{"id":118640,"date":"2017-04-06T18:41:17","date_gmt":"2017-04-06T20:41:17","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118640"},"modified":"2017-04-06T18:41:17","modified_gmt":"2017-04-06T20:41:17","slug":"confissoes-de-uma-viuva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/confissoes-de-uma-viuva","title":{"rendered":"Confiss\u00f5es de uma Vi\u00fava"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo Primeiro<\/h2>\n<p>H\u00e1 dois anos tomei uma resolu\u00e7\u00e3o singular: fui residir em Petr\u00f3polis em pleno m\u00eas de junho. Esta resolu\u00e7\u00e3o abriu largo campo \u00e0s conjecturas. Tu mesma nas cartas que me escreveste para aqui, deitaste o esp\u00edrito a adivinhar e figuraste mil raz\u00f5es, cada qual mais absurda.<\/p>\n<p>A estas cartas, em que a tua solicitude tra\u00eda a um tempo dous sentimentos, a afei\u00e7\u00e3o da amiga e a curiosidade de mulher, a essas cartas n\u00e3o respondi e nem podia responder. N\u00e3o era oportuno abrir-te o meu cora\u00e7\u00e3o nem desfiar-te a s\u00e9rie de motivos que me arredou da corte, onde as \u00f3peras do Teatro L\u00edrico, as tuas partidas e os ser\u00f5es familiares do primo Barros deviam distrair-me da recente viuvez.<\/p>\n<p>Esta circunst\u00e2ncia de viuvez recente acreditavam muitos que fosse o \u00fanico motivo da minha fuga. Era a vers\u00e3o menos equ\u00edvoca. Deixei-a passar como todas as outras e conservei-me em Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>Logo no ver\u00e3o seguinte vieste com teu marido para c\u00e1, disposta a n\u00e3o voltar para a corte sem levar o segredo que eu teimava em n\u00e3o revelar. A palavra n\u00e3o fez mais do que a carta. Fui discreta como um t\u00famulo, indecifr\u00e1vel como a Esfinge. Depuseste as armas e partiste.<br \/>\nDesde ent\u00e3o n\u00e3o me trataste sen\u00e3o por tua Esfinge.<br \/>\nEra Esfinge, era. E se, como \u00c9dipo, tivesses respondido ao meu enigma a palavra &#8220;homem&#8221;, descobririas o meu segredo, e desfarias o meu encanto.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o antecipemos os acontecimentos, como se diz nos romances.<\/p>\n<p>\u00c9 tempo de contar-te este epis\u00f3dio da minha vida.<\/p>\n<p>Quero faz\u00ea-lo por cartas e n\u00e3o por boca. Talvez corasse de ti. Deste modo o cora\u00e7\u00e3o abre-se melhor e a vergonha n\u00e3o vem tolher a palavra nos l\u00e1bios. Repara que eu n\u00e3o falo em l\u00e1grimas, o que \u00e9 um sintoma de que a paz voltou ao meu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>As minhas cartas ir\u00e3o de oito em oito dias, de maneira que a narrativa pode fazer-te o efeito de um folhetim de peri\u00f3dico semanal.<\/p>\n<p>Dou-te a minha palavra de que h\u00e1s de gostar e aprender.<\/p>\n<p>E oito dias depois da minha \u00faltima carta irei abra\u00e7ar-te, beijar-te, agradecer-te. Tenho necessidade de viver. Estes dous anos s\u00e3o nulos na conta de minha vida: foram dous anos de t\u00e9dio, de desespero \u00edntimo, de orgulho abatido, de amor abafado.<\/p>\n<p>Lia, \u00e9 verdade. Mas s\u00f3 o tempo, a aus\u00eancia, a id\u00e9ia do meu cora\u00e7\u00e3o enganado, da minha dignidade ofendida, puderam trazer-me a calma necess\u00e1ria, a calma de hoje.<\/p>\n<p>E sabe que n\u00e3o ganhei s\u00f3 isto. Ganhei conhecer um homem cujo retrato trago no esp\u00edrito e que me parece singularmente parecido com outros muitos. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 pouco; e a li\u00e7\u00e3o h\u00e1 de servir-me, como a ti, como \u00e0s nossas amigas inexperientes. Mostra-lhes estas cartas; s\u00e3o folhas de um roteiro que se eu tivera antes, talvez, n\u00e3o houvesse perdido uma ilus\u00e3o e dous anos de vida.<\/p>\n<p>Devo terminar esta. \u00c9 o pref\u00e1cio do meu romance, estudo, conto, o que quiseres. N\u00e3o questiono sobre a designa\u00e7\u00e3o, nem consulto para isso os mestres d&#8217;arte.<\/p>\n<p>Estudo ou romance, isto \u00e9 simplesmente um livro de verdades, um epis\u00f3dio singelamente contado, na confabula\u00e7\u00e3o \u00edntima dos esp\u00edritos, na plena confian\u00e7a de dous cora\u00e7\u00f5es que se estimam e se merecem.<\/p>\n<p>Adeus.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Era no tempo de meu marido.<\/p>\n<p>A Corte estava ent\u00e3o animada e n\u00e3o tinha esta cruel monotonia que eu sinto aqui atrav\u00e9s das tuas cartas e dos jornais de que sou assinante.<\/p>\n<p>Minha casa era um ponto de reuni\u00e3o de alguns rapazes conversados e algumas mo\u00e7as elegantes. Eu, rainha eleita pelo voto universal&#8230; de minha casa, presidia aos ser\u00f5es familiares. Fora de casa, t\u00ednhamos os teatros animados, as partidas das amigas, mil outras distra\u00e7\u00f5es que davam \u00e0 minha vida certas alegrias exteriores em falta das \u00edntimas, que s\u00e3o as \u00fanicas verdadeiras e fecundas.<\/p>\n<p>Se eu n\u00e3o era feliz, vivia alegre.<\/p>\n<p>E aqui vai o come\u00e7o do meu romance.<\/p>\n<p>Um dia meu marido pediu-me como obs\u00e9quio especial que eu n\u00e3o fosse \u00e0 noite ao Teatro L\u00edrico. Dizia ele que n\u00e3o podia acompanhar-me por ser v\u00e9spera de sa\u00edda de paquete.<\/p>\n<p>Era razo\u00e1vel o pedido.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, por\u00e9m, que esp\u00edrito mau sussurrou-me ao ouvido e eu respondi peremptoriamente que havia de ir ao teatro, e com ele. Insistiu no pedido, insisti na recusa. Pouco bastou para que eu julgasse a minha honra empenhada naquilo. Hoje vejo que era a minha vaidade ou o meu destino.<\/p>\n<p>Eu tinha certa superioridade sobre o esp\u00edrito de meu marido. O meu tom imperioso n\u00e3o admitia recusa; meu marido cedeu a despeito de tudo, e \u00e0 noite fomos ao Teatro L\u00edrico.<\/p>\n<p>Havia pouca gente e os cantores estavam endefluxados. No fim do primeiro ato meu marido, com um sorriso vingativo, disse-me estas palavras rindo-se:<\/p>\n<p>&#8211; Estimei isto.<\/p>\n<p>&#8211; Isto? perguntei eu franzindo a testa.<\/p>\n<p>&#8211; Este espet\u00e1culo deplor\u00e1vel. Fizeste da vinda hoje ao teatro um cap\u00edtulo de honra; estimo ver que o espet\u00e1culo n\u00e3o correspondeu \u00e0 tua expectativa.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo contr\u00e1rio, acho magn\u00edfico.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom.<\/p>\n<p>Deves compreender que eu tinha interesse em me n\u00e3o dar por vencida; mas acreditas facilmente que no fundo eu estava perfeitamente aborrecida do espet\u00e1culo e da noite.<\/p>\n<p>Meu marido, que n\u00e3o ousava retorquir, calou-se com ar de vencido, e adiantando-se um pouco \u00e0 frente do camarote percorreu com bin\u00f3culo as linhas dos poucos camarotes fronteiros em que havia gente.<\/p>\n<p>Eu recuei a minha cadeira, e, encostada \u00e0 divis\u00e3o do camarote, olhava para o corredor vendo a gente que passava.<\/p>\n<p>No corredor, exatamente em frente \u00e0 porta do nosso camarote, estava um sujeito encostado, fumando e com os olhos fitos em mim. N\u00e3o reparei ao princ\u00edpio, mas a insist\u00eancia obrigou-me a isso. Olhei para ele a ver se era algum conhecido nosso que esperava ser descoberto a fim de vir ent\u00e3o cumprimentar-nos. A intimidade podia explicar este brinco. Mas n\u00e3o conheci.