{"id":118933,"date":"2017-04-07T18:16:22","date_gmt":"2017-04-07T20:16:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118933"},"modified":"2017-04-07T18:16:22","modified_gmt":"2017-04-07T20:16:22","slug":"a-chinela-turca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-chinela-turca","title":{"rendered":"A Chinela Turca"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Vede o bacharel Duarte. Acaba de compor o mais teso e correto la\u00e7o de gravata que apareceu naquele ano de 1850, e anunciam-lhe a visita do major Lopo Alves. Notai que \u00e9 de noite, e passa de nove horas. Duarte estremeceu, e tinha duas raz\u00f5es para isso. A primeira era ser o major, em qualquer ocasi\u00e3o, um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo. A segunda \u00e9 que ele preparava-se justamente para ir ver, em um baile, os mais finos cabelos loiros e os mais pensativos olhos azuis que este nosso clima, t\u00e3o avaro deles, produzira. Datava de uma semana aquele namoro. Seu cora\u00e7\u00e3o deixando-se prender entre duas valsas, confiou aos olhos, que eram castanhos, uma declara\u00e7\u00e3o em regra, que eles pontualmente transmitiram \u00e0 mo\u00e7a, dez minutos antes da ceia, recebendo favor\u00e1vel resposta logo depois do chocolate. Tr\u00eas dias depois, estava a caminho a primeira carta, e pelo jeito que levavam as coisas n\u00e3o era de admirar que, antes do fim do ano, estivessem ambos a caminho da igreja. Nestas circunst\u00e2ncias, a chegada de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade. Velho amigo da fam\u00edlia, companheiro de seu finado pai no ex\u00e9rcito, tinha jus o major a todos os respeitos. Imposs\u00edvel despedi-lo ou trat\u00e1-lo com frieza. Havia felizmente uma circunst\u00e2ncia atenuante; o major era aparentado com Cec\u00edlia, a mo\u00e7a dos olhos azuis; em caso de necessidade, era um voto seguro.<\/p>\n<p>Duarte enfiou um chambre e dirigiu-se para a sala, onde Lopo Alves, com um rolo debaixo do bra\u00e7o e os olhos fitos no ar, parecia totalmente alheio \u00e0 chegada do bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; Que bom vento o trouxe a Catumbi a semelhante hora? perguntou Duarte, dando \u00e0 voz uma express\u00e3o de prazer, aconselhada n\u00e3o menos pelo interesse que pelo bom-tom.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se o vento que me trouxe \u00e9 bom ou mau, respondeu o major sorrindo por baixo do espesso bigode grisalho; sei que foi um vento rijo. Vai sair?<\/p>\n<p>&#8211; Vou ao Rio Comprido.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei; vai \u00e0 casa da vi\u00fava Meneses. Minha mulher e as pequenas j\u00e1 l\u00e1 devem estar: eu irei mais tarde, se puder. Creio que \u00e9 cedo, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Lopo Alves tirou o rel\u00f3gio e viu que eram nove horas e meia. Passou a m\u00e3o pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos na sala, tornou a sentar-se e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Dou-lhe uma not\u00edcia, que certamente n\u00e3o espera. Saiba que fiz&#8230; fiz um drama.<\/p>\n<p>&#8211; Um drama! exclamou o bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; Que quer? Desde crian\u00e7a padeci destes achaques liter\u00e1rios. O servi\u00e7o militar n\u00e3o foi rem\u00e9dio que me curasse, foi um paliativo. A doen\u00e7a regressou com a for\u00e7a dos primeiros tempos. J\u00e1 agora n\u00e3o h\u00e1 mais rem\u00e9dio sen\u00e3o deix\u00e1-la, e ir simplesmente ajudando a natureza.