{"id":118501,"date":"2017-04-05T21:20:34","date_gmt":"2017-04-05T23:20:34","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118501"},"modified":"2017-04-05T21:20:34","modified_gmt":"2017-04-05T23:20:34","slug":"uma-loureira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/uma-loureira","title":{"rendered":"Uma Loureira"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Havia grande agita\u00e7\u00e3o em casa do comendador Nunes, em certa noite de abril de 1860.<\/p>\n<p>N\u00e3o era comendador o sr. Nicolau Nunes, era apenas oficial da Ordem da Rosa, mas todos lhe davam o t\u00edtulo de comendador, e o sr. Nunes n\u00e3o resistia a esta deliciosa falsifica\u00e7\u00e3o. A princ\u00edpio reclamou sorrindo contra a liberdade dos amigos, que desta maneira emendaram a parcim\u00f4nia do governo. Mas os amigos insistiam no tratamento, e at\u00e9 hoje ainda se n\u00e3o descobriu o meio de recusarmos uma coisa que desejamos do fundo d&#8217;alma ser comendador, e quando falou ao seu compadre, o conselheiro F., foi com a mira na comenda. O conselheiro empenhou-se com o ministro, e este apenas consentiu em dar o h\u00e1bito ao sr. Nunes. Gra\u00e7as aos empenhos, p\u00f4de o candidato obter o oficialato.<\/p>\n<p>Era ele um homem de 45 anos, um tanto calvo, bem apessoado, nariz n\u00e3o vulgar, se atendermos no tamanho, mas vulgar\u00edssimo se lhe estudarmos a express\u00e3o. O nariz \u00e9 um livro, at\u00e9 hoje pouco estudado pelos romancistas, que ali\u00e1s se presumem grandes analistas da pessoa humana. Eu, quando vejo algu\u00e9m pela primeira vez, n\u00e3o lhe estudo a boca nem os olhos, nem as m\u00e3os; estudo-lhe o nariz. Mostra-me o nariz, e eu direi quem \u00e9s.<\/p>\n<p>O nariz do comendador Nunes era a coisa mais vulgar deste mundo; n\u00e3o exprimia coisa nenhuma de jeito, nem de eleva\u00e7\u00e3o. Era um promont\u00f3rio, nada mais. E, todavia, o comendador Nunes tirava grande vaidade do nariz, por lhe haver dito um sobrinho que era nariz romano. Havia, \u00e9 verdade, uma corcova no meio da extensa linha nasal do comendador Nunes, e naturalmente foi por zombaria que o sobrinho chamou \u00e0quilo romano. A corcova era um acervo de protuber\u00e2ncias irregulares e imposs\u00edveis. Em suma, podia-se dizer que a cara do comendador Nunes era composta de dois Estados divididos por uma cordilheira extensa.<\/p>\n<p>Fora destas circunst\u00e2ncias nasais, nada havia que dizer da pessoa do comendador Nunes. Era boa figura e boa alma.<\/p>\n<p>Dizer quais eram os seus meios de vida, e o seu passado, importa pouco para a nossa hist\u00f3ria. Basta dizer que se quisesse deixar de trabalhar, j\u00e1 tinha que comer, e deixar aos filhos, e \u00e0 esposa.<\/p>\n<p>A esposa do comendador Nunes era uma rechonchuda senhora de 46 anos, relativamente fresca, pouco amiga de brilhar fora de casa, e toda dada aos cuidados do governo dom\u00e9stico. O seu casamento com o comendador Nunes foi feito contra a vontade do pai, pela raz\u00e3o de que, nesse tempo, Nunes n\u00e3o tinha vint\u00e9m. Mas o pai era boa alma, e apenas soube que o genro ia fazendo fortuna, fez as pazes com a filha. Morreu nos bra\u00e7os de ambos.<\/p>\n<p>Amaram-se muito os dois esposos, e os frutos desse amor foram nada menos de dez filhos, dos quais apenas escaparam tr\u00eas, Lu\u00edsa, Nicolau e Pedrinho.<\/p>\n<p>Nicolau tinha 20 anos, Pedrinho 7, e apesar desta not\u00e1vel diferen\u00e7a de idade n\u00e3o se pode dizer quem tinha mais ju\u00edzo, se Pedrinho, se Nicolau.<\/p>\n<p>Desejoso de o ver em boa posi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, Nunes mandara o filho passar alguns anos na Academia de S\u00e3o Paulo, e realmente ele os passou ali, at\u00e9 obter uma carta de bacharel. O diploma dado ao jovem Nicolau podia fazer crer que ele de fato sabia alguma coisa; mas era completa ilus\u00e3o. Nicolau saiu sabendo pouco mais ou menos o que sabia antes de l\u00e1 entrar.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m era mais versado no esticado das luvas, no talhado da casaca, no apertado da bota, e outras coisas assim, em que Nicolau era mais que bacharel, era doutor de borla e capelo.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa tinha 18 anos, e podia-se dizer que era a flor da fam\u00edlia. Baixinha e delgada, um tanto p\u00e1lida e morena, Lu\u00edsa inspirava facilmente simpatia, e mais do que simpatia a quem a visse pela primeira vez. Vestia bem, mas aborrecia o luxo. Tocava piano, mas aborrecia a m\u00fasica. Alguns caprichos tinha que, \u00e0 primeira vista, poderiam desagradar \u00e0 gente, mas, bem pesadas as coisas, as suas qualidades venciam os caprichos; o que era uma grande compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Feliciana tinha na filha todas as suas esperan\u00e7as de imortalidade. Dizia ela que a sua ascend\u00eancia era uma linha n\u00e3o interrompida de donas-de-casa. Queria que a filha fosse uma digna descendente de t\u00e3o preclaro sangue, e continuasse a tradi\u00e7\u00e3o que recebera. Lu\u00edsa dava esperan\u00e7a disso.