{"id":118955,"date":"2017-04-07T19:23:03","date_gmt":"2017-04-07T21:23:03","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118955"},"modified":"2017-04-07T19:23:03","modified_gmt":"2017-04-07T21:23:03","slug":"verba-testamentaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/verba-testamentaria","title":{"rendered":"Verba Testament\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>&#8220;&#8230;Item, \u00e9 minha \u00faltima vontade que o caix\u00e3o em que o meu corpo houver de ser enterrado, seja fabricado em casa de Joaquim Soares, \u00e0 rua da Alf\u00e2ndega. Desejo que ele tenha conhecimento desta disposi\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m ser\u00e1 p\u00fablica. Joaquim Soares n\u00e3o me conhece; mas \u00e9 digno da distin\u00e7\u00e3o, por ser dos nossos melhores artistas, e um dos homens mais honrados da nossa terra&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Cumpriu-se \u00e0 risca esta verba testament\u00e1ria. Joaquim Soares fez o caix\u00e3o em que foi metido o corpo do pobre Nicolau B. de C.; fabricou-o ele mesmo, con amore; e, no fim, por um movimento cordial, pediu licen\u00e7a para n\u00e3o receber nenhuma remunera\u00e7\u00e3o. Estava pago; o favor do defunto era em si mesmo um pr\u00eamio insigne. S\u00f3 desejava uma coisa: a c\u00f3pia aut\u00eantica da verba. Deram-lha; ele mandou-a encaixilhar e pendurar de um prego, na loja. Os outros fabricantes de caix\u00f5es, passado o assombro, clamaram que o testamento era um desprop\u00f3sito. Felizmente, &#8211; e esta \u00e9 uma das vantagens do estado social, &#8211; felizmente, todas as demais classes acharam que aquela m\u00e3o, saindo do abismo para aben\u00e7oar a obra de um oper\u00e1rio modesto, praticara uma a\u00e7\u00e3o rara e magn\u00e2nima. Era em 1855; a popula\u00e7\u00e3o estava mais conchegada; n\u00e3o se falou de outra coisa. O nome do Nicolau reboou por muitos dias na imprensa da Corte, donde passou \u00e0 das prov\u00edncias. Mas a vida universal \u00e9 t\u00e3o variada, os sucessos acumulam-se em tanta multid\u00e3o, e com tal presteza, e, finalmente, a mem\u00f3ria dos homens \u00e9 t\u00e3o fr\u00e1gil, que um dia chegou em que a a\u00e7\u00e3o de Nicolau mergulhou de todo no olvido.<\/p>\n<p>N\u00e3o venho restaur\u00e1-la. Esquecer \u00e9 uma necessidade. A vida \u00e9 uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. Obra de l\u00e1pis e esponja. N\u00e3o, n\u00e3o venho restaur\u00e1-la. H\u00e1 milhares de a\u00e7\u00f5es t\u00e3o bonitas, ou ainda mais bonitas do que a do Nicolau, e comidas do esquecimento. Venho dizer que a verba testament\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 um efeito sem causa; venho mostrar uma das maiores curiosidades m\u00f3rbidas deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Sim, leitor amado, vamos entrar em plena patologia. Esse menino que a\u00ed v\u00eas, nos fins do s\u00e9culo passado (em 1855, quando morreu, tinha o Nicolau sessenta e oito anos), esse menino n\u00e3o \u00e9 um produto s\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um organismo perfeito. Ao contr\u00e1rio, desde os mais tenros anos, manifestou por atos reiterados que h\u00e1 nele algum v\u00edcio interior, alguma falha org\u00e2nica. N\u00e3o se pode explicar de outro modo a obstina\u00e7\u00e3o com que ele corre a destruir os brinquedos dos outros meninos, n\u00e3o digo os que s\u00e3o iguais aos dele, ou ainda inferiores, mas os que s\u00e3o melhores ou mais ricos. Menos ainda se compreende que, nos