{"id":118935,"date":"2017-04-07T18:18:08","date_gmt":"2017-04-07T20:18:08","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118935"},"modified":"2017-04-07T18:18:08","modified_gmt":"2017-04-07T20:18:08","slug":"a-serenissima-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-serenissima-republica","title":{"rendered":"A Seren\u00edssima Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Meus senhores,<\/p>\n<p>Antes de comunicar-vos uma descoberta, que reputo de algum lustre para o nosso pa\u00eds, deixai que vos agrade\u00e7a a prontid\u00e3o com que acudisses ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui; mas n\u00e3o ignoro tamb\u00e9m, &#8211; e fora ingratid\u00e3o ignor\u00e1-lo, &#8211; que um pouco de simpatia pessoal se mistura \u00e0 vossa leg\u00edtima curiosidade cient\u00edfica. Oxal\u00e1 possa eu corresponder a ambas.<\/p>\n<p>Minha descoberta n\u00e3o \u00e9 recente; data do fim do ano de 1876. N\u00e3o a divulguei ent\u00e3o, &#8211; e, a n\u00e3o ser o Globo, interessante di\u00e1rio desta capital, n\u00e3o a divulgaria ainda agora, &#8211; por uma raz\u00e3o que achar\u00e1 f\u00e1cil entrada no vosso esp\u00edrito. Esta obra de que venho falar-vos, carece de retoques \u00faltimos, de verifica\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias complementares. Mas o Globo noticiou que um s\u00e1bio ingl\u00eas descobriu a linguagem f\u00f4nica dos insetos, e cita o estudo feito com as moscas. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas com ansiedade. Sendo certo, por\u00e9m, que pela navega\u00e7\u00e3o a\u00e9rea, invento do padre Bartolomeu, \u00e9 glorificado o nome estrangeiro, enquanto o do nosso patr\u00edcio mal se pode dizer lembrado dos seus naturais, determinei evitar a sorte do insigne Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som, \u00e0 face do universo, que muito antes daquele s\u00e1bio, e fora das ilhas brit\u00e2nicas, um modesto naturalista descobriu coisa id\u00eantica, e fez com ela obra superior.<\/p>\n<p>Senhores, vou assombrar-vos, como teria assombrado a Arist\u00f3teles, se lhe perguntasse: Credes que se possa dar um regime social \u00e0s aranhas? Arist\u00f3teles responderia negativamente, com v\u00f3s todos, porque \u00e9 imposs\u00edvel crer que jamais se chegasse a organizar socialmente esse articulado arisco, solit\u00e1rio, apenas disposto ao trabalho, e dificilmente ao amor. Pois bem, esse imposs\u00edvel fi-lo eu.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o um riso, no meio do sussurro de curiosidade. Senhores, cumpre vencer os preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente porque n\u00e3o a conheceis. Amais o c\u00e3o, prezais o gato e a galinha, e n\u00e3o advertis que a aranha n\u00e3o pula nem ladra como o c\u00e3o, n\u00e3o mia como o gato, n\u00e3o cacareja como a galinha, n\u00e3o zune nem morde como o mosquito, n\u00e3o nos leva o sangue e o sono como a pulga. Todos esses bichos s\u00e3o o modelo acabado da vadia\u00e7\u00e3o e do parasitismo. A mesma formiga, t\u00e3o gabada por certas qualidades boas, d\u00e1 no nosso a\u00e7\u00facar e nas nossas planta\u00e7\u00f5es, e funda a sua propriedade roubando a alheia. A aranha, senhores, n\u00e3o nos aflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de paci\u00eancia, de ordem, de previs\u00e3o, de respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos, n\u00e3o h\u00e1 duas opini\u00f5es. Desde Pl\u00ednio at\u00e9 Darwin, os naturalistas do mundo inteiro formam um s\u00f3 coro de