{"id":118503,"date":"2017-04-05T21:33:03","date_gmt":"2017-04-05T23:33:03","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118503"},"modified":"2017-04-05T21:33:03","modified_gmt":"2017-04-05T23:33:03","slug":"uma-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/uma-noite","title":{"rendered":"Uma Noite"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO<\/b><\/p>\n<p>\u2014 VOC\u00ca SABE que n\u00e3o tenho pai nem m\u00e3e \u2014 come\u00e7ou a dizer o tenente Isidoro ao alferes Martinho. J\u00e1 lhe disse tamb\u00e9m que estudei na Escola Central. O que n\u00e3o sabe \u00e9 que n\u00e3o foi o simples patriotismo que me trouxe ao Paraguai; tamb\u00e9m n\u00e3o foi ambi\u00e7\u00e3o militar. Que sou patriota, e me baterei agora, ainda que a guerra dure dez anos, \u00e9 verdade, \u00e9 o que me ag\u00fcenta e me ag\u00fcentar\u00e1 at\u00e9 o fim. L\u00e1 postos de coronel nem general n\u00e3o s\u00e3o comigo. Mas, se n\u00e3o foi imediatamente nenhum desses motivos, foi outro; foi, foi outro, uma alucina\u00e7\u00e3o. Minha irm\u00e3 quis dissuadir-me, meu cunhado tamb\u00e9m; o mais que alcan\u00e7aram foi que n\u00e3o viesse soldado raso, pedi um posto de tenente, quiseram dar-me o de capit\u00e3o, mas fiquei em tenente. Para consolar a fam\u00edlia, disse que, se mostrasse jeito para a guerra, subiria a major ou coronel; se n\u00e3o, voltaria tenente, como dantes. Nunca tive ambi\u00e7\u00f5es de qualquer esp\u00e9cie. Quiseram fazer-me deputado provincial no Rio de Janeiro, recusei a candidatura, dizendo que n\u00e3o tinha id\u00e9ias pol\u00edticas. Um sujeito, meio gracioso, quis persuadir-me que as id\u00e9ias viriam com o diploma, ou ent\u00e3o com os discursos que eu mesmo proferisse na Assembl\u00e9ia Legislativa. Respondi que, estando a Assembl\u00e9ia em Niter\u00f3i, e morando eu na corte, achava muito aborrecida a meia hora de viagem, que teria de fazer na barca, todos os dias, durante dous meses, salvo as prorroga\u00e7\u00f5es. Pilh\u00e9ria contra pilh\u00e9ria; deixaram-me sossegado&#8230;<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO II<\/b><\/p>\n<p>OS DOIS OFICIAIS estavam nas avan\u00e7adas do acampamento de Tuiuti. Eram ambos volunt\u00e1rios, tinham recebido o batismo de fogo na batalha de 24 de maio. Corriam agora aqueles longos meses de ina\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 terminou em meados de 1867. Isidoro e Martinho n\u00e3o se conheciam antes da guerra, um viera do Norte, outro do Rio de Janeiro. A conviv\u00eancia os fez amigos, o cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, e afinal a idade, que era no tenente de vinte e oito anos, e no alferes de vinte e cinco. Fisicamente, n\u00e3o se pareciam nada. O alferes Martinho era antes baixo que alto, enxuto de carnes, o rosto moreno, ma\u00e7\u00e3s salientes, boca fina, risonha, maneiras alegres. Isidoro n\u00e3o se podia dizer triste, mas estava longe de ser jovial. Sorria algumas vezes, conversava com interesse. Usava grandes bigodes. Era alto e elegante, peito grosso, quadris largos, cintura fina.<\/p>\n<p>Semanas antes, tinham estado no teatro do acampamento. Este era agora uma esp\u00e9cie de vila improvisada, com espet\u00e1culos, bailes, bilhares, um peri\u00f3dico e muita casa de com\u00e9rcio. A com\u00e9dia representada trouxe \u00e0 mem\u00f3ria do alferes uma aventura amorosa que lhe sucedera nas Alagoas, onde nascera. Se n\u00e3o a contou logo, foi por vergonha; agora, por\u00e9m, como estivesse passeando com o tenente e lhe falasse das caboclinhas do Norte, Martinho n\u00e3o p\u00f4de ter m\u00e3o em si e referiu os seus primeiros amores. Podiam n\u00e3o valer muito; mas foram eles que o levaram para o Recife, onde alcan\u00e7ou um lugar na secretaria do governo; sobrevindo a guerra, alistou-se com o posto de alferes. Quando acabou a narra\u00e7\u00e3o, viu que Isidoro tinha os olhos no ch\u00e3o, parecendo ler por letras invis\u00edveis alguma hist\u00f3ria an\u00e1loga. Perguntou-lhe o que era.<\/p>\n<p>\u2014 A minha hist\u00f3ria \u00e9 mais longa e mais tr\u00e1gica, respondeu Isidoro.