<\/p>\n<p>Tal era a fam\u00edlia Nunes.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Como ia dizendo, grande era a agita\u00e7\u00e3o em casa do comendador Nunes em certa noite de abril de 1860.<\/p>\n<p>A causa desta agita\u00e7\u00e3o era nada menos que a apresenta\u00e7\u00e3o de um rapaz, recentemente chegado do Norte, parente remoto dos Nunes e indigitado noivo da menina Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>Chamava-se Alberto o rapaz, e tinha seus 27 anos feitos. A natureza o dotara de uma excelente figura e de um bom cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o escrevi \u00e0 toa estes qualificativos; o cora\u00e7\u00e3o de Alberto era bom, mas a figura era muito melhor.<\/p>\n<p>O pai do candidato escrevera dois meses antes ao comendador Nunes uma carta em que lhe anunciava a vinda do filho, aludia \u00e0s conversas que tiveram ambos os velhos acerca do enlace matrimonial dos pequenos.<\/p>\n<p>O comendador recebeu esta carta logo depois do jantar, e n\u00e3o a leu, porque era regra sua n\u00e3o ler nada depois do jantar, sob pretexto de que lhe perturbaria a digest\u00e3o.<\/p>\n<p>Pedrinho, que tinha tanto ju\u00edzo como o irm\u00e3o bacharel, achou a carta em cima da mesa, f\u00ea-la em peda\u00e7os para arranjar canoas de papel e armar assim uma esquadra dentro de uma bacia. Quando deram por esta travessura tr\u00eas quartas partes da carta j\u00e1 estavam em nada, porque o pequeno vendo que alguns navios n\u00e3o navegavam bem, de todo os destruiu.<\/p>\n<p>Os peda\u00e7os que ficaram eram apenas palavras soltas, e com algum sentido&#8230; mas que sentido! S\u00f3 restavam palavras vagas e terr\u00edveis: teus&#8230; amores&#8230; Lu\u00edsa&#8230; ele&#8230; flor em bot\u00e3o&#8230; lembras-te?<\/p>\n<p>Quando a senhora D. Feliciana leu essas perguntas misteriosas sentiu que o sangue lhe subia todo ao cora\u00e7\u00e3o, e depois \u00e0 cabe\u00e7a; estava iminente um ataque apopl\u00e9tico. Acalmou-se felizmente, mas ningu\u00e9m p\u00f4de estancar-lhe as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Durante o longo tempo de casado nunca a senhora D. Feliciana duvidara uma vez sequer do marido, que ali\u00e1s foi sempre o mais refinado hip\u00f3crita que o diabo mandou a este mundo. Aquele golpe, no fim de tantos anos, foi tremendo. Debalde o comendador Nunes alegava que de fragmentos nenhum sentido se poderia tirar, a esposa ofendida persistia nas recrimina\u00e7\u00f5es e repetia as palavras soltas da carta.<\/p>\n<p>\u2014 Queridinha, disse o comendador, esperemos outra carta, e tu ver\u00e1s a minha inoc\u00eancia mais pura que a de uma crian\u00e7a de ber\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Ingrato!<\/p>\n<p>\u2014 Feliciana!<\/p>\n<p>\u2014 Vai-te, monstro!<\/p>\n<p>\u2014 Mas, minha filha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Flor em bot\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma frase vaga.<\/p>\n<p>\u2014 Teus amores!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Duas palavras soltas; pode ser que ele quisesse dizer. &#8221; J\u00e1 v\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Lembras-te?<\/p>\n<p>\u2014 Que tem isso? Que h\u00e1 nessa palavra que possa encerrar um crime?<\/p>\n<p>\u2014 Ele!<\/p>\n<p>E nisto passaram longas horas e longos dias.<\/p>\n<p>Afinal, Feliciana se foi acalmando com o tempo, e ao cabo de um m\u00eas veio nova carta do pai de Alberto dizendo que impreterivelmente o rapaz estava aqui da\u00ed a um m\u00eas.<\/p>\n<p>Por felicidade do comendador Nunes, o pai do noivo n\u00e3o tinha a musa f\u00e9rtil, e a segunda carta era mais ou menos do mesmo teor da primeira, e a senhora D. Feliciana, j\u00e1 convencida, esqueceu completamente os rigores do marido.<\/p>\n<p>Comunicada a not\u00edcia ao objeto dela, que era a menina Lu\u00edsa, nenhuma obje\u00e7\u00e3o fez esta ao casamento, e disse que estaria por tudo o que o pai quisesse.<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o, disse o comendador, eu n\u00e3o te obrigo a casar com ele. Se gostares do rapaz, ser\u00e1s sua esposa; no caso contr\u00e1rio, f\u00e1-lo-ei voltar com as m\u00e3os abanando.<\/p>\n<p>\u2014 Hei de gostar, respondeu Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>\u2014 Tens algum namoro? perguntou Nunes com alguma hesita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhum.<\/p>\n<p>Suspeitando que podia haver alguma coisa, que a menina n\u00e3o ousaria confiar-lhe, Nunes incumbiu a mulher de sondar o cora\u00e7\u00e3o da pequena.