{"id":118937,"date":"2017-04-07T18:32:37","date_gmt":"2017-04-07T20:32:37","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118937"},"modified":"2017-04-07T18:32:37","modified_gmt":"2017-04-07T20:32:37","slug":"d-benedita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/d-benedita","title":{"rendered":"D. Benedita"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Um retrato<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p>A coisa mais \u00e1rdua do mundo, depois do of\u00edcio de governar, seria dizer a idade exata de D. Benedita. Uns davam-lhe quarenta anos, outros quarenta e cinco, alguns trinta e seis. Um corretor de fundos descia aos vinte e nove; mas esta opini\u00e3o, eivada de inten\u00e7\u00f5es ocultas, carecia daquele cunho de sinceridade que todos gostamos de achar nos conceitos humanos. Nem eu a cito, sen\u00e3o para dizer, desde logo, que D. Benedita foi sempre um padr\u00e3o de bons costumes. A ast\u00facia do corretor n\u00e3o fez mais do que indign\u00e1-la, embora momentaneamente; digo momentaneamente. Quanto \u00e0s outras conjeturas, oscilando entre os trinta e seis e os quarenta e cinco, n\u00e3o desdiziam das fei\u00e7\u00f5es de D. Benedita, que eram maduramente graves e juvenilmente graciosas. Mas, se alguma coisa admira \u00e9 que houvesse suposi\u00e7\u00f5es neste neg\u00f3cio, quando bastava interrog\u00e1-la para saber a verdade verdadeira.<\/p>\n<p>D. Benedita fez quarenta e dois anos no domingo, dezenove de setembro de 1869. S\u00e3o seis horas da tarde; a mesa da fam\u00edlia est\u00e1 ladeada de parentes e amigos, em n\u00famero de vinte ou vinte e cinco pessoas. Muitas dessas estiveram no jantar de 1868, no de 1867 e no de 1866, e ouviram sempre aludir francamente \u00e0 idade da dona da casa. Al\u00e9m disso, v\u00eaem-se ali, \u00e0 mesa, uma mo\u00e7a e um rapaz, seus filhos; este \u00e9, decerto, no tamanho e nas maneiras, um tanto menino; mas a mo\u00e7a, Eul\u00e1lia, contando dezoito anos, parece ter vinte e um, tal \u00e9 a severidade dos modos e das fei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A alegria dos convivas, a excel\u00eancia do jantar, certas negocia\u00e7\u00f5es matrimoniais incumbidas ao c\u00f4nego Roxo, aqui presente, e das quais se falar\u00e1 mais abaixo, as boas qualidades da dona da casa, tudo isso d\u00e1 \u00e0 festa um car\u00e1ter \u00edntimo e feliz. O c\u00f4nego levanta-se para trinchar o peru. D. Benedita acatava esse uso nacional das casas modestas de confiar o peru a um dos convivas, em vez de o fazer retalhar fora da mesa por m\u00e3os servis, e o c\u00f4nego era o pianista daquelas ocasi\u00f5es solenes. Ningu\u00e9m conhecia melhor a anatomia do animal, nem sabia operar com mais presteza. Talvez, &#8211; e este fen\u00f4meno fica para os entendidos, &#8211; talvez a circunst\u00e2ncia do canonicato aumentasse ao trinchante, no esp\u00edrito dos convivas, uma certa soma de prest\u00edgio, que ele n\u00e3o teria, por exemplo, se fosse um simples estudante de matem\u00e1ticas, ou um amanuense de secretaria. Mas, por outro lado, um estudante ou um amanuense, sem a li\u00e7\u00e3o do longo uso, poderia dispor da arte consumada do c\u00f4nego? \u00c9 outra quest\u00e3o importante.<\/p>\n<p>Venhamos, por\u00e9m, aos demais convivas, que est\u00e3o parados, conversando; reina o burburinho pr\u00f3prio dos est\u00f4magos meio regalados, o riso da natureza que caminha para a reple\u00e7\u00e3o; \u00e9 um instante de repouso.<\/p>\n<p>D. Benedita fala, como as suas visitas, mas n\u00e3o fala para todas, sen\u00e3o para uma, que est\u00e1 sentada ao p\u00e9 dela. Essa \u00e9 uma senhora gorda, simp\u00e1tica, muito risonha, m\u00e3e de um bacharel de vinte e dois anos, o Leandrinho, que est\u00e1 sentado defronte delas. D. Benedita n\u00e3o se contenta de falar \u00e0 senhora gorda, tem uma das m\u00e3os desta entre as suas; e n\u00e3o se contenta de lhe ter presa a m\u00e3o, fita-lhe uns olhos namorados, vivamente namorados. N\u00e3o os fita, note-se bem, de um modo persistente e longo, mas inquieto, mi\u00fado, repetido, instant\u00e2neo. Em todo caso, h\u00e1 muita ternura naquele gesto; e, dado que n\u00e3o a houvesse, n\u00e3o se perderia nada, porque D. Benedita repete com a boca a D. Maria dos Anjos tudo o que com os olhos lhe tem dito: &#8211; que est\u00e1 encantada, que considera uma fortuna conhec\u00ea-la, que \u00e9 muito simp\u00e1tica, muito digna, que traz o cora\u00e7\u00e3o nos olhos, etc., etc., etc. Uma de suas amigas diz-lhe, rindo, que est\u00e1 com ci\u00fames.<\/p>\n<p>&#8211; Que arrebente! responde ela, rindo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>E voltando-se para a outra:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acha? ningu\u00e9m deve meter-se com a nossa vida.<\/p>\n<p>E a\u00ed tornavam as finezas, os encarecimentos, os risos, as ofertas, mais isto, mais aquilo, &#8211; um projeto de passeio, outro de teatro, e promessas de muitas visitas, tudo com tamanha expans\u00e3o e calor, que a outra palpitava de alegria e reconhecimento.<\/p>\n<p>O peru est\u00e1 comido. D. Maria dos Anjos faz um sinal ao filho; este levanta-se e pede que o acompanhem em um brinde:<\/p>\n<p>&#8211; Meus senhores, \u00e9 preciso desmentir esta m\u00e1xima dos franceses: &#8211; les absents ont tort. Bebamos a algu\u00e9m que est\u00e1 longe, muito longe, no espa\u00e7o, mas perto, muito perto, no cora\u00e7\u00e3o de sua digna esposa: &#8211; bebamos ao ilustre desembargador Proen\u00e7a.<\/p>\n<p>A assembl\u00e9ia n\u00e3o correspondeu vivamente ao brinde; e para compreend\u00ea-lo basta ver o rosto triste da dona da casa. Os parentes e os mais \u00edntimos disseram baixinho entre si que o Leandrinho fora estouvado; enfim, bebeu-se, mas sem estr\u00e9pito; ao que parece, para n\u00e3o avivar a dor de D. Benedita. V\u00e3 precau\u00e7\u00e3o! D. Benedita, n\u00e3o podendo conter-se, deixou rebentarem-lhe as l\u00e1grimas, levantou-se da mesa, retirou-se da sala. D. Maria dos Anjos acompanhou-a. Sucedeu um sil\u00eancio mortal entre os convivas. Eul\u00e1lia pediu a todos que continuassem, que a m\u00e3e voltava j\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e \u00e9 muito sens\u00edvel, disse ela, e a id\u00e9ia de que papai est\u00e1 longe de n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>O Leandrinho, consternado, pediu desculpa a Eul\u00e1lia. Um sujeito, ao lado dele, explicou-lhe que D. Benedita n\u00e3o podia ouvir falar do marido sem receber um golpe no cora\u00e7\u00e3o &#8211; e chorar logo; ao que o Leandrinho acudiu dizendo que sabia da tristeza dela, mas estava longe de supor que o seu brinde tivesse t\u00e3o mau efeito.