admira\u00e7\u00e3o em torno desse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura inconsciente do vosso criado destr\u00f3i em menos de um minuto. Eu repetiria agora esses ju\u00edzos, se me sobrasse tempo; a mat\u00e9ria, por\u00e9m, excede o prazo, sou constrangido a abrevi\u00e1-la. Tenho-os aqui, n\u00e3o todos, mas quase todos; tenho, entre eles, esta excelente monografia de B\u00fcchner, que com tanta subtileza estudou a vida ps\u00edquica dos animais. Citando Darwin e B\u00fcchner, \u00e9 claro que me restrinjo \u00e0 homenagem cabida a dois s\u00e1bios de primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as teorias gratuitas e err\u00f4neas do materialismo.<\/p>\n<p>Sim, senhores, descobri uma esp\u00e9cie araneida que disp\u00f5e do uso da fala; coligi alguns, depois muitos dos novos articulados, e organizei-os socialmente. O primeiro exemplar dessa aranha maravilhosa apareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876. Era t\u00e3o vasta, t\u00e3o colorida, dorso rubro, com listras azuis, transversais, t\u00e3o r\u00e1pida nos movimentos, e \u00e0s vezes t\u00e3o alegre, que de todo me cativou a aten\u00e7\u00e3o. No dia seguinte vieram mais tr\u00eas, e as quatro tomaram posse de um recanto de minha ch\u00e1cara. Estudei-as longamente; achei-as admir\u00e1veis. Nada, por\u00e9m, se pode comparar ao pasmo que me causou a descoberta do idioma araneida, uma l\u00edngua, senhores, nada menos que uma l\u00edngua rica e variada, com a sua estrutura sint\u00e1xica, os seus verbos, conjuga\u00e7\u00f5es, declina\u00e7\u00f5es, casos latinos e formas onomatopaicas, uma l\u00edngua que estou gramaticando para uso das academias, como o fiz sumariamente para meu pr\u00f3prio uso. E fi-lo, notai bem, vencendo dificuldades asp\u00e9rrimas com uma paci\u00eancia extraordin\u00e1ria. Vinte vezes desanimei; mas o amor da ci\u00eancia dava-me for\u00e7as para arremeter a um trabalho que, hoje declaro, n\u00e3o chegaria a ser feito duas vezes na vida do mesmo homem.<\/p>\n<p>Guardo para outro recinto a descri\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do meu ar\u00e1cnide, e a an\u00e1lise da l\u00edngua. O objeto desta confer\u00eancia \u00e9, como disse, ressalvar os direitos da ci\u00eancia brasileira, por meio de um protesto em tempo; e, isto feito, dizer-vos a parte em que reputo a minha obra superior \u00e0 do s\u00e1bio de Inglaterra. Devo demonstr\u00e1-lo, e para este ponto chamo a vossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentro de um m\u00eas tinha comigo vinte aranhas; no m\u00eas seguinte cinq\u00fcenta e cinco; em mar\u00e7o de 1877 contava quatrocentas e noventa. Duas for\u00e7as serviram principalmente \u00e0 empresa de as congregar: &#8211; o emprego da l\u00edngua delas, desde que pude discerni-la um pouco, e o sentimento de terror que lhes infundi. A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo idioma, fizeram-lhes crer que era eu o deus das aranhas, e desde ent\u00e3o adoraram-me. E vede o benef\u00edcio desta ilus\u00e3o. Como as acompanhasse com muita aten\u00e7\u00e3o e miudeza, lan\u00e7ando em um livro as observa\u00e7\u00f5es que fazia, cuidaram que o livro era o registro dos seus pecados, e fortaleceram-se ainda mais na pr\u00e1tica das virtudes. A flauta tamb\u00e9m foi um grande auxiliar. Como sabeis, ou deveis saber, elas s\u00e3o doidas por m\u00fasica.