{"id":118497,"date":"2017-04-05T21:15:25","date_gmt":"2017-04-05T23:15:25","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118497"},"modified":"2017-04-05T21:15:25","modified_gmt":"2017-04-05T23:15:25","slug":"uma-aguia-sem-asas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/uma-aguia-sem-asas","title":{"rendered":"Uma \u00e1guia sem asas"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Era uma tarde de agosto. Ca\u00eda o sol, e soprava um vento fresco e brando, como para compensar o dia, que estivera extremamente calmoso. A noite prometia ser excelente.<\/p>\n<p>Se a leitora quer ir comigo ao Rio Comprido, entraremos juntos na ch\u00e1cara do sr. James Hope, comerciante ingl\u00eas desta pra\u00e7a, como se diz em linguagem t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>James Hope viera para o Brasil em 1830, com pouco mais de 20 anos, e come\u00e7ou imediatamente uma brilhante carreira comercial. Casou pouco depois com a filha de um compatriota, j\u00e1 nascida aqui, e mais tarde fez-se cidad\u00e3o brasileiro, n\u00e3o s\u00f3 no papel, como no cora\u00e7\u00e3o. Do seu matrim\u00f4nio, teve Carlos Hope, que seguia a carreira do pai, e contava 26 anos ao tempo em que come\u00e7a este romance e uma filha, que recebeu o nome de Sara e tinha 22 anos.<\/p>\n<p>Sara Hope era solteira. Por qu\u00ea? A sua beleza era incontest\u00e1vel; reunia a gra\u00e7a brasileira \u00e0 gravidade brit\u00e2nica, e em tudo parecia destinada a dominar os homens; a voz, o olhar, as maneiras, tudo possu\u00eda um misterioso cond\u00e3o fascinador. Al\u00e9m disto, era rica e ocupava uma invej\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o na sociedade. Dizia-se \u00e0 boca pequena que algumas paix\u00f5es havia j\u00e1 inspirado a interessante mo\u00e7a; mas n\u00e3o constava que ela as houvesse tido em sua vida.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Esta pergunta todos a faziam, at\u00e9 o pai que, apesar de robusto e sadio, previa algum acontecimento que viesse a deixar a fam\u00edlia sem chefe, e desejava ver casada a sua querida Sara.<\/p>\n<p>Na tarde em que come\u00e7a esta narrativa, estavam todos assentados no jardim, em companhia de mais tr\u00eas rapazes da cidade que tinham ido jantar em casa de James Hope. Dispensem-me de lhes pintar as visitas do velho comerciante. Bastar\u00e1 dizer que um deles, o mais alto, era advogado principiante, dispondo de algum dinheiro do pai; chamava-se Jorge; o segundo, cujo nome era Mateus, era comerciante, s\u00f3cio de um tio que dirigia uma grande casa; o mais baixo n\u00e3o era coisa nenhuma, tinha algum pec\u00falio, e chamava-se Andrade. Estudara medicina, mas n\u00e3o tratava doentes, por gl\u00f3ria da ci\u00eancia e sossego da humanidade.<\/p>\n<p>James Hope estava extremamente alegre e bem disposto, e todos os mais pareciam gozar o mesmo beat\u00edfico estado. Quem entrasse subitamente no jardim, sem ser pressentido, podia descobrir que os tr\u00eas rapazes procuravam obter as boas gra\u00e7as de Sara, t\u00e3o visivelmente que, n\u00e3o s\u00f3 os pais da mo\u00e7a o percebiam, mas at\u00e9 n\u00e3o podiam encobrir eles mesmos, uns aos outros, as suas pretens\u00f5es.<\/p>\n<p>Se isto era assim, escusado \u00e9 dizer que a mesma Sara conhecia o jogo dos tr\u00eas rapazes, porque em geral a mulher sabe que \u00e9 amada por um homem, antes mesmo que ele o perceba.<\/p>\n<p>Longe de parecer incomodada com o fogo dos tr\u00eas ex\u00e9rcitos, Sara os tratava com tanta bondade e gra\u00e7a que parecia indicar uma criatura coquette e fr\u00edvola. Mas quem atentasse alguns minutos, conheceria que ela era mais ir\u00f4nica que sincera, e, por isso mesmo que os igualava, os desprezava a todos.