{"id":118505,"date":"2017-04-05T21:44:11","date_gmt":"2017-04-05T23:44:11","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118505"},"modified":"2017-04-05T21:44:11","modified_gmt":"2017-04-05T23:44:11","slug":"uma-partida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/uma-partida","title":{"rendered":"Uma Partida"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Posso dizer o caso, o ano e as pessoas, menos os nomes verdadeiros. Posso ainda dizer a prov\u00edncia, que foi a do Rio de Janeiro. N\u00e3o direi o munic\u00edpio nem a denomina\u00e7\u00e3o da fazenda. Seria exceder as conveni\u00eancias sem utilidade.<\/p>\n<p>Vai longe o ano; era o de 1850. A fazenda era do coronel X, digamos Xavier. Boa casa de vivenda, muitos escravos, mas pouca ordem, e produ\u00e7\u00e3o inferior \u00e0 que devia dar. O feitor, que era bom a princ\u00edpio, &#8220;, como dizia o coronel aos amigos, &#8220;como diziam os amigos do coronel. Corriam algumas lendas; sussurrava-se que o fazendeiro devia certas mortes ao feitor, e da\u00ed a depend\u00eancia em que estava dele. Era falso. Xavier n\u00e3o tinha alma assassina, nem sequer vingativa. Era duro de g\u00eanio; mas n\u00e3o ia al\u00e9m de algumas a\u00e7\u00f5es duras. Isso mesmo parece que afrouxava nos \u00faltimos tempos. Talvez tivesse pouca aptid\u00e3o para dirigir um estabelecimento agr\u00edcola; mas os primeiros anos de propriedade desmentiam esta suposi\u00e7\u00e3o. Foram anos pr\u00f3speros, de grande trabalho e vivas esperan\u00e7as. O terceiro ano confirmou algumas destas; mas o quarto foi j\u00e1 decadente, e os restantes vieram, ora melhor, ora pior, sem que a lavoura tornasse ao que fora. Os escravos mortos ou fugidos eram substitu\u00eddos por pretos importados de contrabando, meias-caras, como se dizia. Os correspondentes da antiga corte adiantavam dinheiro. Xavier n\u00e3o perdeu o cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Tinha perto de quarenta anos. Pertencia a uma antiga fam\u00edlia agr\u00edcola, espalhada pelo Rio de Janeiro, Minas Gerais e S. Paulo. O pai criou-o um pouco \u00e0 revelia. J\u00e1 na fazenda, j\u00e1 na capital, aonde ele vinha muitas vezes, fazia tudo que queria e gastava \u00e0 larga. O pai desejava que ele fosse doutor ou bacharel em direito; mas o filho n\u00e3o quis e n\u00e3o foi nada. Quando o velho morreu deixou-lhe a fazenda em bom estado, dinheiro nas m\u00e3os dos correspondentes, muito cr\u00e9dito, ordem e disciplina. Xavier tinha vinte e sete anos. Correu da corte e j\u00e1 achou o pai enterrado. Alguns amigos do velho, que estavam na fazenda, receberam o herdeiro com muitas provas de estima, desejos de perseveran\u00e7a na casa; mas o mo\u00e7o Xavier, ou porque eles acentuassem demasiado a afei\u00e7\u00e3o, ou porque se intrigassem uns aos outros, em breve tempo os p\u00f4s na rua. Parece que deles \u00e9 que nasceu mais tarde a lenda das mortes mandadas cometer pelo fazendeiro.<\/p>\n<p>J\u00e1 ficou dito que os dois primeiros anos foram pr\u00f3speros. Como a prosperidade vinha do tempo do velho, \u00e9 f\u00e1cil crer que continuou pelo impulso anterior. \u00c9 verdade, por\u00e9m, que Xavier deu todos os seus cuidados \u00e0 lavoura, e juntou o esfor\u00e7o pr\u00f3prio ao que ela trazia.<\/p>\n<p>Os parentes estavam satisfeitos com a convers\u00e3o do mo\u00e7o. Um deles lan\u00e7ou-lhe uma patente de coronel da Guarda Nacional; e deu-lhe conselho que tomasse para si a influ\u00eancia pol\u00edtica do munic\u00edpio. Outro, um velho tio mineiro, escreveu-lhe uma carta dizendo que casasse.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Quando a carta chegou \u00e0s m\u00e3os do Xavier, estava ele jogando com um viajante que lhe pedira pousada na v\u00e9spera. N\u00e3o abriu a carta, n\u00e3o chegou a examinar a letra do sobrescrito; meteu-a no bolso e continuou a jogar. Tinha sido grande jogador, mas havia j\u00e1 dezoito meses que n\u00e3o pegava em cartas. O viajante que ali aparecera, entre outras anedotas que lhe contou, meteu algumas de jogo, e confessou que &#8220;. A ocasi\u00e3o, a voca\u00e7\u00e3o e o parceiro abriram o apetite ao jovem coronel, que convidou o h\u00f3spede a um divertimento. O h\u00f3spede trazia cartas consigo, mas n\u00e3o foram precisas; Xavier, posto que resolvido acabar com o v\u00edcio, tinha muitos baralhos em casa.<\/p>\n<p>Jogaram tr\u00eas dias seguidos. Xavier perdeu dois contos de r\u00e9is, e despediu o h\u00f3spede com as melhores maneiras deste mundo. Sentia a perda; mas o sabor das cartas foi maior.