{"id":118941,"date":"2017-04-07T19:02:06","date_gmt":"2017-04-07T21:02:06","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118941"},"modified":"2017-04-07T19:02:06","modified_gmt":"2017-04-07T21:02:06","slug":"o-alienista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista","title":{"rendered":"O Alienista"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>CAP\u00cdTULO I &#8211; DE COMO ITAGUA\u00cd GANHOU UMA CASA DE ORATES<\/h2>\n<p>As cr\u00f4nicas da vila de Itagua\u00ed dizem que em tempos remotos vivera ali um certo m\u00e9dico, o Dr. Sim\u00e3o Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos m\u00e9dicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e P\u00e1dua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, n\u00e3o podendo el-rei alcan\u00e7ar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os neg\u00f3cios da monarquia.<\/p>\n<p>\u2014A ci\u00eancia, disse ele a Sua Majestade, \u00e9 o meu emprego \u00fanico; Itagua\u00ed \u00e9 o meu universo.<\/p>\n<p>Dito isso, meteu-se em Itagua\u00ed, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ci\u00eancia, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, vi\u00fava de um juiz de fora, e n\u00e3o bonita nem simp\u00e1tica. Um dos tios dele, ca\u00e7ador de pacas perante o Eterno, e n\u00e3o menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Sim\u00e3o Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condi\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas e anat\u00f4micas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, s\u00e3os e inteligentes. Se al\u00e9m dessas prendas,\u2014\u00fanicas dignas da preocupa\u00e7\u00e3o de um s\u00e1bio, D. Evarista era mal composta de fei\u00e7\u00f5es, longe de lastim\u00e1-lo, agradecia-o a Deus, porquanto n\u00e3o corria o risco de preterir os interesses da ci\u00eancia na contempla\u00e7\u00e3o exclusiva, mi\u00fada e vulgar da consorte.<\/p>\n<p>D. Evarista mentiu \u00e0s esperan\u00e7as do Dr. Bacamarte, n\u00e3o lhe deu filhos robustos nem mofinos. A \u00edndole natural da ci\u00eancia \u00e9 a longanimidade; o nosso m\u00e9dico esperou tr\u00eas anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da mat\u00e9ria, releu todos os escritores \u00e1rabes e outros, que trouxera para Itagua\u00ed, enviou consultas \u00e0s universidades italianas e alem\u00e3s, e acabou por aconselhar \u00e0 mulher um reg\u00edmen aliment\u00edcio especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itagua\u00ed, n\u00e3o atendeu \u00e0s admoesta\u00e7\u00f5es do esposo; e \u00e0 sua resist\u00eancia,\u2014explic\u00e1vel, mas inqualific\u00e1vel,\u2014 devemos a total extin\u00e7\u00e3o da dinastia dos Bacamartes.<\/p>\n<p>Mas a ci\u00eancia tem o inef\u00e1vel dom de curar todas as m\u00e1goas; o nosso m\u00e9dico mergulhou inteiramente no estudo e na pr\u00e1tica da medicina. Foi ent\u00e3o que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a aten\u00e7\u00e3o,\u2014o recanto ps\u00edquico, o exame de patologia cerebral. N\u00e3o havia na col\u00f4nia, e ainda no reino, uma s\u00f3 autoridade em semelhante mat\u00e9ria, mal explorada, ou quase inexplorada. Sim\u00e3o Bacamarte compreendeu que a ci\u00eancia lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de &#8220;louros imarcesc\u00edveis&#8221;, \u2014 express\u00e3o usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade dom\u00e9stica; exteriormente era modesto, segundo conv\u00e9m aos sabedores.<\/p>\n<p>\u2014A sa\u00fade da alma, bradou ele, \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o mais digna do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014Do verdadeiro m\u00e9dico, emendou Crispim Soares, botic\u00e1rio da vila, e um dos seus amigos e comensais.<\/p>\n<p>A verean\u00e7a de Itagua\u00ed, entre outros pecados de que \u00e9 arg\u00fcida pelos cronistas, tinha o de n\u00e3o fazer caso dos dementes. Assim \u00e9 que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na pr\u00f3pria casa, e, n\u00e3o curado, mas descurado, at\u00e9 que a morte o vinha defraudar do benef\u00edcio da vida; os mansos andavam \u00e0 solta pela rua. Sim\u00e3o Bacamarte entendeu desde logo reformar t\u00e3o ruim costume; pediu licen\u00e7a \u00e0 C\u00e2mara para agasalhar e tratar no edif\u00edcio que ia construir todos os loucos de Itagua\u00ed, e das demais vilas e cidades, mediante um estip\u00eandio, que a C\u00e2mara lhe daria quando a fam\u00edlia do enfermo o n\u00e3o pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resist\u00eancia, t\u00e3o certo \u00e9 que dificilmente se desarraigam h\u00e1bitos absurdos, ou ainda maus. A id\u00e9ia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de dem\u00eancia e n\u00e3o faltou quem o insinuasse \u00e0 pr\u00f3pria mulher do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vig\u00e1rio do lugar, veja se seu marido d\u00e1 um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, n\u00e3o \u00e9 bom, vira o ju\u00edzo.<\/p>\n<p>D. Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido, disse-lhe &#8220;que estava com desejos&#8221;, um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a inten\u00e7\u00e3o da esposa e redarg\u00fciu-lhe sorrindo que n\u00e3o tivesse medo. Dali foi \u00e0 C\u00e2mara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloq\u00fc\u00eancia, que a maioria resolveu autoriz\u00e1-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A mat\u00e9ria do imposto n\u00e3o foi f\u00e1cil ach\u00e1-la; tudo estava tributado em Itagua\u00ed. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortu\u00e1rio pagaria dois tost\u00f5es \u00e0 C\u00e2mara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da \u00faltima b\u00ean\u00e7\u00e3o na sepultura. O escriv\u00e3o perdeu-se nos c\u00e1lculos aritm\u00e9ticos do rendimento poss\u00edvel da nova taxa; e um dos vereadores, que n\u00e3o acreditava na empresa do m\u00e9dico, pediu que se relevasse o escriv\u00e3o de um trabalho in\u00fatil.<\/p>\n<p>\u2014 Os c\u00e1lculos n\u00e3o s\u00e3o precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte n\u00e3o arranja nada. Quem \u00e9 que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?<\/p>\n<p>Enganava-se o digno magistrado; o m\u00e9dico arranjou tudo. Uma vez empossado da licen\u00e7a come\u00e7ou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itagua\u00ed naquele tempo; tinha cinq\u00fcenta janelas por lado, um p\u00e1tio no centro, e numerosos cub\u00edculos para os h\u00f3spedes. Como fosse grande arabista, achou no Cor\u00e3o que Maom\u00e9 declara vener\u00e1veis os doidos, pela considera\u00e7\u00e3o de que Al\u00e1 lhes tira o ju\u00edzo para que n\u00e3o pequem. A id\u00e9ia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontisp\u00edcio da casa; mas, como tinha medo ao vig\u00e1rio, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude ali\u00e1s pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almo\u00e7o, a vida daquele pont\u00edfice eminente.<\/p>\n<p>A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alus\u00e3o \u00e0 cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itagua\u00ed. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoa\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas, e at\u00e9 remotas, e da pr\u00f3pria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir \u00e0s cerim\u00f4nias, que duraram sete dias. Muitos dementes j\u00e1 estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasi\u00e3o de ver o carinho paternal e a caridade crist\u00e3 com que eles iam ser tratados. D. Evarista, content\u00edssima com a gl\u00f3ria do marido, vestiu-se luxuosamente, cobriu-se de j\u00f3ias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memor\u00e1veis; ningu\u00e9m deixou de ir visit\u00e1-la duas e tr\u00eas vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do s\u00e9culo, e n\u00e3o s\u00f3 a cortejavam como a louvavam; porquanto,\u2014e este fato \u00e9 um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, \u2014porquanto viam nela a feliz esposa de um alto esp\u00edrito, de um var\u00e3o ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.<\/p>\n<p>Ao cabo de sete dias expiraram as festas p\u00fablicas; Itagua\u00ed, tinha finalmente uma casa de orates<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO II &#8211; TORRENTES DE LOUCOS<\/h2>\n<p>Tr\u00eas dias depois, numa expans\u00e3o \u00edntima com o botic\u00e1rio Crispim Soares, desvendou o alienista o mist\u00e9rio do seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que \u00e9 assim que interpreto o dito de S\u00e3o Paulo aos Cor\u00edntios: &#8220;Se eu conhecer quanto se pode saber, e n\u00e3o tiver caridade, n\u00e3o sou nada&#8221;. O principal nesta minha obra da Casa Verde \u00e9 estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fen\u00f4meno e o rem\u00e9dio universal. Este \u00e9 o mist\u00e9rio do meu cora\u00e7\u00e3o. Creio que com isto presto um bom servi\u00e7o \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>\u2014Um excelente servi\u00e7o, corrigiu o botic\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele d\u00e1-me, por\u00e9m, muito maior campo aos meus estudos.<\/p>\n<p>\u2014Muito maior, acrescentou o outro.<\/p>\n<p>E tinha raz\u00e3o. De todas as vilas e arraiais vizinhos aflu\u00edam loucos \u00e0 Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monoman\u00edacos, era toda a fam\u00edlia dos deserdados do esp\u00edrito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o bastaram os primeiros cub\u00edculos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que n\u00e3o imaginara a exist\u00eancia de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplic\u00e1vel de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vil\u00e3o, que todos os dias, depois do almo\u00e7o, fazia regularmente um discurso acad\u00eamico, ornado de tropos, de ant\u00edteses, de ap\u00f3strofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de C\u00edcero, Apuleio e Tertuliano. O vig\u00e1rio n\u00e3o queria acabar de crer. Qu\u00ea! um rapaz que ele vira, tr\u00eas meses antes, jogando peteca na rua!<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o digo que n\u00e3o, respondia-lhe o alienista; mas a verdade \u00e9 o que Vossa Reverend\u00edssima est\u00e1 vendo. Isto \u00e9 todos os dias.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto a mim, tornou o vig\u00e1rio, s\u00f3 se pode explicar pela confus\u00e3o das l\u00ednguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as l\u00ednguas, \u00e9 f\u00e1cil troc\u00e1-las agora, desde que a raz\u00e3o n\u00e3o trabalhe&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Essa pode ser, com efeito, a explica\u00e7\u00e3o divina do fen\u00f4meno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que haja tamb\u00e9m alguma raz\u00e3o humana, e puramente cient\u00edfica, e disso trato&#8230;<\/p>\n<p>\u2014V\u00e1 que seja, e fico ansioso. Realmente!<\/p>\n<p>Os loucos por amor eram tr\u00eas ou quatro, mas s\u00f3 dois espantavam pelo curioso do del\u00edrio. O primeiro, um Falc\u00e3o, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d\u2019alva, abria os bra\u00e7os e alargava as pernas, para dar-lhes certa fei\u00e7\u00e3o de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol j\u00e1 tinha sa\u00eddo para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, \u00e0 roda das salas ou do p\u00e1tio, ao longo dos corredores, \u00e0 procura do fim do mundo. Era um desgra\u00e7ado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encal\u00e7o; achou-os duas horas depois, ao p\u00e9 de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.<\/p>\n<p>O ci\u00fame satisfez-se, mas o vingado estava louco. E ent\u00e3o come\u00e7ou aquela \u00e2nsia de ir ao fim do mundo \u00e0 cata dos fugitivos.<\/p>\n<p>A mania das grandezas tinha exemplares not\u00e1veis. O mais not\u00e1vel era um pobre-diabo, filho de um algibebe, que narrava \u00e0s paredes ( porque n\u00e3o olhava nunca para nenhuma pessoa ) toda a sua genealogia, que era esta:<\/p>\n<p>\u2014Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a p\u00farpura, a p\u00farpura engendrou o duque, o duque engendrou o marqu\u00eas, o marqu\u00eas engendrou o conde, que sou eu.<\/p>\n<p>Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:<\/p>\n<p>\u2014Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.<\/p>\n<p>Outro da mesma esp\u00e9cie era um escriv\u00e3o, que se vendia por mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabe\u00e7as a um, seiscentas a outro, mil e duzentas a outro, e n\u00e3o acabava mais. N\u00e3o falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se Jo\u00e3o de Deus, dizia agora ser o deus Jo\u00e3o, e prometia o reino dos c\u00e9us a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que n\u00e3o dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma s\u00f3 palavra, todas as estrelas se despegariam do c\u00e9u e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.<\/p>\n<p>Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do que por interesse cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Que, na verdade, a paci\u00eancia do alienista era ainda mais extraordin\u00e1ria do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Sim\u00e3o Bacamarte come\u00e7ou por organizar um pessoal de administra\u00e7\u00e3o; e, aceitando essa id\u00e9ia ao botic\u00e1rio Crispim Soares, aceitou-lhe tamb\u00e9m dois sobrinhos, a quem incumbiu da execu\u00e7\u00e3o de um regimento que lhes deu, aprovado pela C\u00e2mara, da distribui\u00e7\u00e3o da comida e da roupa, e assim tamb\u00e9m da escrita, etc. Era o melhor que podia fazer, para somente cuidar do seu of\u00edcio.\u2014A Casa Verde, disse ele ao vig\u00e1rio, \u00e9 agora uma esp\u00e9cie de mundo, em que h\u00e1 o governo temporal e o governo espiritual. E o Padre Lopes ria deste pio trocado,\u2014e acrescentava,\u2014com o \u00fanico fim de dizer tamb\u00e9m uma chala\u00e7a: \u2014Deixe estar, deixe estar, que hei de mand\u00e1-lo denunciar ao papa.<\/p>\n<p>Uma vez desonerado da administra\u00e7\u00e3o, o alienista procedeu a uma vasta classifica\u00e7\u00e3o dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; da\u00ed passou \u00e0s subclasses, monomanias, del\u00edrios, alucina\u00e7\u00f5es diversas.<\/p>\n<p>Isto feito, come\u00e7ou um estudo aturado e cont\u00ednuo; analisava os h\u00e1bitos de cada louco, as horas de acesso, as avers\u00f5es, as simpatias, as palavras, os gestos, as tend\u00eancias; inquiria da vida dos enfermos, profiss\u00e3o, costumes, circunst\u00e2ncias da revela\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida, acidentes da inf\u00e2ncia e da mocidade, doen\u00e7as de outra esp\u00e9cie, antecedentes na fam\u00edlia, uma devassa, enfim, como a n\u00e3o faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observa\u00e7\u00e3o nova, uma descoberta interessante, um fen\u00f4meno extraordin\u00e1rio. Ao mesmo tempo estudava o melhor reg\u00edmen, as subst\u00e2ncias medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos, n\u00e3o s\u00f3 os que vinham nos seus amados \u00e1rabes, como os que ele mesmo descobria, \u00e0 for\u00e7a de sagacidade e paci\u00eancia. Ora, todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma quest\u00e3o, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma s\u00f3 palavra a D. Evarista.