{"id":118644,"date":"2017-04-06T19:30:21","date_gmt":"2017-04-06T21:30:21","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118644"},"modified":"2017-04-06T19:30:21","modified_gmt":"2017-04-06T21:30:21","slug":"linha-reta-e-linha-curva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/linha-reta-e-linha-curva","title":{"rendered":"Linha Reta e Linha Curva"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo Primeiro<\/h2>\n<p>Era em Petr\u00f3polis, no ano de 186&#8230; J\u00e1 se v\u00ea que a minha hist\u00f3ria n\u00e3o data de longe. \u00c9 tomada dos anais contempor\u00e2neos e dos costumes atuais. Talvez algum dos leitores conhe\u00e7a at\u00e9 as personagens que v\u00e3o figurar neste pequeno quadro. N\u00e3o ser\u00e1 raro que, encontrando uma delas amanh\u00e3, Azevedo, por exemplo, um dos meus leitores exclame:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! c\u00e1 vi uma hist\u00f3ria em que se falou de ti. N\u00e3o te tratou mal o autor. Mas a semelhan\u00e7a era tamanha, houve t\u00e3o pouco cuidado em disfar\u00e7ar a fisionomia, que eu, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que voltava a p\u00e1gina, dizia comigo: \u00c9 o Azevedo, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n<p>Feliz Azevedo! A hora em que come\u00e7a essa narrativa \u00e9 ele um marido feliz, inteiramente feliz.Casado de fresco, possuindo por mulher a mais formosa dama da sociedade, e a melhor alma que ainda se encarnou ao sol da Am\u00e9rica, dono de algumas propriedades bem situadas e perfeitamente rendosas, acatado, querido, descansado, tal \u00e9 o nosso Azevedo, a quem por<br \/>\nc\u00famulo de ventura coroam os mais belos vinte e seis anos.<\/p>\n<p>Deu-lhe a fortuna um emprego suave: n\u00e3o fazer nada. Possui um diploma de bacharel em direito; mas esse diploma nunca lhe serviu; existe guardado no fundo da lata cl\u00e1ssica em que o trouxe da Faculdade de S\u00e3o Paulo. De quando em quando Azevedo faz uma visita ao diploma, ali\u00e1s ganho legitimamente, mas \u00e9 para n\u00e3o o ver mais sen\u00e3o da\u00ed a longo tempo. N\u00e3o \u00e9 um<br \/>\ndiploma, \u00e9 uma rel\u00edquia.<\/p>\n<p>Quando Azevedo saiu da faculdade de S\u00e3o Paulo e voltou para a fazenda da prov\u00edncia de Minas Gerais, tinha um projeto: ir \u00e0 Europa. No fim de alguns meses o pai consentiu na viagem, e Azevedo preparou-se para realiz\u00e1-la. Chegou \u00e0 corte no prop\u00f3sito firme de tomar lugar no primeiro paquete que sa\u00edsse; mas nem tudo depende da vontade do homem. Azevedo foi a um baile antes de partir; a\u00ed estava armada uma rede em que ele devia ser colhido. Que rede! Vinte anos, uma figura delicada, esbelta, franzina, uma dessas figuras vaporosas que parecem desfazer-se ao primeiro raio do sol. Azevedo n\u00e3o foi senhor de si: apaixonou-se; da\u00ed a um m\u00eas casou-se, e da\u00ed a oito dias partiu para Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>Que casa encerraria aquele casal t\u00e3o belo, t\u00e3o amante e t\u00e3o feliz? N\u00e3o podia ser mais pr\u00f3pria a casa escolhida; era um edif\u00edcio leve, delgado, elegante, mais de recreio que de morada; um verdadeiro ninho para aquelas duas pombas fugitivas.<\/p>\n<p>A nossa hist\u00f3ria come\u00e7a exatamente tr\u00eas meses depois da ida para Petr\u00f3polis. Azevedo e a mulher amavam-se ainda como no primeiro dia. O amor tomava ent\u00e3o uma for\u00e7a maior e nova; \u00e9 que&#8230; devo diz\u00ea-lo, \u00f3 casais de tr\u00eas meses? \u00e9 que apontava no horizonte o primeiro filho. Tamb\u00e9m a terra e o c\u00e9u se alegram quando aponta no horizonte o primeiro raio do sol. A figura<br \/>\nn\u00e3o vem aqui por simples ornato de estilo; \u00e9 uma dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica: a mulher de Azevedo chamava-se Adelaide.<\/p>\n<p>Era, pois, em Petr\u00f3polis, numa tarde de dezembro de 186&#8230; Azevedo e Adelaide estavam no jardim que ficava em frente da casa onde ocultavam a sua felicidade. Azevedo lia alto; Adelaide ouvia-o ler, mas como se ouve um eco do cora\u00e7\u00e3o, tanto a voz do marido e as palavras da obra correspondiam ao sentimento interior da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>No fim de algum tempo Azevedo deteve-se e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Queres que paremos aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Como quiseres, disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 melhor, disse Azevedo fechando o livro. As cousas boas n\u00e3o se gozam de uma assentada. Guardemos um pouco para a noite. Demais, era j\u00e1 tempo que eu passasse do id\u00edlio escrito para o id\u00edlio vivo. Deixa-me olhar para ti.<\/p>\n<p>Adelaide olhou para ele e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Parece que come\u00e7amos a lua-de-mel.<\/p>\n<p>&#8211; Parece e \u00e9, acrescentou Azevedo; e se o casamento n\u00e3o fosse eternamente isto, o que poderia ser? A liga\u00e7\u00e3o de duas exist\u00eancias para meditar discretamente na melhor maneira de comer o maxixe e o repolho? Ora, pelo amor de Deus! Eu penso que o casamento deve ser um namoro eterno. N\u00e3o pensas como eu?<\/p>\n<p>&#8211; Sinto, disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Sentes, \u00e9 quanto basta.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que as mulheres sintam \u00e9 natural; os homens&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Os homens, s\u00e3o homens.<\/p>\n<p>&#8211; O que nas mulheres \u00e9 sentimento, nos homens \u00e9 pieguice; desde pequena me dizem isto.<\/p>\n<p>&#8211; Enganam-te desde pequena, disse Azevedo rindo.<\/p>\n<p>&#8211; Antes isso!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a verdade. E desconfia sempre dos que mais falam, sejam homens ou mulheres. Tens perto um exemplo. A Em\u00edlia fala muito da sua isen\u00e7\u00e3o. Quantas vezes se casou? At\u00e9 aqui duas, e est\u00e1 nos vinte e cinco anos. Era melhor calar-se mais e casar-se menos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas nela \u00e9 brincadeira, disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o. O que n\u00e3o \u00e9 brincadeira \u00e9 que os tr\u00eas meses do nosso casamento parecem-me tr\u00eas minutos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas meses! exclamou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Como foge o tempo! disse Azevedo.<\/p>\n<p>&#8211; Dir\u00e1s sempre o mesmo? perguntou Adelaide com um gesto de incredulidade.<\/p>\n<p>Azevedo abra\u00e7ou-a e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Duvidas?<\/p>\n<p>&#8211; Receio. \u00c9 t\u00e3o bom ser feliz!<\/p>\n<p>&#8211; S\u00ea-lo-\u00e1s sempre e do mesmo modo. De outro n\u00e3o entendo eu.<\/p>\n<p>Neste momento ouviram os dous uma voz que partia da porta do jardim.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 que n\u00e3o entendes? dizia essa voz.<\/p>\n<p>Olharam.<\/p>\n<p>\u00c0 porta do jardim estava um homem alto, bem parecido, trajando com eleg\u00e2ncia, luvas cor de<br \/>\npalha, chicotinho na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Azevedo pareceu ao princ\u00edpio n\u00e3o conhec\u00ea-lo. Adelaide olhava para um e para outro sem compreender nada. Tudo isto, por\u00e9m, n\u00e3o passou de um minuto; no fim dele Azevedo exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o Tito! Entra, Tito!