{"id":118518,"date":"2017-04-05T22:18:52","date_gmt":"2017-04-06T00:18:52","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118518"},"modified":"2017-04-05T22:18:52","modified_gmt":"2017-04-06T00:18:52","slug":"virginius","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/virginius","title":{"rendered":"Virginius"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>(NARRATIVA DE UM ADVOGADO) CAP\u00cdTULO PRIMEIRO<\/b><\/p>\n<p>N\u00c3O ME CORREU tranq\u00fcilo o S. Jo\u00e3o de 185. . .<\/p>\n<p>Duas semanas antes do dia em que a Igreja celebra o evangelista, recebi pelo correio o seguinte bilhete, sem assinatura e de letra desconhecida:<\/p>\n<p>O Dr. *** \u00e9 convidado a ir \u00e0 vila de&#8230; tomar conta de um processo. O objeto \u00e9 digno do talento e das habilita\u00e7\u00f5es do advogado. Despesas e honor\u00e1rios ser-lhe-\u00e3o satisfeitos antecipadamente, mal puser p\u00e9 no estribo. O r\u00e9u est\u00e1 na cadeia da mesma vila e chama-se Juli\u00e3o. Note que o Dr. \u00e9 convidado a ir defender o r\u00e9u.<\/p>\n<p>Li e reli este bilhete; voltei-o em todos os sentidos; comparei a letra com todas as letras dos meus.amigos e conhecidos. . . Nada pude descobrir.<\/p>\n<p>Entretanto, picava-me a curiosidade. Luzia-me um romance atrav\u00e9s daquele misterioso e an\u00f4nimo bilhete. Tomei uma resolu\u00e7\u00e3o definitiva. Ultimei uns neg\u00f3cios, dei de m\u00e3o outros, e oito dias depois de receber o bilhete tinha \u00e0 porta um cavalo e um camarada para seguir viagem. No momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um sujeito desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada soma, import\u00e2ncia aproximada das despesas e dos honor\u00e1rios. Recusei apesar das inst\u00e2ncias, montei a cavalo e parti.<\/p>\n<p>S\u00f3 depois de ter feito algumas l\u00e9guas \u00e9 que me lembrei de que justamente na vila a que eu ia morava um amigo meu, antigo companheiro da academia, que se votara, oito anos antes, ao culto da deusa Ceres como se diz em linguagem po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Poucos dias depois apeava eu \u00e0 porta do referido amigo. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abra\u00e7ar o meu antigo companheiro de estudos, que me recebeu alvoro\u00e7ado e admirado.<\/p>\n<p>Depois da primeira expans\u00e3o, apresentou-me ele \u00e0 sua fam\u00edlia, composta de mulher e uma filhinha, esta retrato daquela, e aquela retrato dos anjos.<\/p>\n<p>Quanto ao fim da minha viagem, s\u00f3 lho expliquei depois que me levou para a sala mais quente da casa, onde foi ter comigo uma ch\u00e1vena de excelente caf\u00e9. O tempo estava frio; lembro que est\u00e1vamos em junho. Envolvi-me no meu capote, e a cada gota de caf\u00e9 que tomava fazia uma revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 A que vens? a que vens? perguntava-me ele.<\/p>\n<p>\u2014 Vais sab\u00ea-lo. Creio que h\u00e1 um romance para deslindar. H\u00e1 quinze dias recebi no meu escrit\u00f3rio, na corte, um bilhete an\u00f4nimo em que se me convidava com inst\u00e2ncia a vir a esta vila para tomar conta de uma defesa. N\u00e3o pude conhecer a letra; era desigual e tr\u00eamula, como escrita por m\u00e3o cansada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tens o bilhete contigo? \u2014 Tenho.<\/p>\n<p>Tirei do bolso o misterioso bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo Ele, depois de l\u00ea-lo, disse: \u2014 \u00c9 a letra de Pai de todos.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 Pai de todos? \u2014 \u00c9 um fazendeiro destas paragens, o velho Pio. O povo d\u00e1-lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o \u00e9 na verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Bem dizia eu que h\u00e1 romance no fundo!. . . Que faz esse velho para que lhe d\u00eaem semelhante t\u00edtulo? \u2014 Pouca cousa. Pio \u00e9, por assim dizer, a justi\u00e7a e a caridade fundidas em uma s\u00f3 pessoa. S\u00f3 as grandes causas v\u00e3o ter \u00e0s autoridades judici\u00e1rias, policiais ou municipais; mas tudo o que n\u00e3o sai de certa ordem \u00e9 decidido na fazenda de Pio, cuja senten\u00e7a todos acatam e cumprem. Seja ela contra Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como se fora uma decis\u00e3o divina. Quando dous contendores saem da fazenda de Pio, saem amigos. \u00c9 caso de consci\u00eancia aderir ao julgamento de Pai de todos.