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO III &#8211; DEUS SABE O QUE FAZ<\/h2>\n<p>Ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a mais desgra\u00e7ada das mulheres: caiu em profunda melancolia, ficou amarela, magra, comia pouco e suspirava a cada canto. N\u00e3o ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche, porque respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada, e definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como lhe perguntasse o marido o que \u00e9 que tinha, respondeu tristemente que nada; depois atreveu-se um pouco, e foi ao ponto de dizer que se considerava t\u00e3o vi\u00fava como dantes. E acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014Quem diria nunca que meia d\u00fazia de lun\u00e1ticos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o acabou a frase; ou antes, acabou-a levantando os olhos ao teto,\u2014os olhos, que eram a sua fei\u00e7\u00e3o mais insinuante,\u2014 negros, grandes, lavados de uma luz \u00famida, como os da aurora. Quanto ao gesto, era o mesmo que empregara no dia em que Sim\u00e3o Bacamarte a pediu em casamento. N\u00e3o dizem as cr\u00f4nicas se D. Evarista brandiu aquela arma com o perverso intuito de degolar de uma vez a ci\u00eancia, ou, pelo menos, decepar-lhe as m\u00e3os; mas a conjetura \u00e9 veross\u00edmil. Em todo caso, o alienista n\u00e3o lhe atribuiu inten\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o se irritou o grande homem, n\u00e3o ficou sequer consternado. O metal de seus olhos n\u00e3o deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno, nem a menor prega veio quebrar a superf\u00edcie da fronte quieta como a \u00e1gua de Botafogo. Talvez um sorriso lhe descerrou os l\u00e1bios, por entre os quais filtrou esta palavra macia como o \u00f3leo do C\u00e2ntico:<\/p>\n<p>\u2014Consinto que v\u00e1s dar um passeio ao Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>D. Evarista sentiu faltar-lhe o ch\u00e3o debaixo dos p\u00e9s. Nunca dos nuncas vira o Rio de Janeiro, que posto n\u00e3o fosse sequer uma p\u00e1lida sombra do que hoje \u00e9, todavia era alguma coisa mais do que Itagua\u00ed, Ver o Rio de Janeiro, para ela, equivalia ao sonho do hebreu cativo. Agora, principalmente, que o marido assentara de vez naquela povoa\u00e7\u00e3o interior, agora \u00e9 que ela perdera as \u00faltimas esperan\u00e7as de respirar os ares da nossa boa cidade; e justamente agora \u00e9 que ele a convidava a realizar os seus desejos de menina e mo\u00e7a. D. Evarista n\u00e3o p\u00f4de dissimular o gosto de semelhante proposta. Sim\u00e3o Bacamarte pagou-lhe na m\u00e3o e sorriu,\u2014um sorriso tanto ou quanto filos\u00f3fico, al\u00e9m de conjugal, em que parecia traduzir-se este pensamento: \u2014 &#8220;N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio certo para as dores da alma; esta senhora definha, porque lhe parece que a n\u00e3o amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se&#8221;. E porque era homem estudioso tomou nota da observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas um dardo atravessou o cora\u00e7\u00e3o de D. Evarista. Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao marido que, se ele n\u00e3o ia, ela n\u00e3o iria tamb\u00e9m, porque n\u00e3o havia de meter-se sozinha pelas estradas.<\/p>\n<p>\u2014Ir\u00e1 com sua tia, redarg\u00fciu o alienista.<\/p>\n<p>Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas n\u00e3o quisera pedi-lo nem insinu\u00e1-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes despesas ao marido, em segundo lugar porque era melhor, mais met\u00f3dico e racional que a proposta viesse dele.<\/p>\n<p>\u2014Oh! mas o dinheiro que ser\u00e1 preciso gastar! suspirou D. Evarista sem convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda ontem o escritur\u00e1rio prestou-me contas. Queres ver?<\/p>\n<p>E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via-l\u00e1ctea de algarismos. E depois levou-a \u00e0s arcas, onde estava o dinheiro.<\/p>\n<p>Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobr\u00f5es sobre dobr\u00f5es; era a opul\u00eancia.<\/p>\n<p>Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais p\u00e9rfida das alus\u00f5es:<\/p>\n<p>\u2014Quem diria que meia d\u00fazia de lun\u00e1ticos&#8230;<\/p>\n<p>D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resigna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014Deus sabe o que faz!<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois efetuava-se a jornada. D. Evarista, a tia, a mulher do botic\u00e1rio, um sobrinho deste, um padre que o alienista conhecera em Lisboa, e que de aventura achava-se em Itagua\u00ed cinco ou seis pajens, quatro mucamas, tal foi a comitiva que a popula\u00e7\u00e3o viu dali sair em certa manh\u00e3 do m\u00eas de maio. As despedidas foram tristes para todos, menos para o alienista. Conquanto as l\u00e1grimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras, n\u00e3o chegaram a abal\u00e1-lo. Homem de ci\u00eancia, e s\u00f3 de ci\u00eancia, nada o consternava fora da ci\u00eancia; e se alguma coisa o preocupava naquela ocasi\u00e3o, se ele deixava correr pela multid\u00e3o um olhar inquieto e policial, n\u00e3o era outra coisa mais do que a id\u00e9ia de que algum demente podia achar-se ali misturado com a gente de ju\u00edzo.<\/p>\n<p>\u2014Adeus! solu\u00e7aram enfim as damas e o botic\u00e1rio.<\/p>\n<p>E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Sim\u00e3o Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do g\u00eanio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas l\u00e1grimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IV &#8211; UMA TEORIA NOVA<\/h2>\n<p>Ao passo que D. Evarista, em l\u00e1grimas, vinha buscando o 1 [Rio de Janeiro, Sim\u00e3o Bacamarte estudava por todos os lados uma certa id\u00e9ia arrojada e nova, pr\u00f3pria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde, era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais her\u00f3icos.<\/p>\n<p>Um dia de manh\u00e3,\u2014eram passadas tr\u00eas semanas,\u2014estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.<\/p>\n<p>\u2014Trata-se de neg\u00f3cio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.<\/p>\n<p>Crispim empalideceu. Que neg\u00f3cio importante podia ser, se n\u00e3o alguma not\u00edcia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este t\u00f3pico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um s\u00f3 dia. Assim se explicam os mon\u00f3logos que ele fazia agora, e que os f\u00e2mulos lhe ouviam muita vez:\u2014&#8221;Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Ces\u00e1ria? Bajulador, torpe bajulador! S\u00f3 para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora ag\u00fcenta-te; anda, ag\u00fcenta-te, alma de lacaio, fracalh\u00e3o, vil, miser\u00e1vel. Dizes am\u00e9m a tudo, n\u00e3o \u00e9? a\u00ed tens o lucro, biltre!&#8221;\u2014E muitos outros nomes feios, que um homem n\u00e3o deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado \u00e9 um nada. T\u00e3o depressa ele o recebeu como abriu m\u00e3o das drogas e voou \u00e0 Casa Verde.