{"id":118648,"date":"2017-04-06T19:34:31","date_gmt":"2017-04-06T21:34:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118648"},"modified":"2017-04-06T19:34:31","modified_gmt":"2017-04-06T21:34:31","slug":"miss-dollar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miss-dollar","title":{"rendered":"Miss Dollar"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo Primeiro<\/h2>\n<p>Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber quem era Miss Dollar. Mas por outro lado, sem a apresenta\u00e7\u00e3o de Miss Dollar, seria o autor obrigado a longas digress\u00f5es, que encheriam o papel sem adiantar a a\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 hesita\u00e7\u00e3o poss\u00edvel: vou apresentar-lhes Miss Dollar.<\/p>\n<p>Se o leitor \u00e9 rapaz e dado ao g\u00eanio melanc\u00f3lico, imagina que Miss Dollar \u00e9 uma inglesa p\u00e1lida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo \u00e0 flor do rosto dous grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas tran\u00e7as louras. A mo\u00e7a em quest\u00e3o deve ser vaporosa e ideal como uma cria\u00e7\u00e3o de Shakespeare; deve ser o contraste do roastbeef brit\u00e2nico, com que se alimenta a liberdade do Reino Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se souber o portugu\u00eas deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Cam\u00f5es ou os Cantos de Gon\u00e7alves Dias. O ch\u00e1 e o leite devem ser a alimenta\u00e7\u00e3o de semelhante criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e biscoutos para acudir \u00e0s urg\u00eancias do est\u00f4mago. A sua fala deve ser um murm\u00fario de harpa e\u00f3lia; o seu amor um desmaio, a sua vida uma contempla\u00e7\u00e3o, a sua morte um suspiro.<\/p>\n<p>A figura \u00e9 po\u00e9tica, mas n\u00e3o \u00e9 a da hero\u00edna do romance.<\/p>\n<p>Suponhamos que o leitor n\u00e3o \u00e9 dado a estes devaneios e melancolias; nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente diferente da outra. Desta vez ser\u00e1 uma robusta americana, vertendo sangue pelas faces, formas arredondadas, olhos vivos e ardentes, mulher feita, refeita e perfeita. Amiga da boa mesa e do bom copo, esta Miss Dollar preferir\u00e1 um quarto de carneiro a uma p\u00e1gina de Longfellow, cousa natural\u00edssima quando o est\u00f4mago reclama, e nunca chegar\u00e1 a compreender a poesia do p\u00f4r-do-sol. Ser\u00e1 uma boa m\u00e3e de fam\u00edlia segundo a doutrina de alguns padres-mestres da civiliza\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, fecunda e ignorante.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 do mesmo sentir o leitor que tiver passado a segunda mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso. Para esse, a Miss Dollar verdadeiramente digna de ser contada em algumas p\u00e1ginas, seria uma boa inglesa de cinq\u00fcenta anos, dotada com algumas mil libras esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance, realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor aludido. Uma tal Miss Dollar seria incompleta se n\u00e3o tivesse \u00f3culos verdes e um grande cacho de cabelo grisalho em cada fonte. Luvas de renda branca e chap\u00e9u de linho em forma de cuia, seriam a \u00faltima dem\u00e3o deste magn\u00edfico tipo de ultramar.<\/p>\n<p>Mais esperto que os outros, acode um leitor dizendo que a hero\u00edna do romance n\u00e3o \u00e9 nem foi inglesa, mas brasileira dos quatro costados, e que o nome de Miss Dollar quer dizer simplesmente que a rapariga \u00e9 rica.<\/p>\n<p>A descoberta seria excelente, se fosse exata; infelizmente nem esta nem as outras s\u00e3o exatas. A Miss Dollar do romance n\u00e3o \u00e9 a menina rom\u00e2ntica, nem a mulher robusta, nem a velha literata, nem a brasileira rica. Falha desta vez a proverbial perspic\u00e1cia dos leitores; Miss Dollar \u00e9 uma cadelinha galga.<\/p>\n<p>Para algumas pessoas a qualidade da hero\u00edna far\u00e1 perder o interesse do romance. Erro manifesto. Miss Dollar, apesar de n\u00e3o ser mais que uma cadelinha galga, teve as honras de ver o seu nome nos pap\u00e9is p\u00fablicos, antes de entrar para este livro. O Jornal do Com\u00e9rcio e o Correio Mercantil publicaram nas colunas dos an\u00fancios as seguintes linhas reverberantes de promessa:<\/p>\n<p>&#8220;Desencaminhou-se uma cadelinha galga, na noite de ontem, 30. Acode ao nome de Miss Dollar. Quem a achou e<br \/>\nquiser levar \u00e0 rua de Mata-cavalos no&#8230;, receber\u00e1 duzentos mil-r\u00e9is de recompensa. Miss Dollar tem uma coleira ao pesco\u00e7o fechada por um cadeado em que se l\u00eaem as seguintes palavras: De tout mon coeur.&#8221;<\/p>\n<p>Todas as pessoas que sentiam necessidade urgente de duzentos mil-r\u00e9is, e tiveram a felicidade de ler aquele an\u00fancio, andaram nesse dia com extremo cuidado nas ruas do Rio de Janeiro, a ver se davam com a fugitiva Miss Dollar. Galgo que aparecesse ao longe era perseguido com tenacidade at\u00e9 verificar-se que n\u00e3o era o animal procurado. Mas toda esta ca\u00e7ada dos duzentos mil-r\u00e9is era completamente in\u00fatil, visto que, no dia em que apareceu o an\u00fancio, j\u00e1 Miss Dollar estava aboletada na casa de um sujeito morador nos Cajueiros que fazia cole\u00e7\u00e3o de c\u00e3es.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Quais as raz\u00f5es que induziram o Dr. Mendon\u00e7a a fazer cole\u00e7\u00e3o de c\u00e3es, \u00e9 cousa que ningu\u00e9m podia dizer; uns queriam que fosse simplesmente paix\u00e3o por esse s\u00edmbolo da fidelidade ou do servilismo; outros pensavam antes que, cheio de profundo desgosto pelos homens, Mendon\u00e7a achou que era de boa guerra adorar os c\u00e3es.<\/p>\n<p>Fossem quais fossem as raz\u00f5es, o certo \u00e9 que ningu\u00e9m possu\u00eda mais bonita e variada cole\u00e7\u00e3o do que ele. Tinha-os de todas as ra\u00e7as, tamanhos e cores. Cuidava deles como se fossem seus filhos; se algum lhe morria ficava melanc\u00f3lico. Quase se pode dizer que, no esp\u00edrito de Mendon\u00e7a, o c\u00e3o pesava tanto como o amor, segundo uma express\u00e3o c\u00e9lebre: tirai do mundo o c\u00e3o, e o mundo ser\u00e1 um ermo.<\/p>\n<p>O leitor superficial conclui daqui que o nosso Mendon\u00e7a era um homem exc\u00eantrico. N\u00e3o era. Mendon\u00e7a era um homem como os outros; gostava de c\u00e3es como outros gostam de flores. Os c\u00e3es eram as suas rosas e violetas; cultivava-os com o mesm\u00edssimo esmero. De flores gostava tamb\u00e9m; mas gostava delas nas plantas em que nasciam: cortar um jasmim ou prender um can\u00e1rio parecia-lhe id\u00eantico atentado.<\/p>\n<p>Era o Dr. Mendon\u00e7a homem de seus trinta e quatro anos, bem apessoado, maneiras francas e distintas. Tinha-se formado em medicina e tratou algum tempo de doentes; a cl\u00ednica estava j\u00e1 adiantada quando sobreveio uma epidemia na capital; o Dr. Mendon\u00e7a inventou um elixir contra a doen\u00e7a; e t\u00e3o excelente era o elixir, que o autor ganhou um bom par de contos de r\u00e9is. Agora exercia a medicina como amador. Tinha quanto bastava para si e a fam\u00edlia. A fam\u00edlia compunha-se dos animais citados acima.<\/p>\n<p>Na memor\u00e1vel noite em que se desencaminhou Miss Dollar, voltava Mendon\u00e7a para casa quando teve a ventura de encontrar a fugitiva no Rocio. A cadelinha entrou a acompanh\u00e1-lo, e ele, notando que era animal sem dono vis\u00edvel, levou-a consigo para os Cajueiros.