{"id":118642,"date":"2017-04-06T18:43:53","date_gmt":"2017-04-06T20:43:53","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118642"},"modified":"2017-04-06T18:43:53","modified_gmt":"2017-04-06T20:43:53","slug":"frei-simao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/frei-simao","title":{"rendered":"Frei Sim\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo Primeiro<\/h2>\n<p>Frei Sim\u00e3o era um frade da ordem dos Beneditinos. Tinha, quando morreu, cinq\u00fcenta anos em apar\u00eancia, mas na realidade trinta e oito. A causa desta velhice prematura derivava da que o levou ao claustro na idade de trinta anos, e, tanto quanto se pode saber por uns fragmentos de mem\u00f3rias que ele deixou, a causa era justa.<\/p>\n<p>Era frei Sim\u00e3o de car\u00e1ter taciturno e desconfiado. Passava dias inteiros na sua cela, donde apenas sa\u00eda na hora do refeit\u00f3rio e dos of\u00edcios divinos. N\u00e3o contava amizade alguma no convento, porque n\u00e3o era poss\u00edvel entreter com ele os preliminares que fundam e consolidam as afei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em um convento, onde a comunh\u00e3o das almas deve ser mais pronta e mais profunda, frei Sim\u00e3o parecia fugir \u00e0 regra geral. Um dos novi\u00e7os p\u00f4s-lhe alcunha de urso, que lhe ficou, mas s\u00f3 entre os novi\u00e7os, bem entendido. Os frades professos, esses, apesar do desgosto que o g\u00eanio solit\u00e1rio de frei Sim\u00e3o lhes inspirava, sentiam por ele certo respeito e venera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia anuncia-se que frei Sim\u00e3o adoecera gravemente. Chamaram-se os socorros e prestaram ao enfermo todos os cuidados necess\u00e1rios. A mol\u00e9stia era mortal; depois de cinco dias frei Sim\u00e3o expirou.<\/p>\n<p>Durante estes cinco dias de mol\u00e9stia, a cela de frei Sim\u00e3o esteve cheia de frades. Frei Sim\u00e3o n\u00e3o disse uma palavra durante esses cinco dias; s\u00f3 no \u00faltimo, quando se aproximava o minuto fatal, sentou-se no leito, fez chamar para mais perto o abade, e disse-lhe ao ouvido com voz sufocada e em tom estranho:<\/p>\n<p>&#8211; Morro odiando a humanidade!<\/p>\n<p>O abade recuou at\u00e9 a parede ao ouvir estas palavras, e no tom em que foram ditas. Quanto a frei Sim\u00e3o, caiu sobre o travesseiro e passou \u00e0 eternidade.<\/p>\n<p>Depois de feitas ao irm\u00e3o finado as honras que se lhe deviam, a comunidade perguntou ao seu chefe que palavras ouvira t\u00e3o sinistras que o assustaram. O abade referiu-as, persignando-se. Mas os frades n\u00e3o viram nessas palavras sen\u00e3o um segredo do passado, sem d\u00favida importante, mas n\u00e3o tal que pudesse lan\u00e7ar o terror no esp\u00edrito do abade. Este explicou-lhes a id\u00e9ia que tivera quando ouviu as palavras de frei Sim\u00e3o, no tom em que foram ditas, e acompanhadas do olhar com que o fulminou: acreditara que frei Sim\u00e3o estivesse doudo; mais ainda, que tivesse entrado j\u00e1 doudo para a ordem. Os h\u00e1bitos da solid\u00e3o e taciturnidade a que se votara o frade pareciam sintomas de uma aliena\u00e7\u00e3o mental de car\u00e1ter brando e pac\u00edfico; mas durante oito anos parecia imposs\u00edvel aos frades que frei Sim\u00e3o n\u00e3o tivesse um dia revelado de modo positivo a sua loucura; objetaram isso ao abade; mas este persistia na sua cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Entretanto procedeu-se ao invent\u00e1rio dos objetos que pertenciam ao finado, e entre eles achou-se um rolo de pap\u00e9is convenientemente enla\u00e7ados, com este r\u00f3tulo: &#8220;Mem\u00f3rias que h\u00e1 de escrever frei Sim\u00e3o de Santa \u00c1gueda, frade beneditino&#8221;.