<\/p>\n<p>Duarte recordou-se de que efetivamente o major falava noutro tempo de alguns discursos inaugurais, duas ou tr\u00eas n\u00eanias e boa soma de artigos que escrevera acerca das campanhas do Rio da Prata. Havia por\u00e9m muitos anos que Lopo Alves deixara em paz os generais platinos e os defuntos; nada fazia supor que a mol\u00e9stia volvesse, sobretudo caracterizada por um drama. Esta circunst\u00e2ncia explic\u00e1-la-ia o bacharel, se soubesse que Lopo Alves algumas semanas antes, assistira \u00e0 representa\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a do g\u00eanero ultra-rom\u00e2ntico, obra que lhe agradou muito e lhe sugeriu a id\u00e9ia de afrontar as luzes do tablado. N\u00e3o entrou o major nestas minuciosidades necess\u00e1rias, e o bacharel ficou sem conhecer o motivo da explos\u00e3o dram\u00e1tica do militar. Nem o soube, nem curou disso. Encareceu muito as faculdades mentais do major, manifestou calorosamente a ambi\u00e7\u00e3o que nutria de o ver sair triunfante naquela estr\u00e9ia, prometeu que o recomendaria a alguns amigos que tinha no Correio Mercantil, e s\u00f3 estacou e empalideceu quando viu o major, tr\u00eamulo de bem-aventuran\u00e7a, abrir o rolo que trazia consigo.<\/p>\n<p>&#8211; Agrade\u00e7o-lhe as suas boas inten\u00e7\u00f5es, disse Lopo Alves, e aceito o obs\u00e9quio que me promete; antes dele, por\u00e9m, desejo outro. Sei que \u00e9 inteligente e lido; h\u00e1 de me dizer francamente o que pensa deste trabalho. N\u00e3o lhe pe\u00e7o elogios, exijo franqueza e franqueza rude. Se achar que n\u00e3o \u00e9 bom, diga-o sem rebu\u00e7o.<\/p>\n<p>Duarte procurou desviar aquele c\u00e1lice de amargura; mas era dif\u00edcil pedi-lo, e imposs\u00edvel alcan\u00e7\u00e1-lo. Consultou melancolicamente o rel\u00f3gio, que marcava nove horas e cinq\u00fcenta e cinco minutos, enquanto o major folheava paternalmente as cento e oitenta folhas do manuscrito.<\/p>\n<p>&#8211; Isto vai depressa, disse Lopo Alves; eu sei o que s\u00e3o rapazes e o que s\u00e3o bailes. Descanse que ainda hoje dan\u00e7ar\u00e1 duas ou tr\u00eas valsas com ela, se a tem, ou com elas. N\u00e3o acha melhor irmos para o seu gabinete?<\/p>\n<p>Era indiferente, para o bacharel, o lugar do supl\u00edcio; acedeu ao desejo do h\u00f3spede. Este, com a liberdade que lhe davam as rela\u00e7\u00f5es, disse ao moleque que n\u00e3o deixasse entrar ningu\u00e9m. O algoz n\u00e3o queria testemunhas. A porta do gabinete fechou-se; Lopo Alves tomou lugar ao p\u00e9 da mesa, tendo em frente o bacharel, que mergulhou o corpo e o desespero numa vasta poltrona de marroquim, resoluto a n\u00e3o dizer palavra para ir mais depressa ao termo.<\/p>\n<p>O drama dividia-se em sete quadros. Esta indica\u00e7\u00e3o produziu um calafrio no ouvinte. Nada havia de novo naquelas cento e oitenta p\u00e1ginas, sen\u00e3o a letra do autor. O mais eram os lances, os caracteres, as ficelles, e at\u00e9 o estilo dos mais acabados tipos do romantismo desgrenhado. Lopo Alves cuidava p\u00f4r por obra uma inven\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o fazia mais do que alinhavar as suas reminisc\u00eancias. Noutra ocasi\u00e3o, a obra seria um bom passatempo. Havia logo no primeiro quadro, esp\u00e9cie de pr\u00f3logo, uma crian\u00e7a roubada \u00e0 fam\u00edlia, um envenenamento, dois embu\u00e7ados, a ponta de um punhal e quantidade de adjetivos n\u00e3o menos afiados que o punhal. No segundo quadro dava-se conta da morte de um dos embu\u00e7ados, que devia ressuscitar no terceiro, para ser preso no quinto, e matar o tirano do s\u00e9timo. Al\u00e9m da morte aparente do embu\u00e7ado, havia no segundo quadro o rapto da menina, j\u00e1 ent\u00e3o mo\u00e7a de dezessete anos, um mon\u00f3logo que parecia durar igual prazo, e o roubo de um testamento.