{"id":118953,"date":"2017-04-07T19:21:14","date_gmt":"2017-04-07T21:21:14","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118953"},"modified":"2017-04-07T19:21:14","modified_gmt":"2017-04-07T21:21:14","slug":"uma-visita-de-alcebiades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/uma-visita-de-alcebiades","title":{"rendered":"Uma visita de Alceb\u00edades"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Carta do desembargador X&#8230; ao chefe de pol\u00edcia da Corte<\/p>\n<p>Corte, 20 de setembro de 1875.<\/p>\n<p>Desculpe V. Ex.\u00aa o tremido da letra e o desgrenhado do estilo; entend\u00ea-los-\u00e1 daqui a pouco.<\/p>\n<p>Hoje, \u00e0 tardinha, acabado o jantar, enquanto esperava a hora do Cassino, estirei-me no sof\u00e1 e abri um tomo de Plutarco. V. Ex.\u00aa, que foi meu companheiro de estudos, h\u00e1 de lembrar-se que eu, desde rapaz, padeci esta devo\u00e7\u00e3o do grego; devo\u00e7\u00e3o ou mania, que era o nome que V. Ex.\u00aa lhe dava, e t\u00e3o intensa que me ia fazendo reprovar em outras disciplinas. Abri o tomo, e sucedeu o que sempre se d\u00e1 comigo quando leio alguma coisa antiga: transporto-me ao tempo e ao meio da a\u00e7\u00e3o ou da obra. Depois de jantar \u00e9 excelente. Dentro de pouco acha-se a gente numa via romana, ao p\u00e9 de um p\u00f3rtico grego ou na loja de um gram\u00e1tico. Desaparecem os tempos modernos, a insurrei\u00e7\u00e3o da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, o circo Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga, e de gra\u00e7a. Uma verdadeira digest\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Foi o que se deu hoje. A p\u00e1gina aberta acertou de ser a vida de Alcib\u00edades. Deixei-me ir ao sabor da loq\u00fcela \u00e1tica; da\u00ed a nada entrava nos jogos ol\u00edmpicos, admirava o mais guapo dos atenienses, guiando magnificamente o carro, com a mesma firmeza e donaire com que sabia reger as batalhas, os cidad\u00e3os e os pr\u00f3prios sentidos. Imagine V. Ex.\u00aa se vivi! Mas, o moleque entrou e acendeu o g\u00e1s; n\u00e3o foi preciso mais para fazer voar toda a arqueologia da minha imagina\u00e7\u00e3o. Atenas volveu \u00e0 hist\u00f3ria, enquanto os olhos me ca\u00edam das nuvens, isto \u00e9, nas cal\u00e7as de brim branco, no palet\u00f3 de alpaca e nos sapatos de cordov\u00e3o. E ent\u00e3o refleti comigo:<\/p>\n<p>&#8211; Que impress\u00e3o daria ao ilustre ateniense o nosso vestu\u00e1rio moderno?<\/p>\n<p>Sou espiritista desde alguns meses. Convencido de que todos os sistemas s\u00e3o puras niilidades, resolvi adotar o mais recreativo deles. Tempo vir\u00e1 em que este n\u00e3o seja s\u00f3 recreativo, mas tamb\u00e9m \u00fatil \u00e0 solu\u00e7\u00e3o dos problemas hist\u00f3ricos; \u00e9 mais sum\u00e1rio evocar o esp\u00edrito dos mortos, do que gastar as for\u00e7as cr\u00edticas, e gast\u00e1-las em pura perda, porque n\u00e3o h\u00e1 racioc\u00ednio nem documento que nos explique melhor a inten\u00e7\u00e3o de um ato do que o pr\u00f3prio autor do ato. E tal era o meu caso desta noite. Conjeturar qual fosse a impress\u00e3o de Alcib\u00edades era despender o tempo, sem outra vantagem, al\u00e9m do gosto de admirar a minha pr\u00f3pria habilidade. Determinei, portanto, evocar o ateniense; pedi-lhe que comparecesse em minha casa, logo, sem demora.<\/p>\n<p>E aqui come\u00e7a o extraordin\u00e1rio da aventura. N\u00e3o se demorou Alcib\u00edades em acudir ao chamado; dois minutos depois estava ali, na minha sala, perto da parede; mas n\u00e3o era a sombra impalp\u00e1vel que eu cuidara ter evocado pelos m\u00e9todos da nossa escola; era o pr\u00f3prio Alcib\u00edades, carne e osso, vero homem, grego aut\u00eantico, trajado \u00e0 antiga, cheio daquela gentileza e desgarre com que usava arengar \u00e0s grandes assembl\u00e9ias de Atenas, e tamb\u00e9m, um pouco, aos seus pataus. V. Ex.