<\/p>\n<p>Apenas entrou em casa examinou cuidadosamente a cadelinha, Miss Dollar era realmente um mimo; tinha as formas delgadas e graciosas da sua fidalga ra\u00e7a; os olhos castanhos e aveludados pareciam exprimir a mais completa felicidade deste mundo, t\u00e3o alegres e serenos eram. Mendon\u00e7a contemplou-a e examinou minuciosamente. Leu o d\u00edstico do cadeado que fechava a coleira, e convenceu-se finalmente de que a cadelinha era animal de grande estima\u00e7\u00e3o da parte de quem quer que fosse dono dela.<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o aparecer o dono, fica comigo, disse ele entregando Miss Dollar ao moleque encarregado dos c\u00e3es.<\/p>\n<p>Tratou o moleque de dar comida a Miss Dollar, enquanto Mendon\u00e7a planeava um bom futuro \u00e0 nova h\u00f3spede, cuja fam\u00edlia devia perpetuar-se na casa.<\/p>\n<p>O plano de Mendon\u00e7a durou o que duram os sonhos: o espa\u00e7o de uma noite. No dia seguinte, lendo os jornais, viu o an\u00fancio transcrito acima, prometendo duzentos mil-r\u00e9is a quem entregasse a cadelinha fugitiva. A sua paix\u00e3o pelos c\u00e3es deu-lhe a medida da dor que devia sofrer o dono ou dona de Miss Dollar, visto que chegava a oferecer duzentos mil-r\u00e9is de gratifica\u00e7\u00e3o a quem apresentasse a galga. Conseq\u00fcentemente resolveu restitu\u00ed-la, com bastante m\u00e1goa do cora\u00e7\u00e3o. Chegou a hesitar por alguns instantes; mas afinal venceram os sentimentos de probidade e compaix\u00e3o, que eram o apan\u00e1gio daquela alma. E, como se lhe custasse despedir-se do animal, ainda recente na casa, disp\u00f4s-se a lev\u00e1-lo ele mesmo, e para esse fim preparou-se. Almo\u00e7ou, e depois de averiguar bem se Miss Dollar havia feito a mesma opera\u00e7\u00e3o, sa\u00edram ambos de casa com dire\u00e7\u00e3o a Mata-cavalos.<\/p>\n<p>Naquele tempo ainda o Bar\u00e3o do Amazonas n\u00e3o tinha salvo a independ\u00eancia das rep\u00fablicas platinas mediante a vit\u00f3ria de Riachuelo, nome com que depois a C\u00e2mara Municipal crismou a Rua de Mata-cavalos. Vigorava, portanto, o nome tradicional da rua, que n\u00e3o queria dizer cousa nenhuma de jeito.<\/p>\n<p>A casa que tinha o n\u00famero indicado no an\u00fancio era de bonita apar\u00eancia e indicava certa abastan\u00e7a nos haveres de quem l\u00e1 morasse. Antes mesmo que Mendon\u00e7a batesse palmas no corredor, j\u00e1 Miss Dollar, reconhecendo os p\u00e1trios lares, come\u00e7ava a pular de contente e a soltar uns sons alegres e guturais que, se houvesse entre os c\u00e3es literatura, deviam ser um hino de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as.<\/p>\n<p>Veio um moleque saber quem estava; Mendon\u00e7a disse que vinha restituir a galga fugitiva. Expans\u00e3o do rosto do moleque, que correu a anunciar a boa nova. Miss Dollar, aproveitando uma fresta, precipitou-se pelas escadas acima. Dispunha-se Mendon\u00e7a a descer, pois estava cumprida a sua tarefa, quando o moleque voltou dizendo-lhe que subisse e entrasse para a sala.<\/p>\n<p>Na sala n\u00e3o havia ningu\u00e9m. Algumas pessoas, que t\u00eam salas elegantemente dispostas, costumam deixar tempo de serem estas admiradas pelas visitas, antes de as virem cumprimentar. \u00c9 poss\u00edvel que esse fosse o costume dos donos daquela casa, mas desta vez n\u00e3o se cuidou em semelhante cousa, porque mal o m\u00e9dico entrou pela porta do corredor surgiu de outra interior uma velha com Miss Dollar nos bra\u00e7os e a alegria no rosto.<\/p>\n<p>&#8211; Queira ter a bondade de sentar-se, disse ela designando uma cadeira \u00e0 Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; A minha demora \u00e9 pequena, disse o m\u00e9dico sentando-se. Vim trazer-lhe a cadelinha que est\u00e1 comigo desde ontem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o imagina que desassossego causou c\u00e1 em casa a aus\u00eancia de Miss Dollar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Imagino, minha senhora; eu tamb\u00e9m sou apreciador de c\u00e3es, e se me faltasse um sentiria profundamente. A sua Miss Dollar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o! interrompeu a velha; minha n\u00e3o; Miss Dollar n\u00e3o \u00e9 minha, \u00e9 de minha sobrinha.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ela a\u00ed vem.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a levantou-se justamente quando entrava na sala a sobrinha em quest\u00e3o. Era uma mo\u00e7a que representava vinte e oito anos, no pleno desenvolvimento da sua beleza, uma dessas mulheres que anunciam velhice tardia e imponente. O vestido de seda escura dava singular realce \u00e0 cor imensamente branca da sua pele. Era ro\u00e7agante o vestido, o que lhe aumentava a majestade do porte e da estatura. O corpinho do vestido cobria-lhe todo o colo; mas adivinhava-se por baixo da seda um belo tronco de m\u00e1rmore modelado por escultor divino. Os cabelos castanhos e naturalmente ondeados estavam penteados com essa simplicidade caseira, que \u00e9 a melhor de todas as modas conhecidas; ornavam-lhe graciosamente a fronte como uma coroa doada pela natureza. A extrema brancura da pele n\u00e3o tinha o menor tom cor-de-rosa que lhe fizesse harmonia e contraste. A boca era pequena, e tinha uma certa express\u00e3o imperiosa. Mas a grande distin\u00e7\u00e3o daquele rosto, aquilo que mais prendia os<br \/>\nolhos, eram os olhos; imaginem duas esmeraldas nadando em leite.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a nunca vira olhos verdes em toda a sua vida; disseram-lhe que existiam olhos verdes, ele sabia de cor uns versos c\u00e9lebres de Gon\u00e7alves Dias; mas at\u00e9 ent\u00e3o os olhos verdes eram para ele a mesma cousa que a f\u00eanix dos antigos. Um dia, conversando com uns amigos a prop\u00f3sito disto, afirmava que se alguma vez encontrasse um par de olhos verdes fugiria deles com terror.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? perguntou-lhe um dos circunstantes admirado.<\/p>\n<p>&#8211; A cor verde \u00e9 a cor do mar, respondeu Mendon\u00e7a; evito as tempestades de um; evitarei as tempestades dos outros.<\/p>\n<p>Eu deixo ao crit\u00e9rio do leitor esta singularidade de Mendon\u00e7a, que de mais a mais \u00e9 preciosa, no sentido de Moli\u00e8re.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>Mendon\u00e7a cumprimentou respeitosamente a rec\u00e9m-chegada, e esta, com um gesto, convidou-o a sentar-se outra vez.<\/p>\n<p>&#8211; Agrade\u00e7o-lhe infinitamente o ter-me restitu\u00eddo este pobre animal, que me merece grande estima, disse Margarida sentando-se.<\/p>\n<p>&#8211; E eu dou gra\u00e7as a Deus por t\u00ea-lo achado; podia ter ca\u00eddo em m\u00e3os que o n\u00e3o restitu\u00edssem.<\/p>\n<p>Margarida fez um gesto a Miss Dollar, e a cadelinha, saltando do rega\u00e7o da velha, foi ter com Margarida; levantou as patas dianteiras e p\u00f4s-lhas sobre os joelhos; Margarida e Miss Dollar trocaram um longo olhar de afeto. Durante esse tempo uma das m\u00e3os da mo\u00e7a brincava com uma das orelhas da galga, e dava assim lugar a que Mendon\u00e7a admirasse os seus bel\u00edssimos dedos armados com unhas agud\u00edssimas.<\/p>\n<p>Mas, conquanto Mendon\u00e7a tivesse sumo prazer em estar ali, reparou que era esquisita e humilhante a sua demora. Pareceria estar esperando a gratifica\u00e7\u00e3o. Para escapar a essa interpreta\u00e7\u00e3o desairosa, sacrificou o prazer da conversa e a contempla\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a; levantou-se dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; A minha miss\u00e3o est\u00e1 cumprida&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; interrompeu a velha.