{"id":119512,"date":"2017-04-13T09:56:53","date_gmt":"2017-04-13T11:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=119512"},"modified":"2017-04-13T09:56:53","modified_gmt":"2017-04-13T11:56:53","slug":"cartas-chilenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas","title":{"rendered":"Cartas Chilenas"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"454\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Carta 1\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Carta 2\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Carta 3\u00aa<\/a><br \/>\n            <a href=\"#4\" class=\"links\">Carta 4\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Carta 5\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Carta 6\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Carta 7\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Carta 8\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Carta 9\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Carta 10\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Carta 11\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Carta 12\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Carta 13\u00aa<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Ep\u00edstola<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Tom\u00e1s Ant&ocirc;nio Gonzaga<\/h2>\n<h4><a name=\"1\">CARTA l&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se descreve a entrada que fez<\/p>\n<p>Fanfarr&atilde;o em Chile.<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, prezado amigo, <\/p>\n<p>Abre os olhos, boceja, estende os bra&ccedil;os <\/p>\n<p>E limpa, das pestanas carregadas, <\/p>\n<p>O pegajoso humor, que o sono ajunta.<\/p>\n<p>5 &#8212; Critilo, o teu Critilo &eacute; quem te chama;<\/p>\n<p>Ergue a cabe&ccedil;a da engomada fronha<\/p>\n<p>Acorda, se ouvir queres coisas raras.<\/p>\n<p>&quot;Que coisas, ( tu dir&aacute;s ), que coisas podes<\/p>\n<p>Contar que valham tanto, quanto vale<\/p>\n<p>10 &#8212; Dormir a noite fria em mole cama, <\/p>\n<p>Quando salta a saraiva nos telhados<\/p>\n<p>E quando o sudoeste e outros ventos<\/p>\n<p>Movem dos troncos os frondosos ramos?&quot;<\/p>\n<p>&Eacute; doce esse descanso, n&atilde;o te nego.<\/p>\n<p>15 &#8212; Tamb&eacute;m, prezado amigo, tamb&eacute;m gosto <\/p>\n<p>De estar amadornado, mal ouvindo <\/p>\n<p>Das &aacute;guas despenhadas brando estrondo, <\/p>\n<p>E vendo, ao mesmo tempo, as v&atilde;s quimeras, <\/p>\n<p>Que ent&atilde;o me pintam os ligeiros sonhos.<\/p>\n<p>20 &#8212; Mas, Doroteu, n&atilde;o sintas que te acorde;<\/p>\n<p>N&atilde;o falta tempo em que do sono gozes:<\/p>\n<p>Ent&atilde;o ver&aacute;s le&otilde;es com p&eacute;s de pato,<\/p>\n<p>Ver&aacute;s voarem tigres e camelos,<\/p>\n<p>Ver&aacute;s parirem homens e nadarem<\/p>\n<p>25 &#8212; Os roli&ccedil;os penedos sobre as ondas. <\/p>\n<p>Por&eacute;m que t&ecirc;m que ver estes del&iacute;rios<\/p>\n<p>Co&#8217;os sucessos reais, que vou contar-te?<\/p>\n<p>Acorda, Doroteu, acorda, acorda;<\/p>\n<p>Critilo, o teu Critilo &eacute; quem te chama.<\/p>\n<p>30 &#8212; Levanta o corpo das macias penas;<\/p>\n<p>Ouvir&aacute;s, Doroteu, sucessos novos,<\/p>\n<p>Estranhos casos, que jamais pintaram<\/p>\n<p>Na id&eacute;ia do doente, ou de quem dorme<\/p>\n<p>Agudas febres, desvairados sonhos<\/p>\n<p>35 &#8212; N&atilde;o &eacute;s tu, Doroteu, aquele mesmo<\/p>\n<p>Que pedes que te diga se e verdade<\/p>\n<p>O que se conta dos barbados monos<\/p>\n<p>Que &agrave; mesa trazem os fumantes pratos?<\/p>\n<p>N&atilde;o desejas saber se h&aacute; grandes peixes,<\/p>\n<p>40 &#8212; Que abra&ccedil;ando os navios com as longas,<\/p>\n<p>Robustas barbatanas, os suspendem,<\/p>\n<p>Inda que o vento, que d&#8217;alheta sopra,<\/p>\n<p>Lhes inche os soltos, desrinzados panos ?<\/p>\n<p>N&atilde;o queres que te informe dos costumes.<\/p>\n<p>45 &#8212; Dos incultos gentios? N&atilde;o perguntas<\/p>\n<p>Se entre eles h&aacute; na&ccedil;&otilde;es, que os bei&ccedil;os furam?<\/p>\n<p>E outras que matam, com piedade falsa,<\/p>\n<p>Aos pais, que afrouxam ao poder dos anos?<\/p>\n<p>Pois se queres ouvir not&iacute;cias velhas<\/p>\n<p>50 &#8212; Dispersas por imensos alfarr&aacute;bios,<\/p>\n<p>Escuta a hist&oacute;ria de um moderno chefe.<\/p>\n<p>Que acaba de reger a nossa Chile,<\/p>\n<p>Ilustre imitador a Sancho Pan&ccedil;a.<\/p>\n<p>E quem dissera, amigo, que podia<\/p>\n<p>55 &#8212; Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!<\/p>\n<p>N&atilde;o penses, Doroteu, que vou contar-te<\/p>\n<p>Por verdadeira hist&oacute;ria uma novela<\/p>\n<p>Da classe das patranhas, que nos contam<\/p>\n<p>Verbosos navegantes, que j&aacute; deram<\/p>\n<p>60 &#8212; Ao globo deste mundo volta inteira.<\/p>\n<p>Uma velha madrasta me persiga,<\/p>\n<p>Uma mulher zelosa me atormente,<\/p>\n<p>E tenha um bando de gatunos filhos,<\/p>\n<p>Que um chavo n&atilde;o me deixem, se este chefe<\/p>\n<p>65 &#8212; N&atilde;o fez ainda mais do que eu refiro.<\/p>\n<p>Ora pois, doce amigo, vou pint&aacute;-lo<\/p>\n<p>Da sorte que o topei a vez primeira;<\/p>\n<p>Nem esta digress&atilde;o motiva t&eacute;dio<\/p>\n<p>Como aquelas que s&atilde;o dos fins alheias, <\/p>\n<p>70 &#8212; Que o gesto, mais o traje nas pessoas<\/p>\n<p>Faz o mesmo que fazem os letreiros<\/p>\n<p>Nas frentes enfeitadas dos livrinhos,<\/p>\n<p>Que d&atilde;o, do que eles tratam, boa id&eacute;ia.<\/p>\n<p>Tem pesado semblante, a cor &eacute; ba&ccedil;a.<\/p>\n<p>75 &#8212; O corpo de estatura um tanto esbelta<\/p>\n<p>Fei&ccedil;&otilde;es compridas e olhadura feia,<\/p>\n<p>Tem grossas sobrancelhas, testa curta,<\/p>\n<p>Nariz direito e grande, fala pouco<\/p>\n<p>Em rouco, baixo som de mau falsete<\/p>\n<p>80 &#8212; Sem ser velho, j&aacute; tem cabelo ru&ccedil;o<\/p>\n<p>E cobre este defeito e fria calva<\/p>\n<p>&Agrave; for&ccedil;a de polvilho, que lhe deita.<\/p>\n<p>Ainda me parece que o estou vendo<\/p>\n<p>No gordo rocinante escarranchado <\/p>\n<p>85 &#8212; As longas cal&ccedil;as pelo umbigo atadas,<\/p>\n<p>Amarelo colete e sobre tudo<\/p>\n<p>Vestida uma vermelha e justa farda<\/p>\n<p>De cada bolso da fardeta, pendem<\/p>\n<p>Listadas pontas de dois brancos len&ccedil;os;<\/p>\n<p>90 &#8212; Na cabe&ccedil;a vazia se atravessa<\/p>\n<p>Um chap&eacute;u desmarcado, nem sei como<\/p>\n<p>Sustenta o pobre s&oacute; do la&ccedil;o o peso.<\/p>\n<p>Ah ! tu, Cat&atilde;o severo, tu que estranhas<\/p>\n<p>O rir-se um c&ocirc;nsul mo&ccedil;o, que fizeras<\/p>\n<p>95 &#8212; Se em Chile agora entrasses e se visses<\/p>\n<p>Ser o rei dos peraltas quem governa ?<\/p>\n<p>J&aacute; l&aacute; vai, Doroteu, aquela idade<\/p>\n<p>Em que os pr&oacute;prios mancebos, que subiam<\/p>\n<p>&Agrave; honra do governo, aos outros davam<\/p>\n<p>100 &#8212; Exemplos de mod&eacute;stia, at&eacute; nos trajes.<\/p>\n<p>Deviam, Doroteu, morrer os povos<\/p>\n<p>Apenas os maiores imitaram<\/p>\n<p>Os rostos e os costumes das mulheres<\/p>\n<p>Seguindo as modas e raspando as barbas.<\/p>\n<p>105 &#8212; Os grandes do pa&iacute;s, com gesto humilde <\/p>\n<p>Lhe fazem, mal o encontram, seu cortejo;<\/p>\n<p>Ele austero os recebe, s&oacute; se digna <\/p>\n<p>Afrouxar do toiti&ccedil;o a mola um nada,<\/p>\n<p>Ou p&ocirc;r nas abas do chap&eacute;u os dedos.<\/p>\n<p>110 &#8212; Caminha atr&aacute;s do chefe um tal Rob&eacute;rio<\/p>\n<p>Que entre os criados tem respeito de aio;<\/p>\n<p>Estatura pequena, largo o rosto,<\/p>\n<p>Delgadas pernas e pan&ccedil;udo ventre,<\/p>\n<p>Sobejo de ombros, de pesco&ccedil;o falto;<\/p>\n<p>115 &#8212; Tem de pisorga cores e conserva<\/p>\n<p>As bufantes bochechas sempre inchadas.<\/p>\n<p>Bem que j&aacute; velho seja, inda presume<\/p>\n<p>De ser aos olhos das madamas grato<\/p>\n<p>E o demo lhe encaixou que tinha pernas<\/p>\n<p>120 &#8212; Capazes de montar no bom ginete<\/p>\n<p>Que rincha no Parnaso. Pobre tonto!<\/p>\n<p>Quem te mete em camisas de onze varas!<\/p>\n<p>Tu s&oacute; podes cantar, em coxos versos<\/p>\n<p>E ao som da m&aacute; rebeca, com que atroas<\/p>\n<p>125 &#8212; Os feitos do teu amo e os seus despachos.<\/p>\n<p>Ao lado de Rob&eacute;rio, vem Mat&uacute;sio, <\/p>\n<p>Que respira do chefe o modo e o gesto.<\/p>\n<p>&Eacute; peralta rapaz de tesas g&acirc;mbias, <\/p>\n<p>Tem cabelo castanho e brancas faces,<\/p>\n<p>130 &#8212; Tem um ar de mylord e a todos trata<\/p>\n<p>Como a in&uacute;teis bichinhos; s&oacute; conversa<\/p>\n<p>Com o rico rendeiro, ou quem lhe conta<\/p>\n<p>Das mo&ccedil;as do pa&iacute;s as frescas pra&ccedil;as.<\/p>\n<p>Dos bolsos da casaca dependura<\/p>\n<p>135 &#8212; As pontas perfumadas dos lencinhos,<\/p>\n<p>Que &eacute; sinal, ou car&aacute;ter, que distingue <\/p>\n<p>Aos serventes das casas dos mais homens,<\/p>\n<p>Assim como as fam&iacute;lias se conhecem <\/p>\n<p>Por herdados bras&otilde;es de antigas armas.<\/p>\n<p>140 &#8212; Montado em n&eacute;dia mula vem um padre<\/p>\n<p>Que tem de capel&atilde;o as justas honras.<\/p>\n<p>Formou-se em Salamanca, &eacute; homem s&aacute;bio. <\/p>\n<p>J&aacute; do mist&eacute;rio do Pilar um dia. <\/p>\n<p>Um serm&atilde;o recitou, que foi um pasmo.<\/p>\n<p>145 &#8212; Labreg&atilde;o no feitio e meio idoso. <\/p>\n<p>Tem olhos encovados, barba tesa, <\/p>\n<p>Fechadas sobrancelhas, rosto fusco, <\/p>\n<p>Cangalhas no nariz. Ah! quem dissera<\/p>\n<p>Que num corpo, que tem de nabo a forma,<\/p>\n<p>150 &#8212; Haviam p&ocirc;r os c&eacute;us t&atilde;o grande caco!<\/p>\n<p>O resto da fam&iacute;lia &eacute; todo o mesmo,<\/p>\n<p>Escuso de pint&aacute;-lo. Tu bem sabes<\/p>\n<p>Um rif&atilde;o que nos diz, que dos domingos<\/p>\n<p>Se tiram muito bem os dias santos.<\/p>\n<p>155 &#8212; Ah! pobre Chile, que desgra&ccedil;a esperas!<\/p>\n<p>Quanto melhor te fora se sentisses<\/p>\n<p>As pragas, que no Egito se choraram,<\/p>\n<p>Do que veres que sobe ao teu governo<\/p>\n<p>Carrancudo casquilho, a quem rodeiam<\/p>\n<p>160 &#8212; Os n&eacute;scios, os marotos e os peraltas!<\/p>\n<p>Seguido, pois, dos grandes entra o chefe<\/p>\n<p>No nosso Santiago junto &agrave; noite.<\/p>\n<p>A casa me recolho e cheio destas<\/p>\n<p>Trist&iacute;ssimas imagens, no discurso,<\/p>\n<p>165 &#8212; Mil coisas feias, sem querer, revolvo.<\/p>\n<p>Por ver se a dor divirto, vou sentar-me<\/p>\n<p>Na janela da sala e ao ar levanto<\/p>\n<p>Os olhos j&aacute; molhados. C&eacute;us, que vejo!<\/p>\n<p>N&atilde;o vejo estrelas que, serenas, brilhem,<\/p>\n<p>170 &#8212; Nem vejo a lua que prateia os mares:<\/p>\n<p>Vejo um grande cometa, a quem os doutos<\/p>\n<p>Caudato apelidaram. Este cobre<\/p>\n<p>A terra toda co&#8217; disforme rabo.<\/p>\n<p>Aflito o cora&ccedil;&atilde;o no peito bate,<\/p>\n<p>175 &#8212; Erri&ccedil;a-se o cabelo, as pernas tremem. <\/p>\n<p>O sangue se congela e todo o corpo <\/p>\n<p>Se cobre de suor. Tal foi o medo. <\/p>\n<p>Ainda bem o acordo n&atilde;o restauro <\/p>\n<p>Quando logo me lembra que este dia<\/p>\n<p>180 &#8212; &Eacute; o dia fatal, em que se entende<\/p>\n<p>Que andam, no mundo, soltos, os diabos.<\/p>\n<p>N&atilde;o rias, Doroteu, dos meus agouros;<\/p>\n<p>Os antigos romanos foram s&aacute;bios,<\/p>\n<p>Tiveram agoureiros: estes mesmos<\/p>\n<p>185 &#8212; Muitas vezes choraram, por tomarem<\/p>\n<p>Os avisos celestes como acasos.<\/p>\n<p>Ajuntavam-se os grandes desta terra.<\/p>\n<p>&Agrave; noite, em casa do benigno chefe<\/p>\n<p>Que o governo largou. Aqui, alegres,<\/p>\n<p>190 &#8212; Com ele se entretinham largas horas<\/p>\n<p>Depostos os melindres da grandeza,<\/p>\n<p>Fazia a humanidade os seus deveres <\/p>\n<p>No jogo e na conversa deleitosa.<\/p>\n<p>A estas horas entra o novo chefe<\/p>\n<p>195 &#8212; Na casa do recreio e, reparando<\/p>\n<p>Nos membros do congresso, a testa enruga, <\/p>\n<p>E vira a cara, como quem se enoja. <\/p>\n<p>Porque os mais, junto dele n&atilde;o se assentem <\/p>\n<p>Se deixa em p&eacute; ficar a noite inteira.<\/p>\n<p>200 &#8212; N&atilde;o se assenta, civil, da casa o dono<\/p>\n<p>N&atilde;o se assenta, que &eacute; mais, a ilustre esposa;<\/p>\n<p>N&atilde;o se assenta, tamb&eacute;m, um velho bispo<\/p>\n<p>E a exemplo destes, o congresso todo.<\/p>\n<p>Pensavas, Doroteu, que um peito nobre,<\/p>\n<p>205 &#8212; Que teve mestres, que habitou na corte <\/p>\n<p>Havia praticar a&ccedil;&atilde;o t&atilde;o feia <\/p>\n<p>Na casa respeit&aacute;vel de um fidalgo, <\/p>\n<p>Distinto pelo cargo que exercia <\/p>\n<p>E, mais ainda, pelo sangue herdado?<\/p>\n<p>210 &#8212; Pois inda, caro amigo, n&atilde;o sabias<\/p>\n<p>Quanto pode a tolice e v&atilde; soberba.<\/p>\n<p>Parece, Doroteu, que algumas vezes,<\/p>\n<p>A s&aacute;bia natureza se descuida.<\/p>\n<p>Devera, doce amigo, sim, devera<\/p>\n<p>215 &#8212; Regular os natais conforme os g&ecirc;nios.<\/p>\n<p>Quem tivesse as virtudes de fidalgo,<\/p>\n<p>Nascesse de fidalgo e quem tivesse<\/p>\n<p>Os v&iacute;cios de vil&atilde;o, nascesse embora,<\/p>\n<p>Se devesse nascer, de algum lacaio,<\/p>\n<p>220 &#8212; Como as pombas, que geram fracas pombas,<\/p>\n<p>Como os tigres, que geram tigres bravos.<\/p>\n<p>Ah ! se isto, Doroteu, assim sucede<\/p>\n<p>Estava o nosso chefe mesmo ao pr&oacute;prio<\/p>\n<p>Para nascer sult&atilde;o do Turco Imp&eacute;rio,<\/p>\n<p>225 &#8212; Metido entre vidra&ccedil;as, reclinado<\/p>\n<p>Em coxins de veludo e vendo as mo&ccedil;as,<\/p>\n<p>Que de todas as partes o cercavam,<\/p>\n<p>Co&ccedil;ando-lhe umas, levemente, as pernas<\/p>\n<p>E as outras abanando-o, com toalhas:<\/p>\n<p>230 &#8212; S&oacute; assim, Doroteu, o nosso chefe<\/p>\n<p>Ficaria de si um tanto pago.<\/p>\n<p>Chegou-se o dia da funesta posse:<\/p>\n<p>Mal os grandes se ajuntam, desce a escada<\/p>\n<p>E, sem mover cabe&ccedil;a, vai meter-se<\/p>\n<p>235 &#8212; Debaixo do lustroso e rico p&aacute;lio.<\/p>\n<p>Caminham todos juntos para o templo,<\/p>\n<p>Um salmo se repete, em doce coro,<\/p>\n<p>A que ele assiste, desta sorte inchado,<\/p>\n<p>Entesa mais que nunca o seu pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p>240 &#8212; Em ar de minuete o p&eacute; concerta<\/p>\n<p>E arqueia o braco esquerdo sobre a ilharga.<\/p>\n<p>Eis aqui, Doroteu, o como param<\/p>\n<p>Os maus comediantes, quando fingem <\/p>\n<p>As pessoas dos grandes, nos teatros.<\/p>\n<p>245 &#8212; Acabada a fun&ccedil;&atilde;o, &agrave; casa volta;<\/p>\n<p>(Os grandes o acompanham, descontentes),<\/p>\n<p>Co&#8217;a mesma pompa com que foi ao templo.<\/p>\n<p>Tu j&aacute; viste o ministro carrancudo<\/p>\n<p>A quem os tristes pretendentes cercam,<\/p>\n<p>250 &#8212; Quando no r&eacute;gio tribunal se apeia,<\/p>\n<p>Que, bem que humildes em tropel o sigam,<\/p>\n<p>N&atilde;o p&aacute;ra, n&atilde;o responde, n&atilde;o corteja ?<\/p>\n<p>Tu j&aacute; viste o casquilho, quando sobe<\/p>\n<p>A casa em que se canta e em que se joga,<\/p>\n<p>255 &#8212; Que deixa &agrave; porta as bestas e os lacaios,<\/p>\n<p>Sem sequer se lembrar que venta e chove?<\/p>\n<p>Pois assim nos tratou o nosso chefe:<\/p>\n<p>Mal &agrave; porta chegou, de chefe antigo,<\/p>\n<p>Com ele se recolhe e at&eacute; ao mesmo<\/p>\n<p>260 &#8212; Luzido, nobre corpo do senado <\/p>\n<p>N&atilde;o fala, n&atilde;o corteja, nem despede. <\/p>\n<p>Da sorte que o lacaio a sege arruma <\/p>\n<p>Por n&atilde;o tomar a rua &agrave;s outras seges, <\/p>\n<p>Assim os cidad&atilde;os o p&aacute;lio encostam<\/p>\n<p>265 &#8212; Ao batente da porta e, quais lacaios, <\/p>\n<p>Na rua, esperam que seu amo des&ccedil;a, <\/p>\n<p>Ou, a ele ficar, que os mande embora. <\/p>\n<p>&Agrave; vista desta a&ccedil;&atilde;o indigna e feia, <\/p>\n<p>Todo o congresso se confunde e pasma.<\/p>\n<p>270 &#8212; Sobe &agrave;s faces de alguns a cor rosada, <\/p>\n<p>Perdem outros a cor das roxas faces; <\/p>\n<p>Louva esta o proceder do chefe antigo, <\/p>\n<p>Aquele o proceder do novo estranha,<\/p>\n<p>E os que podem vencer do g&ecirc;nio a for&ccedil;a<\/p>\n<p>275 &#8212; Aos mais escutam, sem dizer palavra. <\/p>\n<p>S&atilde;o estes, louco chefe, os s&atilde;os exemplos <\/p>\n<p>Que, na Europa, te d&atilde;o os homens grandes? <\/p>\n<p>Os mesmos reis n&atilde;o honram aos vassalos? <\/p>\n<p>Deixam de ser, por isso, uns bons monarcas?<\/p>\n<p>280 &#8212; Como errado caminhas! O respeito<\/p>\n<p>Por meio das virtudes se consegue <\/p>\n<p>E nelas se sustenta. Nunca nasce <\/p>\n<p>Do susto e do temor, que aos povos metem <\/p>\n<p>inj&uacute;rias, descortejos e carrancas.<\/p>\n<p>285 &#8212; Findou-se, Doroteu, a longa hist&oacute;ria <\/p>\n<p>Da entrada deste chefe, agora vamos, <\/p>\n<p>Que e tempo, descansar um breve instante. <\/p>\n<p>Nas outras contarei, prezado amigo, <\/p>\n<p>Os fatos, que ele obrou no seu governo,<\/p>\n<p>290 &#8212; Se acaso os justos c&eacute;us quiserem dar-me. <\/p>\n<p>Para tanto escrever, papel e tempo.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">CARTA 2&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se mostra a piedade que Fanfarr&atilde;o fingiu no princ&iacute;pio<br \/>\n    do seu governo, para <\/p>\n<p>chamar a si todos os neg&oacute;cios.<\/p>\n<p>As brilhantes estrelas j&aacute; ca&iacute;am<\/p>\n<p>E a vez terceira os galos j&aacute; cantavam,<\/p>\n<p>Quando, prezado amigo, punha o selo <\/p>\n<p>Na volumosa carta, em que te conto<\/p>\n<p>5 &#8212; Do nosso imortal chefe a grande entrada; <\/p>\n<p>E refletindo, ent&atilde;o, ser quase dia,<\/p>\n<p>A despir-me come&ccedil;o, com tal &acirc;nsia, <\/p>\n<p>Que entendo que inda estava o lacre quente <\/p>\n<p>Quando eu j&aacute;, sobre os membros fatigados,<\/p>\n<p>10 &#8212; Cuidadoso, estendia a grosa manta.<\/p>\n<p>N&atilde;o cuides, Doroteu, que brandas penas<\/p>\n<p>Me formam o colch&atilde;o macio e fofo;<\/p>\n<p>N&atilde;o cuides que &eacute; de paina a minha fronha<\/p>\n<p>E que tenho len&ccedil;&oacute;is de fina holanda,<\/p>\n<p>15 &#8212; Com largas rendas sobre os crespos folhos.<\/p>\n<p>Custosos pavilh&otilde;es, dourados leitos<\/p>\n<p>E colchas matizadas, n&atilde;o se encontram<\/p>\n<p>Na casa mal provida de um poeta,<\/p>\n<p>Aonde, h&aacute; dias que o rapaz que serve<\/p>\n<p>20 &#8212; Nem na suja cozinha acende o fogo.<\/p>\n<p>Mas, nesta mesma cama, tosca e dura,<\/p>\n<p>Descanso mais contente, do que dorme<\/p>\n<p>Aquele, que s&oacute; p&otilde;e o seu cuidado<\/p>\n<p>Em deixar a seus filhos o tesouro<\/p>\n<p>25 &#8212; Que ajunta, Doroteu, com meio avara,<\/p>\n<p>Furtando ao rico e n&atilde;o pagando ao pobre.<\/p>\n<p>Aqui. . . mas onde vou, prezado amigo?<\/p>\n<p>Deixemos epis&oacute;dios, que n&atilde;o servem<\/p>\n<p>E vamos prosseguindo a nossa hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>30 &#8212; Fui deitar-me ligeiro, como disse,<\/p>\n<p>E mal estendo nos len&ccedil;&oacute;is o corpo,<\/p>\n<p>Dou um sopro na vela, os olhos fecho<\/p>\n<p>E pelos dedos rezo a muitos santos,<\/p>\n<p>Por ver se chega mais depressa o sono,<\/p>\n<p>35 &#8212; Conselho que me deram s&aacute;bias velhas<\/p>\n<p>j&aacute;, meu bom Doroteu, o sono vinha:<\/p>\n<p>Umas vezes dormindo, ressonava,<\/p>\n<p>Outras vezes, rezando, inda bulia<\/p>\n<p>Com os devotos bei&ccedil;os, quando sinto<\/p>\n<p>40 &#8212; Passar um carro, que me abala o leito.<\/p>\n<p>Assustado desperto, os olhos abro<\/p>\n<p>E, conhecendo a causa que me acorda,<\/p>\n<p>Um tanto impaciente o corpo viro,<\/p>\n<p>Fecho os olhos de novo e cruzo os bra&ccedil;os<\/p>\n<p>45 &#8212; Para ver se outra vez me torna o sono<\/p>\n<p>Segunda vez o sono j&aacute; tornava<\/p>\n<p>Quando o estrondo percebo de outro carro;<\/p>\n<p>Outra vez, Doroteu, o corpo volto,<\/p>\n<p>Outra vez me agasalho, mas que importa?<\/p>\n<p>50 &#8212; J&aacute; soam dos soldados grossos berros,<\/p>\n<p>J&aacute; tinem as cadeias dos for&ccedil;ados,<\/p>\n<p>J&aacute; chiam os guindastes, j&aacute; me atroam<\/p>\n<p>Os golpes dos machados e martelos<\/p>\n<p>E, ao p&eacute; de tanta bulha, j&aacute; n&atilde;o posso<\/p>\n<p>55 &#8212; Mais esperan&ccedil;a ter de algum sossego.<\/p>\n<p>Salto fora da cama, acendo a vela,<\/p>\n<p>&Agrave; banca vou sentar-me exasperado,<\/p>\n<p>E, por ver se entretenho as longas horas,<\/p>\n<p>Aparo a minha pena, o papel dobro<\/p>\n<p>60 &#8212; E com m&atilde;o, que ainda treme de cansada,<\/p>\n<p>N&atilde;o sei, prezado amigo, o que te escrevo.<\/p>\n<p>S&oacute; sei que o que te escrevo s&atilde;o verdades<\/p>\n<p>E que v&ecirc;em muito bem ao nosso caso.<\/p>\n<p>Apenas, Doroteu, o nosso chefe<\/p>\n<p>65 &#8212; As r&eacute;deas manejou, do seu governo,<\/p>\n<p>Fingir-nos intentou que tinha uma alma<\/p>\n<p>Amante da virtude. Assim foi Nero.<\/p>\n<p>Governou aos romanos pelas regras<\/p>\n<p>Da formosa justi&ccedil;a, por&eacute;m logo<\/p>\n<p>70 &#8212; Trocou o cetro de ouro em m&atilde;o de ferro. <\/p>\n<p>Manda, pois, aos ministros lhe d&ecirc;em listas<\/p>\n<p>De quantos presos as cadeias guardam,<\/p>\n<p>Faz a muitos soltar e aos mais alenta<\/p>\n<p>De vivas, bem fundadas esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p>75 &#8212; Estranha ao subalterno, que se arroga<\/p>\n<p>O poder castigar ao delinq&uuml;ente<\/p>\n<p>Com troncos e gal&eacute;s; enfim ordena<\/p>\n<p>Que aos presos, que em tr&ecirc;s dias n&atilde;o tiverem<\/p>\n<p>Assentos declarados, se abram logo<\/p>\n<p>80 &#8212; Em nome dele, chefe, os seus assentos. <\/p>\n<p>Aquele, Doroteu, que n&atilde;o &eacute; santo, <\/p>\n<p>Mas quer fingir-se santo aos outros homens <\/p>\n<p>Pratica muito mais, do que pratica <\/p>\n<p>Quem segue os s&atilde;os caminhos da verdade.<\/p>\n<p>85 &#8212; Mal se p&otilde;e nas igrejas, de joelhos, <\/p>\n<p>Abre os bra&ccedil;os em cruz, a terra beija, <\/p>\n<p>Entorta o seu pesco&ccedil;o, fecha os olhos, <\/p>\n<p>Faz que chora, suspira, fere o peito, <\/p>\n<p>E executa outras muitas macaquices<\/p>\n<p>90 &#8212; Estando em parte onde o mundo as veja. <\/p>\n<p>Assim o nosso chefe, que procura <\/p>\n<p>Mostrar-se compassivo, n&atilde;o descansa <\/p>\n<p>Com estas poucas obras: passa a dar-nos<\/p>\n<p>Da sua compaix&atilde;o maiores provas.<\/p>\n<p>95 &#8212; Tu sabes, Doroteu, qual seja o crime <\/p>\n<p>Dos soldados, que furtam aos soldados, <\/p>\n<p>E sabes muito bem que pena incorram <\/p>\n<p>Aqueles que viciam ouro e prata. <\/p>\n<p>Agora, Doroteu, atende o como<\/p>\n<p>100 &#8212; Castiga o nosso chefe em um sujeito<\/p>\n<p>Estes graves delitos, que reputa <\/p>\n<p>Ainda menos do que leves faltas.<\/p>\n<p>Apanha um militar aos camaradas <\/p>\n<p>Do solo uma por&ccedil;&atilde;o. Astuto e destro,<\/p>\n<p>105 &#8212; Para n&atilde;o se sentir o grave furto, <\/p>\n<p>Mistura nos embrulhos, que lhes deixa, <\/p>\n<p>Igual quantia de metal diverso.<\/p>\n<p>Faz-se queixa ao bom chefe deste insulto, <\/p>\n<p>Sim, faz-se ao chefe queixa, mas debalde,<\/p>\n<p>110 &#8212; Que este H&eacute;rcules n&atilde;o cinge a grossa pele, <\/p>\n<p>Nem traz na m&atilde;o robusta a forte clava,<\/p>\n<p>Para guerra fazer aos torpes Cacos. <\/p>\n<p>J&aacute; leste, Doroteu, a d. Quixote ? <\/p>\n<p>Pois eis aqui, amigo, o seu retrato;<\/p>\n<p>115 &#8212; Mas diverso nos fins, que o doido Mancha <\/p>\n<p>Forceja por vencer os maus gigantes <\/p>\n<p>Que ao mundo s&atilde;o molestos e este chefe <\/p>\n<p>Forceja por suster, no seu distrito, <\/p>\n<p>Aqueles que se mostram mais velhacos.<\/p>\n<p>120 &#8212; N&atilde;o pune, doce amigo, como deve, <\/p>\n<p>Das sacrossantas leis a grave ofensa; <\/p>\n<p>Antes, benigno, manda ao bom Mat&uacute;sio <\/p>\n<p>Que do seu ouro pr&oacute;prio se ressar&ccedil;a <\/p>\n<p>Aos aflitos roubados toda a perda.<\/p>\n<p>125 &#8212; J&aacute; viste, Doroteu, igual desordem?<\/p>\n<p>O dinheiro de um chefe, que a lei guarda,<\/p>\n<p>Acode aos tristes &oacute;rf&atilde;os e &agrave;s vi&uacute;vas;<\/p>\n<p>Acode aos miser&aacute;veis, que padecem<\/p>\n<p>Em duras, rotas camas e socorre,<\/p>\n<p>130 &#8212; Para que honradas sejam, as donzelas,<\/p>\n<p>Por&eacute;m n&atilde;o paga furtos, porque fiquem<\/p>\n<p>Impunes os culpados, que se devem,<\/p>\n<p>Para exemplo, punir com m&atilde;o severa.<\/p>\n<p>Envia, Doroteu, vizinho chefe<\/p>\n<p>135 &#8212; Ao nosso grande chefe outro soldado<\/p>\n<p>Por v&aacute;rios crimes convencido e preso.<\/p>\n<p>Lan&ccedil;a-se o tal soldado, de joelhos<\/p>\n<p>Aos p&eacute;s do seu her&oacute;i, suspira e treme,<\/p>\n<p>N&atilde;o nega que ferira e que matara,<\/p>\n<p>140 &#8212; Mas pede que lhe valha a m&atilde;o piedosa <\/p>\n<p>Que tudo pode, que ele aperta e beija.<\/p>\n<p>Pergunta-lhe o bom chefe se os seus crimes<\/p>\n<p>Divulgados est&atilde;o e o camarada,<\/p>\n<p>Com semblante j&aacute; leve, lhe responde<\/p>\n<p>145- Que suas graves culpas foram feitas<\/p>\n<p>Em s&iacute;tios mui distantes desta pra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, ent&atilde;o o chefe, compassivo<\/p>\n<p>Manda tirar os ferros dos seus bra&ccedil;os <\/p>\n<p>a-lhe um salvo-conduto, com que possa,<\/p>\n<p>150 &#8212; Contanto que na terra n&atilde;o se saiba, <\/p>\n<p>fazer impunemente insultos novos.<\/p>\n<p>Caminha, Doroteu, &agrave; for&ccedil;a um negro<\/p>\n<p>Conforme as leis do reino bem julgado.<\/p>\n<p>Tu sabes, Doroteu, que o pr&oacute;prio Augusto<\/p>\n<p>155 &#8212; Estas fatais senten&ccedil;as n&atilde;o revoga<\/p>\n<p>Sem um justo motivo, em que se firme<\/p>\n<p>o seu perd&atilde;o a causa. Tamb&eacute;m sabes<\/p>\n<p>Que estas mesmas merc&ecirc;s se n&atilde;o concedem<\/p>\n<p>Sen&atilde;o por um decreto, em que se expende<\/p>\n<p>160 &#8212; Que o s&aacute;bio rei usou, por motu-pr&oacute;prio,<\/p>\n<p>Do mais alto poder que tem o cetro.<\/p>\n<p>Agora, Doroteu, atende e pasma:<\/p>\n<p>Por um simples despacho, manda o chefe<\/p>\n<p>Que o triste padecente se recolha.<\/p>\n<p>165 &#8212; Assenta: vale tanto, l&aacute; na corte,<\/p>\n<p>Um grande &#8212; El-Rei &#8212; impresso, quanto vale <\/p>\n<p>Em Chile, um &#8212; Como pede &#8212; e o seu garrancho.<\/p>\n<p>Aonde, louco chefe, aonde corres<\/p>\n<p>Sem tino e sem conselho? Quem te inspira<\/p>\n<p>170 &#8212; Que remitir as penas &eacute; virtude?<\/p>\n<p>E, ainda a ser virtude, quem te disse<\/p>\n<p>Que n&atilde;o &eacute; das virtudes, que s&oacute; pode,<\/p>\n<p>Benigna, exercitar a m&atilde;o augusta?<\/p>\n<p>Os chefes, bem que chefes, s&atilde;o vassalos<\/p>\n<p>175 &#8212; E os vassalos n&atilde;o t&ecirc;m poder supremo.<\/p>\n<p>O mesmo grande Jove, que modera<\/p>\n<p>O mar, a terra e o c&eacute;u, n&atilde;o pode tudo,<\/p>\n<p>Que ao justo s&oacute;, se estende o seu imp&eacute;rio.<\/p>\n<p>O povo, Doroteu, &eacute; como as moscas<\/p>\n<p>180 &#8212; Que correm ao lugar, aonde sentem<\/p>\n<p>O derramado mel, &eacute; semelhante<\/p>\n<p>Aos corvos e aos abutres, que se ajuntam<\/p>\n<p>Nos ermos, onde fede a carne podre.<\/p>\n<p>&Agrave; vista, pois, dos fatos, que executa<\/p>\n<p>185 &#8212; O nosso grande chefe, decisivos<\/p>\n<p>Da piedade que finge, a louca gente<\/p>\n<p>De toda a parte corre a ver se encontra<\/p>\n<p>Algum pequeno alivio &agrave; sombra dele.<\/p>\n<p>N&atilde;o viste, Doroteu, quando arrebenta<\/p>\n<p>190 &#8212; Ao p&eacute; de alguma ermida a fonte santa, <\/p>\n<p>Que a fama logo corre e todo o povo <\/p>\n<p>Concebe que ela cura as graves queixas. <\/p>\n<p>Pois desta sorte entende o n&eacute;scio vulgo <\/p>\n<p>Que o nosso general lugar-tenente,<\/p>\n<p>195 &#8212; Em todos os delitos e demandas,<\/p>\n<p>Pode de absolvi&ccedil;&atilde;o lavrar senten&ccedil;as.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; livre, n&atilde;o h&aacute;, n&atilde;o h&aacute; cativo<\/p>\n<p>Que ao nosso Santiago n&atilde;o concorra.<\/p>\n<p>Todos buscam ao chefe e todos querem,<\/p>\n<p>200 &#8212; Para serem bem vistos, revestir-se<\/p>\n<p>Do triste privil&eacute;gio de mendigos.<\/p>\n<p>Um as botas descal&ccedil;a, tira as meias<\/p>\n<p>E p&otilde;e no duro ch&atilde;o os p&eacute;s mimosos;<\/p>\n<p>Outro despe a casaca, mais a veste<\/p>\n<p>205 &#8212; E de v&aacute;rios molambos mal se cobre; <\/p>\n<p>Este deixa crescer a ru&ccedil;a barba, <\/p>\n<p>Com palhas de alhos se defuma aquele; <\/p>\n<p>Qual as pernas emplastra e move o corpo <\/p>\n<p>Metendo nos sobacos as muletas;<\/p>\n<p>210 &#8212; Qual ao torto pesco&ccedil;o dependura,<\/p>\n<p>Despido, o bra&ccedil;o que s&oacute; cobre o len&ccedil;o;<\/p>\n<p>Uns, com bord&atilde;o, apalpam o caminho,<\/p>\n<p>Outros, um grande bando lhe apresentam<\/p>\n<p>De sujas mo&ccedil;as, a quem chamam filhas.