<\/p>\n<p>Foi na noite do primeiro daqueles tr\u00eas dias que Xavier leu os conselhos do tio mineiro para que casasse e n\u00e3o os achou maus. No dia seguinte de manh\u00e3 tornou a pensar no assunto. Quando o h\u00f3spede se despediu, a id\u00e9ia do casamento apoderou-se dele outra vez. Era uma aventura nova, e a vida de Xavier fora dada a tantas, que esta devia namor\u00e1-lo. Nenhuma ambi\u00e7\u00e3o, curiosidade apenas. Pensou em v\u00e1rias mo\u00e7as, fez-se a sele\u00e7\u00e3o at\u00e9 que adotou a filha de um fazendeiro de S. Paulo, que ele conhecera, anos passados, com dezessete de idade; devia ir em vinte e n\u00e3o lhe constava que tivesse marido.<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-la, dois meses depois, Xavier estava longe de crer que a mocinha de dezessete anos fosse aquela magn\u00edfica mo\u00e7a de vinte. S\u00f3 mais tarde soube que ela, desde os dezessete anos, ficara namorada dele. Acordos tais s\u00e3o pr\u00f3prios de novelas; nem eu poria isto aqui, se n\u00e3o fora a necessidade. Parecem coisas preparadas, e, entretanto, examinando-as bem, s\u00e3o banais e velhas. Esquecemo-nos de que os novelistas, \u00e0 for\u00e7a de levarem para o papel os lances e situa\u00e7\u00f5es da realidade, deram-lhe um aspecto romanesco.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve obst\u00e1culos ao casamento. O velho tio mineiro foi padrinho de Xavier, e, dentro de pouco, tornava este \u00e0 fazenda fluminense, acompanhado de D. Paula Xavier, sua consorte. Viagem longa e cansativa; foram naturalmente repousar. Descansemos n\u00f3s tamb\u00e9m nesta pontinha de cap\u00edtulo<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>D. Paula n\u00e3o teve a lua-de-mel deliciosa que esperava. O casamento fora obra de reflex\u00e3o e de conselho. Assim, o amor que adormecera nela, pouco depois de nascido, acordou espantado de tornar \u00e0 realidade das coisas, e principalmente de n\u00e3o as reconhecer. Como Epim\u00eanides, via um mundo diverso do que deixara. Esfregou os olhos, uma e mais vezes, tudo era estranho. O Xavier de tr\u00eas anos passados n\u00e3o era este de hoje, com as suas fei\u00e7\u00f5es duras, ora alegre, ora frio, ora turbulento \u2014 muitas vezes calado e aborrecido \u2014, estouvado tamb\u00e9m, e trivial \u2014 sem alma, sem delicadeza. Pela sua parte, Xavier tamb\u00e9m n\u00e3o achou a lua-de-mel que pensava, que era um astro diferente daquele saudoso e porventura po\u00e9tico, vertendo um clar\u00e3o de p\u00e9rolas fundidas \u2014 mais ou menos isto \u2014 que a mulher sonhara achar ao p\u00e9 do noivo. Queria uma lua-de-mel patusca.<\/p>\n<p>Um e outro tinham-se enganado: mas estavam unidos, cumpria acomodarem-se \u2014 com a sorte. Ningu\u00e9m troca o bilhete de loteria que lhe saiu branco; e se o emenda, para receber um pr\u00eamio, vai para a cadeia. O bilhete branco \u00e9 o sonho; deita-se fora, e fica-se com a realidade.<\/p>\n<p>Quatro meses depois de casado, Xavier teve de ir ao Rio de Janeiro, onde se demorou poucos dias; mas voltou no m\u00eas seguinte, e demorou-se mais, e afinal amiudou as viagens e dilatou as demoras. A primeira suspeita de D. Paula \u00e9 que ele trazia amores, e n\u00e3o lhe doeu pouco; chegou a diz\u00ea-lo ao pr\u00f3prio marido, mas sorrindo e com brandura.<\/p>\n<p>\u2014 Tolinha, respondeu ele. Pois eu agora&#8230;? Amores&#8230;? N\u00e3o me faltava mais nada. Gastar dinheiro para dar com os ossos na corte, atr\u00e1s de raparigas&#8230; Ora voc\u00ea! Vou a neg\u00f3cios; o correspondente \u00e9 que me demora com as contas. E depois a pol\u00edtica, os homens pol\u00edticos, h\u00e1 id\u00e9ia de fazer-me deputado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deputado?<\/p>\n<p>\u2014 Provincial.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o aceita?<\/p>\n<p>\u2014 Eu, deputado? Tomara eu tempo para cuidar de mim. Com que, ent\u00e3o, amores? continuou ele rindo. Voc\u00ea \u00e9 capaz de fazer pensar nisso.