{"id":118646,"date":"2017-04-06T19:32:10","date_gmt":"2017-04-06T21:32:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118646"},"modified":"2017-04-06T19:32:10","modified_gmt":"2017-04-06T21:32:10","slug":"luis-soares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/luis-soares","title":{"rendered":"Lu\u00eds Soares"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo Primeiro<\/h2>\n<p>Trocar o dia pela noite, dizia Lu\u00eds Soares, \u00e9 restaurar o imp\u00e9rio da natureza corrigindo a obra da sociedade. O calor do sol est\u00e1 dizendo aos homens que v\u00e3o descansar e dormir, ao passo que a frescura relativa da noite \u00e9 a verdadeira esta\u00e7\u00e3o em que se deve viver. Livre em todas as minhas a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o quero sujeitar-me \u00e0 lei absurda que a sociedade me imp\u00f5e: velarei de noite, dormirei de dia.<\/p>\n<p>Contrariamente a v\u00e1rios minist\u00e9rios, Soares cumpria este programa com um escr\u00fapulo digno de uma grande consci\u00eancia. A aurora para ele era o crep\u00fasculo, o crep\u00fasculo era a aurora. Dormia doze horas consecutivas durante o dia, quer dizer das seis da manh\u00e3 \u00e0s seis da tarde. Almo\u00e7ava \u00e0s sete e jantava \u00e0s duas da madrugada. N\u00e3o ceava. A sua ceia limitava-se a uma x\u00edcara de chocolate que o criado lhe dava \u00e0s cinco horas da manh\u00e3 quando ele entrava para casa. Soares engolia o chocolate, fumava dois charutos, fazia alguns trocadilhos com o criado, lia uma p\u00e1gina de algum romance, e deitava-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o lia jornais. Achava que um jornal era a cousa mais in\u00fatil deste mundo, depois da C\u00e2mara dos Deputados, das obras dos poetas e das missas. N\u00e3o quer isto dizer que Soares fosse ateu em religi\u00e3o, pol\u00edtica e poesia. N\u00e3o. Soares era apenas indiferente. Olhava para todas as grandes cousas com a mesma cara com que via uma mulher feia. Podia vir a ser um grande perverso; at\u00e9 ent\u00e3o era apenas uma grande inutilidade.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a uma boa fortuna que lhe deixara o pai, Soares podia gozar a vida que levava, esquivando-se a todo o g\u00eanero de trabalho e entregue somente aos instintos da sua natureza e aos caprichos do seu cora\u00e7\u00e3o. Cora\u00e7\u00e3o \u00e9 talvez demais. Era duvidoso que Soares o tivesse. Ele mesmo o dizia. Quando alguma dama lhe pedia que ele a amasse, Soares respondia:<\/p>\n<p>&#8211; Minha rica pequena, eu nasci com a grande vantagem de n\u00e3o ter cousa nenhuma dentro do peito nem dentro da cabe\u00e7a. Isso que chamam ju\u00edzo e sentimento s\u00e3o para mim verdadeiros mist\u00e9rios. N\u00e3o os compreendo porque os n\u00e3o sinto.<\/p>\n<p>Soares acrescentava que a fortuna suplantara a natureza deitando-lhe no ber\u00e7o em que nasceu uma boa soma de contos de r\u00e9is. Mas esquecia que a fortuna, apesar de generosa, \u00e9 exigente, e quer da parte dos seus afilhados algum esfor\u00e7o pr\u00f3prio. A fortuna n\u00e3o \u00e9 Danaide. Quando v\u00ea que um tonel esgota a \u00e1gua que se lhe p\u00f5e dentro vai levar os seus c\u00e2ntaros a outra parte. Soares n\u00e3o pensava nisto. Cuidava que os seus bens eram renascentes como as cabe\u00e7as da hidra antiga. Gastava \u00e0s m\u00e3os largas; e os contos de r\u00e9is, t\u00e3o dificilmente acumulados por seu pai, escapavam-se-lhe das m\u00e3os como p\u00e1ssaros sequiosos por gozarem do ar livre.<\/p>\n<p>Achou-se, portanto, pobre quando menos o esperava. Um dia de manh\u00e3, quer dizer \u00e0s ave-marias, os olhos de Soares viram escritas as palavras fat\u00eddicas do festim babil\u00f4nico. Era uma carta que o criado lhe entregara dizendo que o banqueiro de Soares a havia deixado \u00e0 meia-noite. O criado falava como o amo vivia: ao meio-dia chamava meia-noite.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 te disse, respondeu Soares, que eu s\u00f3 recebo cartas dos meus amigos, ou ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De alguma rapariga, bem sei. \u00c9 por isso que lhe n\u00e3o tenho dado as cartas que o banqueiro tem trazido h\u00e1 um m\u00eas. Hoje, por\u00e9m, o homem disse que era indispens\u00e1vel que lhe eu desse esta.<\/p>\n<p>Soares sentou-se na cama, e perguntou ao criado meio alegre e meio zangado:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o tu \u00e9s criado dele ou meu?<\/p>\n<p>&#8211; Meu amo, o banqueiro disse que se trata de um grande perigo.<\/p>\n<p>&#8211; Que perigo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa ver a carta.<\/p>\n<p>O criado entregou-lhe a carta.<\/p>\n<p>Soares abriu-a e leu-a duas vezes. Dizia a carta que o rapaz n\u00e3o possu\u00eda mais que seis contos de r\u00e9is. Para Soares seis contos de r\u00e9is eram menos que seis vint\u00e9ns.<\/p>\n<p>Pela primeira vez na sua vida Soares sentiu uma grande como\u00e7\u00e3o. A id\u00e9ia de n\u00e3o ter dinheiro nunca lhe havia acudido ao esp\u00edrito; n\u00e3o imaginava que um dia se achasse na posi\u00e7\u00e3o de qualquer outro homem que precisava de trabalhar.<\/p>\n<p>Almo\u00e7ou sem vontade e saiu. Foi ao Alcazar. Os amigos acharam-no triste; perguntaram-lhe se era alguma m\u00e1goa de amor. Soares respondeu que estava doente. As La\u00eds da localidade acharam que era de bom gosto ficarem tristes tamb\u00e9m. A consterna\u00e7\u00e3o foi geral.<\/p>\n<p>Um dos seus amigos, Jos\u00e9 Pires, prop\u00f4s um passeio a Botafogo para distrair as melancolias de Soares. O rapaz aceitou. Mas o passeio a Botafogo era t\u00e3o comum que n\u00e3o podia distra\u00ed-lo. Lembraram-se de ir ao Corcovado, id\u00e9ia que foi aceita e executada imediatamente.<\/p>\n<p>Mas que h\u00e1 que possa distrair um rapaz nas condi\u00e7\u00f5es de Soares? A viagem ao Corcovado apenas lhe produziu uma grande fadiga, ali\u00e1s \u00fatil, porque, na volta, dormiu o rapaz a sono solto.<\/p>\n<p>Quando acordou mandou dizer ao Pires que viesse falar-lhe imediatamente. Da\u00ed a uma hora parava um carro \u00e0 porta: era o Pires que chegava, mas acompanhado de uma rapariga morena que respondia ao nome de Vit\u00f3ria. Entraram os dous pela sala de Soares com a franqueza e o estr\u00e9pito naturais entre pessoas de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e1 doente? perguntou Vit\u00f3ria ao dono da casa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, respondeu este; mas por que veio voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 boa! disse Jos\u00e9 Pires; veio porque \u00e9 a minha x\u00edcara insepar\u00e1vel&#8230; Querias falar-me em particular?