<\/p>\n<p>Revestiu-se a senhora D. Feliciana daquela meiga severidade, que tanto quadrava com o seu car\u00e1ter, e interrogou francamente a filha.<\/p>\n<p>\u2014 Lu\u00edsa, disse ela, eu fui feliz no meu casamento porque amei muito teu pai. S\u00f3 h\u00e1 uma coisa que fa\u00e7a uma noiva feliz, \u00e9 o amor. O que \u00e9 amor, Lu\u00edsa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, mam\u00e3e.<\/p>\n<p>Feliciana suspirou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabes? disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 incr\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>\u2014 E serei eu com os meus quarenta e seis anos, que te ensine o que \u00e9 o amor? Est\u00e1s zombando comigo. Nunca sentiste nada por algum rapaz?<\/p>\n<p>Lu\u00edsa hesitou.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a m\u00e3e, vejo que sentiste j\u00e1<\/p>\n<p>\u2014 Senti uma vez palpitar-me o cora\u00e7\u00e3o, disse Lu\u00edsa, ao ver um rapaz, que logo no dia seguinte me escreveu uma carta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E tu respondeste?<\/p>\n<p>\u2014 Respondi.<\/p>\n<p>\u2014 Desgra\u00e7ada! Nunca se respondem a estas cartas sem ter certeza das inten\u00e7\u00f5es do autor delas. Teu pai&#8230; Mas deixemos isto. Respondeste s\u00f3 uma vez?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Respondi vinte e cinco vezes.<\/p>\n<p>\u2014 Jesus!<\/p>\n<p>\u2014 Mas ele casou com outra, segundo soube depois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed est\u00e1. V\u00ea que imprud\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00f3s trocamos as cartas.<\/p>\n<p>\u2014 Foi s\u00f3 esse, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Depois veio outro&#8230;<\/p>\n<p>D. Feliciana p\u00f4s as m\u00e3os na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 A esse escrevi s\u00f3 quinze.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 quinze! E veio mais outro?<\/p>\n<p>\u2014 Foi o \u00faltimo.<\/p>\n<p>\u2014 Quantas?<\/p>\n<p>\u2014 Trinta e sete.<\/p>\n<p>\u2014 Santo Nome de Jesus!<\/p>\n<p>D. Feliciana estava louca de surpresa. Lu\u00edsa, a muito custo conseguiu acalm\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Mas em suma, disse a boa m\u00e3e, ao menos agora n\u00e3o amas nenhum?<\/p>\n<p>\u2014 Agora nenhum.<\/p>\n<p>D. Feliciana respirou, e foi tranq\u00fcilizar o marido acerca do cora\u00e7\u00e3o da filha. Lu\u00edsa contemplou a m\u00e3e com verdadeiro amor, e foi para o quarto responder \u00e0 quinta carta do alferes Coutinho, amigo \u00edntimo do bacharel Nunes.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>Repito, e agora ser\u00e1 a \u00faltima vez, grande era a agita\u00e7\u00e3o em casa do comendador Nunes nesta noite de abril de 1860.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa j\u00e1 estava vestida de ponto em branco e encostada \u00e0 janela conversava com uma amiga que morava na vizinhan\u00e7a e costumava ir l\u00e1 tomar ch\u00e1 com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>D. Feliciana, tamb\u00e9m preparada, dava as ordens convenientes para que o futuro genro recebesse uma boa impress\u00e3o quando l\u00e1 chegasse.<\/p>\n<p>O comendador Nunes estava fora; o paquete do Norte havia chegado perto das ave-marias, e o comendador foi a bordo receber o viajante. Acompanhava-o Nicolau. Quanto a Pedrinho, travesso como um milh\u00e3o de diabos, ora puxava o vestido da irm\u00e3, ora tocava tambor no chap\u00e9u do Vaz (pai da amiga de Lu\u00edsa), ora surripiava um doce.<\/p>\n<p>O sr. Vaz, a cada travessura do pequeno, ria com aquele riso amarelo de quem n\u00e3o acha gra\u00e7a nenhuma; e por duas vezes esteve tentado a dar-lhe um belisc\u00e3o. Lu\u00edsa n\u00e3o reparava no irm\u00e3o, t\u00e3o entretida estava nas suas confid\u00eancias amorosas com a filha do Vaz.<\/p>\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea est\u00e1 disposta a casar com esse sujeito a quem n\u00e3o conhece? perguntava a filha do Vaz a Lu\u00edsa, encostadas ambas \u00e0 janela.<\/p>\n<p>\u2014 Ora Chiquinha, voc\u00ea parece tola, respondia Lu\u00edsa. Eu disse que casava, mas isso depende das circunst\u00e2ncias. O Coutinho pode roer-me a corda como j\u00e1 roeu \u00e0 Am\u00e9lia, e n\u00e3o \u00e9 bom ficar desprevenida. Al\u00e9m disso, pode ser que o Alberto me agrade mais.<\/p>\n<p>\u2014 Mais do que o Coutinho?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe? Eu gosto de Coutinho, mas estou certa de que ele n\u00e3o \u00e9 a flor de todos os homens. Pode haver outros mais bonitos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso h\u00e1, concordou maliciosamente a Chiquinha.<\/p>\n<p>\u2014 Por exemplo, o Antonico.<\/p>\n<p>Chiquinha fez um sinal afirmativo.<\/p>\n<p>\u2014 Como vai ele?