<\/p>\n<p>Eram quase onze horas quando acabou a leitura deste segundo quadro. Duarte mal podia conter a c\u00f3lera; era j\u00e1 imposs\u00edvel ir ao Rio Comprido. N\u00e3o \u00e9 fora de prop\u00f3sito conjeturar que, se o major expirasse naquele momento, Duarte agradecia a morte como um benef\u00edcio da Provid\u00eancia. Os sentimentos do bacharel n\u00e3o faziam crer tamanha ferocidade; mas a leitura de um mau livro \u00e9 capaz de produzir fen\u00f4menos ainda mais espantosos. Acresce que, enquanto aos olhos carnais do bacharel aparecia em toda a sua espessura a grenha de Lopo Alves, fugiam-lhe ao esp\u00edrito os fios de ouro que ornavam a formosa cabe\u00e7a de Cec\u00edlia; via-a com os olhos azuis, a tez branca e rosada, o gesto delicado e gracioso, dominando todas as demais damas que deviam estar no sal\u00e3o da vi\u00fava Meneses. Via aquilo, e ouvia mentalmente a m\u00fasica, a palestra, o soar dos passos, e o ruge-ruge das sedas; enquanto a voz rouquenha e sensaborona de Lopo Alves ia desfiando os quadros e os di\u00e1logos, com a impassibilidade de uma grande convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voava o tempo, e o ouvinte j\u00e1 n\u00e3o sabia a conta dos quadros. Meia-noite soara desde muito; o baile estava perdido. De repente, viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscrito, erguia-se, empertigava-se, cravava nele uns olhos odientos e maus, e sa\u00eda arrebatadamente do gabinete. Duarte quis cham\u00e1-lo, mas o pasmo tolhera-lhe a voz e os movimentos. Quando p\u00f4de dominar-se, ouviu o bater do tac\u00e3o rijo e col\u00e9rico do dramaturgo na pedra da cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Foi \u00e0 janela; nada viu nem ouviu; autor e drama tinham desaparecido.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o f\u00eaz ele isso a mais tempo? disse o rapaz suspirando.<\/p>\n<p>O suspiro mal teve tempo de abrir as asas e sair pela janela fora, em demanda do Rio Comprido, quando o moleque do bacharel veio anunciar-lhe a visita de um homem baixo e gordo.<\/p>\n<p>&#8211; A esta hora? exclamou Duarte.<\/p>\n<p>&#8211; A esta hora, repetiu o homem baixo e gordo, entrando na sala. A esta ou a qualquer hora, pode a pol\u00edcia entrar na casa do cidad\u00e3o, uma vez que se trata de um delito grave.<\/p>\n<p>&#8211; Um delito!<\/p>\n<p>&#8211; Creio que me conhece&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho essa honra.<\/p>\n<p>&#8211; Sou empregado na pol\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que tenho eu com o senhor? de que delito se trata?<\/p>\n<p>&#8211; Pouca coisa: um furto. O senhor \u00e9 acusado de ter subtra\u00eddo uma chinela turca. Aparentemente n\u00e3o vale nada ou vale pouco a tal chinela. Mas h\u00e1 chinela e chinela. Tudo depende das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>O homem disse isto com um riso sarc\u00e1stico, e cravando no bacharel uns olhos de inquisidor. Duarte n\u00e3o sabia sequer da exist\u00eancia do objeto roubado. Concluiu que havia equ\u00edvoco de nome, e n\u00e3o se zangou com a inj\u00faria irrogada \u00e0 sua pessoa, e de algum modo \u00e0 sua classe, atribuindo-se-lhe a ratonice. Isto mesmo disse ao empregado da pol\u00edcia, acrescentando que n\u00e3o era motivo, em todo caso, para incomod\u00e1-lo a semelhante hora.