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a compreendeu a amea\u00e7a da interrup\u00e7\u00e3o da velha.<\/p>\n<p>&#8211; A alegria, disse ele, que restitu\u00ed a esta casa \u00e9 a maior recompensa que eu podia ambicionar. Agora pe\u00e7o-lhes licen\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>As duas senhoras compreenderam a inten\u00e7\u00e3o de Mendon\u00e7a; a mo\u00e7a pagou-lhe a cortesia com um sorriso; e a velha, reunindo no pulso quantas for\u00e7as ainda lhe restavam pelo corpo todo, apertou com amizade a m\u00e3o do rapaz.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a saiu impressionado pela interessante Margarida. Notava-lhe principalmente, al\u00e9m da beleza, que era de primeira \u00e1gua, certa severidade triste no olhar e nos modos. Se aquilo era car\u00e1ter da mo\u00e7a, dava-se bem com a \u00edndole de m\u00e9dico; se era resultado de algum epis\u00f3dio da vida, era uma p\u00e1gina do romance que devia ser decifrada por olhos h\u00e1beis. A falar verdade, o \u00fanico defeito que Mendon\u00e7a lhe achou foi a cor dos olhos, n\u00e3o porque a cor fosse feia, mas porque ele tinha preven\u00e7\u00e3o contra os olhos verdes. A preven\u00e7\u00e3o, cumpre diz\u00ea-lo, era mais liter\u00e1ria que outra cousa; Mendon\u00e7a apegava-se \u00e0 frase que uma vez proferira, e foi acima citada, e a frase \u00e9 que lhe produziu a preven\u00e7\u00e3o. N\u00e3o mo acusem de chofre; Mendon\u00e7a era homem inteligente, instru\u00eddo e dotado de bom senso; tinha, al\u00e9m disso, grande tend\u00eancia para as afei\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas; mas apesar disso l\u00e1 tinha calcanhar o nosso Aquiles. Era homem como os outros, outros Aquiles andam por a\u00ed que s\u00e3o da cabe\u00e7a aos p\u00e9s um imenso calcanhar. O ponto vulner\u00e1vel de Mendon\u00e7a era esse; o amor de uma frase era capaz de violentar-lhe afetos; sacrificava uma situa\u00e7\u00e3o a um per\u00edodo arredondado.<\/p>\n<p>Referindo a um amigo o epis\u00f3dio da galga e a entrevista com Margarida, Mendon\u00e7a disse que poderia vir a gostar dela se n\u00e3o tivesse olhos verdes. O amigo riu com certo ar de sarcasmo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, doutor, disse-lhe ele, n\u00e3o compreendo essa preven\u00e7\u00e3o; eu ou\u00e7o at\u00e9 dizer que os olhos verdes s\u00e3o de ordin\u00e1rio n\u00fancios de boa alma. Al\u00e9m de que, a cor dos olhos n\u00e3o vale nada, a quest\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o deles. Podem ser azuis como o c\u00e9u e p\u00e9rfidos como o mar.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o deste amigo an\u00f4nimo tinha a vantagem de ser t\u00e3o po\u00e9tica como a de Mendon\u00e7a. Por isso abalou profundamente o \u00e2nimo do m\u00e9dico. N\u00e3o ficou este como o asno de Buridan entre a selha d\u2019\u00e1gua e a quarta de cevada; o asno hesitaria, Mendon\u00e7a n\u00e3o hesitou. Acudiu-lhe de pronto a li\u00e7\u00e3o do casu\u00edsta S\u00e1nchez, e das duas opini\u00f5es tomou a que lhe pareceu prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>Algum leitor grave achar\u00e1 pueril esta circunst\u00e2ncia dos olhos verdes e esta controv\u00e9rsia sobre a qualidade prov\u00e1vel deles. Provar\u00e1 com isso que tem pouca pr\u00e1tica do mundo. Os almanaques pitorescos citam at\u00e9 \u00e0 saciedade mil excentricidades e sen\u00f5es dos grandes var\u00f5es que a humanidade admira, j\u00e1 por instru\u00eddos nas letras, j\u00e1 por valentes nas armas; e nem por isso deixamos de admirar esses mesmos var\u00f5es. N\u00e3o queira o leitor abrir uma exce\u00e7\u00e3o s\u00f3 para encaixar nela o nosso doutor. Aceitemo-lo com os seus rid\u00edculos; quem os n\u00e3o tem? O rid\u00edculo \u00e9 uma esp\u00e9cie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navega\u00e7\u00e3o sem outra esp\u00e9cie de carregamento.<\/p>\n<p>Para compensar essas fraquezas, j\u00e1 disse que Mendon\u00e7a tinha qualidades n\u00e3o vulgares. Adotando a opini\u00e3o que lhe pareceu mais prov\u00e1vel, que foi a do amigo, Mendon\u00e7a disse consigo que nas m\u00e3os de Margarida estava talvez a chave do seu futuro. Ideou nesse sentido um plano de felicidade; uma casa num ermo, olhando para o mar ao lado do ocidente, a fim de poder assistir ao espet\u00e1culo do p\u00f4r-do-sol. Margarida e ele, unidos pelo amor e pela Igreja, beberiam ali, gota a gota, a ta\u00e7a inteira da celeste felicidade. O sonho de Mendon\u00e7a continha outras particularidades que seria ocioso mencionar aqui. Mendon\u00e7a pensou nisto alguns dias; chegou a passar algumas vezes por Mata-cavalos; mas t\u00e3o infeliz que nunca viu Margarida nem a tia; afinal desistiu da empresa e voltou aos c\u00e3es.<\/p>\n<p>A cole\u00e7\u00e3o de c\u00e3es era uma verdadeira galeria de homens ilustres. O mais estimado deles chamava-se Di\u00f3genes; havia um galgo que acudia ao nome de C\u00e9sar; um c\u00e3o d\u2019\u00e1gua que se chamava Nelson; Corn\u00e9lia chamava-se uma cadelinha rateira, e Cal\u00edgula um enorme c\u00e3o de fila, vera-ef\u00edgie do grande monstro que a sociedade romana produziu. Quando se achava entre toda essa gente, ilustre por diferentes t\u00edtulos, dizia Mendon\u00e7a que entrava na hist\u00f3ria; era assim que se esquecia do resto do mundo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Achava-se Mendon\u00e7a uma vez \u00e0 porta do Carceller, onde acabava de tomar sorvete em companhia de um indiv\u00edduo, amigo dele, quando viu passar um carro, e dentro do carro duas senhoras que lhe pareceram as senhoras de Mata-cavalos. Mendon\u00e7a fez um movimento de espanto que n\u00e3o escapou ao amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Que foi? perguntou-lhe este.<\/p>\n<p>&#8211; Nada; pareceu-me conhecer aquelas senhoras. Viste-as, Andrade?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>O carro entrara na Rua do Ouvidor; os dous subiram pela mesma rua. Logo acima da Rua da Quitanda, parara o carro \u00e0 porta de uma loja, e as senhoras apearam-se e entraram. Mendon\u00e7a n\u00e3o as viu sair; mas viu o carro e suspeitou que fosse o mesmo. Apressou o passo sem dizer nada a Andrade, que fez o mesmo, movido por essa natural curiosidade que sente um homem quando percebe algum segredo oculto.<\/p>\n<p>Poucos instantes depois estavam \u00e0 porta da loja; Mendon\u00e7a verificou que eram as duas senhoras de Mata-cavalos. Entrou afouto, com ar de quem ia comprar alguma cousa, e aproximou-se das senhoras. A primeira que o conheceu foi a tia. Mendon\u00e7a cumprimentou-as respeitosamente. Elas receberam o cumprimento com afabilidade. Ao p\u00e9 de Margarida estava Miss Dollar, que, por esse admir\u00e1vel faro que a natureza concedeu aos c\u00e3es e aos cortes\u00e3os da fortuna, deu dous saltos de alegria apenas viu Mendon\u00e7a, chegando a tocar-lhe o est\u00f4mago com as patas dianteiras.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que Miss Dollar ficou com boas recorda\u00e7\u00f5es suas, disse D. Ant\u00f4nia (assim se chamava a tia de Margarida).<\/p>\n<p>&#8211; Creio que sim, respondeu Mendon\u00e7a brincando com a galga e olhando para Margarida.