{"id":118514,"date":"2017-04-05T22:11:13","date_gmt":"2017-04-06T00:11:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118514"},"modified":"2017-04-05T22:11:13","modified_gmt":"2017-04-06T00:11:13","slug":"vidros-quebrados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/vidros-quebrados","title":{"rendered":"Vidros Quebrados"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>\u2014 HOMEM, c\u00e1 para mim isto de casamentos s\u00e3o cousas talhadas no c\u00e9u. \u00c9 o que diz o povo, e diz bem. N\u00e3o h\u00e1 acordo nem conveni\u00eancia nem nada que fa\u00e7a um casamento, quando Deus n\u00e3o quer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um casamento bom, emendou um dos interlocutores.<\/p>\n<p>\u2014 Bom ou mau, insistiu o orador. Desde que \u00e9 casamento \u00e9 obra de Deus. Tenho em mim mesmo a prova. Se querem, conto-lhes&#8230; Ainda \u00e9 cedo para o voltarete. Eu estou abarrotado&#8230;<\/p>\n<p>Ven\u00e2ncio \u00e9 o nome deste cavalheiro. Est\u00e1 abarrotado, porque ele e tr\u00eas amigos acabavam de jantar. As senhoras foram para a sala conversar do casamento de uma vizinha, mo\u00e7a teimosa como trinta diabos, que recusou todos os noivos que o pai lhe deu, e acabou desposando um namorado de cinco anos, escritur\u00e1rio no Tesouro. Foi \u00e0 sobremesa que este neg\u00f3ciocome\u00e7ou a ser objeto de palestra. Terminado o jantar, a companhia bifurcou-se; elas foram para a sala, eles para um gabinete, onde os esperava o voltarete habitual. A\u00ed o Ven\u00e2ncio enunciou o princ\u00edpio da origem divina dos matrim\u00f4nios, princ\u00edpio que o Leal, s\u00f3cio da firma Leal &amp; Cunha, corrigiu e limitou aos matrim\u00f4nios bons. Os maus, segundo ele explicou da\u00ed a pouco, eram obra do diabo.<\/p>\n<p>\u2014 Vou dar-lhes a prova, continuou o Ven\u00e2ncio, desabotoando o colete e encostando o bra\u00e7o no peitoril da janela que abria para o jardim. Foi no tempo da Campestre&#8230; Ah! os bailes da Campestre! Tinha eu ent\u00e3o vinte e dous anos. Namorei-me ali de uma mo\u00e7a de vinte, linda como o sol, filha davi\u00fava Faria. A pr\u00f3pria vi\u00fava, apesar dos cinq\u00fcenta feitos, ainda mostrava o que tinha sido. Voc\u00eas podem imaginar se me atirei ou n\u00e3o ao namoro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Com a m\u00e3e?<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! Se dizem tolices, calo-me. Atirei-me \u00e0 filha; come\u00e7amos o namoro logo na primeira noite; continuamos, correspondemo-nos; enfim, est\u00e1vamos ali, est\u00e1vamos apaixonados, em menos de quatro meses. Escrevi-lhe pedindo licen\u00e7a para falar \u00e0 m\u00e3e; e, com efeito, dirigi uma carta \u00e0 vi\u00fava, expondo os meus sentimentos, e dizendo que seria uma grande honra, se me admitisse na fam\u00edlia. Respondeu-me oito dias depois que Cec\u00edlia n\u00e3o podia casar t\u00e3o cedo, mas que, ainda podendo, ela tinha outros projetos, e por isso sentia muito, e pedia-me desculpa. Imaginem como fiquei! Mo\u00e7o ainda, sangue na guelra, e demais apaixonado, quis ir \u00e0 casa da vi\u00fava, fazer uma estralada, arrancar a mo\u00e7a, e fugir com ela. Afinal, sosseguei e escrevi a Cec\u00edlia perguntando se consentia que a tirasse por justi\u00e7a. Cec\u00edlia respondeu-me que era bom ver primeiro se a m\u00e3e voltava atr\u00e1s; n\u00e3o queria dar-lhe desgostos, mas jurava-me pela luz que a estava alumiando, que seria minha e s\u00f3 minha&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei contente com a carta, e continuamos a correspond\u00eancia. A vi\u00fava, certa da paix\u00e3o da filha, fez o diabo. Come\u00e7ou por n\u00e3o ir mais \u00e0 Campestre; trancou as janelas, n\u00e3o ia a parte nenhuma; mas n\u00f3s escrev\u00edamos um ao outro, e isso bastava. No fim de algum tempo, arranjei meio de v\u00ea-la, \u00e0 noite, no quintal da casa. Pulava o muro de uma ch\u00e1cara vizinha, ajudado