{"id":118943,"date":"2017-04-07T19:04:47","date_gmt":"2017-04-07T21:04:47","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118943"},"modified":"2017-04-07T19:04:47","modified_gmt":"2017-04-07T21:04:47","slug":"o-anel-de-policrates","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-anel-de-policrates","title":{"rendered":"O Anel de Pol\u00edcrates"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>A<br \/>\nL\u00e1 vai o Xavier.<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Conhece o Xavier?<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>H\u00e1 que anos! Era um nababo, rico, podre de rico, mas pr\u00f3digo&#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Que rico? que pr\u00f3digo?<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Rico e pr\u00f3digo, digo-lhe eu. Bebia p\u00e9rolas dilu\u00eddas em n\u00e9ctar. Comia l\u00ednguas de rouxinol. Nunca usou papel mata-borr\u00e3o, por ach\u00e1-lo vulgar e mercantil; empregava areia nas cartas, mas uma certa areia feita de p\u00f3 de diamante. E mulheres! Nem toda a pompa de Salom\u00e3o pode dar id\u00e9ia do que era o Xavier nesse particular. Tinha um serralho: a linha grega, a tez romana, a exuber\u00e2ncia turca, todas as perfei\u00e7\u00f5es de uma ra\u00e7a, todas as prendas de um clima, tudo era admitido no har\u00e9m do Xavier. Um dia enamorou-se loucamente de uma senhora de alto coturno, e enviou-lhe de mimo tr\u00eas estrelas do Cruzeiro, que ent\u00e3o contava sete, e n\u00e3o pense que o portador foi a\u00ed qualquer p\u00e9-rapado. N\u00e3o, senhor. O portador foi um dos arcanjos de Milton, que o Xavier chamou na ocasi\u00e3o em que ele cortava o azul para levar a admira\u00e7\u00e3o dos homens ao seu velho pai ingl\u00eas. Era assim o Xavier. Capeava os cigarros com um papel de cristal, obra fin\u00edssima, e, para acend\u00ea-los, trazia consigo uma caixinha de raios do sol. As colchas da cama eram nuvens purp\u00fareas, e assim tamb\u00e9m a esteira que forrava o sof\u00e1 de repouso, a poltrona da secret\u00e1ria e a rede. Sabe quem lhe fazia o caf\u00e9, de manh\u00e3? A Aurora, com aqueles mesmos dedos cor-de-rosa, que Homero lhe p\u00f4s. Pobre Xavier! Tudo o que o capricho e a riqueza podem dar, o raro, o esquisito, o maravilhoso, o indescrit\u00edvel, o inimagin\u00e1vel, tudo teve e devia ter, porque era um galhardo rapaz, e um bom cora\u00e7\u00e3o. Ah! fortuna, fortuna! Onde est\u00e3o agora as p\u00e9rolas, os diamantes, as estrelas, as nuvens purp\u00fareas? Tudo perdeu, tudo deixou ir por \u00e1gua abaixo; o n\u00e9ctar virou zurrapa, os coxins s\u00e3o a pedra dura da rua, n\u00e3o manda estrelas \u00e0s senhoras, nem tem arcanjos \u00e0s suas ordens &#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 enganado. O Xavier? Esse Xavier h\u00e1 de ser outro. O Xavier nababo! Mas o Xavier que ali vai nunca teve mais de duzentos mil-r\u00e9is mensais; \u00e9 um homem poupado, s\u00f3brio, deita-se com as galinhas, acorda com os galos, e n\u00e3o escreve cartas a namoradas, porque n\u00e3o as tem. Se alguma expede aos amigos \u00e9 pelo correio. N\u00e3o \u00e9 mendigo, nunca foi nababo.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Creio; esse \u00e9 o Xavier exterior. Mas nem s\u00f3 de p\u00e3o vive o homem. Voc\u00ea fala de Marta, eu falo-lhe de Maria; falo do Xavier especulativo&#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Ah! &#8211; Mas ainda assim, n\u00e3o acho explica\u00e7\u00e3o; n\u00e3o me consta nada dele. Que livro, que poema, que quadro&#8230;<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Desde quando o conhece?<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>H\u00e1 uns quinze anos.