<\/p>\n<p>D. Paula creu no marido, estava ent\u00e3o gr\u00e1vida, e punha grandes esperan\u00e7as no filho ou filha que lhe nascesse. Era a companhia, a alegria, a consola\u00e7\u00e3o, tudo o que o casamento n\u00e3o lhe deu. Como se aproximasse o termo da gesta\u00e7\u00e3o, Xavier suspendeu as viagens \u00e0 capital; mas por esse tempo apareceram na fazenda uns tr\u00eas sujeitos, que se hospedaram por dias, e com quem ele jogou \u00e0 larga. A mulher viu que ele amava as cartas. Em si o jogo n\u00e3o a incomodava; alguns parentes seus davam-se a essa distra\u00e7\u00e3o, e nunca ouvira dizer que fosse pecado nem v\u00edcio. O mal vinha da preocupa\u00e7\u00e3o exclusiva. Durante aqueles oito dias, Xavier n\u00e3o pensou que era casado ou fazendeiro: todo ele era cartas. Sabia muitos jogos; mudava de um para outro, com o fim de dar descanso ao esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u2014 Enquanto se descansa, carrega-se pedra, dizia ele aos parceiros. Acabaram os oito dias, os h\u00f3spedes foram-se, com promessa de tornar mais tarde. Xavier, apesar de haver perdido muito, estava bonach\u00e3o. Outras vezes, embora ganhasse, irritava-se. Por qu\u00ea? Estados de alma que os fatos externos podiam explicar at\u00e9 certo ponto, mas que prendiam naturalmente com a \u00edndole do homem. N\u00e3o era o dinheiro que o seduzia no jogo, mas as cartas, quase que s\u00f3 elas. Certo, preferia ganhar a perder \u2014 at\u00e9 para ter sempre com que jogar, mas era o jogo em si mesmo, as suas perip\u00e9cias, os seus lances, as rodas de fortuna, a ansiedade na espera, a luta, a supersti\u00e7\u00e3o, a f\u00e9 em uma carta, a descren\u00e7a em outras, todas as como\u00e7\u00f5es trazem [1] o meneio delas. Quando jogava assim uma boa temporada, dia e noite, ficava farto por algum tempo. O pior \u00e9 que o prazo do descanso ia diminuindo, e a necessidade vinha cada vez mais cedo.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Quando veio a hora de nascer o filho, estava Xavier em um dos estados de desejo; o acontecimento p\u00f4de distra\u00ed-lo. J\u00e1 tinha em casa m\u00e9dico e uma comadre, um tio da mulher e duas filhas. N\u00e3o faltou nada. Havia animais encilhados e pajens prontos para correr \u00e0 vila pr\u00f3xima, a buscar o que fosse preciso. D. Paula padeceu muito, e as esperan\u00e7as dissiparam-se na mais triste das realidades; o filho nasceu morto. A dor da m\u00e3e foi profunda, a convalescen\u00e7a longa.<\/p>\n<p>Quando ficou de todo restabelecida, Xavier prop\u00f4s-lhe virem ao Rio de Janeiro, passar a temporada l\u00edrica; ela aceitou, menos por gosto, menos ainda por distra\u00e7\u00e3o, que por ceder ao pequeno acesso de ternura do marido. Com efeito, ele expediu ordens para que arranjassem casa e todas as comodidades. Vieram; Xavier assinou um camarote. D. Paula tinha aqui parentes, amigos, conhecidos; a vida teve desde logo um bom aspecto. Pela sua parte, o marido mostrava-se mais atento aos seus desejos. Era uma renascen\u00e7a? Ela sup\u00f4s que sim e isto ajudou a faz\u00ea-la sarar da alma. N\u00e3o faltava quem a cortejasse, quem a admirasse, e naturalmente, quem a invejasse, pela beleza, pela gra\u00e7a, pelas maneiras simples e discretas, particularmente suas. Xavier parecia tirar vaidade desse efeito geral. Seria mais um elo que os prendesse intimamente.<\/p>\n<p>Entretanto, pouco depois de chegados, come\u00e7aram as suas noitadas fora de casa. Da primeira vez, quando ele se recolheu (quatro horas da manh\u00e3) ainda D. Paula estava acordada, ansiosa, vestida, e atirou-se a ele, satisfeita de o ver. Sinceramente receava algum perigo; n\u00e3o pensou em amores nem cartas. Xavier n\u00e3o correspondeu \u00e0 ansiedade da mulher, nem entendeu os seus receios. Respondeu-lhe irritado; disse-lhe que fizera mal em n\u00e3o ter dormido.<\/p>\n<p>\u2014 Sou alguma crian\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Xavier&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Roceiro, sou; mas conhe\u00e7o a cidade na ponta dos dedos. Voc\u00ea est\u00e1 j\u00e1 com as manchas das mo\u00e7as da corte; n\u00e3o tarda algum ataque de nervos. Que choro \u00e9 esse? V\u00e1 dormir, n\u00e3o me aborre\u00e7a. Descanse, que n\u00e3o me perco.<\/p>\n<p>A segunda noitada foi dali a tr\u00eas dias; D. Paula s\u00f3 tarde p\u00f4de dormir; acordou, quando ele chegou, mas n\u00e3o descerrou os olhos. Desconfiou que fossem mulheres; ele confessou-lhe, no dia seguinte, que estivera em casa de um amigo, jogando o voltarete.<\/p>\n<p>\u2014 Quando demos por n\u00f3s eram duas horas da noite, concluiu.<\/p>\n<p>Dali em.diante, quando tinha de passar fora a noite, n\u00e3o sa\u00eda de casa sem lhe dizer. \u2014 Vou ao voltarete. D. Paula soube que era verdade, e acostumou-se a dormir \u00e0 hora da ro\u00e7a, porque nas noites de teatro ou de visitas, ele n\u00e3o deixava de a acompanhar, e dormiam naturalmente tarde.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Voltaram \u00e0 corte uma e muitas vezes, at\u00e9 que Xavier abandonou de todo a fazenda nas m\u00e3os do administrador, e ficou a viver aqui. Por casa, entregou a mulher a si mesma e continuou a vida de sempre. Eram j\u00e1 passados tr\u00eas anos. O costume e o decoro os prendiam; nenhum deles amava o outro. N\u00e3o veio nenhum filho que pudesse suprir as lacunas do amor conjugal.