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de perdoar-me, disse o representante da autoridade. A chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de r\u00e9is; \u00e9 ornada de fin\u00edssimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. N\u00e3o \u00e9 turca s\u00f3 pela forma, mas tamb\u00e9m pela origem. A dona, que \u00e9 uma de nossas patr\u00edcias mais viajeiras, esteve, h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos no Egito, onde a comprou a um judeu. A hist\u00f3ria, que este aluno de Mois\u00e9s referiu acerca daquele produto da ind\u00fastria mu\u00e7ulmana, \u00e9 verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa. Mas n\u00e3o vem ao caso diz\u00ea-la. O que importa saber \u00e9 que ela foi roubada e que a pol\u00edcia tem den\u00fancia contra o senhor.<\/p>\n<p>Neste ponto do discurso, chegara-se o homem \u00e0 janela; Duarte suspeitou que fosse um doido ou um ladr\u00e3o. N\u00e3o teve tempo de examinar a suspeita, porque dentro de alguns segundos, viu entrar cinco homens armados, que lhe lan\u00e7aram as m\u00e3os e o levaram, escada abaixo, sem embargo dos gritos que soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Na rua havia um carro, onde o meteram \u00e0 for\u00e7a. J\u00e1 l\u00e1 estava o homem baixo e gordo, e mais um sujeito alto e magro, que o receberam e fizeram sentar no fundo do carro. Ouviu-se estalar o chicote do cocheiro e o carro partiu \u00e0 desfilada.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! ah! disse o homem gordo. Com que ent\u00e3o pensava que podia impunemente furtar chinelas turcas, namorar mo\u00e7as louras, casar talvez com elas&#8230; e rir ainda por cima do g\u00eanero humano.<\/p>\n<p>Ouvindo aquela alus\u00e3o \u00e0 dama dos seus pensamentos, Duarte teve um calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desfor\u00e7o de rival suplantado. Ou a alus\u00e3o seria casual e estranha \u00e0 aventura? Duarte perdeu-se num cipoal de conjeturas, enquanto o carro ia sempre andando a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Quaisquer que sejam os meus crimes, suponho que a pol\u00edcia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s n\u00e3o somos da pol\u00edcia, interrompeu friamente o homem magro.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Este cavalheiro e eu fazemos um par. Ele, o senhor e eu fazemos um terno. Ora, terno n\u00e3o \u00e9 melhor que par; n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o pode ser. Um casal \u00e9 o ideal. Provavelmente n\u00e3o me entendeu?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de entender logo mais.<\/p>\n<p>Duarte resignou-se \u00e0 espera, enfronhou-se no sil\u00eancio, derreou o corpo, e deixou correr o carro e a aventura. Obra de cinco minutos depois estacavam os cavalos.<\/p>\n<p>&#8211; Chegamos, disse o homem gordo.<\/p>\n<p>Dizendo isto, tirou um len\u00e7o da algibeira e ofereceu-o ao bacharel para que tapasse os olhos. Duarte recusou, mas o homem magro observou-lhe que era mais prudente obedecer que resistir. N\u00e3o resistiu o bacharel; atou o len\u00e7o e apeou-se. Ouviu, da\u00ed a pouco, ranger uma porta; duas pessoas, &#8211; provavelmente as mesmas que o acompanharam no carro, &#8211; seguraram-lhe as m\u00e3os e o conduziram por uma infinidade de corredores e escadas. Andando, ouvia o bacharel algumas vozes desconhecidas, palavras soltas, frases truncadas. Afinal pararam; disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. Duarte obedeceu; mas ao desvendar-se, n\u00e3o viu ningu\u00e9m mais.<\/p>\n<p>Era uma sala vasta, assaz iluminada, trastejada com eleg\u00e2ncia e opul\u00eancia. Era talvez sobreposse a variedade dos adornos; contudo, a pessoa que os escolhera devia ter gosto apurado.<\/p>\n<p>Os bronzes, char\u00f5es, tapetes, espelhos, &#8211; a c\u00f3pia infinita de objetos que enchiam a sala, era tudo da melhor f\u00e1brica. A vista daquilo restituiu a serenidade de \u00e2nimo ao bacharel; n\u00e3o era prov\u00e1vel que ali morassem ladr\u00f5es.