{"id":118638,"date":"2017-04-06T18:39:21","date_gmt":"2017-04-06T20:39:21","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118638"},"modified":"2017-04-06T18:39:21","modified_gmt":"2017-04-06T20:39:21","slug":"a-mulher-de-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-mulher-de-preto","title":{"rendered":"A Mulher de Preto"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo Primeiro<\/h2>\n<p>A primeira vez que o Dr. Est\u00eav\u00e3o Soares falou ao deputado Meneses foi no Teatro L\u00edrico no tempo da memor\u00e1vel luta entre lagru\u00edstas e chartonistas. Um amigo comum os apresentou ao outro. No fim da noite separaram-se oferecendo cada um deles os seus servi\u00e7os e trocando os respectivos cart\u00f5es de v\u00edsita.<\/p>\n<p>S\u00f3 dous meses depois encontraram-se outra vez.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o Soares teve de ir \u00e0 casa de um ministro de Estado para saber de uns pap\u00e9is relativos a um parente da prov\u00edncia, e a\u00ed encontrou o deputado Meneses, que acabava de ter uma confer\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Houve sincero prazer em ambos encontrando-se pela segunda vez; e Meneses arrancou de Est\u00eav\u00e3o a promessa de que iria \u00e0 casa dele da\u00ed a poucos dias.<\/p>\n<p>O ministro depressa despachou o jovem m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Chegando ao corredor, Est\u00eav\u00e3o foi surpreendido com uma tremenda b\u00e1tega d&#8217;\u00e1gua, que nesse momento ca\u00eda, e come\u00e7ava a alagar a rua.<\/p>\n<p>O rapaz olhou a um e outro lado a ver se passava algum ve\u00edculo vazio, mas procurou inutilmente; todos que passavam iam ocupados.<\/p>\n<p>Apenas \u00e0 porta estava um coup\u00e9 vazio \u00e0 espera de algu\u00e9m, que o rapaz sup\u00f4s ser o deputado.<\/p>\n<p>Da\u00ed a alguns minutos desce com efeito o representante da na\u00e7\u00e3o, e admirou-se de ver o m\u00e9dico ainda \u00e0 porta.<\/p>\n<p>&#8211; Que quer? disse-lhe Est\u00eav\u00e3o; a chuva impediu-me de sair; aqui fiquei a ver se passa um t\u00edlburi.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 natural que n\u00e3o passe, e nesse caso ofere\u00e7o-lhe um lugar no meu coup\u00e9. Venha.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o; mas \u00e9 um inc\u00f4modo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, inc\u00f4modo ! \u00c9 um prazer. Vou deix\u00e1-lo em casa. Onde mora?<\/p>\n<p>&#8211; Rua da Miseric\u00f3rdia n.\u00b0&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, suba.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o hesitou um pouco mas n\u00e3o podia deixar de subir sem ofender o digno homem que de t\u00e3o boa vontade lhe fazia um obs\u00e9quio.<\/p>\n<p>Subiram.<\/p>\n<p>Mas em vez de mandar o cocheiro para a Rua da Miseric\u00f3rdia, o deputado gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Jo\u00e3o, para casa!<\/p>\n<p>E entrou.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o olhou para ele admirado.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei, disse-lhe Meneses; admira-se de ver que faltei \u00e0 minha palavra; mas eu desejo apenas que fique conhecendo a minha casa a fim de l\u00e1 voltar quanto antes.<\/p>\n<p>O coup\u00e9 rolava j\u00e1 pela rua fora debaixo de uma chuva torrencial. Meneses foi o primeiro que rompeu o sil\u00eancio de alguns minutos, dizendo ao jovem amigo:<\/p>\n<p>&#8211; Espero que o romance da nossa amizade n\u00e3o termine no primeiro cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o, que j\u00e1 reparara nas maneiras sol\u00edcitas do deputado, ficou inteiramente pasmado quando lhe ouviu falar no romance da amizade. A raz\u00e3o era simples. O amigo que os havia apresentado no Teatro L\u00edrico disse no dia seguinte:<\/p>\n<p>&#8211; Meneses \u00e9 um misantropo, e um c\u00e9ptico; n\u00e3o cr\u00ea em nada, nem estima ningu\u00e9m. Na pol\u00edtica como na sociedade faz um papel puramente negativo.<\/p>\n<p>Esta era a impress\u00e3o com que Est\u00eav\u00e3o, apesar da simpatia que o arrastava, falou a segunda vez a Meneses, e admirava-se de tudo, das maneiras, das palavras, e do tom de afeto que elas pareciam revelar.<\/p>\n<p>\u00c0 linguagem do deputado o jovem m\u00e9dico respondeu com igual franqueza.