<\/p>\n<p>Depois de alguns segundos, vendo que ele n\u00e3o tirava os olhos de mim, desviei os meus e cravei-os no pano da boca e na plat\u00e9ia.<\/p>\n<p>Meu marido, tendo acabado o exame dos camarotes, deu-me o bin\u00f3culo e sentou-se ao fundo diante de mim.<\/p>\n<p>Trocamos algumas palavras.<\/p>\n<p>No fim de um quarto de hora a orquestra come\u00e7ou os prel\u00fadios para o segundo ato. Levantei-me, meu marido aproximou a cadeira para a frente, e nesse \u00ednterim lancei um olhar furtivo para o corredor.<\/p>\n<p>O homem estava l\u00e1.<\/p>\n<p>Disse a meu marido que fechasse a porta.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou o segundo ato.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por um esp\u00edrito de curiosidade, procurei ver se o meu observador entrava para as cadeiras. Queria conhec\u00ea-lo melhor no meio da multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, ou porque n\u00e3o entrasse, ou porque eu n\u00e3o tivesse reparado bem, o que \u00e9 certo \u00e9 que o n\u00e3o vi.<\/p>\n<p>Correu o segundo ato mais aborrecido do que o primeiro.<\/p>\n<p>No intervalo recuei de novo a cadeira, e meu marido, a pretexto de que fazia calor, abriu a porta do camarote.<\/p>\n<p>Lancei um olhar para o corredor.<\/p>\n<p>N\u00e3o vi ningu\u00e9m; mas da\u00ed a poucos minutos chegou o mesmo indiv\u00edduo, colocando-se no mesmo lugar, e fitou em mim os mesmos olhos impertinentes.<\/p>\n<p>Somos todas vaidosas da nossa beleza e desejamos que o mundo inteiro nos admire. \u00c9 por isso que muitas vezes temos a indiscri\u00e7\u00e3o de admirar a corte mais ou menos arriscada de um homem. H\u00e1, por\u00e9m, uma maneira de faz\u00ea-la que nos irrita e nos assusta; irrita-nos por impertinente, assusta-nos por perigosa. \u00c9 o que se dava naquele caso.<\/p>\n<p>O meu admirador insistia de modo tal que me levava a um dilema: ou ele era v\u00edtima de uma paix\u00e3o louca, ou possu\u00eda a aud\u00e1cia mais desfa\u00e7ada. Em qualquer dos casos n\u00e3o era conveniente que eu animasse as suas adora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fiz estas reflex\u00f5es enquanto decorria o tempo do intervalo. Ia come\u00e7ar o terceiro ato. Esperei que o mudo perseguidor se retirasse e disse a meu marido:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos?<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Tenho sono simplesmente; mas o espet\u00e1culo est\u00e1 magn\u00edfico.<\/p>\n<p>Meu marido ousou exprimir um sofisma.<\/p>\n<p>&#8211; Se est\u00e1 magn\u00edfico como te faz sono?<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe dei resposta.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos.<\/p>\n<p>No corredor encontramos a fam\u00edlia do Azevedo que voltava de uma visita a um camarote conhecido. Demorei-me um pouco para abra\u00e7ar as senhoras. Disse-lhes que tinha uma dor de cabe\u00e7a e que me retirava por isso.<\/p>\n<p>Chegamos \u00e0 porta da Rua dos Ciganos.<\/p>\n<p>A\u00ed esperei o carro por alguns minutos.<\/p>\n<p>Quem me havia de aparecer ali, encostado ao portal fronteiro?<\/p>\n<p>O misterioso.<\/p>\n<p>Enraiveci.<\/p>\n<p>Cobri o rosto o mais que pude com o meu capuz e esperei o carro, que chegou logo.<\/p>\n<p>O misterioso l\u00e1 ficou t\u00e3o insens\u00edvel e t\u00e3o mudo como o portal a que estava encostado.<\/p>\n<p>Durante a viagem a id\u00e9ia daquele incidente n\u00e3o me saiu da cabe\u00e7a. Fui despertada na minha distra\u00e7\u00e3o quando o carro parou \u00e0 porta da casa, em Mata-cavalos.<\/p>\n<p>Fiquei envergonhada de mim mesma e decidi n\u00e3o pensar mais no que se havia passado.<\/p>\n<p>Mas acreditar\u00e1s tu, Carlota? Dormi meia hora mais tarde do que supunha, tanto a minha imagina\u00e7\u00e3o teimava em reproduzir o corredor, o portal, e o meu admirador plat\u00f4nico.<\/p>\n<p>No dia seguinte pensei menos. No fim de oito dias tinha-me varrido do esp\u00edrito aquela cena, e eu dava gra\u00e7as a Deus por haver-me salvo de uma preocupa\u00e7\u00e3o que podia ser-me fatal.<\/p>\n<p>Quis acompanhar o aux\u00edlio divino, resolvendo n\u00e3o ir ao teatro durante algum tempo.<\/p>\n<p>Sujeitei-me \u00e0 vida \u00edntima e limitei-me \u00e0 distra\u00e7\u00e3o das reuni\u00f5es \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Entretanto estava pr\u00f3ximo o dia dos anos da tua filhinha. Lembrei-me que para tomar parte na tua festa de fam\u00edlia, tinha come\u00e7ado um m\u00eas antes um trabalhozinho. Cumpria remat\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Uma quinta-feira de manh\u00e3 mandei vir os preparos da obra e ia continu\u00e1-la, quando descobri dentre uma meada de l\u00e3 um inv\u00f3lucro azul fechando uma carta.<\/p>\n<p>Estranhei aquilo. A carta n\u00e3o tinha indica\u00e7\u00e3o. Estava colada e parecia esperar que a abrisse a pessoa a quem era endere\u00e7ada. Quem seria? Seria meu marido? Acostumada a abrir todas as cartas que lhe eram dirigidas, n\u00e3o hesitei. Rompi o inv\u00f3lucro e descobri o papel cor-de-rosa que vinha dentro.<\/p>\n<p>Dizia a carta:<\/p>\n<p>N\u00e3o se surpreenda, Eug\u00eania; este meio \u00e9 o do desespero, este desespero \u00e9 o do amor. Amo-a e muito. At\u00e9 certo tempo procurei fugir-lhe e abafar este sentimento; n\u00e3o posso mais. N\u00e3o me viu no Teatro L\u00edrico? Era uma for\u00e7a oculta e interior que me levava ali. Desde ent\u00e3o n\u00e3o a vi mais. Quando a verei? N\u00e3o a veja embora, paci\u00eancia; mas que o seu cora\u00e7\u00e3o palpite por mim um minuto em cada dia, \u00e9 quanto basta a um amor que n\u00e3o busca nem as venturas do gozo, nem as galas da publicidade. Se a ofendo, perdoe um pecador; se pode amar-me, fa\u00e7a-me um deus.<\/p>\n<p>Li esta carta com a m\u00e3o tr\u00eamula e os olhos anuviados; e ainda durante alguns minutos depois n\u00e3o sabia o que era de mim.<\/p>\n<p>Cruzavam-se e confundiam-se mil id\u00e9ias na minha cabe\u00e7a, como estes p\u00e1ssaros negros que perpassam em bandos no c\u00e9u nas horas pr\u00f3ximas da tempestade.<\/p>\n<p>Seria o amor que movera a m\u00e3o daquele inc\u00f3gnito? Seria simplesmente aquilo um meio do sedutor calculado? Eu lan\u00e7ava um olhar vago em derredor e temia ver entrar meu marido.<\/p>\n<p>Tinha o papel diante de mim e aquelas letras misteriosas pareciam-me outros tantos olhos de uma serpente infernal. Com um movimento nervoso e involunt\u00e1rio amarrotei a carta nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Se Eva tivesse feito outro tanto \u00e0 cabe\u00e7a da serpente que a tentava n\u00e3o houvera pecado. Eu n\u00e3o podia estar certa do mesmo resultado, porque esta que me aparecia ali e cuja cabe\u00e7a eu esmagava, podia, como a hidra de Lerna, brotar muitas outras cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>N\u00e3o cuides que eu fazia ent\u00e3o esta dupla evoca\u00e7\u00e3o b\u00edblica e pag\u00e3. Naquele momento, n\u00e3o refletia, desvairava; s\u00f3 muito tempo depois pude ligar duas id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Dous sentimentos atuavam em mim: primeiramente, uma esp\u00e9cie de terror que infundia o abismo, abismo profundo que eu pressentia atr\u00e1s daquela carta; depois uma vergonha amarga de ver que eu n\u00e3o estava t\u00e3o alta na considera\u00e7\u00e3o daquele desconhecido, que pudesse demov\u00ea-lo do meio que empregou.