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 como juiz. O que \u00e9 ele como homem caridoso? \u2014 A fazenda de Pio \u00e9 o asilo dos \u00f3rf\u00e3os e dos pobres. Ali se encontra o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e0 vida: leite e instru\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as, p\u00e3o e sossego aos adultos. Muitos lavradores nestas seis l\u00e9guas cresceram e tiveram princ\u00edpio de vida na fazenda de Pio. \u00c9 a um tempo Salom\u00e3o e S. Vicente de Paulo.<\/p>\n<p>Engoli a \u00faltima gota de caf\u00e9, e fitei no meu amigo olhos incr\u00e9dulos.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 verdade? perguntei.<\/p>\n<p>\u2014 Pois duvidas? \u2014 \u00c9 que me d\u00f3i sair tantas l\u00e9guas da Corte, onde esta hist\u00f3ria encontraria incr\u00e9dulos, para vir achar neste recanto do mundo aquilo que devia ser comum em toda a parte.<\/p>\n<p>\u2014 P\u00f5e de parte essas reflex\u00f5es filos\u00f3ficas. Pio n\u00e3o \u00e9 um mito: \u00e9 uma criatura de carne e osso; vive como vivemos; tem dous olhos, como tu e eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o esta carta \u00e9 dele? \u2014 A letra \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 A fazenda fica perto? O meu amigo levou-me \u00e0 janela.<\/p>\n<p>\u2014 Fica daqui a um quarto de l\u00e9gua, disse. Olha, \u00e9 por detr\u00e1s daquele morro.<\/p>\n<p>Nisto passava por baixo da janela um preto montado em uma mula, sobre cujas ancas saltavam duas canastras. O meu amigo debru\u00e7ou-se e perguntou ao negro: \u2014 Teu senhor est\u00e1 em casa? \u2014 Est\u00e1, sim, Sr.; mas vai sair.<\/p>\n<p>O negro foi caminho, e n\u00f3s sa\u00edmos da janela.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 escravo de Pio? \u2014 Escravo \u00e9 o nome que se d\u00e1; mas Pio n\u00e3o tem escravos, tem amigos. Olham-no todos como se fora um Deus. \u00c9 que em parte alguma houve nunca mais brando e cordial tratamento a homens escravizados. Nenhum dos instrumentos de ignom\u00ednia que por a\u00ed se aplicam para corrigi-los existem na fazenda de Pio. Culpa capital ningu\u00e9m comete entre os negros da fazenda; a alguma falta venial que haja, Pio aplica anenas uma repreens\u00e3o t\u00e3o cordial e t\u00e3o amiga que acaba por fazer chorar o delinq\u00fcente. Ouve mais: Pio estabeleceu entre os seus escravos uma esp\u00e9cie de concurso que permite a um certo n\u00famero libertar-se todos os anos. Acreditar\u00e1s tu que lhes \u00e9 indiferente viver livres ou escravos na fazenda, e que esse est\u00edmulo n\u00e3o decide nenhum deles, sendo que, por natural impulso, todos se portam dignos de elogios? O meu amigo continuou a desfiar as virtudes do fazendeiro. Meu esp\u00edrito apreendia-se cada vez mais de que eu ia entrar em um romance. Finalmente o meu amigo dispunha-se a contar-me a hist\u00f3ria do crime em cujo conhecimento devia eu entrar da\u00ed a poucas horas. Detive-o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o? disse-lhe, deixa-me saber de tudo por boca do pr\u00f3prio r\u00e9u. Depois compararei com o que me contaras.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 melhor. Juli\u00e3o \u00e9 inocente. . .<\/p>\n<p>\u2014 Inocente? \u2014 Quase.<\/p>\n<p>Minha curiosidade estava excitada ao \u00faltimo ponto. Os autos n\u00e3o me tinham tirado o gosto pelas novelas, e eu achava-me feliz por encontrar no meio da prosa judici\u00e1ria, de que andava cercado, um assunto digno da pena de um escritor.<\/p>\n<p>\u2014 Onde \u00e9 a cadeia? perguntei.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 perto, respondeu-me; mas agora \u00e9 quase noite; melhor \u00e9 que descanses; amanh\u00e3 \u00e9 tempo.<\/p>\n<p>Atendi a este conselho. Entrou nova por\u00e7\u00e3o de caf\u00e9. Tomamo-lo entre recorda\u00e7\u00f5es do passado, que muitas eram. Juntos vimos florescer as primeiras ilus\u00f5es, e juntos vimos dissiparem-se as \u00faltimas. Havia de que encher, n\u00e3o uma, mas cem noites. Aquela passou-se r\u00e1pida, e mais ainda depois que a fam\u00edlia toda veio tomar parte em nossa \u00edntima confabula\u00e7\u00e3o. Por uma exce\u00e7\u00e3o, de que fui causa, a hora de recolher foi a meia-noite.<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 doce ter um amigo! dizia eu pensando no Conde de Maistre, e retirando-me para o quarto que me foi destinado.