<\/p>\n<p>&#8211; Queria.<\/p>\n<p>&#8211; Pois falemos a\u00ed em qualquer canto; Vit\u00f3ria fica na sala vendo os \u00e1lbuns.<\/p>\n<p>&#8211; Nada, interrompeu a mo\u00e7a; nesse caso vou-me embora. \u00c9 melhor; s\u00f3 imponho uma condi\u00e7\u00e3o: \u00e9 que ambos h\u00e3o de ir depois l\u00e1 para casa; temos ceata.<\/p>\n<p>&#8211; Valeu! disse Pires.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria saiu; os dous rapazes ficaram s\u00f3s.<\/p>\n<p>Pires era o tipo do bisbilhoteiro e leviano. Em lhe cheirando novidade preparava-se para instruir-se de tudo. Lisonjeava-o a confian\u00e7a de Soares, e adivinhava que o rapaz ia comunicar-lhe alguma cousa importante. Para isso assumiu um ar condigno com a situa\u00e7\u00e3o. Sentou-se comodamente em uma cadeira de bra\u00e7os; p\u00f4s o cast\u00e3o da bengala na boca e come\u00e7ou o ataque com estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Estamos s\u00f3s; que me queres?<\/p>\n<p>Soares confiou-lhe tudo; leu-lhe a carta do banqueiro; mostrou-lhe em toda a nudez a sua mis\u00e9ria. Disse-lhe que naquela situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o via solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, e confessou ingenuamente que a id\u00e9ia do suic\u00eddio o havia alimentado durante longas horas.<\/p>\n<p>&#8211; Um suic\u00eddio! exclamou Pires; est\u00e1s doudo.<\/p>\n<p>&#8211; Doudo! respondeu Soares; entretanto n\u00e3o vejo outra sa\u00edda neste beco. Demais, \u00e9 apenas meio suic\u00eddio, porque a pobreza j\u00e1 \u00e9 meia morte.<\/p>\n<p>&#8211; Convenho que a pobreza n\u00e3o \u00e9 cousa agrad\u00e1vel, e at\u00e9 acho&#8230;<\/p>\n<p>Pires interrompeu-se; uma id\u00e9ia s\u00fabita atravessara-lhe o esp\u00edrito: a id\u00e9ia de que Soares acabasse a confer\u00eancia por pedir-lhe dinheiro. Pires tinha um preceito na sua vida: era n\u00e3o emprestar dinheiro aos amigos. N\u00e3o se empresta sangue, dizia ele.<\/p>\n<p>Soares n\u00e3o reparou na frase cortada do amigo, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Viver pobre depois de ter sido rico&#8230; \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso que me queres tu? perguntou Pires, a quem pareceu que era bom atacar o touro de frente.<\/p>\n<p>&#8211; Um conselho.<\/p>\n<p>&#8211; In\u00fatil conselho, pois que j\u00e1 tens uma id\u00e9ia fixa.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez. Entretanto confesso que n\u00e3o se deixa a vida com facilidade, e m\u00e1 ou boa, sempre custa morrer. Por outro lado, ostentar a minha mis\u00e9ria diante das pessoas que me viram rico \u00e9 uma humilha\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o aceito. Que farias tu no meu lugar?<\/p>\n<p>&#8211; Homem, respondeu Pires, h\u00e1 muitos meios&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Venha um.<\/p>\n<p>&#8211; Primeiro meio. Vai para Nova Iorque e procura uma fortuna.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me conv\u00e9m; nesse caso fico no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Segundo meio. Arranja um casamento rico.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bom de dizer. Onde est\u00e1 esse casamento?<\/p>\n<p>&#8211; Procura. N\u00e3o tens uma prima que gosta de ti?<\/p>\n<p>&#8211; Creio que j\u00e1 n\u00e3o gosta; e demais n\u00e3o \u00e9 rica; tem apenas trinta contos; despesa de um ano.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um bom princ\u00edpio de vida.<\/p>\n<p>&#8211; Nada; outro meio.<\/p>\n<p>&#8211; Terceiro meio, e o melhor. Vai \u00e0 casa de teu tio, angaria-lhe a estima, dize que est\u00e1s arrependido da vida passada, aceita um emprego, enfim v\u00ea se te constituis seu herdeiro universal.<\/p>\n<p>Soares n\u00e3o respondeu; a id\u00e9ia pareceu-lhe boa.<\/p>\n<p>&#8211; Aposto que te agrada o terceiro meio? perguntou Pires rindo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 mau. Aceito; e bem sei que \u00e9 dif\u00edcil e demorado; mas eu n\u00e3o tenho muitos \u00e0 escolha.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem, disse Pires levantando-se. Agora o que se quer \u00e9 algum ju\u00edzo. H\u00e1 de custar-te o sacrif\u00edcio, mas lembra-te que \u00e9 o meio \u00fanico de teres dentro de pouco tempo uma fortuna. Teu tio \u00e9 um homem achacado de mol\u00e9stias; qualquer dia bate a bota. Aproveita o tempo. E agora vamos \u00e0 ceia da Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vou, disse Soares; quero acostumar-me desde j\u00e1 a viver vida nova.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; adeus.<\/p>\n<p>&#8211; Olha; confiei-te isto a ti s\u00f3; guarda-me segredo.<\/p>\n<p>&#8211; Sou um t\u00famulo, respondeu Pires descendo a escada.<\/p>\n<p>Mas no dia seguinte j\u00e1 os rapazes e raparigas sabiam que Soares ia fazer-se anacoreta&#8230; por n\u00e3o ter dinheiro nenhum. O pr\u00f3prio Soares reconheceu isto no rosto dos amigos. Todos pareciam dizer-lhe: \u00c9 pena! que p\u00e2ndego vamos n\u00f3s perder!<\/p>\n<p>Pires nunca mais o visitou.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>O tio de Soares chamava-se o Major Lu\u00eds da Cunha Vilela, e era com efeito um homem j\u00e1 velho e adoentado. Contudo n\u00e3o se podia dizer que morreria cedo. O Major Vilela observava um rigoroso reg\u00edmen que lhe ia entretendo a vida. Tinha uns bons sessenta anos. Era um velho alegre e severo ao mesmo tempo. Gostava de rir, mas era implac\u00e1vel com os maus costumes. Constitucional por necessidade, era no fundo de sua alma absolutista. Chorava pela sociedade antiga; criticava constantemente a nova. Enfim foi o \u00faltimo homem que abandonou a cabeleira de rabicho.<\/p>\n<p>Vivia o Major Vilela em Catumbi, acompanhado de sua sobrinha Adelaide, e mais uma velha parenta. A sua vida era patriarcal. Importando-se pouco ou nada com o que ia por fora, o major entregava-se todo ao cuidado de sua casa, aonde poucos amigos e algumas fam\u00edlias da vizinhan\u00e7a o iam ver, e passar as noites com ele. O major conservava sempre a mesma alegria, ainda nas ocasi\u00f5es em que o reumatismo o prostrava. Os reum\u00e1ticos dificilmente acreditar\u00e3o nisto; mas eu posso afirmar que era verdade.<\/p>\n<p>Foi num dia de manh\u00e3, felizmente um dia em que o major n\u00e3o sentia o menor achaque, e ria e brincava com as duas parentas, que Soares apareceu em Catumbi \u00e0 porta do tio.