{"id":119297,"date":"2017-04-11T19:22:48","date_gmt":"2017-04-11T21:22:48","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=119297"},"modified":"2017-04-11T19:22:48","modified_gmt":"2017-04-11T21:22:48","slug":"americanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/americanas","title":{"rendered":"Americanas"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>POTIRA<\/b><\/p>\n<p>&#8230;Os Tamoios, entre outras presas que fizeram,<\/p>\n<p>levaram esta \u00edndia, a qual pretendeu o capit\u00e3o<\/p>\n<p>da empresa violar: resistiu valorosamente dizendo<\/p>\n<p>em l\u00edngua bras\u00edlica: \u201cEu sou crist\u00e3 e casada;<\/p>\n<p>n\u00e3o hei de fazer trai\u00e7\u00e3o a Deus e a meu marido;<\/p>\n<p>bem podes matar-me e fazer de mim o que quiserdes.\u201d<\/p>\n<p>Deu-se por afrontado o b\u00e1rbaro, e em vingan\u00e7a<\/p>\n<p>lhe acabou a vida com grande crueldade.<\/p>\n<p>Vasc. Chr. da Companhia de Jesus, liv 3\u00ba<\/p>\n<p>POTIRA[i]<\/p>\n<p>Se, poi ch\u2019a morte il corpo le percosse,<\/p>\n<p>Desse almen vita alla memoria d\u2019ella.<\/p>\n<p>ARIOSTO, Orl. Fur., c. XXIX, est. XXXI<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Mo\u00e7a crist\u00e3 das solid\u00f5es antigas,<br \/>\nEm que \u00e1urea folha reviveu teu nome?<br \/>\nNem o eco das matas seculares,<\/p>\n<p>Nem a voz das sonoras cachoeiras,<\/p>\n<p>O transmitiu aos s\u00e9culos futuros.<\/p>\n<p>Assim da tarde estiva \u00e0s auras frouxas<\/p>\n<p>T\u00eanue fumo do colmo no ar se perde;<\/p>\n<p>Nem de outra sorte em moribundos l\u00e1bios<\/p>\n<p>A humana voz expira. O horror e o sangue<\/p>\n<p>Da miseranda cena em que, de envolta<\/p>\n<p>Co\u2019os longos, magoad\u00edssimos suspiros,<\/p>\n<p>Crist\u00e3 Lucr\u00e9cia, abriu tua alma o v\u00f4o<\/p>\n<p>Para subir \u00e0s regi\u00f5es celestes,<\/p>\n<p>Mal deixada mem\u00f3ria aos homens lembra.<\/p>\n<p>Isso apenas; n\u00e3o mais; teu nome obscuro,<\/p>\n<p>Nem tua campa o brasileiro os sabe.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>J\u00e1 da f\u00e9rvida luta os ais e os gritos<\/p>\n<p>Extintos eram. Nos baix\u00e9is ligeiros<\/p>\n<p>Os tamoios inc\u00f3lumes embarcam;<\/p>\n<p>Ferem co\u2019os remos as serenas ondas<\/p>\n<p>At\u00e9 surgirem na remota aldeia.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s ficava, lutuosa e triste,<\/p>\n<p>A nascente cidade brasileira,[ii]<\/p>\n<p>Do inopinado assalto espavorida,<\/p>\n<p>Ao c\u00e9u mandando em coro in\u00fateis vozes.<\/p>\n<p>Vinha j\u00e1 perto rareando a noite,<\/p>\n<p>Alva aurora, que \u00e0 vida acorda as selvas,<\/p>\n<p>Quando a aldeia surgiu aos olhos torvos<\/p>\n<p>Da expedi\u00e7\u00e3o noturna. \u00c0 praia saltam<\/p>\n<p>Os vencedores em tropel; transportam<\/p>\n<p>\u00c0s cabanas despojos e vencidos,<\/p>\n<p>E, da vig\u00edlia fatigados, buscam<\/p>\n<p>Na curva leve rede amigo sono,<\/p>\n<p>Exceto o chefe. Oh! esse n\u00e3o dormira<\/p>\n<p>Longas noites, se a troco da vit\u00f3ria<\/p>\n<p>Precisas fossem. Traz consigo o pr\u00eamio,<\/p>\n<p>O desejado pr\u00eamio. Desmaiada<\/p>\n<p>Conduz nos bra\u00e7os tr\u00eamulos a mo\u00e7a<\/p>\n<p>Que renegou Tup\u00e3,[iii]e as velhas cren\u00e7as<\/p>\n<p>Lavou nas \u00e1guas do batismo santo.<\/p>\n<p>Na rede ornada de amarelas penas<\/p>\n<p>Brandamente a dep\u00f5e. Leve tecido<\/p>\n<p>Da cativa gentil as formas cobre;<\/p>\n<p>Veste-as de mais a sombra do crep\u00fasculo,<\/p>\n<p>Sombra que a t\u00edbia luz da alva nascente<\/p>\n<p>De todo n\u00e3o rompeu. Inquieto sangue<\/p>\n<p>Nas veias ferve do \u00edndio. Os olhos luzem<\/p>\n<p>De concentrada raiva triunfante.<\/p>\n<p>Amor talvez lhes lan\u00e7a um leve toque<\/p>\n<p>De ternura, ou j\u00e1 s\u00f4frego desejo;<\/p>\n<p>Amor, como ele, asp\u00e9rrimo e selvagem,<\/p>\n<p>Que outro n\u00e3o sente o her\u00f3i.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Her\u00f3i lhe chamam<br \/>\nQuantos o h\u00e3o visto no fervor da guerra<\/p>\n<p>Medo e morte espalhar entre os contr\u00e1rios<\/p>\n<p>E avantajar-se nos certeiros golpes<\/p>\n<p>Aos mais fortes da tribo. O arco e a flecha<\/p>\n<p>Desde a inf\u00e2ncia os meneia ousado e afoito;<\/p>\n<p>Cedo aprendeu nas solit\u00e1rias brenhas<\/p>\n<p>A pleitear \u00e0s feras o caminho.<\/p>\n<p>A for\u00e7a op\u00f5e \u00e0 for\u00e7a, a ast\u00facia \u00e0 ast\u00facia.<\/p>\n<p>Qual se da on\u00e7a e da serpente houvera<\/p>\n<p>Colhido as armas. Traz ao colo os dentes<\/p>\n<p>Dos contr\u00e1rios vencidos. Nem dos anos<\/p>\n<p>O n\u00famero supera o das vit\u00f3rias;<\/p>\n<p>Tem no espa\u00e7oso rosto a flor da vida,<\/p>\n<p>A juventude, e goza entre os mais belos<\/p>\n<p>De real primazia. A cinta e a fronte<\/p>\n<p>Azuis, vermelhas plumas alardeiam,<\/p>\n<p>Ing\u00eanuas galas do gentio inculto.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Da cativa gentil cerrados olhos<\/p>\n<p>N\u00e3o se entreabrem \u00e0 luz. Morta parece.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 contra\u00e7\u00e3o lhe n\u00e3o perturba<\/p>\n<p>A paz serena do mimoso rosto.<\/p>\n<p>Junto dela, cruzados sobre o peito<\/p>\n<p>Os bra\u00e7os, Anaj\u00ea contempla e espera;<\/p>\n<p>S\u00f4frego espera, enquanto id\u00e9ias negras<\/p>\n<p>Est\u00e3o a revoar-lhe em torno e a encher-lhe<\/p>\n<p>A mente de projetos tenebrosos.<\/p>\n<p>Tal no cimo do velho Corcovado<\/p>\n<p>Pr\u00f3xima tempestade engloba as nuvens.<\/p>\n<p>S\u00fabito ao seio t\u00fargido e macio<\/p>\n<p>Ansiosas m\u00e3os estende; inda palpita<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o, com desusada for\u00e7a,<\/p>\n<p>Como se a vida toda ali buscasse<\/p>\n<p>Ref\u00fagio certo e \u00faltimo. Impetuoso<\/p>\n<p>O vestido crist\u00e3o lhe despeda\u00e7a,<\/p>\n<p>E \u00e0 luz j\u00e1 viva da manh\u00e3 recente<\/p>\n<p>Contempla as nuas formas. Era acaso<\/p>\n<p>A s\u00edncope chegada ao termo pr\u00f3prio,<\/p>\n<p>Ou, no pejo ofendida, \u00e0s m\u00e3os entranhas<\/p>\n<p>A desmaiada mo\u00e7a despertara.<\/p>\n<p>Potira acorda, os olhos lan\u00e7a em torno,<\/p>\n<p>Fita, v\u00ea, compreende, e inquieta busca<\/p>\n<p>Fugir do vencedor \u00e0s m\u00e3os e ao crime&#8230;<\/p>\n<p>M\u00edsera! op\u00f5e-se-lhe o irritado gesto<\/p>\n<p>Do asp\u00e9rrimo guerreiro; um ai lhe sobe<\/p>\n<p>Angustioso e triste aos l\u00e1bios tr\u00eamulos,<\/p>\n<p>Sobe, murmura e sufocado expira.<\/p>\n<p>Na rede envolve o corpo, e, desviando<\/p>\n<p>Do terr\u00edvel tamoio os lindos olhos,<\/p>\n<p>Entrecortada prece aos c\u00e9us envia,<\/p>\n<p>E as faces banha de serenas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Longo tempo correra. Amplo sil\u00eancio<br \/>\nReinou entre ambos. Do tamoio a fronte<\/p>\n<p>Pouco a pouco despira o torvo aspecto.<\/p>\n<p>Ao trabalhado esp\u00edrito, revolto<\/p>\n<p>De mil sinistros pensamentos, volve<\/p>\n<p>Benigna calma. Tal de um rio engrossa<\/p>\n<p>O volume extens\u00edssimo das \u00e1guas<\/p>\n<p>Que v\u00e3o enchendo de pavor os ecos,<\/p>\n<p>Vencendo no arru\u00eddo o vento e o raio,<\/p>\n<p>E pouco a pouco atenuando as vozes,<\/p>\n<p>Adelga\u00e7ando as ondas, tornam mansas<\/p>\n<p>Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina,<\/p>\n<p>Para tomar nos bra\u00e7os a formosa<\/p>\n<p>Por cujo amor incendiara a aldeia<\/p>\n<p>Daquelas gentes p\u00e1lidas de Europa.<\/p>\n<p>Sente-lhe a mo\u00e7a as m\u00e3os, e erguendo o rosto,<\/p>\n<p>O rosto inda de l\u00e1grimas molhado,<\/p>\n<p>Do cora\u00e7\u00e3o estas palavras solta:<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 entre os meus, suave e amiga morte,<\/p>\n<p>Ah! porque me n\u00e3o deste? Houvera ao menos<\/p>\n<p>Quem escutasse de meus l\u00e1bios frios<\/p>\n<p>A prece derradeira; e a santa b\u00ean\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Levaria minha alma aos p\u00e9s do Eterno&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o te pe\u00e7o a vida; \u00e9 tua, extingue-a;<\/p>\n<p>Um s\u00f3 al\u00edvio imploro. N\u00e3o receies<\/p>\n<p>Embeber no meu sangue a ervada seta;<\/p>\n<p>Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possa<\/p>\n<p>Ter em sagrado leito o \u00faltimo sono!\u201d<\/p>\n<p>Disse, e fitando no \u00edndio \u00e1vidos olhos,<\/p>\n<p>Esperou. Anaj\u00ea sacode a fronte,<\/p>\n<p>Como se lhe pesara id\u00e9ia triste;<\/p>\n<p>Crava os olhos no ch\u00e3o; lentas lhe saem<\/p>\n<p>Estas vozes do peito:<\/p>\n<p>\u201cOh! nunca os padres<\/p>\n<p>Pisado houvessem estas plagas virgens!<\/p>\n<p>Nunca de um deus estranho as leis ignotas<\/p>\n<p>Viessem perturbar as tribos, como<\/p>\n<p>Perturba o vento as \u00e1guas! Rosto a rosto<\/p>\n<p>Os guerreiros pelejam; matam, morrem.<\/p>\n<p>Ante o fulgor das armas inimigas<\/p>\n<p>N\u00e3o descora o tamoio. Assaz lhe pulsa<\/p>\n<p>Valor nativo e raro em peito livre.<\/p>\n<p>Armas, deu-lhas Tup\u00e3 novas e eternas<\/p>\n<p>Nestas matas vast\u00edssimas. De sangue<\/p>\n<p>Estranhos rios h\u00e3o de, ao mar correndo,<\/p>\n<p>Tristes novas levar \u00e0 p\u00e1tria deles,<\/p>\n<p>Primeiro que o tamoio a frente incline<\/p>\n<p>Aos inimigos peitos. Outra for\u00e7a,<\/p>\n<p>Outra e maior nos move a guerra crua;<\/p>\n<p>S\u00e3o eles, s\u00e3o os padres. Esses mostram<\/p>\n<p>Cheia de riso a boca e o mel nas vozes,<\/p>\n<p>Sereno o rosto e as brancas m\u00e3os inermes;<\/p>\n<p>Ordens n\u00e3o trazem de cacique estranho,<\/p>\n<p>Tudo nos levam, tudo. Uma por uma<\/p>\n<p>As filhas de Tup\u00e3 correm tr\u00e1s eles,<\/p>\n<p>Com elas os guerreiros, e com todos<\/p>\n<p>A nossa antiga f\u00e9. Vem perto o dia<\/p>\n<p>Em que, na imensid\u00e3o destes desertos,<\/p>\n<p>H\u00e1 de ao frio luar das longas noites<\/p>\n<p>O paj\u00e9 suspirar sozinho e triste<\/p>\n<p>Sem povo nem Tup\u00e3!\u201d<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Silenciosas<\/p>\n<p>L\u00e1grimas lhe espremeu dos olhos negros<\/p>\n<p>Esta lembran\u00e7a de futuros males.<\/p>\n<p>\u201c Escuta!\u201d diz Potira. O \u00edndio estende<\/p>\n<p>imperioso as m\u00e3os e assim prossegue:<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m com eles foste, e foi contigo<\/p>\n<p>Da minha vida a flor! Teu pai mandara,<\/p>\n<p>E com ele mandou Tup\u00e3 que eu fosse<\/p>\n<p>Teu esposo; vedou-mo a voz dos padres,<\/p>\n<p>Que me perdeu, levando-te consigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o morri; vivi s\u00f3 para esta afronta;<\/p>\n<p>Vivi para esta ins\u00f3lita tristeza<\/p>\n<p>De maldizer teu nome e as gra\u00e7as tuas,<\/p>\n<p>Chorar-te a vida e desejar-te a morte.<\/p>\n<p>Ai! nos rudes combates em que a tribo<\/p>\n<p>Rega de sangue o ch\u00e3o da virgem terra<\/p>\n<p>Ou tinge a flor do mar, nunca a meu lado<\/p>\n<p>Teu nobre vulto esteve. A aldeia toda,<\/p>\n<p>Mais que o teu cora\u00e7\u00e3o, ficou deserta.<\/p>\n<p>Duas vezes, mimosas rebentaram<\/p>\n<p>Do lacrimoso cajueiro as flores,<\/p>\n<p>Desde o dia funesto em que deixaste<\/p>\n<p>A cabana paterna. O extremo lume<\/p>\n<p>Expirou de teu pai nos olhos tristes;<\/p>\n<p>Piedosa chama consumiu seus restos<\/p>\n<p>E a aldeia toda o lastimou com prantos.<\/p>\n<p>N\u00e3o de todo se foi da nossa vida;<\/p>\n<p>Parte ficou para sentir teus males.<\/p>\n<p>Antes que o \u00faltimo sol \u00e0 melindrosa<\/p>\n<p>Flor do maracuj\u00e1 cerrasse as folhas<\/p>\n<p>Um sonho tive. Merenc\u00f3rio vulto,<\/p>\n<p>Triste como uma fronte de vencido,<\/p>\n<p>Cor da lua os cabelos venerandos,<\/p>\n<p>O vulto de teu pai : \u201cGuerreiro (disse),<\/p>\n<p>corre \u00e0 vizinha habita\u00e7\u00e3o dos brancos,<\/p>\n<p>Vai, arranca Potira \u00e0 lei funesta<\/p>\n<p>Dos p\u00e1lidos paj\u00e9s; Tup\u00e3 to ordena;<\/p>\n<p>Nos bra\u00e7os traze a fugitiva cor\u00e7a;<\/p>\n<p>Vincula o teu destino ao dela; \u00e9 tua\u201d.<\/p>\n<p>\u201c Imposs\u00edvel! Que vale um vago sonho?<\/p>\n<p>Sou esposa e crist\u00e3. \u00cdmpio, respeita<\/p>\n<p>O amor que Deus protege e santifica:<\/p>\n<p>Mata-me; a minha vida te pertence:<\/p>\n<p>Ou, se te pesa derramar o sangue<\/p>\n<p>Daquela a quem amaste, e por quem foste<\/p>\n<p>Lan\u00e7ar entre os crist\u00e3os a dor e o susto,<\/p>\n<p>Faze-me escrava; servirei contente<\/p>\n<p>Enquanto a vida alumiar meus olhos.<\/p>\n<p>Toma, entrego-te o sangue e a liberdade;<\/p>\n<p>Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!\u201d<\/p>\n<p>Calou-se, e reclinada sobre a rede,<\/p>\n<p>Potira murmurava ignota prece,<\/p>\n<p>Olhos fitos no pr\u00f3ximo arvoredo,<\/p>\n<p>Olhos n\u00e3o ermos de profunda m\u00e1goa.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>\u00d3 Cristo, em que alma penetrou teu nome<\/p>\n<p>Que lhe n\u00e3o desse o b\u00e1lsamo da vida?<\/p>\n<p>Pelo vento dos s\u00e9culos levado,<\/p>\n<p>Vidente e cego, o m\u00e1ximo dos seres,<\/p>\n<p>Que fora do homem nesta escassa terra,<\/p>\n<p>Se ao mist\u00e9rio da vida lhe n\u00e3o desses,<\/p>\n<p>\u00d3 Cristo, a eterna chave da esperan\u00e7a?<\/p>\n<p>Filosofia est\u00f3ica, \u00e1rdua virtude,<\/p>\n<p>Cria\u00e7\u00e3o de homem, tudo passa e expira.<\/p>\n<p>Tu s\u00f3, filha de Deus, palavra amiga,<\/p>\n<p>Tu, suav\u00edssima voz da eternidade,<\/p>\n<p>Tu perduras, tu vales, tu confortas.<\/p>\n<p>Neste sonho iriado de outros sonhos,<\/p>\n<p>V\u00e1rios como as fei\u00e7\u00f5es da natureza,<\/p>\n<p>Nesta confusa agita\u00e7\u00e3o da vida,<\/p>\n<p>Que alma transp\u00f5e a derradeira idade<\/p>\n<p>Farta de algumas passageiras gl\u00f3rias?<\/p>\n<p>Torvo \u00e9 o ar do sepulcro; ali n\u00e3o vi\u00e7am<\/p>\n<p>Essas cansadas rosas da exist\u00eancia<\/p>\n<p>Que \u00e0s vezes tantas l\u00e1grimas nos custam,<\/p>\n<p>E tantas mais antes do ocaso expiram.<\/p>\n<p>Flor do Evangelho, n\u00fancia de alvos dias,<\/p>\n<p>Esperan\u00e7a crist\u00e3, n\u00e3o te h\u00e1 murchado<\/p>\n<p>O vento \u00e1rido e seco; \u00e9s tu vi\u00e7osa<\/p>\n<p>Quando as da terra l\u00e2nguidas inclinam<\/p>\n<p>O seio, e a vida lentamente exalam.<\/p>\n<p>Esta a consola\u00e7\u00e3o \u00faltima e doce<\/p>\n<p>Da esposa indiana foi. Cativa ou morta,<\/p>\n<p>Antevia a celeste recompensa<\/p>\n<p>Que aos humildes reserva a m\u00e3o do Eterno.<\/p>\n<p>Naquele rude cora\u00e7\u00e3o das brenhas<\/p>\n<p>A semente evang\u00e9lica brotara.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>Das duas condi\u00e7\u00f5es deu-lhe o guerreiro<\/p>\n<p>A pior, \u2014 f\u00ea-la escrava; e ei-la aparece<\/p>\n<p>Da sua aldeia aos olhos espantados<\/p>\n<p>Qual fora em dias de melhor ventura.<\/p>\n<p>Despida vem das roupas que lhe h\u00e1 posto<\/p>\n<p>Sobre as polidas formas uso estranho,<\/p>\n<p>N\u00e3o sabido jamais daqueles povos<\/p>\n<p>Que a natureza ing\u00eanua doutrinara.<\/p>\n<p>Vence na gentileza \u00e0s mais da tribo,<\/p>\n<p>E tem de sobra um sentimento novo,<\/p>\n<p>Pudor de esposa e de crist\u00e3, \u2014 realce<\/p>\n<p>Que ao \u00edndio acende a natural vol\u00fapia.<\/p>\n<p>Simulada alegria lhe descerra<\/p>\n<p>Os l\u00e1bios; riso \u00e0 flor, escasso e d\u00fabio,<\/p>\n<p>Que mal lhe encobre as vergonhosas m\u00e1goas.<\/p>\n<p>\u00c0 voz de seu senhor acorre humilde;<\/p>\n<p>N\u00e3o a assusta o labor; nem dos perigos<\/p>\n<p>Conhece os medos. Nas ruidosas festas,<\/p>\n<p>Quando ferve o cauim,[iv] e o ar atroa<\/p>\n<p>Pocema de alegria ou de combate,<\/p>\n<p>Como que se lhe fecha a flor do rosto.<\/p>\n<p>J\u00e1 lhe descai ent\u00e3o no seio opresso<\/p>\n<p>A graciosa fronte; os olhos fecha,<\/p>\n<p>E ao c\u00e9u voltando o pensamento puro,<\/p>\n<p>Menos por si, que pelos outros, pede.<\/p>\n<p>Nem s\u00f3 o ardor da f\u00e9 lhe abrasa o peito;<\/p>\n<p>Lacera-lho tamb\u00e9m agra saudade;<\/p>\n<p>Chora a separa\u00e7\u00e3o do amado esposo,<\/p>\n<p>Que, ou cedo a esquece, ou solit\u00e1rio geme.<\/p>\n<p>Se, alguma vez, fugindo a estranhos olhos,<\/p>\n<p>N\u00e3o j\u00e1 cru\u00e9is, mas cobi\u00e7osos dela,<\/p>\n<p>Entra desatinada o bosque antigo,<\/p>\n<p>Co\u2019o doce nome acorda ao longe os ecos,<\/p>\n<p>E a dor expande em l\u00f4bregos solu\u00e7os,<\/p>\n<p>Farta de amor e pr\u00f3diga de vida,<\/p>\n<p>Ouve-as a selva, e n\u00e3o lhe entende as m\u00e1goas.