{"id":118945,"date":"2017-04-07T19:08:18","date_gmt":"2017-04-07T21:08:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118945"},"modified":"2017-04-07T19:08:18","modified_gmt":"2017-04-07T21:08:18","slug":"o-emprestimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-emprestimo","title":{"rendered":"O Empr\u00e9stimo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Vou divulgar uma anedota, mas uma anedota no genu\u00edno sentido do voc\u00e1bulo, que o vulgo ampliou \u00e0s historietas de pura inven\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem t\u00e3o bem como eu. Nem ela andou rec\u00f4ndita, sen\u00e3o por falta de um esp\u00edrito repousado, que lhe achasse a filosofia. Como deveis saber, h\u00e1 em todas as coisas um sentido filos\u00f3fico. Carlyle descobriu o dos coletes, ou, mais propriamente, o do vestu\u00e1rio; e ningu\u00e9m ignora que os n\u00fameros, muito antes da loteria do Ipiranga, formavam o sistema de Pit\u00e1goras. Pela minha parte creio ter decifrado este caso de empr\u00e9stimo; ides ver se me engano.<\/p>\n<p>E, para come\u00e7ar, emendemos S\u00eaneca. Cada dia, ao parecer daquele moralista, \u00e9, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. N\u00e3o digo que n\u00e3o; mas por que n\u00e3o acrescentou ele que muitas vezes uma s\u00f3 hora \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de uma vida inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambi\u00e7\u00e3o, uma pasta de ministro, um Banco, uma coroa de visconde, um b\u00e1culo pastoral. Aos cinq\u00fcenta anos, vamos ach\u00e1-lo simples apontador de alf\u00e2ndega, ou sacrist\u00e3o da ro\u00e7a. Tudo isso que se passou em trinta anos, pode algum Balzac met\u00ea-lo em trezentas p\u00e1ginas; por que n\u00e3o h\u00e1 de a vida, que foi a mestra de Balzac, apert\u00e1-lo em trinta ou sessenta minutos?<\/p>\n<p>Tinham batido quatro horas no cart\u00f3rio do tabeli\u00e3o Vaz Nunes, \u00e0 rua do Ros\u00e1rio. Os escreventes deram ainda as \u00faltimas penadas: depois limparam as penas de ganso na ponta de seda preta que pendia da gaveta ao lado; fecharam as gavetas, concertaram os pap\u00e9is, arrumaram os livros, lavaram as m\u00e3os; alguns que mudavam de palet\u00f3 \u00e0 entrada, despiram o do trabalho e enfiaram o da rua; todos sa\u00edram. Vaz Nunes ficou s\u00f3.<\/p>\n<p>Este honesto tabeli\u00e3o era um dos homens mais perspicazes do s\u00e9culo. Est\u00e1 morto: podemos elogi\u00e1-lo \u00e0 vontade. Tinha um olhar de lanceta, cortante e agudo. Ele adivinhava o car\u00e1ter das pessoas que o buscavam para escriturar os seus acordos e resolu\u00e7\u00f5es; conhecia a alma de um testador muito antes de acabar o testamento; farejava as manhas secretas e os pensamentos reservados. Usava \u00f3culos, como todos os tabeli\u00e3es de teatro; mas, n\u00e3o sendo m\u00edope, olhava por cima deles, quando queria ver, e atrav\u00e9s deles, se pretendia n\u00e3o ser visto. Fin\u00f3rio como ele s\u00f3, diziam os escreventes. Em todo o caso, circunspecto. Tinha cinq\u00fcenta anos, era vi\u00favo, sem filhos, e, para falar como alguns outros serventu\u00e1rios, ro\u00eda muito caladinho os seus duzentos contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9? perguntou ele de repente olhando para a porta da rua.