<\/p>\n<p>Quando o meu esp\u00edrito se acalmou \u00e9 que eu pude fazer a reflex\u00e3o que devia acudir-me desde o princ\u00edpio. Quem poria ali aquela carta? Meu primeiro movimento foi para chamar todos os meus f\u00e2mulos. Mas deteve-me logo a id\u00e9ia de que por uma simples interroga\u00e7\u00e3o nada poderia colher e ficava divulgado o achado da carta. De que valia isto?<\/p>\n<p>N\u00e3o chamei ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Entretanto, dizia eu comigo, a empresa foi audaz; podia falhar a cada tr\u00e2mite; que m\u00f3vel impeliu \u00e0quele homem a dar este passo? Seria amor ou sedu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Voltando a este dilema, meu esp\u00edrito, apesar dos perigos, comprazia-se em aceitar a primeira hip\u00f3tese: era a que respeitava a minha considera\u00e7\u00e3o de mulher casada e a minha vaidade de mulher formosa.<\/p>\n<p>Quis adivinhar lendo a carta de novo: li-a, n\u00e3o uma, mas duas, tr\u00eas, cinco vezes.<\/p>\n<p>Uma curiosidade indiscreta prendia-me \u00e0quele papel. Fiz um esfor\u00e7o e resolvi aniquil\u00e1-lo, protestando que ao segundo caso nenhum escravo ou criado me ficaria em casa.<\/p>\n<p>Atravessei a sala com o papel na m\u00e3o, dirigi-me para o meu gabinete, onde acendi uma vela e queimei aquela carta que me queimava as m\u00e3os e a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando a \u00faltima fa\u00edsca do papel enegreceu e voou, senti passos atr\u00e1s de mim. Era meu marido.<\/p>\n<p>Tive um movimento espont\u00e2neo: atirei-me em seus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Ele abra\u00e7ou-me com certo espanto.<\/p>\n<p>E quando o meu abra\u00e7o se prolongava senti que ele me repelia com brandura dizendo-me:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, olha que me afogas!<\/p>\n<p>Recuei.<\/p>\n<p>Estristeceu-me ver aquele homem, que podia e devia salvar-me, n\u00e3o compreender, por instinto ao menos, que se eu o abra\u00e7ava t\u00e3o estreitamente era como se me agarrasse \u00e0 id\u00e9ia do dever.<\/p>\n<p>Mas este sentimento que me apertava o cora\u00e7\u00e3o passou um momento para dar lugar a um sentimento de medo. As cinzas da carta ainda estavam no ch\u00e3o, a vela conservava-se acesa em pleno dia; era bastante para que ele me interrogasse.<\/p>\n<p>Nem por curiosidade o fez!<\/p>\n<p>Deu dous passos no gabinete e saiu.<\/p>\n<p>Senti uma l\u00e1grima rolar-me pela face. N\u00e3o era a primeira l\u00e1grima de amargura. Seria a primeira advert\u00eancia do pecado?<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>Decorreu um m\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve durante esse tempo mudan\u00e7a alguma em casa. Nenhuma carta apareceu mais, e a minha vigil\u00e2ncia, que era extrema, tornou-se de todo in\u00fatil.<\/p>\n<p>N\u00e3o me podia esquecer o incidente da carta. Se fosse s\u00f3 isto! As primeiras palavras voltavam-me incessantemente \u00e0 mem\u00f3ria; depois, as outras, as outras, todas. Eu tinha a carta de cor!<\/p>\n<p>Lembras-te? Uma das minhas vaidades era ter a mem\u00f3ria feliz. At\u00e9 neste dote era castigada. Aquelas palavras atordoavam-me, faziam-me arder a cabe\u00e7a. Por qu\u00ea? Ah! Carlota! \u00e9 que eu achava nelas um encanto indefin\u00edvel, encanto doloroso, porque era acompanhado de um remorso, mas encanto de que eu me n\u00e3o podia libertar.<\/p>\n<p>N\u00e3o era o cora\u00e7\u00e3o que se empenhava, era a imagina\u00e7\u00e3o. A imagina\u00e7\u00e3o perdia-me; a luta do dever e da imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 cruel e perigosa para os esp\u00edritos fracos. Eu era fraca. O mist\u00e9rio fascinava a minha fantasia.<\/p>\n<p>Enfim os dias e as divers\u00f5es puderam desviar o meu esp\u00edrito daquele pensamento \u00fanico. No fim de um m\u00eas, se eu n\u00e3o tinha esquecido inteiramente o misterioso e a carta dele, estava, todavia, bastante calma para rir de mim e dos meus temores.<\/p>\n<p>Na noite de uma quinta-feira, achavam-se algumas pessoas em minha casa, e muitas das minhas amigas, menos tu. Meu marido n\u00e3o tinha voltado, e a aus\u00eancia dele n\u00e3o era notada nem sentida, visto que, apesar de franco cavalheiro como era, n\u00e3o tinha o dom particular de um conviva para tais reuni\u00f5es.<\/p>\n<p>Tinha-se cantado, tocado, conversado; reinava em todos a mais franca e expansiva alegria; o tio da Am\u00e9lia Azevedo fazia rir a todos com as suas excentricidades; a Am\u00e9lia arrebatava bravos a todos com as notas da sua garganta celeste; est\u00e1vamos em um intervalo, esperando a hora do ch\u00e1.<\/p>\n<p>Anunciou-se meu marido.<\/p>\n<p>N\u00e3o vinha s\u00f3. Vinha ao lado dele um homem alto, magro, elegante. N\u00e3o pude conhec\u00ea-lo. Meu marido adiantou-se, e no meio do sil\u00eancio geral veio apresentar-mo.<\/p>\n<p>Ouvi de meu marido que o nosso conviva chamava-se Em\u00edlio.***<\/p>\n<p>Fixei nele um olhar e retive um grito.<\/p>\n<p>Era ele!<\/p>\n<p>O meu grito foi substitu\u00eddo por um gesto de surpresa. Ningu\u00e9m percebeu. Ele pareceu perceber menos que ningu\u00e9m. Tinha os olhos fixos em mim, e com um gesto gracioso dirigiu-me algumas palavras de lisonjeira cortesia.<\/p>\n<p>Respondi como pude.<\/p>\n<p>Seguiram-se as apresenta\u00e7\u00f5es, e durante dez minutos houve um sil\u00eancio de acanhamento em todos.<\/p>\n<p>Os olhos voltavam-se todos para o rec\u00e9m-chegado. Eu tamb\u00e9m voltei os meus e pude reparar naquela figura em que tudo estava disposto para atrair as aten\u00e7\u00f5es: cabe\u00e7a formosa e altiva, olhar profundo e magn\u00e9tico, maneiras elegantes e delicadas, certo ar distinto e pr\u00f3prio que fazia contraste com o ar afetado e prosaicamente medido dos outros rapazes.<\/p>\n<p>Este exame de minha parte foi r\u00e1pido. Eu n\u00e3o podia, nem me convinha encontrar o olhar de Em\u00edlio. Tornei a abaixar os olhos e esperei ansiosa que a conversa\u00e7\u00e3o voltasse de novo ao seu curso.<\/p>\n<p>Meu marido encarregou-se de dar o tom. Infelizmente era ainda o novo conviva o motivo da conversa geral.<\/p>\n<p>Soubemos ent\u00e3o que Em\u00edlio era um provinciano filho de pais opulentos, que recebera uma esmerada educa\u00e7\u00e3o na Europa, onde n\u00e3o houve um s\u00f3 recanto que n\u00e3o visitasse.<\/p>\n<p>Voltara h\u00e1 pouco tempo ao Brasil, e antes de ir para a prov\u00edncia tinha determinado passar algum tempo no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Foi tudo quanto soubemos. Vieram as mil perguntas sobre as viagens de Em\u00edlio, e este com a mais am\u00e1vel solicitude, satisfazia a curiosidade geral.<\/p>\n<p>S\u00f3 eu n\u00e3o era curiosa. \u00c9 que n\u00e3o podia articular palavra. Pedia interiormente a explica\u00e7\u00e3o deste romance misterioso, come\u00e7ado em um corredor do teatro, continuado em uma carta an\u00f4nima e na apresenta\u00e7\u00e3o em minha casa por interm\u00e9dio do meu pr\u00f3prio marido.