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO II<\/b><\/p>\n<p>NO DIA SEGUINTE, ainda vinha rompendo a manh\u00e3, j\u00e1 eu me achava de p\u00e9. Entrou no meu quarto um escravo com um grande copo de leite tirado minutos antes. Em poucos goles o devorei. Perguntei pelo amigo; disse-me o escravo que j\u00e1 se achava de p\u00e9. Mandei-o chamar.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 cedo para ir \u00e0 cadeia? perguntei mal o vi assomar \u00e0 porta do quarto.<\/p>\n<p>\u2014 Muito cedo. Que pressa tamanha! \u00c9 melhor aproveitarmos a manh\u00e3, que est\u00e1 fresca, e irmos dar um passeio. Passaremos pela fazenda de Pio.<\/p>\n<p>N\u00e3o me desagradou a proposta. Acabei de vestir-me e sa\u00edmos ambos. Duas mulas nos esperavam \u00e0 cancela, espertas e desejosas de trotar. Montamos e partimos.<\/p>\n<p>Tr\u00eas horas depois, j\u00e1 quando o sol dissipara as nuvens de neblina que cobriam os morros como grandes len\u00e7\u00f3is, est\u00e1vamos de volta, tendo eu visto a bela casa e as espl\u00eandidas planta\u00e7\u00f5es da fazenda do velho Pio. Foi este o assunto do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Enfim, dado ao corpo o preciso descanso, e alcan\u00e7ada a necess\u00e1ria licen\u00e7a, dirigi-me \u00e0 cadeia para falar ao r\u00e9u Juli\u00e3o.<\/p>\n<p>Sentado em uma sala onde a luz entrava escassamente, esperei que chegasse o misterioso delinq\u00fcente. N\u00e3o se demorou muito. No fim de um quarto de hora estava diante de mim. Dous soldados ficaram \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Mandei sentar o preso, e, antes de entrar em interrogat\u00f3rio, empreguei uns cinco minutos em examin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Era um homem trigueiro, de mediana estatura, magro, d\u00e9bil de for\u00e7as f\u00edsicas, mas com uma cabe\u00e7a e um olhar indicativos de muita energia moral e alentado \u00e2nimo.<\/p>\n<p>Tinha um ar de inoc\u00eancia, mas n\u00e3o da inoc\u00eancia abatida e receosa; parecia antes que se glorificava com a pris\u00e3o, e afrontava a justi\u00e7a humana, n\u00e3o com a impavidez do malfeitor, mas com a daquele que confia na justi\u00e7a divina.<\/p>\n<p>Passei a interrog\u00e1-lo, come\u00e7ando pela declara\u00e7\u00e3o de que eu ia para defend\u00ea-lo. Disse-lhe que nada ocultasse dos acontecimentos que o levaram \u00e0 pris\u00e3o; e ele, com uma rara placidez de \u00e2nimo, contou-me toda a hist\u00f3ria do seu crime.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o fora um daqueles a quem a alma caridosa de Pio dera sustento e trabalho. Suas boas qualidades, a gratid\u00e3o, o amor, o respeito com que falava e adorava o protetor, n\u00e3o ficaram sem uma paga valiosa. Pio, no fim de certo tempo, deu a Juli\u00e3o um s\u00edtio que ficava pouco distante da fazenda. Para l\u00e1 fora morar Juli\u00e3o com uma filha menor, cuja m\u00e3e morrera em conseq\u00fc\u00eancia dos acontecimentos que levaram Juli\u00e3o a recorrer \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do fazendeiro.<\/p>\n<p>Tinha a pequena sete anos. Era, dizia Juli\u00e3o, a mulatinha mais formosa daquelas dez l\u00e9guas em redor. Elisa, era o nome da pequena, completava a trindade do culto de Juli\u00e3o, ao lado de Pio e da mem\u00f3ria da m\u00e3e finada.<\/p>\n<p>Laborioso por necessidade e por gosto, Juli\u00e3o bem depressa viu frutificar o seu trabalho. Ainda assim n\u00e3o descansava. Queria, quando morresse, deixar um pec\u00falio \u00e0 filha. Morrer sem deix\u00e1-la amparada era o sombrio receio que o perseguia. Podia acaso contar com a vida do fazendeiro esmoler? Este tinha um filho, mais velho tr\u00eas anos que Elisa. Era um bom menino, educado sob a vigil\u00e2ncia de seu pai, que desde os tenros anos inspirava-lhe aqueles sentimentos a que devia a sua imensa popularidade.<\/p>\n<p>Carlos e Elisa viviam quase sempre juntos, naquela comunh\u00e3o da inf\u00e2ncia que n\u00e3o conhece desigualdades nem condi\u00e7\u00f5es. Estimavam-se deveras, a ponto de sentirem profundamente quando foi necess\u00e1rio a Carlos ir cursar as primeiras aulas.<\/p>\n<p>Trouxe o tempo as divis\u00f5es, e anos depois, quando Carlos apeou \u00e0 porta da fazenda com uma carta de bacharel na algibeira, uma esponja se passara sobre a vida anterior. Elisa, j\u00e1 mulher, podia avaliar os nobres esfor\u00e7os de seu pai, e concentrara todos os afetos de sua alma no mais respeitoso amor filial. Carlos era homem. Conhecia as condi\u00e7\u00f5es da vida social, e desde os primeiros gestos mostrou que abismo separava o filho do protetor da filha do protegido.