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho as orelhas grandes, posso ouvir hist\u00f3rias compridas, replicou o alferes rindo. Quanto a ser tr\u00e1gica, olhe que passar, como eu passei, metido no canavial, \u00e0 espera de cinco ou dez tiros que me levassem, n\u00e3o \u00e9 hist\u00f3ria de farsa. Vamos, conte; se \u00e9 coisa triste, eu sou amigo para tristezas.<\/p>\n<p>Isidoro come\u00e7ou a sentir desejo de contar a algu\u00e9m uma situa\u00e7\u00e3o penosa e aborrecida, causa da alucina\u00e7\u00e3o que o levou \u00e0 guerra. Batia-lhe o cora\u00e7\u00e3o, a palavra forcejava por subir \u00e0 boca, a mem\u00f3ria ia acendendo todos os recantos do c\u00e9rebro. Quis resistir, tirou dois charutos, ofereceu um ao alferes, e falou dos tiros das avan\u00e7adas. Brasileiros e paraguaios tiroteavam naquela ocasi\u00e3o \u2014 o que era comum \u2014, pontuando com balas de espingardas a conversa\u00e7\u00e3o. Algumas delas coincidiam porventura com os pontos finais das frases, levando a morte a algu\u00e9m; mas que essa pontua\u00e7\u00e3o fosse sempre exata ou n\u00e3o, era indiferente aos dois rapazes. O tempo acostumara-os \u00e0 troca de balas; era como se ouvissem rodar carros pelas ruas de uma cidade em paz. Martinho insistia pela confid\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Levar\u00e1 mais tempo que fumar este charuto?<\/p>\n<p>\u2014 Pode levar menos, pode tamb\u00e9m levar uma caixa inteira, redarg\u00fciu Isidoro; tudo depende de ser resumido ou completo. Em acampamento, h\u00e1 de ser resumido. Olhe que nunca referi isto a ningu\u00e9m; voc\u00ea \u00e9 o primeiro e o \u00faltimo.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO III<\/b><\/p>\n<p>ISIDORO principiou como vimos e continuou desta maneira:<\/p>\n<p>\u2014 Mor\u00e1vamos em um arrabalde do Rio de Janeiro; minha irm\u00e3 n\u00e3o estava ainda casada, mas j\u00e1 estava pedida; eu continuava os estudos. Vagando uma casa fronteira \u00e0 nossa, meu futuro cunhado quis alug\u00e1-la, e foi ter com o dono, um negociante da Rua do Hosp\u00edcio.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 meio ajustada, disse este; a pessoa ficou de mandar-me a carta de fian\u00e7a amanh\u00e3 de manh\u00e3. Se n\u00e3o vier, \u00e9 sua.<\/p>\n<p>Mal dizia isto, entrou na loja uma senhora, mo\u00e7a, vestida de luto, com um menino pela m\u00e3o; dirigiu-se ao comerciante e entregou-lhe um papel; era a carta de fian\u00e7a. Meu cunhado viu que n\u00e3o podia fazer nada, cumprimentou e saiu. No dia seguinte, come\u00e7aram a vir os trastes; dois dias depois estavam os novos moradores em casa. Eram tr\u00eas pessoas; a tal mo\u00e7a de luto, o pequeno que a acompanhou \u00e0 Rua do Hosp\u00edcio, e a m\u00e3e dela, D. Leonor, senhora velha e doente. Com pouco, soubemos que a mo\u00e7a, D. Camila, tinha vinte e cinco anos de idade, era vi\u00fava de um ano, tendo perdido o marido ao fim de cinco meses de casamento. N\u00e3o apareciam muito. Tinham duas escravas velhas. Iam \u00e0 missa ao domingo. Uma vez, minha irm\u00e3 e a vi\u00fava encontraram-se ao p\u00e9 da pia, cumprimentaram-se com afabilidade. A mo\u00e7a levava a m\u00e3e pelo bra\u00e7o. Vestiam com dec\u00eancia, sem luxo.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e adoeceu. As duas vizinhas fronteiras mandavam saber dela todas as manh\u00e3s e oferecer os seus servi\u00e7os. Restabelecendo-se, minha m\u00e3e quis ir pessoalmente agradecer-lhes as aten\u00e7\u00f5es. Voltou cativa.<\/p>\n<p>\u2014 Parece muito boa gente, disse-nos. Trataram-me como se f\u00f4ssemos amigas de muito tempo, cuidadosas, fechando uma janela, pedindo-me que mudasse de lugar por causa do vento. A filha, como \u00e9 mo\u00e7a, desfazia-se mais em obs\u00e9quios. Perguntou-me por que n\u00e3o levei Claudina, e elogiou-a muito; j\u00e1 sabe do casamento e acha que o dr. Lacerda d\u00e1 um excelente marido.<\/p>\n<p>\u2014 De mim n\u00e3o disse nada? perguntei eu rindo.<\/p>\n<p>\u2014 Nada.