\u00aa, t\u00e3o sabedor da hist\u00f3ria, n\u00e3o ignora que tamb\u00e9m houve pataus em Atenas; sim, Atenas tamb\u00e9m os possuiu, e esse precedente \u00e9 uma desculpa. Juro a V. Ex.\u00aa que n\u00e3o acreditei; por mais fiel que fosse o testemunho dos sentidos, n\u00e3o podia acabar de crer que tivesse ali, em minha casa, n\u00e3o a sombra de Alcib\u00edades, mas o pr\u00f3prio Alcib\u00edades redivivo. Nutri ainda a esperan\u00e7a de que tudo aquilo n\u00e3o fosse mais do que o efeito de uma digest\u00e3o mal rematada, um simples efl\u00favio do quilo, atrav\u00e9s da luneta de Plutarco; e ent\u00e3o esfreguei os olhos, fitei-os, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que me queres? perguntou ele.<\/p>\n<p>Ao ouvir isto, arrepiaram-se-me as carnes. O vulto falava e falava grego, o mais puro \u00e1tico. Era ele, n\u00e3o havia duvidar que era ele mesmo, um morto de vinte s\u00e9culos, restitu\u00eddo \u00e0 vida, t\u00e3o cabalmente como se viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do c\u00e3o. Era claro que, sem o pensar, acabava eu de dar um grande passo na carreira do espiritismo; mas, ai de mim! n\u00e3o o entendi logo, e deixei-me ficar assombrado. Ele repetiu a pergunta, olhou em volta de si e sentou-se numa poltrona. Como eu estivesse frio e tr\u00eamulo (ainda o estou agora) ele que o percebeu, falou-me com muito carinho, e tratou de rir e gracejar para o fim de devolver-me o sossego e a confian\u00e7a. H\u00e1bil como outrora! Que mais direi a V. Ex.\u00aa? No fim de poucos minutos convers\u00e1vamos os dois, em grego antigo, ele repotreado e natural, eu pedindo a todos os santos do c\u00e9u a presen\u00e7a de um criado, de uma visita, de uma patrulha, ou, se tanto fosse necess\u00e1rio, &#8211; de um inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Escusado \u00e9 dizer a V. Ex.\u00aa que abri m\u00e3o da id\u00e9ia de o consultar acerca do vestu\u00e1rio moderno; pedira um espectro, n\u00e3o um homem &#8220;de verdade&#8221;, como dizem as crian\u00e7as. Limitei-me a responder ao que ele queria; pediu-me not\u00edcias de Atenas, dei-lhas; disse-lhe que ela era enfim a cabe\u00e7a de uma s\u00f3 Gr\u00e9cia, narrei-lhe a domina\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana, a independ\u00eancia, Botzaris, lord Byron. O grande homem tinha os olhos pendurados da minha boca; e, mostrando-me admirado de que os mortos lhe n\u00e3o houvessem contado nada, explicou-me que \u00e0 porta do outro mundo afrouxavam muito os interesses deste. N\u00e3o vira Botzaris nem lord Byron, &#8211; em primeiro lugar, porque \u00e9 tanta e tant\u00edssima a multid\u00e3o de esp\u00edritos, que estes se fazem naturalmente desencontrados; em segundo lugar, porque eles l\u00e1 congregam-se, n\u00e3o por nacionalidades ou outra ordem, sen\u00e3o por categorias de \u00edndole, costume e profiss\u00e3o: assim \u00e9 que ele, Alcib\u00edades, anda no grupo dos pol\u00edticos elegantes e namorados, com o duque de Buckingham, o Garrett, o nosso Maciel Monteiro, etc. Em seguida pediu-me not\u00edcias atuais; relatei-lhe o que sabia, em resumo; falei-lhe do parlamento hel\u00eanico e do m\u00e9todo alternativo com que Bulgaris e Comondouros, estadistas seus patr\u00edcios, imitam Disraeli e Gladstone, revezando-se no poder, e, assim como estes, a golpes de discurso. Ele, que foi um magn\u00edfico orador, interrompeu-me:<\/p>\n<p>&#8211; Bravo, atenienses!<\/p>\n<p>Se entro nestas min\u00facias \u00e9 para o fim de nada omitir do que possa dar a V. Ex.