casos em que o brinquedo \u00e9 \u00fanico, ou somente raro, o jovem Nicolau console a v\u00edtima com dois ou tr\u00eas pontap\u00e9s; nunca menos de um. Tudo isso \u00e9 obscuro. Culpa do pai n\u00e3o pode ser. O pai era um honrado negociante ou comiss\u00e1rio (a maior parte das pessoas a que aqui se d\u00e1 o nome de comerciantes, dizia o marqu\u00eas de Lavradio, nada mais s\u00e3o que uns simples comiss\u00e1rios), que viveu com certo luzimento, no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo, homem r\u00edspido, austero, que admoestava o filho, e, sendo necess\u00e1rio, castigava-o. Mas nem admoesta\u00e7\u00f5es, nem castigos, valiam nada. O impulso interior do Nicolau era mais eficaz do que todos os bast\u00f5es paternos; e, uma ou duas vezes por semana, o pequeno reincidia no mesmo delito. Os desgostos da fam\u00edlia eram profundos. Deu-se mesmo um caso, que, por suas grav\u00edssimas conseq\u00fc\u00eancias, merece ser contado.<\/p>\n<p>O vice-rei, que era ent\u00e3o o conde de Resende, andava preocupado com a necessidade de construir um cais na praia de D. Manuel. Isto, que seria hoje um simples epis\u00f3dio municipal, era naquele tempo, atentas as propor\u00e7\u00f5es escassas da cidade, uma empresa importante. Mas o vice-rei n\u00e3o tinha recursos; o cofre p\u00fablico mal podia acudir \u00e0s urg\u00eancias ordin\u00e1rias. Homem de estado, e provavelmente fil\u00f3sofo, engendrou um expediente n\u00e3o menos suave que prof\u00edcuo: distribuir, a troco de donativos pecuni\u00e1rios, postos de capit\u00e3o, tenente e alferes. Divulgada a resolu\u00e7\u00e3o, entendeu o pai do Nicolau que era ocasi\u00e3o de figurar, sem perigo, na galeria militar do s\u00e9culo, ao mesmo tempo que desmentia uma doutrina bram\u00e2nica. Com efeito, est\u00e1 nas leis de Manu, que dos bra\u00e7os de Brama nasceram os guerreiros, e do ventre os agricultores e comerciantes; o pai do Nicolau, adquirindo o despacho de capit\u00e3o, corrigia esse ponto da anatomia gent\u00edlica. O outro comerciante, que com ele competia em tudo, embora familiares e amigos, apenas teve not\u00edcia do despacho, foi tamb\u00e9m levar a sua pedra ao cais. Desgra\u00e7adamente, o despeito de ter ficado atr\u00e1s alguns dias, sugeriu-lhe um arb\u00edtrio de mau gosto e, no nosso caso, funesto; foi assim que ele pediu ao vice-rei outro posto de oficial do cais (tal era o nome dado aos agraciados por aquele motivo) para um filho de sete anos. O vice-rei hesitou; mas o pretendente, al\u00e9m de duplicar o donativo, meteu grandes empenhos, e o menino saiu nomeado alferes. Tudo correu em segredo; o pai de Nicolau s\u00f3 teve not\u00edcia do caso no domingo pr\u00f3ximo, na igreja do Carmo, ao ver os dois, pai e filho, vindo o menino com uma fardinha, que, por galanteria, lhe meteram no corpo. Nicolau, que tamb\u00e9m ali estava, fez-se l\u00edvido; depois, num \u00edmpeto, atirou-se sobre o jovem alferes e rasgou-lhe a farda, antes que os pais pudessem acudir. Um esc\u00e2ndalo. O rebuli\u00e7o do povo, a indigna\u00e7\u00e3o dos devotos, as queixas do agredido, interromperam por alguns instantes as cerim\u00f4nias eclesi\u00e1sticas. Os pais trocaram algumas palavras acerbas, fora, no adro, e ficaram brigados para todo o sempre.