<\/p>\n<p>215 &#8212; J&aacute; foste, Doroteu, a um convento<\/p>\n<p>De padres franciscanos, quando chegam<\/p>\n<p>As horas de jantar ? Passaste, acaso<\/p>\n<p>Por s&iacute;tio em que morreu mineiro rico,<\/p>\n<p>Quando da casa sai pomposo enterro?<\/p>\n<p>220 &#8212; Pois eis aqui, amigo, bem pintada <\/p>\n<p>A porta, mais a rua deste chefe <\/p>\n<p>Nos dias de audi&ecirc;ncia. Oh! quem pudera <\/p>\n<p>Nestes dias meter-se um breve instante, <\/p>\n<p>A ver o que ali vai na grande sala!<\/p>\n<p>225 &#8212; Escusavas de ler os entremezes<\/p>\n<p>Em que os s&aacute;bios poetas introduzem,<\/p>\n<p>Por interlocutores, chefes asnos.<\/p>\n<p>Um pede, Doroteu, que lhe dispense<\/p>\n<p>Casar com uma irm&atilde; da sua am&aacute;sia;<\/p>\n<p>230 &#8212; Pede outro que lhe queime o mau processo,<\/p>\n<p>Onde esta criminoso, por ter feito<\/p>\n<p>Cumprir exatamente um seu despacho;<\/p>\n<p>Diz este que os herdeiros n&atilde;o lhe entregam<\/p>\n<p>Os bens, que lhe deixou, em testamento,<\/p>\n<p>235 &#8212; Um filho de No&eacute;; aquele ralha<\/p>\n<p>Contra os mortos,ju&iacute;zes, que lhe deram,<\/p>\n<p>Por empenhos e peitas, a senten&ccedil;a<\/p>\n<p>Em que toda a fazenda lhe tiraram;<\/p>\n<p>Um quer que o devedor lhe pague logo;<\/p>\n<p>240 &#8212; Outro, para pagar, pertende espera;<\/p>\n<p>Todos, enfim, concluem que n&atilde;o podem <\/p>\n<p>Demandas conservar; por serem pobres <\/p>\n<p>E grandes as despesas, que se fazem <\/p>\n<p>Nas casas dos letrados e cart&oacute;rios.<\/p>\n<p>245 &#8212; Ent&atilde;o o grande chefe, sem demora,<\/p>\n<p>Decide os casos todos que lhe ocorrem<\/p>\n<p>Ou sejam de moral, ou de direito,<\/p>\n<p>Ou perten&ccedil;am, tamb&eacute;m, &agrave; medicina,<\/p>\n<p>Sem botar, (que ainda &eacute; mais), abaixo um livro<\/p>\n<p>250 &#8212; Da sua sempre virgem livraria.<\/p>\n<p>L&aacute; vai uma senten&ccedil;a revogada<\/p>\n<p>Que j&aacute; pudera ter cabelos brancos;<\/p>\n<p>L&aacute; se manda que entreguem os ausentes<\/p>\n<p>Os bens ao sucessor, que n&atilde;o lhes mostra<\/p>\n<p>255 &#8212; Senten&ccedil;a que lhe julgue a grossa heran&ccedil;a. <\/p>\n<p>A muitos, de palavra, se decreta <\/p>\n<p>Que em pedir os seus bens, n&atilde;o mais prossigam; <\/p>\n<p>A outros se concedem breves horas <\/p>\n<p>Para pagarem somas que n&atilde;o devem.<\/p>\n<p>260 &#8212; Ah! tu, meu Senhor Pan&ccedil;a, tu que foste <\/p>\n<p>Da Barat&aacute;ria o chefe, n&atilde;o lavraste <\/p>\n<p>Nem uma-s&oacute; senten&ccedil;a t&atilde;o discreta! <\/p>\n<p>E que queres, amigo, que suceda? <\/p>\n<p>Esperavas, acaso, um bom governo<\/p>\n<p>265 &#8212; Do nosso Fanfarr&atilde;o? Tu n&atilde;o o viste <\/p>\n<p>Em trajes de casquilho, nessa corte ? <\/p>\n<p>E pode, meu amigo, de um peralta <\/p>\n<p>Formar-se, de repente, um homem s&eacute;rio? <\/p>\n<p>Carece, Doroteu, qualquer ministro<\/p>\n<p>270 &#8212; Apertados estudos, mil exames, <\/p>\n<p>E pode ser o chefe onipotente <\/p>\n<p>Quem n&atilde;o sabe escrever uma s&oacute; regra<\/p>\n<p>Onde, ao menos, se encontre um nome certo? <\/p>\n<p>Ungiu-se, para rei do povo eleito,<\/p>\n<p>275 &#8212; A Saul, o mais santo que Deus via. <\/p>\n<p>Prevaricou Saul, prevaricaram, <\/p>\n<p>No governo dos povos, outros justos. <\/p>\n<p>E h&aacute;-de bem governar remotas terras <\/p>\n<p>Aquele que n&atilde;o deu, em toda vida<\/p>\n<p>280 &#8212; Um exemplo de amor &agrave; s&atilde; virtude? <\/p>\n<p>As letras, a justi&ccedil;a, a temperan&ccedil;a <\/p>\n<p>N&atilde;o s&atilde;o, n&atilde;o s&atilde;o morgados que fizesse <\/p>\n<p>A s&aacute;bia natureza, para andarem. <\/p>\n<p>Por sucess&atilde;o nos filhos dos fidalgos.<\/p>\n<p>285 &#8212; Do cavalo andaluz, &eacute;, sim, prov&aacute;vel <\/p>\n<p>Nascer, tamb&eacute;m, um potro de esperan&ccedil;a, <\/p>\n<p>Que tenha frente aberta, largos peitos, <\/p>\n<p>Que tenha alegres olhos e compridos, <\/p>\n<p>Que seja, enfim, de m&atilde;os e p&eacute;s cal&ccedil;ado;<\/p>\n<p>290 &#8212; Por&eacute;m de um bom ginete tamb&eacute;m pode<\/p>\n<p>Um catralvo nascer, nascer um zarco.<\/p>\n<p>Aquele mesmo potro, que tem todos<\/p>\n<p>Os formosos sinais, que aponta o Rego,<\/p>\n<p>Carece, Doroteu, correr em roda<\/p>\n<p>295 &#8212; No grande picadeiro muitos meses,<\/p>\n<p>Para um e outro lado, necessita<\/p>\n<p>Que o destro picador lhe ponha a sela<\/p>\n<p>E que, montando nele, pouco a pouco,<\/p>\n<p>O fa&ccedil;a obedecer ao leve toque<\/p>\n<p>300 &#8212; Do duro cabe&ccedil;&atilde;o, da branda r&eacute;dea. <\/p>\n<p>Dos mesmos, Doroteu&#8230; por&eacute;m j&aacute; toca.<\/p>\n<p>Ao almo&ccedil;o a garrida da cadeia <\/p>\n<p>Vou ver se dormir posso, enquanto duram <\/p>\n<p>Estes breves instantes de sossego, <\/p>\n<p>305 &#8212; Que, sem barriga farta e sem descanso, <\/p>\n<p>N&atilde;o se pode escrever t&atilde;o longa hist&oacute;ria.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">CARTA 3&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se contam as injusti&ccedil;as e viol&ecirc;ncias que Fanfarr&atilde;o<br \/>\n    executou por causa de uma cadeia, a que deu princ&iacute;pio.<\/p>\n<p>Que triste, Doroteu, se p&ocirc;s a tarde!<\/p>\n<p>Assopra o vento sul, e densa nuvem<\/p>\n<p>Os horizontes cobre; a grossa chuva,<\/p>\n<p>Caindo das biqueiras dos telhados<\/p>\n<p>5 &#8212; Forma regatos, que os portais inundam.<\/p>\n<p>Rompem os ares colubrinas fachas<\/p>\n<p>De fogo devorante e ao longe soa,<\/p>\n<p>De compridos trov&otilde;es, o baixo estrondo.<\/p>\n<p>Agora, Doroteu, ningu&eacute;m passeia,<\/p>\n<p>10 &#8212; Todos em casa est&atilde;o, e todos buscam<\/p>\n<p>Divertir a tristeza, que nos peitos<\/p>\n<p>Infunde a tarde, mais que a noite feia.<\/p>\n<p>O velho Altimidonte, certamente,<\/p>\n<p>Tem postas nos narizes as cangalhas<\/p>\n<p>15 &#8212; E revolvendo os grandes, grossos livros.<\/p>\n<p>C&#8217;os dedos inda sujos de tabaco,<\/p>\n<p>Ajunta ao mau processo muitas folhas<\/p>\n<p>De v&atilde;s autoridades carregadas.<\/p>\n<p>O nosso bom Dirceu, talvez que esteja.<\/p>\n<p>20 &#8212; Com os p&eacute;s escondidos no capacho,<\/p>\n<p>Metido no capote, a ler gostoso<\/p>\n<p>O seu Verg&iacute;lio o seu Cam&otilde;es e Tasso.<\/p>\n<p>O termo Floridoro, a estas horas,<\/p>\n<p>No mole espreguiceiro se reclina<\/p>\n<p>25 &#8212; A ver brincar, alegres, os filhinhos,<\/p>\n<p>Um j&aacute; montado na comprida cana<\/p>\n<p>E outro pendurado no pesco&ccedil;o<\/p>\n<p>Da m&atilde;e formosa, que risonho abra&ccedil;a.<\/p>\n<p>O gordo Josefino est&aacute; deitado,<\/p>\n<p>30 &#8212; Nada lhe importa, nem do mundo sabe, <\/p>\n<p>Ao som do vento, dos trovoes e chuva,<\/p>\n<p>Como em noite tranq&uuml;ila, dorme e ronca;<\/p>\n<p>O nosso Dami&atilde;o, enfim, abana<\/p>\n<p>Ao lento fogo com que, s&aacute;bio, tira<\/p>\n<p>35 &#8212; Os &uacute;teis sais da terra e o teu Critilo,<\/p>\n<p>Que n&atilde;o encontra, aqui, com quem murmure,<\/p>\n<p>Quando so murmurar lhe pede o g&ecirc;nio,<\/p>\n<p>Pega na pena e desta sorte voa,<\/p>\n<p>De c&aacute;, t&atilde;o longe, a murmurar contigo.<\/p>\n<p>40 &#8212; J&aacute; disse, Doroteu, que o nosso chefe,<\/p>\n<p>Apenas principia a governar-nos,<\/p>\n<p>Nos pertende mostrar que tem um peito<\/p>\n<p>Muito mais terno e brando, do que pedem<\/p>\n<p>Os severos of&iacute;cios do seu cargo.<\/p>\n<p>45 &#8212; Agora, cuidar&aacute;s, prezado amigo,<\/p>\n<p>Que as chaves das cadeias j&aacute; n&atilde;o abrem,<\/p>\n<p>Comidas da ferrugem ? Que as algemas,<\/p>\n<p>Como trastes in&uacute;teis, se furtaram?<\/p>\n<p>Que o torpe executor das graves penas<\/p>\n<p>50 &#8212; Liberdade ganhou ? Que j&aacute; n&atilde;o temos<\/p>\n<p>Descal&ccedil;os guardi&atilde;es, que &agrave; fonte levem,<\/p>\n<p>Metidos nas correntes, os for&ccedil;ados?<\/p>\n<p>Assim, prezado amigo, assim devia<\/p>\n<p>Em Chile acontecer, se o nosso chefe<\/p>\n<p>55 &#8212; Tivesse, em governar, algum sistema.<\/p>\n<p>Mas, meu bom Doroteu, os homens n&eacute;scios<\/p>\n<p>As folhas dos olmeiros se comparam:<\/p>\n<p>S&atilde;o como o leve fumo, que se move<\/p>\n<p>Para partes diversas, mal os ventos<\/p>\n<p>60 &#8212; Come&ccedil;am a apontar, de partes v&aacute;rias.<\/p>\n<p>Ora, pois, doce amigo, atende o como<\/p>\n<p>No seu contr&aacute;rio vicio, degenera<\/p>\n<p>A falsa compaix&atilde;o do nosso chefe,<\/p>\n<p>Qual o sereno mar, que, num instante,<\/p>\n<p>65 &#8212; As ondas sobre as ondas encapela.<\/p>\n<p>Pertende, Doroteu, o nosso chefe<\/p>\n<p>Erguer uma cadeia majestosa,<\/p>\n<p>Que possa escurecer a velha fama<\/p>\n<p>Da torre de Babel e mais dos grandes,<\/p>\n<p>70 &#8212; Custosos edif&iacute;cios que fizeram,<\/p>\n<p>Para sepulcros seus, os reis do Egito.<\/p>\n<p>Talvez, prezado amigo, que imagine<\/p>\n<p>Que neste monumento se conserve<\/p>\n<p>Eterna, a sua gl&oacute;ria, bem que os povos<\/p>\n<p>75 &#8212; Ingratos n&atilde;o consagrem ricos bustos<\/p>\n<p>Nem montadas est&aacute;tuas ao seu nome.<\/p>\n<p>Desiste, louco chefe, dessa empresa:<\/p>\n<p>Um soberbo edif&iacute;cio levantado<\/p>\n<p>Sobre ossos de inocentes, constru&iacute;do<\/p>\n<p>80 &#8212; Com l&aacute;grimas dos pobres, nunca serve<\/p>\n<p>De gl&oacute;ria ao seu autor, mas, sim, de opr&oacute;brio.<\/p>\n<p>Desenha o nosso chefe, sobre a banca,<\/p>\n<p>Desta forte cadeia o grande risco,<\/p>\n<p>A propor&ccedil;&atilde;o do g&ecirc;nio e n&atilde;o das for&ccedil;as<\/p>\n<p>85 &#8212; Da terra decadente, aonde habita.<\/p>\n<p>Ora, pois, doce amigo, vou pintar-te<\/p>\n<p>Ao menos o formoso frontisp&iacute;cio.<\/p>\n<p>Ver&aacute;s se pede m&aacute;quina tamanha<\/p>\n<p>Humilde povoado, aonde os grandes<\/p>\n<p>90 &#8212; Moram em casas de madeira a pique.<\/p>\n<p>Em cima de espa&ccedil;osa escadaria<\/p>\n<p>Se forma do edif&iacute;cio a nobre entrada<\/p>\n<p>Por dois soberbos arcos dividida;<\/p>\n<p>Por fora destes arcos se levantam<\/p>\n<p>95 &#8212; Tr&ecirc;s j&ocirc;nicas colunas, que se firmam<\/p>\n<p>Sobre quadradas bases e se adornam<\/p>\n<p>De lindos capit&eacute;is, aonde assenta<\/p>\n<p>Uma formosa, regular varanda;<\/p>\n<p>Seus bala&uacute;stres s&atilde;o das alvas pedras<\/p>\n<p>100 &#8212; Que brandos ferros cortam sem trabalho.<\/p>\n<p>Debaixo da cornija, ou projetura,<\/p>\n<p>Est&atilde;o as armas deste reino abertas<\/p>\n<p>No liso centro de vistosa tarja.<\/p>\n<p>Do meio desta frente sobe a torre<\/p>\n<p>105 &#8212; E pegam desta frente, para os lados, <\/p>\n<p>Vistosas galerias de janelas <\/p>\n<p>A quem enfeitam as douradas grades. <\/p>\n<p>E sabes, Doroteu, quem edifica <\/p>\n<p>Esta grande cadeia? N&atilde;o, n&atilde;o sabes.<\/p>\n<p>110 &#8212; Pois ouve, que eu t&#8217;o digo: um pobre chefe<\/p>\n<p>Que, na corte, habitou em umas casas<\/p>\n<p>Em que j&aacute; nem abriam as janelas.<\/p>\n<p>E sabes para quem? Tamb&eacute;m n&atilde;o sabes.<\/p>\n<p>Pois eu tamb&eacute;m t&#8217;o digo: para uns negros<\/p>\n<p>115 &#8212; Que vivem, (quando muito), em vis cabanas,<\/p>\n<p>Fugidos dos senhores, l&aacute; nos matos.<\/p>\n<p>Eis aqui, Doroteu, ao que se pode<\/p>\n<p>Muito bem aplicar aquela mofa<\/p>\n<p>Que faz o nosso mestre, quando pinta<\/p>\n<p>120 &#8212; Um monstro meio peixe e meio dama.<\/p>\n<p>Na sabia propor&ccedil;&atilde;o &eacute; que consiste<\/p>\n<p>A boa perfei&ccedil;&atilde;o das nossas obras.<\/p>\n<p>N&atilde;o pede, Doroteu, a pobre aldeia<\/p>\n<p>Os soberbos pal&aacute;cios, nem a corte<\/p>\n<p>125 &#8212; Pode, tamb&eacute;m, sofrer as toscas cho&ccedil;as.<\/p>\n<p>Para haver de suprir o nosso chefe<\/p>\n<p>Das obras meditadas as despesas,<\/p>\n<p>Consome do senado os rendimentos<\/p>\n<p>E passa a maltratar ao triste povo,<\/p>\n<p>130 &#8212; Com estas nunca usadas viol&ecirc;ncias:<\/p>\n<p>Quer c&oacute;pia de for&ccedil;ados que trabalhem<\/p>\n<p>Sem outro algum jornal, mais que o sustento<\/p>\n<p>E manda a um bom cabo que lhe traga<\/p>\n<p>A quantos quilombotas se apanharem<\/p>\n<p>135 &#8212; Em duras gargalheiras. Voa o cabo,<\/p>\n<p>Agarra a um e outro e num instante<\/p>\n<p>Enche a cadeia de alentados negros.<\/p>\n<p>N&atilde;o se contenta o cabo com trazer-lhe<\/p>\n<p>Os negros que t&ecirc;m culpas, prende e manda<\/p>\n<p>140 &#8212; Tamb&eacute;m, nas grandes levas, os escravos<\/p>\n<p>Que n&atilde;o t&ecirc;m mais delitos que fugirem<\/p>\n<p>&Agrave;s fomes e aos castigos, que padecem<\/p>\n<p>No poder de senhores desumanos.<\/p>\n<p>Ao bando dos cativos se acrescentam<\/p>\n<p>145 &#8212; Muitos pretos j&aacute; livres e outros homens<\/p>\n<p>Da ra&ccedil;a do pa&iacute;s e da europ&eacute;ia<\/p>\n<p>Que, diz ao grande chefe, s&atilde;o vadios<\/p>\n<p>Que perturbam dos povos o sossego.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute;, meu Doroteu, quem n&atilde;o se molde<\/p>\n<p>150 &#8212; Aos gestos e aos costumes dos maiores.<\/p>\n<p>Brincando, os inocentes os imitam,<\/p>\n<p>Se as tropas se exercitam, eles fingem<\/p>\n<p>As h&oacute;rridas batalhas. Se se fazem<\/p>\n<p>Devotas prociss&otilde;es, tamb&eacute;m carregam<\/p>\n<p>155 &#8212; Aos ombros os andores e as charolas.<\/p>\n<p>Os mesmos magistrados se revestem<\/p>\n<p>Do g&ecirc;nio e das paix&otilde;es de quem governa.<\/p>\n<p>Se o rei &eacute; piedoso, s&atilde;o benignos<\/p>\n<p>Os severos ministros, se &eacute; tirano<\/p>\n<p>160 &#8212; Mostram os pios cora&ccedil;&otilde;es de feras.<\/p>\n<p>Por isso, Doroteu, um chefe indigno<\/p>\n<p>&Eacute; muito e muito mau, porque ele pode<\/p>\n<p>A virtude estragar de um vasto imp&eacute;rio.<\/p>\n<p>Os nossos comandantes, que conhecem<\/p>\n<p>165 &#8212; A vontade do chefe, tamb&eacute;m querem<\/p>\n<p>Imitar deste cabo o ardente zelo.<\/p>\n<p>Enviam para as pedras os vadios<\/p>\n<p>Que. na forma das ordens, mandar devem<\/p>\n<p>Habitar em desterro novas terras.<\/p>\n<p>170 &#8212; Ora, pois, doce amigo, j&aacute; que falo<\/p>\n<p>Nos nossos comandantes, ser&aacute; justo<\/p>\n<p>Que te d&ecirc; destes bichos uma id&eacute;ia.<\/p>\n<p>A gente, Doroteu, que n&atilde;o se alista<\/p>\n<p>Nas tropas regulares forma corpos<\/p>\n<p>175 &#8212; De bisonha ordenan&ccedil;a. N&atilde;o h&aacute; terra<\/p>\n<p>Sem ter um corpo destes. Os seus chefes<\/p>\n<p>Ao capit&atilde;o maior est&atilde;o sujeitos,<\/p>\n<p>E s&atilde;o os que se chamam comandantes,<\/p>\n<p>Porque as partes comandam destes ter&ccedil;os.<\/p>\n<p>180 &#8212; Estes famosos chefes, quase sempre<\/p>\n<p>Da classe dos tendeiros s&atilde;o tirados.<\/p>\n<p>Alguns, inda depois de grandes homens,<\/p>\n<p>Se lhe faltam os negros, a quem deixam<\/p>\n<p>O governo das vendas, n&atilde;o entendem<\/p>\n<p>185 &#8212; Que infamam as bengalas, quando pesam<\/p>\n<p>A libra de toucinho e quando medem<\/p>\n<p>O frasco de cacha&ccedil;a. Agora atende,<\/p>\n<p>Ver&aacute;s que desta esc&oacute;ria se levanta<\/p>\n<p>De magistrados uma nova classe.<\/p>\n<p>190 &#8212; Aos ricos taverneiros, disfar&ccedil;ados<\/p>\n<p>Em ar de comandantes, manda o chefe<\/p>\n<p>Que tratem da pol&iacute;cia e que n&atilde;o deixem<\/p>\n<p>Viver, nos seus distritos, as pessoas<\/p>\n<p>Que forem revoltosas. Quer que fa&ccedil;am<\/p>\n<p>195 &#8212; A todos os vadios uns sum&aacute;rios<\/p>\n<p>E que, sem mais processos, os remetam<\/p>\n<p>Para remotas partes, sem que destas<\/p>\n<p>Jur&iacute;dicas senten&ccedil;as, se faculte<\/p>\n<p>Algum recurso para mor al&ccedil;ada.<\/p>\n<p>200 &#8212; J&aacute; viste, Doroteu, um tal desmancho?<\/p>\n<p>As santas leis do reino n&atilde;o concedem<\/p>\n<p>Ao magistrado r&eacute;gio, que execute,<\/p>\n<p>No crime, o seu julgado e o nosso chefe<\/p>\n<p>Quer que d&ecirc;em as senten&ccedil;as sem apelo<\/p>\n<p>205 &#8212; Incultos comandantes, que nem sabem<\/p>\n<p>Fazer um bom di&aacute;rio do que vendem!<\/p>\n<p>Concedo, caro amigo, que estes homens<\/p>\n<p>S&atilde;o uns grandes consultos, que meteram<\/p>\n<p>Os corpos do direito nos seus cascos.<\/p>\n<p>210 &#8212; Ainda assim pergunto: e como pode<\/p>\n<p>O chefe conceder-lhes esta al&ccedil;ada ?<\/p>\n<p>Ignora a lei do reino, que numera<\/p>\n<p>Entre os direitos pr&oacute;prios dos augustos<\/p>\n<p>A cria&ccedil;&atilde;o dos novos magistrados?<\/p>\n<p>215 &#8212; O grande Salom&atilde;o lamenta o povo<\/p>\n<p>Que sobre o trono tem um rei menino;<\/p>\n<p>Eu lamento a conquista a quem governa<\/p>\n<p>Um chefe t&atilde;o soberbo e t&atilde;o estulto<\/p>\n<p>Que, tendo j&aacute; na testa brancas repas,<\/p>\n<p>220 &#8212; N&atilde;o sabe, ainda, que nasceu vassalo.<\/p>\n<p>Os n&eacute;scios comandantes e o bom cabo,<\/p>\n<p>Que fez o nosso her&oacute;i geral meirinho,<\/p>\n<p>Remetem, nas correntes, povo imenso.<\/p>\n<p>Parece, Doroteu, que temos guerras;<\/p>\n<p>225 &#8212; Que, para recrutar as companhias,<\/p>\n<p>De toda a parte v&ecirc;m chorosas levas.<\/p>\n<p>Aqui, prezado amigo, principia<\/p>\n<p>Esta triste trag&eacute;dia, sim, prepara,<\/p>\n<p>Prepara o branco len&ccedil;o, pois n&atilde;o podes<\/p>\n<p>230 &#8212; Ouvir o resto, sem banhar o rosto<\/p>\n<p>Com grossos rios de salgado pranto.<\/p>\n<p>Nas levas, Doroteu, n&atilde;o v&ecirc;m somente<\/p>\n<p>Os culpados vadios; vem aquele<\/p>\n<p>Que a d&iacute;vida pediu ao comandante;<\/p>\n<p>235 &#8212; Vem aquele, que p&ocirc;s impuros olhos<\/p>\n<p>Na sua mocetona e vem o pobre,<\/p>\n<p>Que n&atilde;o quis emprestar-lhe algum negrinho,<\/p>\n<p>Para lhe ir trabalhar na ro&ccedil;a e lavra.<\/p>\n<p>Estes tristes, mal chegam, s&atilde;o julgados<\/p>\n<p>240 &#8212; Pelo benigno chefe a cem a&ccedil;oites.<\/p>\n<p>Tu sabes, Doroteu, que as leis do reino<\/p>\n<p>S&oacute; mandam que se a&ccedil;oitem com a sola<\/p>\n<p>Aqueles agressores, que estiverem.<\/p>\n<p>Nos crimes, quase iguais aos r&eacute;us de morte.<\/p>\n<p>245 &#8212; Tu tamb&eacute;m n&atilde;o ignoras que os a&ccedil;oites<\/p>\n<p>S&oacute; se d&atilde;o, por desprezo, nas esp&aacute;duas,<\/p>\n<p>Que a&ccedil;oitar, Doroteu, em outra parte<\/p>\n<p>S&oacute; pertence aos senhores, quando punem<\/p>\n<p>Os caseiros delitos dos escravos.<\/p>\n<p>250 &#8212; Pois todo este direito se pretere:<\/p>\n<p>No pelourinho a escada j&aacute; se assenta,<\/p>\n<p>J&aacute; se ligam dos r&eacute;us os p&eacute;s e os bra&ccedil;os,<\/p>\n<p>J&aacute; se descem cal&ccedil;&otilde;es e se levantam<\/p>\n<p>Das imundas camisas rotas fraldas,<\/p>\n<p>255 &#8212; J&aacute; pegam dois verdugos nos zorragues,<\/p>\n<p>J&aacute; descarregam golpes desumanos,<\/p>\n<p>J&aacute; soam os gemidos e respingam<\/p>\n<p>Mi&uacute;das gotas de pisado sangue.<\/p>\n<p>Uns gritam que s&atilde;o livres, outros clamam<\/p>\n<p>260 &#8212; Que as s&aacute;bias leis do rei os julgam brancos,<\/p>\n<p>Este diz que n&atilde;o tem algum delito<\/p>\n<p>Que tal rigor mere&ccedil;a, aquele pede<\/p>\n<p>Do justo acusador, ao c&eacute;u, vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p>N&atilde;o afrouxam os bra&ccedil;os os verdugos,<\/p>\n<p>265 &#8212; Mas, antes, com tais queixas, se duplica<\/p>\n<p>A raiva nos tiranos, qual o fogo<\/p>\n<p>.Que aos assopros dos ventos ergue a chama<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, Doroteu, se perde a conta<\/p>\n<p>Dos cem a&ccedil;oites, que no meio estava,<\/p>\n<p>270 &#8212; Mas outra nova conta se come&ccedil;a.<\/p>\n<p>Os pobres miser&aacute;veis j&aacute; nem gritam.<\/p>\n<p>Cansados de gritar, apenas soltam<\/p>\n<p>Alguns fracos suspiros, que enternecem.<\/p>\n<p>Que &eacute; isso, Doroteu, tu j&aacute; retiras<\/p>\n<p>275 &#8212; Os olhos do papel? Tu j&aacute; desmaias?<\/p>\n<p>J&aacute; sentes as mo&ccedil;&otilde;es, que alheios males<\/p>\n<p>Costumam infundir nas almas ternas?<\/p>\n<p>Pois &eacute;s, prezado amigo, muito fraco,<\/p>\n<p>Aprende a ter o valor do nosso chefe<\/p>\n<p>280 &#8212; Que &agrave; janela se p&ocirc;s e a tudo assiste<\/p>\n<p>Sem voltar o semblante para a ilharga.<\/p>\n<p>E pode ser, amigo, que n&atilde;o tenha<\/p>\n<p>Esfor&ccedil;o, para ver correr o sangue,<\/p>\n<p>Que em defesa do trono se derrama.<\/p>\n<p>285 &#8212; Aos pobres a&ccedil;oitados manda o chefe<\/p>\n<p>Que, presos nas correntes dos for&ccedil;ados,<\/p>\n<p>V&atilde;o juntos trabalhar. Ent&atilde;o se entregam<\/p>\n<p>Ao famoso tenente, que os governa<\/p>\n<p>Como s&aacute;bio inspetor das grandes obras.<\/p>\n<p>290 &#8212; Aqui, prezado amigo, principiam<\/p>\n<p>Os seus duros trabalhos. Eu quisera<\/p>\n<p>Contar-te o que eles sofrem, nesta carta,<\/p>\n<p>Mas tu, prezado amigo, tens o peito,<\/p>\n<p>Dos males que j&aacute; leste, magoado,<\/p>\n<p>295 &#8212; Por isto &eacute; justo que suspenda a hist&oacute;ria,<\/p>\n<p>Enquanto o tempo n&atilde;o te cura a chaga.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">CARTA 4&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se continua a mesma mat&eacute;ria<\/p>\n<p>Maldito, Doroteu, maldito seja<\/p>\n<p>O v&iacute;cio de um poeta, que, tomando<\/p>\n<p>Entre dentes algu&eacute;m, enquanto encontra<\/p>\n<p>Mat&eacute;ria em que discorra, n&atilde;o descansa.<\/p>\n<p>5 &#8212; Agora, Doroteu, mandou dizer-me<\/p>\n<p>O nosso amigo Alceu, que me embrulhasse<\/p>\n<p>No pardo casac&atilde;o, ou no capote<\/p>\n<p>E que, pondo o casquete na cabe&ccedil;a,<\/p>\n<p>Fosse ao s&iacute;tio Cov&atilde;o, jantar com ele.<\/p>\n<p>10 &#8212; Eu bem sei, Doroteu, que tinha sopa<\/p>\n<p>Com ave e com presunto, sei que tinha<\/p>\n<p>De mamota vitela um gordo quarto,<\/p>\n<p>Que tinha fricass&eacute;s, que tinha massas,<\/p>\n<p>Bom vinho de Can&aacute;rias, finos doces<\/p>\n<p>15 &#8212; E, de mimosas frutas, muitos pratos.<\/p>\n<p>Por&eacute;m que importa, amigo, perdi tudo<\/p>\n<p>S&oacute; para te escrever mais uma carta.<\/p>\n<p>Maldito, Doroteu, maldito seja<\/p>\n<p>O v&iacute;cio de um poeta, pois o priva<\/p>\n<p>20 &#8212; De encher o seu bandulho, pelo gosto<\/p>\n<p>De fazer quatro versos, que bem podem<\/p>\n<p>Ganhar-lhe uma ma&ccedil;ada, que s&oacute; serve<\/p>\n<p>De dano ao corpo, sem proveito d&#8217;alma.<\/p>\n<p>A carta, Doroteu, a longa carta<\/p>\n<p>25 &#8212; Que descreve a cadeia, finaliza<\/p>\n<p>No ponto de que os presos se remetem<\/p>\n<p>Ao severo tenente, que preside,<\/p>\n<p>Como s&aacute;bio inspetor, &agrave;s grandes obras.<\/p>\n<p>Agora prossigamos nesta hist&oacute;ria<\/p>\n<p>30 &#8212; E demos-lhe o principio, por tirarmos<\/p>\n<p>Ao famoso inspetor, ao gr&atilde;o tenente,<\/p>\n<p>Com cores delicadas, uma c&oacute;pia.<\/p>\n<p>&Eacute; de marca maior que a mediana,<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o passa a gigante, tem uns ombros<\/p>\n<p>35 &#8212; Que o pesco&ccedil;o algum tanto lhe sufocam.<\/p>\n<p>O seu cacha&ccedil;o &eacute; gordo, o ventre inchado,<\/p>\n<p>A cara circular, os olhos fundos,<\/p>\n<p>De g&ecirc;nio soberb&atilde;o, grosseiro trato,<\/p>\n<p>Assopra de cont&iacute;nuo e fala muito.<\/p>\n<p>40 &#8212; Preza-se de fidalgo e n&atilde;o se lembra<\/p>\n<p>Que seu pai foi um pobre, que vivia<\/p>\n<p>De cobrar dos contratos os dinheiros,<\/p>\n<p>De que ficou devendo grandes somas,<\/p>\n<p>Sinal de que ele foi um bom velhaco.<\/p>\n<p>45 &#8212; O filho, Doroteu, tomou-lhe as manhas:<\/p>\n<p>Era um triste pingante, que s&oacute; tinha<\/p>\n<p>O seu pequeno soldo, agora veio<\/p>\n<p>Para inspetor das obras e j&aacute; ronca,<\/p>\n<p>J&aacute; empresta dinheiros, j&aacute; tem casas,<\/p>\n<p>50 &#8212; J&aacute; tem trastes de custo e ricos m&oacute;veis,<\/p>\n<p>Mas logo, Doroteu, ver&aacute;s o como.<\/p>\n<p>Mal o duro inspetor recebe os presos<\/p>\n<p>V&atilde;o todos para as obras; alguns abrem<\/p>\n<p>Os fundos alicerces, outros quebram,<\/p>\n<p>55 &#8212; Com ferros e com fogo, as pedras grossas.<\/p>\n<p>Aqui, prezado amigo, n&atilde;o se atende<\/p>\n<p>&Agrave;s for&ccedil;as nem aos anos. M&atilde;o robusta<\/p>\n<p>De atrevido soldado move o relho,<\/p>\n<p>Que a todos, igualmente, faz ligeiros.<\/p>\n<p>60 &#8212; Aqui se n&atilde;o concede de descanso<\/p>\n<p>Aquele mesmo dia, o grande dia<\/p>\n<p>Em que Deus descansou e em que nos manda<\/p>\n<p>Fa&ccedil;amos obras santas, sem que demos,<\/p>\n<p>Aos jumentos e bois, algum trabalho.<\/p>\n<p>65 &#8212; Tu sabes, Doroteu, que um tal servi&ccedil;o<\/p>\n<p>Por uma civil morte se reputa.<\/p>\n<p>Que peito, Doroteu, que duro peito<\/p>\n<p>N&atilde;o Quedeve ter um chefe, que atormenta<\/p>\n<p>A tantos inocentes por capricho?<\/p>\n<p>70 &#8212; Que se arrisque o vassalo na campanha,<\/p>\n<p>&Eacute; uma digna a&ccedil;&atilde;o que a p&aacute;tria exige,<\/p>\n<p>Nem este grande risco nos estraga<\/p>\n<p>O pundonor, que vale mais que a vida;<\/p>\n<p>Antes nos abre as portas, para entrarmos<\/p>\n<p>75 &#8212; Nos templos do hero&iacute;smo. Sim, n&oacute;s temos,<\/p>\n<p>N&oacute;s temos mil exemplos. Muitos, muitos<\/p>\n<p>Que. h&aacute; s&eacute;culos, morreram pela p&aacute;tria,<\/p>\n<p>Na mem&oacute;ria dos homens inda vivem.<\/p>\n<p>Mas arriscar vassalos inocentes<\/p>\n<p>80 &#8212; &Agrave;s pedras que se soltam dos guindastes<\/p>\n<p>E aos montes de pi&ccedil;arra que desabam<\/p>\n<p>Nos fundos alicerces, sem vencerem,<\/p>\n<p>Nem como jornaleiros t&ecirc;nue paga;<\/p>\n<p>P&ocirc;-los, ainda em cima, na figura<\/p>\n<p>85 &#8212; Dos indignos vassalos, que se julgam<\/p>\n<p>Em pena dos delitos, como escravos,<\/p>\n<p>Isto s&oacute; para erguer-se uma obra grande,<\/p>\n<p>Que outra, pequena, supre, &eacute; mais que injusto:<\/p>\n<p>&Eacute; uma das a&ccedil;&otilde;es que s&oacute; praticam<\/p>\n<p>90 &#8212; Aqueles torpes monstros, que nasceram<\/p>\n<p>Para serem, na terra, o mal de muitos.<\/p>\n<p>Dir&aacute;s tu, Doroteu, que o nosso chefe<\/p>\n<p>N&atilde;o quer que os inocentes se maltratem;<\/p>\n<p>Que o fero comandante &eacute; quem abusa<\/p>\n<p>95 &#8212; Dos poderes que tem. Prezado amigo,<\/p>\n<p>Quem ama a s&atilde; verdade busca os meios<\/p>\n<p>De a poder descobrir e o nosso chefe<\/p>\n<p>Despreza os meios de poder ach&aacute;-la.<\/p>\n<p>Qu&#8217;&eacute; deles, os processos, que nos mostram<\/p>\n<p>100 &#8212; A certeza dos crimes? Quais dos presos<\/p>\n<p>Os libelos das culpas contestaram?<\/p>\n<p>Quais foram os ju&iacute;zes, que inquiriram<\/p>\n<p>Por parte da defesa e quais patronos<\/p>\n<p>Disseram, de direito, sobre os fatos?<\/p>\n<p>105 &#8212; A santa lei do reino n&atilde;o consente<\/p>\n<p>Punir-se, Doroteu, aquele monstro<\/p>\n<p>Que &eacute; r&eacute;u de majestade, sem defesa.<\/p>\n<p>E podem ser punidos os vassalos<\/p>\n<p>Por a&eacute;reos insultos, sem se ouvirem<\/p>\n<p>110 &#8212; E sem outro processo, mais que o dito<\/p>\n<p>De um simples comandante, vil e n&eacute;scio?<\/p>\n<p>Um louco, Doroteu, faz mais, ainda,<\/p>\n<p>Do que nunca fizeram os monarcas;<\/p>\n<p>Faz mais que o pr&oacute;prio Deus, que Deus, querendo<\/p>\n<p>115 &#8212; Punir, em nossos pais, a culpa grave<\/p>\n<p>Primeiro lhes pediu, que lhe dissessem,<\/p>\n<p>Qual foi, do seu delito, a torpe causa.<\/p>\n<p>Passam, prezado amigo, de quinhentos<\/p>\n<p>Os presos que se ajuntam na cadeia.<\/p>\n<p>120 &#8212; Uns dormem encolhidos sobre a terra,<\/p>\n<p>Mal cobertos dos trapos, que molharam<\/p>\n<p>De dia, no trabalho. Os outros ficam,<\/p>\n<p>Ainda, mal sentados e descansam<\/p>\n<p>As pesadas cabe&ccedil;as sobre os bra&ccedil;os,<\/p>\n<p>125 &#8212; Em cima dos joelhos encruzados.<\/p>\n<p>O calor da esta&ccedil;&atilde;o e os maus vapores<\/p>\n<p>Que tantos corpos lan&ccedil;am, mui bem podem<\/p>\n<p>Empestar, Doroteu, extensos ares.<\/p>\n<p>A p&aacute;lida doen&ccedil;a aqui bafeja,<\/p>\n<p>130 &#8212; Batendo brandamente as negras asas.<\/p>\n<p>Aquele Doroteu, a quem penetra<\/p>\n<p>Este h&aacute;lito mortal, as for&ccedil;as perde,<\/p>\n<p>Tem dores de cabe&ccedil;a e, num instante.<\/p>\n<p>Abrasa-se em calor, de frio treme.<\/p>\n<p>135 &#8212; Fazem os seus deveres os afetos<\/p>\n<p>Do nosso gr&atilde;o tenente: amor e &oacute;dio.<\/p>\n<p>Aquele que, risonho, lhe trabalha<\/p>\n<p>Nas suas pr&oacute;prias obras, &eacute; mandado<\/p>\n<p>Curar-se &agrave; Santa Casa, como pobre.<\/p>\n<p>140 &#8212; Os outros s&atilde;o tratados como servos,<\/p>\n<p>Que fogem ao trabalho dos senhores,<\/p>\n<p>Para as correntes v&atilde;o, arrancam pedra<\/p>\n<p>E, quando algum fraqueia, o mau soldado<\/p>\n<p>D&aacute;-lhe um berro que atroa, a m&atilde;o levanta<\/p>\n<p>145 &#8212; E, nas costas, o relho descarrega.<\/p>\n<p>Ah! tu, piedade santa, agora, agora,<\/p>\n<p>Os teus ouvidos tapa e fecha os olhos?<\/p>\n<p>Ou foge desta terra, aonde um Nero,<\/p>\n<p>Aonde os seus sequazes, cada dia<\/p>\n<p>150 &#8212; Para o pranto te d&atilde;o motivos novos.