<\/p>\n<p>Outras vezes pisando a ruiva areia<\/p>\n<p>Das praias, ou galgando a penedia<\/p>\n<p>Cujos p\u00e9s orla o mar de n\u00edvea espuma,<\/p>\n<p>As ondas murmurantes interroga:<\/p>\n<p>Conta ao vento da noite as dores suas;<\/p>\n<p>Mas&#8230; fi\u00e9is ao destino e \u00e0 lei que as rege,<\/p>\n<p>As pregui\u00e7osas ondas v\u00e3o caminho,<\/p>\n<p>Crespas do vento que sussurra e passa.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Quando, ao sol da manh\u00e3, partem \u00e0s vezes,<\/p>\n<p>Com seus arcos, os destros ca\u00e7adores,<\/p>\n<p>E alguns da rija estaca desatando<\/p>\n<p>Os n\u00f3s de embira \u00e0s r\u00e1pidas igaras,<\/p>\n<p>\u00c0 pesca v\u00e3o pelas ribeiras pr\u00f3ximas,<\/p>\n<p>Das esposas, das m\u00e3es que os lares velam,<\/p>\n<p>Grata alegria os cora\u00e7\u00f5es inunda,<\/p>\n<p>Menos o dela, que suspira e geme,<\/p>\n<p>E n\u00e3o aguarda doce esposo ou filho.<\/p>\n<p>Triste os v\u00ea na partida e no regresso,<\/p>\n<p>E nessa melanc\u00f3lica postura,<\/p>\n<p>Semelha a ac\u00e1cia langue e esmorecida,<\/p>\n<p>Que j\u00e1 de orvalho ou sol n\u00e3o pede os beijos.<\/p>\n<p>As outras&#8230; \u2014 Raro em l\u00e1bios de felizes<\/p>\n<p>Alheias m\u00e1goas travam. N\u00e3o se pejam<\/p>\n<p>De seus olhos azuis e alegres penas<\/p>\n<p>Os sa\u00eds sobre as \u00e1rvores pousados,<\/p>\n<p>Se ao perto voa na campina verde<\/p>\n<p>De anuns lutuoso bando; nem os trilos<\/p>\n<p>Das andorinhas interrompe a nota<\/p>\n<p>Que a juriti suspira. \u2014 As outras folgam<\/p>\n<p>Pelo arraial dispersas; v\u00e3o-se \u00e0 terra<\/p>\n<p>Arrancar as ra\u00edzes nutritivas,<\/p>\n<p>E fazem os preparos do banquete<\/p>\n<p>A que h\u00e3o de vir mais tarde os destemidos<\/p>\n<p>Senhores do arco, alegres vencedores<\/p>\n<p>De quanto vive na \u00e1gua e na floresta.<\/p>\n<p>Da cativa nenhuma inquire as m\u00e1goas.<\/p>\n<p>Contudo, algumas vezes, curiosas<\/p>\n<p>Virgens lhe dizem, apiedando o gesto:<\/p>\n<p>\u201cPois que \u00e0 taba voltaste, em que teus olhos<\/p>\n<p>Primeiro viram luz, que m\u00e1goa funda<\/p>\n<p>Lhes destila t\u00e3o longo e amargo pranto,<\/p>\n<p>Amargo mais do que esse que n\u00e3o busca<\/p>\n<p>Recatado sil\u00eancio?\u201d E \u00e0s doces vozes<\/p>\n<p>A crist\u00e3 desterrada assim responde:<\/p>\n<p>\u201cPotira \u00e9 como aquela flor que chora<\/p>\n<p>L\u00e1grimas de alvo leite, se do galho<\/p>\n<p>M\u00e3o cruel a cortou. Oh! n\u00e3o permita<\/p>\n<p>O c\u00e9u que \u00edmpia fortuna vos separe<\/p>\n<p>Daquele que escolherdes. Dor \u00e9 essa<\/p>\n<p>Maior que um pobre cora\u00e7\u00e3o de esposa.<\/p>\n<p>Esperan\u00e7as&#8230; Deixei-as nessas \u00e1guas<\/p>\n<p>Que me trouxeram, c\u00famplices do crime,<\/p>\n<p>\u00c0 taba de Tup\u00e3, n\u00e3o alumiada<\/p>\n<p>Da palavra celeste. Algumas vezes,<\/p>\n<p>Raras, alveja em minha noite escura<\/p>\n<p>N\u00e3o sei que t\u00edbia aurora, e penso: Acaso<\/p>\n<p>O sol que vem me guarda um raio amigo,<\/p>\n<p>Que h\u00e1 de acender nestes cansados olhos<\/p>\n<p>Ventura que j\u00e1 foi. As asas colhe<\/p>\n<p>Guanumbi, e o agu\u00e7ado bico embebe<\/p>\n<p>No tronco, onde repousa adormecido<\/p>\n<p>At\u00e9 que volte uma esta\u00e7\u00e3o de flores..[v]<\/p>\n<p>Ventura imita o guanumbi dos campos:<\/p>\n<p>Acordar\u00e1 co\u2019as flores de outros dias.<\/p>\n<p>Doce ilus\u00e3o que r\u00e1pido se escoa,<\/p>\n<p>Como o pingo de orvalho mal fechado<\/p>\n<p>Numa folha que o vento agita e entorna\u201d.<\/p>\n<p>E as virgens dizem, apiedando o gesto:<\/p>\n<p>\u201cPotira \u00e9 como aquela flor que chora<\/p>\n<p>L\u00e1grimas de alvo leite, se do galho<\/p>\n<p>M\u00e3o cruel a cortou!\u201d.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>Era chegado<\/p>\n<p>O fatal prazo, o desenlace triste.<\/p>\n<p>Tudo morre, \u2014 a tristeza como o gozo;<\/p>\n<p>Rosas de amor ou l\u00edrios de saudade,<\/p>\n<p>Tarde ou cedo os esfolha a m\u00e3o do tempo.<\/p>\n<p>Costeando as longas praias, ou transpondo<\/p>\n<p>Extensos vales e montanhas, correm<\/p>\n<p>Mensageiros que \u00e0s tabas mais vizinhas<\/p>\n<p>V\u00e3o convidar \u00e0 festa as gentes todas.<\/p>\n<p>Era a festa da morte. \u00cdndio guerreiro,<\/p>\n<p>Tr\u00eas luas h\u00e1 cativo, o instante aguarda<\/p>\n<p>Em que \u00e0s m\u00e3os de inimigos vencedores,<\/p>\n<p>Caia expirante, e os v\u00ednculos rompendo<\/p>\n<p>Da vida, a alma remonte al\u00e9m dos Andes.<\/p>\n<p>Corre de boca em boca e de eco em eco<\/p>\n<p>A alegre nova. Vem descendo os montes,<\/p>\n<p>Ou abicando \u00e0s povoadas praias<\/p>\n<p>Gente da ra\u00e7a ilustre. A onda imensa<\/p>\n<p>Pelo arraial se estende pressurosa.<\/p>\n<p>De quantas cores natureza f\u00e9rtil<\/p>\n<p>Tinge as pr\u00f3prias fei\u00e7\u00f5es, copiam eles<\/p>\n<p>Engra\u00e7adas, vistosas lou\u00e7anias.<\/p>\n<p>V\u00e1rios na idade s\u00e3o, v\u00e1rios no aspecto,<\/p>\n<p>Todos iguais e irm\u00e3os no herdado brio.<\/p>\n<p>Dado o amplexo de amigo, acompanhado<\/p>\n<p>De suspiros e p\u00easames sinceros<\/p>\n<p>Pelas fadigas da viagem longa,<\/p>\n<p>Rompem ruidosas dan\u00e7as. Ao tamoio<\/p>\n<p>Deu o Ibaque os segredos da poesia;<\/p>\n<p>Cantos festivos, moduladas vozes,<\/p>\n<p>Enchem os ares, celebrando a festa<\/p>\n<p>Do sacrif\u00edcio pr\u00f3ximo. Ah! n\u00e3o cubra<\/p>\n<p>V\u00e9u de nojo ou tristeza o rosto aos filhos<\/p>\n<p>Destes polidos tempos! Rudes eram<\/p>\n<p>Aqueles homens de \u00e1speros costumes,<\/p>\n<p>Que ante o sangue de irm\u00e3os folgavam livres,<\/p>\n<p>E n\u00f3s, soberbos filhos de outra idade,<\/p>\n<p>Que a voz falamos da raz\u00e3o severa<\/p>\n<p>E na luz nos banhamos do Calv\u00e1rio,<\/p>\n<p>Que somos n\u00f3s mais que eles? Ra\u00e7a triste<\/p>\n<p>De Cains, ra\u00e7a eterna&#8230;<\/p>\n<p>XI<\/p>\n<p>Os cantos cessam.<\/p>\n<p>Calou-se o marac\u00e1. As roucas vozes<\/p>\n<p>Dos f\u00e9rvidos guerreiros j\u00e1 reclamam<\/p>\n<p>O brutal sacrif\u00edcio. \u00c0s m\u00e3os das servas<\/p>\n<p>A ta\u00e7a do cauim passara exausta.<\/p>\n<p>Inquieto aguarda o prisioneiro a morte.<\/p>\n<p>Da na\u00e7\u00e3o guaian\u00e1s nos rudes campos<\/p>\n<p>Nasceu. Nos campos da saudosa p\u00e1tria<\/p>\n<p>Industriosa m\u00e3o n\u00e3o sabe ainda<\/p>\n<p>Alevantar as tabas. Cova funda<\/p>\n<p>Da terra, m\u00e3e comum[vi], no seio aberta,<\/p>\n<p>Os acolhe e protege. O ch\u00e3o lhes forra<\/p>\n<p>A pele do tapir; cont\u00ednua chama<\/p>\n<p>Lhes supre a luz do sol. \u00c9 uso antigo<\/p>\n<p>Do guaian\u00e1s que chega a extrema idade,<\/p>\n<p>Ou de mortal doen\u00e7a acometido,<\/p>\n<p>N\u00e3o expirar aos olhos de outros homens;<\/p>\n<p>Vivo o guardam no bojo da iga\u00e7aba,<\/p>\n<p>E \u00e0 fria terra o d\u00e3o, como se fora<\/p>\n<p>Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes.<\/p>\n<p>Do almo, doce licor que extrai das flores<\/p>\n<p>M\u00e3e do mel, iramaia, larga c\u00f3pia<\/p>\n<p>Pelos robustos membros lhe coaram<\/p>\n<p>Seis anci\u00e3s da tribo. Rubras penas<\/p>\n<p>Na vasta fronte e nos nervosos bra\u00e7os<\/p>\n<p>Garridamente o enfeitam. Longa e forte<\/p>\n<p>A mu\u00e7urana os rins lhe cinge e aperta.<\/p>\n<p>Entra na pra\u00e7a o f\u00fanebre cortejo.<\/p>\n<p>Olhar tranq\u00fcilo, inda que fero, espalha<\/p>\n<p>O indomado cativo. Em p\u00e9, defronte,<\/p>\n<p>Grave, silencioso, ao sol mostrando<\/p>\n<p>De feias cores e vistosas plumas<\/p>\n<p>Singular harmonia, aguarda a v\u00edtima<\/p>\n<p>O executor. Nas m\u00e3os lhe pende a enorme<\/p>\n<p>Tagapema enfeitada, arma certeira,<\/p>\n<p>Arma triunfal de morte e de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Medem-se rosto a rosto os dois contr\u00e1rios<\/p>\n<p>C\u2019um sorriso feroz. Confusas vozes<\/p>\n<p>Enchem s\u00fabito o espa\u00e7o. N\u00e3o lhe \u00e9 dado<\/p>\n<p>Ao vencido guerreiro haver a morte<\/p>\n<p>Silenciosa e triste em que se passa<\/p>\n<p>Da curva rede \u00e0 fria sepultura.<\/p>\n<p>Meigas aves que v\u00e3o de um clima a outro<\/p>\n<p>Abrem placidamente as asas leves,<\/p>\n<p>N\u00e3o tu, guerreiro, que encaraste a morte,<\/p>\n<p>Tu combate! Vencido e vencedores<\/p>\n<p>Derradeiros esc\u00e1rnios se arremessam;<\/p>\n<p>Gritos, inj\u00farias, convuls\u00f5es de raiva,<\/p>\n<p>Vivo clamor acorda os longos ecos<\/p>\n<p>Das penedias pr\u00f3ximas. A clava<\/p>\n<p>Do executor girou no ar tr\u00eas vezes<\/p>\n<p>E de leve caiu na grossa esp\u00e1dua<\/p>\n<p>Do arquejante cativo. J\u00e1 na boca,<\/p>\n<p>Que o desprezo e o furor num riso entreabrem,<\/p>\n<p>Orla de espuma alveja. Avan\u00e7a, corre,<\/p>\n<p>Estaca&#8230; N\u00e3o lhe d\u00e1 mais amplo espa\u00e7o<\/p>\n<p>A mu\u00e7urana, cujas pontas tiram<\/p>\n<p>Dous mancebos robustos. Nas cavernas<\/p>\n<p>Do longo peito lhe murmura o \u00f3dio,<\/p>\n<p>Surdo, como o rumor da terra inquieta,<\/p>\n<p>Pejada de vulc\u00f5es. Os l\u00e1bios morde,<\/p>\n<p>E, como derradeira inj\u00faria, \u00e0 face<\/p>\n<p>Do executor lhe cospe espuma e sangue.<\/p>\n<p>N\u00e3o vibra o arco mais veloz o tiro,<\/p>\n<p>Nem mais segura no aterrado cervo<\/p>\n<p>Feroz sucuri\u00faba os n\u00f3s enrosca,<\/p>\n<p>Do que a pesada, enorme tagapema<\/p>\n<p>A cabe\u00e7a de um golpe lhe esmigalha.<\/p>\n<p>Cai fulminada a v\u00edtima na terra,<\/p>\n<p>E alegre o povo longamente aplaude.<\/p>\n<p>XII<\/p>\n<p>Na voz universal perdeu-se um grito<\/p>\n<p>De piedade e terror: t\u00e3o fundo entrara<\/p>\n<p>Naquela alma roubada \u00e0 noite escura<\/p>\n<p>Raio de sol crist\u00e3o! Potira foge,<\/p>\n<p>Pelos bosques at\u00f4nita se entranha<\/p>\n<p>E p\u00e1ra \u00e0 margem de um pequeno rio;<\/p>\n<p>Pousa na relva os tr\u00eamulos joelhos<\/p>\n<p>E nas mimosas m\u00e3os esconde o rosto.<\/p>\n<p>N\u00e3o de l\u00e1grimas era aquele s\u00edtio<\/p>\n<p>Ou s\u00f3 de doces l\u00e1grimas choradas<\/p>\n<p>De olhos que amor venceu: \u2014 macia relva,<\/p>\n<p>Leito de sesta a amores fugitivos.<\/p>\n<p>Da verde, rara ab\u00f3bada de folhas<\/p>\n<p>T\u00e9pida e doce a luz coava a frouxo<\/p>\n<p>Do sol, que al\u00e9m das \u00e1rvores tranq\u00fcilo,<\/p>\n<p>Metade da jornada ia transpondo.<\/p>\n<p>Longe era ainda a hora melanc\u00f3lica<\/p>\n<p>Em que a jurema cerra a mi\u00fada folha,<\/p>\n<p>E o lume azul o pirilampo acende.<\/p>\n<p>De p\u00e9, a um velho tronco descoroado<\/p>\n<p>Da copada ramagem, resto apenas,<\/p>\n<p>Vest\u00edgio do tuf\u00e3o, a indiana mo\u00e7a<\/p>\n<p>Languidamente encosta o esbelto corpo.<\/p>\n<p>Neste ameno recesso tudo \u00e9 triste,<\/p>\n<p>Porque \u00e9 alegre tudo. N\u00e3o mui longe<\/p>\n<p>Um desfolhado ip\u00ea conserva e guarda<\/p>\n<p>Flores que lhe ficaram de outro estio,<\/p>\n<p>Como esperan\u00e7a de folhagem nova,<\/p>\n<p>Flores que a desventura lhe h\u00e1 negado,<\/p>\n<p>A ela, alma esquecida nesta terra,<\/p>\n<p>Que nada espera da esta\u00e7\u00e3o vindoura.<\/p>\n<p>Olha, e de inveja o cora\u00e7\u00e3o lhe estala;<\/p>\n<p>Pelo tronco das \u00e1rvores se enroscam<\/p>\n<p>Parasitas, esposas do arvoredo,<\/p>\n<p>Mais fi\u00e9is n\u00e3o, mais venturosas que ela.<\/p>\n<p>Morrer? Descanso fora as m\u00e1goas suas,<\/p>\n<p>Mais que descanso, perdur\u00e1vel gozo,<\/p>\n<p>Que a nossa eterna p\u00e1tria aos infelizes<\/p>\n<p>Deste desterro, guarda alvas capelas<\/p>\n<p>De n\u00e3o murchandas e cheirosas flores.<\/p>\n<p>Tal lhe falava no \u00edntimo do peito<\/p>\n<p>Desespero cruel. Alguns instantes<\/p>\n<p>Pela cansada mente lhe vagaram<\/p>\n<p>De volunt\u00e1ria, abreviada morte<\/p>\n<p>Lutuosas id\u00e9ias. Mal compreende<\/p>\n<p>Esses desmaios da criatura humana<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o sentiu no cora\u00e7\u00e3o rasgado<\/p>\n<p>Abatimento e enojo; ou, do mais que isto,<\/p>\n<p>Esse contraste imenso e irrepar\u00e1vel<\/p>\n<p>Do amor interno e a solid\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>R\u00e1pido espa\u00e7o foi. Pronto lhe volve<\/p>\n<p>Doce resigna\u00e7\u00e3o, crist\u00e3 virtude,<\/p>\n<p>Que desafia e que assoberba os males.<\/p>\n<p>As d\u00e9beis m\u00e3os levanta. J\u00e1 dos l\u00e1bios<\/p>\n<p>Solta nas asas de ora\u00e7\u00e3o singela<\/p>\n<p>L\u00e1stimas suas&#8230; Na folhagem seca<\/p>\n<p>Ouve de cautos p\u00e9s rumor sumido<\/p>\n<p>Volve a cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>Tr\u00eamulo, calado,<\/p>\n<p>Anaj\u00ea crava nela os olhos turvos<\/p>\n<p>Dos vapores da festa. As m\u00e3os inermes<\/p>\n<p>Lhe pendem; mas o peito \u2014 \u00f3 m\u00edsera! \u2014 esse,<\/p>\n<p>Esse de mal contido amor transborda.<\/p>\n<p>Longo instante passou. Ao fim: \u201cDeixaste<\/p>\n<p>A festa nossa (o b\u00e1rbaro murmura);<\/p>\n<p>Misteriosa vieste. Dos guerreiros<\/p>\n<p>Nenhum te viu; mas eu senti teus passos,<\/p>\n<p>E vim contigo ao ermo. Ave mesquinha,<\/p>\n<p>In\u00fatil foges; gavi\u00e3o te espreita[vii],<\/p>\n<p>Minha te fez Tup\u00e3.\u201d. Em p\u00e9, sorrindo<\/p>\n<p>Escutava Potira a voz severa<\/p>\n<p>De Anaj\u00ea. Breve espa\u00e7o abria entre ambos<\/p>\n<p>Alcatifado ch\u00e3o. A fatal hora<\/p>\n<p>Chegara ao fim? N\u00e3o o prescruta a mo\u00e7a;<\/p>\n<p>Tudo aceita das m\u00e3os do seu destino,<\/p>\n<p>Tudo, exceto&#8230; No pr\u00f3ximo arvoredo<\/p>\n<p>Ouve de uma ave o pio melanc\u00f3lico;<\/p>\n<p>Era a voz de seu pai? a voz do esposo?<\/p>\n<p>De ambos talvez. No \u00e2nimo da escrava<\/p>\n<p>Restos havia dessa cren\u00e7a antiga<\/p>\n<p>Antiga e sempre nova: o peito humano<\/p>\n<p>Raro de obscuros elos se liberta.<\/p>\n<p>XIV<\/p>\n<p>\u201c Nasceste para ser senhora e dona:<\/p>\n<p>Anaj\u00ea n\u00e3o te veda a liberdade;<\/p>\n<p>Quebra tu mesma os n\u00f3s do cativeiro.<\/p>\n<p>Faze-te esposa. Vem coroar meus dias;<\/p>\n<p>Vem, tudo esque\u00e7o. A fronte do guerreiro,<\/p>\n<p>Adornada por ti, ser\u00e1 mais nobre;<\/p>\n<p>Mais forte o bra\u00e7o em que pousar teu rosto.<\/p>\n<p>Sou menos belo que esse esposo ausente?<\/p>\n<p>Rudes fei\u00e7\u00f5es compensa amor sobejo.<\/p>\n<p>Vem, ser-me-\u00e1s companheira nos combates,<\/p>\n<p>E, se inimiga frecha entrar meu seio,<\/p>\n<p>Morrerei a teus p\u00e9s. Tens medo aos padres?<\/p>\n<p>Outro destino escolhe. Cauteloso,<\/p>\n<p>Tece o japu nos elevados ramos<\/p>\n<p>Das elevadas \u00e1rvores o ninho,<\/p>\n<p>Onde o inimigo lhe n\u00e3o roube a prole.<\/p>\n<p>Ninho h\u00e1 na serra ao nosso amor prop\u00edcio;<\/p>\n<p>Viveremos ali. Troveje em baixo<\/p>\n<p>A in\u00fabia convidando \u00e0 guerra os povos;<\/p>\n<p>Leva de arcos transforme estas aldeias<\/p>\n<p>Em campos de combate, \u2014 ou j\u00e1 dispersas<\/p>\n<p>As fugitivas tribos v\u00e3o buscando<\/p>\n<p>Longes sert\u00f5es para chorar seus males,<\/p>\n<p>Viveremos ali. Talvez um dia<\/p>\n<p>Quando eu passar \u00e0 misteriosa est\u00e2ncia<\/p>\n<p>Das del\u00edcias eternas, me pergunte<\/p>\n<p>Meu velho pai: \u2014 \u201cTeu arco de guerreiro<\/p>\n<p>Em que deserta praia o abandonaste?\u201d<\/p>\n<p>Salvar-me-\u00e1 teu amor do eterno pejo.\u201d<\/p>\n<p>XV<\/p>\n<p>Doce era a voz e triste. Rasos d\u2019\u00e1gua<\/p>\n<p>Os olhos. Foi desmaio de tristeza<\/p>\n<p>Que o gesto dissipou da esquiva mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Volve ao Tamoio vingativa id\u00e9ia.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMinha\u201d (diz ele) \u201cou morres!\u201d Estremece<\/p>\n<p>Potira, como quando a brisa passa<\/p>\n<p>Ao de leve na folha da palmeira,<\/p>\n<p>E logo fria ao b\u00e1rbaro responde:<\/p>\n<p>\u201cJaz esquecida em nossas velhas tabas<\/p>\n<p>O respeito da esposa? Acaso \u00e9 digna<\/p>\n<p>Do sangue do Tamoio esta amea\u00e7a?<\/p>\n<p>Que desvalia aos olhos teus me coube,<\/p>\n<p>Se a outro me ligaram natureza,<\/p>\n<p>Religi\u00e3o, destino? A liberdade<\/p>\n<p>Nas tuas m\u00e3os depus; com ela a vida.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo, quase tudo. Honra de esposa,<\/p>\n<p>Oh! essa deves respeit\u00e1-la! Vai-te!<\/p>\n<p>Ceva teu \u00f3dio nas sangrentas carnes<\/p>\n<p>Do prostrado cativo. Aqui chorando,<\/p>\n<p>Na soid\u00e3o destes bosques mal fechados,<\/p>\n<p>\u00c0s maviosas brisas meus suspiros<\/p>\n<p>Entregarei; lev\u00e1-los-\u00e3o nas asas<\/p>\n<p>L\u00e1 onde geme solit\u00e1rio o esposo.<\/p>\n<p>Vai-te!\u201d<\/p>\n<p>E as mimosas m\u00e3os colhendo ao rosto,<\/p>\n<p>Al\u00e7ou a Deus o pensamento amante,<\/p>\n<p>Como a centelha viva que a fogueira<\/p>\n<p>Extinta aos ares sobe. Im\u00f3vel, muda,<\/p>\n<p>Longo tempo ficou. Diante dela,<\/p>\n<p>Como ela im\u00f3vel, o tamoio estava.