\u00aa o conhecimento exato do extraordin\u00e1rio caso que lhe vou narrando. J\u00e1 disse que Alcib\u00edades escutava-me com avidez; acrescentarei que era esperto e arguto; entendia as coisas sem largo disp\u00eandio de palavras. Era tamb\u00e9m sarc\u00e1stico; ao menos assim me pareceu em um ou dois pontos da nossa conversa\u00e7\u00e3o; mas no geral dela, mostrava-se simples, atento, correto, sens\u00edvel e digno. E gamenho, note V. Ex.\u00aa, t\u00e3o gamenho como outrora; olhava de soslaio para o espelho, como fazem as nossas e outras damas deste s\u00e9culo, mirava os borzeguins, compunha o manto, n\u00e3o sa\u00eda de certas atitudes esculturais.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, continua, dizia-me ele, quando eu parava de lhe dar not\u00edcias.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o podia mais. Entrado no inextric\u00e1vel, no maravilhoso, achava tudo poss\u00edvel, n\u00e3o atinava por que raz\u00e3o, assim, como ele vinha ter comigo ao tempo, n\u00e3o iria eu ter com ele \u00e0 eternidade. Esta id\u00e9ia gelou-me. Para um homem que acabou de digerir o jantar e aguarda a hora do Cassino, a morte \u00e9 o \u00faltimo dos sarcasmos. Se pudesse fugir&#8230; Animei-me: disse-lhe que ia a um baile.<\/p>\n<p>&#8211; Um baile? Que coisa \u00e9 um baile?<\/p>\n<p>Expliquei-lho.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! ver dan\u00e7ar a p\u00edrrica!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, emendei eu, a p\u00edrrica j\u00e1 l\u00e1 vai. Cada s\u00e9culo, meu caro Alcib\u00edades, muda de dan\u00e7as como muda de id\u00e9ias. N\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o dan\u00e7amos as mesmas coisas do s\u00e9culo passado; provavelmente o s\u00e9culo XX n\u00e3o dan\u00e7ar\u00e1 as deste. A p\u00edrrica foi-se, com os homens de Plutarco e os numes de Hes\u00edodo.<\/p>\n<p>&#8211; Com os numes?<\/p>\n<p>Repeti-lhe que sim, que o paganismo acabara, que as academias do s\u00e9culo passado ainda lhe deram abrigo, mas sem convic\u00e7\u00e3o, nem alma, que as mesmas bebedeiras arc\u00e1dicas,<\/p>\n<p>Evo\u00e9! padre Bassareu!<br \/>\nEvo\u00e9! etc.<\/p>\n<p>honesto passatempo de alguns desembargadores pacatos, essas mesmas estavam curadas, radicalmente curadas. De longe em longe, acrescentei, um ou outro poeta, um ou outro prosador alude aos restos da teogonia pag\u00e3, mas s\u00f3 o faz por gala ou brinco, ao passo que a ci\u00eancia reduziu todo o Olimpo a uma simb\u00f3lica. Morto, tudo morto.<\/p>\n<p>&#8211; Morto Zeus?<\/p>\n<p>&#8211; Morto.<\/p>\n<p>&#8211; Dionisos, Afrodita?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tudo morto.<\/p>\n<p>O homem de Plutarco levantou-se, andou um pouco, contendo a indigna\u00e7\u00e3o, como se dissesse consigo, imitando o outro: &#8211; Ah! se l\u00e1 estou com os meus atenienses! &#8211; Zeus, Dionisos, Afrodita&#8230; murmurava de quando em quando. Lembrou-me ent\u00e3o que ele fora uma vez acusado de desacato aos deuses e perguntei a mim mesmo donde vinha aquela indigna\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma, e naturalmente posti\u00e7a. Esquecia-me, &#8211; um devoto do grego! &#8211; esquecia-me que ele era tamb\u00e9m um refinado hip\u00f3crita, um ilustre dissimulado. E quase n\u00e3o tive tempo de fazer esse reparo, porque Alcib\u00edades, detendo-se repentinamente, declarou-me que iria ao baile comigo.<\/p>\n<p>&#8211; Ao baile? repeti at\u00f4nito.<\/p>\n<p>&#8211; Ao baile, vamos ao baile.<\/p>\n<p>Fiquei aterrado, disse-lhe que n\u00e3o, que n\u00e3o era poss\u00edvel, que n\u00e3o o admitiriam, com aquele trajo; pareceria doido; salvo se ele queria ir l\u00e1 representar alguma com\u00e9dia de Arist\u00f3fanes, acrescentei rindo, para disfar\u00e7ar o medo. O que eu queria era deix\u00e1-lo, entregar-lhe a casa, e uma vez na rua, n\u00e3o iria ao Cassino, iria ter com V. Ex.