<\/p>\n<p>Dona Paula ia ficando cada vez mais formosa. A corte aperfei\u00e7oou os encantos naturais. No interior n\u00e3o tinha necessidade de observar todo o ritual elegante nem a grande variedade da moda.<\/p>\n<p>Na corte, a necessidade impunha-se, e achava na alma dela excelente disposi\u00e7\u00e3o. Gostava de andar bem, de aparecer muito, de ir a toda parte; e n\u00e3o lhe faltavam amigos nem parentes que a acompanhassem e lhe satisfizessem todos os desejos. Bailes, teatros, passeios, teve tudo o que quis, n\u00e3o lhe negando o marido dinheiro para coisa alguma. \u00c0s vezes, estremunhado do jogo, ele respondia-lhe errado:<\/p>\n<p>\u2014 O baile do Vergueiro?<\/p>\n<p>\u2014 Sim; \u00e9 no dia 7.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o trunfo era espadas.<\/p>\n<p>\u2014 Que espadas?<\/p>\n<p>\u2014 Eu tinha o rei e o quatro.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, Xavier, n\u00e3o falo de cartas, falo do baile do Vergueiro, no dia 7 de outubro; estamos convidados.<\/p>\n<p>N\u00e3o pare\u00e7a demais essa confus\u00e3o do homem. Naturalmente, alguma partida especial, grave, luta grande, ou pelo dinheiro ou pela honra da vit\u00f3ria, tomara a casa do c\u00e9rebro onde nenhuma outra id\u00e9ia achava alojamento. Dona Paula chegava j\u00e1 a rir desses desconchavos. Depois, explicava o riso, e ele ria tamb\u00e9m, e referia o motivo da trapalhada. Quando ela notava que isso mesmo o aborrecia, evitava explica\u00e7\u00f5es. O marido era enfadonho, longo, repisava o que dizia, e achava pequeno interesse em coisas que, para ela, n\u00e3o valiam nada. J\u00e1 lhe n\u00e3o importavam horas de chegada. Ele entrava de madrugada, \u00e0s vezes de manh\u00e3, \u00e0s seis horas e mais. Dona Paula dormia at\u00e9 nove, e almo\u00e7ava s\u00f3. Outras vezes, o jogo era em casa; mas a casa era grande, e a sala do jogo era ao fundo. Na frente ela recebia, tocava e ria. Era conven\u00e7\u00e3o entre ambos, em tais casos, dizer que ele estava fora.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>Correu assim um ano, e mais. Dona Paula ia para vinte e seis anos, como quem sobe de esplendor em esplendor, devia ser uma daquelas mulheres que os trinta aperfei\u00e7oam, e os quarenta n\u00e3o conseguem enxovalhar. Que era mais natural que a admirassem? N\u00e3o lhe faltavam olhos cobi\u00e7osos, nem desejos mal sofridos. Ela saboreava-os com discri\u00e7\u00e3o, sem corresponder a nada, durante os primeiros tempos; mas a liberdade, o n\u00famero dos adoradores, a persuas\u00e3o de n\u00e3o perder com isso, f\u00ea-la receber agradecida e lisonjeada o culto de tanta gente. Contavam-lhe muitas conversa\u00e7\u00f5es a seu respeito; os homens idosos, mas brincalh\u00f5es, repetiam-lhe na cara, ao p\u00e9 das pr\u00f3prias mulheres, coisas que corriam fora \u2014 nomes que lhe davam, estrela do sul, rainha das salas e outros t\u00e3o banais, como esses, mas igualmente sinceros.<\/p>\n<p>Conhecia meia d\u00fazia de homens que se mostravam particularmente ass\u00edduos nos lugares a que ela fosse, e mais pertinazes em dar-lhe a entender que a queriam. Dona Paula n\u00e3o se alterou com o n\u00famero, nem com o mal; deixou-os vir. Um deles, bacharel em direito, tinha os seus trinta anos, e a mais bela de todas as cabe\u00e7as masculinas do tempo. Chamava-se Jo\u00e3o G\u00f3is. Solteiro e abastado. Era parente remoto de uma senhora que vivia na Tijuca, onde eles se falaram pela primeira vez. Dona Paula conhecia-o de o ver muitas vezes, ou no teatro ou na Rua do Ouvidor. Trazia na lembran\u00e7a os longos olhos dominadores que ela evitava afrontar, por medo do duelo, de que podia sair mal ferida; apenas os via por baixo das p\u00e1lpebras medrosas. Na Tijuca teve de os fitar ainda que o menos poss\u00edvel, e viu confirmados esses seus receios. Pensou neles, entretanto, e n\u00e3o sonhou com outros. Havia ainda um adorador de vinte e dois anos, olhos meigos e bons, cara sem barba, um triste bu\u00e7o puxado e repuxado sem chegar a bigodes. Para esse era Dona Paula a primeira paix\u00e3o. Esse chorava por ela, em casa, \u00e0s noites, e escrevia longas cartas para lhe mandar no dia seguinte, o que n\u00e3o iam nunca, porque lhe faltava tudo, portador e aud\u00e1cia.