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom. Pediu-me uma tran\u00e7a de cabelos anteontem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim!<\/p>\n<p>\u2014 E eu respondi que depois, quando estivesse mais certa de seu amor.<\/p>\n<p>Neste ponto do di\u00e1logo, o Vaz que estava na sala fungou uma pitada. Lu\u00edsa reparou que era feio deix\u00e1-lo s\u00f3, e sa\u00edram ambas da janela.<\/p>\n<p>Entretanto, a senhora D. Feliciana dera as \u00faltimas ordens e veio para a sala. Bateram sete horas, e o viajante n\u00e3o aparecia. A esposa do comendador Nunes estava ansiosa por ver o genro, e a futura noiva sentia uma coisa que se parecia com a curiosidade. Chiquinha fazia os seus c\u00e1lculos.<\/p>\n<p>\u2014 Se ela n\u00e3o o quiser, pensava esta d\u00f3cil criatura, e se ele me agradar sacrifico o Antonico.<\/p>\n<p>Vinte minutos depois houve um rumor na escada, e D. Feliciana correu ao patamar para receber o candidato.<\/p>\n<p>Entraram efetivamente na sala os tr\u00eas personagens esperados, o Nunes, o filho e Alberto. Todos os olhos se cravaram neste, e durante dois minutos, ningu\u00e9m viu mais ningu\u00e9m na sala.<\/p>\n<p>Alberto compreendeu facilmente que era objeto da aten\u00e7\u00e3o geral, e n\u00e3o se perturbou. Pelo contr\u00e1rio, subiram-lhe \u00e0 cabe\u00e7a uns fumos de soberba, e esta boa impress\u00e3o lhe desatou a l\u00edngua e deu livre curso aos cumprimentos.<\/p>\n<p>Era um rapaz como qualquer outro. Apresentava-se bem, e n\u00e3o falava mal. Nada tinha em suas fei\u00e7\u00f5es que fosse not\u00e1vel, exceto um certo modo de olhar quando algu\u00e9m lhe falava, um certo ar de impaci\u00eancia. Isto mesmo ningu\u00e9m lho notou ent\u00e3o, nem depois naquela casa.<\/p>\n<p>Passaremos por alto as primeiras horas da conversa, que foram empregadas em narrar a viagem, a referir as not\u00edcias que mais ou menos podiam interessar \u00e0s duas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>As 10 horas vieram dizer que o ch\u00e1 estava na mesa, e n\u00e3o era ch\u00e1, e sim uma espl\u00eandida ceia preparada com o esmero dos grandes dias. Alberto deu o bra\u00e7o a D. Feliciana, que j\u00e1 estava cativa das maneiras dele, e todos se encaminharam para a sala de jantar.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o daquelas diferentes pessoas j\u00e1 estava muito modificada; a ceia acabou por estabelecer entre Alberto e os outros uma discreta familiaridade.<\/p>\n<p>Entretanto, apesar da extrema amabilidade do rapaz, parecia que Lu\u00edsa n\u00e3o estava contente. O comendador Nunes sondava com os olhos a fisionomia da filha, e estava inquieto por n\u00e3o ver nela o menor vest\u00edgio de alegria. Feliciana toda enlevada nos modos e palavras de Alberto n\u00e3o dera f\u00e9 daquela circunst\u00e2ncia, ao passo que Chiquinha, descobrindo no rosto de Lu\u00edsa uns sinais de despeito, parecia alegrar-se com isto, e sorrir-lhe a id\u00e9ia de sacrificar desta vez o Antonico.<\/p>\n<p>Reparava nestas coisas o Alberto? N\u00e3o. A preocupa\u00e7\u00e3o principal do candidato, durante a ceia, era a ceia, e nada mais. Outras qualidades podiam faltar ao rapaz, mas uma j\u00e1 lhe notava o pai da Chiquinha: a voracidade.<\/p>\n<p>Alberto era capaz de comer a ra\u00e7\u00e3o de um regimento.<\/p>\n<p>Vaz reparou nesta circunst\u00e2ncia, como j\u00e1 tinha reparado em outras. Nem parece que o pai de Chiquinha viesse a este mundo para outra coisa. Tinha olho fino e l\u00edngua afiada. Ningu\u00e9m podia escapar ao seu terr\u00edvel bin\u00f3culo.<\/p>\n<p>Alberto tinha deixado a mala em um hotel onde alugou sala e quarto. O comendador, n\u00e3o desejando que o rapaz se sacrificasse mais aquela noite, que pedia descanso, pediu a Alberto que n\u00e3o fizesse cerim\u00f4nia, e apenas julgasse que eram horas se fosse embora.<\/p>\n<p>Alberto, entretanto, parecia disposto a n\u00e3o usar t\u00e3o cedo da faculdade que lhe dava Nunes. Am\u00e1vel, conversado e prendado, o nosso Alberto entreteve a fam\u00edlia at\u00e9 muito tarde; mas por fim saiu, com grande pena de D. Feliciana e grande satisfa\u00e7\u00e3o de Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>Por que motivo esta satisfa\u00e7\u00e3o? Tal era a pergunta que a si mesmo fazia o comendador quando Alberto se retirara.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes que mais, Feliciana? disse o Nunes apenas se achou no quarto com a mulher, creio que a rapariga n\u00e3o simpatizou com o Alberto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tirei os olhos dela, e posso afian\u00e7ar que parecia extremamente aborrecida.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser, observou D. Feliciana, mas isso n\u00e3o \u00e9 uma raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Nunes abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Raras vezes se pode vir a gostar de uma pessoa de que se n\u00e3o gostou logo, disse ele sentenciosamente.