<\/p>\n<p>Este rolo de pap\u00e9is foi um grande achado para a comunidade curiosa. Iam finalmente penetrar alguma cousa no v\u00e9u misterioso que envolvia o passado de frei Sim\u00e3o, e talvez confirmar as suspeitas do abade. O rolo foi aberto e lido para todos.<\/p>\n<p>Eram, pela maior parte, fragmentos incompletos, apontamentos truncados e notas insuficientes; mas de tudo junto p\u00f4de-se colher que realmente frei Sim\u00e3o estivera louco durante certo tempo.<\/p>\n<p>O autor desta narrativa despreza aquela parte das Mem\u00f3rias que n\u00e3o tiver absolutamente import\u00e2ncia; mas procura aproveitar a que for menos in\u00fatil ou menos obscura.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>As notas de frei Sim\u00e3o nada dizem do lugar do seu nascimento nem do nome de seus pais. O que se p\u00f4de saber dos seus princ\u00edpios \u00e9 que, tendo conclu\u00eddo os estudos preparat\u00f3rios, n\u00e3o p\u00f4de seguir a carreira das letras, como desejava, e foi obrigado a entrar como guarda-livros na casa comercial de seu pai.<\/p>\n<p>Morava ent\u00e3o em casa de seu pai uma prima de Sim\u00e3o, \u00f3rf\u00e3 de pai e m\u00e3e, que haviam por morte deixado ao pai de Sim\u00e3o o cuidado de a educarem e manterem. Parece que os cabedais deste deram para isto. Quanto ao pai da prima \u00f3rf\u00e3, tendo sido rico, perdera tudo ao jogo e nos azares do com\u00e9rcio, ficando reduzido \u00e0 \u00faltima mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>A \u00f3rf\u00e3 chamava-se Helena; era bela, meiga e extremamente boa. Sim\u00e3o, que se educara com ela, e juntamente vivia debaixo do mesmo tecto, n\u00e3o p\u00f4de resistir \u00e0s elevadas qualidades e \u00e0 beleza de sua prima. Amaram-se. Em seus sonhos de futuro contavam ambos o casamento, cousa que parece mais natural do mundo para cora\u00e7\u00f5es amantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou muito que os pais de Sim\u00e3o descobrissem o amor dos dous. Ora \u00e9 preciso dizer, apesar de n\u00e3o haver declara\u00e7\u00e3o formal disto nos apontamentos do frade, \u00e9 preciso dizer que os referidos pais eram de um ego\u00edsmo descomunal. Davam de boa vontade o p\u00e3o da subsist\u00eancia a Helena; mas l\u00e1 casar o filho com a pobre \u00f3rf\u00e3 \u00e9 que n\u00e3o podiam consentir. Tinham posto a mira em uma herdeira rica, e dispunham de si para si que o rapaz se casaria com ela..<\/p>\n<p>Uma tarde, como estivesse o rapaz a adiantar a escritura\u00e7\u00e3o do livro mestre, entrou no escrit\u00f3rio o pai com ar grave e risonho ao mesmo tempo, e disse ao filho que largasse o trabalho e o ouvisse. O rapaz obedeceu. O pai falou assim:<\/p>\n<p>&#8211; Vais partir para a prov\u00edncia de ***. Preciso mandar umas cartas ao meu correspondente Amaral, e como sejam elas de grande import\u00e2ncia, n\u00e3o quero confi\u00e1-las ao nosso desleixado correio. Queres ir no vapor ou preferes o nosso brigue?<\/p>\n<p>Esta pergunta era feita com grande tino.<\/p>\n<p>Obrigado a responder-lhe, o velho comerciante n\u00e3o dera lugar que seu filho apresentasse obje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O rapaz enfiou, abaixou os olhos e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Vou onde meu pai quiser.<\/p>\n<p>O pai agradeceu mentalmente a submiss\u00e3o do filho, que lhe poupava o dinheiro da passagem no vapor, e foi muito contente dar parte \u00e0 mulher de que o rapaz n\u00e3o fizera obje\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>Nessa noite os dous amantes tiveram ocasi\u00e3o de encontrar-se s\u00f3s na sala de jantar.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o contou a Helena o que se passara. Choraram ambos algumas l\u00e1grimas furtivas, e ficaram na esperan\u00e7a de que a viagem fosse de um m\u00eas, quando muito.