{"id":118939,"date":"2017-04-07T18:58:40","date_gmt":"2017-04-07T20:58:40","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118939"},"modified":"2017-04-07T18:58:40","modified_gmt":"2017-04-07T20:58:40","slug":"na-arca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/na-arca","title":{"rendered":"Na Arca"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Tr\u00eas cap\u00edtulos in\u00e9ditos do G\u00eanesis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo A<\/h2>\n<p>1. &#8211; Ent\u00e3o No\u00e9 disse a seus filhos Jaf\u00e9, Sem e Cam: &#8211; &#8220;Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, n\u00f3s, e nossas mulheres, e todos os animais. A arca tem de parai no cabe\u00e7o de uma montanha; desceremos a ela.<\/p>\n<p>2. &#8211; &#8220;Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nela tu, tua mulher e teus filhos.<\/p>\n<p>3. &#8211; &#8220;E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animais.<\/p>\n<p>4. &#8211; &#8220;Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor. e todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataratas d\u00f3 c\u00e9u; tornaremos a descer \u00e0 terra, e a viver no seio da paz e da conc\u00f3rdia.&#8221;<\/p>\n<p>5. &#8211; Isto disse No\u00e9, e os filhos de No\u00e9 muito se alegraram de ouvir as palavras de seu pai; e No\u00e9 os deixou s\u00f3s, retirando-se a uma das c\u00e2maras da arca.<\/p>\n<p>6. &#8211; Ent\u00e3o Jaf\u00e9 levantou a voz e disse: &#8211; &#8220;Apraz\u00edvel vida vai ser a nossa. A figueira nos dar\u00e1 o fruto, a ovelha a l\u00e3, a vaca o leite, o sol a claridade e a noite a tenda.<\/p>\n<p>7. &#8211; &#8220;Porquanto seremos \u00fanicos na terra, e toda a terra ser\u00e1 nossa, e ningu\u00e9m perturbar\u00e1 a paz de uma fam\u00edlia, poupada do castigo que feriu a todos os homens.<\/p>\n<p>8. &#8211; &#8220;Para todo o sempre.&#8221; Ent\u00e3o Sem, ouvindo falar o irm\u00e3o, disse: &#8211; &#8220;Tenho uma id\u00e9ia&#8221;. Ao que Jaf\u00e9 e Cam responderam:- &#8220;Vejamos a tua id\u00e9ia, Sem.&#8221;<\/p>\n<p>9. &#8211; E Sem falou a voz de seu cora\u00e7\u00e3o, dizendo: &#8220;Meu pai tem a sua fam\u00edlia; cada um de n\u00f3s tem a sua fam\u00edlia; a terra \u00e9 de sobra; pod\u00edamos viver em tendas separadas. Cada um de n\u00f3s far\u00e1 o que lhe parecer melhor: e plantar\u00e1, ca\u00e7ar\u00e1, ou lavrar\u00e1 a madeira, ou fiar\u00e1 o linho.&#8221;<\/p>\n<p>10. &#8211; E respondeu Jaf\u00e9: &#8211; &#8220;Acho bem lembrada a id\u00e9ia de Sem; podemos viver em tendas separadas. A arca vai descer ao cabe\u00e7o de uma montanha; meu pai e Cam descer\u00e3o para o lado do nascente; eu e Sem para o lado do poente,. Sem ocupar\u00e1 duzentos c\u00f4vados de terra, eu outros duzentos.&#8221;<\/p>\n<p>11. &#8211; Mas dizendo Sem: &#8211; &#8220;Acho pouco duzentos c\u00f4vados&#8221; -, retorquiu Jaf\u00e9: &#8220;Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha terra e a tua haver\u00e1 um rio, que as divida no meio, para se n\u00e3o confundir a propriedade. Eu fico na margem esquerda e tu na margem direita;<\/p>\n<p>12. &#8211; &#8220;E a minha terra se chamar\u00e1 a terra de Jaf\u00e9, e a tua se chamar\u00e1 a terra de Sem; e iremos \u00e0s tendas um do outro, e partiremos o p\u00e3o da alegria e da conc\u00f3rdia.