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltava aud\u00e1cia a Jo\u00e3o G\u00f3is, nem portadores, se lhe fossem necess\u00e1rios. Em breve, estavam as rela\u00e7\u00f5es travadas entre ele e o marido. G\u00f3is n\u00e3o gostava de cartas, mas sujeitava-se a jogar com Xavier nas noites em que este, por acaso, n\u00e3o passava fora ou n\u00e3o tinha os seus parceiros do costume. Dona Paula viveu cheia de temor durante as primeiras semanas; tendo brincado com fogo, aterrava-a naturalmente a id\u00e9ia de o ver chegar \u00e0s seias. G\u00f3is, que era audaz, era tamb\u00e9m h\u00e1bil, e resolveu criar primeiramente confian\u00e7a. Quando esta se estabeleceu de todo, ele declarou-se, e a batalha, se foi renhida, n\u00e3o foi longa; a vit\u00f3ria acabou completa.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VII<\/h2>\n<p>N\u00e3o direi compridamente os sentimentos de Dona Paula. Foram de duas ordens, mas for\u00e7a \u00e9 confessar que o temor, \u00faltima esperan\u00e7a da virtude, desapareceu com esta; e a cegueira que lhe trouxeram os olhos do homem fez com que ela n\u00e3o visse j\u00e1 perigos nem perdas. N\u00e3o receava o marido; pode crer-se que nem recearia a opini\u00e3o. Era toda do outro; podia crer-se que a paix\u00e3o antiga, inspirada pelo marido desde os dezessete anos, enganara-se de porta, e que realmente s\u00f3 amava um homem na terra: este parente da senhora da Tijuca.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, a verdade foi transparecendo aos olhos estranhos; eles n\u00e3o sabiam resguard\u00e1-la, e pode ser que ele pr\u00f3prio o n\u00e3o quisesse. A vaidade n\u00e3o era, ali\u00e1s, o elo mais forte daquele homem; realmente, o amor dele era violento; mas, a gl\u00f3ria do vencedor crescia com a not\u00edcia da posse. A not\u00edcia foi cochichada por inveja, por gosto, por maledic\u00eancia, na sala e na rua, no teatro e no baile, e tanto na palestra de peralvilhos, como entre duas m\u00e3os de voltarete dos comerciantes, \u00e0 noite, nos arrabaldes. Contavam-se os ind\u00edcios; pesquisava-se a vida de ambos; vinham epis\u00f3dios, cenas, encontros. E, posto que n\u00e3o fosse j\u00e1 preciso inventar nada, ainda se inventava alguma coisa.<\/p>\n<p>Dona Paula vivia alheia \u00e0s murmura\u00e7\u00f5es. N\u00e3o sabia ler nos rostos das outras mulheres, nem lhes achou diferen\u00e7a apreci\u00e1vel no trato. Algumas, por verdadeira repuls\u00e3o, afastaram-se dela, mas com tal arte e polidez, que a mo\u00e7a nem sentiu a separa\u00e7\u00e3o. Demais, que separa\u00e7\u00e3o podia j\u00e1 sentir em tais condi\u00e7\u00f5es? Amigas houve que buscavam saber por direta confid\u00eancia o segredo da vida de Paula; nenhuma o obteve. Uma, n\u00e3o menos \u00edntima, quis puni-la pela critica e condena\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica dos seus atos; ela n\u00e3o a entendeu. Que era a sociedade sem ele? Que era a virtude fora dele? Tal era o estado moral da consorte de Xavier, quando sucedeu o que lhes vou contar.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo VIII<\/h2>\n<p>G\u00f3is teve um dia a id\u00e9ia de propor a D. Paula que deixassem o Rio de Janeiro e o Brasil, e fossem para qualquer pa\u00eds do mundo \u2014 os Estados Unidos da Am\u00e9rica do Norte, se ela quisesse, ou qualquer recanto da It\u00e1lia. A pr\u00f3pria Fran\u00e7a, Paris, era um mundo em que ningu\u00e9m mais daria com eles.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea hesita&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o hesito, respondeu D. Paula.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o me responde?<\/p>\n<p>\u2014 A proposta \u00e9 grave, mas n\u00e3o \u00e9 a gravidade que me impede de responder j\u00e1 e j\u00e1. Voc\u00ea sabe que irei com voc\u00ea ao fim do mundo, se for preciso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu n\u00e3o te proponho o fim do mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim; e acaso \u00e9 preciso?<\/p>\n<p>G\u00f3is ia a sorrir, mas suspendeu a tempo o sorriso, e fechou o rosto. D. Paula acudiu que estava por tudo; iria \u00e0 China, com ele, a uma ilha deserta e inabitada&#8230;<\/p>\n<p>Pleno romantismo. G\u00f3is pegou-lhe nas m\u00e3os e agradeceu-lhe a resposta. Perguntou-lhe ainda se n\u00e3o cedia de m\u00e1-vontade, ou se era de cora\u00e7\u00e3o, se padeceria, caso ele se fosse embora s\u00f3, e a deixasse&#8230; A resposta de D. Paula foi tapar-lhe a boca; n\u00e3o a podia haver mais eloq\u00fcente. G\u00f3is beijou-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Deixar-me? Voc\u00ea pensaria acaso em semelhante coisa, se eu recusasse&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 falso que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 falso que te amo sobre tudo neste mundo; mas tenho um cora\u00e7\u00e3o orgulhoso, e se percebesse que preferias os teus c\u00f4modos ao nosso amor, eu preferia perder-te.