<\/p>\n<p>Reclinou-se o mo\u00e7o indolentemente na otomana&#8230; Na otomana! Esta circunst\u00e2ncia trouxe \u00e0 mem\u00f3ria do rapaz o principio da aventura e o roubo da chinela. Alguns minutos de reflex\u00e3o bastaram para ver que a tal chinela era j\u00e1 agora mais que problem\u00e1tica. Cavando mais fundo no terreno das conjeturas, pareceu-lhe achar uma explica\u00e7\u00e3o nova e definitiva. A chinela vinha a ser pura met\u00e1fora; tratava-se do cora\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia, que ele roubara, delito de que o queria punir o j\u00e1 imaginado rival. A isto deviam ligar-se naturalmente as palavras misteriosas do homem magro: o par \u00e9 melhor que o terno; um casal \u00e9 o ideal.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ser isto, concluiu Duarte; mas quem ser\u00e1 esse pretendente derrotado?<\/p>\n<p>Neste momento abriu-se uma porta do fundo da sala e negrejou a batina de um padre alvo e calvo. Duarte levantou-se, como por efeito de uma mola. O padre atravessou lentamente a sala, ao passar por ele deitou-lhe a b\u00ean\u00e7\u00e3o, e foi sair por outra porta rasgada na parede fronteira. O bacharel ficou sem movimento, a olhar para a porta, a olhar sem ver, est\u00fapido de todos os sentidos. O inesperado daquela apari\u00e7\u00e3o baralhou totalmente as id\u00e9ias anteriores a respeito da aventura. N\u00e3o teve tempo, entretanto, de cogitar alguma nova explica\u00e7\u00e3o, porque a primeira porta foi de novo aberta e entrou por ela outra figura, desta vez o homem magro, que foi direito a ele e o convidou a segui-lo. Duarte n\u00e3o op\u00f4s resist\u00eancia. Sa\u00edram por uma terceira porta, e, atravessados alguns corredores mais ou menos alumiados, foram dar a outra sala, que s\u00f3 o era por duas velas postas em casti\u00e7ais de prata. Os casti\u00e7ais estavam sobre uma mesa larga. Na cabeceira desta havia um homem velho que representava ter cinq\u00fcenta e cinco anos; era uma figura atl\u00e9tica, farta de cabelos na cabe\u00e7a e na cara.<\/p>\n<p>&#8211; Conhece-me? perguntou o velho, logo que Duarte entrou na sala.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Nem \u00e9 preciso. O que vamos fazer exclui absolutamente a necessidade de qualquer apresenta\u00e7\u00e3o. Saber\u00e1 em primeiro lugar que o roubo da chinela foi um simples pretexto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! decerto! interrompeu Duarte.<\/p>\n<p>&#8211; Um simples pretexto, continuou o velho, para traz\u00ea-lo a esta nossa casa. A chinela n\u00e3o foi roubada; nunca saiu das m\u00e3os da dona. Jo\u00e3o Rufino, v\u00e1 buscar a chinela.<\/p>\n<p>O homem magro saiu, e o velho declarou ao bacharel que a famosa chinela n\u00e3o tinha nenhum diamante, nem fora comprada a nenhum judeu do Egito; era, por\u00e9m, turca, segundo se lhe disse, e um milagre de pequenez. Duarte ouviu as explica\u00e7\u00f5es, e, reunindo todas as for\u00e7as, perguntou resolutamente:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, senhor, n\u00e3o me dir\u00e1 de uma vez o que querem de mim e o que estou fazendo nesta casa?<\/p>\n<p>&#8211; Vai sab\u00ea-lo, respondeu tranq\u00fcilamente o velho.<\/p>\n<p>A porta abriu-se e apareceu o homem magro com a chinela na m\u00e3o. Duarte, convidado a aproximar-se da luz, teve ocasi\u00e3o de verificar que a pequenez era realmente miraculosa. A chinela era de marroquim fin\u00edssimo; no assento do p\u00e9, estufado e forrado de seda cor azul, rutilavam duas letras bordadas a ouro.<\/p>\n<p>&#8211; Chinela de crian\u00e7a, n\u00e3o lhe parece? disse o velho.