<\/p>\n<p>Amor, \u00f3dio, ci\u00fame, orgulho, pena,<\/p>\n<p>Opostos sentimentos se combatem<\/p>\n<p>No atribulado peito. Generoso<\/p>\n<p>Era, mas n\u00e3o domado amor lhe dava<\/p>\n<p>Inspira\u00e7\u00e3o de crimes. N\u00e3o mais pronto<\/p>\n<p>Cai sobre a triste cor\u00e7a fugitiva<\/p>\n<p>Jaguar de longa fome esporeado,<\/p>\n<p>Do que ele as m\u00e3os lan\u00e7ou ao colo e \u00e0 fronte<\/p>\n<p>Da m\u00edsera Potira. Ai! n\u00e3o, n\u00e3o diga<\/p>\n<p>A minha voz o lamentoso instante<\/p>\n<p>Em que ela, ao seu algoz volvendo ansiosa<\/p>\n<p>Turvos olhos: \u201cPerd\u00f4o-te!\u201d murmura,<\/p>\n<p>Os l\u00e1bios cerra e imaculada expira!<\/p>\n<p>XVI<\/p>\n<p>Estro maior teu nome obscuro cante,<\/p>\n<p>Mo\u00e7a crist\u00e3 das solid\u00f5es antigas,<\/p>\n<p>E eterno o cinja de virentes flores,<\/p>\n<p>Que as mereces. De n\u00e3o sabido bardo<\/p>\n<p>Estes gemidos s\u00e3o[viii]. L\u00e2nguidas brisas<\/p>\n<p>No taquaral \u00e0 noite sussurrando,<\/p>\n<p>Ou enrugando o mole dorso \u00e0s vagas,<\/p>\n<p>N\u00e3o tem a voz com que domina os ecos<\/p>\n<p>Despenhada cachoeira. S\u00e3o, contudo,<\/p>\n<p>Mas que d\u00e9beis e tristes, no concerto<\/p>\n<p>Da orquestra universal cabidas notas.<\/p>\n<p>Alveja a nebulosa entre as estrelas,<\/p>\n<p>E abre ao p\u00e9 do rosal a flor da murta.<\/p>\n<p>NI\u00c2NI<\/p>\n<p>(HIST\u00d3RIA GUAICURU)<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia,<\/p>\n<p>sendo seus olhos sempre chorosos. Assim<\/p>\n<p>se passaram tr\u00eas meses, quando um dia,<\/p>\n<p>estando deitada na sua r\u00fastica cama, lhe deram a not\u00edcia<\/p>\n<p>que seu desleal marido se tinha casado com uma<\/p>\n<p>rapariga de menor esfera. Senta-se ent\u00e3o Nanine<\/p>\n<p>na cama, como arrebatada, chama para junto de<\/p>\n<p>si um pequeno \u00edndio que era seu cativo, e diz-lhe<\/p>\n<p>na presen\u00e7a de v\u00e1rios antecris: \u201c\u00c9s meu cativo;<\/p>\n<p>dou-te a liberdade, com a condi\u00e7\u00e3o de que te<\/p>\n<p>chamar\u00e1s toda a vida Panenioxe\u201d.<\/p>\n<p>F. RODRIGUES PRADO, Hist. dos \u00cdndios Cavaleiros..<\/p>\n<p>che piagne<\/p>\n<p>Vedova, sola.<\/p>\n<p>DANTE, Purgat. VI.<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Contam-se hist\u00f3rias antigas<\/p>\n<p>Pelas terras de al\u00e9m-mar,<\/p>\n<p>De mo\u00e7as e de princesas,<\/p>\n<p>Que amor fazia matar.<\/p>\n<p>Mas amor que entranha n\u2019alma<\/p>\n<p>E a vida soe acabar,<\/p>\n<p>Amor \u00e9 de todo o clima,<\/p>\n<p>Bem como a luz, como o ar.<\/p>\n<p>Morrem dele nas florestas<\/p>\n<p>Aonde habita o jaguar,<\/p>\n<p>Nas margens dos grandes rios<\/p>\n<p>Que levam troncos ao mar.<\/p>\n<p>Agora direi um caso<\/p>\n<p>De muito penalizar,<\/p>\n<p>T\u00e3o triste como os que contam<\/p>\n<p>Pelas terras de al\u00e9m-mar.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Cabana que esteira cobre<\/p>\n<p>De junco tran\u00e7ado a m\u00e3o,<\/p>\n<p>Que agita\u00e7\u00e3o vai por ela!<\/p>\n<p>Que ledas horas lhe v\u00e3o!<\/p>\n<p>Panenioxe \u00e9 guerreiro<\/p>\n<p>Da velha, dura na\u00e7\u00e3o,[ix],<\/p>\n<p>Caiavaba h\u00e1 j\u00e1 sentido<\/p>\n<p>A sua lan\u00e7a e fac\u00e3o[x].<\/p>\n<p>Vem de longe, chega \u00e0 porta<\/p>\n<p>Do afamado capit\u00e3o;<\/p>\n<p>Deixa a lan\u00e7a e o cavalo,<\/p>\n<p>Entra com seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A noiva que ele lhe guarda<\/p>\n<p>Mo\u00e7a \u00e9 de nobre fei\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>Airosa como \u00e1gil cor\u00e7a<\/p>\n<p>Que corre pelo sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Amores eram nascidos<\/p>\n<p>Naquela tenra esta\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>Em que a flor que h\u00e1 de ser flor<\/p>\n<p>Inda se fecha em bot\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos agora lhe querem,<\/p>\n<p>E muitos que fortes s\u00e3o;<\/p>\n<p>Ni\u00e2ni ao melhor deles<\/p>\n<p>N\u00e3o dera o seu cora\u00e7\u00e3o.[xi]<\/p>\n<p>Cas\u00e1-los agora, \u00e9 tempo;<\/p>\n<p>Cas\u00e1-los, nobre anci\u00e3o!<\/p>\n<p>Limpo sangue tem o noivo,<\/p>\n<p>Que \u00e9 filho de capit\u00e3o.[xii]<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>\u201cTraze a minha lan\u00e7a, escravo,<\/p>\n<p>Que tanto peito abateu;<\/p>\n<p>Traze aqui o meu cavalo<\/p>\n<p>Que largos campos correu\u201d.<\/p>\n<p>\u201cLan\u00e7a tens e tens cavalo<\/p>\n<p>Que meu velho pai te deu;<\/p>\n<p>Mas aonde te vais agora<\/p>\n<p>Onde vais, esposo meu?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVou-me \u00e0 ca\u00e7a, junto \u00e0 cova<\/p>\n<p>Onde a on\u00e7a se meteu&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cMontada no meu cavalo<\/p>\n<p>Vou contigo, esposo meu\u201d.<\/p>\n<p>\u201cVou-me \u00e0s ribas do Escopil,<\/p>\n<p>Que a minha lan\u00e7a varreu&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cIrei pelejar na guerra,<\/p>\n<p>A teu lado, esposo meu\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFica-te a\u00ed na cabana<\/p>\n<p>Onde o meu amor nasceu\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMelhor n\u00e3o haver nascido<\/p>\n<p>Se j\u00e1 de todo morreu\u201d.<\/p>\n<p>E uma l\u00e1grima \u2014 a primeira<\/p>\n<p>De muitas que ela verteu, \u2014<\/p>\n<p>Pela face cobreada<\/p>\n<p>Lenta, lenta lhe correu.<\/p>\n<p>Enxug\u00e1-la, n\u00e3o a enxuga<\/p>\n<p>O esposo que j\u00e1 perdeu,<\/p>\n<p>Que ele no ch\u00e3o fita os olhos,<\/p>\n<p>Como que a voz lhe morreu.<\/p>\n<p>Traz o escravo o seu cavalo<\/p>\n<p>Que o velho sogro lhe deu;<\/p>\n<p>Traz-lhe mais a sua lan\u00e7a<\/p>\n<p>Que tanto peito abateu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, recobrando a alma,<\/p>\n<p>Que o remorso esmoreceu,<\/p>\n<p>Com esta dura palavra<\/p>\n<p>\u00c0 esposa lhe respondeu:<\/p>\n<p>\u201cA bocai\u00fava tr\u00eas vezes<\/p>\n<p>No tronco amadureceu,[xiii]<\/p>\n<p>Desde o dia em que o guerreiro<\/p>\n<p>Sua esposa recebeu.<\/p>\n<p>Tr\u00eas vezes! Amor sobejo<\/p>\n<p>Nossa vida toda encheu.<\/p>\n<p>Fastio me entrou no seio,<\/p>\n<p>Fastio que me perdeu\u201d.<\/p>\n<p>E pulando no cavalo,<\/p>\n<p>Sumiu-se&#8230; despareceu&#8230;<\/p>\n<p>Pobre mo\u00e7a sem marido,<\/p>\n<p>Chora o amor que lhe morreu!<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Leva o Paraguai as \u00e1guas,<\/p>\n<p>Leva-as no mesmo correr,<\/p>\n<p>E as aves descem ao campo<\/p>\n<p>Como usavam de descer.<\/p>\n<p>Tenras flores, que outro tempo<\/p>\n<p>Costumavam de nascer,<\/p>\n<p>Nascem; vivem de igual vida;<\/p>\n<p>Morrem do mesmo morrer.<\/p>\n<p>Ni\u00e2ni, pobre vi\u00fava,<\/p>\n<p>Vi\u00fava sem bem o ser,<\/p>\n<p>Tanta l\u00e1grima chorada<\/p>\n<p>J\u00e1 te n\u00e3o pode valer.<\/p>\n<p>Olhos que amor desmaiara<\/p>\n<p>De um desmaiar que \u00e9 viver,<\/p>\n<p>O choro empana-os agora,<\/p>\n<p>Como que v\u00e3o fenecer.<\/p>\n<p>Corpo que fora robusto<\/p>\n<p>No seu cavalo a correr,<\/p>\n<p>De cont\u00ednua dor quebrado<\/p>\n<p>Mal se pode j\u00e1 suster.<\/p>\n<p>Colar de prata n\u00e3o usa,<\/p>\n<p>Como usava de trazer;<\/p>\n<p>Pulseiras de finas contas<\/p>\n<p>Todas as veio a romper.[xiv]<\/p>\n<p>Que ela, se nada h\u00e1 mudado<\/p>\n<p>Daquele eterno viver,<\/p>\n<p>Com que a natureza sabe<\/p>\n<p>Renascer, permanecer.<\/p>\n<p>Toda \u00e9 outra; a alma lhe morre,<\/p>\n<p>Mas de um cont\u00ednuo morrer,<\/p>\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1goa mais triste<\/p>\n<p>De quantas podem doer.<\/p>\n<p>Os que outrora a desejavam,<\/p>\n<p>Antes dela mal haver,<\/p>\n<p>Vendo que chora e padece,<\/p>\n<p>Rindo, se p\u00f5em a dizer:<\/p>\n<p>\u201cRemador vai na canoa,<\/p>\n<p>Canoa vai a descer&#8230;<\/p>\n<p>Piranha espiou do fundo<\/p>\n<p>Piranha, que o vai comer.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se fie da brasa<\/p>\n<p>Que os olhos v\u00eaem arder,<\/p>\n<p>Sereno que cai de noite<\/p>\n<p>H\u00e1 de faz\u00ea-la morrer.<\/p>\n<p>Panenioxe, Panenioxe,<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe sabias querer.<\/p>\n<p>Quem te pagara esse golpe<\/p>\n<p>Que lhe vieste fazer!\u201d<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Um dia, \u2014 era sobre tarde,<\/p>\n<p>Ia-se o sol a afundar;<\/p>\n<p>Calumbi cerrava as folhas<\/p>\n<p>Para melhor as guardar.<\/p>\n<p>Vem cavaleiro de longe<\/p>\n<p>E \u00e0 porta vai apear.<\/p>\n<p>Traz o rosto carregado,<\/p>\n<p>Como a noite sem luar.<\/p>\n<p>Chega-se \u00e0 pobre da mo\u00e7a<\/p>\n<p>E assim come\u00e7a a falar:<\/p>\n<p>\u201cGuaicuru doe-lhe no peito<\/p>\n<p>Tristeza de envergonhar.<\/p>\n<p>Esposo que te h\u00e1 fugido<\/p>\n<p>Hoje se vai a casar;<\/p>\n<p>Noiva n\u00e3o \u00e9 de alto sangue,<\/p>\n<p>Por\u00e9m de sangue vulgar\u201d.<\/p>\n<p>Ergue-se a mo\u00e7a de um pulo,<\/p>\n<p>Arrebatada, e no olhar<\/p>\n<p>Rebenta-lhe uma fa\u00edsca<\/p>\n<p>Como de luz a expirar.<\/p>\n<p>Menino escravo que tinha<\/p>\n<p>Acerta de ali passar;<\/p>\n<p>Ni\u00e2ni atentando nele<\/p>\n<p>Chama-o para o seu lugar.<\/p>\n<p>\u201cCativo \u00e9s tu; ser\u00e1s livre,<\/p>\n<p>Mas vais o nome trocar;<\/p>\n<p>Nome avesso te puseram&#8230;<\/p>\n<p>Panenioxe h\u00e1s de ficar\u201d.<\/p>\n<p>Pela face cobreada<\/p>\n<p>Desce, desce com vagar<\/p>\n<p>Uma l\u00e1grima: era a \u00faltima<\/p>\n<p>Que lhe restava chorar.<\/p>\n<p>Longo tempo ali ficara,<\/p>\n<p>Sem se mover nem falar;<\/p>\n<p>Os que a v\u00eaem naquela m\u00e1goa<\/p>\n<p>Nem ousam de a consolar.<\/p>\n<p>Depois um longo suspiro,<\/p>\n<p>E ia a mo\u00e7a a expirar&#8230;<\/p>\n<p>O sol de todo morria<\/p>\n<p>E enegrecia-se o ar.<\/p>\n<p>Pintam-na de vivas cores,<\/p>\n<p>E lhe lan\u00e7am um colar;[xv]<\/p>\n<p>Em fina esteira de junco<\/p>\n<p>Logo a v\u00e3o amortalhar.<\/p>\n<p>O triste pai suspirando<\/p>\n<p>Nos bra\u00e7os a vai tomar,<\/p>\n<p>Deita-a sobre o seu cavalo<\/p>\n<p>E a leva para enterrar.<\/p>\n<p>Na terra em que dorme agora<\/p>\n<p>Justo lhe era descansar,<\/p>\n<p>Que pagou foro da vida<\/p>\n<p>Com muito e muito penar.<\/p>\n<p>Que assim se morre de amores<\/p>\n<p>Aonde habita o jaguar,<\/p>\n<p>Como as princesas morriam<\/p>\n<p>Pelas terras de al\u00e9m-mar.<\/p>\n<p>A CRIST\u00c3-NOVA<\/p>\n<p>&#8230;essa mesma foi levada cativa<\/p>\n<p>para uma terra estranha.<\/p>\n<p>NAUM, cap. III, v. 10<\/p>\n<p>PARTE PRIMEIRA<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Olhos fitos no c\u00e9u, sentado \u00e0 porta,<\/p>\n<p>O velho pai estava. Um luar frouxo<\/p>\n<p>Vinha beijar-lhe a veneranda barba<\/p>\n<p>Alva e longa, que o peito lhe cobria,<\/p>\n<p>Como a n\u00e9voa na encosta da montanha<\/p>\n<p>Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite,<\/p>\n<p>E silenciosa: a praia era deserta,<\/p>\n<p>Ouvia-se o bater pausado e longo<\/p>\n<p>Da sonolenta vaga, \u2014 \u00fanico e triste<\/p>\n<p>Som que a mudez quebrava \u00e0 natureza.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Assim talvez nas solid\u00f5es sombrias<\/p>\n<p>Da velha Palestina<\/p>\n<p>Um profeta no esp\u00edrito volvera<\/p>\n<p>As desgra\u00e7as da p\u00e1tria. Qu\u00e3o remota<\/p>\n<p>Aquela de seus pais sagrada terra,<\/p>\n<p>Qu\u00e3o diferente desta em que h\u00e1 vivido<\/p>\n<p>Os seus dias melhores! Vago e doce,<\/p>\n<p>Este luar n\u00e3o alumia os serros<\/p>\n<p>Est\u00e9reis, nem as \u00faltimas ru\u00ednas,<\/p>\n<p>Nem as ermas plan\u00edcies, nem aquele<\/p>\n<p>Morno sil\u00eancio da regi\u00e3o que fora<\/p>\n<p>E que a hist\u00f3ria de todo amortalhara.<\/p>\n<p>\u00d3 torrentes antigas! \u00e1guas santas<\/p>\n<p>De Cedron! J\u00e1 talvez o sol que passa,<\/p>\n<p>E v\u00ea nascer e v\u00ea morrer as flores,<\/p>\n<p>Todas no leito vos secou,[xvi] enquanto<\/p>\n<p>Estas murmuram pl\u00e1cidas e cheias,<\/p>\n<p>E v\u00e3o contando \u00e0s deleitosas praias<\/p>\n<p>Esperan\u00e7as futuras. Longo e longo<\/p>\n<p>O devolver dos s\u00e9culos<\/p>\n<p>Ser\u00e1, primeiro que a mem\u00f3ria do homem<\/p>\n<p>Te\u00e7a a mortalha fria<\/p>\n<p>Da regi\u00e3o que inda tinge o albor da aurora.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Talvez, talvez no esp\u00edrito fechado<\/p>\n<p>Do anci\u00e3o vagueavam lentamente<\/p>\n<p>Estas id\u00e9ias tristes. Junto \u00e0 praia<\/p>\n<p>Era a austera mans\u00e3o, donde se via<\/p>\n<p>Desenrolarem-se as serenas vagas<\/p>\n<p>Do nosso golfo azul. N\u00e3o a enfeitavam<\/p>\n<p>As galas da opul\u00eancia, nem os olhos<\/p>\n<p>Entristecia co\u2019o medonho aspecto<\/p>\n<p>Da mis\u00e9ria; n\u00e3o pr\u00f3diga nem surda<\/p>\n<p>A fortuna lhe fora, mas aquela<\/p>\n<p>Mediana s\u00f3bria, que os desejos<\/p>\n<p>Contenta do fil\u00f3sofo, lhe havia<\/p>\n<p>Dourado os tectos. Guanabara ainda<\/p>\n<p>N\u00e3o era a flor aberta<\/p>\n<p>Da nossa idade; era bot\u00e3o apenas,<\/p>\n<p>Que rompia do hastil, nascido \u00e0 beira<\/p>\n<p>De suas ondas mansas. Simples e rude,<\/p>\n<p>Ia brotando a juvenil cidade,<\/p>\n<p>Nestas incultas terras, que a lembran\u00e7a<\/p>\n<p>Recordava talvez do antigo povo,<\/p>\n<p>E o gua\u00fa alegre, e as r\u00edspidas pelejas,<\/p>\n<p>Toda essa vida que morreu.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Sentada<\/p>\n<p>Aos p\u00e9s do velho estava a amada filha,<\/p>\n<p>Bela como a a\u00e7ucena dos Cantares,<\/p>\n<p>Como a rosa dos campos. A cabe\u00e7a<\/p>\n<p>Nos joelhos do pai reclina a mo\u00e7a,<\/p>\n<p>E deixa resvalar o pensamento<\/p>\n<p>Rio abaixo das longas esperan\u00e7as<\/p>\n<p>E namorados sonhos. Negros olhos<\/p>\n<p>Por entre os mal fechados<\/p>\n<p>C\u00edlios estende \u00e0 serra que recorta<\/p>\n<p>Ao longe o c\u00e9u. Morena \u00e9 a face linda<\/p>\n<p>E levemente p\u00e1lida. Mais bela,<\/p>\n<p>Nem mais suave era a formosa Rute<\/p>\n<p>Ante o rico Booz, do que essa virgem,<\/p>\n<p>Flor que Israel brotou do antigo tronco,<\/p>\n<p>Corada ao sol da juvenil Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Mudos viam correr aquelas horas<\/p>\n<p>Da noite, os dous: ele voltando o rosto<\/p>\n<p>Ao passado, ela os olhos ao futuro.<\/p>\n<p>Cansam-lhe enfim ao pensamento as asas<\/p>\n<p>De ir voando, atrav\u00e9s da espessa treva,<\/p>\n<p>Frouxas as colhe, e desce ao campo ex\u00edguo<\/p>\n<p>Da realidade. A delicada virgem<\/p>\n<p>Primeiro volve a si; os lindos dedos<\/p>\n<p>Corre-lhe ao longo da nevada barba,<\/p>\n<p>E : \u201cPai amigo, que pensar vos leva<\/p>\n<p>T\u00e3o longe a alma?\u201dEstremecendo o velho:<\/p>\n<p>\u201cCuriosa! \u2014 lhe disse, \u2014 o pensamento<\/p>\n<p>\u00c9 como as aves passageiras: voa<\/p>\n<p>A buscar melhor clima. \u2014 Oposto rumo<\/p>\n<p>Ias tu, alma em flor, aberta apenas,<\/p>\n<p>T\u00e3o longe ainda do calor do sesta,<\/p>\n<p>T\u00e3o remota da noite&#8230; Uma esperan\u00e7a<\/p>\n<p>Te sorria talvez? Talvez, quem sabe,<\/p>\n<p>Uns namorados olhos que me roubem,<\/p>\n<p>Que te levem&#8230; N\u00e3o cores, filha minha!<\/p>\n<p>Esquecimento, n\u00e3o; lembran\u00e7a ao menos<\/p>\n<p>Ficar-te-\u00e1 do paterno afeto; e um dia,<\/p>\n<p>Quando eu na terra descansar meus ossos,<\/p>\n<p>Haver\u00e1s doce b\u00e1lsamo no seio<\/p>\n<p>Da afei\u00e7\u00e3o juvenil&#8230; Sim; n\u00e3o te acuso;<\/p>\n<p>Ama: \u00e9 a lei da natureza, eterna!<\/p>\n<p>Ama: um homem ser\u00e1 da nossa ra\u00e7a&#8230;\u201d<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Estas palavras tais ouvindo a mo\u00e7a,<\/p>\n<p>Turbada os olhos descaiu na terra,<\/p>\n<p>E algum tempo ficou calada e triste,<\/p>\n<p>Como no azul do c\u00e9u o astro da noite,<\/p>\n<p>Se uma nuvem lhe empana a meio a face.<\/p>\n<p>S\u00fabito a voz e o rosto alevantando,<\/p>\n<p>Com dissimula\u00e7\u00e3o, \u2014 pecado embora,<\/p>\n<p>Mas inocente: \u201cOlhai, a noite \u00e9 linda!<\/p>\n<p>O vento encrespa molemente as ondas,<\/p>\n<p>E o c\u00e9u \u00e9 todo azul e todo estrelas!<\/p>\n<p>Formosa, oh! qu\u00e3o formosa a terra minha!<\/p>\n<p>Dizei: al\u00e9m desses compridos serros,<\/p>\n<p>Al\u00e9m daquele mar, \u00e0 orla de outros,<\/p>\n<p>Outras como esta vivem?\u201d<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>Fresca e pura<\/p>\n<p>Era-lhe a voz, voz d\u2019alma que sabia<\/p>\n<p>Entrar no cora\u00e7\u00e3o paterno. A fronte<\/p>\n<p>Inclina o velho sobre o rosto amado<\/p>\n<p>De \u00c2ngela. \u2014 Na cabe\u00e7a \u00f3sculo santo<\/p>\n<p>Imprime \u00e0 filha; e suspirando, os olhos<\/p>\n<p>Melancolicamente ao ar levanta,<\/p>\n<p>Desce-os e assim murmura:<\/p>\n<p>\u201cVaso \u00e9 digno de ti, l\u00edrio dos vales,<\/p>\n<p>Terra solene e bela. A natureza<\/p>\n<p>Aqui pomposa, compassiva e grande,<\/p>\n<p>No rega\u00e7o recebe a alma que chora<\/p>\n<p>E o cora\u00e7\u00e3o que t\u00famido suspira.