<br \/>\nA<\/p>\n<p>Upa! Conhe\u00e7o-o h\u00e1 muito mais tempo, desde que ele estreou na rua do Ouvidor, em pleno marqu\u00eas de Paran\u00e1. Era um endiabrado, um derramado, planeava todas as coisas poss\u00edveis, e at\u00e9 contr\u00e1rias, um livro, um discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma hist\u00f3ria, um libelo pol\u00edtico, uma viagem \u00e0 Europa, outra ao sert\u00e3o de Minas, outra \u00e0 lua, em certo bal\u00e3o que inventara, uma candidatura pol\u00edtica, e arqueologia, e filosofia, e teatro, etc., etc., etc. Era um saco de espantos. Quem conversava com ele sentia vertigens. Imagine uma cachoeira de id\u00e9ias e imagens, qual mais original, qual mais bela, \u00e0s vezes extravagante, \u00e0s vezes sublime. Note que ele tinha a convic\u00e7\u00e3o dos seus mesmos inventos. Um dia, por exemplo, acordou com o plano de arrasar o morro do Castelo, a troco das riquezas que os jesu\u00edtas ali deixaram, segundo o povo cr\u00ea. Calculou-as logo em mil contos, inventariou-as com muito cuidado, separou o que era moeda, mil contos, do que eram obras de arte e pedrarias; descreveu minuciosamente os objetos, deu-me dois tocheiros de ouro&#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Realmente&#8230;<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Ah! impag\u00e1vel! Quer saber de outra? Tinha lido as cartas do c\u00f4nego Benigno, e resolveu ir logo ao sert\u00e3o da Bahia, procurar a cidade misteriosa. Exp\u00f4s-me o plano, descreveu-me a arquitetura prov\u00e1vel da cidade, os templos, os pal\u00e1cios, g\u00eanero etrusco, os ritos, os vasos, as roupas, os costumes&#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Era ent\u00e3o doido?<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Original\u00e3o apenas. Odeio os carneiros de Pan\u00fargio, dizia ele, citando Rabelais: Comme vous s\u00e7avez estre du mouton le naturel, tousjours suivre le premier, quelque part qu&#8217;il aille. Comparava a trivialidade a uma mesa redonda de hospedaria, e jurava que antes comer um mau bife em mesa separada.<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Entretanto, gostava da sociedade.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Gostava da sociedade, mas n\u00e3o amava os s\u00f3cios. Um amigo nosso, o Pires, fez-lhe um dia esse reparo; e sabe o que \u00e9 que ele respondeu? Respondeu com um ap\u00f3logo, em que cada s\u00f3cio figurava ser uma cuia d&#8217;\u00e1gua, e a sociedade uma banheira. &#8211; Ora, eu n\u00e3o posso lavar-me em cuias d&#8217;\u00e1gua, foi a sua conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Nada modesto. Que lhe disse o Pires?<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>O Pires achou o ap\u00f3logo t\u00e3o bonito que o meteu numa com\u00e9dia, da\u00ed a tempos. Engra\u00e7ado \u00e9 que o Xavier ouviu o ap\u00f3logo no teatro, e aplaudiu-o muito, com entusiasmo; esquecera-se da paternidade; mas a voz do sangue&#8230; Isto leva-me \u00e0 explica\u00e7\u00e3o da atual mis\u00e9ria do Xavier.<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, n\u00e3o sei como se possa explicar que um nababo&#8230;<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Explica-se facilmente. Ele espalhava id\u00e9ias \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, como o c\u00e9u chove, por uma necessidade f\u00edsica, e ainda por duas raz\u00f5es. A primeira \u00e9 que era impaciente, n\u00e3o sofria a gesta\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel \u00e0 obra escrita. A segunda \u00e9 que varria com os olhos uma linha t\u00e3o vasta de coisas, que mal poderia fixar-se em qualquer delas. Se n\u00e3o tivesse o verbo fluente, morreria de congest\u00e3o mental; a palavra era um derivativo. As p\u00e1ginas que ent\u00e3o falava, os cap\u00edtulos que lhe borbotavam da boca, s\u00f3 precisavam de uma arte de os imprimir no ar, e depois no papel, para serem p\u00e1ginas e cap\u00edtulos excelentes, alguns admir\u00e1veis. Nem tudo era l\u00edmpido; mas a por\u00e7\u00e3o l\u00edmpida superava a por\u00e7\u00e3o turva, como a vig\u00edlia de Homero paga os seus cochilos. Espalhava tudo, ao acaso, \u00e0s m\u00e3os cheias, sem ver onde as sementes iam cair; algumas pegavam logo&#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Como a das cuias.