&#8221;<\/p>\n<p>13. &#8211; E tendo Sem aprovado a divis\u00e3o, perguntou a Jaf\u00e9: &#8220;Mas o rio? a quem pertencer\u00e1 a \u00e1gua do rio, a corrente?<\/p>\n<p>14. &#8211; &#8220;Porque n\u00f3s possu\u00edmos as margens, e n\u00e3o estatu\u00edmos nada a respeito da corrente.&#8221; E respondeu Jaf\u00e9, que podiam pescar de um e outro lado; mas, divergindo o irm\u00e3o, prop\u00f4s dividir o rio em duas partes, fincando um pau no meio. Jaf\u00e9, por\u00e9m, disse que a corrente levaria o pau.<\/p>\n<p>15. &#8211; E tendo Jaf\u00e9 respondido assim, acudiu o irm\u00e3o: &#8220;Pois que te n\u00e3o serve o pau, fico eu com o rio, e as duas margens; e para que n\u00e3o haja conflito, podes levantar um muro, dez ou doze c\u00f4vados, para l\u00e1 da tua margem antiga.<\/p>\n<p>16. &#8211; &#8220;E se com isto perdes alguma coisa, nem \u00e9 grande a diferen\u00e7a, nem deixa de ser acertado, para que nunca jamais se turbe a conc\u00f3rdia entre n\u00f3s, segundo \u00e9 a vontade do Senhor.&#8221;<\/p>\n<p>17. &#8211; Jaf\u00e9 por\u00e9m replicou: &#8211; &#8220;Vai bugiar! Com que direito me tiras a margem, que \u00e9 minha, e me roubas um peda\u00e7o de terra? Porventura \u00e9s melhor do que eu,<\/p>\n<p>18. &#8211; &#8220;Ou mais belo, ou mais querido de meu pai? Que direito tens de violar assim t\u00e3o escandalosamente a propriedade alheia?<\/p>\n<p>19. &#8211; &#8220;Pois agora te digo que o rio ficar\u00e1 do meu lado, com ambas as margens, e que se te atreveres a entrar na minha terra, matar-te-ei como Caim matou a seu irm\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>20. &#8211; Ouvindo isto, Cam atemorizou-se muito e come\u00e7ou a aquietar os dois irm\u00e3os,<\/p>\n<p>21. &#8211; Os quais tinham os olhos do tamanho de figos e cor de brasa, e olhavam-se cheios de c\u00f3lera e desprezo.<\/p>\n<p>22. &#8211; A arca, por\u00e9m, boiava sobre as \u00e1guas do abismo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo B<\/h2>\n<p>1. &#8211; Ora, Jaf\u00e9, tendo curtido a c\u00f3lera, come\u00e7ou a espumar pela boca, e Cam falou-lhe palavras de brandura,<\/p>\n<p>2. &#8211; Dizendo: &#8211; &#8220;Vejamos um meio de conciliar tudo; vou chamar tua mulher e a mulher de Sem.&#8221;<\/p>\n<p>3. &#8211; Um e outro, por\u00e9m, recusaram dizendo que o caso era de direito e n\u00e3o de persuas\u00e3o.<\/p>\n<p>4. &#8211; E Sem prop\u00f4s a Jaf\u00e9 que compensasse os dez c\u00f4vados perdidos, medindo outros tantos nos fundos da terra dele. Mas Jaf\u00e9 respondeu:<\/p>\n<p>5. &#8211; &#8220;Por que n\u00e3o me mandas logo para os confins do mundo? J\u00e1 te n\u00e3o contentas com quinhentos c\u00f4vados; queres quinhentos e dez, e eu que fique com quatrocentos e noventa.