<\/p>\n<p>Contudo, a sombra pesarosa e errante<\/p>\n<p>Do povo que acabou pranteia ainda<\/p>\n<p>Ao longo das areias,<\/p>\n<p>Onde o mar bate, ou no cerrado bosque<\/p>\n<p>Inda povoado das rel\u00edquias suas,<\/p>\n<p>Que o nome de Tup\u00e3 confessar podem<\/p>\n<p>No pr\u00f3prio templo augusto. \u00daltima e forte<\/p>\n<p>Consola\u00e7\u00e3o \u00e9 esta do vencido<\/p>\n<p>Que viu tudo perder-se no passado,<\/p>\n<p>E \u00fanico salva do naufr\u00e1gio imenso<\/p>\n<p>O seu Deus. P\u00e1tria n\u00e3o. Uma h\u00e1 na terra<\/p>\n<p>Que eu nunca vi&#8230; Hoje \u00e9 ru\u00edna tudo,<\/p>\n<p>E viuvez e morte. Um tempo, entanto,<\/p>\n<p>Bela e forte ela foi; mas longe, longe<\/p>\n<p>Os dias v\u00e3o de fortaleza e gl\u00f3ria<\/p>\n<p>Escoados de todo como as \u00e1guas<\/p>\n<p>Que n\u00e3o volvem jamais. \u00d3leo que a unge,<\/p>\n<p>Finas telas que a vestem, atavios<\/p>\n<p>De ouro e prata que o colo e os bra\u00e7os lhe ornam,<\/p>\n<p>E a flor de trigo e mel de que se nutre,<\/p>\n<p>Sonhos, s\u00e3o sonhos do profeta.[xvii] \u00c9 morta<\/p>\n<p>Jerusal\u00e9m! Oh! quem lhe dera os dias<\/p>\n<p>Da passada grandeza, quando a planta<\/p>\n<p>Da senhora das gentes sobre o peito<\/p>\n<p>Pousava dos vencidos, quando o nome<\/p>\n<p>Do que h\u00e1 salvo Israel, Mois\u00e9s\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u2014 N\u00e3o! Cristo,<\/p>\n<p>Filho de Deus! S\u00f3 ele h\u00e1 salvo os homens!\u201d<\/p>\n<p>Isto dizendo, a delicada virgem<\/p>\n<p>As m\u00e3os postas ergueu. Uma palavra<\/p>\n<p>N\u00e3o disse mais; no cora\u00e7\u00e3o, entanto,<\/p>\n<p>Murmurava uma prece silenciosa,<\/p>\n<p>Ardente e viva, como a f\u00e9 que a anima<\/p>\n<p>Ou como a luz da l\u00e2mpada<\/p>\n<p>A que n\u00e3o faltou \u00f3leo.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>Taciturno<\/p>\n<p>Esteve longo tempo o anci\u00e3o. Aquela<\/p>\n<p>Alma infeliz nem toda era de Cristo<\/p>\n<p>Nem toda de Mois\u00e9s; ouvia atento<\/p>\n<p>A palavra da Lei, como nos dias<\/p>\n<p>Do eleito povo; mas a doce nota<\/p>\n<p>Do Evangelho n\u00e3o raro lhe batia<\/p>\n<p>No alvoro\u00e7ado peito<\/p>\n<p>Solen\u00edssima e pura&#8230; Descambava<\/p>\n<p>No entanto a lua. A noite era mais linda,<\/p>\n<p>E mais augusta a solid\u00e3o. Na alcova<\/p>\n<p>Entre a p\u00e1lida mo\u00e7a. Da parede<\/p>\n<p>Um Cristo pende; ela os joelhos dobra<\/p>\n<p>Os dedos cruza e reza, \u2014 n\u00e3o serena,<\/p>\n<p>Nem alegre tamb\u00e9m, como costuma,<\/p>\n<p>Mas a tremer-lhe nos formosos olhos<\/p>\n<p>Uma l\u00e1grima.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>A l\u00e2mpada acendida<\/p>\n<p>Sobre a mesa do velho, as largas folhas<\/p>\n<p>Alumia de um livro. O m\u00e1ximo era<\/p>\n<p>Dos livros todos. A escolhida lauda<\/p>\n<p>Era a do canto dos cativos que iam<\/p>\n<p>Pelas ribas do Eufrates, relembrando<\/p>\n<p>As desgra\u00e7as da p\u00e1tria. A s\u00f3s, com eles,<\/p>\n<p>Suspira o velho aquele salmo antigo:<\/p>\n<p>Junto os rios da terra amaldi\u00e7oada<\/p>\n<p>De Babil\u00f4nia, um dia nos sentamos,<\/p>\n<p>Com saudades de Si\u00e3o amada.<\/p>\n<p>As harpas nos salgueiros penduramos,<\/p>\n<p>E ao relembrarmos os extintos dias<\/p>\n<p>As l\u00e1grimas dos olhos desatamos.<\/p>\n<p>Os que nos davam cruas agonias<\/p>\n<p>De cativeiro, ali nos perguntavam<\/p>\n<p>Pelas nossas antigas harmonias.<\/p>\n<p>E diz\u00edamos n\u00f3s aos que falavam:<\/p>\n<p>\u201cComo em terra de ex\u00edlio amargo e duro<\/p>\n<p>Cantar os hinos que ao Senhor louvavam?\u201d<\/p>\n<p>Jerusal\u00e9m, se inda num sol futuro,<\/p>\n<p>Eu desviar de ti meu pensamento<\/p>\n<p>E teu nome entregar a olvido escuro,<\/p>\n<p>A minha destra a frio esquecimento<\/p>\n<p>Votada seja; apegue-se \u00e0 garganta<\/p>\n<p>Esta l\u00edngua infiel, se um s\u00f3 momento<\/p>\n<p>Me n\u00e3o lembrar de ti, se a grande e santa<\/p>\n<p>Jerusal\u00e9m n\u00e3o for minha alegria<\/p>\n<p>Melhor no meio de mis\u00e9ria tanta.<\/p>\n<p>Oh! lembra-lhes, Senhor, aquele dia<\/p>\n<p>Da abatida Si\u00e3o, lembra-lhos aos duros<\/p>\n<p>Filhos de Edom, e \u00e0 voz que ali dizia:<\/p>\n<p>Arruinai-a, arruinai-a; os muros<\/p>\n<p>Arrasemo-los todos; s\u00f3 lhe baste<\/p>\n<p>Um mont\u00e3o de destro\u00e7os mal-seguros.<\/p>\n<p>Filha de Babil\u00f4nia, que pecaste,<\/p>\n<p>Aben\u00e7oado o que se houver contigo<\/p>\n<p>Com a mesma opress\u00e3o que nos mostraste!<\/p>\n<p>Aben\u00e7oado o b\u00e1rbaro inimigo<\/p>\n<p>Que os tenros filhos teus \u00e0s m\u00e3os tomando,<\/p>\n<p>Os for, por teu just\u00edssimo castigo,<\/p>\n<p>Contra um duro penedo esmigalhando!<\/p>\n<p>PARTE SEGUNDA<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Era naquela doce e am\u00e1vel hora<\/p>\n<p>Em que vem branqueando a alva celeste,<\/p>\n<p>Quando parece que remo\u00e7a a vida<\/p>\n<p>E toda se espregui\u00e7a a natureza.<\/p>\n<p>Alva neblina que espalhara a noite<\/p>\n<p>Frouxamente nos ares se dissolve,<\/p>\n<p>Como de uns olhos tristes<\/p>\n<p>Foge co\u2019o tempo a j\u00e1 ligeira sombra<\/p>\n<p>De consoladas m\u00e1goas. Vida \u00e9 tudo,<\/p>\n<p>E pompa e gra\u00e7a natural da terra,<\/p>\n<p>Mas que n\u00e3o seja no ermo,<\/p>\n<p>Onde seus olhos r\u00fatilos espraia<\/p>\n<p>Livres a aurora, sem tocar vest\u00edgios<\/p>\n<p>De obras caducas do homem, onde as \u00e1guas<\/p>\n<p>Do rio bebe a fugitiva cor\u00e7a,<\/p>\n<p>Vivo aroma nos ares se difunde,<\/p>\n<p>E aves, e aves de infinitas cores<\/p>\n<p>Voando v\u00e3o e revoando tornam,<\/p>\n<p>Inda senhoras da amplid\u00e3o que \u00e9 sua.<\/p>\n<p>Donde as h\u00e1 de fugir o homem um dia<\/p>\n<p>Quando a agreste solid\u00e3o entrar o passo<\/p>\n<p>Criador que derruba. J\u00e1 de todo<\/p>\n<p>Nado era o sol; e \u00e0 viva luz que inunda<\/p>\n<p>Estes meus p\u00e1trios morros e estas praias,<\/p>\n<p>Sorrindo a terra mo\u00e7a<\/p>\n<p>Noiva parece que o virg\u00edneo seio<\/p>\n<p>Entrega ao beijo nupcial do amado.<\/p>\n<p>E h\u00e1 de os f\u00fanebres v\u00e9us lan\u00e7ar a morte<\/p>\n<p>Na verdura do campo? A natureza<\/p>\n<p>A nota vibrar\u00e1 da extrema ang\u00fastia<\/p>\n<p>Neste festivo c\u00e2ntico de gra\u00e7as<\/p>\n<p>Ao sol que nasce, ao Criador que o envia,<\/p>\n<p>Como renova\u00e7\u00e3o de juventude?<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Coava o sol pela mi\u00fada e fina<\/p>\n<p>Gelosia da alcova em que se apresta<\/p>\n<p>A recente crist\u00e3. Singelas roupas<\/p>\n<p>Traja da ing\u00eanua cor que a natureza<\/p>\n<p>Pintou nas plumas que primeiro brota<\/p>\n<p>O seu p\u00e1trio guar\u00e1. V\u00ednculo frouxo<\/p>\n<p>Mal lhe segura a luzidia tran\u00e7a,<\/p>\n<p>Como ao desd\u00e9m lan\u00e7ada<\/p>\n<p>Sobre a esp\u00e1dua gentil. J\u00f3ia nenhuma,<\/p>\n<p>Mais que seus olhos meigos, e essa doce<\/p>\n<p>Mod\u00e9stia natural, encanto, enlevo,<\/p>\n<p>Casta flor que aborrece os mimos do horto,<\/p>\n<p>E ama livre nascer no campo, \u00e0 larga,<\/p>\n<p>R\u00fastica, mas formosa. N\u00e3o lhe ensombram<\/p>\n<p>As tristezas da v\u00e9spera o semblante,<\/p>\n<p>Nem da secreta l\u00e1grima na face<\/p>\n<p>Ficou vest\u00edgio, \u2014 Descuidosa e alegre,<\/p>\n<p>Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa,<\/p>\n<p>E repete baixinho um nome&#8230; Oh! se ele<\/p>\n<p>Espreit\u00e1-la pudesse ali risonha,<\/p>\n<p>A s\u00f3s consigo, entre o seu Cristo e as flores<\/p>\n<p>Colhidas ao tombar da extinta noite,<\/p>\n<p>E vicejantes inda!<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>De repente,<\/p>\n<p>Aos ouvidos da mo\u00e7a enamorada<\/p>\n<p>Chega um surdo rumor de soltas vozes,<\/p>\n<p>Que ora crescendo vai, ora se apaga,<\/p>\n<p>Estranho, desusado. Eram&#8230; S\u00e3o eles,<\/p>\n<p>Os franceses, que v\u00eam de longes praias<\/p>\n<p>A cobi\u00e7ar a p\u00e9rola mimosa,<\/p>\n<p>Niter\u00f3i, na alva-azul concha nascida<\/p>\n<p>De suas \u00e1guas recatadas. Rege<\/p>\n<p>O atrevido Duclerc a flor dos nobres,<\/p>\n<p>Cuja tez branca requeimara o fogo<\/p>\n<p>Que o vivo sol dos tr\u00f3picos dardeja,<\/p>\n<p>E as lufadas dos ventos do oceano.<\/p>\n<p>Cobi\u00e7am-te eles, minha terra amada,<\/p>\n<p>Como quando nas faixas sempre-verdes<\/p>\n<p>Eras envolta; e rude, inda que belo,<\/p>\n<p>O aspecto havias que poliu mais tarde<\/p>\n<p>A clara m\u00e3o do tempo. Inda repetem<\/p>\n<p>Os ecos do rec\u00f4ncavo os suspiros<\/p>\n<p>Dos que vieram a buscar a morte,<\/p>\n<p>E a receberam dos var\u00f5es possantes<\/p>\n<p>Companheiros de Est\u00e1cio. A todos eles,<\/p>\n<p>Prole de Luso ou gera\u00e7\u00e3o da G\u00e1lia,<\/p>\n<p>Cativara-os a n\u00e1iade escondida,<\/p>\n<p>E o sol os viu travados nessa longa<\/p>\n<p>E sangrenta porfia, cujo pr\u00eamio<\/p>\n<p>Era teu verde, c\u00e2ndido rega\u00e7o.<\/p>\n<p>Triunfara o trabuco lusitano<\/p>\n<p>Naquele extinto s\u00e9culo. Vencido,<\/p>\n<p>O pavilh\u00e3o franc\u00eas volvera \u00e0 p\u00e1tria,<\/p>\n<p>Pela \u00e1gua arrastando o longo crepe<\/p>\n<p>De suas tristes, mortas esperan\u00e7as,<\/p>\n<p>Que vento novo o desfraldou nos ares?<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>\u00c2ngela ouvira as vozes da cidade,<\/p>\n<p>As vozes do furor. J\u00e1 receosa,<\/p>\n<p>Tr\u00eamula, foge \u00e0 alcova e se encaminha<\/p>\n<p>\u00c0 c\u00e2mara paterna. Ia transpondo<\/p>\n<p>A franqueada porta&#8230; e p\u00e1ra. O peito<\/p>\n<p>Rompe-lhe quase o cora\u00e7\u00e3o, \u2014 tamanho<\/p>\n<p>\u00c9 o palpitar, um palpitar de gosto,<\/p>\n<p>De surpresa e de susto. Aqueles olhos,<\/p>\n<p>Aquela gra\u00e7a m\u00e1scula do gesto,<\/p>\n<p>Gra\u00e7a e olhos s\u00e3o dele, o amado noivo,<\/p>\n<p>Que entre os mais homens elegeu sua alma<\/p>\n<p>Para o v\u00ednculo eterno&#8230; Sim, que a morte<\/p>\n<p>Pode arrancar ao seio humano o alento<\/p>\n<p>\u00daltimo e derradeiro; os que deveras<\/p>\n<p>Unidos foram, volver\u00e3o unidos<\/p>\n<p>A mergulhar na eternidade. Estava<\/p>\n<p>Junto do velho pai o gentil mo\u00e7o,<\/p>\n<p>Ele todo agitado, o anci\u00e3o sombrio,<\/p>\n<p>Calados ambos. A atitude de ambos,<\/p>\n<p>O misterioso, g\u00e9lido sil\u00eancio,<\/p>\n<p>Mais que tudo, a presen\u00e7a nunca usada<\/p>\n<p>Daquele homem ali, que mal a espreita<\/p>\n<p>De longe e a furto, nos instantes breves<\/p>\n<p>Em que lhe \u00e9 dado v\u00ea-la, tudo \u00e0 mo\u00e7a<\/p>\n<p>O \u00e2nimo abala e o cora\u00e7\u00e3o enfia.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Mas o tropel de fora avulta e cresce<\/p>\n<p>E os tr\u00eas acorda. A virgem, lentamente,<\/p>\n<p>Rosto inclinado ao ch\u00e3o, transp\u00f5e o espa\u00e7o<\/p>\n<p>Que dos dois a separa&#8230; O tenro colo<\/p>\n<p>Curva ante o pai, e na enrugada destra<\/p>\n<p>O \u00f3sculo imprime, herdada usan\u00e7a nossa<\/p>\n<p>De filial respeito. As m\u00e3os lhe toma<\/p>\n<p>Enternecido o velho; olhos com olhos<\/p>\n<p>Alguns instantes r\u00e1pidos ficaram,<\/p>\n<p>At\u00e9 que ele, voltando o rosto ao mo\u00e7o:<\/p>\n<p>\u201cPerdoai, \u2014 disse, \u2014 se o paterno afeto<\/p>\n<p>Me atou a l\u00edngua. Vacilar \u00e9 justo<\/p>\n<p>Quando \u00e0 pobre ru\u00edna a flor lhe pedem<\/p>\n<p>Que \u00fanica lhe nasceu, \u2014 \u00fanica adorna<\/p>\n<p>A aridez melanc\u00f3lica do extremo,<\/p>\n<p>P\u00e1lido sol&#8230; N\u00e3o protesteis! Roub\u00e1-la,<\/p>\n<p>Arranc\u00e1-la aos meus \u00faltimos instantes,<\/p>\n<p>N\u00e3o o fareis de certo. Pouco importa<\/p>\n<p>D\u00eas que a metade lhe levais da vida,<\/p>\n<p>D\u00eas que seu cora\u00e7\u00e3o, convosco parte<\/p>\n<p>Afei\u00e7\u00f5es minhas. \u2014 Ao demais, o sangue<\/p>\n<p>Que lhe corre nas veias condenado,<\/p>\n<p>Nuno, ser\u00e1 dos vossos&#8230;\u201d Longo e frio<\/p>\n<p>Olhar estas palavras acompanha,<\/p>\n<p>Como a arrancar-lhe o pensamento interno.<\/p>\n<p>A donzela estremece. Nuno o alento<\/p>\n<p>Recobra e fala: \u201cPuro sangue \u00e9 ele,<\/p>\n<p>Se lhe corre nas veias. T\u00e3o mimosa,<\/p>\n<p>C\u00e2ndida criatura, alma t\u00e3o casta,<\/p>\n<p>Inda nascida entre os incr\u00e9us da Ar\u00e1bia,<\/p>\n<p>Deus a votara \u00e0 convers\u00e3o e \u00e0 vida<\/p>\n<p>Dos eleitos do c\u00e9u. \u00c1guas sagradas<\/p>\n<p>Que a lavaram no ber\u00e7o, j\u00e1 nas veias<\/p>\n<p>O sangue velho e impuro lhe trocaram<\/p>\n<p>Pelo sangue de Cristo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Neste instante<\/p>\n<p>Cresce o tumulto exterior. A virgem<\/p>\n<p>Medrosa toda se conchega ao colo<\/p>\n<p>Do velho pai. \u201cOuvis? Falai! \u00e9 tempo!\u201d<\/p>\n<p>Nuno prossegue. \u201cEste comum perigo<\/p>\n<p>Chama os var\u00f5es \u00e0 r\u00edspida batalha;<\/p>\n<p>Com eles vou. Se um galard\u00e3o, entanto,<\/p>\n<p>Merecer de meus feitos, n\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria<\/p>\n<p>Irei pedi-lo; s\u00f3 de v\u00f3s espero,<\/p>\n<p>N\u00e3o o melhor, mas o \u00fanico na terra,<\/p>\n<p>Que a minha vida&#8230;\u201d Rematar n\u00e3o p\u00f4de<\/p>\n<p>Esta palavra. Ao escutar-lhe a nova<\/p>\n<p>Da iminente peleja<\/p>\n<p>E a decis\u00e3o de combater por ela,<\/p>\n<p>Inteiras sente as for\u00e7as que se perdem<\/p>\n<p>A donzela, e bem como ao rijo vento<\/p>\n<p>Inclina o colo o arbusto<\/p>\n<p>Nos bra\u00e7os desmaiou do pai. Volvida<\/p>\n<p>A si, na palidez do rosto o velho<\/p>\n<p>Atenta um pouco, e suspirando: \u201cAs armas<\/p>\n<p>Empunhai; combatei; \u00c2ngela \u00e9 vossa.<\/p>\n<p>N\u00e3o de mim a havereis: ela a si mesma<\/p>\n<p>Toda nas vossas m\u00e3os se entrega. Morta<\/p>\n<p>Ou feliz \u00e9 a escolha; n\u00e3o vacilo:<\/p>\n<p>Seja feliz, e folgarei com ela&#8230;\u201d<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>Sobre a fronte dos dois, as m\u00e3os impondo<\/p>\n<p>Ao seio os conchegou, bem como a tenda<\/p>\n<p>Do patriarca santo agasalhava<\/p>\n<p>O mo\u00e7o Isaac e a delicada virgem<\/p>\n<p>Que entre os rios nasceu[xviii]. Delicioso<\/p>\n<p>E solene era o quadro; mas solene<\/p>\n<p>E delicioso embora, ia esvair-se<\/p>\n<p>Qual celeste vis\u00e3o, que acende a espa\u00e7os<\/p>\n<p>O \u00e2nimo do infeliz. A guerra, a dura<\/p>\n<p>Necessidade de imolar os homens,<\/p>\n<p>Por salvar homens, a terr\u00edvel guerra<\/p>\n<p>Corta o amoroso v\u00ednculo que os prende<\/p>\n<p>E \u00e0 mo\u00e7a o riso lhe converte em l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>M\u00edsera \u00e9s tu, p\u00e1lida flor; mas sofre<\/p>\n<p>Que o calor deste sol te acurve o c\u00e1lice,<\/p>\n<p>Morta, n\u00e3o; nem j\u00e1 murcha \u2014 mas apenas<\/p>\n<p>Como cansada de queimor do estio.<\/p>\n<p>Sofre; a tarde vir\u00e1 serena e branda<\/p>\n<p>A reviver-te o alento; a fresca noite<\/p>\n<p>Chover\u00e1 sobre ti piedoso orvalho<\/p>\n<p>E mais risonha surgir\u00e1s \u00e0 aurora.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>Foge \u00e0 est\u00e2ncia da paz o ardido mo\u00e7o;<\/p>\n<p>Esperan\u00e7a, fortuna, amor e p\u00e1tria<\/p>\n<p>A guerrear o levam. J\u00e1 nas veias<\/p>\n<p>O vivo sangue irrequieto pulsa,<\/p>\n<p>Como ansioso de correr por ambas,<\/p>\n<p>A bela terra e a suspirada noiva.<\/p>\n<p>Triste quadro a seus olhos se apresenta;<\/p>\n<p>Nos femininos rostos v\u00ea pintados<\/p>\n<p>Incerteza e terror; lamentos, gritos<\/p>\n<p>Soam de entorno. Voam pelas ruas<\/p>\n<p>Homens de guerra; homens de paz se aprestam<\/p>\n<p>Para a crua peleja; e, ou nobre est\u00e2ncia,<\/p>\n<p>Ou choupana rasteira, armado \u00e9 tudo<\/p>\n<p>Contra a forte invas\u00e3o. Nem l\u00e1 se deixa<\/p>\n<p>Quieto, a s\u00f3s com Deus, na estreita cela,<\/p>\n<p>O solit\u00e1rio monge que \u00e0s batalhas<\/p>\n<p>Fugiu da vida. O patrim\u00f4nio santo<\/p>\n<p>Cumpre salv\u00e1-lo. Cruz e espada empunha,<\/p>\n<p>Deixa a serena regi\u00e3o da prece<\/p>\n<p>E voa ao torvelinho do combate.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Entre os fortes alunos que dirige<\/p>\n<p>O ardido Bento[xix], a perfilar-se corre<\/p>\n<p>Nuno. Estes s\u00e3o os que o primeiro golpe<\/p>\n<p>Descarregam no at\u00f4nito inimigo.