<\/p>\n<p>\u00c0 mesa do ch\u00e1, o pai de Sim\u00e3o conversou sobre a viagem do rapaz, que devia ser de poucos dias. Isto reanimou as esperan\u00e7as dos dous amantes. O resto da noite passou-se em conselhos da parte do velho ao filho sobre a maneira de portar-se na casa do correspondente. \u00c0s dez horas, como de costume, todos se recolheram aos aposentos.<\/p>\n<p>Os dias passaram-se depressa. Finalmente raiou aquele em que devia partir o brigue. Helena saiu de seu quarto com os olhos vermelhos de chorar. Interrogada bruscamente pela tia, disse que era uma inflama\u00e7\u00e3o adquirida pelo muito que lera na noite anterior. A tia prescreveu-lhe absten\u00e7\u00e3o da leitura e banhos de \u00e1gua de malvas.<\/p>\n<p>Quanto ao tio, tendo chamado Sim\u00e3o, entregou-lhe uma carta para o correspondente, e abra\u00e7ou-o. A mala e um criado estavam prontos. A despedida foi triste. Os dous pais sempre choraram alguma cousa, a rapariga muito.<\/p>\n<p>Quanto a Sim\u00e3o, levava os olhos secos e ardentes. Era refrat\u00e1rio \u00e0s l\u00e1grimas, por isso mesmo padecia mais.<\/p>\n<p>O brigue partiu. Sim\u00e3o, enquanto p\u00f4de ver terra, n\u00e3o se retirou de cima; quando finalmente se fecharam de todo as paredes do c\u00e1rcere que anda, na frase pitoresca de Ribeyrolles, Sim\u00e3o desceu ao seu camarote, triste e com o cora\u00e7\u00e3o apertado. Havia como um pressentimento que lhe dizia interiormente ser imposs\u00edvel tornar a ver sua prima. Parecia que ia para um degredo.<\/p>\n<p>Chegando ao lugar do seu destino, procurou Sim\u00e3o o correspondente de seu pai e entregou-lhe a carta. O Sr. Amaral leu a carta, fitou o rapaz e, depois de algum sil\u00eancio, disse-lhe, volvendo a carta:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, agora \u00e9 preciso esperar que eu cumpra esta ordem de seu pai. Entretanto venha morar para a minha casa.<\/p>\n<p>&#8211; Quando poderei voltar? perguntou Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Em poucos dias, salvo se as cousas se complicarem.<\/p>\n<p>Este salvo, posto na boca de Amaral como incidente, era a ora\u00e7\u00e3o principal. A carta do pai de Sim\u00e3o versava assim:<\/p>\n<p>Meu caro Amaral,<br \/>\nMotivos ponderosos me obrigam a mandar meu filho desta cidade. Retenha-o por l\u00e1 como puder. O pretexto da viagem \u00e9 ter eu necessidade de ultimar alguns neg\u00f3cios com voc\u00ea, o que dir\u00e1 ao pequeno, fazendo-lhe sempre crer que a demora \u00e9 pouca ou nenhuma. Voc\u00ea, que teve na sua adolesc\u00eancia a triste id\u00e9ia de engendrar romances, v\u00e1 inventando circunstancias e ocorr\u00eancias imprevistas, de modo que o rapaz n\u00e3o me torne c\u00e1 antes de segunda ordem. Sou, como sempre, etc.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>Passaram-se dias e dias, e nada de chegar o momento de voltar \u00e0 casa paterna. O ex-romancista era na verdade f\u00e9rtil, e n\u00e3o se cansava de inventar pretextos que deixavam convencido o rapaz.<\/p>\n<p>Entretanto, como o esp\u00edrito dos amantes n\u00e3o \u00e9 menos engenhoso que o dos romancistas, Sim\u00e3o e Helena acharam meio de se escreverem, e deste modo podiam consolar-se da aus\u00eancia, com presen\u00e7a das letras e do papel. Bem diz Helo\u00edsa que a arte de escrever foi inventada por alguma amante separada do seu amante. Nestas cartas juravam-se os dous sua eterna fidelidade.<\/p>\n<p>No fim de dous meses de espera baldada e de ativa correspond\u00eancia, a tia de Helena surpreendeu uma carta de Sim\u00e3o. Era a vig\u00e9sima, creio eu. Houve grande temporal em casa. O tio, que estava no escrit\u00f3rio, saiu precipitadamente e tomou conhecimento do neg\u00f3cio. O resultado foi proscrever de casa tinta, penas e papel, e instituir vigil\u00e2ncia rigorosa sobre a infeliz rapariga.