<\/p>\n<p>6. &#8211; &#8220;Tu n\u00e3o tens sentimentos morais? n\u00e3o sabes o que \u00e9 justi\u00e7a? n\u00e3o v\u00eas que me esbulhas descaradamente? e n\u00e3o percebes que eu saberei defender o que \u00e9 meu, ainda com risco de vida?<\/p>\n<p>7. &#8211; &#8220;E que, se \u00e9 preciso correr sangue, o sangue h\u00e1 de correr j\u00e1 e j\u00e1,<\/p>\n<p>8. &#8211; &#8220;Para te castigar a soberba e lavar a tua iniq\u00fcidade?&#8221;<\/p>\n<p>9. &#8211; Ent\u00e3o Sem avan\u00e7ou para Jaf\u00e9; mas Cam interp\u00f4s-se, pondo uma das m\u00e3os no peito de cada um;<\/p>\n<p>10. &#8211; Enquanto o lobo e o cordeiro, que durante os dias do dil\u00favio, tinham vivido na mais doce conc\u00f3rdia, ouvindo o rumor das vozes, vieram espreitar a briga dos dois irm\u00e3os, e come\u00e7aram a vigiar-se um ao outro.<\/p>\n<p>11. &#8211; E disse Cam: &#8211; &#8220;Ora, pois, tenho uma id\u00e9ia maravilhosa, que h\u00e1 de acomodar tudo;<\/p>\n<p>12. &#8211; &#8220;A qual me \u00e9 inspirada pelo amor, que tenho a meus irm\u00e3os. Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de meu pai, e ficarei com o rio e as duas margens, dando-me v\u00f3s uns vinte c\u00f4vados cada um.&#8221;<\/p>\n<p>13. &#8211; E Sem e Jaf\u00e9 riram com desprezo e sarcasmo, dizendo: &#8220;Vai plantar t\u00e2maras! Guarda a tua id\u00e9ia para os dias da velhice.&#8221; E puxaram as orelhas e o nariz de Cam; e Jaf\u00e9, metendo dois dedos na boca, imitou o silvo da serpente, em ar de surriada.<\/p>\n<p>14. &#8211; Ora, Cam, envergonhado e irritado, espalmou a m\u00e3o dizendo: &#8211; &#8220;Deixa estar!&#8221; e foi dali ter com o pai e as mulheres dos dois irm\u00e3os.<\/p>\n<p>15. &#8211; Jaf\u00e9 por\u00e9m disse a Sem: &#8211; &#8220;Agora que estamos s\u00f3s, vamos decidir este grave caso, ou seja de l\u00edngua ou de punho. Ou tu me cedes as duas margens, ou eu te quebro uma costela.&#8221;<\/p>\n<p>16. &#8211; Dizendo isto, Jaf\u00e9 amea\u00e7ou a Sem com os punhos fechados, enquanto Sem, derreando o corpo, disse com voz irada: &#8220;N\u00e3o te cedo nada, gatuno!&#8221;<\/p>\n<p>17. &#8211; Ao que Jaf\u00e9 retorquiu irado: &#8220;Gatuno \u00e9s tu!&#8221;<\/p>\n<p>18. &#8211; Isto dito, avan\u00e7aram um para o outro e atracaram-se. Jaf\u00e9 tinha o bra\u00e7o rijo e adestrado; Sem era forte na resist\u00eancia. Ent\u00e3o Jaf\u00e9, segurando o irm\u00e3o pela cinta, apertou-o fortemente, bradando: &#8220;De quem \u00e9 o rio?&#8221;<\/p>\n<p>19. &#8211; E respondendo Sem: &#8211; &#8220;\u00c9 meu!&#8221; Jaf\u00e9 fez um gesto para derrub\u00e1-lo; mas Sem, que era forte, sacudiu o corpo e atirou o irm\u00e3o para longe; Jaf\u00e9, por\u00e9m, espumando de c\u00f3lera, tornou a apertar o irm\u00e3o, e os dois lutaram bra\u00e7o a bra\u00e7o,<\/p>\n<p>20. &#8211; Suando e bufando como touros.<\/p>\n<p>21. &#8211; Na luta, ca\u00edram e rolaram, esmurrando-se um ao outro; o sangue sa\u00eda dos narizes, dos bei\u00e7os, das faces; ora vencia Jaf\u00e9,<\/p>\n<p>22. &#8211; Ora vencia Sem; porque a raiva animava-os igualmente, e eles lutavam com as m\u00e3os, os p\u00e9s, os dentes e as unhas; e a arca estremecia como se de novo se houvessem aberto as cataratas do c\u00e9u.