<\/p>\n<p>Tito entrou galhardamente no jardim; abra\u00e7ou Azevedo e fez um cumprimento gracioso a Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 minha mulher, disse Azevedo apresentando Adelaide ao rec\u00e9m-chegado.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 o suspeitava, respondeu Tito; e aproveito a ocasi\u00e3o para dar-te os meus parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>&#8211; Recebeste a nossa carta de participa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Em Valpara\u00edso.<\/p>\n<p>&#8211; Anda sentar-te e conta-me a tua viagem.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 longo, disse Tito sentando-se. O que te posso contar \u00e9 que desembarquei ontem no Rio. Tratei de indagar a tua morada. Disseram-me que estavas temporariamente em Petr\u00f3polis. Descansei, mas logo hoje tomei a barca da Prainha e aqui estou. Eu j\u00e1 suspeitava que com o teu esp\u00edrito de poeta irias esconder tua felicidade em algum recanto do mundo. Com efeito, isto \u00e9 verdadeiramente uma nesga do para\u00edso. Jardim, caramanch\u00f5es, uma casa leve e elegante, um livro. Bravo! Mar\u00edlia de Dirceu&#8230; \u00c9 completo! Tityre, tu patulae. Caio no meio de um id\u00edlio. Pastorinha, onde est\u00e1 o cajado?<\/p>\n<p>Adelaide ri \u00e0s gargalhadas.<\/p>\n<p>Tito continua:<\/p>\n<p>&#8211; Ri mesmo como uma pastorinha alegre. E tu, Te\u00f3crito, que fazes? Deixas correr os dias como as \u00e1guas do Para\u00edba? Feliz criatura!<\/p>\n<p>&#8211; Sempre o mesmo! disse Azevedo.<\/p>\n<p>&#8211; O mesmo doudo? Acha que ele tem raz\u00e3o, minha senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Acho, se o n\u00e3o ofendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual ofender! Se eu at\u00e9 me honro com isso; sou um doudo inofensivo, isso \u00e9 verdade. Mas \u00e9 que realmente s\u00e3o felizes como poucos. H\u00e1 quantos meses se casaram?<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas meses faz domingo, respondeu Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Disse h\u00e1 pouco que me pareciam tr\u00eas minutos, acrescentou Azevedo.<\/p>\n<p>Tito olhou para ambos e disse sorrindo:<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas meses, tr\u00eas minutos! Eis toda a verdade da vida. Se os pusessem sobre uma grelha, como S\u00e3o Louren\u00e7o, cinco minutos eram cinco meses. E ainda se fala em tempo! H\u00e1 l\u00e1 tempo! O tempo est\u00e1 nas nossas impress\u00f5es. H\u00e1 meses para os infelizes e minutos para os venturosos!<\/p>\n<p>&#8211; Mas que ventura! exclama Azevedo.<\/p>\n<p>&#8211; Completa, n\u00e3o? Imagino! Marido de um serafim, nas gra\u00e7as e no cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o reparei que estava aqui&#8230; mas n\u00e3o precisa corar!&#8230; Disto me h\u00e1 de ouvir vinte vezes por dia; o que penso, digo. Como n\u00e3o te h\u00e3o de invejar os nossos amigos!<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; Pudera! Encafuado neste desv\u00e3o do mundo, de nada podes saber. E fazes bem. Isto de ser feliz \u00e0 vista de todos \u00e9 repartir a felicidade. Ora, para respeitar o princ\u00edpio devo ir-me j\u00e1 embora&#8230;<\/p>\n<p>Dizendo isto, Tito levantou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te disso: fica conosco.<\/p>\n<p>&#8211; Os verdadeiros amigos tamb\u00e9m s\u00e3o a felicidade, disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 at\u00e9 bom que aprendas em nossa escola a ci\u00eancia do casamento, acrescentou Azevedo.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea? perguntou Tito meneando o chicotinho.<\/p>\n<p>&#8211; Para te casares.<\/p>\n<p>&#8211; Hum!&#8230; fez Tito.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pretende? perguntou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s ainda o mesmo que em outro tempo?<\/p>\n<p>&#8211; O mesm\u00edssimo, respondeu Tito.<\/p>\n<p>Adelaide fez um gesto de curiosidade e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Tem horror ao casamento?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho voca\u00e7\u00e3o, respondeu Tito. \u00c9 puramente um caso de voca\u00e7\u00e3o. Quem a n\u00e3o tiver n\u00e3o se meta nisso, que \u00e9 perder o tempo e o sossego. Desde muito tempo estou convencido disto.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda te n\u00e3o bateu a hora.<\/p>\n<p>&#8211; Nem bate, disse Tito.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, se bem me lembro, disse Azevedo oferecendo-lhe um charuto, houve um dia em que fugiste \u00e0s teorias do costume: andavas ent\u00e3o apaixonado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Apaixonado, \u00e9 engano. Houve um dia em que a Provid\u00eancia trouxe uma confirma\u00e7\u00e3o aos meus instintos solit\u00e1rios. Meti-me a pretender uma senhora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade: foi um caso engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8211; Como foi o caso? perguntou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; O Tito viu em um baile uma rapariga. No dia seguinte apresenta-se em casa dela, e, sem mais nem menos, pede-lhe a m\u00e3o. Ela responde&#8230; que te respondeu?<\/p>\n<p>&#8211; Respondeu por escrito que eu era um tolo e me deixasse daquilo. N\u00e3o disse positivamente tolo, mas vinha a dar na mesma. \u00c9 preciso confessar que semelhante resposta n\u00e3o era pr\u00f3pria. Voltei atr\u00e1s e nunca mais amei.<\/p>\n<p>&#8211; Mas amou naquela ocasi\u00e3o? perguntou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se era amor, respondeu Tito, era uma cousa&#8230; Mas note, isto foi h\u00e1 uns bons cinco anos. Da\u00ed para c\u00e1 ningu\u00e9m mais me fez bater o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pior para ti.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei! disse Tito levantando os ombros. Se n\u00e3o tenho os gozos \u00edntimos do amor, n\u00e3o tenho nem os dissabores, nem os desenganos. \u00c9 j\u00e1 uma grande fortuna!<\/p>\n<p>&#8211; No verdadeiro amor n\u00e3o h\u00e1 nada disso, disse sentenciosamente a mulher de Azevedo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1? Deixemos o assunto; eu podia fazer um discurso a prop\u00f3sito, mas prefiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ficar conosco, Azevedo atalhou-o. Est\u00e1 sabido.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho essa inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas tenho eu. H\u00e1s de ficar.<\/p>\n<p>&#8211; Mas se eu j\u00e1 mandei o criado tomar alojamento no Hotel de Bragan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois manda contra-ordem. Fica comigo.<\/p>\n<p>&#8211; Insisto em n\u00e3o perturbar a tua paz.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te disso.<\/p>\n<p>&#8211; Fique! disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Ficarei.<\/p>\n<p>&#8211; E amanh\u00e3, continuou Adelaide, depois de ter descansado, h\u00e1 de nos dizer qual \u00e9 o segredo da isen\u00e7\u00e3o de que tanto se ufana.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 segredo, disse Tito. O que h\u00e1 \u00e9 isto. Entre um amor que se oferece e&#8230; uma partida de voltarete, n\u00e3o hesito, atiro-me ao voltarete. A prop\u00f3sito, Ernesto, sabes que encontrei no Chile um famoso parceiro de voltarete? Fez a casca mais temer\u00e1ria que tenho visto&#8230; sabe o que \u00e9 uma casca, minha senhora?