{"id":118510,"date":"2017-04-05T21:48:31","date_gmt":"2017-04-05T23:48:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118510"},"modified":"2017-04-05T21:48:31","modified_gmt":"2017-04-05T23:48:31","slug":"venus-divina-venus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/venus-divina-venus","title":{"rendered":"V\u00eanus! Divina V\u00eanus!"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>\u2014 V\u00caNUS! V\u00eanus! divina V\u00eanus!<\/p>\n<p>E despegando os olhos da parede, onde estava uma c\u00f3pia pequenina da V\u00eanus de Milo, Ricardo arremeteu contra o papel e arrancou de si dous versos para completar uma quadra come\u00e7ada \u00e0s sete horas da manh\u00e3. Eram sete e meia; a x\u00edcara de caf\u00e9, que a m\u00e3e lhe trouxera antes de sair para a missa, estava intacta e fria sobre a mesa; a cama, ainda desfeita, era uma pequena cama de ferro, a mesa em que escrevia era de pinho; a um canto um par de sapatos, o chap\u00e9u pendente de um prego. Desarranjo e falta de meios. O poeta, com os p\u00e9s metidos em chinelas velhas, com a cabe\u00e7a apoiada na m\u00e3o esquerda, ia escrevendo a poesia. Tinha acabado a quadra e releu-a:<\/p>\n<p>Mimosa flor que dominas<br \/>\nTodas as flores do prado,<br \/>\nTu tens as formas divinas<br \/>\nDe V\u00eanus, modelo amado.<br \/>\nOs dous \u00faltimos versos n\u00e3o lhe pareceram t\u00e3o bons como os dous primeiros, nem lhe sa\u00edram t\u00e3o fluentemente. Ricardo deu uma pancadinha seca na borda da mesa, e endireitou o busto. Concertou os bigodes, fitou novamente a V\u00eanus de Milo \u2014 uma triste c\u00f3pia em gesso \u2014 e tratou de ver se os versos lhe sa\u00edam melhores.<\/p>\n<p>Tem vinte anos este mo\u00e7o, olhos claros e mi\u00fados, cara sem express\u00e3o, nem bonita nem feia, banal. Cabelo reluzente de \u00f3leo, que ele p\u00f5e todos os dias. Dentes tratados com esmero. As m\u00e3os s\u00e3o delgadinhas, como os p\u00e9s, e tem as unhas compridas e encurvadas. Empregado em um dos arsenais, vive com a m\u00e3e (j\u00e1 n\u00e3o tem pai), e paga a casa e parte da comida. A outra parte \u00e9 paga pela m\u00e3e, que, apesar de velha, trabalha muito. Moram no bairro dos Cajueiros. O ano em que isto se dava era o de 1859. \u00c9 domingo. Dizendo que a m\u00e3e foi \u00e0 missa, quase n\u00e3o \u00e9 preciso acrescentar que com um surrado vestido preto.<\/p>\n<p>Ricardo prosseguia. O amor \u00e0s unhas faz com que n\u00e3o as roa, quando se acha em dificuldades m\u00e9tricas. Em compensa\u00e7\u00e3o, afaga a ponta do nariz com a ponta dos dedos. Esfor\u00e7a-se por sacar dali dous versos substitutivos, mas inutilmente. Afinal, tanto repetiu os dous versos condenados, que acabou por achar a quadra excelente e continuou a poesia. Saiu a segunda estrofe, depois a terceira, a quarta e a quinta. A \u00faltima dizia que o Deus verdadeiro, querendo provar que os falsos n\u00e3o eram t\u00e3o poderosos como supunham, inventara, contra a bela V\u00eanus, a formosa Marcela. Gostou desta id\u00e9ia; era uma chave de ouro. Ergueu-se e passeou pelo quarto, recitando os versos; em seguida, parou diante da V\u00eanus de Milo, encantado da compara\u00e7\u00e3o. Chegou a dizer-lhe em voz alta:<\/p>\n<p>\u2014 Os bra\u00e7os que te faltam s\u00e3o os bra\u00e7os dela!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m gostou desta id\u00e9ia, e tentou convert\u00ea-la em uma estrofe, mas a veia esgotara-se. Copiou a poesia \u2014 primeiramente, em um caderno de outras; depois, em uma folha de papel bordado. Acabava a c\u00f3pia quando a m\u00e3e voltava da missa. Mal teve tempo de guardar tudo na gaveta. A m\u00e3e viu que ele n\u00e3o bebera o caf\u00e9, feito por ela, e posto ali com a recomenda\u00e7\u00e3o de que o n\u00e3o deixasse esfriar.