<\/p>\n<p>&#8211; Por que acabaremos no primeiro cap\u00edtulo? perguntou ele; um amigo n\u00e3o \u00e9 cousa que se despreze, acolhe-se como um presente dos deuses.<\/p>\n<p>&#8211; Dos deuses! disse Meneses rindo; j\u00e1 vejo que \u00e9 pag\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Alguma cousa, \u00e9 verdade; mas no bom sentido, respondeu Est\u00eav\u00e3o rindo tamb\u00e9m. Minha vida assemelha-se um pouco \u00e0 de Ulisses&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tem ao menos uma \u00cdtaca, sua p\u00e1tria, e uma Pen\u00e9lope, sua esposa.<\/p>\n<p>&#8211; Nem uma nem outra.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o entender-nos-emos.<\/p>\n<p>Dizendo isto o deputado voltou a cara para o outro lado, vendo a chuva que ca\u00eda na vidra\u00e7a da portinhola.<\/p>\n<p>Decorreram. dous ou tr\u00eas minutos, durante os quais Est\u00eav\u00e3o teve tempo de contemplar a seu gosto o companheiro de viagem.<\/p>\n<p>Meneses voltou-se e entrou em novo assunto.<\/p>\n<p>Quando o coup\u00e9 entrou na Rua do Lavradio, Meneses disse ao m\u00e9dico:<\/p>\n<p>&#8211; Moro nesta rua; estamos perto de casa. Promete-me que h\u00e1 de vir ver-me algumas vezes?<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3 mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Como vai a sua cl\u00ednica?<\/p>\n<p>&#8211; Apenas come\u00e7o, disse Est\u00eav\u00e3o; trabalho pouco; mas espero fazer alguma cousa.<\/p>\n<p>&#8211; O seu companheiro, na noite em que mo apresentou, disse-me que o senhor \u00e9 mo\u00e7o de muito merecimento.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho vontade de fazer alguma cousa.<\/p>\n<p>Da\u00ed a dez minutos parava o coup\u00e9 \u00e0 porta de uma casa da Rua do Lavradio.<\/p>\n<p>Apearam-se os dous e subiram.<\/p>\n<p>Meneses mostrou a Est\u00eav\u00e3o o seu gabinete de trabalho, onde haviam duas longas estantes de livros.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a minha fam\u00edlia, disse o deputado mostrando os livros. Hist\u00f3ria, filosofia, poesia&#8230; e alguns livros de pol\u00edtica. Aqui estudo e trabalho. Quando c\u00e1 vier \u00e9 aqui que o hei de receber.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o prometeu voltar no dia seguinte, e desceu para entrar no coup\u00e9 que esperava por ele, e que o levou \u00e0 Rua da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Entrando em casa Est\u00eav\u00e3o dizia consigo:<\/p>\n<p>&#8220;Onde est\u00e1 a misantropia daquele homem? As maneiras de misantropo s\u00e3o mais rudes do que as dele; salvo se ele, mais feliz do que Di\u00f3genes, achou em mim o homem que procurava.&#8221;<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Est\u00eav\u00e3o era o tipo do rapaz s\u00e9rio. Tinha talento, ambi\u00e7\u00e3o e vontade de saber, tr\u00eas armas poderosas nas m\u00e3os de um homem que tenha consci\u00eancia de si. Desde os dezesseis anos a sua vida foi um estudo constante, aturado e profundo. Destinado ao curso m\u00e9dico, Est\u00eav\u00e3o entrou na academia um pouco for\u00e7ado, n\u00e3o queria desobedecer ao pai. A sua voca\u00e7\u00e3o era toda para as matem\u00e1ticas. Que importa? disse ele ao saber da resolu\u00e7\u00e3o paterna; estudarei a medicina e a matem\u00e1tica. Com efeito teve tempo para uma e outra cousa; teve tempo ainda para estudar a literatura, e as principais obras da antig\u00fcidade e contempor\u00e2neas eram-lhe t\u00e3o familiares como os tratados de opera\u00e7\u00f5es e de higiene.<\/p>\n<p>Para estudar tanto, foi-lhe preciso sacrificar uma parte da sa\u00fade. Est\u00eav\u00e3o aos vinte e quatro anos adquirira uma magreza, que n\u00e3o era a dos dezesseis; tinha a tez p\u00e1lida e a cabe\u00e7a pendia-lhe um pouco para a frente pelo longo h\u00e1bito da leitura. Mas esses vest\u00edgios de uma longa aplica\u00e7\u00e3o intelectual n\u00e3o Ihe alteraram a regularidade e harmonia das fei\u00e7\u00f5es, nem os olhos perderam nos livros o brilho e a express\u00e3o. Era al\u00e9m disso naturalmente elegante, n\u00e3o digo enfeitado, que \u00e9 coisa diferente: era elegante nas maneiras, na atitude, no sorriso, no trajo, tudo mesclado de uma certa severidade que era o cunho do seu car\u00e1ter. Podia-se notar-lhe muitas infra\u00e7\u00f5es ao c\u00f3digo da moda; ningu\u00e9m poderia dizer que ele faltasse nunca \u00e0s boas regras do gentleman.