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Bacamarte recebeu-o com a alegria pr\u00f3pria de um s\u00e1bio, uma alegria abotoada de circunspe\u00e7\u00e3o at\u00e9 o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014Estou muito contente, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014Not\u00edcias do nosso povo? perguntou o botic\u00e1rio com a voz tr\u00eamula.<\/p>\n<p>O alienista fez um gesto magn\u00edfico, e respondeu:<\/p>\n<p>\u2014Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experi\u00eancia cient\u00edfica. Digo experi\u00eancia, porque n\u00e3o me atrevo a assegurar desde j\u00e1 a minha id\u00e9ia; nem a ci\u00eancia \u00e9 outra coisa, Sr. Soares, sen\u00e3o uma investiga\u00e7\u00e3o constante. Trata-se, pois, de uma experi\u00eancia, mas uma experi\u00eancia que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era at\u00e9 agora uma ilha perdida no oceano da raz\u00e3o; come\u00e7o a suspeitar que \u00e9 um continente.<\/p>\n<p>Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do botic\u00e1rio. Depois explicou compridamente a sua id\u00e9ia. No conceito dele a ins\u00e2nia abrangia uma vasta superf\u00edcie de c\u00e9rebros; e desenvolveu isto com grande c\u00f3pia de racioc\u00ednios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na hist\u00f3ria e em Itagua\u00ed mas, como um raro esp\u00edrito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itagua\u00ed e refugiou-se na hist\u00f3ria. Assim, apontou com especialidade alguns personagens c\u00e9lebres, S\u00f3crates, que tinha um dem\u00f4nio familiar, Pascal, que via um abismo \u00e0 esquerda, Maom\u00e9, Caracala, Domiciano, Cal\u00edgula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades rid\u00edculas. E porque o botic\u00e1rio se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e at\u00e9 acrescentou sentenciosamente:<\/p>\n<p>\u2014A ferocidade, Sr. Soares, \u00e9 o grotesco a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares levantando as m\u00e3os ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 id\u00e9ia de ampliar 0 territ\u00f3rio da loucura, achou-a 0 botic\u00e1rio extravagante; mas a mod\u00e9stia, principal adorno de seu esp\u00edrito, n\u00e3o lhe sofreu confessar outra coisa al\u00e9m de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era &#8220;caso de matraca&#8221;. Esta express\u00e3o n\u00e3o tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itagua\u00ed que como as demais vilas, arraiais e povoa\u00e7\u00f5es da col\u00f4nia, n\u00e3o dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma not\u00edcia; ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da C\u00e2mara, e da matriz;\u2014ou por meio de matraca.<\/p>\n<p>Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na m\u00e3o.<\/p>\n<p>De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam,\u2014um rem\u00e9dio para sez\u00f5es, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesi\u00e1stico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz p\u00fablica; mas era conservado pela grande energia de divulga\u00e7\u00e3o que possu\u00eda. Por exemplo, um dos vereadores,\u2014aquele justamente que mais se opusera \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Casa Verde,\u2014desfrutava a reputa\u00e7\u00e3o de perfeito educador de cobras e macacos, e ali\u00e1s nunca domesticara um s\u00f3 desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as cr\u00f4nicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascav\u00e9is dan\u00e7ando no peito do vereador; afirma\u00e7\u00e3o perfeitamente falsa, mas s\u00f3 devida \u00e0 absoluta confian\u00e7a no sistema. Verdade, verdade, nem todas as institui\u00e7\u00f5es do antigo reg\u00edmen mereciam o desprezo do nosso s\u00e9culo.<\/p>\n<p>\u2014H\u00e1 melhor do que anunciar a minha id\u00e9ia, \u00e9 pratic\u00e1-la, respondeu o alienista \u00e0 insinua\u00e7\u00e3o do botic\u00e1rio.<\/p>\n<p>E o botic\u00e1rio, n\u00e3o divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor come\u00e7ar pela execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014Sempre haver\u00e1 tempo de a dar \u00e0 matraca, concluiu ele.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:<\/p>\n<p>\u2014Suponho o esp\u00edrito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, \u00e9 ver se posso extrair a p\u00e9rola, que \u00e9 a raz\u00e3o; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da raz\u00e3o e da loucura. A raz\u00e3o \u00e9 o perfeito equil\u00edbrio de todas as faculdades; fora da\u00ed ins\u00e2nia, ins\u00e2nia e s\u00f3 ins\u00e2nia.<\/p>\n<p>O Vig\u00e1rio Lopes a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que n\u00e3o chegava a entend\u00ea-la, que era uma obra absurda, e, se n\u00e3o era absurda, era de tal modo colossal que n\u00e3o merecia princ\u00edpio de execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014Com a defini\u00e7\u00e3o atual, que \u00e9 a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a raz\u00e3o est\u00e3o perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra come\u00e7a. Para que transpor a cerca?<\/p>\n<p>Sobre o l\u00e1bio fino e discreto do alienista rogou a vaga sombra de uma inten\u00e7\u00e3o de riso, em que o desd\u00e9m vinha casado \u00e0 comisera\u00e7\u00e3o; mas nenhuma palavra saiu de suas egr\u00e9gias entranhas.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia contentou-se em estender a m\u00e3o \u00e0 teologia, \u2014 com tal seguran\u00e7a, que a teologia n\u00e3o soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itagua\u00ed e o universo ficavam \u00e0 beira de uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO V &#8211; O TERROR<\/h2>\n<p>Quatro dias depois, a popula\u00e7\u00e3o de Itagua\u00ed ouviu consternada a not\u00edcia de que um certo Costa fora recolhido \u00e0 Casa Verde.<\/p>\n<p>\u2014Imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2014Qual imposs\u00edvel! foi recolhido hoje de manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, na verdade, ele n\u00e3o merecia&#8230; Ainda em cima! depois de tanto que ele fez&#8230;<\/p>\n<p>Costa era um dos cidad\u00e3os mais estimados de Itagua\u00ed, Herdara quatrocentos mil cruzados em boa moeda de El-rei Dom Jo\u00e3o V, dinheiro cuja renda bastava, segundo lhe declarou 0 tio no testamento, para viver &#8220;at\u00e9 o fim do mundo&#8221;. T\u00e3o depressa recolheu a heran\u00e7a, como entrou a dividi-la em empr\u00e9stimos, sem usura, mil cruzados a um, dois mil a outro, trezentos a este, oitocentos \u00e0quele, a tal ponto que, no fim de cinco anos, estava sem nada. Se a mis\u00e9ria viesse de chofre, o pasmo de Itagua\u00ed, seria enorme; mas veio devagar; ele foi passando da opul\u00eancia \u00e0 abastan\u00e7a, da abastan\u00e7a \u00e0 mediania, da mediania \u00e0 pobreza, da pobreza \u00e0 mis\u00e9ria, gradualmente. Ao cabo daqueles cinco anos, pessoas que levavam o chap\u00e9u ao ch\u00e3o, logo que ele assomava no fim da rua, agora batiam-lhe no ombro, com intimidade, davam-lhe piparotes no nariz, diziam-lhe pulhas. E o Costa sempre lhano, risonho. Nem se lhe dava de ver que os menos corteses eram justamente os que tinham ainda a d\u00edvida em aberto; ao contr\u00e1rio, parece que os agasalhava com maior prazer, e mais sublime resigna\u00e7\u00e3o. Um dia, como um desses incur\u00e1veis devedores lhe atirasse uma chala\u00e7a grossa, e ele se risse dela, observou um desafei\u00e7oado, com certa perf\u00eddia: \u2014 &#8220;Voc\u00ea suporta esse sujeito para ver se ele lhe paga&#8221;. Costa n\u00e3o se deteve um minuto, foi ao devedor e perdoou-lhe a divida.