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois vieram elas agradecer o favor da visita pessoal de minha m\u00e3e. N\u00e3o estando em casa, n\u00e3o pude v\u00ea-las. Quando me deram not\u00edcia, ao jantar, achei comigo que as vizinhas pareciam querer meter-se \u00e0 cara da gente, e pensei tamb\u00e9m que tudo podia ser urdido pela mo\u00e7a, para aproximar-se de mim. Eu era f\u00e1tuo. Supunha-me o mais belo homem do bairro e da cidade, o mais elegante, o mais fino, tinha algumas namoradas de passagem, e j\u00e1 contava uma aventura secreta. Pode ser que ela me veja todos os dias, \u00e0 sa\u00edda e \u00e0 volta, disse comigo, e acrescentei por chacota: a vizinha quer despir o luto e vestir a solid\u00e3o. Em subst\u00e2ncia, sentia-me lisonjeado.<\/p>\n<p>Antes de um m\u00eas, estavam as rela\u00e7\u00f5es travadas, minha irm\u00e3 e a vizinha eram amigas. Comecei a v\u00ea-la em nossa casa. Era bonita e graciosa, tinha os olhos gar\u00e7os e ria por eles. Posto conservasse o luto, temperado por alguns la\u00e7os de fita roxa, o total da figura n\u00e3o era melanc\u00f3lico. A beleza vencia a tristeza. O gesto r\u00e1pido, o andar ligeiro, n\u00e3o permitiam atitudes saudosas nem pensativas. Mas, quando permitissem, a \u00edndole de Camila era alegre, ruidosa, expansiva. Chegava a ser estouvada. Falava muito e ria muito, ria a cada passo, em despropor\u00e7\u00e3o com a causa, e, n\u00e3o raro, sem causa alguma. Pode dizer-se que sa\u00eda fora da conta e da linha necess\u00e1rias; mas, nem por isso enfadava, antes cativava. Tamb\u00e9m \u00e9 certo que a presen\u00e7a de um estranho devolvia a mo\u00e7a ao gesto encolhido; a simples conversa\u00e7\u00e3o grave bastava a faz\u00ea-la grave. Em suma, o freio da educa\u00e7\u00e3o apenas moderava a natureza irrequieta e vol\u00favel. Soubemos por ela mesma que a m\u00e3e era vi\u00fava de um capit\u00e3o-de-fragata, de cujo meio soldo vivia, al\u00e9m das rendas de umas casinhas que lhe deixara o primeiro marido, seu pai. Ela, Camila, fazia coletes e roupas brancas. Minha irm\u00e3, ao contar-me isto, disse-me que tivera uma sensa\u00e7\u00e3o de vexame e de pena, e mudou de conversa; tudo in\u00fatil, porque a vizinha ria sempre, e contava rindo que trabalhava de manh\u00e3, porque, \u00e0 noite, o branco lhe fazia mal aos olhos. N\u00e3o cantava desde que perdera o marido, mas a m\u00e3e dizia que &#8220;a voz era de um anjo&#8221;. Ao piano era divina; passava a alma aos dedos, n\u00e3o aquela alma tumultuosa, mas outra mais quieta, mais doce, t\u00e3o metida consigo que chegava a esquecer-se deste mundo. O aplauso fazia-a fugir, como pomba assustada, e a outra alma passava aos dedos para tocar uma pe\u00e7a jovial qualquer, uma polca por exemplo \u2014 meu Deus! \u00e0s vezes, um lundu.<\/p>\n<p>Voc\u00ea cr\u00ea naturalmente que essa mo\u00e7a me enfeiti\u00e7ou. Nem podia ser outra coisa. O diabo da viuvinha entrou-me pelo cora\u00e7\u00e3o saltando ao som de um pandeiro. Era tentadora sem falar nem rir; falando e rindo era pior. O p\u00e9ssimo \u00e9 que eu sentia nela n\u00e3o sei que correspond\u00eancia dos meus sentimentos mal sopitados. \u00c0s vezes, esquecendo-me a olhar para ela, acordava repentinamente, e achava os dela fitos em mim. J\u00e1 lhe disse que eram gar\u00e7os. Disse tamb\u00e9m que ria por eles. Naquelas ocasi\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o tinham o riso do costume, nem sei se conservavam a mesma cor. A cor pode ser, n\u00e3o a via, n\u00e3o sentia mais que o peso grande de uma alma escondida dentro deles. Era talvez a mesma que lhe passava aos dedos quando tocava. Toda essa mulher devia ser feita de fogo e nervos. Antes de dois meses estava apaixonado, e quis fugir-lhe. Deixe-me dizer-lhe toda a minha corrup\u00e7\u00e3o \u2014 nem pensava em casar, nem podia ficar ao p\u00e9 dela, sem arrebat\u00e1-la um dia e lev\u00e1-la ao inferno. Comecei a n\u00e3o estar em casa, quando ela ia l\u00e1, e n\u00e3o acompanhava a fam\u00edlia \u00e0 casa dela. Camila n\u00e3o deu por isso na primeira semana \u2014 ou simulou que n\u00e3o. Passados mais dias, pergunto a minha irm\u00e3:<\/p>\n<p>\u2014 O doutor Isidoro est\u00e1 zangado conosco?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 nos n\u00e3o visita. S\u00e3o estudos, n\u00e3o? Ou namoro, quem sabe? H\u00e1 namoro no beco, concluiu rindo.