n    Lhe passa tudo quanto<br \/>\n    Ou pode dar-lhe m&aacute;goa, ou dar-lhe gl&oacute;ria<br \/>\n    S&oacute;, bem que o gosto as turvas &aacute;guas tome,<br \/>\n    Inda, Mar&iacute;lia, inda diz teu nome. <\/p>\n<p>Entra j&aacute; nos El&iacute;sios,<br \/>\n    Campinas venturosas,<br \/>\n    Que mansos rios cortam,<br \/>\n    Que cobrem sempre as rosas.<br \/>\n    Escuta o canto das sonoras aves,<br \/>\n    E bebe as &aacute;guas puras,<br \/>\n    Que o mel, e do que o leite mais suaves,<br \/>\n    &quot;Aqui, diz ele, espero a minha Bela;<br \/>\n    &quot;Aqui contente viverei com ela.&quot; <\/p>\n<p>&quot;Aqui&#8230;&quot; Por&eacute;m aonde<br \/>\n    Me leva a dor ativa?<br \/>\n    &Eacute; ilus&atilde;o desta alma;<br \/>\n    Jove inda quer que eu viva.<br \/>\n    Eu devo sim gozar teus doces la&ccedil;os;<br \/>\n    E em paga de meus males,<br \/>\n    Devo morrer, Mar&iacute;lia, nos teus bra&ccedil;os.<br \/>\n    Ent&atilde;o eu passarei ao Reino amigo,<br \/>\n    E tu ir&aacute;s depois l&aacute; ter comigo. <\/p>\n<p><strong> Lira XVIII <\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o molho, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    De pranto a masmorra<br \/>\n    Que o terno Cupido<br \/>\n    N&atilde;o voe, n&atilde;o corra,<br \/>\n    A i-lo apanhar.<br \/>\n    Estende-o nas asas,<br \/>\n    Sobre ele suspira,<br \/>\n    Por fim se retira,<br \/>\n    E vai-lo levar. <\/p>\n<p>Se o mo&ccedil;o n&atilde;o mente,<br \/>\n    Os tristes gemidos,<br \/>\n    Os ais lastimosos<br \/>\n    Os guarda unidos,<br \/>\n    Mar&iacute;lia, c&#8217;os teus;<br \/>\n    As l&aacute;grimas nossas<br \/>\n    No seio amontoa,<br \/>\n    Forma asas, e voa,<br \/>\n    Vai p&ocirc;-las nos C&eacute;us. <\/p>\n<p>A Deusa formosa,<br \/>\n    Que amava aos Troianos,<br \/>\n    Livr&aacute;-los querendo<br \/>\n    De riscos, e danos,<br \/>\n    A Jove buscou.<br \/>\n    As &aacute;guas, que o rosto<br \/>\n    Da Deusa banharam,<br \/>\n    A Jove abrandaram,<br \/>\n    Assim os salvou. <\/p>\n<p>Confia-te, &oacute; Bela,<br \/>\n    Confia-te em Jove,<br \/>\n    Ainda se abranda,<br \/>\n    Ainda se move<br \/>\n    Com &acirc;nsias de amor.<br \/>\n    O pranto de V&ecirc;nus,<br \/>\n    Que obrou no pai tanto,<br \/>\n    N&atilde;o tem que o teu pranto<br \/>\n    Apre&ccedil;o maior. <\/p>\n<p><strong> Lira XIX <\/strong><\/p>\n<p>Nesta triste masmorra,<br \/>\n    De um semivivo corpo sepultura,<br \/>\n    Inda, Mar&iacute;lia, adoro<br \/>\n    A tua formosura.<br \/>\n    Amor na minha id&eacute;ia te retrata;<br \/>\n    Busca extremoso, que eu assim resista<br \/>\n    &Agrave; dor imensa, que me cerca, e mata. <\/p>\n<p>Quando em eu mal pondero,<br \/>\n    Ent&atilde;o mais vivamente te diviso:<br \/>\n    Vejo o teu rosto, e escuto<br \/>\n    A tua voz, e riso.<br \/>\n    Movo ligeiro para o vulto os passos;<br \/>\n    Eu beijo a t&iacute;bia luz em vez de face;<br \/>\n    E aperto sobre o peito em v&atilde;o os bra&ccedil;os <\/p>\n<p>Conhe&ccedil;o a ilus&atilde;o minha;<br \/>\n    A viol&ecirc;ncia da m&aacute;goa n&atilde;o suporto;<br \/>\n    Foge-me a vista, e caio,<br \/>\n    N&atilde;o sei se vivo, ou morto.<br \/>\n    Enternece-se Amor de estrago tanto;<br \/>\n    Reclina-me no peito, e com m&atilde;o terna<br \/>\n    Me limpa os olhos do salgado pranto. <\/p>\n<p>Depois que represento<br \/>\n    Por lago espa&ccedil;o a imagem de um defunto,<br \/>\n    Movo os membros, suspiro,<br \/>\n    E onde estou pergunto.<br \/>\n    Conhe&ccedil;o ent&atilde;o que amor me tem consigo;<br \/>\n    Ergo a cabe&ccedil;a, que inda mal sustento,<br \/>\n    E com doente voz assim lhe digo: <\/p>\n<p>&quot;Se queres ser piedoso,<br \/>\n    &quot;Procura o s&iacute;tio em que Mar&iacute;lia mora,<br \/>\n    &quot;Pinta-lhe o meu estrago,<br \/>\n    &quot;E v&ecirc;, Amor, se chora.<br \/>\n    &quot;Se l&aacute;grimas verter, se a dor a arrasta,<br \/>\n    &quot;Uma delas me traze sobre as penas,<br \/>\n    &quot;E para al&iacute;vio meu s&oacute; isto basta.&quot; <\/p>\n<p><strong>Lira XX <\/strong><\/p>\n<p>Se me viras com teus olhos<br \/>\n    Nesta masmorra metido,<br \/>\n    De mil id&eacute;ias funestas,<br \/>\n    E cuidados combatido,<br \/>\n    Qual seria, &oacute; minha Bela,<br \/>\n    Qual seria o teu pesar? <\/p>\n<p>&Agrave; for&ccedil;a da dor cedera,<br \/>\n    E nem estaria vivo,<br \/>\n    Se o menino Deus vendado,<br \/>\n    Extremoso, e compassivo,<br \/>\n    Com o nome de Mar&iacute;lia<br \/>\n    N&atilde;o me viesse animar. <\/p>\n<p>Deixo a cama ao romper d&#8217;alva;<br \/>\n    O meio-dia tem dado,<br \/>\n    E o cabelo ainda flutua<br \/>\n    Pelas costas desgrenhado.<br \/>\n    N&atilde;o tenho valor, n&atilde;o tenho,<br \/>\n    Nem par de mim cuidar. <\/p>\n<p>Diz-me Cupido: &quot;E Mar&iacute;lia<br \/>\n    &quot;N&atilde;o estima este cabelo?<br \/>\n    &quot;Se o deixas perder de todo,<br \/>\n    &quot;N&atilde;o se h&aacute; de enfadar ao v&ecirc;-lo?&quot;<br \/>\n    Suspiro, pego no pente,<br \/>\n    Vou logo o cabelo atar. <\/p>\n<p>Vem um tabuleiro entrando<br \/>\n    De v&aacute;rios manjares cheio;<br \/>\n    P&otilde;e-se na mesa a toalha,<br \/>\n    E eu pensativo passeio:<br \/>\n    De todo o comer esfria,<br \/>\n    Sem nele poder tocar. <\/p>\n<p>&quot;Eu entendo que a matar-te,<br \/>\n    &quot;Diz amor, te tens proposto;<br \/>\n    &quot;Fazes bem: ter&aacute; Mar&iacute;lia<br \/>\n    &quot;Desgosto sobre desgosto.&quot;<br \/>\n    Qual enfermo c&#8217;o rem&eacute;dio,<br \/>\n    Me aflijo, mas vou jantar. <\/p>\n<p>Chegam as horas, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Em que o Sol j&aacute; se tem posto;<br \/>\n    Vem-me &agrave; mem&oacute;ria que nelas<br \/>\n    Vi &agrave; janela teu rosto:<br \/>\n    Reclino na m&atilde;o a face,<br \/>\n    E entro de novo a chorar. <\/p>\n<p>Diz-me Cupido: &quot;J&aacute; basta,<br \/>\n    &quot;J&aacute; basta, Dirceu, de pranto;<br \/>\n    &quot;Em obs&eacute;quio de Mar&iacute;lia<br \/>\n    &quot;Vai tecer teu doce canto.&quot;<br \/>\n    Pendem as fontes dos olhos,<br \/>\n    Mas em sempre vou cantar. <\/p>\n<p>Vem o For&ccedil;ado acender-me<br \/>\n    A velha, suja candeia;<br \/>\n    Fica, Mar&iacute;lia, a masmorra<br \/>\n    Inda mais triste, e mais feia.<br \/>\n    Nem mais canto, nem mais posso<br \/>\n    Uma s&oacute; palavra dar. <\/p>\n<p>Diz-me Cupido: &quot;S&atilde;o horas<br \/>\n    &quot;De escrever-se o que est&aacute; feito.&quot;<br \/>\n    Do azeite, e da fuma&ccedil;a<br \/>\n    Uma nova tinta ajeito;<br \/>\n    Tomo o pau, que pena finge,<br \/>\n    Vou as Liras copiar. <\/p>\n<p>Sem que chegue o leve sono,<br \/>\n    Canta o Galo a vez terceira;<br \/>\n    Eu digo a Amor, que fico<br \/>\n    Sem deitar-me a noite inteira;<br \/>\n    Fa&ccedil;o mimos, e promessas<br \/>\n    Para ele me acompanhar. <\/p>\n<p>Ele diz, que em dormir cuide,<br \/>\n    Que hei de ver Mar&iacute;lia em sonho,<br \/>\n    N&atilde;o respondo uma palavra,<br \/>\n    A dura cama componho,<br \/>\n    Apago a triste candeia,<br \/>\n    E vou-me logo deitar. <\/p>\n<p>Como pode a tais cuidados<br \/>\n    Resistir, &oacute; minha Bela,<br \/>\n    Quem n&atilde;o tem de Amor a gra&ccedil;a;<br \/>\n    Se eu, que vivo &agrave; sombra dela,<br \/>\n    Inda vivo desta sorte,<br \/>\n    Sempre triste a suspirar? <\/p>\n<p><strong> Lira XXI <\/strong><\/p>\n<p>Que diversas que s&atilde;o, Mar&iacute;lia, as horas,<br \/>\n    Que passo na masmorra imunda, e feia,<br \/>\n    Dessas horas felizes, j&aacute; passadas<br \/>\n    Na tua p&aacute;tria aldeia! <\/p>\n<p>Ent&atilde;o eu me ajuntava com Glauceste;<br \/>\n    E &agrave; sombra de alto Cedro na campina<br \/>\n    Eu versos te compunha, e ele os compunha<br \/>\n    &Agrave; sua cara Eulina. <\/p>\n<p>Cada qual o seu canto aos Astros leva;<br \/>\n    De exceder um ao outro qualquer trata;<br \/>\n    O eco agora diz: &quot;Mar&iacute;lia terna&quot;;<br \/>\n    E logo: &quot;Eulina ingrata&quot;. <\/p>\n<p>Deixam os mesmos S&aacute;tiros as grutas.<br \/>\n    Um para n&oacute;s ligeiro move os passos;<br \/>\n    Ouve-nos de mais perto, e faz flauta<br \/>\n    C&#8217;os p&eacute;s em mil peda&ccedil;os. <\/p>\n<p>&quot;Dirceu, clama um Pastor, ah! bem merece<br \/>\n    &quot;Da c&acirc;ndida Mar&iacute;lia a formosura.<br \/>\n    &quot;E aonde, clama o outro, quer Eulina<br \/>\n    &quot;Achar maior ventura?&quot; <\/p>\n<p>Nenhum Pastor cuidava do rebanho,<br \/>\n    Enquanto em n&oacute;s durava esta porfia.<br \/>\n    E ela, &oacute; minha Amada, s&oacute; findava<br \/>\n    Depois de acabar-se o dia. <\/p>\n<p>&Agrave; noite te escrevia na cabana<br \/>\n    Os versos, que de tarde havia feito;<br \/>\n    Mal tos dava, e os lia, os guardavas<br \/>\n    No casto e branco peito. <\/p>\n<p>Beijando os dedos dessa m&atilde;o formosa,<br \/>\n    Banhados com as l&aacute;grimas do gosto,<br \/>\n    Jurava n&atilde;o cantar mais outras gra&ccedil;as,<br \/>\n    Que as gra&ccedil;as do teu rosto. <\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o quebrei o juramento,<br \/>\n    Eu agora, Mar&iacute;lia, n&atilde;o as canto;<br \/>\n    Mas inda vale mais que os doces versos<br \/>\n    A voz do triste pranto. <\/p>\n<p><strong> Lira XXII <\/strong><\/p>\n<p> Por morto, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Aqui me reputo:<br \/>\n    Mil vezes escuto<br \/>\n    O som do arrastado,<br \/>\n    E duro grilh&atilde;o.<br \/>\n    Mas, ah! que n&atilde;o reme,<br \/>\n    N&atilde;o treme de susto<br \/>\n    O meu cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>A chave l&aacute; soa<br \/>\n    No porta segura;<br \/>\n    Abre-se a escura,<br \/>\n    Infame masmorra<br \/>\n    Da minha pris&atilde;o.