<\/p>\n<p>De quando em quando levantava os olhos para Em\u00edlio e achava-o calmo e frio, respondendo polidamente \u00e0s interroga\u00e7\u00f5es dos outros e narrando ele pr\u00f3prio, com uma gra\u00e7a modesta e natural, alguma das suas aventuras de viagem.<\/p>\n<p>Ocorreu-me uma id\u00e9ia. Seria realmente ele o misterioso do teatro e da carta? Pareceu-me ao princ\u00edpio que sim, mas eu podia ter-me enganado; eu n\u00e3o tinha as fei\u00e7\u00f5es do outro bem presentes \u00e0 mem\u00f3ria; parecia-me que as duas criaturas eram uma e a mesma; mas n\u00e3o podia explicar-se o engano por uma semelhan\u00e7a miraculosa?<\/p>\n<p>De reflex\u00e3o em reflex\u00e3o, foi-me correndo o tempo, e eu assistia \u00e0 conversa de todos como se n\u00e3o estivesse presente. Veio a hora do ch\u00e1. Depois cantou-se e tocou-se ainda. Em\u00edlio ouvia tudo com aten\u00e7\u00e3o religiosa e mostrava-se t\u00e3o apreciador do gosto como era conversador discreto e pertinente.<\/p>\n<p>No fim da noite tinha cativado a todos. Meu marido, sobretudo, estava radiante. Via-se que ele se considerava feliz por ter feito a descoberta de mais um amigo para si e um companheiro para as nossas reuni\u00f5es de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Em\u00edlio saiu prometendo voltar algumas vezes.<\/p>\n<p>Quando eu me achei a s\u00f3s com meu marido, perguntei-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Donde conheces este homem?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma p\u00e9rola, n\u00e3o \u00e9? Foi-me apresentado no escrit\u00f3rio h\u00e1 dias; simpatizei logo; parece ser dotado de boa alma, \u00e9 vivo de esp\u00edrito e discreto como o bom senso. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que n\u00e3o goste dele&#8230;<\/p>\n<p>E como eu o ouvisse s\u00e9ria e calada, meu marido interrompeu-se e perguntou-me:<\/p>\n<p>&#8211; Fiz mal em traz\u00ea-lo aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Mal, por qu\u00ea? perguntei eu.<\/p>\n<p>&#8211; Por cousa nenhuma. Que mal havia de ser? \u00c9 um homem distinto&#8230;<\/p>\n<p>Pus termo ao novo louvor do rapaz, chamando um escravo para dar algumas ordens.<\/p>\n<p>E retirei-me ao meu quarto.<\/p>\n<p>O sono dessa noite n\u00e3o foi o sono dos justos, podes crer. O que me irritava era a preocupa\u00e7\u00e3o constante em que eu andava depois destes acontecimentos. J\u00e1 eu n\u00e3o podia fugir inteiramente a essa preocupa\u00e7\u00e3o: era involunt\u00e1ria, subjugava-me, arrastava-me. Era a curiosidade do cora\u00e7\u00e3o, esse primeiro sinal das tempestades em que sucumbe a nossa vida e o nosso futuro.<\/p>\n<p>Parece que aquele homem lia na minha alma e sabia apresentar-se no momento mais pr\u00f3prio a ocupar-me a imagina\u00e7\u00e3o como uma figura po\u00e9tica e imponente. Tu, que o conheceste depois, dize-me se, dadas as circunst\u00e2ncias anteriores, n\u00e3o era para produzir esta impress\u00e3o no esp\u00edrito de uma mulher como eu!<\/p>\n<p>Como eu, repito. Minhas circunst\u00e2ncias eram especiais; se n\u00e3o o soubeste nunca, suspeitaste-o ao menos.<\/p>\n<p>Se meu marido tivesse em mim uma mulher, e se eu tivesse nele um marido, minha salva\u00e7\u00e3o era certa. Mas n\u00e3o era assim. Entramos no nosso lar nupcial como dous viajantes estranhos em uma hospedaria, e aos quais a calamidade do tempo e a hora avan\u00e7ada da noite obrigam a aceitar pousada sob o teto do mesmo aposento.<\/p>\n<p>Meu casamento foi resultado de um c\u00e1lculo e de uma conveni\u00eancia. N\u00e3o inculpo meus pais. Eles cuidavam fazer-me feliz e morreram na convic\u00e7\u00e3o de que o era.<\/p>\n<p>Eu podia, apesar de tudo, encontrar no marido que me davam um objeto de felicidade para todos os meus dias. Bastava para isso que meu marido visse em mim uma alma companheira da sua alma, um cora\u00e7\u00e3o s\u00f3cio do seu cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se dava isto; meu marido entendia o casamento ao modo da maior parte da gente; via nele a obedi\u00eancia \u00e0s palavras do Senhor no<br \/>\nG\u00eanesis.<\/p>\n<p>Fora disso, fazia-me cercar de certa considera\u00e7\u00e3o e dormia tranq\u00fcilo na convic\u00e7\u00e3o de que havia cumprido o dever.<\/p>\n<p>O dever! esta era a minha t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. Eu sabia que as paix\u00f5es n\u00e3o eram soberanas e que a nossa vontade pode triunfar delas. A este respeito eu tinha em mim for\u00e7as bastantes para repelir id\u00e9ias m\u00e1s. Mas n\u00e3o era o presente que me abafava e atemorizava; era o futuro. At\u00e9 ent\u00e3o aquele romance influ\u00eda no meu esp\u00edrito pela circunst\u00e2ncia do mist\u00e9rio em que vinha envolto; a realidade havia de abrir-me os olhos; consolava-me a esperan\u00e7a de que eu triunfaria de um amor culpado. Mas, poderia nesse futuro, cuja proximidade eu n\u00e3o calculava, resistir convenientemente \u00e0 paix\u00e3o e salvar intactas a minha considera\u00e7\u00e3o e a minha consci\u00eancia? Esta era a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, no meio destas oscila\u00e7\u00f5es, eu n\u00e3o via a m\u00e3o do meu marido estender-se para salvar-me. Pelo contr\u00e1rio, quando na ocasi\u00e3o de queimar a carta, atirava-me a ele, lembras-te que ele me repeliu com uma palavra de enfado.<\/p>\n<p>Isto pensei, isto senti, na longa noite que se seguiu \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de Em\u00edlio.<\/p>\n<p>No dia seguinte estava fatigada de esp\u00edrito; mas, ou fosse calma ou fosse prostra\u00e7\u00e3o, senti que os pensamentos dolorosos que me haviam torturado durante a noite esvaeceram-se \u00e0 luz da manh\u00e3, como verdadeiras aves da noite e da solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o abriu-se ao meu esp\u00edrito um raio de luz. Era a repeti\u00e7\u00e3o do mesmo pensamento que me voltava no meio das preocupa\u00e7\u00f5es daqueles \u00faltimos dias.<\/p>\n<p>Por que temer? dizia eu comigo. Sou uma triste medrosa; e fatigo-me em criar montanhas para cair extenuada no meio da plan\u00edcie. Eia! nenhum obst\u00e1culo se op\u00f5e ao meu caminho de mulher virtuosa e considerada. Este homem, se \u00e9 o mesmo, n\u00e3o passa de um mau leitor de romances realistas. O mist\u00e9rio \u00e9 que lhe d\u00e1 algum valor; visto de mais perto h\u00e1 de ser vulgar ou<br \/>\nhediondo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>N\u00e3o te quero fatigar com a narra\u00e7\u00e3o minuciosa e di\u00e1ria de todos os acontecimentos.<\/p>\n<p>Em\u00edlio continuou a freq\u00fcentar a nossa casa, mostrando sempre a mesma delicadeza e gravidade, e encantando a todos por suas maneiras distintas sem afeta\u00e7\u00e3o, am\u00e1veis sem fingimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei por que meu marido revelava-se cada vez mais amigo de Em\u00edlio. Este conseguira despertar nele um entusiasmo novo para mim e para todos. Que capricho era esse da natureza?