<\/p>\n<p>James Hope acabava de contar uma anedota da sua mocidade, ocorrida em Inglaterra. A anedota era interessante, e o James sabia narrar, talento dif\u00edcil e raro. Entusiasmado com os v\u00e1rios pormenores de costumes ingleses a que James Hope teve de aludir, o advogado manifestou o grande desejo que nutria de ver a Inglaterra, e em geral o desejo de viajar toda a Europa.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de gostar, disse Hope. As viagens deleitam muito; e al\u00e9m disso, nunca devemos desprezar as coisas estranhas. Eu iria de boa vontade \u00e0 Inglaterra, durante alguns meses, mas creio que j\u00e1 n\u00e3o posso viver sem o nosso Brasil.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que me acontece, acudiu Andrade; acredito que l\u00e1 fora haja muita coisa melhor do que c\u00e1; mas n\u00f3s aqui temos coisas melhores do que l\u00e1. Umas compensam as outras; e por isso n\u00e3o valeria a pena de uma viagem.<\/p>\n<p>Mateus e Jorge n\u00e3o foram absolutamente desta id\u00e9ia. Ambos protestaram que dariam algum dia um pulo ao velho mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que n\u00e3o faz isso que diz, sr. Hope? perguntou Mateus. Ningu\u00e9m melhor do que o senhor pode realizar esse desejo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas h\u00e1 um obst\u00e1culo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou eu, acudiu rindo Carlos Hope.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9s tu, disse o pai, \u00e9 Sara.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disseram os rapazes.<\/p>\n<p>\u2014 Eu, meu pai? perguntou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas vezes tenho tentado a viagem, mas Sara op\u00f5e sempre algumas raz\u00f5es, e n\u00e3o vou. Creio que descobri a causa da resist\u00eancia dela.<\/p>\n<p>\u2014 E qual \u00e9? perguntou Sara, rindo.<\/p>\n<p>\u2014 Sara tem medo do mar.<\/p>\n<p>\u2014 Medo! exclamou a mo\u00e7a, franzindo as sobrancelhas.<\/p>\n<p>O tom com que ela proferiu esta simples exclama\u00e7\u00e3o impressionou o audit\u00f3rio. Bastava aquilo para pintar um car\u00e1ter. Houve alguns segundos de sil\u00eancio, durante os quais contemplavam a bela Sara, cujo rosto pouco a pouco readquiriu a calma habitual.<\/p>\n<p>\u2014 Ofendi-te, Sara? perguntou James.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! isso n\u00e3o se diz, meu pai! exclamou a mo\u00e7a com todas as harmonias de sua voz. N\u00e3o podia haver ofensa; houve apenas uma tal ou qual impress\u00e3o de espanto, quando ouvi falar de medo. Meu pai sabe que eu n\u00e3o tenho medo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sei que n\u00e3o, e j\u00e1 me deste provas disso; mas uma criatura pode ser valorosa e ter medo ao mar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o \u00e9 esse o meu caso, interrompeu Sara; se lhe dei algumas raz\u00f5es, \u00e9 porque me pareceram aceit\u00e1veis&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pela minha parte, interrompeu Andrade, penso que foi um erro que o sr. Hope aceitasse tais raz\u00f5es. Era conveniente, e mais do que conveniente, era indispens\u00e1vel, que a Inglaterra visse que flores pode dar uma planta sua, quando transplantada \u00e0s regi\u00f5es americanas. Miss Hope seria l\u00e1 o mais brilhante s\u00edmbolo desta alian\u00e7a de duas ra\u00e7as vivaces&#8230;<\/p>\n<p>Miss Hope sorriu ouvindo este cumprimento, e a conversa tomou diverso caminho.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Nessa mesma noite, foram os tr\u00eas rapazes cear no Hotel Proven\u00e7aux, depois de terem passado duas horas no Gin\u00e1sio. Havia j\u00e1 dois ou tr\u00eas meses que andavam naquela campanha sem se comunicarem uns aos outros as impress\u00f5es ou as esperan\u00e7as que tinham. Estas, por\u00e9m, se alguma vez as tiveram, come\u00e7avam a diminuir, pelo que n\u00e3o tardaria muito que os tr\u00eas pretendentes se abrissem francamente e dissessem todas as suas id\u00e9ias a respeito de Sara.