<\/p>\n<p>Do militar of\u00edcio ignoram tudo,<\/p>\n<p>De armas n\u00e3o sabem; mas o brio e a honra<\/p>\n<p>E a lembran\u00e7a da terra em que primeiro<\/p>\n<p>Viram a luz, e onde o perd\u00ea-la \u00e9 doce,<\/p>\n<p>Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigo<\/p>\n<p>Do nobre esfor\u00e7o e galhardia rara,<\/p>\n<p>Com que inda nos umbrais da vida que orna<\/p>\n<p>Tanta esperan\u00e7a, tanto sonho de ouro,<\/p>\n<p>Resolutos a morte encaram, prestes<\/p>\n<p>A retalhar nas dobras<\/p>\n<p>Da vestidura f\u00fanebre da p\u00e1tria<\/p>\n<p>O piedoso len\u00e7ol que os leve \u00e0 campa,<\/p>\n<p>Ou com ela cingir o eterno louro.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>\u00d3 mocidade, \u00f3 baluarte vivo<\/p>\n<p>Da cara p\u00e1tria! J\u00e1 perdida \u00e9 ela,<\/p>\n<p>Quando em teu peito entusiasmo santo<\/p>\n<p>E puro amor se extingue, e \u00e0quele nobre,<\/p>\n<p>Generoso despejo e ardor antigo<\/p>\n<p>Sucede o frio calcular, e o torpe<\/p>\n<p>Ego\u00edsmo, e quanto h\u00e1 a\u00ed no humano peito,<\/p>\n<p>Que a natureza n\u00e3o criou nem ama,<\/p>\n<p>Que \u00e9 fruto nosso e podre&#8230; Muitos caem<\/p>\n<p>Mortos ali. Que importa? V\u00e3o seguindo<\/p>\n<p>Avante os bravos, que a invas\u00e3o caminha<\/p>\n<p>Implac\u00e1vel e dura, como a morte,<\/p>\n<p>A pelejar e a destruir. Tingidas<\/p>\n<p>Ruas de estranho sangue<\/p>\n<p>E sangue nosso, lacerados membros,<\/p>\n<p>Corpos de que h\u00e1 fugido a alma cansada,<\/p>\n<p>E o denso fumo e os f\u00fanebres lamentos,<\/p>\n<p>Quem nessa confus\u00e3o, mis\u00e9ria e gl\u00f3ria<\/p>\n<p>Conhecer\u00e1 da juvenil cidade<\/p>\n<p>O aspecto, a vida? Aqui da inf\u00e2ncia os dias<\/p>\n<p>Nuno vivera, \u00e0 vicejante sombra<\/p>\n<p>Do seu p\u00e1trio arvoredo, ao som das vagas<\/p>\n<p>Que inda batendo v\u00e3o na amada areia;<\/p>\n<p>Risos, jogos da verde meninice,<\/p>\n<p>Esta praia lhe lembra, aquela pedra,<\/p>\n<p>A mangueira do campo, a tosca cerca<\/p>\n<p>De espinheiro e de flores enla\u00e7adas,<\/p>\n<p>A ave que voa, a brisa que suspira,<\/p>\n<p>Que suspira como ele h\u00e1 suspirado,<\/p>\n<p>Quando rompendo o cora\u00e7\u00e3o do peito<\/p>\n<p>Ia-lhe emp\u00f3s dessa vis\u00e3o divina,<\/p>\n<p>Realidade agora&#8230; E h\u00e1 de perd\u00ea-las<\/p>\n<p>P\u00e1tria e noiva? Esta id\u00e9ia lhe esvoa\u00e7a<\/p>\n<p>Torva e surda no c\u00e9rebro do mo\u00e7o,<\/p>\n<p>E ao contra\u00eddo esp\u00edrito redobra<\/p>\n<p>\u00cdmpeto e for\u00e7as. Rompe<\/p>\n<p>Por entre a multid\u00e3o dos seus, e investe<\/p>\n<p>Contra o duro inimigo; e as balas voam,<\/p>\n<p>E com elas a morte, que n\u00e3o sabe<\/p>\n<p>Dos escolhidos seus a terra e o sangue,<\/p>\n<p>E indistintos os toma; ele, no meio<\/p>\n<p>Daquele horr\u00edvel turbilh\u00e3o, parece<\/p>\n<p>Que a fa\u00edsca do g\u00eanio o leva e anima,<\/p>\n<p>Que a fortuna o votara \u00e0 gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>XI<\/p>\n<p>Soam<\/p>\n<p>Enfim os gritos de triunfo; e o peito<\/p>\n<p>Do povo que lutou respira \u00e0 larga,<\/p>\n<p>Como ao que, ap\u00f3s \u00e1rdua subida, chega<\/p>\n<p>Ao cimo da montanha, e ao longe os olhos<\/p>\n<p>Estende pelo azul dos c\u00e9us, e a vida<\/p>\n<p>Bebe nesse ar mais puro. Farto sangue<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria custara; mas, se em meio<\/p>\n<p>De tanta gl\u00f3ria h\u00e1 l\u00e1grimas, solu\u00e7os,<\/p>\n<p>Gemidos de viuvez, quem os escuta,<\/p>\n<p>Quem as v\u00ea essas l\u00e1grimas choradas<\/p>\n<p>Na multid\u00e3o da pra\u00e7a que troveja<\/p>\n<p>E folga e ri? O sacro bronze que usa<\/p>\n<p>Os fi\u00e9is convidar \u00e0 prece, e a morte<\/p>\n<p>Do homem pranteia l\u00fagubre e solene,<\/p>\n<p>Ora festivo canta<\/p>\n<p>O comum regozijo; e pela aberta<\/p>\n<p>Porta dos templos entra a frouxo o povo<\/p>\n<p>A agradecer com l\u00e1grimas e vozes<\/p>\n<p>O triunfo \u2014 piedoso instinto da alma,<\/p>\n<p>Que a Deus levanta o pensamento e as gra\u00e7as.<\/p>\n<p>XII<\/p>\n<p>Tu, mancebo feliz, tu bravo e amado,<\/p>\n<p>Voa nas asas r\u00fatilas e leves<\/p>\n<p>Da fortuna e do amor. Como ao indiano,<\/p>\n<p>Que, ao regressar das porfiadas lutas,<\/p>\n<p>Por estas mesmas regi\u00f5es entrava,<\/p>\n<p>A encontr\u00e1-lo sa\u00eda a meiga esposa,<\/p>\n<p>\u2014 A recente crist\u00e3, entre assustada<\/p>\n<p>E jubilosa coroar\u00e1 teus feitos<\/p>\n<p>Co\u2019a melhor das capelas que h\u00e3o pousado<\/p>\n<p>Em fronte de var\u00e3o, \u2014 um doce e longo<\/p>\n<p>Olhar que inteiro encerra a alma que chora<\/p>\n<p>De gosto e vida! Voa o mo\u00e7o \u00e0 est\u00e2ncia<\/p>\n<p>Do anci\u00e3o; e ao p\u00f4r na suspirada porta<\/p>\n<p>Olhos que traz famintos de encontr\u00e1-la,<\/p>\n<p>Frio terror lhe empece os membros. Frouxo<\/p>\n<p>Ia o sol transmontando; lenta a vaga<\/p>\n<p>Melancolicamente ali gemia,<\/p>\n<p>E todo o ar parecia arfar de morte.<\/p>\n<p>Qual se p\u00e1lida a vira, j\u00e1 cerrados<\/p>\n<p>Os desmaiados olhos,<\/p>\n<p>Frios os doces l\u00e1bios<\/p>\n<p>Cansados de pedir aos c\u00e9us por ele,<\/p>\n<p>Nuno estacara; e pelo rosto em fio<\/p>\n<p>O suor lhe caiu da extrema ang\u00fastia;<\/p>\n<p>Longo tempo vacila;<\/p>\n<p>Vence-se enfim, e entra a mans\u00e3o da esposa.<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>Quatro vultos na c\u00e2mara paterna<\/p>\n<p>Eram. O pai sentado,<\/p>\n<p>Calado e triste. Reclinada a fronte<\/p>\n<p>No espaldar da cadeira, a filha os olhos<\/p>\n<p>E o rosto esconde, mas tremor cont\u00ednuo<\/p>\n<p>De um abafado solu\u00e7ar o esbelto<\/p>\n<p>Corpo lhe agita. Nuno aos dois se chega;<\/p>\n<p>Ia a falar, quando a formosa virgem,<\/p>\n<p>Os lacrimosos olhos levantando,<\/p>\n<p>Um grito solta do \u00edntimo do peito<\/p>\n<p>E se lhe prostra aos p\u00e9s: \u201cOh! vivo, \u00e9s vivo!<\/p>\n<p>Inda bem&#8230; Mas o c\u00e9u, que por n\u00f3s vela,<\/p>\n<p>Aqui te envia&#8230; Salva-o tu, se podes,<\/p>\n<p>Salva meu pobre pai!\u201d Estremecendo,<\/p>\n<p>Nela e no velho fita Nuno os olhos,<\/p>\n<p>E agitado pergunta: \u201cQual ousado<\/p>\n<p>Bra\u00e7o lhe amea\u00e7a a vida?\u201d Cavernosa<\/p>\n<p>Uma voz lhe responde: \u201cO santo of\u00edcio!\u201d<\/p>\n<p>Volve o mancebo o rosto<\/p>\n<p>E o merenc\u00f3rio aspecto<\/p>\n<p>De dois familiares todo o sangue<\/p>\n<p>Nas veias lhe gelou.<\/p>\n<p>XIV<\/p>\n<p>Solene o velho<\/p>\n<p>Com a voz, n\u00e3o frouxa, mas pausada, fala:<\/p>\n<p>\u201cV\u00eas? Todo o brio, todo o amor no peito<\/p>\n<p>Te emudeceu. S\u00f3 lastimar-me podes,<\/p>\n<p>Salvar-me, nunca. O c\u00e1rcere me aguarda,<\/p>\n<p>E a fogueira talvez; cumpri-la, \u00e9 tempo,<\/p>\n<p>A vontade de Deus. Tu, pai e esposo<\/p>\n<p>Da desvalida filha que a\u00ed deixo,<\/p>\n<p>Nuno, ser\u00e1s. A relembrar com ela<\/p>\n<p>Meu pobre nome, aplacareis a imensa<\/p>\n<p>C\u00f3lera do Senhor&#8230;\u201d Sorrindo ir\u00f4nico,<\/p>\n<p>Estas palavras \u00faltimas lhe caem<\/p>\n<p>Dos l\u00e1bios tristes. Ergue-se: \u201cPartamos!<\/p>\n<p>Adeus! Negou-me Aquele que no campo<\/p>\n<p>Deixa a \u00e1rvore anci\u00e3 perder as folhas<\/p>\n<p>No mesmo ponto em que as nutriu vi\u00e7osas,<\/p>\n<p>Negou-me ver por estas longas serras<\/p>\n<p>Ir-se-me o \u00faltimo sol. Brando rega\u00e7o<\/p>\n<p>A filial piedade me daria<\/p>\n<p>Em que eu dormisse o derradeiro sono,<\/p>\n<p>E em bra\u00e7os de meu sangue transportado<\/p>\n<p>Fora em horas de paz e de sil\u00eancio<\/p>\n<p>Levado ao leito extremo e eterno. Vive<\/p>\n<p>Ao menos tu&#8230;\u201d<\/p>\n<p>XV<\/p>\n<p>Um familiar lhe corta<\/p>\n<p>O adeus \u00faltimo: \u201cVamos: \u00e9 j\u00e1 tempo!\u201d<\/p>\n<p>Resignado o infeliz, ao seio aperta<\/p>\n<p>A filha, e todo o cora\u00e7\u00e3o num beijo<\/p>\n<p>Lhe transmitiu, e a caminhar come\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c2ngela os lindos bra\u00e7os sobre os ombros<\/p>\n<p>Trava do austero pai; flores diss\u00e9reis<\/p>\n<p>De parasita, que enroscou seus ramos<\/p>\n<p>Pelo cansado tronco, est\u00e9ril, seco<\/p>\n<p>De \u00e1rvore antiga: \u201cNunca! H\u00e3o de primeiro<\/p>\n<p>A alma arrancar-me! Ou se heis pecado, e a morte<\/p>\n<p>Pena h\u00e1 de ser da cometida culpa,<\/p>\n<p>Convosco descerei \u00e0 campa fria,<\/p>\n<p>Juntos a mergulhar na eternidade.<\/p>\n<p>Israel tem vertido<\/p>\n<p>Um mar de sangue. Embora! \u00e0 tona dele<\/p>\n<p>Verdeja a nossa f\u00e9[xx], a f\u00e9 que anima<\/p>\n<p>O eleito povo, flor suave e bela<\/p>\n<p>Que o medo n\u00e3o desfolha, nem j\u00e1 seca<\/p>\n<p>Ao vento mau da c\u00f3lera dos homens!\u201d<\/p>\n<p>XVI<\/p>\n<p>Tr\u00eamula a voz do peito lhe sa\u00eda.<\/p>\n<p>Das m\u00e3os lhe trava um dos algozes. Ela<\/p>\n<p>Entrega-se risonha,<\/p>\n<p>Como se o c\u00e1lix da amargura extrema<\/p>\n<p>Pelos meles da vida lhe trocassem<\/p>\n<p>Celeste e eterna. O cora\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o<\/p>\n<p>Latejava de espanto e susto. Os olhos<\/p>\n<p>Pousa na filha o desvairado velho.<\/p>\n<p>Que ouviu? \u2014 Atenta nela; o lindo rosto<\/p>\n<p>O c\u00e9u n\u00e3o busca jubiloso e livre,<\/p>\n<p>Antes, como travado de agra pena,<\/p>\n<p>Pende-lhe agora ao ch\u00e3o. Dizia acaso<\/p>\n<p>Entre si mesma uma ora\u00e7\u00e3o, e o nome<\/p>\n<p>De Jesus repetia, mas t\u00e3o baixo,<\/p>\n<p>Que o cora\u00e7\u00e3o do pai mal p\u00f4de ouvir-lho.<\/p>\n<p>Mas ouviu-lho; e t\u00e3o forte amor, tamanho<\/p>\n<p>Sacrif\u00edcio da vida a alma lhe rasga<\/p>\n<p>E deslumbra. Escoou-se um breve tempo<\/p>\n<p>De sil\u00eancio; ele e ela, os tristes noivos,<\/p>\n<p>Como se a eterna noite os recebera,<\/p>\n<p>Gelados eram; levantar n\u00e3o ousam<\/p>\n<p>Um para o outro os arrasados olhos<\/p>\n<p>De mal contidas e teimosas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>XVII<\/p>\n<p>Nuno enfim, lentamente e a custo arranca<\/p>\n<p>Do cora\u00e7\u00e3o estas palavras: \u201cFora<\/p>\n<p>Miseric\u00f3rdia ao menos confess\u00e1-lo<\/p>\n<p>Quando ao fogo do b\u00e1rbaro inimigo<\/p>\n<p>Me era f\u00e1cil deixar o derradeiro<\/p>\n<p>Sopro da vida. Pr\u00eamio \u00e9 este acaso<\/p>\n<p>De tamanho lidar? Que mal te hei feito,<\/p>\n<p>Porque me d\u00eas t\u00e3o b\u00e1rbara e medonha<\/p>\n<p>Morte, como esta, em que o cad\u00e1ver guarda<\/p>\n<p>Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto<\/p>\n<p>Da vida que fugiu?\u201d \u00c2ngela os olhos<\/p>\n<p>Magoados ergue; arfa-lhe o peito aflito,<\/p>\n<p>Como o dorso da vaga que intumesce<\/p>\n<p>A asa da tempestade. \u201cAdeus!\u201d suspira<\/p>\n<p>E a fronte abriga no paterno seio.<\/p>\n<p>XVIII<\/p>\n<p>O rebelde anci\u00e3o, domado entanto,<\/p>\n<p>Afracar-se-lhe sente dentro d\u2019alma<\/p>\n<p>O sentimento velho que bebera<\/p>\n<p>Com o leite dos seus; e sem que o l\u00e1bio<\/p>\n<p>Transmita a ouvidos de homem<\/p>\n<p>O duvidar do cora\u00e7\u00e3o, murmura<\/p>\n<p>Dentro de si: \u201cT\u00e3o poderosa \u00e9 essa<\/p>\n<p>Ing\u00eanua f\u00e9, que inda negando o nome<\/p>\n<p>Do seu Deus, confiada aceita a morte,<\/p>\n<p>E guarda puro o sentimento interno<\/p>\n<p>Com que o v\u00e9u rasgar\u00e1 da eternidade?<\/p>\n<p>\u00d3 Nazareno, \u00f3 filho do mist\u00e9rio,<\/p>\n<p>Se \u00e9 tua lei a \u00fanica da vida<\/p>\n<p>Escreve-ma no peito; e d\u00e1 que eu veja<\/p>\n<p>Morrer comigo a filha de meus olhos<\/p>\n<p>E unidos irmos, pela porta imensa<\/p>\n<p>Do teu perd\u00e3o, \u00e0 eternidade tua!\u201d<br \/>\nXIX<\/p>\n<p>Mergulhara de todo o sol no ocaso,<\/p>\n<p>E a noite, clara, deliciosa e bela,<\/p>\n<p>A cidade cobriu, \u2014 n\u00e3o sossegada,<\/p>\n<p>Como costuma, \u2014 por\u00e9m leda e viva,<\/p>\n<p>Cheia de luz, de cantos e rumores,<\/p>\n<p>Vitoriosa enfim. Eles, calados,<\/p>\n<p>Foram por entre a multid\u00e3o alegre,<\/p>\n<p>A penetrar o c\u00e1rcere sombrio.<\/p>\n<p>Donde ao mar passar\u00e3o, que os leve \u00e0s praias<\/p>\n<p>Da anci\u00e3 Europa. Carregado o rosto,<\/p>\n<p>Ia o pai; ela, n\u00e3o. Serena e meiga,<\/p>\n<p>Entra afouta o caminho da amargura,<\/p>\n<p>A custo sofreando internas m\u00e1goas<\/p>\n<p>Da amarga vida, breve flor como ela,<\/p>\n<p>Que inda mais breve a mente lhe afigura.<\/p>\n<p>Anjo, descera da regi\u00e3o celeste<\/p>\n<p>A pairar sobre o abismo; anjo, subia<\/p>\n<p>De novo \u00e0 esfera luminosa e eterna,<\/p>\n<p>P\u00e1tria sua. Levar-lhe-\u00e1 Deus em conta<\/p>\n<p>O muito amor e o padecer extremo,<\/p>\n<p>Quando romper a t\u00fanica da vida<\/p>\n<p>E o sil\u00eancio imortal fechar seus l\u00e1bios.<\/p>\n<p>JOS\u00c9 BONIF\u00c1CIO[xxi]<\/p>\n<p>De tantos olhos que o brilhante lume<\/p>\n<p>Viram do sol amortecer no ocaso,<\/p>\n<p>Quantos ver\u00e3o nas orlas do horizonte<\/p>\n<p>Resplandecer a aurora?<\/p>\n<p>In\u00fameras, no mar da eternidade,<\/p>\n<p>As gera\u00e7\u00f5es humanas v\u00e3o caindo;<\/p>\n<p>Sobre elas vai lan\u00e7ando o esquecimento<\/p>\n<p>A pesada mortalha.<\/p>\n<p>Da agita\u00e7\u00e3o est\u00e9ril em que as for\u00e7as<\/p>\n<p>Consumiram da vida, raro apenas<\/p>\n<p>Um eco chega aos s\u00e9culos remotos,<\/p>\n<p>E o mesmo tempo o apaga.<\/p>\n<p>Vivos transmite a popular mem\u00f3ria<\/p>\n<p>O g\u00eanio criador e a s\u00e3 virtude,<\/p>\n<p>Os que o p\u00e1trio torr\u00e3o honrar souberam,<\/p>\n<p>E honrar a esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>Vivo ir\u00e1s tu, egr\u00e9gio e Nobre Andrada!<\/p>\n<p>Tu, cujo nome, entre os que \u00e0 p\u00e1tria deram<\/p>\n<p>O batismo da amada independ\u00eancia,<\/p>\n<p>Perpetuamente fulge.<\/p>\n<p>O engenho, as for\u00e7as, o saber, a vida<\/p>\n<p>Tu votaste \u00e0 liberdade nossa,<\/p>\n<p>Que a teus olhos nasceu, e que teus olhos<\/p>\n<p>Inconcussa deixaram.<\/p>\n<p>Nunca interesse vil manchou teu nome,<\/p>\n<p>Nem abjectas paix\u00f5es; teu peito ilustre<\/p>\n<p>Na viva chama ardeu que os homens leva<\/p>\n<p>Ao sacrif\u00edcio honrado.<\/p>\n<p>Se teus restos h\u00e1 muito que repousam<\/p>\n<p>No p\u00f3 comum das gera\u00e7\u00f5es extintas,<\/p>\n<p>A p\u00e1tria livre que legaste aos netos,<\/p>\n<p>E te venera e ama,<\/p>\n<p>Nem a face mortal consente \u00e0 morte<\/p>\n<p>Que te roube, e no bronze redivivo<\/p>\n<p>O austero vulto restitui aos olhos<\/p>\n<p>Das vindouras idades.<\/p>\n<p>\u201cVede\u201d (lhes diz) o cidad\u00e3o que teve<\/p>\n<p>Larga parte no largo monumento<\/p>\n<p>Da liberdade, a cujo seio os povos<\/p>\n<p>Do Brasil te acolheram<\/p>\n<p>Pode o tempo varrer, um dia, ao longe,<\/p>\n<p>A f\u00e1brica robusta; mas os nomes<\/p>\n<p>Dos que o fundaram viver\u00e3o eternos,<\/p>\n<p>E viver\u00e1s, Andrada!\u201d<br \/>\nA VIS\u00c3O DE JACI\u00daCA<\/p>\n<p>O\u00f9 sont ces \u00e2mes guerri\u00e8res&#8230; et ces arcs<\/p>\n<p>Qu\u2019on ne vit jamais tendus en vain?<\/p>\n<p>BOSSUET: Orais. fun. de la princesse Palatine.<\/p>\n<p>Prestes de novo a batalhar, chegavam<\/p>\n<p>Os valentes guerreiros. Mas onde ele,<\/p>\n<p>O duro chefe da indom\u00e1vel tribo,<\/p>\n<p>O senhor das montanhas? Afirmava<\/p>\n<p>Tatupeba que o vira, antes da aurora,<\/p>\n<p>Erguer-se, e ao longo do vizinho rio,<\/p>\n<p>Por algum tempo caminhar calado,<\/p>\n<p>Como se o abafara um pensamento<\/p>\n<p>E lhe impedira o sono. V\u00e3o receio<\/p>\n<p>De batalhar? Oh! n\u00e3o! Quase na inf\u00e2ncia,<\/p>\n<p>A torva catadura viu da guerra,<\/p>\n<p>Of\u00edcio de homens, que aprendeu brincando<\/p>\n<p>Com seu pai, extremado entre os guerreiros,<\/p>\n<p>E na bravura e na prud\u00eancia; a frecha<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m soubera menear como ele,<\/p>\n<p>Nem mais veloz nem mais certeira nunca.<\/p>\n<p>A lentos passos caminhando chega,<\/p>\n<p>Enfim, o bravo Jaci\u00faca. Torvo<\/p>\n<p>E merenc\u00f3rio traz o duro aspecto.<\/p>\n<p>\u201cVamos (diz ele) a descansar na taba,<\/p>\n<p>Entre festas e dan\u00e7as; penduremos<\/p>\n<p>As armas nossas, que sobeja h\u00e1 sido<\/p>\n<p>A gl\u00f3ria, e a doce paz nos chama.\u201d<\/p>\n<p>Leve,<\/p>\n<p>Surdo rumor entre os guerreiros soa;<\/p>\n<p>Vai subindo, \u00e9 rugido, \u00e9 j\u00e1 tumulto,<\/p>\n<p>Como o grunhir de traja\u00e7us no mato,<\/p>\n<p>Que se aproxima e cresce. Jaci\u00faca<\/p>\n<p>Olhos quietos pelo campo estende;<\/p>\n<p>Seu feio rosto \u00e9 como a rocha dura<\/p>\n<p>Que o raio quebra, mas n\u00e3o lasca o vento.<\/p>\n<p>Fecha os l\u00e1bios e pensativo espera.