<\/p>\n<p>Perdera os pais aos vinte anos, mas ficara-lhe bastante ju\u00edzo para continuar sozinho a viagem do mundo. O estudo serviu-lhe de ref\u00fagio e bord\u00e3o. N\u00e3o sabia nada do que era o amor. Ocupara-se tanto com a cabe\u00e7a que esquecera-se de que tinha um cora\u00e7\u00e3o dentro do peito. N\u00e3o se infira daqui que Est\u00eav\u00e3o fosse puramente um positivista. Pelo contr\u00e1rio, a alma dele possu\u00eda ainda em toda a plenitude da gra\u00e7a e da for\u00e7a as duas asas que a natureza lhe dera. N\u00e3o raras vezes rompia ela do c\u00e1rcere da carne para ir correr os espa\u00e7os do c\u00e9u, em busca de n\u00e3o sei que ideal mal definido, obscuro, incerto. Quando voltava desses \u00eaxtases, Est\u00eav\u00e3o curava-se deles enterrando-se nos volumes \u00e0 cata de uma verdade cient\u00edfica. Newton era-lhe o ant\u00eddoto de Goethe.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Est\u00eav\u00e3o tinha id\u00e9ias singulares. Havia um padre, amigo dele, rapaz de trinta anos, da escola de F\u00e9nelon, que entrava com Tel\u00eamaco na ilha de Calipso. Ora, o padre dizia muitas vezes a Est\u00eav\u00e3o que s\u00f3 uma cousa lhe faltava para ser completo: era casar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Quando voc\u00ea tiver, dizia-lhe, uma mulher amada e amante ao p\u00e9 de si, ser\u00e1 um homem feliz e completo. Dividir\u00e1 ent\u00e3o o tempo entre as duas cousas mais elevadas que a natureza deu ao homem, a intelig\u00eancia e o cora\u00e7\u00e3o. Nesse dia quero eu mesmo cas\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Padre Lu\u00eds, respondia Est\u00eav\u00e3o, fa\u00e7a-me ent\u00e3o o servi\u00e7o completo: traga-me a mulher e a b\u00ean\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O padre sorria-se ao ouvir a resposta do m\u00e9dico, e como o sorriso parecia a Est\u00eav\u00e3o uma nova pergunta, o m\u00e9dico continuava:<\/p>\n<p>&#8211; Se encontrar uma mulher t\u00e3o completa como eu exijo, afirmo-lhe que me casarei. Dir\u00e1 que as obras humanas s\u00e3o imperfeitas, e eu n\u00e3o contestarei, Padre Lu\u00eds; mas nesse caso deixe-me caminhar s\u00f3 com as minhas imperfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Daqui engendrava-se sempre uma discuss\u00e3o, que se animava e crescia at\u00e9 o ponto em que Est\u00eav\u00e3o conclu\u00eda por este modo:<\/p>\n<p>&#8211; Padre Lu\u00eds, uma menina que deixa as bonecas para ir decorar mecanicamente alguns livros mal escolhidos; que interrompe uma li\u00e7\u00e3o para ouvir contar uma cena de namoro; que em mat\u00e9ria de arte s\u00f3 conhece os figurinos parisienses; que deixa as cal\u00e7as para entrar no baile, e que antes de suspirar por um homem, examina-lhe a corre\u00e7\u00e3o da gravata, e o apertado do botim; Padre Lu\u00eds, esta menina pode vir a ser um espl\u00eandido ornamento de sal\u00e3o e at\u00e9 uma fecunda m\u00e3e de fam\u00edlia, mas nunca ser\u00e1 uma mulher.<\/p>\n<p>Esta senten\u00e7a de Est\u00eav\u00e3o tinha o defeito de certas regras absolutas. Por isso, o padre dizia-lhe sempre:<\/p>\n<p>&#8211; Tem voc\u00ea raz\u00e3o; mas eu n\u00e3o lhe digo que case com a regra; procure a exce\u00e7\u00e3o que h\u00e1 de encontrar e leve-a ao altar, onde eu estarei para os unir.<\/p>\n<p>Tais eram os sentimentos de Est\u00eav\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao amor e \u00e0 mulher. A natureza dera-lhe em parte esses sentimentos, mas em parte adquiriu-os ele nos livros. Exigia a perfei\u00e7\u00e3o intelectual e moral de uma Helo\u00edsa; e partia da exce\u00e7\u00e3o para estabelecer uma regra. Era intolerante para os erros veniais. N\u00e3o os reconhecia como tais. N\u00e3o h\u00e1 erro venial, dizia ele, em mat\u00e9ria de costumes e de amor.