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! isso n\u00e3o! respondeu logo a mulher, tamb\u00e9m eu quando te vi antipatizei solenemente contigo, e entretanto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas isso \u00e9 raro.<\/p>\n<p>\u2014 Menos do que pensas.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 E contudo este casamento era muito do meu agrado, suspirou o marido.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa estar que eu arranjo tudo.<\/p>\n<p>Com estas palavras de D. Feliciana terminou a conversa.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Qual era a causa da tristeza ou aborrecimento de Lu\u00edsa?<\/p>\n<p>Quem a adivinhou foi Chiquinha. A causa foi um despeito de mo\u00e7a bonita. Alberto era am\u00e1vel demais, am\u00e1vel com todos, olhando para ela com a mesma indiferen\u00e7a com que olhava para as outras pessoas.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa n\u00e3o queria ser olhada assim.<\/p>\n<p>Imaginava ela que um rapaz, que fizera uma viagem para vir apresentar-se candidato \u00e0 sua m\u00e3o; devia prestar-lhe alguma homenagem, em vez de a tratar com a mesma delicadeza que dispensava aos outros.<\/p>\n<p>No dia seguinte estas impress\u00f5es de Lu\u00edsa estavam mais dissipadas. O sono foi a causa disso, e tamb\u00e9m a reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez que ele n\u00e3o ousasse&#8230; pensava ela.<\/p>\n<p>E esperou que ele l\u00e1 fosse nesse dia.<\/p>\n<p>Pouco depois do almo\u00e7o recebeu Lu\u00edsa uma carta do alferes Coutinho. O namorado j\u00e1 tinha not\u00edcia do pretendente, e escrevera a ep\u00edstola meia lacrimosa, meia amea\u00e7adora. Era not\u00e1vel o seguinte per\u00edodo:<\/p>\n<p>&#8230;.. Podes, mulher ingrata, calcar a teus p\u00e9s o meu cora\u00e7\u00e3o, cujo crime foi amar-te com todas as suas for\u00e7as, e palpitar por ti a todas as horas!&#8230; Mas o que tu n\u00e3o podes, o que ningu\u00e9m poderia nem Deus, \u00e9 fazer com que eu te n\u00e3o ame agora e sempre, e at\u00e9 debaixo da fria campa!&#8230; E um amor destes merece desprezo, Lu\u00edsa?&#8230;<\/p>\n<p>A ep\u00edstola do alferes impressionou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Este ama-me, pensava ela, e o outro!&#8230;<\/p>\n<p>O outro chegou pouco depois, j\u00e1 reformado na roupa, j\u00e1 mais cortes\u00e3o com a mo\u00e7a. Um quarto de hora bastou para que Lu\u00edsa modificasse a sua opini\u00e3o a respeito do rapaz.<\/p>\n<p>Alberto aproveitou as liberdades que lhe davam com ela para lhe dizer que a achava mais bela do que a sua imagina\u00e7\u00e3o sonhara.<\/p>\n<p>\u2014 E de ordin\u00e1rio, acrescentou ele, a nossa imagina\u00e7\u00e3o nos ilude. Se desta vez estive abaixo da realidade, a causa disto \u00e9 que a sua beleza est\u00e1 al\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Neste sentido fez o noivo um discurso obscuro, oco e mal alinhavado, que ela ouviu com del\u00edcias.<\/p>\n<p>\u2014 Veio de t\u00e3o longe para zombar de mim? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Zombar! disse Alberto ficando s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! perd\u00e3o, disse ela, eu n\u00e3o queria ofend\u00ea-lo; mas creio que isso s\u00f3 por zombaria se poderia dizer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! nunca! exclamou Alberto apertando docemente a m\u00e3o de Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>O comendador surpreendeu esta cena, e a sua alegria n\u00e3o conheceu limites. Todavia era conveniente dissimul\u00e1-la, e assim o fez.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo caminha bem, dizia ele consigo. O rapaz n\u00e3o \u00e9 peco.<\/p>\n<p>E n\u00e3o era. Nessa mesma tarde perguntou ele a Lu\u00edsa se queria aceit\u00e1-lo por esposo. A mo\u00e7a n\u00e3o contava com esta pergunta \u00e0 queima-roupa e n\u00e3o soube que lhe responder.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quer? perguntou o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o disse isso.<\/p>\n<p>\u2014 Mas responda.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 com meu pai.<\/p>\n<p>\u2014 Com seu pai? perguntou Alberto espantado; mas ele governa ent\u00e3o o seu cora\u00e7\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00edsa nada respondeu, nem podia responder. Houve um longo sil\u00eancio; Alberto foi o primeiro que falou.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, disse ele; que me responde?<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-me refletir.<\/p>\n<p>Alberto fez uma careta.<\/p>\n<p>\u2014 Refletir? perguntou ele. Mas o amor \u00e9 uma coisa e a reflex\u00e3o \u00e9 outra.