<\/p>\n<p>23. &#8211; Ent\u00e3o as vozes e brados chegaram aos ouvidos de No\u00e9, ao mesmo tempo que seu filho Cam, que lhe apareceu clamando: &#8220;Meu pai, meu pai, se de Caim se tomar\u00e1 vingan\u00e7a sete vezes, e de Lamech setenta vezes sete, o que ser\u00e1 de Jaf\u00e9 e Sem?&#8221;<\/p>\n<p>24. &#8211; E pedindo No\u00e9 que explicasse o dito, Cam referiu a disc\u00f3rdia dos dois irm\u00e3os, e a ira que os animava, e disse: &#8211; &#8220;Correi a aquiet\u00e1-los.&#8221; No\u00e9 disse: &#8211; &#8220;Vamos.&#8221;<\/p>\n<p>25. &#8211; A arca, por\u00e9m, boiava sobre as \u00e1guas do abismo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo C<\/h2>\n<p>1. &#8211; Eis aqui chegou No\u00e9 ao lugar onde lutavam os dois filhos,<\/p>\n<p>2. &#8211; E achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem debaixo do joelho de Jaf\u00e9, que com o punho cerrado lhe batia na cara, a qual estava roxa e sangrenta.<\/p>\n<p>3. &#8211; Entretanto, Sem, al\u00e7ando as m\u00e3os, conseguiu apertar o pesco\u00e7o do irm\u00e3o, e este come\u00e7ou a bradar: &#8220;Larga-me, larga-me!&#8221;<\/p>\n<p>4. &#8211; Ouvindo os brados, \u00e0s mulheres de Jaf\u00e9 e Sem acudiram tamb\u00e9m ao lugar da luta, e, vendo-os assim, entraram a solu\u00e7ar e a dizer: &#8220;O que ser\u00e1 de n\u00f3s? A maldi\u00e7\u00e3o caiu sobre n\u00f3s e nossos maridos.&#8221;<\/p>\n<p>5. &#8211; No\u00e9, por\u00e9m, lhes disse: &#8220;Calai-vos, mulheres de meus filhos, eu verei de que se trata, e ordenarei o que for justo.&#8221; E caminhando para os dois combatentes,<\/p>\n<p>6. &#8211; Bradou: &#8220;Cessai a briga. Eu, No\u00e9, vosso pai, o ordeno e mando.&#8221; E ouvindo os dois irm\u00e3os o pai, detiveram-se subitamente, e ficaram longo tempo atalhados e mudos, n\u00e3o se levantando nenhum deles.<\/p>\n<p>7. &#8211; No\u00e9 continuou: &#8220;Erguei-vos, homens indignos da salva\u00e7\u00e3o e merecedores do castigo que feriu os outros homens.&#8221;<\/p>\n<p>8. &#8211; Jaf\u00e9 e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto, o pesco\u00e7o e as m\u00e3os, e as roupas salpicadas de sangue, porque tinham lutado com unhas e dentes, instigados de \u00f3dio mortal.<\/p>\n<p>9. &#8211; O ch\u00e3o tamb\u00e9m estava alagado de sangue, e as sand\u00e1lias de um e outro, e os cabelos de um e outro,<\/p>\n<p>10. &#8211; Como se o pecado os quisera marcar com o selo da iniq\u00fcidade.<\/p>\n<p>11. &#8211; As duas mulheres, por\u00e9m, chegaram-se a eles, chorando e acariciando-os, e via-se-lhes a dor do cora\u00e7\u00e3o. Jaf\u00e9 e Sem n\u00e3o atendiam a nada, e estavam com os olhos no ch\u00e3o, medrosos de encarar seu pai.<\/p>\n<p>12. &#8211; O qual disse: &#8220;Ora, pois, quero saber o motivo da briga.