\u2014 &#8220;N\u00e3o admira, retorquiu o outro; o Costa abriu m\u00e3o de uma estrela, que est\u00e1 no c\u00e9u&#8221;. Costa era perspicaz, entendeu que ele negava todo o merecimento ao ato, atribuindo-lhe a inten\u00e7\u00e3o de rejeitar o que n\u00e3o vinham meter-lhe na algibeira. Era tamb\u00e9m pundonoroso e inventivo; duas horas depois achou um meio de provar que lhe n\u00e3o cabia um tal lab\u00e9u: pegou de algumas dobras, e mandou-as de empr\u00e9stimo ao devedor.<\/p>\n<p>\u2014Agora espero que&#8230;\u2014pensou ele sem concluir a frase.<\/p>\n<p>Esse \u00faltimo rasgo do Costa persuadiu a cr\u00e9dulos e incr\u00e9dulos; ningu\u00e9m mais p\u00f4s em d\u00favida os sentimentos cavalheirescos daquele digno cidad\u00e3o. As necessidades mais acanhadas sa\u00edram \u00e0 rua, vieram bater-lhe \u00e0 porta, com os seus chinelos velhos, com as suas capas remendadas. Um verme, entretanto, rola a alma do Costa: era o conceito do desafeto. Mas isso mesmo acabou; tr\u00eas meses depois veio este pedir-lhe uns cento e vinte cruzados com promessa de restituir-lhos da\u00ed a dois dias; era 0 res\u00edduo da grande heran\u00e7a, mas era tamb\u00e9m uma nobre desforra: Costa emprestou o dinheiro logo, logo, e sem juros. Infelizmente n\u00e3o teve tempo de ser pago; cinco meses depois era recolhido \u00e0 Casa Verde.<\/p>\n<p>Imagina-se a consterna\u00e7\u00e3o de Itagua\u00ed, quando soube do caso. N\u00e3o se falou em outra coisa, dizia-se que o Costa ensandecera, ao almo\u00e7o, outros que de madrugada; e contavam-se os acessos, que eram furiosos, sombrios, terr\u00edveis,\u2014ou mansos, e at\u00e9 engra\u00e7ados, conforme as vers\u00f5es. Muita gente correu \u00e0 Casa Verde, e achou o pobre Costa, tranq\u00fcilo, um pouco espantado, falando com muita clareza, e perguntando por que motivo o tinham levado para ali. Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte aprovava esses sentimentos de estima e compaix\u00e3o, mas acrescentava que a ci\u00eancia era a ci\u00eancia, e que ele n\u00e3o podia deixar na rua um mentecapto. A \u00faltima pessoa que intercedeu por ele (porque depois do que vou contar ningu\u00e9m mais se atreveu a procurar o terr\u00edvel m\u00e9dico) foi uma pobre senhora, prima do Costa. O alienista disse-lhe confidencialmente que esse digno homem n\u00e3o estava no perfeito equil\u00edbrio das faculdades mentais, \u00e0 vista do modo como dissipara os cabedais que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Isso, n\u00e3o! isso, n\u00e3o! interrompeu a boa senhora com energia. Se ele gastou t\u00e3o depressa o que recebeu, a culpa n\u00e3o \u00e9 dele.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o, senhor. Eu lhe digo como o neg\u00f3cio se passou. O defunto meu tio n\u00e3o era mau homem; mas quando estava furioso era capaz de nem tirar 0 chap\u00e9u ao Sant\u00edssimo. Ora, um dia, pouco tempo antes de morrer, descobriu que um escravo lhe roubara um boi; imagine como ficou.<\/p>\n<p>A cara era um piment\u00e3o; todo ele tremia, a boca escumava; lembra-me como se fosse hoje. Ent\u00e3o um homem feio, cabeludo, em mangas de camisa, chegou-se a ele e pediu \u00e1gua. Meu tio (Deus lhe fale n alma!) respondeu que fosse beber ao rio ou ao inferno. O homem olhou para ele, abriu a m\u00e3o em ar de amea\u00e7a, e rogou esta praga:\u2014&#8221;Todo o seu dinheiro n\u00e3o h\u00e1 de durar mais de sete anos e um dia, t\u00e3o certo como isto ser o sino-salam\u00e3o! E mostrou o sino-salam\u00e3o impresso no bra\u00e7o. Foi isto, meu senhor; foi esta praga daquele maldito.<\/p>\n<p>Bacamarte espetara na pobre senhora um par de olhos agudos como punhais. Quando ela acabou, estendeu-lhe a m\u00e3o polidamente, como se o fizesse \u00e0 pr\u00f3pria esposa do vice-rei, e convidou-a a ir falar ao primo. A m\u00edsera acreditou; ele levou-a \u00e0 Casa Verde e encerrou-a na galeria dos alucinados.<\/p>\n<p>A not\u00edcia desta aleivosia do ilustre Bacamarte lan\u00e7ou o terror \u00e0 alma da popula\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m queria acabar de crer, que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que n\u00e3o tinha outro crime sen\u00e3o o de interceder por um infeliz. Comentava-se o caso nas esquinas, nos barbeiros; edificou-se um romance, umas finezas namoradas que o alienista outrora dirigira \u00e0 prima do Costa, a indigna\u00e7\u00e3o do Costa e o desprezo da prima. E da\u00ed a vingan\u00e7a. Era claro. Mas a austeridade do alienista, a vida de estudos que ele levava, pareciam desmentir uma tal hip\u00f3tese. Hist\u00f3rias! Tudo isso era naturalmente a capa do velhaco. E um dos mais cr\u00e9dulos chegou a murmurar que sabia de outras coisas, n\u00e3o as dizia, por n\u00e3o ter certeza plena, mas sabia, quase que podia jurar.<\/p>\n<p>\u2014Voc\u00ea, que \u00e9 \u00edntimo dele, n\u00e3o nos podia dizer o que h\u00e1, o que houve, que motivo&#8230;<\/p>\n<p>Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e curiosa, dos amigos at\u00f4nitos, era para ele uma consagra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. N\u00e3o havia duvidar; toda a povoa\u00e7\u00e3o sabia enfim que o privado do alienista era ele, Crispim, o botic\u00e1rio, o colaborador do grande homem e das grandes coisas; da\u00ed a corrida \u00e0 botica. Tudo isso dizia o car\u00e3o jucundo e o riso discreto do botic\u00e1rio, o riso e o sil\u00eancio, porque ele n\u00e3o respondia nada; um, dois, tr\u00eas monoss\u00edlabos, quando muito, soltos, secos, encapados no fiel sorriso constante e mi\u00fado, cheio de mist\u00e9rios cient\u00edficos, que ele n\u00e3o podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana.<\/p>\n<p>\u2014H\u00e1 coisa, pensavam os mais desconfiados.<\/p>\n<p>Um desses limitou-se a pens\u00e1-lo, deu de ombros e foi embora. Tinha neg\u00f3cios pessoais Acabava de construir uma casa suntuosa. S\u00f3 a casa bastava para deter a chamar toda a gente; mas havia mais,\u2014a mob\u00edlia, que ele mandara vir da Hungria e da Holanda, segundo contava, e que se podia ver do lado de fora, porque as janelas viviam abertas,\u2014e o jardim, que era uma obra-prima de arte e de gosto. Esse homem, que enriquecera no fabrico de albardas, tinha tido sempre o sonho de uma casa magn\u00edfica, jardim pomposo, mob\u00edlia rara. N\u00e3o deixou o neg\u00f3cio das albardas, mas repousava dele na contempla\u00e7\u00e3o da casa nova, a primeira de Itagua\u00ed, mais grandiosa do que a Casa Verde, mais nobre do que a da C\u00e2mara, Entre a gente ilustre da povoa\u00e7\u00e3o havia choro e ranger de dentes, quando se pensava, ou se falava, ou se louvava a casa do albardeiro,\u2014um simples albardeiro, Deus do c\u00e9u!<\/p>\n<p>\u2014L\u00e1 est\u00e1 ele embasbacado, diziam os transeuntes, de manh\u00e3.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, com efeito, era costume do Mateus estatelar-se, no meio do jardim, com os olhos na casa, namorado, durante uma longa hora, at\u00e9 que vinham cham\u00e1-lo para almo\u00e7ar. Os vizinhos, embora o cumprimentassem com certo respeito, riam-se por tr\u00e1s dele, que era um gosto. Um desses chegou a dizer que o Mateus seria muito mais econ\u00f4mico, e estaria riqu\u00edssimo, se fabricasse as albardas para si mesmo; epigrama inintelig\u00edvel, mas que fazia rir \u00e0s bandeiras despregadas.