<\/p>\n<p>O dia da volta de Carlos foi dia de festa na fazenda do velho Pio. Juli\u00e3o tomou parte na alegria geral, como toda a gente, pobre ou remediada, dos arredores. E a alegria n\u00e3o foi menos pura em nenhum: todos sentiam que a presen\u00e7a do filho do fazendeiro era a felicidade comum.<\/p>\n<p>Passaram-se os dias. Pio n\u00e3o se animava a separar-se de seu filho para que este seguisse uma carreira pol\u00edtica, administrativa ou judici\u00e1ria. Entretanto, notava-lhe muitas diferen\u00e7as em compara\u00e7\u00e3o com o rapaz que, anos antes, lhe sa\u00edra de casa. Nem id\u00e9ias, nem sentimentos, nem h\u00e1bitos eram os mesmos. Cuidou que fosse um resto da vida escol\u00e1stica, e esperou que a diferen\u00e7a da atmosfera que voltava a respirar e o espet\u00e1culo da vida simples e ch\u00e3 da fazenda o restabelecessem.<\/p>\n<p>O que o magoava sobretudo, \u00e9 que o filho bacharel n\u00e3o buscasse os livros, onde pudesse, procurando novos conhecimentos, entreter uma necessidade indispens\u00e1vel para o g\u00eanero de vida que ia encetar. Carlos n\u00e3o tinha mais que uma ocupa\u00e7\u00e3o e uma distra\u00e7\u00e3o: a ca\u00e7a. Levava dias e dias a correr o mato em busca de animais para matar, e nisso fazia consistir todos os cuidados, todos os pensamentos, todos os estudos.<\/p>\n<p>Ao meio-dia era certo v\u00ea-lo chegar ao s\u00edtio de Juli\u00e3o, e a\u00ed descansar um bocado, conversando sobranceiro com a fllha do infatig\u00e1vel lavrador. Este chegava, trocava algumas palavras de respeitosa estima com o filho de Pio, oferecia-lhe parte do seu modesto jantar, que o mo\u00e7o n\u00e3o aceitava, e discorria, durante a refei\u00e7\u00e3o, sobre os objetos relativos \u00e0 ca\u00e7a.<\/p>\n<p>Passavam as cousas assim sem altera\u00e7\u00e3o de natureza alguma.<\/p>\n<p>Um dia, ao entrar em casa para jantar, Juli\u00e3o notou que sua filha parecia triste. Reparou, e viu-lhe os olhos vermelhos de l\u00e1grimas. Perguntou o que era. Elisa respondeu que lhe do\u00eda a cabe\u00e7a; mas durante o jantar, que foi silencioso, Juli\u00e3o observou que sua filha enxugava furtivamente algumas l\u00e1grimas. Nada disse; mas, terminado o jantar, chamou-a para junto de si, e com palavras brandas e amigas exigiu-lhe que dissesse o que tinha. Depois de muita relut\u00e2ncia, Elisa falou: \u2014 Meu pai, o que eu tenho \u00e9 simples. O Sr. Carlos, em quem comecei a notar mais amizade que ao princ\u00edpio, declarou-me hoje que gostava de mim, que eu devia ser dele, que s\u00f3 ele me poderia dar tudo quanto eu desejasse, e muitas outras cousas que eu nem pude ouvir, tal foi o espanto com que ouvi as suas primeiras palavras. Declarei-lhe que n\u00e3o pensasse cousas tais. Insistiu; repeli-o. . . Ent\u00e3o tomando um ar carrancudo, saiu, dizendo-me: \u2014 H\u00e1s de ser minha! Juli\u00e3o estava at\u00f4nito. Inquiriu sua filha sobre todas as particularidades da conversa referida. N\u00e3o lhe restava d\u00favida acerca dos maus intentos de Carlos. Mas como de um t\u00e3o bom pai pudera sair t\u00e3o mau filho? perguntava ele. E esse pr\u00f3prio filho n\u00e3o era bom antes de ir para fora? Como exprobrar-lhe a sua m\u00e1 a\u00e7\u00e3o? E poderia faz\u00ea-lo? Como evitar a amea\u00e7a? Fugir do lugar em que morava o pai n\u00e3o era mostrar-se ingrato? Todas estas reflex\u00f5es passaram pelo esp\u00edrito de Juli\u00e3o. Via o abismo a cuja borda estava, e n\u00e3o sabia como escapar-lhe.<\/p>\n<p>Finalmente, depois de animar e tranq\u00fcilizar sua filha, Juli\u00e3o saiu, de plano feito, na dire\u00e7\u00e3o da fazenda, em busca de Carlos.<\/p>\n<p>Este, rodeado por alguns escravos, fazia limpar v\u00e1rias espingardas de ca\u00e7a. Juli\u00e3o, depois de cumpriment\u00e1-lo alegremente, disse que lhe queria falar em particular. Carlos estremeceu; mas n\u00e3o podia deixar de ceder.<\/p>\n<p>\u2014 Que me queres, Juli\u00e3o? disse depois de se afastar um pouco do grupo.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o respondeu: \u2014 Sr. Carlos, venho pedir-lhe uma cousa, por alma de sua m\u00e3e!&#8230; Deixe minha filha sossegada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que lhe fiz eu? titubeou Carlos.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o negue, porque eu sei.