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, respondeu a mo\u00e7a; e neste caso, deixe que eu o ame.<\/p>\n<p>N\u00e3o contando com esta resposta, Alberto empalideceu, e viu bem que era uma esp\u00e9cie de castigo que ela queria dar-lhe por causa da sua intempestiva reflex\u00e3o. Pareceu-lhe que fora esquisito falar de amor a uma mo\u00e7a a quem via pela primeira vez.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa n\u00e3o se arrependeu da pequena li\u00e7\u00e3o dada ao pretendente, e pareceu-lhe conveniente conserv\u00e1-lo na incerteza durante alguns dias, a fim de o castigar ainda mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o contava ela por\u00e9m com o golpe que lhe preparava o alferes Coutinho.<\/p>\n<p>J\u00e1 sabemos que este alferes era \u00edntimo amigo de Nicolau. V\u00e1rias vezes o filho de Nunes o convidara para ir \u00e0 casa do pai; mas Coutinho sempre recusara o convite delicadamente, e parece que o fazia justamente para se n\u00e3o aproximar de Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>Como?<\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Na opini\u00e3o de Coutinho, o amor n\u00e3o vive s\u00f3 de mist\u00e9rio, vive tamb\u00e9m de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A m\u00e1xima poderia ser excelente, mas no caso atual n\u00e3o prestava para nada. Coutinho compreendeu isto perfeitamente, e com destreza conseguiu ser convidado nessa noite por Nicolau para l\u00e1 ir.<\/p>\n<p>De maneira que, no meio de seus devaneios po\u00e9ticos, ouvindo as narra\u00e7\u00f5es que Alberto fazia diante da fam\u00edlia encantada com o narrador, Lu\u00edsa viu assomar \u00e0 porta a figura do irm\u00e3o e a do alferes.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa reteve um grito.<\/p>\n<p>Nicolau apresentou o amigo a toda a fam\u00edlia, e a conversa um pouco esfriou com a chegada do novo personagem; mas n\u00e3o tardou que continuasse no mesmo tom.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa n\u00e3o ousava olhar para um nem para outro. Alberto nada percebeu nos primeiros momentos; mas Coutinho tinha os olhos cravados nela com tanta insist\u00eancia, que era imposs\u00edvel n\u00e3o ver nele, sen\u00e3o um rival feliz, ao menos um pretendente resoluto.<\/p>\n<p>\u2014 Veremos! disse ele consigo.<\/p>\n<p>\u2014 Quem vencer\u00e1? perguntava a si mesmo o alferes Coutinho olhando a furto para o candidato do Norte.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Ao passo que o Nunes e D. Feliciana se davam por felizes julgando bem encaminhadas as coisas, e Chiquinha premeditava trocar o Antonico pelo Alberto, uma luta se tratava no esp\u00edrito de Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>Uma luta neste caso era j\u00e1 probabilidade de vit\u00f3ria para Alberto, visto que o outro era o namorado antigo, aceito e amado. O cora\u00e7\u00e3o de Lu\u00edsa parecia feito para estas situa\u00e7\u00f5es d\u00fabias em que a vaidade de mo\u00e7a toma as fei\u00e7\u00f5es do amor, com tanta habilidade que ilude os mais.<\/p>\n<p>Alberto tinha qualidades brilhantes, ainda que n\u00e3o s\u00f3lidas; mas Coutinho era j\u00e1 o namorado aceito, e sempre deixava saudades.<\/p>\n<p>Demais Alberto era um bom casamento, mas a mo\u00e7a sentia que ele queria domin\u00e1-la depois, e j\u00e1 pressentia nele alguns sintomas de vontade imperiosa; ao passo que o alferes, exceto alguns rompantes sem conseq\u00fc\u00eancia, era um verdadeiro paz d&#8217; senhor vem ter comigo, declara que ama D. Lu\u00edsa e prop\u00f5e que um de n\u00f3s ceda o campo ao outro. Claro \u00e9 que sou eu o condenado a ceder.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor n\u00e3o me deixou acabar, observou Alberto.<\/p>\n<p>\u2014 Acabe.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o desejo que um de n\u00f3s se resolva desde j\u00e1 a deixar o campo; o que eu proponho \u00e9 que cada um de n\u00f3s procure saber se tem elementos para se fazer eleger noivo da mo\u00e7a de que se trata. Isto s\u00f3 pode saber apresentando cada um de n\u00f3s o seu ultimatum. Ela escolher\u00e1 em conformidade do seu cora\u00e7\u00e3o e o vencido retirar-se-\u00e1 para as tendas.<\/p>\n<p>Leitor desconfiado, n\u00e3o digas que isto \u00e9 imposs\u00edvel; eu estou contando um fato aut\u00eantico; e posto n\u00e3o esteja isto de acordo com as regras da arte, eu conto o caso, como o caso foi.<\/p>\n<p>Coutinho fez algumas obje\u00e7\u00f5es \u00e0 proposta do rival. Alegou a primeira raz\u00e3o de todas, a singularidade da situa\u00e7\u00e3o que se ia criar entre ambos a respeito de uma mo\u00e7a, que ambos deviam respeitar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o esque\u00e7amos que ela tem alguma coisa, disse ele, e isto pode parecer um jogo em que o ganho consiste precisamente no dote de D. Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m tenho alguma coisa, respondeu Alberto com altivez.<\/p>\n<p>\u2014 Bem sei, disse Coutinho, mas eu n\u00e3o tenho nada, e a meu respeito a obje\u00e7\u00e3o fica de p\u00e9. Espero que me acredite que eu neste neg\u00f3cio n\u00e3o tenho em mim os bens daquele anjo, e que s\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o me arrasta sabe Deus a que drama \u00edntimo!<\/p>\n<p>Se Alberto fosse mais penetrante, ou Coutinho menos dissimulado, descobrir-se-ia que este pretexto de Coutinho era mais teatral que verdadeiro. Amava sem d\u00favida a mo\u00e7a, mas n\u00e3o a amaria talvez se n\u00e3o tivesse nada de seu.<\/p>\n<p>Coutinho exp\u00f4s ainda outras obje\u00e7\u00f5es que a seu ver eram valiosas, mas todas as desfez Alberto com algumas raz\u00f5es suas, e ao cabo de duas horas ficou assentado que os dois campe\u00f5es mediriam as suas for\u00e7as e procurariam obter de D. Lu\u00edsa a resposta decisiva. O preferido comunicaria logo ao outro o resultado da campanha, e o outro abateria as armas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que prazo lhe parece melhor? perguntou Alberto.<\/p>\n<p>\u2014 Quinze dias, respondeu Coutinho.<\/p>\n<p>Despediram-se.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>O comendador Nunes estava ansioso por falar \u00e0 filha e resolver a crise por um meio violento; mas Alberto fez com que ele prometesse neutralidade.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe que eu arranjo tudo, disse o candidato do Norte.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fie-se em mim. Disse alguma coisa \u00e0 senhora D. Feliciana?<\/p>\n<p>\u2014 Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o conv\u00e9m que ela saiba nada.<\/p>\n<p>Entraram os dois campe\u00f5es na luta suprema. As condi\u00e7\u00f5es eram aparentemente diversas, mas bem apreciadas eram iguais. Se Coutinho n\u00e3o ia l\u00e1 com tanta freq\u00fc\u00eancia, em compensa\u00e7\u00e3o era o candidato para quem ela mais pendia; se Alberto tinha a facilidade de lhe falar mais vezes e estar mais assiduamente com ela, em compensa\u00e7\u00e3o era o menos aceito dos dois.<\/p>\n<p>Coutinho tinha o recurso das cartas, e entrou a usar dele com todas as for\u00e7as. Nunca o vocabul\u00e1rio de Cupido subiu a maior grau de calor e entusiasmo; Coutinho empregava todas as tintas da palheta: o cor-de-rosa da felicidade conjugal, o sombrio e negro dos desesperos, o sang\u00fc\u00edneo das revolu\u00e7\u00f5es \u00faltimas; tudo fez o seu papel nas ep\u00edstolas do pretendente fluminense.<\/p>\n<p>Alberto compreendeu que a ep\u00edstola devia acompanhar os seus meios de campanha, e usou dela com descomunal liberalidade.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa ignorava todas as circunst\u00e2ncias acima referidas, e o redobrar de esfor\u00e7os da parte dos dois candidatos n\u00e3o fez mais do que alimentar-lhe a natural vaidade de mo\u00e7a bonita.<\/p>\n<p>Entretanto, veio uma carta do pai de Alberto instante por uma resolu\u00e7\u00e3o definitiva; Alberto resolveu dar o grande golpe e dirigiu-se \u00e0 esquiva mo\u00e7a<\/p>\n<p>\u2014 D. Lu\u00edsa, lhe disse ele, j\u00e1 sabe que eu ardo, que eu sinto dentro de mim um terr\u00edvel fogo que me h\u00e1 de consumir.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ou\u00e7a-me. Era meu interesse conservar as ilus\u00f5es em vez de me expor a um desengano certo; mas h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o comportam d\u00favidas; eu prefiro uma cruel franqueza; farei depois o que me inspirar o desespero.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa sorria-se sem dizer palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Zomba comigo, j\u00e1 vejo, disse melancolicamente Alberto.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o fale!<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem&#8230;<\/p>\n<p>Hesitou.<\/p>\n<p>\u2014 Diga, ama-me? instou Alberto.<\/p>\n<p>\u2014 Amo, respondeu Lu\u00edsa deitando a fugir.<\/p>\n<p>O para\u00edso de Maom\u00e9, com todas as del\u00edcias prometidas no Alcor\u00e3o, n\u00e3o chega aos p\u00e9s da felicidade que a simples resposta da mo\u00e7a introduziu na alma do pobre candidato.<\/p>\n<p>Alberto saiu para a rua.<\/p>\n<p>Precisava de ar.<\/p>\n<p>De tarde foi ter com o rival.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim! disse ele ao entrar.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1? perguntou Coutinho tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo est\u00e1 decidido, respondeu Alberto.<\/p>\n<p>\u2014 Derrota?<\/p>\n<p>\u2014 Vit\u00f3ria! Perguntei-lhe se me amava; disse-me claramente que sim. N\u00e3o pode imaginar o prazer que eu senti quando ouvi de seus l\u00e1bios a mais doce palavra que os homens inventaram.