<\/p>\n<p>Justamente nesse momento entrou Andrade.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 agora as reconheci, disse ele dirigindo-se \u00e0s senhoras.<\/p>\n<p>Andrade apertou a m\u00e3o das duas senhoras, ou antes apertou a m\u00e3o de Ant\u00f4nia e os dedos de Margarida.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a n\u00e3o contava com este incidente, e alegrou-se com ele por ter \u00e0 m\u00e3o o meio de tornar \u00edntimas as rela\u00e7\u00f5es superficiais que tinha com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Seria bom, disse ele a Andrade, que me apresentasses a estas senhoras.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o as conheces? perguntou Andrade estupefato.<\/p>\n<p>&#8211; Conhece-nos sem nos conhecer, respondeu sorrindo a velha tia; por ora quem o apresentou foi Miss Dollar.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia referiu a Andrade a perda e o achado da cadelinha.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, nesse caso, respondeu Andrade, apresento-o j\u00e1.<\/p>\n<p>Feita a apresenta\u00e7\u00e3o oficial, o caixeiro trouxe a Margarida os objetos que ela havia comprado, e as duas senhoras despediram-se dos rapazes pedindo-lhes que as fossem ver.<\/p>\n<p>N\u00e3o citei nenhuma palavra de Margarida no di\u00e1logo acima transcrito, porque, a falar verdade, a mo\u00e7a s\u00f3 proferiu duas palavras a cada um dos rapazes.<\/p>\n<p>&#8211; Passe bem, disse-lhes ela dando as pontas dos dedos e saindo para entrar no carro.<\/p>\n<p>Ficando s\u00f3s, sa\u00edram tamb\u00e9m os dous rapazes e seguiram pela Rua do Ouvidor acima, ambos calados. Mendon\u00e7a pensava em Margarida; Andrade pensava nos meios de entrar na confid\u00eancia de Mendon\u00e7a. A vaidade tem mil formas de manifestar-se como o fabuloso Proteu. A vaidade de Andrade era ser confidente dos outros; parecia-lhe assim obter da confian\u00e7a aquilo que s\u00f3 alcan\u00e7ava da indiscri\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lhe foi dif\u00edcil apanhar o segredo de Mendon\u00e7a; antes de chegar \u00e0 esquina da Rua dos Ourives j\u00e1 Andrade sabia de tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Compreendes agora, disse Mendon\u00e7a, que eu preciso ir \u00e0 casa dela; tenho necessidade de v\u00ea-la; quero ver se consigo&#8230;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a estacou.<\/p>\n<p>&#8211; Acaba! disse Andrade; se consegues ser amado. Por que n\u00e3o? Mas desde j\u00e1 te digo que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Margarida tem rejeitado cinco casamentos.<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente n\u00e3o amava os pretendentes, disse Mendon\u00e7a com o ar de um ge\u00f4metra que acha uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Amava apaixonadamente o primeiro, respondeu Andrade, e n\u00e3o era indiferente ao \u00faltimo.<\/p>\n<p>&#8211; Houve naturalmente intriga.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o. Admiras-te? \u00c9 o que me acontece. \u00c9 uma rapariga esquisita. Se te achas com for\u00e7a de ser o Colombo daquele mundo, lan\u00e7a-te ao mar com a armada; mas toma cuidado com a revolta das paix\u00f5es, que s\u00e3o os ferozes marujos destas navega\u00e7\u00f5es de descoberta.<\/p>\n<p>Entusiasmado com esta alus\u00e3o, hist\u00f3rica debaixo da forma de alegoria, Andrade olhou para Mendon\u00e7a, que, desta vez entregue ao pensamento da mo\u00e7a, n\u00e3o atendeu \u00e0 frase do amigo. Andrade contentou-se com o seu pr\u00f3prio sufr\u00e1gio, e sorriu com o mesmo ar de satisfa\u00e7\u00e3o que deve ter um poeta quando escreve o \u00faltimo verso de um poema.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Dias depois, Andrade e Mendon\u00e7a foram \u00e0 casa de Margarida, e l\u00e1 passaram meia hora em conversa cerimoniosa. As visitas repetiram-se; eram por\u00e9m mais freq\u00fcentes da parte de Mendon\u00e7a que de Andrade. D. Ant\u00f4nia mostrou-se mais familiar que Margarida; s\u00f3 depois de algum tempo Margarida desceu do Olimpo do sil\u00eancio em que habitualmente se encerrara.<\/p>\n<p>Era dif\u00edcil deixar de o fazer. Mendon\u00e7a, conquanto n\u00e3o fosse dado \u00e0 conviv\u00eancia das salas, era um cavalheiro pr\u00f3prio para entreter duas senhoras que pareciam mortalmente aborrecidas. O m\u00e9dico sabia piano e tocava agradavelmente; a sua conversa era animada; sabia esses mil nadas que entret\u00eam geralmente as senhoras quando elas n\u00e3o gostam ou n\u00e3o podem entrar no terreno elevado da arte, da hist\u00f3ria e da filosofia. N\u00e3o foi dif\u00edcil ao rapaz estabelecer intimidade com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Posteriormente \u00e0s primeiras visitas, soube Mendon\u00e7a, por via de Andrade, que Margarida era vi\u00fava. Mendon\u00e7a n\u00e3o reprimiu o gesto de espanto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas tu falaste de um modo que parecias tratar de uma solteira, disse ele ao amigo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade que n\u00e3o me expliquei bem; os casamentos recusados foram todos propostos depois da viuvez.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 que tempo est\u00e1 vi\u00fava?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo se explica, disse Mendon\u00e7a depois de algum sil\u00eancio; quer ficar fiel \u00e0 sepultura; \u00e9 uma Artemisa do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Andrade era c\u00e9ptico a respeito de Artemisas; sorriu \u00e0 observa\u00e7\u00e3o do amigo, e, como este insistisse, replicou:<\/p>\n<p>&#8211; Mas se eu j\u00e1 te disse que ela amava apaixonadamente o primeiro pretendente e n\u00e3o era indiferente ao \u00faltimo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, n\u00e3o compreendo.<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a desde esse momento tratou de cortejar assiduamente a vi\u00fava; Margarida recebeu os primeiros olhares de Mendon\u00e7a com um ar de t\u00e3o supremo desd\u00e9m, que o rapaz esteve quase a abandonar a empresa; mas, a vi\u00fava, ao mesmo tempo que parecia recusar amor, n\u00e3o lhe recusava estima, e tratava-o com a maior meiguice deste mundo sempre que ele a olhava como toda a gente.<\/p>\n<p>Amor repelido \u00e9 amor multiplicado. Cada repulsa de Margarida aumentava a paix\u00e3o de Mendon\u00e7a. Nem j\u00e1 lhe mereciam aten\u00e7\u00e3o o feroz Cal\u00edgula, nem o elegante J\u00falio C\u00e9sar. Os dous escravos de Mendon\u00e7a come\u00e7aram a notar a profunda diferen\u00e7a que havia entre os h\u00e1bitos de hoje e os de outro tempo. Supuseram logo que alguma cousa o preocupava. Convenceram-se disso quando Mendon\u00e7a, entrando uma vez em casa, deu com a ponta do botim no focinho de Corn\u00e9lia, na ocasi\u00e3o em que esta interessante cadelinha, m\u00e3e de dous Gracos rateiros, festejava a chegada do doutor.<\/p>\n<p>Andrade n\u00e3o foi insens\u00edvel aos sofrimentos do amigo e procurou consol\u00e1-lo. Toda a consola\u00e7\u00e3o nestes casos \u00e9 t\u00e3o desejada quanto in\u00fatil; Mendon\u00e7a ouvia as palavras de Andrade e confiava-lhe todas as suas penas. Andrade lembrou a Mendon\u00e7a um excelente meio de fazer cessar a paix\u00e3o: era ausentar-se da casa. A isto respondeu Mendon\u00e7a citando La Rochefoucauld:<\/p>\n<p>&#8220;A aus\u00eancia diminui as paix\u00f5es med\u00edocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e ati\u00e7a as fogueiras.