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e3o de ser os malditos versos!&#8221; pensou ela consigo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mam\u00e3e, foram os malditos versos! disse ele.<\/p>\n<p>Maria dos Anjos, espantada:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea adivinhou o que eu pensei?<\/p>\n<p>Ricardo podia responder que j\u00e1 lhe ouvira muitas vezes aquelas palavras, acompanhadas de certo gesto caracter\u00edstico; mas preferiu mentir.<\/p>\n<p>\u2014 O poeta adivinha. A inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o serve s\u00f3 para compor versos, mas tamb\u00e9m para ler na alma dos outros.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, voc\u00ea leu tamb\u00e9m que eu rezei hoje na missa por voc\u00ea&#8230; ?<\/p>\n<p>\u2014 Li, sim, senhora.<\/p>\n<p>\u2014 E que pedi a Nossa Senhora, minha madrinha, que acabe com essa paix\u00e3o, por aquela mo\u00e7a&#8230; Como se chama mesmo?<\/p>\n<p>Ricardo, depois de alguns instantes, respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Marcela.<\/p>\n<p>\u2014 Marcela, \u00e9 verdade. N\u00e3o disse o nome, mas Nossa Senhora sabe. Eu n\u00e3o digo que voc\u00eas n\u00e3o se mere\u00e7am; n\u00e3o a conhe\u00e7o. Mas, Ricardo, voc\u00ea n\u00e3o pode tomar estado. Ela \u00e9 filha de doutor, n\u00e3o h\u00e1 de querer lavar nem engomar.<\/p>\n<p>Ricardo teve moralmente n\u00e1useas. Aquela id\u00e9ia reles de lavar e engomar era pr\u00f3pria de uma alma baixa, ainda que excelente. Venceu o asco, e olhou para a m\u00e3e com um gesto igualmente amigo e superior. No almo\u00e7o, disse-lhe que Marcela era a mais famosa mo\u00e7a do bairro.<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e acredita que os anjos venham \u00e0 terra? Marcela \u00e9 um anjo.<\/p>\n<p>\u2014 Acredito, meu filho, mas os anjos comem, quando est\u00e3o neste mundo e se casam&#8230; Ricardo, se voc\u00ea anda com tanta vontade de casar, por que n\u00e3o aceita Felismina, sua prima, que gosta tanto de voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, mam\u00e3e! Felismina!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 rica, \u00e9 pobre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem lhe fala em dinheiro? Mas, Felismina! basta-lhe o nome; \u00e9 dif\u00edcil achar outro t\u00e3o rid\u00edculo. Felismina!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi ela que escolheu o nome, foi o pai, quando ela se batizou.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim, mas n\u00e3o se segue que seja bonito. E depois, eu n\u00e3o gosto dela, \u00e9 prosaica, tem o nariz comprido e os ombros estreitos, sem gra\u00e7a; os olhos parecem mortos, olhos de peixe podre, e fala arrastado. Parece da ro\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m eu sou da ro\u00e7a, meu filho, replicou a m\u00e3e com brandura.<\/p>\n<p>Ricardo almo\u00e7ou, passou o dia agitado, felizmente lendo versos, que foram o seu calmante. Tinha um volume de Casimiro de Abreu, outro de Soares de Passos, um de Lamartine, n\u00e3o contando os seus pr\u00f3prios manuscritos. De noite, foi \u00e0 casa de Marcela. Ia resoluto. N\u00e3o eram os primeiros versos que escrevia \u00e0 mo\u00e7a, mas n\u00e3o lhe entregara nenhuns \u2014 por acanhamento. De fato, esse namoro que Maria dos Anjos receava acabasse em casamento, n\u00e3o passava ainda de alguns olhares e durava j\u00e1 umas seis semanas. Foi o irm\u00e3o de Marcela que apresentou ali o nosso poeta, com quem se encontrava, \u00e0s tardes, em um armarinho do bairro. Disse