<\/p>\n<p>\u2014 Rindo? perguntei a minha irm\u00e3, quando me repetiu as palavras de Camila.<\/p>\n<p>A pergunta em si era uma confiss\u00e3o; o tom em que a fiz, outra; a seriedade que me ficou, outra e maior. Minha irm\u00e3 quis explicar a amiga. Eu de mim para mim jurei que n\u00e3o a veria nunca mais. Dois dias depois, sabendo que ela vinha \u00e0 nossa casa, deixei-me estar com o pretexto de me doer a cabe\u00e7a; mas, em vez de me fechar no gabinete, fui v\u00ea-la rir ou faz\u00ea-la rir. A como\u00e7\u00e3o que lhe vi nos primeiros instantes reconciliou-nos. Reatamos o fio que \u00edamos tecendo, sem saber bem onde pararia a obra. J\u00e1 ent\u00e3o ia s\u00f3 a casa delas; meu pai estava enfraquecendo muito, minha m\u00e3e fazia-lhe companhia: minha irm\u00e3 ficava com o noivo, eu ia s\u00f3. N\u00e3o percamos tempo que os tiros se aproximam, e pode ser que nos chamem. Dentro de dez dias est\u00e1vamos declarados. O amor de Camila devia ser forte; o meu era fort\u00edssimo. Foi na sala de visitas, sozinhos, a m\u00e3e cochilava na sala de jantar. Camila, que falava tanto e sem parar, n\u00e3o achou palavra que dissesse. Eu agarrei-lhe a m\u00e3o, quis pux\u00e1-la a mim; ela, ofegante, deixou-se cair numa cadeira. Inclinei-me, desatinado, para lhe dar um beijo; Camila desviou a cabe\u00e7a, recuou a cadeira com for\u00e7a e quase caiu para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, adeus, at\u00e9 amanh\u00e3, murmurou ela.<\/p>\n<p>No dia seguinte, como eu formulasse o pedido de casamento, respondeu-me que pensasse em outra cousa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s nos amamos, disse ela; o senhor ama-me desde muito, e quer casar comigo, apesar de ser uma triste vi\u00fava pobre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem lhe fala nisso? Deixa de ser vi\u00fava, nem pobre, nem triste.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas h\u00e1 um obst\u00e1culo. Mam\u00e3e est\u00e1 muito doente, n\u00e3o quero desampar\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Desampar\u00e1-la? Seremos dous ao p\u00e9 dela, em vez de uma s\u00f3 pessoa. A raz\u00e3o n\u00e3o serve, Camila; h\u00e1 de haver outra.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho outra. Fiz esta promessa a mim mesma, que s\u00f3 me casaria depois que mam\u00e3e se fosse deste mundo. Ela, por mais que saiba do amor que lhe tenho, e da prote\u00e7\u00e3o que o senhor lhe dar\u00e1, ficar\u00e1 pensando que eu vou para meu marido, e que ela passar\u00e1 a ser uma agregada inc\u00f4moda. H\u00e1 de achar natural que eu pense mais no senhor que nela.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser que a raz\u00e3o seja verdadeira; mas o sentimento, Camila, \u00e9 esquisito, sem deixar de ser digno. Pois n\u00e3o \u00e9 natural at\u00e9 que o seu casamento lhe d\u00ea a ela mais for\u00e7a e alegria, vendo que a n\u00e3o deixa sozinha no mundo?<\/p>\n<p>Talvez que esta obje\u00e7\u00e3o a abalasse um pouco; refletiu, mas insistiu.<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e vive principalmente das minhas car\u00edcias, da minha alegria, dos meus cuidados, que s\u00e3o s\u00f3 para ela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois vamos consult\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Se a consultarmos querer\u00e1 que nos casemos logo.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o supor\u00e1 que fica sendo agregada inc\u00f4moda.