<\/p>\n<p>O fogo, Doroteu, que vai moendo<\/p>\n<p>Depois de bem moer, a chama ateia<\/p>\n<p>E a mat&eacute;ria consome, em breve instante.<\/p>\n<p>Assim a podre febre que ro&iacute;a<\/p>\n<p>155 &#8212; Aos m&iacute;seros enfermos, pouco a pouco<\/p>\n<p>Erguendo, qual o fogo, a lavareda,<\/p>\n<p>&Agrave; for&ccedil;a do cansa&ccedil;o que resulta<\/p>\n<p>Do trabalho e do sol, consome e mata.<\/p>\n<p>Uns caem, com os pesos, que carregam<\/p>\n<p>160 &#8212; E das obras os tiram pios bra&ccedil;os<\/p>\n<p>Dos tristes companheiros; outros ficam<\/p>\n<p>Ali mesmo, nas obras, estirados.<\/p>\n<p>Acodem m&atilde;os piedosas: qual trabalha<\/p>\n<p>Por ver se pode abrir as grossas pegas<\/p>\n<p>165 &#8212; E qual o copo d&#8217;&aacute;gua lhes ministra,<\/p>\n<p>Que, fechados os dentes, j&aacute; n&atilde;o bebem.<\/p>\n<p>Uns as caras borrifam, outros tomam<\/p>\n<p>Os d&eacute;beis pulsos que, parando, fogem.<\/p>\n<p>Ah! n&atilde;o mais compaix&atilde;o! N&atilde;o mais desvelo!<\/p>\n<p>170 &#8212; O socorro chegou, mas foi mui tarde:<\/p>\n<p>Cobrem-se os membros de um suor j&aacute; frio,<\/p>\n<p>Os cheios peitos, arquejando, roncam<\/p>\n<p>E vertem umas l&aacute;grimas sentidas,<\/p>\n<p>Que s&oacute; lhes descem dos esquerdos olhos:<\/p>\n<p>175 &#8212; Amarela-se a cor, baceia a vista,<\/p>\n<p>O semblante se afila, o queixo afrouxa,<\/p>\n<p>Os gestos e os arrancos se suspendem;<\/p>\n<p>Nenhum mais bole, nenhum mais respira<\/p>\n<p>Assim, meu Doroteu, sem um rem&eacute;dio,<\/p>\n<p>180 &#8212; Sem fazerem despesas em um s&oacute; caldo,<\/p>\n<p>Sem s&aacute;bio diretor, sem sacramentos,<\/p>\n<p>Sem a vela na m&atilde;o, na dura terra<\/p>\n<p>Estes pobres acabam seus trabalhos.<\/p>\n<p>Que esperas, duro chefe, que n&atilde;o contas<\/p>\n<p>185 &#8212; &Agrave; corte os teus triunfos! Tu n&atilde;o podes<\/p>\n<p>Mandar alqueires dos an&eacute;is tirados<\/p>\n<p>Dos dedos que cortaste nas campanhas;<\/p>\n<p>Mas de algemas, de pegas e correntes,<\/p>\n<p>Podes mandar &agrave; corte imensos carros.<\/p>\n<p>190 &#8212; Tu podes&#8230; mas, amigo, n&atilde;o gastemos<\/p>\n<p>Todo o tempo em contar sentidas coisas,<\/p>\n<p>Fa&ccedil;amos menos triste a nossa hist&oacute;ria;<\/p>\n<p>Misturemos os casos, que magoam,<\/p>\n<p>Com sucessos, que sejam menos fortes.<\/p>\n<p>195 &#8212; N&atilde;o bastam, Doroteu, gal&eacute;s imensas,<\/p>\n<p>S&atilde;o outros mais socorros necess&aacute;rios<\/p>\n<p>Para crescerem as soberbas obras.<\/p>\n<p>Ordena o grande chefe, que os roceiros<\/p>\n<p>E outros quaisquer homens, que tiverem<\/p>\n<p>200 &#8212; Alguns bois de servi&ccedil;o, prontos mandem<\/p>\n<p>Os bois e mais os negros que os governem,<\/p>\n<p>Durante uma semana de trabalho.<\/p>\n<p>Ordena, ainda mais, que, neste tempo,<\/p>\n<p>N&atilde;o recebam jornal, antes, que tragam<\/p>\n<p>205 &#8212; O milho, para os bois, dos seus celeiros.<\/p>\n<p>Que &eacute; isto, Doroteu, abriste a boca?<\/p>\n<p>Ficaste embasbacado? N&atilde;o supunhas<\/p>\n<p>Que o nosso grande chefe se sa&iacute;sse<\/p>\n<p>Com uma t&atilde;o formosa provid&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>210 &#8212; Nisto de economia &eacute; ele o mestre;<\/p>\n<p>Est&aacute; para compor uma obra, aonde<\/p>\n<p>Quer o modo ensinar, de n&atilde;o gastarem<\/p>\n<p>As tropas coisa alguma, no sustento.<\/p>\n<p>Deus o deixe viver, at&eacute; que chegue<\/p>\n<p>215 &#8212; A p&ocirc;-la, Doroteu, no mesmo estado<\/p>\n<p>Em que est&atilde;o os volumes, onde existem<\/p>\n<p>Os despachos, que deu, no seu governo.<\/p>\n<p>Ora, ouve ainda mais, atende e pasma.<\/p>\n<p>Para se sustentarem os for&ccedil;ados<\/p>\n<p>220 &#8212; Os g&ecirc;neros se compram, com bilhetes<\/p>\n<p>Que paga o tesoureiro, quando pode;<\/p>\n<p>E sobre esta fian&ccedil;a inda se tomam<\/p>\n<p>Por muito menos pre&ccedil;o do que correm.<\/p>\n<p>As tropas, que carregam mantimentos.<\/p>\n<p>225 &#8212; Apenas descarregam, v&atilde;o, de gra&ccedil;a,<\/p>\n<p>&Agrave; distante caieira, com soldados<\/p>\n<p>Buscar queimada pedra. Daqui nasce<\/p>\n<p>Os tropeiros fugirem e chorarmos<\/p>\n<p>A grande carestia do sustento.<\/p>\n<p>230 &#8212; Responde, louco chefe, se tu podes<\/p>\n<p>Tais viol&ecirc;ncias fazer. N&atilde;o era menos<\/p>\n<p>Lan&ccedil;ares sobre os povos um tributo?<\/p>\n<p>Os homens que t&ecirc;m carros e os que vivem<\/p>\n<p>De v&iacute;veres venderem s&atilde;o, acaso,<\/p>\n<p>235 &#8212; Aos mais inferiores nos direitos?<\/p>\n<p>Esta cadeia &eacute; sua, porque deva<\/p>\n<p>Sobre eles carregar tamanho peso?<\/p>\n<p>E o povo, quando compra tudo caro,<\/p>\n<p>N&atilde;o paga ainda mais, do que pagara<\/p>\n<p>240 &#8212; Se um m&oacute;dico tributo se lan&ccedil;asse,<\/p>\n<p>&Agrave; propor&ccedil;&atilde;o dos bens de cada membro?<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, quem rege os povos<\/p>\n<p>Deve ler, de cont&iacute;nuo, os doutos livros<\/p>\n<p>E deve s&oacute; tratar com s&aacute;bios homens. ;<\/p>\n<p>245 &#8212; Aquele que consome as largas horas<\/p>\n<p>Em falar com os n&eacute;scios e peraltas,<\/p>\n<p>Em meter entre as pernas os perfumes,<\/p>\n<p>Em concertar as pontas dos lencinhos,<\/p>\n<p>N&atilde;o nasceu para as coisas que s&atilde;o grandes,<\/p>\n<p>250 &#8212; Que. nestas bagatelas, n&atilde;o consomem<\/p>\n<p>O tempo proveitoso as nobres almas.<\/p>\n<p>Quem n&atilde;o quer, Doroteu, mandar o carro,<\/p>\n<p>Co&#8217;o famoso tenente se concerta.<\/p>\n<p>Onde vai tal dinheiro ningu&eacute;m sabe;<\/p>\n<p>255 &#8212; S&oacute; sabemos mui bem, que o bom tenente<\/p>\n<p>Sem ter outro neg&oacute;cio, que lhe renda,<\/p>\n<p>De pingante, passou a potentado.<\/p>\n<p>Sabemos tamb&eacute;m mais&#8230; por&eacute;m, amigo,<\/p>\n<p>O falar nestas coisas j&aacute; me enfada.<\/p>\n<p>260 &#8212; Omito outros sucessos, que lastimo,<\/p>\n<p>E fecho, Doroteu, a minha carta,<\/p>\n<p>Com um maravilhoso, estranho caso.<\/p>\n<p>Distante nove l&eacute;guas desta terra<\/p>\n<p>H&aacute; uma grande ermida, que se chama<\/p>\n<p>265 &#8212; Senhor de Matozinhos: este templo<\/p>\n<p>Os devotos fi&eacute;is a si convoca<\/p>\n<p>Por sua arquitetura, pelo s&iacute;tio<\/p>\n<p>E, ainda muito mais, pelos prod&iacute;gios<\/p>\n<p>Com que Deus enobrece a santa imagem.<\/p>\n<p>270 &#8212; Este famoso templo tem um carro,<\/p>\n<p>Comprado com esmolas, que carrega<\/p>\n<p>As pedras e madeiras, que ainda faltam.<\/p>\n<p>O comandante austero notifica<\/p>\n<p>A veneranda imagem, na pessoa<\/p>\n<p>275 &#8212; Do zeloso ermit&atilde;o, para que mande<\/p>\n<p>O carro, com os bois, servir nas obras<\/p>\n<p>Mal lhe couber o turno da semana.<\/p>\n<p>Faz-se uma peti&ccedil;&atilde;o ao nosso chefe<\/p>\n<p>Em nome do Senhor, em que se alega<\/p>\n<p>280 &#8212; Que o carro, que ele tem, se ocupa, ainda,<\/p>\n<p>Na pia constru&ccedil;&atilde;o da sua casa;<\/p>\n<p>Que ele, Cristo, n&atilde;o tem nenhumas rendas<\/p>\n<p>Sen&atilde;o esmolas t&ecirc;nues, que s&oacute; devem<\/p>\n<p>Gastar-se no seu templo e no seu culto,<\/p>\n<p>285 &#8212; Conforme as inten&ccedil;&otilde;es de quem as pede.<\/p>\n<p>Apenas viu o chefe o pedit&oacute;rio,<\/p>\n<p>Quis ao Cristo mandar, que lhe ajuntasse<\/p>\n<p>O t&iacute;tulo que tinha, porque estava<\/p>\n<p>Isento de pagar os seus impostos:<\/p>\n<p>290 &#8212; Que ele sabe mui bem que o mesmo Cristo<\/p>\n<p>Mandou ao velho Pedro, que pagasse<\/p>\n<p>A C&eacute;sar, os tributos, em seu nome.<\/p>\n<p>E Cristo, figurado em uma imagem<\/p>\n<p>N&atilde;o tem mais isen&ccedil;&otilde;es, que teve o pr&oacute;prio.<\/p>\n<p>295 &#8212; Pegava o seu Mat&uacute;sio j&aacute; na pena,<\/p>\n<p>Quando lembra, ao bom chefe, o que decretam<\/p>\n<p>Os c&acirc;nones da igreja, que concedem<\/p>\n<p>Que. para se fazerem obras pias,<\/p>\n<p>At&eacute; os sacros vasos se alienem.<\/p>\n<p>300 &#8212; Infere daqui logo, que este carro<\/p>\n<p>N&atilde;o goza de isen&ccedil;&atilde;o, porque, suposto<\/p>\n<p>Se possa numerar nos bens da igreja,<\/p>\n<p>Conforme as Decretais at&eacute; podia,<\/p>\n<p>Neste caso, vender-se, por ser obra<\/p>\n<p>305 &#8212; Mais pia do que todas, a cadeia.<\/p>\n<p>Lan&ccedil;a m&atilde;o ele mesmo, ent&atilde;o, da pena<\/p>\n<p>E p&otilde;e na peti&ccedil;&atilde;o um &#8212; escusado &#8212;<\/p>\n<p>Com uns rabiscos tais, que ningu&eacute;m sabe<\/p>\n<p>Ao menos conhecer-lhe uma s&oacute; letra.<\/p>\n<p>310 &#8212; Agora dir&aacute; tu: &quot;meu bom Critilo,<\/p>\n<p>N&atilde;o se isentar a Cristo desse imposto<\/p>\n<p>Foi um grande tes&atilde;o, mas necess&aacute;rio,<\/p>\n<p>Por n&atilde;o se abrir a porta a maus exemplos.<\/p>\n<p>Antes o Santo Cristo &eacute; que devia<\/p>\n<p>315 &#8212; Mandar o carro logo, como Mestre<\/p>\n<p>Da sublime Virtude e, desta sorte,<\/p>\n<p>Obrou o mesmo Cristo, em outro tempo,<\/p>\n<p>Mandando que pagasse Pedro a C&eacute;sar<\/p>\n<p>O tributo, por ele, quando estava,<\/p>\n<p>320 &#8212; Por um dos filhos ser mui bem isento.<\/p>\n<p>Mas se esse Santo Cristo n&atilde;o podia<\/p>\n<p>Por dias dispensar os bois e carro,<\/p>\n<p>Porque n&atilde;o se valeu do tal Mat&uacute;sio,<\/p>\n<p>Do poeta Rob&eacute;rio e de outros trastes,<\/p>\n<p>325 &#8212; Por quem aqui se conta, que pratica<\/p>\n<p>O grande Fanfarr&atilde;o os seus milagres ?&quot;<\/p>\n<p>Tu instas, Doroteu, qual o mestra&ccedil;o<\/p>\n<p>Quando, por defender a sua escola,<\/p>\n<p>Arrega&ccedil;ando o bra&ccedil;o, o p&eacute; batendo<\/p>\n<p>330 &#8212; E enchendo as cordoveias, grita e ralha.<\/p>\n<p>Mas eu, prezado amigo, com bem pouco<\/p>\n<p>Te boto esse argumento todo abaixo.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar o Santo Cristo<\/p>\n<p>&Eacute; homem muito s&eacute;rio, e por ser s&eacute;rio,<\/p>\n<p>335 &#8212; N&atilde;o tem com essa gente um leve trato;<\/p>\n<p>Em segundo lugar &eacute; muito pobre.<\/p>\n<p>S&oacute; d&aacute; aos seus devotos indulg&ecirc;ncias<\/p>\n<p>Com anos de perd&atilde;o e, destas drogas,<\/p>\n<p>N&atilde;o fazem tais validos nenhum caso.<\/p>\n<p>340 &#8212; Ora pois, louco chefe, vai seguindo<\/p>\n<p>A tua pertens&atilde;o, trabalha, e for&ccedil;a<\/p>\n<p>Por fazer imortal a tua fama.<\/p>\n<p>Levanta um edif&iacute;cio em tudo grande,<\/p>\n<p>Um soberbo edif&iacute;cio, que desperte<\/p>\n<p>345 &#8212; A dura emula&ccedil;&atilde;o na pr&oacute;pria Roma.<\/p>\n<p>Em cirna das janelas e das portas<\/p>\n<p>P&otilde;e s&aacute;bias inscri&ccedil;&otilde;es, p&otilde;e grandes bustos,<\/p>\n<p>Que eu lhes porei, por baixo, os tristes nomes<\/p>\n<p>Dos pobres inocentes, que gemeram<\/p>\n<p>350 &#8212; Ao peso dos grilh&otilde;es, porei os ossos<\/p>\n<p>Daqueles que os seus dias acabaram,<\/p>\n<p>Sem Cristo e sem rem&eacute;dios, no trabalho.<\/p>\n<p>E n&oacute;s, indigno chefe, e n&oacute;s veremos<\/p>\n<p>A quais destes padr&otilde;es n&atilde;o gasta o tempo.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">CARTA 5&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se contam as desordens feitas nas festas que se celebraram nos despos&oacute;rios<br \/>\n    do nosso seren&iacute;ssimo infante, com a seren&iacute;ssima infanta de Portugal.<\/p>\n<p>Tu j&aacute; tens, Doroteu, ouvido hist&oacute;rias<\/p>\n<p>Que podem comover a triste pranto .<\/p>\n<p>Os secos olhos dos cru&eacute;is Ulisses.<\/p>\n<p>Agora, Doroteu, enxuga o rosto,<\/p>\n<p>5 &#8212; Que eu passo a relatar-te coisas lindas.<\/p>\n<p>Ouvir&aacute;s uns sucessos, que te obriguem<\/p>\n<p>A soltar gargalhadas descompostas.<\/p>\n<p>Por mais que a boca, com a m&atilde;o, apertes,<\/p>\n<p>Por mais que os bei&ccedil;os, j&aacute; convulsos, mordas,<\/p>\n<p>10 &#8212; Eu creio, Doutor&#8230; Por&eacute;m aonde<\/p>\n<p>Me leva, t&atilde;o errado, o meu discurso?<\/p>\n<p>N&atilde;o esperes, amigo, n&atilde;o esperes,<\/p>\n<p>Por mais galantes casos que te conte,<\/p>\n<p>Mostrar no teu semblante um ar de riso.<\/p>\n<p>15 &#8212; Os grandes desconcertos, que executam<\/p>\n<p>Os homens que governam, s&oacute; motivam,<\/p>\n<p>Na pessoa composta, horror e t&eacute;dio.<\/p>\n<p>Quem pode, Doroteu, zombar, contente,<\/p>\n<p>Do C&eacute;sar dos romanos, que gastava<\/p>\n<p>20 &#8212; As horas, em ca&ccedil;ar imundas moscas?<\/p>\n<p>Apenas isto lemos, o discurso<\/p>\n<p>Se aflige, na certeza de que um C&eacute;sar,<\/p>\n<p>De esp&iacute;ritos t&atilde;o baixos, n&atilde;o podia<\/p>\n<p>Obrar um fato bom, no seu governo.<\/p>\n<p>25 &#8212; N&atilde;o esperes, amigo, n&atilde;o esperes<\/p>\n<p>Mostrar no teu semblante um ar de riso;<\/p>\n<p>Espera, quando muito, ler meus versos,<\/p>\n<p>Sem que molhe o papel amargo pranto,<\/p>\n<p>Sem que rompa a leitura alguns suspiros.<\/p>\n<p>30 &#8212; Chegou &agrave; nossa Chile a doce nova<\/p>\n<p>De que real infante recebera,<\/p>\n<p>Bem digna de seu leito, casta esposa.<\/p>\n<p>Reveste-se o bax&aacute; de um g&ecirc;nio alegre<\/p>\n<p>E, para bem fartar os seus desejos<\/p>\n<p>35 &#8212; Quer que, a despesas do senado e povo,<\/p>\n<p>Arda em grandes festins a terra toda.<\/p>\n<p>Escreve-se ao senado extensa carta<\/p>\n<p>Em ar de majestade, em frase moura,<\/p>\n<p>E nela se lhe ordena, que prepare,<\/p>\n<p>40 &#8212; Ao gosto das Espanhas, bravos touros;<\/p>\n<p>Ordena-se, tamb&eacute;m, que, nos teatros,<\/p>\n<p>Os tr&ecirc;s mais belos dramas se estropiem<\/p>\n<p>Repetidos por bocas de mulatos;<\/p>\n<p>N&atilde;o esquecem, enfim, as cavalhadas.<\/p>\n<p>45 &#8212; S&oacute; fica, Doroteu, no livre arb&iacute;trio<\/p>\n<p>Dos pobres camaristas, repartirem<\/p>\n<p>Bilhetes de convites, pelas damas.<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, ah! tu n&atilde;o podes<\/p>\n<p>Pesar o desconcerto desta carta,<\/p>\n<p>50 &#8212; Enquanto n&atilde;o souberes a lei pr&oacute;pria<\/p>\n<p>Que. aos festejos reais, prescreve a norma.<\/p>\n<p>Enquanto, Doroteu, a nossa Chile<\/p>\n<p>Em toda parte tinha, &agrave; flor da terra,<\/p>\n<p>Extensas e abundantes minas de ouro,<\/p>\n<p>55 &#8212; Enquanto os taberneiros ajuntavam<\/p>\n<p>Imenso cabedal, em poucos anos,<\/p>\n<p>Sem terem, nas tabernas fedorentas,<\/p>\n<p>Outros mais sortimentos, que n&atilde;o fossem<\/p>\n<p>Os queijos, a cacha&ccedil;a, o negro fumo<\/p>\n<p>60 &#8212; E sobre as parteleiras poucos frascos,<\/p>\n<p>Enquanto, enfim, as negras quitandeiras,<\/p>\n<p>&Agrave; custa dos amigos, s&ocirc; trajavam<\/p>\n<p>Vermelhas capas de gal&otilde;es cobertas,<\/p>\n<p>De galac&eacute;s e tissos ricas saias,<\/p>\n<p>65 &#8212; Ent&atilde;o, prezado amigo, em qualquer festa<\/p>\n<p>Tirava, liberal, o bom senado,<\/p>\n<p>Dos cofres chapeados, grossas barras.<\/p>\n<p>Chegaram tais despesas &agrave; not&iacute;cia<\/p>\n<p>Do rei prudente, que a virtude preza.<\/p>\n<p>70 &#8212; E, vendo que estas rendas se gastavam<\/p>\n<p>Em touros, cavalhadas e com&eacute;dias,<\/p>\n<p>Aplicar-se podendo a coisas santas,<\/p>\n<p>Ordena, providente, que os senados,<\/p>\n<p>Nos dias em que devem mostrar gosto<\/p>\n<p>75 &#8212; Pelas reais fortunas, se moderem<\/p>\n<p>E s&oacute; fa&ccedil;am cantar, no templo, os hinos<\/p>\n<p>Com que se d&atilde;o aos c&eacute;us as justas gra&ccedil;as.<\/p>\n<p>Ah ! meu bom Doroteu, que feliz fora<\/p>\n<p>Esta vasta conquista, se os seus chefes<\/p>\n<p>80 &#8212; Com as leis dos monarcas se ajustaram!<\/p>\n<p>Mas alguns n&atilde;o presumem ser vassalos,<\/p>\n<p>S&oacute; julgam que os decretos dos augustos<\/p>\n<p>T&ecirc;m for&ccedil;a de decretos, quando ligam<\/p>\n<p>Os bra&ccedil;os dos mais homens, que eles mandam.<\/p>\n<p>85 &#8212; Mas nunca quando ligam os seus bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>Com esta s&aacute;bia lei replica o corpo<\/p>\n<p>Dos pobres senadores e pondera<\/p>\n<p>Que o severo juiz, que as contas toma,<\/p>\n<p>Lhes n&atilde;o h&aacute;-de aprovar t&atilde;o grandes gastos.<\/p>\n<p>90 &#8212; Da sorte, Doroteu, que o bravo potro<\/p>\n<p>Quando a sela recebe a vez primeira.<\/p>\n<p>Enquanto n&atilde;o sacode a sela fora<\/p>\n<p>E faz em dois peda&ccedil;os cilha e r&eacute;dea.<\/p>\n<p>Mete entre os duros bra&ccedil;os a cabe&ccedil;a<\/p>\n<p>95 &#8212; E d&aacute;, saltando aos ares, mil corcovos.<\/p>\n<p>Assim o irado chefe n&atilde;o atura<\/p>\n<p>O freio desta lei, espuma brama,<\/p>\n<p>Arrepela o cabelo, a barba torce<\/p>\n<p>E, enquanto entende que o senado zela<\/p>\n<p>100 &#8212; Mais as leis, que o seu gosto, n&atilde;o descansa<\/p>\n<p>Aos tristes senadores n&atilde;o responde,<\/p>\n<p>Mas manda-lhes dizer que, a n&atilde;o fazerem<\/p>\n<p>Os pomposos festejos, se preparem<\/p>\n<p>Para serem os guardas dos for&ccedil;ados,<\/p>\n<p>105 &#8212; Trocando as varas em chicote e relho.<\/p>\n<p>J&aacute; viste, Doroteu, que o grande chefe,<\/p>\n<p>O defensor das leis, o mesmo seja<\/p>\n<p>Que insulte, que ameace ao bom vassalo<\/p>\n<p>Que intenta obedecer ao seu monarca ?<\/p>\n<p>110 &#8212; Pois ainda, Doroteu, n&atilde;o viste nada.<\/p>\n<p>Um monstro, um monstro destes n&atilde;o conhece<\/p>\n<p>Que exista algum maior que, ousado, possa<\/p>\n<p>Ou na terra ou no c&eacute;u, tomar-lhe conta.<\/p>\n<p>Infeliz, Doroteu, de quem habita<\/p>\n<p>115 &#8212; Conquistas do seu dono t&atilde;o remotas!<\/p>\n<p>Aqui o povo geme e os seus gemidos<\/p>\n<p>N&atilde;o podem, Doroteu, chegar ao trono.<\/p>\n<p>E se chegam, sucede quase sempre<\/p>\n<p>O mesmo que sucede nas tormentas,<\/p>\n<p>120 &#8212; Aonde o leve barco se sossobra<\/p>\n<p>Aonde a grande nau resiste ao vento.<\/p>\n<p>Que peito, Doroteu, que peito pode<\/p>\n<p>Constante, persistir nos s&atilde;os projetos,<\/p>\n<p>Ouvindo as amea&ccedil;as do tirano<\/p>\n<p>125 &#8212; E, junto j&aacute; de si, o som dos ferros?<\/p>\n<p>Somente, Doroteu, os homens santos<\/p>\n<p>Que a sua lei defendem, v&ecirc;em os potros,<\/p>\n<p>V&ecirc;em cruzes, cadafalsos e cutelos<\/p>\n<p>Com rosto sossegado, os outros homens<\/p>\n<p>130 &#8212; N&atilde;o podem, Doroteu, n&atilde;o podem tanto.<\/p>\n<p>&Agrave; for&ccedil;a de temor o bom senado<\/p>\n<p>Const&acirc;ncia j&aacute; n&atilde;o tem; afrouxa e cede.<\/p>\n<p>Somente se disputa sobre o modo<\/p>\n<p>De ajuntar-se o dinheiro, com que possa<\/p>\n<p>135 &#8212; Suprir tamanho gasto o grande Alberga.<\/p>\n<p>Uns dizem que, das rendas do senado,<\/p>\n<p>Tiradas as despesas, nada sobra.<\/p>\n<p>Os outros acrescentam, que se devem<\/p>\n<p>Parcelas numerosas, impag&aacute;veis<\/p>\n<p>140 &#8212; &Agrave;s consternadas amas dos expostos.<\/p>\n<p>Uns ralham, outros ralham, mas que importa?<\/p>\n<p>Todos arb&iacute;trios d&atilde;o, nenhum acerta.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o o grande Alberga, que preside,<\/p>\n<p>Vendo esta confus&atilde;o, na mesma bate<\/p>\n<p>145 &#8212; E, levantando a voz, pausada e forte,<\/p>\n<p>A importante quest&atilde;o assim decide:<\/p>\n<p>&quot;H&aacute; dinheiro, senhores, h&aacute; dinheiro;<\/p>\n<p>Vendam-se os casti&ccedil;ais, tinteiro e bancos,<\/p>\n<p>Venda-se o pr&oacute;prio pano e mesa velha,<\/p>\n<p>150 &#8212; Quando isto n&atilde;o baste, h&aacute; bom rem&eacute;dio,<\/p>\n<p>As fazendas se tomem, n&atilde;o se paguem<\/p>\n<p>E, para autorizardes esta ind&uacute;stria,<\/p>\n<p>Eu vos dou, cidad&atilde;os, o meu exemplo&quot;.<\/p>\n<p>Intentam replicar-lhe os camaristas,<\/p>\n<p>155 &#8212; A t&atilde;o baixos calotes nunca afeitos.<\/p>\n<p>Mas ele, que n&atilde;o sofre mais inst&acirc;ncias,<\/p>\n<p>As grossas sobrancelhas arqueando,<\/p>\n<p>Desta sorte prossegue, em tom azedo:<\/p>\n<p>&quot;Se os meus santos conselhos se desprezam,<\/p>\n<p>160 &#8212; Depressa vou dar parte ao nosso chefe.<\/p>\n<p>Ah! pobres cidad&atilde;os, se assim o fa&ccedil;o!<\/p>\n<p>J&aacute; se me representa que vos sinto<\/p>\n<p>Gemer, debaixo dos pesados ferros.&quot;<\/p>\n<p>S&oacute; tu, maroto Alberga, s&oacute; tu podes<\/p>\n<p>165 &#8212; Desta sorte falar aos teus colegas!<\/p>\n<p>Que importa que os acuses e que importa<\/p>\n<p>Que os prenda, com grilh&otilde;es, o duro chefe?<\/p>\n<p>S&atilde;o ferros estes, ferros muito honrados,<\/p>\n<p>Que a honra s&oacute; consiste na inoc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>170 &#8212; Apenas, Doroteu, o vil Alberga<\/p>\n<p>Fala em queixa fazer ao nosso chefe,<\/p>\n<p>De susto os camaristas nem respiram,<\/p>\n<p>Quais chorosos meninos, que emudecem<\/p>\n<p>Quando as amas lhes dizem: cala, cala,<\/p>\n<p>175 &#8212; Que la vem o tutu que papa a gente.<\/p>\n<p>Mandam-se apregoar as grandes festas,<\/p>\n<p>Acompanha ao preg&atilde;o luzida tropa<\/p>\n<p>De velhos senadores. Estes trajam,<\/p>\n<p>Ao modo cortes&atilde;o, chap&eacute;us de plumas,<\/p>\n<p>180 &#8212; Capas com bandas de vistosas sedas.<\/p>\n<p>Chega enfim o dia suspirado,<\/p>\n<p>O dia do festejo. Todos correm<\/p>\n<p>Com rostos de alegria ao santo templo.<\/p>\n<p>Celebra o velho bispo a grande missa,<\/p>\n<p>185 &#8212; Por&eacute;m o s&aacute;bio chefe n&atilde;o lhe assiste<\/p>\n<p>Debaixo do espaldar, ao lado esquerdo:<\/p>\n<p>Para a tribuna sobe e ali se assenta.<\/p>\n<p>Uns dizem, Doroteu, fugiu prudente,<\/p>\n<p>Por n&atilde;o ver assentados os padrecos<\/p>\n<p>190 &#8212; Na capela maior, acima dele.<\/p>\n<p>Os outros sabich&otilde;es, que a causa indagam,<\/p>\n<p>Discorrem que o senado lhe devia<\/p>\n<p>Erguer, no presbit&eacute;rio, dossel branco,<\/p>\n<p>Em honra dele ser Lugar Tenente.<\/p>\n<p>195 &#8212; Mas eu com estes votos n&atilde;o concordo,<\/p>\n<p>E julgo, afoito, que a raz&atilde;o foi esta:<\/p>\n<p>Porque estando patente e tendo posto<\/p>\n<p>O seu chap&eacute;u em cima da cadeira,<\/p>\n<p>Pudera duvidar-se se devia<\/p>\n<p>200 &#8212; O bispo ter a mitra na cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>Acaba-se a fun&ccedil;&atilde;o e o nosso chefe<\/p>\n<p>&Agrave; casa, com o bispo se recolhe.<\/p>\n<p>A nobreza da terra os acompanha<\/p>\n<p>At&eacute; que montam a dourada sege.<\/p>\n<p>205 &#8212; Aqui, meu Doroteu, o chefe mostra<\/p>\n<p>O seu desembara&ccedil;o e o seu talento!<\/p>\n<p>S&oacute; numa fun&ccedil;&atilde;o destas se conhece<\/p>\n<p>Quem tem andado terras, onde habitam,<\/p>\n<p>Despidas dos abusos, s&aacute;bias gentes !<\/p>\n<p>210 &#8212; Vai passando por todos, sem que abaixe<\/p>\n<p>A emproada cabe&ccedil;a, qual mandante<\/p>\n<p>Que passa pelo meio das fileiras.<\/p>\n<p>Chega junto da sege, &agrave; sege sobe<\/p>\n<p>E da parte direita toma assento.<\/p>\n<p>215 &#8212; O bispo, o velho bispo atr&aacute;s caminha.<\/p>\n<p>Em ar de quem se teme da desfeita.<\/p>\n<p>Com passos vagarosos chega &agrave; sege.<\/p>\n<p>Encaixa na estribeira o p&eacute; cansado<\/p>\n<p>E duas vezes por subir forceja.<\/p>\n<p>220 &#8212; Acodem alguns padres respeitosos<\/p>\n<p>E, por baixo dos bra&ccedil;os, o sustentam.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, com mais alento, o corpo move<\/p>\n<p>D&aacute; o terceiro arranco, o salto vence<\/p>\n<p>E, sem poder soltar uma palavra,<\/p>\n<p>225 &#8212; Ora vermelho ora amarelo fica,<\/p>\n<p>Do nosso Fanfarr&atilde;o ao lado esquerdo.<\/p>\n<p>Agora dir&aacute;s tu: &quot;que bruto &eacute; esse?<\/p>\n<p>Pode haver um tal homem, que se atreva<\/p>\n<p>A p&ocirc;r na sua sege ao seu prelado<\/p>\n<p>230 &#8212; Da parte da bol&eacute;ia? Eu tal n&atilde;o creio.&quot;<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, est&aacute;s mui ginja,<\/p>\n<p>J&aacute; l&aacute; v&atilde;o os ran&ccedil;osos formul&aacute;rios<\/p>\n<p>Que guardavam &agrave; risca os nossos velhos.<\/p>\n<p>Em outro tempo, amigo, os homens s&eacute;rios<\/p>\n<p>235 &#8212; Na rua n&atilde;o andavam sem florete;<\/p>\n<p>Traziam cabeleira grande e branca.<\/p>\n<p>Nas m&atilde;os os seus chap&eacute;us. Agora, amigo,<\/p>\n<p>Os nossos pr&oacute;prios becas t&ecirc;m cabelo.<\/p>\n<p>Os grandes sem florete v&atilde;o &agrave; missa.<\/p>\n<p>240 &#8212; Com a chibata na m&atilde;o, chap&eacute;u fincado,<\/p>\n<p>Na forma em que passeiam os caixeiros.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m antigamente se sentava<\/p>\n<p>Sen&atilde;o direito e grave, nas cadeiras.<\/p>\n<p>Agora as mesmas damas atravessam<\/p>\n<p>245 &#8212; As pernas sobre as pernas. Noutro tempo<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m se retirava dos amigos,<\/p>\n<p>Sem que dissesse adeus. Agora &eacute; moda<\/p>\n<p>Sairmos dos congressos em segredo.<\/p>\n<p>Pois corre, Doroteu, &agrave; paridade,<\/p>\n<p>250 &#8212; Que os costumes se mudam com os tempos.<\/p>\n<p>Se os antigos fidalgos sempre davam<\/p>\n<p>O seu direito lado a qualquer padre,<\/p>\n<p>Acabou-se esta moda: o nosso chefe<\/p>\n<p>Vindica os seus direitos. V&ecirc; que o bispo<\/p>\n<p>255 &#8212; &Eacute; um grande que foi, h&aacute; pouco, frade<\/p>\n<p>E n&atilde;o pode ombrear com quem descende<\/p>\n<p>De um bravo patag&atilde;o que, sem desculpa,<\/p>\n<p>L&aacute; nos tempos de Ad&atilde;o j&aacute; era grande.<\/p>\n<p>Na tarde, Doroteu, do mesmo dia<\/p>\n<p>260 &#8212; Sai uma prociss&atilde;o, de poucos negros<\/p>\n<p>E padres revestidos, s&oacute; composta,<\/p>\n<p>Que os brancos e os mulatos se ocupavam<\/p>\n<p>Em guarnecer as ruas, pois que todos<\/p>\n<p>Ocupados est&atilde;o nas r&eacute;gias tropas.<\/p>\n<p>265 &#8212; Caminha o nosso chefe, todo Ad&ocirc;nis,<\/p>\n<p>Diante da bandeira do senado;<\/p>\n<p>Alguns dos rigoristas n&atilde;o lho aprovam,<\/p>\n<p>Dizendo que devia, respeitoso,<\/p>\n<p>Da maneira que sempre praticaram<\/p>\n<p>270 &#8212; Os seus antecessores, ir ao lado,<\/p>\n<p>Por ser esta bandeira um estandarte<\/p>\n<p>Onde tremulam, do seu reino, as armas.<\/p>\n<p>Mas eu n&atilde;o o censuro, antes lhe louvo<\/p>\n<p>A prud&ecirc;ncia que teve: pois supunha<\/p>\n<p>275 &#8212; Que, &agrave; vista do seu sangue e seu car&aacute;ter,<\/p>\n<p>Podia muito bem querer meter-se<\/p>\n<p>Debaixo, Doroteu, do pr&oacute;prio p&aacute;lio.<\/p>\n<p>Que destras evolu&ccedil;&otilde;es n&atilde;o fez a tropa!<\/p>\n<p>Uns ficam, ao passar o sacramento,<\/p>\n<p>280 &#8212; Com as suas barretinas nas cabe&ccedil;as,<\/p>\n<p>Os outros se descobrem e ajoelham<\/p>\n<p>E, enquanto n&atilde;o se avan&ccedil;a o nosso chefe<\/p>\n<p>Prostrados se conservam e, devotos,<\/p>\n<p>N&atilde;o cessam de ferir os brandos peitos.<\/p>\n<p>285 &#8212; Ah! grande general! com esta tropa<\/p>\n<p>Tu podes conquistar o mundo inteiro!<\/p>\n<p>Foram muitos felices os Lorenas,<\/p>\n<p>Os Cond&eacute;s, os Eug&ecirc;nios e outros muitos,<\/p>\n<p>Em tu n&atilde;o floresceres nos seus tempos.<\/p>\n<p>290 &#8212; Meu caro Doroteu, os sapateiros<\/p>\n<p>Entendem do seu couro, os mercadores<\/p>\n<p>Entendem de fazenda, os alfaiates<\/p>\n<p>Entendem de vestidos, enfim todos<\/p>\n<p>Podem bem entender dos seus of&iacute;cios.<\/p>\n<p>295 &#8212; Por&eacute;m querer o chefe que se formem<\/p>\n<p>Disciplinadas tropas de tendeiros,<\/p>\n<p>De mo&ccedil;os de taberna, de rapazes<\/p>\n<p>E bisonhos roceiros, &eacute; del&iacute;rio,<\/p>\n<p>Que o soldado n&atilde;o fica bom soldado<\/p>\n<p>300 &#8212; Somente porque veste a curta farda,<\/p>\n<p>Porque limpa as correias, tinge as botas<\/p>\n<p>E, com trapos, engrossa o seu rabicho.<\/p>\n<p>A negra noite em dia se converte<\/p>\n<p>&Agrave; for&ccedil;a das tigelas e das tochas<\/p>\n<p>305 &#8212; Que em grande c&oacute;pia nas janelas ardem.<\/p>\n<p>Aqui o bom Rob&eacute;rio se distingue:<\/p>\n<p>Comp&otilde;e algumas quadras, que batiza<\/p>\n<p>Com o distinto nome de epigramas<\/p>\n<p>E pedante rendeiro as dependura<\/p>\n<p>310 &#8212; Na dilatada frente, que ilumina,<\/p>\n<p>Fazendo-as escrever em lindas tarjas.<\/p>\n<p>Ran&ccedil;oso e mau poeta, n&atilde;o nasceste<\/p>\n<p>Para cantar her&oacute;is, nem coisas grandes!<\/p>\n<p>Se te queres moldar aos teus talentos,<\/p>\n<p>315 &#8212; Em tosca frase do pa&iacute;s somente<\/p>\n<p>Escreve trovas, que os mulatos cantem.<\/p>\n<p>Andava, Doroteu, alegre a gente<\/p>\n<p>Em bandos pelas ruas. Ent&atilde;o vejo<\/p>\n<p>Ao famoso Roqu&eacute;rio neste traje:<\/p>\n<p>320 &#8212; As chinelas nos p&eacute;s, descal&ccedil;a a perna<\/p>\n<p>Um chap&eacute;u muito velho na cabe&ccedil;a,<\/p>\n<p>E, fora dos cal&ccedil;&otilde;es, a porca fralda.<\/p>\n<p>Em um roto capote mal se embrulha<\/p>\n<p>E grande varapau na m&atilde;o sustenta,<\/p>\n<p>325 &#8212; Que mais de estorvo que de arrimo serve,<\/p>\n<p>Pois a cacha&ccedil;a ardente, que o alegra,<\/p>\n<p>Lhe tira as for&ccedil;as dos robustos membros<\/p>\n<p>E p&otilde;e-lhe peso, na cabe&ccedil;a leve.