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe o qu\u00ea? \u2014 Sei da sua conversa de hoje. Mas o que passou, passou. Fico sendo seu amigo, mais ainda, se me n\u00e3o perseguir a pobre filha que Deus me deu&#8230; Promete? Carlos esteve calado alguns instantes. Depois: \u2014 Basta, disse; confesso-te, Juli\u00e3o, que era uma loucura minha de que me arrependo. Vai tranq\u00fcilo: respeitarei tua filha como se fosse morta.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o, na sua alegria, quase beijou as m\u00e3os de Carlos. Correu \u00e0 casa e referiu a sua filha a conversa que tivera com o filho de Pai de todos. Elisa n\u00e3o s\u00f3 por si como por seu pai, estimou o pac\u00edfico desenlace.<\/p>\n<p>Tudo parecia ter voltado \u00e0 primeira situa\u00e7\u00e3o. As visitas de Carlos eram feitas nas horas em que Juli\u00e3o se achava em casa, e al\u00e9m disso, a presen\u00e7a de uma parenta velha, convidada por Juli\u00e3o, parecia tornar imposs\u00edvel nova tentativa de parte de Carlos.<\/p>\n<p>Uma tarde, quinze dias depois do incidente que narrei acima, voltava Juli\u00e3o da fazenda do velho Pio. Era j\u00e1 perto da noite. Juli\u00e3o caminhava vagarosamente, pensando no que lhe faltaria ainda para completar o pec\u00falio de sua filha. Nessas divaga\u00e7\u00f5es, n\u00e3o reparou que anoitecera. Quando deu por si, ainda se achava umas boas bra\u00e7as distante de casa. Apressou o passo. Quando se achava mais perto, ouviu uns gritos sufocados. Deitou a correr e penetrou no terreiro que circundava \u00e1 casa. Todas as janelas estavam fechadas; mas os gritos continuavam cada vez mais angustiosos. Um vulto passou-lhe pela frente e dirigiu-se para os fundos. Juli\u00e3o quis segui-lo; mas os gritos eram muitos, e de sua filha. Com uma for\u00e7a dif\u00edcil de crer em corpo t\u00e3o pouco robusto, conseguiu abrir uma das janelas. Saltou, e eis o que viu: A parenta que convidara a tomar conta da casa estava no ch\u00e3o, atada, amorda\u00e7ada, exausta. Uma cadeira quebrada, outras em desordem.<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha! exclamou ele.<\/p>\n<p>E atirou-se para o interior.<\/p>\n<p>Elisa debatia-se nos bra\u00e7os de Carlos, mas j\u00e1 sem for\u00e7as nem esperan\u00e7as de obter miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>No momento em que Juli\u00e3o entrava por uma porta, entrava por outra um indiv\u00edduo mal conceituado no lugar, e at\u00e9 conhecido por assalariado nato de todas as viol\u00eancias. Era o vulto que Juli\u00e3o vira no terreiro. E outros haviam ainda, que apareceram a um sinal dado pelo primeiro, mal Juli\u00e3o entrou no lugar em que se dava o triste conflito da inoc\u00eancia com a perversidade.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o teve tempo de arrancar Elisa dos bra\u00e7os de Carlos. Cego de raiva, travou de uma cadeira e ia atirar-lha, quando os capangas entrados a este tempo, o detiveram.<\/p>\n<p>Carlos voltara a si da surpresa que lhe causara a presen\u00e7a de Juli\u00e3o. Recobrando o sangue frio, cravou os olhos odiendos no desventurado pai, e disse-lhe com voz sumida: \u2014 H\u00e1s de pagar-me! Depois, voltando-se para os ajudantes das suas fa\u00e7anhas, bradou: \u2014 Amarrem-no! Em cinco minutos foi obedecido. Juli\u00e3o n\u00e3o podia lutar contra cinco.<\/p>\n<p>Carlos e quatro capangas sa\u00edram. Ficou um de vigia.<\/p>\n<p>Uma chuva de l\u00e1grimas rebentou dos olhos de Elisa. Do\u00eda-lhe na alma ver seu pai atado daquele modo. N\u00e3o era j\u00e1 o perigo a que escapara o que a comovia; era n\u00e3o poder abra\u00e7ar seu pai livre e feliz. E por que estaria atado? Que intentava Carlos fazer? Mat\u00e1-lo? Estas l\u00fagubres e aterradoras id\u00e9ias passaram rapidamente pela cabe\u00e7a de Elisa. Entre l\u00e1grimas comunicou-as a Juli\u00e3o.<\/p>\n<p>Este, calmo, frio, imp\u00e1vido, tranq\u00fcilizou o esp\u00edrito de sua filha, dizendo-lhe que Carlos poderia ser tudo, menos um assassino.<\/p>\n<p>Seguiram-se alguns minutos de angustiosa espera. Juli\u00e3o olhava para sua filha e parecia refletir. Depois de algum tempo, disse: \u2014 Elisa, tens realmente a tua desonra por uma grande desgra\u00e7a? \u2014 Oh! meu pai! exclamou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Responde: se te faltasse a pureza que recebeste do c\u00e9u, considerar-te-ias a mais infeliz de todas as mulheres? \u2014 Sim, sim, meu pai! Juli\u00e3o calou-se.