<\/p>\n<p>&#8211; Este rapaz h\u00e1 de ser a nossa desgra\u00e7a! bradava o pai de Nicolau, em casa, depois do epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Nicolau apanhou ent\u00e3o muita pancada, curtiu muita dor, chorou, solu\u00e7ou; mas de emenda coisa nenhuma. Os brinquedos dos outros meninos n\u00e3o ficaram menos expostos. O mesmo passou a acontecer \u00e0s roupas. Os meninos mais ricos do bairro n\u00e3o sa\u00edam fora sen\u00e3o com as mais modestas vestimentas caseiras, \u00fanico modo de escapar \u00e0s unhas de Nicolau. Com o andar do tempo, estendeu ele a avers\u00e3o \u00e0s pr\u00f3prias caras, quando eram bonitas, ou tidas como tais. A rua em que ele residia, contava um sem-n\u00famero de caras quebradas, arranhadas, conspurcadas. As coisas chegaram a tal ponto, que o pai resolveu tranc\u00e1-lo em casa durante uns tr\u00eas ou quatro meses. Foi um paliativo, e, como tal, excelente. Enquanto durou a reclus\u00e3o, Nicolau mostrou-se nada menos que ang\u00e9lico; fora daquele sestro m\u00f3rbido, era meigo, d\u00f3cil, obediente, amigo da fam\u00edlia, pontual nas rezas. No fim dos quatro meses, o pai soltou-o; era tempo de o meter com um professor de leitura e gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-o comigo, disse o professor; deixe-o comigo, e com esta (apontava para a palmat\u00f3ria)&#8230; Com esta, \u00e9 duvidoso que ele tenha vontade de maltratar os companheiros.<\/p>\n<p>Fr\u00edvolo! tr\u00eas vezes fr\u00edvolo professor! Sim, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, que ele conseguiu poupar os meninos bonitos e as roupas vistosas, castigando as primeiras investidas do pobre Nicolau; mas em que \u00e9 que este sarou da mol\u00e9stia? Ao contr\u00e1rio, obrigado a conter-se, a engolir o impulso, padecia dobrado, fazia-se mais l\u00edvido, com reflexo de verde bronze; em certos casos, era compelido a voltar os olhos ou fech\u00e1-los, para n\u00e3o arrebentar, dizia ele. Por outro lado, se deixou de perseguir os mais graciosos ou melhor adornados, n\u00e3o perdoou aos que se mostravam mais adiantados no estudo; espancava-os, tirava-lhes os livros, e lan\u00e7ava-os fora, nas praias ou no mangue. Rixas, sangue, \u00f3dios, tais eram os frutos da vida, para ele, al\u00e9m das dores cru\u00e9is que padecia, e que a fam\u00edlia teimava em n\u00e3o entender. Se acrescentarmos que ele n\u00e3o p\u00f4de estudar nada seguidamente, mas a trancos, e mal, como os vagabundos comem, nada fixo, nada met\u00f3dico, teremos visto algumas das dolorosas conseq\u00fc\u00eancias do fato m\u00f3rbido, oculto e desconhecido. O pai, que sonhava para o filho a Universidade, vendo-se obrigado a estrangular mais essa ilus\u00e3o, esteve prestes a amaldi\u00e7o\u00e1-lo; foi a m\u00e3e que o salvou.<\/p>\n<p>Saiu um s\u00e9culo, entrou outro, sem desaparecer a les\u00e3o do Nicolau. Morreu-lhe o pai em 1807 e a m\u00e3e em 1809; a irm\u00e3 casou com um m\u00e9dico holand\u00eas, treze meses depois. Nicolau passou a viver s\u00f3. Tinha vinte e tr\u00eas anos; era um dos petimetres da cidade, mas um singular petimetre, que n\u00e3o podia encarar nenhum outro, ou fosse mais gentil de fei\u00e7\u00f5es, ou portador de algum colete especial sem padecer uma dor violenta, t\u00e3o violenta, que o obrigava \u00e0s vezes a trincar o bei\u00e7o at\u00e9 deitar sangue. Tinha ocasi\u00f5es de cambalear; outras de escorrer-lhe pelo canto da boca um fio quase impercept\u00edvel de espuma. E o resto n\u00e3o era menos cruel. Nicolau ficava ent\u00e3o r\u00edspido; em casa achava tudo mau, tudo inc\u00f4modo, tudo nauseabundo; feria a cabe\u00e7a aos escravos com os pratos, que iam partir-se tamb\u00e9m, e perseguia os c\u00e3es, a pontap\u00e9s; n\u00e3o sossegava dez minutos, n\u00e3o comia, ou comia mal. Enfim dormia; e ainda bem que dormia. O sono reparava tudo. Acordava lhano e meigo, alma de patriarca, beijando os c\u00e3es entre as orelhas, deixando-se lamber por eles, dando-lhes do melhor que tinha, chamando aos escravos as coisas mais familiares e ternas. E tudo, c\u00e3es e escravos, esqueciam as pancadas da v\u00e9spera, e acudiam \u00e0s vozes dele obedientes, namorados, como se este fosse o verdadeiro senhor, e n\u00e3o o outro.