\u00aa. Mas o diabo do homem n\u00e3o se movia; escutava-me com os olhos no ch\u00e3o, pensativo, deliberante. Calei-me; cheguei a cuidar que o pesadelo ia acabar, que o vulto ia desfazer-se, e que eu ficava ali com as minhas cal\u00e7as, os meus sapatos e o meu s\u00e9culo.<\/p>\n<p>&#8211; Quero ir ao baile, repetiu ele. J\u00e1 agora n\u00e3o vou sem comparar as dan\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Meu caro Alcib\u00edades, n\u00e3o acho prudente um tal desejo. Eu teria certamente a maior honra, um grande desvanecimento em fazer entrar no Cassino, o mais gentil, o mais feiticeiro dos atenienses; mas os outros homens de hoje, os rapazes, as mo\u00e7as, os velhos&#8230; \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 disse; imaginar\u00e3o que \u00e9s um doido ou um comediante, porque essa roupa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que tem? A roupa muda-se. Irei \u00e0 maneira do s\u00e9culo. N\u00e3o tens alguma roupa que me emprestes?<\/p>\n<p>Ia a dizer que n\u00e3o; mas ocorreu-me logo que o mais urgente era sair, e que uma vez na rua, sobravam-me recursos para escapar-lhe, e ent\u00e3o disse-lhe que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, tornou ele levantando-se, irei \u00e0 maneira do s\u00e9culo. S\u00f3 pe\u00e7o que te vistas primeiro, para eu aprender e imitar-te depois.<\/p>\n<p>Levantei-me tamb\u00e9m, e pedi-lhe que me acompanhasse. N\u00e3o se moveu logo; estava assombrado. Vi que s\u00f3 ent\u00e3o reparara nas minhas cal\u00e7as brancas; olhava para elas com os olhos arregalados, a boca aberta; enfim, perguntou por que motivo trazia aqueles canudos de pano. Respondi que por maior comodidade; acrescentei que o nosso s\u00e9culo, mais recatado e \u00fatil do que artista, determinara trajar de um modo compat\u00edvel com o seu decoro e gravidade. Demais nem todos seriam Alcib\u00edades. Creio que o lisonjeei com isto; ele sorriu e deu de ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim!<\/p>\n<p>Seguimos para o meu quarto de vestir, e comecei a mudar de roupa, \u00e0s pressas. Alcib\u00edades sentou-se molemente num div\u00e3, n\u00e3o sem elogi\u00e1-lo, n\u00e3o sem elogiar o espelho, a palhinha, os quadros. &#8211; Eu vestia-me, como digo, \u00e0s pressas, ansioso por sair \u00e0 rua, por meter-me no primeiro t\u00edlburi que passasse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Canudos pretos! exclamou ele.<\/p>\n<p>Eram as cal\u00e7as pretas que eu acabava de vestir. Exclamou e riu, um risinho em que o espanto vinha mesclado de esc\u00e1rnio, o que ofendeu grandemente o meu melindre de homem moderno. Porque, note V. Ex.\u00aa ainda que o nosso tempo nos pare\u00e7a digno de cr\u00edtica, e at\u00e9 de execra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o gostamos de que um antigo venha mofar dele \u00e0s nossas barbas. N\u00e3o respondi ao ateniense; franzi um pouco o sobrolho e continuei a abotoar os suspens\u00f3rios. Ele perguntou-me ent\u00e3o por que motivo usava uma cor t\u00e3o feia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Feia, mas s\u00e9ria, disse-lhe. Olha, entretanto, a gra\u00e7a do corte, v\u00ea como cai sobre o sapato, que \u00e9 de verniz, embora preto, e trabalhado com muita perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E vendo que ele abanava a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Meu caro, disse-lhe, tu podes certamente exigir que o J\u00fapiter Ol\u00edmpico seja o emblema eterno da majestade: \u00e9 o dom\u00ednio