que era um mo\u00e7o de muita habilidade. Marcela, que era bonita, n\u00e3o deixava passar olhos sem fazer-lhes alguma pergunta a tal respeito, e como as respostas eram todas afirmativas, fingia n\u00e3o entend\u00ea-las e continuava o interrogat\u00f3rio. Ricardo respondeu pronto e entusiasmado; tanto bastou para continuarem uma varia\u00e7\u00e3o infinita sobre o mesmo tema. Entretanto, n\u00e3o havia nenhuma palavra de boca, trocada entre eles, cousa que parecesse com declara\u00e7\u00e3o. Os pr\u00f3prios dedos de Ricardo eram frouxos, quando recebiam os dela, que eram froux\u00edssimos.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje dou o golpe&#8221;, ia ele pensando.<\/p>\n<p>Havia gente em casa do Dr. Viana, pai da mo\u00e7a. Tocava-se piano; Marcela perguntou-lhe logo com os olhos do costume:<\/p>\n<p>\u2014 Que tal me acha?<\/p>\n<p>\u2014 Linda, ang\u00e9lica, respondeu Ricardo pelo mesmo idioma.<\/p>\n<p>Apalpou a algibeira do fraque; l\u00e1 estava a poesia metida em sobrecarta cor-de-rosa, com uma pombinha cor de ouro, em um dos cantos.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje temos solo, disse-lhe o filho do Dr. Viana. Aqui est\u00e1 este senhor, que \u00e9 excelente parceiro.<\/p>\n<p>Ricardo quis recusar; n\u00e3o p\u00f4de, n\u00e3o podia. E l\u00e1 foi jogar o solo, a tentos, em um gabinete, ao p\u00e9 da sala de visitas. Cerca de hora e meia n\u00e3o arredou p\u00e9; afinal confessou que estava cansado, precisava andar um pouco, voltaria depois.<\/p>\n<p>Correu \u00e0 sala. Marcela tocava piano, um mo\u00e7o de bigodes compridos, ao p\u00e9 dela, ia cantar n\u00e3o sei que \u00e1ria de \u00f3pera italiana. Era tenor, cantou, romperam grandes palmas. Ricardo, ao canto de uma janela, fez-lhe o favor de umas palminhas, e esperou os olhos da pianista. Os dele meditavam j\u00e1 esta frase: &#8220;Sois o mais belo, o mais puro, o mais ador\u00e1vel dos arcanjos, \u00f3 soberana do meu cora\u00e7\u00e3o e da minha vida&#8221;. Marcela, entretanto, foi sentar-se entre duas amigas, e de l\u00e1 perguntou-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Pare\u00e7o-lhe bonita?<\/p>\n<p>\u2014 Sois o mais belo, o mais&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de acabar. Marcela falou \u00e0s amigas, e encaminhou os olhos para o tenor, com a mesma pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 Pare\u00e7o-lhe bonita?<\/p>\n<p>Ele, pela mesma l\u00edngua, respondeu que sim, mas com tal clareza e autoridade, como se fora o pr\u00f3prio inventor do idioma. E n\u00e3o esperou nova pergunta; n\u00e3o se restringiu \u00e0 resposta; disse-lhe com energia:<\/p>\n<p>\u2014 E eu, que lhe pare\u00e7o?<\/p>\n<p>Ao que Marcela respondeu, sem grande hesita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Um belo noivo.<\/p>\n<p>Ricardo empalideceu. N\u00e3o somente viu a significa\u00e7\u00e3o da resposta, mas ainda assistiu ao di\u00e1logo, que continuou com vivacidade, abund\u00e2ncia e express\u00e3o. De onde vinha esse pelintra? Era um jovem m\u00e9dico, chegado dias antes da Bahia, recomendado ao pai de Marcela; jantara ali, a reuni\u00e3o era em honra dele. M\u00e9dico distinto, bela voz de tenor&#8230; Tais foram as informa\u00e7\u00f5es que deram ao pobre-diabo. Durante o resto da noite, apenas p\u00f4de colher um ou dous olhares r\u00e1pidos. Resolveu sair mais cedo para mostrar que estava ferido.