<\/p>\n<p>&#8211; Pois era a coisa mais natural, explicou o sujeito, porque ela morre pelo marido.<\/p>\n<p>&#8211; O c\u00f4nego, acudiu Leandrinho, disse-me que ele foi para o Par\u00e1 h\u00e1 uns dois anos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Dois anos e meio; foi nomeado desembargador pelo minist\u00e9rio Zacarias. Ele queria a rela\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, ou da Bahia; mas n\u00e3o p\u00f4de ser e aceitou a do Par\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o voltou mais?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o voltou.<\/p>\n<p>&#8211; D. Benedita naturalmente tem medo de embarcar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Creio que n\u00e3o. J\u00e1 foi uma vez \u00e0 Europa. Se bem me lembro, ela ficou para arranjar alguns neg\u00f3cios de fam\u00edlia; mas foi ficando, ficando, e agora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas era muito melhor ter ido em vez de padecer assim&#8230; Conhece o marido?<\/p>\n<p>&#8211; Conhe\u00e7o; um homem muito distinto, e ainda mo\u00e7o, forte; n\u00e3o ter\u00e1 mais de quarenta e cinco anos. Alto, barbado, bonito. Aqui h\u00e1 tempos disse-se que ele n\u00e3o teimava com a mulher, porque estava l\u00e1 de amores com uma vi\u00fava.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; E houve at\u00e9 quem viesse cont\u00e1-lo a ela mesma. Imagine como a pobre senhora ficou! Chorou uma noite inteira, no dia seguinte n\u00e3o quis almo\u00e7ar, e deu todas as ordens para seguir no primeiro vapor.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o foi?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o foi; desfez a viagem da\u00ed a tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>D. Benedita voltou nesse momento, pelo bra\u00e7o de D. Maria dos Anjos. Trazia um sorriso envergonhado; pediu desculpa da interrup\u00e7\u00e3o, e sentou-se com a recente amiga ao lado, agradecendo os cuidados que lhe deu, pegando-lhe outra vez na m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Vejo que me quer bem, disse ela.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora merece, disse D. Maria dos Anjos.<\/p>\n<p>&#8211; Mere\u00e7o? inquiriu ela entre desvanecida e modesta.<\/p>\n<p>E declarou que n\u00e3o, que a outra \u00e9 que era boa, um anjo, um verdadeiro anjo; palavra que ela sublinhou com o mesmo olhar namorado, n\u00e3o persistente e longo, mas inquieto e repetido. O c\u00f4nego, pela sua parte, com o fim de apagar a lembran\u00e7a do incidente, procurou generalizar a conversa, dando-lhe por assunto a elei\u00e7\u00e3o do melhor doce. Os pareceres divergiram muito. Uns acharam que era o de coco, outros o de caju, alguns o de laranja, etc. Um dos convivas, o Leandrinho, autor do brinde, dizia com os olhos, &#8211; n\u00e3o com a boca, &#8211; e dizia-o de um modo astucioso, que o melhor doce eram as faces de Eul\u00e1lia, um doce moreno, corado; dito que a m\u00e3e dele interiormente aprovava, e que a m\u00e3e dela n\u00e3o podia ver, t\u00e3o entregue estava \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da recente amiga. Um anjo, um verdadeiro anjo!<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>D. Benedita levantou-se, no dia seguinte, com a id\u00e9ia de escrever uma carta ao marido, uma longa carta em que lhe narrasse a festa da v\u00e9spera, nomeasse os convivas e os pratos, descrevesse a recep\u00e7\u00e3o noturna, e, principalmente, desse not\u00edcia das novas rela\u00e7\u00f5es com D. Maria dos Anjos. A mala fechava-se \u00e0s duas horas da tarde, D. Benedita acordara \u00e0s nove, e, n\u00e3o morando longe (morava no Campo da Aclama\u00e7\u00e3o), um escravo levaria a carta ao correio muito a tempo. Demais, chovia; D. Benedita arredou a cortina da janela, deu com os vidros molhados; era uma chuvinha teimosa, o c\u00e9u estava todo brochado de uma cor pardo-escura, malhada de grossas nuvens negras. Ao longe, viu flutuar e voar o pano que cobria o balaio que uma preta levava \u00e0 cabe\u00e7a: concluiu que ventava. Magn\u00edfico dia para n\u00e3o sair, e, portanto, escrever uma carta, duas cartas, todas as cartas de uma esposa ao marido ausente. Ningu\u00e9m viria tent\u00e1-la.<\/p>\n<p>Enquanto ela comp\u00f5e os babadinhos e rendas do roup\u00e3o branco, um roup\u00e3o de cambraia que o desembargador lhe dera em 1862, no mesmo dia anivers\u00e1rio, 19 de setembro, convido a leitora a observar-lhe as fei\u00e7\u00f5es. V\u00ea que n\u00e3o lhe dou V\u00eanus; tamb\u00e9m n\u00e3o lhe dou Medusa. Ao contr\u00e1rio de Medusa, nota-se-lhe o alisado simples do cabelo, preso sobre a nuca. Os olhos s\u00e3o vulgares, mas t\u00eam uma express\u00e3o bonach\u00e3. A boca \u00e9 daquelas que, ainda n\u00e3o sorrindo, s\u00e3o risonhas, e tem esta outra particularidade, que \u00e9 uma boca sem remorsos nem saudades: podia dizer sem desejos, mas eu s\u00f3 digo o que quero, e s\u00f3 quero falar das saudades e dos remorsos. Toda essa cabe\u00e7a, que n\u00e3o entusiasma, nem repele, assenta sobre um corpo antes alto do que baixo, e n\u00e3o magro nem gordo, mas fornido na propor\u00e7\u00e3o da estatura. Para que falar-lhe das m\u00e3os? H\u00e1 de admir\u00e1-las logo, ao travar da pena e do papel, com os dedos afilados e vadios, dois deles ornados de cinco ou seis an\u00e9is.<\/p>\n<p>Creio que \u00e9 bastante ver o modo por que ela comp\u00f5e as rendas e os babadinhos do roup\u00e3o para compreender que \u00e9 uma senhora pichosa, amiga do arranjo das coisas e de si mesma. Noto que rasgou agora o babadinho do punho esquerdo, mas \u00e9 porque, sendo tamb\u00e9m impaciente, n\u00e3o podia mais &#8220;com a vida deste diabo&#8221;. Essa foi a sua express\u00e3o, acompanhada logo de um &#8220;Deus me perdoe!