<br \/>\n    Mas, ah! que n&atilde;o treme,<br \/>\n    N&atilde;o treme de susto<br \/>\n    O meu cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>J&aacute; o Torres se assenta;<br \/>\n    Carrega-me o rosto;<br \/>\n    Do crime suposto<br \/>\n    Com mil artif&iacute;cios<br \/>\n    Indaga a raz&atilde;o.<br \/>\n    Mas, ah! que n&atilde;o treme,<br \/>\n    N&atilde;o treme de susto<br \/>\n    O meu cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Eu vejo, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    A mil inocentes,<br \/>\n    Nas cruzes pendentes<br \/>\n    Por falsos delitos,<br \/>\n    Que os homens lhes d&atilde;o.<br \/>\n    Mas, ah! que n&atilde;o treme,<br \/>\n    N&atilde;o treme de susto<br \/>\n    O meu cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Se penso que posso<br \/>\n    Perder o gozar-te,<br \/>\n    E a gl&oacute;ria de dar-te<br \/>\n    Abra&ccedil;os honestos,<br \/>\n    E beijos na m&atilde;o.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, j&aacute; treme,<br \/>\n    J&aacute; treme de susto<br \/>\n    O meu cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Repara, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    O quanto &eacute; mais forte<br \/>\n    Ainda que a morte,<br \/>\n    Num peito esfor&ccedil;ado,<br \/>\n    De amor a paix&atilde;o.<br \/>\n    Mar&iacute;lia, j&aacute; treme,<br \/>\n    J&aacute; treme de susto<br \/>\n    O meu cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><strong> Lira XXIII <\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o praguejes, Mar&iacute;lia, n&atilde;o praguejes<br \/>\n    A justiceira m&atilde;o, que lan&ccedil;a os ferros;<br \/>\n    N&atilde;o traz debalde a vingadora espada;<br \/>\n    Deve punir os erros. <\/p>\n<p>Virtudes de Juiz, virtudes de homem<br \/>\n    As m&atilde;os se deram, e em seu peito moram.<br \/>\n    Manda prender ao R&eacute;u austera a boca,<br \/>\n    Por&eacute;m seus olhos choram. <\/p>\n<p>Se &agrave; inoc&ecirc;ncia denigre a vil cal&uacute;nia,<br \/>\n    Que culpa aquele tem, que aplica a pena?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; o Julgador, &eacute; o processo,<br \/>\n    E a lei, quem nos condena. <\/p>\n<p>S&oacute; no Averno os Ju&iacute;zes n&atilde;o recebem<br \/>\n    Acusa&ccedil;&atilde;o, nem prova de outro humano;<br \/>\n    Aqui todos confessam suas culpas,<br \/>\n    N&atilde;o pode haver engano. <\/p>\n<p>Eu vejo as F&uacute;rias afligindo aos tristes:<br \/>\n    Uma o fogo chega, outra as serpes move;<br \/>\n    Todos maldizem sim a sua estrela,<br \/>\n    Nenhum acusa a Jove. <\/p>\n<p>Eu tamb&eacute;m inda adoro ao grande Chefe,<br \/>\n    Bem que a pris&atilde;o me d&aacute;, que eu n&atilde;o mere&ccedil;o.<br \/>\n    Qual eu sou, minha Bela, n&atilde;o me trata,<br \/>\n    Trata-me qual pare&ccedil;o. <\/p>\n<p>Quem suspira, Mar&iacute;lia, quando pune<br \/>\n    Ao vassalo, que julga delinq&uuml;ente,<br \/>\n    Que gosto n&atilde;o ter&aacute;, podendo dar-lhe<br \/>\n    &Agrave;s honras de inocente? <\/p>\n<p>Tu vences, Barbacena, aos mesmos Titos<br \/>\n    Nas s&atilde;s virtudes, que no peito abrigas:<br \/>\n    N&atilde;o honras t&atilde;o-somente a quem premeias,<br \/>\n    Honras a quem castigas. <\/p>\n<p><strong>Lira XXIV <\/strong><\/p>\n<p>Eu vou, Mar&iacute;lia, vou brigar co&#8217;as feras!<br \/>\n    Uma soltaram, eu lhe sinto os passos;<br \/>\n    Aqui, aqui a espero<br \/>\n    Nestes despidos bra&ccedil;os.<br \/>\n    &Eacute; um malhado tigre: a mim j&aacute; corre,<br \/>\n    Ao peito o aperto, estalam-lhe as costelas,<br \/>\n    Desfalece, cai, urra, treme, e morre. <\/p>\n<p>Vem agora um Le&atilde;o: sacode a grenha,<br \/>\n    Com faminta paix&atilde;o a mim se lan&ccedil;a;<br \/>\n    Venha embora; que o pulso<br \/>\n    Ainda n&atilde;o se cansa.<br \/>\n    Oprimo-lhe a garganta, a l&iacute;ngua estira,<br \/>\n    O corpo lhe fraqueia, os olhos incham,<br \/>\n    A&ccedil;oita o ch&atilde;o convulso, arqueja, e expira. <\/p>\n<p>Mas que vejo, Mar&iacute;lia! Tu te assustas?<br \/>\n    Entendes que os destinos inumanos<br \/>\n    Exp&otilde;em a minha vida<br \/>\n    No circo dos Romanos?<br \/>\n    Com ursos, e com on&ccedil;as eu n&atilde;o luto:<br \/>\n    Luto c&#8217;o bravo monstro, que me acusa,<br \/>\n    Que os tigres, e le&otilde;es mais fero e bruto. <\/p>\n<p>Embora contra mim raivoso esgrima<br \/>\n    Da vil cal&uacute;nia a cortadora espada;<br \/>\n    Uma alma, qual eu tenho,<br \/>\n    N&atilde;o se receia a nada. <\/p>\n<p>Eu hei de, sim, punir-lhe a insol&ecirc;ncia,<br \/>\n    Pisar-lhe o negro colo, abrir-lhe o peito<br \/>\n    Co&#8217;as armas invenc&iacute;veis da inoc&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Ah! quando imaginar, que vingativo<br \/>\n    Mando que des&ccedil;a ao T&aacute;rtaro profundo,<br \/>\n    Hei de com m&atilde;o honrada<br \/>\n    Erguer-lhe o corpo imundo.<br \/>\n    Eu ent&atilde;o lhe direi: &quot;Infame, indigno,<br \/>\n    &quot;Obras como costuma o vil humano;<br \/>\n    &quot;Fa&ccedil;o, o que faz um cora&ccedil;&atilde;o divino.&quot; <\/p>\n<p><strong>Lira XXV <\/strong><\/p>\n<p>Minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    O passarinho,<br \/>\n    A quem roubaram<br \/>\n    Ovos, e ninho,<br \/>\n    Mil vezes pousa<br \/>\n    No seu raminho;<br \/>\n    Piando finge<br \/>\n    Que anda a chorar.<br \/>\n    Mas logo voa<br \/>\n    Pela espessura,<br \/>\n    Nem mais procura<br \/>\n    Este lugar. <\/p>\n<p>Se acaso a vaca<br \/>\n    Perde a vitela,<br \/>\n    Tamb&eacute;m nos mostra<br \/>\n    Que se desvela;<br \/>\n    O pasto deixa,<br \/>\n    Muge por ela,<br \/>\n    At&eacute; na estrada<br \/>\n    A vem buscar.<br \/>\n    Em poucos dias,<br \/>\n    Ao que parece,<br \/>\n    Dela se esquece,<br \/>\n    E vai pastar. <\/p>\n<p>O voraz Tempo,<br \/>\n    Que o ferro come,<br \/>\n    Que aos mesmos Reinos<br \/>\n    Devora o nome;<br \/>\n    Tamb&eacute;m Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Tamb&eacute;m consome<br \/>\n    Dentro do peito<br \/>\n    Qualquer pesar.<br \/>\n    Ah! s&oacute; n&atilde;o pode<br \/>\n    Ao meu tormento<br \/>\n    Por um momento<br \/>\n    Al&iacute;vio dar. <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m, &oacute; Bela,<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; quem viva<br \/>\n    Instantes breves<br \/>\n    Na chama ativa;<br \/>\n    Derrete ao bronze;<br \/>\n    Sendo excessiva,<br \/>\n    Ao mesmo seixo<br \/>\n    Faz estalar.<br \/>\n    Mas do amianto<br \/>\n    A febre dura<br \/>\n    Na chama atura<br \/>\n    Sem se queimar. <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; quem negue,<br \/>\n    Que bem que o fogo<br \/>\n    Nos &oacute;leos pegue,<br \/>\n    Que bem que em l&iacute;nguas,<br \/>\n    &Agrave;s nuvens chegue,<br \/>\n    &Agrave; for&ccedil;a d&#8217;&aacute;gua<br \/>\n    Se h&aacute; de apagar.<br \/>\n    Se a negra pedra<br \/>\n    N&oacute;s acendemos,<br \/>\n    Com &aacute;gua a vemos<br \/>\n    Mais s&#8217;inflamar. <\/p>\n<p>O meu discurso,<br \/>\n    Mar&iacute;lia, &eacute; reto:<br \/>\n    A pena iguala<br \/>\n    Ao meu afeto.<br \/>\n    O amor, que nutro,<br \/>\n    Ao teu aspecto,<br \/>\n    E ao teu semblante,<br \/>\n    &Eacute; singular.<br \/>\n    Ah! nem o tempo,<br \/>\n    Nem inda a morte<br \/>\n    A dor t&atilde;o forte<br \/>\n    Pode acabar. <\/p>\n<p><strong>Lira XXVI <\/strong><\/p>\n<p>Aquele, a quem fez cego a natureza,<br \/>\n    C&#8217;o bord&atilde;o palpa, e aos que v&ecirc;m pergunta;<br \/>\n    Ainda se despenha muitas vezes,<br \/>\n    E dois rem&eacute;dios junta! <\/p>\n<p>De ser cega a Fortuna eu n&atilde;o me queixo;<br \/>\n    Sim me queixo de que m&aacute; cega seja:<br \/>\n    Cega, que nem pergunta, nem apalpa,<br \/>\n    &Eacute; porque errar deseja. <\/p>\n<p>A quem n&atilde;o tem virtudes, nem talentos,<br \/>\n    Ela, Mar&iacute;lia, faz de um Cetro dono:<br \/>\n    Cria num pobre ber&ccedil;o uma alma digna<br \/>\n    De se sentar num Trono. <\/p>\n<p>A quem gastar n&atilde;o sabe, nem se anima,<br \/>\n    Entrega as grossas chaves de um tesouro;<br \/>\n    E lan&ccedil;a na mis&eacute;ria a quem conhece<br \/>\n    Para que serve o ouro. <\/p>\n<p>A quem fere, a quem rouba, a infame deixa<br \/>\n    Que atr&aacute;s do v&iacute;cio em liberdade corra;<br \/>\n    Eu amo as leis do Imp&eacute;rio, ela me oprime<br \/>\n    Nesta vil masmorra. <\/p>\n<p>Mas ah! minha Mar&iacute;lia, que esta queixa<br \/>\n    Co&#8217;a s&oacute;lida raz&atilde;o se n&atilde;o coaduna;<br \/>\n    Como me queixo da Fortuna tanto,<br \/>\n    Se sei n&atilde;o h&aacute; Fortuna? <\/p>\n<p>Os Fados, os Destinos, essa Deusa,<br \/>\n    Que os S&aacute;bios fingem, que uma roda move,<br \/>\n    &Eacute; s&oacute; a couta m&atilde;o da Provid&ecirc;ncia,<br \/>\n    A s&aacute;bia m&atilde;o de Jove. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; que somos cegos, que n&atilde;o vemos<br \/>\n    A que fins nos conduz por estes modos;<br \/>\n    Por torcidas estradas, ruins veredas<br \/>\n    Caminha ao bem de todos. <\/p>\n<p>Alegre-se o perverso com as ditas;<br \/>\n    C&#8217;o seu merecimento o virtuoso;<br \/>\n    Parecer desgra&ccedil;ado, &oacute; minha Bela,<br \/>\n    &Eacute; muito mais honroso. <\/p>\n<p><strong>Lira XVII <\/strong><\/p>\n<p>A minha amada<br \/>\n    &Eacute; mais formosa,<br \/>\n    Que branco l&iacute;rio,<br \/>\n    Dobrada rosa,<br \/>\n    Que o cinamomo,<br \/>\n    Quando matiza<br \/>\n    Co&#8217;a folha a flor.<br \/>\n    V&ecirc;nus n&atilde;o chega<br \/>\n    Ao meu Amor. <\/p>\n<p>Vasta campina<br \/>\n    De trigo cheia,<br \/>\n    Quando na sesta<br \/>\n    C&#8217;o vento ondeia,<br \/>\n    Ao seu cabelo,<br \/>\n    Quando flutua,<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; igual.