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi logo para casa; vagou uma hora ou mais, entre o des\u00e2nimo e o furor, falando alto, jurando esquec\u00ea-la, desprez\u00e1-la. No dia seguinte, almo\u00e7ou mal, trabalhou mal, jantou mal, e trancou-se no quarto, \u00e0 noite. A consola\u00e7\u00e3o \u00fanica eram os versos, que achava lindos. Releu-os com amor. E a musa deu-lhe a for\u00e7a d\u2019alma que a aventura de domingo lhe tirara. Passados tr\u00eas dias, Ricardo n\u00e3o p\u00f4de mais consigo, e foi \u00e0 casa do Dr. Viana; achou-o de chap\u00e9u na cabe\u00e7a, esperando que as senhoras acabassem de vestir-se; iam ao teatro. Marcela desceu da\u00ed a pouco, radiante, e perguntou-lhe ocularmente:<\/p>\n<p>\u2014 Que tal me acha com este vestido?<\/p>\n<p>\u2014 Linda, respondeu ele.<\/p>\n<p>Depois, animando-se um pouco, perguntou Ricardo \u00e0 mo\u00e7a, sempre com os olhos, se queria que tamb\u00e9m ele fosse ao teatro. Marcela n\u00e3o lhe respondeu; dirigiu-se para a janela, a ver o carro que chegara. Ele n\u00e3o sabia (como sab\u00ea-lo?) que o jovem m\u00e9dico baiano, o tenor, o diabo, Maciel, em suma, combinara com a fam\u00edlia ir ao teatro, e j\u00e1 l\u00e1 os estava esperando. No dia seguinte, com o pretexto de saber que tal andara o espet\u00e1culo, correu \u00e0 casa de Marcela. Achou-a em conversa\u00e7\u00e3o com o tenor, ao lado um do outro, confian\u00e7a que nunca lhe dera. Quinze dias depois falou-se da possibilidade de uma alian\u00e7a; quatro meses depois estavam casados.<\/p>\n<p>Quisera contar aqui as l\u00e1grimas de Ricardo; mas n\u00e3o as houve. Impreca\u00e7\u00f5es, sim, protestos, juramento, amea\u00e7as, vindo tudo a acabar em uma poesia com o t\u00edtulo Perjura. Publicou esses versos, e, para lhes dar toda a significa\u00e7\u00e3o, p\u00f4s-lhe a data do casamento. Marcela, por\u00e9m, estava na lua-de-mel, n\u00e3o lia outros jornais al\u00e9m dos olhos do marido.<\/p>\n<p>Amor cura amor. N\u00e3o faltavam mulheres que tomassem a si essa obra demiseric\u00f3rdia. Uma Fausta, uma Dorot\u00e9ia, uma Rosina, ainda outras, vieram sucessivamente adejar as asas nos sonhos do poeta. Todas tiveram a mesma madrinha:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00eanus! V\u00eanus! divina V\u00eanus!<\/p>\n<p>Choviam versos; as rimas buscavam rimas, cansadas de serem as mesmas; a poesia fortalecia o cora\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o. Nem todas as mulheres tiveram not\u00edcia do amor do poeta; mas bastava que existissem, que fossem belas, ou quase, para fascin\u00e1-lo e inspir\u00e1-lo. Uma dessas tinha apenas dezesseis anos, chamava-se Virg\u00ednia e era filha de um tabeli\u00e3o, com quem Ricardo se fez encontradi\u00e7o para mais facilmente penetrar-lhe em casa. Foi-lhe apresentado como poeta.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? Eu sempre gostei de versos, disse o tabeli\u00e3o; se n\u00e3o fosse o meu cargo, escreveria alguns sonetinhos. No meu tempo compus f\u00e1bulas. O senhor gosta de f\u00e1bulas?<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o? redarg\u00fciu Ricardo. A poesia l\u00edrica \u00e9 melhor, mas a f\u00e1bula&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Melhor? N\u00e3o compreendo. A f\u00e1bula tem conceito, al\u00e9m da gra\u00e7a de fazer falar os animais&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Justamente!<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, como \u00e9 que disse que a poesia l\u00edrica era melhor?<\/p>\n<p>\u2014 Num sentido.<\/p>\n<p>\u2014 Que sentido?<\/p>\n<p>\u2014 Quero dizer, cada forma tem a sua beleza; assim, por exemplo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Exemplos n\u00e3o faltam. A quest\u00e3o \u00e9 que o senhor acha a poesia l\u00edrica melhor que a f\u00e1bula. S\u00f3 se n\u00e3o acha?<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, parece que n\u00e3o \u00e9 melhor, confessou Ricardo.