<\/p>\n<p>Estava \u00e0 porta, parado na soleira, um homem que ele n\u00e3o conheceu logo, e mal p\u00f4de reconhecer da\u00ed a pouco. Vaz Nunes pediu-lhe o favor de entrar; ele obedeceu, cumprimentou-o, estendeu-lhe a m\u00e3o, e sentou-se na cadeira ao p\u00e9 da mesa. N\u00e3o trazia o acanho natural a um pedinte; ao contr\u00e1rio, parecia que n\u00e3o vinha ali sen\u00e3o para dar ao tabeli\u00e3o alguma coisa precios\u00edssima e rara. E, n\u00e3o obstante, Vaz Nunes estremeceu e esperou.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se lembra de mim?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me lembro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estivemos juntos uma noite, h\u00e1 alguns meses, na Tijuca&#8230; N\u00e3o se lembra? Em casa do Teodorico, aquela grande ceia de Natal; por sinal que lhe fiz uma sa\u00fade&#8230; Veja se se lembra do Cust\u00f3dio.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>Cust\u00f3dio endireitou o busto, que at\u00e9 ent\u00e3o inclinara um pouco. Era um homem de quarenta anos. Vestia pobremente, mas escovado, apertado, correto. Usava unhas longas, curadas com esmero, e tinha as m\u00e3os muito bem talhadas, macias, ao contr\u00e1rio da pele do rosto, que era agreste. Not\u00edcias m\u00ednimas, e ali\u00e1s necess\u00e1rias ao complemento de um certo ar duplo que distinguia este homem, um ar de pedinte e general. Na rua, andando, sem almo\u00e7o e sem vint\u00e9m, parecia levar ap\u00f3s si um ex\u00e9rcito. A causa n\u00e3o era outra mais do que o contraste entre a natureza e a situa\u00e7\u00e3o, entre a alma e a vida. Esse Cust\u00f3dio nascera com a voca\u00e7\u00e3o da riqueza, sem a voca\u00e7\u00e3o do trabalho. Tinha o instinto das eleg\u00e2ncias, o amor do sup\u00e9rfluo, da boa chira, das belas damas, dos tapetes finos, dos m\u00f3veis raros, um voluptuoso, e, at\u00e9 certa ponto, um artista, capaz de reger a vila Torloni ou a galeria Hamilton. Mas n\u00e3o tinha dinheiro; nem dinheiro, nem aptid\u00e3o ou pachorra de o ganhar; por outro lado, precisava viver. Il faut bien que je vive, dizia um pretendente ao ministro Talleyrand. Je n&#8217;en vois pas la n\u00e9cessit\u00e9, redarg\u00fciu friamente o ministro. Ningu\u00e9m dava essa resposta ao Cust\u00f3dio; davam-lhe dinheiro, um dez, outro cinco, outro vinte mil-r\u00e9is, e de tais esp\u00f3rtulas \u00e9 que ele principalmente tirava o albergue e a comida.<\/p>\n<p>Digo que principalmente vivia delas, porque o Cust\u00f3dio n\u00e3o recusava meter-se em alguns neg\u00f3cios, com a condi\u00e7\u00e3o de os escolher, e escolhia sempre os que n\u00e3o prestavam para nada. Tinha o faro das cat\u00e1strofes. Entre vinte empresas, adivinhava logo a insensata, e metia ombros a ela, com resolu\u00e7\u00e3o. O caiporismo, que o perseguia, fazia com que as dezenove prosperassem, e a vig\u00e9sima lhe estourasse nas m\u00e3os. N\u00e3o importa; aparelhava-se para outra.