<br \/>\n    Tem a cor negra,<br \/>\n    Mas quanto val&#8217;! <\/p>\n<p>Os astros, que andam<br \/>\n    Na esfera pura,<br \/>\n    Quando cintilam<br \/>\n    Na noite escura,<br \/>\n    N&atilde;o s&atilde;o, humanos,<br \/>\n    T&atilde;o lindos como<br \/>\n    Seus olhos s&atilde;o;<br \/>\n    Que ao Sol excedem<br \/>\n    Na luz, que d&atilde;o. <\/p>\n<p>&Agrave;s brancas faces,<br \/>\n    Ah! n&atilde;o se atreve<br \/>\n    Jasmim de It&aacute;lia,<br \/>\n    Nem inda a neve,<br \/>\n    Quando a desata<br \/>\n    O Sol brilhante<br \/>\n    Com seu calor.<br \/>\n    S&atilde;o neve, e causam<br \/>\n    No peito ardor. <\/p>\n<p>Na breve boca<br \/>\n    Vejo enla&ccedil;adas<br \/>\n    As finas per&#8217;las<br \/>\n    Com as granadas;<br \/>\n    A par dos bei&ccedil;os<br \/>\n    Rubins da &Iacute;ndia<br \/>\n    T&ecirc;m pre&ccedil;o vil.<br \/>\n    Neles se agarram<br \/>\n    Amores mil. <\/p>\n<p>Se n&atilde;o lhe desse,<br \/>\n    Compadecido,<br \/>\n    Tanto socorro<br \/>\n    O Deus Cupido;<br \/>\n    Se n&atilde;o vivera<br \/>\n    No peito seu;<br \/>\n    J&aacute; morto estava<br \/>\n    O bom Dirceu. <\/p>\n<p>V&ecirc; quanto pode<br \/>\n    Teu belo rosto;<br \/>\n    E de goz&aacute;-lo<br \/>\n    O vivo gosto!<br \/>\n    Que, submergido<br \/>\n    Em um tormento<br \/>\n    Quase infernal,<br \/>\n    Porqu&#8217;inda espero,<br \/>\n    Resisto ao mal. <\/p>\n<p><strong>Lira XXVIII <\/strong><\/p>\n<p>Det&eacute;m-te, vil humano;<br \/>\n    N&atilde;o espremas a cicuta<br \/>\n    Para fazer-me dano.<br \/>\n    O sumo, que ela d&aacute;, &eacute; pouco forte;<br \/>\n    Procura outras bebidas,<br \/>\n    Que apressem mais a morte. <\/p>\n<p>Desce ao Reino profundo,<br \/>\n    Ajunta a&iacute; venenos,<br \/>\n    Que nunca visse o mundo:<br \/>\n    Traze o negro licor, que t&ecirc;m nos dentes,<br \/>\n    Nos dentes denegridos<br \/>\n    As raivosas serpentes. <\/p>\n<p>Cachopo levantado,<br \/>\n    Que p&ocirc;s a natureza<br \/>\n    Dentro no mar salgado,<br \/>\n    N&atilde;o se abala no meio da tormenta;<br \/>\n    Bem que uma onda, e outra onda<br \/>\n    Sobre ele em flor rebenta. <\/p>\n<p>&Aacute;rvore, que na terra<br \/>\n    As robustas ra&iacute;zes,<br \/>\n    Buscando o centro, a ferra,<br \/>\n    N&atilde;o teme ao furac&atilde;o mais violento,<br \/>\n    E menos, se se deixa<br \/>\n    Vergar do rijo vento. <\/p>\n<p>Sou tronco, e rocha, &oacute; Bela,<br \/>\n    Que a&ccedil;oita o Sul, que brama,<br \/>\n    E o mar, que se encapela:<br \/>\n    N&atilde;o temas que do rosto a cor se mude;<br \/>\n    Vence as rochas, e os troncos<br \/>\n    A s&oacute;lida Virtude. <\/p>\n<p>A maior desventura<br \/>\n    &Eacute; sempre a que nos lan&ccedil;a<br \/>\n    No horror da sepultura:<br \/>\n    O covarde a morrer tamb&eacute;m caminha;<br \/>\n    Com que males n&atilde;o pode<br \/>\n    Uma alma como a minha? <\/p>\n<p><strong>Lira XXIX <\/strong><\/p>\n<p>Eu descubro procurar-me<br \/>\n    Gentil mancebo, e louro;<br \/>\n    Trazia a testa adornada<br \/>\n    Com folhas de verde louro.<br \/>\n    Vejo ser o Pai das Musas,<br \/>\n    E me entrega a lira d&#8217;ouro. <\/p>\n<p>&quot;J&aacute; basta, me diz, &oacute; filho,<br \/>\n    &quot;J&aacute; basta de sentimento;<br \/>\n    &quot;O cansado peito exige<br \/>\n    &quot;Um breve contentamento:<br \/>\n    &quot;Louva a formosa Mar&iacute;lia<br \/>\n    &quot;Ao som do meu instrumento.&quot; <\/p>\n<p>Firo as cordas; mas que importa?<br \/>\n    A dor n&atilde;o sossega entanto:<br \/>\n    Ergo a voz; ent&atilde;o reparo<br \/>\n    Que, quanto mais corre o pranto,<br \/>\n    &Eacute; mais doce, e mais sonoro<br \/>\n    Meu terno, e saudoso canto. <\/p>\n<p>Apolo fitou os olhos<br \/>\n    Na m&atilde;o que regia o bra&ccedil;o;<br \/>\n    E depois de estar suspenso,<br \/>\n    De me ouvir um largo espa&ccedil;o,<br \/>\n    Assim diz: &quot;O Deus Cupido,<br \/>\n    &quot;Faz inda mais, do que eu fa&ccedil;o. <\/p>\n<p>&quot;Eu te dou a minha lira:<br \/>\n    &quot;Louva, louva a tua Bela;<br \/>\n    &quot;Por&eacute;m v&ecirc; que ta concedo<br \/>\n    &quot;Com condi&ccedil;&atilde;o, e cautela&#8230;&quot;<br \/>\n    Eu lhe corto a voz dizendo,<br \/>\n    Que s&oacute; canto me honra dela. <\/p>\n<p><strong>Lira XXX <\/strong><\/p>\n<p>O Pai das Musas,<br \/>\n    O Pastor louro<br \/>\n    Deu-me, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Para cantar-te<br \/>\n    A lira de ouro. <\/p>\n<p>As cordas firo;<br \/>\n    O brando vento<br \/>\n    Teus dotes leva<br \/>\n    Nas brancas asas<br \/>\n    Ao firmamento. <\/p>\n<p>&quot;O teu cabelo<br \/>\n    &quot;Vale um tesouro;<br \/>\n    &quot;Um s&oacute; me adorna<br \/>\n    &quot;A s&aacute;bia fronte<br \/>\n    &quot;Melhor que o louro. <\/p>\n<p>&quot;Nesses teus olhos<br \/>\n    &quot;Amor assiste;<br \/>\n    &quot;Deles faz guerra;<br \/>\n    &quot;Ningu&eacute;m lhe foge,<br \/>\n    &quot;Ningu&eacute;m resiste. <\/p>\n<p>&quot;Algumas vezes<br \/>\n    &quot;Eu o diviso<br \/>\n    &quot;Tamb&eacute;m oculto<br \/>\n    &quot;Nas lindas covas<br \/>\n    &quot;Que faz teu riso. <\/p>\n<p>&quot;Nesses teus peitos<br \/>\n    &quot;T&ecirc;m os seus ninhos<br \/>\n    &quot;Destros Amores;<br \/>\n    &quot;neles se geram<br \/>\n    &quot;Os cupidinhos. <\/p>\n<p>&quot;Vences a V&ecirc;nus,<br \/>\n    &quot;Quando com arte<br \/>\n    &quot;As armas toma,<br \/>\n    &quot;Porque mais prenda<br \/>\n    &quot;Ao fero Marte.&quot; <\/p>\n<p>Eu produzia<br \/>\n    Estas id&eacute;ias,<br \/>\n    Quando, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    O som escuto<br \/>\n    De vis cadeias. <\/p>\n<p>Dou um suspiro,<br \/>\n    Corre o meu pranto;<br \/>\n    E, inda bebendo<br \/>\n    L&aacute;grimas tristes,<br \/>\n    De novo canto: <\/p>\n<p>&quot;Sou da const&acirc;ncia<br \/>\n    &quot;Um vivo exemplo:<br \/>\n    &quot;E v&oacute;s, &oacute; ferros,<br \/>\n    &quot;Honrareis inda<br \/>\n    &quot;De Amor o Templo&quot;. <\/p>\n<p><strong>Lira XXXI <\/strong><\/p>\n<p>Roubou-me, &oacute; minha Amada, a sorte impia<br \/>\n    Quanto de meu gozava<br \/>\n    Num s&oacute; funesto dia; <\/p>\n<p>Honras de maioral, manada grossa,<br \/>\n    F&eacute;rtil, extensa herdade,<br \/>\n    Bem reparada cho&ccedil;a. <\/p>\n<p>Meteu-se nesta infame sepultura,<br \/>\n    Que &eacute; sepulcro sem honras,<br \/>\n    Breve masmorra, escura. <\/p>\n<p>Aqui, &oacute; minha amada, nem consigo<br \/>\n    Venho outro desgra&ccedil;ado<br \/>\n    Sentir tamb&eacute;m comigo: <\/p>\n<p>Mas esta companhia n&atilde;o mere&ccedil;o,<br \/>\n    Os Deuses me d&atilde;o outra,<br \/>\n    Ainda de mais apre&ccedil;o. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute;, n&atilde;o, ilus&atilde;o o que te digo;<br \/>\n    Tu mesma me acompanhas;<br \/>\n    Peno, mas &eacute; contigo. <\/p>\n<p>N&atilde;o vejo as tuas faces graciosas,<br \/>\n    Os teus soltos cabelos,<br \/>\n    As tuas m&atilde;os mimosas. <\/p>\n<p>Se eu as visse, infeliz me n&atilde;o dissera,<br \/>\n    Bem que subira ao Potro<br \/>\n    Bem que na Cruz pendera. <\/p>\n<p>N&atilde;o ou&ccedil;o as tuas vozes magoadas,<br \/>\n    Com ardentes suspiros<br \/>\n    &Agrave;s vezes mal formadas. <\/p>\n<p>Mas vejo, &oacute; cara, as tuas letras belas,<br \/>\n    Uma por um beijo,<br \/>\n    E choro ent&atilde;o sobre elas. <\/p>\n<p>Tu me dizes que siga o meu destino;<br \/>\n    Que o teu amor na aus&ecirc;ncia<br \/>\n    Ser&aacute; leal, e fino. <\/p>\n<p>De novo a carta ao cora&ccedil;&atilde;o aperto,<br \/>\n    De novo a molha o pranto,<br \/>\n    Que de ternura verto. <\/p>\n<p>Ah! leve muito embora o duro Fado<br \/>\n    A tudo, quanto tenho<br \/>\n    Com meu suor ganhado. <\/p>\n<p>Eu juro que do roubo nem me queixe,<br \/>\n    Contanto, &oacute; minha cara,<br \/>\n    Que este s&oacute; bem me deixe. <\/p>\n<p>Que males volunt&aacute;rios n&atilde;o sentiram,<br \/>\n    Os que te amam, somente<br \/>\n    Porque menos te ouviram? <\/p>\n<p>D&ecirc; pois aos mais seus bens a Deusa cega;<br \/>\n    Que eu tenho aquela gl&oacute;ria,<br \/>\n    Que a mil felizes nega. <\/p>\n<p><strong> Lira XXXII <\/strong><\/p>\n<p>Se o vasto mar se encapela,<br \/>\n    E na rocha em flor rebenta,<br \/>\n    Grossa nau, que n&atilde;o tem leme,<br \/>\n    Em v&atilde;o sustentar-se intenta;<br \/>\n    At&eacute; que naufraga, e corre<br \/>\n    &Agrave; discri&ccedil;&atilde;o da tormenta. <\/p>\n<p>Quem n&atilde;o tem uma beleza,<br \/>\n    Em que ponha o seu cuidado;<br \/>\n    Se o C&eacute;u se cobre de nuvens,<br \/>\n    E se assopra o vento irado,<br \/>\n    N&atilde;o tem for&ccedil;as que resistam<br \/>\n    Ao impulso do seu fado. <\/p>\n<p>Nesta sombria masmorra,<br \/>\n    Aonde, Mar&iacute;lia, vivo,<br \/>\n    Encosto na m&atilde;o o rosto,<br \/>\n    Ah! que imagens t&atilde;o funestas<br \/>\n    Me finge o pesar ativo. <\/p>\n<p>Parece que vejo a honra,<br \/>\n    Mar&iacute;lia, toda enlutada;<br \/>\n    A face de um pai rugosa,<br \/>\n    Num mar de pranto banhada;<br \/>\n    Os amigos macilentos,<br \/>\n    E a fam&iacute;lia consternada. <\/p>\n<p>Quero voltar aos meus olhos<br \/>\n    Para outro diverso lado;<br \/>\n    Vejo numa grande pra&ccedil;a<br \/>\n    Um teatro levantado;<br \/>\n    Vejo as cruzes, vejo os potros,<br \/>\n    Vejo o alfanje afiado. <\/p>\n<p>Um frio suor me cobre,<br \/>\n    Laxam-se os membros, suspiro;<br \/>\n    Busco al&iacute;vio &agrave;s minhas &acirc;nsias,<br \/>\n    N&atilde;o o descubro, deliro.