&#8221; que inteiramente lhe extraiu o veneno. N\u00e3o digo que ela bateu com o p\u00e9, mas adivinha-se, por ser um gesto natural de algumas senhoras irritadas. Em todo caso, a c\u00f3lera durou pouco mais de meio minuto. D. Benedita foi \u00e0 caixinha de costura para dar um ponto no rasg\u00e3o, e contentou-se com um alfinete. O alfinete caiu no ch\u00e3o, ela abaixou-se a apanh\u00e1-lo. Tinha outros, \u00e9 verdade, muitos outros, mas n\u00e3o achava prudente deixar alfinetes no ch\u00e3o. Abaixando-se, aconteceu-lhe ver a ponta da chinela, na qual pareceu-lhe descobrir um sinal branco; sentou-se na cadeira que tinha perto, tirou a chinela, e viu o que era: era um roidinho de barata. Outra raiva de D. Benedita, porque a chinela era muito galante, e fora-lhe dada por uma amiga do ano passado. Um anjo, um verdadeiro anjo! D. Benedita fitou os olhos irritados no sinal branco; felizmente a express\u00e3o bonach\u00e3 deles n\u00e3o era t\u00e3o bonach\u00e3 que se deixasse eliminar de todo por outras express\u00f5es menos passivas, e retomou o seu lugar. D. Benedita entrou a virar e revirar a chinela, e a pass\u00e1-la de uma para outra m\u00e3o, a princ\u00edpio com amor, logo depois maquinalmente, at\u00e9 que as m\u00e3os pararam de todo, a chinela caiu no rega\u00e7o, e D. Benedita ficou a olhar para o ar, parada, fixa. Nisto o rel\u00f3gio da sala de jantar come\u00e7ou a bater horas. D. Benedita, logo \u00e0s primeiras duas, estremeceu:<\/p>\n<p>&#8211; Jesus! Dez horas!<\/p>\n<p>E, r\u00e1pida, cal\u00e7ou a chinela, concertou depressa o punho do roup\u00e3o, e dirigiu-se \u00e0 escrivaninha, para come\u00e7ar a carta. Escreveu, com efeito, a data, e um: &#8211; &#8220;Meu ingrato marido&#8221;; enfim, mal tra\u00e7ara estas linhas: &#8211; &#8220;Voc\u00ea lembrou-se ontem de mim? Eu&#8230;&#8221;, quando Eul\u00e1lia lhe bateu \u00e0 porta, bradando:<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e, mam\u00e3e, s\u00e3o horas de almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>D. Benedita abriu a porta, Eul\u00e1lia beijou-lhe a m\u00e3o, depois levantou as suas ao c\u00e9u:<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! que dorminhoca!<\/p>\n<p>&#8211; O almo\u00e7o est\u00e1 pronto?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 que s\u00e9culos!<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu tinha dito que hoje o almo\u00e7o era mais tarde&#8230; Estava escrevendo a teu pai.<\/p>\n<p>Olhou alguns instantes para a filha, como desejosa de lhe dizer alguma coisa grave, ao menos dif\u00edcil, tal era a express\u00e3o indecisa e s\u00e9ria dos olhos. Mas n\u00e3o chegou a dizer nada; a filha repetiu que o almo\u00e7o estava na mesa, pegou-lhe do bra\u00e7o e levou-a.<\/p>\n<p>Deixemo-las almo\u00e7ar \u00e0 vontade; descansemos nessa outra sala, a de visitas, sem ali\u00e1s inventariar os m\u00f3veis dela, como o n\u00e3o fizemos em nenhuma outra sala ou quarto. N\u00e3o \u00e9 que eles n\u00e3o prestem, ou sejam de mau gosto; ao contr\u00e1rio, s\u00e3o bons. Mas a impress\u00e3o geral que se recebe \u00e9 esquisita, como se ao trastejar daquela casa houvesse presidido um plano truncado, ou uma sucess\u00e3o de planos truncados. M\u00e3e, filha e filho almo\u00e7aram. Deixemos o filho, que nos n\u00e3o importa, um pirralho de doze anos, que parece ter oito, t\u00e3o mofino \u00e9 ele. Eul\u00e1lia interessa-nos, n\u00e3o s\u00f3 pelo que vimos de relance no cap\u00edtulo passado, como porque, ouvindo a m\u00e3e falar em D. Maria dos Anjos e no Leandrinho, ficou muito s\u00e9ria e, talvez, um pouco amuada. D. Benedita percebeu que o assunto n\u00e3o era apraz\u00edvel \u00e0 filha, e recuou da conversa, como algu\u00e9m que desanda uma rua para evitar um importuno; recuou e ergueu-se; a filha veio com ela para a sala de visitas.<\/p>\n<p>Eram onze horas menos um quarto. D. Benedita conversou com a filha at\u00e9 depois do meio-dia, para ter tempo de descansar o almo\u00e7o e escrever a carta. Sabem que a mala fecha \u00e0s duas horas. De fato, alguns minutos, poucos, depois do meio-dia, D. Benedita disse \u00e0 filha que fosse estudar piano, porque ela ia acabar a carta. Saiu da sala; Eul\u00e1lia foi \u00e0 janela, relanceou a vista pelo Campo, e, se lhes disser que com uma pontazinha de tristeza nos olhos, podem crer que \u00e9 a pura verdade. N\u00e3o era, todavia, a tristeza dos d\u00e9beis ou dos indecisos; era a tristeza dos resolutos, a quem d\u00f3i de antem\u00e3o um ato pela mortifica\u00e7\u00e3o que h\u00e1 de trazer a outros, e que, n\u00e3o obstante, juram a si mesmos pratic\u00e1-lo, e praticam. Convenho que nem todas essas particularidades podiam estar nos olhos de Eul\u00e1lia, mas por isso mesmo \u00e9 que as hist\u00f3rias s\u00e3o contadas por algu\u00e9m, que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar o escondido. Que era uma tristeza m\u00e1scula, era; &#8211; e que da\u00ed a pouco os olhos sorriam de um sinal de esperan\u00e7a, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 mentira.<\/p>\n<p>&#8211; Isto acaba, murmurou ela, vindo para dentro.<\/p>\n<p>Justamente nessa ocasi\u00e3o parava um carro \u00e0 porta, apeava-se uma senhora, ouvia-se a campainha da escada, descia um moleque a abrir a cancela, e subia as escadas D. Maria dos Anjos. D. Benedita, quando lhe disseram quem era, largou a pena, alvoro\u00e7ada; vestiu-se \u00e0 pressa, cal\u00e7ou-se, e foi \u00e0 sala.<\/p>\n<p>&#8211; Com este tempo! exclamou. Ah! isto \u00e9 que \u00e9 querer bem \u00e0 gente!<\/p>\n<p>&#8211; Vim sem esperar pela sua visita, s\u00f3 para mostrar que n\u00e3o gosto de cerim\u00f4nias, e que entre n\u00f3s deve haver a maior liberdade.<\/p>\n<p>Vieram os cumprimentos de estilo, as palavrinhas doces, os afagos da v\u00e9spera. D. Benedita n\u00e3o se fartava de dizer que a visita naquele dia era uma grande fineza, uma prova de verdadeira amizade; mas queria outra, acrescentou da\u00ed a um instante, que D. Maria dos Anjos ficasse para jantar. Esta desculpou-se alegando que tinha de ir a outras partes; demais, essa era a prova que lhe pedia, &#8211; a de ir jantar \u00e0 casa dela primeiro. D. Benedita n\u00e3o hesitou, prometeu que sim, naquela mesma semana.<\/p>\n<p>&#8211; Estava agora mesmo escrevendo o seu nome, continuou.<\/p>\n<p>&#8211; Sim?<\/p>\n<p>&#8211; Estou escrevendo a meu marido, e falo da senhora. N\u00e3o lhe repito o que escrevi, mas imagine que falei muito mal da senhora, que era antip\u00e1tica, insuport\u00e1vel, ma\u00e7ante, aborrecida&#8230; Imagine!<\/p>\n<p>&#8211; Imagino, imagino. Pode acrescentar que, apesar de ser tudo isso, e mais alguma coisa, apresento-lhe os meus respeitos.<\/p>\n<p>&#8211; Como ela tem gra\u00e7a para dizer as coisas! Comentou D. Benedita olhando para a filha.