<\/p>\n<p>Agora, por exemplo, leu um an\u00fancio de algu\u00e9m que pedia um s\u00f3cio, com cinco contos de r\u00e9is, para entrar em certo neg\u00f3cio, que prometia dar, nos primeiros seis meses, oitenta a cem contos de lucro. Cust\u00f3dio foi ter com o anunciante. Era uma grande id\u00e9ia, uma f\u00e1brica de agulhas, ind\u00fastria nova, de imenso futuro. E os planos, os desenhos da f\u00e1brica, os relat\u00f3rios de Birmingham, os mapas de importa\u00e7\u00e3o, as respostas dos alfaiates, dos donos de armarinho, etc., todos os documentos de um longo inqu\u00e9rito passavam diante dos olhos de Cust\u00f3dio, estrelados de algarismos, que ele n\u00e3o entendia, e que por isso mesmo lhe pareciam dogm\u00e1ticos. Vinte e quatro horas; n\u00e3o pedia mais de vinte e quatro horas para trazer os cinco contos. E saiu dali, cortejado, animado pelo anunciante, que, ainda \u00e0 porta, o afogou numa torrente de saldos. Mas os cinco contos, menos d\u00f3ceis ou menos vagabundos que os cinco mil-r\u00e9is, sacudiam incredulamente a cabe\u00e7a, e deixavam-se estar nas arcas, tolhidos de medo e de sono. Nada. Oito ou dez amigos, a quem falou, disseram-lhe que nem dispunham agora da soma pedida, nem acreditavam na f\u00e1brica. Tinha perdido as esperan\u00e7as, quando aconteceu subir a rua do Ros\u00e1rio e ler no portal de um cart\u00f3rio o nome de Vaz Nunes. Estremeceu de alegria; recordou a Tijuca, as maneiras do tabeli\u00e3o, as frases com que ele lhe respondeu ao brinde, e disse consigo que este era o salvador da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Venho pedir-lhe uma escritura&#8230;<\/p>\n<p>Vaz Nunes, armado para outro come\u00e7o, n\u00e3o respondeu: espiou para cima dos \u00f3culos e esperou.<\/p>\n<p>&#8211; Uma escritura de gratid\u00e3o, explicou o Cust\u00f3dio; venho pedir-lhe um grande favor, um favor indispens\u00e1vel, e conto que o meu amigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se estiver nas minhas m\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O neg\u00f3cio \u00e9 excelente, note-se bem; um neg\u00f3cio magn\u00edfico. Nem eu me metia a incomodar os outros sem certeza do resultado. A coisa est\u00e1 pronta; foram j\u00e1 encomendas para a Inglaterra; e \u00e9 prov\u00e1vel que dentro de dois meses esteja tudo montado, \u00e9 uma ind\u00fastria nova. Somos tr\u00eas s\u00f3cios, a minha parte s\u00e3o cinco contos. Venho pedir-lhe esta quantia, a seis meses, &#8211; ou a tr\u00eas, com juro m\u00f3dico&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cinco contos?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Sr. Cust\u00f3dio, n\u00e3o disponho de t\u00e3o grande quantia. Os neg\u00f3cios andam mal; e ainda que andassem muito bem, n\u00e3o poderia dispor de tanto. Quem \u00e9 que pode esperar cinco contos de um modesto tabeli\u00e3o de notas?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, se o senhor quisesse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quero, decerto; digo-lhe que se se tratasse de uma quantia pequena, acomodada aos meus recursos, n\u00e3o teria d\u00favida em adiant\u00e1-la. Mas cinco contos! Creia que \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>A alma do Cust\u00f3dio caiu de bru\u00e7os. Subira pela escada de Jac\u00f3 at\u00e9 o c\u00e9u; mas em vez de descer como os anjos no sonho b\u00edblico, rolou abaixo e caiu de bru\u00e7os. Era a \u00faltima esperan\u00e7a; e justamente por ter sido inesperada, \u00e9 que ele sup\u00f4s que fosse certa, pois, como todos os cora\u00e7\u00f5es que se entregam ao regime do eventual, o do Cust\u00f3dio era supersticioso. O pobre-diabo sentiu enterrarem-se-lhe no corpo os milh\u00f5es de agulhas que a f\u00e1brica teria de produzir no primeiro semestre. Calado, com os olhos no ch\u00e3o, esperou que o tabeli\u00e3o continuasse, que se compadecesse, que lhe desse alguma aberta; mas o tabeli\u00e3o, que lia isso mesmo na alma do Cust\u00f3dio, estava tamb\u00e9m calado, girando entre os dedos a boceta de rap\u00e9, respirando grosso, com um certo chiado nasal e implicante. Cust\u00f3dio ensaiou todas as atitudes; ora pedinte, ora general. O tabeli\u00e3o n\u00e3o se mexia. Cust\u00f3dio ergueu-se.