<br \/>\n    J&aacute; , meu Bem, j&aacute; me parece<br \/>\n    Que nas m&atilde;os da morte expiro. <\/p>\n<p>Vem-me ent&atilde;o ao pensamento<br \/>\n    A tua testa nevada,<br \/>\n    Os teus meigos, vivos olhos,<br \/>\n    A tua face rosada,<br \/>\n    Os teus dentes cristalinos,<br \/>\n    A tua boca engra&ccedil;ada. <\/p>\n<p>Qual, Mar&iacute;lia, a estrela d&#8217;alva,<br \/>\n    Que a negra noite afugenta;<br \/>\n    Qual o Sol, que a n&eacute;voa espalha<br \/>\n    Apenas a terra aquenta;<br \/>\n    Ou qual &Iacute;ris, que o C&eacute;u limpa,<br \/>\n    Quando se v&ecirc; na tormenta: <\/p>\n<p>Assim, Mar&iacute;lia, desterro<br \/>\n    Triste ilus&atilde;o, e dem&ecirc;ncia;<br \/>\n    Faz de novo o seu of&iacute;cio<br \/>\n    A raz&atilde;o, e a prud&ecirc;ncia;<br \/>\n    E firmo esperan&ccedil;as doces<br \/>\n    Sobre a c&acirc;ndida inoc&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Restauro as for&ccedil;as perdidas,<br \/>\n    Sobe a viva cor ao rosto,<br \/>\n    Gira o sangue pela veia,<br \/>\n    E bate o pulso composto:<br \/>\n    V&ecirc;, Mar&iacute;lia, o quanto pode<br \/>\n    Contra meus males teu rosto. <\/p>\n<p><strong>Lira XXXIII <\/strong><\/p>\n<p>Morri, &oacute; minha Bela:<br \/>\n    N&atilde;o foi a Parca impia,<br \/>\n    Que na tremenda roca,<br \/>\n    Sem Ter descanso, fia;<br \/>\n    N&atilde;o foi, digo, n&atilde;o foi a Morte feia<br \/>\n    Quem o ferro moveu, e abriu no peito <br \/>\n    A palpitante veia. <\/p>\n<p>Eu, Mar&iacute;lia, respiro;<br \/>\n    Mas o mal, que suporto,<br \/>\n    &Eacute; t&atilde;o tirano, e forte,<br \/>\n    Que j&aacute; me dou por morto:<br \/>\n    A insolente cal&uacute;nia depravada<br \/>\n    Ergueu-se contra mim, vibrou da l&iacute;ngua<br \/>\n    A venenosa espada. <\/p>\n<p>Inda, &oacute; Bela, n&atilde;o vejo<br \/>\n    Cadafalso enlutado,<br \/>\n    Bra&ccedil;o de ferro armado;<br \/>\n    Mas vivo neste mundo, &oacute; sorte impia,<br \/>\n    E dele s&oacute; me mostra a estreita fresta<br \/>\n    O quando &eacute; noite, ou dia. <\/p>\n<p>Olhos ba&ccedil;os, e sumidos,<br \/>\n    Macilento, e descarnado,<br \/>\n    Barba crescida, e hirsuta,<br \/>\n    Cabelo desgrenhado;<br \/>\n    Ah! que imagem t&atilde;o digna de piedade!<br \/>\n    Mas &eacute;, minha Mar&iacute;lia, como vive<br \/>\n    Um r&eacute;u de Majestade. <\/p>\n<p>Venha o processo, venha;<br \/>\n    Na inoc&ecirc;ncia me fundo:<br \/>\n    Mas n&atilde;o morreram outros,<br \/>\n    Que davam honra ao mundo!<br \/>\n    O tormento, minha alma, n&atilde;o recuses:<br \/>\n    A quem s&aacute;bio cumpriu as leis sagradas<br \/>\n    Servem de s&oacute;lio as cruzes. <\/p>\n<p>Tu, Mar&iacute;lia, se ouvires,<br \/>\n    Que ante o teu rosto aflito<br \/>\n    O meu nome se ultraja<br \/>\n    C&#8217;o suposto delito,<br \/>\n    Dize severa assim em meu abono:<br \/>\n    &quot;N&atilde;o toma as armas contra um Cetro justo<br \/>\n    &quot;Alma digna de um trono.&quot; <\/p>\n<p><strong> Lira XXXIV <\/strong><\/p>\n<p>Vou-me, &oacute; Bela, deitar na dura cama,<br \/>\n    De que nem sequer sou o pobre dono:<br \/>\n    Estende sobre mim Morfeu as asas,<br \/>\n    E vem ligeiro o sono. <\/p>\n<p>Os sonhos, que rodeiam a tarimba,<br \/>\n    Mil coisas v&atilde;o pintar na minha id&eacute;ia;<br \/>\n    N&atilde;o pintam cadafalsos, n&atilde;o, n&atilde;o pintam<br \/>\n    Nenhuma imagem feia. <\/p>\n<p>Pintam que estou bordando um teu vestido;<br \/>\n    Que um menino com asas, cego, e louro,<br \/>\n    Me enfia nas agulhas o delgado,<br \/>\n    O brando fio de ouro. <\/p>\n<p>Pintam que entrando vou na grande Igreja;<br \/>\n    Pintam que as m&atilde;os nos damos, e aqui vejo<br \/>\n    Subir-te &agrave; branca face a cor mimosa,<br \/>\n    A viva cor do pejo. <\/p>\n<p>Pintam que nos conduz dourada sege<br \/>\n    &Agrave; nossa habita&ccedil;&atilde;o; que mil Amores<br \/>\n    Desfolham sobre o leito as moles folhas<br \/>\n    Das mais cheirosas flores. <\/p>\n<p> Pintam que desta terra nos partimos;<br \/>\n    Que os amigos saudosos, e suspensos<br \/>\n    Apertam nos inchados, roxos olhos<br \/>\n    Os j&aacute; molhados len&ccedil;os. <\/p>\n<p>Pintam que os mares sulco da Bahia;<br \/>\n    Onde passei a flor da minha idade;<br \/>\n    Que descubro as palmeiras, e eme dois bairros<br \/>\n    Partidas a gr&atilde; Cidade. <\/p>\n<p>Pintam leve escaler, e que na prancha<br \/>\n    O bra&ccedil;o j&aacute; te of&#8217;re&ccedil;o reverente;<br \/>\n    Que te aponta c&#8217;o dedo, mal te avista,<br \/>\n    Amontoada gente. <\/p>\n<p>Aqui, alerta, grita o mau soldado;<br \/>\n    E o outro, alerta estou, lhe diz gritando:<br \/>\n    Acordo com a bulha, ent&atilde;o conhe&ccedil;o,<br \/>\n    Que estava aqui sonhando. <\/p>\n<p>Se o meu crime n&atilde;o fosse s&oacute; de amores,<br \/>\n    A ver-me delinq&uuml;ente, r&eacute;u de morte,<br \/>\n    N&atilde;o sonhara, Mar&iacute;lia, s&oacute; contigo,<br \/>\n    Sonhara de outra sorte. <\/p>\n<p><strong>Lira XXXV <\/strong><\/p>\n<p>Se l&aacute; te chegarem<br \/>\n    Aos ternos ouvidos<br \/>\n    Uns tristes gemidos,<br \/>\n    Repara, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Ver&aacute;s, que s&atilde;o meus.<br \/>\n    Ah! d&aacute;-lhes abrigo,<br \/>\n    Mar&iacute;lia, nos peitos;<br \/>\n    Aqui os conserva<br \/>\n    Em la&ccedil;os estreitos,<br \/>\n    Unidos aos teus. <\/p>\n<p>O vento ligeiro,<br \/>\n    De ouvi-los movido,<br \/>\n    Os pede a Cupido,<br \/>\n    Que a todos apanha,<br \/>\n    E l&aacute; tos vai p&ocirc;r.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o os desprezes,<br \/>\n    Porque se conspira<br \/>\n    O C&eacute;u em meu dano,<br \/>\n    E a gl&oacute;ria me tira<br \/>\n    De honrado Pastor. <\/p>\n<p>T&ecirc;m suspiros<br \/>\n    Motivo dobrado;<br \/>\n    Perdi o meu gado;<br \/>\n    Perdi, que mais vale,<br \/>\n    O bem de te ver.<br \/>\n    Se os n&atilde;o receberes,<br \/>\n    Amante por ora,<br \/>\n    Por serem de um triste,<br \/>\n    Os deves, Pastora,<br \/>\n    Por honra acolher. <\/p>\n<p>Vir&aacute;, minha Bela,<br \/>\n    Vir&aacute; uma idade,<br \/>\n    Que, vista a verdade,<br \/>\n    Gostosa me entregues<br \/>\n    O teu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Os crimes desonram,<br \/>\n    Se s&atilde;o existentes;<br \/>\n    Os ferros, que oprimem<br \/>\n    As m&atilde;os inocentes,<br \/>\n    Infames n&atilde;o s&atilde;o. <\/p>\n<p>Chegando este dia,<br \/>\n    Os bra&ccedil;os daremos:<br \/>\n    Ent&atilde;o mandaremos<br \/>\n    De gosto, e ternura<br \/>\n    Suspiros aos C&eacute;us.<br \/>\n    P&ocirc;r-me-&atilde;o no sepulcro<br \/>\n    A honrosa inscri&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &quot;Se teve delito,<br \/>\n    &quot;S&oacute; foi a paix&atilde;o,<br \/>\n    &quot;Que a todos faz r&eacute;us.&quot; <\/p>\n<p><strong> Lira XXXVI <\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute;s de Ter horror, minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    De tocar pulso, que sofreu os ferros!<br \/>\n    Infames impostores mos lan&ccedil;aram,<br \/>\n    E n&atilde;o pun&iacute;veis erros. <\/p>\n<p>Esta m&atilde;o, esta m&atilde;o, que r&eacute; parece,<br \/>\n    Ah! n&atilde;o foi uma vez, n&atilde;o foi s&oacute; uma,<br \/>\n    Que em defesa dos bens, que s&atilde;o do Estado,<br \/>\n    Moveu a s&aacute;bia pluma, <\/p>\n<p>&Eacute; certo, minha amada, sim &eacute; certo<br \/>\n    Qu&#8217;eu aspirava a ser de um Cetro o dono;<br \/>\n    Mas este grande imp&eacute;rio, que eu firmava,<br \/>\n    Tinha em teu peito o trono. <\/p>\n<p>As for&ccedil;as, que se opunham, n&atilde;o batiam<br \/>\n    Da grossa pe&ccedil;a, e do mosquete os tiros;<br \/>\n    S&oacute; eram minhas armas os solu&ccedil;os,<br \/>\n    Os rogos, e os suspiros. <\/p>\n<p>De cuidados, desvelos, e finezas<br \/>\n    Formava, &oacute; minha Bela, os meus guerreiros;<br \/>\n    N&atilde;o tinha no meu campo estranhas tropas;<br \/>\n    Que amor n&atilde;o quer parceiros. <\/p>\n<p>Mas pode ainda vir um claro dia,<br \/>\n    Em que estas vis algemas, estes la&ccedil;os<br \/>\n    Se mudem em pris&otilde;es de al&iacute;vios cheias<br \/>\n    Nos teus mimosos bra&ccedil;os. <\/p>\n<p>Vaidoso ent&atilde;o direi: &quot;Eu sou Monarca;<br \/>\n    &quot;Dou leis, que &eacute; mais, num cora&ccedil;&atilde;o divino!<br \/>\n    &quot;S&oacute;lio que ergueu o gosto, e n&atilde;o a fo&ccedil;a,<br \/>\n    &quot;&Eacute; que &eacute; de apre&ccedil;o digno.&quot; <\/p>\n<p><strong>Lira XXXVII <\/strong><\/p>\n<p>Meu sonoro Passarinho,<br \/>\n    Se sabes do meu tormento,<br \/>\n    E buscas dar-me, cantando,<br \/>\n    Um doce contentamento, <\/p>\n<p>Ah! n&atilde;o cantes, mais n&atilde;o cantes,<br \/>\n    Se me queres ser prop&iacute;cio;<br \/>\n    Eu te dou em que me fa&ccedil;as<br \/>\n    Muito maior benef&iacute;cio. <\/p>\n<p>Ergue o corpo, os ares rompe,<br \/>\n    Procura o Porto da Estrela,<br \/>\n    Sobe &agrave; serra, e se cansares,<br \/>\n    Descansa num tronco dela, <\/p>\n<p>Toma de Minas a estrada,<br \/>\n    Na Igreja nova, que fica<br \/>\n    Ao direito lado, e segue<br \/>\n    Sempre firme a Vila Rica. <\/p>\n<p>Entra nesta grande terra,<br \/>\n    Passa uma formosa ponte,<br \/>\n    Passa a segunda, a terceira<br \/>\n    Tem um pal&aacute;cio defronte. <\/p>\n<p>Ele tem ao p&eacute; da porta<br \/>\n    Uma rasgada janela,<br \/>\n    &Eacute; da sala, aonde assiste<br \/>\n    A minha Mar&iacute;lia bela. <\/p>\n<p>Para bem a conheceres,<br \/>\n    Eu te dou os sinais todos<br \/>\n    Do seu gesto, do seu talhe,<br \/>\n    Das suas fei&ccedil;&otilde;es, e modos. <\/p>\n<p>O seu semblante &eacute; redondo,<br \/>\n    Sobrancelhas arqueadas,<br \/>\n    Negros e finos cabelos,<br \/>\n    Carnes de neve formadas. <\/p>\n<p>A boca risonha, e breve,<br \/>\n    Suas faces cor-de-rosa,<br \/>\n    Numa palavra, a que vires<br \/>\n    Entre todas mais formosa. <\/p>\n<p>Chega ent&atilde;o ao seu ouvido,<br \/>\n    Dize, que sou quem te mando,<br \/>\n    Que vivo neta masmorra,<br \/>\n    Mas sem al&iacute;vio penando. <\/p>\n<p><strong> Lira XXXVIII <\/strong><\/p>\n<p>Eu vejo aquela Deusa,<br \/>\n    Astr&eacute;ia pelos s&aacute;bios nomeada;<br \/>\n    Balan&ccedil;a numa m&atilde;o, na outra espada.<br \/>\n    O v&ecirc;-la n&atilde;o me causa um leve abalo,<br \/>\n    Mas, antes, atrevido,<br \/>\n    Eu a vou procurar, e assim lhe falo: <\/p>\n<p>Qual &eacute; o povo, dize,<br \/>\n    Que comigo concorre no atentado?