<\/p>\n<p>Quando o major recebeu o cart\u00e3o com o nome do sobrinho, sup\u00f4s que era alguma ca\u00e7oada. Podia contar com todos em casa, menos o sobrinho. Fazia j\u00e1 dous anos que o n\u00e3o via, e entre a \u00faltima e a pen\u00faltima vez tinha mediado ano e meio. Mas o moleque disse-lhe t\u00e3o seriamente que o nhonh\u00f4 Lu\u00eds estava na sala de espera, que o velho acabou por acreditar.<\/p>\n<p>&#8211; Que te parece, Adelaide?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>O velho foi \u00e0 sala de visitas.<\/p>\n<p>Soares tinha pensado no meio de aparecer ao tio. Ajoelhar-se era dram\u00e1tico demais; cair-lhe nos bra\u00e7os exigia certo impulso \u00edntimo que ele n\u00e3o tinha; al\u00e9m de que, Soares vexava-se de ter ou fingir uma como\u00e7\u00e3o. Lembrou-se de come\u00e7ar uma conversa\u00e7\u00e3o alheia ao fim que o levava l\u00e1, e acabar por confessar-se disposto a arrepiar carreira. Mas este meio tinha o inconveniente de fazer preceder a reconcilia\u00e7\u00e3o por um serm\u00e3o, que o rapaz dispensava. Ainda n\u00e3o se resolvera a aceitar um dos muitos meios que lhe vieram \u00e0 id\u00e9ia, quando o major apareceu \u00e0 porta da sala.<\/p>\n<p>O major parou \u00e0 porta sem dizer palavra e lan\u00e7ou sobre o sobrinho um olhar severo e interrogador.<\/p>\n<p>Soares hesitou um instante; mas como a situa\u00e7\u00e3o podia prolongar-se sem benef\u00edcio seu, o rapaz seguiu um movimento natural: foi ao tio e estendeu-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Meu tio, disse ele, n\u00e3o precisa dizer mais nada; o seu olhar diz-me tudo. Fui pecador e arrependo-me. Aqui estou.<\/p>\n<p>O major estendeu-lhe a m\u00e3o, que o rapaz beijou com o respeito de que era suscept\u00edvel.<\/p>\n<p>Depois encaminhou-se para uma cadeira e sentou-se; o rapaz ficou de p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Se o teu arrependimento \u00e9 sincero, abro-te a minha porta e o meu cora\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o \u00e9 sincero podes ir embora; h\u00e1 muito tempo que n\u00e3o freq\u00fcento a casa da \u00f3pera: n\u00e3o gosto de comediantes.<\/p>\n<p>Soares protestou que era sincero. Disse que fora dissipado e doudo, mas que aos trinta anos era justo ter ju\u00edzo. Reconhecia agora que o tio sempre tivera raz\u00e3o. Sup\u00f4s ao princ\u00edpio que eram simples rabugices de velho, e mais nada; mas n\u00e3o era natural esta leviandade num rapaz educado no v\u00edcio? Felizmente corrigia-se a tempo. O que ele agora queria era entrar em bom viver, e come\u00e7ava por aceitar um emprego p\u00fablico que o obrigasse a trabalhar e fazer-se s\u00e9rio. Tratava-se de ganhar uma posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouvindo o discurso de que fiz o extrato acima, o major procurava adivinhar o fundo do pensamento de Soares. Seria ele sincero? O velho concluiu que o sobrinho falava com a alma nas m\u00e3os. A sua ilus\u00e3o chegou ao ponto de ver-lhe uma l\u00e1grima nos olhos, l\u00e1grima que n\u00e3o apareceu, nem mesmo fingida.<\/p>\n<p>Quando Soares acabou, o major estendeu-lhe a m\u00e3o e apertou a que o rapaz lhe estendeu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Creio, Lu\u00eds. Ainda bem que te arrependeste a tempo. Isso que vivias n\u00e3o era vida nem morte; a vida \u00e9 mais digna e a morte mais tranq\u00fcila do que a exist\u00eancia que malbarataste. Entras agora em casa como um filho pr\u00f3digo. Ter\u00e1s o melhor lugar \u00e0 mesa. Esta fam\u00edlia \u00e9 a mesma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O major continuou por este tom; Soares ouviu a p\u00e9 quedo o discurso do tio. Dizia consigo que era a amostra da pena que ia sofrer, e um grande desconto dos seus pecados.<\/p>\n<p>O major acabou levando o rapaz para dentro, onde os esperava o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Na sala de jantar estavam Adelaide e a velha parenta. A Sra. Ant\u00f4nia de Moura Vilela recebeu Soares com grandes exclama\u00e7\u00f5es que envergonharam sinceramente o rapaz. Quanto a Adelaide, apenas o cumprimentou sem olhar para ele; Soares retribuiu o cumprimento.<\/p>\n<p>O major reparou na frieza; mas parece que sabia alguma cousa, porque apenas deu uma risadinha amarela, cousa que lhe era peculiar.<\/p>\n<p>Sentaram-se \u00e0 mesa, e o almo\u00e7o correu entre as pilh\u00e9rias do major, as recrimina\u00e7\u00f5es da Sra. Ant\u00f4nia, as explica\u00e7\u00f5es do rapaz e o sil\u00eancio de Adelaide. Quando o almo\u00e7o acabou, o major disse ao sobrinho que fumasse, concess\u00e3o enorme que o rapaz a custo aceitou. As duas senhoras sa\u00edram; ficaram os dous \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s ent\u00e3o disposto a trabalhar?<\/p>\n<p>&#8211; Estou, meu tio.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; vou ver se te arranjo um emprego. Que emprego preferes?<\/p>\n<p>&#8211; O que quiser, meu tio, contanto que eu trabalhe.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Levar\u00e1s amanh\u00e3, uma carta minha a um dos ministros. Deus queira que possas obter o emprego sem dificuldade. Quero ver-te trabalhador e s\u00e9rio; quero ver-te homem. As dissipa\u00e7\u00f5es n\u00e3o produzem nada, a n\u00e3o serem d\u00edvidas e desgostos&#8230; Tens d\u00edvidas?<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma, respondeu Soares.<\/p>\n<p>Soares mentia. Tinha uma d\u00edvida de alfaiate, relativamente pequena; queria pag\u00e1-la sem que o tio soubesse.<\/p>\n<p>No dia seguinte o major escreveu a carta prometida, que o sobrinho levou ao ministro; e t\u00e3o feliz foi, que da\u00ed a um m\u00eas estava empregado em uma secretaria com um bom ordenado.<\/p>\n<p>Cumpre fazer justi\u00e7a ao rapaz. O sacrif\u00edcio que fez de transformar os seus h\u00e1bitos da vida foi enorme, e a julg\u00e1-lo pelos seus antecedentes, ningu\u00e9m o julgara capaz de tal. Mas o desejo de perpetuar uma vida de dissipa\u00e7\u00e3o pode explicar a mudan\u00e7a e o sacrif\u00edcio. Aquilo na exist\u00eancia de Soares n\u00e3o passava de um par\u00eantesis mais ou menos extenso. Almejava por fech\u00e1-lo e continuar o per\u00edodo como havia come\u00e7ado, isto \u00e9, vivendo com Asp\u00e1sia e pagodeando com Alcib\u00edades.<\/p>\n<p>O tio n\u00e3o desconfiava de nada; mas temia que o rapaz fosse novamente tentado \u00e0 fuga, ou porque o seduzisse a lembran\u00e7a das dissipa\u00e7\u00f5es antigas, ou porque o aborrecesse a monotonia e a fadiga do trabalho. Com o fim de impedir o desastre, lembrou-se de inspirar-lhe ambi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Pensava o major que a pol\u00edtica seria um rem\u00e9dio decisivo para aquele doente, como se n\u00e3o fosse conhecido que os louros de Lovelace e os de Turgot andam muita vez na mesma cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Soares n\u00e3o desanimou o major. Disse que era natural acabar a sua exist\u00eancia na pol\u00edtica, e chegou a dizer que algumas vezes sonhara com uma cadeira no parlamento.