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastava associ\u00e1-las; era preciso, dar-lhes um governo id\u00f4neo. Hesitei na escolha; muitos dos atuais pareciam-me bons, alguns excelentes, mas todos tinham contra si o existirem. Explico-me. Uma forma vigente de governo ficava exposta a compara\u00e7\u00f5es que poderiam amesquinh\u00e1-la. Era-me preciso, ou achar uma forma nova, ou restaurar alguma outra abandonada. Naturalmente adotei o segundo alvitre, e nada me pareceu mais acertado do que uma rep\u00fablica, \u00e0 maneira de Veneza, o mesmo molde, e at\u00e9 o mesmo ep\u00edteto. Obsoleto, sem nenhuma analogia, em suas fei\u00e7\u00f5es gerais, com qualquer outro governo vivo, cabia-lhe ainda a vantagem de um mecanismo complicado, &#8211; o que era meter \u00e0 prova as aptid\u00f5es pol\u00edticas da jovem sociedade.<\/p>\n<p>Outro motivo determinou a minha escolha. Entre os diferentes modos eleitorais da antiga Veneza, figurava o do saco e bolas, inicia\u00e7\u00e3o dos filhos da nobreza no servi\u00e7o do Estado. Metiam-se as bolas com os nomes dos candidatos no saco, e extra\u00eda-se anualmente um certo n\u00famero, ficando os eleitos desde logo aptos para as carreiras p\u00fablicas. Este sistema far\u00e1 rir aos doutores do sufr\u00e1gio; a mim n\u00e3o. Ele exclui os desvarios da paix\u00e3o, os desazos da in\u00e9pcia, o congresso da corrup\u00e7\u00e3o e da cobi\u00e7a. Mas n\u00e3o foi s\u00f3 por isso que o aceitei; tratando-se de um povo t\u00e3o ex\u00edmio na fia\u00e7\u00e3o de suas teias, o uso do saco eleitoral era de f\u00e1cil adapta\u00e7\u00e3o, quase uma planta ind\u00edgena.<\/p>\n<p>A proposta foi aceita. Seren\u00edssima Rep\u00fablica pareceu-lhes um t\u00edtulo magn\u00edfico, ro\u00e7agante, expansivo, pr\u00f3prio a engrandecer a obra popular.<\/p>\n<p>N\u00e3o direi, senhores, que a obra chegou \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, nem que l\u00e1 chegue t\u00e3o cedo. Os meus pupilos n\u00e3o s\u00e3o os sol\u00e1rios de Campanela ou os utopistas de Morus; formam um povo recente, que n\u00e3o pode trepar de um salto ao cume das na\u00e7\u00f5es seculares. Nem o tempo \u00e9 oper\u00e1rio que ceda a outro a lima ou o alvi\u00e3o; ele far\u00e1 mais e melhor do que as teorias do papel, v\u00e1lidas no papel e mancas na pr\u00e1tica. O que posso afirmar-vos \u00e9 que, n\u00e3o obstante as incertezas da idade, eles caminham, dispondo de algumas virtudes, que presumo essenciais \u00e0 dura\u00e7\u00e3o de um Estado. Uma delas, como j\u00e1 disse, \u00e9 a perseveran\u00e7a, uma longa paci\u00eancia de Pen\u00e9lope, segundo vou mostrar-vos.<\/p>\n<p>Com efeito, desde que compreenderam que no ato eleitoral estava a base da vida p\u00fablica, trataram de o exercer com a maior aten\u00e7\u00e3o. O fabrico do saco foi uma obra nacional. Era um saco de cinco polegadas de altura e tr\u00eas de largura, tecido com os melhores fios, obra s\u00f3lida e espessa. Para comp\u00f4-lo foram aclamadas dez damas principais, que receberam o t\u00edtulo de m\u00e3es da rep\u00fablica, al\u00e9m de outros privil\u00e9gios e foros. Uma obra-prima, podeis cr\u00ea-lo. O processo eleitoral \u00e9 simples. As bolas recebem os nomes dos candidatos, que provarem certas condi\u00e7\u00f5es, e s\u00e3o escritas por um oficial p\u00fablico, denominado &#8220;das inscri\u00e7\u00f5es&#8221;. No dia da elei\u00e7\u00e3o, as bolas s\u00e3o metidas no saco e tiradas pelo oficial das extra\u00e7\u00f5es, at\u00e9 perfazer o n\u00famero dos elegendos. Isto que era um simples processo inicial na antiga Veneza, serve aqui ao provimento de todos os cargos.