<\/p>\n<p>Tatupeba, que a raiva a custo esconde,<\/p>\n<p>Ergue-se ent\u00e3o; crava-lhe os fulvos olhos,<\/p>\n<p>Como a afiada ponta de uma frecha.<\/p>\n<p>Seu porte, entre os irm\u00e3os, semelha \u00e0 vista<\/p>\n<p>Jequitib\u00e1 robusto; mais que todos,<\/p>\n<p>Terror inspira e universal respeito.<\/p>\n<p>Ergue-se e fala: \u201cLongos s\u00f3is hei visto,<\/p>\n<p>Pelejei muitas guerras; a meu lado<\/p>\n<p>Vi cair mais valentes do que folhas<\/p>\n<p>Arranca o furac\u00e3o; mas nunca o \u00e2nimo<\/p>\n<p>Dos lidadores abalou a palavra<\/p>\n<p>Como essa tua; nunca os bra\u00e7os nossos<\/p>\n<p>Ficar deixaram nos desertos campos<\/p>\n<p>Os ossos n\u00e3o vingados dos guerreiros.<\/p>\n<p>Que g\u00eanio mau te insinuou tal crime?\u201d<\/p>\n<p>Assim falando, Tatupeba o solo<\/p>\n<p>Com a planta feriu. Os olhos todos<\/p>\n<p>Pendem da boca do sombrio chefe.<\/p>\n<p>Silencioso Jaci\u00faca ouvira<\/p>\n<p>As falas do guerreiro; silencioso<\/p>\n<p>E quieto ficou. Ap\u00f3s instantes,<\/p>\n<p>A fronte sacudiu, como expelindo<\/p>\n<p>Id\u00e9ias m\u00e1s que o c\u00e9rebro lhe turvam,<\/p>\n<p>E a voz lhe rompe do \u00edntimo do peito.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 guerreiros (diz ele), aqui deitados<\/p>\n<p>Estivestes a noite, e toda inteira<\/p>\n<p>A dormistes de certo; eu, n\u00e3o distante,<\/p>\n<p>Do rio \u00e0 margem a trabalhar comigo,<\/p>\n<p>Afiava na mente atra vingan\u00e7a;<\/p>\n<p>At\u00e9 que os frouxos membros desca\u00edram<\/p>\n<p>Sobre a macia relva, e um tempo largo<\/p>\n<p>Assim fiquei entre vig\u00edlia e sono.<\/p>\n<p>Viam meus olhos ondular as \u00e1guas,<\/p>\n<p>Mas no alheado pensamento os ecos<\/p>\n<p>Sussurravam da inf\u00e2ncia. Um g\u00eanio amigo<\/p>\n<p>Aos tempos me levava em que no rosto<\/p>\n<p>De meu pai aprendi, com frio pasmo,<\/p>\n<p>A rara intrepidez, v\u00e1lida heran\u00e7a,<\/p>\n<p>Que tanto custa ao p\u00e9rfido inimigo.<\/p>\n<p>De repente, uma luz p\u00e1lida e triste<\/p>\n<p>Inunda o campo: transparente n\u00e9voa<\/p>\n<p>E luminosa aquilo parecia,<\/p>\n<p>Ou ba\u00e7o refletir da branca lua<\/p>\n<p>Que nuvens cobrem. L\u00edvido e curvado,<\/p>\n<p>I\u00e7a\u00edba a meus olhos aparece.<\/p>\n<p>Vi-o qual era antes da fria morte;<\/p>\n<p>S\u00f3 a express\u00e3o do rosto lhe mudara;<\/p>\n<p>En\u00e9rgicas n\u00e3o tinha, mas serenas<\/p>\n<p>As fei\u00e7\u00f5es. \u201cVem comigo!\u201d Assim me fala<\/p>\n<p>O extinto bravo; e , s\u00fabito estreitando<\/p>\n<p>Ao peito o corpo do saudoso amigo,<\/p>\n<p>Juntos voamos \u00e0 regi\u00e3o das nuvens.<\/p>\n<p>\u201cOlha!\u201d disse I\u00e7a\u00edba, e o bra\u00e7o alonga<\/p>\n<p>Para a terra. \u00d3 guerreiros! largo espa\u00e7o<\/p>\n<p>Era presa de alheio senhorio.<\/p>\n<p>Fitei os olhos mais; e pouco a pouco,<\/p>\n<p>Como enche o rio e todo o campo alaga,<\/p>\n<p>Umas gentes estranhas se estendiam<\/p>\n<p>De sert\u00e3o em sert\u00e3o. Presas do fogo<\/p>\n<p>As matas vi, abrigo do guerreiro,<\/p>\n<p>E ao torvo inc\u00eandio e \u00e0s invas\u00f5es da morte<\/p>\n<p>Vi as tribos fugir, ceder a custo,<\/p>\n<p>Com l\u00e1grimas alguns, todos com sangue,<\/p>\n<p>A virgem terra ao b\u00e1rbaro inimigo.<\/p>\n<p>Mau vento os trouxe de remota praia<\/p>\n<p>Aqueles homens novos, jamais vistos<\/p>\n<p>De guerreiro anci\u00e3o, a quem n\u00e3o coube<\/p>\n<p>Sequer a gl\u00f3ria de morrer contente<\/p>\n<p>E todo reviver na ousada prole.<\/p>\n<p>Era o termo da vida que chegara<\/p>\n<p>Ao povo de Tup\u00e3! Grito de morte<\/p>\n<p>\u00danico enchia os ares, \u2014 um suspiro<\/p>\n<p>De tristeza e terror, que reboava<\/p>\n<p>Pelos recessos da floresta antiga<\/p>\n<p>E talvez ameigava o peito \u00e0s feras&#8230;<\/p>\n<p>Surdos os manit\u00f4s deixado haviam<\/p>\n<p>Os seus fortes her\u00f3is; surdos se foram<\/p>\n<p>Entre os g\u00eanios folgar da ra\u00e7a nova,<\/p>\n<p>E rir talvez das l\u00e1grimas choradas<\/p>\n<p>Pelos olhos das virgens&#8230; Oh! se ao menos<\/p>\n<p>Fora pranto de livres! Era a morte<\/p>\n<p>A menor das ang\u00fastias; vi curvada<\/p>\n<p>E cativa rojar no p\u00f3 da terra<\/p>\n<p>A fronte do guerreiro, agora altiva,<\/p>\n<p>Livre, como o condor que frecha as nuvens;<\/p>\n<p>N\u00e3o canitar a cinge, mas vergonha,<\/p>\n<p>Melanc\u00f3lico adorno do vencido.<\/p>\n<p>O rosto desviei do estranho quadro.<\/p>\n<p>\u201cOlha!\u201d repete o p\u00e1lido I\u00e7a\u00edba.<\/p>\n<p>Olhei de novo, e na saudosa taba,<\/p>\n<p>Que os nossos arcos defender souberam,<\/p>\n<p>Em vez da sombra do piaga santo,<\/p>\n<p>Que, ao som do marac\u00e1, colhia as vozes<\/p>\n<p>Do pensamento eterno, e as infundia<\/p>\n<p>No seio do guerreiro, como o fumo<\/p>\n<p>Do petum lhe dobrava \u00edmpeto e for\u00e7a,<\/p>\n<p>Um vulto descobri de vestes negras,<\/p>\n<p>Nua quase a cabe\u00e7a, e cor de espuma<\/p>\n<p>Alguns cabelos raros. Tinha o rosto<\/p>\n<p>Alvo e quieto. Em suas m\u00e3os sustinha<\/p>\n<p>Extenso lenho com dois curtos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Ia s\u00f3; todo o campo era deserto.<\/p>\n<p>Nem um guerreiro! um arco! \u201cA tribo?\u201d \u201cExtinta!\u201d<\/p>\n<p>\u201cA tal palavra, uma pesada sombra<\/p>\n<p>A vista me apagou, e pela face<\/p>\n<p>Senti rolar a l\u00e1grima primeira.<\/p>\n<p>O sinistro espet\u00e1culo mudara.<\/p>\n<p>Ao dissipar-se a nuvem de meus olhos<\/p>\n<p>Achei-me junto do vizinho rio,<\/p>\n<p>Reclinado como antes, e defronte<\/p>\n<p>A p\u00e1lida figura de I\u00e7a\u00edba.<\/p>\n<p>\u201cTorna \u00e0 taba\u201d, me disse o extinto mo\u00e7o;<\/p>\n<p>Luas e luas volver\u00e3o no espa\u00e7o<br \/>\nAntes da morte, mas a morte \u00e9 certa,<\/p>\n<p>E terr\u00edvel ser\u00e1. Na\u00e7\u00e3o bem outra,<\/p>\n<p>Sobre as ru\u00ednas da valente ra\u00e7a<\/p>\n<p>Vir\u00e1 sentar-se, e brilhar\u00e1 na terra<\/p>\n<p>Gloriosa e rica. Uma chorada l\u00e1grima,<\/p>\n<p>Talvez, talvez, no meio de triunfos.<\/p>\n<p>H\u00e1 de ser a tardia, escassa paga<\/p>\n<p>Da morte nossa. Poupa ao menos essa<\/p>\n<p>Derradeira esperan\u00e7a de guard\u00e1-lo<\/p>\n<p>Todo o valor para o supremo dia<\/p>\n<p>E com honra ceder a estranhas hostes;<\/p>\n<p>Salva ao menos as \u00faltimas rel\u00edquias<\/p>\n<p>Desta na\u00e7\u00e3o vencida; n\u00e3o se rasguem<\/p>\n<p>Peitos que irm\u00e3os ao mesmo sol nasceram<\/p>\n<p>E Anhang\u00e1 fez contr\u00e1rios[xxii]&#8230; Todos eles<\/p>\n<p>Poucos ser\u00e3o para a tremenda luta,<\/p>\n<p>Mas de sobra h\u00e3o de ser para chor\u00e1-la.\u2019<\/p>\n<p>\u201cAssim falara o p\u00e1lido I\u00e7a\u00edba;<\/p>\n<p>Alguns instantes contemplou meu rosto,<\/p>\n<p>Calado e firme. A cachoeira ao longe<\/p>\n<p>Interrompia apenas o sil\u00eancio;<\/p>\n<p>E eu morto, eu mesmo me sentia morto.<\/p>\n<p>Ele um triste suspiro magoado<\/p>\n<p>Soltou do peito; os apagados olhos<\/p>\n<p>\u00c0s estrelas ergueu, sereno e triste,<\/p>\n<p>E de novo rompendo o v\u00f4o aos ares,<\/p>\n<p>Como uma frecha penetrou nas nuvens.\u201d<br \/>\nA GON\u00c7ALVES DIAS<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m vir\u00e1, com titubeantes passos,<\/p>\n<p>E os olhos lacrimosos, procurando<\/p>\n<p>O meu jazigo&#8230;<\/p>\n<p>GON\u00c7ALVES DIAS. \u00daltimos Cantos.<\/p>\n<p>Tu vive e goza luz serena e pura.<\/p>\n<p>J. BAS\u00cdLIO DA GAMA. Uraguai, c. V.<\/p>\n<p>Assim vagou por alongados climas,<\/p>\n<p>E do naufr\u00e1gio os \u00famidos vestidos<\/p>\n<p>Ao calor enxugou de estranhos lares<\/p>\n<p>O lusitano vate. Acerbas penas<\/p>\n<p>Curtiu naquelas regi\u00f5es; e o Ganges,<\/p>\n<p>Se o viu chorar, n\u00e3o viu pousar calada,<\/p>\n<p>Como a harpa dos \u00eaxules profetas,<\/p>\n<p>A her\u00f3ica tuba. Ele a embocou, vencendo<\/p>\n<p>Co\u2019a lembran\u00e7a do ninho seu paterno,<\/p>\n<p>Longas saudades e m\u00edseras tantas.<\/p>\n<p>Que monta o padecer? Um s\u00f3 momento<\/p>\n<p>As m\u00e1goas lhe pagou da vida; a p\u00e1tria<\/p>\n<p>Reviu, ap\u00f3s a suspirar por ela;<\/p>\n<p>E a velha terra sua<\/p>\n<p>O despojo mortal cobriu piedosa<\/p>\n<p>E de sobejo o compensou de ingratos.<\/p>\n<p>Mas tu, cantor da Am\u00e9rica, roubado<\/p>\n<p>T\u00e3o cedo ao nosso orgulho, n\u00e3o te coube<\/p>\n<p>Na terra em que primeiro houveste o lume<\/p>\n<p>Do nosso sol, achar o \u00faltimo leito!<\/p>\n<p>N\u00e3o te coube dormir no ch\u00e3o amado,<\/p>\n<p>Onde a luz frouxa da serena lua,<\/p>\n<p>Por noite silenciosa, entre a folhagem<\/p>\n<p>Coasse os raios \u00famidos e frios,<\/p>\n<p>Com que ela chora os mortos&#8230; derradeiras<\/p>\n<p>L\u00e1grimas certas que ter\u00e1 na campa<\/p>\n<p>O infeliz que n\u00e3o deixa sobre a terra<\/p>\n<p>Um cora\u00e7\u00e3o ao menos que o pranteie.<\/p>\n<p>Vinha contudo o p\u00e1lido poeta<\/p>\n<p>Os desmaiados olhos estendendo<\/p>\n<p>Pela azul extens\u00e3o das grandes \u00e1guas,<\/p>\n<p>A pesquisar ao longe o esquivo fumo<\/p>\n<p>Dos p\u00e1trios tetos. Na abatida fronte<\/p>\n<p>Ave da morte as asas lhe ro\u00e7ara;<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o cobrou nos ares novos,<\/p>\n<p>A vida, que em vig\u00edlias e trabalhos,<\/p>\n<p>Em prol dos seus, gastou por longos anos,<\/p>\n<p>Co\u2019essa largueza de \u00e2nimo fadado<\/p>\n<p>A entornar generoso a vital seiva.<\/p>\n<p>Mas, que importava a morte, se era doce<\/p>\n<p>Morr\u00ea-la \u00e0 sombra deliciosa e amiga<\/p>\n<p>Dos coqueiros da terra, ouvindo acaso<\/p>\n<p>No murmurar dos rios,<\/p>\n<p>Ou nos suspiros do noturno vento,<\/p>\n<p>Um eco melanc\u00f3lico dos cantos<\/p>\n<p>Que ele outrora entoara? Traz do ex\u00edlio<\/p>\n<p>Um livro, monumento derradeiro<\/p>\n<p>Que \u00e0 p\u00e1tria levantou; ali revive<\/p>\n<p>Toda a mem\u00f3ria do valente povo<\/p>\n<p>Dos seus Timbiras&#8230;<\/p>\n<p>S\u00fabito, nas ondas<\/p>\n<p>Bate os p\u00e9s, espumante e desabrido,<\/p>\n<p>O corcel da tormenta; o horror da morte<\/p>\n<p>Enfia o rosto aos nautas&#8230; Quem por ele,<\/p>\n<p>Um momento hesitou quando na fr\u00e1gil<\/p>\n<p>T\u00e1bua confiou a \u00fanica esperan\u00e7a<\/p>\n<p>Da exist\u00eancia? Mist\u00e9rio obscuro \u00e9 esse<\/p>\n<p>Que o mar n\u00e3o revelou. Ali sozinho,<\/p>\n<p>Travou naquela solid\u00e3o das \u00e1guas<\/p>\n<p>O duelo tremendo, em que a alma e corpo<\/p>\n<p>As suas for\u00e7as \u00faltimas despendem<\/p>\n<p>Pela vida da terra e pela vida<\/p>\n<p>Da eternidade. Quanta imagem torva,<\/p>\n<p>Pelo turbado esp\u00edrito batendo<\/p>\n<p>As fuscas asas, lhe tornou mais triste<\/p>\n<p>Aquele instante f\u00fanebre! Suave<\/p>\n<p>\u00c9 o arranco final, quando o j\u00e1 frouxo<\/p>\n<p>Olhar contempla as l\u00e1grimas do afeto,<\/p>\n<p>E a cabe\u00e7a repousa em seio amigo.<\/p>\n<p>Nem afetos nem prantos; mas somente<\/p>\n<p>A noite, o medo, a solid\u00e3o e a morte.<\/p>\n<p>A alma que ali morava, ing\u00eanua e meiga,<\/p>\n<p>Naquele corpo ex\u00edguo, abandonou-o,<\/p>\n<p>Sem ouvir os solu\u00e7os da tristeza,<\/p>\n<p>Nem o grave salmear que fecha aos mortos<\/p>\n<p>O frio ch\u00e3o. Ela o deixou, bem como<\/p>\n<p>H\u00f3spede mal-aceito e mal dormido,<\/p>\n<p>Que prossegue a jornada, sem que leve<\/p>\n<p>O \u00f3sculo da partida, sem que deixe<\/p>\n<p>No rosto dos que ficam, \u2014 rara embora, \u2014<\/p>\n<p>Uma sombra de p\u00e1lida saudade.<\/p>\n<p>Oh! sobre a terra em que pousaste um dia,<\/p>\n<p>Alma filha de Deus, ficou teu rasto<\/p>\n<p>Como de estrela que perp\u00e9tua fulge!<\/p>\n<p>N\u00e3o viste as nossas l\u00e1grimas; contudo<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria as h\u00e1 vertido.<\/p>\n<p>Tua gl\u00f3ria as secou, bem como orvalho<\/p>\n<p>Que a noite amiga derramou nas flores<\/p>\n<p>E o raio enxuga da nascente aurora.<\/p>\n<p>Na mans\u00e3o a que foste, em que ora vives,<\/p>\n<p>H\u00e1s de escutar um eco do concerto<\/p>\n<p>Das vozes nossas. Ouvir\u00e1s, entre elas,<\/p>\n<p>Talvez, em l\u00e1bios de indiana virgem!<\/p>\n<p>Esta saudosa e suspirada n\u00eania:<\/p>\n<p>\u201cMorto, \u00e9 morto o cantor dos meus guerreiros!<\/p>\n<p>Virgens da mata, suspirai comigo!<\/p>\n<p>A grande \u00e1gua o levou como invejosa.<\/p>\n<p>Nenhum p\u00e9 trilhar\u00e1 seu derradeiro<\/p>\n<p>F\u00fanebre leito; ele repousa eterno<\/p>\n<p>Em s\u00edtio onde nem olhos de valentes,<\/p>\n<p>Nem m\u00e3os de virgens poder\u00e3o tocar-lhes<\/p>\n<p>Os frios restos. Sabi\u00e1-da-praia<\/p>\n<p>De longe o chamar\u00e1 saudoso e meigo,<\/p>\n<p>Sem que ele venha repetir-lhe o canto.<\/p>\n<p>Morto, \u00e9 morto o cantor de meus guerreiros!<\/p>\n<p>Virgens da mata, suspirai comigo!<\/p>\n<p>Ele houvera do Ibaque o dom supremo<\/p>\n<p>De modular nas vozes a ternura,<\/p>\n<p>A c\u00f3lera, o valor, tristeza e m\u00e1goa,<\/p>\n<p>E repetir aos namorados ecos<\/p>\n<p>Quanto vive e reluz no pensamento.<\/p>\n<p>Sobre a margem das \u00e1guas escondidas,<\/p>\n<p>Virgem nenhuma suspirou mais terna,<\/p>\n<p>Nem mais v\u00e1lida a voz ergueu na taba,<\/p>\n<p>Suas nobres a\u00e7\u00f5es cantando aos ventos,<\/p>\n<p>O guerreiro tamoio. Doce e forte,<\/p>\n<p>Brotava-lhe do peito a alma divina.<\/p>\n<p>Morto, \u00e9 morto o cantor dos meus guerreiros!<\/p>\n<p>Virgens da mata, suspirai comigo!<\/p>\n<p>Coema, a doce amada de Itajub\u00e1,<\/p>\n<p>Coema n\u00e3o morreu; a folha agreste<\/p>\n<p>Pode em ramas ornar-lhe a sepultura,<\/p>\n<p>E triste o vento suspirar-lhe em torno;<\/p>\n<p>Ela perdura a virgem dos Timbiras,<\/p>\n<p>Ela vive entre n\u00f3s. Airosa e linda,<\/p>\n<p>Sua nobre figura adorna as festas<\/p>\n<p>E enflora os sonhos dos valentes. Ele,<\/p>\n<p>O famoso cantor quebrou da morte<\/p>\n<p>O eterno jugo; e a filha da floresta<\/p>\n<p>H\u00e1 de a hist\u00f3ria guardar das velhas tabas<\/p>\n<p>Inda depois das \u00faltimas ru\u00ednas.<\/p>\n<p>Morto, \u00e9 morto o cantor dos meus guerreiros!<\/p>\n<p>Virgens da mata, suspirai comigo!<\/p>\n<p>O piaga, que foge a estranhos olhos,<\/p>\n<p>E vive e morre na floresta escura,<\/p>\n<p>Repita o nome do cantor; nas \u00e1guas<\/p>\n<p>Que o rio leva ao mar, mande-lhe ao menos<\/p>\n<p>Uma sentida l\u00e1grima, arrancada<\/p>\n<p>Do cora\u00e7\u00e3o que ele tocara outrora,<\/p>\n<p>Quando o ouviu palpitar sereno e puro,<\/p>\n<p>E na voz celebrou de eternos carmes.<\/p>\n<p>Morto, \u00e9 morto o cantor dos meus guerreiros!<\/p>\n<p>Virgens da mata, suspirai comigo!\u201d<br \/>\nOS SEMEADORES[xxiii]<\/p>\n<p>(S\u00e9culo XVI)<\/p>\n<p>&#8230;Eis a\u00ed saiu o que semeia a semear.<\/p>\n<p>MAT. XIII, 3.<\/p>\n<p>V\u00f3s os que hoje colheis, por esses campos largos,<\/p>\n<p>O doce fruto e a flor,<\/p>\n<p>Acaso esquecereis os \u00e1speros e amargos<\/p>\n<p>Tempos do semeador?<\/p>\n<p>Rude era o ch\u00e3o; agreste e longo aquele dia;<\/p>\n<p>Contudo, esses her\u00f3is<\/p>\n<p>Souberam resistir na afanosa porfia<\/p>\n<p>Aos temporais e aos s\u00f3is.<\/p>\n<p>Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,<\/p>\n<p>E a f\u00e9, e as ora\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Fizeram transformar a terra pobre em rica<\/p>\n<p>E os centos em milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,<\/p>\n<p>O frio, a descalcez,<\/p>\n<p>O morrer cada dia uma morte sem nome,<\/p>\n<p>O morr\u00ea-la, talvez,<\/p>\n<p>Entre b\u00e1rbaras m\u00e3os, como se fora crime,<\/p>\n<p>Como se fora r\u00e9u<\/p>\n<p>Quem lhe ensinara aquela a\u00e7\u00e3o pura e sublime<\/p>\n<p>De as levantar ao c\u00e9u!<\/p>\n<p>\u00d3 Paulos do sert\u00e3o! Que dia e que batalha!<\/p>\n<p>Venceste-a; e podeis<\/p>\n<p>Entre as dobras dormir da secular mortalha;<\/p>\n<p>Vivereis, vivereis!<\/p>\n<p>A FLOR DO EMBIRU\u00c7U<\/p>\n<p>Noite, melhor que o dia, quem n\u00e3o te ama?<\/p>\n<p>FIL. ELIS.<\/p>\n<p>Quando a noturna sombra envolve a terra<\/p>\n<p>E \u00e0 paz convida o lavrador cansado,<\/p>\n<p>\u00c0 fresca brisa o seio delicado<\/p>\n<p>A branca flor do embiru\u00e7u descerra.<\/p>\n<p>E das l\u00edmpidas l\u00e1grimas que chora<\/p>\n<p>A noite amiga, ela recolhe alguma;<\/p>\n<p>A vida bebe na ligeira bruma,<\/p>\n<p>At\u00e9 que rompe no horizonte a aurora.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e0 luz nascente, a flor modesta,<\/p>\n<p>Quando tudo o que vive alma recobra,<\/p>\n<p>Languidamente as suas folhas dobra,<\/p>\n<p>E busca o sono quando tudo \u00e9 festa.