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, respondeu Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu lhe explico.<\/p>\n<p>Azevedo olhou para fora e disse:<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed chega a D. Em\u00edlia.<\/p>\n<p>Com efeito \u00e0 porta do jardim parava uma senhora dando o bra\u00e7o a um velho de cinq\u00fcenta anos.<\/p>\n<p>D. Em\u00edlia era uma mo\u00e7a a que se pode chamar uma bela mulher; era alta na estatura e altiva de car\u00e1ter. O amor que pudesse infundir seria por imposi\u00e7\u00e3o. De suas maneiras e das suas gra\u00e7as inspirava um n\u00e3o sei que de rainha que dava vontade de lev\u00e1-la a um trono.<\/p>\n<p>Trajava com eleg\u00e2ncia e simplicidade. Ela tinha essa eleg\u00e2ncia natural que \u00e9 outra eleg\u00e2ncia diversa da eleg\u00e2ncia dos enfeites, a prop\u00f3sito da qual j\u00e1 tive ocasi\u00e3o de escrever esta m\u00e1xima: &#8220;Que h\u00e1 pessoas elegantes, e pessoas enfeitadas.&#8221;<\/p>\n<p>Olhos negros e rasgados, cheios de luz e de grandeza, cabelos castanhos e abundantes, nariz reto como o de Safo, boca vermelha e breve, faces de cetim, colo e bra\u00e7os como os das est\u00e1tuas, tais eram os tra\u00e7os da beleza de Em\u00edlia.<\/p>\n<p>Quanto ao velho que lhe dava o bra\u00e7o, era, como disse, um homem de cinq\u00fcenta anos. Era o que se chama em portugu\u00eas ch\u00e3o e rude, &#8211; um velho gaiteiro. Pintado, espartilhado, via-se nele uma como que ru\u00edna do passado reconstru\u00edda por m\u00e3os modernas, de modo a ter esse aspecto bastardo que n\u00e3o \u00e9 nem a austeridade da velhice, nem a frescura da mocidade. N\u00e3o<br \/>\nhavia d\u00favida de que o velho devia ter sido um belo rapaz em seus tempos; mas presentemente, se algumas conquistas tivesse feito, s\u00f3 podia contentar-se com a lembran\u00e7a delas.<\/p>\n<p>Quando Em\u00edlia entrou no jardim todos se achavam de p\u00e9. A rec\u00e9m-chegada apertou a m\u00e3o a Azevedo e foi beijar Adelaide. Ia sentar-se na cadeira que Azevedo lhe oferecera quando reparou em Tito que se achava a um lado.<\/p>\n<p>Os dous cumprimentaram-se, mas com ar diferente. Tito parecia tranq\u00fcilo e friamente polido; mas Em\u00edlia, depois de cumpriment\u00e1-lo, conservou os olhos fitos nele, como que avocando uma mem\u00f3ria do passado.<\/p>\n<p>Feitas as apresenta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, e a Diogo Franco (\u00e9 o nome do velho braceiro), todos tomaram assentos.<\/p>\n<p>A primeira que falou foi Em\u00edlia:<\/p>\n<p>&#8211; Ainda hoje n\u00e3o vinha se n\u00e3o fosse a obsequiosidade do Sr. Diogo.<\/p>\n<p>Adelaide olhou para o velho e disse:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Diogo \u00e9 uma maravilha.<\/p>\n<p>Diogo empertigou-se e murmurou com certo tom de mod\u00e9stia:<\/p>\n<p>&#8211; Nem tanto, nem tanto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, \u00e9, disse Em\u00edlia. N\u00e3o \u00e9 talvez uma, por\u00e9m duas maravilhas. Ah! sabes que me vai fazer um presente?<\/p>\n<p>&#8211; Um presente! exclamou Azevedo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, continuou Em\u00edlia, um presente que mandou vir da Europa e l\u00e1 dos confins; recorda\u00e7\u00f5es das suas viagens de adolescente.<\/p>\n<p>Diogo estava radiante.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma insignific\u00e2ncia, disse ele olhando ternamente para Em\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que \u00e9? perguntou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9&#8230; adivinhem? \u00c9 um urso branco!<\/p>\n<p>&#8211; Um urso branco!<\/p>\n<p>&#8211; Deveras?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 para chegar, mas s\u00f3 ontem \u00e9 que me deu not\u00edcia dele. Que am\u00e1vel lembran\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; Um urso! exclamou ainda Azevedo.<\/p>\n<p>Tito inclinou-se ao ouvido do amigo, e disse em voz baixa:<\/p>\n<p>&#8211; Com ele fazem dous.<\/p>\n<p>Diogo jubiloso pelo efeito que causava a not\u00edcia do presente, mas iludido no car\u00e1ter desse efeito disse:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vale a pena. \u00c9 um urso que eu mandei vir; \u00e9 verdade que eu pedi dos mais belos. N\u00e3o sabem o que \u00e9 um urso branco. Imaginem que \u00e9 todo branco.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! disse Tito.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um animal admir\u00e1vel! tornou Diogo.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que sim, disse Tito. Ora imagina tu o que n\u00e3o ser\u00e1 um urso branco que \u00e9 todo branco. Que faz este sujeito? perguntou ele em seguida a Azevedo.<\/p>\n<p>&#8211; Namora a Em\u00edlia; tem cinq\u00fcenta contos.<\/p>\n<p>&#8211; E ela?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o faz caso dele.<\/p>\n<p>&#8211; Diz ela?<\/p>\n<p>&#8211; E \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Enquanto os dous trocavam estas palavras, Diogo brincava com os sinetes do rel\u00f3gio e as duas senhoras conversavam. Depois das \u00faltimas palavras entre Azevedo e Tito, Em\u00edlia voltou-se para o marido de Adelaide e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e1-se isto, Sr. Azevedo? Ent\u00e3o faz-se anos nesta casa e n\u00e3o me convidam?<\/p>\n<p>&#8211; Mas a chuva? disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Ingrata! Bem sabes que n\u00e3o h\u00e1 chuva em casos tais.<\/p>\n<p>&#8211; Demais, acrescentou Azevedo, fez-se a festa t\u00e3o \u00e0 capucha.<\/p>\n<p>&#8211; Fosse como fosse, eu sou de casa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que a lua-de-mel continua apesar de cinco meses, disse Tito.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed vens tu com os teus epigramas, disse Azevedo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! isso \u00e9 mau, Sr. Tito!<\/p>\n<p>&#8211; Tito? perguntou Em\u00edlia a Adelaide em voz baixa.<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; D. Em\u00edlia n\u00e3o sabe ainda quem \u00e9 o nosso amigo Tito, disse Azevedo. Eu at\u00e9 tenho medo de diz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 muito feio o que tem para dizer?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez, disse Tito com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Muito feio! exclamou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 ent\u00e3o? perguntou Em\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um homem incapaz de amar, continuou Adelaide. N\u00e3o pode haver maior indiferen\u00e7a para o amor&#8230; Em resumo, prefere a um amor&#8230; o qu\u00ea? um voltarete.<\/p>\n<p>&#8211; Disse-te isso? perguntou Em\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; E repito, disse Tito. Mas note bem, n\u00e3o por elas, \u00e9 por mim. Acredito que todas as mulheres sejam credoras da minha adora\u00e7\u00e3o; mas eu \u00e9 que sou feito de modo que nada mais lhes posso conceder do que uma estima desinteressada.