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o fez-se a princ\u00edpio com muita regularidade; mas, logo depois, um dos legisladores declarou que ela fora viciada, por terem entrado no saco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assembl\u00e9ia verificou a exatid\u00e3o da den\u00fancia, e decretou que o saco, at\u00e9 ali de tr\u00eas polegadas de largura, tivesse agora duas; limitando-se a capacidade do saco, restringia-se o espa\u00e7o \u00e0 fraude, era o mesmo que suprimi-la. Aconteceu, por\u00e9m, que na elei\u00e7\u00e3o seguinte, um candidato deixou de ser inscrito na competente bola, n\u00e3o se sabe se por descuido ou inten\u00e7\u00e3o do oficial p\u00fablico. Este declarou que n\u00e3o se lembrava de ter visto o ilustre candidato, mas acrescentou nobremente que n\u00e3o era imposs\u00edvel que ele lhe tivesse dado o nome; neste caso n\u00e3o houve exclus\u00e3o, mas distra\u00e7\u00e3o. A assembl\u00e9ia, diante de um fen\u00f4meno psicol\u00f3gico inelut\u00e1vel, como \u00e9 a distra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o p\u00f4de castigar o oficial; mas, considerando que a estreiteza do saco podia dar lugar a exclus\u00f5es odiosas, revogou a lei anterior e restaurou as tr\u00eas polegadas.<\/p>\n<p>Nesse \u00ednterim, senhores, faleceu o primeiro magistrado, e tr\u00eas cidad\u00e3os apresentaram-se candidatos ao posto, mas s\u00f3 dois importantes, Hazeroth e Magog, os pr\u00f3prios chefes do partido retil\u00edneo e do partido curvil\u00edneo. Devo explicar-vos estas denomina\u00e7\u00f5es. Como eles s\u00e3o principalmente ge\u00f4metras, \u00e9 a geometria que os divide em pol\u00edtica. Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, \u00e9 o partido retil\u00edneo; &#8211; outros pensam, ao contr\u00e1rio, que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, &#8211; \u00e9 o partido curvil\u00edneo. H\u00e1 ainda um terceiro partido, misto e central, com este postulado: &#8211; as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; \u00e9 o partido reto-curvil\u00edneo; e finalmente, uma quarta divis\u00e3o pol\u00edtica, o partido anti-reto-curvil\u00edneo, que fez t\u00e1bua rasa de todos os princ\u00edpios litigantes, e prop\u00f5e o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e leve, em que n\u00e3o h\u00e1 linhas de esp\u00e9cie alguma. Como a geometria apenas poderia dividi-los, sem chegar a apaixon\u00e1-los, adotaram uma simb\u00f3lica. Para uns, a linha reta exprime os bons sentimentos, a justi\u00e7a, a probidade, a inteireza, a const\u00e2ncia, etc., ao passo que os sentimentos ruins ou inferiores, como a bajula\u00e7\u00e3o, a fraude, a deslealdade, a perf\u00eddia, s\u00e3o perfeitamente curvos. Os advers\u00e1rios respondem que n\u00e3o, que a linha curva \u00e9 a da virtude e do saber, porque \u00e9 a express\u00e3o da mod\u00e9stia e da humildade; ao contr\u00e1rio, a ignor\u00e2ncia, a presun\u00e7\u00e3o, a toleima, a parlapatice, s\u00e3o retas, duramente retas. O terceiro partido, menos anguloso, menos exclusivista, desbastou a exagera\u00e7\u00e3o de uns e outros, combinou os contrastes, e proclamou a simultaneidade das linhas como a exata c\u00f3pia do mundo f\u00edsico e moral. O quarto limita-se a negar tudo.