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, disse ele, com uma pontazinha de despeito, h\u00e1 de perdoar o inc\u00f4modo. . .<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 que perdoar; eu \u00e9 que lhe pe\u00e7o desculpa de n\u00e3o poder servi-lo, como desejava. Repito: se fosse alguma quantia menos avultada, n\u00e3o teria d\u00favida; mas&#8230;<\/p>\n<p>Estendeu a m\u00e3o ao Cust\u00f3dio, que com a esquerda pegara maquinalmente no chap\u00e9u. O olhar empanado do Cust\u00f3dio exprimia a absor\u00e7\u00e3o da alma dele, apenas convalescida da queda que lhe tirara as \u00faltimas energias. Nenhuma escada misteriosa, nenhum c\u00e9u; tudo voara a um piparote do tabeli\u00e3o. Adeus, agulhas! A realidade veio tom\u00e1-lo outra vez com as suas unhas de bronze. Tinha de voltar ao prec\u00e1rio, ao advent\u00edcio, \u00e0s velhas contas, com os grandes zeros arregalados e os cifr\u00f5es retorcidos \u00e0 laia de orelhas, que continuariam a fit\u00e1-lo e a ouvi-lo, a ouvi-lo e a fit\u00e1-lo, alongando para ele os algarismos implac\u00e1veis de fome. Que queda! e que abismo! Desenganado, olhou para o tabeli\u00e3o com um gesto de despedida; mas, uma id\u00e9ia s\u00fabita clareou-lhe a noite do c\u00e9rebro. Se a quantia fosse menor, Vaz Nunes poderia servi-lo, e com prazer; por que n\u00e3o seria uma quantia menor? J\u00e1 agora abria m\u00e3o da empresa; mas n\u00e3o podia fazer o mesmo a uns alugu\u00e9is atrasados, a dois ou tr\u00eas credores, etc., e uma soma razo\u00e1vel, quinhentos mil-r\u00e9is, por exemplo, uma vez que o tabeli\u00e3o tinha a boa vontade de emprestar-lhos, vinham a ponto. A alma do Cust\u00f3dio empertigou-se; vivia do presente, nada queria saber do passado, nem saudades, nem temores, nem remorsos. O presente era tudo. O presente eram os quinhentos mil-r\u00e9is, que ele ia ver surdir da algibeira do tabeli\u00e3o, como um alvar\u00e1 de liberdade.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, disse ele, veja o que me pode dar, e eu irei ter com outros amigos&#8230; Quanto?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso dizer nada a este respeito, porque realmente s\u00f3 uma coisa muito modesta.<\/p>\n<p>&#8211; Quinhentos mil-r\u00e9is?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>&#8211; Nem quinhentos mil-r\u00e9is?<\/p>\n<p>&#8211; Nem isso, replicou firme o tabeli\u00e3o. De que se admira? N\u00e3o lhe nego que tenho algumas propriedades; mas, meu amigo, n\u00e3o ando com elas no bolso; e tenho certas obriga\u00e7\u00f5es particulares&#8230; Diga-me, n\u00e3o est\u00e1 empregado?