<\/p>\n<p>\u2014 Imagino tanto mais esse prazer, redarg\u00fciu fleugmaticamente o Coutinho, quanto que eu mesmo ouvi essa palavra a meu respeito.<\/p>\n<p>Alberto enfiou.<\/p>\n<p>\u2014 Quando?<\/p>\n<p>\u2014 Ontem de noite.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel! clamou Alberto furioso.<\/p>\n<p>\u2014 E j\u00e1 depois disso, continuou Coutinho finamente, recebi esta carta que \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o do que ontem lhe ouvi.<\/p>\n<p>Dizendo isto apresentou a Alberto uma carta de Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>\u2014 De maneira que&#8230; balbuciou Alberto.<\/p>\n<p>\u2014 De maneira que, concluiu Coutinho, estamos na situa\u00e7\u00e3o em que nos achamos antes.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, eu teria deixado o campo se n\u00e3o me parecesse covardia, e se n\u00e3o sofresse horrivelmente com a separa\u00e7\u00e3o, porque eu amo-a com todas as for\u00e7as de minha alma.<\/p>\n<p>\u2014 Como eu, disse Coutinho.<\/p>\n<p>\u2014 Que faremos? perguntou Alberto depois de uma pausa.<\/p>\n<p>\u2014 Insistir.<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 Cada um de n\u00f3s lhe perguntar\u00e1 se ela quer casar e nos escolhe para noivo. A isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que ela d\u00ea a mesma resposta a ambos; h\u00e1 de decidir-se por um.<\/p>\n<p>Dando este conselho, Coutinho procedia velhacamente porque justamente alguns minutos antes de entrar Alberto tinha mandado uma carta \u00e0 mo\u00e7a perguntando se podia ir pedir-lhe a m\u00e3o ao pai, e esperava que a resposta chegasse logo e pusesse termo ao conflito.<\/p>\n<p>Mas a resposta n\u00e3o veio.<\/p>\n<p>Ficou convencionado que dentro de oito dias tudo estaria resolvido, e um deles seria o vencedor.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa disse \u00e0 noite ao Coutinho que n\u00e3o mandara resposta \u00e0 carta por n\u00e3o ter podido escrever.<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e anda muito desconfiada, disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, mas que me responde agora? perguntou Coutinho.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! deixe-me escrever, disse a mo\u00e7a, eu quero dizer-lhe tudo o que sinto&#8230; espere, sim?<\/p>\n<p>Coutinho declarou que esperava.<\/p>\n<p>\u2014 Contudo&#8230; disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Se n\u00e3o fosse agrad\u00e1vel a resposta, se n\u00e3o fosse a vida que eu espero e me \u00e9 necess\u00e1ria?<\/p>\n<p>Isto era ver se obtinha logo a resposta.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seja desanimado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, mam\u00e3e que est\u00e1 com os olhos em mim.<\/p>\n<p>Oito dias se passaram nestas d\u00favidas at\u00e9 que os dois candidatos, por comum acordo, mandaram uma carta \u00e0 mo\u00e7a, um verdadeiro ultimatum.<\/p>\n<p>Era uma sexta-feira, dia aziago, e al\u00e9m disso 13 do m\u00eas. Os m\u00edseros pretendentes n\u00e3o repararam nisso, e atreveram-se a lutar com a fortuna em dia de tamanha desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Coutinho foi ent\u00e3o \u00e0 casa de Alberto.<\/p>\n<p>\u2014 Mandei a minha carta, disse o fluminense.<\/p>\n<p>\u2014 E eu a minha.<\/p>\n<p>\u2014 Esperemos a resposta.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe parece? perguntou Alberto.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me&#8230; N\u00e3o sei que me h\u00e1 de parecer, respondeu o Coutinho; eu tenho todas as provas de ela me amar loucamente.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto n\u00e3o digo eu, observou Alberto; loucamente n\u00e3o creio que me ame, mas cuido que sou amado.<\/p>\n<p>O fim evidente de cada um destes personagens era assustar o advers\u00e1rio, caso este ficasse vitorioso. Entraram a alegar cartas apaixonadas, flores, tran\u00e7as de cabelo, e o Coutinho chegou at\u00e9 a confessar um beijo na m\u00e3o.<\/p>\n<p>De repente abre-se a porta.<\/p>\n<p>Entra o comendador Nunes p\u00e1lido e tr\u00eamulo.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto? disseram os dois.<\/p>\n<p>Nunes deixou-se cair em uma cadeira, e com a voz tr\u00eamula e o olhar desvairado, confessou a sua desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa fugira com o primo!<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo I Havia grande agita\u00e7\u00e3o em casa do comendador Nunes, em certa noite de abril de 1860. N\u00e3o era comendador o sr. Nicolau Nunes, era apenas oficial da Ordem da Rosa, mas todos lhe davam o t\u00edtulo de comendador, e o sr. Nunes n\u00e3o resistia a esta deliciosa falsifica\u00e7\u00e3o. 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