<br \/>\n    Americano Povo?<br \/>\n    O Povo mais fiel e mais honrado:<br \/>\n    Tira as Pra&ccedil;as das m&atilde;os do injusto dono,<br \/>\n    Ele mesmo as submete<br \/>\n    De novo &agrave; sujei&ccedil;&atilde;o do Luso Trono! <\/p>\n<p>Eu vejo nas hist&oacute;rias<br \/>\n    Rendido Pernambuco aos Holandeses;<br \/>\n    Eu vejo saqueada<br \/>\n    Esta ilustre Cidade dos Franceses;<br \/>\n    L&aacute; se derrama o sangue Brasileiro;<br \/>\n    Aqui n&atilde;o basta, supre<br \/>\n    Das roubadas fam&iacute;lias o dinheiro. <\/p>\n<p>Enquanto assim falava,<br \/>\n    Mostrava a Deusa n&atilde;o me ouvir com gosto;<br \/>\n    Punha-me a vista tesa,<br \/>\n    Enrugava o severo e aceso rosto.<br \/>\n    N&atilde;o suspendo contudo no que digo;<br \/>\n    Sem o menor receio,<br \/>\n    Fa&ccedil;o que a n&atilde;o entendo, e assim prossigo: <\/p>\n<p>Acabou-se, tirana,<br \/>\n    A honra, o zelo deste Luso Povo?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; aquele mesmo,<br \/>\n    Que estas a&ccedil;&otilde;es obrou? &Eacute; outro novo?<br \/>\n    E pode haver direito, que te mova<br \/>\n    A supor-nos culpados,<br \/>\n    Quando em nosso favor conspira a prova? <\/p>\n<p>H&aacute; em Minas um homem,<br \/>\n    Ou por seu nascimento, ou seu tesouro,<br \/>\n    Que aos outros mover possa<br \/>\n    &Agrave; for&ccedil;a de respeito, &agrave; for&ccedil;a d&#8217;ouro?<br \/>\n    Os bens de quantos julgas rebelados<br \/>\n    Podem manter na guerra,<br \/>\n    Por um ano sequer, a cem soldados? <\/p>\n<p>Ama a gente assisada<br \/>\n    A honra, a vida, o cabedal t&atilde;o pouco,<br \/>\n    Que ponha uma a&ccedil;&atilde;o destas<br \/>\n    Nas m&atilde;os dum pobre, sem respeito e louco?<br \/>\n    E quando a comiss&atilde;o lhe confiasse,<br \/>\n    N&atilde;o tinha pobre soma,<br \/>\n    Que por paga, ou esmola, lhe mandasse! <\/p>\n<p>Nos limites de Minas,<br \/>\n    A quem se convidasse n&atilde;o havia?<br \/>\n    Ir-se-iam buscar s&oacute;cios<br \/>\n    Na Col&ocirc;nia tamb&eacute;m, ou na Bahia?<br \/>\n    Est&aacute; voltada a Corte Brasileira<br \/>\n    Na terra dos Su&iacute;&ccedil;os,<br \/>\n    Onde as Pot&ecirc;ncias v&atilde;o erguer bandeira? <\/p>\n<p>O mesmo autor do insulto<br \/>\n    Mais a riso, do que a temor me move;<br \/>\n    Dou-lhe nesta loucura,<br \/>\n    Podia-se fazer Netuno ou Jove.<br \/>\n    A prud&ecirc;ncia &eacute; trat&aacute;-lo por demente;<br \/>\n    Ou prend&ecirc;-lo, ou entreg&aacute;-lo<br \/>\n    Para dele zombar a mo&ccedil;a gente. <\/p>\n<p>Aqui, aqui a Deusa<br \/>\n    Um extenso suspiro aos ares solta;<br \/>\n    Repete outro suspiro,<br \/>\n    E sem palavra dar, as costas volta.<br \/>\n    Tu te irritas! Lhe digo e quem te ofende?<br \/>\n    Ainda nada ouviste<br \/>\n    Do que respeita a mim; sossega, atende. <\/p>\n<p>E tinha que ofertar-me<br \/>\n    Um pequeno, abatido e novo Estado,<br \/>\n    Com as armas de fora,<br \/>\n    Com as suas pr&oacute;prias armas consternado?<br \/>\n    Achas tamb&eacute;m que sou t&atilde;o pouco esperto,<br \/>\n    Que um bem t&atilde;o contingente<br \/>\n    Me obrigasse a perder um bem j&aacute; certo? <\/p>\n<p>N&atilde;o sou aquele mesmo,<br \/>\n    Que a extin&ccedil;&atilde;o do d&eacute;bito pedia?<br \/>\n    J&aacute; viste levantado<br \/>\n    Quem &agrave; sombra da paz alegre ria?<br \/>\n    Um direito arriscado eu busco, e feio,<br \/>\n    E quero que se evite<br \/>\n    Toda a raz&atilde;o do insulto, e todo o meio? <\/p>\n<p>N&atilde;o sabes quanto apresso<br \/>\n    Os vagarosos dias da partida?<br \/>\n    Que a fortuna risonha,<br \/>\n    A mais formosos campos me convida?<br \/>\n    Daqui nem ouro quero;<br \/>\n    Quero levar somente os meus amores. <\/p>\n<p>Eu, &oacute; cega, n&atilde;o tenho<br \/>\n    Um grosso cabedal, do mais herdado:<br \/>\n    N&atilde;o o recebi no emprego,<br \/>\n    N&atilde;o tenho as instru&ccedil;&otilde;es dum bom soldado,<br \/>\n    Far-me-iam os rebeldes o primeiro<br \/>\n    No imp&eacute;rio que se erguia<br \/>\n    &Agrave; custa do seu sangue, e seu dinheiro? <\/p>\n<p>Aqui, aqui de todo<br \/>\n    A Deusa se perturba, e mais se altera;<br \/>\n    Morde o seu pr&oacute;prio bei&ccedil;o;<br \/>\n    O s&iacute;tio deixa, nada mais espera.<br \/>\n    Ah! vai-te, ent&atilde;o lhe digo, vai-te embora;<br \/>\n    Melhor, minha Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Eu gastasse contigo mais esta hora. <\/p>\n<h4><a name=\"3\">PARTE III <\/a><\/h4>\n<p><strong>Lira I <\/strong><\/p>\n<p>Convidou-me a ver seu Templo<br \/>\n    O cego Cupido um dia;<br \/>\n    Encheu-se de gosto o peito,<br \/>\n    Fiz deste Deus um conceito,<br \/>\n    Como dele n&atilde;o fazia. <\/p>\n<p>Aqui vejo descorados<br \/>\n    Os tern&iacute;ssimos amantes,<br \/>\n    Entre as cadeias gemerem;<br \/>\n    Vejo nas piras arderem<br \/>\n    As entranhas palpitantes. <\/p>\n<p>A quem amas, quanto avistas<br \/>\n    (Diz Cupido) n&atilde;o aterra;<br \/>\n    Quem quer cingir o loureiro<br \/>\n    Tamb&eacute;m vai sofrer primeiro<br \/>\n    Todo o trabalho da guerra. <\/p>\n<p>Contudo, que te dilates<br \/>\n    Neste s&iacute;tio n&atilde;o convenho;<br \/>\n    Deixa a est&acirc;ncia lastimosa,<br \/>\n    Vem ver a sala formosa<br \/>\n    Aonde o meu s&oacute;lio tenho. <\/p>\n<p>Entre noutro grande Templo;<br \/>\n    Que perspectiva t&atilde;o grata!<br \/>\n    Tudo quanto nele vejo<br \/>\n    Passa al&eacute;m do meu desejo,<br \/>\n    E o discurso me arrebata. <\/p>\n<p>&Eacute; de m&aacute;rmore, e de jaspe<br \/>\n    O soberbo frontisp&iacute;cio;<br \/>\n    &Eacute; todo por dentro de ouro;<br \/>\n    E a um t&atilde;o rico tesouro<br \/>\n    Inda excede o artif&iacute;cio. <\/p>\n<p>As janelas n&atilde;o se adornam<br \/>\n    De sedas de finas cores;<br \/>\n    Em lugar dos cortinados,<br \/>\n    Est&atilde;o presos, e enla&ccedil;ados<br \/>\n    Fest&otilde;es de mimosas flores. <\/p>\n<p>Em torno da sala augusta<br \/>\n    Ardem dourados braseiros,<br \/>\n    Queimam resinas que estalam,<br \/>\n    E postas em fumo exalam<br \/>\n    Da Panchaia os gratos cheiros. <\/p>\n<p>Ao p&eacute; do trono os seus G&ecirc;nios<br \/>\n    Alegres hinos entoam;<br \/>\n    Dan&ccedil;am as Gra&ccedil;as formosas,<br \/>\n    E aqui as horas gostosas<br \/>\n    Em vez de correrem voam. <\/p>\n<p>Est&atilde;o sobre o pavimento<br \/>\n    Igualmente reclinados,<br \/>\n    Nos colos dos seus amores,<br \/>\n    Os grandes Reis, e os Pastores,<br \/>\n    De frescas rosas coroados. <\/p>\n<p>Mal o acordo restauro,<br \/>\n    Me diz o mo&ccedil;o risonho,<br \/>\n    Como ainda n&atilde;o reparas<br \/>\n    Em tantas coisas t&atilde;o raras,<br \/>\n    De que este Templo componho? <\/p>\n<p>Sabes a hist&oacute;ria de Jove?<br \/>\n    Aqui tens o manso Touro,<br \/>\n    Tens o Cisne decantado,<br \/>\n    A Velha em que foi mudado,<br \/>\n    Com a grossa chuva de ouro. <\/p>\n<p>Aplica, Dirceu, agora<br \/>\n    Os olhos ara esta parte,<br \/>\n    Aqui tens a Lira d&#8217;ouro<br \/>\n    Que inda estima o Pastor louro;<br \/>\n    E a rede que enla&ccedil;a a Marte. <\/p>\n<p>V&ecirc;s este arco destramente<br \/>\n    De branco marfim ornado?<br \/>\n    &Agrave; casta Deusa servia,<br \/>\n    E o perdeu quando dormia<br \/>\n    Do gentil Pastor ao lado. <\/p>\n<p>V&ecirc;s esta lira? com ela<br \/>\n    Tira Orfeu ao bem querido<br \/>\n    Dos Infernos onde estava:<br \/>\n    V&ecirc;s este farol? guiava<br \/>\n    Ao meu nadador de Abido. <\/p>\n<p>V&ecirc;s estas duas espadas<br \/>\n    Ainda de sangue cheias?<br \/>\n    A Tisbe, e a Dido mataram;<br \/>\n    E os fortes pulsos ornaram<br \/>\n    De P&iacute;ramo, e mais de En&eacute;ias. <\/p>\n<p>Sabes quem vai no navio,<br \/>\n    Que este mar se levanta?<br \/>\n    &Eacute; Teseu. V&ecirc;s esse pomo?<br \/>\n    &Eacute; de C&iacute;pide, assim como<br \/>\n    S&atilde;o aqueles de Atlanta. <\/p>\n<p>V&ecirc; agora estes retratos,<br \/>\n    Que destros pinc&eacute;is fizeram,<br \/>\n    Ah! que pinturas divinas!<br \/>\n    Todas s&atilde;o das hero&iacute;nas,<br \/>\n    Que mais vit&oacute;rias me deram. <\/p>\n<p>Repara nesse semblante,<br \/>\n    &Eacute; o semblante de Helena;<br \/>\n    L&aacute; se avista a Grega armada,<br \/>\n    E aqui de Tr&oacute;ia abrasada<br \/>\n    Se mostra a funesta cena. <\/p>\n<p>V&ecirc; est&#8217;outra formosura?<br \/>\n    &Eacute; a bela Deidamia;<br \/>\n    L&aacute; tens Aquiles ao lado,<br \/>\n    De uma saia disfar&ccedil;ado,<br \/>\n    Como com ela vivia. <\/p>\n<p>Cle&oacute;patra &eacute; quem se segue:<br \/>\n    Ali tens lan&ccedil;ado a linha<br \/>\n    Marco Ant&ocirc;nio sossegado,<br \/>\n    Ao tempo em que Augusto irado<br \/>\n    Com armada nau caminha. <\/p>\n<p>Aqui H&eacute;rmia se figura;<br \/>\n    V&ecirc; um S&aacute;bio dos maiores,<br \/>\n    Qual infame delinq&uuml;ente,<br \/>\n    Ir desterrado, somente<br \/>\n    Por cantar os seus amores. <\/p>\n<p>Este &eacute; de &Ocirc;nfale o retrato;<br \/>\n    Aqui tens (quem o diria!)<br \/>\n    Ao grande H&eacute;rcules sentado<br \/>\n    Com as mais damas no estrado,<br \/>\n    Onde em seu obs&eacute;quio fia. <\/p>\n<p>Anda agora a est&#8217;outra parte,<br \/>\n    Conheces, Dirceu, aquela?<br \/>\n    Onde vais, lhe digo, explica,<br \/>\n    Que beleza aqui nos fica,<br \/>\n    Sem fazeres caso dela? <\/p>\n<p>Ergo o rosto, ponho a vista<br \/>\n    Na imagem n&atilde;o explicada,<br \/>\n    Oh! quanto &eacute; digna de apre&ccedil;o!