<\/p>\n<p>\u2014 Agora l\u00e1 est\u00e1 o Mateus a ser contemplado, diziam \u00e0 tarde.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o deste outro dito era que, de tarde, quando as fam\u00edlias safam a passeio (jantavam cedo) usava o Mateus postar-se \u00e0 janela, bem no centro, vistoso, sobre um fundo escuro, trajado de branco, atitude senhoril, e assim ficava duas e tr\u00eas horas at\u00e9 que anoitecia de todo. Pode crer-se que a inten\u00e7\u00e3o do Mateus era ser admirado e invejado, posto que ele n\u00e3o a confessasse a nenhuma pessoa, nem ao botic\u00e1rio, nem ao Padre Lopes seus grandes amigos. E entretanto n\u00e3o foi outra a alega\u00e7\u00e3o do botic\u00e1rio, quando o alienista lhe disse que o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras, mania que ele Bacamarte descobrira e estudava desde algum tempo. Aquilo de contemplar a casa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o, senhor, acudiu vivamente Crispim Soares.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014H\u00e1 de perdoar-me, mas talvez n\u00e3o saiba que ele de manh\u00e3 examina a obra, n\u00e3o a admira; de tarde, s\u00e3o os outros que o admiram a ele e \u00e0 obra.\u2014E contou o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo at\u00e9 o cair da noite.<\/p>\n<p>Uma vol\u00fapia cient\u00edfica alumiou os olhos de Sim\u00e3o Bacamarte. Ou ele n\u00e3o conhecia todos os costumes do albardeiro, ou nada mais quis, interrogando o Crispim, do que confirmar alguma not\u00edcia incerta ou suspeita vaga. A explica\u00e7\u00e3o satisf\u00ea-lo; mas como tinha as alegrias pr\u00f3prias de um s\u00e1bio, concentradas, nada viu o botic\u00e1rio que fizesse suspeitar uma inten\u00e7\u00e3o sinistra. Ao contr\u00e1rio, era de tarde, e o alienista pediu-lhe o bra\u00e7o para irem a passeio. Deus! era a primeira vez que Sim\u00e3o Bacamarte dava o seu privado tamanha honra; Crispim ficou tr\u00eamulo, atarantado, disse que sim, que estava pronto. Chegaram duas ou tr\u00eas pessoas de fora, Crispim mandou-as mentalmente a todos os diabos; n\u00e3o s\u00f3 atrasavam o passeio, como podia acontecer que Bacamarte elegesse alguma delas, para acompanh\u00e1-lo, e o dispensasse a ele. Que impaci\u00eancia! que afli\u00e7\u00e3o! Enfim, sa\u00edram. O alienista guiou para os lados da casa do albardeiro, viu-o \u00e0 janela, passou cinco, seis vezes por diante, devagar, parando, examinando as atitudes, a express\u00e3o do rosto. O pobre Mateus, apenas notou que era objeto da curiosidade ou admira\u00e7\u00e3o do primeiro volto de Itagua\u00ed redobrou de express\u00e3o, deu outro relevo \u00e0s atitudes&#8230; Triste! triste, n\u00e3o fez mais do que condenar-se; no dia seguinte, foi recolhido \u00e0 Casa Verde.<\/p>\n<p>\u2014A Casa Verde \u00e9 um c\u00e1rcere privado, disse um m\u00e9dico sem cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Nunca uma opini\u00e3o pegou e grassou t\u00e3o rapidamente. C\u00e1rcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itagua\u00ed,\u2014a medo, \u00e9 verdade, porque durante a semana que se seguiu \u00e0 captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas,\u2014duas ou tr\u00eas de considera\u00e7\u00e3o,\u2014foram recolhidas \u00e0 Casa Verde. O alienista dizia que s\u00f3 eram admitidos os casos patol\u00f3gicos, mas pouca gente lhe dava cr\u00e9dito. Sucediam-se as vers\u00f5es populares. Vingan\u00e7a, cobi\u00e7a de dinheiro, castigo de Deus, monomania do pr\u00f3prio m\u00e9dico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itagua\u00ed qualquer g\u00e9rmen de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e m\u00edngua daquela cidade, mil outras explica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o explicavam nada, tal era o produto di\u00e1rio da imagina\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Nisto chegou do Rio de Janeiro a esposa do alienista, a tia, a mulher do Crispim Soares, e toda a mais comitiva, \u2014ou quase toda\u2014que algumas semanas antes partira de Itagua\u00ed O alienista foi receb\u00ea-la, com o botic\u00e1rio, o Padre Lopes os vereadores e v\u00e1rios outros magistrados. O momento em que D. Evarista p\u00f4s os olhos na pessoa do marido \u00e9 considerado pelos cronistas do tempo como um dos mais sublimes da hist\u00f3ria moral dos homens, e isto pelo contraste das duas naturezas, ambas extremas, ambas egr\u00e9gias. D. Evarista soltou um grito, \u2014balbuciou uma palavra e atirou-se ao consorte\u2014de um gesto que n\u00e3o se pode melhor definir do que comparando-o a uma mistura de on\u00e7a e rola. N\u00e3o assim o ilustre Bacamarte; frio como diagn\u00f3stico, sem desengon\u00e7ar por um instante a rigidez cient\u00edfica, estendeu os bra\u00e7os \u00e0 dona que caiu neles e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dois minutos D. Evarista recebia os cumprimentos dos amigos e o pr\u00e9stito punha-se em marcha.<\/p>\n<p>D. Evarista era a esperan\u00e7a de Itagua\u00ed contava-se com ela para minorar o flagelo da Casa Verde. Da\u00ed as aclama\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, a imensa gente que atulhava as ruas, as fl\u00e2mulas, as flores e damascos \u00e0s janelas. Com o bra\u00e7o apoiado no do Padre Lopes \u2014porque o eminente confiara a mulher ao vig\u00e1rio e acompanhava-os a passo meditativo\u2014D. Evarista voltava a cabe\u00e7a a um lado e outro, curiosa, inquieta, petulante. O vig\u00e1rio indagava do Rio de Janeiro, que ele n\u00e3o vira desde o vice-reinado anterior; e D. Evarista respondia entusiasmada que era a coisa mais bela que podia haver no mundo. O Passeio P\u00fablico estava acabado, um para\u00edso onde ela fora muitas vezes, e a Rua das Belas Noites, o chafariz das Marrecas&#8230; Ah! o chafariz das Marrecas! Eram mesmo marrecas\u2014feitas de metal e despejando \u00e1gua pela boca fora. Uma coisa galant\u00edssima. O vig\u00e1rio dizia que sim, que o Rio de Janeiro devia estar agora muito mais bonito. Se j\u00e1 o era noutro tempo! N\u00e3o admira, maior do que Itagua\u00ed, e, demais, sede do governo&#8230; Mas n\u00e3o se pode dizer que Itagua\u00ed fosse feio; tinha belas casas, a casa do Mateus, a Casa Verde&#8230;<\/p>\n<p>\u2014A prop\u00f3sito de Casa Verde, disse o Padre Lopes escorregando habilmente para o assunto da ocasi\u00e3o, a senhora vem ach\u00e1-la muito cheia de gente.<\/p>\n<p>\u2014Sim?<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 verdade. L\u00e1 est\u00e1 o Mateus&#8230;<\/p>\n<p>\u2014O albardeiro?<\/p>\n<p>\u2014O albardeiro; est\u00e1 o Costa, a prima do Costa, e Fulano, e Sicrano, e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Tudo isso doido?<\/p>\n<p>\u2014Ou quase doido, obtemperou padre.<\/p>\n<p>\u2014Mas ent\u00e3o?<\/p>\n<p>O vig\u00e1rio derreou os cantos da boca, \u00e0 maneira de quem n\u00e3o sabe nada ou n\u00e3o quer dizer tudo; resposta vaga, que se n\u00e3o pode repetir a outra pessoa por falta de texto. D. Evarista achou realmente extraordin\u00e1rio que toda aquela gente ensandecesse; um ou outro, v\u00e1; mas todos? Entretanto custava-lhe duvidar; o marido era um s\u00e1bio, n\u00e3o recolheria ningu\u00e9m \u00e0 Casa Verde sem prova evidente de loucura.