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu verei se te posso arranjar isto, respondeu o tio. O que \u00e9 preciso \u00e9 que estudes a ci\u00eancia da pol\u00edtica, a hist\u00f3ria do nosso parlamento e do nosso governo; e principalmente \u00e9 preciso que continues a ser o que \u00e9s hoje: um rapaz s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Se bem o dizia o major, melhor o fazia Soares, que desde ent\u00e3o meteu-se com os livros e lia com afinco as discuss\u00f5es das c\u00e2maras.<\/p>\n<p>Soares n\u00e3o morava com o tio, mas passava l\u00e1 todo o tempo que lhe sobrava do trabalho, e voltava para casa depois do ch\u00e1, que era patriarcal, e bem diferente das ceatas do antigo tempo.<\/p>\n<p>N\u00e3o afirmo que entre as duas fases da exist\u00eancia de Lu\u00eds Soares n\u00e3o houvesse algum elo de uni\u00e3o, e que o emigrante das terras de Gnido n\u00e3o fizesse de quando em quando excurs\u00f5es \u00e0 p\u00e1tria. Em todo o caso essas excurs\u00f5es eram t\u00e3o secretas que ningu\u00e9m sabia delas, nem talvez os habitantes das referidas terras, com exce\u00e7\u00e3o dos poucos escolhidos para receberem o expatriado. O caso era singular, porque naquele pa\u00eds n\u00e3o se reconhece o cidad\u00e3o naturalizado estrangeiro, ao contr\u00e1rio da Inglaterra, que n\u00e3o d\u00e1 aos s\u00faditos da rainha o direito de escolherem outra p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Soares encontrava-se de quando em quando com Pires. O confidente do convertido manifestava a sua amizade antiga oferecendo-lhe um charuto de Havana e contando-lhe algumas boas fortunas havidas nas campanhas do amor, em que o alarve supunha ser consumado general.<\/p>\n<p>Havia j\u00e1 cinco meses que o sobrinho do Major Vilela se achava empregado, e ainda os chefes da reparti\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinham tido um s\u00f3 motivo de queixa contra ele. A dedica\u00e7\u00e3o era digna de melhor causa. Exteriormente via-se em Lu\u00eds Soares um monge; raspando-se um pouco achava-se o diabo.<\/p>\n<p>Ora, o diabo viu de longe uma conquista&#8230;<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>A prima Adelaide tinha vinte e quatro anos, e a sua beleza, no pleno desenvolvimento da sua mocidade, tinha em si o cond\u00e3o de fazer morrer de amores. Era alta e bem proporcionada; tinha uma cabe\u00e7a modelada pelo tipo antigo; a testa era espa\u00e7osa e alta, os olhos rasgados e negros, o nariz levemente aquilino. Quem a contemplava durante alguns momentos sentia que ela tinha todas as energias, a das paix\u00f5es e a da vontade.<\/p>\n<p>H\u00e1 de lembrar-se o leitor do frio cumprimento trocado entre Adelaide e seu primo; tamb\u00e9m se h\u00e1 de lembrar que Soares disse ao amigo Pires ter sido amado por sua prima. Ligam-se estas duas cousas. A frieza de Adelaide resultava de uma lembran\u00e7a que era dolorosa para a mo\u00e7a; Adelaide amara o primo, n\u00e3o com um simples amor de primos, que em geral resulta da conviv\u00eancia e n\u00e3o de uma s\u00fabita atra\u00e7\u00e3o. Amara-o com todo o vigor e calor de sua alma; mas j\u00e1 ent\u00e3o o rapaz iniciava os seus passos em outras regi\u00f5es e ficou indiferente aos afetos da mo\u00e7a.Um amigo que sabia do segredo perguntou-lhe um dia por que raz\u00e3o n\u00e3o se casava com Adelaide, ao que o rapaz respondeu friamente:<\/p>\n<p>&#8211; Quem tem a minha fortuna n\u00e3o se casa; mas se se casa \u00e9 sempre com quem tenha mais. Os bens de Adelaide s\u00e3o a quinta parte dos meus; para ela \u00e9 neg\u00f3cio da China; para mim \u00e9 um mau neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>O amigo que ouvira esta resposta n\u00e3o deixou de dar uma prova da sua afei\u00e7\u00e3o ao rapaz indo contar tudo \u00e0 mo\u00e7a. O golpe foi tremendo, n\u00e3o tanto pela certeza que lhe dava de n\u00e3o ser amada, como pela circunst\u00e2ncia de nem ao menos ficar-lhe o direito de estima. A confiss\u00e3o de Soares era um corpo de delito. O confidente oficioso esperava talvez colher os despojos da derrota; mas Adelaide, t\u00e3o depressa ouviu a dela\u00e7\u00e3o como desprezou o delator.<\/p>\n<p>O incidente n\u00e3o passou disto.<\/p>\n<p>Quando Soares voltou \u00e0 casa do tio, a mo\u00e7a achou-se em dolorosa situa\u00e7\u00e3o; era obrigada a conviver com um homem ao qual nem podia dar apre\u00e7o. Pela sua parte, o rapaz tamb\u00e9m se achava acanhado, n\u00e3o porque lhe doessem as palavras que dissera um dia, mas por causa do tio, que ignorava tudo. N\u00e3o ignorava; o mo\u00e7o \u00e9 que o supunha. O major soube da paix\u00e3o de Adelaide e soube tamb\u00e9m da repulsa que tivera no cora\u00e7\u00e3o do rapaz. Talvez n\u00e3o soubesse das palavras textuais repetidas \u00e0 mo\u00e7a pelo amigo de Soares; mas se n\u00e3o conhecia o texto, conhecia o esp\u00edrito; sabia que, pelo motivo de ser amado, o rapaz entrara a aborrecer a prima, e que esta, vendo-se repelida, entrara a aborrecer o rapaz. O major sup\u00f4s at\u00e9 durante algum tempo que a aus\u00eancia de Soares tinha por motivo a presen\u00e7a da mo\u00e7a em casa.<\/p>\n<p>Adelaide era filha de um irm\u00e3o do major, homem muito rico e igualmente exc\u00eantrico, que morrera havia dez anos deixando a mo\u00e7a entregue aos cuidados do irm\u00e3o. Como o pai de Adelaide fizera muitas viagens, parece que gastou nelas a maior parte da sua fortuna. Quando morreu apenas coube a Adelaide, filha \u00fanica, cerca de trinta contos, que o tio conservou intactos para serem o dote da pupila.<\/p>\n<p>Soares houve-se como p\u00f4de na singular situa\u00e7\u00e3o em que se achava. N\u00e3o conversava com a prima; apenas trocava com ela as palavras estritamente necess\u00e1rias para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o do tio. A mo\u00e7a fazia o mesmo.<\/p>\n<p>Mas quem pode ter m\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o? A prima de Lu\u00eds Soares sentiu que pouco a pouco lhe ia renascendo o antigo afeto. Procurou combat\u00ea-lo sinceramente; mas n\u00e3o se impede o crescimento de uma planta sen\u00e3o arrancando-lhe as ra\u00edzes. As ra\u00edzes existiam ainda. Apesar dos esfor\u00e7os da mo\u00e7a o amor veio pouco a pouco invadindo o lugar do \u00f3dio, e se at\u00e9 ent\u00e3o o supl\u00edcio era grande, agora era enorme. Travara-se uma luta entre o orgulho e o amor. A mo\u00e7a sofreu consigo; n\u00e3o articulou uma palavra.