<\/p>\n<p>Contribu\u00edra para esta rigidez de \u00e2nimo o espet\u00e1culo da pr\u00f3pria fam\u00edlia de Est\u00eav\u00e3o. At\u00e9 aos vinte anos foi ele testemunha do que era a santidade do amor mantido pela virtude dom\u00e9stica. Sua m\u00e3e, que morrera com trinta e oito anos, amou o marido at\u00e9 os \u00faltimos dias, e poucos meses lhe sobreviveu. Est\u00eav\u00e3o soube que fora ardente e entusi\u00e1stico o amor de seus pais, na esta\u00e7\u00e3o do noivado, durante a manh\u00e3 conjugal; conheceu-o assim por tradi\u00e7\u00e3o; mas na tarde conjugal a que ele assistiu viu o amor calmo, sol\u00edcito e confiante, cheio de dedica\u00e7\u00e3o e respeito, praticado como um culto; sem recrimina\u00e7\u00f5es nem pesares, e t\u00e3o profundo como no primeiro dia. Os pais de Est\u00eav\u00e3o morreram amados e felizes na tranq\u00fcila seriedade do dever.<\/p>\n<p>No \u00e2n\u00edmo de Est\u00eav\u00e3o, o amor que funda a fam\u00edlia devia ser aquilo ou n\u00e3o seria nada. Era justi\u00e7a; mas a intoler\u00e2ncia de Est\u00eav\u00e3o come\u00e7ava na convic\u00e7\u00e3o que ele tinha de que com a dele morrera a \u00faltima fam\u00edlia, e fora com ela a derradeira tradi\u00e7\u00e3o do amor. Que era preciso para derrubar todo este sistema, ainda que moment\u00e2neo? Uma cousa pequen\u00edssima: um sorriso e dous olhos.<\/p>\n<p>Mas como esses dous olhos n\u00e3o apareciam, Est\u00eav\u00e3o entregava-se na maior parte do tempo aos seus estudos cient\u00edficos, empregando as horas vagas em algumas distra\u00e7\u00f5es que o n\u00e3o prendiam por muito tempo.<\/p>\n<p>Morava s\u00f3; tinha um escravo, da mesma idade que ele, e cria da casa do pai, &#8211; mais irm\u00e3o do que escravo, na dedica\u00e7\u00e3o e no afeto. Recebia alguns amigos, a quem visitava de quando em quando de quando, entre os quais inclu\u00edmos o jovem Padre Lu\u00eds, a quem Estev\u00e3o chamava &#8211; Plat\u00e3o de sotaina.<\/p>\n<p>Naturalmente bom e afetuoso, generoso e cavalheiresco, sem \u00f3dios nem rancores, entusiasta por todas as cousas boas e verdadeiras, tal era o Dr. Estev\u00e3o Soares, aos vinte e quatro anos de idade.<\/p>\n<p>Do seu retrato f\u00edsico j\u00e1 dissemos alguma cousa. Bastar\u00e1 acrescentar que tinha uma bela cabe\u00e7a, coberta de bastos cabelos castanhos, dous olhos da mesma cor, vivos e observadores; a palidez do rosto fazia real\u00e7ar o bigode naturalmente encaracolado. Era alto e tinha m\u00e3os admir\u00e1veis.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>Est\u00eav\u00e3o Soares visitou Meneses no dia seguinte.<\/p>\n<p>O deputado esperava-o, e recebeu-o como se fosse um amigo velho. Est\u00eav\u00e3o marcara a hora da visita, que impossibilitava a presen\u00e7a de Meneses na Camara; mas o deputado importou-se pouco com isso: n\u00e3o foi \u00e0 Camara. Mas teve a delicadeza de o n\u00e3o dizer a Estev\u00e3o.<\/p>\n<p>Meneses estava no gabinete quando o criado anunciou-lhe a chegada do m\u00e9dico. Foi receb\u00ea-lo \u00e0 porta.<\/p>\n<p>&#8211; Pontual como um rei, disse-lhe alegremente.<\/p>\n<p>&#8211; Era dever. Lembro-lhe que n\u00e3o me esqueci.<\/p>\n<p>&#8211; E agrade\u00e7o-lho.<\/p>\n<p>Sentaram-se os dous.<\/p>\n<p>&#8211; Agrade\u00e7o-lhe porque eu receava sobretudo que me houvesse compreendido mal; e que os impulsos da minha simpatia n\u00e3o merecessem da sua parte nenhuma considera\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o ia protestar<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, continuou Meneses, bem vejo que me enganei, e \u00e9 por isso que lhe agrade\u00e7o. Eu n\u00e3o sou rapaz; tenho 47 anos; e para a sua idade as rela\u00e7\u00f5es de um homem como eu j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam valor.<\/p>\n<p>&#8211; A velhice, quando \u00e9 respeit\u00e1vel, deve ser respeitada; e amadas quando \u00e9 am\u00e1vel. Mas V. Ex.a n\u00e3o \u00e9 velho; tem os cabelos apenas grisalhos: pode-se dizer que est\u00e1 na segunda mocidade.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-lhe isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Parece e \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Seja como for, disse Meneses, a verdade \u00e9 que podemos ser amigos. Quantos anos tem?<\/p>\n<p>&#8211; Olhe l\u00e1, podia ser meu filho. Tem seus pais vivos?<\/p>\n<p>&#8211; Morreram h\u00e1 quatro anos.<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-me haver dito que era solteiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De maneira que os seus cuidados s\u00e3o todos para a ci\u00eancia?