<\/p>\n<p>Muitas vezes interroguei meu marido acerca desta amizade t\u00e3o s\u00fabita e t\u00e3o estrepitosa; quis at\u00e9 inventar suspeitas no esp\u00edrito dele; meu marido era inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Que queres? respondia-me ele. N\u00e3o sei por que simpatizo extraordinariamente com este rapaz. Sinto que \u00e9 uma bela pessoa, e eu n\u00e3o posso dissimular o entusiasmo de que me possuo quando estou perto dele.<\/p>\n<p>&#8211; Mas sem conhec\u00ea-lo&#8230; objetava eu.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! Tenho as melhores informa\u00e7\u00f5es; e demais, v\u00ea-se logo que \u00e9 uma pessoa distinta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; As maneiras enganam muitas vezes.<\/p>\n<p>&#8211; Conhece-se&#8230;<\/p>\n<p>Confesso, minha amiga, que eu podia impor a meu marido o afastamento de Em\u00edlio; mas quando esta id\u00e9ia me vinha \u00e0 cabe\u00e7a, n\u00e3o sei por que ria-me dos meus temores e declarava-me com for\u00e7as de resistir a tudo o que pudesse sobrevir.<\/p>\n<p>Demais, o procedimento de Em\u00edlio autorizava-me a desarmar. Ele era para mim de um respeito inalter\u00e1vel, tratava-me como a todas as outras, sem deixar entrever a menor inten\u00e7\u00e3o oculta, o menor pensamento reservado.<\/p>\n<p>Sucedeu o que era natural. Diante de tal procedimento n\u00e3o me ficava bem proceder com rigor e responder com a indiferen\u00e7a \u00e0 amabilidade.<\/p>\n<p>As coisas marchavam de tal modo que eu cheguei a persuadir-me de que tudo o que sucedera antes n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o alguma com aquele rapaz, e que n\u00e3o havia entre ambos mais do que um fen\u00f4meno da semelhan\u00e7a, o que ali\u00e1s eu n\u00e3o podia afirmar, porque, como te disse j\u00e1, n\u00e3o pudera reparar bem no homem do teatro.<\/p>\n<p>Aconteceu que dentro de pouco tempo est\u00e1vamos na maior intimidade, e eu era para ele o mesmo que todas as outras: admiradora e admirada.<\/p>\n<p>Das reuni\u00f5es passou Em\u00edlio \u00e0s simples visitas de dia, nas horas em que meu marido estava presente, e mais tarde, mesmo quando ele se achava ausente.<\/p>\n<p>Meu marido de ordin\u00e1rio era quem o trazia. Em\u00edlio vinha ent\u00e3o no seu carrinho que ele pr\u00f3prio dirigia, com a maior gra\u00e7a e eleg\u00e2ncia. Demorava-se horas e horas em nossa casa, tocando piano ou conversando.<\/p>\n<p>A primeira vez que o recebi s\u00f3, confesso que estremeci; mas foi um susto pueril; Em\u00edlio procedeu sempre do modo mais indiferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minhas suspeitas. Nesse dia, se algumas me ficaram, desvaneceram-se todas.<\/p>\n<p>Nisto passaram-se dous meses.<\/p>\n<p>Um dia, era de tarde, eu estava s\u00f3; esperava-te para irmos visitar teu pai enfermo. Parou um carro \u00e0 porta. Mandei ver. Era Em\u00edlio.<\/p>\n<p>Recebi-o como de costume.<\/p>\n<p>Disse-lhe que \u00edamos visitar um doente, e ele quis logo sair. Disse-lhe que ficasse at\u00e9 \u00e0 tua chegada. Ficou como se outro motivo o detivesse al\u00e9m de um dever de cortesia.<\/p>\n<p>Passou-se meia hora.<\/p>\n<p>Nossa conversa foi sobre assuntos indiferentes.<\/p>\n<p>Em um dos intervalos da conversa Em\u00edlio levantou-se e foi \u00e0 janela. Eu levantei-me igualmente para ir ao piano buscar um leque. Voltando para o sof\u00e1 reparei pelo espelho que Em\u00edlio me olhava com um olhar estranho. Era uma transfigura\u00e7\u00e3o. Parecia que naquele olhar estava concentrada toda a alma dele.<\/p>\n<p>Estremeci.<\/p>\n<p>Todavia fiz um esfor\u00e7o sobre mim e fui sentar-me, ent\u00e3o mais s\u00e9ria que nunca.<\/p>\n<p>Em\u00edlio encaminhou-se para mim.<\/p>\n<p>Olhei para ele.<\/p>\n<p>Era o mesmo olhar.<\/p>\n<p>Baixei os meus olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Assustou-se? perguntou-me ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondi nada. Mas comecei a tremer de novo e parecia-me que o cora\u00e7\u00e3o me queria pular fora do peito.<\/p>\n<p>\u00c9 que naquelas palavras havia a mesma express\u00e3o do olhar; as palavras faziam-me o efeito das palavras da carta.<\/p>\n<p>&#8211; Assustou-se? repetiu ele.<\/p>\n<p>&#8211; De qu\u00ea? perguntei eu procurando rir para n\u00e3o dar maior gravidade \u00e0 situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pareceu-me.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; D. Eug\u00eania, disse ele sentando-se; n\u00e3o quero por mais tempo ocultar o segredo que faz o tormento da minha vida. Fora um sacrif\u00edcio in\u00fatil. Feliz ou infeliz, prefiro a certeza da minha situa\u00e7\u00e3o. D. Eug\u00eania, eu amo-a.<\/p>\n<p>N\u00e3o te posso descrever como fiquei, ouvindo estas palavras. Senti que empalidecia; minhas m\u00e3os estavam geladas. Quis falar: n\u00e3o pude.<\/p>\n<p>Em\u00edlio continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! eu bem sei a que me exponho. Vejo como este amor \u00e9 culpado. Mas que quer? \u00c9 fatalidade. Andei tantas l\u00e9guas, passei \u00e0 ilharga de tantas belezas, sem que o meu cora\u00e7\u00e3o pulsasse. Estava-me reservada a ventura rara ou o tremendo infort\u00fanio de ser amado ou desprezado pela senhora. Curvo-me ao destino. Qualquer que seja a resposta que eu possa obter, n\u00e3o recuso, aceito. Que me responde?<\/p>\n<p>Enquanto ele falava, eu podia, ouvindo-lhe as palavras, reunir algumas id\u00e9ias. Quando ele acabou levantei os olhos e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Que resposta espera de mim?<\/p>\n<p>&#8211; Qualquer.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 pode esperar uma&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me ama?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Nem posso e nem amo, nem amaria se pudesse ou quisesse&#8230; Pe\u00e7o que se retire.<\/p>\n<p>E levantei-me.<\/p>\n<p>Em\u00edlio levantou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Retiro-me, disse ele; e parto com o inferno no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Levantei os ombros em sinal de indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! eu bem sei que isso lhe \u00e9 indiferente. \u00c9 isso o que eu mais sinto. Eu preferia o \u00f3dio; o \u00f3dio, sim; mas a indiferen\u00e7a, acredite, \u00e9 o pior castigo. Mas eu o recebo resignado. Tamanho crime deve ter tamanha pena.<\/p>\n<p>E tomando o chap\u00e9u chegou-se a mim de novo.<\/p>\n<p>Eu recuei dous passos.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! n\u00e3o tenha medo. Causo-lhe medo?<\/p>\n<p>&#8211; Medo? retorqui eu com altivez.<\/p>\n<p>&#8211; Asco? perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez&#8230; murmurei.<\/p>\n<p>&#8211; Uma \u00fanica resposta, tornou Em\u00edlio; conserva aquela carta?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! disse eu. Era o autor da carta?<\/p>\n<p>&#8211; Era. E aquele misterioso do corredor do Teatro L\u00edrico. Era eu. A carta?<\/p>\n<p>&#8211; Queimei-a.<\/p>\n<p>&#8211; Preveniu o meu pensamento.<\/p>\n<p>E cumprimentando-me friamente dirigiu-se para a porta. Quase a chegar \u00e0 porta senti que ele vacilava e levava a m\u00e3o ao peito.