<\/p>\n<p>N&atilde;o repares, amigo, que te conte<\/p>\n<p>330 &#8212; Este sucesso, que parece estranho:<\/p>\n<p>Este grande Roqu&eacute;rio &eacute; um daqueles<\/p>\n<p>Que assenta, &agrave; sua mesa, o nosso chefe.<\/p>\n<p>Agora, amigo, v&ecirc; se esta pintura<\/p>\n<p>N&atilde;o pode muito bem &agrave; nossa historia,<\/p>\n<p>335 &#8212; Sem viol&ecirc;ncia, servir, tamb&eacute;m, de enfeite.<\/p>\n<p>Fiquemos, Doroteu, aqui, por ora,<\/p>\n<p>Pois, de tanto escrever, a m&atilde;o j&aacute; cansa.<\/p>\n<p>Em outra contarei o mais, que resta<\/p>\n<p>E vi no gr&atilde;o passeio e mais no curro,<\/p>\n<p>340 &#8212; Aonde as cavalhadas se fizeram,<\/p>\n<p>Aonde os maus capinhas maltrataram,<\/p>\n<p>Em vez de touros, mansos bois e vacas.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">CARTA 6&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se conta o resto dos festejos.<\/p>\n<p>Eu ontem, Doroteu, fechei a carta<\/p>\n<p>Em que te relatei da igrej&aacute;ja as festas .<\/p>\n<p>E como trabalhava, por lembrar-me<\/p>\n<p>Do resto dos festejos mal descal&ccedil;o<\/p>\n<p>5 &#8212; Na cama, os lassos membros, me parece<\/p>\n<p>Que vou entrando na formosa pra&ccedil;a.<\/p>\n<p>N&atilde;o vejo, Doroteu, um curro feito<\/p>\n<p>De peda&ccedil;os informes de outros curros<\/p>\n<p>Sim vejo o mesmo curro, que o bom chefe<\/p>\n<p>10 &#8212; Riscou na seca praia, e nele vejo<\/p>\n<p>As mesmas arma&ccedil;&otilde;es, as mesmas caras.<\/p>\n<p>Ora vou, doce amigo, aqui pint&aacute;-lo<\/p>\n<p>Na frente se levanta um camarote<\/p>\n<p>Mais alto do que todos uma bra&ccedil;a:<\/p>\n<p>15 &#8212; Enfeitam seu prospecto lindas colchas<\/p>\n<p>E pendentes cortinas de damasco.<\/p>\n<p>&Agrave; direita se assenta o nosso chefe;<\/p>\n<p>Os r&eacute;gios magistrados n&atilde;o o cercam,<\/p>\n<p>Nem o cerca, tamb&eacute;m, o nobre corpo.<\/p>\n<p>20 &#8212; Dos velhos cidad&atilde;os, aquele mesmo<\/p>\n<p>Que faz de toda a festa os grandes gastos.<\/p>\n<p>Com ele s&oacute; se assenta a sua corte,<\/p>\n<p>Que toda se comp&otilde;e de novos Martes.<\/p>\n<p>Aqui alguns conhe&ccedil;o, que inda vivem<\/p>\n<p>25 &#8212; De darem o sustento, o quarto, a roupa.<\/p>\n<p>E capim para a besta, a quem viaja.<\/p>\n<p>Conhe&ccedil;o, finalmente, a outros muitos<\/p>\n<p>Que foram almocreves e tendeiros.<\/p>\n<p>Que foram alfaiates e Fizcram.<\/p>\n<p>30 &#8212; Puxando a dente o couro, bem sapatos<\/p>\n<p>Agora, doce amigo, n&atilde;o te rias<\/p>\n<p>De veres que estes s&atilde;o aqueles grandes<\/p>\n<p>Que. em presen&ccedil;a do chefe, encostar podem<\/p>\n<p>Os queixos nos bast&otilde;es das finas canas.<\/p>\n<p>35 &#8212; Os postos, Doroteu, aqui se vendem,<\/p>\n<p>E, como as outras drogas que se compram,<\/p>\n<p>Devem daqueles ser. que mais os pagam.<\/p>\n<p>No meio desta turba, veio um vulto<\/p>\n<p>Que mo&ccedil;a me parece, pelo traje.<\/p>\n<p>40 &#8212; N&atilde;o posso conceber o como deva<\/p>\n<p>Estar uma senhora em tal palanque.<\/p>\n<p>O chefe, (eu discorria), inda &eacute; solteiro,<\/p>\n<p>E, quando n&atilde;o o fosse, a sua esposa<\/p>\n<p>N&atilde;o havia sentar-se com barbados.<\/p>\n<p>45 &#8212; Mil coisas, Doroteu, mil coisas feias<\/p>\n<p>Me sugere a malicia, e todas falsas.<\/p>\n<p>Aplico mais a vista, ent&atilde;o conhe&ccedil;o<\/p>\n<p>Que &eacute; uma muito esperta mulatinha<\/p>\n<p>Que dizem filha ser do seu lacaio.<\/p>\n<p>50 &#8212; Eis aqui, Doroteu, o como, &agrave;s vezes<\/p>\n<p>&#8217;55 &#8212; Que tudo &eacute; desta classe, e, se viveres<\/p>\n<p>Ainda o h&aacute;s-de ver obrar milagres.<\/p>\n<p>Pegado ao camarote do bom chefe<\/p>\n<p>Se v&ecirc; outro palanque, igual em tudo<\/p>\n<p>Aos rasos camarotes do mais povo.<\/p>\n<p>60 &#8212; Aqui t&ecirc;m seu lugar os senadores;<\/p>\n<p>Com eles se encorporam outros muitos<\/p>\n<p>Que lograram de edis as grandes honras.<\/p>\n<p>Nos outros adornados camarotes<\/p>\n<p>Assistem as fam&iacute;lias mais honestas:<\/p>\n<p>65 &#8212; Aqui nada se v&ecirc; que seja pobre.<\/p>\n<p>Recreia, Doroteu, recreia a vista<\/p>\n<p>O v&aacute;rio dos matizes; cega os olhos<\/p>\n<p>O continuo brilhar das finas pedras.<\/p>\n<p>No meio de um palanque ent&atilde;o descubro<\/p>\n<p>70 &#8212; A minha, a minha Nise: est&aacute; vestida<\/p>\n<p>Da cor mimosa com que o c&eacute;u se veste<\/p>\n<p>Oh ! quanto, oh! quanto &eacute; bela! a verde olaia<\/p>\n<p>Quando se cobre de cheirosas flores<\/p>\n<p>A filha de Taumante, quando arqueia,<\/p>\n<p>75 &#8212; No meio da tormenta, o lindo corpo;<\/p>\n<p>A mesma V&ecirc;nus, quando toma e embra&ccedil;a<\/p>\n<p>O grosso escudo e lan&ccedil;a, porque vence a<\/p>\n<p>A paix&atilde;o do deus Marte com mais for&ccedil;a,<\/p>\n<p>Ou, quando lacrimosa se apresenta<\/p>\n<p>80 &#8212; Na sala de seu pai, para que salve<\/p>\n<p>Aos seus troianos das soberbas ondas,<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute;, n&atilde;o &eacute; como ela t&atilde;o formosa.<\/p>\n<p>Qual o tenro menino, a quem se chega<\/p>\n<p>Defronte do semblante a vela acesa.<\/p>\n<p>85 &#8212; Umas vezes suspenso, outras risonho,<\/p>\n<p>Os olhos arregala e, bem que o chamem,<\/p>\n<p>A tesa vista n&atilde;o separa dela,<\/p>\n<p>Assim eu, Doroteu, apenas vejo<\/p>\n<p>A minha doce Nise, qual menino,<\/p>\n<p>90 &#8212; Os olhos nela fito cheios de &aacute;gua,<\/p>\n<p>E, por mais que me chamem, ou me abalem.<\/p>\n<p>De embebido que estou, n&atilde;o sinto nada.<\/p>\n<p>No meio, Doroteu, de tanto assombro,<\/p>\n<p>Me finge a perturbada fantasia<\/p>\n<p>95 &#8212; Novo sucesso, que me aflige e cansa.<\/p>\n<p>Aparece, no curro passeando,<\/p>\n<p>Sexagen&aacute;rio velho, em ar de mo&ccedil;o:<\/p>\n<p>Traja uma curta veste, cal&ccedil;&otilde;es largos<\/p>\n<p>Da cor da seca rosa, a quem adorna<\/p>\n<p>100 &#8212; O brilhante gal&atilde;o de fina prata.<\/p>\n<p>Na bolsa do cabelo, que se enfeita<\/p>\n<p>De duas negras plumas e de flocos,<\/p>\n<p>Branquejam os vidrilhos, e no peito,<\/p>\n<p>De flores se sustenta um grande molho.<\/p>\n<p>105 &#8212; Traz dois an&eacute;is nos dedos e fivelas<\/p>\n<p>De amarelos top&aacute;zios. N&atilde;o caminha<\/p>\n<p>Sem que, avante, caminhe um branco pajem<\/p>\n<p>Atr&aacute;s da cadeirinha, e o seu moleque<\/p>\n<p>Em forma de lacaio. Ah! velho tonto!<\/p>\n<p>110 &#8212; Esse teu tratamento imita, imita<\/p>\n<p>Ao estado que tem o rei do Congo.<\/p>\n<p>Ponho os meus olhos no caduco Ad&ocirc;nis,<\/p>\n<p>Ent&atilde;o se me afigura que ele oferta<\/p>\n<p>A Nise uma das flores, e que Nise<\/p>\n<p>115 &#8212; Com ar risonho, no seu peito a prega.<\/p>\n<p>Aos zelos, Doroteu, ningu&eacute;m resiste;<\/p>\n<p>Sentem a sua for&ccedil;a os altos deuses,<\/p>\n<p>Os homens mais as feras; e, em Critilo,<\/p>\n<p>N&atilde;o podes esperar paix&otilde;es diversas.<\/p>\n<p>120 &#8212; Apenas isto veio, exasperado<\/p>\n<p>Meto a m&atilde;o no florete e, quando intento<\/p>\n<p>O peito transpassar-lhe, ent&atilde;o acordo<\/p>\n<p>E, vendo-me &agrave;s escuras sobre a cama<\/p>\n<p>Conhe&ccedil;o que isto tudo foi um sonho.<\/p>\n<p>125 &#8212; Pintei-te, Doroteu. o grande curro<\/p>\n<p>Da sorte que minha alma o viu sonhando:<\/p>\n<p>Agora vou pintar-te os mais sucessos<\/p>\n<p>Que impressos inda tenho na mem&oacute;ria.<\/p>\n<p>Ainda, Doroteu, no largo curro<\/p>\n<p>130 &#8212; Caretas n&atilde;o brincavam, nem se viam,<\/p>\n<p>Nos rasos camarotes, altas popas,<\/p>\n<p>Enfeites com que brilham n&eacute;scias damas<\/p>\n<p>Quando j&aacute; no castelo de madeira<\/p>\n<p>As pe&ccedil;as fuzilavam, sinal certo<\/p>\n<p>135 &#8212; De que o nosso her&oacute;i e o velho bispo<\/p>\n<p>No adornado palanque se assentavam.<\/p>\n<p>Agora dir&aacute;s tu: &quot;&eacute; forte pressa!<\/p>\n<p>Os chefes nos teatros entram sempre<\/p>\n<p>&Agrave;s horas de correr-se acima o pano.<\/p>\n<p>140 &#8212; Amigo Doroteu, tu nunca viste<\/p>\n<p>Uma crian&ccedil;a a quem a m&atilde;e promete<\/p>\n<p>Lev&aacute;-la a ver de tarde alguma festa<\/p>\n<p>Que logo de manh&atilde; a m&atilde;e persegue,<\/p>\n<p>Pedindo que lhe dispa os fatos velhos ?<\/p>\n<p>145 &#8212; Pois eis aqui, amigo, o nosso chefe.<\/p>\n<p>N&atilde;o quer perder de estar casquilho e teso<\/p>\n<p>No erguido camarote um breve instante.<\/p>\n<p>Chegam-se, enfim, as horas do festejo;<\/p>\n<p>Entra na pra&ccedil;a a grande comitiva;<\/p>\n<p>150 &#8212; Trazem os pajens as compridas lan&ccedil;as<\/p>\n<p>De fitas adornadas, v&ecirc;m &agrave; destra<\/p>\n<p>Os formosos ginetes arreados,<\/p>\n<p>Seguem-se os cavaleiros, que cortejam<\/p>\n<p>Primeiro ao bruto chefe, logo aos outros,<\/p>\n<p>155 &#8212; Dividindo as fileiras sobre os lados.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; quem o cortejo n&atilde;o receba<\/p>\n<p>Em ar civil e grato; s&oacute; o chefe<\/p>\n<p>O corpo da cadeira n&atilde;o levanta,<\/p>\n<p>Nem abaixa a cabe&ccedil;a, qual o dono<\/p>\n<p>160 &#8212; Dos m&iacute;seros escravos, quando juntos<\/p>\n<p>A ben&ccedil;&atilde;o v&atilde;o pedir-lhe, porque sejam<\/p>\n<p>Ajudados de Deus no seu trabalho.<\/p>\n<p>Feitas as cortesias do costume,<\/p>\n<p>Os destros cavaleiros galopeiam<\/p>\n<p>165 &#8212; Em c&iacute;rculos vistosos, pelo campo.<\/p>\n<p>Logo se formam em diversos corpos,<\/p>\n<p>A maneira das tropas que apresentam<\/p>\n<p>Sanguinosas batalhas. Soam trompas,<\/p>\n<p>Soam os atabales, os fagotes,<\/p>\n<p>170 &#8212; Os clarins, os bo&eacute;s, e mais as flautas:<\/p>\n<p>O fogoso ginete as ventas abre<\/p>\n<p>E bate com as m&atilde;os na dura terra;<\/p>\n<p>Os dois mantenadores j&aacute; se avan&ccedil;am.<\/p>\n<p>Aqui, prezado amigo, aqui n&atilde;o lutam,<\/p>\n<p>175 &#8212; Como nos espet&aacute;culos romanos,<\/p>\n<p>Com for&ccedil;osos le&otilde;es, malhados tigres,<\/p>\n<p>Os homens, peito a peito e bra&ccedil;o a bra&ccedil;o.<\/p>\n<p>Jogam-se encontroadas, e se atiram<\/p>\n<p>Redondas alcancias, curtas canas.<\/p>\n<p>180 &#8212; De que destro inimigo se defende<\/p>\n<p>Com faz&ecirc;-las no ar em dois peda&ccedil;os.<\/p>\n<p>Ao fogo das pistolas se desfazem<\/p>\n<p>Nos postes as cabe&ccedil;as. Umas ficam<\/p>\n<p>Dos ferros trespassados, outras voam,<\/p>\n<p>185 &#8212; Sacudidas das pontas das espadas;<\/p>\n<p>Airoso cavaleiro ao ombro encosta<\/p>\n<p>A lan&ccedil;a, no princ&iacute;pio da carreira;<\/p>\n<p>No ligeiro cavalo a espora bate;<\/p>\n<p>Desfaz com m&atilde;o igual o ferro, e logo<\/p>\n<p>190 &#8212; Que leva um argolinha, a r&eacute;dea toma<\/p>\n<p>E faz que o bruto pare. Doces coros<\/p>\n<p>Aplaudem o sucesso, enchendo os ares<\/p>\n<p>De grata melodia. Ent&atilde;o, vaidoso,<\/p>\n<p>Guiado de um padrinho, ao chefe leva<\/p>\n<p>195 &#8212; O sinal da vit&oacute;ria, que segura<\/p>\n<p>Na destra, aguda lan&ccedil;a. O bruto chefe<\/p>\n<p>Aceita a oferta em ar de majestade;<\/p>\n<p>&Agrave; maneira dos amos, quando tomam<\/p>\n<p>As coisas que lhes d&atilde;o os seus criados.<\/p>\n<p>200 &#8212; Nestes e noutros brincos inocentes<\/p>\n<p>Se passa, Doroteu, a alegre tarde.<\/p>\n<p>J&aacute; no sereno c&eacute;u resplandeciam<\/p>\n<p>As brilhantes estrelas, os morcegos<\/p>\n<p>E as toucadas corujas j&aacute; voavam,<\/p>\n<p>205 &#8212; Quando, prezado amigo, nas janelas<\/p>\n<p>Do nosso Santiago se acendiam.<\/p>\n<p>Em sinal de prazer, as lumin&aacute;rias;<\/p>\n<p>Ardem, pois, nas janelas de pal&aacute;cio<\/p>\n<p>Duas tochas de pau, e sobre a frente<\/p>\n<p>210 &#8212; Da casa do Senado se levanta<\/p>\n<p>Uma extensa arma&ccedil;&atilde;o, a quem enfeitam<\/p>\n<p>Quatro mil tigelinhas. Meu Alberga<\/p>\n<p>Aqui o pr&ecirc;mio tens, do teu trabalho.<\/p>\n<p>Tu far&aacute;s, de torcidas e de azeite,<\/p>\n<p>215 &#8212; Aos tristes camaristas, contas largas;<\/p>\n<p>E as arrobas de sebo, que n&atilde;o arde<\/p>\n<p>Desfeitas em sab&atilde;o, mui bem te podem<\/p>\n<p>Toda a roupa lavar por muitos anos.<\/p>\n<p>Nas margens, Doroteu, do sujo corgo,<\/p>\n<p>220 &#8212; Que banha da cidade a longa fralda,<\/p>\n<p>Ha uma curta praia, toda cheia<\/p>\n<p>De j&aacute; lavados seixos. Neste sitio<\/p>\n<p>Um formoso passeio se prepara:<\/p>\n<p>Ordena o s&aacute;bio chefe que se cortem<\/p>\n<p>225 &#8212; De verdes laranjeiras muitos ramos,<\/p>\n<p>E manda que se enterrem nesta praia<\/p>\n<p>Fingindo largas ruas. Cada tronco<\/p>\n<p>Tem, debaixo das folhas, uma t&aacute;boa.<\/p>\n<p>Sem lavor nem pintura, que sustenta<\/p>\n<p>230 &#8212; Doze tigelas do grosseiro barro.<\/p>\n<p>No meio do passeio est&atilde;o abertas<\/p>\n<p>Duas pequenas covas, pouco fundas<\/p>\n<p>Que lagos se apelidam. Sobre as bordas<\/p>\n<p>Ardem mil tigelinhas e o azeite<\/p>\n<p>235 &#8212; Que corre, Doroteu, dos covos cacos<\/p>\n<p>Inda &eacute; mais do que s&atilde;o as sujas &aacute;guas<\/p>\n<p>Que nem os fundos cobrem destes tanques.<\/p>\n<p>A t&atilde;o formoso sitio tudo acode<\/p>\n<p>Ou seja de um ou seja de outro sexo,<\/p>\n<p>240 &#8212; Ou seja de uma ou seja de outra classe.<\/p>\n<p>Aqui lascivo amante, sem rebu&ccedil;o<\/p>\n<p>A torpe concubina oferta o braco<\/p>\n<p>Ali mancebo ousado assiste e faia<\/p>\n<p>A simples filha, que seus pais recatam;<\/p>\n<p>245 &#8212; A ligeira mulata, em trajes de homens,<\/p>\n<p>Dan&ccedil;a o quente lundu e o vil batuque,<\/p>\n<p>E, aos cantos do passeio, inda se fazem<\/p>\n<p>A&ccedil;&otilde;es mais feias, que a mod&eacute;stia oculta.<\/p>\n<p>Meu caro Doroteu, meu doce amigo,<\/p>\n<p>250 &#8212; Se queres que este sitio te compare<\/p>\n<p>Como s&eacute;rio poeta, aqui tens Chipre,<\/p>\n<p>Nos dias em que os povos tributavam<\/p>\n<p>A deusa tutelar alegres cultos.<\/p>\n<p>Se queres que o compare, como um homem<\/p>\n<p>255 &#8212; Que alguma no&ccedil;&atilde;o tem das sacras letras,<\/p>\n<p>Aqui Sodoma tens e mais Gomorra.<\/p>\n<p>Se queres, finalmente, que o compare<\/p>\n<p>A lugar mais humilde, em tom jocoso,<\/p>\n<p>Aqui, amigo, tens esse afamado<\/p>\n<p>260 &#8212; Quilombo, em que viveu o pai Ambr&oacute;sio.<\/p>\n<p>Dep&otilde;e o nosso chefe a majestade<\/p>\n<p>E, por ver as madamas, rebu&ccedil;ado<\/p>\n<p>No capote de berne; corre as ruas,<\/p>\n<p>Seguido, Doroteu, das suas guardas.<\/p>\n<p>265 &#8212; Depois de dar seus giros, vai sentar-se<\/p>\n<p>Em um dos toscos bancos, onde tomam<\/p>\n<p>Assento certas mo&ccedil;as que puderam,<\/p>\n<p>N&atilde;o sei por que raz&atilde;o, cair-lhe em gra&ccedil;a.<\/p>\n<p>N&atilde;o diz uma fineza &agrave;s tais mocinhas,<\/p>\n<p>270 &#8212; Pois n&atilde;o &eacute;, Doroteu, porque n&atilde;o saiba,<\/p>\n<p>Que ele tem muito estudo de Florinda,<\/p>\n<p>Da Roda da Fortuna e de outros livros,<\/p>\n<p>Que d&atilde;o aos seus leitores grande massa.<\/p>\n<p>&Eacute;, sim, por sustentar a gravidade<\/p>\n<p>275 &#8212; Que, no p&uacute;blico, pede o seu emprego.<\/p>\n<p>Mas, para lhes mostrar o quanto as preza,<\/p>\n<p>(Oh! for&ccedil;a milagrosa do bestunto!)<\/p>\n<p>Descobre esta feliz e nova tra&ccedil;a:<\/p>\n<p>Vai sentar-se na ponta do banquinho,<\/p>\n<p>280 &#8212; Umas vezes suspende ao ar o corpo,<\/p>\n<p>Outras vezes carrega sobre a taboa<\/p>\n<p>E, desta sorte, faz que as belas mocas,<\/p>\n<p>Movidas do balan&ccedil;o, d&ecirc;em no vento<\/p>\n<p>Milhares e milhares de embigadas.<\/p>\n<p>285 &#8212; Chega-se, Doroteu, defronte dele<\/p>\n<p>Um m&aacute;scara prendado: n&atilde;o estima<\/p>\n<p>Os discretos conceitos, nem se agrada<\/p>\n<p>De ver executar vistosos passos.<\/p>\n<p>Manda, sim, que arremede o nosso bispo,<\/p>\n<p>290 &#8212; Que arremede, tamb&eacute;m, o modo e o gesto<\/p>\n<p>De um nosso general. S&atilde;o estes momos<\/p>\n<p>Os &uacute;nicos que podem comov&ecirc;-lo<\/p>\n<p>No p&uacute;blico a mostrar risonha cara.<\/p>\n<p>Oh ! alma de fidalgo, oh ! chefe digno<\/p>\n<p>295 &#8212; De vestir a libr&eacute; de um vil lacaio!<\/p>\n<p>Cresceram, doce amigo, alguns foguetes<\/p>\n<p>Da noite em que o Senado fez no curro<\/p>\n<p>De p&oacute;lvora queimar barris imensos.<\/p>\n<p>Em uma noite clara, qual o dia.<\/p>\n<p>300 &#8212; Ordena que os foguetes v&atilde;o aos ares.<\/p>\n<p>Vai se p&ocirc;r no passeio, reclinado<\/p>\n<p>Sobre um monte de pedras; faz-lhe a corte<\/p>\n<p>A velha poetisa, que repete<\/p>\n<p>Um soneto que fez a certos males.<\/p>\n<p>305 &#8212; Come&ccedil;am os vapores do ribeiro<\/p>\n<p>A formar, sobre a terra, nuvens densas<\/p>\n<p>N&atilde;o se v&ecirc;em, dos foguetes, os chuveiros<\/p>\n<p>N&atilde;o se v&ecirc;em as estrelas, nem as cobras<\/p>\n<p>Mas ele os deixas arder, e gasta a noite<\/p>\n<p>310 &#8212; Contente com ouvir alguns estalos<\/p>\n<p>E a bulha, que eles fazem, quando sobem.<\/p>\n<p>J&aacute; chega, Doroteu, o novo dia<\/p>\n<p>O dia em que se correm bois &eacute; vacas.<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, &eacute; tempo, &eacute; tempo<\/p>\n<p>315 &#8212; De fazer-te excitar, no peito brando<\/p>\n<p>Afetos de ternura, de &oacute;dio e raiva.<\/p>\n<p>No dia. Doroteu, em que se devem<\/p>\n<p>Correr os mansos touros, acontece<\/p>\n<p>Morrer a casta esposa de um mulato,<\/p>\n<p>320 &#8212; Que a vida ganha por tocar rabeca;<\/p>\n<p>D&aacute;-se parte do caso ao nosso chefe<\/p>\n<p>Este, prezado amigo, n&atilde;o ordena<\/p>\n<p>Que outro m&uacute;sico v&aacute; em lugar dele<\/p>\n<p>A rabeca tocar no pronto carro;<\/p>\n<p>325 &#8212; Ordena que ele escolha ou a cadeia<\/p>\n<p>Ou ir tocar a doce rabequinha<\/p>\n<p>Naquela mesma tarde, pela praia.<\/p>\n<p>Que &eacute; isto, Doroteu, est&aacute;s confuso?<\/p>\n<p>Duvidas que isto seja ou n&atilde;o verdade ?<\/p>\n<p>330 &#8212; Ent&atilde;o que h&aacute;s de fazer, quando me ouvires<\/p>\n<p>Contar desordens, que inda s&atilde;o mais calvas?<\/p>\n<p>Indigno, indigno chefe, as leis sagradas<\/p>\n<p>N&atilde;o querem se incomodem alguns dias<\/p>\n<p>Os parentes chegados dos defuntos,<\/p>\n<p>335 &#8212; Ainda para coisas necess&aacute;rias;<\/p>\n<p>E tu, cruel, violentas um marido<\/p>\n<p>A deixar sobre a terra o frio corpo<\/p>\n<p>Da sua terna esposa, sem que tenhas<\/p>\n<p>Ao menos uma honesta e justa causa<\/p>\n<p>340 &#8212; B&aacute;rbaro, tu praticas tudo junto<\/p>\n<p>Quanto obraram, no mundo, os maus tiranos!<\/p>\n<p>Mez&ecirc;ncio ajuntava os corpos vivos<\/p>\n<p>Aos corpos j&aacute; corruptos, e tu segues<\/p>\n<p>Outros caminhos, que inda s&atilde;o mais novos;<\/p>\n<p>345 &#8212; Separas dos defuntos os que vivem,<\/p>\n<p>N&atilde;o queres que os parentes sejam pios,<\/p>\n<p>Dando as &uacute;ltimas honras aos seus mortos!<\/p>\n<p>Chega-se, finalmente, a tarde alegre<\/p>\n<p>Do festejo dos touros. J&aacute; no curro<\/p>\n<p>350 &#8212; Aparecem os dois formosos carros.<\/p>\n<p>O primeiro derrama sobre a terra,<\/p>\n<p>Por bocas de serpentes escamosas,<\/p>\n<p>Dois puros chorros de &aacute;gua; no segundo<\/p>\n<p>Se levantam, alegres, doces vozes,<\/p>\n<p>355 &#8212; Que v&aacute;rios instrumentos acompanham.<\/p>\n<p>Aqui, entre os que tocam, se divisa<\/p>\n<p>Um triste rosto, que se alaga em pranto.<\/p>\n<p>N&atilde;o sabes, Doroteu, quem este se!a ?<\/p>\n<p>Pois &eacute;, prezado amigo, aquele triste<\/p>\n<p>360 &#8212; Que tem a mulher morta sobre a cama.<\/p>\n<p>O nosso grande chefe mal conhece<\/p>\n<p>Ao pobre do vi&uacute;vo, compassivo<\/p>\n<p>Mete a m&atilde;o no seu bolso e dele tira<\/p>\n<p>Um famoso cartucho, que lhe entrega.<\/p>\n<p>365 &#8212; O n&eacute;scio rebequista, que a a&ccedil;&atilde;o nota,<\/p>\n<p>Um pouco suaviza a sua m&aacute;goa,<\/p>\n<p>E, enquanto n&atilde;o recebe o tal embrulho,<\/p>\n<p>Consigo assim discorre: &quot;Que ditosa,<\/p>\n<p>Que ditosa viol&ecirc;ncia, que socorre,<\/p>\n<p>370 &#8212; Em tal ocasi&atilde;o, a minha falta!<\/p>\n<p>J&aacute; tenho com que pague ao meu vig&aacute;rio,<\/p>\n<p>J&aacute; tenho com que pague a cera, a cova,<\/p>\n<p>A mortalha, o caix&atilde;o, e mais os padres.&quot;<\/p>\n<p>Assim o bom vi&uacute;vo discorria,<\/p>\n<p>370 &#8212; Quando pega no embrulho, e mal o rasga,<\/p>\n<p>Encontra, Doroteu, confeitos grandes,<\/p>\n<p>Encontra manuscriti e rebu&ccedil;ados.<\/p>\n<p>Que &eacute; isso, Doroteu, de novo pasmas?<\/p>\n<p>De novo desconfias da verdade ?<\/p>\n<p>380 &#8212; Amigo Doroteu, o nosso chefe<\/p>\n<p>Estudou medicina, e como alcan&ccedil;a<\/p>\n<p>Que o chorar faz defluxo, providente<\/p>\n<p>Ministra rebu&ccedil;ados a quem chora,<\/p>\n<p>Para, com eles, acudir-lhe ao peito.<\/p>\n<p>385 &#8212; Principiam os touros, e se aumentam<\/p>\n<p>Do chefe as parvo&iacute;ces. Manda &agrave; pra&ccedil;a<\/p>\n<p>Sem regra, sem-discurso e sem concerto.<\/p>\n<p>Agora sai um touro levantado,<\/p>\n<p>Que ao mau capinha, sem fugir, espera.<\/p>\n<p>390 &#8212; Acena-lhe o capinha, ele recua<\/p>\n<p>E atira com as m&atilde;os, ao ar, a terra.<\/p>\n<p>Acena-lhe o capinha novamente,<\/p>\n<p>De novo raspa o ch&atilde;o e logo investe<\/p>\n<p>L&aacute; vai o mau capinha pelos ares.<\/p>\n<p>395 &#8212; L&aacute; se estende na areia, e o bravo touro<\/p>\n<p>Lhe d&aacute;, com o focinho, um par de tombos<\/p>\n<p>Nem deixa de pis&aacute;-lo, enquanto o n&eacute;scio<\/p>\n<p>N&atilde;o segue o meio de fingir-se morto.<\/p>\n<p>Meu esperto boizinho, em paz te fica,<\/p>\n<p>400 &#8212; Que o nosso chefe ordena te recolham<\/p>\n<p>Sem fazeres mais sorte, e te reserva<\/p>\n<p>Para ao curro sa&iacute;res, quando forem<\/p>\n<p>Do Senhor do Bonfim as grandes festas.<\/p>\n<p>Agora sai um touro, que &eacute; prudente.<\/p>\n<p>405 &#8212; Se o capinha o procura, logo foge.<\/p>\n<p>Os caretas lhe d&atilde;o mil apupadas<\/p>\n<p>Um lhe pega no rabo, e o segur&acirc;,<\/p>\n<p>Outro intenta mont&aacute;-lo, e o grande chefe<\/p>\n<p>O deixa passear por largo espa&ccedil;o.<\/p>\n<p>410 &#8212; Manda soltar-lhe os c&atilde;es, manda meter-lhe<\/p>\n<p>As garrochas de fogo, que primeiro<\/p>\n<p>Quem rompam do ligeiro bruto<\/p>\n<p>Nos destros dedos do capinha estalam.<\/p>\n<p>Com estes maus festejos, que aborrecem,<\/p>\n<p>415 &#8212; Se gastam muitos dias. J&aacute; o povo<\/p>\n<p>Se cansa de assistir na triste pra&ccedil;a<\/p>\n<p>E, ao ver-se solit&aacute;rio, o bruto chefe<\/p>\n<p>Nos trata por incultos, mais ingratos.<\/p>\n<p>Soberbo e louco chefe, que proveito<\/p>\n<p>420 &#8212; Tiraste de gastar em frias festas<\/p>\n<p>Imenso cabedal, que o bom Senado<\/p>\n<p>Devia consumir em coisas santas ?<\/p>\n<p>Suspiram pobres amas e padecem<\/p>\n<p>Crian&ccedil;as inocentes, e tu podes<\/p>\n<p>425 &#8212; Com rosto enxuto ver tamanhos males?<\/p>\n<p>Embora! sacrifica ao pr&oacute;prio gosto<\/p>\n<p>As fortunas dos povos que governas;<\/p>\n<p>Vir&aacute; dia em que m&atilde;o robusta e santa<\/p>\n<p>Depois de castigar-nos, se condoa<\/p>\n<p>430 &#8212; E lance na fogueira as varas torpes.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o rir&atilde;o aqueles que choraram,<\/p>\n<p>Ent&atilde;o talvez que chores, mas debalde.<\/p>\n<p>Que suspiros e prantos nada lucram<\/p>\n<p>A quem os guarda para muito tarde.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">CARTA 7&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>H&aacute; tempo, Doroteu, que n&atilde;o prossigo<\/p>\n<p>Do nosso Fanfarr&atilde;o a longa hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . .<br \/>\n    . . .<\/p>\n<p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . .<br \/>\n    . . .<\/p>\n<p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . .<br \/>\n    . . .<\/p>\n<p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . .<br \/>\n    . . .<\/p>\n<p>Que n&atilde;o busque cobr&iacute;-los com tal capa,<\/p>\n<p>Que inda se persuada que os ma&iacute;s homens<\/p>\n<p>5 &#8212; Lh&#8217;os ficam respeitando, como acertos .<\/p>\n<p>Enquanto ao conhecer destes despejos,<\/p>\n<p>Pespega &agrave; lei a boa intelig&ecirc;ncia,<\/p>\n<p>Que extensiva se chama. Sim, entende<\/p>\n<p>Que aonde o rei ordena que s&oacute; haja<\/p>\n<p>10 &#8212; Recurso a ele mesmo, nos faculta<\/p>\n<p>Recurso aos generais, pois que estes fazem,<\/p>\n<p>Em tudo, e mais que em tudo, as suas vezes.<\/p>\n<p>Ah! dize, meu amigo, se podia<\/p>\n<p>Dar-lhe outra intelig&ecirc;ncia o mesmo Ac&uacute;rsio .<\/p>\n<p>15 &#8212; Esse grande doutor, que j&aacute; nos finge,<\/p>\n<p>Nos princ&iacute;pios de Roma, conhecida<\/p>\n<p>A Divina Trindade, e que pondera<\/p>\n<p>Que do c&atilde;o, que na palha est&aacute; deitado,<\/p>\n<p>A velha f&uacute;ria, lei se diz canina.<\/p>\n<p>20 &#8212; Maldito, Doroteu, maldito seja<\/p>\n<p>O pai de Fanfarr&atilde;o, que deu ao mundo,<\/p>\n<p>Ao mundo liter&aacute;rio tanta perda,<\/p>\n<p>Criando ao h&aacute;bil filho numa corte,<\/p>\n<p>Qual morgado, que habita em pobre aldeia!<\/p>\n<p>25 &#8212; Ah ! se ele, doce amigo, assim discorre,<\/p>\n<p>Sabendo apenas ler redonda letra,<\/p>\n<p>Que abismo n&atilde;o seria, se soubesse<\/p>\n<p>Verter o brevi&aacute;rio em tosca prosa.<\/p>\n<p>Se entrasse em Salamanca, e ali ouvisse<\/p>\n<p>30 &#8212; Explicar a quest&atilde;o daquela escrava<\/p>\n<p>Que foi manumetida em testamento,<\/p>\n<p>Se tr&ecirc;s filhos parisse, e outras muitas<\/p>\n<p>Que os lentes nos ensinam, desta casta !<\/p>\n<p>Enquanto, Doroteu, ao outro ponto<\/p>\n<p>35 &#8212; De julgar aos expulsos inocentes,<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m raz&atilde;o lhe dou, porque, primeiro<\/p>\n<p>Se informa com aqueles, que os r&eacute;us dizem<\/p>\n<p>Que sabem, mais que todos, do seu caso.<\/p>\n<p>Nem &eacute; de presumir que estes lhe faltem<\/p>\n<p>40 &#8212; A verdade, jurando, pois t&ecirc;m alma.<\/p>\n<p>S&ecirc; boa testemunha, meu paizinho<\/p>\n<p>A quem o vulgo chama P&eacute;-de-Pato.<\/p>\n<p>Confessa se n&atilde;o foste o que juraste<\/p>\n<p>Que deste uma den&uacute;ncia e fora falsa.<\/p>\n<p>45 &#8212; Indigno e bruto chefe, em que direito<\/p>\n<p>Entendes que se firmam tais processos ?<\/p>\n<p>Um r&eacute;u, a quem condena um magistrado,<\/p>\n<p>Pode mostrar o injusto da senten&ccedil;a<\/p>\n<p>Dando umas testemunhas que juraram<\/p>\n<p>50 &#8212; Sem haver cita&ccedil;&atilde;o da sua parte ?<\/p>\n<p>Dando umas testemunhas inquiridas<\/p>\n<p>Por juiz que n&atilde;o pode pergunt&aacute;-las ?<\/p>\n<p>E como, louco chefe, e como sabes<\/p>\n<p>Que a defesa convence, se nem viste<\/p>\n<p>55 &#8212; Os autos, em que a culpa est&aacute; formada ?<\/p>\n<p>Suponho que juraram novamente<\/p>\n<p>Aqueles mesmos que as den&uacute;ncias deram:<\/p>\n<p>O segundo e contr&aacute;rio juramento<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; que se reputa, sempre, o falso ?<\/p>\n<p>60 &#8212; E quem chega a comprar um grande chefe<\/p>\n<p>N&atilde;o pode inda melhor comprar um negro ?<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, estes pretextos<\/p>\n<p>S&atilde;o como as bigodeiras, que n&atilde;o podem<\/p>\n<p>Fazer se n&atilde;o conhe&ccedil;am as pessoas,<\/p>\n<p>65 &#8212; Que dan&ccedil;am nos teatros por dinheiro.<\/p>\n<p>N&atilde;o lucra, doce amigo, o nosso chefe<\/p>\n<p>Somente em revogar os exterm&iacute;nios<\/p>\n<p>Que fazem os ministros: ele mesmo<\/p>\n<p>Ordena se despejem os rica&ccedil;os,<\/p>\n<p>70 &#8212; Ainda que estes vivam sem suspeita<\/p>\n<p>Do infame contrabando. Desta sorte<\/p>\n<p>Os obriga, tamb&eacute;m, a vir &agrave; tenda<\/p>\n<p>Comprar, por grossas barras, seus despachos.<\/p>\n<p>Todos largam, enfim, e todos entram<\/p>\n<p>75 &#8212; No vedado distrito, sem que importe<\/p>\n<p>Haver ou n&atilde;o haver de crime indicio.<\/p>\n<p>S&oacute; tu, meu Josefino, s&ocirc; tu ficas<\/p>\n<p>No mandado desterro, por teimares<\/p>\n<p>Em n&atilde;o querer largar, ao vil Mat&uacute;sio,<\/p>\n<p>80 &#8212; Uns tantos mil cruzados, que pedia.<\/p>\n<p>S&oacute; tu&#8230; porem, amigo, &eacute; tempo, &eacute; tempo<\/p>\n<p>De fechar esta carta, pois, ainda<\/p>\n<p>Que a mat&eacute;ria, por nova, te deleite,<\/p>\n<p>A muita difus&atilde;o tamb&eacute;m enfada.<\/p>\n<p>85 &#8212; Eu a pena deponho, e s&oacute; te pe&ccedil;o<\/p>\n<p>Que tomes a li&ccedil;&atilde;o, que te apresenta<\/p>\n<p>O nosso Fanfarr&atilde;o, no seu mulato.<\/p>\n<p>N&atilde;o desfa&ccedil;as, amigo, as ru&ccedil;as becas.<\/p>\n<p>Vai-as distribuindo aos teus lacaios,<\/p>\n<p>90 &#8212; Bem como faz o chefe &agrave;s suas fardas,<\/p>\n<p>Que, enquanto estes as rompem, poupam<\/p>\n<p>As libr&eacute;s amarelas asseadas.