<\/p>\n<p>Aquela noite foi tacitamente escolhida pelos tr\u00eas para as confid\u00eancias rec\u00edprocas. Estavam numa sala particular, onde ningu\u00e9m os perturbaria. As revela\u00e7\u00f5es come\u00e7aram por alus\u00f5es vagas, mas n\u00e3o tardou que assumissem um ar de franqueza.<\/p>\n<p>\u2014 Por que negaremos a verdade? disse Mateus, depois de alguns remoques rec\u00edprocos; todos tr\u00eas gostamos dela; \u00e9 clar\u00edssimo. E o que tamb\u00e9m me parece claro \u00e9 que ela ainda n\u00e3o se manifestou por nenhum.<\/p>\n<p>\u2014 Nem se manifestar\u00e1, respondeu Jorge.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Porque \u00e9 uma namoradeira e nada mais; gosta que lhe fa\u00e7am a corte, e n\u00e3o passa disso. \u00c9 uma mulher de gelo. Que te parece, Andrade?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o concordo contigo, acudiu este. N\u00e3o me parece namoradeira. Pelo contr\u00e1rio, cuido que \u00e9 uma mulher superior, e que&#8230;<\/p>\n<p>Estacou. Entrou nesse momento um criado trazendo umas costeletas pedidas. Quando o criado saiu, os outros dois rapazes insistiram para que Andrade conclu\u00edsse o pensamento.<\/p>\n<p>\u2014 E qu\u00ea? disseram eles.<\/p>\n<p>Andrade n\u00e3o deu resposta.<\/p>\n<p>\u2014 Conclui a tua id\u00e9ia, Andrade, insistiu Mateus.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que ela ainda n\u00e3o encontrou um homem como imagina, explicou Andrade. \u00c9 romanesca, e s\u00f3 se casar\u00e1 com algu\u00e9m que lhe realize um tipo ideal; toda a quest\u00e3o \u00e9 saber que tipo \u00e9 esse; porque, desde que o soub\u00e9ssemos, tudo estava decidido. Cada um de n\u00f3s procuraria ser a reprodu\u00e7\u00e3o material dessa idealidade desconhecida&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Talvez tenhas raz\u00e3o, observou Jorge; bem pode ser isso; mas, nesse caso, estamos n\u00f3s em pleno romance.<\/p>\n<p>\u2014 Sem nenhuma d\u00favida.<\/p>\n<p>Mateus discordou dos outros.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o seja assim, disse ele; o Andrade ter\u00e1 raz\u00e3o em parte. Creio que o meio de lhe vencer a esquivan\u00e7a \u00e9 corresponder, n\u00e3o a um tipo ideal, mas a um sentimento pr\u00f3prio, a um tra\u00e7o de car\u00e1ter, a uma express\u00e3o de temperamento. Neste caso, o vencedor ser\u00e1 aquele que melhor disser com o g\u00eanio dela. Por outras palavras, cumpre saber se ela quer ser amada por um poeta, se por um homem de ci\u00eancia, etc.<\/p>\n<p>\u2014 Isso ainda pior, observou Andrade.<\/p>\n<p>\u2014 Pior ser\u00e1, creio, mas grande vantagem \u00e9 sab\u00ea-lo. Que lhes parece a minha opini\u00e3o?<\/p>\n<p>Concordaram os dois com esta opini\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ora bem, continuou Mateus, pois que assentamos nisto, sejamos francos. Se algum de n\u00f3s sente uma paix\u00e3o exclusiva por ela, deve diz\u00ea-lo; a verdade antes de tudo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Paix\u00f5es, respondeu Jorge, eu j\u00e1 as conheci; amei aos 16 anos. Hoje, tenho o cora\u00e7\u00e3o frio como uma lauda das Ordena\u00e7\u00f5es. Desejo casar para descansar, e se h\u00e1 de ser com uma mulher vulgar, melhor \u00e9 que seja com uma formosa e inteligente criatura&#8230; Isto quer dizer que nenhum \u00f3dio votarei \u00e0quele que for mais feliz do que eu.<\/p>\n<p>\u2014 Minha id\u00e9ia \u00e9 outra, disse Andrade: caso por curiosidade. Uns dizem que o casamento \u00e9 delicioso, outros que aborrecido; e todavia os casamentos n\u00e3o acabam nunca. Tenho curiosidade de saber se \u00e9 mau ou bom. O Mateus \u00e9 que me parece verdadeiramente apaixonado.