<\/p>\n<p>Tive um momento de piedade. Mas era necess\u00e1rio que ele se fosse, quer sofresse quer n\u00e3o. Todavia, dei um passo para ele e perguntei-lhe de longe:<\/p>\n<p>&#8211; Quer dar-me uma resposta?<\/p>\n<p>Ele parou e voltou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 que para praticar o que praticou fingiu-se amigo de meu marido?<\/p>\n<p>&#8211; Foi um ato indigno, eu sei; mas o meu amor \u00e9 daqueles que n\u00e3o recuam ante a indignidade. \u00c9 o \u00fanico que eu compreendo. Mas, perd\u00e3o; n\u00e3o quero enfad\u00e1-la mais. Adeus! Para sempre!<\/p>\n<p>E saiu.<\/p>\n<p>Pareceu-me ouvir um solu\u00e7o.<\/p>\n<p>Fui sentar-me ao sof\u00e1. Da\u00ed a pouco ouvi o rodar do carro.<\/p>\n<p>O tempo que mediou entre a partida dele e a tua chegada n\u00e3o sei como se passou. No lugar em que fiquei a\u00ed me achaste.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o tinha visto o amor sen\u00e3o nos livros. Aquele homem parecia-me realizar o amor que eu sonhara e vira descrito. A id\u00e9ia de que o cora\u00e7\u00e3o de Em\u00edlio sangrava naquele momento, despertou em mim um sentimento vivo de piedade. A piedade foi um primeiro passo.<\/p>\n<p>&#8220;Quem sabe, dizia eu comigo mesma, o que ele est\u00e1 agora sofrendo? E que culpa \u00e9 a dele, afinal de contas? Ama-me, disse-mo; o amor foi mais forte do que a raz\u00e3o; n\u00e3o viu que eu era sagrada para ele; revelou-se. Ama, \u00e9 a sua desculpa.&#8221;<\/p>\n<p>Depois repassava na mem\u00f3ria todas as palavras dele e procurava recordar-me do tom em que ele as proferira. Lembrava-me tamb\u00e9m do que eu dissera e o tom com que respondera \u00e0s suas confiss\u00f5es.<\/p>\n<p>Fui talvez severa demais. Podia manter a minha dignidade sem abrir-lhe uma chaga no cora\u00e7\u00e3o. Se eu falasse com mais brandura podia adquirir dele o respeito e a venera\u00e7\u00e3o. Agora h\u00e1 de amar-me ainda, mas n\u00e3o se recordar\u00e1 do que se passou sem um sentimento de amargura.<\/p>\n<p>Estava nestas reflex\u00f5es quando entraste.<\/p>\n<p>Lembras-te que me achaste triste e perguntaste a causa disso. Nada te respondi. Fomos \u00e0 casa da tua tia, sem que eu nada mudasse do ar que tinha antes.<\/p>\n<p>\u00c0 noite quando meu marido me perguntou por Em\u00edlio, respondi sem saber o que respondia:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o veio c\u00e1 hoje.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras? disse ele. Ent\u00e3o est\u00e1 doente.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vou amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 onde?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 casa dele.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez esteja doente.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o creio; esperemos at\u00e9 ver&#8230;<\/p>\n<p>Passei uma noite angustiosa. A id\u00e9ia de Em\u00edlio perturbava-me o sono. Afigurava-se-me que ele estaria \u00e0quela hora chorando l\u00e1grimas de sangue no desespero do amor n\u00e3o aceito.<\/p>\n<p>Era piedade? Era amor?<\/p>\n<p>Carlota, era uma e outra cousa. Que podia ser mais? Eu tinha posto o p\u00e9 em uma senda fatal; uma for\u00e7a me atra\u00eda. Eu fraca, podendo ser forte. N\u00e3o me inculpo sen\u00e3o a mim.<\/p>\n<p>At\u00e9 domingo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Na tarde seguinte, quando meu marido voltou perguntei por Em\u00edlio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o o procurei, respondeu-me ele; tomei o conselho; se n\u00e3o vier hoje, sim.<\/p>\n<p>Passou-se, pois, um dia sem ter not\u00edcias dele.<\/p>\n<p>No dia seguinte, n\u00e3o tendo aparecido, meu marido foi l\u00e1.<\/p>\n<p>Serei franca contigo, eu mesma lembrei isso a meu marido.<\/p>\n<p>Esperei ansiosa a resposta.<\/p>\n<p>Meu marido voltou pela tarde. Tinha um certo ar triste. Perguntei o que havia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. Fui encontrar com o rapaz de cama. Disse-me que era uma ligeira constipa\u00e7\u00e3o; mas eu creio que n\u00e3o \u00e9 isso s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que ser\u00e1 ent\u00e3o? perguntei eu, fitando um olhar em meu marido.<\/p>\n<p>&#8211; Alguma coisa mais. O rapaz falou-me em embarcar para o Norte. Est\u00e1 triste, distra\u00eddo, preocupado. Ao mesmo tempo que manifesta a esperan\u00e7a de ver os pais, revela receios de n\u00e3o tornar a v\u00ea-los. Tem id\u00e9ias de morrer na viagem. N\u00e3o sei que lhe aconteceu, mas foi alguma cousa. Talvez&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Talvez?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez alguma perda de dinheiro.<\/p>\n<p>Esta resposta transtornou o meu esp\u00edrito. Posso afirmar-te que esta resposta entrou por muito nos acontecimentos posteriores.<\/p>\n<p>Depois de algum sil\u00eancio perguntei:<\/p>\n<p>&#8211; Mas que pretendes fazer?<\/p>\n<p>&#8211; Abrir-me com ele. Perguntar o que \u00e9, e acudir-lhe se for poss\u00edvel. Em qualquer caso n\u00e3o o deixarei partir. Que achas?<\/p>\n<p>&#8211; Acho que sim.<\/p>\n<p>Tudo o que ia acontecendo contribu\u00eda poderosamente para tornar a id\u00e9ia de Em\u00edlio cada vez mais presente \u00e0 minha mem\u00f3ria, e, \u00e9 com dor que o confesso, n\u00e3o pensava j\u00e1 nele sem pulsa\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na noite do dia seguinte est\u00e1vamos reunidas algumas pessoas. Eu n\u00e3o dava grande vida \u00e0 reuni\u00e3o. Estava triste e desconsolada. Estava com raiva de mim pr\u00f3pria. Fazia-me algoz de Em\u00edlio e do\u00eda-me a id\u00e9ia de que ele padecesse ainda mais por mim.<\/p>\n<p>Mas, seriam nove horas, quando meu marido apareceu trazendo Em\u00edlio pelo bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Houve um movimento geral de surpresa.<\/p>\n<p>Realmente porque Em\u00edlio n\u00e3o aparecia alguns dias j\u00e1 todos come\u00e7avam a perguntar por ele; depois, porque o pobre mo\u00e7o vinha p\u00e1lido de cera.<\/p>\n<p>N\u00e3o te direi o que se passou nessa noite. Em\u00edlio parecia sofrer, n\u00e3o estava alegre como dantes; ao contr\u00e1rio, era naquela noite de uma taciturnidade, de uma tristeza que incomodava a todos, mas que me mortificava atrozmente, a mim que me fazia causa das suas dores.<\/p>\n<p>Pude falar-lhe em uma ocasi\u00e3o, a alguma dist\u00e2ncia das outras pessoas.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe-me, disse-lhe eu, se alguma palavra dura lhe disse. Compreende a minha posi\u00e7\u00e3o. Ouvindo bruscamente o que me disse n\u00e3o pude pensar no que dizia. Sei que sofreu; pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o sofra mais, que esque\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, murmurou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Meu marido falou-me de projetos seus&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De voltar \u00e0 minha prov\u00edncia, \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>&#8211; Mas doente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esta doen\u00e7a h\u00e1 de passar.<\/p>\n<p>E dizendo isto lan\u00e7ou-me um olhar t\u00e3o sinistro que eu tive medo.<\/p>\n<p>&#8211; Passar? passar como?