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1, j\u00e1, n\u00e3o; mas pens\u00e1-lo-\u00e1 mais tarde; e quer que lhe diga tudo? H\u00e1 de pens\u00e1-lo e com raz\u00e3o. Eu, provavelmente, serei toda de meu marido: durante a lua de-mel, pelo menos \u2014 continuou rindo, e concluiu triste: \u2014 e a lua-de-mel pode lev\u00e1-la. N\u00e3o, n\u00e3o; se me ama deveras, esperemos; a minha velha morrer\u00e1 ou sarar\u00e1. Se n\u00e3o pode esperar, paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Creio que lhe vi os olhos \u00famidos; o riso que ria por eles deixou-se velar um pouco daquela chuvazinha passageira. Concordei em esperar, com o plano secreto de comunicar \u00e0 m\u00e3e de Camila os nossos desejos, a fim de que ela pr\u00f3pria nos ligasse as m\u00e3os. N\u00e3o disse nada a meus pais, certo de que ambos aceitariam a escolha; mas ainda contra a vontade deles, casaria. Minha irm\u00e3 soube de tudo, aprovou tudo, e tomou a si guiar as negocia\u00e7\u00f5es com a velha enferma. Entretanto, a paix\u00e3o de Camila n\u00e3o lhe trocou a \u00edndole. Tagarela, mas graciosa, risonha sem banalidade, toda vida e movimento&#8230; N\u00e3o me canso em repetir essas cousas. Tinha dias tristes ou calados; eram aqueles em que a mol\u00e9stia da m\u00e3e parecia agravar-se. Eu padecia com a mudan\u00e7a, uma vez que a vida da m\u00e3e era empecilho \u00e0 nossa ventura; sentimento mau, que me enchia de vergonha e de remorsos. N\u00e3o quero cans\u00e1-lo com as palavras que troc\u00e1vamos e foram infinitas, menos ainda com os versos que lhe fiz; \u00e9 verdade, Martinho, cheguei ao extremo de fazer versos; lia os de outros para compor os meus, e da\u00ed fiquei com tal ou qual soma de imagens e de express\u00f5es po\u00e9ticas&#8230;<\/p>\n<p>Um dia, ao almo\u00e7o, ouvimos rumor na escada, vozes confusas, choro; mandei ver o que era. Uma das escravas da casa fronteira vinha dar not\u00edcia&#8230; Cuidei que era a morte da velha, e tive uma sensa\u00e7\u00e3o de prazer. Ai, meu amigo! a verdade era outra e terr\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Nh\u00e3 Camila est\u00e1 douda!<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que fiz, nem por onde sa\u00ed, mas instantes depois entrava pela casa delas. Nunca pude ter mem\u00f3ria clara dos primeiros instantes. Vi a pobre velha, ca\u00edda num sof\u00e1 da sala; vinham de dentro os gritos de Camila. Se acudi ou n\u00e3o \u00e0 velha, n\u00e3o sei; mas \u00e9 prov\u00e1vel que corresse logo para o interior, onde dei com a mo\u00e7a furiosa, torcendo-se para escapar \u00e0s m\u00e3os de dois calceteiros que trabalhavam na rua e acudiram ao pedido de socorro de uma das escravas. Quis ajud\u00e1-los; pensei em influir nela com a minha pessoa, com a minha palavra; mas, ao que cuido, n\u00e3o via nem ouvia nada. N\u00e3o afirmo tamb\u00e9m se lhe disse alguma coisa e o que foi. Os gritos da mo\u00e7a eram agudos, os movimentos raivosos, a for\u00e7a grande; tinha o vestido rasgado, os cabelos despenteados. Minha fam\u00edlia chegou logo; o inspetor de quarteir\u00e3o e um m\u00e9dico apareceram e deram as primeiras ordens. Eu, tonto, n\u00e3o sabia que fizesse, achava-me num estado que podia ser cont\u00e1gio do terr\u00edvel acesso. Camila pareceu melhorar, n\u00e3o forcejava por desvencilhar-se dos homens que a retinham; estes, confiando na quieta\u00e7\u00e3o dela, soltaram-lhe os bra\u00e7os. Veio outra crise, ela atirou-se para a escada, e teria l\u00e1 chegado e rolado, se eu n\u00e3o a sustivesse pelos vestidos. Quis voltar-se para mim; mas os homens acudiram e novamente a retiveram.<\/p>\n<p>Algumas horas correram, antes que as ordens todas da autoridade fossem expedidas e cumpridas. Minha irm\u00e3 veio ter comigo para levar-me para a outra sala ou para casa; recusei. Uma vez ainda a exalta\u00e7\u00e3o e o furor de Camila cessaram, mas os homens n\u00e3o lhe deixaram os bra\u00e7os soltos. Quando se repetiu o fen\u00f4meno, o prazo foi mais longo, fizeram sent\u00e1-la, os homens afrouxaram os bra\u00e7os. Eu, cosido \u00e0 parede, fiquei a olhar para ela, notando que as palavras eram j\u00e1 poucas, e, se ainda sem sentido, n\u00e3o eram aflitas, nem ela repetia os guinchos agudos. Os olhos vagavam sem ver; mas, fitando-me de passagem, tornaram a mim, e ficaram parados alguns segundos, rindo como era costume deles quando tinham sa\u00fade. Camila chamou-me, n\u00e3o pelo nome, disse-me que fosse ter com ela. Acudi prontamente, sem dizer nada.<\/p>\n<p>\u2014 Chegue-se mais.