por uma boa preta da casa. A primeira cousa que a preta fazia era prender o cachorro; depois, dava-me o sinal, e ficava de vigia. Uma noite, por\u00e9m, o cachorro soltou-se e veio a mim. A vi\u00fava acordou com o barulho, foi \u00e0 janela dos fundos, e viu-me saltar o muro, fugindo. Sup\u00f4s naturalmente que era um ladr\u00e3o; mas no dia seguinte, come\u00e7ou a desconfiar do caso, meteu a escrava em confiss\u00e3o, e o dem\u00f4nio da negra p\u00f4s tudo em pratos limpos. A vi\u00fava partiu para a filha:<\/p>\n<p>\u2014 Cabe\u00e7a-de-vento! peste! isto s\u00e3o cousas que se fa\u00e7am? foi isto que te ensinei? Deixa estar; tu me pagas, t\u00e3o duro como osso! Peste! peste!<\/p>\n<p>A preta apanhou uma sova que n\u00e3o lhes digo nada: ficou em sangue. Que a tal mulherzinha era das ar\u00e1bias! Mandou chamar o irm\u00e3o, que morava na Tijuca, um Jos\u00e9 Soares, que era ent\u00e3o comandante do 6\u00ba batalh\u00e3o da Guarda Nacional; mandou-o chamar, contou-lhe tudo, e pediu-lhe conselho. O irm\u00e3o respondeu que o melhor era casar Cec\u00edlia sem demora; mas a vi\u00fava observou que, antes de aparecer noivo, tinha medo que eu fizesse alguma, e por isso tencionava retir\u00e1-la de casa, e mand\u00e1-la para o convento da Ajuda; dava-se com as madres principais&#8230;<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, Cec\u00edlia foi convidada pela m\u00e3e a aprontar-se, porque iam passar duas semanas na Tijuca. Ela acreditou, e mandou-me dizer tudo pela mesma preta, a quem eu jurei que daria a liberdade, se chegasse a casar com a sinh\u00e1-mo\u00e7a. Vestiu-se, p\u00f4s a roupa necess\u00e1ria no ba\u00fa, e entraram no carro que as esperava. Mal se passaram cinco minutos, a m\u00e3e revelou tudo \u00e0 filha; n\u00e3o ia lev\u00e1-la para a Tijuca, mas para o convento, de onde sairia quando fosse tempo de casar. Cec\u00edlia ficou desesperada. Chorou de raiva, bateu o p\u00e9, gritou, quebrou os vidros do carro, fez uma algazarra de mil diabos. Era um esc\u00e2ndalo nas ruas por onde o carro ia passando. A m\u00e3e j\u00e1 lhe pedia pelo amor de Deus que sossegasse; mas era in\u00fatil. Cec\u00edlia bradava, jurava que era asneira arranjar noivos e conventos; e amea\u00e7ava a m\u00e3e, dava socos em si mesma&#8230; Podem imaginar o que seria.<\/p>\n<p>Quando soube disto n\u00e3o fiquei menos desesperado. Mas, refletindo bem compreendi que a situa\u00e7\u00e3o era melhor; Cec\u00edlia n\u00e3o teria mais contempla\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, e eu podia tir\u00e1-la por justi\u00e7a. Compreendi tamb\u00e9m que era neg\u00f3cio que n\u00e3o podia esfriar. Obtive o consentimento dela, e tratei dos pap\u00e9is. Falei primeiro ao desembargador Jo\u00e3o Regadas, pessoa muito de bem, e que me conhecia desde pequeno. Combinamos que a mo\u00e7a seria depositada na casa dele. Cec\u00edlia era agora a mais apressada; tinha medo que a m\u00e3e a fosse buscar, com um noivo de encomenda; andava aterrada, pensava em morda\u00e7as, cordas&#8230; Queria sair quanto antes.<\/p>\n<p>Tudo correu bem. Voc\u00eas n\u00e3o imaginam o furor da vi\u00fava, quando as freiras lhe mandaram dizer que Cec\u00edlia tinha sido tirada por justi\u00e7a. Correu \u00e0 casa do desembargador, exigiu a filha, por bem ou por mal; era sua, ningu\u00e9m tinha o direito de lhe botar a m\u00e3o. A mulher do desembargador foi que a recebeu, e n\u00e3o sabia que dizer; o marido n\u00e3o estava em casa. Felizmente, chegaram os filhos, o Alberto, casado de dous meses, e o Jaime, vi\u00favo, ambos advogados, que lhe fizeram ver a realidade das cousas; disseram-lhe que era tempo perdido, e que o melhor era consentir no casamento, e n\u00e3o armar esc\u00e2ndalo. Fizeram-me boas aus\u00eancias; tanto eles como a m\u00e3e afirmaram-lhe que eu, se n\u00e3o tinha posi\u00e7\u00e3o nem fam\u00edlia, era um rapaz s\u00e9rio e de futuro. Cec\u00edlia foi chamada \u00e0 sala, e n\u00e3o fraqueou: declarou que, ainda queo c\u00e9u lhe ca\u00edsse em cima, n\u00e3o cedia nada. A m\u00e3e saiu como uma cobra.