<\/p>\n<p>\u2014 Eu? disse Mateus deitando vinho no c\u00e1lice; nem por sombras. Confesso, por\u00e9m, que lhe tenho alguma simpatia e certa coisa a que chamamos adora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso&#8230; disseram os dois.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! continuou Mateus. Nada disto \u00e9 amor, pelo menos amor como eu imagino&#8230;<\/p>\n<p>Dizendo isto, bebeu de um trago o c\u00e1lice de vinho.<\/p>\n<p>\u2014 Estamos pois concordes, disse ele. Cada um de n\u00f3s deve estudar o car\u00e1ter de Sara Hope, e aquele que atinar com as suas prefer\u00eancias ser\u00e1 o feliz&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fazemos um steeple-chase, disse Andrade.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fazemos s\u00f3 isto, observou Mateus; ganhamos tempo e n\u00e3o nos prejudicamos uns aos outros. Aquele que se julgar vencedor, declare-o logo; e os outros deixar\u00e3o o campo livre. Assim entendidos, conservaremos a nossa rec\u00edproca estima.<\/p>\n<p>Concordes neste plano, os nossos rapazes gastaram o resto da noite em assuntos diferentes, at\u00e9 que cada um se foi para casa, disposto a morrer ou vencer.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>Algum leitor achar\u00e1 este pacto romanesco demais, e um pouco fora dos nossos costumes. Todavia, o fato \u00e9 verdadeiro. N\u00e3o direi quem mo referiu, porque n\u00e3o quero fazer mal a um cidad\u00e3o honrado.<\/p>\n<p>Celebrado o pacto, cada um dos nossos her\u00f3is procurou descobrir o ponto vulner\u00e1vel de Sara.<\/p>\n<p>Jorge foi o primeiro que sup\u00f4s t\u00ea-lo descoberto. Miss Hope lia muito e era entusiasta dos grandes nomes liter\u00e1rios da \u00e9poca. Quase se pode dizer que nenhum livro, mais ou menos falado, lhe era desconhecido. E n\u00e3o s\u00f3 lia, discutia, criticava, analisava, exceto as obras po\u00e9ticas.<\/p>\n<p>\u2014 A poesia, dizia ela, n\u00e3o se analisa, sente-se ou esquece-se.<\/p>\n<p>Seria esse o ponto vulner\u00e1vel da mo\u00e7a?<\/p>\n<p>Jorge procurou sab\u00ea-lo e n\u00e3o esqueceu nenhum meio necess\u00e1rio para isso. Conversaram de literatura longas horas, e Jorge dava largas a um entusiasmo po\u00e9tico mais ou menos real. Notou Sara esse prurido liter\u00e1rio do rapaz, mas sem indagar as causas dele, tratou de o aproveitar no sentido das suas prefer\u00eancias.<\/p>\n<p>Sem nenhuma ofensa \u00e0 pessoa de Jorge, posso dizer que ele n\u00e3o era grande conhecedor em mat\u00e9ria liter\u00e1ria, pelo que n\u00e3o poucas vezes lhe acontecia trope\u00e7ar desastradamente. Por outro lado, sentia necessidade de alguma f\u00f3rmula mais elevada para o seu entusiasmo e andou catando na mem\u00f3ria aforismos deste jaez:<\/p>\n<p>\u2014 A poesia \u00e9 a linguagem dos anjos.<\/p>\n<p>\u2014 O amor e as musas nasceram no mesmo dia.<\/p>\n<p>E outras coisas mais que a mo\u00e7a ouvia sem admirar muito o esp\u00edrito inventivo do jovem advogado.<\/p>\n<p>Aconteceu que um domingo de tarde, andando os dois passeando no jardim, um pouco separados do resto da fam\u00edlia, Sara pregou os olhos no c\u00e9u tingido com as rubras cores do ocaso.<\/p>\n<p>Esteve assim calada durante longo tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Contempla a sua p\u00e1tria? perguntou-lhe com meiguice Jorge.<\/p>\n<p>\u2014 A minha p\u00e1tria? disse a mo\u00e7a sem perceber a id\u00e9ia. do rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a bela hora do poente, continuou este, a hora melanc\u00f3lica da saudade e do amor. O dia \u00e9 mais alegre, a noite mais terr\u00edvel; s\u00f3 a tarde \u00e9 a verdadeira hora das almas melanc\u00f3licas&#8230; Ah! tarde! Oh! poesia! oh! amor!