<\/p>\n<p>\u2014 Cala-te.<\/p>\n<p>Calaram-se ambos, por alguns instantes. Ele brincava com uma das m\u00e3os dela; ela alisava-lhe os cabelos. Se indagarmo-nos em que iam pensando, acharemos que um e outro, e nada na terra para onde iriam. G\u00f3is, ao menos, s\u00f3 cuidou disso, passados uns dez minutos ou mais de enlevo, de devaneio, reminisc\u00eancias, sonhos \u2014 e cuidou para dar \u00e0 bela D. Paula uma nova causa de espanto.<\/p>\n<p>\u2014 E se eu n\u00e3o te propuser o fim do mundo mas o princ\u00edpio?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o entendo. O princ\u00edpio?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, h\u00e1 de haver um princ\u00edpio do mundo pois que h\u00e1 um fim.<\/p>\n<p>\u2014 Mas explica-te.<\/p>\n<p>\u2014 Se eu te propusesse simplesmente a minha casa?<\/p>\n<p>D. Paula n\u00e3o achou que responder. A proposta era agora t\u00e3o audaciosa, t\u00e3o fora de um plano poss\u00edvel, que sup\u00f4s fosse gracejo, e olhou para ele sem dizer nada. Parece que at\u00e9 come\u00e7ou a rir; mas ficou logo s\u00e9ria, desde que n\u00e3o viu no rosto dele nada que se parecesse com gracejo, nem sequer do\u00e7ura. Ela j\u00e1 lhe conhecia a express\u00e3o da teimosia, e tinha raz\u00e3o para saber toda a escala dos seus atrevimentos. Ainda assim, n\u00e3o creu logo. Compreendia que deixassem a terra p\u00e1tria para ir purgar os seus erros em algum buraco do mundo; mas sair de uma casa para outra, praticar um esc\u00e2ndalo, gratuito, sem necessidade, sem explica\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sei tudo o que est\u00e1s pensando, disse-lhe ele ap\u00f3s alguns segundos.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo?<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o \u00e9s da minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Que&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Que me prop\u00f5es um absurdo.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo se explica pelo amor, continuou ele. Se n\u00e3o achas explica\u00e7\u00e3o nenhuma, \u00e9 que n\u00e3o me amaste nunca ou j\u00e1 n\u00e3o me amas&#8230;<\/p>\n<p>D. Paula n\u00e3o teve \u00e2nimo desta vez, para tapar-lhe a boca. Abanou a cabe\u00e7a, com um olhar de censura, e um jeito amargo dos l\u00e1bios; foi como se n\u00e3o fizesse nada. G\u00f3is ergueu-se e estendeu a m\u00e3o. Ela fechou-a entre as suas; obrigou-o a sentar-se, quis mostrar-lhe que a proposta era um erro, mas perdeu-se em palavras vagas e descosidas, que ele n\u00e3o ouviu, porque tinha os olhos na ponta dos sapatos.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IX<\/h2>\n<p>G\u00f3is venceu. Poucas horas depois, tinham tudo ajustado. D. Paula sairia no s\u00e1bado pr\u00f3ximo, para a pr\u00f3pria casa onde ele morava, em Andara\u00ed. Parece sonho tudo isto, e a pena mal obedece \u00e0 m\u00e3o; a verdade, por\u00e9m, \u00e9 que \u00e9 verdade. Para explicar de algum modo esse ato de insensatez, \u00e9 preciso n\u00e3o esquecer que ele, sobre todas as coisas, amava o esc\u00e2ndalo; e que ela n\u00e3o se sentindo presa por nenhum outro v\u00ednculo, mal sabia que se expunha. la separar-se de toda gente, fechar todas as portas, confirmar as suspeitas p\u00fablicas, afrontar a opini\u00e3o \u2014 tudo como se houvera nascido para outra sociedade diversa daquela em que vivia. N\u00e3o desconhecia o erro e seguia o erro. A desculpa que podia ter \u00e9 que havia feito a mesma coisa at\u00e9 agora, e ia aliviar a consci\u00eancia, pelo menos, da hipocrisia.<\/p>\n<p>Na sexta-feira, \u00e0 tarde, G\u00f3is mandou-lhe as \u00faltimas indica\u00e7\u00f5es escritas. De noite foi verbalmente confirm\u00e1-las. D. Paula tinha visitas e parecia alegre, G\u00f3is ressentiu-se da alegria.<\/p>\n<p>\u2014 Parece que n\u00e3o me sacrifica nada, pensou ele; quisera v\u00ea-la abatida, triste e at\u00e9 chorando&#8230; Ri, ao contr\u00e1rio; despede-se desta gente, como se devesse receb\u00ea-la amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>Essa descoberta aborreceu-o; ele saiu sem fazer nenhuma refer\u00eancia ao ato do dia seguinte. D. Paula, prestes a cometer o esc\u00e2ndalo, teve vergonha de falar dele, e os dois despediram-se como se n\u00e3o tivessem de ligar, poucas horas depois, os seus destinos.