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Soares reparava que quando os seus dedos tocavam os da prima, esta experimentava uma grande emo\u00e7\u00e3o: corava e empalidecia. Era um grande navegador aquele rapaz nos mares do amor: conhecia-lhe a calma e a tempestade. Convenceu-se de que a prima o amava outra vez. A descoberta n\u00e3o o alegrou; pelo contr\u00e1rio, foi-lhe motivo de grande irrita\u00e7\u00e3o. Receava que o tio, descobrindo o sentimento da sobrinha, propusesse o casamento ao rapaz; e recus\u00e1-lo n\u00e3o seria comprometer no futuro a esperada heran\u00e7a? A heran\u00e7a sem o casamento era o ideal do mo\u00e7o. &#8220;Dar-me asas, pensava ele, atando-me os p\u00e9s, \u00e9 o mesmo que condenar-me \u00e0 pris\u00e3o. \u00c9 o destino do papagaio dom\u00e9stico; n\u00e3o aspiro a t\u00ea-lo.&#8221;<\/p>\n<p>Realizaram-se as previs\u00f5es do rapaz. O major descobriu a causa da tristeza da mo\u00e7a e resolveu p\u00f4r termo \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o propondo ao sobrinho o casamento.<\/p>\n<p>Soares n\u00e3o podia recusar abertamente sem comprometer o edif\u00edcio da sua fortuna.<\/p>\n<p>&#8211; Este casamento, disse-lhe o tio, \u00e9 complemento da minha felicidade. De um s\u00f3 lance re\u00fano duas pessoas que tanto estimo, e morro tranq\u00fcilo sem levar nenhum pesar para outro mundo. Estou que aceitar\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; Aceito, meu tio; mas observo que o casamento assenta no amor, e eu n\u00e3o amo minha prima.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; h\u00e1s de am\u00e1-la; casa-te primeiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o desejo exp\u00f4-la a uma desilus\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Qual desilus\u00e3o! disse o major sorrindo. Gosto de ouvir-te falar essa linguagem po\u00e9tica, mas casamento n\u00e3o \u00e9 poesia. \u00c9 verdade que \u00e9 bom que duas pessoas antes de se casarem se tenham j\u00e1 alguma estima m\u00fatua. Isso creio que tens. L\u00e1 fogos ardentes, meu rico sobrinho, s\u00e3o cousas que ficam bem em verso, e mesmo em prosa; mas na vida, que n\u00e3o \u00e9 prosa nem verso, o casamento apenas exige certa conformidade de g\u00eanio, de educa\u00e7\u00e3o e de estima.<\/p>\n<p>&#8211; Meu tio sabe que eu n\u00e3o me recuso a uma ordem sua.<\/p>\n<p>&#8211; Ordem, n\u00e3o! N\u00e3o te ordeno, proponho. Dizes que n\u00e3o amas tua prima; pois bem, faze por isso, e daqui a algum tempo casem-se que me dar\u00e3o gosto. O que eu quero \u00e9 que seja cedo, porque n\u00e3o estou longe de dar \u00e0 casca.<\/p>\n<p>O rapaz disse que sim. Adiou a dificuldade n\u00e3o podendo resolv\u00ea-la. O major ficou satisfeito com o arranjo e consolou a sobrinha com a promessa de que podia casar-se um dia com o primo. Era a primeira vez que o velho tocava em semelhante assunto, e Adelaide n\u00e3o dissimulou o seu espanto, espanto que lisonjeou profundamente a perspic\u00e1cia do major.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! tu pensas, disse ele, que eu por ser velho j\u00e1 perdi os olhos do cora\u00e7\u00e3o? Vejo tudo, Adelaide; vejo aquilo mesmo que se quer esconder.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a n\u00e3o p\u00f4de reter algumas l\u00e1grimas, e como o velho a consolasse dando-lhe esperan\u00e7as, ela respondeu abanando a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Esperan\u00e7as, nenhuma!<\/p>\n<p>&#8211; Descansa em mim! disse o major.<\/p>\n<p>Conquanto a dedica\u00e7\u00e3o do tio fosse toda espont\u00e2nea e filha do amor que votava \u00e0 sobrinha, esta compreendeu que semelhante interven\u00e7\u00e3o podia fazer supor ao primo que ela esmolava os afetos do seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui falou o orgulho da mulher, que preferia o sofrimento \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o. Quando ela exp\u00f4s estas obje\u00e7\u00f5es ao tio, o major sorriu-se afavelmente e procurou acalmar a susceptibilidade da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Passaram-se alguns dias sem mais incidente; o rapaz estava no gozo da dila\u00e7\u00e3o que lhe dera o tio. Adelaide readquiriu o seu ar frio e indiferente. Soares compreendia o motivo, e \u00e0quela manifesta\u00e7\u00e3o do orgulho respondia com um sorriso. Duas vezes notou Adelaide essa express\u00e3o de desd\u00e9m da parte do primo. Que mais precisava para reconhecer que o rapaz sentia por ela a mesma indiferen\u00e7a de outro tempo! Acrescia que sempre que os dous se encontravam s\u00f3s, Soares era o primeiro que se afastava dela. Era o mesmo homem.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o me ama, n\u00e3o me amar\u00e1 nunca!&#8221; dizia a mo\u00e7a consigo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Um dia de manh\u00e3 o major Vilela recebeu a seguinte carta:<\/p>\n<p>Meu valente major.<\/p>\n<p>Cheguei da Bahia hoje mesmo, e l\u00e1 irei de tarde para ver-te e abra\u00e7ar-te. Prepara um jantar. Creio que me n\u00e3o h\u00e1s de receber como qualquer indiv\u00edduo. N\u00e3o esque\u00e7as o vatap\u00e1.<\/p>\n<p>Teu amigo, Anselmo.<br \/>\n&#8211; Bravo! disse o major. Temos c\u00e1 o Anselmo; prima Ant\u00f4nia, mande fazer um bom vatap\u00e1.<\/p>\n<p>O Anselmo que chegara da Bahia chamava-se Anselmo Barroso de Vasconcelos. Era um fazendeiro rico, e veterano da independ\u00eancia. Com os seus setenta e oito anos ainda se mostrava rijo e capaz de grandes feitos. Tinha sido \u00edntimo amigo do pai de Adelaide, que o apresentou ao major, vindo a ficar amigo deste depois que o outro morrera. Anselmo acompanhou o amigo at\u00e9 os seus \u00faltimos instantes; e chorou a perda como se fora seu pr\u00f3prio irm\u00e3o. As l\u00e1grimas cimentaram a amizade entre ele e o major.<\/p>\n<p>De tarde apareceu Anselmo galhofeiro e vivo como se come\u00e7asse para ele uma nova mocidade. Abra\u00e7ou a todos; deu um beijo em Adelaide, a quem felicitou pelo desenvolvimento das suas gra\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se ria de mim, disse-lhe ele, eu fui o maior amigo de seu pai. Pobre amigo! morreu nos meus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Soares, que sofria com a monotonia da vida que levava em casa do tio, alegrou-se com a presen\u00e7a do galhofeiro anci\u00e3o, que era um verdadeiro fogo de artif\u00edcio. Anselmo \u00e9 que pareceu n\u00e3o simpatizar com o sobrinho do major. Quando o major ouviu isto, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Sinto muito, porque Soares \u00e9 um rapaz s\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que \u00e9 s\u00e9rio demais. Rapaz que n\u00e3o ri&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei que incidente interrompeu a frase do fazendeiro.