<\/p>\n<p>Nem Hazeroth nem Magog foram eleitos. As suas bolas sa\u00edram do saco, \u00e9 verdade, mas foram inutilizadas, a do primeiro por faltar a primeira letra do nome, a do segundo por lhe faltar a \u00faltima. O nome restante e triunfante era o de um argent\u00e1rio ambicioso, pol\u00edtico obscuro, que subiu logo \u00e0 poltrona ducal, com espanto geral da rep\u00fablica. Mas os vencidos n\u00e3o se contentaram de dormir sobre os louros do vencedor; requereram uma devassa. A devassa mostrou que o oficial das inscri\u00e7\u00f5es intencionalmente viciara a ortografia de seus nomes. O oficial confessou o defeito e a inten\u00e7\u00e3o; mas explicou-os dizendo que se tratava de uma simples elipse; delito, se o era, puramente liter\u00e1rio. N\u00e3o sendo poss\u00edvel perseguir ningu\u00e9m por defeitos de ortografia ou figuras de ret\u00f3rica, pareceu acertado rever a lei. Nesse mesmo dia ficou decretado que o saco seria feito de um tecido de malhas, atrav\u00e9s das quais as bolas pudessem ser lidas pelo p\u00fablico, e, ipso facto, pelos mesmos candidatos, que assim teriam tempo de corrigir as inscri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Infelizmente, senhores, o coment\u00e1rio da lei \u00e9 a eterna mal\u00edcia. A mesma porta aberta \u00e0 lealdade serviu \u00e0 ast\u00facia de um certo Nabiga, que se conchavou com o oficial das extra\u00e7\u00f5es, para haver um lugar na assembl\u00e9ia. A vaga era uma, os candidatos tr\u00eas; o oficial extraiu as bolas com os olhos no c\u00famplice, que s\u00f3 deixou de abanar negativamente a cabe\u00e7a, quando a bola pegada foi a sua. N\u00e3o era preciso mais para condenar a id\u00e9ia das malhas. A assembl\u00e9ia, com exemplar paci\u00eancia, restaurou o tecido espesso do regime anterior; mas, para evitar outras elipses, decretou a valida\u00e7\u00e3o das bolas cuja inscri\u00e7\u00e3o estivesse incorreta, uma vez que cinco pessoas jurassem ser o nome inscrito o pr\u00f3prio nome do candidato.<\/p>\n<p>Este novo estatuto deu lugar a um caso novo e imprevisto, como ides ver. Tratou-se de eleger um coletor de esp\u00f3rtulas, funcion\u00e1rio encarregado de cobrar as rendas p\u00fablicas, sob a forma de esp\u00f3rtulas volunt\u00e1rias. Eram candidatos, entre outros, um certo Caneca e um certo Nebraska. A bola extra\u00edda foi a de Nebraska. Estava errada, \u00e9 certo, por lhe faltar a \u00faltima letra; mas, cinco testemunhas juraram, nos termos da lei, que o eleito era o pr\u00f3prio e \u00fanico Nebraska da rep\u00fablica. Tudo parecia findo, quando o candidato Caneca requereu provar que a bola extra\u00edda n\u00e3o trazia o nome de Nebraska, mas o dele. O juiz de paz deferiu ao peticion\u00e1rio. Veio ent\u00e3o um grande fil\u00f3logo, &#8211; talvez o primeiro da rep\u00fablica, al\u00e9m de bom metaf\u00edsico, e n\u00e3o vulgar matem\u00e1tico, &#8211; o qual provou a coisa nestes termos:<\/p>\n<p>&#8211; Em primeiro lugar, disse ele, deveis notar que n\u00e3o \u00e9 fortuita a aus\u00eancia da \u00faltima letra do nome Nebraska. Por que motivo foi ele inscrito incompletamente? N\u00e3o se pode dizer que por fadiga ou amor da brevidade, pois s\u00f3 falta a \u00faltima letra, um simples a. Car\u00eancia de espa\u00e7o? Tamb\u00e9m n\u00e3o; vede: h\u00e1 ainda espa\u00e7o para duas ou tr\u00eas s\u00edlabas. Logo, a falta \u00e9 intencional, e a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser outra, sen\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o do leitor para a letra k, \u00faltima escrita, desamparada, solteira, sem sentido. Ora, por um efeito mental, que nenhuma lei destruiu, a letra reproduz-se no c\u00e9rebro de dois modos, a forma gr\u00e1fica e a forma s\u00f4nica: k e ca. O defeito, pois, no nome escrito, chamando os olhos para a letra final, incrusta desde logo no c\u00e9rebro, esta