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo X<\/h2>\n<p>No dia seguinte, Xavier acordou tarde, tendo-se recolhido tarde, na forma do costume. Indo almo\u00e7ar n\u00e3o viu a mulher que assistia sempre ao almo\u00e7o dele; perguntou se estava doente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, por qu\u00ea&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 no quarto, sim, senhor.<\/p>\n<p>Xavier acabou de almo\u00e7ar e foi ter com ela. Achou-a atirada a um canap\u00e9, com os olhos meios cerrados, o ar abatido. Tinha dormido mal \u00e0 noite, duas horas, quando muito, e interrompidamente. N\u00e3o disse a causa da ins\u00f4nia; n\u00e3o referiu que a id\u00e9ia de ser a \u00faltima noite que passava sob o teto conjugal \u00e9 que a pusera nervosa, inquieta, meia delirante. Tamb\u00e9m ele n\u00e3o lhe perguntou nada, se teria tido febre, ou dor de cabe\u00e7a, um resfriado; deu duas voltas e pegou em um livro que viu sobre uma cadeira, um romance franc\u00eas; leu duas linhas e deixou-o. Em seguida, falou do almo\u00e7o, que achou detest\u00e1vel, e do tempo, que parecia querer mudar. Consultou o rel\u00f3gio, quase duas horas. Precisava consert\u00e1-lo; variava muito. Que horas tinha ela?<\/p>\n<p>\u2014 Vai ver, suspirou D. Paula.<\/p>\n<p>Xavier foi ao rel\u00f3gio de mesa \u2014 um pequeno rel\u00f3gio de bronze \u2014, e achou que a diferen\u00e7a entre os dois era de quatro minutos. N\u00e3o valia a pena alterar o seu, salvo se o dela regulava certo.<\/p>\n<p>\u2014 Regula.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ver amanh\u00e3.<\/p>\n<p>E sentou-se para descansar o almo\u00e7o. Contou-lhe algumas perip\u00e9cias da noite. Ganhara um conto e oitocentos mil-r\u00e9is, depois de ter perdido dois contos e tanto; mas o ganho e a perda eram nada. O principal foi a teima de uma carta&#8230; E p\u00f4s-se a narrar toda a hist\u00f3ria \u00e0 mulher, que ouviu calada, enfastiada, engolindo a raiva, e dizendo a si mesma que fazia muito bem deixando a companhia de semelhante homem. Xavier falava com interesse, com ardor, parecia crescer, subir, \u00e0 medida que os incidentes lhe sa\u00edam da boca. E vinham nomes desconhecidos, o \u00c1lvaro, dr. Guimar\u00e3es, o Chico de Mattos, descrevia as figuras, os sestros as rela\u00e7\u00f5es de uns com outros, anedota da vida de todos. Quando concluiu parecia afrontado, pediu alguma coisa; a mulher preparou-lhe um pouco de \u00e1gua de melissa.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o quer fazer a digest\u00e3o calado, disse-lhe ela.<\/p>\n<p>Se ele visse bem o rosto de D. Paula, perceberia que aquela frase, proferida com um tom de repreens\u00e3o branda, n\u00e3o correspondia ao sentimento da mulher. D. Paula, se alguma d\u00favida pudesse ter em fugir de casa, j\u00e1 n\u00e3o a tinha agora; via-se-lhe na cara uma express\u00e3o de asco e desprezo.<\/p>\n<p>\u2014 Passou, disse ele.<\/p>\n<p>Ergueu-se; ia ver uns pap\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea por que n\u00e3o se deita um pouco, disse-lhe; veja se passa pelo sono. Eu dou ordem para que n\u00e3o a acordem; e a prop\u00f3sito, janto fora, janto com o Chico de Mattos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O do \u00e1s de ouro? perguntou ela com os dentes cerrados.<\/p>\n<p>\u2014 Justamente, acudiu ele rindo&#8230; Que veia de sujeito! O \u00e1s de ouros&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei, interrompeu ela. Vai ver os pap\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 Um felizardo!<\/p>\n<p>E, se n\u00e3o falou outra vez do Chico de Mattos, contou uma anedota do Roberto, outra do Sales, outra do Marcelino. A mulher ouviu-as todas serenamente \u2014 \u00e0s vezes risonha. Quando ele acabou, disse-lhe em tom amigo:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, voc\u00ea que tem jogado com tanta gente, s\u00f3 uma vez jogou comigo, h\u00e1 muito tempo, o ecart\u00e9&#8230; N\u00e3o \u00e9 ecart\u00e9 que se chama aquele jogo que voc\u00ea me ensinou? Vamos a uma partida.<\/p>\n<p>Xavier p\u00f4s-se a rir.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo XI<\/h2>\n<p>\u2014 Tinha gra\u00e7a, disse ele. Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 maridos que jogam com as mulheres.<\/p>\n<p>\u2014 A bisca em fam\u00edlia?.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o jogo a tentos.<\/p>\n<p>\u2014 A dinheiro? Tamb\u00e9m tinha sua gra\u00e7a, porque o que eu ganhasse em dinheiro, pagaria depois em vestidos; mas ainda assim, pronto. H\u00e1 certo interesse. Vou buscar as cartas.