<\/p>\n<p>\u2014 Diga logo inferior. Luar, n\u00e9voas, virgens, lago, estrelas, olhos de anjo, s\u00e3o palavras v\u00e3s, boas para poetas apatetados. Eu, tirando-me a f\u00e1bula e a s\u00e1tira, n\u00e3o sei para que serve a poesia. Para encher a cabe\u00e7a de caraminholas, e o papel de tolices&#8230;<\/p>\n<p>Ricardo aturou toda essa rabugice do not\u00e1rio, para o fim de ser admitido em casa dele \u2014 cousa f\u00e1cil, porque o pai de Virg\u00ednia tinha algumas f\u00e1bulas antigas e outras in\u00e9ditas e poucos ouvintes do of\u00edcio, ou verdadeiramente nenhum. Virg\u00ednia acolheu o mo\u00e7o com boa vontade; era o primeiro que lhe falava de amores \u2014 porque desta vez o nosso Ricardo n\u00e3o se deixou ficar atado. N\u00e3o lhe fez declara\u00e7\u00e3o franca e em prosa, dava-lhe versos \u00e0s escondidas. Ela guardava-os &#8220;para os ler depois&#8221; e no dia seguinte agradecia-os.<\/p>\n<p>\u2014 Muito mimosos, dizia sempre.<\/p>\n<p>\u2014 Eu fui apenas secret\u00e1rio da musa, respondeu ele uma vez; os versos foram ditados por ela. Conhece a musa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Veja no espelho.<\/p>\n<p>Virg\u00ednia entendeu e corou. J\u00e1 os dedos de ambos come\u00e7aram a dizer alguma cousa. O pai ia muitas vezes com eles ao Passeio P\u00fablico, entretendo-os com f\u00e1bulas. Ricardo estava certo de dominar a mocinha e esperava que ela fizesse os dezessete anos para pedir-lhe a m\u00e3o, a ela e ao pai. Um dia, por\u00e9m (quatro meses depois de conhec\u00ea-la), Virg\u00ednia adoece de mol\u00e9stia grave, que a p\u00f4s entre a vida e a morte. Ricardo padeceu deveras. N\u00e3o se lembrou de compor versos, nem tinha inspira\u00e7\u00e3o para eles; mas a leitura casual daquela elegia de Lamartine, em que h\u00e1 estas palavras: Elle avait seize ans; c\u2019est bien t\u00f4t pour mourir, deu-lhe id\u00e9ia de escrever alguma cousa em que aquilo entrasse por ep\u00edgrafe. E trabalhava, \u00e0 noite, de manh\u00e3, na rua, tudo por causa da ep\u00edgrafe.<\/p>\n<p>\u2014 Elle avait seize ans; c\u2019est bien t\u00f4t pour mourir! repetia ele andando.<\/p>\n<p>Felizmente, a mo\u00e7a arribou, ao fim de quinze dias, e, logo que p\u00f4de, foi convalescer na Tijuca, em casa da madrinha. N\u00e3o foi sem levar um soneto de Ricardo, com a famosa ep\u00edgrafe, o qual principiava por estes dois versos:<\/p>\n<p>Agora, que a mimosa flor ca\u00edda<br \/>\nAo terr\u00edfico vento da procela&#8230;<br \/>\nVirg\u00ednia convalesceu depressa; mas n\u00e3o voltou logo, ficou l\u00e1 um m\u00eas, dous meses, e, como eles n\u00e3o se correspondiam, Ricardo vivia naturalmente ansioso. O tabeli\u00e3o dizia-lhe que os ares eram bons, que a filha andava fraca, e n\u00e3o desceria sem estar inteiramente restabelecida. Um dia leu-lhe uma f\u00e1bula, composta na v\u00e9spera, e dedicada ao bacharel Vieira, sobrinho da comadre.<br \/>\n\u2014 Compreendeu o sentido, n\u00e3o? perguntou-lhe no fim.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor, entendi que o sol, disposto a restituir a vida \u00e0 lua&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o atina?<\/p>\n<p>\u2014 A moralidade \u00e9 clara.<\/p>\n<p>\u2014 Creio; mas a ocasi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A ocasi\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 A ocasi\u00e3o \u00e9 o casamento da minha pecurrucha com o bacharel Vieira, que chegou de S. Paulo; gostaram-se; foi pedida anteontem&#8230;<\/p>\n<p>Esta nova desilus\u00e3o atordoou completamente o rapaz. Desenganado, jurou acabar com mulheres e musas. Que eram musas sen\u00e3o mulheres? Contou \u00e0 m\u00e3e esta resolu\u00e7\u00e3o, sem entrar em pormenores, e a m\u00e3e o aprovou de todo. De fato, meteu-se em casa, as tardes e as noites, deu de m\u00e3o aos passeios e aos namoros. N\u00e3o comp\u00f4s mais versos, esteve a ponto de quebrar a V\u00eanus de Milo. Um dia soube que Felismina, a prima, ia casar. Maria dos Anjos pediu-lhe uns cinco ou dez mil-r\u00e9is para um presentinho; ele deu-lhe dez mil-r\u00e9is, logo que recebeu o ordenado.