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a minha esposa.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, a sua esposa intelectual; mas essa n\u00e3o basta a um homem como o senhor. . . Enfim, isso \u00e9 com o tempo; est\u00e1 ainda mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Durante este di\u00e1logo, Estev\u00e3o contemplava e observava Meneses, em cujo rosto batia a claridade que entrava por uma das janelas. Era uma cabe\u00e7a severa, cheia de cabelos j\u00e1 grisalhos, que lhe ca\u00edam em gracioso desalinho. Tinha os olhos negros e um pouco amortecidos; adivinhava-se por\u00e9m que deviam ter sido vivos e ardentes. As su\u00ed\u00e7as tamb\u00e9m grisalhas eram como as de lord Palmerston, segundo dizem as gravuras. N\u00e3o tinha rugas de velhice; tinha uma ruga na testa, entre as sobrancelhas, ind\u00edcio de concentra\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito, e n\u00e3o vest\u00edgio do tempo. A testa era alta, o queixo e as ma\u00e7\u00e3s do rosto um pouco salientes. Adivinhava-se que devia ter sido formoso no tempo da primeira mocidade; e antevia-se j\u00e1 uma velhice imponente e augusta. Sorria de quando em quando; e o sorriso, embora aquele rosto n\u00e3o fosse de um anci\u00e3o, produzia uma impress\u00e3o singular; parecia um raio de lua no meio de uma velha ru\u00edna. Vi que o sorriso era am\u00e1vel, mas n\u00e3o era alegre.<\/p>\n<p>Todo aquele conjunto impressionava e atra\u00eda; Est\u00eav\u00e3o sentia-se cada vez mais arrastado para aquele homem, que o procurava, e lhe estendia a m\u00e3o.<\/p>\n<p>A conversa continuou no tom afetuoso com que come\u00e7ara; a primeira entrevista da amizade \u00e9 o oposto da primeira entrevista do amor; nesta a mudez \u00e9 a grande eloq\u00fc\u00eancia; naquela inspira-se e ganha-se a confian\u00e7a, pela exposi\u00e7\u00e3o franca dos sentimentos e das id\u00e9ias.<\/p>\n<p>N\u00e3o se falou de pol\u00edtica. Est\u00eav\u00e3o aludiu de passagem \u00e0s fun\u00e7\u00f5es de Meneses, mas foi um verdadeiro incidente a que o deputado n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No fim de uma hora, Est\u00eav\u00e3o levantou-se para sair; tinha de ir ver um doente.<\/p>\n<p>&#8211; O motivo \u00e9 sagrado; sen\u00e3o retinha-o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu voltarei outras vezes.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida alguma, e eu irei v\u00ea-lo algumas vezes. Se no fim de quinze dias n\u00e3o se aborrecer&#8230; Olhe, venha de tarde; janta algumas vezes comigo; depois da C\u00e2mara estou completamente livre.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o saiu prometendo tudo.<\/p>\n<p>Voltou l\u00e1, com efeito, e jantou duas vezes com o deputado, que tamb\u00e9m visitou Est\u00eav\u00e3o em casa; foram ao teatro juntos; relacionaram-se intimamente com as fam\u00edlias conhecidas. No fim de um m\u00eas eram dous amigos velhos. Tinham observado reciprocamente o car\u00e1ter e os sentimentos. Meneses gostava de ver a seriedade do m\u00e9dico e o seu bom senso, estimava-o com as suas intoler\u00e2ncias, aplaudindo-lhe a generosa ambi\u00e7\u00e3o que o dominava. Pela sua parte o m\u00e9dico via em Meneses um homem que sabia ligar a austeridade dos anos \u00e0 amabilidade de cavalheiro, modesto nas suas maneiras, instru\u00eddo, sentimental. Da misantropia anunciada n\u00e3o encontrou vest\u00edgios. \u00c9 verdade que em algumas ocasi\u00f5es Meneses parecia mais disposto a ouvir do que a falar; e ent\u00e3o o olhar tornava-se-lhe sombrio e parado, como se em vez de ver os objetos exteriores, estivesse contemplando a sua pr\u00f3pria consci\u00eancia. Mas eram r\u00e1pidos esses momentos, e Meneses voltava logo aos seus modos habituais.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 um misantropo, pensava ent\u00e3o Est\u00eav\u00e3o; mas este homem tem um drama dentro de si.&#8221;<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o de Est\u00eav\u00e3o adquiriu certo car\u00e1ter de verossimilhan\u00e7a quando uma noite em que se achavam no Teatro L\u00edrico, Est\u00eav\u00e3o chamou a aten\u00e7\u00e3o de Meneses para uma mulher vestida de preto que se achava em um camarote da primeira ordem.