&#8221;<\/p>\n<p>13. &#8211; Esta palavra acendeu o \u00f3dio no cora\u00e7\u00e3o de ambos. Jaf\u00e9, por\u00e9m, foi o primeiro que falou e disse:<\/p>\n<p>14. &#8211; &#8220;Sem invadiu a minha terra, a terra que eu havia escolhido para levantar a minha tenda, quando as \u00e1guas houverem desaparecido e a arca descer, segundo a promessa do Senhor;<\/p>\n<p>15. &#8211; &#8220;E eu, que n\u00e3o tolero o esbulho, disse a meu irm\u00e3o: &#8220;N\u00e3o te contentas com quinhentos c\u00f4vados e queres mais dez?&#8221; E ele me respondeu: &#8220;Quero mais dez e as duas margens do rio que h\u00e1 de dividir a minha terra da tua terra.&#8221;<\/p>\n<p>16. &#8211; No\u00e9, ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e acabando Jaf\u00e9, perguntou ao irm\u00e3o: &#8220;Que respondes?&#8221;<\/p>\n<p>17. &#8211; E Sem disse: &#8211; &#8220;Jaf\u00e9 mente, porque eu s\u00f3 lhe tomei os dez c\u00f4vados de terra, depois que ele recusou dividir o rio em duas partes; e propondo-lhe ficar com as duas margens, ainda consenti que ele medisse outros dez c\u00f4vados nos fundos das terras dele.<\/p>\n<p>18. &#8211; &#8220;Para compensar o que perdia; mas a iniq\u00fcidade de Caim falou nele, e ele me feriu a cabe\u00e7a, a cara e as m\u00e3os.&#8221;<\/p>\n<p>19. &#8211; E Jaf\u00e9 interrompeu-o dizendo: &#8220;Porventura n\u00e3o me feriste tamb\u00e9m? N\u00e3o estou ensang\u00fcentado como tu? Olha a minha cara e o meu pesco\u00e7o; olha as minhas faces, que rasgaste com as tuas unhas de tigre.&#8221;<\/p>\n<p>20. &#8211; Indo No\u00e9 falar, notou que os dois filhos de novo pareciam desafiar-se com os olhos. Ent\u00e3o disse: &#8220;Ouvi!&#8221; Mas os dois irm\u00e3os, cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando: &#8211; &#8220;De quem \u00e9 o rio?&#8221; &#8211; &#8220;O rio \u00e9 meu.&#8221;<\/p>\n<p>21. &#8211; E s\u00f3 a muito custo puderam No\u00e9, Cam e as mulheres de Sem e Jaf\u00e9, conter os dois combatentes, cujo sangue entrou a jorrar em grande c\u00f3pia.<\/p>\n<p>22. &#8211; No\u00e9, por\u00e9m, al\u00e7ando a voz, bradou: &#8211; &#8220;Maldito seja o que me n\u00e3o obedecer. Ele ser\u00e1 maldito, n\u00e3o sete vezes, n\u00e3o setenta vezes sete, mas setecentas vezes setenta.<\/p>\n<p>23. &#8211; &#8220;Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, n\u00e3o quero nenhum ajuste a respeito do lugar em que levantareis as tendas.&#8221;<\/p>\n<p>24. &#8211; Depois ficou meditabundo.<\/p>\n<p>25. &#8211; E al\u00e7ando os olhos ao c\u00e9u, porque a portinhola do teto estava levantada, bradou com tristeza:<\/p>\n<p>26. &#8211; &#8220;Eles ainda n\u00e3o possuem a terra e j\u00e1 est\u00e3o brigando por causa dos limites. O que ser\u00e1 quando vierem a Turquia e a R\u00fassia?&#8221;<\/p>\n<p>27. &#8211; E nenhum dos filhos de No\u00e9 p\u00f4de entender esta palavra de seu pai.<\/p>\n<p>28. &#8211; A arca, por\u00e9m, continuava a boiar sobre as \u00e1guas do abismo.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Tr\u00eas cap\u00edtulos in\u00e9ditos do G\u00eanesis Cap\u00edtulo A 1. &#8211; Ent\u00e3o No\u00e9 disse a seus filhos Jaf\u00e9, Sem e Cam: &#8211; &#8220;Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, n\u00f3s, e nossas mulheres, e todos os animais. 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