<\/p>\n<p>Marcamos o dia do casamento. Meu pai, que estava ent\u00e3o em Santos, deu-me por carta o seu consentimento, mas acrescentou que, antes de casar, fosse v\u00ea-lo; podia ser at\u00e9 que ele viesse comigo. Fui a Santos. Meu pai era um bom velho, muito amigo dos filhos, e muito sisudo tamb\u00e9m. No dia seguinte ao da minha chegada, fez-me um longo interrogat\u00f3rio acerca da fam\u00edlia da noiva. Depois confessou que desaprovava o meu procedimento.<\/p>\n<p>\u2014 Andaste mal, Ven\u00e2ncio; nunca se deve desgostar uma m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas se ela n\u00e3o queria?<\/p>\n<p>\u2014 Havia de querer, se fosses com bons modos e alguns empenhos. Devias falar a pessoa de tua amizade e da amizade da fam\u00edlia. Esse mesmo desembargador podia fazer muito. O que acontece \u00e9 que vais casar contra a vontade da tua sogra, separas a m\u00e3e da filha, e ensinaste a tua mulher a desobedecer. Enfim, Deus te fa\u00e7a feliz. Ela \u00e9 bonita?<\/p>\n<p>\u2014 Muito bonita.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor.<\/p>\n<p>Pedi-lhe que viesse comigo, para assistir ao casamento. Relutou, mas acabou cedendo; imp\u00f4s s\u00f3 a condi\u00e7\u00e3o de esperar um m\u00eas. Escrevi para a corte, e esperei as quatro mais longas semanas da minha vida. Afinal chegou o dia, mas veio um desastre, que me atrapalhou tudo. Minha m\u00e3e deu uma queda, e feriu-se gravemente; sobreveio erisipela, febre, mais um m\u00eas de demora, e que demora! N\u00e3o morreu, felizmente; logo que p\u00f4de viemos todos juntos para a corte, e hospedamo-nos no Hotel Pharoux; por sinal que assistiram, no mesmo dia, que era o 25 de mar\u00e7o, \u00e0 parada das tropas no Largo do Pa\u00e7o.<\/p>\n<p>Eu \u00e9 que n\u00e3o me pude ter, corri a ver Cec\u00edlia. Estava doente, recolhida ao quarto; foi a mulher do desembargador que me recebeu, mas t\u00e3o fria que desconfiei. Voltei no dia seguinte, e a recep\u00e7\u00e3o foi ainda mais gelada. No terceiro dia, n\u00e3o pude mais e perguntei se Cec\u00edlia teria feito as pazes com a m\u00e3e, e queria desfazer o casamento. Mastigou e n\u00e3o respondeu nada. De volta ao hotel, escrevi uma longa carta a Cec\u00edlia; depois, rasguei-a, e escrevi outra, seca, mas suplicante, que me dissesse se deveras estava doente, ou se n\u00e3o queria mais casar. Responderam-me voc\u00eas? Assim me respondeu ela.<\/p>\n<p>\u2014 Tinha feito as pazes com a m\u00e3e?<\/p>\n<p>\u2014 Qual! Ia casar com o filho vi\u00favo do desembargador, o tal que morava com o pai. Digam-me, se n\u00e3o \u00e9 mesmo obra talhada no c\u00e9u?<\/p>\n<p>\u2014 Mas as l\u00e1grimas, os vidros quebrados?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Os vidros quebrados ficaram quebrados. Ela \u00e9 que casou com o filho do deposit\u00e1rio, da\u00ed a seis semanas&#8230; Realmente, se os casamentos n\u00e3o fossem talhados no c\u00e9u, como se explicaria que uma mo\u00e7a, de casamento pronto, vendo pela primeira vez outro sujeito, casasse com ele, assim de p\u00e9 para m\u00e3o? \u00c9 o que lhes digo. S\u00e3o cousas arranjadas por Deus. Mal comparado, \u00e9 como no voltarete: eu tinha licen\u00e7a em paus, mas o filho do desembargador, que tinha outra em copas, preferiu e levou o bolo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 boa! Vamos \u00e0 espadilha.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis \u2014 HOMEM, c\u00e1 para mim isto de casamentos s\u00e3o cousas talhadas no c\u00e9u. \u00c9 o que diz o povo, e diz bem. N\u00e3o h\u00e1 acordo nem conveni\u00eancia nem nada que fa\u00e7a um casamento, quando Deus n\u00e3o quer&#8230; \u2014 Um casamento bom, emendou um dos interlocutores. \u2014 Bom ou mau, insistiu o orador. 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