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o aquela mulher, disse Est\u00eav\u00e3o. Sabe quem \u00e9?<\/p>\n<p>Meneses olhou para o camarote indicado, contemplou a mulher por alguns instantes e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>A conversa ficou a\u00ed; mas o m\u00e9dico reparou que a mulher duas vezes olhou para Meneses, e este duas vezes para ela, encontrando-se os olhos de ambos.<\/p>\n<p>No fim do espet\u00e1culo, os dous amigos dirigiram-se pelo corredor do lado em que estivera a mulher de preto. Est\u00eav\u00e3o teve apenas nova curiosidade, a curiosidade de artista: quis v\u00ea-la de perto. Mas a porta do camarote estava fechada. Teria j\u00e1 sa\u00eddo ou n\u00e3o? Era imposs\u00edvel sab\u00ea-lo. Meneses passou sem olhar. Ao chegarem ao patamar da escada que d\u00e1 para o lado da Rua dos Ciganos, pararam os dous porque havia grande aflu\u00eancia de gente. Da\u00ed a pouco ouviu-se passo apressado; Meneses voltou o rosto, e dando o bra\u00e7o a Est\u00eav\u00e3o desceu imediatamente, apesar da dificuldade.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o compreendeu, mas nada viu.<\/p>\n<p>Pela sua parte, Meneses n\u00e3o deu sinal algum.<\/p>\n<p>Apenas se desembara\u00e7aram da multid\u00e3o, o deputado encetou uma alegre conversa com o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8211; Que efeito lhe faz, perguntou ele, quando passa no meio de tantas damas elegantes, aquela confus\u00e3o de sedas e de perfumes?<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o respondeu distraidamente, e Meneses continuou a conversa no mesmo estilo; da\u00ed a cinco minutos a aventura do teatro tinha-se-lhe varrido da mem\u00f3ria.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Um dia Est\u00eav\u00e3o Soares foi convidado para um baile em casa de um velho amigo de seu pai.<\/p>\n<p>A sociedade era luzida e numerosa; Est\u00eav\u00e3o, embora vivesse muito arredado, achou ali grande n\u00famero de conhecidas. N\u00e3o dan\u00e7ou; viu, conversou, riu um pouco e saiu.<\/p>\n<p>Mas ao entrar levava o cora\u00e7\u00e3o livre; ao sair trouxe nele uma flecha, para falar a linguagem dos poetas da Arc\u00e1dia; era a flecha do amor.<\/p>\n<p>Do amor? A falar a verdade n\u00e3o se pode dar este nome ao sentimento experimentado por Est\u00eav\u00e3o; n\u00e3o era ainda o amor, mas bem pode ser que viesse a s\u00ea-lo. Por enquanto era um sentimento de fascina\u00e7\u00e3o doce e branda; uma mulher que l\u00e1 estava produzira nele a impress\u00e3o que as fadas produziam nos pr\u00edncipes errantes ou nas princesas perseguidas, segundo nos rezam os contos das velhas.<\/p>\n<p>A mulher em quest\u00e3o n\u00e3o era uma virgem; era uma vi\u00fava de trinta e quatro anos, bela como o dia, graciosa e terna. Est\u00eav\u00e3o via-a pela primeira vez; pelo menos n\u00e3o se lembrava daquelas fei\u00e7\u00f5es. Conversou com ela durante meia hora, e t\u00e3o encantado ficou com as maneiras, a voz, a beleza de Madalena, que ao chegar \u00e0 casa n\u00e3o p\u00f4de dormir.<\/p>\n<p>Como verdadeiro m\u00e9dico que era, sentia em si os sintomas dessa hipertrofia do cora\u00e7\u00e3o que se chama amor e procurou combater a enfermidade nascente. Leu algumas p\u00e1ginas de matem\u00e1ticas, isto \u00e9, percorreu-as com os olhos; porque apenas come\u00e7ava a ler o esp\u00edrito alheava do livro onde apenas ficavam os olhos: o esp\u00edrito ia ter com a vi\u00fava.<\/p>\n<p>O cansa\u00e7o foi mais feliz que Euclides: sobre a madrugada Est\u00eav\u00e3o Soares adormeceu.<\/p>\n<p>Mas sonhou com a vi\u00fava.<\/p>\n<p>Sonhou que a apertava em seus bra\u00e7os, que a cobria de beijos, que era seu esposo perante a Igreja e perante a sociedade.<\/p>\n<p>Quando acordou e lembrou-se do sonho, Est\u00eav\u00e3o sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; Casar-me! disse ele. Era o que me faltava. Como poderia eu ser feliz com o esp\u00edrito receoso e ambicioso que a natureza me deu? Acabemos com isto; nunca mais verei aquela mulher&#8230;e boa noite.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a vestir-se.<\/p>\n<p>Trouxeram-lhe o almo\u00e7o; Est\u00eav\u00e3o comeu rapidamente, porque era tarde, e saiu para ir ver alguns doentes.