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Como a das cuias. Mas, o semeador tinha a paix\u00e3o das coisas belas, e, uma vez que a \u00e1rvore fosse pomposa e verde, n\u00e3o lhe perguntava nunca pela semente sua m\u00e3e. Viveu assim longos anos, despendendo \u00e0 toa, sem c\u00e1lculo, sem fruto, de noite e de dia, na rua e em casa, um verdadeiro pr\u00f3digo. Com tal regime, que era a aus\u00eancia de regime, n\u00e3o admira que ficasse pobre e miser\u00e1vel. Meu amigo, a imagina\u00e7\u00e3o e o esp\u00edrito t\u00eam limites; a n\u00e3o ser a famosa botelha dos saltimbancos e a credulidade dos homens, nada conhe\u00e7o inesgot\u00e1vel debaixo do sol. O Xavier n\u00e3o s\u00f3 perdeu as id\u00e9ias que tinha, mas at\u00e9 exauriu a faculdade de as criar; ficou o que sabemos. Que moeda rara se lhe v\u00ea hoje nas m\u00e3os? que sest\u00e9rcio de Hor\u00e1cio? que dracma de P\u00e9ricles? Nada. Gasta o seu lugar-comum, rafado das m\u00e3os dos outros, come \u00e0 mesa redonda, fez-se trivial, chocho&#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Cuia, enfim.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Justamente: cuia.<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Pois muito me conta. N\u00e3o sabia nada disso. Fico inteirado; adeus.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Vai a neg\u00f3cio?<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Vou a um neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>D\u00e1-me dez minutos?<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Dou-lhe quinze.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Quero referir-lhe a passagem mais interessante da vida do Xavier. Aceite o meu bra\u00e7o, e vamos andando. Vai para a pra\u00e7a? Vamos juntos. Um caso interessant\u00edssimo. Foi ali por 1869 ou 70, n\u00e3o me recordo; ele mesmo \u00e9 que me contou. Tinha perdido tudo; trazia o c\u00e9rebro gasto, chupado, est\u00e9ril, sem a sombra de um conceito, de uma imagem, nada. Basta dizer que um dia chamou rosa a uma senhora, &#8211; &#8220;uma bonita rosa&#8221;; falava do luar saudoso, do sacerd\u00f3cio da imprensa, dos jantares op\u00edparos, sem acrescentar ao menos um relevo qualquer a toda essa chaparia de algibebe. Come\u00e7ara a ficar hipocondr\u00edaco; e, um dia, estando \u00e0 janela, triste, desabusado das coisas, vendo-se chegado a nada, aconteceu passar na rua um taful a cavalo. De repente, o cavalo corcoveou, e o taful veio quase ao ch\u00e3o; mas sustentou-se, e meteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, ele teima; muita gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavalo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores n\u00e3o se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue-frio, a arte do cavaleiro. Ent\u00e3o o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavaleiro n\u00e3o tivesse \u00e2nimo nenhum; n\u00e3o quis cair diante de gente, e isso lhe deu a for\u00e7a de domar o cavalo. E da\u00ed veio uma id\u00e9ia: comparou a vida a um cavalo xucro ou manhoso; e acrescentou sentenciosamente: Quem n\u00e3o for cavaleiro, que o pare\u00e7a. Realmente, n\u00e3o era uma id\u00e9ia extraordin\u00e1ria; mas a pen\u00faria do Xavier tocara a tal extremo, que esse cristal pareceu-lhe um diamante. Ele repetiu-a dez ou doze vezes, formulou-a de v\u00e1rios modos, ora na ordem natural, pondo primeiro a defini\u00e7\u00e3o, depois o complemento; ora dando-lhe a marcha inversa, trocando palavras, medindo-as, etc.; e t\u00e3o alegre, t\u00e3o alegre como casa de pobre em dia de peru. De noite, sonhou que efetivamente montava um cavalo manhoso, que este pinoteava com ele e o sacudia a um brejo. Acordou triste; a manh\u00e3, que era de domingo e chuvosa, ainda mais o entristeceu; meteu-se a ler e a cismar. Ent\u00e3o lembrou-se&#8230; Conhece o caso do anel de Pol\u00edcrates?<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Francamente, n\u00e3o.