<\/p>\n<p>&#8211; Suponho que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sup\u00f5e mal; \u00e9 chinela de mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1; nada tenho com isso.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o! Tem muito, porque vai casar com a dona.<\/p>\n<p>&#8211; Casar! exclamou Duarte.<\/p>\n<p>&#8211; Nada menos. Jo\u00e3o Rufino, v\u00e1 buscar a dona da chinela.<\/p>\n<p>Saiu o homem magro, e voltou logo depois. Assomando \u00e0 porta, levantou o reposteiro e deu entrada a uma mulher, que caminhou para o centro da sala. N\u00e3o era mulher, era uma s\u00edlfide, uma vis\u00e3o de poeta, uma criatura divina.<\/p>\n<p>Era loura; tinha os olhos azuis, como os de Cec\u00edlia, ext\u00e1ticos, uns olhos que buscavam o c\u00e9u ou pareciam viver dele. Os cabelos, deleixadamente penteados, faziam-lhe em volta da cabe\u00e7a um como resplendor de santa; santa somente, n\u00e3o m\u00e1rtir, porque o sorriso que lhe desabrochava os l\u00e1bios, era um sorriso de bem-aventuran\u00e7a, como raras vezes h\u00e1 de ter tido a terra.<\/p>\n<p>Um vestido branco, de fin\u00edssima cambraia, envolvia-lhe castamente o corpo, cujas formas ali\u00e1s desenhava, pouco para os olhos, mas muito para a imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um rapaz, como o bacharel, n\u00e3o perde o sentimento da eleg\u00e2ncia, ainda em lances daqueles. Duarte, ao ver a mo\u00e7a, comp\u00f4s o chambre, apalpou a gravata e fez uma cerimoniosa cortesia, a que ela correspondeu com tamanha gentileza e gra\u00e7a, que a aventura come\u00e7ou a parecer muito menos aterradora.<\/p>\n<p>&#8211; Meu caro doutor, esta \u00e9 a noiva.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a abaixou os olhos; Duarte respondeu que n\u00e3o tinha vontade de casar.<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas coisas vai o senhor fazer agora mesmo, continuou impassivelmente o velho: a primeira, \u00e9 casar; a segunda, escrever o seu testamento; a terceira engolir droga do Levante&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Veneno! interrompeu Duarte.<\/p>\n<p>&#8211; Vulgarmente \u00e9 esse o nome; eu dou-lhe outro: passaporte do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Duarte estava p\u00e1lido e frio. Quis falar, n\u00e3o p\u00f4de; um gemido, sequer, n\u00e3o lhe saiu do peito. Rolaria ao ch\u00e3o, se n\u00e3o houvesse ali perto uma cadeira em que se deixou cair.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor, continuou o velho, tem uma fortunazinha de cento e cinq\u00fcenta contos. Esta p\u00e9rola ser\u00e1 a sua herdeira universal.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rufino, v\u00e1 buscar o padre.<\/p>\n<p>O padre entrou, o mesmo padre calvo que aben\u00e7oara o bacharel pouco antes; entrou e foi direto ao mo\u00e7o, engrolando sonolentamente um trecho de Neemias ou qualquer outro profeta menor; travou-lhe da m\u00e3o e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Levante-se!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! N\u00e3o quero! N\u00e3o me casarei!<\/p>\n<p>&#8211; E isto? disse da mesa o velho, apontando-lhe uma pistola.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ent\u00e3o \u00e9 um assassinato?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9; a diferen\u00e7a est\u00e1 no g\u00eanero de morte: ou violenta com isto, ou suave com a droga. Escolha!<\/p>\n<p>Duarte suava e tremia. Quis levantar-se e n\u00e3o p\u00f4de. Os joelhos batiam um contra o outro. O padre chegou-se-lhe ao ouvido, e disse baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; Quer fugir?