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe; dou-lhe coisa melhor do que quinhentos mil-r\u00e9is; falarei ao ministro da justi\u00e7a, tenho rela\u00e7\u00f5es com ele, e&#8230;<\/p>\n<p>Cust\u00f3dio interrompeu-o, batendo uma palmada no joelho. Se foi um movimento natural, ou uma divers\u00e3o astuciosa para n\u00e3o conversar do emprego, \u00e9 o que totalmente ignoro; nem parece que seja essencial ao caso. O essencial \u00e9 que ele teimou na s\u00faplica. N\u00e3o podia dar quinhentos mil-r\u00e9is? Aceitava duzentos; bastavam-lhe duzentos, n\u00e3o para a empresa, pois adotava o conselho dos amigos: ia recus\u00e1-la. Os duzentos mil-r\u00e9is, visto que o tabeli\u00e3o estava disposto a ajud\u00e1-lo, eram para uma necessidade urgente, &#8211; &#8220;tapar um buraco&#8221;. E ent\u00e3o relatou tudo, respondeu \u00e0 franqueza com franqueza: era a regra da sua vida. Confessou que, ao tratar da grande empresa, tivera em mente acudir tamb\u00e9m a um credor pertinaz, um diabo, um judeu, que rigorosamente ainda lhe devia, mas tivera a aleivosia de trocar de posi\u00e7\u00e3o. Eram duzentos e poucos mil-r\u00e9is; e dez, parece; mas aceitava duzentos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Realmente, custa-me repetir-lhe o que disse; mas, enfim, nem os duzentos mil-r\u00e9is posso dar. Cem mesmo, se o senhor os pedisse, est\u00e3o acima das minhas for\u00e7as nesta ocasi\u00e3o. Noutra pode ser, e n\u00e3o tenho d\u00favida, mas agora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o imagina os apuros em que estou!<\/p>\n<p>&#8211; Nem cem, repito. Tenho tido muitas dificuldades nestes \u00faltimos tempos. Sociedades, subscri\u00e7\u00f5es, ma\u00e7onaria&#8230; Custa-lhe crer, n\u00e3o \u00e9? Naturalmente: um propriet\u00e1rio. Mas, meu amigo, \u00e9 muito bom ter casas: o senhor \u00e9 que n\u00e3o conta os estragos, os consertos, as penas-d&#8217;\u00e1gua, as d\u00e9cimas, o seguro, os calotes, etc. S\u00e3o os buracos do pote, por onde vai a maior parte da \u00e1gua&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tivesse eu um pote! suspirou Cust\u00f3dio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digo que n\u00e3o. O que digo \u00e9 que n\u00e3o basta ter casas para n\u00e3o ter cuidados, despesas, e at\u00e9 credores&#8230; Creia o senhor que tamb\u00e9m eu tenho credores.<\/p>\n<p>&#8211; Nem cem mil-r\u00e9is!<\/p>\n<p>&#8211; Nem cem mil-r\u00e9is, pesa-me diz\u00ea-lo, mas \u00e9 verdade. Nem cem mil-r\u00e9is. Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p>Levantou-se, e veio ao meio da sala. Cust\u00f3dio veio tamb\u00e9m, arrastado, desesperado. N\u00e3o podia acabar de crer que o tabeli\u00e3o n\u00e3o tivesse ao menos cem mil-r\u00e9is. Quem \u00e9 que n\u00e3o tem cem mil-r\u00e9is consigo? Cogitou uma cena pat\u00e9tica, mas o cart\u00f3rio abria para a rua; seria rid\u00edculo. Olhou para fora. Na loja fronteira, um sujeito apre\u00e7ava uma sobrecasaca, \u00e0 porta, porque entardecia depressa, e o interior era escuro. O caixeiro segurava a obra no ar; o fregu\u00eas examinava o pano com a vista e com os dedos, depois as costuras, o forro&#8230; Este incidente rasgou-lhe um horizonte novo, embora modesto; era tempo de aposentar o palet\u00f3 que trazia. Mas nem cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is podia dar-lhe o tabeli\u00e3o. Cust\u00f3dio sorriu; &#8211; n\u00e3o de desd\u00e9m, n\u00e3o de raiva, mas de amargura e d\u00favida; era imposs\u00edvel que ele n\u00e3o tivesse cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is. Vinte, ao menos? Nem vinte. Nem vinte! N\u00e3o; falso tudo, tudo mentira.