<\/p>\n<p>Depois do jantar Anselmo disse ao major:<\/p>\n<p>&#8211; Quantos s\u00e3o amanh\u00e3?<\/p>\n<p>&#8211; Quinze.<\/p>\n<p>&#8211; De que m\u00eas?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 boa! de dezembro.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; amanh\u00e3 15 de dezembro preciso ter uma confer\u00eancia contigo e os teus parentes. Se o vapor se demora um dia em caminho pregava-me uma boa pe\u00e7a.<\/p>\n<p>No dia seguinte verificou-se a confer\u00eancia pedida por Anselmo. Estavam presentes o major, Soares, Adelaide e D. Ant\u00f4nia, \u00fanicos parentes do finado.<\/p>\n<p>&#8211; Fazem hoje dez anos que faleceu o pai desta menina, disse Anselmo apontando para Adelaide. Como sabem, o Dr. Bento Varela foi o meu melhor amigo, e eu tenho consci\u00eancia de haver correspondido \u00e0 sua afei\u00e7\u00e3o at\u00e9 aos \u00faltimos instantes. Sabem que ele era um g\u00eanio exc\u00eantrico; toda a sua vida foi uma grande originalidade. Ideava vinte projetos, qual mais grandioso, qual mais imposs\u00edvel, sem chegar ao cabo de nenhum, porque o seu esp\u00edrito criador t\u00e3o depressa compunha uma cousa como entrava a planear outra.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, interrompeu o major.<\/p>\n<p>&#8211; O Bento morreu nos meus bra\u00e7os, e como derradeira prova da sua amizade confiou-me um papel com a declara\u00e7\u00e3o de que eu s\u00f3 o abrisse em presen\u00e7a dos seus parentes dez anos depois de sua morte. No caso de eu morrer os meus herdeiros assumiriam essa obriga\u00e7\u00e3o; em falta deles, o major, a Sra. D. Adelaide, enfim qualquer pessoa que por la\u00e7o de sangue estivesse ligada a ele. Enfim, se ningu\u00e9m houvesse na classe mencionada, ficava incumbido um tabeli\u00e3o. Tudo isto havia eu declarado em testamento, que vou reformar. O papel a que me refiro, tenho aqui no bolso.<\/p>\n<p>Houve um movimento de curiosidade.<\/p>\n<p>Anselmo tirou do bolso uma carta fechada com lacre preto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 este, disse ele. Est\u00e1 intato. N\u00e3o conhe\u00e7o o texto; mas posso mais ou menos saber o que est\u00e1 dentro por circunst\u00e2ncias que vou referir.<\/p>\n<p>Redobrou a aten\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>&#8211; Antes de morrer, continuou Anselmo, o meu querido amigo entregou-me uma parte da sua fortuna, quero dizer a maior parte, porque a menina recebeu apenas trinta contos. Eu recebi dele trezentos contos, que guardei at\u00e9 hoje intatos, e que devo restituir segundo as indica\u00e7\u00f5es desta carta.<\/p>\n<p>A um movimento de espanto em todos seguiu-se um movimento de ansiedade. Qual seria a vontade misteriosa do pai de Adelaide? D. Ant\u00f4nia lembrou-se que em rapariga fora namorada do defunto, e por um momento lisonjeou-se com a id\u00e9ia de que o velho man\u00edaco se houvesse lembrado dela \u00e0s portas da morte.<\/p>\n<p>&#8211; Nisto reconhe\u00e7o eu o mano Bento, disse o major tomando uma pitada; era o homem dos mist\u00e9rios, das surpresas e das id\u00e9ias extravagantes, seja dito sem agravo aos seus pecados, se \u00e9 que os teve&#8230;<\/p>\n<p>Anselmo tinha aberto a carta. Todos prestaram ouvidos. O veterano leu o seguinte:<\/p>\n<p>Meu bom e estimad\u00edssimo Anselmo.<\/p>\n<p>Quero que me prestes o \u00faltimo favor. Tens contigo a maior parte da minha fortuna, e eu diria a melhor se tivesse de aludir \u00e0 minha querida filha Adelaide. Guarda esses trezentos contos at\u00e9 daqui a dez anos, e ao terminar o prazo, l\u00ea esta carta diante dos meus parentes.<\/p>\n<p>Se nessa \u00e9poca a minha filha Adelaide for viva e casada entrega-lhe a fortuna. Se n\u00e3o estiver casada, entrega-lha tamb\u00e9m, mas com uma condi\u00e7\u00e3o: \u00e9 que se case com o sobrinho Lu\u00eds Soares, filho de minha irm\u00e3 Lu\u00edsa; quero-lhe muito, e apesar de ser rico, desejo que entre na posse da fortuna com minha filha. No caso em que esta se recuse a esta condi\u00e7\u00e3o, fica tu com a fortuna toda.<\/p>\n<p>Quando Anselmo acabou de ler esta carta seguiu-se um sil\u00eancio de surpresa geral, de que partilhava o pr\u00f3prio veterano, alheio at\u00e9 ent\u00e3o ao conte\u00fado da carta.<\/p>\n<p>Soares tinha os olhos em Adelaide; esta tinha-os no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Como o sil\u00eancio se prolongasse, Anselmo resolveu romp\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Ignorava, como todos, disse ele, o que esta carta cont\u00e9m; felizmente chega ela a tempo de se realizar a \u00faltima vontade do meu finado amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida nenhuma, disse o major. Ouvindo isto, a mo\u00e7a levantou insensivelmente os olhos para o primo, e os dela encontraram-se com os dele. Os dele transbordavam de contentamento e ternura; a mo\u00e7a fitou-os durante alguns instantes. Um sorriso, j\u00e1 n\u00e3o zombeteiro, passou pelos l\u00e1bios do rapaz. A mo\u00e7a sorriu com tamanho desd\u00e9m \u00e0s zumbaias de um cortes\u00e3o.<\/p>\n<p>Anselmo levantou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Agora que est\u00e3o cientes, disse ele aos dous primos, espero que resolvam, e como o resultado n\u00e3o pode ser duvidoso, desde j\u00e1 os felicito. Entretanto, h\u00e3o de dar-me licen\u00e7a, que tenho de ir a outras partes.<\/p>\n<p>Com a sa\u00edda de Anselmo dispersara-se a reuni\u00e3o. Adelaide foi para o seu quarto com a velha parenta. O tio e o sobrinho ficaram na sala.<\/p>\n<p>&#8211; Lu\u00eds, disse o primeiro, \u00e9s o homem mais feliz do mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-lhe, meu tio? disse o mo\u00e7o procurando disfar\u00e7ar a sua alegria.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s. Tens uma mo\u00e7a que te ama loucamente. De repente cai-lhe nas m\u00e3os uma fortuna inesperada; e essa fortuna s\u00f3 pode hav\u00ea-la com a condi\u00e7\u00e3o de se casar contigo. At\u00e9 os mortos trabalham a teu favor.<\/p>\n<p>&#8211; Afirmo-lhe, meu tio, que a fortuna n\u00e3o pesa nada nestes casos, e se eu assentar em casar com a prima ser\u00e1 por outro motivo.