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Sim! exclamou, n\u00e3o com os l\u00e1bios, que podia ser ouvido, mas com os olhos em que p\u00f4s toda a vida que lhe restava.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea aquela janela? Est\u00e1 aberta; embaixo fica um jardim. Atire-se dali sem medo.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Padre! disse baixinho o bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sou padre, sou tenente do ex\u00e9rcito. N\u00e3o diga nada.<br \/>\nA janela estava apenas cerrada; via-se pela fresta uma nesga do c\u00e9u, j\u00e1 meio claro. Duarte n\u00e3o hesitou, coligiu todas as for\u00e7as, deu um pulo do lugar onde estava e atirou-se a Deus miseric\u00f3rdia por ali abaixo. N\u00e3o era grande altura, a queda foi pequena; ergueu-se o mo\u00e7o rapidamente, mas o homem gordo, que estava no jardim, tomou-lhe o passo.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso? perguntou ele rindo.<\/p>\n<p>Duarte n\u00e3o respondeu, fechou os punhos, bateu com eles violentamente nos peitos do homem e deitou a correr pelo jardim fora. O homem n\u00e3o caiu; sentiu apenas um grande abalo; e, uma vez passada a impress\u00e3o, seguiu no encal\u00e7o do fugitivo. Come\u00e7ou ent\u00e3o uma carreira vertiginosa. Duarte ia saltando cercas e muros, calcando canteiros, esbarrando \u00e1rvores, que uma ou outra vez se lhe erguiam na frente. Escorria-lhe o suor em bica, alteava-se-lhe o peito, as for\u00e7as iam a perder-se pouco a pouco; tinha uma das m\u00e3os feridas, a camisa salpicada do orvalho das folhas, duas vezes esteve a ponto de ser apanhado, o chambre pegara-se-lhe em uma cerca de espinhos. Enfim, cansado, ferido, ofegante, caiu nos degraus de pedra de uma casa, que havia no meio do \u00faltimo jardim que atravessara.<\/p>\n<p>Olhou para tr\u00e1s; n\u00e3o viu ningu\u00e9m, o perseguidor n\u00e3o o acompanhara at\u00e9 ali. Podia vir, entretanto; Duarte ergueu-se a custo, subiu os quatro degraus que lhe faltavam, e entrou na casa, cuja porta, aberta, dava para uma sala pequena e baixa.<\/p>\n<p>Um homem que ali estava, lendo um n\u00famero do Jornal do Com\u00e9rcio, pareceu n\u00e3o o ter visto entrar. Duarte caiu numa cadeira. Fitou os olhos no homem. Era o major Lopo Alves.<\/p>\n<p>O major, empunhando a folha, cujas dimens\u00f5es iam-se tornando extremamente ex\u00edguas, exclamou repentinamente:<\/p>\n<p>&#8211; Anjo do c\u00e9u, est\u00e1s vingado! Fim do \u00faltimo quadro.<\/p>\n<p>Duarte olhou para ele, para a mesa, para as paredes, esfregou os olhos, respirou \u00e0 larga.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! Que tal lhe pareceu?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! excelente! Respondeu o bacharel, levantando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Paix\u00f5es fortes, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Fort\u00edssimas. Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Deram duas agora mesmo.<\/p>\n<p>Duarte acompanhou o major at\u00e9 \u00e0 porta, respirou ainda uma vez, apalpou-se, foi at\u00e9 \u00e0 janela. Ignora-se o que pensou durante os primeiros minutos; mas, a cabo de um quarto de hora, eis o que ele dizia consigo: &#8211; Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e f\u00e9rtil, tu me salvaste de uma ruim pe\u00e7a com um sonho original, substitu\u00edste-me o t\u00e9dio por um pesadelo: foi um bom neg\u00f3cio. Um bom neg\u00f3cio e uma grave li\u00e7\u00e3o: provaste-me ainda uma vez que o melhor drama est\u00e1 no espectador e n\u00e3o no palco.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Vede o bacharel Duarte. 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