<\/p>\n<p>Em\u00edlia olhou para o mo\u00e7o e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o \u00e9 vaidade, \u00e9 doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de me perdoar, mas eu creio que n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a, nem vaidade. \u00c9 natureza: uns aborrecem as laranjas, outros aborrecem os amores: agora se o aborrecimento vem por causa das cascas, n\u00e3o sei; o que \u00e9 certo \u00e9 que \u00e9 assim.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ferino! disse Em\u00edlia olhando para Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Ferino, eu? disse Tito levantando-se. Sou uma seda, uma dama, um milagre de brandura&#8230; D\u00f3i-me, deveras, que eu n\u00e3o possa estar na linha dos outros homens, e n\u00e3o seja, como todos, propenso a receber as impress\u00f5es amorosas, mas que quer? a culpa n\u00e3o \u00e9 minha.<\/p>\n<p>&#8211; Anda l\u00e1, disse Azevedo, o tempo te h\u00e1 de mudar.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quando? Tenho vinte e nove anos feitos.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vinte e nove? perguntou Em\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Completei-os pela P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o parece.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o os seus bons olhos.<\/p>\n<p>A conversa continuou por este modo, at\u00e9 que se anunciou o jantar. Em\u00edlia e Diogo tinham jantado, ficaram apenas para fazer companhia ao casal Azevedo e a Tito, que declarou desde o princ\u00edpio estar caindo de fome.<\/p>\n<p>A conversa durante o jantar versou sobre cousas indiferentes.<\/p>\n<p>Quando se servia o caf\u00e9 apareceu \u00e0 porta um criado do hotel em que morava Diogo; trazia uma carta para este, com indica\u00e7\u00e3o no sobrescrito de que era urgente. Diogo recebeu a carta, leu-a e pareceu mudar de cor. Todavia continuou a tomar parte na conversa geral. Aquela circunst\u00e2ncia, por\u00e9m, deu lugar a que Adelaide perguntasse a Em\u00edlia:<\/p>\n<p>&#8211; Quando te deixar\u00e1 este eterno namorado?<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei c\u00e1! respondeu Em\u00edlia. Mas afinal de contas, n\u00e3o \u00e9 mau homem. Tem aquela mania de me dizer no fim de todas as semanas que nutre por mim uma ardente paix\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, se n\u00e3o passa de declara\u00e7\u00e3o semanal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o passa. Tem a vantagem de ser um braceiro infal\u00edvel para a rua e um realejo menos mau dentro de casa. J\u00e1 me contou umas cinq\u00fcenta vezes as batalhas amorosas em que entrou. Todo o seu desejo \u00e9 acompanhar-me a uma viagem \u00e0 roda do globo. Quando me fala nisto, se \u00e9 \u00e0 noite, e \u00e9 quase sempre \u00e0 noite, mando vir o ch\u00e1, excelente meio de aplacar-lhe os ardores<br \/>\namorosos. Gosta do ch\u00e1 que se p\u00e9la. Gosta tanto como de mim! Mas aquela do urso branco? E se realmente mandou vir um urso?<\/p>\n<p>&#8211; Aceita.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu hei de sustentar um urso? N\u00e3o me faltava mais nada!<\/p>\n<p>Adelaide sorriu-se e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Quer me parecer que acabas por te apaixonar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por quem? Pelo urso?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, pelo Diogo.<\/p>\n<p>Neste momento achavam-se as duas perto de uma janela. Tito conversava no sof\u00e1 com Azevedo. Diogo refletia profundamente, estendido numa poltrona.<\/p>\n<p>Em\u00edlia tinha os olhos em Tito. Depois de um sil\u00eancio, disse ela para Adelaide:<\/p>\n<p>&#8211; Que achas ao tal amigo do teu marido? Parece um presumido. Nunca se apaixonou! \u00c9 cr\u00edvel?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez seja verdade.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acredito. Pareces crian\u00e7a! Diz aquilo dos dentes para fora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade que n\u00e3o tenho maior conhecimento dele&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quanto a mim, pareceu-me n\u00e3o ser estranha aquela cara&#8230; mas n\u00e3o me lembro!<\/p>\n<p>&#8211; Parece ser sincero&#8230; mas dizer aquilo \u00e9 j\u00e1 atrevimento.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 claro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De que te ris?<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-me um do mesmo g\u00eanero que este, disse Em\u00edlia. Foi j\u00e1 h\u00e1 tempos. Andava sempre a gabar-se da sua isen\u00e7\u00e3o. Dizia que todas as mulheres eram para ele vasos da China: admirava-as e nada mais. Coitado! Caiu em menos de um m\u00eas. Adelaide, vi-o beijar-me a ponta dos sapatos&#8230; depois do que desprezei-o.<\/p>\n<p>&#8211; Que fizeste?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! n\u00e3o sei o que fiz. Santa Ast\u00facia foi quem operou o milagre. Vinguei o sexo e abati um orgulhoso.<\/p>\n<p>&#8211; Bem feito!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o era menos do que este. Mas falemos de cousas s\u00e9rias&#8230; Recebi as folhas francesas de modas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>&#8211; Muita cousa. Amanh\u00e3 tas mandarei. Repara em um novo corte de mangas. \u00c9 lind\u00edssimo. J\u00e1 mandei encomendas para a corte. Em artigos de passeios h\u00e1 fartura e do melhor.<\/p>\n<p>&#8211; Para mim quase que \u00e9 in\u00fatil mandar.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Quase nunca saio de casa.<\/p>\n<p>&#8211; Nem ao menos ir\u00e1s jantar comigo no dia de ano-bom!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! com toda a certeza!<\/p>\n<p>&#8211; Pois vai&#8230; Ah! ir\u00e1 o homem? O Sr. Tito?<\/p>\n<p>&#8211; Se estiver c\u00e1&#8230; e quiseres&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois que v\u00e1, n\u00e3o faz mal&#8230; saberei cont\u00ea-lo&#8230; Creio que n\u00e3o ser\u00e1 sempre t\u00e3o&#8230; incivil. Nem sei como podes ficar com esse sangue-frio! A mim faz-me mal aos nervos!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9-me indiferente.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a inj\u00faria ao sexo&#8230; n\u00e3o te indigna?<\/p>\n<p>&#8211; Pouco.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s feliz.<\/p>\n<p>&#8211; Que queres que eu fa\u00e7a a um homem que diz aquilo? Se n\u00e3o fosse casada era poss\u00edvel que me indignasse mais. Se fosse livre era prov\u00e1vel que lhe fizesse o que fizeste ao outro. Mas eu n\u00e3o posso cuidar dessas cousas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nem ouvindo a prefer\u00eancia do voltarete? P\u00f4r-nos abaixo da dama de copas! E o ar com que ele diz aquilo! Que calma, que indiferen\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 mau! \u00e9 mau!<\/p>\n<p>&#8211; Merecia castigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Merecia. Queres tu castig\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Em\u00edlia fez um gesto de desd\u00e9m e disse:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vale a pena.<\/p>\n<p>&#8211; Mas tu castigaste o outro.<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; mas n\u00e3o vale a pena.<\/p>\n<p>&#8211; Dissimulada!<\/p>\n<p>&#8211; Por que dizes isso?<\/p>\n<p>&#8211; Porque j\u00e1 te vejo meio tentada a uma nova vingan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu? Ora qual!