<\/p>\n<p>Elisa chorou ainda. Depois voltou-se para a sentinela deixada por Carlos e quis implorar-lhe miseric\u00f3rdia. Foi atalhada por Juli\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pe\u00e7as nada, disse este. S\u00f3 h\u00e1 um protetor para os infelizes: \u00e9 Deus. H\u00e1 outro depois dele; mas esse est\u00e1 longe. . . \u00d3 Pai de todos, que filho te deu o Senhor!. ..<\/p>\n<p>Elisa voltou para junto de seu pai.<\/p>\n<p>\u2014 Chega-te para mais perto, disse este.<\/p>\n<p>Elisa obedeceu.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o tinha os bra\u00e7os atados, mas podia mover, ainda que pouco, as m\u00e3os. Procurou afagar Elisa, tocando-lhe as faces e beijando-lhe a cabe\u00e7a. Ela inclinou-se e escondeu o rosto no peito de seu pai.<\/p>\n<p>A sentinela n\u00e3o dava f\u00e9 do que se passava. Depois de alguns minutos do abra\u00e7o de Elisa e Juli\u00e3o, ouviu-se um grito agud\u00edssimo. A sentinela correu aos dous. Elisa ca\u00edra completamente, banhada em sangue.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o tinha procurado a custo apoderar-se de uma faca de ca\u00e7a deixada por Carlos sobre uma cadeira. Apenas o conseguiu, cravou-a no peito de Elisa. Quando a sentinela correu para ele, n\u00e3o teve tempo de evitar o segundo golpe, com que Juli\u00e3o tornou mais profunda e mortal a primeira ferida. Elisa rolou no ch\u00e3o nas \u00faltimas convuls\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Assassino! clamou a sentinela.<\/p>\n<p>\u2014 Salvador!&#8230; salvei minha filha da desonra! \u2014 Meu pai!&#8230; murmurava a pobre pequena expirando.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o, voltando-se para o cad\u00e1ver, disse, derramando duas l\u00e1grimas, duas s\u00f3, mas duas lavas rebentadas do vulc\u00e3o de sua alma: \u2014 Dize a Deus, minha filha, que te mandei mais cedo para junto dele para salvar-te da desonra.<\/p>\n<p>Depois fechou os olhos e esperou.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou que entrasse Carlos, acompanhado de uma autoridade policial e v\u00e1rios soldados.<\/p>\n<p>Saindo da casa de Juli\u00e3o, teve a id\u00e9ia danada de ir declarar \u00e0 autoridade que o velho lavrador tentara contra a vida dele, raz\u00e3o por que teve de lutar, o conseguira deix\u00e1-lo amarrado.<\/p>\n<p>A surpresa de Carlos e dos policiais foi grande. N\u00e3o cuidavam encontrar o espet\u00e1culo que a seus olhos se ofereceu. Juli\u00e3o foi preso. N\u00e3o negou o crime. Somente reservou-se para contar as circunst\u00e2ncias dele na ocasi\u00e3o competente.<\/p>\n<p>A velha parenta foi desatada, desamorda\u00e7ada e conduzida \u00e0 fazenda de Pio.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o, depois de contar-me toda a hist\u00f3ria cujo resumo acabo de fazer, perguntou-me: \u2014 Diga-me, Sr. doutor, pode ser meu advogado? N\u00e3o sou criminoso? \u2014 Serei seu advogado. Descanse, estou certo de que os ju\u00edzes reconhecer\u00e3o as circunst\u00e2ncias atenuantes do delito.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o \u00e9 isso que me aterroriza. Seja ou n\u00e3o condenado pelos homens, \u00e9 cousa que nada monta para mim. Se os ju\u00edzes n\u00e3o forem pais, n\u00e3o me compreender\u00e3o, e ent\u00e3o \u00e9 natural que sigam os ditames da lei. N\u00e3o matar\u00e1s, \u00e9 dos mandamentos eu bem sei&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o quis magoar a alma do pobre pai continuando naquele di\u00e1logo. Despedi-me dele e disse que voltaria depois.<\/p>\n<p>Sa\u00ed da cadeia alvoro\u00e7ado. N\u00e3o era romance, era trag\u00e9dia o que eu acabava de ouvir. No caminho as id\u00e9ias se me clarearam. Meu esp\u00edrito voltou-se vinte e tr\u00eas s\u00e9culos atr\u00e1s, e pude ver, no seio da sociedade romana, um caso id\u00eantico ao que se dava na vila de ***.<\/p>\n<p>Todos conhecem a l\u00fagubre trag\u00e9dia de Virginius. Tito L\u00edvio, Diodoro de Sic\u00edlia e outros antigos falam dela circunstanciadamente. Foi essa trag\u00e9dia a precursora da queda dos dec\u00eanviros. Um destes, \u00c1pio Cl\u00e1udio, apaixonou-se por Virg\u00ednia, filha de Virginius. Como fosse impos\u00edvel de tom\u00e1-la por simples simpatia, determinou o dec\u00eanviro empregar um meio violento. O meio foi escraviz\u00e1-la. Peitou um sicofanta, que apresentou-se aos tribunais reclamando a entrega de Virg\u00ednia, sua escrava. O desventurado pai, n\u00e3o conseguindo comover nem por seus rogos, nem por suas amea\u00e7as, travou de uma faca de a\u00e7ougue e cravou-a no peito de Virg\u00ednia.