<\/p>\n<p>Um dia, estando ele em casa da irm\u00e3, perguntou-lhe esta por que motivo n\u00e3o adotava uma carreira qualquer, alguma coisa em que se ocupasse, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o, vou ver, disse ele.<\/p>\n<p>Interveio o cunhado e opinou por um emprego na diplomacia. O cunhado principiava a desconfiar de alguma doen\u00e7a e supunha que a mudan\u00e7a de clima bastava a restabelec\u00ea-lo. Nicolau arranjou uma carta de apresenta\u00e7\u00e3o, e foi ter com o ministro de estrangeiros. Achou-o rodeado de alguns oficiais da secretaria, prestes a ir ao pa\u00e7o, levar a not\u00edcia da segunda queda de Napole\u00e3o, not\u00edcia que chegara alguns minutos antes. A figura do ministro, as circunst\u00e2ncias do momento, as rever\u00eancias dos oficiais, tudo isso deu um tal rebate ao cora\u00e7\u00e3o do Nicolau, que ele n\u00e3o p\u00f4de encarar o ministro. Teimou, seis ou oito vezes, em levantar os olhos, e da \u00fanica em que o conseguiu fizeram-se-lhe t\u00e3o vesgos, que n\u00e3o via ningu\u00e9m, ou s\u00f3 uma sombra, um vulto, que lhe do\u00eda nas pupilas ao mesmo tempo que a face ia ficando verde. Nicolau recuou, estendeu a m\u00e3o tr\u00eamula ao reposteiro, e fugiu.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero ser nada! disse ele \u00e0 irm\u00e3, chegando a casa; fico com voc\u00eas e os meus amigos.<\/p>\n<p>Os amigos eram os rapazes mais antip\u00e1ticos da cidade, vulgares e \u00ednfimos. Nicolau escolhera-os de prop\u00f3sito. Viver segregado dos principais era para ele um grande sacrif\u00edcio; mas, como teria de padecer muito mais vivendo com eles, tragava a situa\u00e7\u00e3o. Isto prova que ele tinha um certo conhecimento emp\u00edrico do mal e do paliativo. A verdade \u00e9 que, com esses companheiros, desapareciam todas as perturba\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas do Nicolau. Ele fitava-os sem lividez, sem olhos vesgos, sem cambalear, sem nada. Al\u00e9m disso, n\u00e3o s\u00f3 eles lhe poupavam a natural irritabilidade, como porfiavam em tornar-lhe a vida, sen\u00e3o deliciosa, tranq\u00fcila; e para isso, diziam-he as maiores finezas do mundo, em atitudes cativas, ou com uma certa familiaridade inferior. Nicolau amava em geral as naturezas subalternas, como os doentes amam a droga que lhes restitui a sa\u00fade; acariciava-as paternalmente, dava-lhes o louvor abundante e cordial, emprestava-lhes dinheiro, distribu\u00eda-lhes mimos, abria-lhes a alma&#8230;<\/p>\n<p>Veio o grito do Ipiranga; Nicolau meteu-se na pol\u00edtica. Em 1823 vamos ach\u00e1-lo na Constituinte. N\u00e3o h\u00e1 que dizer ao modo por que ele cumpriu os deveres do cargo. Integro, desinteressado, patriota, n\u00e3o exercia de gra\u00e7a essas virtudes p\u00fablicas, mas \u00e0 custa de muita tempestade moral. Pode-se dizer, metaforicamente, que a freq\u00fc\u00eancia da c\u00e2mara custava-lhe sangue precioso. N\u00e3o era s\u00f3 porque os debates lhe pareciam insuport\u00e1veis, mas tamb\u00e9m porque lhe era dif\u00edcil encarar certos homens, especialmente em certos