<\/p>\n<p>\u2014Sem d\u00favida&#8230; sem d\u00favida&#8230; ia pontuando o vig\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tr\u00eas horas depois cerca de cinq\u00fcenta convivas sentavam-se em volta da mesa de Sim\u00e3o Bacamarte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista foi o assunto obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a casta, met\u00e1foras, amplifica\u00e7\u00f5es, ap\u00f3logos. Ela era a esposa do novo Hip\u00f3crates, a musa da ci\u00eancia, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consola\u00e7\u00e3o; trazia nos olhos duas estrelas segundo a vers\u00e3o modesta de Crispim Soares e dois s\u00f3is no conceito de um vereador. O alienista ouvia essas coisas um tanto enfastiado, mas sem vis\u00edvel impaci\u00eancia. Quando muito, dizia ao ouvido da mulher que a ret\u00f3rica permitia tais arrojos sem significa\u00e7\u00e3o. D. Evarista fazia esfor\u00e7os para aderir a esta opini\u00e3o do marido; mas, ainda descontando tr\u00eas quartas partes das louvaminhas, ficava muito com que enfunar-lhe a alma. Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco anos, pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos. Deus, disse ele, depois de dar o universo ao homem e \u00e0 mulher, esse diamante e essa p\u00e9rola da coroa divina (e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa), Deus quis vencer a Deus, e criou D. Evarista.&#8221;<\/p>\n<p>D. Evarista baixou os olhos com exemplar mod\u00e9stia. Duas senhoras, achando a cortesanice excessiva e audaciosa, interrogaram os olhos do dono da casa; e, na verdade, 0 gesto do alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de amea\u00e7as e provavelmente de sangue. O atrevimento foi grande, pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que removesse qualquer epis\u00f3dio tr\u00e1gico\u2014ou que o adiasse ao menos para o dia seguinte. Sim, que o adiasse. Uma delas, a mais piedosa, chegou a admitir consigo mesma que D. Evarista n\u00e3o merecia nenhuma desconfian\u00e7a, t\u00e3o longe estava de ser atraente ou bonita. Uma simples \u00e1gua-morna. Verdade \u00e9 que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo? Esta id\u00e9ia f\u00ea-la tremer outra vez, embora menos; menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito e, levantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do discurso. N\u00e3o lhe negou que era um improviso brilhante, cheio de rasgos magn\u00edficos. Seria dele mesmo a id\u00e9ia relativa ao nascimento de D. Evarista ou t\u00ea-la-ia encontrado em algum autor que?&#8230; N\u00e3o senhor; era dele mesmo; achou-a naquela ocasi\u00e3o e pareceu-lhe adequada a um arroubo orat\u00f3rio. De resto, suas id\u00e9ias eram antes arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o \u00e9pico. Uma vez, por exemplo, comp\u00f4s uma ode \u00e0 queda do Marqu\u00eas de Pombal, em que dizia que esse ministro era o &#8220;drag\u00e3o asp\u00e9rrimo do Nada&#8221; esmagado pelas &#8220;garras vingadoras do Todo&#8221;; e assim outras mais ou menos fora do comum; gostava das id\u00e9ias sublimes e raras, das imagens grandes e nobres&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pobre mo\u00e7o! pensou o alienista. E continuou consigo: \u2014Trata-se de um caso de les\u00e3o cerebral: fen\u00f4meno sem gravidade, mas digno de estudo&#8230;<\/p>\n<p>D. Evarista ficou estupefata quando soube, tr\u00eas dias depois, que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde. Um mo\u00e7o que tinha id\u00e9ias t\u00e3o bonitas! As duas senhoras atribu\u00edram o ato a ci\u00fames do alienista. N\u00e3o podia ser outra coisa; realmente, a declara\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o fora audaciosa demais.<\/p>\n<p>Ci\u00fames? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem recolhidos Jos\u00e9 Borges do Couto Leme, pessoa estim\u00e1vel, o Chico das cambraias, folgaz\u00e3o em\u00e9rito, o escriv\u00e3o Fabr\u00edcio e ainda outros? O terror acentuou-se. N\u00e3o se sabia j\u00e1 quem estava s\u00e3o, nem quem estava doido. As mulheres, quando os maridos safam, mandavam acender uma lamparina a Nossa Senhora; e nem todos os maridos eram valorosos, alguns n\u00e3o andavam fora sem um ou dois capangas. Positivamente o terror. Quem podia emigrava. Um desses fugitivos chegou a ser preso a duzentos passos da vila. Era um rapaz de trinta anos, am\u00e1vel, conversado, polido, t\u00e3o polido que n\u00e3o cumprimentava algu\u00e9m sem levar o chap\u00e9u ao ch\u00e3o; na rua, acontecia-lhe correr uma distancia de dez a vinte bra\u00e7as para ir apertar a m\u00e3o a um homem grave, a uma senhora, \u00e0s vezes a um menino, como acontecera ao filho do juiz de fora. Tinha a voca\u00e7\u00e3o das cortesias. De resto, devia as boas rela\u00e7\u00f5es da sociedade, n\u00e3o s\u00f3 aos dotes pessoais, que eram raros, como \u00e0 nobre tenacidade com que nunca desanimava diante de uma, duas, quatro, seis recusas, caras feias, etc. O que acontecia era que, uma vez entrado numa casa, n\u00e3o a deixava mais, nem os da casa o deixavam a ele, t\u00e3o gracioso era o Gil Bernardes. Pois o Gil Bernardes, apesar de se saber estimado, teve medo quando lhe disseram um dia que o alienista o trazia de olho; na madrugada seguinte fugiu da vila, mas foi logo apanhado e conduzido \u00e0 Casa Verde.<\/p>\n<p>\u2014Devemos acabar com isto!<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o pode continuar!<\/p>\n<p>\u2014Abaixo a tirania!<\/p>\n<p>\u2014D\u00e9spota! violento! Golias!<\/p>\n<p>N\u00e3o eram gritos na rua, eram suspiros em casa, mas n\u00e3o tardava a hora dos gritos. O terror crescia; avizinhava-se a rebeli\u00e3o. A id\u00e9ia de uma peti\u00e7\u00e3o ao governo, para que Sim\u00e3o Bacamarte fosse capturado e deportado, andou por algumas cabe\u00e7as, antes que o barbeiro Porf\u00edrio a expendesse na loja com grandes gestos de indigna\u00e7\u00e3o. Note-se \u2014 e essa \u00e9 uma das laudas mais puras desta sombrio hist\u00f3ria \u2014 note-se que o Porf\u00edrio, desde que a Casa Verde come\u00e7ara a povoar-se t\u00e3o extraordinariamente, viu crescerem-lhe os lucros pela aplica\u00e7\u00e3o ass\u00eddua de sanguessugas que dali lhe pediam; mas o interesse particular, dizia ele, deve ceder ao interesse p\u00fablico. E acrescentava:\u2014\u00e9 preciso derrubar o tirano! Note-se mais que ele soltou esse grito justamente no dia em que Sim\u00e3o Bacamarte fizera recolher \u00e0 Casa Verde um homem que trazia com ele uma demanda, o Coelho.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o me dir\u00e3o em que \u00e9 que o Coelho \u00e9 doido? bradou o Porf\u00edrio,<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m lhe respondia; todos repetiam que era um homem perfeitamente ajuizado. A mesma demanda que ele trazia com o barbeiro, acerca de uns ch\u00e3os da vila, era filha da obscuridade de um alvar\u00e1 e n\u00e3o da cobi\u00e7a ou \u00f3dio. Um excelente car\u00e1ter o Coelho. Os \u00fanicos desafei\u00e7oados que tinha eram alguns sujeitos que dizendo-se taciturnos ou alegando andar com pressa mal o viam de longe dobravam as esquinas, entravam nas lojas, etc. Na verdade, ele amava a boa palestra, a palestra comprida, gostada a sorvos largos, e assim \u00e9 que nunca estava s\u00f3, preferindo os que sabiam dizer duas palavras, mas n\u00e3o desdenhando os outros. O Padre Lopes que cultivava o Dante, e era inimigo do Coelho, nunca o via desligar-se de uma pessoa que n\u00e3o declamasse e emendasse este trecho:<\/p>\n<p>La bocca sollev\u00f2 dal fiero pasto<\/p>\n<p>Quel &#8220;seccatore&#8221;&#8230;<br \/>\nmas uns sabiam do \u00f3dio do padre, e outros pensavam que isto era uma ora\u00e7\u00e3o em latim.