<\/p>\n<p>Obedeci; ela quis estender-me a m\u00e3o, o homem que a segurava, reteve-a com for\u00e7a; eu disse-lhe que deixasse, n\u00e3o fazia mal, era um instante. Camila deu-me a m\u00e3o livre, eu dei-lhe a minha. A princ\u00edpio, n\u00e3o tirou os olhos dos meus; mas j\u00e1 ent\u00e3o n\u00e3o ria por eles, tinha-os quietos e apagados. De repente, levou a minha m\u00e3o \u00e0 boca, como se fosse beij\u00e1-la. Tendo libertado a outra (foi tudo r\u00e1pido) segurou a minha com for\u00e7a e cravou-lhe furiosamente os dentes; soltei um grito. A boca ficou-lhe cheia de sangue. Veja; tenho ainda os sinais nestes dois dedos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o me quero demorar neste ponto da minha hist\u00f3ria. Digo-lhe sumariamente que os m\u00e9dicos entenderam necess\u00e1rio recolher Camila ao Hosp\u00edcio de Pedro II. A m\u00e3e morreu quinze dias depois. Eu fui concluir os meus estudos na Europa. Minha irm\u00e3 casou, meu pai n\u00e3o durou muito, minha m\u00e3e acompanhou-o de perto. Pouco tempo depois, minha irm\u00e3 e meu cunhado foram ter comigo. J\u00e1 me acharam n\u00e3o esquecido, mas consolado. Quando tornamos ao Rio de Janeiro passavam quatro anos daqueles acontecimentos. Fomos morar juntos, mas em outro bairro. Nada soubemos de Camila, nem indagamos nada; ao menos eu.<\/p>\n<p>Uma noite, por\u00e9m, andando a passear, aborrecido, come\u00e7ou a chover, e entrei num teatro. N\u00e3o sabia da pe\u00e7a, nem do autor, nem do n\u00famero de atos; o bilheteiro disse-me que ia come\u00e7ar o segundo. Na terceira ou quarta cena, vejo entrar uma mulher, que me abalou todo; pareceu-me Camila. Fazia um papel de ing\u00eanua, creio; entrou lentamente e travou frouxamente um di\u00e1logo com o gal\u00e3. N\u00e3o tinha que ver; era a pr\u00f3pria voz de Camila. Mas, se ela estava no Hosp\u00edcio, como podia achar-se no teatro? Se havia sarado, como se fizera atriz? Era natural que estivesse a costurar, e se alguma coisa lhe restava das casinhas da m\u00e3e&#8230; Perguntei a um vizinho da plat\u00e9ia como se chamava aquela dama.<\/p>\n<p>\u2014 Pl\u00e1cida, respondeu-me.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 ela, pensei; mas refletindo que podia ter mudado de nome, quis saber se estava h\u00e1 muito tempo no teatro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; apareceu aqui h\u00e1 meses. Acho que \u00e9 novata na cena, fala muito arrastado, tem talento.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia ser Camila; mas t\u00e3o depressa achava que n\u00e3o, um gesto da mulher, uma inflex\u00e3o de voz, qualquer coisa me dizia que era ela mesma. No intervalo lembrou-me de ir \u00e0 caixa do teatro. N\u00e3o conhecia ningu\u00e9m, n\u00e3o sabia se era f\u00e1cil entrar desconhecido, cheguei \u00e0 porta de comunica\u00e7\u00e3o e bati. Ningu\u00e9m abriu nem perguntou quem era. Da\u00ed a nada vi sair de dentro um homem, que empurrou simplesmente a porta e deixou-a cair. Puxei a porta e entrei. Fiquei aturdido no meio do movimento; criei \u00e2nimo e perguntei a um empregado se podia falar a D. Pl\u00e1cida. Respondeu-me que provavelmente estava mudando de trajo, mas que fosse com ele. Chegando \u00e0 porta de um camarim, bateu.<\/p>\n<p>\u2014 D. Pl\u00e1cida?<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 aqui um senhor que lhe deseja falar.<\/p>\n<p>\u2014 Que espere!<\/p>\n<p>A voz era dela. O sangue entrou a correr-me acelerado; afastei-me um pouco e esperei. Minutos depois, a porta do camarim abriu-se, saiu uma criada; enfim, a porta escancarou-se, e apareceu a figura de atriz. Aproximei-me, e fizemos teatro no teatro: reconhecemo-nos um ao outro. Entrei no camarim, apertamos as m\u00e3os, e durante algum tempo n\u00e3o pudemos dizer nada. Ela, por baixo do carmim, empalidecera; eu senti-me l\u00edvido. Ouvi apitar; era o contra-regra que mandava subir o pano.<\/p>\n<p>\u2014 Vai subir o pano, disse-me ela com a voz lenta e abafada. Entro na segunda cena. Espera-me?<\/p>\n<p>\u2014 Espero.<\/p>\n<p>\u2014 Venha c\u00e1 para os bastidores.<\/p>\n<p>Falei-lhe ainda duas vezes nos bastidores. Soube na conversa\u00e7\u00e3o onde morava, e que morava s\u00f3. Como a chuva aumentasse e ca\u00edsse agora a jorros, ofereci-lhe o meu carro. Aceitou. Sa\u00ed para alugar um carro de pra\u00e7a; no fim do espet\u00e1culo, mandei que a recebesse \u00e0 porta do teatro, e acompanhei-a dando-lhe o bra\u00e7o, no meio do espanto de atores e empregados. Depois que ela entrou, despedi-me.