<\/p>\n<p>&#8211; De algum modo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que me resta mais na terra?<\/p>\n<p>E voltou os olhos para enxugar uma l\u00e1grima.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso? disse eu. Est\u00e1 chorando?<\/p>\n<p>&#8211; As \u00faltimas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! se soubesse como me faz sofrer! N\u00e3o chore; eu lho pe\u00e7o. Pe\u00e7o-lhe mais. Pe\u00e7o-lhe que viva.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>&#8211; Ordeno-lhe.<\/p>\n<p>&#8211; Ordena-me? E se eu n\u00e3o obedecer? Se eu n\u00e3o puder?&#8230; Acredita que se possa viver com um espinho no cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Isto que te escrevo \u00e9 feio. A maneira por que ele falava \u00e9 que era apaixonada, dolorosa, comovente. Eu ouvia sem saber de mim. Aproximavam-se algumas pessoas. Quis p\u00f4r termo \u00e0 conversa e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Ama-me? disse eu. S\u00f3 o amor pode ordenar? Pois \u00e9 o amor que lhe ordena que viva!<\/p>\n<p>Em\u00edlio fez um gesto de alegria. Levantei-me para ir falar \u00e0s pessoas que se aproximavam.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, murmurou-me ele aos ouvidos.<\/p>\n<p>Quando, no fim do ser\u00e3o, Em\u00edlio se despediu de mim, dizendo-me, com um olhar em que a gratid\u00e3o e o amor irradiavam juntos: &#8211; At\u00e9 amanh\u00e3! &#8211; n\u00e3o sei que sentimento de confus\u00e3o e de amor, de remorso e de ternura se apoderou de mim.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; Em\u00edlio est\u00e1 mais alegre, dizia-me meu marido.<\/p>\n<p>Eu olhei para ele sem saber o que responder.<\/p>\n<p>Depois retirei-me precipitadamente. Parecia-me que via nele a imagem da minha consci\u00eancia.<\/p>\n<p>No dia seguinte recebi de Em\u00edlio esta carta:<\/p>\n<p>Eug\u00eania. Obrigado. Torno-me \u00e0 vida, e \u00e0 senhora o devo. Obrigado! fez de um cad\u00e1ver um homem, fa\u00e7a agora de um homem um deus. \u00c2nimo! \u00e2nimo!<\/p>\n<p>Li esta carta, reli, e&#8230; dir-to-ei, Carlota? beijei-a. Beijei-a repetidas vezes com alma, com paix\u00e3o, com del\u00edrio. Eu amava! eu amava!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o houve em mim a mesma luta, mas estava mudada a situa\u00e7\u00e3o dos meus sentimentos. Antes era o cora\u00e7\u00e3o que fugia \u00e0 raz\u00e3o, agora a raz\u00e3o fugia ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um crime, eu bem o via, bem o sentia; mas n\u00e3o sei qual era a minha fatalidade, qual era a minha natureza; eu achava nas del\u00edcias do crime desculpa ao meu erro, e procurava com isso legitimar a minha paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando meu marido se achava perto de mim eu me sentia melhor e mais corajosa&#8230;<\/p>\n<p>Paro aqui desta vez. Sinto uma opress\u00e3o no peito. \u00c9 a recorda\u00e7\u00e3o de todos estes acontecimentos.<\/p>\n<p>At\u00e9 domingo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>Seguiram-se alguns dias \u00e0s cenas que eu te contei na minha carta passada.<\/p>\n<p>Ativou-se entre mim e Em\u00edlio uma correspond\u00eancia. No fim de quinze dias eu s\u00f3 vivia do pensamento dele.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m dos que freq\u00fcentavam a nossa casa, nem mesmo tu, p\u00f4de descobrir este amor. \u00c9ramos dous namorados discretos ao \u00faltimo ponto.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que muitas vezes me perguntavam por que \u00e9 que eu me distra\u00eda tanto e andava t\u00e3o melanc\u00f3lica; isto chamava-me \u00e0 vida real e eu mudava logo de parecer.<\/p>\n<p>Meu marido sobretudo parecia sofrer com as minhas tristezas.<\/p>\n<p>A sua solicitude, confesso, incomodava-me. Muitas vezes lhe respondia mal, n\u00e3o j\u00e1 porque eu o odiasse, mas porque de todos era ele o \u00fanico a quem eu n\u00e3o quisera ouvir destas interroga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um dia voltando para casa \u00e0 tarde chegou-se ele a mim e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Eug\u00eania, tenho uma not\u00edcia a dar-te.<\/p>\n<p>&#8211; Qual?<\/p>\n<p>&#8211; E que te h\u00e1 de agradar muito.<\/p>\n<p>&#8211; Vejamos qual \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um passeio.<\/p>\n<p>&#8211; Aonde?<\/p>\n<p>&#8211; A id\u00e9ia foi minha. J\u00e1 fui ao Em\u00edlio e ele aplaudiu muito. O passeio deve ser domingo \u00e0 G\u00e1vea; iremos daqui muito cedinho. Tudo isto, \u00e9 preciso notar, n\u00e3o est\u00e1 decidido. Depende de ti. O que dizes?<\/p>\n<p>&#8211; Aprovo a id\u00e9ia.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem. A Carlota pode ir.<\/p>\n<p>&#8211; E deve ir, acrescentei eu; e algumas outras amigas.<\/p>\n<p>Pouco depois recebias tu e outras um bilhete de convite para o passeio.<\/p>\n<p>Lembras-te que l\u00e1 fomos. O que n\u00e3o sabes \u00e9 que nesse passeio, a favor da confus\u00e3o e a distra\u00e7\u00e3o geral, houve entre mim e Em\u00edlio um di\u00e1logo que foi para mim a primeira amargura de amor.<\/p>\n<p>&#8211; Eug\u00eania, dizia ele dando-me o bra\u00e7o, est\u00e1s certa de que me amas?<\/p>\n<p>&#8211; Estou.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem. O que te pe\u00e7o, nem sou eu que te pe\u00e7o, \u00e9 o meu cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 o teu cora\u00e7\u00e3o que te pedem, um movimento nobre e capaz de nos engrandecer aos nossos pr\u00f3prios olhos. N\u00e3o haver\u00e1 um recanto no mundo em que possamos viver, longe de todos e perto do c\u00e9u?<\/p>\n<p>&#8211; Fugir?<\/p>\n<p>&#8211; Sim!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! isso nunca!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me amas.<\/p>\n<p>&#8211; Amo, sim; \u00e9 j\u00e1 um crime, n\u00e3o quero ir al\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Recusas a felicidade?<\/p>\n<p>&#8211; Recuso a desonra.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me amas.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! meu Deus, como respond\u00ea-lo? Amo, sim; mas desejo ficar a seus olhos a mesma mulher, amorosa \u00e9 verdade, mas at\u00e9 certo ponto&#8230; pura.<\/p>\n<p>&#8211; O amor que calcula, n\u00e3o \u00e9 amor.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondi. Em\u00edlio disse estas palavras com uma express\u00e3o tal de desd\u00e9m e com uma inten\u00e7\u00e3o de ferir-me que eu senti o cora\u00e7\u00e3o bater-me apressado, e subir-me o sangue ao rosto.<\/p>\n<p>O passeio acabou mal.<\/p>\n<p>Esta cena tornou Em\u00edlio frio para mim; eu sofria com isso; procurei torn\u00e1-lo ao estado anterior; mas n\u00e3o consegui.<\/p>\n<p>Um dia em que nos ach\u00e1vamos a s\u00f3s, disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Em\u00edlio, se eu amanh\u00e3 te acompanhasse, o que farias?<\/p>\n<p>&#8211; Cumpria essa ordem divina.<\/p>\n<p>&#8211; Mas depois?<\/p>\n<p>&#8211; Depois? perguntou Em\u00edlio com ar de quem estranhava a pergunta.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, depois? continuei eu. Depois quando o tempo volvesse n\u00e3o me havias de olhar com desprezo?