&#8221;<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o teve o m\u00e9rito de tapar a boca de Andrade, que acreditava tanto na const\u00e2ncia como nas Artemisas, mas que n\u00e3o queria contrariar a autoridade do moralista, nem a resolu\u00e7\u00e3o de Mendon\u00e7a.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>Correram assim tr\u00eas meses. A corte de Mendon\u00e7a n\u00e3o adiantava um passo; mas a vi\u00fava nunca deixou de ser am\u00e1vel com ele. Era isto o que principalmente retinha o m\u00e9dico aos p\u00e9s da insens\u00edvel vi\u00fava; n\u00e3o o abandonava a esperan\u00e7a de venc\u00ea-la.<\/p>\n<p>Algum leitor consp\u00edcuo desejaria antes que Mendon\u00e7a n\u00e3o fosse t\u00e3o ass\u00edduo na casa de uma senhora exposta \u00e0s cal\u00fanias do mundo. Pensou nisso o m\u00e9dico e consolou a consci\u00eancia com a presen\u00e7a de um indiv\u00edduo, at\u00e9 aqui n\u00e3o nomeado por motivo de sua nulidade, e que era nada menos que o filho da Sra. D. Ant\u00f4nia e a menina dos seus olhos. Chamava-se Jorge esse rapaz, que gastava duzentos mil-r\u00e9is por m\u00eas, sem os ganhar, gra\u00e7as \u00e0 longanimidade da m\u00e3e. Freq\u00fcentava as casas dos cabeleireiros, onde gastava mais tempo que uma romana da decad\u00eancia \u00e0s m\u00e3os das suas servas latinas. N\u00e3o perdia representa\u00e7\u00e3o de import\u00e2ncia no Alcazar; montava bons cavalos, e enriquecia com despesas extraordin\u00e1rias as algibeiras de algumas damas c\u00e9lebres e de v\u00e1rios parasitas obscuros. Cal\u00e7ava luvas letra da E e botas no 36, duas qualidades que lan\u00e7ava \u00e0 cara de todos os seus amigos que n\u00e3o desciam do no 40 e da letra H. A presen\u00e7a deste gentil pimpolho, achava Mendon\u00e7a que salvava a situa\u00e7\u00e3o. Mendon\u00e7a queria dar esta satisfa\u00e7\u00e3o ao mundo, isto \u00e9, \u00e0 opini\u00e3o dos ociosos da cidade. Mas bastaria<br \/>\nisso para tapar a boca aos ociosos?<\/p>\n<p>Margarida parecia indiferente \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es do mundo como \u00e0 assiduidade do rapaz. Seria ela t\u00e3o indiferente a tudo mais neste mundo? N\u00e3o; amava a m\u00e3e, tinha um capricho por Miss Dollar, gostava da boa m\u00fasica, e lia romances. Vestia-se bem, sem ser rigorista em mat\u00e9ria de moda; n\u00e3o valsava; quando muito dan\u00e7ava alguma quadrilha nos saraus a que era convidada. N\u00e3o falava muito, mas exprimia-se bem. Tinha o gesto gracioso e animado, mas sem pretens\u00e3o nem faceirice.<\/p>\n<p>Quando Mendon\u00e7a aparecia l\u00e1, Margarida recebia-o com vis\u00edvel contentamento. O m\u00e9dico iludia-se sempre, apesar de j\u00e1 acostumado a essas manifesta\u00e7\u00f5es. Com efeito, Margarida gostava imenso da presen\u00e7a do rapaz, mas n\u00e3o parecia dar-lhe uma import\u00e2ncia que lisonjeasse o cora\u00e7\u00e3o dele. Gostava de o ver como se gosta de ver um dia bonito, sem morrer de amores pelo sol.<\/p>\n<p>N\u00e3o era poss\u00edvel sofrer por muito tempo a posi\u00e7\u00e3o em que se achava o m\u00e9dico. Uma noite, por um esfor\u00e7o de que antes disso se n\u00e3o julgaria capaz, Mendon\u00e7a dirigiu a Margarida esta pergunta indiscreta:<\/p>\n<p>&#8211; Foi feliz com seu marido?<\/p>\n<p>Margarida franziu a testa com espanto e cravou os olhos nos do m\u00e9dico, que pareciam continuar mudamente a pergunta.<\/p>\n<p>&#8211; Fui, disse ela no fim de alguns instantes.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a n\u00e3o disse palavra; n\u00e3o contava com aquela resposta. Confiava demais na intimidade que reinava entre ambos; e queria descobrir por algum modo a causa da insensibilidade da vi\u00fava. Falhou o c\u00e1lculo; Margarida tornou-se s\u00e9ria durante algum tempo; a chegada de D. Ant\u00f4nia salvou uma situa\u00e7\u00e3o esquerda para Mendon\u00e7a. Pouco depois Margarida voltava \u00e0s boas, e a conversa tornou-se animada e \u00edntima como sempre. A chegada de Jorge levou a anima\u00e7\u00e3o da conversa a propor\u00e7\u00f5es maiores; D. Ant\u00f4nia, com olhos e ouvidos de m\u00e3e, achava que o filho era o rapaz mais engra\u00e7ado deste mundo; mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o havia em toda a cristandade esp\u00edrito mais fr\u00edvolo. A m\u00e3e ria-se de tudo quanto o filho dizia; o filho enchia, s\u00f3 ele, a conversa, referindo anedotas e reproduzindo ditos e sestros do Alcazar. Mendon\u00e7a via todas essas fei\u00e7\u00f5es do rapaz, e aturava-o com resigna\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>A entrada de Jorge, animando a conversa, acelerou as horas; \u00e0s dez retirou-se o m\u00e9dico, acompanhado pelo filho de D. Ant\u00f4nia, que ia cear. Mendon\u00e7a recusou o convite que Jorge lhe fez, e despediu-se dele na Rua do Conde, esquina da do Lavradio.<\/p>\n<p>Nessa mesma noite resolveu Mendon\u00e7a dar um golpe decisivo; resolveu escrever uma carta a Margarida. Era temer\u00e1rio para quem conhecesse o car\u00e1ter da vi\u00fava; mas, com os precedentes j\u00e1 mencionados, era loucura. Entretanto n\u00e3o hesitou o m\u00e9dico em empregar a carta, confiando que no papel diria as cousas de muito melhor maneira que de boca. A carta foi escrita com febril impaci\u00eancia; no dia seguinte, logo depois de almo\u00e7ar, Mendon\u00e7a meteu a carta dentro de um volume de George Sand, mandou-o pelo moleque a Margarida.<\/p>\n<p>A vi\u00fava rompeu a capa de papel que embrulhava o volume, e p\u00f4s o livro sobre a mesa da sala; meia hora depois voltou e pegou no livro para ler. Apenas o abriu, caiu-lhe a carta aos p\u00e9s. Abriu-a e leu o seguinte:<\/p>\n<p>&#8220;Qualquer que seja a causa da sua esquivan\u00e7a, respeito-a, n\u00e3o me insurjo contra ela. Mas, se n\u00e3o me \u00e9 dado insurgir-me, n\u00e3o me ser\u00e1 l\u00edcito queixar-me? H\u00e1 de ter compreendido o meu amor, do mesmo modo que tenho compreendido a sua indiferen\u00e7a; mas, por maior que seja essa indiferen\u00e7a est\u00e1 longe de ombrear com o amor profundo e imperioso que se apossou de meu cora\u00e7\u00e3o quando eu mais longe me cuidava destas paix\u00f5es dos primeiros anos. N\u00e3o lhe contarei as ins\u00f4nias e as l\u00e1grimas, as esperan\u00e7as e os desencantos, p\u00e1ginas tristes deste livro que o destino p\u00f5e nas m\u00e3os do homem para que duas almas o leiam. \u00c9-lhe indiferente isso.<\/p>\n<p>N\u00e3o ouso interrog\u00e1-la sobre a esquivan\u00e7a que tem mostrado em rela\u00e7\u00e3o a mim; mas por que motivo se estende essa esquivan\u00e7a a tantos mais? Na idade das paix\u00f5es f\u00e9rvidas, ornada pelo c\u00e9u com uma beleza rara, por que motivo quer enconder-se ao mundo e defraudar a natureza e o cora\u00e7\u00e3o de seus incontest\u00e1veis direitos? Perdoe-me a aud\u00e1cia da pergunta; acho-me diante de um enigma que o meu cora\u00e7\u00e3o desejaria decifrar. Penso \u00e0s vezes que alguma grande dor a atormenta, e quisera ser o m\u00e9dico do seu cora\u00e7\u00e3o; ambicionava, confesso, restaurar-lhe alguma ilus\u00e3o perdida. Parece que n\u00e3o h\u00e1 ofensa nesta ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se, por\u00e9m, essa esquivan\u00e7a denota simplesmente um sentimento de orgulho leg\u00edtimo, perdoe-me se ousei escrever-lhe quando seus olhos expressamente mo proibiram. Rasgue a carta que n\u00e3o pode valer-lhe uma recorda\u00e7\u00e3o, nem representar uma arma.