<br \/>\n    Mal exclamo assim, conhe&ccedil;o<br \/>\n    Ser a minha doce amada. <\/p>\n<p>O cora&ccedil;&atilde;o pelos olhos<br \/>\n    Em terno pranto sa&iacute;a,<br \/>\n    E no meu peito saltava;<br \/>\n    Disfar&ccedil;ando amor, olhava<br \/>\n    Para mim a furto, e ria. <\/p>\n<p>Depois de passado tempo,<br \/>\n    A mim se chega, e me abala;<br \/>\n    Desperto de tanto assombro;<br \/>\n    Ele bate no meu ombro,<br \/>\n    E assim af&aacute;vel me fala: <\/p>\n<p>Sim, caro Dirceu, &eacute; esta<br \/>\n    A divina formosura,<br \/>\n    Que te destina Cupido;<br \/>\n    Aqui tens o la&ccedil;o urdido<br \/>\n    Da tua imortal ventura. <\/p>\n<p>Um Nume, Dirceu, um Nume,<br \/>\n    Que os trabalhos de um humano<br \/>\n    Desta sorte felicita,<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; como se acredita,<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; um Nume tirano. <\/p>\n<p>Olha se a cega Fortuna,<br \/>\n    De tudo quanto se cria,<br \/>\n    Ou nos mares, ou na terra,<br \/>\n    Em seus tesouros encerra<br \/>\n    Outro bem de mais valia? <\/p>\n<p>Lisas faces cor-de-rosa,<br \/>\n    Brancos dentes, olhos belos,<br \/>\n    Lindos bei&ccedil;os encarnados,<br \/>\n    Pesco&ccedil;o, e peitos nevados,<br \/>\n    Negros, e finos cabelos, <\/p>\n<p>N&atilde;o valem mais que cingires,<br \/>\n    Com bra&ccedil;o de sangue imundo,<br \/>\n    Na cabe&ccedil;a o verde louro?<br \/>\n    Do que teres montes de ouro?<br \/>\n    Do que dares leis ao mundo? <\/p>\n<p>Ah! ensina, sim, ensina<br \/>\n    Ao vil mortal atrevido,<br \/>\n    E ao peito que adora terno,<br \/>\n    Que tem, para um o Inferno,<br \/>\n    Para outro um C&eacute;u, o Cupido. <\/p>\n<p>Ao resto Amor me convida,<br \/>\n    Eu chorando a m&atilde;o lhe beijo,<br \/>\n    E lhe digo: Amor, perdoa<br \/>\n    N&atilde;o seguir-te; pois n&atilde;o voa<br \/>\n    A ver mais o meu desejo. <\/p>\n<p><strong> Lira II <\/strong><\/p>\n<p>Em v&atilde;o do amado<br \/>\n    filho que foge,<br \/>\n    V&ecirc;nus quer hoje<br \/>\n    not&iacute;cias ter. <\/p>\n<p>Sagaz e astuto<br \/>\n    ele se esconde<br \/>\n    em parte aonde<br \/>\n    ningu&eacute;m o v&ecirc;. <\/p>\n<p>Dos sinais dados,<br \/>\n    bem se conhece<br \/>\n    que ele aborrece<br \/>\n    a m&atilde;e que tem. <\/p>\n<p>Se os seus defeitos<br \/>\n    Ela publica,<br \/>\n    raz&atilde;o lhe fica<br \/>\n    de se ofender. <\/p>\n<p>Foge o menino<br \/>\n    e, disfar&ccedil;ado,<br \/>\n    vive abrigado<br \/>\n    numa cruel. <\/p>\n<p>Com mil car&iacute;cias<br \/>\n    a &iacute;mpia o trata;<br \/>\n    nem o desata<br \/>\n    do peito seu. <\/p>\n<p>Se a semelhan&ccedil;a<br \/>\n    sempre amor gera,<br \/>\n    deve uma fera<br \/>\n    outra acolher. <\/p>\n<p>Ah! se o teu nome,<br \/>\n    Mar&iacute;lia, calo,<br \/>\n    que de ti falo<br \/>\n    bem podes crer. <\/p>\n<p><strong> Lira III <\/strong><\/p>\n<p>Tu n&atilde;o ver&aacute;s, Mar&iacute;lia, cem cativos<br \/>\n    Tirarem o cascalho, e a rica, terra,<br \/>\n    Ou dos cercos dos rios caudalosos,<br \/>\n    Ou da minada serra. <\/p>\n<p>N&atilde;o ver&aacute;s separar ao h&aacute;bil negro<br \/>\n    Do pesado esmeril a grossa areia,<br \/>\n    E j&aacute; brilharem os granetes de ouro<br \/>\n    No fundo da bateia. <\/p>\n<p>N&atilde;o ver&aacute;s derrubar os virgens matos;<br \/>\n    Queimar as capoeiras ainda novas;<br \/>\n    Servir de adubo &agrave; terra a f&eacute;rtil cinza;<br \/>\n    Lan&ccedil;ar os gr&atilde;os nas covas. <\/p>\n<p>N&atilde;o ver&aacute;s enrolar negros pacotes<br \/>\n    Das secas folhas do cheiroso fumo;<br \/>\n    Nem espremer entre as dentadas rodas<br \/>\n    Da doce cana o sumo. <\/p>\n<p>Ver&aacute;s em cima da espa&ccedil;osa mesa<br \/>\n    Altos volumes de enredados feitos;<br \/>\n    Ver-me-&aacute;s folhear os grande livros,<br \/>\n    E decidir os pleitos. <\/p>\n<p>Enquanto revolver os meus consultos.<br \/>\n    Tu me far&aacute;s gostosa companhia,<br \/>\n    Lendo os fatos da s&aacute;bia mestra hist&oacute;ria,<br \/>\n    E os cantos da poesia. <\/p>\n<p>Ler&aacute;s em alta voz a imagem bela,<br \/>\n    Eu vendo que lhe d&aacute;s o justo apre&ccedil;o,<br \/>\n    Gostoso tornarei a ler de novo<br \/>\n    O cansado processo. <\/p>\n<p>Se encontrares louvada uma beleza,<br \/>\n    Mar&iacute;lia, n&atilde;o lhe invejes a ventura,<br \/>\n    Que tens quem leve &agrave; mais remota idade<br \/>\n    A tua formosura. <\/p>\n<p><strong> Lira IV <\/strong><\/p>\n<p>Amor por acaso<br \/>\n    a um pouso chegava,<br \/>\n    aonde acolhida<br \/>\n    a Morte se achava. <\/p>\n<p>Risonhos e alegres,<br \/>\n    os bra&ccedil;os se deram,<br \/>\n    e as armas unidas<br \/>\n    num s&iacute;tio puseram. <\/p>\n<p>De empresas tamanhas<br \/>\n    cansados j&aacute; vinham,<br \/>\n    e em larga conversa<br \/>\n    a noite entretinham. <\/p>\n<p>Um conta que h&aacute; pouco<br \/>\n    a seta agu&ccedil;ada<br \/>\n    em uma beleza<br \/>\n    deixara empregada. <\/p>\n<p>Diz outro que as flechas<br \/>\n    cravara no peito<br \/>\n    de um grande, que teve<br \/>\n    o mundo sujeito. <\/p>\n<p>Enquanto das for&ccedil;as<br \/>\n    cada um presumia,<br \/>\n    seus membros j&aacute; lassos<br \/>\n    o sono rendia. <\/p>\n<p>Dormindo tranq&uuml;ilos,<br \/>\n    a noite passaram,<br \/>\n    e inda antes da aurora<br \/>\n    com &acirc;nsia acordaram. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; tempo que o leito<br \/>\n    deixemos, &oacute; Morte &#8211; <br \/>\n    Amor, j&aacute; erguido,<br \/>\n    falou desta sorte. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; tempo, &#8211; em reposta<br \/>\n    a Morte repete &#8211; <br \/>\n    que &agrave; nossa fadiga<br \/>\n    dormir n&atilde;o compete. <\/p>\n<p>As armas colhamos,<br \/>\n    voltemos ao giro:<br \/>\n    cada um a seu gosto<br \/>\n    empregue o seu tiro. <\/p>\n<p>V&atilde;o, inda cos olhos<br \/>\n    em sono turbados,<br \/>\n    ao s&iacute;tio em que os ferros<br \/>\n    est&atilde;o pendurados. <\/p>\n<p>Amor para as setas<br \/>\n    da Morte se enclina;<br \/>\n    de Amor logo a Morte<br \/>\n    co&#8217;as flechas atina. <\/p>\n<p>Oh! golpes tiramos!<br \/>\n    oh! m&atilde;os homicidas!<br \/>\n    s&atilde;o tiros da Morte<br \/>\n    de Amor as feridas. <\/p>\n<p>De um sonho, que pinto,<br \/>\n    Mar&iacute;lia, conhece<br \/>\n    se amor, ou se morte<br \/>\n    esta alma padece. <\/p>\n<p><strong> Lira V <\/strong><\/p>\n<p>Eu n&atilde;o sou, minha Nise, pegureiro,<br \/>\n    que viva de guardar alheio gado;<br \/>\n    nem sou pastor grosseiro,<br \/>\n    dos frios gelos e do sol queimado,<br \/>\n    que veste as pardas l&atilde;s do seu cordeiro.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, &oacute; Nise bela,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; minha estrela! <\/p>\n<p>A Cresso n&atilde;o igualo no tesouro;<br \/>\n    mas deu-me a sorte com que honrado viva.<br \/>\n    N&atilde;o cinjo coroa d&#8217;ouro;<br \/>\n    mas povos mando, e na testa altiva<br \/>\n    verdeja a coroa do sagrado louro.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, &oacute; Nise bela,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; minha estrela! <\/p>\n<p>Maldito seja aquele, que s&oacute; trata<br \/>\n    de contar, escondido, a vil riqueza,<br \/>\n    que, cego, se arrebata<br \/>\n    em buscar nos av&oacute;s a v&atilde; nobreza,<br \/>\n    com que aos mais homens, seus iguais, abata.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, &oacute; Nise bela,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; minha estrela! <\/p>\n<p>As fortunas, que em torno de mim vejo,<br \/>\n    por falsos bens, que enganam, n&atilde;o reputo;<br \/>\n    mas antes mais desejo:<br \/>\n    n&atilde;o para me voltar soberbo em bruto,<br \/>\n    por ver-me grande, quando a m&atilde;o te beijo.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, &oacute; Nise bela,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; minha estrela! <\/p>\n<p>Pela ninfa, que jaz vertida em louro,<br \/>\n    o grande deus Apolo n&atilde;o delira?<br \/>\n    Jove, mudado em touro<br \/>\n    e j&aacute; mudado em velha n&atilde;o suspira?<br \/>\n    seguir aos deuses nunca foi desdouro.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, &oacute; Nise bela,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; minha estrela! <\/p>\n<p>Pertendam Anibais honrar a Hist&oacute;ria,<br \/>\n    e cinjam com a m&atilde;o, de sangue cheia,<br \/>\n    os louros da vit&oacute;ria;<br \/>\n    eu revolvo os teus dons na minha id&eacute;ia:<br \/>\n    s&oacute; dons que v&ecirc;m do c&eacute;u s&atilde;o minha gl&oacute;ria.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, &oacute; Nise bela,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; minha estrela! <\/p>\n<p><strong> Lira VI<br \/>\n    (Tradu&ccedil;&atilde;o) <\/strong><\/p>\n<p>Amor, que seus passos<br \/>\n    ligeiro movia<br \/>\n    por mil embara&ccedil;os,<br \/>\n    que um bosque tecia, <\/p>\n<p>Nos ombros me acena<br \/>\n    com brando raminho;<br \/>\n    e logo me ordena<br \/>\n    que siga o caminho. <\/p>\n<p>Por entre a espessura<br \/>\n    do bosque me avan&ccedil;o;<br \/>\n    e atr&aacute;s da ventura,<br \/>\n    incauto, me lan&ccedil;o. <\/p>\n<p>J&aacute; tinha calcado<br \/>\n    os montes mais duros,<br \/>\n    co peito rasgado<br \/>\n    os rios escuros: <\/p>\n<p>Eis que uma serpente,<br \/>\n    a l&iacute;ngua vibrando,<br \/>\n    me crava o seu dente,<br \/>\n    me deixa expirando. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o, surpreendida<br \/>\n    da dor que a traspassa,<br \/>\n    minha alma ferida<br \/>\n    aos bei&ccedil;os se passa. <\/p>\n<p>As iras detesta<br \/>\n    Amor. Isto vendo,<br \/>\n    e as asas na testa<br \/>\n    me bate, dizendo: <\/p>\n<p>&#8211; Tu choras, tu gemes,<br \/>\n    da serpe tocado,<br \/>\n    e o bra&ccedil;o n&atilde;o temes<br \/>\n    de um n&uacute;mem irado? <\/p>\n<p><strong>Lira VII <\/strong><\/p>\n<p>Tu, formosa Mar&iacute;lia, j&aacute; fizeste<br \/>\n    Com teus olhos ditosas as campinas<br \/>\n    Do turvo ribeir&atilde;o em que nascestes;<br \/>\n    Deixa, Mar&iacute;lia, agora<br \/>\n    As j&aacute; lavradas setas: <\/p>\n<p>Anda afoita a romper os grossos mares,<br \/>\n    Anda encher de alegria estranhas terras;<br \/>\n    Ah! por ti suspiram<br \/>\n    Os meus saudosos lares. <\/p>\n<p>N&atilde;o corres como Safo sem ventura,<br \/>\n    Em seguimento de um cruel ingrato,<br \/>\n    Que n&atilde;o cede aos encantos da ternura;<br \/>\n    Segues um fino amante,<br \/>\n    Que a perder-te morria.