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, disse ela. Pois h\u00e1 de ir por baixo d\u2019\u00e1gua. Entre tamb\u00e9m, venha deixar-me \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Entrei e partimos. Durante os primeiros instantes, parecia-me delirar.Ap\u00f3s quatro anos de separa\u00e7\u00e3o e aus\u00eancia, quando supunha aquela senhora em outra parte,. eis-me dentro de uma carruagem com ela, duas horas depois de a tornar a ver. A chuva que ca\u00eda forte, o tropel dos cavalos, o rodar da carruagem, e por fim a noite, complicavam a situa\u00e7\u00e3o do meu esp\u00edrito. Cria-me doudo. Vencia a como\u00e7\u00e3o falando, mas as palavras n\u00e3o teriam grande liga\u00e7\u00e3o entre si, nem seriam muitas. N\u00e3o queria falar da m\u00e3e; menos ainda perguntar-lhe pelos acontecimentos que a trouxeram \u00e0 carreira de atriz. Camila \u00e9 que me disse que estivera doente, que perdera a m\u00e3e fora da corte, e que entrara para o teatro por ver um dia uma pe\u00e7a em cena; mas sentia que n\u00e3o tinha voca\u00e7\u00e3o. Ganho a minha vida, concluiu. Ao ouvir esta palavra, apertei-lhe a m\u00e3o cheio de pena; ela apertou a minha e n\u00e3o a soltou mais. Ambas ficaram sobre o joelho dela. Estremeci; n\u00e3o lhe perguntei quem a levara ao teatro, onde vira a pe\u00e7a que a fez fazer-se atriz. Deixei estar a m\u00e3o no joelho. Camila falava lentamente, como em cena; mas a como\u00e7\u00e3o aqui era natural. Perguntou-me pelos meus; disse-lhe o que havia. Quando falei do casamento de minha irm\u00e3, senti que me apertou os dedos; imaginei que era a recorda\u00e7\u00e3o do malogro do nosso. Enfim, chegamos. Fi-la descer, ela entrou depressa no corredor, onde uma preta a esperava.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, disse-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 chovendo muito; por que n\u00e3o toma ch\u00e1 comigo?<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha a menor vontade de ir-me; ao contr\u00e1rio, queria ficar, a todo custo, tal era a ressurrei\u00e7\u00e3o das sensa\u00e7\u00f5es de outrora. Entretanto, n\u00e3o sei que for\u00e7a de respeito me detinha \u00e0 soleira da porta. Disse que sim e que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Suba, suba, replicou ela dando-me o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>A sala era trastejada com simplicidade, antes vizinha da pobreza que da mediania. Camila tirou a capa, e sentou-se no sof\u00e1, ao p\u00e9 de mim. Vista agora, sem o caio nem o carmim do teatro, era uma criatura p\u00e1lida, representando os seus vinte e nove anos, um tanto fatigada, mas ainda bela, e acaso mais cheia de corpo. Abria e fechava um leque desnecess\u00e1rio. \u00c0s vezes apoiava nele o queixo e fitava os olhos no ch\u00e3o, ouvindo-me. Estava comovida, decerto; falava pouco e a medo. A fala e os gestos n\u00e3o eram os de outro tempo, n\u00e3o tinham a volubilidade e a agita\u00e7\u00e3o, que a caracterizavam; dir-se-ia que a l\u00edngua acompanhava de longe o pensamento, ao inv\u00e9s de outrora, em que o pensamento mal emparelhava com a l\u00edngua. N\u00e3o era a minha Camila; era talvez a de outro; mas, que tinha que n\u00e3o fosse a mesma? Assim pensava eu, \u00e0 medida da nossa conversa\u00e7\u00e3o sem assunto. Fal\u00e1vamos de tudo o que n\u00e3o \u00e9ramos, ou nada tinha com a nossa vida de quatro anos passados; mas isso mesmo era disperso, desalinhado, roto, uma palavra aqui, outra ali, sem interesse aparente ou real. De uma vez perguntei-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Espera ficar no teatro muito tempo?<\/p>\n<p>\u2014 Creio que sim, disse ela; ao menos, enquanto n\u00e3o acabar a educa\u00e7\u00e3o de meu sobrinho.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade; deve estar um mocinho.<\/p>\n<p>\u2014 Tem onze anos, vai fazer doze.