&#8221;<\/p>\n<p>A carta era toda de reflex\u00e3o; a frase fria e medida n\u00e3o exprimia o fogo do sentimento. N\u00e3o ter\u00e1, por\u00e9m, escapado ao leitor a sinceridade e a simplicidade com que Mendon\u00e7a pedia uma explica\u00e7\u00e3o que Margarida provavelmente n\u00e3o podia dar.<\/p>\n<p>Quando Mendon\u00e7a disse a Andrade haver escrito a Margarida, o amigo do m\u00e9dico entrou a rir despregadamente.<\/p>\n<p>&#8211; Fiz mal? perguntou Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Estragaste tudo. Os outros pretendentes come\u00e7aram tamb\u00e9m por carta; foi justamente a certid\u00e3o de \u00f3bito do amor.<\/p>\n<p>&#8211; Paci\u00eancia, se acontecer o mesmo, disse Mendon\u00e7a levantando os ombros com aparente indiferen\u00e7a; mas eu desejava que n\u00e3o estivesses sempre a falar nos pretendentes; eu n\u00e3o sou pretendente no sentido desses.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o querias casar com ela?<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida, se fosse poss\u00edvel, respondeu Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Pois era justamente o que os outros queriam; casar-te-ias e entrarias na mansa posse dos bens que lhe couberam em partilha e que sobem a muito mais de cem contos. Meu rico, se falo em pretendentes n\u00e3o \u00e9 por te ofender, porque um dos quatro pretendentes despedidos fui eu.<\/p>\n<p>&#8211; Tu?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade; mas descansa, n\u00e3o fui o primeiro, nem ao menos o \u00faltimo.<\/p>\n<p>&#8211; Escreveste?<\/p>\n<p>&#8211; Como os outros; como eles, n\u00e3o obtive resposta; isto \u00e9, obtive uma: devolveu-me a carta. Portanto, j\u00e1 que lhe escreveste, espera o resto; ver\u00e1s se o que te digo \u00e9 ou n\u00e3o exato. Est\u00e1s perdido, Mendon\u00e7a; fizeste muito mal.<\/p>\n<p>Andrade tinha esta fei\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica de n\u00e3o omitir nenhuma das cores sombrias de uma situa\u00e7\u00e3o, com o pretexto de que aos amigos se deve a verdade. Desenhado o quadro, despediu-se de Mendon\u00e7a, e foi adiante.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a foi para casa, onde passou a noite em claro.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VII<\/h2>\n<p>Enganara-se Andrade; a vi\u00fava respondeu \u00e0 carta do m\u00e9dico. A carta dela limitou-se a isto:<\/p>\n<p>&#8220;Perd\u00f4o-lhe tudo; n\u00e3o lhe perdoarei se me escrever outra vez. A minha esquivan\u00e7a n\u00e3o tem nenhuma causa; \u00e9 quest\u00e3o de temperamento&#8221;.<\/p>\n<p>O sentido da carta era ainda mais lac\u00f4nico do que a express\u00e3o. Mendon\u00e7a leu-a muitas vezes, a ver se a completava; mas foi trabalho perdido. Uma cousa concluiu ele logo; era que havia cousa oculta que arredava Margarida do casamento; depois concluiu outra, era que Margarida ainda lhe perdoaria segunda carta se lha escrevesse.<\/p>\n<p>A primeira vez que Mendon\u00e7a foi a Mata-cavalos achou-se embara\u00e7ado sobre a maneira por que falaria a Margarida; a vi\u00fava tirou-o do embara\u00e7o, tratando-o como se nada houvesse entre ambos. Mendon\u00e7a n\u00e3o teve ocasi\u00e3o de aludir \u00e0s cartas por causa da presen\u00e7a de D. Ant\u00f4nia, mas estimou isso mesmo, porque n\u00e3o sabia o que lhe diria caso viessem a ficar s\u00f3s os dous.<\/p>\n<p>Dias depois, Mendon\u00e7a escreveu segunda carta \u00e0 vi\u00fava e mandou-lha pelo mesmo canal da outra. A carta foi-lhe devolvida sem resposta. Mendon\u00e7a arrependeu-se de ter abusado da ordem da mo\u00e7a, e resolveu, de uma vez por todas, n\u00e3o voltar \u00e0 casa de Mata-cavalos. Nem tinha \u00e2nimo de l\u00e1 aparecer, nem julgava conveniente estar junto de uma pessoa a quem amava sem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao cabo de um m\u00eas n\u00e3o tinha perdido uma part\u00edcula sequer do sentimento que nutria pela vi\u00fava. Amava-a com o mesm\u00edssimo ardor. A aus\u00eancia, como ele pensara, aumentou-lhe o amor, como o vento ateia um inc\u00eandio. Debalde lia ou buscava distrair-se na vida agitada do Rio de Janeiro; entrou a escrever um estudo sobre a teoria do ouvido, mas a pena escapava-se-lhe para o cora\u00e7\u00e3o, e saiu o escrito com uma mistura de nervos e sentimentos. Estava ent\u00e3o na sua maior nomeada o romance de Renan sobre a vida de Jesus; Mendon\u00e7a encheu o gabinete com todos os folhetos publicados de parte a parte, e entrou a estudar profundamente o misterioso drama da Jud\u00e9ia. Fez quanto p\u00f4de para absorver o esp\u00edrito e esquecer a esquiva Margarida; era-lhe imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Um dia de manh\u00e3 apareceu-lhe em casa o filho de D. Ant\u00f4nia; traziam-no dous motivos: perguntar-lhe por que n\u00e3o ia a Mata-cavalos, e mostrar-lhe umas cal\u00e7as novas. Mendon\u00e7a aprovou as cal\u00e7as, e desculpou como p\u00f4de a aus\u00eancia, dizendo que andava atarefado. Jorge n\u00e3o era alma que compreendesse a verdade escondida por baixo de uma palavra indiferente; vendo Mendon\u00e7a mergulhado no meio de uma chusma de livros e folhetos, perguntou-lhe se estava estudando para ser deputado. Jorge cuidava que se estudava para ser deputado!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, respondeu Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade que a prima tamb\u00e9m l\u00e1 anda com livros, e n\u00e3o creio que pretende ir \u00e0 c\u00e2mara.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! sua prima?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o imagina; n\u00e3o faz outra cousa. Fecha-se no quarto, e passa os dias inteiros a ler.<\/p>\n<p>Informado por Jorge, Mendon\u00e7a sup\u00f4s que Margarida era nada menos que uma mulher de letras, alguma modesta poetisa, que esquecia o amor dos homens nos bra\u00e7os das musas. A suposi\u00e7\u00e3o era gratuita e filha mesmo de um esp\u00edrito cego pelo amor como o de Mendon\u00e7a. H\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es para ler muito sem ter com\u00e9rcio com as musas.<\/p>\n<p>&#8211; Note que a prima nunca leu tanto; agora \u00e9 que lhe deu para isso, disse Jorge tirando da charuteira um magn\u00edfico havana do valor de tr\u00eas tost\u00f5es, e oferecendo outro a Mendon\u00e7a. Fume isto, continuou ele, fume e diga-me se h\u00e1 ningu\u00e9m como o Bernardo para ter charutos bons.<\/p>\n<p>Gastos os charutos, Jorge despediu-se do m\u00e9dico, levando a promessa de que este iria \u00e0 casa de D. Ant\u00f4nia o mais cedo que pudesse.<\/p>\n<p>No fim de quinze dias Mendon\u00e7a voltou a Mata-cavalos.<\/p>\n<p>Encontrou na sala Andrade e D. Ant\u00f4nia, que o receberam com aleluias. Mendon\u00e7a parecia com efeito ressurgir de um t\u00famulo; tinha emagrecido e empalidecido. A melancolia dava-lhe ao rosto maior express\u00e3o de abatimento. Alegou trabalhos extraordin\u00e1rios, e entrou a conversar alegremente como dantes. Mas essa alegria, como se compreende, era toda for\u00e7ada. No fim de um quarto de hora a tristeza apossou-se-lhe outra vez do rosto. Durante esse tempo, Margarida n\u00e3o apareceu na sala; Mendon\u00e7a, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o perguntara por ela, n\u00e3o sei por que raz\u00e3o, vendo que ela n\u00e3o aparecia, perguntou se estava doente. D. Ant\u00f4nia respondeu-lhe que Margarida estava um pouco incomodada.