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia sorriu sem convic\u00e7\u00e3o. Sentada na cadeira fronteira \u00e0 m\u00e3e, ao p\u00e9 da outra ponta do sof\u00e1 em que estava D. Maria dos Anjos, Eul\u00e1lia dava \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o das duas a soma de aten\u00e7\u00e3o que a cortesia lhe impunha, e nada mais. Chegava a parecer aborrecida; cada sorriso que lhe abria a boca era de um amarelo p\u00e1lido, um sorriso de favor. Uma das tran\u00e7as, &#8211; era de manh\u00e3, trazia o cabelo em duas tran\u00e7as ca\u00eddas pelas costas abaixo, &#8211; uma delas servia-lhe de pretexto a alheiar-se de quando em quando, porque puxava-a para a frente e contava-lhe os fios do cabelo, &#8211; ou parecia cont\u00e1-los. Assim o creu D. Maria dos Anjos, quando lhe lan\u00e7ou uma ou duas vezes os olhos, curiosa, desconfiada. D. Benedita \u00e9 que n\u00e3o via nada; via a amiga, a feiticeira, como lhe chamou duas ou tr\u00eas vezes, &#8211; &#8220;feiticeira como ela s\u00f3&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1?<\/p>\n<p>D. Maria dos Anjos explicou que tinha de ir a outras visitas; mas foi obrigada a ficar ainda alguns minutos, a pedido da amiga. Como trouxesse um mantelete de renda preta, muito elegante, D. Benedita disse que tinha um igual e mandou busc\u00e1-lo. Tudo demoras. Mas a m\u00e3e do Leandrinho estava t\u00e3o contente! D. Benedita enchia-lhe o cora\u00e7\u00e3o; achava nela todas as qualidades que melhor se ajustavam \u00e0 sua alma e aos seus costumes, ternura, confian\u00e7a, entusiasmo, simplicidade, uma familiaridade cordial e pronta. Veio o mantelete; vieram oferecimentos de alguma coisa, um doce, um licor, um refresco; D. Maria dos Anjos n\u00e3o aceitou nada mais do que um beijo e a promessa de que iriam jantar com ela naquela semana.<\/p>\n<p>&#8211; Quinta-feira, disse D. Benedita.<\/p>\n<p>&#8211; Palavra?<\/p>\n<p>&#8211; Palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Que quer que lhe fa\u00e7a se n\u00e3o for? H\u00e1 de ser um castigo bem forte.<\/p>\n<p>&#8211; Bem forte? N\u00e3o me fale mais.<\/p>\n<p>D. Maria dos Anjos beijou com muita ternura a amiga; depois abra\u00e7ou e beijou tamb\u00e9m a Eul\u00e1lia, mas a efus\u00e3o era muito menor de parte a parte. Uma e outra mediam-se, estudavam-se, come\u00e7avam a compreender-se. D. Benedita levou a amiga at\u00e9 o patamar da escada, depois foi \u00e0 janela para v\u00ea-la entrar no carro; a amiga, depois de entrar no carro, p\u00f4s a cabe\u00e7a de fora, olhou para cima, e disse-lhe adeus, com a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falte, ouviu?<\/p>\n<p>&#8211; Quinta-feira.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia j\u00e1 n\u00e3o estava na sala; D. Benedita correu a acabar a carta. Era tarde: n\u00e3o relatara o jantar da v\u00e9spera, nem j\u00e1 agora podia faz\u00ea-lo. Resumiu tudo; encareceu muito as novas rela\u00e7\u00f5es; enfim, escreveu estas palavras:<\/p>\n<p>&#8220;O c\u00f4nego Roxo falou-me em casar Eul\u00e1lia com o filho de D. Maria dos Anjos; \u00e9 um mo\u00e7o formado em direito este ano; \u00e9 conservador, e espera uma promotoria, agora, se o Itabora\u00ed n\u00e3o deixar o minist\u00e9rio. Eu acho que o casamento \u00e9 o melhor poss\u00edvel. O Dr. Leandrinho (\u00e9 o nome dele) \u00e9 muito bem educado; fez um brinde a voc\u00ea, cheio de palavras t\u00e3o bonitas, que eu chorei. Eu n\u00e3o sei se Eul\u00e1lia querer\u00e1 ou n\u00e3o; desconfio de outro sujeito que outro dia esteve conosco nas Laranjeiras. Mas voc\u00ea que pensa? Devo limitar-me a aconselh\u00e1-la, ou impor-lhe a nossa vontade? Eu acho que devo usar um pouco da minha autoridade; mas n\u00e3o quero fazer nada sem que voc\u00ea me diga. O melhor seria se voc\u00ea viesse c\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>Acabou e fechou a carta; Eul\u00e1lia entrou nessa ocasi\u00e3o, ela deu-lha para mandar, sem demora, ao correio; e a filha saiu com a carta sem saber que tratava dela e do seu futuro. D. Benedita deixou-se cair no sof\u00e1, cansada, exausta. A carta era muito comprida apesar de n\u00e3o dizer tudo; e era-lhe t\u00e3o enfadonho escrever cartas compridas!<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Era-lhe t\u00e3o enfadonho escrever cartas compridas! Esta palavra, fecho do cap\u00edtulo passado, explica a longa prostra\u00e7\u00e3o de D. Benedita. Meia hora depois de cair no sof\u00e1, ergueu-se um pouco, e percorreu o gabinete com os olhos, como procurando alguma coisa. Essa coisa era um livro. Achou o livro, e podia dizer achou os livros, pois nada menos de tr\u00eas estavam ali, dois abertos, um marcado em certa p\u00e1gina, todos em cadeiras. Eram tr\u00eas romances que D. Benedita lia ao mesmo tempo. Um deles, note-se, custou-lhe n\u00e3o pouco trabalho. Deram-lhe not\u00edcia na rua, perto de casa, com muitos elogios; chegara da Europa na v\u00e9spera. D. Benedita ficou t\u00e3o entusiasmada, que, apesar de ser longe e tarde, arrepiou caminho e foi ela mesmo compr\u00e1-lo, correndo nada menos de tr\u00eas livrarias. Voltou ansiosa, namorada do livro, t\u00e3o namorada que abriu as folhas, jantando, e leu os cinco primeiros cap\u00edtulos naquela mesma noite. Sendo preciso dormir, dormiu; no dia seguinte n\u00e3o p\u00f4de continuar, depois esqueceu-o. Agora, por\u00e9m, passados oito dias, querendo ler alguma coisa, aconteceu-lhe justamente ach\u00e1-lo \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>E ei-la que torna ao sof\u00e1, que abre o livro com amor, que mergulha o esp\u00edrito, os olhos e o cora\u00e7\u00e3o na leitura t\u00e3o desastradamente interrompida. D. Benedita ama os romances, \u00e9 natural; e adora os romances bonitos, \u00e9 natural\u00edssimo. N\u00e3o admira que esque\u00e7a tudo para ler este; tudo, at\u00e9 a li\u00e7\u00e3o de piano da filha, cujo professor chegou e saiu, sem que ela fosse \u00e0 sala. Eul\u00e1lia despediu-se do professor; depois foi ao gabinete, abriu a porta, caminhou p\u00e9 ante p\u00e9 at\u00e9 o sof\u00e1, e acordou a m\u00e3e com um beijo.<\/p>\n<p>&#8211; Dorminhoca!<\/p>\n<p>&#8211; Ainda chove?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhora; agora parou.<\/p>\n<p>&#8211; A carta foi?<\/p>\n<p>&#8211; Foi; mandei o Jos\u00e9 a toda a pressa. Aposto que mam\u00e3e esqueceu-se de dar lembran\u00e7as a papai? Pois olhe, eu n\u00e3o me esque\u00e7o nunca.