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">CARTA 8&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se trata da venda dos despachos e contratos<\/p>\n<p>Os grandes, Doroteu, da nossa Espanha<\/p>\n<p>T&ecirc;m diversas herdades: uma delas<\/p>\n<p>D&atilde;o trigo, d&atilde;o centeio e d&atilde;o cevada,<\/p>\n<p>As outras t&ecirc;m cascatas e pomares,<\/p>\n<p>5 &#8212; Com outras muitas pe&ccedil;as, que s&oacute; servem,<\/p>\n<p>Nos calmosos ver&otilde;es, de algum recreio.<\/p>\n<p>Assim os generais da nossa Chile<\/p>\n<p>T&ecirc;m diversas fazendas: numas passam<\/p>\n<p>As horas de descanso, as outras geram<\/p>\n<p>10 &#8212; Os milhos, os feij&otilde;es e os &uacute;teis frutos<\/p>\n<p>Que podem sustentar as grandes casas.<\/p>\n<p>As quintas, Doroteu, que mais lhes rendem,<\/p>\n<p>Abertas nunca s&atilde;o do torto arado.<\/p>\n<p>Quer chova de cont&iacute;nuo, quer se gretem<\/p>\n<p>15 &#8212; As terras, ao rigor do sol intenso,<\/p>\n<p>Sempre geram mais frutos do que as outras,<\/p>\n<p>No ano em que lhes corre, ao pr&oacute;prio, o tempo.<\/p>\n<p>Estas quintas, amigo, n&atilde;o produzem<\/p>\n<p>Em certas esta&ccedil;&otilde;es, produzem sempre,<\/p>\n<p>20 &#8212; Que os nossos generais, tomando a foice,<\/p>\n<p>V&atilde;o fazer, nas searas, a colheita.<\/p>\n<p>Produzem, que inda &eacute; mais, sem que os bons chefes<\/p>\n<p>Se cansem com amanhos, nem, ainda,<\/p>\n<p>Com lan&ccedil;arem, nos sulcos, as sementes.<\/p>\n<p>25 &#8212; Agora dir&aacute;s tu, de assombro cheio:<\/p>\n<p>&quot;Que ditosas campinas! Dessa sorte<\/p>\n<p>S&oacute; pintam os El&iacute;seos os poetas.&quot;<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, &eacute;s pouco esperto;<\/p>\n<p>As fazendas que pinto n&atilde;o s&atilde;o dessas<\/p>\n<p>30 &#8212; Que t&ecirc;m, para as culturas, largos campos<\/p>\n<p>E virgens matarias, cujos troncos<\/p>\n<p>Levantam, sobre as nuvens, grossos ramos.<\/p>\n<p>N&atilde;o s&atilde;o, n&atilde;o s&atilde;o fazendas onde paste<\/p>\n<p>O lanudo carneiro e a gorda vaca,<\/p>\n<p>35 &#8212; A vaca, que salpica as brandas ervas<\/p>\n<p>Com o leite encorpado, que lhe escorre<\/p>\n<p>Das lisas tetas, que no ch&atilde;o lhe arrastam.<\/p>\n<p>N&atilde;o s&atilde;o, enfim, herdades, onde as louras <\/p>\n<p>Zunidoras abelhas de mil castas,<\/p>\n<p>40 &#8212; Nos c&ocirc;ncavos das &aacute;rvores j&aacute; velhas,<\/p>\n<p>Que b&aacute;lsamos destilam, escondidas,<\/p>\n<p>Fabriquem rumas de gostosos favos.<\/p>\n<p>Estas quintas s&atilde;o quintas s&oacute; no nome,<\/p>\n<p>Pois s&atilde;o os dois contratos, que utilizam<\/p>\n<p>45 &#8212; Aos chefes, inda mais que ao pr&oacute;prio Estado.<\/p>\n<p>Cada tri&ecirc;nio, pois, os nossos chefes<\/p>\n<p>Levantam duas quintas ou berdades,<\/p>\n<p>E, quando o lavrador da terra inculta<\/p>\n<p>Despende o seu dinheiro, no princ&iacute;pio,<\/p>\n<p>50 &#8211;Fazendo levantar, de paus robustos,<\/p>\n<p>As casas de vivenda e, junto delas,<\/p>\n<p>Em volta de um terreiro, as vis senzalas,<\/p>\n<p>Os nossos generais, pelo contr&aacute;rio,<\/p>\n<p>Quando estas quintas fazem, logo embolsam<\/p>\n<p>55 &#8212; Uma grande por&ccedil;&atilde;o de louras barras.<\/p>\n<p>A primeira fazenda, que o bom chefe<\/p>\n<p>Ergueu nestas campinas, foi a grande<\/p>\n<p>Herdade, que arrendou ao seu Marqu&eacute;sio.<\/p>\n<p>As l&iacute;nguas depravadas espalharam<\/p>\n<p>60 &#8212; Que, para o tal Marqu&eacute;sio entrar de posse,<\/p>\n<p>Largara ao grande chefe, s&oacute; de luvas,<\/p>\n<p>Uns trinta mil cruzados; bagatela!<\/p>\n<p>Os mesmos maldizentes acrescentam<\/p>\n<p>Que o pan&ccedil;udo Rob&eacute;rio fora aquele<\/p>\n<p>65 &#8212; Que fez de corretor no tal contrato.<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, eu tremo e fujo<\/p>\n<p>De encarregar minha alma. O bom Verg&iacute;lio<\/p>\n<p>Talvez, talvez que aflito se revolva,<\/p>\n<p>No meio da fogueira devorante,<\/p>\n<p>70 &#8212; Por dizer que adorara, ao pio En&eacute;ias,<\/p>\n<p>Uma casta rainha, cujos ossos<\/p>\n<p>Estavam no sepulcro, j&aacute; mirrados,<\/p>\n<p>Havia coisa de trezentos anos.<\/p>\n<p>Eu n&atilde;o te afirmo, pois, que se fizesse<\/p>\n<p>75 &#8212; A venda vergonhosa; s&oacute; te afirmo<\/p>\n<p>Que o mundo assim o julga, e que esta fama<\/p>\n<p>N&atilde;o deixa de firmar-se em bons ind&iacute;cios.<\/p>\n<p>As leis do nosso reino n&atilde;o consentem<\/p>\n<p>Que os chefes d&ecirc;em contratos, contra os votos<\/p>\n<p>80 &#8212; Dos retos deputados que organizam<\/p>\n<p>A Junta de Fazenda, e o nosso chefe<\/p>\n<p>Mandou arrematar, ao seu Marqu&eacute;sio,<\/p>\n<p>O contrato maior, sem ter um voto<\/p>\n<p>Que favor&aacute;vel fosse aos seus projetos.<\/p>\n<p>85 &#8212; As mesmas santas leis jamais concedem<\/p>\n<p>Que possa arrematar-se algum contrato<\/p>\n<p>Ao rico lan&ccedil;ador, se houver na pra&ccedil;a<\/p>\n<p>Um s&oacute; competidor de mais abono;<\/p>\n<p>E o nosso general mandou se desse<\/p>\n<p>90 &#8212; O ramo ao lan&ccedil;ador, que apenas tinha<\/p>\n<p>Uns vinte mil cruzados, em palavra,<\/p>\n<p>Deixando preterido outro sujeito<\/p>\n<p>De muito mais abono, e a quem devia<\/p>\n<p>Um grosso cabedal o r&eacute;gio er&aacute;rio.<\/p>\n<p>95 &#8212; Mal acaba Marqu&eacute;sio o seu tri&ecirc;nio,<\/p>\n<p>Outro novo tri&ecirc;nio lhe arremata,<\/p>\n<p>Sem que um membro da Junta em tal convenha;<\/p>\n<p>E, tendo o tal Marqu&eacute;sio, no contrato,<\/p>\n<p>Perdido grandes somas, lhe dispensa<\/p>\n<p>100 &#8212; Outras fian&ccedil;as dar &agrave; nova renda.<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, o nosso chefe,<\/p>\n<p>Que procura tirar conveni&ecirc;ncia<\/p>\n<p>Dos pequenos neg&oacute;cios e despachos,<\/p>\n<p>Daria este contrato ao bom Marqu&eacute;sio,<\/p>\n<p>105 &#8212; Este grande contrato, sem que houvesse,<\/p>\n<p>De paga equivalente, ajuste expresso?<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, se n&atilde;o sou s&aacute;bio,<\/p>\n<p>N&atilde;o sou, tamb&eacute;m, t&atilde;o n&eacute;scio, que nem saiba<\/p>\n<p>Das premissas tirar as conseq&uuml;&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>110 &#8212; Agora dir&aacute;s tu: &quot;Se o patrim&ocirc;nio<\/p>\n<p>De Marqu&eacute;sio consiste, como afirmas,<\/p>\n<p>Em vinte mil cruzados, em palavra,<\/p>\n<p>Como, de luvas, deu ao chefe os trinta?&quot;<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, estou pilhado;<\/p>\n<p>115 &#8212; A palavra, que sai da boca fora,<\/p>\n<p>&Eacute; corno a calhoada, que se atira,<\/p>\n<p>Que j&aacute; n&atilde;o tem rem&eacute;dio; paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Eu as ervas arranco, e, desde agora,<\/p>\n<p>Contigo falarei com mais cautela.<\/p>\n<p>120 &#8212; Mas que vejo? Tu ris-te? Acaso pensas<\/p>\n<p>Que me tens apanhado na verdade?<\/p>\n<p>A mim nunca apanharam os capuchos,<\/p>\n<p>Quando, no raso assento, defendia<\/p>\n<p>Que a natureza n&atilde;o tolera o v&aacute;cuo,<\/p>\n<p>125 &#8212; Que os cheiros s&atilde;o ocultas entidades,<\/p>\n<p>Com outras mil quest&otilde;es da mesma classe.<\/p>\n<p>E tu, meu doce amigo, pertendias<\/p>\n<p>Convencer-me em mat&eacute;ria em que dar posso<\/p>\n<p>A todos, de partido a sota e o basto<\/p>\n<p>130 &#8212; Desiste, Doroteu, do louco intento,<\/p>\n<p>Faze uma grande cruz na lisa testa,<\/p>\n<p>D&aacute; figas ao dem&ocirc;nio, que te atenta.<\/p>\n<p>Ora ouve a solu&ccedil;&atilde;o desse argumento:<\/p>\n<p>Bem que pingante seja quem remata<\/p>\n<p>135 &#8212; Este grande contrato, mercadeja<\/p>\n<p>Com perto de um milh&atilde;o; por isso todos<\/p>\n<p>lhe emprestam prontamente os seus dinheiros.<\/p>\n<p>Os chefes, Doroteu, que s&oacute; procuram<\/p>\n<p>De barras entulhar as fortes burras,<\/p>\n<p>140 &#8212; Desfrutam juntamente as mais fazendas,<\/p>\n<p>Que os seus antecessores levantaram.<\/p>\n<p>Nem deixam descansar as f&eacute;rteis terras<\/p>\n<p>Enquanto n&atilde;o as p&otilde;em em sambambaias.<\/p>\n<p>Aqui agora tens, meus Silverino,<\/p>\n<p>145 &#8212; O teu pr&oacute;prio lugar. Tu &eacute;s honrado,<\/p>\n<p>E prezas, como eu prezo, a s&atilde; verdade;<\/p>\n<p>Por isso nos confessas que tu ganhas<\/p>\n<p>A gra&ccedil;a deste chefe, porque envias,<\/p>\n<p>Pela m&atilde;o de Mat&uacute;sio, seu agente<\/p>\n<p>150 &#8212; Em todos os trimestres, as mesadas.<\/p>\n<p>Eu sei, meu Silverino, que quem vive<\/p>\n<p>Na nossa infeliz Chile, n&atilde;o te impugna<\/p>\n<p>T&atilde;o not&oacute;ria verdade. Por&eacute;m deve<\/p>\n<p>Correr estranhos climas esta hist&oacute;ria,<\/p>\n<p>155 &#8212; E, como tu n&atilde;o v&aacute;s, tamb&eacute;m, com ela,<\/p>\n<p>&Eacute; justo que lhe ponha algumas provas.<\/p>\n<p>A s&aacute;bia lei do reino quer e manda<\/p>\n<p>Que os nossos devedores n&atilde;o se prendam.<\/p>\n<p>Responde agora tu, por que motivo<\/p>\n<p>160 &#8212; Concede o grande chefe que tu prendas<\/p>\n<p>A quantos miser&aacute;veis te deverem?<\/p>\n<p>Porque, meu Silverino? Porque largas,<\/p>\n<p>Porque mandas presentes, mais dinheiro.<\/p>\n<p>As mesmas leis do reino tamb&eacute;m vedam<\/p>\n<p>165 &#8212; Que possa ser juiz a pr&oacute;pria parte.<\/p>\n<p>Responde agora mais, por que princ&iacute;pio<\/p>\n<p>Consente o nosso chefe, que tu sejas<\/p>\n<p>O mesmo que encorrente a quem n&atilde;o paga?<\/p>\n<p>Porque, meu Silverino? Porque largas,<\/p>\n<p>170 &#8212; Porque mandas presentes, mais dinheiro.<\/p>\n<p>Os s&aacute;bios generais reprimir devem<\/p>\n<p>Do atrevido vassalo as insol&ecirc;ncias;<\/p>\n<p>Tu metes homens livres no teu tronco,<\/p>\n<p>Tu mandas castig&aacute;-los, como negros;<\/p>\n<p>175 &#8211;Tu zombas da justi&ccedil;a, tu a prendes;<\/p>\n<p>Tu passas portais ordenando<\/p>\n<p>Que com certas pessoas n&atilde;o se entenda.<\/p>\n<p>Porque, por que raz&atilde;o o nosso chefe<\/p>\n<p>Consente que tu fa&ccedil;as tanto insulto,<\/p>\n<p>180 &#8212; Sendo um touro, que parte ao leve aceno?<\/p>\n<p>Porque, meu Silverino? Porque largas<\/p>\n<p>Porque mandas presentes, mais dinheiro.<\/p>\n<p>A lei do teu contrato n&atilde;o faculta<\/p>\n<p>Que possas aplicar aos teus neg&oacute;cios<\/p>\n<p>185 &#8212; Os p&uacute;blicos dinheiros. Tu, com eles,<\/p>\n<p>Pagaste aos teus credores grandes somas!<\/p>\n<p>Ordena a s&aacute;bia Junta, que d&ecirc;s logo<\/p>\n<p>Da tua comiss&atilde;o estreita conta;<\/p>\n<p>O chefe n&atilde;o assina a portaria,<\/p>\n<p>190 &#8212; N&atilde;o quer que se descubra a ladroeira,<\/p>\n<p>Porque te favorece, ainda &agrave; custa<\/p>\n<p>Dos r&eacute;gios interesses, quando finge<\/p>\n<p>Que os zela muito mais que as pr&oacute;prias rendas.<\/p>\n<p>Porque, meu Silverino? Porque largas,<\/p>\n<p>195 &#8212; Porque mandas presentes, mais dinheiro.<\/p>\n<p>Apenas apareces&#8230; Mas n&atilde;o posso<\/p>\n<p>S&oacute; contigo gastar papel e tempo.<\/p>\n<p>Eu j&aacute; te deixo em paz, roubando o mundo,<\/p>\n<p>E passo a relatar, ao caro amigo,<\/p>\n<p>200 &#8212; Os estranhos sucessos que ainda faltam;<\/p>\n<p>Nem todos lhe direi, pois s&atilde;o imensos.<\/p>\n<p>Pretende, Doroteu, o nosso chefe<\/p>\n<p>Mostrar um grande zelo nas cobran&ccedil;as<\/p>\n<p>Do imenso cabedal que todo o povo,<\/p>\n<p>205 &#8212; Aos cofres do monarca, est&aacute; devendo.<\/p>\n<p>Envia bons soldados &agrave;s comarcas,<\/p>\n<p>E manda-lhe que cobrem, ou que metam,<\/p>\n<p>A quantos n&atilde;o pagarem, nas cadeias.<\/p>\n<p>N&atilde;o quero, Doroteu, lembrar-me agora<\/p>\n<p>210 &#8212; Das leis do nosso augusto; estou cansado<\/p>\n<p>De confrontar os fatos deste chefe<\/p>\n<p>Com as disposi&ccedil;&otilde;es do s&atilde;o direito;<\/p>\n<p>Por isso pintarei, prezado amigo,<\/p>\n<p>Somente a confus&atilde;o e a gr&atilde; desordem<\/p>\n<p>215 &#8212; Em que, a todos, nos p&ocirc;s t&atilde;o nova id&eacute;ia.<\/p>\n<p>Entraram, nas comarcas, os soldados,<\/p>\n<p>E entraram a gemer os tristes povos.<\/p>\n<p>Uns tiram os brinquinhos das orelhas<\/p>\n<p>Das filhas e mulheres; outros vendem<\/p>\n<p>220 &#8212; As escravas, j&aacute; velhas, que os criaram,<\/p>\n<p>Por menos duas partes do seu pre&ccedil;o.<\/p>\n<p>Aquele que n&atilde;o tem cativo, ou j&oacute;ia,<\/p>\n<p>Satisfaz com pap&eacute;is, e o soldadinho<\/p>\n<p>Estas d&iacute;vidas cobra, mais violento<\/p>\n<p>225 &#8212; Do que cobra a justi&ccedil;a uma parcela<\/p>\n<p>Que tem executivo aparelhado,<\/p>\n<p>Por s&aacute;bia ordena&ccedil;&atilde;o do nosso reino.<\/p>\n<p>Por mais que o devedor exclama e grita<\/p>\n<p>Que os cr&eacute;ditos s&atilde;o falsos, ou que foram<\/p>\n<p>230 &#8212; H&aacute; muitos anos pagos, o ministro<\/p>\n<p>Da severa cobran&ccedil;a a nada atende;<\/p>\n<p>Despeza estes embargos, bem que o triste<\/p>\n<p>Proteste de os provar incontinenti.<\/p>\n<p>N&atilde;o se recebem s&oacute;, prezado amigo,<\/p>\n<p>235 &#8212; Os cr&eacute;ditos alheios, para embolso<\/p>\n<p>Das dividas fiscais. O soldadinho<\/p>\n<p>Descobre um ramo, aqui, de bom comercio:<\/p>\n<p>Aquele que n&atilde;o quer propor demandas<\/p>\n<p>Promete-lhe a metade, ou mais, ainda,<\/p>\n<p>240 &#8212; Das somas que lhe entrega, e ele as cobra<\/p>\n<p>Fingindo que as tomou em pagamento<\/p>\n<p>Das dividas do rei. Ainda passa<\/p>\n<p>A mais esta desordem: faz penhoras<\/p>\n<p>E manda arrematar, ao p&eacute; da igreja,<\/p>\n<p>245 &#8212; As casas, os cativos, mais as ro&ccedil;as.<\/p>\n<p>Agora, Fanfarr&atilde;o, agora falo<\/p>\n<p>Contigo, e s&oacute; contigo. Por que causa<\/p>\n<p>Ordenas que se fa&ccedil;a uma cobran&ccedil;a<\/p>\n<p>T&atilde;o r&aacute;pida e t&atilde;o forte contra aqueles<\/p>\n<p>250 &#8212; Que ao er&aacute;rio s&oacute; devem t&ecirc;nues somas?<\/p>\n<p>N&atilde;o tens contratadores, que ao rei devem,<\/p>\n<p>De mil cruzados centos e mais centos?<\/p>\n<p>Uma s&oacute; quinta parte, que estes dessem,<\/p>\n<p>N&atilde;o matava, do er&aacute;rio, o grande empenho?<\/p>\n<p>255 &#8212; O pobre, porque &eacute; pobre, pague tudo,<\/p>\n<p>E o rico, porque &eacute; rico, vai pagando<\/p>\n<p>Sem soldados &agrave; porta, com sossego!<\/p>\n<p>N&atilde;o era menos torpe, e mais prudente<\/p>\n<p>Que os devedores todos se igualassem?<\/p>\n<p>260 &#8212; Que, sem haver respeito ao pobre ou rico,<\/p>\n<p>Metessem, no er&aacute;rio, um tanto certo,<\/p>\n<p>&Agrave; propor&ccedil;&atilde;o das somas que devessem?<\/p>\n<p>Indigno, indigno chefe! Tu n&atilde;o buscas<\/p>\n<p>O p&uacute;blico interesse. Tu s&oacute; queres<\/p>\n<p>265 &#8212; Mostrar ao s&aacute;bio augusto um falso zelo,<\/p>\n<p>Poupando, ao mesmo tempo, os devedores,<\/p>\n<p>Os grossos devedores, que repartem<\/p>\n<p>Contigo os cabedais, que s&atilde;o do reino.<\/p>\n<p>Talvez, meu Doroteu, talvez que entendas<\/p>\n<p>270 &#8212; Que o nosso Fanfarr&atilde;o estima e preza<\/p>\n<p>Os rendeiros que devem, por sistema:<\/p>\n<p>S&oacute; para ver se os ricos desta terra,<\/p>\n<p>A for&ccedil;a de favores animados,<\/p>\n<p>Se esfor&ccedil;am a lan&ccedil;ar nas r&eacute;gias rendas.<\/p>\n<p>275 &#8212; Amigo Doroteu, o nosso chefe,<\/p>\n<p>Se faz alguma coisa, &eacute; s&oacute; movido<\/p>\n<p>Da loucura, ou do s&oacute;rdido interesse.<\/p>\n<p>Eu vou, prezado amigo, eu vou mostrar-te<\/p>\n<p>Esta santa verdade, com exemplos.<\/p>\n<p>280 &#8212; Morre um contratador e se nomeia,<\/p>\n<p>Para tratar dos bens, um seu parente,<\/p>\n<p>Que Rib&eacute;rio se chama. N&atilde;o te posso<\/p>\n<p>Explicar o fervor com que Rib&eacute;rio<\/p>\n<p>Demanda os devedores, vence e cobra<\/p>\n<p>285 &#8212; Os cabedais dispersos desta heran&ccedil;a.<\/p>\n<p>Estava quase extinto o que devia<\/p>\n<p>A fazenda do rei; ent&atilde;o o chefe<\/p>\n<p>Lhe ordena satisfa&ccedil;a todo o resto,<\/p>\n<p>No perempt&oacute;rio termo que lhe assina.<\/p>\n<p>290 &#8212; Exclama o bom Rib&eacute;rio que n&atilde;o pode,<\/p>\n<p>Pois todo o cabedal, que tem cobrado,<\/p>\n<p>Ou est&aacute;, nas demandas, consumido,<\/p>\n<p>Ou tem entrado, j&aacute;, no r&eacute;gio er&aacute;rio.<\/p>\n<p>E, para bem mostrar esta verdade,<\/p>\n<p>295 &#8212; Suplica ao grande chefe, que lhe escolha<\/p>\n<p>Um reto magistrado, que lhe tome,<\/p>\n<p>Da sua comiss&atilde;o, estreita conta.<\/p>\n<p>Pois isto, Doroteu, n&atilde;o vale nada:<\/p>\n<p>Sem contas lhe tomarem, manda o chefe<\/p>\n<p>300 &#8212; Que gema na cadeia, at&eacute; que pague.<\/p>\n<p>J&aacute; viste uma insol&ecirc;ncia semelhante?<\/p>\n<p>Aos grandes devedores, n&atilde;o se assinam<\/p>\n<p>Os termos perempt&oacute;rios para a paga,<\/p>\n<p>Nem v&atilde;o para as cadeias, bem que comam<\/p>\n<p>305 &#8212; A fazenda do rei e s&oacute; Rib&eacute;rio,<\/p>\n<p>Sendo um procurador, que nada deve,<\/p>\n<p>Vai viver na pris&atilde;o, por tempos largos?<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, o nosso chefe<\/p>\n<p>Patrocina aos velhacos, que lhe mandam,<\/p>\n<p>310 &#8212; Para que mais lhe mandem. Prende e vexa<\/p>\n<p>Aos justos, que entesouram suas barras,<\/p>\n<p>Para ver se, oprimidos, se resolvem<\/p>\n<p>A seguir os caminhos dos que largam.<\/p>\n<p>Remata-se um contrato a um sujeito,<\/p>\n<p>315 &#8212; Que o pode bem pagar, por mais que perca<\/p>\n<p>Pertende um fiador deste contrato<\/p>\n<p>Ir tratar, no Peru, do seu comercio;<\/p>\n<p>Vai licen&ccedil;a pedir ao grande chefe,<\/p>\n<p>E o chefe lha concede. Escuta agora;<\/p>\n<p>320 &#8212; Ouvir&aacute;s uma a&ccedil;&atilde;o, a mais indigna<\/p>\n<p>De quantas, por marotos, se fizeram:<\/p>\n<p>Apenas o tal homem sai da terra,<\/p>\n<p>Se despede uma esquadra de soldados<\/p>\n<p>Que, mal com ele topa, lhe d&aacute; busca.<\/p>\n<p>325 &#8212; As cargas se revolvem, nem lhe escapam<\/p>\n<p>As grosseiras cangalhas, que se quebram.<\/p>\n<p>N&atilde;o acham contrabandos, porem, sempre,<\/p>\n<p>Lhe tomam os dinheiros, que ele leva.<\/p>\n<p>E o grande chefe ordena que se metam<\/p>\n<p>330 &#8212; No r&eacute;gio er&aacute;rio todos, inda aqueles,<\/p>\n<p>Que s&atilde;o de v&aacute;rios donos. Dize, amigo,<\/p>\n<p>J&aacute; viste uma injusti&ccedil;a assim t&atilde;o clara?<\/p>\n<p>Aos grossos devedores n&atilde;o se tomam<\/p>\n<p>Os seus pr&oacute;prios dinheiros, bem que tenham<\/p>\n<p>335 &#8212; Comido os cabedais dos seus contratos<\/p>\n<p>E, ao simples fiador de um rematante,<\/p>\n<p>Que nada, ainda, deve, e que tem muito,<\/p>\n<p>V&atilde;o-se, &agrave; for&ccedil;a, tomar os seus dinheiros,<\/p>\n<p>E os dinheiros, que &eacute; mais, de estranhas partes!<\/p>\n<p>340 &#8212; Agora, Doroteu, n&atilde;o tens que digas,<\/p>\n<p>H&aacute;s de, enfim, confessar, que o nosso chefe<\/p>\n<p>Somente n&atilde;o oprime a quem lhe larga. <\/p>\n<p>Ora, ouve as circunstancias que inda acrescem<\/p>\n<p>E que inda afeiam mais o torpe caso:<\/p>\n<p>345 &#8212; Espalham as m&aacute;s l&iacute;nguas, que Mat&uacute;sio<\/p>\n<p>Pedira ao tal sujeito lhe cornprasse,<\/p>\n<p>Uns finos guardanapos e toalhas;<\/p>\n<p>Que o fiador mesquinho lh&#8217;os trouxera<\/p>\n<p>E, vendo que Mat&uacute;sio se esquecia,<\/p>\n<p>350 &#8212; Lhe chegou a pedir, sem peio, a paga.<\/p>\n<p>Que o chefe, ressentido desta inj&uacute;ria,<\/p>\n<p>Lhe mandou dar a busca por vingan&ccedil;a,<\/p>\n<p>E que at&eacute; ao presente inda n&atilde;o consta<\/p>\n<p>Que o pre&ccedil;o da encomenda se pagasse.<\/p>\n<p>355 &#8212; Que mais pode fazer o seu lacaio?<\/p>\n<p>Isto n&atilde;o &eacute; mais feio, que despir-se<\/p>\n<p>A preciosa capa ao grande Jove<\/p>\n<p>E mandar-se tirar ao s&aacute;bio filho,<\/p>\n<p>O famoso Escul&aacute;pio, as barbas de ouro?<\/p>\n<p>360 &#8212; Amigo Doroteu, se acaso vires,<\/p>\n<p>Na corte, algum fidalgo pobre e roto,<\/p>\n<p>Dize-lhe que procure este governo;<\/p>\n<p>Que, a n&atilde;o acreditar que h&aacute; outra vida,<\/p>\n<p>Com fazer quatro mimos aos rendeiros,<\/p>\n<p>365 &#8212; H&aacute; de &agrave; p&aacute;tria voltar, casquilho e gordo.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">CARTA 9&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se contam as desordens que Fanfarr&atilde;o obrou no governo das tropas.<\/p>\n<p>Agora, Doroteu, agora estava<\/p>\n<p>Bamboando, na rede pregui&ccedil;osa<\/p>\n<p>E tomando, na fina por&ccedil;olana,<\/p>\n<p>O mate saboroso, quando escuto<\/p>\n<p>5 &#8212; De grossa artilharia o rouco estrondo.<\/p>\n<p>O sangue se congela, a casa treme,<\/p>\n<p>E pesada por&ccedil;&atilde;o de estuque velho,<\/p>\n<p>A viol&ecirc;ncia do abalo despegada<\/p>\n<p>Da barriguda esteira, faZ que eu perca<\/p>\n<p>10 &#8212; A tigela esmaltada, que era a coisa<\/p>\n<p>Que tinha, nesta casa, de algum pre&ccedil;o.<\/p>\n<p>Apenas torno em mim daquele susto,<\/p>\n<p>Me lembra ser o dia em que o bom chefe,<\/p>\n<p>Aos seus auxiliares, li&ccedil;&otilde;es dava<\/p>\n<p>15 &#8212; Da que Saxi chamou pequena guerra.<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, n&atilde;o sou t&atilde;o n&eacute;scio,<\/p>\n<p>Que os avisos de Jove n&atilde;o conhe&ccedil;a.<\/p>\n<p>Pois n&atilde;o me deu a veia de poeta,<\/p>\n<p>Nem me trouxe, por mares empolados,<\/p>\n<p>20 &#8212; A Chile, para que, gostoso e mole,<\/p>\n<p>Descanse o corpo na franjada rede.<\/p>\n<p>Nasceu o s&aacute;bio Homero entre os antigos,<\/p>\n<p>Para o nome cantar, do grego Aquiles;<\/p>\n<p>Para cantar, tamb&eacute;m, ao pio En&eacute;ias,<\/p>\n<p>25 &#8212; Teve o povo romano o seu Verg&iacute;lio:<\/p>\n<p>Assim, para escrever os grande feitos<\/p>\n<p>Que o nosso Fanfarr&atilde;o obrou em Chile,<\/p>\n<p>Entendo, Doroteu, que a Provid&ecirc;ncia<\/p>\n<p>Lan&ccedil;ou, na culta Espannha, o teu Critilo.<\/p>\n<p>30 &#8212; Ora pois, Doroteu, eu passo, eu passo<\/p>\n<p>A cumprir, respeitoso, os meus deveres<\/p>\n<p>E, j&aacute; que o meu her&oacute;i, agora, adestra<\/p>\n<p>Esquadras belicosas, tamb&eacute;m, hoje,<\/p>\n<p>Tomarei por empresa s&oacute; mostrar-te<\/p>\n<p>35 &#8212; Que ele fez, na mil&iacute;cia, grandes coisas.<\/p>\n<p>Ha, nesta capital, um regimento<\/p>\n<p>De tropa regular, a quem se daga.<\/p>\n<p>Tu sabes, Doroteu, que n&atilde;o h&aacute; corpo<\/p>\n<p>Que, todo, de iguais membros se componha.<\/p>\n<p>40 &#8212; Das ordens mais austeras, que fizeram<\/p>\n<p>Os santos penitentes patriarcas,<\/p>\n<p>Sa&iacute;ram, contra o trono rebelados,<\/p>\n<p>Os infames Clementes, e sa&iacute;ram<\/p>\n<p>Contra o dogma, os Calvinos e os Luteros;<\/p>\n<p>45 &#8212; O mesmo Apostolado teve um Judas.<\/p>\n<p>Se isto pois, Doroteu, assim sucede<\/p>\n<p>Nos corpos, que se formam de escolhidos,<\/p>\n<p>Que n&atilde;o suceder&aacute;, nos grandes corpos,<\/p>\n<p>Aonde se recebam as pessoas<\/p>\n<p>50 &#8212; Que timbre fazem, dos seus pr&oacute;prios v&iacute;cios?<\/p>\n<p>O meio, Doroteu, o forte meio<\/p>\n<p>Que os chefes descobriram para terem<\/p>\n<p>Os corpos que governam, em sossego,<\/p>\n<p>Consiste em repartirem com m&atilde;o reta<\/p>\n<p>55 &#8212; Os pr&ecirc;mios e os castigos, pois que poucos<\/p>\n<p>Os delitos evitam, porque prezam<\/p>\n<p>A c&acirc;ndida virtude. Os mais dos homens<\/p>\n<p>Aos v&iacute;cios fogem, porque as penas temem.<\/p>\n<p>Ora ouve, Doroteu, o como o chefe<\/p>\n<p>60 &#8212; Os castigos reparte aos seus guerreiros.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute;, n&atilde;o h&aacute; dist&uacute;rbio nesta terra,<\/p>\n<p>De que m&atilde;o militar n&atilde;o seja autora.<\/p>\n<p>Chega, prezado amigo, a ousadia<\/p>\n<p>De um indigno soldado a este excesso:<\/p>\n<p>65 &#8212; Aperta, na direita, o ferro agudo<\/p>\n<p>E penetra as paredes de pal&aacute;cio,<\/p>\n<p>No meio de uma sala, aonde estavam<\/p>\n<p>As duas sentinelas, que defendem,<\/p>\n<p>Da casa do dossel, a nobre entrada.<\/p>\n<p>70 &#8212; Aqui, meu Doroteu, aqui se chega<\/p>\n<p>Ao camarada inerme e, pelas costas,<\/p>\n<p>O deixa quase morto, a punhaladas.<\/p>\n<p>Que esperas tu, agora, que eu te diga?<\/p>\n<p>Que o militar conselho j&aacute; se apressa?<\/p>\n<p>75 &#8212; Que j&aacute; se liga, ao poste, o delinq&uuml;ente?<\/p>\n<p>Que os olhos, com o len&ccedil;o, j&aacute; lhe cobrem?<\/p>\n<p>Que a bala zunidora j&aacute; lhe rompe<\/p>\n<p>O peito palpitante? Que suspira?<\/p>\n<p>Que lhe cai, sobre os ombros, a cabe&ccedil;a?<\/p>\n<p>80 &#8212; Meu caro Doroteu, o nosso chefe<\/p>\n<p>&Eacute; muito compassivo, sim, bem pode<\/p>\n<p>Oprimir os paisanos inocentes<\/p>\n<p>Com pesadas cadeias, pode, ainda,<\/p>\n<p>Ver o sangue esguichar das rotas costas<\/p>\n<p>85 &#8212; &Agrave; for&ccedil;a dos zorragues, mas n&atilde;o pode<\/p>\n<p>Consentir que se d&ecirc;, nos seus soldados,<\/p>\n<p>Por maiores insultos que cometam,<\/p>\n<p>A pena inda mais leve: assim praticam<\/p>\n<p>Os famosos guerreiros, que nasceram<\/p>\n<p>90 &#8212; Para obrarem, no mundo, empresas grandes.<\/p>\n<p>Ele, sim bem conhece que n&atilde;o h&aacute;-de<\/p>\n<p>Talar, com estas tropas, as campinas,<\/p>\n<p>Que o c&eacute;u lhe n&atilde;o concede a esperan&ccedil;a<\/p>\n<p>De entrar no templo augusto da Vit&oacute;ria,<\/p>\n<p>95 &#8212; Coberto de poeira e negro sangue.<\/p>\n<p>Mas sempre, Doroteu, as quer propicias,<\/p>\n<p>Pois, inda que n&atilde;o cinjam as espadas,<\/p>\n<p>Para cortar loureiros e carvalhos,<\/p>\n<p>Que a testa lhes circulem, s&atilde;o aquelas<\/p>\n<p>100 &#8212; Que, prontas, executam seus mandados;<\/p>\n<p>S&atilde;o aquelas, que infundem, nestes povos,<\/p>\n<p>O medo e sujei&ccedil;&atilde;o, com que toleram<\/p>\n<p>O verem em desprezo as leis sagradas.<\/p>\n<p>Conhece, Doroteu, o pr&oacute;prio chefe,<\/p>\n<p>105 &#8212; Que vai passando a muito a liberdade<\/p>\n<p>Das fardas atrevidas, e, querendo<\/p>\n<p>A tais desordens p&ocirc;r rem&eacute;dio e freio,<\/p>\n<p>N&atilde;o manda que se cumpram as leis santas<\/p>\n<p>Que, aos delitos, arbitram justas penas.<\/p>\n<p>110 &#8212; Manda, sim, um cartaz, aonde inova<\/p>\n<p>Que, todos os domingos, na parada,<\/p>\n<p>Se leia o militar regulamento.<\/p>\n<p>Indigno e bruto chefe, de que serve<\/p>\n<p>Que se leiam as leis, se os malfeitores,<\/p>\n<p>115 &#8212; Do que mandam, n&atilde;o v&ecirc;em um s&oacute; exemplo.<\/p>\n<p>Tens visto, Doroteu, o como o chefe<\/p>\n<p>Os delitos castiga; agora sabe<\/p>\n<p>Da sorte que reparte, aos bons, os pr&ecirc;mios.<\/p>\n<p>Morreu um capit&atilde;o, e subiu logo,<\/p>\n<p>120 &#8212; Ao posto devoluto, um bom tenente.<\/p>\n<p>Porque foi, Doroteu? seria, acaso,<\/p>\n<p>Por ser tenente antigo? Ou porque tinha<\/p>\n<p>Com honra militado? N&atilde;o, amigo,<\/p>\n<p>Foi s&oacute; porque largou tr&ecirc;s mil cruzados!<\/p>\n<p>125 &#8212; Ah! n&atilde;o mudes a cor de teu semblante,<\/p>\n<p>Prudente Maximino! N&atilde;o, n&atilde;o mudes.<\/p>\n<p>Que importa que comprasses a patente?<\/p>\n<p>Se tu a merecias, a vileza<\/p>\n<p>Da compra n&atilde;o te infama, sim ao chefe,<\/p>\n<p>130 &#8212; Que nunca faz justi&ccedil;a, sem que a venda.<\/p>\n<p>Reforma um capit&atilde;o e, no seu posto,<\/p>\n<p>Encaixa, sem vergonha, a Tom\u00e1sine,<\/p>\n<p>Um mo&ccedil;o, na mil&iacute;cia pouco esperto,<\/p>\n<p>135 &#8212; Que um ano inda n&atilde;o tinha de tenente.<\/p>\n<p>Em que guerras andou, em que campanhas?<\/p>\n<p>Quais as feridas, que no corpo mostra?<\/p>\n<p>Aonde, aonde est&atilde;o as dilig&ecirc;ncias,<\/p>\n<p>As grandes dilig&ecirc;ncias arriscadas,<\/p>\n<p>Que fez este mancebo, com que possa<\/p>\n<p>140 &#8212; Preferir aos antigos, destros cabos?<\/p>\n<p>Ah! sim, eu j&aacute; me lembro! Tem servi&ccedil;os,<\/p>\n<p>Tem famosos servi&ccedil;os, na verdade:<\/p>\n<p>A casa deste mo&ccedil;o, bem que pobre,<\/p>\n<p>&Eacute; a casa somente, aonde o chefe<\/p>\n<p>145 &#8212; Entra em ar de visita, bebe e folga.<\/p>\n<p>Aqui tens teu lugar, meu bom Lob&eacute;sio;<\/p>\n<p>Tu foste a capit&atilde;o e tu passaste<\/p>\n<p>Ao posto de major em breves meses.<\/p>\n<p>Quais s&atilde;o os teus servi&ccedil;os? Quais? Responde.<\/p>\n<p>150 &#8212; Mas n&atilde;o, n&atilde;o me respondas; eu conhe&ccedil;o<\/p>\n<p>Que &eacute;s tolo, que &eacute;s brejeiro e, mais, que mandas<\/p>\n<p>As redradas pedrinhas. Estes dotes<\/p>\n<p>Te fazem, no conceito do teu chefe,<\/p>\n<p>Um digno pai da p&aacute;tria, her&oacute;i do reino.<\/p>\n<p>155 &#8212; Tamb&eacute;m tu, &oacute; Padela, te distingues<\/p>\n<p>Na corja dos marotos. Tu conservas<\/p>\n<p>De capit&atilde;o o cargo, mas tu logras<\/p>\n<p>O soldo de maior, e mais as honras.<\/p>\n<p>Que foi que te fez digno de subires<\/p>\n<p>160 &#8212; &Agrave; privan&ccedil;a do chefe? Ah! sim, eu vejo<\/p>\n<p>O teu merecimento! &Eacute; coisa grande:<\/p>\n<p>Ultrajas aos ministros e proteges<\/p>\n<p>A todos os tratantes, que exercitam<\/p>\n<p>O furto e o contrabando. Tu, piedoso,<\/p>\n<p>165 &#8212; N&atilde;o queres ver perdido um s&oacute; soldado;<\/p>\n<p>Se algum, se algum consente que se escalem<\/p>\n<p>Os vedados lugares, tu escreves<\/p>\n<p>Ao sucessor honrado e lhe suplicas<\/p>\n<p>Que parte n&atilde;o te d&ecirc;, de um tal desmancho.