<\/p>\n<p>\u2014 Com quem casa? perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 Com um mo\u00e7o da Estrada de Ferro.<\/p>\n<p>Ricardo consentiu em ir com a m\u00e3e, \u00e0 noite, visitar a prima. L\u00e1 achou o noivo, ao p\u00e9 dela, no canap\u00e9, conversando baixinho. Depois das apresenta\u00e7\u00f5es, Ricardo encostou-se ao canto de uma janela, e o noivo foi tercom ele, passados alguns minutos, para dizer-lhe que estimava muito conhec\u00ea-lo, tinha uma casa \u00e0s suas ordens e um criado para o servir. J\u00e1 o tratava por primo.<\/p>\n<p>\u2014 Sei que meu primo \u00e9 poeta.<\/p>\n<p>Ricardo, com fastio, deu de ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Ouvi dizer que \u00e9 um grande poeta.<\/p>\n<p>\u2014 Quem lhe disse isso?<\/p>\n<p>\u2014 Pessoas que sabem. Sua prima tamb\u00e9m me disse que fazia bonitos versos.<\/p>\n<p>Ricardo, ap\u00f3s alguns segundos:<\/p>\n<p>\u2014 Fiz versos; provavelmente n\u00e3o os farei mais.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco estavam os noivos outra vez juntos, falando baixinho. Ricardo teve-lhe inveja. Eram felizes, uma vez que gostavam um do outro. Pareceu-lhe at\u00e9 que ela gostava ainda mais, porque sorria sempre; e da\u00ed talvez fosse para mostrar os lindos dentes que Deus lhe dera. O andar da mo\u00e7a tamb\u00e9m era mais gracioso. O amor transforma as mulheres, pensava ele; a prima est\u00e1 melhor do que era. O noivo \u00e9 que lhe pareceu um tanto impertinente, s\u00f3 a trat\u00e1-lo por primo&#8230; Disse isto \u00e0 m\u00e3e, na volta para casa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que tem isso?<\/p>\n<p>Sonhou nessa noite que assistia ao casamento de Felismina, muitos carros, muitas flores, ela toda de branco, o noivo de gravata branca e casaca preta, ceia lauta, brindes, recitando ele Ricardo uns versos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se outro n\u00e3o recitar, se n\u00e3o eu&#8230; disse ele de manh\u00e3, ao sair da cama.<\/p>\n<p>E a figura de Felismina entrou a persegui-lo. Dias depois, indo \u00e0 casa dela, viu-a conversar com o noivo, e teve um pequeno desejo de atir\u00e1-lo \u00e0 rua. Soube que ele ia na manh\u00e3 seguinte para a Barra do Pira\u00ed, a servi\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Demora-se muito?<\/p>\n<p>\u2014 Oito dias.<\/p>\n<p>Ricardo visitou a prima todas essas noites. Ela, aterrada com o sentimento que via nascer no primo, n\u00e3o sabia que fizesse. A princ\u00edpio resolveu n\u00e3o aparecer-lhe; mas aparecia-lhe, e ouvia tudo o que ele contava com os olhos postos nos dele. A m\u00e3e dela tinha a vista curta. Na v\u00e9spera da volta do noivo, Ricardo apertou-lhe a m\u00e3o com for\u00e7a, com viol\u00eancia, e disse-lhe adeus &#8220;at\u00e9 nunca mais&#8221;. Felismina n\u00e3o ousou pedir-lhe que viesse; mas passou a noite mal. O noivo regressou por dous dias.<\/p>\n<p>\u2014 Dous dias? perguntou-lhe Ricardo na rua onde ele lhe deu a not\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, primo, tenho muito que fazer, explicou o outro.