<\/p>\n<p>D. Benedita bocejou. J\u00e1 n\u00e3o pensava na carta; pensava no colete que encomendara \u00e0 Charavel, um colete de barbatanas mais moles do que o \u00faltimo. N\u00e3o gostava de barbatanas duras; tinha o corpo mui sens\u00edvel. Eul\u00e1lia falou ainda algum tempo do pai, mas calou-se logo, e vendo no ch\u00e3o o livro aberto, o famoso romance, apanhou-o, fechou-o, p\u00f4-lo em cima da mesa. Nesse momento vieram trazer uma carta a D. Benedita; era do c\u00f4nego Roxo, que mandava perguntar se estavam em casa naquele dia, porque iria ao enterro dos ossos.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o! bradou D. Benedita; estamos em casa, venha, pode vir.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia escreveu o bilhetinho de resposta. Da\u00ed a tr\u00eas quartos de hora fazia o c\u00f4nego a sua entrada na sala de D. Benedita. Era um bom homem o c\u00f4nego, velho amigo daquela casa, na qual, al\u00e9m de trinchar o peru nos dias solenes, como vimos, exercia o papel de conselheiro, e exercia-o com lealdade e amor. Eul\u00e1lia, principalmente, merecia-lhe muito; vira-a pequena, galante, travessa, amiga dele, e criou-lhe uma afei\u00e7\u00e3o paternal, t\u00e3o paternal que tomara a peito cas\u00e1-la bem, e nenhum noivo melhor do que o Leandrinho, pensava o c\u00f4nego. Naquele dia, a id\u00e9ia de ir jantar com elas era antes um pretexto; o c\u00f4nego queria tratar o neg\u00f3cio diretamente com a filha do desembargador. Eul\u00e1lia, ou porque adivinhasse isso mesmo, ou porque a pessoa do c\u00f4nego lhe lembrasse o Leandrinho, ficou logo preocupada, aborrecida.<\/p>\n<p>Mas, preocupada ou aborrecida, n\u00e3o quer dizer triste ou desconsolada. Era resoluta, tinha t\u00eampera, podia resistir, e resistiu, declarando ao c\u00f4nego, quando ele naquela noite lhe falou do Leandrinho, que absolutamente n\u00e3o queria casar.<\/p>\n<p>&#8211; Palavra de mo\u00e7a bonita?<\/p>\n<p>&#8211; Palavra de mo\u00e7a feia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o quero.<\/p>\n<p>&#8211; E se mam\u00e3e quiser?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero eu.<\/p>\n<p>&#8211; Mau! isso n\u00e3o \u00e9 bonito, Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia deixou-se estar. O c\u00f4nego ainda tornou ao assunto, louvou as qualidades do candidato, as esperan\u00e7as da fam\u00edlia, as vantagens do casamento; ela ouvia tudo, sem contestar nada. Mas quando o c\u00f4nego formulava de um modo direto a quest\u00e3o, a resposta invari\u00e1vel era esta:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 disse tudo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quer?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>O desconsolo do bom c\u00f4nego era profundo e sincero. Queria cas\u00e1-la bem, e n\u00e3o achava melhor noivo. Chegou a interrog\u00e1-la discretamente, sobre se tinha alguma prefer\u00eancia em outra parte. Mas Eul\u00e1lia, n\u00e3o menos discretamente, respondia que n\u00e3o, que n\u00e3o tinha nada; n\u00e3o queria nada; n\u00e3o queria casar. Ele creu que era assim, mas receou tamb\u00e9m que n\u00e3o fosse assim; faltava-lhe o trato suficiente das mulheres para ler atrav\u00e9s de uma negativa. Quando referiu tudo a D. Benedita, esta ficou assombrada com os termos da recusa; mas tornou logo a si, e declarou ao padre que a filha n\u00e3o tinha vontade, faria o que ela quisesse, e ela queria o casamento.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 agora nem espero resposta do pai, concluiu; declaro-lhe que ela h\u00e1 de casar. Quinta-feira vou jantar com D. Maria dos Anjos, e combinaremos as coisas.<\/p>\n<p>&#8211; Devo dizer-lhe, ponderou o c\u00f4nego, que D. Maria dos Anjos n\u00e3o deseja que se fa\u00e7a nada \u00e0 for\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Qual for\u00e7a! N\u00e3o \u00e9 preciso for\u00e7a.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego refletiu um instante:<\/p>\n<p>&#8211; Em todo caso, n\u00e3o violentaremos qualquer outra afei\u00e7\u00e3o que ela possa ter, disse ele.<\/p>\n<p>D. Benedita n\u00e3o respondeu nada; mas consigo, no mais fundo de si mesma, jurou que, houvesse o que houvesse, acontecesse o que acontecesse, a filha seria nora de D. Maria dos Anjos. E ainda consigo, depois de sair o c\u00f4nego: &#8211; Tinha que ver! um tico de gente, com fuma\u00e7as de governar a casa!<\/p>\n<p>A quinta-feira raiou. Eul\u00e1lia, &#8211; o tico de gente, levantou-se fresca, l\u00e9pida, loquaz, com todas as janelas da alma abertas ao sopro azul da manh\u00e3. A m\u00e3e acordou ouvindo um trecho italiano, cheio de melodia; era ela que cantava, alegre, sem afeta\u00e7\u00e3o, com a indiferen\u00e7a das aves que cantam para si ou para os seus, e n\u00e3o para o poeta, que as ouve e traduz na l\u00edngua imortal dos homens. D. Benedita afagara muito a id\u00e9ia de a ver abatida, carrancuda, e gastara uma certa soma de imagina\u00e7\u00e3o em compor os seus modos, delinear os seus atos, ostentar energia e for\u00e7a. E nada! Em vez de uma filha rebelde, uma criatura g\u00e1rrula e submissa. Era come\u00e7ar mal o dia; era sair aparelhada para destruir uma fortaleza, e dar com uma cidade aberta, pac\u00edfica, hospedeira, que lhe pedia o favor de entrar e partir o p\u00e3o da alegria e da conc\u00f3rdia. Era come\u00e7ar o dia muito mal.<\/p>\n<p>A segunda causa do t\u00e9dio de D. Benedita foi um amea\u00e7o de enxaqueca, \u00e0s tr\u00eas horas da tarde; um amea\u00e7o, ou uma suspeita de possibilidade de amea\u00e7o. Chegou a transferir a visita, mas a filha ponderou que talvez a visita lhe fizesse bem, e em todo caso, era tarde para deixar de ir. D. Benedita n\u00e3o teve rem\u00e9dio, aceitou o reparo. Ao espelho, penteando-se, esteve quase a dizer que definitivamente ficava; chegou a insinu\u00e1-lo \u00e0 filha.<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e veja que D. Maria dos Anjos conta com a senhora, disse-lhe Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, redarg\u00fciu a m\u00e3e, mas n\u00e3o prometi ir doente.<\/p>\n<p>Enfim, vestiu-se, cal\u00e7ou as luvas, deu as \u00faltimas ordens; e devia doer-lhe muito a cabe\u00e7a, porque os modos eram arrebitados, uns modos de pessoa constrangida ao que n\u00e3o quer. A filha animava-a muito, lembrava-lhe o vidrinho dos sais, instava que sa\u00edssem, descrevia a ansiedade de D. Maria dos Anjos, consultava de dois em dois minutos o pequenino rel\u00f3gio, que trazia na cintura, etc. Uma amofina\u00e7\u00e3o, realmente.<\/p>\n<p>&#8211; O que tu est\u00e1s \u00e9 me amofinando, disse-lhe a m\u00e3e.<\/p>\n<p>E saiu, saiu exasperada, com uma grande vontade de esganar a filha, dizendo consigo que a pior coisa do mundo era ter filhas. Os filhos ainda v\u00e1: criam-se, fazem carreira por si; mas as filhas!