<\/p>\n<p>Suave imagem da alma que suspira<\/p>\n<p>E odeia a turba v\u00e3! da alma que sente<\/p>\n<p>Agitar-se-lhe a asa impaciente<\/p>\n<p>E a novos mundos transportar-se aspira!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ela ama as horas silenciosas,<\/p>\n<p>E quando a vida as lutas interrompe,<\/p>\n<p>Ela da carne os duros elos rompe,<\/p>\n<p>E entrega o seio \u00e0s ilus\u00f5es vi\u00e7osas.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo seu, \u2014 tempo, fortuna, espa\u00e7o,<\/p>\n<p>E o c\u00e9u azul e os seus milh\u00f5es de estrelas;<\/p>\n<p>Abrasada de amor, palpita ao v\u00ea-las,<\/p>\n<p>E a todas cinge no ideal abra\u00e7o.<\/p>\n<p>O rosto n\u00e3o encara indiferente,<\/p>\n<p>Nem a traidora m\u00e3o c\u00e2ndida aperta;<\/p>\n<p>Das mentiras da vida se liberta<\/p>\n<p>E entra no mundo que jamais n\u00e3o mente.<\/p>\n<p>Noite, melhor que o dia; quem n\u00e3o te ama?<\/p>\n<p>Labor ingrato, agita\u00e7\u00e3o, fadiga,<\/p>\n<p>Tudo faz esquecer tua asa amiga<\/p>\n<p>Que a alma nos leva onde a ventura a chama.<\/p>\n<p>Ama-te a flor que desabrocha \u00e0 hora<\/p>\n<p>Em que o \u00faltimo olhar o sol lhe estende,<\/p>\n<p>Vive, embala-se, orvalha-se, recende,<\/p>\n<p>E as folhas cerra quando rompe a aurora.<\/p>\n<p>LUA NOVA[xxiv]<\/p>\n<p>M\u00e3e dos frutos, Jaci, no alto espa\u00e7o<\/p>\n<p>Ei-la assoma serena e indecisa:<\/p>\n<p>Sopro \u00e9 dela esta l\u00e2nguida brisa<\/p>\n<p>Que sussurra na terra e no mar.<\/p>\n<p>N\u00e3o se mira nas \u00e1guas do rio,<\/p>\n<p>Nem as ervas do campo branqueia;<\/p>\n<p>Vaga e incerta ela vem, como a id\u00e9ia<\/p>\n<p>Que inda apenas come\u00e7a a espontar.<\/p>\n<p>E iam todos; guerreiros, donzelas,<\/p>\n<p>Velhos, mo\u00e7os, as redes deixavam;<\/p>\n<p>Rudes gritos na aldeia soavam,<\/p>\n<p>Vivos olhos fugiam p\u2019ra o c\u00e9u:<\/p>\n<p>Iam v\u00ea-la, Jaci, m\u00e3e dos frutos,<\/p>\n<p>Que, entre um grupo de brancas estrelas,<\/p>\n<p>Mal cintila: nem p\u00f4de venc\u00ea-las,<\/p>\n<p>Que inda o rosto lhe cobre amplo v\u00e9u.<\/p>\n<p>E um guerreiro: \u201cJaci, doce amada,<\/p>\n<p>Retempera-me as for\u00e7as; n\u00e3o veja<\/p>\n<p>Olho adverso, na dura peleja,<\/p>\n<p>Este bra\u00e7o j\u00e1 frouxo cair.<\/p>\n<p>Vibre a seta, que ao longe derruba<\/p>\n<p>Taja\u00e7u, que roncando caminha;<\/p>\n<p>Nem lhe escape serpente daninha,<\/p>\n<p>Nem lhe fuja pesado tapir\u201d.<\/p>\n<p>E uma virgem: \u201cJaci, doce amada,<\/p>\n<p>Dobra os galhos, carrega esses ramos<\/p>\n<p>Do arvoredo co\u2019as frutas que damos<\/p>\n<p>Aos valentes guerreiros, que eu vou<\/p>\n<p>A busc\u00e1-los na mata sombria,<\/p>\n<p>Por traz\u00ea-los ao mo\u00e7o prudente,<\/p>\n<p>Que venceu tanta guerra valente,<\/p>\n<p>E estes olhos consigo levou\u201d.<\/p>\n<p>E um anci\u00e3o, que a saudara j\u00e1 muitos,<\/p>\n<p>Muitos dias: \u201cJaci, doce amada,<\/p>\n<p>D\u00e1 que seja mais longa a jornada,<\/p>\n<p>D\u00e1 que eu possa saudar-te o nascer,<\/p>\n<p>Quando o filho do filho, que hei visto<\/p>\n<p>Triunfar de inimigo execrando,<\/p>\n<p>Possa as pontas de um arco dobrando<\/p>\n<p>Contra os arcos contr\u00e1rios vencer\u201d.<\/p>\n<p>E eles riam os fortes guerreiros,<\/p>\n<p>E as donzelas e esposas cantavam,<\/p>\n<p>E eram risos que d\u2019alma brotavam,<\/p>\n<p>E eram cantos de paz e de amor.<\/p>\n<p>Rude peito criado nas brenhas,<\/p>\n<p>\u2014 Rude embora, \u2014 terreno \u00e9 prop\u00edcio;<\/p>\n<p>Que onde o g\u00e9rmen lan\u00e7ou benef\u00edcio<\/p>\n<p>Brota, enfolha, verdeja, abre em flor.<br \/>\nSABINA<\/p>\n<p>Sabina era mucama da fazenda;<\/p>\n<p>Vinte anos tinha; e na prov\u00edncia toda<\/p>\n<p>N\u00e3o havia mesti\u00e7a mais \u00e0 moda,<\/p>\n<p>Com suas roupas de cambraia e renda.<\/p>\n<p>Cativa, n\u00e3o entrava na senzala,<\/p>\n<p>Nem tinha m\u00e3os para trabalho rude;<\/p>\n<p>Desbrochava-lhe a sua juventude<\/p>\n<p>Entre carinhos e afei\u00e7\u00f5es de sala.<\/p>\n<p>Era cria da casa. A sinh\u00e1-mo\u00e7a,<\/p>\n<p>Que com ela brincou sendo menina,<\/p>\n<p>Sobre todas amava esta Sabina,<\/p>\n<p>Com esse ing\u00eanuo e puro amor da ro\u00e7a.<\/p>\n<p>Dizem que \u00e0 noite, a suspirar na cama,<\/p>\n<p>Pensa nela o feitor; dizem que um dia,<\/p>\n<p>Um h\u00f3spede que ali passado havia,<\/p>\n<p>P\u00f4s um cord\u00e3o no colo da mucama.<\/p>\n<p>Mas que vale uma j\u00f3ia no pesco\u00e7o?<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de haver o cora\u00e7\u00e3o da bela.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m lhe acende os olhos de gazela,<\/p>\n<p>\u00c9 pessoa maior: \u00e9 o senhor mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Ora, Ot\u00e1vio cursava a Academia.<\/p>\n<p>Era um lindo rapaz; a mesma idade<\/p>\n<p>Co\u2019as passageiras flores o adornava<\/p>\n<p>De cujo extinto aroma inda a mem\u00f3ria<\/p>\n<p>Vive na tarde p\u00e1lida do outono.<\/p>\n<p>Oh! vinte anos! \u00d3 pombas fugitivas<\/p>\n<p>Da primeira esta\u00e7\u00e3o, porque t\u00e3o cedo<\/p>\n<p>Voais de n\u00f3s? Pudesse ao menos a alma<\/p>\n<p>Guardar consigo as ilus\u00f5es primeiras,<\/p>\n<p>Virgindade sem pre\u00e7o, que n\u00e3o paga<\/p>\n<p>Essa descolorida, \u00e1rida e seca<\/p>\n<p>Experi\u00eancia do homem!<\/p>\n<p>Vinte anos<\/p>\n<p>Tinha Ot\u00e1vio, e a beleza e um ar de corte<\/p>\n<p>E o gesto nobre, e sedutor o aspecto;<\/p>\n<p>Um vero Ad\u00f4nis, como aqui diria<\/p>\n<p>Algum poeta cl\u00e1ssico, daquela<\/p>\n<p>Poesia que foi nobre, airosa e grande<\/p>\n<p>Em tempos idos, que ainda bem se foram&#8230;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m eu a adorei, uma hora ao menos,<\/p>\n<p>E suspirei destes remotos climas<\/p>\n<p>Pelas formosas ribas do Escamandro,<\/p>\n<p>Onde descia, entre soldados gregos,<\/p>\n<p>A mo\u00e7a V\u00eanus; fr\u00edvolo suspiro<\/p>\n<p>Que n\u00e3o pode acordar dos seus sepulcros<\/p>\n<p>Esses numes brinc\u00f5es da velha idade,<\/p>\n<p>Mortos por seus pecados \u2014 que os tiveram,<\/p>\n<p>E por sossego nosso. Eram am\u00e1veis<\/p>\n<p>E belos no seu tempo; hoje fariam<\/p>\n<p>Igual papel ao do tardio m\u00e1scara<\/p>\n<p>Que, ao desdobrar a aurora os panos de ouro,<\/p>\n<p>Entre madrugadores se aventura.<\/p>\n<p>Cursava a Academia o mo\u00e7o Ot\u00e1vio;<\/p>\n<p>Ia no ano terceiro: n\u00e3o remoto<\/p>\n<p>Via desenrolar-se o pergaminho,<\/p>\n<p>Pr\u00eamio de seus labores e fadigas;<\/p>\n<p>E uma vez bacharel, via mais longe<\/p>\n<p>Os curvos bra\u00e7os da feliz cadeira<\/p>\n<p>Donde o legislador a r\u00e9dea empunha<\/p>\n<p>Dos l\u00e9pidos fris\u00f5es do Estado. Entanto,<\/p>\n<p>Sobre os livros de estudo, gota a gota<\/p>\n<p>As horas despendia, e trabalhava<\/p>\n<p>Por meter na cabe\u00e7a o jus romano<\/p>\n<p>E o p\u00e1trio jus. Nas suspiradas f\u00e9rias<\/p>\n<p>Volvia ao lar paterno; ali no dorso<\/p>\n<p>De brioso corcel corria os campos,<\/p>\n<p>Ou, arma ao ombro, polvorinho ao lado,<\/p>\n<p>\u00c0 ca\u00e7a dos veados e cotias,<\/p>\n<p>Ia matando o tempo. Algumas vezes<\/p>\n<p>Com o padre vig\u00e1rio se entretinha<\/p>\n<p>Em desfiar um ponto de intrincada<\/p>\n<p>Filosofia, que o senhor de engenho,<\/p>\n<p>Feliz pai, escutava glorioso,<\/p>\n<p>Como a rever-se no brilhante aspecto<\/p>\n<p>Do suas ricas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Era<\/p>\n<p>Manh\u00e3 de estio; erguera-se do leito<\/p>\n<p>Ot\u00e1vio; em quatro sorvos toda esgota<\/p>\n<p>A ta\u00e7a de caf\u00e9. Chap\u00e9u de palha,<\/p>\n<p>E arma ao ombro, l\u00e1 foi terreiro fora,<\/p>\n<p>Passarinhar no mato. Ia costeando<\/p>\n<p>O arvoredo que al\u00e9m beirava o rio,<\/p>\n<p>A passo curto, e o pensamento \u00e0 larga,<\/p>\n<p>Como leve andorinha que sa\u00edsse<\/p>\n<p>Do ninho, a respirar o hausto primeiro<\/p>\n<p>Da manh\u00e3. Pela aberta da folhagem,<\/p>\n<p>Que inda n\u00e3o doura o sol, uma figura<\/p>\n<p>Deliciosa, um busto sobre as ondas<\/p>\n<p>Suspende o ca\u00e7ador. M\u00e3e d\u2019\u00e1gua fora,<\/p>\n<p>Talvez , se a cor de seus quebrados olhos<\/p>\n<p>Imitasse a do c\u00e9u: se a tez morena,<\/p>\n<p>Morena como a esposa dos Cantares,<\/p>\n<p>Alva tivesse; e raios de ouro fossem<\/p>\n<p>Os cabelos da cor da noite escura,<\/p>\n<p>Que ali soltos e \u00famidos lhe caem,<\/p>\n<p>Como um v\u00e9u sobre o colo. Trigueirinha,<\/p>\n<p>Cabelo negro, os largos olhos brandos<\/p>\n<p>Cor de jabuticaba, quem seria,<\/p>\n<p>Quem, sen\u00e3o a mucama da fazenda,<\/p>\n<p>Sabina, enfim? Logo a conhece Ot\u00e1vio,<\/p>\n<p>E nela os olhos espantados fita<\/p>\n<p>Que desejos acendem. \u2014 Mal cuidando<\/p>\n<p>Daquele estranho curioso, a virgem<\/p>\n<p>Com os ligeiros bra\u00e7os rompe as \u00e1guas,<\/p>\n<p>E ora toda se esconde, ora ergue o busto,<\/p>\n<p>Talhado pela m\u00e3o da natureza<\/p>\n<p>Sobre o modelo cl\u00e1ssico. Na oposta<\/p>\n<p>Riba suspira um passarinho; e o canto,<\/p>\n<p>E a meia luz, e o sussurrar das \u00e1guas,<\/p>\n<p>E aquela fada ali, t\u00e3o doce vida<\/p>\n<p>Davam ao quadro, que o ardente aluno<\/p>\n<p>Trocara por aquilo, uma hora ao menos,<\/p>\n<p>A Faculdade, o pergaminho e o resto.<\/p>\n<p>S\u00fabito erige o corpo a ing\u00eanua virgem;<\/p>\n<p>Com as m\u00e3os, os cabelos sobre a esp\u00e1dua<\/p>\n<p>Deita, e rasgando lentamente as ondas,<\/p>\n<p>Para a margem caminha, t\u00e3o serena,<\/p>\n<p>T\u00e3o livre como quem de estranhos olhos<\/p>\n<p>N\u00e3o suspeita a cobi\u00e7a&#8230;V\u00e9u da noite,<\/p>\n<p>Se lhos cobrira, dissipara acaso<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria de l\u00e1grimas. N\u00e3o pode<\/p>\n<p>Furtar-se Ot\u00e1vio \u00e0 como\u00e7\u00e3o que o toma;<\/p>\n<p>A clavina que a esquerda mal sustenta<\/p>\n<p>No ch\u00e3o lhe cai; e o baque surdo acorda<\/p>\n<p>A descuidada nadadora. \u00c0s ondas<\/p>\n<p>A virgem torna. Rompe Ot\u00e1vio o espa\u00e7o<\/p>\n<p>Que os divide; e de p\u00e9, na fina areia,<\/p>\n<p>Que o mole rio lambe, ereto e firme,<\/p>\n<p>Todo se lhe descobre. Um grito apenas<\/p>\n<p>Um s\u00f3 grito, mas \u00fanico, lhe rompe<\/p>\n<p>Do cora\u00e7\u00e3o; terror, vergonha&#8230; e acaso<\/p>\n<p>Prazer, prazer misterioso e vivo<\/p>\n<p>De cativa que amou silenciosa,<\/p>\n<p>E que ama e v\u00ea o objeto de seus sonhos,<\/p>\n<p>Ali com ela, a suspirar por ela.<\/p>\n<p>\u201cFlor da ro\u00e7a nascida ao p\u00e9 do rio,<\/p>\n<p>Ot\u00e1vio come\u00e7ou \u2014 talvez mais bela<\/p>\n<p>Que essas belezas cultas da cidade,<\/p>\n<p>T\u00e3o cobertas de j\u00f3ias e de sedas,<\/p>\n<p>Oh! n\u00e3o me negues teu suave aroma!<\/p>\n<p>Fez-te cativa o ber\u00e7o; a lei somente<\/p>\n<p>Os grilh\u00f5es te lan\u00e7ou; no livre peito<\/p>\n<p>De teus senhores tens a liberdade,<\/p>\n<p>A melhor liberdade, o puro afeto<\/p>\n<p>Que te elegeu entre as demais cativas,<\/p>\n<p>E de afagos te cobre! Flor do mato,<\/p>\n<p>Mais vi\u00e7osa do que essas outras flores<\/p>\n<p>Nas estufas criadas e nas salas,<\/p>\n<p>Rosa agreste nascida ao p\u00e9 do rio<\/p>\n<p>Oh! n\u00e3o me negues teu suave aroma!\u201d<\/p>\n<p>Disse, e da riba os cobi\u00e7osos olhos<\/p>\n<p>Pelas \u00e1guas estende, enquanto os dela,<\/p>\n<p>Cobertos pelas p\u00e1lpebras medrosas<\/p>\n<p>Choram \u2014 de gosto e de vergonha a um tempo,<\/p>\n<p>Duas \u00fanicas l\u00e1grimas. O rio<\/p>\n<p>No seio as recebeu; consigo as leva,<\/p>\n<p>Como gotas de chuva, indiferente<\/p>\n<p>Ao mal ou bem que lhe povoa a margem;<\/p>\n<p>Que assim a natureza, ing\u00eanua e d\u00f3cil<\/p>\n<p>\u00c0s leis do Criador, perp\u00e9tua segue<\/p>\n<p>Em seu mesmo caminho, e deixa ao homem<\/p>\n<p>Padecer e saber que sente e morre.<\/p>\n<p>Pela azulada esfera inda tr\u00eas vezes<\/p>\n<p>A aurora as flores derramou, e a noite<\/p>\n<p>Vezes tr\u00eas a mantilha escura e larga<\/p>\n<p>Misteriosa cingiu. Na quarta aurora,<\/p>\n<p>Anjo das virgens, anjo de asas brancas,<\/p>\n<p>Pudor, onde te foste? A alva capela,<\/p>\n<p>Murcha e desfeita pelo ch\u00e3o lan\u00e7ada,<\/p>\n<p>Coberta a face do rubor do pejo,<\/p>\n<p>Os olhos com as m\u00e3os velando, al\u00e7aste<\/p>\n<p>Para a Eterna Pureza o eterno v\u00f4o.<\/p>\n<p>Quem ao tempo cortar pudera as asas<\/p>\n<p>Se deleitoso voa? Quem pudera<\/p>\n<p>Suster a hora aben\u00e7oada e curta<\/p>\n<p>Da ventura que foge, e sobre a terra<\/p>\n<p>O gozo transportar da eternidade?<\/p>\n<p>Sabina viu correr tecidos de ouro<\/p>\n<p>Aqueles dias \u00fanicos na vida<\/p>\n<p>Toda enlevo e paix\u00e3o, sincera e ardente<\/p>\n<p>Nesse primeiro amor d\u2019alma que nasce<\/p>\n<p>E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias,<\/p>\n<p>Consci\u00eancia; raz\u00e3o, tu lhe fechavas<\/p>\n<p>A vista interior; e ela seguia<\/p>\n<p>Ao sabor dessas horas mal furtadas<\/p>\n<p>Ao cativeiro e \u00e0 solid\u00e3o, sem v\u00ea-lo<\/p>\n<p>O fundo abismo tenebroso e largo<\/p>\n<p>Que a separa do eleito de seus sonhos,<\/p>\n<p>Nem pressentir a brevidade e a morte!<\/p>\n<p>E com que olhos de pena e de saudade<\/p>\n<p>Viu ir-se um dia pela estrada fora<\/p>\n<p>Ot\u00e1vio! Aos livros torna o mo\u00e7o aluno,<\/p>\n<p>N\u00e3o cabisbaixo e triste, mas sereno<\/p>\n<p>E l\u00e9pido. Com ela a alma n\u00e3o fica<\/p>\n<p>De seu jovem senhor. L\u00e1grima pura,<\/p>\n<p>Muito embora de escrava, pela face<\/p>\n<p>Lentamente lhe rola, e lentamente<\/p>\n<p>Toda se esvai num p\u00e1lido sorriso<\/p>\n<p>De m\u00e3e,<\/p>\n<p>Sabina \u00e9 m\u00e3e; o sangue livre<\/p>\n<p>Gira e palpita no cativo seio<\/p>\n<p>E lhe paga de sobra as dores cruas<\/p>\n<p>Da longa aus\u00eancia. Uma por uma, as horas<\/p>\n<p>Na solid\u00e3o do campo h\u00e1 de cont\u00e1-las,<\/p>\n<p>E suspirar pelo remoto dia<\/p>\n<p>Em que o veja de novo&#8230; Pouco importa,<\/p>\n<p>Se o materno sentir compensa os males.<\/p>\n<p>Riem-se dela as outras; \u00e9 seu nome<\/p>\n<p>O assunto do terreiro. Uma invejosa<\/p>\n<p>Acha-lhe uns certos modos singulares<\/p>\n<p>De senhora de engenho; um pajem mo\u00e7o,<\/p>\n<p>De cobi\u00e7a e ci\u00fame devorado,<\/p>\n<p>Desfaz nas gra\u00e7as que em sil\u00eancio adora<\/p>\n<p>E consigo medita uma vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Entre os parceiros, desfiando a palha<\/p>\n<p>Com que entran\u00e7a um chap\u00e9u, solenemente<\/p>\n<p>Um Ca\u00e7anje anci\u00e3o refere aos outros<\/p>\n<p>Alguns casos que viu na mocidade<\/p>\n<p>De cativas amadas e orgulhosas,<\/p>\n<p>Castigadas do c\u00e9u por seus pecados,<\/p>\n<p>Mortas entre os grilh\u00f5es do cativeiro.<\/p>\n<p>Assim falavam eles; tal o aresto<\/p>\n<p>Da opini\u00e3o. Quem evit\u00e1-lo pode<\/p>\n<p>Entre os seus, por mais baixo que a fortuna<\/p>\n<p>Haja tecido o ber\u00e7o? Assim falavam<\/p>\n<p>Os cativos do engenho; e porventura<\/p>\n<p>Sabina o soube e o perdoou.<\/p>\n<p>Volveram<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os dias da saudade os dias<\/p>\n<p>Da esperan\u00e7a. Ora, quis fortuna adversa<\/p>\n<p>Que o cora\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o, t\u00e3o vol\u00favel<\/p>\n<p>Como a brisa que passa ou como as ondas,<\/p>\n<p>Nos cabelos castanhos se prendesse<\/p>\n<p>Da donzela gentil, com quem atara<\/p>\n<p>O la\u00e7o conjugal: uma beleza<\/p>\n<p>Pura, como o primeiro olhar da vida,<\/p>\n<p>Uma flor desbrochada em seus quinze anos,<\/p>\n<p>Que o mo\u00e7o viu num dos ser\u00f5es da corte<\/p>\n<p>E cativo adorou. Que h\u00e1 de fazer-lhes<\/p>\n<p>Agora o pai? Aben\u00e7oar os noivos<\/p>\n<p>E ao rega\u00e7o traz\u00ea-los da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Oh longa foi, longa e ruidosa a festa<\/p>\n<p>Da fazenda, por onde alegre entrara<\/p>\n<p>O mo\u00e7o Ot\u00e1vio conduzindo a esposa.<\/p>\n<p>Viu-os chegar Sabina, os olhos secos<\/p>\n<p>At\u00f4nita e pasmada. Breve o instante<\/p>\n<p>Da vista foi. R\u00e1pido foge. A noite<\/p>\n<p>A seu tr\u00eamulo p\u00e9 n\u00e3o tolhe a marcha;<\/p>\n<p>Voa, n\u00e3o corre ao malfadado rio,<\/p>\n<p>Onde a voz escutou do amado mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Ali chegando: \u201cMorrer\u00e1 comigo<\/p>\n<p>O fruto de meu seio; a luz da terra<\/p>\n<p>Seus olhos n\u00e3o ver\u00e3o; nem ar da vida<\/p>\n<p>H\u00e1 de aspirar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ia a cair nas \u00e1guas,<\/p>\n<p>Quando s\u00fabito horror lhe toma o corpo;<\/p>\n<p>Gelado o sangue e tr\u00eamula recua,<\/p>\n<p>Vacila e tomba sobre a relva. A morte<\/p>\n<p>Em v\u00e3o a chama e lhe fascina a vista;<\/p>\n<p>Vence o instinto de m\u00e3e. Erma e calada<\/p>\n<p>Ali ficou. Viu-a jazer a lua<\/p>\n<p>Largo espa\u00e7o da noite ao p\u00e9 das \u00e1guas,<\/p>\n<p>E ouviu-lhe o vento os tr\u00eamulos suspiros;<\/p>\n<p>Nenhum deles, contudo, o disse \u00e0 aurora.