<\/p>\n<p>Sara conteve o riso que esteve a ponto de lhe rebentar dos l\u00e1bios ao ouvir o tom e ao ver a atitude com que Jorge proferiu aquelas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Gosta ent\u00e3o muito da tarde? perguntou ela com um tom ir\u00f4nico que n\u00e3o escaparia a outro.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! muito! respondeu Jorge. A tarde \u00e9 a hora em que a natureza parece convidar os homens ao amor, \u00e0 medita\u00e7\u00e3o, \u00e0 saudade, ao arroubo, aos suspiros, a cantar com os anjos, a conversar com Deus. Posso dizer com o grande poeta, mas variando um pouco a sua f\u00f3rmula: tirai a tarde ao mundo, e o mundo ser\u00e1 um ermo.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 sublime! exclamou a mo\u00e7a, batendo palmas. Jorge parecia contente de si. Deitou \u00e0 mo\u00e7a um olhar l\u00e2nguido e amoroso e foi o \u00fanico agradecimento que deu ao elogio de Sara.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a compreendeu que a conversa podia seguir um caminho menos agrad\u00e1vel. Parecia-lhe ver j\u00e1 dan\u00e7ando nos l\u00e1bios do rapaz uma confiss\u00e3o intempestiva.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que meu pai me chama, disse ela; vamos. Jorge foi obrigado a acompanhar a mo\u00e7a, que se aproximou da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Os outros dois pretendentes viram o ar alegre de Jorge, e conclu\u00edram que ele estava no caminho da felicidade. Sara, entretanto, n\u00e3o mostrava a confus\u00e3o pr\u00f3pria de uma mo\u00e7a que acaba de ouvir uma confiss\u00e3o de amor. Olhava muitas vezes para Jorge, mas era com uns longes de ironia, e em todo caso perfeitamente tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem que ver, dizia Jorge consigo, acertei-lhe com a corda; a rapariga \u00e9 romanesca; tem voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria; gosta de exalta\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o se deteve o jovem advogado; a essa descoberta, seguiu-se logo uma carta ardente, po\u00e9tica, nebulosa, carta que nem um fil\u00f3sofo alem\u00e3o chegaria a entender.<\/p>\n<p>Poupo aos leitores a \u00edntegra desse documento; mas n\u00e3o resisto \u00e0 inten\u00e7\u00e3o de lhes transcrever aqui um per\u00edodo, que bem o merece:<\/p>\n<p>&#8230; Sim, minha loura estrela da noite, a vida \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o constante para a regi\u00e3o serena dos esp\u00edritos, um desejo, uma ambi\u00e7\u00e3o, uma sede de poesia! Quando duas almas da mesma \u00edndole se encontram, como as nossas, j\u00e1 isto n\u00e3o \u00e9 terra, \u00e9 c\u00e9u, c\u00e9u pur\u00edssimo e di\u00e1fano, c\u00e9u que os serafins povoam de encantadas estrofes!&#8230; Vem, meu anjo, passemos uma vida assim! Inspira-me, e eu serei maior que Petrarca e Dante, porque tu vales mais que Laura e Beatriz!&#8230;<\/p>\n<p>E cinco ou seis p\u00e1ginas neste gosto.<\/p>\n<p>Esta carta foi entregue, num domingo, \u00e0 sa\u00edda do Rio Comprido, sem que a mo\u00e7a tivesse ocasi\u00e3o de perguntar o que aquilo era.<\/p>\n<p>Digamos a verdade toda.<\/p>\n<p>Jorge passou a noite sobressaltado.<\/p>\n<p>Sonhou que entrava com Miss Hope em um riqu\u00edssimo castelo de ouro e esmeraldas, cuja porta era guardada por dois arcanjos de longas asas abertas; depois, sonhou que o mundo inteiro, por meio de uma comiss\u00e3o, o coroava poeta, rival de Homero. Sonhou muitas coisas neste sentido, at\u00e9 que veio a sonhar com um chafariz, que deitava, em vez de \u00e1gua, espingardas de agulha, verdadeiro disparate que s\u00f3 Morfeu sabe criar.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois foi procurado pelo irm\u00e3o de Sara.<\/p>\n<p>\u2014 Minha demora \u00e9 pequena, disse o rapaz, venho por parte de minha mana.