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei que a riqueza n\u00e3o \u00e9 essencial; n\u00e3o \u00e9. Mas enfim vale alguma cousa. \u00c9 melhor ter trezentos contos que trinta; sempre \u00e9 mais uma cifra. Contudo n\u00e3o te aconselho que te cases com ela se n\u00e3o tiveres alguma afei\u00e7\u00e3o. Nota que eu n\u00e3o me refiro a essas paix\u00f5es de que me falaste. Casar mal, apesar da riqueza, \u00e9 sempre casar mal.<\/p>\n<p>&#8211; Estou convencido disto, meu tio. Por isso ainda n\u00e3o dei a minha resposta, nem dou por ora. Se eu vier a afei\u00e7oar-me \u00e0 prima estou pronto a entrar na posse dessa inesperada riqueza.<\/p>\n<p>Como o leitor ter\u00e1 adivinhado, a resolu\u00e7\u00e3o do casamento estava assentada no esp\u00edrito de Soares. Em vez de esperar a morte do tio, parecia-lhe melhor entrar desde logo na posse de um excelente pec\u00falio, o que se lhe afigurava tanto mais f\u00e1cil, quanto que era a voz do t\u00famulo que o impunha.<\/p>\n<p>Soares contava tamb\u00e9m com a profunda venera\u00e7\u00e3o de Adelaide por seu pai. Isto, ligado ao amor que a rapariga sentia por ele, devia produzir o desejado efeito.<\/p>\n<p>Nessa noite o rapaz dormiu pouco. Sonhou com o Oriente. Pintou-lhe a imagina\u00e7\u00e3o um har\u00e9m recendente das melhores ess\u00eancias da Ar\u00e1bia, forrado o ch\u00e3o com tapetes da P\u00e9rsia; sobre moles div\u00e3s ostentavam-se as mais perfeitas belezas do mundo. Uma circassiana dan\u00e7ava no meio do sal\u00e3o ao som de um pandeiro de marfim. Mas um furioso eunuco, precipitando-se na sala com o iatag\u00e3 desembainhado, enterrou-o todo no peito de Soares, que acordou com o pesadelo, e n\u00e3o p\u00f4de mais conciliar o sono.<\/p>\n<p>Levantou-se mais cedo e foi passear at\u00e9 chegar a hora do almo\u00e7o e da reparti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>O plano de Lu\u00eds Soares estava feito.<\/p>\n<p>Tratava-se de abater as armas pouco a pouco, simulando-se vencido diante da influ\u00eancia de Adelaide. A circunst\u00e2ncia da riqueza tornava necess\u00e1ria toda a discri\u00e7\u00e3o. A transi\u00e7\u00e3o devia ser lenta. Cumpria ser diplomata.<\/p>\n<p>Os leitores ter\u00e3o visto que, apesar de certa arg\u00facia da parte de Soares, n\u00e3o tinha ele a perfeita compreens\u00e3o das cousas, e por outro lado o seu car\u00e1ter era indeciso e v\u00e1rio.<\/p>\n<p>Hesitara em casar com Adelaide quando o tio lhe falou nisso, quando era certa que viria a obter mais tarde a fortuna do major. Dizia ent\u00e3o que n\u00e3o tinha voca\u00e7\u00e3o de papagaio. A situa\u00e7\u00e3o agora era a mesma; aceitava uma fortuna mediante uma pris\u00e3o. \u00c9 verdade que se esta resolu\u00e7\u00e3o era contr\u00e1ria \u00e0 primeira, podia ter por causa o cansa\u00e7o que lhe ia produzindo a vida que levava. Al\u00e9m de que, desta vez, a riqueza n\u00e3o se fazia esperar; era entregue logo depois do cons\u00f3rcio.<\/p>\n<p>&#8220;Trezentos contos, pensava o rapaz, \u00e9 quanto basta para eu ser mais do que fui. O que n\u00e3o h\u00e3o de dizer os outros!&#8221;<\/p>\n<p>Antevendo uma felicidade que era certa para ele, Soares come\u00e7ou o ass\u00e9dio da pra\u00e7a, ali\u00e1s pra\u00e7a rendida.<\/p>\n<p>J\u00e1 o rapaz procurava os olhos da prima, j\u00e1 os encontrava, j\u00e1 lhes pedia aquilo que recusara at\u00e9 ent\u00e3o, o amor da mo\u00e7a. Quando, \u00e0 mesa, as suas m\u00e3os se encontravam, Soares tinha o cuidado de demorar o contacto, e se a mo\u00e7a retirava a sua m\u00e3o, o rapaz nem por isso desanimava. Quando se encontrava a s\u00f3s com ela, n\u00e3o fugia como outrora, antes lhe dirigia alguma palavra, a que Adelaide respondia com fria polidez.<\/p>\n<p>&#8220;Quer vender o peixe caro&#8221;, pensava Soares.<\/p>\n<p>Uma vez atreveu-se a mais. Adelaide tocava piano quando ele entrou sem que ela o visse. Quando a mo\u00e7a acabou, Soares estava por tr\u00e1s dela.<\/p>\n<p>&#8211; Que lindo! disse o rapaz; deixe-me beijar-lhe essas m\u00e3os inspiradas.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a olhou s\u00e9ria para ele, pegou no len\u00e7o que pusera sobre o piano, e saiu sem dizer palavra.<\/p>\n<p>Esta cena mostrou a Soares toda a dificuldade da empresa; mas o rapaz confiava em si, n\u00e3o porque se reconhecesse capaz de grandes energias, mas por esp\u00e9cie de esperan\u00e7a na sua boa estrela.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 dif\u00edcil subir a corrente, disse ele, mas sobe-se. N\u00e3o se fazem Alexandres na conquista de pra\u00e7as desarmadas.<\/p>\n<p>Contudo, as desilus\u00f5es iam-se sucedendo, e o rapaz, se o n\u00e3o alentasse a id\u00e9ia da riqueza, teria abatido as armas.<\/p>\n<p>Um dia lembrou-se de escrever-lhe uma carta. Lembrou-se de que era dif\u00edcil expor-lhe de viva voz tudo quanto sentia; mas que uma carta, por muito \u00f3dio que ela lhe tivesse, sempre seria lida.<\/p>\n<p>Adelaide devolveu a carta pelo moleque da casa que lha havia entregue.<\/p>\n<p>A segunda carta teve a mesma sorte. Quando mandou a terceira, o moleque n\u00e3o a quis receber.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Soares teve um instante de desengano. Indiferente \u00e0 mo\u00e7a, j\u00e1 come\u00e7ava a odi\u00e1-la; se casasse com ela era prov\u00e1vel que a tratasse como inimigo mortal.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o tornava-se rid\u00edcula para ele; ou antes, j\u00e1 o era h\u00e1 muito, mas Soares s\u00f3 ent\u00e3o o compreendeu. Para escapar ao rid\u00edculo, resolveu dar um golpe final, mas grande. Aproveitou a primeira ocasi\u00e3o que p\u00f4de, e fez uma declara\u00e7\u00e3o positiva \u00e0 mo\u00e7a, cheia de s\u00faplicas, de suspiros, talvez de l\u00e1grimas. Confessou os seu erros; reconheceu que n\u00e3o a havia compreendido; mas arrependera-se e confessava tudo. A influ\u00eancia dela acabara por abat\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Abat\u00ea-lo! disse ela; n\u00e3o compreendo. A que influ\u00eancia alude?<\/p>\n<p>&#8211; Bem sabe; \u00e0 influ\u00eancia da sua beleza, do seu amor&#8230; N\u00e3o suponha que lhe estou mentindo. Sinto-me hoje t\u00e3o apaixonado que era capaz de cometer um crime!<\/p>\n<p>&#8211; Um crime?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 crime o suic\u00eddio? De que me serviria a vida sem o seu amor? Vamos, fale!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a olhou para ele durante alguns instantes sem dizer palavra.<\/p>\n<p>O rapaz ajoelhou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Ou seja a morte, ou seja a felicidade, disse ele, quero receb\u00ea-la de joelhos.