<\/p>\n<p>&#8211; Que tem? N\u00e3o \u00e9 crime&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 decerto; mas&#8230; veremos.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! ser\u00e1s capaz?<\/p>\n<p>&#8211; Capaz? disse Em\u00edlia com um gesto de orgulho ofendido.<\/p>\n<p>&#8211; Beijar-te-\u00e1 ele a ponta do sapato?<\/p>\n<p>Em\u00edlia ficou silenciosa por alguns momentos; depois apontando com o leque para a botina que lhe cal\u00e7ava o p\u00e9, disse:<\/p>\n<p>&#8211; E h\u00e3o de ser estes.<\/p>\n<p>Em\u00edlia e Adelaide se dirigiram para o lado em que se achavam os homens. Tito, que parecia conversar intimamente com<br \/>\nAzevedo, interrompeu a conversa para dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s senhoras. Diogo continuava mergulhado na sua medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o que \u00e9 isso, Sr. Diogo? perguntou Tito. Est\u00e1 meditando?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! perd\u00e3o, estava distra\u00eddo!<\/p>\n<p>&#8211; Coitado! disse Tito baixo a Azevedo.<\/p>\n<p>Depois, voltando-se para as senhoras:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o as incomoda o charuto?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, disse Em\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, posso continuar a fumar?<\/p>\n<p>&#8211; Pode, disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um mau v\u00edcio, mas \u00e9 o meu \u00fanico v\u00edcio. Quando fumo parece que aspiro a eternidade. Enlevo-me todo e mudo de ser. Divina inven\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que \u00e9 excelente para os desgostos amorosos, disse Em\u00edlia com inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o sei. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isto. Depois da inven\u00e7\u00e3o do fumo n\u00e3o h\u00e1 solid\u00e3o poss\u00edvel. \u00c9 a melhor companhia deste mundo. Demais, o charuto \u00e9 um verdadeiro Memento homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infal\u00edvel de todas as coisas: \u00e9 o aviso filos\u00f3fico, \u00e9 a senten\u00e7a f\u00fanebre que nos acompanha em toda a parte. J\u00e1 \u00e9 um grande progresso&#8230; Mas estou eu a aborrecer com uma disserta\u00e7\u00e3o t\u00e3o pesada. H\u00e3o de desculpar&#8230; que foi descuido. Ora, a falar a verdade, eu j\u00e1 vou desconfiando; Vossa Excel\u00eancia olha com olhos t\u00e3o singulares&#8230;<\/p>\n<p>Em\u00edlia, a quem era dirigida a palavra, respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se s\u00e3o singulares, mas s\u00e3o os meus.<\/p>\n<p>&#8211; Penso que n\u00e3o s\u00e3o os do costume. Est\u00e1 talvez Vossa Excel\u00eancia a dizer consigo que eu sou um esquisito, um singular, um&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um vaidoso, \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9timo mandamento: n\u00e3o levantar falsos testemunhos.<\/p>\n<p>&#8211; Falsos, diz o mandamento.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me dir\u00e1 em que sou eu vaidoso?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! a isso n\u00e3o respondo eu.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o quer?<\/p>\n<p>&#8211; Porque&#8230; n\u00e3o sei. \u00c9 uma cousa que se sente, mas que se n\u00e3o pode descobrir. Respira-lhe a vaidade em tudo: no olhar, na palavra, no gesto&#8230; mas n\u00e3o se atina com a verdadeira origem de tal doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 pena. Eu tinha grande prazer em ouvir da sua boca o diagn\u00f3stico da minha doen\u00e7a. Em compensa\u00e7\u00e3o pode ouvir da minha o diagn\u00f3stico da sua&#8230; A sua doen\u00e7a \u00e9&#8230; Digo?<\/p>\n<p>&#8211; Pode dizer.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um despeitozinho.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras?<\/p>\n<p>&#8211; Vamos ver isso, disse Azevedo rindo-se.<\/p>\n<p>Tito continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Despeito pelo que eu disse h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Puro engano! disse Em\u00edlia rindo-se.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 com toda a certeza. Mas \u00e9 tudo gratuito. Eu n\u00e3o tenho culpa de cousa alguma. A natureza \u00e9 que me fez assim.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 a natureza?<\/p>\n<p>&#8211; E um tanto de estudo. Ora vou expor-lhe as minhas raz\u00f5es. Veja se posso amar ou pretender: primeiro, n\u00e3o sou bonito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230; disse Em\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Agrade\u00e7o o protesto, mas continuo na mesma opini\u00e3o: n\u00e3o sou bonito, n\u00e3o sou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230; disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Segundo: n\u00e3o sou curioso, e o amor, se o reduzirmos \u00e0s suas verdadeiras propor\u00e7\u00f5es, n\u00e3o passa de uma curiosidade; terceiro: n\u00e3o sou paciente, e nas conquistas amorosas a paci\u00eancia \u00e9 a principal virtude; quarto, finalmente: n\u00e3o sou idiota, porque, se com todos estes defeitos pretendesse amar, mostraria a maior falta de raz\u00e3o. Aqui est\u00e1 o que eu sou por natural e por ind\u00fastria.<\/p>\n<p>&#8211; Em\u00edlia, parece que \u00e9 sincero.<\/p>\n<p>&#8211; Acreditas?<\/p>\n<p>&#8211; Sincero como a verdade, disse Tito.<\/p>\n<p>&#8211; Em \u00faltimo caso, seja ou n\u00e3o seja sincero, que tenho eu com isso?<\/p>\n<p>&#8211; Eu creio que nada, disse Tito.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>No dia seguinte \u00e0quele em que se passaram as cenas descritas no cap\u00edtulo anterior, entendeu o c\u00e9u que devia regar com as suas l\u00e1grimas o solo da formosa Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>Tito, que destinava esse dia a ver toda a cidade, foi obrigado a conservar-se em casa. Era um amigo que n\u00e3o incomodava, porque quando era de mais sabia escapar-se discretamente, e quando o n\u00e3o era, tornava-se o mais delicioso dos companheiros.<\/p>\n<p>Tito sabia juntar muita jovialidade a muita delicadeza; sabia fazer rir sem saltar fora das conveni\u00eancias. Acrescia que, voltando de uma longa e pitoresca viagem, trazia as algibeiras da mem\u00f3ria (deixem passar a frase) cheias de vivas reminisc\u00eancias. Tinha feito uma viagem de poeta e n\u00e3o de peralvilho. Soube ver e sabia contar. Estas duas qualidades, indispens\u00e1veis ao viajante, por desgra\u00e7a s\u00e3o as mais raras. A maioria das pessoas que viajam nem sabem ver, nem sabem contar.<\/p>\n<p>Tito tinha andado por todas as rep\u00fablicas do mar Pac\u00edfico, tinha vivido no M\u00e9xico e em alguns Estados americanos. Tinha depois ido \u00e0 Europa no paquete da linha de Nova Iorque. Viu Londres e Paris. Foi \u00e0 Espanha, onde viveu a vida de Almaviva, dando serenatas \u00e0s janelas das Rosinas de hoje. Trouxe de l\u00e1 alguns leques e mantilhas. Passou \u00e0 It\u00e1lia e levantou o esp\u00edrito \u00e0 altura das recorda\u00e7\u00f5es da arte cl\u00e1ssica. Viu a sombra de Dante nas ruas de Floren\u00e7a; viu as almas dos doges pairando saudosas sobre as \u00e1guas vi\u00favas do mar Adri\u00e1tico; a terra de Rafael, de Virg\u00edlio e Miguel \u00c2ngelo foi para ele uma fonte viva de recorda\u00e7\u00f5es do passado e de impress\u00f5es para o futuro. Foi \u00e0 Gr\u00e9cia, onde soube evocar o esp\u00edrito das gera\u00e7\u00f5es extintas que deram ao g\u00eanio da arte e da poesia um fulgor que atravessou as sombras dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Viajou ainda mais o nosso her\u00f3i, e tudo viu com olhos de quem sabe ver e tudo contava com alma de quem sabe contar. Azevedo e Adelaide passavam horas esquecidas.