dias. Montezuma, por exemplo, parecia-lhe balofo, Vergueiro, ma\u00e7udo, os Andradas, execr\u00e1veis. Cada discurso, n\u00e3o s\u00f3 dos principais oradores, mas dos secund\u00e1rios, era para o Nicolau verdadeiro supl\u00edcio. E, n\u00e3o obstante, firme, pontual. Nunca a vota\u00e7\u00e3o o achou ausente; nunca o nome dele soou sem eco pela augusta sala. Qualquer que fosse o seu desespero, sabia conter-se e p\u00f4r a id\u00e9ia da p\u00e1tria acima do al\u00edvio pr\u00f3prio. Talvez aplaudisse in petto o decreto da dissolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o afirmo; mas h\u00e1 bons fundamentos para crer que o Nicolau, apesar das mostras exteriores, gostou de ver dissolvida a assembl\u00e9ia. E se essa conjetura \u00e9 verdadeira, n\u00e3o menos o ser\u00e1 esta outra: &#8211; que a deporta\u00e7\u00e3o de alguns dos chefes constituintes, declarados inimigos p\u00fablicos, veio aguar-lhe aquele prazer. Nicolau, que padecera com os discursos deles, n\u00e3o menos padeceu com o ex\u00edlio, posto lhes desse um certo relevo. Se ele tamb\u00e9m fosse exilado!<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea podia casar, mano, disse-lhe a irm\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho noiva.<\/p>\n<p>&#8211; Arranjo-lhe uma. Valeu?<\/p>\n<p>Era um plano do marido. Na opini\u00e3o deste, a mol\u00e9stia do Nicolau estava descoberta; era um verme do ba\u00e7o, que se nutria da dor do paciente, isto \u00e9, de uma secre\u00e7\u00e3o especial, produzida pela vista de alguns fatos, situa\u00e7\u00f5es ou pessoas. A quest\u00e3o era matar o verme; mas, n\u00e3o conhecendo nenhuma subst\u00e2ncia qu\u00edmica pr\u00f3pria a destru\u00ed-lo, restava o recurso de obstar \u00e0 secre\u00e7\u00e3o, cuja aus\u00eancia daria igual resultado. Portanto, urgia casar o Nicolau, com alguma mo\u00e7a bonita e prendada, separ\u00e1-lo do povoado, met\u00ea-lo em alguma fazenda, para onde levaria a melhor baixela, os melhores trastes, os mais reles amigos, etc.<\/p>\n<p>&#8211; Todas as manh\u00e3s, continuou ele, receber\u00e1 o Nicolau um jornal que vou mandar imprimir com o \u00fanico fim de lhe dizer as coisas mais agrad\u00e1veis do mundo, e diz\u00ea-las nominalmente, recordando os seus modestos, mas prof\u00edcuos trabalhos da Constituinte, e atribuindo-lhe muitas aventuras namoradas, agudezas de esp\u00edrito, rasgos de coragem. J\u00e1 falei ao almirante holand\u00eas para consentir que, de quando em quando, v\u00e1 ter com Nicolau algum dos nossos oficiais dizer-lhe que n\u00e3o podia voltar para a Haia sem a honra de contemplar um cidad\u00e3o t\u00e3o eminente e simp\u00e1tico, em quem se re\u00fanem qualidades raras, e, de ordin\u00e1rio, dispersas. Voc\u00ea, se puder alcan\u00e7ar de alguma modista, a Gudin, por exemplo, que ponha o nome de Nicolau em um chap\u00e9u ou mantelete, ajudar\u00e1 muito a cura de seu mano. Cartas amorosas an\u00f4nimas, enviadas pelo correio, s\u00e3o um recurso eficaz&#8230; Mas comecemos pelo princ\u00edpio, que \u00e9 cas\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Nunca um plano foi mais conscienciosamente executado. A noiva escolhida era a mais esbelta, ou uma das mais esbeltas da capital. Casou-os o pr\u00f3prio bispo. Recolhido \u00e0 fazenda, foram com ele somente alguns de seus mais triviais amigos; fez-se o jornal, mandaram-se as cartas, peitaram-se as visitas. Durante tr\u00eas meses tudo caminhou \u00e0s mil maravilhas. Mas a natureza, apostada em lograr o homem, mostrou ainda desta vez que ela