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram pois a escassear as cartas ao pobre deportado. Inquiriu a causa disto em cartas choradas e compridas mas como o rigor fiscal da casa de seu pai adquiria propor\u00e7\u00f5es descomunais, acontecia que todas as cartas de Sim\u00e3o iam parar \u00e0s m\u00e3os do velho, que, depois de apreciar o estilo amoroso de seu filho, fazia queimar as ardentes ep\u00edstolas.<\/p>\n<p>Passaram-se dias e meses. Carta de Helena, nenhuma. O correspondente ia esgotando a veia inventadora, e j\u00e1 n\u00e3o sabia como reter finalmente o rapaz.<\/p>\n<p>Chega uma carta a Sim\u00e3o. Era letra do pai. S\u00f3 diferen\u00e7ava das outras que recebia do velho em ser esta mais longa, muito mais longa. O rapaz abriu a carta, e leu tr\u00eamulo e p\u00e1lido. Contava nesta carta o honrado comerciante que a Helena, a boa rapariga que ele destinava a ser sua filha casando-se com Sim\u00e3o, a boa Helena tinha morrido. O velho copiara algum dos \u00faltimos necrol\u00f3gios que vira nos jornais, e ajuntara algumas consola\u00e7\u00f5es de casa. A \u00faltima consola\u00e7\u00e3o foi dizer-lhe que embarcasse e fosse ter com ele.<\/p>\n<p>O per\u00edodo final da carta dizia:<\/p>\n<p>Assim como assim, n\u00e3o se realizam os meus neg\u00f3cios; n\u00e3o te pude casar com Helena, visto que Deus a levou. Mas volta, filho, vem; poder\u00e1s consolar-te casando com outra, a filha do conselheiro ***. Est\u00e1 mo\u00e7a feita e \u00e9 um bom partido. N\u00e3o te desalentes; lembra-te de mim.<\/p>\n<p>O pai de Sim\u00e3o n\u00e3o conhecia bem o amor do filho, nem era grande \u00e1guia para avali\u00e1-lo, ainda que o conhecesse. Dores tais n\u00e3o se consolam com uma carta nem com um casamento. Era melhor mand\u00e1-lo chamar, e depois preparar- lhe a not\u00edcia; mas dada assim friamente em uma carta, era expor o rapaz a uma morte certa.<\/p>\n<p>Ficou Sim\u00e3o vivo em corpo e morto moralmente, t\u00e3o morto que por sua pr\u00f3pria id\u00e9ia foi dali procurar uma sepultura. Era melhor dar aqui alguns dos pap\u00e9is escritos por Sim\u00e3o relativamente ao que sofreu depois da carta; mas h\u00e1 muitas falhas, e eu n\u00e3o quero corrigir a exposi\u00e7\u00e3o ing\u00eanua e sincera do frade.<\/p>\n<p>A sepultura que Sim\u00e3o escolheu foi um convento. Respondeu ao pai que agradecia a filha do conselheiro, mas que daquele dia em diante pertencia ao servi\u00e7o de Deus.<\/p>\n<p>O pai ficou maravilhado. Nunca suspeitou que o filho pudesse vir a ter semelhante resolu\u00e7\u00e3o. Escreveu \u00e0s pressas para ver se o desviava da id\u00e9ia; mas n\u00e3o p\u00f4de conseguir.<\/p>\n<p>Quanto ao correspondente, para quem tudo se embrulhava cada vez mais, deixou o rapaz seguir para o claustro, disposto a n\u00e3o figurar em um neg\u00f3cio do qual nada realmente sabia.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Frei Sim\u00e3o de Santa \u00c1gueda foi obrigado a ir \u00e0 prov\u00edncia natal em miss\u00e3o religiosa, tempos depois dos fatos que acabo de narrar.<\/p>\n<p>Preparou-se e embarcou.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o n\u00e3o era na capital, mas no interior. Entrando na capital, pareceu-lhe dever ir visitar seus pais. Estavam mudados f\u00edsica e moralmente. Era com certeza a dor e o remorso de terem precipitado seu filho \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o que tomou. Tinham vendido a casa comercial e viviam de suas rendas.<\/p>\n<p>Receberam o filho com alvoro\u00e7o e verdadeiro amor. Depois das l\u00e1grimas e das consola\u00e7\u00f5es, vieram ao fim da viagem de Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; A que vens tu, meu filho?<\/p>\n<p>&#8211; Venho cumprir uma miss\u00e3o do sacerd\u00f3cio que abracei. Venho pregar, para que o rebanho do Senhor n\u00e3o se arrede nunca do bom caminho.