<\/p>\n<p>Adelaide sorriu e soltou lentamente estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Trezentos contos! \u00c9 muito dinheiro para comprar um miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>E deu-lhe as costas.<\/p>\n<p>Soares ficou petrificado. Durante alguns minutos conservou-se na mesma posi\u00e7\u00e3o, com os olhos fitos na mo\u00e7a que se afastava lentamente. O rapaz dobrava-se ao peso da humilha\u00e7\u00e3o. N\u00e3o previra t\u00e3o cruel desforra da parte de Adelaide. Nem uma palavra de \u00f3dio, nem um ind\u00edcio de raiva; apenas um calmo desd\u00e9m, um desprezo tranq\u00fcilo e soberano. Soares sofrera muito quando perdeu a fortuna; mas agora que o seu orgulho foi humilhado, a sua dor foi infinitamente maior.<\/p>\n<p>Pobre rapaz!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a foi para dentro. Parece que contava com aquela cena; porque entrando em casa, foi logo procurar o tio, e declarou-lhe que, apesar de quanto venerava a mem\u00f3ria do pai, n\u00e3o podia obedecer-lhe, e desistia do casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o o amas tu? perguntou-lhe o major.<\/p>\n<p>&#8211; Amei-o.<\/p>\n<p>&#8211; Amas a outro?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o explica-te.<\/p>\n<p>Adelaide exp\u00f4s francamente o procedimento de Soares desde que ali entrara, a mudan\u00e7a que fizera, a sua ambi\u00e7\u00e3o, a cena do jardim. O major ouviu atentamente a mo\u00e7a, procurou desculpar o sobrinho, mas no fundo ele acreditava que Soares era um mau car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Este, depois que p\u00f4de refrear a sua c\u00f3lera, entrou em casa e foi despedir-se do tio at\u00e9 o dia seguinte.<\/p>\n<p>Pretextou que tinha um neg\u00f3cio urgente.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>Adelaide contou miudamente ao amigo de seu pai os sucessos que a obrigavam a n\u00e3o preencher a condi\u00e7\u00e3o da carta p\u00f3stuma confiada a Anselmo. Em conseq\u00fc\u00eancia desta recusa, a fortuna devia ficar com Anselmo; a mo\u00e7a contentava-se com o que tinha.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deu Anselmo por vencido, e antes de aceitar a recusa foi ver se sondava o esp\u00edrito de Lu\u00eds Soares.<\/p>\n<p>Quando o sobrinho do major viu entrar por casa o fazendeiro suspeitou que alguma cousa houvesse a respeito do casamento. Anselmo era perspicaz; de modo que, apesar da apar\u00eancia de v\u00edtima com que Soares lhe aparecera, compreendeu ele que Adelaide tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim pois tudo estava acabado. Anselmo disp\u00f4s-se a partir para a Bahia, e assim o declarou \u00e0 fam\u00edlia do major.<\/p>\n<p>Nas v\u00e9speras de partir achavam-se todos juntos na sala de visitas, quando Anselmo soltou estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Major, est\u00e1 ficando melhor e forte; eu creio que uma viagem \u00e0 Europa lhe far\u00e1 bem. Esta mo\u00e7a tamb\u00e9m gostar\u00e1 de ver a Europa, e creio que a Sra. D. Ant\u00f4nia, apesar da idade, l\u00e1 querer\u00e1 ir. Pela minha parte sacrifico a Bahia e vou tamb\u00e9m. Aprovam o conselho?<\/p>\n<p>&#8211; Homem, disse o major, \u00e9 preciso pensar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual pensar! Se pensarem n\u00e3o embarcar\u00e3o. Que diz a menina?<\/p>\n<p>&#8211; Eu obede\u00e7o ao tio, respondeu Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00e9m de que, disse Anselmo, agora que D. Adelaide est\u00e1 de posse de uma grande fortuna, h\u00e1 de querer apreciar o que h\u00e1 de bonito nos pa\u00edses estrangeiros a fim de poder melhor avaliar o que h\u00e1 no nosso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, disse o major; mas voc\u00ea fala de grande fortuna&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Trezentos contos.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o seus.<\/p>\n<p>&#8211; Meus! Ent\u00e3o sou algum ratoneiro? Que me importa a mim a fantasia de um generoso amigo? O dinheiro \u00e9 desta menina, sua leg\u00edtima herdeira, e n\u00e3o meu, que ali\u00e1s tenho bastante.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 bonito, Anselmo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que n\u00e3o seria se n\u00e3o fosse isto?<\/p>\n<p>A viagem \u00e0 Europa ficou assentada.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Soares ouviu a conversa toda sem dizer palavra; mas a id\u00e9ia de que talvez pudesse ir com o tio sorriu-lhe ao esp\u00edrito. No dia seguinte teve um desengano cruel. Disse-lhe o major que, antes de partir, o deixaria recomendado ao ministro.<\/p>\n<p>Soares procurou ainda ver se alcan\u00e7ava seguir com a fam\u00edlia. Era simples cobi\u00e7a na fortuna do tio, desejo de ver novas terras, ou impulso de vingan\u00e7a contra a prima? Era tudo isso, talvez.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00faltima hora foi-se a derradeira esperan\u00e7a. A fam\u00edlia partiu sem ele.<\/p>\n<p>Abandonado, pobre, tendo por \u00fanica perspectiva o trabalho di\u00e1rio, sem esperan\u00e7as no futuro, e al\u00e9m do mais, humilhado e ferido em seu amor-pr\u00f3prio, Soares tomou a triste resolu\u00e7\u00e3o dos cobardes.<\/p>\n<p>Um dia de noite o criado ouviu no quarto dele um tiro; correu, achou um cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Pires soube na rua da not\u00edcia, e correu \u00e0 casa de Vit\u00f3ria, que encontrou no toucador.<\/p>\n<p>&#8211; Sabes de uma cousa? perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; O Soares matou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Quando?<\/p>\n<p>&#8211; Neste momento.<\/p>\n<p>&#8211; Coitado! \u00c9 s\u00e9rio?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 s\u00e9rio. Vais sair?<\/p>\n<p>&#8211; Vou ao Alcazar.<\/p>\n<p>&#8211; Canta-se hoje Barbe-Bleue, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu tamb\u00e9m vou.<\/p>\n<p>E entrou a cantarolar a can\u00e7\u00e3o de Barbe-Bleue.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Soares n\u00e3o teve outra ora\u00e7\u00e3o f\u00fanebre dos seus amigos mais \u00edntimos.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo Primeiro Trocar o dia pela noite, dizia Lu\u00eds Soares, \u00e9 restaurar o imp\u00e9rio da natureza corrigindo a obra da sociedade. O calor do sol est\u00e1 dizendo aos homens que v\u00e3o descansar e dormir, ao passo que a frescura relativa da noite \u00e9 a verdadeira esta\u00e7\u00e3o em que se deve viver. 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