possui segredos inopin\u00e1veis. Um dos meios de agradar ao Nicolau era elogiar a beleza, a eleg\u00e2ncia e as virtudes da mulher; mas a mol\u00e9stia caminhara, e o que parecia rem\u00e9dio excelente foi simples agrava\u00e7\u00e3o do mal. Nicolau, ao fim de certo tempo, achava ociosos e excessivos tantos elogios \u00e0 mulher, e bastava isto a impacient\u00e1-lo, e a impaci\u00eancia a produzir-lhe a fatal secre\u00e7\u00e3o. Parece mesmo que chegou ao ponto de n\u00e3o poder encar\u00e1-la muito tempo, e a encar\u00e1-la mal; vieram algumas rixas, que seriam o princ\u00edpio de uma; separa\u00e7\u00e3o, se ela n\u00e3o morresse da\u00ed a pouco. A dor do Nicolau foi profunda e verdadeira; mas a cura interrompeu-se logo, porque ele desceu ao Rio de Janeiro, onde o vamos achar, tempos depois, entre os revolucion\u00e1rios de 1831.<\/p>\n<p>Conquanto pare\u00e7a temer\u00e1rio dizer as causas que levaram o Nicolau para o Campo da Aclama\u00e7\u00e3o, na noite de 6 para 7 de abril, penso que n\u00e3o estar\u00e1 longe da verdade quem supuser que &#8211; foi o racioc\u00ednio de um ateniense c\u00e9lebre e an\u00f4nimo. Tanto os que diziam bem, como os que diziam mal do imperador, tinham enchido as medidas ao Nicolau. Esse homem, que inspirava entusiasmos e \u00f3dios, cujo nome era repetido onde quer que o Nicolau estivesse, na rua, no teatro, nas casas alheias, tornou-se uma verdadeira persegui\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida, da\u00ed o fervor com que ele meteu a m\u00e3o no movimento de 1831. A abdica\u00e7\u00e3o foi um al\u00edvio. Verdade \u00e9 que a Reg\u00eancia o achou dentro de pouco tempo entre os seus advers\u00e1rios; e h\u00e1 quem afirme que ele se filiou ao partido caramuru ou restaurador, posto n\u00e3o ficasse prova do ato. O que \u00e9 certo \u00e9 que a vida p\u00fablica do Nicolau cessou com a Maioridade.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a apoderara-se definitivamente do organismo. Nicolau ia, a pouco e pouco, recuando na solid\u00e3o. N\u00e3o podia fazer certas visitas, freq\u00fcentar certas casas. O teatro mal chegava a distra\u00ed-lo. Era t\u00e3o melindroso o estado dos seus \u00f3rg\u00e3os auditivos, que o ru\u00eddo dos aplausos causava-lhe dores atrozes. O entusiasmo da popula\u00e7\u00e3o fluminense para com a famosa Candiani e a Mer\u00e9ia, mas a Candiani principalmente, cujo carro puxaram alguns bra\u00e7os humanos, obs\u00e9quio tanto mais insigne quanto que o n\u00e3o fariam ao pr\u00f3prio Plat\u00e3o, esse entusiasmo foi uma das maiores mortifica\u00e7\u00f5es do Nicolau. Ele chegou ao ponto de n\u00e3o ir mais ao teatro, de achar a Candiani insuport\u00e1vel, e preferir a Norma dos realejos \u00e0 da prima-dona. N\u00e3o era por exagera\u00e7\u00e3o de patriota que ele gostava de ouvir o Jo\u00e3o Caetano, nos primeiros tempos; mas afinal deixou-o tamb\u00e9m, e quase que inteiramente os teatros.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 perdido! pensou o cunhado. Se pud\u00e9ssemos dar-lhe um ba\u00e7o novo&#8230;<\/p>\n<p>Como pensar em semelhante absurdo? Estava naturalmente perdido. J\u00e1 n\u00e3o bastavam os recreios dom\u00e9sticos. As tarefas liter\u00e1rias a que se deu, versos de fam\u00edlia, glosas a pr\u00eamio e odes pol\u00edticas, n\u00e3o duraram muito tempo, e pode ser at\u00e9 que lhe dobrassem o mal. De fato, um dia, pareceu-lhe que essa ocupa\u00e7\u00e3o era a coisa mais rid\u00edcula do mundo, e os aplausos ao Gon\u00e7alves Dias, por exemplo, deram-lhe id\u00e9ia de um povo trivial e de mau gosto. Esse sentimento liter\u00e1rio, fruto de uma les\u00e3o org\u00e2nica, reagiu sobre a mesma les\u00e3o, ao ponto de produzir graves crises, que o tiveram algum tempo na cama. O cunhado aproveitou o momento para desterrar-lhe da casa todos os livros de certo porte.