<\/p>\n<p>&#8211; Desprezo? N\u00e3o vejo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o? Que te mereceria eu depois?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! esse sacrif\u00edcio seria feito por minha causa, eu fora covarde se te lan\u00e7asse isso em rosto.<\/p>\n<p>&#8211; Di-lo-ias no teu \u00edntimo.<\/p>\n<p>&#8211; Juro que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois a meus olhos \u00e9 assim; eu nunca me perdoaria esse erro.<\/p>\n<p>Em\u00edlio p\u00f4s o rosto nas m\u00e3os e pareceu chorar. Eu que at\u00e9 ali falava com esfor\u00e7o, fui a ele e tirei-lhe o rosto das m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isto? disse eu. N\u00e3o v\u00eas que me fazes chorar tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>Ele olhou para mim com os olhos rasos de l\u00e1grimas. Eu tinha os meus \u00famidos.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, disse ele repentinamente. Vou partir.<\/p>\n<p>E deu um passo para a porta.<\/p>\n<p>&#8211; Se me prometes viver, disse-lhe, parte; se tens alguma id\u00e9ia sinistra, fica.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que viu ele no meu olhar, mas tomando a m\u00e3o que eu lhe estendia beijou-a repetidas vezes (eram os primeiros beijos) e disse-me com fogo:<\/p>\n<p>&#8211; Fico, Eug\u00eania!<\/p>\n<p>Ouvimos um ru\u00eddo fora. Mandei ver. Era meu marido que chegava enfermo. Tinha tido um ataque no escrit\u00f3rio. Tornara a si, mas achava-se mal. Alguns amigos o trouxeram dentro de um carro.<\/p>\n<p>Corri para a porta. Meu marido vinha p\u00e1lido e desfeito. Mal podia andar ajudado pelos amigos.<\/p>\n<p>Fiquei desesperada, n\u00e3o cuidei de mais cousa alguma. O m\u00e9dico que acompanhara meu marido mandou logo fazer algumas aplica\u00e7\u00f5es de rem\u00e9dios. Eu estava impaciente; perguntava a todos se meu marido estava salvo.<\/p>\n<p>Todos me tranq\u00fcilizavam.<\/p>\n<p>Em\u00edlio mostrou-se pesaroso com o acontecimento. Foi a meu marido e apertou-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Em\u00edlio quis sair, meu marido disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, sei que n\u00e3o pode estar aqui sempre; pe\u00e7o-lhe, por\u00e9m, que venha, se puder, todos os dias.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o, disse Em\u00edlio.<\/p>\n<p>E saiu.<\/p>\n<p>Meu marido passou mal o resto daquele dia e a noite. Eu n\u00e3o dormi. Passei a noite no quarto.<\/p>\n<p>No dia seguinte estava exausta. Tantas como\u00e7\u00f5es diversas e uma vig\u00edlia t\u00e3o longa deixaram-me prostrada: cedia \u00e0 for\u00e7a maior. Mandei chamar a prima Elvira e fui deitar-me.<\/p>\n<p>Fecho esta carta neste ponto. Pouco falta para chegar ao termo da minha triste narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 domingo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VII<\/h2>\n<p>A mol\u00e9stia de meu marido durou poucos dias. De dia para dia agravava-se. No fim de oito dias os m\u00e9dicos desenganaram o doente.<\/p>\n<p>Quando recebi esta fatal nova fiquei como louca. Era meu marido, Carlota, e apesar de tudo eu n\u00e3o podia esquecer que ele tinha sido companheiro da minha vida e a id\u00e9ia salvadora nos desvios do meu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Em\u00edlio achou-me num estado de desespero. Procurou consolar-me. Eu n\u00e3o lhe ocultei que esta morte era um golpe profundo para mim.<\/p>\n<p>Uma noite est\u00e1vamos juntos todos, eu, a prima Elvira, uma parenta de meu marido e Em\u00edlio. Faz\u00edamos companhia ao doente. Este, depois de um longo sil\u00eancio, voltou-se para mim e disse-me:<\/p>\n<p>&#8211; A tua m\u00e3o.<\/p>\n<p>E apertando-me a m\u00e3o com uma energia suprema, voltou-se para a parede.<\/p>\n<p>Expirou.<\/p>\n<p>Passaram-se quatro meses depois dos fatos que te contei. Em\u00edlio acompanhou-me na dor e foi dos mais ass\u00edduos em todas as cerim\u00f4nias f\u00fanebres que se fizeram ao meu finado marido.<\/p>\n<p>Todavia, as visitas come\u00e7aram a escassear. Era, parecia-me, por motivo de uma delicadeza natural.<\/p>\n<p>No fim do prazo de que te falei, soube, por boca de um dos amigos de meu marido, que Em\u00edlio ia partir. N\u00e3o pude crer. Escrevi-lhe uma carta.<\/p>\n<p>Eu amava-o ent\u00e3o, como dantes, mais ainda agora que estava livre.<\/p>\n<p>Dizia a carta:<\/p>\n<p>Em\u00edlio.<br \/>\nConstou-me que ias partir. Ser\u00e1 poss\u00edvel? Eu mesma n\u00e3o posso acreditar nos meus ouvidos! Bem sabes se eu te amo. N\u00e3o \u00e9 tempo de coroar os nossos votos; mas n\u00e3o faltar\u00e1 muito para que o mundo nos revele uma uni\u00e3o que o amor nos imp\u00f5e. Vem tu mesmo responder-me por boca.<\/p>\n<p>Tua Eug\u00eania.<br \/>\nEm\u00edlio veio em pessoa. Asseverou-me que, se ia partir, era por neg\u00f3cio de pouco tempo, mas que voltaria logo. A viagem devia ter lugar da\u00ed a oito dias.<\/p>\n<p>Pedi-lhe que jurasse o que dizia, e ele jurou.<\/p>\n<p>Deixei-o partir.<\/p>\n<p>Da\u00ed a quatro dias recebia eu a seguinte carta dele:<\/p>\n<p>Menti, Eug\u00eania; vou partir j\u00e1. Menti ainda, eu n\u00e3o volto. N\u00e3o volto porque n\u00e3o posso. Uma uni\u00e3o contigo seria para mim o ideal da felicidade se eu n\u00e3o fosse homem de h\u00e1bitos opostos ao casamento. Adeus. Desculpa-me, e reza para que eu fa\u00e7a boa viagem. Adeus.<\/p>\n<p>Em\u00edlio.<br \/>\nAvalias facilmente como fiquei depois de ler esta carta. Era um castelo que se desmoronava. Em troca do meu amor, do meu primeiro amor, recebia deste modo a ingratid\u00e3o e o desprezo. Era justo: aquele amor culpado n\u00e3o podia ter bom fim; eu fui castigada pelas conseq\u00fc\u00eancias mesmo do meu crime.<\/p>\n<p>Mas, perguntava eu, como \u00e9 que este homem, que parecia amar-me tanto, recusou aquela de cuja honestidade podia estar certo, visto que p\u00f4de opor uma resist\u00eancia aos desejos de seu cora\u00e7\u00e3o? Isto me pareceu um mist\u00e9rio. Hoje vejo que n\u00e3o era; Em\u00edlio era um sedutor vulgar e s\u00f3 se diferen\u00e7ava dos outros em ter um pouco mais de habilidade que eles.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a minha hist\u00f3ria. Imagina o que sofri nestes dous anos. Mas o tempo \u00e9 um grande m\u00e9dico: estou curada.<\/p>\n<p>O amor ofendido e o remorso de haver de algum modo tra\u00eddo a confian\u00e7a de meu esposo fizeram-me doer muito. Mas eu creio que caro paguei o meu crime e acho-me reabilitada perante a minha consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Achar-me-ei perante Deus?<\/p>\n<p>E tu? \u00c9 o que me h\u00e1s de explicar amanh\u00e3; vinte e quatro horas depois de partir esta carta eu serei contigo.<\/p>\n<p>Adeus!<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte:www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo Primeiro H\u00e1 dois anos tomei uma resolu\u00e7\u00e3o singular: fui residir em Petr\u00f3polis em pleno m\u00eas de junho. Esta resolu\u00e7\u00e3o abriu largo campo \u00e0s conjecturas. Tu mesma nas cartas que me escreveste para aqui, deitaste o esp\u00edrito a adivinhar e figuraste mil raz\u00f5es, cada qual mais absurda. 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