<\/p>\n<p>Felizmente, o jantar de D. Maria dos Anjos aquietou-a; e n\u00e3o digo que a enchesse de grande satisfa\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o foi assim. Os modos de D. Benedita n\u00e3o eram os do costume; eram frios, secos, ou quase secos; ela, por\u00e9m, explicou de si mesma a diferen\u00e7a, noticiando o amea\u00e7o da enxaqueca, not\u00edcia mais triste do que alegre, e que, ali\u00e1s, alegrou a alma de D. Maria dos Anjos, por esta raz\u00e3o fina e profunda: antes a frieza da amiga fosse originada na doen\u00e7a do que na quebra do afeto. Demais, a doen\u00e7a n\u00e3o era grave. E que fosse grave! N\u00e3o houve naquele dia m\u00e3os presas, olhos nos olhos, manjares comidos entre car\u00edcias m\u00fatuas; n\u00e3o houve nada do jantar de domingo. Um jantar apenas conversado; n\u00e3o alegre, conversado; foi o mais que alcan\u00e7ou o c\u00f4nego. Am\u00e1vel c\u00f4nego! As disposi\u00e7\u00f5es de Eul\u00e1lia, naquele dia, cumularam-no de esperan\u00e7as; o riso que brincava nela, a maneira expansiva da conversa, a docilidade com que se prestava a tudo, a tocar, a cantar, e o rosto af\u00e1vel, meigo, com que ouvia e falava ao Leandrinho, tudo isso foi para a alma do c\u00f4nego uma renova\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7as. Logo hoje \u00e9 que D. Benedita estava doente! Realmente, era caiporismo.<\/p>\n<p>D. Benedita reanimou-se um pouco, \u00e0 noite, depois do jantar. Conversou mais, discutiu um projeto de passeio ao Jardim Bot\u00e2nico, chegou mesmo a propor que fosse logo no dia seguinte; mas Eul\u00e1lia advertiu que era prudente esperar um ou dois dias at\u00e9 que os efeitos da enxaqueca desaparecessem de todo; e o olhar que mereceu \u00e0 m\u00e3e, em troca do conselho, tinha a ponta aguda de um punhal. Mas a filha n\u00e3o tinha medo dos olhos matemos. De noite, ao despentear-se, recapitulando o dia, Eul\u00e1lia repetiu consigo a palavra que lhe ouvimos, dias antes, \u00e0 janela:<\/p>\n<p>&#8211; Isto acaba.<\/p>\n<p>E, satisfeita de si, antes de dormir, puxou uma certa gaveta, tirou uma caixinha, abriu-a, aventou um cart\u00e3o de alguns cent\u00edmetros de altura, &#8211; um retrato. N\u00e3o era retrato de mulher, n\u00e3o s\u00f3 por ter bigodes, como por estar fardado; era, quando muito, um oficial de marinha. Se bonito ou feio, \u00e9 mat\u00e9ria de opini\u00e3o. Eul\u00e1lia achava-o bonito; a prova \u00e9 que o beijou, n\u00e3o digo uma vez, mas tr\u00eas. Depois mirou-o, com saudade, tornou a fech\u00e1-lo e guard\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Que fazias tu, m\u00e3e cautelosa e r\u00edspida, que n\u00e3o vinhas arrancar \u00e0s m\u00e3os e \u00e0 boca da filha um veneno t\u00e3o sutil e mortal? D. Benedita, \u00e0 janela, olhava a noite, entre as estrelas e os lampi\u00f5es de g\u00e1s, com a imagina\u00e7\u00e3o vagabunda, inquieta, ro\u00edda de saudades e desejos. O dia tinha-lhe sa\u00eddo mal, desde manh\u00e3. D. Benedita confessava, naquela doce intimidade da alma consigo mesma, que o jantar de D. Maria dos Anjos n\u00e3o prestara para nada, e que a pr\u00f3pria amiga n\u00e3o estava provavelmente nos seus dias de costume. Tinha saudades, n\u00e3o sabia bem de qu\u00ea, e desejos, que ignorava. De quando em quando, bocejava ao modo pregui\u00e7oso e arrastado dos que caem de sono; mas se alguma coisa tinha era fastio, &#8211; fastio, impaci\u00eancia, curiosidade. D. Benedita cogitou seriamente em ir ter com o marido; e t\u00e3o depressa a id\u00e9ia do mando lhe penetrou no c\u00e9rebro, como se lhe apertou o cora\u00e7\u00e3o de saudades e remorsos, e o sangue pulou-lhe num tal \u00edmpeto de ir ver o desembargador que, se o paquete do Norte estivesse na esquina da rua e as malas prontas, ela embarcaria logo e logo. N\u00e3o importa; o paquete devia estar prestes a sair, oito ou dez dias; era o tempo de arranjar as malas. Iria por tr\u00eas meses somente, n\u00e3o era preciso levar muita coisa. Ei-la que se consola da grande cidade fluminense, da similitude dos dias, da escassez das coisas, da persist\u00eancia das caras, da mesma fixidez das modas, que era um dos seus \u00e1rduos problemas: &#8211; por que \u00e9 que as modas h\u00e3o de durar mais de quinze dias?<\/p>\n<p>&#8211; Vou, n\u00e3o h\u00e1 que ver, vou ao Par\u00e1, disse ela a meia voz.<\/p>\n<p>Com efeito, no dia seguinte, logo de manh\u00e3, comunicou a resolu\u00e7\u00e3o \u00e0 filha, que a recebeu sem abalo. Mandou ver as malas que tinha, achou que era preciso mais uma, calculou o tamanho, e determinou compr\u00e1-la. Eul\u00e1lia, por uma inspira\u00e7\u00e3o s\u00fabita:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, mam\u00e3e, n\u00f3s n\u00e3o vamos por tr\u00eas meses?<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas&#8230; ou dois.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, ent\u00e3o, n\u00e3o vale a pena. As duas malas chegam.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o chegam.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; se n\u00e3o chegarem, pode-se comprar na v\u00e9spera. E mam\u00e3e mesmo escolhe; \u00e9 melhor do que mandar esta gente que n\u00e3o sabe nada.<\/p>\n<p>D. Benedita achou a reflex\u00e3o judiciosa, e guardou o dinheiro. A filha sorriu para dentro. Talvez repetisse consigo a famosa palavra da janela: &#8211; Isto acaba. A m\u00e3e foi cuidar dos arranjos, escolha de roupas, lista das coisas que precisava comprar, um presente para o marido, etc. Ah! que alegria que ele ia ter! Depois do meio-dia sa\u00edram para fazer encomendas, visitas, comprar as passagens, quatro passagens; levavam uma escrava consigo. Eul\u00e1lia ainda tentou arred\u00e1-la da id\u00e9ia, propondo a transfer\u00eancia da viagem; mas D. Benedita declarou peremptoriamente que n\u00e3o. No escrit\u00f3rio da Companhia de Paquetes disseram-lhe que o do Norte sa\u00eda na sexta-feira da outra semana. Ela pediu as quatro passagens; abriu a carteirinha, tirou uma nota, depois duas, refletiu um instante.<\/p>\n<p>&#8211; Basta vir na v\u00e9spera, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Basta, mas pode n\u00e3o achar mais.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; o senhor guarde os bilhetes: eu mando buscar.<\/p>\n<p>&#8211; O seu nome?<\/p>\n<p>&#8211; O nome? O melhor \u00e9 n\u00e3o tomar o nome; n\u00f3s viremos tr\u00eas dias antes de sair o vapor. Naturalmente ainda haver\u00e1 bilhetes.