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Nem eu; mas aqui vai o que me disse o Xavier. Pol\u00edcrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; t\u00e3o feliz, que come\u00e7ou a recear alguma viravolta da Fortuna, e, para aplac\u00e1-la antecipadamente, determinou fazer um grande sacrif\u00edcio: deitar ao mar o anel precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna andava t\u00e3o apostada em cumul\u00e1-lo de obs\u00e9quios, que o anel foi engolido por um peixe, o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei, que assim voltou \u00e0 posse do anel. N\u00e3o afirmo nada a respeito desta anedota; foi ele quem me contou, citando Pl\u00ednio, citando&#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>N\u00e3o ponha mais na carta. O Xavier naturalmente comparou a vida, n\u00e3o a um cavalo, mas&#8230;<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Nada disso. N\u00e3o \u00e9 capaz de adivinhar o plano estramb\u00f3tico do pobre-diabo. Experimentemos a fortuna, disse ele; vejamos se a minha id\u00e9ia, lan\u00e7ada ao mar, pode tornar ao meu poder, como o anel de Pol\u00edcrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo ser\u00e1 tal, que nunca mais lhe ponha a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Ora essa!<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 estramb\u00f3tico? Pol\u00edcrates experimentara a felicidade; o Xavier quis tentar o caiporismo; inten\u00e7\u00f5es diversas, a\u00e7\u00e3o id\u00eantica. Saiu de casa, encontrou um amigo, travou conversa, escolheu assunto, e acabou dizendo o que era a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e quem n\u00e3o for cavaleiro que o pare\u00e7a. Dita assim, esta frase era talvez fria; por isso o Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza, o desconsolo dos anos, o malogro dos esfor\u00e7os, ou antes os efeitos da imprevid\u00eancia, e quando o peixe ficou de boca aberta, digo, quando a como\u00e7\u00e3o do amigo chegou ao cume, foi que ele lhe atirou o anel, e fugiu a meter-se em casa. Isto que lhe conto \u00e9 natural, cr\u00ea-se, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel; mas agora come\u00e7a a juntar-se \u00e0 realidade uma alta dose de imagina\u00e7\u00e3o. Seja o que for, repito o que ele me disse. Cerca de tr\u00eas semanas depois, o Xavier jantava pacificamente no Le\u00e3o de Ouro ou no Globo, n\u00e3o me lembro bem, e ouviu de outra mesa a mesma frase sua, talvez com a troca de um adjetivo. &#8220;Meu pobre anel, disse ele, eis-te enfim no peixe de Pol\u00edcrates.&#8221; Mas a id\u00e9ia bateu as asas e voou, sem que ele pudesse guard\u00e1-la na mem\u00f3ria. Resignou-se. Dias depois, foi convidado a um baile: era um antigo companheiro dos tempos de rapaz, que celebrava a sua recente distin\u00e7\u00e3o nobili\u00e1ria. O Xavier aceitou o convite, e foi ao baile, e ainda bem que foi, porque entre o sorvete e o ch\u00e1 ouviu de um grupo de pessoas que louvavam a carreira do bar\u00e3o, a sua vida pr\u00f3spera, r\u00edgida, modelo, ouviu comparar o bar\u00e3o a um cavaleiro em\u00e9rito. Pasmo dos ouvintes, porque o bar\u00e3o n\u00e3o montava a cavalo. Mas o panegirista explicou que a vida n\u00e3o \u00e9 mais do que um cavalo xucro ou manhoso, sobre o qual ou se h\u00e1 de ser cavaleiro ou parec\u00ea-lo, e o bar\u00e3o era-o excelente. &#8220;- Entra, meu querido anel, disse o Xavier, entra no dedo de Pol\u00edcrates.&#8221; Mas de novo a id\u00e9ia bateu as asas, sem querer ouvi-lo. Dias depois&#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Adivinho o resto: uma s\u00e9rie de encontros e fugas do mesmo g\u00eanero.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Justo.<br \/>\nZ<\/p>\n<p>Mas, enfim, apanhou-o um dia.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Um dia s\u00f3, e foi ent\u00e3o que me contou o caso digno de mem\u00f3ria. T\u00e3o contente que ele estava nesse dia! Jurou-me que ia escrever, a prop\u00f3sito disto, um conto fant\u00e1stico, \u00e0 maneira de Edgard Poe, uma p\u00e1gina fulgurante, pontuada de mist\u00e9rios, &#8211; s\u00e3o as suas pr\u00f3prias express\u00f5es; &#8211; e pediu-me que o fosse ver no dia seguinte. Fui; o anel fugira-lhe outra vez. &#8220;Meu caro A, disse-me ele, com um sorriso fino e sarc\u00e1stico; tens em mim o Pol\u00edcrates do caiporismo; nomeio-te meu ministro honor\u00e1rio e gratuito.