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 E pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o veja nisto nada de ofensivo.<\/p>\n<p>\u2014 Nisto qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Minha mana quis por for\u00e7a que eu viesse restituir-lhe esta carta; e que lhe dissesse&#8230; Em suma, isto \u00e9 bastante; aqui tem a carta. Ainda uma vez, n\u00e3o h\u00e1 ofensa, e a coisa fica entre n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>Jorge n\u00e3o achava palavra para responder. Estava p\u00e1lido e vexado. Carlos n\u00e3o poupou express\u00f5es nem car\u00edcias para provar ao rapaz que n\u00e3o desejava a menor altera\u00e7\u00e3o na amizade que se votavam um ao outro.<\/p>\n<p>\u2014 Minha mana \u00e9 caprichosa, dizia ele, \u00e9 por isso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Concordo que foi um ato de loucura, disse enfim Jorge, animado pelas maneiras do irm\u00e3o de Sara; mas o senhor compreender\u00e1 que um amor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo tudo, disse Carlos; e \u00e9 por isso que lhe pe\u00e7o esque\u00e7a isto, e ao mesmo tempo posso afirmar-lhe que Sara n\u00e3o tem nenhum ressentimento disto&#8230; Portanto, amigos como dantes.<\/p>\n<p>E saiu.<\/p>\n<p>Jorge ficou s\u00f3.<\/p>\n<p>Estava acabrunhado, envergonhado, desesperado.<\/p>\n<p>N\u00e3o lamentava tanto a derrota como as circunst\u00e2ncias dela. Entretanto, era preciso mostrar boa cara \u00e0 sua fortuna, e o rapaz n\u00e3o hesitou em confessar a derrota aos dois advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u2014 Safa! disse Andrade, essa agora \u00e9 pior! Se ela est\u00e1 disposta a devolver todas as cartas pelo irm\u00e3o, \u00e9 prov\u00e1vel que o rapaz se n\u00e3o empregue em outra coisa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei disto, respondeu Jorge; confesso-me vencido, eis tudo.<\/p>\n<p>Durante esta curta batalha, dada pelo jovem advogado, os outros pretendentes n\u00e3o estavam ociosos, e cada qual por si procurava descobrir o ponto fraco na coura\u00e7a de Sara.<\/p>\n<p>Qual deles acertaria?<\/p>\n<p>Vamos sab\u00ea-lo nas p\u00e1ginas que nos restam.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Mais curta foi a campanha de Mateus; imaginara ele que a mo\u00e7a amaria loucamente a quem lhe desse sinais de bravura. Conclu\u00eda isto da exclama\u00e7\u00e3o que lhe ouvira, quando James Hope disse que ela tinha medo do mar.<\/p>\n<p>Tudo empregou Mateus para seduzir Miss Hope por esse lado. Em v\u00e3o! a mo\u00e7a parecia cada vez mais recalcitrante.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve proeza que o candidato n\u00e3o referisse como gl\u00f3ria sua, e algumas f\u00ea-las ele mesmo com sobrescrito para ela.<\/p>\n<p>Sara era uma rocha.<\/p>\n<p>A nada cedia.<\/p>\n<p>Arriscar uma carta seria loucura, depois do fiasco de Jorge; Mateus julgou prudente abater as armas.<\/p>\n<p>Restava Andrade.<\/p>\n<p>Teria ele descoberto alguma coisa? Parecia que n\u00e3o. Todavia, era dos tr\u00eas o mais atilado, e se a causa de isen\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a fosse a que eles apontavam n\u00e3o havia d\u00favida de que Andrade atinaria com ela.<\/p>\n<p>Durante esse tempo, ocorreu uma circunst\u00e2ncia que vinha transtornar os planos do rapaz. Sara, acusada pelo pai de ter medo do mar, o induzira a uma viagem \u00e0 Europa.<\/p>\n<p>James Hope participou alegre esta not\u00edcia aos tr\u00eas mo\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Mas v\u00e3o j\u00e1? perguntou Andrade, quando o pai de Sara lhe disse isto na rua.<\/p>\n<p>\u2014 Daqui a dois meses, respondeu o velho.<\/p>\n<p>\u2014 Valha-nos isso! pensou Andrade.