<\/p>\n<p>&#8211; Do amor, dizia ele, eu s\u00f3 sei que \u00e9 uma palavra de quatro letras, um tanto euf\u00f4nica, \u00e9 verdade, mas n\u00fancia de lutas e desgra\u00e7as. Os bons amores s\u00e3o cheios de felicidade, porque t\u00eam a virtude de n\u00e3o al\u00e7arem olhos para as estrelas do c\u00e9u; contentam-se com ceias \u00e0 meia-noite e alguns passeios a cavalo ou por mar.<\/p>\n<p>Esta era a linguagem constante de Tito. Exprimia ela a verdade, ou era uma linguagem de conven\u00e7\u00e3o? Todos acreditavam que a verdade estava na primeira hip\u00f3tese, at\u00e9 porque essa era de acordo com o esp\u00edrito jovial e folgaz\u00e3o de Tito.<\/p>\n<p>No primeiro dia da resid\u00eancia de Tito em Petr\u00f3polis, a chuva, como disse acima, impediu que os diversos personagens desta hist\u00f3ria se encontrassem. Cada qual ficou na sua casa. Mas o dia imediato foi mais benigno; Tito aproveitou o bom tempo para ir ver a risonha cidade da serra. Azevedo e Adelaide quiseram acompanh\u00e1-lo; mandaram aparelhar tr\u00eas ginetes pr\u00f3prios para o ligeiro passeio.<\/p>\n<p>Na volta foram visitar Em\u00edlia. Durou poucos minutos a visita. A bela vi\u00fava recebeu-os com gra\u00e7a e cortesia de princesa. Era a primeira vez que Tito l\u00e1 ia; e fosse por isso, ou por outra circunst\u00e2ncia, foi ele quem mereceu as principais aten\u00e7\u00f5es da dona da casa.<\/p>\n<p>Diogo, que ent\u00e3o fazia a sua cent\u00e9sima declara\u00e7\u00e3o de amor a Em\u00edlia, e a quem Em\u00edlia acabava de oferecer uma ch\u00e1vena de ch\u00e1, n\u00e3o viu com bons olhos a demasiada aten\u00e7\u00e3o que o viajante merecia da dama dos seus pensamentos. Essa, e talvez outras circunst\u00e2ncias, faziam com que o velho Ad\u00f4nis assistisse \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o com a cara fechada.<\/p>\n<p>\u00c0 despedida Em\u00edlia ofereceu a casa a Tito, com a declara\u00e7\u00e3o de que teria a mesma satisfa\u00e7\u00e3o em receb\u00ea-lo muitas vezes. Tito aceitou cavalheiramente o oferecimento; feito o que, sa\u00edram todos.<\/p>\n<p>Cinco dias depois desta visita Em\u00edlia foi \u00e0 casa de Adelaide. Tito n\u00e3o estava presente; andava a passeio. Azevedo tinha sa\u00eddo para um neg\u00f3cio, mas voltou da\u00ed a alguns minutos. Quando, depois de uma hora de conversa, Em\u00edlia j\u00e1 de p\u00e9 preparava-se para voltar \u00e0 casa, entrou Tito.<\/p>\n<p>&#8211; Ia sair quando entrou, disse Em\u00edlia. Parece que nos contrariamos em tudo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 por minha vontade, respondeu Tito; pelo contr\u00e1rio, meu desejo \u00e9 n\u00e3o contrariar pessoa alguma, e portanto n\u00e3o contrariar Vossa Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o parece.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Em\u00edlia sorriu e disse com uma inflex\u00e3o de censura:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que me daria prazer se utilizasse do oferecimento de minha casa; ainda se n\u00e3o utilizou. Foi esquecimento?<\/p>\n<p>&#8211; Foi.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 muito am\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou muito franco. Eu sei que Vossa Excel\u00eancia preferia uma delicada mentira; mas eu n\u00e3o conhe\u00e7o nada mais delicado que a verdade.<\/p>\n<p>Em\u00edlia sorriu.<\/p>\n<p>Nesse momento entrou Diogo.<\/p>\n<p>&#8211; Ia sair, D. Em\u00edlia? perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Esperava o seu bra\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui o tem.<\/p>\n<p>Em\u00edlia despediu-se de Azevedo e de Adelaide. Quanto a Tito, no momento em que ele curvava-se respeitosamente, Em\u00edlia disse-lhe com a maior placidez da alma:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 algu\u00e9m t\u00e3o delicado como a verdade: \u00e9 o Sr. Diogo. Espero dizer o mesmo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De mim? interrompeu Tito. Amanh\u00e3 mesmo.<\/p>\n<p>Em\u00edlia saiu pelo bra\u00e7o de Diogo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, com efeito, Tito foi \u00e0 casa de Em\u00edlia. Ela o esperava com certa impaci\u00eancia. Como n\u00e3o soubesse a hora em que ele devia apresentar-se l\u00e1, a bela vi\u00fava esperou-o a todos os momentos, desde manh\u00e3. S\u00f3 ao cair da tarde \u00e9 que Tito dignou-se aparecer.<\/p>\n<p>Em\u00edlia morava com uma tia velha. Era uma boa senhora, amiga da sobrinha, e inteiramente escrava da sua vontade. Isto quer dizer que n\u00e3o havia em Em\u00edlia o menor receio que a boa tia n\u00e3o assinasse de antem\u00e3o.<\/p>\n<p>Na sala em que Tito foi recebido n\u00e3o estava ningu\u00e9m. Ele teve portanto tempo de sobra para examin\u00e1-la \u00e0 vontade. Era uma sala pequena, mas mobiliada e adornada com gosto. M\u00f3veis leves, elegantes e ricos; quatro fin\u00edssimas estatuetas, copiadas de Pradier, um piano de Erard, tudo disposto e arranjado com vida.<\/p>\n<p>Tito gastou o primeiro quarto de hora no exame da sala e dos objetos que a enchiam. Esse exame devia influir muito no estudo que ele quisesse fazer do esp\u00edrito da mo\u00e7a. Dize-me como moras, dir-te-ei quem \u00e9s.<\/p>\n<p>Mas o primeiro quarto de hora correu sem que aparecesse viva alma, nem que se ouvisse rumor de natureza alguma. Tito come\u00e7ou a impacientar-se. J\u00e1 sabemos que esp\u00edrito brusco era ele, apesar da suprema delicadeza que todos lhe reconheciam. Parece, por\u00e9m, que a sua rudeza, quase sempre exercida contra Em\u00edlia, era antes estudada que natural. O que \u00e9 certo \u00e9 que no<br \/>\nfim de meia hora, aborrecido pela demora, Tito murmurou consigo:<\/p>\n<p>&#8211; Quer tomar desforra!<\/p>\n<p>E tomando o chap\u00e9u que havia posto numa cadeira ia dirigindo-se para a porta quando ouviu um farfalhar de sedas. Voltou a cabe\u00e7a; Em\u00edlia entrava.<\/p>\n<p>&#8211; Fugia?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>&#8211; Perdoe a demora.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 que perdoar; n\u00e3o podia vir, era natural que fosse por algum motivo s\u00e9rio. Quanto a mim n\u00e3o tenho igualmente de que pedir perd\u00e3o. Esperei, estava cansado, voltaria em outra ocasi\u00e3o. Tudo isto \u00e9 natural.<\/p>\n<p>Em\u00edlia ofereceu uma cadeira a Tito e sentou-se num sof\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Realmente, disse ela acomodando o bal\u00e3o, o Sr. Tito \u00e9 um homem original.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a minha gl\u00f3ria. N\u00e3o imagina como eu aborre\u00e7o as c\u00f3pias. Fazer o que muita gente faz, que m\u00e9rito h\u00e1 nisso? N\u00e3o nasci para esses trabalhos de imita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 uma cousa fez como muita gente.<\/p>\n<p>&#8211; Qual foi?<\/p>\n<p>&#8211; Prometeu-me ontem esta visita e veio cumprir a promessa.