<\/p>\n<p>Cust\u00f3dio tirou o len\u00e7o, alisou o chap\u00e9u devagarinho; depois guardou o len\u00e7o, concertou a gravata, com um ar misto de esperan\u00e7a e despeito. Viera cerceando as asas \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o, pluma a pluma; restava ainda uma penugem curta e fina, que lhe metia umas veleidades de voar. Mas o outro, nada. Vaz Nunes cotejava o rel\u00f3gio da parede com o do bolso, chegava este ao ouvido, limpava o mostrador, calado, transpirando por todos os poros impaci\u00eancia e fastio. Estavam a pingar as cinco, enfim, e o tabeli\u00e3o, que as esperava, desengatilhou a despedida. Era tarde; morava longe. Dizendo isto, despiu o palet\u00f3 de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rap\u00e9, o len\u00e7o, a carteira&#8230; Oh! a carteira! Cust\u00f3dio viu esse utens\u00edlio problem\u00e1tico, apalpou-o com os olhos; invejou a alpaca, invejou a casimira, quis ser algibeira, quis ser o couro, a mat\u00e9ria mesma do precioso recept\u00e1culo. L\u00e1 vai ela; mergulhou de todo no bolso do peito esquerdo; o tabeli\u00e3o abotoou-se. Nem vinte mil-r\u00e9is! Era imposs\u00edvel que n\u00e3o levasse ali vinte mil-r\u00e9is, pensava ele; n\u00e3o diria duzentos, mas vinte, dez que fossem. . .<\/p>\n<p>&#8211; Pronto! disse-lhe Vaz Nunes, com o chap\u00e9u na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Era o fatal instante. Nenhuma palavra do tabeli\u00e3o, um convite ao menos, para jantar; nada; findara tudo. Mas os momentos supremos pedem energias supremas. Cust\u00f3dio sentiu toda a for\u00e7a deste lugar-comum, e, s\u00fabito, como um tiro, perguntou ao tabeli\u00e3o se n\u00e3o lhe podia dar ao menos dez mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Quer ver?<\/p>\n<p>E o tabeli\u00e3o desabotoou o palet\u00f3, tirou a carteira, abriu-a, e mostrou-lhe duas notas de cinco mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho mais, disse ele; o que posso fazer \u00e9 reparti-los com o senhor; dou-lhe uma de cinco, e fico com a outra; serve-lhe?<\/p>\n<p>Cust\u00f3dio aceitou os cinco mil-r\u00e9is, n\u00e3o triste, ou de m\u00e1 cara, mas risonho, palpitante, como se viesse de conquistar a \u00c1sia Menor. Era o jantar certo. Estendeu a m\u00e3o ao outro, agradeceu-lhe o obs\u00e9quio, despediu-se at\u00e9 breve, &#8211; um at\u00e9 breve cheio de afirma\u00e7\u00f5es impl\u00edcitas. Depois saiu; o pedinte esvaiu-se \u00e0 porta do cart\u00f3rio; o general \u00e9 que foi por ali abaixo, pisando rijo, encarando fraternalmente os ingleses do com\u00e9rcio que subiam a rua para se transportarem aos arrabaldes. Nunca o c\u00e9u lhe pareceu t\u00e3o azul, nem a tarde t\u00e3o l\u00edmpida; todos os homens traziam na retina a alma da hospitalidade. Com a m\u00e3o esquerda no bolso das cal\u00e7as, ele apertava amorosamente os cinco mil-r\u00e9is, res\u00edduo de uma grande ambi\u00e7\u00e3o, que ainda h\u00e1 pouco sa\u00edra contra o sol, num \u00edmpeto de \u00e1guia, e ora habita modestamente as asas de frango rasteiro.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Vou divulgar uma anedota, mas uma anedota no genu\u00edno sentido do voc\u00e1bulo, que o vulgo ampliou \u00e0s historietas de pura inven\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem t\u00e3o bem como eu. Nem ela andou rec\u00f4ndita, sen\u00e3o por falta de um esp\u00edrito repousado, que lhe achasse a filosofia. 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