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VI &#8211; A REBELI\u00c3O<\/h2>\n<p>Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram e levaram uma representa\u00e7\u00e3o \u00e0 C\u00e2mara.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara recusou aceit\u00e1-la, declarando que a Casa Verde era uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica, e que a ci\u00eancia n\u00e3o podia ser emendada por vota\u00e7\u00e3o administrativa, menos ainda por movimentos de rua.<\/p>\n<p>\u2014Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, \u00e9 o conselho que vos damos.<\/p>\n<p>A irrita\u00e7\u00e3o dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da rebeli\u00e3o e destruir a Casa Verde; que Itagua\u00ed n\u00e3o podia continuar a servir de cad\u00e1ver aos estudos e experi\u00eancias de um d\u00e9spota; que muitas pessoas estim\u00e1veis e algumas distintas, outras humildes mas dignas de apre\u00e7o, jaziam nos cub\u00edculos da Casa Verde; que o despotismo cient\u00edfico do alienista complicava-se do esp\u00edrito de gan\u00e2ncia, visto que os loucos ou supostos tais n\u00e3o eram tratados de gra\u00e7a: as fam\u00edlias e em falta delas a C\u00e2mara pagavam ao alienista&#8230;<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 falso! interrompeu o presidente.<\/p>\n<p>\u2014Falso?<\/p>\n<p>\u2014H\u00e1 cerca de duas semanas recebemos um of\u00edcio do ilustre m\u00e9dico em que nos declara que, tratando de fazer experi\u00eancias de alto valor psicol\u00f3gico, desiste do estip\u00eandio votado pela C\u00e2mara, bem como nada receber\u00e1 das fam\u00edlias dos enfermos.<\/p>\n<p>A not\u00edcia deste ato t\u00e3o nobre, t\u00e3o puro, suspendeu um pouco a alma dos rebeldes. Seguramente o alienista podia estar em erro, mas nenhum interesse alheio \u00e0 ci\u00eancia o instigava; e para demonstrar o erro, era preciso alguma coisa mais do que arrua\u00e7as e clamores. Isto disse o presidente, com aplauso de toda a C\u00e2mara. O barbeiro, depois de alguns instantes de concentra\u00e7\u00e3o, declarou que estava investido de um mandato p\u00fablico e n\u00e3o restituiria a paz a Itagua\u00ed antes de ver por terra a Casa<\/p>\n<p>Verde\u2014&#8221;essa Bastilha da raz\u00e3o humana&#8221;\u2014express\u00e3o que ouvira a um poeta local e que ele repetiu com muita \u00eanfase. Disse, e, a um sinal, todos sa\u00edram com ele.<\/p>\n<p>Imagine-se a situa\u00e7\u00e3o dos vereadores; urgia obstar ao ajuntamento, \u00e0 rebeli\u00e3o, \u00e0 luta, ao sangue. Para acrescentar ao mal um dos vereadores que apoiara o presidente ouvindo agora a denomina\u00e7\u00e3o dada pelo barbeiro \u00e0 Casa Verde\u2014&#8221;Bastilha da raz\u00e3o humana&#8221;\u2014achou-a t\u00e3o elegante que mudou de parecer. Disse que entendia de bom aviso decretar alguma medida que reduzisse a Casa Verde; e porque o presidente, indignado, manifestasse em termos en\u00e9rgicos o seu pasmo, o vereador fez esta reflex\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014Nada tenho que ver com a ci\u00eancia; mas, se tantos homens em quem supomos s\u00e3o reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado n\u00e3o \u00e9 o alienista?<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra e falou ainda por algum tempo, com prud\u00eancia mas com firmeza. Os colegas estavam at\u00f4nitos; o presidente pediu-lhe que, ao menos, desse o exemplo da ordem e do respeito \u00e0 lei, n\u00e3o aventasse as suas id\u00e9ias na rua para n\u00e3o dar corpo e alma \u00e0 rebeli\u00e3o, que era por ora um turbilh\u00e3o de \u00e1tomos dispersos. Esta figura corrigiu um pouco o efeito da outra: Sebasti\u00e3o Freitas prometeu suspender qualquer a\u00e7\u00e3o, reservando-se o direito de pedir pelos meios legais a redu\u00e7\u00e3o da Casa Verde. E repetia consigo namorado:\u2014Bastilha da raz\u00e3o humana!<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO I &#8211; DE COMO ITAGUA\u00cd GANHOU UMA CASA DE ORATES As cr\u00f4nicas da vila de Itagua\u00ed dizem que em tempos remotos vivera ali um certo m\u00e9dico, o Dr. Sim\u00e3o Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos m\u00e9dicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-118941","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Alienista, Machado de Assis, Poesia, Poema, O Alienista<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Alienista, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Alienista\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Alienista, Machado de Assis, Poesia, Poema, O Alienista\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Alienista, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Alienista\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-04-07T21:02:06+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"45 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-alienista#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-alienista\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"O Alienista\",\"datePublished\":\"2017-04-07T21:02:06+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-alienista\"},\"wordCount\":9002,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-alienista#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-alienista\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-alienista\",\"name\":\"O Alienista, Machado de Assis, Poesia, Poema, O Alienista\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-04-07T21:02:06+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"O Alienista, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Alienista\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-alienista#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-alienista\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-alienista#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"O Alienista\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"O Alienista, Machado de Assis, Poesia, Poema, O Alienista","description":"O Alienista, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Alienista","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"O Alienista, Machado de Assis, Poesia, Poema, O Alienista","og_description":"O Alienista, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Alienista","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-04-07T21:02:06+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"45 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"O Alienista","datePublished":"2017-04-07T21:02:06+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista"},"wordCount":9002,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista","name":"O Alienista, Machado de Assis, Poesia, Poema, O Alienista","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-04-07T21:02:06+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"O Alienista, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Alienista","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alienista#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"O Alienista"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118941","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=118941"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118941\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=118941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=118941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=118941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}