<\/p>\n<p>Partiu, as visitas continuaram; os olhos falavam, os bra\u00e7os, as m\u00e3os, um di\u00e1logo perp\u00e9tuo, n\u00e3o espiritual, n\u00e3o filos\u00f3fico, um di\u00e1logo fisiol\u00f3gico e familiar. Uma noite, Ricardo sonhou que pegava da prima e subia com ela ao alto de um penedo, no meio do oceano. Viu-a sem bra\u00e7os. Acordando de manh\u00e3, olhou para a V\u00eanus de Milo.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00eanus! V\u00eanus! divina V\u00eanus!<\/p>\n<p>Atirou-se \u00e0 mesa, ao papel, meteu m\u00e3os \u00e0 obra, para compor alguma cousa, um soneto, um soneto que fosse. E olhava para V\u00eanus \u2014 a imagem da prima \u2014, e escrevia, riscava, tornava a escrever e a riscar, e novamente escrevia at\u00e9 que lhe sa\u00edram os dous primeiros versos do soneto. Os outros vieram vindo, cai aqui, cai acol\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Felismina! exclamava ele. O nome dela h\u00e1 de ser a chave de ouro. Rima com divina e cristalina. E conclu\u00eda assim o soneto.<\/p>\n<p>E tu, crian\u00e7a amada, t\u00e3o divina<br \/>\nN\u00e3o \u00e9s c\u00f3pia da V\u00eanus celebrada,<br \/>\n\u00c9s antes seu modelo, Felismina.<br \/>\nDeu-lho nessa noite. Ela chorou depois que os leu. Tinha de pertencer a outro homem. Ricardo ouviu essa palavra e disse-lhe ao ouvido:<\/p>\n<p>\u2014 Nunca!<\/p>\n<p>Indo a acabar os quinze dias, o noivo escreveu dizendo que precisava ficar ainda na Barra umas duas ou tr\u00eas semanas. Os dous, que iam dando pressa a tudo, trataram da conclus\u00e3o. Quando Maria dos Anjos ouviu ao filho que ia desposar a prima, ficou espantada, e pediu que se explicasse.<\/p>\n<p>\u2014 Isto n\u00e3o se explica, mam\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E o outro?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 na Barra. Ela j\u00e1 lhe escreveu pedindo desculpa e contando a verdade.<\/p>\n<p>Maria dos Anjos abanou a cabe\u00e7a, com ar de reprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 bonito, Ricardo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas se n\u00f3s gostamos um do outro? Felismina confessou que ia casar com ele, \u00e0 toa, sem vontade; que sempre gostara de mim; casava por n\u00e3o ter com quem.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas palavra dada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que palavra, mam\u00e3e? Mas se eu a adoro; digo-lhe que a adoro. Queria que eu ficasse a olhar ao sinal, e ela tamb\u00e9m, s\u00f3 porque houve um equ\u00edvoco, uma palavra dada sem reflex\u00e3o? Felismina \u00e9 um anjo. N\u00e3o foi \u00e0 toa que lhe deram um nome, que \u00e9 a rima de divina. Um anjo, mam\u00e3e!<\/p>\n<p>\u2014 Oxal\u00e1 sejam felizes.<\/p>\n<p>\u2014 Com certeza; mam\u00e3e ver\u00e1.<\/p>\n<p>Casaram-se. Ricardo era todo para a realidade do amor. Conservou a V\u00eanus de Milo, a divina V\u00eanus, posta na parede, apesar dos protestos de mod\u00e9stia da mulher. Conv\u00e9m saber que o noivo casou mais tarde na Barra, Marcela e Virg\u00ednia estavam casadas. As outras mo\u00e7as que Ricardo amou e cantou tinham j\u00e1 maridos. O poeta deixou de poetar, com grande m\u00e1goa dos seus admiradores. Um deles perguntou-lhe um dia, ansioso:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o faz mais versos?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se pode fazer tudo, respondeu Ricardo, acariciando os seus cinco filhos.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis \u2014 V\u00caNUS! V\u00eanus! divina V\u00eanus! E despegando os olhos da parede, onde estava uma c\u00f3pia pequenina da V\u00eanus de Milo, Ricardo arremeteu contra o papel e arrancou de si dous versos para completar uma quadra come\u00e7ada \u00e0s sete horas da manh\u00e3. 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