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui na capital?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, no interior. Come\u00e7o pela vila de ***.<\/p>\n<p>Os dous velhos estremeceram; mas Sim\u00e3o nada viu. No dia seguinte partiu Sim\u00e3o, n\u00e3o sem algumas inst\u00e2ncias de seus pais para que ficasse. Notaram eles que seu filho nem de leve tocara em Helena. Tamb\u00e9m eles n\u00e3o quiseram mago\u00e1-lo falando em tal assunto.<\/p>\n<p>Da\u00ed a dias, na vila de que falara frei Sim\u00e3o, era um alvoro\u00e7o para ouvir as pr\u00e9dicas do mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>A velha igreja do lugar estava atopetada de povo.<\/p>\n<p>\u00c0 hora anunciada, frei Sim\u00e3o subiu ao p\u00falpito e come\u00e7ou o discurso religioso. Metade do povo saiu aborrecido no meio do serm\u00e3o. A raz\u00e3o era simples. Avezado \u00e0 pintura viva dos caldeir\u00f5es de Pedro Botelho e outros pedacinhos de ouro da maioria dos pregadores, o povo n\u00e3o podia ouvir com prazer a linguagem simples, branda, persuasiva, a que serviam de modelo as confer\u00eancias do fundador da nossa religi\u00e3o.<\/p>\n<p>O pregador estava a terminar, quando entrou apressadamente na igreja um par, marido e mulher: ele, honrado lavrador, meio remediado com o s\u00edtio que possu\u00eda e a boa vontade de trabalhar; ela, senhora estimada por suas virtudes, mas de uma melancolia invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Depois de tomarem \u00e1gua benta, colocam-se ambos em lugar donde pudessem ver facilmente o pregador.<\/p>\n<p>Ouviu-se ent\u00e3o um grito, e todos correram para a rec\u00e9m-chegada, que acabava de desmaiar. Frei Sim\u00e3o teve de parar o seu discurso, enquanto se punha termo ao incidente. Mas, por uma aberta que a turba deixava, p\u00f4de ele ver o rosto da desmaiada.<\/p>\n<p>Era Helena.<\/p>\n<p>No manuscrito do frade h\u00e1 uma s\u00e9rie de retic\u00eancias dispostas em oito linhas. Ele pr\u00f3prio n\u00e3o sabe o que se passou. Mas o que se passou foi que, mal conhecera Helena, continuou o frade o discurso. Era ent\u00e3o outra cousa: era um discurso sem nexo, sem assunto, um verdadeiro del\u00edrio. A consterna\u00e7\u00e3o foi geral.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>O del\u00edrio de frei Sim\u00e3o durou alguns dias. Gra\u00e7as aos cuidados, p\u00f4de melhorar, e pareceu a todos que estava bom, menos ao m\u00e9dico, que queria continuar a cura. Mas o frade disse positivamente que se retirava ao convento, e n\u00e3o houve for\u00e7as humanas que o detivessem.<\/p>\n<p>O leitor compreende naturalmente que o casamento de Helena fora obrigado pelos tios.<\/p>\n<p>A pobre senhora n\u00e3o resistiu \u00e0 como\u00e7\u00e3o. Dous meses depois morreu, deixando inconsol\u00e1vel o marido, que a amava com veras.<\/p>\n<p>Frei Sim\u00e3o, recolhido ao convento, tornou-se mais solit\u00e1rio e taciturno. Restava-lhe ainda um pouco da aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 conhecemos o acontecimento de sua morte e a impress\u00e3o que ela causara ao abade.<\/p>\n<p>A cela de frei Sim\u00e3o de Santa \u00c1gueda esteve muito tempo religiosamente fechada. S\u00f3 se abriu, algum tempo depois, para dar entrada a um velho secular, que por esmola alcan\u00e7ou do abade acabar os seus dias na conviv\u00eancia dos m\u00e9dicos da alma. Era o pai de Sim\u00e3o. A m\u00e3e tinha morrido.<\/p>\n<p>Foi cren\u00e7a, nos \u00faltimos anos de vida deste velho, que ele n\u00e3o estava menos doudo que frei Sim\u00e3o de Santa \u00c1gueda.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo Primeiro Frei Sim\u00e3o era um frade da ordem dos Beneditinos. Tinha, quando morreu, cinq\u00fcenta anos em apar\u00eancia, mas na realidade trinta e oito. 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