<\/p>\n<p>170 &#8212; O teu fidalgo peito n&atilde;o se vence<\/p>\n<p>Da s&oacute;rdida avareza. Tu repartes<\/p>\n<p>Os luzentes seixinhos c&#8217;o teu chefe,<\/p>\n<p>E, bem que o seu Mat&uacute;sio, em nome dele,<\/p>\n<p>Os ache miudinhos, sempre servem.<\/p>\n<p>175 &#8212; Tamb&eacute;m tu, digno irm&atilde;o, tamb&eacute;m cavalgas<\/p>\n<p>O posto de tenente, por dizeres<\/p>\n<p>Que honrado comandante, na parada,<\/p>\n<p>Austero te corrige, por falares<\/p>\n<p>Dos retos magistrados, sem respeito.<\/p>\n<p>180 &#8212; Que vezes a cacha&ccedil;a&#8230; Mas, amigo,<\/p>\n<p>Deixemos de falar na paga tropa<\/p>\n<p>E vamos a falar do grande corpo<\/p>\n<p>Da gente auxiliar; aqui podemos<\/p>\n<p>Acabar de dizer o mais que falta.<\/p>\n<p>185 &#8212; Tinha este continente, levantados,<\/p>\n<p>De tropa auxiliar uns treze corpos.<\/p>\n<p>O nosso chefe ainda n&atilde;o se farta:<\/p>\n<p>Alista o povo inteiro, e, dele, forma<\/p>\n<p>Inda mais de quarenta regimentos,<\/p>\n<p>190 &#8212; Mais faminto de ver gal&otilde;es e fardas<\/p>\n<p>Que Midas de trocar em ouro puro<\/p>\n<p>As coisas em que punha o torpe dedo.<\/p>\n<p>O coronel, valente, agarra tudo<\/p>\n<p>Quanto tem, de var&atilde;o, a forma e traje;<\/p>\n<p>195 &#8212; Nem lhe obsta, Doroteu, que os seus soldados<\/p>\n<p>Meninos inda sejam; que eles crescem,<\/p>\n<p>E cresce, com os corpos, igualmente,<\/p>\n<p>O santo amor das armas. Muitos, muitos,<\/p>\n<p>Quando v&atilde;o para a igreja receberem<\/p>\n<p>200 &#8212; As &aacute;guas salvadoras do batismo,<\/p>\n<p>J&aacute; v&atilde;o vestidos com a curta farda.<\/p>\n<p>Este mesmo costume tem, amigo,<\/p>\n<p>O pago regimento. Apenas nasce<\/p>\n<p>Aos cabos algum filho, logo, &agrave; pressa,<\/p>\n<p>205 &#8212; Lhe assenta o chefe, de cadete, a pra&ccedil;a<\/p>\n<p>Venturoso costume, que promete<\/p>\n<p>Produzir, de cordeiros, tigres bravos!<\/p>\n<p>An&iacute;bal, Doroteu, desde menino<\/p>\n<p>Com seu pai militou; talvez n&atilde;o fosse<\/p>\n<p>210 &#8212; O terror dos romanos, se passasse<\/p>\n<p>A tenra, inda imberbe mocidade,<\/p>\n<p>Entre os moles prazeres de Cartago.<\/p>\n<p>Contudo, Doroteu, o c&eacute;u permita<\/p>\n<p>Que guerras n&atilde;o tenhamos;pois, a termos<\/p>\n<p>215 &#8212; Algum acampamento, que constranja<\/p>\n<p>A sa&iacute;rem da pra&ccedil;a os regimentos,<\/p>\n<p>H&aacute; de haver bom trabalho em conduzir-se<\/p>\n<p>O rancho de crian&ccedil;as em jacases.<\/p>\n<p>H&aacute;-de, tamb&eacute;m, haver despesa grande<\/p>\n<p>220 &#8212; Em levar-se uma tropa de mulheres,<\/p>\n<p>Que d&ecirc;em o peito a uns e a outros papa.<\/p>\n<p>Tu sabes, Doroteu, que as nossas tropas<\/p>\n<p>De infantaria s&atilde;o, porem montada;<\/p>\n<p>Que as leis do nosso reino n&atilde;o consentem<\/p>\n<p>225 &#8212; Que estas montadas tropas se componham<\/p>\n<p>De membros, que n&atilde;o tenham certas rendas,<\/p>\n<p>Com que possam manter os seus cavalos.<\/p>\n<p>Ora ouve, Doroteu, quais s&atilde;o as posses<\/p>\n<p>Dos m&iacute;seros paisanos, que se alistam<\/p>\n<p>230 &#8212; Nos fortes regimentos: quase todos<\/p>\n<p>Um sendeiro n&atilde;o t&ecirc;m, e muitos deles<\/p>\n<p>Gemeram nas pris&otilde;es, por n&atilde;o poderem<\/p>\n<p>Ajeitar uma grossa e curta farda.<\/p>\n<p>Eu topei Doroteu, por v&aacute;rias vezes,<\/p>\n<p>235 &#8212; Atr&aacute;s de um regimento, os rapazinhos<\/p>\n<p>Em veste e mais descal&ccedil;os: fina id&eacute;ia<\/p>\n<p>Em que deram os cabos, para verem<\/p>\n<p>Se, &agrave; for&ccedil;a de vergonha, se fardavam.<\/p>\n<p>Eu sei, eu sei, amigo, que alguns destes,<\/p>\n<p>240 &#8212; Cansados de sofrerem mais opr&oacute;brios,<\/p>\n<p>Fizeram fardamentos dos produtos<\/p>\n<p>Dos &uacute;nicos escravos, que venderam<\/p>\n<p>E dos trastes alheios, que furtaram.<\/p>\n<p>Perguntar&aacute;s, agora, doce amigo:<\/p>\n<p>245 &#8212; &quot;Aonde est&atilde;o os ricos taverneiros?<\/p>\n<p>Aonde os mercadores, que t&ecirc;m lojas<\/p>\n<p>A que chamam de seco e de molhado?&quot;<\/p>\n<p>Aonde, Doroteu? Eu j&aacute; t&#8217;o digo:<\/p>\n<p>Est&atilde;o, est&atilde;o, tamb&eacute;m, nos regimentos,<\/p>\n<p>250 &#8212; Mas trazem nas direitas, que conservam<\/p>\n<p>Inda lixosas peles, as bengalas.<\/p>\n<p>N&atilde;o rias, Doroteu, das nossas tropas.<\/p>\n<p>De que gente formou um corpo invicto<\/p>\n<p>O luso Viriato? Foi de mo&ccedil;os<\/p>\n<p>255 &#8212; Criados, desde a inf&acirc;ncia, nas campanhas?<\/p>\n<p>N&atilde;o foi, meu Doroteu, foi de uns pastores,<\/p>\n<p>De uns pastores incultos, que, animados<\/p>\n<p>Do esfor&ccedil;o do seu chefe, conseguiram<\/p>\n<p>Vit&oacute;rias singulares, contra um povo<\/p>\n<p>260 &#8212; Que ao mundo sujeitou, &agrave; for&ccedil;a de armas.<\/p>\n<p>Os homens, Doroteu, s&atilde;o todos fortes<\/p>\n<p>Em cima das muralhas, que defendem<\/p>\n<p>As chorosas mulheres e as fazendas,<\/p>\n<p>Os ternos filhos e os av&oacute;s cansados.<\/p>\n<p>265 &#8212; A desordem, amigo, n&atilde;o consiste<\/p>\n<p>Em formar esquadr&otilde;es, mas, sim, no excesso.<\/p>\n<p>Um reino bem regido n&atilde;o se forma<\/p>\n<p>Somente de soldados; tem de tudo:<\/p>\n<p>Tem mil&iacute;cia, lavoura, e tem com&eacute;rcio.<\/p>\n<p>270 &#8212; Se quantos forem ricos se adornarem<\/p>\n<p>Das golas e das bandas, n&atilde;o teremos<\/p>\n<p>Um s&oacute; deposit&aacute;rio, nem os &oacute;rf&atilde;os<\/p>\n<p>Ter&atilde;o tamb&eacute;m tutores, quando nisto<\/p>\n<p>Interessa, igualmente, o bem do imp&eacute;rio.<\/p>\n<p>275 &#8212; Carece a monarquia dez mil homens<\/p>\n<p>De tropa auxiliar? N&atilde;o haja embora<\/p>\n<p>De menos um soldado, mas os outros<\/p>\n<p>V&atilde;o &agrave; p&aacute;tria servir nos mais empregos,<\/p>\n<p>Pois os corpos civis s&atilde;o como os nossos,<\/p>\n<p>280 &#8212; Que, tendo um membro forte e os outros debeis,<\/p>\n<p>Se devem, Doroteu, julgar enfermos.<\/p>\n<p>&Eacute; tamb&eacute;m, Doroteu, contra a policia<\/p>\n<p>Franquearem-se as portas, a que subam<\/p>\n<p>Aos distintos empregos, as pessoas<\/p>\n<p>285 &#8212; Que v&ecirc;m de humildes troncos. Os tendeiros,<\/p>\n<p>Mal se v&ecirc;em capit&atilde;es, s&atilde;o j&aacute; fidalgos;<\/p>\n<p>Seus n&eacute;scios descendentes j&aacute; n&atilde;o querem<\/p>\n<p>Conservar as tavernas, que lhes deram<\/p>\n<p>Os primeiros sapatos e os primeiros<\/p>\n<p>290 &#8212; Capotes com capuz de grosso pano.<\/p>\n<p>Que imp&eacute;rio, Doroteu, que imp&eacute;rio pode<\/p>\n<p>Um povo sustentar, que s&oacute; se forma<\/p>\n<p>De nobres sem of&iacute;cios? Estes membros<\/p>\n<p>N&atilde;o amam, como devem, as virtudes,<\/p>\n<p>295 &#8212; Seguem &agrave; r&eacute;dea solta os torpes v&iacute;cios.<\/p>\n<p>Daqui saem os torpes malfeitores,<\/p>\n<p>Os vis alcoviteiros, os perjuros,<\/p>\n<p>Os famosos ladroes; numa palavra,<\/p>\n<p>A tropa insultadora de vadios.<\/p>\n<p>300 &#8212; A este corpo imenso de mil&iacute;cia<\/p>\n<p>Concede Fanfarr&atilde;o as regalias<\/p>\n<p>Que as nossas leis n&atilde;o d&atilde;o aos bons vassalos,<\/p>\n<p>Que chegam aos empregos mais honrosos,<\/p>\n<p>Em paga de proezas e servi&ccedil;os.<\/p>\n<p>305 &#8212; N&atilde;o quer, n&atilde;o quer o chefe, que aos seus cabos<\/p>\n<p>Mandem citar os tristes acredores<\/p>\n<p>Por ordem de justi&ccedil;a. Quais os grandes,<\/p>\n<p>Que n&atilde;o v&ecirc;m a ju&iacute;zo sem licen&ccedil;a<\/p>\n<p>Do pr&iacute;ncipe, a quem servem, nesta terra,<\/p>\n<p>310 &#8212; Sem licen&ccedil;a do chefe, n&atilde;o se citam<\/p>\n<p>Os negros, os crioulos e os mulatos,<\/p>\n<p>Mal vestem a fardinha e, muito menos,<\/p>\n<p>Mal cingem, na cintura, honrosa banda.<\/p>\n<p>Se algu&eacute;m requer ao chefe que permita<\/p>\n<p>315 &#8212; Para isso faculdade, p&otilde;e-lhe em cima<\/p>\n<p>De humilde peti&ccedil;&atilde;o, que o suplicado<\/p>\n<p>Componha ao suplicante o que lhe deve.<\/p>\n<p>Se diz o suplicado ao suplicante<\/p>\n<p>Que n&atilde;o lhe deve nada, foi-se embora<\/p>\n<p>320 &#8212; O s&oacute;lido direito, que a policia<\/p>\n<p>Do chefe n&atilde;o consente que se ponha<\/p>\n<p>Aos seus oficiais, inda que sejam<\/p>\n<p>Velhacos e ladr&otilde;es, no foro, um pleito.<\/p>\n<p>J&aacute; viste regalia igual a esta?<\/p>\n<p>325 &#8212; A p&aacute;tria, Doroteu, concede aos nobres,<\/p>\n<p>Que os postos exercitam, grossas rendas,<\/p>\n<p>Com que possam pagar, aos mais vassalos<\/p>\n<p>As coisas que lhes compram; n&atilde;o concede<\/p>\n<p>Ao mesmo general que vista e coma,<\/p>\n<p>330 &#8212; &Agrave; custa do suor dos outros homens.<\/p>\n<p>E quando o rei n&atilde;o quer pagar a todos,<\/p>\n<p>Com dinheiro contado, remunera<\/p>\n<p>Os servi&ccedil;os com gra&ccedil;as, mas daquelas<\/p>\n<p>Que deixam sempre intacto o jus alheio.<\/p>\n<p>335 &#8212; N&atilde;o s&atilde;o somente isentos da justi&ccedil;a<\/p>\n<p>Os cabos valerosos. Onde habitam,<\/p>\n<p>Se acolhem, Doroteu, os malfeitores,<\/p>\n<p>E, quais antigas casas de fidalgos,<\/p>\n<p>Ou famosos conventos, que, na porta,<\/p>\n<p>340 &#8212; T&ecirc;m as grossas cadeias, onde pegam<\/p>\n<p>Os m&iacute;seros culpados, aqui todos<\/p>\n<p>Se livram dos meirinhos, bem que sejam<\/p>\n<p>Indignos, torpes r&eacute;us de magistrado.<\/p>\n<p>Se os ousados meirinhos entrar querem<\/p>\n<p>345 &#8212; Nas casas destes cabos, a que chamam<\/p>\n<p>Militares quart&eacute;is, os fortes donos<\/p>\n<p>Encaixam nas cabe&ccedil;as os casquetes,<\/p>\n<p>Apertam as correias, p&otilde;em as bandas<\/p>\n<p>E, cingindo as torcidas, largas folhas.<\/p>\n<p>350 &#8212; Ultrajam com palavras a justi&ccedil;a,<\/p>\n<p>Resistem, gritam, ferem, matam, prendem.<\/p>\n<p>Os zelosos ju&iacute;zes punir querem<\/p>\n<p>A inj&uacute;ria da justi&ccedil;a: formam autos,<\/p>\n<p>Procedem &agrave;s devassas, pronunciam,<\/p>\n<p>355 &#8212; E mandam que estes nomes se descrevam<\/p>\n<p>Nos r&oacute;is dos mais culpados. Mas, amigo,<\/p>\n<p>De que serve fazer-se o que as leis mandam<\/p>\n<p>Na terra, que governa um bruto chefe,<\/p>\n<p>Que n&atilde;o tem outra lei mais que a vontade?<\/p>\n<p>360 &#8212; O chefe onipotente logo envia<\/p>\n<p>Atrevidos soldados, que, chegando<\/p>\n<p>&Agrave; casa do escriv&atilde;o, os nomes riscam<\/p>\n<p>Do rol dos delinq&uuml;entes e lhe arrancam<\/p>\n<p>Da fechada gaveta os pr&oacute;prios autos.<\/p>\n<p>365 &#8212; Ousado, indigno chefe, que governo,<\/p>\n<p>Que governos nos fazes? A mil&iacute;cia<\/p>\n<p>Ergueu-se para guarda dos vassalos,<\/p>\n<p>E tu, e tu trabalhas, por que seja<\/p>\n<p>A mesma que nos prive do sossego<\/p>\n<p>370 &#8212; Que, pr&oacute;vidas, nos d&atilde;o as leis sagradas.<\/p>\n<p>Agora, Doroteu, talvez trabalhes<\/p>\n<p>Em achar o motivo por que o chefe<\/p>\n<p>Concede tanto indulto aos seus soldados;<\/p>\n<p>Pois ele, Doroteu, n&atilde;o &eacute; o enigma,<\/p>\n<p>375 &#8212; Que vem nos doces versos de Verg&iacute;lio,<\/p>\n<p>De umas flores, que t&ecirc;m de reis os nomes<\/p>\n<p>Escritos sobre as folhas, e do sitio<\/p>\n<p>De que tr&ecirc;s bra&ccedil;as s&oacute; do c&eacute;u se avista.<\/p>\n<p>O chefe, Doroteu, s&oacute; quer dinheiro,<\/p>\n<p>375 &#8212; E, dando aos militares regalias,<\/p>\n<p>Podem os grandes postos, que lhes vende,<\/p>\n<p>Subir &agrave; propor&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m de pre&ccedil;o.<\/p>\n<p>Tu assim o conheces, Cata Preta,<\/p>\n<p>Pois deste mil oitavas por trazeres<\/p>\n<p>385 &#8212; Lavrado cast&atilde;o de ouro sobre a cana.<\/p>\n<p>Tu tamb&eacute;m, capanema, assim discorres,<\/p>\n<p>Pois largaste seiscentas, por vestires<\/p>\n<p>De capit&atilde;o maior vermelha farda.<\/p>\n<p>Todos assim o julgam. Ah! s&oacute; pensa<\/p>\n<p>390 &#8212; De diversa maneira, aquele n&eacute;scio<\/p>\n<p>Que sofreu que Mat&uacute;sio lhe rompesse<\/p>\n<p>A passada patente &agrave; sua vista,<\/p>\n<p>Por n&atilde;o largar, de luvas, os trezentos.<\/p>\n<p>Dize-me, Doroteu, um chefe s&aacute;bio<\/p>\n<p>395 &#8212; Levanta nas conquistas umas tropas,<\/p>\n<p>Com que n&atilde;o pode a for&ccedil;a do distante<\/p>\n<p>Conquistador imp&eacute;rio? Infunde, inspira<\/p>\n<p>Nos cabos tanto orgulho, que se atrevam<\/p>\n<p>A resistir aos mesmos magistrados,<\/p>\n<p>400 &#8212; Que a pessoa do augusto representam?<\/p>\n<p>Maldito, Doroteu, maldito seja<\/p>\n<p>Um bruto, que s&oacute; quer a todo custo,<\/p>\n<p>Entesourar o s&oacute;rdido dinheiro.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">CARTA l0&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se contam as desordens maiores que Fanfarr&atilde;o fez no seu governo.<\/p>\n<p>Quis, amigo, compor sentidos versos<\/p>\n<p>A uma longa aus&ecirc;ncia e, para encher-me<\/p>\n<p>De ternas express&otilde;es, de imagens tristes,<\/p>\n<p>A banca fui sentar-me, com projeto<\/p>\n<p>5 &#8212; De ler, primeiramente, algumas obras<\/p>\n<p>No meu j&aacute; roto, destroncado Ov&iacute;dio.<\/p>\n<p>Abri-o nas saudosas alegrias<\/p>\n<p>E, quando me embebia na leitura<\/p>\n<p>Dos casos lastimosos, que ele pinta,<\/p>\n<p>10 &#8212; Na passagem que fez ao Ponto Eux&iacute;nio<\/p>\n<p>Encontro aqueles versos que descrevem<\/p>\n<p>As ondas decumanas; de repente<\/p>\n<p>Me sobe ao pensamento que estas eram<\/p>\n<p>Do nosso Fanfarr&atilde;o imagem viva.<\/p>\n<p>15 &#8212; Os mares, Doroteu, jamais descansam;<\/p>\n<p>Agitam sem cessar as verdes &aacute;guas,<\/p>\n<p>E, depois que levantam ondas nove,<\/p>\n<p>Com menos fortid&atilde;o, despedem outra,<\/p>\n<p>Que corre mais ligeira e que se quebra<\/p>\n<p>20 &#8212; Nos musgosos rochedos com mais for&ccedil;a.<\/p>\n<p>Assim o nosso chefe n&atilde;o descansa<\/p>\n<p>De fazer, Doroteu, no seu governo,<\/p>\n<p>Asneiras sobre asneiras e, entre as muitas,<\/p>\n<p>Que menos violentas nos parecem,<\/p>\n<p>25 &#8212; Pratica outras que excedem muito e muito<\/p>\n<p>As raias dos humanos desconcertos.<\/p>\n<p>Perdoa, minha Nise, que eu desista<\/p>\n<p>Do intento come&ccedil;ado. Tu mil vezes<\/p>\n<p>Nos meus olhos j&aacute; leste os meus afetos,<\/p>\n<p>30 &#8212; N&atilde;o careces de os ler nos meus escritos.<\/p>\n<p>Perdoa, pois, que eu gaste as breves horas<\/p>\n<p>A contar as asneiras desumanas<\/p>\n<p>Do nosso Fanfarr&atilde;o ao caro amigo.<\/p>\n<p>E tu, meu Doroteu, antes que leias<\/p>\n<p>35 &#8212; O que vou a contar-te, jurar deves<\/p>\n<p>Pelos olhos da tua amada esposa,<\/p>\n<p>Por seu louro cabelo, e pelo dia<\/p>\n<p>Em que viste, na sua alegre boca,<\/p>\n<p>O primeiro sorriso, que n&atilde;o h&aacute;s-de<\/p>\n<p>40 &#8212; Duvidar do que leres, bem que sejam<\/p>\n<p>Desordens que pare&ccedil;am imposs&iacute;veis.<\/p>\n<p>A Junta, Doroteu, a quem pertence<\/p>\n<p>Evitar contrabandos, prende, envia<\/p>\n<p>A sabia Rela&ccedil;&atilde;o do Continente<\/p>\n<p>45 &#8212; A trinta delinq&uuml;entes, para serem<\/p>\n<p>Castigados conforme os seus delitos.<\/p>\n<p>Entende o nosso chefe que esta Junta<\/p>\n<p>N&atilde;o devia mandar aos malfeitores<\/p>\n<p>Sem sua autoridade e, dela, toma<\/p>\n<p>50 &#8212; O mais estranho, b&aacute;rbaro despique.<\/p>\n<p>Manda embargar aos presos na cadeia<\/p>\n<p>Do nosso Santiago, e manda ao pobre<\/p>\n<p>Do condutor meirinho que os sustente,<\/p>\n<p>Assistindo, tamb&eacute;m, aos que enfermarem,<\/p>\n<p>55 &#8212; Com m&eacute;dicos, rem&eacute;dios e galinhas.<\/p>\n<p>Acaba-se o dinheiro que lhe deram<\/p>\n<p>Para fazer os gastos do caminho;<\/p>\n<p>Recorre, neste aperto, ao bruto chefe,<\/p>\n<p>Exp&otilde;e-lhe que n&atilde;o tem com que alimente<\/p>\n<p>60 &#8212; Ao menos a si pr&oacute;prio; pede e roga<\/p>\n<p>Que o deixe recolher &agrave; p&aacute;tria terra,<\/p>\n<p>Para nela exercer seu pobre oficio.<\/p>\n<p>T&atilde;o terna rogativa n&atilde;o merece<\/p>\n<p>Do chefe a compaix&atilde;o; antes lhe ordena<\/p>\n<p>65 &#8212; Que assista, como dantes, aos culpados<\/p>\n<p>De todo o necess&aacute;rio, na enxovia;<\/p>\n<p>Que, a faltar-lhe o dinheiro para os gastos,<\/p>\n<p>Ou que o pe&ccedil;a, ou que o furte. Caro amigo,<\/p>\n<p>Da boca de uma F&uacute;ria sairia<\/p>\n<p>70 &#8212; Mais dura decis&atilde;o? Por que motivo<\/p>\n<p>Deve um pobre meirinho dar sustento<\/p>\n<p>A mais de trinta presos? S&atilde;o seus filhos?<\/p>\n<p>E, ainda a serem filhos, um pai justo,<\/p>\n<p>Que fazenda n&atilde;o tem, vive obrigado<\/p>\n<p>75 &#8212; A sustentar infames malfeitores,<\/p>\n<p>Por meio de culp&aacute;veis latroc&iacute;nios?<\/p>\n<p>Suponho, Doroteu, suponho ainda<\/p>\n<p>Que a Junta fez excesso na remessa<\/p>\n<p>Dos presos, sem licen&ccedil;a. Neste caso<\/p>\n<p>80 &#8212; Merece o condutor algum castigo?<\/p>\n<p>Ele fez outra coisa que n&atilde;o fosse<\/p>\n<p>Cumprir o que mandaram seus maiores?<\/p>\n<p>Podia repugnar-lhes, sem delito?<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, o nosso chefe<\/p>\n<p>85 &#8212; &Eacute; qual mulher ciosa, que n&atilde;o pode<\/p>\n<p>Vingar no v&aacute;rio amante os duros zelos,<\/p>\n<p>E vai desafogar as suas iras,<\/p>\n<p>Bebendo o sangue de inocentes filhos.<\/p>\n<p>Depois de se passarem alguns anos,<\/p>\n<p>90 &#8212; Depois que o bom meirinho j&aacute; n&atilde;o tinha<\/p>\n<p>Vestido que vendesse, nem pessoa<\/p>\n<p>Que um chavo lhe fiasse, o bruto chefe<\/p>\n<p>Passa a fazer-um novo despotismo:<\/p>\n<p>Ordena que os culpados sejam soltos,<\/p>\n<p>95 &#8212; E, dizem, lhes mandava vinte oitavas,<\/p>\n<p>Para os gastos fazerem da fugida.<\/p>\n<p>At&eacute; aqui pagou o seu desgosto<\/p>\n<p>O pobre condutor; agora o paga<\/p>\n<p>A triste, aflita p&aacute;tria, pois lhe aumenta,<\/p>\n<p>100 &#8212; Dos torpes malfeitores, a quadrilha.<\/p>\n<p>&Eacute; esta, Doroteu, a sua gente;<\/p>\n<p>Trafica em coisa santa, no com&eacute;rcio<\/p>\n<p>Da compra e mais da venda de seixinhos,<\/p>\n<p>Neg&oacute;cio avantajado e mais seguro<\/p>\n<p>105 &#8212; Que o meter entre os fardos das baetas,<\/p>\n<p>Os pesados gal&otilde;es e as drogas finas.<\/p>\n<p>Preza o bravo le&atilde;o aos le&otilde;es bravos,<\/p>\n<p>A fraca pomba preza as pombas fracas,<\/p>\n<p>E o homem, apesar do racioc&iacute;nio<\/p>\n<p>110 &#8212; Que a verdade lhe mostra, estima aos homens<\/p>\n<p>Que t&ecirc;m iguais paix&otilde;es e os mesmos v&iacute;cios.<\/p>\n<p>Avisam ao bom chefe que um ministro<\/p>\n<p>Queria que os soldados lhe mostrassem<\/p>\n<p>As ordens, com que entravam a fazerem<\/p>\n<p>115 &#8212; Pris&otilde;es no seu distrito. Investe o bruto<\/p>\n<p>Qual touro levantado, a quem acenam,<\/p>\n<p>C&#8217;os vermelhos droguetes, os capinhas;<\/p>\n<p>Escreve-lhe uma carta, em que lhe ordena<\/p>\n<p>Lhe d&ecirc; logo as razoes, em que se funda.<\/p>\n<p>120 &#8212; Inda pede as raz&otilde;es, e j&aacute; lhe estranha<\/p>\n<p>O n&eacute;scio proceder. Aqui n&atilde;o para<\/p>\n<p>T&atilde;o r&aacute;pida desordem: manda um corpo<\/p>\n<p>De ousados militares, que conduzam,<\/p>\n<p>Ao magistrado, a carta, e lhes ordena<\/p>\n<p>125 &#8212; Que fiquem nesta vila sustentados<\/p>\n<p>A custa, Doroteu, do aflito povo.<\/p>\n<p>N&atilde;o se concede ao pobre que sustente,<\/p>\n<p>Em casa, o seu soldado; manda o chefe<\/p>\n<p>Que a cada um se d&ecirc;, em cada um dia.<\/p>\n<p>130 &#8212; Para sustento, meia oitava de ouro,<\/p>\n<p>Fora milho e capim para o cavalo;<\/p>\n<p>E n&atilde;o entrando aqui o r&eacute;gio soldo.<\/p>\n<p>Que santo proceder! Um Deus irado,<\/p>\n<p>Se houvessem sete justos, perdoava<\/p>\n<p>135 &#8212; Os imensos delitos de Sodoma,<\/p>\n<p>E o nosso grande chefe, pelo crime,<\/p>\n<p>Pelo sonhado crime de um s&oacute; homem,<\/p>\n<p>Castiga, como r&eacute;u de majestade,<\/p>\n<p>Formado de inocentes, todo um povo.<\/p>\n<p>140 &#8212; Faz penhora Macedo em certas barras<\/p>\n<p>Que, a um seu devedor, devia M&eacute;vio;<\/p>\n<p>Recorre ao magistrado Silverino,<\/p>\n<p>Pedindo que mandasse que o dinheiro<\/p>\n<p>A ju&iacute;zo viesse, pois queria<\/p>\n<p>145 &#8212; Sobre ele disputar a prefer&ecirc;ncia,<\/p>\n<p>Na forma que concede a lei do reino.<\/p>\n<p>Cita-se ao triste M&eacute;vio e deposita<\/p>\n<p>As barras em ju&iacute;zo, prontamente.<\/p>\n<p>Conhece Silverino que Macedo<\/p>\n<p>150 &#8212; Para a vit&oacute;ria tem melhor direito,<\/p>\n<p>N&atilde;o quer seguir a causa na presen&ccedil;a<\/p>\n<p>De um reto magistrado, que profere,<\/p>\n<p>Na forma que as leis mandam, as senten&ccedil;as.<\/p>\n<p>Recorre ao general, e o bruto chefe<\/p>\n<p>155 &#8212; Decide desta sorte o longo pleito:<\/p>\n<p>Habita nesta terra um homem rico,<\/p>\n<p>Que tem de Albino o nome, e, dizem, trata<\/p>\n<p>A M&eacute;vio, devedor,&#8211;por seu sobrinho.<\/p>\n<p>Manda pois, Doroteu, o grande chefe<\/p>\n<p>160 &#8212; Que Albino se recolha na cadeia<\/p>\n<p>E more com os negros na enxovia,<\/p>\n<p>Enquanto n&atilde;o pagar a Silverino<\/p>\n<p>Outra tanta quantia, quanta M&eacute;vio<\/p>\n<p>Depositou, doloso, por que houvesse<\/p>\n<p>165 &#8212; Entre os dois acredores um lit&iacute;gio.<\/p>\n<p>Eis aqui, Doroteu, o que &eacute; ci&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>As nossas leis n&atilde;o querem que o pai solva<\/p>\n<p>O calote que fez o pr&oacute;prio filho<\/p>\n<p>E quer um general que Albino pague<\/p>\n<p>170 &#8212; Da s&oacute;rdida masmorra, novamente,<\/p>\n<p>A soma que pagou o bom sobrinho!<\/p>\n<p>Aonde existe o dolo? A lei n&atilde;o manda<\/p>\n<p>Que todo o que temer que algu&eacute;m lhe pe&ccedil;a<\/p>\n<p>Segundo pagamento, se segure<\/p>\n<p>175 &#8212; Metendo no dep&oacute;sito o que deve?<\/p>\n<p>Pois se isto nos faculta o s&atilde;o direito,<\/p>\n<p>Que delito comete aquele triste<\/p>\n<p>Que a d&iacute;vida em ju&iacute;zo deposita,<\/p>\n<p>Quando o s&aacute;bio juiz assim o manda,<\/p>\n<p>180 &#8212; Porque o mesmo credor assim o pede?<\/p>\n<p>E se M&eacute;vio fez dolo, por que causa<\/p>\n<p>H&aacute;-de Albino pagar a culpa dele?<\/p>\n<p>Porque lhe aconselhou que n&atilde;o pagasse<\/p>\n<p>Outra tanta quantia a Silverino?<\/p>\n<p>185 &#8212; Aconselhar conforme as leis do reino<\/p>\n<p>&Eacute; culpa que mere&ccedil;a um tal castigo?<\/p>\n<p>E pode ser castigo regulado<\/p>\n<p>Pagar o conselheiro aquela soma<\/p>\n<p>Que o mesmo aconselhado n&atilde;o devia?<\/p>\n<p>190 &#8212; N&atilde;o &eacute; isto furtar? N&atilde;o &eacute; viol&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>Ah! pobre, ah! pobre povo, a quem governa<\/p>\n<p>Um bruto general, que ao c&eacute;u n&atilde;o teme,<\/p>\n<p>Nem tem o menor pejo de lhe verem<\/p>\n<p>T&atilde;o indignas a&ccedil;&otilde;es os outros homens!<\/p>\n<p>195 &#8212; H&aacute; neste regimento um mo&ccedil;o Ad&ocirc;nis,<\/p>\n<p>Amores de uma escrava, cuja dona<\/p>\n<p>Depois de cativar a muitos peitos, . .<\/p>\n<p>Ao nosso her&oacute;i atou, tamb&eacute;m, ao carro<\/p>\n<p>Dos seus cru&eacute;is triunfos. Cego nume!<\/p>\n<p>200 &#8212; Qual &eacute;, qual &eacute; dos homens que n&atilde;o honra,<\/p>\n<p>Com puros sacrif&iacute;cios, teus altares?<\/p>\n<p>Tu vences os pequenos, mais os grandes,<\/p>\n<p>Tu vences os estultos, mais os s&aacute;bios,<\/p>\n<p>Tu, vences, que inda &eacute; mais, as mesmas feras<\/p>\n<p>205 &#8212; E, bem que cinja o grosso peito d&#8217;a&ccedil;o,<\/p>\n<p>N&atilde;o pode resistir &agrave;s tuas setas<\/p>\n<p>O duro cora&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio Marte.<\/p>\n<p>Intenta este soldado que o ministro<\/p>\n<p>Lhe remate umas casas e consegue<\/p>\n<p>210 &#8212; Um despacho do chefe, em que decreta<\/p>\n<p>Que nelas ningu&eacute;m lance: coisa estranha<\/p>\n<p>Que, entendo, nunca viu nenhuma idade!<\/p>\n<p>O reto magistrado, que respeita,<\/p>\n<p>Mais que ao chefe, as leis do seu monarca,<\/p>\n<p>215 &#8212; Ordena que o porteiro, incontinenti,<\/p>\n<p>As pertendidas casas meta a lan&ccedil;o.<\/p>\n<p>Honrado cidad&atilde;o o pre&ccedil;o cobre;<\/p>\n<p>O porteiro passeia pela rua,<\/p>\n<p>Repete, em alta voz, o lan&ccedil;o novo<\/p>\n<p>220 &#8212; E prossegue a falar, assim dizendo:<\/p>\n<p>&quot;Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe tr&ecirc;s,<\/p>\n<p>Dou-lhe outra mais pequena, afronta fa&ccedil;o,<\/p>\n<p>Se ningu&eacute;m mais me oferece, arremato&quot;.<\/p>\n<p>Ao lan&ccedil;o do Brand&uacute;sio ningu&eacute;m chega,<\/p>\n<p>225 &#8212; Informado o juiz, ordena e manda<\/p>\n<p>Que o pr&eacute;dio se remate; ent&atilde;o se chega<\/p>\n<p>O porteiro risonho ao licitante,<\/p>\n<p>E lhe diz &#8212; &quot;que lhe fa&ccedil;a bom proveito&quot;<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que lhe entrega o ramo.<\/p>\n<p>230 &#8212; Parte logo o soldado e conta ao chefe<\/p>\n<p>O sucesso da pra&ccedil;a. O bruto monstro,<\/p>\n<p>Julgando profanado o seu respeito,<\/p>\n<p>Manda lan&ccedil;ar no pobre licitante<\/p>\n<p>Um pesado grilh&atilde;o e manda p&ocirc;-lo,<\/p>\n<p>235 &#8212; Ajoujado com um despido negro,<\/p>\n<p>A trabalhar nas obras da cadeia.<\/p>\n<p>O preso injuriado desfalece<\/p>\n<p>E o chefe desumano desce &agrave; rua<\/p>\n<p>Para que possa, de mais perto, v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>240 &#8212; Sucede a um desmaio outro desmaio;<\/p>\n<p>O negro companheiro, ent&atilde;o, lhe acode,<\/p>\n<p>Nos bra&ccedil;os compassivos o sustenta;<\/p>\n<p>Porem o velho chefe, que deseja<\/p>\n<p>O v&ecirc;-lo, ali, morrer, por um soldado<\/p>\n<p>245 &#8212; Manda ao negro dizer que ao preso deixe<\/p>\n<p>E cuide em prosseguir no seu trabalho.<\/p>\n<p>Os mesmos desumanos, que rodeiam<\/p>\n<p>T&atilde;o bruto general, aqueles mesmos<\/p>\n<p>Que, alegres, executam seus mandados,<\/p>\n<p>250 &#8212; Apenas escutaram tal preceito,<\/p>\n<p>Um pouco emudeceram e tiveram<\/p>\n<p>Os rostos tristes, muito tempo, baixos.<\/p>\n<p>Os outros, Doroteu, deram suspiros<\/p>\n<p>E, bem que forcejaram, n&atilde;o puderam<\/p>\n<p>255 &#8212; Fazer que os olhos n&atilde;o se enchessem d&#8217;&aacute;gua.<\/p>\n<p>Eu creio, Doroteu, que tu j&aacute; leste<\/p>\n<p>Que um C&eacute;sar dos romanos pertendera<\/p>\n<p>Vestir, ao seu cavalo, a nobre toga<\/p>\n<p>Dos velhos senadores. Esta hist&oacute;ria<\/p>\n<p>260 &#8212; Pode servir de f&aacute;bula, que mostre<\/p>\n<p>Que muitos homens, mais que as feras brutos,<\/p>\n<p>Na verdade conseguem grandes honras!<\/p>\n<p>Mas ah! prezado amigo, que ditosa<\/p>\n<p>N&atilde;o fora a nossa Chile se, antes, visse<\/p>\n<p>265 &#8212; Adornado um cavalo com ins&iacute;gnias<\/p>\n<p>De general supremo, do que ver-se<\/p>\n<p>Obrigada a dobrar os seus joelhos<\/p>\n<p>Na presen&ccedil;a de um chefe, a quem os deuses<\/p>\n<p>Somente deram a figura de homem!<\/p>\n<p>270 &#8212; Ent&atilde;o, prezado amigo, o n&eacute;scio povo<\/p>\n<p>Com fitas lhe enfeitara as negras clinas,<\/p>\n<p>Ornara a estrebaria com tapetes,<\/p>\n<p>Com formosas pinturas, ricos panos,<\/p>\n<p>Bordados reposteiros e cortinas;<\/p>\n<p>275 &#8212; Um dos grandes da terra lhe levara<\/p>\n<p>Licor, para beber, em baldes d&#8217;ouro,<\/p>\n<p>Outro lhe dera o milho em ricas salvas;<\/p>\n<p>Mas sempre, Doroteu, aqueles n&eacute;scios<\/p>\n<p>Que ao bruto respeitassem, poderiam<\/p>\n<p>280 &#8212; Servi-lo acautelados e de sorte<\/p>\n<p>Que dar-lhes n&atilde;o pudesse um leve coice.<\/p>\n<p>Eis aqui, Doroteu, o que nos nega<\/p>\n<p>Uma her&oacute;ica virtude. Um louco chefe<\/p>\n<p>O poder exercita do monarca<\/p>\n<p>285 &#8212; E os s&uacute;ditos n&atilde;o devem nem fugir-lhe<\/p>\n<p>Nem tirar-lhe da m&atilde;o a injusta espada.<\/p>\n<p>Mas, caro Doroteu, um chefe destes<\/p>\n<p>S&oacute; vem para castigo de pecados.<\/p>\n<p>Os deuses n&atilde;o carecem de mandarem<\/p>\n<p>290 &#8212; Flagelos esquisitos; quasi sempre<\/p>\n<p>Nos punem com as coisas ordin&aacute;rias.<\/p>\n<p>O mundo inda n&atilde;o viu sen&atilde;o um corpo<\/p>\n<p>Em branco sal mudado, e s&oacute; no Egito<\/p>\n<p>Fez novas penas de Mois&eacute;s a vara.<\/p>\n<p>295 &#8212; Perguntar&aacute;s agora que torpezas<\/p>\n<p>Comete a nossa Chile, que mere&ccedil;a<\/p>\n<p>T&atilde;o estranho flagelo? N&atilde;o h&aacute; homem<\/p>\n<p>Que viva isento de delitos graves,<\/p>\n<p>E, aonde se amontoam os viventes<\/p>\n<p>300 &#8212; Em cidades ou vilas, ai crescem<\/p>\n<p>Os crimes e as desordens, aos milhares.