<\/p>\n<p>O inc\u00f4modo de Margarida durou uns tr\u00eas dias; era uma simples dor de cabe\u00e7a, que o primo atribuiu \u00e0 aturada leitura.<\/p>\n<p>No fim de alguns dias mais, D. Ant\u00f4nia foi surpreendida com uma lembran\u00e7a de Margarida; a vi\u00fava queria ir viver na ro\u00e7a algum tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Aborrece-te a cidade? perguntou a boa velha.<\/p>\n<p>&#8211; Alguma cousa, respondeu Margarida; queria ir viver uns dous meses na ro\u00e7a.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia n\u00e3o podia recusar nada \u00e0 sobrinha; concordou em ir para a ro\u00e7a; e come\u00e7aram os preparativos. Mendon\u00e7a soube da mudan\u00e7a no Rocio, andando a passear de noite; disse-lho Jorge na ocasi\u00e3o de ir para o Alcazar. Para o rapaz era uma fortuna aquela mudan\u00e7a, porque suprimia-lhe a \u00fanica obriga\u00e7\u00e3o que ainda tinha neste mundo, que era a de ir jantar com a m\u00e3e.<\/p>\n<p>N\u00e3o achou Mendon\u00e7a nada que admirar na resolu\u00e7\u00e3o; as resolu\u00e7\u00f5es de Margarida come\u00e7avam a parecer-lhe simplicidades.<\/p>\n<p>Quando voltou para casa encontrou um bilhete de D. Ant\u00f4nia concebido nestes termos:<\/p>\n<p>&#8220;Temos de ir para fora alguns meses; espero que n\u00e3o nos deixe sem despedir-se de n\u00f3s. A partida \u00e9 s\u00e1bado; e eu quero incumbi-lo de uma cousa.&#8221;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a tomou ch\u00e1, e disp\u00f4s-se a dormir. N\u00e3o p\u00f4de. Quis ler; estava incapaz disso. Era cedo; saiu. Insensivelmente dirigiu os passos para Mata-cavalos. A casa de D. Ant\u00f4nia estava fechada e silenciosa; evidentemente estavam j\u00e1 dormindo. Mendon\u00e7a passou adiante, e parou junto da grade do jardim adjacente \u00e0 casa. De fora podia ver a janela do quarto de Margarida, pouco elevada, e dando para o jardim. Havia luz dentro; naturalmente Margarida estava acordada. Mendon\u00e7a deu mais alguns passos; a porta do jardim estava aberta. Mendon\u00e7a sentiu pulsar-lhe o cora\u00e7\u00e3o com for\u00e7a desconhecida. Surgiu-lhe no esp\u00edrito uma suspeita. N\u00e3o h\u00e1 cora\u00e7\u00e3o confiante que n\u00e3o tenha desfalecimentos destes; al\u00e9m de que, seria errada a suspeita? Mendon\u00e7a, entretanto, n\u00e3o tinha nenhum direito \u00e0 vi\u00fava; fora repelido categoricamente. Se havia algum dever da parte dele era a retirada e o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a quis conservar-se no limite que lhe estava marcado; a porta aberta do jardim podia ser esquecimento da parte dos f\u00e2mulos. O m\u00e9dico refletiu bem que aquilo tudo era fortuito, e fazendo um esfor\u00e7o afastou-se do lugar. Adiante parou e refletiu; havia um dem\u00f4nio que o impelia por aquela porta dentro. Mendon\u00e7a voltou, e entrou com precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apenas dera alguns passos surgiu-lhe em frente Miss Dollar latindo; parece que a galga sa\u00edra de casa sem ser pressentida; Mendon\u00e7a amimou-a e a cadelinha parece que reconheceu o m\u00e9dico, porque trocou os latidos em festas. Na parede do quarto de Margarida desenhou-se uma sombra de mulher; era a vi\u00fava que chegava \u00e0 janela para ver a causa do ru\u00eddo. Mendon\u00e7a coseu-se como p\u00f4de com uns arbustos que ficavam junto da grade; n\u00e3o vendo ningu\u00e9m, Margarida voltou para dentro.<\/p>\n<p>Passados alguns minutos, Mendon\u00e7a saiu do lugar em que se achava e dirigiu-se para o lado da janela da vi\u00fava. Acompanhava-o Miss Dollar. Do jardim n\u00e3o podia olhar, ainda que fosse mais alto, para o aposento da mo\u00e7a. A cadelinha apenas chegou \u00e0quele ponto, subiu ligeira uma escada de pedra que comunicava o jardim com a casa; a porta do quarto de Margarida ficava justamente no corredor que se seguia \u00e0 escada; a porta estava aberta. O rapaz imitou a cadelinha; subiu os seis degraus de pedra vagarosamente; quando p\u00f4s o p\u00e9 no \u00faltimo ouviu Miss Dollar pulando no quarto e vindo latir \u00e0 porta, como que avisando a Margarida de que se aproximava um estranho.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a deu mais um passo. Mas nesse momento atravessou o jardim um escravo que acudia ao latido da cadelinha; o escravo examinou o jardim, e n\u00e3o vendo ningu\u00e9m retirou-se. Margarida foi \u00e0 janela e perguntou o que era; o escravo explicou-lho e tranq\u00fcilizou-a dizendo que n\u00e3o havia ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Justamente quando ela sa\u00eda da janela aparecia \u00e0 porta a figura de Mendon\u00e7a. Margarida estremeceu por um abalo nervoso; ficou mais p\u00e1lida do que era; depois, concentrando nos olhos toda a soma de indigna\u00e7\u00e3o que pode conter um cora\u00e7\u00e3o, perguntou-lhe com voz tr\u00eamula:<\/p>\n<p>&#8211; Que quer aqui?<\/p>\n<p>Foi nesse momento, e s\u00f3 ent\u00e3o, que Mendon\u00e7a reconheceu toda a baixeza de seu procedimento, ou para falar mais acertadamente, toda a alucina\u00e7\u00e3o do seu esp\u00edrito. Pareceu-lhe ver em Margarida a figura da sua consci\u00eancia, a exprobrar-lhe tamanha indignidade. O pobre rapaz n\u00e3o procurou desculpar-se; sua resposta foi singela e verdadeira.<\/p>\n<p>&#8211; Sei que cometi um ato infame, disse ele; n\u00e3o tinha raz\u00e3o para isso; estava louco; agora conhe\u00e7o a extens\u00e3o do mal. N\u00e3o lhe pe\u00e7o que me desculpe, D. Margarida; n\u00e3o mere\u00e7o perd\u00e3o; mere\u00e7o desprezo; adeus!<\/p>\n<p>&#8211; Compreendo, senhor, disse Margarida; quer obrigar-me pela for\u00e7a do descr\u00e9dito quando me n\u00e3o pode obrigar pelo cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 de cavalheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! isso&#8230; juro-lhe que n\u00e3o foi tal o meu pensamento&#8230;<\/p>\n<p>Margarida caiu numa cadeira parecendo chorar. Mendon\u00e7a deu um passo para entrar, visto que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nsa\u00edra da porta; Margarida levantou os olhos cobertos de l\u00e1grimas, e com um gesto imperioso mostrou-lhe que<br \/>\nsa\u00edsse.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a obedeceu; nem um nem outro dormiram nessa noite. Ambos curvavam-se ao peso da vergonha: mas, por honra de Mendon\u00e7a, a dele era maior que a dela; e a dor de uma n\u00e3o ombreava com o remorso de outro.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VIII<\/h2>\n<p>No dia seguinte estava Mendon\u00e7a em casa fumando charutos sobre charutos, recurso das grandes ocasi\u00f5es, quando parou \u00e0 porta dele um carro, apeando-se pouco depois a m\u00e3e de Jorge. A visita pareceu de mau agouro ao m\u00e9dico. Mas apenas a velha entrou, dissipou-lhe o receio.<\/p>\n<p>&#8211; Creio, disse D. Ant\u00f4nia, que a minha idade permite visitar um homem solteiro.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a procurou sorrir ouvindo este gracejo; mas n\u00e3o p\u00f4de. Convidou a boa senhora a sentar-se, e sentou-se ele tamb\u00e9m esperando que ela lhe explicasse a causa da visita.<\/p>\n<p>&#8211; Escrevi-lhe ontem, disse ela, para que fosse ver-me hoje; preferi vir c\u00e1, receando que por qualquer motivo n\u00e3o fosse a Mata-cavalos.<\/p>\n<p>&#8211; Queria ent\u00e3o incumbir-me?<\/p>\n<p>&#8211; De cousa nenhuma, respondeu a velha sorrindo; incumbir disse-lhe eu, como diria qualquer outra cousa indiferente; quero inform\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! de qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Sabe quem ficou hoje de cama?