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! minha senhora, n\u00e3o lance isto \u00e0 conta das minhas virtudes. Podia n\u00e3o vir; vim; n\u00e3o foi vontade, foi&#8230; acaso.<\/p>\n<p>&#8211; Em todo caso, agrade\u00e7o-lhe.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o meio de me fechar a sua porta.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Porque eu n\u00e3o me dou com esses agradecimentos; nem creio mesmo que eles possam acrescentar nada \u00e0 minha admira\u00e7\u00e3o pela pessoa de Vossa Excel\u00eancia. Fui visitar muitas vezes as est\u00e1tuas dos museus da Europa, mas se elas se lembrassem de me agradecer um dia, dou-lhe a minha palavra que n\u00e3o voltava l\u00e1.<\/p>\n<p>A estas palavras seguiu-se um sil\u00eancio de alguns segundos.<\/p>\n<p>Em\u00edlia foi quem falou primeiro.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 muito tempo que se d\u00e1 com o marido de Adelaide?<\/p>\n<p>&#8211; Desde crian\u00e7a, respondeu Tito.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! foi crian\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda hoje sou.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exatamente o tempo das minhas rela\u00e7\u00f5es com Adelaide. Nunca me arrependi.<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu.<\/p>\n<p>&#8211; Houve um tempo, prosseguiu Em\u00edlia, em que estivemos separadas; mas isso n\u00e3o trouxe mudan\u00e7a alguma \u00e0s nossas rela\u00e7\u00f5es. Foi no tempo do meu primeiro casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! foi casada duas vezes?<\/p>\n<p>&#8211; Em dous anos.<\/p>\n<p>&#8211; E por que enviuvou da primeira?<\/p>\n<p>&#8211; Porque meu marido morreu, disse Em\u00edlia rindo-se.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu pergunto outra cousa. Por que se fez vi\u00fava, mesmo depois da morte de seu primeiro marido? Creio que poderia continuar casada.<\/p>\n<p>&#8211; De que modo? perguntou Em\u00edlia com espanto.<\/p>\n<p>&#8211; Ficando mulher do finado. Se o amor acaba na sepultura acho que n\u00e3o vale a pena de procur\u00e1-lo neste mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Realmente o Sr. Tito \u00e9 um esp\u00edrito fora do comum.<\/p>\n<p>&#8211; Um tanto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso que o seja para desconhecer que a nossa vida n\u00e3o importa essas exig\u00eancias da eterna fidelidade. E demais, pode-se conservar a lembran\u00e7a dos que morrem sem renunciar \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da nossa exist\u00eancia. Agora \u00e9 que eu lhe pergunto por que me olha com olhos t\u00e3o singulares?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se s\u00e3o singulares, mas s\u00e3o os meus.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, acha que eu cometi uma bigamia?<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o acho nada. Ora, deixe-me dizer-lhe a \u00faltima raz\u00e3o da minha incapacidade para os amores.<\/p>\n<p>&#8211; Sou toda ouvidos.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o creio na fidelidade.<\/p>\n<p>&#8211; Em absoluto?<\/p>\n<p>&#8211; Em absoluto.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigada.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! eu sei que isto n\u00e3o \u00e9 delicado; mas em primeiro lugar, eu tenho a coragem das minhas opini\u00f5es, e em segundo foi Vossa Excel\u00eancia quem me provocou. \u00c9 infelizmente verdade, eu n\u00e3o creio nos amores leais e eternos. Quero faz\u00ea-la minha confidente. Houve um dia em que eu tentei amar; concentrei todas as for\u00e7as vivas do meu cora\u00e7\u00e3o; dispus-me a reunir o meu<br \/>\norgulho e a minha ilus\u00e3o na cabe\u00e7a do objeto amado. Que li\u00e7\u00e3o mestra! O objeto amado, depois de me alimentar as esperan\u00e7as, casou-se com outro que n\u00e3o era nem mais bonito, nem mais amante.<\/p>\n<p>&#8211; Que prova isso? perguntou a vi\u00fava.<\/p>\n<p>&#8211; Prova que me aconteceu o que pode acontecer e acontece diariamente aos outros.<\/p>\n<p>&#8211; Ora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de me perdoar, mas eu creio que \u00e9 uma coUsa j\u00e1 metida na massa do sangue&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga isso. \u00c9 certo que podem acontecer casos desses; mas ser\u00e3o todos assim? N\u00e3o admite uma exce\u00e7\u00e3o? Aprofunde mais os cora\u00e7\u00f5es alheios se quiser encontrar a verdade&#8230; e h\u00e1 de encontrar.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! disse Tito abaixando a cabe\u00e7a e batendo com a bengala na ponta do p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Posso afirm\u00e1-lo, disse Em\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Duvido.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho pena de uma criatura assim, continuou a vi\u00fava. N\u00e3o conhecer o amor \u00e9 n\u00e3o conhecer a vida! H\u00e1 nada igual \u00e0 uni\u00e3o de duas almas que se adoram? Desde que o amor entra no cora\u00e7\u00e3o, tudo se transforma, tudo muda, a noite parece dia, a dor assemelha-se ao prazer&#8230; Se n\u00e3o conhece nada disto, pode morrer, porque \u00e9 o mais infeliz dos homens.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho lido isso nos livros, mas ainda n\u00e3o me convenci&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 reparou na minha sala?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vi alguma cousa.<\/p>\n<p>&#8211; Reparou naquela gravura?<\/p>\n<p>Tito olhou para a gravura que a vi\u00fava lhe indicava.<\/p>\n<p>&#8211; Se me n\u00e3o engano, disse ele, aquilo \u00e9 o Amor domando as feras.<\/p>\n<p>&#8211; Veja e conven\u00e7a-se.<\/p>\n<p>&#8211; Com a opini\u00e3o do desenhista? perguntou Tito. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Tenho visto gravuras vivas. Tenho servido de alvo a muitas setas; crivam-me todo, mas eu tenho a fortaleza de S. Sebasti\u00e3o; afronto, n\u00e3o me curvo.<\/p>\n<p>&#8211; Que orgulho!<\/p>\n<p>&#8211; O que pode fazer dobrar uma altivez destas? A beleza? Nem Cle\u00f3patra. A castidade? Nem Susana. Resuma, se quiser, todas as qualidades em uma s\u00f3 criatura, e eu n\u00e3o mudarei&#8230; \u00c9 isto e nada mais.<\/p>\n<p>Em\u00edlia levantou-se e dirigiu-se para o piano.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o aborrece a m\u00fasica? perguntou ela abrindo o piano.<\/p>\n<p>&#8211; Adoro-a, respondeu o mo\u00e7o sem se mover; agora quanto aos executantes s\u00f3 gosto dos bons. Os maus d\u00e1-me \u00edmpetos de enforc\u00e1-los.<\/p>\n<p>Em\u00edlia executou ao piano os prel\u00fadios de uma sinfonia. Tito ouvia-a com a mais profunda aten\u00e7\u00e3o. Realmente a bela vi\u00fava tocava divinamente.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, disse ela levantando-se, devo ser enforcada?<\/p>\n<p>&#8211; Deve ser coroada. Toca perfeitamente.<\/p>\n<p>&#8211; Outro ponto em que n\u00e3o \u00e9 original. Toda a gente me diz isso.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! eu tamb\u00e9m n\u00e3o nego a luz do sol.<\/p>\n<p>Neste momento entrou na sala a tia de Em\u00edlia. Esta apresentou-lhe Tito. A conversa tomou ent\u00e3o um tom pessoal e reservado; durou pouco, ali\u00e1s, porque Tito, travando repentinamente do chap\u00e9u, declarou que tinha que fazer.