<\/p>\n<p>Talvez prezado amigo, que n&oacute;s, hoje,<\/p>\n<p>Sintamos os castigos dos insultos<\/p>\n<p>Que nossos pais fizeram; estes campos<\/p>\n<p>305 &#8212; Est&atilde;o cobertos de insepultos ossos<\/p>\n<p>De inumer&aacute;veis homens que mataram.<\/p>\n<p>Aqui ou europeus se divertiam<\/p>\n<p>Em andarem &agrave; ca&ccedil;a dos gentios<\/p>\n<p>Como &agrave; ca&ccedil;a das feras, pelos matos.<\/p>\n<p>310 &#8212; Havia tal que dava, aos seus cachorros,<\/p>\n<p>Por di&aacute;rio sustento, humana carne,<\/p>\n<p>Querendo desculpar t&atilde;o grave culpa<\/p>\n<p>Com dizer que os gentios, bem que tinham<\/p>\n<p>A nossa semelhan&ccedil;a, enquanto aos corpos,<\/p>\n<p>315 &#8212; N&atilde;o eram como n&oacute;s, enquanto &agrave;s almas.<\/p>\n<p>Que muito, pois, que Deus levante o braco<\/p>\n<p>E puna os descendentes de uns tiranos<\/p>\n<p>Que, sem raz&atilde;o alguma e por capricho,<\/p>\n<p>Espalharam na terra tanto sangue.<\/p>\n<h4><a name=\"11\">CARTA 11&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Em que se contam as brejeirices de Fanfarr&atilde;o.<\/p>\n<p>No meio desta terra h&aacute; uma ponte,<\/p>\n<p>Em cujos dois extremos se levantam<\/p>\n<p>De dois grossos rendeiros as moradas;<\/p>\n<p>E, apenas, Doroteu, o sol declina<\/p>\n<p>5 &#8212; A descansar de T&eacute;tis no rega&ccedil;o,<\/p>\n<p>Neste agrad&aacute;vel sitio v&atilde;o sentar-se<\/p>\n<p>Os principais marotos e, com eles,<\/p>\n<p>A brejeira fam&iacute;lia de pal&aacute;cio.<\/p>\n<p>Aqui, meu bom amigo, aqui se passam<\/p>\n<p>10 &#8212; As horas em conversa deleitosa:<\/p>\n<p>Um conta que o ministro, &agrave; meia noite,<\/p>\n<p>Entrara no quintal de certa dama;<\/p>\n<p>Diz outro que se exp&ocirc;s uma crian&ccedil;a<\/p>\n<p>A porta de Flor&iacute;cio, e j&aacute; lhe assina<\/p>\n<p>15 &#8212; O pai e mais a m&atilde;e; aquele aumenta<\/p>\n<p>A bulha que Dirceu com Lauro teve<\/p>\n<p>Por ci&uacute;mes cru&eacute;is&#8217;, da sua am&aacute;sia;<\/p>\n<p>Este chama a Simplicio caloteiro<\/p>\n<p>E mofa, ao mesmo tempo, de Frond&eacute;lio,<\/p>\n<p>20 &#8212; Que o seu dinheiro guarda. Enfim, amigo,<\/p>\n<p>Aqui, aqui de tudo se murmura.<\/p>\n<p>S&oacute; se livra da l&iacute;ngua venenosa<\/p>\n<p>O que contrata em vendas de despachos<\/p>\n<p>E quem se alegra ao ver que a sua mo&ccedil;a<\/p>\n<p>25 &#8212; Ajunta, pela prenda, um par de oitavas:<\/p>\n<p>Que os membros do congresso s&atilde;o prudentes<\/p>\n<p>E n&atilde;o querem que alguns dos companheiros<\/p>\n<p>Tomem esta conversa em ar de chasco.<\/p>\n<p>Amigo Doroteu, ah! neste sitio<\/p>\n<p>30 &#8212; Eu n&atilde;o me dilatara um breve instante<\/p>\n<p>Em dia de trov&otilde;es, bem que estivesse<\/p>\n<p>Plantado todo de loureiros machos!<\/p>\n<p>Por este s&iacute;tio, pois, passei h&aacute; pouco<\/p>\n<p>Cuidando que, por ser mui cedo ainda,<\/p>\n<p>35 &#8212; N&atilde;o toparia a corria dos marotos.<\/p>\n<p>Mas, apenas a vi, fiquei tremendo<\/p>\n<p>Qual fraco passageiro, quando avista,<\/p>\n<p>Em deserto lugar, pintadas on&ccedil;as.<\/p>\n<p>Contudo, Doroteu, criei esfor&ccedil;o<\/p>\n<p>40 &#8212; E fui atravessando pelo meio,<\/p>\n<p>Rezando sempre o credo e, por cautela,<\/p>\n<p>Fazendo muitas cruzes sobre o peito.<\/p>\n<p>Apenas me salvei daquele risco,<\/p>\n<p>Um suspiro soltei, que encheu os ares,<\/p>\n<p>45 &#8212; E, voltando o semblante para o sitio,<\/p>\n<p>Em que os tais\\mariolas se assentavam,<\/p>\n<p>Meneando a cabe&ccedil;a um par de vezes<\/p>\n<p>E soltando um sorriso, em ar de mofa,<\/p>\n<p>Dentro do meu discurso, assim lhes falo:<\/p>\n<p>50 &#8212; &quot;Voc&ecirc;s, meus mariolas, meus tratantes,<\/p>\n<p>Est&atilde;o contando hist&oacute;rias das pessoas<\/p>\n<p>De quem n&atilde;o s&atilde;o afetos, por que as levem,<\/p>\n<p>Aos ouvidos do chefe, os seus lacaios;<\/p>\n<p>Pois eu tamb&eacute;m j&aacute; vou contar verdades,<\/p>\n<p>55 &#8212; Em que possam falar os homens s&eacute;rios<\/p>\n<p>Inda daqui a mais de um cento de anos.<\/p>\n<p>Recolhi-me &agrave; choupana e, de repente,<\/p>\n<p>Sem tirar a gravata do pesco&ccedil;o,<\/p>\n<p>Entrei a p&ocirc;r em limpo esta cartinha,<\/p>\n<p>60 &#8212; Que j&aacute;, pelo caminho, vim compondo.<\/p>\n<p>Entendo, Doroteu, que as nossas almas<\/p>\n<p>N&atilde;o s&atilde;o todas iguais; que o grande Jove<\/p>\n<p>Fez umas de mat&eacute;ria muito pura,<\/p>\n<p>Fez outras de mat&eacute;ria mais grosseira,<\/p>\n<p>65 &#8212; Por n&atilde;o perder as borras que ficaram.<\/p>\n<p>Entendo, ainda mais, que o dispenseiro,<\/p>\n<p>Quando lhe v&atilde;o pedir algumas almas,<\/p>\n<p>Vai dando aquelas que primeiro encontra.<\/p>\n<p>Por isto, &agrave;s vezes, nascem os mochilas<\/p>\n<p>70 &#8212; Com brios de fidalgos, outras vezes<\/p>\n<p>Os nobres com esp&iacute;ritos humildes,<\/p>\n<p>S&oacute; dignos de animarem vis Lacaios.<\/p>\n<p>O nosso Fanfarr&atilde;o, prezado amigo,<\/p>\n<p>Vos d&aacute; mui boa prova: n&atilde;o se nega<\/p>\n<p>75 &#8212; Que tenha ilustre sangue, mas n&atilde;o dizem,<\/p>\n<p>Com seu ilustre sangue, as suas obras.<\/p>\n<p>Apenas, Doroteu, a noite chega,<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m andar j&aacute; pode, sem cautela,<\/p>\n<p>Nos sujos corredores de pal&aacute;cio,<\/p>\n<p>80 &#8212; Uns batem com os peitos noutros peitos;<\/p>\n<p>Outros quebram as testas noutras testas;<\/p>\n<p>Qual leva um encontr&atilde;o, que o vira em roda;<\/p>\n<p>E qual, por defender a cara, fura,<\/p>\n<p>Com os dedos que estende, incautos olhos.<\/p>\n<p>85 &#8212; Aqui se quebra a porta e ningu&eacute;m fala;<\/p>\n<p>Ali range a couceira e soa a chave;<\/p>\n<p>Este anda de mansinho, aquele corre;<\/p>\n<p>Um grita que o pisaram, outro inquire<\/p>\n<p>&quot;Quem &eacute;? &quot; a um vulto, que lhe n&atilde;o responde.<\/p>\n<p>90 &#8212; N&atilde;o temas, Doroteu, que n&atilde;o &eacute; nada,<\/p>\n<p>N&atilde;o s&atilde;o ladr&otilde;es que ofendam, s&atilde;o donzelas<\/p>\n<p>Que buscam aos devotos, que costumam<\/p>\n<p>Fazer, de quando em quando, a sua esmola.<\/p>\n<p>Chegam-se, enfim, as horas, em que o sono<\/p>\n<p>95 &#8212; Estende, na cidade, as negras asas,<\/p>\n<p>Em cima dos viventes espremendo<\/p>\n<p>Vi&ccedil;osas dormideiras. Tudo fica<\/p>\n<p>Em profundo sil&ecirc;ncio, s&oacute; a casa,<\/p>\n<p>A casa aonde habita o grande chefe.<\/p>\n<p>100 &#8212; Parece, Doroteu, que vem abaixo.<\/p>\n<p>Fingindo a mo&ccedil;a que levanta a saia<\/p>\n<p>E voando na ponta dos dedinhos,<\/p>\n<p>Prega no machacaz, de quem mais gosta,<\/p>\n<p>A lasciva embigada, abrindo os bra&ccedil;os;<\/p>\n<p>105 &#8212; Ent&atilde;o o machacaz, mexendo a bunda,<\/p>\n<p>Pondo uma m&atilde;o na testa, outra na ilharga,<\/p>\n<p>Ou dando alguns estalos com os dedos,<\/p>\n<p>Seguindo das violas o compasso,<\/p>\n<p>Lhe diz&#8211;&quot;eu pago, eu pago&quot;&#8211;e, de repente,<\/p>\n<p>110 &#8212; Sobre a torpe michela atira o salto.<\/p>\n<p>&Oacute; dan&ccedil;a venturosa! Tu entravas<\/p>\n<p>Nas humildes choupanas, onde as negras,<\/p>\n<p>Aonde as vis mulatas, apertando<\/p>\n<p>Por baixo do bandulho a larga cinta,<\/p>\n<p>115 &#8212; Te honravam, c&#8217;os marotos e brejeiros,<\/p>\n<p>Batendo sobre o ch&atilde;o o p&eacute; descal&ccedil;o.<\/p>\n<p>Agora j&aacute; consegues ter entrada<\/p>\n<p>Nas casas mais honestas e pal&aacute;cios!<\/p>\n<p>Ah! tu, famoso chefe, d&aacute;s exemplo.<\/p>\n<p>120 &#8212; Tu j&aacute;, tu j&aacute; batucas, escondido<\/p>\n<p>Debaixo dos-teus tetos, com a moca<\/p>\n<p>Que furtou, ao senhor o teu Rib&eacute;rio!<\/p>\n<p>Tu tamb&eacute;m j&aacute; batucas sobre a sala<\/p>\n<p>Da formosa comadre, quando o pede<\/p>\n<p>125 &#8212; A borracha fun&ccedil;&atilde;o do santo entrudo.<\/p>\n<p>Ah! que isto, sendo pouco, &eacute; muito!<\/p>\n<p>Que os exemplos dos chefes logo correm<\/p>\n<p>E corre muito mais, quando fomentam<\/p>\n<p>Aqueles v&iacute;cios, a que os g&ecirc;nios puxam.<\/p>\n<p>130 &#8212; O tempo, Doroteu, voando foge<\/p>\n<p>E nunca os de pal&aacute;cio imaginaram<\/p>\n<p>Que t&atilde;o veloz fugia, como agora.<\/p>\n<p>Acaba-se a fun&ccedil;&atilde;o, e chega o dia;<\/p>\n<p>vem abrir as janelas um criado,<\/p>\n<p>135 &#8212; E o chefe lhe pergunta que algazarra<\/p>\n<p>Fizeram os mais servos toda a noite,<\/p>\n<p>Que o n&atilde;o deixou dormir um breve instante.<\/p>\n<p>O criado, que sabe que o bom chefe<\/p>\n<p>S&oacute; quer que lhe confessem a verdade,<\/p>\n<p>140 &#8211;O sucesso lhe conta, desta sorte:<\/p>\n<p>&#8220;Fizemos esta noite um tal batuque!<\/p>\n<p>Na ceia todos n&oacute;s nos alegr&aacute;vamos,<\/p>\n<p>Entrou nele a mulher do teu lacaio;<\/p>\n<p>Um s&oacute;, senhor, n&atilde;o houve que, lascivo,<\/p>\n<p>145 &#8212; Com ela n&atilde;o brincasse; todos eles,<\/p>\n<p>De b&ecirc;bedos que estavam, n&atilde;o puderam<\/p>\n<p>O intento conseguir; s&oacute; eu, mais forte&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Apenas isto diz o vil criado,<\/p>\n<p>O chefe as costas vira e lhe responde,<\/p>\n<p>150 &#8212; Soltando um grande riso: &#8220;fora, fracos!&#8221;<\/p>\n<p>J&aacute; disse, Doroteu, que as mocetonas<\/p>\n<p>S&oacute; entram em pal&aacute;cio quando estende<\/p>\n<p>A noite, sobre a terra, a negra capa;<\/p>\n<p>Que a formosa virtude da cautela<\/p>\n<p>155 &#8212; At&eacute; parece bem, naquele mesmo<\/p>\n<p>A quem a profiss&atilde;o lhe n&atilde;o exige<\/p>\n<p>Que viva recatado, como vivem<\/p>\n<p>As mo&ccedil;as, que inda querem ser donzelas.<\/p>\n<p>Agora, Doroteu, julgar j&aacute; podes<\/p>\n<p>160 &#8212; Que saem de pal&aacute;cio muito cedo.<\/p>\n<p>Assim &eacute;, Doroteu; as donzelinhas,<\/p>\n<p>Pela porta travessa, v&atilde;o saindo,<\/p>\n<p>Mal tocam as garridas &agrave; primeira.<\/p>\n<p>Mas a bela Rosinha fica e dorme,<\/p>\n<p>165 &#8212; Nos bra&ccedil;os de Mat&uacute;sio, a madrugada;<\/p>\n<p>S&oacute; sai de dia claro, e o grande chefe<\/p>\n<p>Lhe atira uma pedrinha da janela,<\/p>\n<p>S&oacute; para que lhe d&ecirc; um ar de gra&ccedil;a!<\/p>\n<p>Que grande estima&ccedil;&atilde;o, Rosica bela!<\/p>\n<p>170 &#8212; Aqui se mostra bem, que as outras mocas<\/p>\n<p>N&atilde;o trazem, como trazes, lucro &agrave; casa.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute;, prezado amigo, quem n&atilde;o queira<\/p>\n<p>Mostrar-se liberal com sua dama.<\/p>\n<p>Para dar-lhe o vestido, mais a capa,<\/p>\n<p>175 &#8212; O manto, a saia, a meia, a fita, o pente.<\/p>\n<p>Tira o pobre de si e, destro, furta<\/p>\n<p>O peralta rapaz ao pai jarreta.<\/p>\n<p>Eu mesmo, Doroteu, que fui dos santos<\/p>\n<p>Que em Salamanca andaram, umas vezes<\/p>\n<p>180 &#8212; Doen&ccedil;as afetava, outras fingia<\/p>\n<p>Necessitar de livros, ou de um traste,<\/p>\n<p>Para mandar de mimo a certo lente.<\/p>\n<p>Maldita sejas, tu harpia Olaia,<\/p>\n<p>Que, enquanto n&atilde;o abria a minha bolsa,<\/p>\n<p>185 &#8212; N&atilde;o mostravas, tamb&eacute;m, alegre, os dentes!<\/p>\n<p>Esta paix&atilde;o, amigo, que nos vence,<\/p>\n<p>Nos pr&oacute;prios animais tamb&eacute;m se observa:<\/p>\n<p>Esgravatam os galos sobre a terra<\/p>\n<p>E, mal topam o gr&atilde;o ou a migalha,<\/p>\n<p>190 &#8212; Contentes cacarejam, porque a mo&ccedil;a<\/p>\n<p>Se v&aacute; utilizar do seu trabalho.<\/p>\n<p>O nosso ilustre chefe, que se julga<\/p>\n<p>De mui diversa massa do que somos,<\/p>\n<p>Neste ponto, tamb&eacute;m, tamb&eacute;m conhece<\/p>\n<p>195 &#8212; Que est&aacute; sujeito &agrave; mis&eacute;ria d&#8217;homem.<\/p>\n<p>Nas obras, doce amigo, da cadeia,<\/p>\n<p>Trabalham jornaleiros por sal&aacute;rio.<\/p>\n<p>Aqueles que carregam cal e pedra,<\/p>\n<p>S&oacute; ganham, por semana, meia oitava;<\/p>\n<p>200 &#8212; Aqueles que trabalham de canteiro,<\/p>\n<p>Ao menos ganham, cada dia. um quarto.<\/p>\n<p>Tem, pois, certa mocinha, quatro negros<\/p>\n<p>Que apenas s&atilde;o serventes, mas o chefe<\/p>\n<p>Ordena que, na f&eacute;ria, se lhes pague<\/p>\n<p>205 &#8212; A quarto os seus jornais, e creio, amigo,<\/p>\n<p>Que ainda n&atilde;o consente se descontem<\/p>\n<p>Os muitos dias que nas obras faltam.<\/p>\n<p>As casas onde mora esta madama<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o estavam acabadas;<\/p>\n<p>210 &#8212; Agora j&aacute; de longe a cal alveja,<\/p>\n<p>Quem entra dentro delas j&aacute; recreia<\/p>\n<p>Os olhos nas pinturas das paredes<\/p>\n<p>E teto apainelado, a quem, um dia,<\/p>\n<p>Supria, Doroteu, a grossa esteira.<\/p>\n<p>215 &#8212; N&atilde;o quis o nosso her&oacute;i chamasse a mo&ccedil;a,<\/p>\n<p>Para mestre das obras, um pedreiro,<\/p>\n<p>Entregou o conserto ao gr&atilde;o-tenente,<\/p>\n<p>Que o fez baratinho, c&#8217;o massame<\/p>\n<p>Que pertencia &agrave;s obras da cadeia.<\/p>\n<p>220 &#8212; Entende Fanfarr&atilde;o que n&atilde;o devia<\/p>\n<p>Deixar ao desamparo a sua dama;<\/p>\n<p>Que a lei da Igreja pede que amparemos<\/p>\n<p>As que, por nossa culpa, se perderam,<\/p>\n<p>E a lei da fidalguia, que professa<\/p>\n<p>225 &#8212; O nosso chefe, manda que ele ampare<\/p>\n<p>As mesmas, que na fama j&aacute; t&ecirc;m nota,<\/p>\n<p>Contanto que isto seja &agrave; custa alheia.<\/p>\n<p>Chama, pois, o bom chefe a um peralta,<\/p>\n<p>Que era cabo de esquadra, e lhe comete<\/p>\n<p>230 &#8212; A gl&oacute;ria de casar com uma dama<\/p>\n<p>Que, se n&atilde;o fez descer dos c&eacute;us &agrave; terra<\/p>\n<p>Ao Supremo Tonante, fez, contudo,<\/p>\n<p>Humanizar um chefe, que descende<\/p>\n<p>Da mais distinta, mais soberba ra&ccedil;a.<\/p>\n<p>235 &#8212; Que s&uacute;bita alegria banha o rosto<\/p>\n<p>Deste inocente cabo! Nos seus olhos<\/p>\n<p>As l&aacute;grimas rebentam, e os seus bei&ccedil;os<\/p>\n<p>Formar n&atilde;o podem uma s&oacute; palavra.<\/p>\n<p>A dita, Doroteu, &eacute; muito grande.<\/p>\n<p>240 &#8212; Que fortuna n&atilde;o &eacute; casar um pobre<\/p>\n<p>Com a rica vi&uacute;va de um fidalgo?<\/p>\n<p>Chamar ao fidalguinho, que ele deixa,<\/p>\n<p>Ou enteado ou filho? Aparentar-se<\/p>\n<p>Com todos os magnates desta terra<\/p>\n<p>245 &#8212; Em grau t&atilde;o conhecido e t&atilde;o chegado?<\/p>\n<p>Esta grande ventura, doce amigo,<\/p>\n<p>Para todos n&atilde;o &eacute;. O negro demo<\/p>\n<p>A quadra para pr&ecirc;mio dos servi&ccedil;os<\/p>\n<p>Dos chefes principais dos seus bandalhos.<\/p>\n<p>250 &#8212; Mas ah! prezado amigo, que o bom chefe<\/p>\n<p>J&aacute; manda aparelhar as magras bestas,<\/p>\n<p>Que t&ecirc;m de conduzir-lhe o pobre fato<\/p>\n<p>Que trouxe l&aacute; da corte, e se o casquilho<\/p>\n<p>N&atilde;o chega a receber a cara esposa<\/p>\n<p>255 &#8212; Primeiro que ele, no governo, morra,<\/p>\n<p>Bem pode ser. amigo, se arrependa<\/p>\n<p>E que, depois de ter cingido a banda<\/p>\n<p>E empunhado o bast&atilde;o, lhe pregue o mono.<\/p>\n<p>Faltaram &agrave;s promessas outros homens,<\/p>\n<p>260 &#8212; Que, de honrados, nos deram muitas provas.<\/p>\n<p>Como faltar n&atilde;o pode ao seu ajuste<\/p>\n<p>Um fraco cora&ccedil;&atilde;o, uma alma indigna<\/p>\n<p>Que, por t&atilde;o baixo pre&ccedil;o, a honra vende?<\/p>\n<p>Cautela e mais cautela; sim, o chefe<\/p>\n<p>265 &#8212; N&atilde;o saber&aacute; mandar armadas tropas,<\/p>\n<p>Nem saber&aacute; reger as cultas gentes,<\/p>\n<p>Mas, para o n&atilde;o lograrem, sabe, astuto,<\/p>\n<p>Dar todas as cadimas provid&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Escreve ao velho bispo e lhe suplica<\/p>\n<p>270 &#8212; Que em todos os tr&ecirc;s banhos o dispense;<\/p>\n<p>N&atilde;o expende raz&atilde;o que justa seja,<\/p>\n<p>Porem o velho bispo tem bom g&ecirc;nio<\/p>\n<p>E em todos os proclamas o dispensa;<\/p>\n<p>Que ele tem grandes letras e bem sabe<\/p>\n<p>275 &#8212; Que os c&acirc;nones da igreja n&atilde;o pensaram<\/p>\n<p>Da esp&eacute;cie singular de quando um chefe<\/p>\n<p>Quer, &agrave; pressa, casar a sua am&aacute;sia.<\/p>\n<p>Ah! se ele estas desordens n&atilde;o fizera,<\/p>\n<p>N&atilde;o daria motivo a ser cantado<\/p>\n<p>280 &#8211;Por s&aacute;bia, oculta musa, em um poema!<\/p>\n<p>Agora inquirir&aacute;s, prezado amigo,<\/p>\n<p>Se &eacute; este s&aacute;bio bispo aquele mesmo,<\/p>\n<p>Que o bruto Fanfarr&atilde;o, em certo dia,<\/p>\n<p>Meteu na sua sege, ao lado esquerdo?<\/p>\n<p>285 &#8212; &Eacute; este, sim. senhor. o mesmo bispo,<\/p>\n<p>A quem o nosso chefe desalmado,<\/p>\n<p>Enquanto governou a nossa Chile,<\/p>\n<p>J&aacute; dentro de pal&aacute;cio e j&aacute; na rua,<\/p>\n<p>Tratou como quem trata um vil podengo.<\/p>\n<p>290 &#8211;De novo inquirir&aacute;s: &quot;Ent&atilde;o um chefe,<\/p>\n<p>Que trata, dessa sorte, ao seu prelado,<\/p>\n<p>Atreve-se a pedir-lhe que lhe fa&ccedil;a<\/p>\n<p>Dispensa em uma lei, a benef&iacute;cio<\/p>\n<p>Da sua torpe am&aacute;sia?&quot; Eu, doce amigo,<\/p>\n<p>295 &#8212; Ainda duvidara, se pedira<\/p>\n<p>Me desse absolvi&ccedil;&atilde;o dos meus pecados,<\/p>\n<p>Ao ver-me para dar, a Deus, minha alma.<\/p>\n<p>O mesmo, Doroteu, tamb&eacute;m fizeras;<\/p>\n<p>Mas tu, prezado amigo, n&atilde;o conheces<\/p>\n<p>300 &#8212; O sistema que tem t&atilde;o vil canalha.<\/p>\n<p>Uma mui grande parte destes chefes<\/p>\n<p>Assenta em procurar seu interesse<\/p>\n<p>Por todos os caminhos, e acredita<\/p>\n<p>Que o brio e pundonor, que n&oacute;s prezamos,<\/p>\n<p>305 &#8212; S&atilde;o umas v&atilde;s fantasmas, que s&oacute; devem<\/p>\n<p>Honrar de simples voz aqueles homens,<\/p>\n<p>Que v&ecirc;m de uma distinta e velha raca.<\/p>\n<p>Para estes a nobreza est&aacute; nos termos<\/p>\n<p>Do s&oacute;rdido monturo em que se deita<\/p>\n<p>310 &#8212; Quanta imund&iacute;cie t&ecirc;m as velhas casas.<\/p>\n<p>Ditoso de quem vive, neste mundo,<\/p>\n<p>No estado de ver rir os outros homens<\/p>\n<p>Das suas vis a&ccedil;&otilde;es, sem que lhe suba<\/p>\n<p>Um vermelho sinal de pejo &agrave; cara!<\/p>\n<p>315 &#8212; Mas ah! meu doce amigo, quanto, quanto<\/p>\n<p>Se enganam estes monstros, que a nobreza<\/p>\n<p>&Eacute; um vestido branco, aonde, logo,<\/p>\n<p>Aos olhos aparece a leve mancha!<\/p>\n<p>J&aacute; chega, Doroteu, o alegre dia.<\/p>\n<p>320 &#8212; O dia venturoso do noivado.<\/p>\n<p>Entra, no santo templo, a linda esposa,<\/p>\n<p>Coberta toda de umas novas gra&ccedil;as.<\/p>\n<p>Os seus louros cabelos n&atilde;o flutuam,<\/p>\n<p>Levados pelo vento, a toda parte;<\/p>\n<p>325 &#8212; Em tran&ccedil;as se dividem e se prendem<\/p>\n<p>No pente, a quem esconde um branco la&ccedil;o;<\/p>\n<p>Nos cabelos da frente resplandecem<\/p>\n<p>Das pedras de mais custo, os fogos v&aacute;rios;<\/p>\n<p>A sua testa iguala &agrave; pura neve<\/p>\n<p>330 &#8212; E s&atilde;o da cor da rosa as suas faces;<\/p>\n<p>S&atilde;o p&eacute;rolas mimosas os seus dentes,<\/p>\n<p>As gengivas rubis e os grossos bei&ccedil;os<\/p>\n<p>Est&atilde;o cobertos dos cheirosos cravos.<\/p>\n<p>Talvez, talvez n&atilde;o fosse t&atilde;o formosa<\/p>\n<p>335 &#8212; A mesma, que obrigou ao forte Aquiles<\/p>\n<p>A que, terno, vestisse a mole saia.<\/p>\n<p>Neste sagrado templo n&atilde;o se adora<\/p>\n<p>A imagem do Himeneu; aqui os noivos,<\/p>\n<p>Para prova da f&eacute; que, eterna, dura,<\/p>\n<p>340 &#8212; N&atilde;o recebem na m&atilde;o acesa tocha.<\/p>\n<p>Ministro do senhor &eacute; quem os prende,<\/p>\n<p>Cobrindo as castas m&atilde;os, com que se enla&ccedil;am.<\/p>\n<p>Co,a branca ponta da pendente estola.<\/p>\n<p>Aqui lascivas gra&ccedil;as, nus amores<\/p>\n<p>345 &#8212; N&atilde;o cercam os consortes, nem meneiam,<\/p>\n<p>Em torno dos altares e das piras,<\/p>\n<p>Os vistosos fest&otilde;es de lindas flores.<\/p>\n<p>Aqui, aqui s&oacute; entram as virtudes,<\/p>\n<p>A c&acirc;ndida mod&eacute;stia, a inoc&ecirc;ncia,<\/p>\n<p>350 &#8212; A santa honestidade e a vergonha.<\/p>\n<p>S&atilde;o estas e n&atilde;o outras as que correm<\/p>\n<p>A receber, &agrave; porta do edif&iacute;cio,<\/p>\n<p>Os sinceros amantes; sim, s&atilde;o estas,<\/p>\n<p>S&atilde;o estas e n&atilde;o outras, as que espalham,<\/p>\n<p>355 &#8212; Debaixo dos seus p&eacute;s, cheirosas folhas<\/p>\n<p>E as que fazem queimar, sobre os braseiros,<\/p>\n<p>O incenso devoto e os mais aromas.<\/p>\n<p>Recebem estes g&ecirc;nios aos dois noivos<\/p>\n<p>E, ao ministro do altar, os apresentam.<\/p>\n<p>360 &#8212; Ah! formosa Mar&iacute;lia, agora, agora<\/p>\n<p>Se aumentam tuas gra&ccedil;as, pois te aviva<\/p>\n<p>A cor da linda face um novo pejo!<\/p>\n<p>Com que custo n&atilde;o d&aacute;s a m&atilde;o nevada<\/p>\n<p>Ao teu amado Ad&ocirc;nis, que a recebe<\/p>\n<p>365 &#8212; Como quem lucra nela o seu tesouro!<\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o veste Jel&ocirc;nio a grossa farda<\/p>\n<p>Com divisas de l&atilde; e, sobre a testa,<\/p>\n<p>N&atilde;o p&otilde;e a barretina, que enfeita<\/p>\n<p>Com armas e bot&otilde;es de grosso estanho.<\/p>\n<p>370 &#8212; J&aacute; n&atilde;o cinge as correias amarelas,<\/p>\n<p>Nem carrega, na cinta, o peso enorme<\/p>\n<p>Dos f&eacute;rreos copos da comprida espada.<\/p>\n<p>Jel&ocirc;nio se mudou, Jel&ocirc;nio &eacute; outro.<\/p>\n<p>J&aacute; brilham, nos canh&otilde;es, os alamares<\/p>\n<p>375 &#8212; Das finas lentejoulas, e, nos ombros,<\/p>\n<p>J&aacute; brilham as dragonas, enfeitadas<\/p>\n<p>C&#8217;os grandes cachos das lustrosas flores.<\/p>\n<p>Jel&ocirc;nio se mudou, Jel&ocirc;nio &eacute; outro.<\/p>\n<p>A veste de cetim j&aacute; resplandece<\/p>\n<p>380 &#8212; Orlada co&#8217;o gal&atilde;o da fina prata,<\/p>\n<p>E, por cima da veste, j&aacute; se enrola,<\/p>\n<p>Na cintura, a vermelha e rica banda.<\/p>\n<p>Jel&ocirc;nio se mudou, Jel&ocirc;nio &eacute; outro.<\/p>\n<p>Como est&aacute; belo! Como est&aacute; casquilho!<\/p>\n<p>385 &#8212; Concerta do babado a fina renda,<\/p>\n<p>Olha uma e outra vez os alamares<\/p>\n<p>Endireita a cucula, estende a perna;<\/p>\n<p>N&atilde;o consente um s&oacute; fio sobre a farda;<\/p>\n<p>Levanta o pescocinho, morde os bei&ccedil;os,<\/p>\n<p>390 &#8212; E o seu cabelo, com a m&atilde;o, afaga.<\/p>\n<p>Jel&ocirc;nio se namora de si mesmo,<\/p>\n<p>Ainda, ainda mais que o terno Ad&ocirc;nis,<\/p>\n<p>Quando viu o seu rosto dentro d&#8217;&aacute;gua.<\/p>\n<p>Jel&ocirc;nio se mudou, Jel&ocirc;nio &eacute; outro.<\/p>\n<p>395 &#8212; Ent&atilde;o, os militares que o rodeiam,<\/p>\n<p>Amado Doroteu, risonhos, mofam.<\/p>\n<p>Um pisa com o p&eacute; nos p&eacute;s vizinhos;<\/p>\n<p>Puxa outro pelas pontas das fardetas<\/p>\n<p>Aos amigos chegados; este acena<\/p>\n<p>400 &#8212; C&#8217;os olhos e cabe&ccedil;a aos companheiros<\/p>\n<p>Que lhe ficam defronte; aquele tapa,<\/p>\n<p>Fingindo que tem tosse, a alegre boca;<\/p>\n<p>Qual foge da presen&ccedil;a&#8230; mas que vejo!<\/p>\n<p>Tu, Doroteu, carregas sobre os olhos<\/p>\n<p>405 &#8212; As grossas sobrancelhas? Tu enrugas<\/p>\n<p>A testa levantada? Tu inflamas<\/p>\n<p>As faces j&aacute; desfeitas e suspiras?<\/p>\n<p>Acaso tu presumes que eu murmuro<\/p>\n<p>Do fato de casar o nosso chefe<\/p>\n<p>410 &#8212; A sua terna am&aacute;sia? N&atilde;o, amigo,<\/p>\n<p>Eu conhe&ccedil;o, tamb&eacute;m, aonde chegam<\/p>\n<p>Os deveres de quem nasceu fidalgo:<\/p>\n<p>Obrou o nosso chefe o que eu faria.<\/p>\n<p>Murmuro, Doroteu, mas &eacute; do dote;<\/p>\n<p>415 &#8212; Do dote, sim, do dote. Dize, a banda,<\/p>\n<p>O cast&atilde;o de coquilho, as mais ins&iacute;gnias,<\/p>\n<p>S&atilde;o dotes que se d&ecirc;em a um soldado,<\/p>\n<p>Porque serviu ao chefe, em receber-lhe,<\/p>\n<p>Sem vergonha do mundo, a sua amiga?<\/p>\n<p>420 &#8212; N&atilde;o achas insol&ecirc;ncia e desaforo<\/p>\n<p>Ver os porta-bandeiras, os cadetes,<\/p>\n<p>E os furri&eacute;is j&aacute; velhos, preteridos<\/p>\n<p>S&oacute; para-premiar-se com o posto,<\/p>\n<p>Que por lei lhes pertence, um torpe crime?<\/p>\n<p>425 &#8212; S&atilde;o estes, Doroteu, os grandes cabos,<\/p>\n<p>De quem a triste p&aacute;tria fiar deve<\/p>\n<p>A sua salva&ccedil;&atilde;o? S&atilde;o estes? Dize&#8230;<\/p>\n<p>Agora j&aacute; te calas. Pois n&atilde;o tornes<\/p>\n<p>A mostrar-me, outra vez, o gesto irado,<\/p>\n<p>430 &#8212; Que um dia hei-de enfadar-me e, se me enfadas,<\/p>\n<p>Ainda que me pecas de joelhos,<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute;s-de receber da minha pena,<\/p>\n<p>Em verso ou prosa, mais uma s&oacute; carta.<\/p>\n<h4><a name=\"12\">CARTA 12&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>Aquele que se jacta de fidalgo<\/p>\n<p>N&atilde;o cessa de contar progenitores<\/p>\n<p>Da ra&ccedil;a dos suevos, mais dos godos;<\/p>\n<p>O valente soldado gasta o dia<\/p>\n<p>5 &#8212; Em falar das batalhas, e nos mostra<\/p>\n<p>Das feridas, que preza, cheio o corpo;<\/p>\n<p>O louco namorado n&atilde;o descansa<\/p>\n<p>Enquanto tem quem ou&ccedil;a as aventuras,<\/p>\n<p>Que fez com as madamas, mais senhoras,<\/p>\n<p>10 &#8212; Benzendo-se mil vezes, quando chega<\/p>\n<p>Aos lances apertados de ser visto<\/p>\n<p>Dos maridos, dos pais e dos parentes,<\/p>\n<p>Em que, s&oacute; por milagre, n&atilde;o foi morto.<\/p>\n<p>Assim, assim, tamb&eacute;m, o teu Critilo<\/p>\n<p>15 &#8212; N&atilde;o cansa de escrever-te, enquanto encontra<\/p>\n<p>Do tolo Fanfarr&atilde;o, do indigno chefe,<\/p>\n<p>Estranhas bandalhices, que te conte.<\/p>\n<p>Ah! sofre, amigo, que te gaste o tempo,<\/p>\n<p>Pois conter-se n&atilde;o pode, bem que queria,<\/p>\n<p>20 &#8212; Que a for&ccedil;a da paix&atilde;o assopra a chama,<\/p>\n<p>A chama ativa do picante g&ecirc;nio.<\/p>\n<p>J&aacute; sabes, Doroteu, aonde chega<\/p>\n<p>Do nosso Fanfarr&atilde;o a bizarria,<\/p>\n<p>Em premiar servi&ccedil;os de uma dama.<\/p>\n<p>25 &#8212; Agora, nesta carta, vou mostrar-te<\/p>\n<p>At&eacute; aonde chegam as grandezas<\/p>\n<p>Que fez com os marotos, por que tenhas,<\/p>\n<p>Do seu fidalgo g&ecirc;nio, no&ccedil;&atilde;o clara.<\/p>\n<p>Qual negra tempestade, que carrega<\/p>\n<p>30 &#8212; As nuvens de cupins e de formigas,<\/p>\n<p>Que criam, com as chuvas, longas asas,<\/p>\n<p>Assim o nosso chefe traz consigo,<\/p>\n<p>Arriba&ccedil;&atilde;o infame de bandalhos,<\/p>\n<p>Que geram, tamb&eacute;m, asas, com a muita,<\/p>\n<p>35 &#8212; Nociva aud&aacute;cia que lhes d&aacute; seu amo.<\/p>\n<p>Na corja dos marotos aparece<\/p>\n<p>Um magri&ccedil;o mulato, a quem o chefe,<\/p>\n<p>Por ocultas raz&otilde;es estima e preza.<\/p>\n<p>Talvez que, noutro tempo, lhe levasse<\/p>\n<p>40 &#8212; Os mi&uacute;dos pap&eacute;is &agrave;s suas damas.<\/p>\n<p>Ocupa&ccedil;&atilde;o distinta, que j&aacute; teve<\/p>\n<p>Um famoso Merc&uacute;rio, que comia<\/p>\n<p>Sentado &agrave; mesa dos mais altos deuses.<\/p>\n<p>Deseja o nosso chefe que este lucre<\/p>\n<p>45 &#8212; Quatrocentas oitavas, pelo menos,<\/p>\n<p>E, para que n&atilde;o saiam de seu bolso,<\/p>\n<p>Descobre esta feliz e nova id&eacute;ia:<\/p>\n<p>Disp&otilde;e dos bens alheios como pr&oacute;prios.<\/p>\n<p>No p&uacute;blico teatro de Lup&eacute;sio<\/p>\n<p>50 &#8212; Ordena, Doroteu, se represente<\/p>\n<p>Uma vista com&eacute;dia, por que fiquem,<\/p>\n<p>Para o velho mulato, os lucros dela.<\/p>\n<p>Ordena, ainda mais, que o seu Rob&eacute;rio<\/p>\n<p>Os boletos reparta pelas damas,<\/p>\n<p>55 &#8212; Pelos contratadores opulentos<\/p>\n<p>E por quantos casquilhos os quiserem<\/p>\n<p>Pagar, ao menos, por dobrado pre&ccedil;o.<\/p>\n<p>Rob&eacute;rio assim o faz; sup&otilde;e, coitado,<\/p>\n<p>Que prometeu pedir alguma missa.<\/p>\n<p>60 &#8212; E, junto c&#8217;o mulato, vai entrando<\/p>\n<p>Em uma e outra casa, aonde deixa<\/p>\n<p>Ou selado papel, para a plat&eacute;ia,<\/p>\n<p>Ou, com t&aacute;bua pendente, a velha chave.<\/p>\n<p>Ah! nota, Doroteu, que a&ccedil;&atilde;o t&atilde;o feia!<\/p>\n<p>65 &#8212; Aquele bruto chefe que n&atilde;o paga,<\/p>\n<p>As pessoas mais nobres, o cortejo<\/p>\n<p>Sequer por um criado, agora manda<\/p>\n<p>Que o seu pr&oacute;prio Rob&eacute;rio, o seu bom aio.<\/p>\n<p>Ande de porta em porta, qual mendigo,<\/p>\n<p>70 &#8212; Pedindo para um bode a benta esmola!<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, amigo, a quem? a quem? aos mesmos<\/p>\n<p>Que tem desfeiteado muitas vezes<\/p>\n<p>E &agrave;s pobres, que &eacute; mais, &agrave;s pobres mo&ccedil;as<\/p>\n<p>Que h&atilde;o-de ganhar, &agrave; custa de seu corpo,<\/p>\n<p>75 &#8212; Com que possam pagar deste convite<\/p>\n<p>Um t&atilde;o avantajado, indigno pre&ccedil;o.<\/p>\n<p>Maldito sejas tu, pouca vergonha,<\/p>\n<p>Que tanto influxo tens sobre este leso!<\/p>\n<p>Chegou-se, Doroteu, a noite alegre<\/p>\n<p>80 &#8212; Destinada &agrave; fun&ccedil;&atilde;o, e o vil Rob&eacute;rio<\/p>\n<p>D&aacute; nova prova de fervor e zelo:<\/p>\n<p>Vai-se p&ocirc;r, com o traste do mulato,<\/p>\n<p>Na porta da plat&eacute;ia, e, quando acaba<\/p>\n<p>A primeira jornada, tamb&eacute;m corre<\/p>\n<p>85 &#8212; Os cheios camarotes: fina id&eacute;ia!