<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de haver.<\/p>\n<p>Na rua, Eul\u00e1lia observou que era melhor ter comprado logo os bilhetes; e, sabendo-se que ela n\u00e3o desejava ir para o Norte nem para o Sul, salvo na fragata em que embarcasse o original do retrato da v\u00e9spera, h\u00e1 de supor-se que a reflex\u00e3o da mo\u00e7a era profundamente maquiav\u00e9lica. N\u00e3o digo que n\u00e3o. D. Benedita, entretanto, noticiou a viagem aos amigos e conhecidos, nenhum dos quais a ouviu espantado. Um chegou a perguntar-lhe se, enfim, daquela vez era certo. D. Maria dos Anjos, que sabia da viagem pelo c\u00f4nego, se alguma coisa a assombrou, quando a amiga se despediu dela, foram as atitudes geladas, o olhar fixo no ch\u00e3o, o sil\u00eancio, a indiferen\u00e7a. Uma visita de dez minutos apenas, durante os quais D. Benedita disse quatro palavras no princ\u00edpio: &#8211; Vamos para o Norte. E duas no fim: &#8211; Passe bem. E os beijos? Dois tristes beijos de pessoa morta.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>A viagem n\u00e3o se fez por um motivo supersticioso. D. Benedita, no domingo \u00e0 noite, advertiu que o paquete seguia na sexta-feira, e achou que o dia era mau. Iriam no outro paquete. N\u00e3o foram no outro; mas desta vez os motivos escapam inteiramente ao alcance do olhar humano, e o melhor alvitre em tais casos \u00e9 n\u00e3o teimar com o impenetr\u00e1vel. A verdade \u00e9 que D. Benedita n\u00e3o foi, mas iria no terceiro paquete, a n\u00e3o ser um incidente que lhe trocou os planos.<\/p>\n<p>Tinha a filha inventado uma festa e uma amizade nova. A nova amizade era uma fam\u00edlia do Andara\u00ed; a festa n\u00e3o se sabe a que prop\u00f3sito foi, mas deve ter sido espl\u00eandida, porque D. Benedita ainda falava dela tr\u00eas dias depois. Tr\u00eas dias! Realmente, era demais. Quanto \u00e0 fam\u00edlia, era imposs\u00edvel ser mais am\u00e1vel; ao menos, a impress\u00e3o que deixou na alma de D. Benedita foi intens\u00edssima. Uso este superlativo, porque ela mesma o empregou: \u00e9 um documento humano.<\/p>\n<p>&#8211; Aquela gente? Oh! deixou-me uma impress\u00e3o intens\u00edssima.<\/p>\n<p>E toca a andar para Andara\u00ed, namorada de D. Petronilha, esposa do conselheiro Beltr\u00e3o, e de uma irm\u00e3 dela, D. Maricota, que ia casar com um oficial de marinha, irm\u00e3o de outro oficial de marinha, cujos bigodes, olhos, cara, porte, cabelos, s\u00e3o os mesmos do retrato que o leitor entreviu h\u00e1 tempos na gavetinha de Eul\u00e1lia. A irm\u00e3 casada tinha trinta e dois anos, e uma seriedade, umas maneiras t\u00e3o bonitas, que deixaram encantada a esposa do desembargador. Quanto \u00e0 irm\u00e3 solteira era uma flor, uma flor de cera, outra express\u00e3o de D. Benedita, que n\u00e3o altero com receio de entibiar a verdade.<\/p>\n<p>Um dos pontos mais obscuros desta curiosa hist\u00f3ria \u00e9 a pressa com que as rela\u00e7\u00f5es se travaram, e os acontecimentos se sucederam. Por exemplo, uma das pessoas que estiveram em Andara\u00ed, com D. Benedita, foi o oficial de marinha retratado no cart\u00e3o particular de Eul\u00e1lia, 1\u00ba tenente Mascarenhas, que o conselheiro Beltr\u00e3o proclamou futuro almirante. Vede, por\u00e9m, a perf\u00eddia do oficial: vinha fardado; e D. Benedita, que amava os espet\u00e1culos novos, achou-o t\u00e3o distinto, t\u00e3o bonito, entre os outros mo\u00e7os \u00e0 paisana, que o preferiu a todos, e lho disse. O oficial agradeceu comovido. Ela ofereceu-lhe a casa; ele pediu-lhe licen\u00e7a para fazer uma visita.<\/p>\n<p>&#8211; Uma visita? V\u00e1 jantar conosco.<\/p>\n<p>Mascarenhas fez uma cortesia de aquiesc\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, disse D. Benedita, v\u00e1 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Mascarenhas foi, e foi mais cedo. D. Benedita falou-lhe da vida do mar; ele pediu-lhe a filha em casamento. D. Benedita ficou sem voz, pasmada. Lembrou-se, \u00e9 verdade, que desconfiara dele, um dia, nas Laranjeiras; mas a suspeita acabara. Agora n\u00e3o os vira conversar nem olhar uma s\u00f3 vez. Em casamento! Mas seria mesmo em casamento? N\u00e3o podia ser outra coisa; a atitude s\u00e9ria, respeitosa, implorativa do rapaz dizia bem que se tratava de um casamento. Que sonho! Convidar um amigo, e abrir a porta a um genro: era o c\u00famulo do inesperado. Mas o sonho era bonito; o oficial de marinha era um galhardo rapaz, forte, elegante, simp\u00e1tico, metia toda a gente no cora\u00e7\u00e3o, e principalmente parecia ador\u00e1-la, a ela, D. Benedita. Que magn\u00edfico sonho! D. Benedita voltou do pasmo, e respondeu que sim, que Eul\u00e1lia era sua. Mascarenhas pegou-lhe na m\u00e3o e beijou-a filialmente.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o desembargador? disse ele.<\/p>\n<p>&#8211; O desembargador concordar\u00e1 comigo.<\/p>\n<p>Tudo andou assim depressa. Certid\u00f5es passadas, banhos corridos, marcou-se o dia do casamento; seria vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do desembargador. Que alegria a da boa m\u00e3e! que atividade no preparo do enxoval, no plano e nas encomendas da festa, na escolha dos convidados, etc.! Ela ia de um lado para outro, ora a p\u00e9, ora de carro, fizesse chuva ou sol. N\u00e3o se detinha no mesmo objeto muito tempo; a semana do enxoval n\u00e3o era a do preparo da festa, nem a das visitas; alternava as coisas, voltava atr\u00e1s, com certa confus\u00e3o, \u00e9 verdade. Mas a\u00ed estava a filha para suprir as faltas, corrigir os defeitos, cercear as demasias, tudo com a sua habilidade natural. Ao contr\u00e1rio de todos os noivos, este n\u00e3o as importunava; n\u00e3o jantava todos os dias com elas, segundo lhe pedia a dona da casa; jantava aos domingos, e visitava-as uma vez por semana. Matava as saudades por meio de cartas, que eram cont\u00ednuas, longas e secretas, como no tempo do namoro. D. Benedita n\u00e3o podia explicar uma tal esquivan\u00e7a, quando ela morria por ele; e ent\u00e3o vingava-se da esquisitice, morrendo ainda mais, e dizendo dele por toda a parte as mais belas coisas do mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Uma p\u00e9rola! uma p\u00e9rola!<\/p>\n<p>&#8211; E um bonito rapaz, acrescentavam.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9? De truz.