<\/p>\n<p>Pouco depois ca\u00edam os dec\u00eanviros e restabelecia-se o consulado.<\/p>\n<p>No caso de Juli\u00e3o n\u00e3o haviam dec\u00eanviros para abater nem c\u00f4nsules para levantar, mas havia a moral ultrajada e a malvadez triunfante. Infelizmente est\u00e3o ainda longe, esta da geral repuls\u00e3o, aquela do respeito universal.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO III<\/b><\/p>\n<p>FAZENDO TODAS ESTAS reflex\u00f5es, encaminhava-me eu para a casa do amigo em que estava hospedado. Ocorreu-me uma id\u00e9ia, a de ir \u00e0 fazenda de Pio, autor do bilhete que me chamara da corte, e de quem eu podia saber muita cousa mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o insisto em observar a circunst\u00e2ncia de ser o velho fazendeiro quem se interessava pelo r\u00e9u e pagava as despesas da defesa nos tribunais. J\u00e1 o leitor ter\u00e1 feito essa observa\u00e7\u00e3o, realmente honrosa para aquele deus da terra.<\/p>\n<p>O sol, apesar da esta\u00e7\u00e3o, queimava suficientemente o viandante. Ir a p\u00e9 \u00e0 fazenda, quando podia ir a cavalo, era ganhar fadiga e perder tempo sem proveito. Fui \u00e0 casa e mandei aprontar o cavalo. O meu h\u00f3spede n\u00e3o estava em casa. N\u00e3o quis esper\u00e1-lo, e sem mais companhia dirigi-me para a fazenda.<\/p>\n<p>Pio estava em casa. Mandei-lhe dizer que uma pessoa da corte desejava falar-lhe. Fui recebido incontinenti.<\/p>\n<p>Achei o velho fazendeiro em conversa com um velho padre. Pareciam, tanto o secular como o eclesi\u00e1stico, dous verdadeiros soldados do Evangelho combinando-se para a mais extensa pr\u00e1tica do bem. Tinham ambos a cabe\u00e7a branca, o olhar sereno, a postura grave e o gesto despretensioso. Transluzia-lhes nos olhos a bondade do cora\u00e7\u00e3o Levantaram-se quando apareci e vieram cumprimentar-me.<\/p>\n<p>O fazendeiro era quem chamava mais a minha aten\u00e7\u00e3o, pelo que ouvira dizer dele ao meu amigo e ao pai de Elisa. Pude observ\u00e1-lo durante alguns minutos. Era imposs\u00edvel ver aquele homem e n\u00e3o adivinhar o que ele era. Com uma palavra branda e insinuante disse-me que diante do capel\u00e3o n\u00e3o tinha segredos, e que eu dissesse o que tinha para dizer. E come\u00e7ou por me perguntar quem era eu. Disse-lho; mostrei-lhe o bilhete, declarando que sabia ser dele, raz\u00e3o por que o procurara.<\/p>\n<p>Depois de algum sil\u00eancio disse-me: \u2014 J\u00e1 falou ao Juli\u00e3o? \u2014 J\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Conhece ent\u00e3o toda a hist\u00f3ria? \u2014 Sei do que ele me contou.<\/p>\n<p>\u2014 O que ele lhe contou \u00e9 o que se passou. Foi uma triste hist\u00f3ria que me envelheceu ainda mais em poucos dias. Reservou-me o c\u00e9u aquela tortura para o \u00faltimo quartel da vida. Soube o que fez. \u00c9 sofrendo que se aprende. Foi melhor. Se meu filho havia de esperar que eu morresse para praticar atos tais com impunidade, bom foi que o fizesse antes, seguindo-se assim ao delito o castigo que mereceu.<\/p>\n<p>A palavra castigo impressionou-me. N\u00e3o me pude ter e disse-lhe: \u2014 Fala em castigo. Pois castigou seu filho? \u2014 Pois ent\u00e3o? Quem \u00e9 o autor da morte de Elisa? \u2014 Oh!&#8230; isso n\u00e3o, disse eu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi autor, foi causa. Mas quem foi o autor da viol\u00eancia \u00e0 pobre pequena? Foi decerto meu filho.<\/p>\n<p>\u2014 Mas esse castigo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Descanse, disse o velho adivinhando a minha indiscreta inquieta\u00e7\u00e3o Carlos recebeu um castigo honroso, ou, por outra, sofre como castigo aquilo que devia receber como honra. Eu o conhe\u00e7o. Os c\u00f4modos da vida que teve, a carta que alcan\u00e7ou pelo estudo, e certa dose de vaidade que todos n\u00f3s recebemos do ber\u00e7o, e que o ber\u00e7o lhe deu a ele em grande dose, tudo isso \u00e9 que o castiga neste momento, porque tudo foi desfeito pelo g\u00eanero de vida que lhe fiz adotar. Carlos \u00e9 agora soldado.<\/p>\n<p>\u2014 Soldado! exclamei eu.