da arte ideal, desinteressada, superior aos tempos que passam e aos homens que os acompanham. Mas a arte de vestir \u00e9 outra coisa. Isto que parece absurdo ou desgracioso \u00e9 perfeitamente racional e belo, &#8211; belo \u00e0 nossa maneira, que n\u00e3o andamos a ouvir na rua os rapsodos recitando os seus versos, nem os oradores os seus discursos, nem os fil\u00f3sofos as suas filosofias. Tu mesmo, se te acostumares a ver-nos, acabar\u00e1s por gostar de n\u00f3s, porque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Desgra\u00e7ado! bradou ele atirando-se a mim.<\/p>\n<p>Antes de entender a causa do grito e do gesto, fiquei sem pinga de sangue. A causa era uma ilus\u00e3o. Como eu passasse a gravata \u00e0 volta do pesco\u00e7o e tratasse de dar o la\u00e7o, Alcib\u00edades sup\u00f4s que ia enforcar-me, segundo confessou depois. E, na verdade, estava p\u00e1lido, tr\u00eamulo, em suores frios. Agora quem se riu fui eu. Ri-me, e expliquei-lhe o uso da gravata e notei que era branca, n\u00e3o preta, posto us\u00e1ssemos tamb\u00e9m gravatas pretas. S\u00f3 depois de tudo isso explicado \u00e9 que ele consentiu em restituir-ma. Atei-a enfim, depois vesti o colete.<\/p>\n<p>&#8211; Por Afrodita! exclamou ele. \u00c9s a coisa mais singular que jamais vi na vida e na morte. Est\u00e1s todo cor da noite &#8211; uma noite com tr\u00eas estrelas apenas &#8211; continuou apontando para os bot\u00f5es do peito. O mundo deve andar imensamente melanc\u00f3lico, se escolheu para uso uma cor t\u00e3o morta e t\u00e3o triste. N\u00f3s \u00e9ramos mais alegres; viv\u00edamos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de concluir a frase; eu acabava de enfiar a casaca, e a consterna\u00e7\u00e3o do ateniense foi indescrit\u00edvel. Ca\u00edram-lhe os bra\u00e7os, ficou sufocado, n\u00e3o podia articular nada, tinha os olhos cravados em mim, grandes, abertos. Creia V. Ex.\u00aa que fiquei com medo, e tratei de apressar ainda mais a sa\u00edda.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s completo? perguntou-me ele.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o: falta o chap\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! venha alguma coisa que possa corrigir o resto! tornou Alcib\u00edades com voz suplicante. Venha, venha. Assim pois, toda a eleg\u00e2ncia que vos legamos est\u00e1 reduzida a um par de canudos fechados e outro par de canudos abertos (e dizia isto levantando-me as abas da casaca), e tudo dessa cor enfadonha e negativa? N\u00e3o, n\u00e3o posso cr\u00ea-lo! Venha alguma coisa que corrija isso. O que \u00e9 que, falta, dizes tu?<\/p>\n<p>&#8211; O chap\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f5e o que te falta, meu caro, p\u00f5e o que te falta.<\/p>\n<p>Obedeci; fui dali ao cabide, despendurei o chap\u00e9u, e pu-lo na cabe\u00e7a. Alcib\u00edades olhou para mim, cambaleou e caiu. Corri ao ilustre ateniense, para levant\u00e1-lo, mas (com dor o digo) era tarde; estava morto, morto pela segunda vez. Rogo a V. Ex.\u00aa se digne de expedir suas respeit\u00e1veis ordens para que o cad\u00e1ver seja transportado ao necrot\u00e9rio, e se proceda ao corpo de delito, relevando-me de n\u00e3o ir pessoalmente \u00e0 casa de V. Ex.\u00aa agora mesmo (dez da noite) em aten\u00e7\u00e3o ao profundo abalo por que acabo de passar, o que ali\u00e1s farei amanh\u00e3 de manh\u00e3, antes das oito.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Carta do desembargador X&#8230; ao chefe de pol\u00edcia da Corte Corte, 20 de setembro de 1875. Desculpe V. Ex.\u00aa o tremido da letra e o desgrenhado do estilo; entend\u00ea-los-\u00e1 daqui a pouco. 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