&#8221; Da\u00ed em diante foi sempre a mesma coisa. Quando ele supunha p\u00f4r a m\u00e3o em cima da id\u00e9ia ela batia as asas, pl\u00e1s, pl\u00e1s, pl\u00e1s, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho. Outro peixe a engolia e trazia, e sempre o mesmo desenlace. Mas dos casos que ele me contou naquele dia, quero dizer-lhe tr\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>N\u00e3o posso; l\u00e1 se v\u00e3o os quinze minutos.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>Conto-lhe s\u00f3 tr\u00eas. Um dia, o Xavier chegou a crer que podia enfim agarrar a fugitiva, e finc\u00e1-la perpetuamente no c\u00e9rebro. Abriu um jornal de oposi\u00e7\u00e3o, e leu estupefato estas palavras: &#8220;O minist\u00e9rio parece ignorar que a pol\u00edtica \u00e9, como a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e, n\u00e3o podendo ser bom cavaleiro, porque nunca o foi, devia ao menos parecer que o \u00e9.&#8221; &#8211; &#8220;Ah! enfim! exclamou o Xavier, c\u00e1 est\u00e1s engastado no bucho do peixe; j\u00e1 me n\u00e3o podes fugir.&#8221; Mas, em v\u00e3o! a id\u00e9ia fugia-lhe, sem deixar outro vest\u00edgio mais do que uma confusa reminisc\u00eancia. Sombrio, desesperado, come\u00e7ou a andar, a andar, at\u00e9 que a noite caiu; passando por um teatro, entrou; muita gente, muitas luzes, muita alegria; o cora\u00e7\u00e3o aquietou-se-lhe. C\u00famulo de benef\u00edcios; era uma com\u00e9dia do Pires, uma com\u00e9dia nova. Sentou-se ao p\u00e9 do autor, aplaudiu a obra com entusiasmo, com sincero amor de artista e de irm\u00e3o. No segundo ato, cena VIII, estremeceu. &#8220;D. Eug\u00eania, diz o gal\u00e3 a uma senhora, o cavalo pode ser comparado \u00e0 vida, que \u00e9 tamb\u00e9m um cavalo xucro ou manhoso; quem n\u00e3o for bom cavaleiro, deve cuidar de parecer que o \u00e9.&#8221; O autor, com o olhar t\u00edmido, espiava no rosto do Xavier o efeito daquela reflex\u00e3o, enquanto o Xavier repetia a mesma s\u00faplica das outras vezes: &#8211; &#8220;Meu querido anel&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Z<\/p>\n<p>Et nunc et semper&#8230; Venha o \u00faltimo encontro, que s\u00e3o horas.<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>O \u00faltimo foi o primeiro. J\u00e1 lhe disse que o Xavier transmitira a id\u00e9ia a um amigo. Uma semana depois da com\u00e9dia cai o amigo doente, com tal gravidade que em quatro dias estava \u00e0 morte. O Xavier corre a v\u00ea-lo; e o infeliz ainda o p\u00f4de conhecer, estender-lhe a m\u00e3o fria e tr\u00eamula, cravar-lhe um longo olhar ba\u00e7o da \u00faltima hora, e, com a voz sumida, eco do sepulcro, solu\u00e7ar-lhe: &#8220;C\u00e1 vou, meu caro Xavier, o cavalo xucro ou manhoso da vida deitou-me ao ch\u00e3o: se fui mau cavaleiro, n\u00e3o sei; mas forcejei por parec\u00ea-lo bom.&#8221; N\u00e3o se ria; ele contou-me isto com l\u00e1grimas. Contou-me tamb\u00e9m que a id\u00e9ia ainda esvoa\u00e7ou alguns minutos sobre o cad\u00e1ver, faiscando as belas asas de cristal, que ele cria ser diamante; depois estalou um risinho de esc\u00e1rnio, ingrato e parricida, e fugiu como das outras vezes, metendo-se no c\u00e9rebro de alguns sujeitos, amigos da casa, que ali estavam, transidos de dor, e recolheram com saudade esse pio legado do defunto. Adeus.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis A L\u00e1 vai o Xavier. Z Conhece o Xavier? A H\u00e1 que anos! Era um nababo, rico, podre de rico, mas pr\u00f3digo&#8230; Z Que rico? que pr\u00f3digo? A Rico e pr\u00f3digo, digo-lhe eu. Bebia p\u00e9rolas dilu\u00eddas em n\u00e9ctar. Comia l\u00ednguas de rouxinol. Nunca usou papel mata-borr\u00e3o, por ach\u00e1-lo vulgar e mercantil; empregava [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-118943","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Anel De Pol\u00edcrates, Machado de Assis, Poema, O Anel De Pol\u00edcrates<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Anel De Pol\u00edcrates, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Anel De Pol\u00edcrates\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta 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