<br \/>\n    Quebra os grilh&otilde;es do sangue, e vem, &oacute; Bela;<br \/>\n    Tu j&aacute; foste no Sul a minha guia,<br \/>\n    Ah! deves ser no Norte<br \/>\n    Tamb&eacute;m a minha estrela. <\/p>\n<p>Ver&aacute;s ao Deus Netuno sossegado,<br \/>\n    Aplainar c&#8217;o tridente as crespas ondas;<br \/>\n    Ficar como dormindo o mar salgado;<br \/>\n    Ver&aacute;s, ver&aacute;s, d&#8217;alheta<br \/>\n    Soprar o brando vento; <\/p>\n<p>Mover-se o leme, desrinzar-se o linho:<br \/>\n    Seguirem os delfins o movimento,<br \/>\n    Que leva na carreira<br \/>\n    O empavesado pinho. <\/p>\n<p>Ver&aacute;s como o Le&atilde;o na proa arfando<br \/>\n    Converte em branca espuma as negras ondas,<br \/>\n    Que atalha, e corta com murm&uacute;rio brando;<br \/>\n    Ver&aacute;s, ver&aacute;s, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    Da janela dourada, <\/p>\n<p>Que uma comprida estrada representa<br \/>\n    A linfa cristalina, que pisada<br \/>\n    Pela popa que foge,<br \/>\n    Em borbot&otilde;es rebenta. <\/p>\n<p>Bruto peixe ver&aacute;s de corpo imenso<br \/>\n    Tornar ao torto anzol, depois de o terem<br \/>\n    Pela rasgada boca ao ar suspenso;<br \/>\n    Os pequenos peixinhos<br \/>\n    Quais p&aacute;ssaros voarem; <\/p>\n<p>De toninhas ver&aacute;s o mar coalhado,<br \/>\n    Ora surgirem, ora mergulharem,<br \/>\n    Fingindo ao longe as ondas,<br \/>\n    Que forma o vento irado. <\/p>\n<p>Ver&aacute;s que o grande monstro se apresenta,<br \/>\n    Um repuxo formando com as &aacute;guas,<br \/>\n    Que ao mar espalha da robusta venta;<br \/>\n    Ver&aacute;s, enfim, Mar&iacute;lia,<br \/>\n    As nuvens levantadas, <\/p>\n<p>Umas de cor azul, ou mais escuras,<br \/>\n    Outras de cor-de-rosa, ou prateadas,<br \/>\n    Fazerem no horizonte<br \/>\n    Mil diversas figuras. <\/p>\n<p>Mal chegares &agrave; foz do claro Tejo,<br \/>\n    Apenas ele vir o teu semblante,<br \/>\n    Dar&aacute; no leme do baixel um beijo.<br \/>\n    Eu lhe direi vaidoso:<br \/>\n    &quot;N&atilde;o trago, n&atilde;o, comigo, <\/p>\n<p>&quot;Nem pedras de valor, nem montes d&#8217;ouro;<br \/>\n    &quot;Roubei as &aacute;ureas minas, e consigo<br \/>\n    &quot;Trazer para os teus cofres<br \/>\n    &#8221;Este maior Tesouro.&quot; <\/p>\n<p><strong> Lira VIII <\/strong><\/p>\n<p>Em cima dos viventes fatigados<br \/>\n    Morfeu as dormideiras espremia:<br \/>\n    Os mentirosos sonhos me cercavam;<br \/>\n    Na vaga fantasia<br \/>\n    Ao vivo me pintavam<br \/>\n    As gl&oacute;rias, que desperto,<br \/>\n    Meu cora&ccedil;&atilde;o pedia. <\/p>\n<p>Eu vou, eu vou subindo a nau possante,<br \/>\n    Nos bra&ccedil;os conduzindo a minha bela;<br \/>\n    Volteia a grande roda, e a grossa amarra<br \/>\n    Se enleia em torno dela;<br \/>\n    J&aacute; ponho a proa &agrave; barra,<br \/>\n    J&aacute; cai ao som do apito<br \/>\n    Ora uma, ora outra vela. <\/p>\n<p>Os arvoredos j&aacute; se n&atilde;o distinguem:<br \/>\n    A longa praia ao longe n&atilde;o branqueja;<br \/>\n    E j&aacute; se v&atilde;o sumindo os altos montes,<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o h&aacute; que se veja<br \/>\n    Nos claros horizontes,<br \/>\n    Que n&atilde;o sejam vapores,<br \/>\n    Que C&eacute;u, e mar n&atilde;o seja. <\/p>\n<p>Parece v&atilde;o correndo as negras &aacute;guas,<br \/>\n    E o pinho qual rochedo estar parado;<br \/>\n    Ergue-se a onda, vem &agrave; nau direita,<br \/>\n    E quebra no costado;<br \/>\n    O navio se deita,<br \/>\n    E ela finge a ladeira<br \/>\n    Saindo do outro lado. <\/p>\n<p>Vejo nadarem os brilhantes peixes,<br \/>\n    Cair do lais a linha que os engana;<br \/>\n    Um dourado no anzol est&aacute; pendente,<br \/>\n    Sofre morte tirana,<br \/>\n    Entretanto que a sente,<br \/>\n    Ao tombadilho a&ccedil;oita<br \/>\n    A cauda, e a barbatana. <\/p>\n<p>Sobre as ondas descubro uma carro&ccedil;a<br \/>\n    De formosas conchinhas enfeitada;<br \/>\n    Delfins a movem, e vem T&eacute;tis nela;<br \/>\n    Na popa est&aacute; parada;<br \/>\n    Nem pode a Deusa bela<br \/>\n    Tirar os brandos olhos<br \/>\n    Na minha doce amada. <\/p>\n<p>Nas costas dos golfinhos v&ecirc;m montados<br \/>\n    Os nus Trit&otilde;es, deixando a esfera cheia<br \/>\n    Com o rouco som dos b&uacute;zios retorcidos.<br \/>\n    Recreia, sim, recreia<br \/>\n    Meus atentos ouvidos<br \/>\n    O canto sonoroso<br \/>\n    Da m&uacute;sica sereia. <\/p>\n<p>J&aacute; sobe ao grande mastro o bom gajeiro;<br \/>\n    Descobre arruma&ccedil;&atilde;o, e grita &#8211; terra!<br \/>\n    &Agrave; murada caminha alegre a gente;<br \/>\n    Alguns entendem que erra;<br \/>\n    Pelo im&oacute;vel somente<br \/>\n    Conhe&ccedil;o n&atilde;o ser nuvem,<br \/>\n    Sim o cume d&#8217;alta serra. <\/p>\n<p>De Mafra j&aacute; descubro as grandes torres;<br \/>\n    (E que nova alegria me arrebata!)<br \/>\n    De Cascais a muleta j&aacute; vem perto,<br \/>\n    J&aacute; de abordar-nos trata;<br \/>\n    J&aacute; o piloto esperto,<br \/>\n    Inda debaixo manda<br \/>\n    Soltar mezena, e gata. <\/p>\n<p>Eu vou entrando na espa&ccedil;osa barra,<br \/>\n    A grossa artilharia j&aacute; me atroa;<br \/>\n    L&aacute; ficam Pa&ccedil;o d&#8217;Arcos, e a Junqueira;<br \/>\n    J&aacute; corre pela proa<br \/>\n    Uma amarra ligeira;<br \/>\n    E a nau j&aacute; fica surta<br \/>\n    Diante da gr&atilde; Lisboa. <\/p>\n<p>Agora, agora sim, agora espero<br \/>\n    Renovar da amizade antigos la&ccedil;os;<br \/>\n    Eu vejo ao velho pai, que lentamente<br \/>\n    Arrasta a mim os passos;<br \/>\n    Ah! com vem contente!<br \/>\n    De longe mal me avista,<br \/>\n    J&aacute; vem abrindo os bra&ccedil;os. <\/p>\n<p>Dobro os joelhos, pelos p&eacute;s o aperto;<br \/>\n    E manda que dos p&eacute;s ao peito passe;<br \/>\n    Mar&iacute;lia, quanto eu fiz, fazer intenta;<br \/>\n    Antes que os p&eacute;s lhe abrace<br \/>\n    Nos bra&ccedil;os a sustenta;<br \/>\n    D&aacute;-lhe de filha o nome,<br \/>\n    Beija-lhe a branca face. <\/p>\n<p>Vou descer a escada, oh C&eacute;us, acordo!<br \/>\n    Conhe&ccedil;o n&atilde;o estar no claro Tejo;<br \/>\n    Abro os olhos, procuro a minha amada,<br \/>\n    E nem sequer a vejo.<br \/>\n    Venha a hora afortunada,<br \/>\n    Em que n&atilde;o fique em sonho<br \/>\n    T&atilde;o ardente desejo! <\/p>\n<p><strong>Lira IX <\/strong><\/p>\n<p>Chegou-se o dia mais triste<br \/>\n    que o dia da morte feia;<br \/>\n    ca&iacute; do trono, Dirc&eacute;ia,<br \/>\n    do trono dos bra&ccedil;os teus,<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>&Iacute;mpio Fado, que n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    os doces la&ccedil;os quebrar-me,<br \/>\n    por vingan&ccedil;a quer levar-me<br \/>\n    distante dos olhos teus.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>Parto, enfim, e vou sem ver-te,<br \/>\n    que neste fatal instante<br \/>\n    h&aacute; de ser o teu semblante<br \/>\n    mui funesto aos olhos meus.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>E cr&ecirc;s, Dirc&eacute;ia, que devem <br \/>\n    ver meus olhos penduradas<br \/>\n    tristes l&aacute;grimas salgadas<br \/>\n    correrem dos olhos teus?<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>De teus olhos engra&ccedil;ados,<br \/>\n    que puderam, piedosos,<br \/>\n    de tristes em venturosos<br \/>\n    converter os dias meus?<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>Desses teus olhos divinos,<br \/>\n    que, terno e sossegados,<br \/>\n    enchem de flores os prados<br \/>\n    enchem de luzes os c&eacute;us?<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>Destes teus olhos, enfim,<br \/>\n    que domam tigres valentes,<br \/>\n    que nem r&iacute;gidas serpentes<br \/>\n    resistem aos tiros seus?<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>Da maneira que seriam<br \/>\n    em n&atilde;o ver-te criminosos,<br \/>\n    enquanto foram ditosos,<br \/>\n    agora seriam r&eacute;us.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>Parto, enfim, Dirc&eacute;ia bela,<br \/>\n    rasgando os ares cinzentos;<br \/>\n    vir&atilde;o nas asas dos ventos<br \/>\n    buscar-te os suspiros meus.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>Talvez, Dirc&eacute;ia adorada,<br \/>\n    que os duros fados me neguem<br \/>\n    a gl&oacute;ria de que eles cheguem<br \/>\n    aos ternos ouvidos teus.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>Mas se ditosos chegarem,<br \/>\n    pois os solto a teu respeito,<br \/>\n    d&aacute;-lhes abrigo no peito,<br \/>\n    junta-os cos suspiros teus.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p>E quando tornar a ver-te,<br \/>\n    ajuntando rosto a rosto,<br \/>\n    entre os que dermos de gosto,<br \/>\n    restitui-me ent&atilde;o os meus.