primeira s\u00edlaba: Ca. Isto posto, o movimento natural do esp\u00edrito \u00e9 ler o nome todo; volta-se ao princ\u00edpio, \u00e0 inicial ne, do nome Nebrask. &#8211; Can\u00e9. &#8211; Resta a s\u00edlaba do meio, bras, cuja redu\u00e7\u00e3o a esta outra s\u00edlaba ca, \u00faltima do nome Caneca, \u00e9 a coisa mais demonstr\u00e1vel do mundo. E, todavia, n\u00e3o a demonstrarei, visto faltar-vos o preparo necess\u00e1rio ao entendimento da significa\u00e7\u00e3o espiritual ou filos\u00f3fica da s\u00edlaba, suas origens e efeitos, fases, modifica\u00e7\u00f5es, conseq\u00fc\u00eancias l\u00f3gicas e sint\u00e1xicas, dedutivas ou indutivas, simb\u00f3licas e outras. Mas, suposta a demonstra\u00e7\u00e3o, a\u00ed fica a \u00faltima prova, evidente, clara, da minha afirma\u00e7\u00e3o primeira pela anexa\u00e7\u00e3o da s\u00edlaba ca \u00e0s duas Cane, dando este nome Caneca.<\/p>\n<p>A lei emendou-se, senhores, ficando abolida a faculdade da prova testemunhal e interpretativa dos textos, e introduzindo-se uma inova\u00e7\u00e3o, o corte simult\u00e2neo de meia polegada na altura e outra meia na largura do saco. Esta emenda n\u00e3o evitou um pequeno abuso na elei\u00e7\u00e3o dos alcaides, e o saco foi restitu\u00eddo \u00e0s dimens\u00f5es primitivas, dando-se-lhe, todavia, a forma triangular. Compreendeis que esta forma trazia consigo, uma conseq\u00fc\u00eancia: ficavam muitas bolas no fundo. Da\u00ed a mudan\u00e7a para a forma cil\u00edndrica; mais tarde deu-se-lhe o aspecto de uma ampulheta, cujo inconveniente se reconheceu ser igual ao tri\u00e2ngulo, e ent\u00e3o adotou-se a forma de um crescente, etc. Muitos abusos, descuidos e lacunas tendem a desaparecer, e o restante ter\u00e1 igual destino, n\u00e3o inteiramente, decerto, pois a perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 deste mundo, mas na medida e nos termos do conselho de um dos mais circunspectos cidad\u00e3os da minha rep\u00fablica, Erasmus, cujo \u00faltimo discurso sinto n\u00e3o poder dar-vos integralmente. Encarregado de notificar a \u00faltima resolu\u00e7\u00e3o legislativa \u00e0s dez damas incumbidas de urdir o saco eleitoral, Erasmus contou-lhes a f\u00e1bula de Pen\u00e9lope, que fazia e desfazia a famosa teia, \u00e0 espera do esposo Ulisses.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00f3s sois a Pen\u00e9lope da nossa rep\u00fablica, disse ele ao terminar; tendes a mesma castidade, paci\u00eancia e talentos. Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, at\u00e9 que Ulisses, cansado de dar \u00e0s pernas, venha tomar entre n\u00f3s o lugar que lhe cabe. Ulisses \u00e9 a Sapi\u00eancia.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Meus senhores, Antes de comunicar-vos uma descoberta, que reputo de algum lustre para o nosso pa\u00eds, deixai que vos agrade\u00e7a a prontid\u00e3o com que acudisses ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui; mas n\u00e3o ignoro tamb\u00e9m, &#8211; e fora ingratid\u00e3o ignor\u00e1-lo, &#8211; que um pouco de simpatia pessoal [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-118935","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Seren\u00edssima Rep\u00fablica, Machado de Assis, Poema, A Seren\u00edssima Rep\u00fablica<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Seren\u00edssima Rep\u00fablica, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, A Seren\u00edssima Rep\u00fablica\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, 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