<\/p>\n<p>&#8211; D. Margarida?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade; amanheceu um pouco doente; diz que passou a noite mal. Eu creio que sei a raz\u00e3o, acrescentou D. Ant\u00f4nia rindo maliciosamente para Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Qual ser\u00e1 ent\u00e3o a raz\u00e3o? perguntou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o percebe?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Margarida ama-o.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a levantou-se da cadeira como por uma mola. A declara\u00e7\u00e3o da tia da vi\u00fava era t\u00e3o inesperada que o rapaz cuidou estar sonhando.<\/p>\n<p>&#8211; Ama-o, repetiu D. Ant\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o creio, respondeu Mendon\u00e7a depois de algum sil\u00eancio; h\u00e1 de ser engano seu.<\/p>\n<p>&#8211; Engano! disse a velha.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia contou a Mendon\u00e7a que, curiosa por saber a causa das vig\u00edlias de Margarida, descobrira no quarto dela um di\u00e1rio de impress\u00f5es, escrito por ela, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o de n\u00e3o sei quantas hero\u00ednas de romances; a\u00ed lera a verdade que lhe acabava de dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Mas se me ama, observou Mendon\u00e7a sentindo entrar-lhe n\u2019alma um mundo de esperan\u00e7as, se me ama, por que recusa o meu cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; O di\u00e1rio explica isso mesmo; eu lhe digo. Margarida foi infeliz no casamento; o marido teve unicamente em vista gozar da riqueza dela; Margarida adquiriu a certeza de que nunca ser\u00e1 amada por si, mas pelos cabedais que possui; atribui o seu amor \u00e0 cobi\u00e7a. Est\u00e1 convencido?<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a come\u00e7ou a protestar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 in\u00fatil, disse D. Ant\u00f4nia, eu creio na sinceridade do seu afeto; j\u00e1 de h\u00e1 muito percebi isso mesmo; mas como convencer um cora\u00e7\u00e3o desconfiado?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu, disse a velha, mas para isso \u00e9 que eu vim c\u00e1; pe\u00e7o-lhe que veja se pode fazer com que a minha Margarida torne a ser feliz, se lhe influi a cren\u00e7a no amor que lhe tem.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que \u00e9 imposs\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a lembrou-se de contar a D. Ant\u00f4nia a cena da v\u00e9spera; mas arrependeu-se a tempo.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia saiu pouco depois.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de Mendon\u00e7a, ao passo que se tornara mais clara, estava mais dif\u00edcil que dantes. Era poss\u00edvel tentar alguma cousa antes da cena do quarto; mas depois, achava Mendon\u00e7a imposs\u00edvel conseguir nada.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a de Margarida durou dous dias, no fim dos quais levantou-se a vi\u00fava um pouco abatida, e a primeira cousa que fez foi escrever a Mendon\u00e7a pedindo-lhe que fosse l\u00e1 \u00e0 casa.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a admirou-se bastante do convite, e obedeceu de pronto.<\/p>\n<p>&#8211; Depois do que se deu h\u00e1 tr\u00eas dias, disse-lhe Margarida, compreende o senhor que eu n\u00e3o posso ficar debaixo da a\u00e7\u00e3o da maledic\u00eancia&#8230; Diz que me ama; pois bem, o nosso casamento \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Inevit\u00e1vel! amargou esta palavra ao m\u00e9dico, que ali\u00e1s n\u00e3o podia recusar uma repara\u00e7\u00e3o. Lembrava-se ao mesmo tempo que era amado; e conquanto a id\u00e9ia lhe sorrisse ao esp\u00edrito, outra vinha dissipar esse instant\u00e2neo prazer, e era a suspeita que Margarida nutria a seu respeito.<\/p>\n<p>&#8211; Estou \u00e0s suas ordens, respondeu ele.<\/p>\n<p>Admirou-se D. Ant\u00f4nia da presteza do casamento quando Margarida lho anunciou nesse mesmo dia. Sup\u00f4s que fosse milagre do rapaz. Pelo tempo adiante reparou que os noivos tinham cara mais de enterro que de casamento. Interrogou a sobrinha a esse respeito; obteve uma resposta evasiva.<\/p>\n<p>Foi modesta e reservada a cerim\u00f4nia do casamento. Andrade serviu de padrinho, D. Ant\u00f4nia de madrinha; Jorge falou no Alcazar a um padre, seu amigo, para celebrar o ato.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia quis que os noivos ficassem residindo em casa com ela. Quando Mendon\u00e7a se achou a s\u00f3s com Margarida, disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Casei-me para salvar-lhe a reputa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o quero obrigar pela fatalidade das cousas um cora\u00e7\u00e3o que me n\u00e3o pertence. Ter-me-\u00e1 por seu amigo; at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Saiu Mendon\u00e7a depois deste speech, deixando Margarida suspensa entre o conceito que fazia dele e a impress\u00e3o das suas palavras agora.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia posi\u00e7\u00e3o mais singular do que a destes noivos separados por uma quimera. O mais belo dia da vida tornava-se para eles um dia de desgra\u00e7a e de solid\u00e3o; a formalidade do casamento foi simplesmente o prel\u00fadio do mais completo div\u00f3rcio. Menos cepticismo da parte de Margarida, mais cavalheirismo da parte do rapaz, teriam poupado o desenlace sombrio da com\u00e9dia do cora\u00e7\u00e3o. Vale mais imaginar que descrever as torturas daquela primeira noite de noivado.<\/p>\n<p>Mas aquilo que o esp\u00edrito do homem n\u00e3o vence, h\u00e1 de venc\u00ea-lo o tempo, a quem cabe final raz\u00e3o. O tempo convenceu Margarida de que a sua suspeita era gratuita; e, coincidindo com ele o cora\u00e7\u00e3o, veio a tornar-se efetivo o casamento apenas celebrado.<\/p>\n<p>Andrade ignorou estas cousas; cada vez que encontrava Mendon\u00e7a chamava-lhe Colombo do amor; tinha Andrade a mania de todo o sujeito a quem as id\u00e9ias ocorrem trimestralmente; apenas pilhada alguma de jeito repetia-a at\u00e9 a saciedade.<\/p>\n<p>Os dous esposos s\u00e3o ainda noivos e prometem s\u00ea-lo at\u00e9 a morte. Andrade meteu-se na diplomacia e promete ser um dos luzeiros da nossa representa\u00e7\u00e3o internacional. Jorge continua a ser um bom p\u00e2ndego; D. Ant\u00f4nia prepara-se para despedir-se do mundo.<\/p>\n<p>Quanto a Miss Dollar, causa indireta de todos estes acontecimentos, saindo um dia \u00e0 rua foi pisada por um carro; faleceu pouco depois. Margarida n\u00e3o p\u00f4de reter algumas l\u00e1grimas pela nobre cadelinha; foi o corpo enterrado na ch\u00e1cara, \u00e0 sombra de uma laranjeira; cobre a sepultura uma l\u00e1pide com esta simples inscri\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<h2><b>A Miss Dollar<\/b><\/h2>\n<h2>FIM<\/h2>\n<p class=\"fonte\">Fonte:www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo Primeiro Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber quem era Miss Dollar. Mas por outro lado, sem a apresenta\u00e7\u00e3o de Miss Dollar, seria o autor obrigado a longas digress\u00f5es, que encheriam o papel sem adiantar a a\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 hesita\u00e7\u00e3o poss\u00edvel: vou apresentar-lhes Miss Dollar. 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