<\/p>\n<p>Saiu e voltou com as cartas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te proponho dinheiro, disse D. Paula. Nem dinheiro nem tentos.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o qu\u00ea? As estrelas? Os nossos lugares no c\u00e9u?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, a minha pessoa.<\/p>\n<p>\u2014 Como? perguntou ele, espantado.<\/p>\n<p>\u2014 Se eu perder, voc\u00ea faz de mim o que quiser; se eu ganhar, ganho a liberdade de ir para onde for da minha vontade.<\/p>\n<p>\u2014 Repete.<\/p>\n<p>Dona Paula repetiu a proposta.<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed est\u00e1 uma singular partida, exclamou Xavier. Se eu ganhar fa\u00e7o de voc\u00ea o que quiser&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E se eu ganhar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1.sei. Vale a pena arriscar, porque, se voc\u00ea perder, n\u00e3o sabe em que se mete. Vingarei o meu susto exemplarmente.<\/p>\n<p>As m\u00e3os dela estavam quentes, os olhos brilhantes. Ele, diante de uma partida nova, nunca jogada, absurda, ficara pasmado, tr\u00eamulo. Era ent\u00e3o&#8230;? Mas quem diabo lhe metera aquela id\u00e9ia na cabe\u00e7a? perguntou-lhe. E depois de um sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 G\u00f3is, naturalmente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Por que seria esse e n\u00e3o outro?<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea sabe por qu\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei nada, murmurou.<\/p>\n<p>\u2014 Sei-o eu. \u00c9 a grande vantagem das cartas an\u00f4nimas. Tr\u00eas cartas an\u00f4nimas contaram-me tudo. Guardei a primeira; queimei as outras, e nunca lhe disse nada, porque n\u00e3o adiantavam nada.<\/p>\n<p>D. Paula negou ainda, por boca e por gesto; afinal, calou-se e ouviu tudo o que ele continuou a dizer. Xavier falava sem c\u00f3lera. Confessou-lhe que a primeira impress\u00e3o foi acerba; mas depois sarou a ferida e continuou bem. Decididamente, o jogo estava acima de tudo. Era a consola\u00e7\u00e3o real e \u00fanica da terra e do c\u00e9u. Que se jogaria no c\u00e9u? D. Paula rompeu finalmente:<\/p>\n<p>\u2014 Bem, concluamos, disse ela. Est\u00e3o postas as condi\u00e7\u00f5es e aceitas. Vamos \u00e0s cartas.<\/p>\n<p>\u2014 Uma partida em tr\u00eas, disse ele; quem ganhar as duas primeiras, levanta a mesa.<\/p>\n<p>Baralhou as cartas, distribuiu-as e ganhou logo a primeira. Jogaram segunda. Foram \u00e0 terceira, que desempatava.<\/p>\n<p>\u2014 O rei, disse ele, marcando um ponto.<\/p>\n<p>Jogou a primeira carta, mas n\u00e3o jogou segunda. Parou, as cartas ca\u00edram-lhe, fez um gesto, e, antes que a mulher pudesse ver nada, caiu redondamente no ch\u00e3o. D. Paula acudiu, chamou, vieram criados e um m\u00e9dico vizinho; Xavier estava morto. Uma congest\u00e3o.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo XII<\/h2>\n<p>Ningu\u00e9m acredita que D. Paula tivesse l\u00e1grimas para o marido. Pois teve-as \u2014 poucas, \u00e9 certo \u2014 mas n\u00e3o deixou de as chorar; quando o cad\u00e1ver saiu. No dia seguinte, a impress\u00e3o passara.<\/p>\n<p>Que partida jogaria, agora que fortuna a libertara de toda a obriga\u00e7\u00e3o? G\u00f3is visitou-a, dias depois do enterro. N\u00e3o lhe falou em sair de casa; tamb\u00e9m n\u00e3o lhe falou de amores. D. Paula agradeceu esse respeito, n\u00e3o obstante a certeza que ele tinha da separa\u00e7\u00e3o moral em que ela viveu com o marido. O respeito estendeu-se a dois meses, depois quatro; G\u00f3is fez-lhe algumas visitas, sempre frias e curtas.<\/p>\n<p>Dona Paula come\u00e7ou a crer que ele n\u00e3o a amava. No dia em que esta convic\u00e7\u00e3o lhe entrou no cora\u00e7\u00e3o, esperou resoluta; mas esperou em v\u00e3o. G\u00f3is n\u00e3o voltou mais.<\/p>\n<p>A dor e a humilha\u00e7\u00e3o de D. Paula foram grandes. N\u00e3o percebeu que a liberdade e a viuvez a tornavam f\u00e1cil e banal para um esp\u00edrito como o do c\u00famplice. Teve amarguras secretas; mas a opini\u00e3o p\u00fablica foi em seu favor, porque imaginaram que ela o expulsara de casa, com sacrif\u00edcio e para puni\u00e7\u00e3o de si mesma.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo I Posso dizer o caso, o ano e as pessoas, menos os nomes verdadeiros. Posso ainda dizer a prov\u00edncia, que foi a do Rio de Janeiro. N\u00e3o direi o munic\u00edpio nem a denomina\u00e7\u00e3o da fazenda. Seria exceder as conveni\u00eancias sem utilidade. Vai longe o ano; era o de 1850. 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