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o posso, n&atilde;o, n&atilde;o posso<br \/>\n    dizer-te, meu bem, adeus! <\/p>\n<p><strong> SONETOS <\/strong><\/p>\n<p><strong>1 <\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; gentil, &eacute; prendada a minha Alt&eacute;ia;<br \/>\n    As gra&ccedil;as, a mod&eacute;stia de seu rosto<br \/>\n    Inspiram no meu peito maior gosto<br \/>\n    Que ver o pr&oacute;prio trigo quando ondeia. <\/p>\n<p>Mas, vendo o lindo gesto de Dirc&eacute;ia<br \/>\n    A nova sujei&ccedil;&atilde;o me vejo exposto;<br \/>\n    Ah! que &eacute; mais engra&ccedil;ado, mais composto<br \/>\n    Que a pura esfera, de mil astros cheia! <\/p>\n<p>Prender as duas com grilh&otilde;es estritos<br \/>\n    &Eacute; uma a&ccedil;&atilde;o, &oacute; deuses, inconstante,<br \/>\n    Indigna de sinceros, nobres peitos. <\/p>\n<p>Cupido, se tens d&oacute; de um triste amante,<br \/>\n    Ou forma de Lorino dois sujeitos,<br \/>\n    Ou forma desses dois um s&oacute; semblante. <\/p>\n<p><strong>2 <\/strong><\/p>\n<p>Num f&eacute;rtil campo de soberbo Douro,<br \/>\n    Dormindo sobre a relva, descansava,<br \/>\n    Quando vi que a Fortuna me mostrava<br \/>\n    Com alegre semblante o seu tesouro. <\/p>\n<p>De uma parte, um mont&atilde;o de prata e ouro<br \/>\n    Com pedras de valor o ch&atilde;o curvava;<br \/>\n    Aqui um cetro, ali um trono estava,<br \/>\n    Pendiam coroas mil de grama e louro. <\/p>\n<p>&#8211; Acabou &#8211; diz-me ent&atilde;o &#8211; a desventura:<br \/>\n    De quantos bens te exponho qual te agrada,<br \/>\n    Pois benigna os concedo, vai, procura. <\/p>\n<p>Escolhi, acordei, e n&atilde;o vi nada:<br \/>\n    Comigo assentei logo que a ventura<br \/>\n    Nunca chega a passar de ser sonhada. <\/p>\n<p><strong>3 <\/strong><\/p>\n<p>Enganei-me, enganei-me &#8211; paci&ecirc;ncia!<br \/>\n    Acreditei &agrave;s vezes, cri, Ormia,<br \/>\n    Que a tua singeleza igualaria<br \/>\n    A tua mais que ang&eacute;lica apar&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Enganei-me, enganei-me &#8211; paci&ecirc;ncia!<br \/>\n    Ao menos conheci que n&atilde;o devia<br \/>\n    P&ocirc;r nas m&atilde;os de uma externa galhardia<br \/>\n    O prazer, o sossego e a inoc&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Enganei-me, cruel, com teu semblante,<br \/>\n    E nada me admiro de faltares,<br \/>\n    Que esse teu sexo nunca foi constante. <\/p>\n<p>Mas tu perdeste mais em me enganares:<br \/>\n    Que tu n&atilde;o achar&aacute;s um firme amante,<br \/>\n    E eu posso de traidoras ter milhares. <\/p>\n<p><strong>4 <\/strong><\/p>\n<p>Ainda que de Laura esteja ausente,<br \/>\n    H&aacute; de a chama durar no peito amante;<br \/>\n    Que existe retratado o seu semblante,<br \/>\n    Se n&atilde;o nos olhos meus, na minha mente. <\/p>\n<p>Mil vezes finjo v&ecirc;-la, e eternamente<br \/>\n    Abra&ccedil;o a sombra v&atilde;; s&oacute; neste instante<br \/>\n    Conhe&ccedil;o que ela est&aacute; de mim distante,<br \/>\n    Que tudo &eacute; ilus&atilde;o que esta alma sente. <\/p>\n<p>Talvez que ao bem de a ver amor resista;<br \/>\n    Porque minha paix&atilde;o, que aos c&eacute;us &eacute; grata<br \/>\n    Por inocente assim melhor persista; <\/p>\n<p>Pois quando s&oacute; na id&eacute;ia ma retrata,<br \/>\n    Debuxa os dotes com que prende a vista,<br \/>\n    Esconde as obras com que ofende, ingrata. <\/p>\n<p><strong>5 <\/strong><\/p>\n<p>Ao templo do Destino fui levado:<br \/>\n    Sobre o altar num cofre se firmava,<br \/>\n    Em cujo seio cada qual buscava,<br \/>\n    Tremendo, an&uacute;ncio do futuro estado. <\/p>\n<p>Tiro um papel e lio &#8211; c&eacute;u sagrado,<br \/>\n    Com quanta causa o cora&ccedil;&atilde;o pulsava!<br \/>\n    Este duro decreto escrito estava<br \/>\n    Com negra tinta pela m&atilde;o do fado: <\/p>\n<p>&quot;Adore Polidoro a bela Ormia,<br \/>\n    sem dela conseguir a recompensa,<br \/>\n    nem quebrar-lhe os grilh&otilde;es a tirania.&quot; <\/p>\n<p>Dar m&atilde;os Amor mo arranca, e sem deten&ccedil;a,<br \/>\n    Tr&ecirc;s vezes o levando &agrave; boca impia,<br \/>\n    Jurou cumprir &agrave; risca a tal senten&ccedil;a. <\/p>\n<p><strong>6 <\/strong><\/p>\n<p>Quantas vezes Lidora me dizia,<br \/>\n    Ao terno peito minha m&atilde;o levando:<br \/>\n    &#8211; Conjurem-se em meu mal os astros, quando<br \/>\n    Achares no meu peito aleivosia! <\/p>\n<p>Ent&atilde;o que n&atilde;o chorasse lhe pedia,<br \/>\n    Por firme seu amor acreditando.<br \/>\n    Ah! que em movendo os olhos, suspirando,<br \/>\n    Ao mais acautelado enganaria! <\/p>\n<p>Um ano assim viveu. Oh! c&eacute;us, agora<br \/>\n    Mostrou que era mulher: a natureza,<br \/>\n    S&oacute; por n&atilde;o se mudar, a fez traidora. <\/p>\n<p>N&atilde;o, n&atilde;o darei mais cultos &agrave; beleza,<br \/>\n    Que depois de faltar &agrave; f&eacute; Lidora,<br \/>\n    Nem creio que nas deusas h&aacute; firmeza. <\/p>\n<p><strong>7 <\/strong><\/p>\n<p>O nume tutelar da Monarquia,<br \/>\n    Que fez do grande Henrique a invicta espada,<br \/>\n    Procurou dos Destinos a morada,<br \/>\n    Por consultar a idade que viria. <\/p>\n<p>A mil e mil her&oacute;is descrito via,<br \/>\n    Que exaltam de furtado a estirpe honrada,<br \/>\n    E na s&eacute;rie, que adora, dilatada,<br \/>\n    O nome de Francisco descobria. <\/p>\n<p>Contempla uma por uma as letras d&#8217;ouro;<br \/>\n    Este penhor, que o tempo n&atilde;o consome,<br \/>\n    Promete ao reino seu maior tesouro. <\/p>\n<p>Prostra-se o g&ecirc;nio; e sem que a empresa tome<br \/>\n    De lhe buscar sequer mais outro agouro,<br \/>\n    O s&iacute;tio beija, e lhe mostra o nome. <\/p>\n<p><strong>8 <\/strong><\/p>\n<p>Nascer no ber&ccedil;o da maior grandeza,<br \/>\n    De palmas e de louros rodeado,<br \/>\n    Deve-se aos grandes pais, ao tronco honrado,<br \/>\n    Que ilustra deste longe a natureza. <\/p>\n<p>Se por&eacute;m muito mais se adora e preza<br \/>\n    O Dom que o nobre sangue traz herdado,<br \/>\n    Pela pr&oacute;pria virtude sustentado,<br \/>\n    Feliz o objeto da presente empresa. <\/p>\n<p>De mil her&oacute;is, no Tejo vencedores,<br \/>\n    Um ramo nasce, um ramo que a mem&oacute;ria<br \/>\n    Faz imortal de seus progenitores. <\/p>\n<p>Eu leio em vatic&iacute;nio a sua hist&oacute;ria:<br \/>\n    Une Francisco, a par de seus maiores<br \/>\n    Ao herdado esplendor a pr&oacute;pria gl&oacute;ria. <\/p>\n<p><strong>9 <\/strong><\/p>\n<p>Mudou-se enfim Lidora, essa Lidora<br \/>\n    Por quem mil vezes f&eacute; me foi jurada.<br \/>\n    Que vos det&eacute;m, &oacute; c&eacute;us, que castigada<br \/>\n    Ainda n&atilde;o deixais t&atilde;o vil traidora? <\/p>\n<p>N&atilde;o haja piedade; sinta agora<br \/>\n    A dita sem rem&eacute;dio em mal trocada:<br \/>\n    Pois, se assim n&atilde;o sucede, fica ousada<br \/>\n    Para ser outra vez enganadora. <\/p>\n<p>Vingai, &oacute; justos c&eacute;us&#8230;, mas ah! que digo?<br \/>\n    Que maltrateis Lidora? &#8211; O sentimento<br \/>\n    Privou-me do discurso; eu me desdigo. <\/p>\n<p>N&atilde;o, n&atilde;o vibreis o raio violento;<br \/>\n    Pois se que a compaix&atilde;o do seu castigo<br \/>\n    H&aacute; de aumentar depois o meu tormento. <\/p>\n<p><strong>10 <\/strong><\/p>\n<p>Adeus, cabana, adeus; adeus, &oacute; gado;<br \/>\n    Albina ingrata, adeus, em paz te deixo;<br \/>\n    Adeus, doce rabil; neste alto freixo<br \/>\n    Te fica, ao meu destino consagrado. <\/p>\n<p>Se te for meu sucesso perguntado,<br \/>\n    n&atilde;o declares, rabil, de quem me queixo;<br \/>\n    n&atilde;o quero que se saiba vive Aleixo<br \/>\n    por causa de uma infame desterrado. <\/p>\n<p>Se vires a pastor desconhecido,<br \/>\n    lhe dize ent&atilde;o piedoso: &#8211; Ah! vai-te embora,<br \/>\n    atalha os danos, que outros t&ecirc;m sentido. <\/p>\n<p>Habita nesta aldeia uma pastora,<br \/>\n    de rosto belo, cora&ccedil;&atilde;o fingido,<br \/>\n    umas vezes cruel, e as mais traidora. <\/p>\n<p><strong>11 <\/strong><\/p>\n<p>Com pesadas cadeias manietado,<br \/>\n    &Agrave;s vozes da raz&atilde;o ensurdecido,<br \/>\n    Dos c&eacute;us, de mim, dos homens esquecido,<br \/>\n    Me vi de amor nas trevas sepultado. <\/p>\n<p>Ali aliviava o meu cuidado<br \/>\n    C&#8217;o dar de quando em quando algum gemido.<br \/>\n    Ah! tempo! Que, somente refletido,<br \/>\n    Me fazes entre as ditas desgra&ccedil;ado. <\/p>\n<p>Assim vivia, quando a falsidade<br \/>\n    De Laura me tornou num breve dia <br \/>\n    Quanto a raz&atilde;o n&atilde;o p&ocirc;de em longa idade: <\/p>\n<p>Quebrei o vil grilh&atilde;o que me oprimia!<br \/>\n    Oh! feliz de quem goza a liberdade,<br \/>\n    Bem que venha por m&atilde;os da aleivosia! <\/p>\n<p><strong>12 <\/strong><\/p>\n<p>Obrei quando o discurso me guiava,<br \/>\n    Ouvi aos s&aacute;bios quando errar temia;<br \/>\n    Aos Bons no gabinete o peito abria,<br \/>\n    Na rua a todos como iguais tratava. <\/p>\n<p>Julgando os crimes nunca os votos dava<br \/>\n    Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;<br \/>\n    Mas devendo salvar ao justo, ria,<br \/>\n    E devendo punir ao r&eacute;u, chorava. <\/p>\n<p>N&atilde;o foram, Vila Rica, os meus projetos<br \/>\n    Meter em f&eacute;rreo cofre c&oacute;pia d&#8217;ouro<br \/>\n    Que farte aos filhos, e que chegue aos netos: <\/p>\n<p>Outras s&atilde;o as fortunas, que me agouro,<br \/>\n    Ganhei saudades, adquiri afetos,<br \/>\n    Vou fazer destes bens melhor tesouro. <\/p>\n<p><strong>13 <\/strong><\/p>\n<p>Quando o torcido bu&ccedil;o derramava<br \/>\n    Terror no aspecto ao portugu&ecirc;s sisudo,<br \/>\n    Quando, sem p&oacute; nem &oacute;leo, o pente agudo,<br \/>\n    Duro, intonso, o cabelo em la&ccedil;o atava. <\/p>\n<p>Quando contra os irm&atilde;os o bra&ccedil;o armava<br \/>\n    O forte Nuno, apondo escudo a escudo:<br \/>\n    Quando a palavra, que prefere a tudo,<br \/>\n    Com a barba arrancada Jo&atilde;o firmava. <\/p>\n<p>Quando a mulher &agrave; sombra do marido<br \/>\n    Tremer se via; quando a lei prudente<br \/>\n    Zela o sexo do civil ru&iacute;do; <\/p>\n<p>Feliz ent&atilde;o, ent&atilde;o s&oacute; inocente<br \/>\n    Era de Luso o reino. Oh! bem perdido!<br \/>\n    Ditosa condi&ccedil;&atilde;o, ditosa gente! <\/p>\n<p><strong> FIM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Parte I Parte II Parte III Tom\u00e1s Ant&ocirc;nio Gonzaga PARTE I LIRA I Eu, Mar&iacute;lia, n&atilde;o sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado; De tosco trato, d&#8217; express&otilde;es grosseiro, Dos frios gelos, e dos s&oacute;is queimado. 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