<\/p>\n<p>\u2014 Mora com a senhora? perguntei depois de um minuto de pausa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; est\u00e1 no col\u00e9gio. J\u00e1 lhe disse que moro s\u00f3. Minha companhia \u00e9 este piano velho, concluiu levantando-se e indo a um canto, onde vi pela primeira vez um pequeno piano, ao p\u00e9 da porta da alcova.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ver se ele \u00e9 seu amigo, disse-lhe.<\/p>\n<p>Camila n\u00e3o hesitou em tocar. Tocou uma pe\u00e7a que acertou de ser a primeira que executara em nossa casa, quatro anos antes. Acaso ou prop\u00f3sito? Custava-me a crer que fosse prop\u00f3sito, e o acaso vinha cheio de mist\u00e9rios. O destino ligava-nos outra vez, por qualquer v\u00ednculo, leg\u00edtimo ou esp\u00fario? Tudo me parecia assim; o noivo antigo dava de si apenas um amante de arriba\u00e7\u00e3o. Tive \u00edmpeto de aproximar-me dela, derrear-lhe a cabe\u00e7a e beij\u00e1-la muito. N\u00e3o teria tempo; a preta veio dizer que o ch\u00e1 estava na mesa.<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe a pobreza da casa, disse ela entrando na sala de jantar. Sabe que nunca fui rica.<\/p>\n<p>Sentamo-nos defronte um do outro. A preta serviu o ch\u00e1 e saiu. Ao comer n\u00e3o havia diferen\u00e7a de outrora, comia devagar; mas isso, e o gesto encolhido, e a fala a modo que amarrada, davam um composto t\u00e3o diverso do que era antigamente, que eu podia am\u00e1-la agora sem pecado. N\u00e3o lhe estou dizendo o que sinto hoje; estou mostrando francamente a voc\u00ea a falta de delicadeza da minha alma. O respeito que me detivera um instante \u00e0 soleira da porta, j\u00e1 me n\u00e3o detinha agora \u00e0 porta da alcova.<\/p>\n<p>\u2014 Em que \u00e9 que pensa? perguntou ela ap\u00f3s certa pausa.<\/p>\n<p>\u2014 Penso em dizer-lhe adeus, respondi estendendo-lhe a m\u00e3o; \u00e9 tarde.<\/p>\n<p>\u2014 Que sinais s\u00e3o estes? perguntou ela olhando-me para os dedos.<\/p>\n<p>Certamente empalideci. Respondi que eram sinais de um golpe antigo. Mirou muito a m\u00e3o; eu cuidei a princ\u00edpio que era um pretexto para n\u00e3o solt\u00e1-la logo; depois ocorreu-me se acaso alguma reminisc\u00eancia vaga emergia dos velhos destro\u00e7os do del\u00edrio.<\/p>\n<p>\u2014 A sua m\u00e3o treme, disse ela, querendo sorrir.<\/p>\n<p>Uma id\u00e9ia traz outra. Saberia ela que estivera louca? Outra depois e mais terr\u00edvel. Essa mulher que conheci t\u00e3o esperta e \u00e1gil, e que agora me aparecia t\u00e3o morta, era o fruto da tristeza da vida e de sucessos que eu ignorava, ou puro efeito do del\u00edrio, que lhe torcera e esgalhara o esp\u00edrito? Ambas as hip\u00f3teses \u2014 a segunda principalmente \u2014 deram-me uma sensa\u00e7\u00e3o complexa, que n\u00e3o sei definir \u2014 pena, repugn\u00e2ncia, pavor. Levantei-me e fitei-a por alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 A chuva ainda n\u00e3o parou, disse ela; voltemos para a sala.<\/p>\n<p>Voltamos para a sala. Tornou ao sof\u00e1 comigo. Quanto mais olhava para ela, mais sentia que era uma aleijada do esp\u00edrito, uma convalescente da loucura&#8230; A minha repugn\u00e2ncia crescia, a pena tamb\u00e9m; ela, fitando-me os olhos que j\u00e1 n\u00e3o sabiam rir, segurou-me a m\u00e3o com ambas as suas; eu levantei-me para sair&#8230;<\/p>\n<p>Isidoro deu uma volta e caiu; uma bala paraguaia varou-lhe o cora\u00e7\u00e3o, estava morto. N\u00e3o se conheceu outro amigo ao alferes. Por muitas semanas o pobre Martinho n\u00e3o disse uma s\u00f3 chala\u00e7a. Em compensa\u00e7\u00e3o, continuou sempre bravo e disciplinado. No dia em que o marechal Caxias, dando novo impulso \u00e0 guerra, marchou para Tuiu-Cu\u00ea, ningu\u00e9m foi mais resoluto que ele, ningu\u00e9m mais certo de acabar capit\u00e3o; acabou major.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \u2014 VOC\u00ca SABE que n\u00e3o tenho pai nem m\u00e3e \u2014 come\u00e7ou a dizer o tenente Isidoro ao alferes Martinho. J\u00e1 lhe disse tamb\u00e9m que estudei na Escola Central. O que n\u00e3o sabe \u00e9 que n\u00e3o foi o simples patriotismo que me trouxe ao Paraguai; tamb\u00e9m n\u00e3o foi ambi\u00e7\u00e3o militar. 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