<\/p>\n<p>Para ver se os tolinhos, assim, largam,<\/p>\n<p>Na copa do chap&eacute;u, que a esmola apanha,<\/p>\n<p>Embrulhos de mais peso ! Ah ! doce amigo,<\/p>\n<p>Quem bandalho nasceu, ainda que suba<\/p>\n<p>90 &#8212; Ao posto de maior, morreu bandalho,<\/p>\n<p>Que o tronco, se d&aacute; fruto azedo, ou doce,<\/p>\n<p>Procede da semente e qualidade<\/p>\n<p>Da negra terra, em que foi gerado.<\/p>\n<p>Servia-se este chefe de um lacaio,<\/p>\n<p>95 &#8212; E, por n&atilde;o lhe pagar sal&aacute;rio certo,<\/p>\n<p>Deu neste ardil, tamb&eacute;m: quando ia &agrave;s festas<\/p>\n<p>Lhe dava o seu brand&atilde;o, e as mais pessoas,<\/p>\n<p>Que estavam na tribuna, por obs&eacute;quio,<\/p>\n<p>Lhe davam as compridas, grossas velas.<\/p>\n<p>100 &#8212; Se dava algum despacho, de que vinha<\/p>\n<p>Proveito &agrave; parte rica, lho entregava,<\/p>\n<p>Por que fosse ganhar o grande pr&ecirc;mio<\/p>\n<p>Com que os n&eacute;scios, servidos, o brindavam.<\/p>\n<p>Nas v&eacute;speras, amigo, da partida,<\/p>\n<p>105 &#8212; Tratou de lhe fazer maior a safra:<\/p>\n<p>Passou atesta&ccedil;&otilde;es a todo mundo<\/p>\n<p>E, sem saber se o mundo lh&#8217;as queria,<\/p>\n<p>Mandou ao mesmo servo as entregasse<\/p>\n<p>E os pr&ecirc;mios do trabalho recolhesse!<\/p>\n<p>110 &#8212; Maldita sejas tu, pouca vergonha,<\/p>\n<p>Que tanto influxo tens sobre este leso!<\/p>\n<p>Havia, Doroteu&#8230; mas n&atilde;o gastemos<\/p>\n<p>O tempo em referir mais bandalhices<\/p>\n<p>Da mesma natureza; refiramos<\/p>\n<p>115 &#8212; Outras, que sejam de diversa classe.<\/p>\n<p>N&atilde;o quero, Doroteu, que o justo t&eacute;dio,<\/p>\n<p>Que infunde a semelhan&ccedil;a, te duplique<\/p>\n<p>O t&eacute;dio, que produz a minha frase.<\/p>\n<p>Fizeram os devotos de uma imagem,<\/p>\n<p>120 &#8212; Da festa protetor, ao grande chefe.<\/p>\n<p>Aceita o Fanfarr&atilde;o do cargo a honra<\/p>\n<p>E medita fazer um gr&atilde;o festejo.<\/p>\n<p>Ordena aos cavalheiros, que vieram<\/p>\n<p>Correr as argolinhas, em obs&eacute;quio<\/p>\n<p>125 &#8212; Do ditoso cons&oacute;rcio dos infantes,<\/p>\n<p>Que esperam, nesta terra, &agrave; sua custa,<\/p>\n<p>E que, nos dias da fun&ccedil;&atilde;o, repitam<\/p>\n<p>Os feitos jogos, com o mesmo lustre.<\/p>\n<p>Manda que o grande curro, que o Senado<\/p>\n<p>130 &#8212; Fez levantar, na praia, permane&ccedil;a,<\/p>\n<p>E venham os boizinhos, que, por serem<\/p>\n<p>Mais bravos do que os outros, se guardaram,<\/p>\n<p>Mal rapavam o ch&atilde;o e mal corriam,<\/p>\n<p>Atr&aacute;s do mau capinha, no terreiro.<\/p>\n<p>135 &#8212; Eis aqui, eis aqui, amigo, o como<\/p>\n<p>Se fazem coisas grandes, sem despesa.<\/p>\n<p>Manda mais o bom chefe que se aluguem<\/p>\n<p>Os palanques a quatro oitavas d&#8217;ouro,<\/p>\n<p>Para que se comprasse um patrim&ocirc;nio,<\/p>\n<p>140 &#8212; A sacrossanta imagem, deste lucro.<\/p>\n<p>Que s&aacute;bias inten&ccedil;&otilde;es, que fins t&atilde;o santos!<\/p>\n<p>Celebram-se os festins e n&atilde;o escapa<\/p>\n<p>Um camarote s&oacute;, que n&atilde;o se alugue;<\/p>\n<p>Mas deste rendimento n&atilde;o se sabe,<\/p>\n<p>145 &#8212; Que a compra se meteu, de todo, &agrave; bulha.<\/p>\n<p>N&atilde;o penses, Doroteu, que o nosso chefe<\/p>\n<p>Comeu este dinheiro. Longe, longe<\/p>\n<p>De n&oacute;s este t&atilde;o baixo pensamento.<\/p>\n<p>Indo j&aacute; no caminho, o seu Mat&uacute;sio<\/p>\n<p>150 &#8212; Passou, sobre Marqu&eacute;sio, certa letra.<\/p>\n<p>Para que se pagasse ao Santo Cristo.<\/p>\n<p>Agora considera se este fato<\/p>\n<p>N&atilde;o mostra que ele zela a consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Agora inquirir&aacute;s se o tal Marqu&eacute;sio<\/p>\n<p>155 &#8212; P&ocirc;s na sacada letra o seu &quot;aceito&quot;.<\/p>\n<p>N&atilde;o p&ocirc;s, n&atilde;o p&ocirc;s, amigo, porque disse<\/p>\n<p>Que deste passador n&atilde;o tinha efeitos.<\/p>\n<p>Porem o bom Mat&uacute;sio, mais seu amo,<\/p>\n<p>Levam as consci&ecirc;ncias descansadas,<\/p>\n<p>160 &#8212; Pois n&atilde;o devem supor, pelo costume,<\/p>\n<p>Que a letra n&atilde;o pagasse o mau rendeiro.<\/p>\n<p>Maldita sejas tu, pouca vergonha,<\/p>\n<p>Que tanto influxo tens sobre este leso!<\/p>\n<p>Roubou um seu criado a certa escrava<\/p>\n<p>165 &#8212; E dentro lha meteu, do seu pal&aacute;cio.<\/p>\n<p>Conheceu o senhor quem fez o furto,<\/p>\n<p>E foi pedir ao chefe que mandasse<\/p>\n<p>Que o terno roubador restitu&iacute;sse<\/p>\n<p>A serva, com os lucros! pois cedia<\/p>\n<p>170 &#8212; De toda a mais a&ccedil;&atilde;o, que a lei lhe dava.<\/p>\n<p>Que entendes, Doroteu, que obrou o chefe?<\/p>\n<p>Que fez um s&eacute;rio exame sobre o caso?<\/p>\n<p>Que, conhecendo ser a queixa justa,<\/p>\n<p>Meteu, em duros ferros, ao criado?<\/p>\n<p>175 &#8212; Que n&atilde;o lhe perdoou, enquanto o mesmo<\/p>\n<p>Ofendido queixoso n&atilde;o lhe veio<\/p>\n<p>Suplicar o perd&atilde;o da culpa grave?<\/p>\n<p>Devias esperar que assim fizesse,<\/p>\n<p>Mas, quando a raz&atilde;o pede certa coisa,<\/p>\n<p>180 &#8212; Ele, ent&atilde;o, executa o seu contr&aacute;rio.<\/p>\n<p>N&atilde;o zela, Doroteu, a s&atilde; justi&ccedil;a,<\/p>\n<p>Nem zela a honra pr&oacute;pria, maculada<\/p>\n<p>Na sua habita&ccedil;&atilde;o, que o servo muda<\/p>\n<p>Em torpe lupan&aacute;rio. N&atilde;o, n&atilde;o zela;<\/p>\n<p>185 &#8211;Antes, prezado amigo, austero, estranha<\/p>\n<p>Ao m&iacute;sero queixoso, que se atreva<\/p>\n<p>A supor que os seus servos s&atilde;o capazes<\/p>\n<p>De poderem obrar excessos destes.<\/p>\n<p>Maldita sejas tu, pouca vergonha,<\/p>\n<p>190 &#8212; Que tanto influxo tens sobre este leso.<\/p>\n<p>Passados alguns tempos, Ludovino<\/p>\n<p>Encontrou, uma noite, a sua escrava<\/p>\n<p>E &agrave; casa conduziu do bom Sa&ocirc;nio,<\/p>\n<p>Aonde, em hospedagem, se abrigava.<\/p>\n<p>195 &#8212; Aqui lhe perguntou a longa hist&oacute;ria<\/p>\n<p>Da fugida que fez, e a triste serva,<\/p>\n<p>Com animo sincero, assim lhe fala:<\/p>\n<p>&quot;Rib&eacute;rio me induziu a que fugisse,<\/p>\n<p>Meteu-me no seu quarto, aonde estive,<\/p>\n<p>200 &#8212; Fechada, muitos dias. Alugou-me,<\/p>\n<p>Depois, uma casinha; aqui me dava,<\/p>\n<p>Dos sobejos da mesa de seu amo,<\/p>\n<p>Para eu alimentar a pobre vida.<\/p>\n<p>Tive dele dois filhos; o dem&ocirc;nio<\/p>\n<p>205 &#8211;Enganou-me, senhor, cuidei&#8230; &#8220;E, nisto,<\/p>\n<p>Queria mais dizer, porem, de pejo,<\/p>\n<p>As l&aacute;grimas lhe estalam, e se cortam<\/p>\n<p>As &uacute;ltimas palavras, com suspiros.<\/p>\n<p>Agora dir&aacute;s tu, amigo honrado:<\/p>\n<p>210 &#8212; &quot;Agora, agora sim, agora &eacute; tempo,<\/p>\n<p>Insolente Rib&eacute;rio, de n&oacute;s vermos,<\/p>\n<p>Para exemplo dos mais, o teu castigo.<\/p>\n<p>Os soldados j&aacute; marcham, j&aacute; te prendem,<\/p>\n<p>J&aacute; vens maniatado, j&aacute; te metem<\/p>\n<p>215 &#8212; Na s&oacute;rdida enxovia, j&aacute; te encaixam,<\/p>\n<p>No pesco&ccedil;o, a corrente, e vais marchando<\/p>\n<p>Com rosto baixo, a ver Angola ou &Iacute;ndia.&#8221;<\/p>\n<p>Devagar, devagar com essas coisas:<\/p>\n<p>Os servos de pal&aacute;cio s&atilde;o os duques<\/p>\n<p>220 &#8212; Do nosso Santiago, e n&atilde;o se prendem<\/p>\n<p>Por essas, nem por outras ninharias.<\/p>\n<p>Atrevidos soldados j&aacute; se aprontam,<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o para prenderem a Rib&eacute;rio,<\/p>\n<p>Sim para conduzirem, entre as armas,<\/p>\n<p>225 &#8212; Ao pobre Ludovino e &agrave; sua serva,<\/p>\n<p>Que j&aacute; buscando v&atilde;o &agrave; sua casa,<\/p>\n<p>Que dista desta terra muitas l&eacute;guas.<\/p>\n<p>&Eacute; o mesmo Rib&eacute;rio quem<\/p>\n<p>A fazer, Doroteu, a dilig&ecirc;ncia,<\/p>\n<p>230 &#8212; Cobrindo a testa da insolente esquadra.<\/p>\n<p>J&aacute; viste, Doroteu, insultos destes?<\/p>\n<p>J&aacute; viste que pertenda um homem s&eacute;rio <\/p>\n<p>Que, &agrave; for&ccedil;a, um bom senhor de si demita<\/p>\n<p>A escrava desonesta, porque possa<\/p>\n<p>235 &#8212; Ficar na mancebia? J&aacute;, j&aacute; viste<\/p>\n<p>Que se mande prender ao ultrajado<\/p>\n<p>Pelo mesmo ladr&atilde;o? Ah! caro amigo<\/p>\n<p>Que, destas insol&ecirc;ncias que te conto,<\/p>\n<p>Apenas pode ver quem mora em Chile!<\/p>\n<p>240 &#8212; Maldita sejas tu, pouca vergonha,<\/p>\n<p>Que tanto influxo tens sobre este leso!<\/p>\n<p>H&aacute;, nesta grande terra, um homem s&aacute;bio<\/p>\n<p>E o &uacute;nico formado em medicina.<\/p>\n<p>A este bom doutor estimam todos,<\/p>\n<p>245 &#8212; Por sua profiss&atilde;o, por seus talentos, <\/p>\n<p>Por seu af&aacute;vel modo e, mais que tudo,<\/p>\n<p>Pelas muitas virtudes que respira.<\/p>\n<p>Curava o nosso s&aacute;bio a certo enfermo<\/p>\n<p>E, vendo a v&aacute;ria febre e os mais sinTom\u00e1s,<\/p>\n<p>250 &#8212; Ordena que ele tome um copo d&#8217;&aacute;gua<\/p>\n<p>A que d&aacute; de Inglaterra o povo o nome.<\/p>\n<p>Manda-lhe o botic&aacute;rio uma botelha,<\/p>\n<p>Que j&aacute; servido tinha; o s&aacute;bio, atento<\/p>\n<p>A que ela poderia ter perdido<\/p>\n<p>255 &#8212; A for&ccedil;a natural, a n&atilde;o aprova<\/p>\n<p>E passa a receitar outro composto,<\/p>\n<p>Que possa produzir o mesmo efeito.<\/p>\n<p>Chorando, o botic&aacute;rio sobe ao chefe<\/p>\n<p>E diz-lhe que o doutor a rejeitara.<\/p>\n<p>260 &#8212; Por ser seu inimigo e, desta sorte,<\/p>\n<p>Tirar-lhe, da botica, o bom conceito.<\/p>\n<p>Manda o chefe chamar aos botic&aacute;rios<\/p>\n<p>E manda que examinem a garrafa;<\/p>\n<p>Concordam os doutores que n&atilde;o tinha.<\/p>\n<p>265 &#8212; Ainda, corrup&ccedil;&atilde;o, talvez por verem<\/p>\n<p>Que ainda conservava algum amargo.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, ent&atilde;o o chefe, enfurecido,<\/p>\n<p>Ordena ao ajudante que, ali mesmo,<\/p>\n<p>Avise ao professor que ele tem ferros,<\/p>\n<p>270 &#8212; Cadeias e gal&eacute;s, com que reprima,<\/p>\n<p>Se neles prosseguir, os seus excessos.<\/p>\n<p>Maldita sejas tu, pouca vergonha,<\/p>\n<p>Que tanto influxo tens sobre este leso!<\/p>\n<p>Pensavas, Doroteu, que o nosso chefe<\/p>\n<p>275 &#8212; Passasse &agrave; insol&ecirc;ncia, que refiro,<\/p>\n<p>De insultar, por amor de um vil mulato,<\/p>\n<p>Um velho professor t&atilde;o bem aceito,<\/p>\n<p>Um velho professor, alem de s&aacute;bio,<\/p>\n<p>Na terra singular, no seu oficio?<\/p>\n<p>280 &#8211;N&atilde;o, meu prezado amigo, n&atilde;o pensavas;<\/p>\n<p>Pois quero, Doroteu, dizer-te a causa:<\/p>\n<p>Esta grave amea&ccedil;a e grave insulto<\/p>\n<p>Foi feita em tom de paga, porque o bode<\/p>\n<p>Curava, cuidadoso, ao pr&oacute;prio chefe,<\/p>\n<p>285 &#8212; De mal oculto, que a mod&eacute;stia cala.<\/p>\n<p>Maldita seja tu, pouca vergonha,<\/p>\n<p>Que tanto influxo tens sobre este leso!<\/p>\n<p>Ah! dize, Doroteu, por que motivo<\/p>\n<p>O pai de Fanfarr&atilde;o o n&atilde;o p&ocirc;s antes<\/p>\n<p>290 &#8212; Na loja de algum h&aacute;bil sapateiro,<\/p>\n<p>C&#8217;os mo&ccedil;os aprendizes deste oficio?<\/p>\n<p>Agora dir&aacute;s tu: &quot;Nasceu fidalgo<\/p>\n<p>E as grandes personagens n&atilde;o se ocupam<\/p>\n<p>Em baixos exerc&iacute;cios.&quot; Nada dizes.<\/p>\n<p>295 &#8212; Tonante, Doroteu, &eacute; pai dos deuses:<\/p>\n<p>Nasceu-lhe o seu Vulcano e nasceu feio.<\/p>\n<p>Mal o bom pai o viu, pregou-lhe um coice<\/p>\n<p>Que o p&ocirc;s do Olimpo fora, e o pobre mo&ccedil;o<\/p>\n<p>Foi abrir uma tenda de ferreiro.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">CARTA l3&ordf;<\/a><\/h4>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Ainda, caro amigo, ainda existem<\/p>\n<p>Os vest&iacute;gios dos templos suntuosos<\/p>\n<p>Que a m&atilde;o religiosa do bom Numa<\/p>\n<p>Ergueu o Marte e levantou a Jano.<\/p>\n<p>5 &#8212; Ainda, ainda lemos que elegera,<\/p>\n<p>Para estas divindades, sacerdotes,<\/p>\n<p>E que muitas donzelas consagrara,<\/p>\n<p>Afim de conservar-se, aceso, o fogo,<\/p>\n<p>Em o templo de Vesta, sobre as aras.<\/p>\n<p>10 &#8212; Tamb&eacute;m, tamb&eacute;m sabemos que este s&aacute;bio,<\/p>\n<p>Para ter mais conceitos entre o seu povo,<\/p>\n<p>Fingiu que a ninfa Eg&eacute;ria, sendo noite,<\/p>\n<p>Vinha falar com ele, e que, benigna,<\/p>\n<p>A forma do goveno lhe inspirava.<\/p>\n<p>15 &#8212; O mesmo fez Sert&oacute;rio, que dizia<\/p>\n<p>Que nada executa, que n&atilde;o fosse<\/p>\n<p>Ensinado por uma branca cerva,<\/p>\n<p>Que, a deusa ca&ccedil;adora lhe mandara.<\/p>\n<p>Mafoma, o vil Mafoma, astuto segue<\/p>\n<p>20 &#8212; Tamb&eacute;m este sistema: ao seu ouvido<\/p>\n<p>Acostuma a chegar-se a mansa pomba.<\/p>\n<p>A na&ccedil;&atilde;o, ignorante, se convence<\/p>\n<p>De que este seu profeta conhecia<\/p>\n<p>Os segredos do c&eacute;u, por este meio.<\/p>\n<p>25 &#8212; N&atilde;o h&aacute;, meu Doroteu, n&atilde;o h&aacute; um chefe,<\/p>\n<p>Bem que perverso seja, que n&atilde;o finja,<\/p>\n<p>Pela religi&atilde;o, um justo zelo,<\/p>\n<p>E, quando n&atilde;o o fa&ccedil;a por virtude,<\/p>\n<p>Sempre, ao menos, o mostra por sistema.<\/p>\n<h4><a name=\"14\">EP&Iacute;STOLA A CRITILO<\/a><\/h4>\n<p>Qual seja o original. Dentro em minha alma<\/p>\n<p>Vejo, &oacute; Critilo, do chileno chefe,<\/p>\n<p>T&atilde;o bem pintada a hist&oacute;ria nos teus versos,<\/p>\n<p>Que n&atilde;o sei decidir qual seja a c&oacute;pia,<\/p>\n<p>Qual seja o original. Dentro em minha alma<\/p>\n<p>5 &#8212; Que diversas paix&otilde;es, que afetos v&aacute;rios<\/p>\n<p>A um tempo se suscitam! Gelo e tremo,<\/p>\n<p>Umas vezes de horror, de m&aacute;goa e susto;<\/p>\n<p>Outras vezes do riso apenas posso<\/p>\n<p>Resistir aos impulsos. Igualmente<\/p>\n<p>10 &#8212; Me sinto vacilar entre os combates<\/p>\n<p>Da raiva e do prazer. Mas ah! que disse!<\/p>\n<p>Eu retrato a express&atilde;o, nem me subscrevo<\/p>\n<p>Ao sufr&aacute;gio daquele, que assim pensa,<\/p>\n<p>Alheio da raz&atilde;o, que me surpreende.<\/p>\n<p>15 &#8212; Trata-se aqui da humanidade aflita;<\/p>\n<p>Exige a natureza os seus deveres.<\/p>\n<p>Nem da mofa ou do riso pode a id&eacute;ia<\/p>\n<p>Jamais nutrir-se, enquanto aos olhos nossos<\/p>\n<p>Se prop&otilde;e do teu chefe a infame hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>20 &#8212; Quem me dir&aacute; que da estultice as obras<\/p>\n<p>Infestas &agrave; virtude e dirigidas<\/p>\n<p>A despertar o esc&acirc;ndalo conseguem,<\/p>\n<p>No prudente var&atilde;o, mover o riso?<\/p>\n<p>Eu veio que um Cal&iacute;gula se empenha<\/p>\n<p>25 &#8212; Em fazer que de Roma ao Consulado,<\/p>\n<p>Se jure o seu cavalo por colega.<\/p>\n<p>Vejo que os cidad&atilde;os e as tropas arma<\/p>\n<p>O filho de Agripina, que os transporta<\/p>\n<p>Em grossos vasos sobre o Tibre e logo<\/p>\n<p>30 &#8212; Por inimigos lhes assina os matos,<\/p>\n<p>Que atacar manda com guerreiro estrondo.<\/p>\n<p>Direi que me recreia esta loucura?<\/p>\n<p>Que devo rir-me e sufocar o pranto<\/p>\n<p>Que pula dos meus olhos? N&atilde;o, Critilo,<\/p>\n<p>35 &#8212; N&atilde;o &eacute; esta a mo&ccedil;&atilde;o que n&#8217;alma provo.<\/p>\n<p>Por entre estes del&iacute;rios, insens&iacute;vel,<\/p>\n<p>Me conduz a raz&atilde;o, brilhante e s&aacute;bia,<\/p>\n<p>A gemer igualmente na desgra&ccedil;a<\/p>\n<p>Dos m&iacute;seros vassalos, que honrar devem,<\/p>\n<p>40 &#8212; De um tirano o poder, o trono, o cetro.<\/p>\n<p>Se Talia e Melp&ocirc;mene nos pintam,<\/p>\n<p>Nos seus teatros, paix&otilde;es humanas,<\/p>\n<p>Ao rid&iacute;culo gesto, ou ao semblante<\/p>\n<p>Da cena que o coturno me apresenta,`<\/p>\n<p>45 &#8212; Eu me conformo ao interesse, quando<\/p>\n<p>Aborre&ccedil;o a maldade e quando rendo<\/p>\n<p>&Agrave; formosa virtude os dignos votos.<\/p>\n<p>Despedace Med&eacute;ia os caros filhos,<\/p>\n<p>Guise Atreu de seus netos as entranhas,<\/p>\n<p>50 &#8212; Eu terei sempre horror &agrave;s impiedades.<\/p>\n<p>Jamais da irreligi&atilde;o, da f&eacute; mentida<\/p>\n<p>Me h&atilde;o-de enganar os p&eacute;rfidos rebu&ccedil;os<\/p>\n<p>Ou da fingida cena os v&atilde;os adornos.<\/p>\n<p>Devo pois confessar, Critilo amado,<\/p>\n<p>55 &#8212; Que teus escritos, de uma idade a outra<\/p>\n<p>Passar&atilde;o, sempre de esplendor cingidos:<\/p>\n<p>Que a humanidade, enfim desagravada<\/p>\n<p>Das inj&uacute;rias que sofre, por teu bra&ccedil;os,<\/p>\n<p>Os ferros soltar&aacute;, que desafrouxa,<\/p>\n<p>60 &#8212; Tintos do fresco, gotejado sangue.<\/p>\n<p>S&uacute;ditos infelices, que provastes<\/p>\n<p>Os estragos da b&aacute;rbara desordem,<\/p>\n<p>Respirai, respirai: ao benef&iacute;cio<\/p>\n<p>Deveis do bom Critilo a paz suave,<\/p>\n<p>65 &#8211;Que a vossa liberdade alegre goza,<\/p>\n<p>Sim, Critilo, s&atilde;o estes os agouros<\/p>\n<p>Que, lendo a tua hist&oacute;ria, ao mundo fa&ccedil;o.<\/p>\n<p>De pejo e de vergonha os bons monarcas,<\/p>\n<p>Que pias inten&ccedil;&otilde;es sempre alimentam,<\/p>\n<p>70 &#8212; De reger como filhos os seus povos,<\/p>\n<p>Tocados se ver&atilde;o. Prudentes, s&aacute;bios,<\/p>\n<p>Consultar&atilde;o primeiro sobre a escolha<\/p>\n<p>Daqueles chefes, que a remotos climas<\/p>\n<p>Determinam mandar, deles fiando<\/p>\n<p>75 &#8212; A importante por&ccedil;&atilde;o do seu governo.<\/p>\n<p>Prevenidos que a v&atilde;, brutal soberba<\/p>\n<p>S&oacute; nas obras influi destes monstros,<\/p>\n<p>Pelo escrut&iacute;nio da virtude espero,<\/p>\n<p>Que regulados os seus votos sejam.<\/p>\n<p>80 &#8211;De uma est&eacute;ril mortal genealogia<\/p>\n<p>0 Que o m&eacute;rito produz de seus maiores,<\/p>\n<p>Eles, amigo, argumentar n&atilde;o devem<\/p>\n<p>Propalados talentos. A virtude<\/p>\n<p>Nem sempre aos netos, por heran&ccedil;a, desce.<\/p>\n<p>85 &#8212; Pode o pai ser piedoso, s&aacute;bio e justo,<\/p>\n<p>Manso, af&aacute;vel, pac&iacute;fico e prudente:<\/p>\n<p>N&atilde;o se segue da&iacute; que um &iacute;mpio filho,<\/p>\n<p>Perverso, infame, d&iacute;scolo e malvado,<\/p>\n<p>N&atilde;o desordene de seus pais a gl&oacute;ria.<\/p>\n<p>90 &#8212; Nem sempre as &aacute;guias de outras &aacute;guias nascem,<\/p>\n<p>Nem sempre de le&otilde;es, le&otilde;es se geram,<\/p>\n<p>Quantas vezes as pombas e os cordeiros<\/p>\n<p>S&atilde;o partos dos le&otilde;es, das &aacute;guias partos!<\/p>\n<p>Para reger, &oacute; rei, os vossos povos,<\/p>\n<p>95 &#8212; Debalde ides buscar bras&otilde;es e escudos<\/p>\n<p>Entre os vossos dinastas. Roma, Roma<\/p>\n<p>As fasces, as secures, mais as outras<\/p>\n<p>Imperiais ins&iacute;gnias s&oacute; tirava<\/p>\n<p>Da provada virtude. Se das togas<\/p>\n<p>100 &#8212; Distinguia uma e outra esp&eacute;cie, Atenas<\/p>\n<p>1! quem a todas o car&aacute;ter dava.<\/p>\n<p>Igualmente civil jurisconsulto<\/p>\n<p>Que instru&iacute;do guerreiro, era mandado<\/p>\n<p>Um cidad&atilde;o que da prov&iacute;ncia as r&eacute;deas<\/p>\n<p>105 &#8212; Manejasse fiel. Daqui os F&aacute;bios,<\/p>\n<p>Daqui os Cipi&otilde;es e os bons Em&iacute;lios,<\/p>\n<p>Os C&eacute;sares daqui, que os fastos ornam.<\/p>\n<p>Qu&atilde;o diferentes, hoje, os nossos grandes!<\/p>\n<p>&Eacute; filho do marqu&ecirc;s, do conde &eacute; filho,<\/p>\n<p>110 &#8212; V&aacute; das &Iacute;ndias reger vasto imp&eacute;rio.<\/p>\n<p>() Deus! e que infelices os vassalos<\/p>\n<p>Que t&atilde;o longe do trono prostitui<\/p>\n<p>O vosso imp&eacute;rio aos abortivos chefes!<\/p>\n<p>L&aacute; vai aquele, que de avara sede<\/p>\n<p>115 &#8212; E por g&ecirc;nio arrastado: que tesouros<\/p>\n<p>N&atilde;o espera ajustar! Do alheio cofre<\/p>\n<p>Se h&aacute;-de esgotar a aferrolhada soma.<\/p>\n<p>Desgra&ccedil;ada Justi&ccedil;a! Da igualdade<\/p>\n<p>Tu n&atilde;o sabes o ponto: &eacute; a balan&ccedil;a<\/p>\n<p>120 &#8212; Do interesse que s&oacute; por ti decide.<\/p>\n<p>Que despachos injustos, que dispensas.<\/p>\n<p>Que merc&ecirc;s e que postos n&atilde;o se compram<\/p>\n<p>Ao grave peso de selada firma!<\/p>\n<p>Outro vai que, lascivo, e desenvolto<\/p>\n<p>125 &#8212; S&oacute; da carne as paix&otilde;es adora e segue.<\/p>\n<p>Honras, decoros, v&oacute;s sereis despojos<\/p>\n<p>Do seu bruto apetite. Em v&atilde;o, cansados<\/p>\n<p>Pais de fam&iacute;lia, zelareis v&oacute;s outros<\/p>\n<p>Da vossa casa o pundonor herdado.<\/p>\n<p>130 &#8212; Aos vis ataques do atrevido orgulho<\/p>\n<p>H&atilde;o-de ceder as preven&ccedil;&otilde;es mais fortes;<\/p>\n<p>V&iacute;timas da voraz sensualidade<\/p>\n<p>Vossas filhas ser&atilde;o, vossas mulheres.<\/p>\n<p>Que direi do soberbo, do vaidoso,<\/p>\n<p>135 &#8212; Do col&eacute;rico e de outros v&aacute;rios monstros,<\/p>\n<p>Que freio algum n&atilde;o conhecendo, passam<\/p>\n<p>A sustentar no autorizado cargo<\/p>\n<p>Tudo quanto a paix&atilde;o lhes dita e manda!<\/p>\n<p>N&atilde;o sofre aquele, que o vassalo oculte<\/p>\n<p>140 &#8212; os cabedais que &agrave; sua ind&uacute;stria deve<\/p>\n<p>E que a seus filhos e a seus netos, possa<\/p>\n<p>Deixar, morrendo, uma opulenta heran&ccedil;a.<\/p>\n<p>Um falso crime lhe figura, aonde<\/p>\n<p>Esgote as for&ccedil;as, que levar procura<\/p>\n<p>145 &#8212; Alem das frias, apagadas cinzas.<\/p>\n<p>Este medita que a nobreza ilustre<\/p>\n<p>Sufocada se veja. A pris&atilde;o dura,<\/p>\n<p>O distante degredo &eacute; que promete<\/p>\n<p>Da prevista vingan&ccedil;a o fim prescrito.<\/p>\n<p>150 &#8212; &Oacute; senhores! &oacute; reis! &oacute; grandes! quanto<\/p>\n<p>S&atilde;o para n&oacute;s as vossas leis in&uacute;teis!<\/p>\n<p>Mandais debalde, sem julgada culpa,<\/p>\n<p>Que o vosso chefe, a arb&iacute;trio seu, n&atilde;o possa<\/p>\n<p>Exterminar os r&eacute;us, punir os impios.<\/p>\n<p>155 &#8212; &Eacute; c&#8217;os ministros de menor esfera<\/p>\n<p>Que falam vossas leis. Nos chefes vossos<\/p>\n<p>Somente o despotismo impera e reina.<\/p>\n<p>Gozar da sombra do copado tronco<\/p>\n<p>&Eacute; s&oacute; livre ao que perto tem o abrigo<\/p>\n<p>160 &#8211;Dos seus ramos frondosos. Se se aparta<\/p>\n<p>Da clara fonte o passageiro, prova<\/p>\n<p>Turbadas &aacute;guas em maior distancia.<\/p>\n<p>Mas ah! Critilo meu, que eu estou vendo,<\/p>\n<p>Que j&aacute; chegam a ler as cartas tuas:<\/p>\n<p>165 &#8212; Estes b&aacute;rbaros monstros s&atilde;o cobertos<\/p>\n<p>De vivo pejo, ao ver os seus delitos,<\/p>\n<p>Que em t&atilde;o disforme vulto, hoje aparecem.<\/p>\n<p>Destro pintor, em um s&oacute; quadro a muitos<\/p>\n<p>Soubeste descrever. Sim, que o teu chefe<\/p>\n<p>170 &#8212; As maldades de todos compreende.<\/p>\n<p>Aqui v&ecirc;-se o soberbo, que pensando<\/p>\n<p>Do resto dos mais homens nada serem,<\/p>\n<p>Mais que humildes insetos, s&oacute; de f&uacute;rias<\/p>\n<p>Nutre o vil cora&ccedil;&atilde;o e a seus p&eacute;s calca<\/p>\n<p>175 &#8212; A pobre humanidade. Aqui se encontra<\/p>\n<p>O &iacute;mpio, o libertino, que ultrajando<\/p>\n<p>Tudo que &eacute; sagrado, tem por timbre<\/p>\n<p>Ao p&uacute;blico mostrar, que o santo culto<\/p>\n<p>Que nos intima a religi&atilde;o, somente<\/p>\n<p>180 &#8212; Aos pequenos obriga, e que por arte<\/p>\n<p>Os conserva a ilus&atilde;o no fanatismo,<\/p>\n<p>Porque da obedi&ecirc;ncia &agrave;s leis se dobrem;<\/p>\n<p>Aqui se acha o lascivo; &eacute; o vaidoso,<\/p>\n<p>1! o est&uacute;pido, enfim &eacute; o demente<\/p>\n<p>185 &#8212; O que ao vivo aparece nesta empresa.<\/p>\n<p>Tu, severo Cat&atilde;o, tu repreendes<\/p>\n<p>Com teu mudo semblante a p&aacute;tria Roma.<\/p>\n<p>Nem seus teatros de lasc&iacute;via cheios<\/p>\n<p>Sofrem teus olhos nobremente irados.<\/p>\n<p>190 &#8212; Pede o congresso, de terror ferido,<\/p>\n<p>Que o r&iacute;gido censor o circo deixe<\/p>\n<p>Ou que se n&atilde;o produza a torpe cena.<\/p>\n<p>Este, &oacute; Critilo, o precioso efeito<\/p>\n<p>Dos teus versos ser&aacute;, como em espelho,<\/p>\n<p>195 &#8211;Que as cores toma e que reflete a imagem,<\/p>\n<p>Os &iacute;mpios chefes de uma igual conduta<\/p>\n<p>A ele se ver&atilde;o, sendo arg&uuml;idos<\/p>\n<p>Pela face brilhante da virtude,<\/p>\n<p>Que, nos defeitos de um, castiga a tantos.<\/p>\n<p>200 &#8212; Li&ccedil;&otilde;es prudentes, de um discreto aviso,<\/p>\n<p>No mesmo horror do crime, que os infama,<\/p>\n<p>Teus escritos lhes d&ecirc;em. Sobrada usura<\/p>\n<p>&Eacute; este o pr&ecirc;mio das fadigas tuas.<\/p>\n<p>Eles dir&atilde;o, voltando-se a Critilo:<\/p>\n<p>205 &#8212; Quando devemos, &oacute; censor fecundo,<\/p>\n<p>Ao castigado metro, com que afeias<\/p>\n<p>Nossos delitos, e buscar nos fazes<\/p>\n<p>Da c&acirc;ndida virtude a s&atilde; doutrina! <\/p>\n<p><strong>FIM <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Carta 1\u00aa Carta 2\u00aa Carta 3\u00aa Carta 4\u00aa Carta 5\u00aa Carta 6\u00aa Carta 7\u00aa Carta 8\u00aa Carta 9\u00aa Carta 10\u00aa Carta 11\u00aa Carta 12\u00aa Carta 13\u00aa Ep\u00edstola Tom\u00e1s Ant&ocirc;nio Gonzaga CARTA l&ordf; Em que se descreve a entrada que fez Fanfarr&atilde;o em Chile. Amigo Doroteu, prezado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-119512","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, Literatura, Cartas Chilenas<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, S\u00e1tira, Obra Liter\u00e1ria, Fanfarr\u00e3o em Chile, Literatura, Cartas Chilenas\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, Literatura, Cartas Chilenas\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, S\u00e1tira, Obra Liter\u00e1ria, Fanfarr\u00e3o em Chile, Literatura, Cartas Chilenas\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-04-13T11:56:53+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"164 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/cartas-chilenas#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/cartas-chilenas\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Cartas Chilenas\",\"datePublished\":\"2017-04-13T11:56:53+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/cartas-chilenas\"},\"wordCount\":32820,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/cartas-chilenas#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/cartas-chilenas\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/cartas-chilenas\",\"name\":\"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, Literatura, Cartas Chilenas\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-04-13T11:56:53+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, S\u00e1tira, Obra Liter\u00e1ria, Fanfarr\u00e3o em Chile, Literatura, Cartas Chilenas\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/cartas-chilenas#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/cartas-chilenas\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/cartas-chilenas#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Cartas Chilenas\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, Literatura, Cartas Chilenas","description":"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, S\u00e1tira, Obra Liter\u00e1ria, Fanfarr\u00e3o em Chile, Literatura, Cartas Chilenas","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, Literatura, Cartas Chilenas","og_description":"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, S\u00e1tira, Obra Liter\u00e1ria, Fanfarr\u00e3o em Chile, Literatura, Cartas Chilenas","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-04-13T11:56:53+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"164 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Cartas Chilenas","datePublished":"2017-04-13T11:56:53+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas"},"wordCount":32820,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas","name":"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, Literatura, Cartas Chilenas","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-04-13T11:56:53+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Cartas Chilenas, Livro, Poemas, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, S\u00e1tira, Obra Liter\u00e1ria, Fanfarr\u00e3o em Chile, Literatura, Cartas Chilenas","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-chilenas#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Cartas Chilenas"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119512","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=119512"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119512\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=119512"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=119512"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=119512"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}