<\/p>\n<p>Mas ao passar pela Rua do Conde lembrou-se que Madalena lhe dissera morar ali; mas aonde? A vi\u00fava disse-lhe o n\u00famero; o m\u00e9dico por\u00e9m estava t\u00e3o embebido em ouvi-la falar que n\u00e3o o decorou.<\/p>\n<p>Queria e n\u00e3o queria; protestava esquec\u00ea-la, e contudo daria o que se lhe pedisse para saber o n\u00famero da casa naquele momento.<\/p>\n<p>Como ningu\u00e9m podia dizer-lhe, o rapaz tomou o partido de ir-se embora.<\/p>\n<p>No dia seguinte, por\u00e9m, teve o cuidado de passar duas vezes pela Rua do Conde a ver se descobria a encantadora vi\u00fava. N\u00e3o descobriu nada; mas quando ia tomar um t\u00edlburi e voltar para casa encontrou o amigo de seu pai em cuja casa encontrara Madalena.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o j\u00e1 tinha pensado nele; mas imediatamente tirou dali o pensamento, porque ir perguntar-lhe onde morava a vi\u00fava era uma cousa que podia tra\u00ed-lo.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o j\u00e1 empregava o verbo trair.<\/p>\n<p>O homem em quest\u00e3o, depois de cumprimentar ao m\u00e9dico, e trocar com ele algumas palavras, disse-lhe que ia \u00e0 casa de Madalena, e despediu-se.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o estremeceu de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acompanhou de longe o amigo e viu-o entrar em uma casa.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 ali&#8221; pensou ele.<\/p>\n<p>E afastou-se rapidamente.<\/p>\n<p>Quando entrou em casa achou uma carta para ele; a letra, que Ihe era desconhecida, estava tra\u00e7ada com eleg\u00e2ncia e cuidado: a carta recendia de s\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico rompeu o lacre.<\/p>\n<p>A carta dizia assim:<\/p>\n<p>Amanh\u00e3 toma-se ch\u00e1 em minha casa. Se quiser vir passar algumas horas conosco dar-nos-\u00e1 sumo prazer.<\/p>\n<p>Madalena C&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o leu e releu o bilhete; teve id\u00e9ia de lev\u00e1-lo aos l\u00e1bios, mas envergonhado diante de si pr\u00f3prio por uma id\u00e9ia que lhe parecia de fraqueza, cheirou simplesmente o bilhete e meteu-o no bolso.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o era um pouco fatalista.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu n\u00e3o fosse \u00e0quele baile n\u00e3o conhecia esta mulher, n\u00e3o andava agora com estes cuidados, e tinha conjurado uma desgra\u00e7a ou uma felicidade, porque ambas as cousas podem nascer deste encontro fortuito. Que ser\u00e1? Eis-me na d\u00favida de Hamleto. Devo ir \u00e0 casa dela? A cortesia pede que v\u00e1. Devo ir; mas irei encoura\u00e7ado contra tudo. \u00c9 preciso romper com estas id\u00e9ias, e continuar a vida tranq\u00fcila que tenho tido.&#8221;<\/p>\n<p>Estava nisto quando Meneses lhe entrou por casa. Vinha busc\u00e1-lo para jantar. Est\u00eav\u00e3o saiu com o deputado. Em caminho fez-lhe perguntas curiosas.<\/p>\n<p>Por exemplo:<\/p>\n<p>&#8211; Acredita no destino, meu amigo? Pensa que h\u00e1 um deus do bem e um deus do mal, em conflito travado sobre a vida do homem?<\/p>\n<p>&#8211; O destino \u00e9 a vontade, respondia Meneses; cada homem faz o seu destino.<\/p>\n<p>&#8211; Mas enfim n\u00f3s temos pressentimentos&#8230; \u00c0s vezes adivinhamos acontecimentos em que n\u00e3o tomamos parte; n\u00e3o lhe parece que \u00e9 um deus benfazejo que no-los segreda?<\/p>\n<p>&#8211; Fala como um pag\u00e3o; eu n\u00e3o creio em nada disso. Creio que tenho o est\u00f4mago vazio, e o que melhor podemos fazer \u00e9 jantar aqui mesmo no Hotel de Europa em vez de ir \u00e0 Rua do Lavradio.<\/p>\n<p>Subiram ao Hotel de Europa.