<\/p>\n<p>\u00daLTIMA JORNADA[xxv]<\/p>\n<p>Ils croyent les \u00e2mes eternelles,<\/p>\n<p>et celles qui ont bien merit\u00e9 des dieux estre logees<\/p>\n<p>\u00e0 l\u2019endroict du ciel o\u00f9 le soleil se leve;<\/p>\n<p>les mauldictes, du cost\u00e9 de l\u2019occident.<\/p>\n<p>MONTAIGNE, Essais, liv, I c. XXX<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>E ela se foi nesse clar\u00e3o primeiro,<\/p>\n<p>Aquela esposa m\u00edsera e ditosa;<\/p>\n<p>E ele se foi o p\u00e9rfido guerreiro.<\/p>\n<p>Ela serena ia subindo e airosa,<\/p>\n<p>Ele \u00e0 for\u00e7a de inc\u00f3gnitos pesares<\/p>\n<p>Dobra a cerviz rebelde e lutuosa.<\/p>\n<p>Iam assim, iam cortando os ares,<\/p>\n<p>Deixando em baixo as f\u00e9rtiles campinas,<\/p>\n<p>E as florestas, e os rios e os palmares.<\/p>\n<p>Oh! c\u00e2ndidas lembran\u00e7as infantinas!<\/p>\n<p>Oh! vida alegre da primeira taba!<\/p>\n<p>Que aurora vos tomou, aves divinas?<\/p>\n<p>Como um tronco do mato que desaba,<\/p>\n<p>Tudo caiu; lei b\u00e1rbara e funesta:<\/p>\n<p>O mesmo instante cria e o mesmo acaba.<\/p>\n<p>De esperan\u00e7as tamanhas o que resta?<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria, uma l\u00e1grima chorada<\/p>\n<p>Sobre as \u00faltimas ramas da floresta.<\/p>\n<p>A flor do ip\u00ea a viu brotar magoada,<\/p>\n<p>E talvez a guardou no seio amigo,<\/p>\n<p>Como lembran\u00e7a da esta\u00e7\u00e3o passada.<\/p>\n<p>Agora os dois, deixando o bosque antigo,<\/p>\n<p>E as campinas, e os rios e os palmares,<\/p>\n<p>Para subir ao derradeiro abrigo,<\/p>\n<p>Iam cortando lentamente os ares.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>E ele chamava \u00e0 mo\u00e7a que ascendia:<\/p>\n<p>\u201cOh! tu que a doce luz eterna levas,<\/p>\n<p>E v\u00e1s viver na regi\u00e3o do dia,<\/p>\n<p>V\u00ea como rasgam b\u00e1rbaras e sevas<\/p>\n<p>As tristezas mortais ao que se afunda<\/p>\n<p>Quase na fria regi\u00e3o das trevas!<\/p>\n<p>Olha esse sol que a cria\u00e7\u00e3o inunda!<\/p>\n<p>Oh quanta luz, oh quanta doce vida<\/p>\n<p>Deixar-me vai na escurid\u00e3o profunda!<\/p>\n<p>Tu ao menos perdoa-me, querida!<\/p>\n<p>Suave esposa, que eu ganhei roubando,<\/p>\n<p>Perdida agora para mim, perdida!<\/p>\n<p>Ao maldito na morte, ao miserando,<\/p>\n<p>Que mais lhe resta em sua noite impura?<\/p>\n<p>Sequer al\u00edvio ao cora\u00e7\u00e3o nefando.<\/p>\n<p>Nos olhos trago a tua morte escura.<\/p>\n<p>Foi meu \u00f3dio cruel que h\u00e1 decepado,<\/p>\n<p>Ainda em flor, a tua formosura.<\/p>\n<p>Mensageiro de paz, era enviado<\/p>\n<p>Um dia \u00e0 taba de teus pais, um dia<\/p>\n<p>Que melhor fora se n\u00e3o fora nado.<\/p>\n<p>Ali te vi; ali, entre a alegria<\/p>\n<p>De teus fortes guerreiros e donzelas,<\/p>\n<p>Teu doce rosto para mim sorria.<\/p>\n<p>A mais bela eras tu entre as mais belas,<\/p>\n<p>Como no c\u00e9u a criadora lua<\/p>\n<p>Vence na luz as v\u00edvidas estrelas.<\/p>\n<p>Gentil nasceste por desgra\u00e7a tua;<\/p>\n<p>Eu covarde nasci; tu me seguiste;<\/p>\n<p>E ardeu a guerra desabrida e crua.<\/p>\n<p>Um dia o rosto carregado e triste<\/p>\n<p>\u00c0 taba de teus pais volveste, o rosto<\/p>\n<p>Com que alegre e feliz dali fugiste.<\/p>\n<p>Tinha expirado o passageiro gosto,<\/p>\n<p>Ou o sangue dos teus, correndo a fio,<\/p>\n<p>Em teu seio outro afeto havia posto.<\/p>\n<p>Mas, ou fosse remorso, ou j\u00e1 fastio,<\/p>\n<p>Ias-te agora leve e descuidada,<\/p>\n<p>Como folha que o vento entrega ao rio.<\/p>\n<p>Oh! cor\u00e7a minha fugitiva e amada!<\/p>\n<p>Anhang\u00e1 te guiou por mau caminho,<\/p>\n<p>E a morte p\u00f4s na minha m\u00e3o fechada.<\/p>\n<p>Feriu-me da vingan\u00e7a agudo espinho;<\/p>\n<p>E fiz-te padecer t\u00e3o cruas penas,<\/p>\n<p>Que inda me d\u00f3i o cora\u00e7\u00e3o mesquinho.<\/p>\n<p>Ao contemplar aquelas tristes cenas,<\/p>\n<p>As aves, de piedosas e sentidas,<\/p>\n<p>Chorando foram sacudindo as penas.<\/p>\n<p>N\u00e3o viu o cedro ali correr perdidas<\/p>\n<p>L\u00e1grimas de materno amado seio;<\/p>\n<p>Viu somente morrer a flor das vidas.<\/p>\n<p>O que mais houve da floresta em meio<\/p>\n<p>O sinistro espet\u00e1culo, decerto<\/p>\n<p>Nenhum estranho contempl\u00e1-lo veio.<\/p>\n<p>Mas, se algu\u00e9m penetrasse no deserto<\/p>\n<p>Vira cair pesadamente a massa<\/p>\n<p>Do corpo do guerreiro; e o cr\u00e2nio aberto,<\/p>\n<p>Como se fora derramada ta\u00e7a<\/p>\n<p>Pela terra jazer, ali chamando<\/p>\n<p>O feio grasno do urubu que passa.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o a arma do golpe ir\u00e3o buscando,<\/p>\n<p>Nenhuma houve; nem guerreiro ousado<\/p>\n<p>A tua morte ali foi castigando<\/p>\n<p>Talvez, talvez Tup\u00e3, desconsolado,<\/p>\n<p>A pena contemplou maior do que era<\/p>\n<p>O delito; e de c\u00f3lera tomado,<\/p>\n<p>Ao mais alto dos Andes estendera<\/p>\n<p>O forte bra\u00e7o, e da \u00e1rvore mais forte<\/p>\n<p>A seta e o arco vingador colhera;<\/p>\n<p>As pontas lhe dobrou, da mesma sorte<\/p>\n<p>Que o junco dobra, sussurrando o vento,<\/p>\n<p>E de um s\u00f3 tiro lhe enviou a morte\u201d.<\/p>\n<p>Ia assim suspirando este lamento,<\/p>\n<p>Quando subitamente a voz lhe cala,<\/p>\n<p>Como se a dor lhe sufocara o alento.<\/p>\n<p>No ar se perdera a lastimosa fala,<\/p>\n<p>E o infeliz, condenado \u00e0 noite escura,<\/p>\n<p>Os dentes range e treme de encontr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Leva os olhos na viva aurora pura<\/p>\n<p>Em que v\u00ea penetrar, j\u00e1 longe, aquela<\/p>\n<p>Doce, mimosa, virginal figura.<\/p>\n<p>Assim no campo a t\u00edmida gazela<\/p>\n<p>Foge e se perde; assim no azul dos mares<\/p>\n<p>Some-se e morre fugidia vela.<\/p>\n<p>E nada mais se viu flutuar nos ares;<\/p>\n<p>Que ele, bebendo as l\u00e1grimas que chora,<\/p>\n<p>Na noite entrou dos imortais pesares,<\/p>\n<p>E ela de todo mergulhou na aurora.<br \/>\nOS ORIZES[xxvi]<\/p>\n<p>(FRAGMENTO)<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Nunca as armas crist\u00e3s, nem do Evangelho<\/p>\n<p>O lume criador, nem frecha estranha<\/p>\n<p>O vale penetraram dos guerreiros<\/p>\n<p>Que, entre serros alt\u00edssimos sentado,<\/p>\n<p>Orgulhoso descansa. \u00danico o vento,<\/p>\n<p>Quando as asas desprega impetuoso,<\/p>\n<p>Os campos varre e as selvas estremece,<\/p>\n<p>Um pouco leva, ao recatado asilo,<\/p>\n<p>Da poeira da terra. Acaso o raio<\/p>\n<p>Alguma vez nos \u00e1speros penedos,<\/p>\n<p>Com fogo escreve a assola\u00e7\u00e3o e o susto.<\/p>\n<p>Mas olhos de homem, n\u00e3o; mas bra\u00e7o afeito<\/p>\n<p>A pleitear na guerra, a abrir ousado<\/p>\n<p>Caminho entre a espessura da floresta,<\/p>\n<p>N\u00e3o afrontara nunca os atrevidos<\/p>\n<p>Muros que a natureza a pino erguera<\/p>\n<p>Como eterna atalaia.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Um povo ind\u00f3cil<\/p>\n<p>Nessas brenhas achou ditosa p\u00e1tria,<\/p>\n<p>Livre, como o rebelde pensamento<\/p>\n<p>Que \u00edmpia for\u00e7a n\u00e3o doma, e airoso volve<\/p>\n<p>Inteiro \u00e0 eternidade. Guerra longa<\/p>\n<p>E porfiosa os adestrou nas armas;<\/p>\n<p>Rudes s\u00e3o nos costumes mais que quantos<\/p>\n<p>H\u00e1 criado este sol, quantos na guerra<\/p>\n<p>O tacape meneiam vigoroso.<\/p>\n<p>S\u00f3 nas festas de plumas se ataviam<\/p>\n<p>Ou na pele do tigre o corpo envolvem,<\/p>\n<p>Que o sol queimou, que a rispidez do inverno<\/p>\n<p>Endureceu como os robustos troncos<\/p>\n<p>Que s\u00f3 verga o tuf\u00e3o. Tecer n\u00e3o usam<\/p>\n<p>A pregui\u00e7osa rede em que se embale<\/p>\n<p>O corpo fatigado do guerreiro,<\/p>\n<p>Nem as tabas erguer como outros povos;<\/p>\n<p>Mas \u00e0 sombra das \u00e1rvores antigas,<\/p>\n<p>Ou nas medonhas cavas dos rochedos,<\/p>\n<p>No duro ch\u00e3o, sobre mofinas ervas,<\/p>\n<p>Acham sono de paz, jamais tolhido<\/p>\n<p>De ambi\u00e7\u00f5es, de remorsos. Indom\u00e1vel<\/p>\n<p>Essa terra n\u00e3o \u00e9; pronto lhes volve<\/p>\n<p>O semeado p\u00e3o; vicejam flores<\/p>\n<p>Com que a rudez tempera a extensa mata,<\/p>\n<p>E o fruto pende dos curvados ramos<\/p>\n<p>Do arvoredo. Harta messe do homem rude,<\/p>\n<p>Que tem na ponta da farpada seta<\/p>\n<p>O pesado tapir, que lhes n\u00e3o foge,<\/p>\n<p>Nhandu, que \u00e0 flor de terra inquieta voa,<\/p>\n<p>Sobejo pasto, e deleitoso e puro<\/p>\n<p>Da selvagem na\u00e7\u00e3o. Nunca vaidade<\/p>\n<p>De seu nome souberam, mas a for\u00e7a,<\/p>\n<p>Mas a destreza do provado bra\u00e7o<\/p>\n<p>Os foros s\u00e3o do imp\u00e9rio a que h\u00e3o sujeito<\/p>\n<p>Todo aquele sert\u00e3o. Murmuram longe,<\/p>\n<p>Contra eles, as gentes debeladas<\/p>\n<p>Vingan\u00e7a e \u00f3dio. Os ecos repetiram<\/p>\n<p>Muita vez a pocema de combate;<\/p>\n<p>Nuvens e nuvens de afiadas setas<\/p>\n<p>Todo o ar cobriram; mas o extremo grito<\/p>\n<p>Da vit\u00f3ria final s\u00f3 deles fora.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Despem armas de guerra; a paz os chama<\/p>\n<p>E o seu b\u00e1rbaro rito. Alveja perto<\/p>\n<p>O dia em que primeiro a voz levante<\/p>\n<p>A ave sagrada, o nume de seus bosques,<\/p>\n<p>Que de agouro chamamos, Cupuaba<\/p>\n<p>Melanc\u00f3lica e feia, mas ditosa<\/p>\n<p>E ben\u00e9fica entre eles.[xxvii] N\u00e3o se curvam<\/p>\n<p>Ao nome de Tup\u00e3, que a noite e o dia<\/p>\n<p>No c\u00e9u reparte, e ao r\u00edspido guerreiro<\/p>\n<p>Guarda os sonhos do Ibaque e eternas dan\u00e7as.<\/p>\n<p>Seu deus \u00fanico \u00e9 ela, a benfazeja<\/p>\n<p>Ave amada, que os campos despovoa<\/p>\n<p>Das venenosas serpes, \u2014 viva imagem<\/p>\n<p>Do tempo vingador, lento e seguro,<\/p>\n<p>Que as cal\u00fanias, a inveja e o \u00f3dio apagam,<\/p>\n<p>E ao conspurcado nome o alvor primeiro<\/p>\n<p>Restitui. Uso \u00e9 deles celebrar-lhe<\/p>\n<p>Com festas o primeiro e o extremo canto.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Terminara o cruento sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Ensopa o ch\u00e3o da dilatada selva<\/p>\n<p>Sangue de caititus, que o pio intento<\/p>\n<p>Largos meses cevou; b\u00e1rbara usan\u00e7a<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m de alheios climas. As donzelas,<\/p>\n<p>Mal sa\u00eddas da inf\u00e2ncia, inda embebidas<\/p>\n<p>Nos ledos jogos de primeira idade,<\/p>\n<p>Ao brutal sacrif\u00edcio&#8230; Oh! cala, esconde,<\/p>\n<p>L\u00e1bio crist\u00e3o, mais b\u00e1rbaro costume.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Agora a dan\u00e7a, agora alegres vinhos,<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias h\u00e1 que de inimigos povos<\/p>\n<p>Esquecidos os trazem. Sobre um tronco<\/p>\n<p>Sentado o chefe, carregado o rosto,<\/p>\n<p>Inquieto o olhar, o gesto pensativo,<\/p>\n<p>Como alheio ao prazer, de quando em quando<\/p>\n<p>\u00c0 multid\u00e3o dos seus a vista alonga,<\/p>\n<p>E um rugido no peito lhe murmura.<\/p>\n<p>Quem a fronte enrugara do guerreiro?<\/p>\n<p>Inimigo n\u00e3o foi, que o medo nunca<\/p>\n<p>O sangue lhe esfriou, nem v\u00e3o receio<\/p>\n<p>Da batalha futura o desenlace<\/p>\n<p>Lhe fez incerto. Intr\u00e9pidos como ele<\/p>\n<p>Poucos vira este c\u00e9u. Seu forte bra\u00e7o,<\/p>\n<p>Quando vibra o tacape nas pelejas,<\/p>\n<p>De rasgados cad\u00e1veres o campo<\/p>\n<p>Inteiro alastra, e ao peito do inimigo,<\/p>\n<p>Como um grito de morte a voz lhe soa.<\/p>\n<p>Nem s\u00f3 nas gentes o terror infunde;<\/p>\n<p>\u00c9 fama que em seus olhos cor da noite,<\/p>\n<p>Inda crian\u00e7a, um g\u00eanio lhe deixara<\/p>\n<p>Misteriosa luz, que as for\u00e7as quebra<\/p>\n<p>Da on\u00e7a e do jaguar. Certo \u00e9 que um dia<\/p>\n<p>(A tribo o conta, e seus paj\u00e9s o juram)<\/p>\n<p>Um dia em que, do filho acompanhado,<\/p>\n<p>Ia costeando a orla da floresta,<\/p>\n<p>Um possante jaguar, escancarando<\/p>\n<p>A boca, em frente do famoso chefe<\/p>\n<p>Estacara. De longe um grito surdo<\/p>\n<p>Solta o jovem guerreiro; logo a seta<\/p>\n<p>Embebe no arco, e o tiro sibilante<\/p>\n<p>Ia j\u00e1 disparar, quando de assombro<\/p>\n<p>A m\u00e3o lhe afrouxa a distendida corda.<\/p>\n<p>A fera o colo t\u00edmida abatera,<\/p>\n<p>Sem ousar despregar os fulvos olhos<\/p>\n<p>Dos olhos do inimigo. Urete ousado<\/p>\n<p>Arco e frechas atira para longe,<\/p>\n<p>A massa empunha, e lento, e lento avan\u00e7a;<\/p>\n<p>Tr\u00eas vezes volteando a arma terr\u00edvel,<\/p>\n<p>Enfim despede o golpe; um grito apenas.<\/p>\n<p>\u00danico atroa o solit\u00e1rio campo,<\/p>\n<p>E a fera jaz, e o vencedor sobre ela.<\/p>\n<p>AMERICANAS<\/p>\n<p>(Da Primeira Edi\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>CANTIGA DO ROSTO BRANCO[xxviii]<\/p>\n<p>Rico era o rosto branco; armas trazia,<\/p>\n<p>E o licor que devora e as finas telas;<\/p>\n<p>Na gentil Tibeima os olhos pousa,<\/p>\n<p>E amou a flor das belas.<\/p>\n<p>\u201cQuero-te!\u201d disse \u00e0 cortes\u00e3 da aldeia;<\/p>\n<p>\u201cQuando, junto de ti, teus olhos miro,<\/p>\n<p>A vista se me turva, as for\u00e7as perco,<\/p>\n<p>E quase, e quase expiro.\u201d<\/p>\n<p>E responde a morena requebrando<\/p>\n<p>Um olhar doce, de cobi\u00e7a cheio:<\/p>\n<p>\u201cDeixa em teus l\u00e1bios imprimir meu nome;<\/p>\n<p>Aperta-me em teu seio!\u201d<\/p>\n<p>Uma cabana levantaram ambos,<\/p>\n<p>O rosto branco e a amada flor das belas&#8230;<\/p>\n<p>Mas as riquezas foram-se co\u2019o tempo,<\/p>\n<p>E as ilus\u00f5es com elas.<\/p>\n<p>Quando ele empobreceu, a amada mo\u00e7a<\/p>\n<p>Noutros l\u00e1bios pousou seus l\u00e1bios frios,<\/p>\n<p>E foi ouvir de cora\u00e7\u00e3o estranho<\/p>\n<p>Alheios desvarios.<\/p>\n<p>Desta infidelidade o rosto branco<\/p>\n<p>Triste nova colheu; mas ele amava,<\/p>\n<p>Inda infi\u00e9is, aqueles l\u00e1bios doces,<\/p>\n<p>E tudo perdoava.<\/p>\n<p>Perdoava-lhe tudo, e inda corria<\/p>\n<p>A mendigar o gr\u00e3o de porta em porta,<\/p>\n<p>Com que a mo\u00e7a nutrisse, em cujo peito<\/p>\n<p>Jazia a afei\u00e7\u00e3o morta.<\/p>\n<p>E para si, para afogar a m\u00e1goa,<\/p>\n<p>Se um pouco havia do licor ardente,<\/p>\n<p>A dor que o devorava e renascia<\/p>\n<p>Matava lentamente.<\/p>\n<p>Sempre tra\u00eddo, mas amando sempre,<\/p>\n<p>Ele a raz\u00e3o perdeu; foge \u00e0 cabana,<\/p>\n<p>E vai correr na solid\u00e3o do bosque<\/p>\n<p>Uma carreira insana.<\/p>\n<p>O famoso Sachem, anci\u00e3o da tribo,<\/p>\n<p>Vendo aquela trai\u00e7\u00e3o e aquela pena,<\/p>\n<p>\u00c0 ingrata filha duramente fala,<\/p>\n<p>E r\u00edspido a condena.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o! \u00c9 duro o fruto da papaia,<\/p>\n<p>Que o l\u00e1bio do homem acha doce e puro;<\/p>\n<p>Cora\u00e7\u00e3o de mulher que j\u00e1 n\u00e3o ama<\/p>\n<p>Esse \u00e9 inda mais duro.<\/p>\n<p>Nu qual sa\u00edra do materno ventre,<\/p>\n<p>Olhos cavos, a barba emaranhada,<\/p>\n<p>O m\u00edsero tornou, e ao pr\u00f3prio teto<\/p>\n<p>Veio pedir pousada.<\/p>\n<p>Volvido se cuidava \u00e0 flor da inf\u00e2ncia<\/p>\n<p>(T\u00e3o escuro trazia o pensamento!)<\/p>\n<p>\u201cM\u00e3e!\u201d exclamava contemplando a mo\u00e7a,<\/p>\n<p>\u201cAcolhe-me um momento!\u201d<\/p>\n<p>Vinha faminto. Tibeima, entanto,<\/p>\n<p>Que j\u00e1 de outro guerreiro os dons houvera,<\/p>\n<p>Sentiu asco daquele que outro tempo<\/p>\n<p>As riquezas lhe dera.<\/p>\n<p>Fora o lan\u00e7ou; e ele expirou gemendo<\/p>\n<p>Sobre folhas deitado junto \u00e0 porta;<\/p>\n<p>Anos volveram; co\u2019os volvidos anos,<\/p>\n<p>Tibeima era morta.<\/p>\n<p>Quem ali passa, contemplando os restos<\/p>\n<p>Da cabana, que a erva toda esconde,<\/p>\n<p>Que ru\u00ednas s\u00e3o essas, interroga.<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m lhe responde.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span>www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis POTIRA &#8230;Os Tamoios, entre outras presas que fizeram, levaram esta \u00edndia, a qual pretendeu o capit\u00e3o da empresa violar: resistiu valorosamente dizendo em l\u00edngua bras\u00edlica: \u201cEu sou crist\u00e3 e casada; n\u00e3o hei de fazer trai\u00e7\u00e3o a Deus e a meu marido; bem podes 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