<\/p>\n<p>A mesma coisa repetia ao marido nas cartas que lhe mandava, antes e depois de receber a resposta da primeira. A resposta veio; o desembargador deu o seu consentimento, acrescentando que lhe do\u00eda muito n\u00e3o poder vir assistir \u00e0s bodas, por achar-se um tanto adoentado; mas aben\u00e7oava de longe os filhos, e pedia o retrato do genro.<\/p>\n<p>Cumpriu-se o acordo \u00e0 risca. Vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do Par\u00e1 efetuou-se o casamento, que foi uma festa admir\u00e1vel, espl\u00eandida, no dizer de D. Benedita, quando a contou a algumas amigas. Oficiou o c\u00f4nego Roxo, e claro \u00e9 que D. Maria dos Anjos n\u00e3o esteve presente, e menos ainda o filho. Ela esperou, note-se, at\u00e9 \u00e0 \u00faltima hora um bilhete de participa\u00e7\u00e3o, um convite, uma visita, embora se abstivesse de comparecer; mas n\u00e3o recebeu nada. Estava at\u00f4nita, revolvia a mem\u00f3ria a ver se descobria alguma inadvert\u00eancia sua que pudesse explicar a frieza das rela\u00e7\u00f5es; n\u00e3o achando nada, sup\u00f4s alguma intriga. E sup\u00f4s mal, pois foi um simples esquecimento. D. Benedita, no dia do cons\u00f3rcio, de manh\u00e3, teve id\u00e9ia de que D. Maria dos Anjos n\u00e3o recebera participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Eul\u00e1lia, parece que n\u00e3o mandamos participa\u00e7\u00e3o a D Maria dos Anjos, disse ela \u00e0 filha, almo\u00e7ando.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei; mam\u00e3e \u00e9 quem se incumbiu dos convites.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que n\u00e3o, confirmou D. Benedita. Jo\u00e3o, d\u00e1 c\u00e1 mais a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>O copeiro deu-lhe o a\u00e7\u00facar; ela, mexendo o ch\u00e1, lembrou-se do carro que iria buscar o c\u00f4nego e reiterou uma ordem da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Mas a fortuna \u00e9 caprichosa. Quinze dias depois do casamento, chegou a not\u00edcia do \u00f3bito do desembargador. N\u00e3o descrevo a dor de D. Benedita; foi dilacerante e sincera. Os noivos, que devaneavam na Tijuca, vieram ter com ela; D. Benedita chorou todas as l\u00e1grimas de uma esposa austera e fidel\u00edssima. Depois da missa do s\u00e9timo dia, consultou a filha e o genro acerca da id\u00e9ia de ir ao Par\u00e1, erigir um t\u00famulo ao marido, e beijar a terra em que ele repousava. Mascarenhas trocou um olhar com a mulher; depois disse \u00e0 sogra que era melhor irem juntos, porque ele devia seguir para o Norte da\u00ed a tr\u00eas meses em comiss\u00e3o do governo. D. Benedita recalcitrou um pouco, mas aceitou o prazo, dando desde logo todas as ordens necess\u00e1rias \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do t\u00famulo. O t\u00famulo fez-se; mas a comiss\u00e3o n\u00e3o veio, e D. Benedita n\u00e3o p\u00f4de ir.<\/p>\n<p>Cinco meses depois, deu-se um pequeno incidente na fam\u00edlia. D. Benedita mandara construir uma casa no caminho da Tijuca, e o genro, com o pretexto de uma interrup\u00e7\u00e3o na obra, prop\u00f4s acab\u00e1-la. D. Benedita consentiu, e o ato era tanto mais honroso para ela, quanto que o genro come\u00e7ava a parecer-lhe insuport\u00e1vel com a sua excessiva disciplina, com as suas teimas, impertin\u00eancias, etc. Verdadeiramente, n\u00e3o havia teimas; nesse particular, o genro de D. Benedita contava tanto com a sinceridade da sogra que nunca teimava; deixava que ela pr\u00f3pria se desmentisse dias depois. Mas pode ser que isto mesmo a mortificasse. Felizmente, o governo lembrou-se de o mandar ao Sul; Eul\u00e1lia, gr\u00e1vida, ficou com a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Foi por esse tempo que um negociante, vi\u00favo, teve id\u00e9ia de cortejar D. Benedita. O primeiro ano da viuvez estava passado. D. Benedita acolheu a id\u00e9ia com muita simpatia, embora sem alvoro\u00e7o. Defendia-se consigo; alegava a idade e os estudos do filho, que em breve estaria a caminho de S\u00e3o Paulo, deixando-a s\u00f3, sozinha no mundo. O casamento seria uma consola\u00e7\u00e3o, uma companhia. E consigo, na rua ou em casa, nas horas dispon\u00edveis, aprimorava o plano com todos os floreios da imagina\u00e7\u00e3o vivaz e s\u00fabita; era uma vida nova, pois desde muito, antes mesmo da morte do marido, pode-se dizer que era vi\u00fava. O negociante gozava do melhor conceito: a escolha era excelente.<\/p>\n<p>N\u00e3o casou. O genro tornou do Sul, a filha deu \u00e0 luz um menino robusto e lindo, que foi a paix\u00e3o da av\u00f3 durante os primeiros meses. Depois, o genro, a filha e o neto foram para o Norte. D. Benedita achou-se s\u00f3 e triste; o filho n\u00e3o bastava aos seus afetos. A id\u00e9ia de viajar tornou a rutilar-lhe na mente, mas como um f\u00f3sforo, que se apaga logo. Viajar sozinha era cansar e aborrecer-se ao mesmo tempo; achou melhor ficar. Uma companhia l\u00edrica, advent\u00edcia, sacudiu-lhe o torpor, e restituiu-a \u00e0 sociedade. A sociedade incutiu-lhe outra vez a id\u00e9ia do casamento, e apontou-lhe logo um pretendente, desta vez um advogado, tamb\u00e9m vi\u00favo.<\/p>\n<p>&#8211; Casarei? n\u00e3o casarei?<\/p>\n<p>Uma noite, volvendo D. Benedita este problema, \u00e0 janela da casa de Botafogo, para onde se mudara desde alguns meses, viu um singular espet\u00e1culo. Primeiramente uma claridade opaca, esp\u00e9cie de luz coada por um vidro fosco, vestia o espa\u00e7o da enseada, fronteira \u00e0 janela. Nesse quadro apareceu-lhe uma figura vaga e transparente, trajada de nevoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam todos no ar. A figura veio at\u00e9 ao peitoril da janela de D. Benedita; e de um gesto sonolento, com uma voz de crian\u00e7a, disse-lhe estas palavras sem sentido:<\/p>\n<p>&#8211; Casa&#8230; n\u00e3o casar\u00e1s&#8230; se casas&#8230; casar\u00e1s&#8230; n\u00e3o casar\u00e1s&#8230; e casas&#8230; casando &#8230;<\/p>\n<p>D. Benedita ficou aterrada, sem poder, mexer-se; mas ainda teve a for\u00e7a de perguntar \u00e0 figura quem era. A figura achou um princ\u00edpio de riso, mas perdeu-o logo; depois respondeu que era a fada que presidira ao nascimento de D. Benedita: Meu nome \u00e9 Veleidade, concluiu; e, como um suspiro, dispersou-se na noite e no sil\u00eancio.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Um retrato I A coisa mais \u00e1rdua do mundo, depois do of\u00edcio de governar, seria dizer a idade exata de D. Benedita. Uns davam-lhe quarenta anos, outros quarenta e cinco, alguns trinta e seis. 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