<\/p>\n<p>Ali haviam v\u00e1rios deputados que conversavam de pol\u00edtica, e os quais se reuniram a Meneses. Est\u00eav\u00e3o ouvia e respondia, sem esquecer nunca a vi\u00fava, a carta e o s\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Assim, pois, davam-se contrastes singulares entre a conversa geral e o pensamento de Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>Dizia por exemplo um deputado:<\/p>\n<p>&#8211; O governo \u00e9 reator; as prov\u00edncias n\u00e3o podem mais suport\u00e1-lo. Os princ\u00edpios est\u00e3o todos preteridos, na minha prov\u00edncia foram demitidos alguns subdelegados pela circunst\u00e2ncia \u00fanica de serem meus parentes; meu cunhado, que era diretor das rendas, foi posto fora do lugar, e este deu-se a um peralta contraparente dos Valadares. Eu confesso que vou romper amanh\u00e3 a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o olhava para o deputado; mas no interior estava dizendo isto:<\/p>\n<p>&#8220;Com efeito, Madalena \u00e9 bela, \u00e9 admiravelmente bela. Tem uns olhos de matar. Os cabelos s\u00e3o lind\u00edssimos: tudo nela \u00e9 fascinador. Se pudesse ser minha mulher, eu seria feliz; mas quem sabe?. . . Contudo sinto que vou am\u00e1-la. J\u00e1 \u00e9 irresist\u00edvel; \u00e9 preciso am\u00e1-la; e ela? que quer dizer aquele convite? Amar-me-\u00e1?&#8221;<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o embebera-se tanto nesta contempla\u00e7\u00e3o ideal, que, acontecendo perguntar-lhe um deputado se n\u00e3o achava a situa\u00e7\u00e3o negra e carrancuda, Est\u00eav\u00e3o entregue ao seu pensamento respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 lind\u00edssima !<\/p>\n<p>&#8211; Ah! disse o deputado, vejo que o senhor \u00e9 ministerialista.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o sorriu; mas Meneses franziu o sobrolho.<\/p>\n<p>Compreendera tudo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Quando sa\u00edram, o deputado disse ao m\u00e9dico:<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, voc\u00ea \u00e9 desleal comigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? perguntou Est\u00eav\u00e3o meio s\u00e9rio e meio risonho, n\u00e3o compreendendo a observa\u00e7\u00e3o do deputado.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, continuou Meneses; voc\u00ea esconde-me um segredo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade: e um segredo de amor.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!. .. disse Est\u00eav\u00e3o; por que diz isso?<\/p>\n<p>&#8211; Reparei h\u00e1 pouco que, ao passo que os mais conversavam em pol\u00edtica, voc\u00ea pensava em uma mulher, e mulher&#8230; lind\u00edssima&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o compreendeu que estava descoberto; n\u00e3o negou.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, pensava em uma mulher.<\/p>\n<p>&#8211; E eu serei o \u00faltimo a saber?<\/p>\n<p>&#8211; Mas saber o qu\u00ea? N\u00e3o h\u00e1 amor, n\u00e3o h\u00e1 nada. Encontrei uma mulher que me impressionou e ainda agora me preocupa; mas \u00e9 bem poss\u00edvel que n\u00e3o passe disto. A\u00ed est\u00e1. \u00c9um cap\u00edtulo interrompido; um romance que fica na primeira p\u00e1gina. Eu lhe digo: h\u00e1 de me ser dif\u00edcil amar.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei? custa-me a crer no amor.<\/p>\n<p>Meneses olhou fixamente para Est\u00eav\u00e3o, sorriu, abanou a cabe\u00e7a e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, deixe a descren\u00e7a para os que j\u00e1 sofreram as decep\u00e7\u00f5es; o senhor est\u00e1 mo\u00e7o, n\u00e3o conhece ainda nada desse sentimento. Na sua idade ningu\u00e9m \u00e9 c\u00e9ptico&#8230; Demais, se a mulher \u00e9 bonita, eu aposto que daqui a pouco h\u00e1 de dizer-me o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser&#8230; respondeu Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>E ao mesmo tempo entrou a pensar nas palavras de Meneses, palavras que ele comparava ao epis\u00f3dio do Teatro L\u00edrico.<\/p>\n<p>Entretanto, Est\u00eav\u00e3o foi ao convite de Madalena. Preparou-se e perfumou-se como se fosse falar a uma noiva. Que sairia daquele encontro? Viria de l\u00e1 livre ou cativo? J\u00e1 seria amado? Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o deixou de pens\u00e1-lo; aquele convite parecia-lhe uma prova irrecus\u00e1vel. O m\u00e9dico entrando num t\u00edlburi come\u00e7ou a formar v\u00e1rios castelos no ar.<\/p>\n<p>Enfim chegou \u00e0 casa.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo Primeiro A primeira vez que o Dr. Est\u00eav\u00e3o Soares falou ao deputado Meneses foi no Teatro L\u00edrico no tempo da memor\u00e1vel luta entre lagru\u00edstas e chartonistas. Um amigo comum os apresentou ao outro. 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