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade. Objetou-me que era doutor. Disse-lhe que devia lembrar-se de que o era quando penetrou na casa de Juli\u00e3o. A muito pedido, mandei-o para o Sul, com promessa jurada, e avisos particulares e reiterados, de que, mal chegasse ali, assentasse pra\u00e7a em um batalh\u00e3o de linha. N\u00e3o \u00e9 um castigo honroso? Sirva a sua p\u00e1tria, e guarde a fazenda e a honra dos seus concidad\u00e3os: \u00e9 o melhor meio de aprender a guardar a honra pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Continuamos em nossa conversa durante duas horas quase. O velho fazendeiro mostrava-se magoad\u00edssimo sempre que volv\u00edamos a falar do caso de Juli\u00e3o. Depois que lhe declarei que tomava conta da causa em defesa do r\u00e9u, instou comigo para que nada poupasse a fim de alcan\u00e7ar a diminui\u00e7\u00e3o da pena de Juli\u00e3o. Se for preciso, dizia ele, apreciar com as considera\u00e7\u00f5es devidas o ato de meu filho, n\u00e3o se acanhe: esque\u00e7a-se de mim, porque eu tamb\u00e9m me esque\u00e7o de meu filho.<\/p>\n<p>Cumprimentei aquela virtude romana, despedi-me do padre, e sa\u00ed, depois de prometer tudo o que me foi pedido.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO IV<\/b><\/p>\n<p>\u2014 ENT\u00c3O, FALASTE a Juli\u00e3o? perguntou o meu amigo quando me viu entrar em casa.<\/p>\n<p>\u2014 Falei, e falei tamb\u00e9m ao Pai de todos&#8230; Que hist\u00f3ria, meu amigo!. . . Parece um sonho.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te disse?. . . E defendes o r\u00e9u? \u2014 Com toda a certeza.<\/p>\n<p>Fui jantar, e passei o resto da tarde conversando acerca do ato de Juli\u00e3o e das virtudes do fazendeiro.<\/p>\n<p>Poucos dias depois instalou-se o j\u00fari onde tinha de comparecer Juli\u00e3o.<\/p>\n<p>De todas as causas, era aquela a que mais medo me fazia; n\u00e3o que eu duvidasse das atenuantes do crime, mas porque receava n\u00e3o estar na altura da causa.<\/p>\n<p>Toda a noite da v\u00e9spera foi para mim de verdadeira ins\u00f4nia. Enfim raiou o dia marcado para o julgamento de Juli\u00e3o. Levantei-me, comi pouco e distra\u00eddo, e vesti-me. Entrou-me no quarto o meu amigo.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 te vou ouvir, disse-me ele abra\u00e7ando.<\/p>\n<p>Confessei-lhe os meus receios; mas ele, para animar-me, entreteceu uma grinalda de elogios que eu mal pude ouvir, no meio das minhas preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos.<\/p>\n<p>Dispenso os leitores da narra\u00e7\u00e3o do que se passou no j\u00fari. O crime foi provado pelo depoimento das testemunhas; nem Juli\u00e3o o negou nunca. Mas apesar de tudo, da confiss\u00e3o e da prova testemunhal, audit\u00f3rio, jurados, juiz e promotor, todos tinham pregados no r\u00e9u olhos de simpatia, admira\u00e7\u00e3o e compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o limitou-se a referir o depoimento das testemunhas, e quando, terminando o seu discurso, teve de pedir a pena para o r\u00e9u, o promotor mostrava-se envergonhado de estar tr\u00eamulo e comovido.<\/p>\n<p>Tocou-me a vez de falar. N\u00e3o sei o que disse. Sei que as mais ruidosas provas de ades\u00e3o surgiam no meio do sil\u00eancio geral. Quando terminei, dous homens invadiram a sala e abra\u00e7aram-me comovidos: o fazendeiro e o meu amigo.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o foi condenado a dez anos de pris\u00e3o. Os jurados tinham ouvido a lei, e igualmente, talvez, o cora\u00e7\u00e3o. .<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO V<\/b><\/p>\n<p>NO MOMENTO em que escrevo estas p\u00e1ginas, Juli\u00e3o, tendo j\u00e1 cumprido a senten\u00e7a, vive na fazenda de Pio. Pio n\u00e3o quis que ele voltasse ao lugar em que se dera a cat\u00e1strofe, e f\u00e1-lo residir ao p\u00e9 de si.<\/p>\n<p>O velho fazendeiro tinha feito recolher as cinzas de Elisa em uma urna, ao p\u00e9 da qual v\u00e3o ambos orar todas as semanas.<\/p>\n<p>Aqueles dous pais, que assistiram ao funeral das suas esperan\u00e7as, acham-se ligados intimamente pelos la\u00e7os do infort\u00fanio.<\/p>\n<p>Na fazenda fala-se sempre de Elisa, mas nunca de Carlos. Pio \u00e9 o primeiro a n\u00e3o magoar o cora\u00e7\u00e3o de Juli\u00e3o com a lembran\u00e7a daquele que o levou a matar sua filha.<\/p>\n<p>Quanto a Carlos, vai resgatando como pode o crime com que atentou contra a honra de uma donzela e contra a felicidade de dois pais.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis (NARRATIVA DE UM ADVOGADO) CAP\u00cdTULO PRIMEIRO N\u00c3O ME CORREU tranq\u00fcilo o S. Jo\u00e3o de 185. . . 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