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 quando?<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 sempre.<\/p>\n<p>Despediu-se e saiu.<\/p>\n<p>Em\u00edlia ainda o acompanhou com os olhos por algum tempo, da janela da casa. Mas Tito, como se o caso n\u00e3o fosse com ele, seguiu sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Mas, exatamente no momento em que Em\u00edlia voltava para dentro, Tito encontrava o velho Diogo.<\/p>\n<p>Diogo ia na dire\u00e7\u00e3o da casa da vi\u00fava. Tinha um ar pensativo. T\u00e3o distra\u00eddo ia que chegou quase a esbarrar com Tito.<\/p>\n<p>&#8211; Onde vai t\u00e3o distra\u00eddo? perguntou Tito.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00e9 o senhor? Vem da casa de D. Em\u00edlia?<\/p>\n<p>&#8211; Venho.<\/p>\n<p>&#8211; Eu para l\u00e1 vou. Coitada! h\u00e1 de estar muito impaciente com a minha demora.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e1, n\u00e3o senhor, respondeu Tito com o maior sangue-frio.<\/p>\n<p>Diogo lan\u00e7ou-lhe um olhar de despeito.<\/p>\n<p>A isso seguiu-se um sil\u00eancio de alguns minutos, durante o qual Diogo brincava com a corrente do rel\u00f3gio, e Tito lan\u00e7ava ao ar novelos de fuma\u00e7a de um primoroso havana. Um desses novelos foi desenrolar-se na cara de Diogo. O velho tossiu e disse a Tito:<\/p>\n<p>&#8211; Apre l\u00e1, Sr. Tito! \u00c9 demais!<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea, meu caro senhor? perguntou o rapaz.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 a fuma\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; Foi sem reparar. Mas eu n\u00e3o compreendo as suas palavras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu me fa\u00e7o explicar, disse o velho tomando um ar risonho. D\u00ea-me o seu bra\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o!<\/p>\n<p>E os dous seguiram conversando como dous amigos velhos.<\/p>\n<p>&#8211; Estou pronto a ouvir a sua explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vai. Sabe o que eu quero? \u00c9 que seja franco. N\u00e3o ignora que eu suspiro aos p\u00e9s da vi\u00fava. Pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o discuta o fato, admita-o simplesmente. At\u00e9 aqui tudo ia caminhando bem, quando o senhor chegou a Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a-me silenciosamente. Chegou o senhor a Petr\u00f3polis, e sem que eu lhe tivesse feito mal algum, entendeu de si para si que me havia de tirar do lance. Desde ent\u00e3o come\u00e7ou a corte&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu caro Sr. Diogo, tudo isso \u00e9 uma fantasia. Eu n\u00e3o fa\u00e7o a corte a D. Em\u00edlia, nem pretendo fazer-lha. V\u00ea-me acaso freq\u00fcentar a casa dela?<\/p>\n<p>&#8211; Acaba de sair de l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a primeira vez que a visito.<\/p>\n<p>&#8211; Quem sabe?<\/p>\n<p>&#8211; Demais, ainda ontem n\u00e3o ouviu em casa de Azevedo as express\u00f5es com que ela se despediu de mim? N\u00e3o s\u00e3o de mulher que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! isso n\u00e3o prova nada. As mulheres, e sobretudo aquela, nem sempre dizem o que sentem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o acha que aquela sente alguma cousa por mim?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o fosse isso, n\u00e3o lhe falaria.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! ora eis a\u00ed uma novidade.<\/p>\n<p>&#8211; Suspeito apenas. Ela s\u00f3 me fala do senhor; indaga-me vinte vezes por dia de sua pessoa, dos seus h\u00e1bitos, do seu passado e das suas opini\u00f5es&#8230; Eu, como h\u00e1 de acreditar, respondo a tudo que n\u00e3o sei, mas vou criando um \u00f3dio ao senhor, do qual n\u00e3o me poder\u00e1 jamais criminar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 culpa minha se ela gosta de mim? Ora, v\u00e1 descansado, Sr. Diogo. Nem ela gosta de mim, nem eu gosto dela. Trabalhe desassombradamente e seja feliz.<\/p>\n<p>&#8211; Feliz! se eu pudesse ser! Mas n\u00e3o&#8230; n\u00e3o creio; a felicidade n\u00e3o se fez para mim. Olhe, Sr. Tito, amo aquela mulher como se pode amar a vida. Um olhar dela vale mais para mim que um ano de gl\u00f3rias e de felicidade. \u00c9 por ela que eu tenho deixado os meus neg\u00f3cios \u00e0 toa. N\u00e3o viu outro dia que uma carta me chegou \u00e0s m\u00e3os, cuja leitura me fez entristecer? Perdi uma causa.<br \/>\nTudo por qu\u00ea? Por ela!<\/p>\n<p>&#8211; Mas ela n\u00e3o lhe d\u00e1 esperan\u00e7as?<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei o que \u00e9 aquela mo\u00e7a! Ora trata-me de modo que eu vou ao s\u00e9timo c\u00e9u; ora \u00e9 tal a sua indiferen\u00e7a que me atira ao inferno. Hoje um sorriso, amanh\u00e3 um gesto de desd\u00e9m. Ralha-me de n\u00e3o visit\u00e1-la; vou visit\u00e1-la, ocupa-se tanto de mim como de Ganimedes; Ganimedes \u00e9 o nome de um c\u00e3ozinho felpudo que eu lhe dei. Importa-se tanto comigo como com o cachorro&#8230; \u00c9 de prop\u00f3sito. \u00c9 um enigma aquela mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o serei eu quem o decifre, Sr. Diogo. Desejo-lhe muita felicidade. Adeus.<\/p>\n<p>E os dous separaram-se. Diogo seguiu para a casa de Em\u00edlia, Tito para a casa de Azevedo.<\/p>\n<p>Tito acabava de saber que a vi\u00fava pensava nele; todavia, isso n\u00e3o lhe dera o menor abalo. Por qu\u00ea? \u00c9 o que saberemos mais adiante. O que \u00e9 preciso dizer desde j\u00e1, \u00e9 que as mesmas suspeitas despertadas no esp\u00edrito de Diogo, tivera a mulher de Azevedo. A intimidade de Em\u00edlia dava lugar a uma franca interroga\u00e7\u00e3o e a uma confiss\u00e3o franca. Adelaide, no dia seguinte<br \/>\n\u00e0quele em que se passou a cena que referi acima, disse a Em\u00edlia o que pensava.<\/p>\n<p>A resposta da vi\u00fava foi uma risada.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te compreendo, disse a mulher de Azevedo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 simples, disse a vi\u00fava. Julgas-me capaz de apaixonar-me pelo amigo de teu marido? Enganas-te. N\u00e3o, eu n\u00e3o o amo. Somente, como te disse no dia em que o vi aqui pela primeira vez, empenho-me em t\u00ea-lo a meus p\u00e9s. Se bem me recordo foste tu mesma quem me deu conselho. Aceitei-o. Hei de vingar o nosso sexo. \u00c9 um pouco de vaidade minha, embora; mas<br \/>\neu creio que aquilo que nenhuma fez, f\u00e1-lo-ei eu.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! cruelzinha! \u00c9 isso?<\/p>\n<p>&#8211; Nem mais, nem menos.<\/p>\n<p>&#8211; Achas poss\u00edvel?<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Reflete que a derrota ser\u00e1 dupla&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1, mas n\u00e3o h\u00e1 de haver.<\/p>\n<p>Esta conversa foi interrompida por Azevedo. Um sinal de Em\u00edlia fez calar Adelaide. Ficou convencionado que nem mesmo Azevedo saberia de cousa alguma. E, com efeito, Adelaide nada comunicou a seu marido.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo Primeiro Era em Petr\u00f3polis, no ano de 186&#8230; J\u00e1 se v\u00ea que a minha hist\u00f3ria n\u00e3o data de longe. \u00c9 tomada dos anais contempor\u00e2neos e dos costumes atuais. 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