<\/p>\n<p>Explica-se menos o desalinho com que da\u00ed a meses come\u00e7ou a vestir-se. Educado com h\u00e1bitos de eleg\u00e2ncia, era antigo fregu\u00eas de um dos principais alfaiates da Corte, o Plum, n\u00e3o passando um s\u00f3 dia em que n\u00e3o fosse pentear-se ao Desmarais e G\u00e9rard, coiffeurs de la cour, \u00e0 rua do Ouvidor. Parece que achou enfatuada esta denomina\u00e7\u00e3o de cabeleireiros do pa\u00e7o, e castigou-os indo pentear-se a um barbeiro \u00ednfimo. Quanto ao motivo que o levou a trocar de traje, repito que \u00e9 inteiramente obscuro, e a n\u00e3o haver sugest\u00e3o da idade \u00e9 inexplic\u00e1vel. A despedida do cozinheiro \u00e9 outro enigma. Nicolau, por insinua\u00e7\u00e3o do cunhado, que o queria distrair, dava dois jantares por semana; e os convivas eram un\u00e2nimes em achar que o cozinheiro dele primava sobre todos os da capital. Realmente os pratos eram bons, alguns \u00f3timos, mas o elogio era um tanto enf\u00e1tico, excessivo, para o fim justamente de ser agrad\u00e1vel ao Nicolau, e assim aconteceu algum tempo. Como entender, por\u00e9m, que um domingo, acabado o jantar, que fora magn\u00edfico, despedisse ele um var\u00e3o t\u00e3o insigne, causa indireta de alguns dos seus mais deleitosos momentos na terra? Mist\u00e9rio impenetr\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Era um ladr\u00e3o! foi a resposta que ele deu ao cunhado.<\/p>\n<p>Nem os esfor\u00e7os deste nem os da irm\u00e3 e dos amigos, nem os bens, nada melhorou o nosso triste Nicolau. A secre\u00e7\u00e3o do ba\u00e7o tornou-se perene, e o verme reproduziu-se aos milh\u00f5es, teoria que n\u00e3o sei se \u00e9 verdadeira, mas enfim era a do cunhado. Os \u00faltimos anos foram crudel\u00edssimos. Quase se pode jurar que ele viveu ent\u00e3o continuamente verde, irritado, olhos vesgos, padecendo consigo ainda muito mais do que fazia padecer aos outros. A menor ou maior coisa triturava-lhe os nervos: um bom discurso, um artista h\u00e1bil, uma sege, uma gravata, um soneto, um dito, um sonho interessante, tudo dava de si uma crise.<\/p>\n<p>Quis ele deixar-se morrer? Assim se poderia supor, ao ver a impassibilidade com que rejeitou os rem\u00e9dios dos principais m\u00e9dicos da Corte; foi necess\u00e1rio recorrer \u00e0 simula\u00e7\u00e3o, e d\u00e1-los, enfim, como receitados por um ignorant\u00e3o do tempo. Mas era tarde. A morte levou-o ao cabo de duas semanas.<\/p>\n<p>&#8211; Joaquim Soares? bradou at\u00f4nito o cunhado, ao saber da verba testament\u00e1ria do defunto, ordenando que o caix\u00e3o fosse fabricado por aquele industrial. Mas os caix\u00f5es desse sujeito n\u00e3o prestam para nada, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Paci\u00eancia! interrompeu a mulher; a vontade do mano h\u00e1 de cumprir-se.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis &#8220;&#8230;Item, \u00e9 minha \u00faltima vontade que o caix\u00e3o em que o meu corpo houver de ser enterrado, seja fabricado em casa de Joaquim Soares, \u00e0 rua da Alf\u00e2ndega. Desejo que ele tenha conhecimento desta disposi\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m ser\u00e1 p\u00fablica. 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