<\/p>\n<p>Dois meses! Devia vencer ou morrer dentro daquele prazo.<\/p>\n<p>Andrade auscultava o esp\u00edrito da mo\u00e7a com perseveran\u00e7a e solicitude; nada lhe era indiferente; um livro, uma frase, um gesto, uma opini\u00e3o, tudo Andrade ouvia com aten\u00e7\u00e3o religiosa, tudo examinava cuidadosamente.<\/p>\n<p>Um domingo em que l\u00e1 se achavam na ch\u00e1cara todos, em companhia de algumas mo\u00e7as da vizinhan\u00e7a, falava-se de modas e cada uma dava a sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Andrade conversava alegremente e tamb\u00e9m discutia o assunto da conversa, mas o seu olhar, a sua aten\u00e7\u00e3o estavam voltados para a bela Sara.<\/p>\n<p>A distra\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a era evidente.<\/p>\n<p>Em que pensaria ela?<\/p>\n<p>De repente, entra pelo jardim o filho de James, que ficara na cidade para aviar uns neg\u00f3cios do paquete.<\/p>\n<p>\u2014 Sabem a novidade? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? perguntaram todos.<\/p>\n<p>\u2014 Caiu o minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Deveras? disse James.<\/p>\n<p>\u2014 Que temos n\u00f3s com o minist\u00e9rio? perguntou uma das mo\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 O mundo caminha bem sem o minist\u00e9rio, observou outra.<\/p>\n<p>\u2014 Oremos pelo minist\u00e9rio, acrescentou piedosamente uma terceira.<\/p>\n<p>N\u00e3o se falou mais nisto. Aparentemente, era uma coisa insignificante, um incidente sem resultado, na vida apraz\u00edvel daquela aben\u00e7oada solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim seria para os outros.<\/p>\n<p>Para Andrade foi um raio de luz \u2014 ou pelo menos um ind\u00edcio veemente.<\/p>\n<p>Notou ele que Sara ouvira a not\u00edcia com aten\u00e7\u00e3o profunda demais para o seu sexo, e depois ficara algum tanto pensativa.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Tomou nota do incidente.<\/p>\n<p>Noutra ocasi\u00e3o, foi surpreend\u00ea-la a ler um livro.<\/p>\n<p>\u2014 Que livro ser\u00e1 esse? perguntou ele sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Veja, respondeu ela apresentando-lhe o livro.<\/p>\n<p>Era uma hist\u00f3ria de Catarina de M\u00e9dicis.<\/p>\n<p>Isto seria insignificante para outro; para o nosso candidato era um vest\u00edgio precios\u00edssimo.<\/p>\n<p>Com os apontamentos que tinha, j\u00e1 Andrade podia conhecer a situa\u00e7\u00e3o; mas, como era prudente, buscou esclarec\u00ea-la melhor.<\/p>\n<p>Um dia mandou uma cartinha a James Hope, concebida nestes termos:<\/p>\n<p>Empurraram me alguns bilhetes de teatro: \u00e9 um espet\u00e1culo em benef\u00edcio de um homem pobre. Sei como o senhor \u00e9 caridoso, e por isso a\u00ed lhe remeto um camarote. A pe\u00e7a \u00e9 excelente.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a era o Pedro.<\/p>\n<p>No dia aprazado, l\u00e1 estava Andrade no Gin\u00e1sio. Hope n\u00e3o faltou, com a fam\u00edlia, ao espet\u00e1culo anunciado.<\/p>\n<p>Nunca Andrade sentira tanto a beleza de Sara. Estava espl\u00eandida, mas o que aumentava a beleza e o que lhe inspirava adora\u00e7\u00e3o maior, era o concerto de louvores que ele ouvira \u00e0 roda de si. Se todos gostavam dela, n\u00e3o era natural que ela s\u00f3 lhe pertencesse a ele?<\/p>\n<p>Pela raz\u00e3o de beleza, como por causa das observa\u00e7\u00f5es que Andrade queria fazer, n\u00e3o tirou os olhos da mo\u00e7a durante a noite inteira.<\/p>\n<p>Foi ao camarote dela no fim do segundo ato.<\/p>\n<p>\u2014 Venha, disse-lhe Hope, deixe-me agradecer-lhe a ocasi\u00e3o que me proporcionou de ver Sara entusiasmada.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um excelente drama este Pedro, disse a mo\u00e7a apertando a m\u00e3o de Andrade.<\/p>\n<p>\u2014 Excelente s\u00f3? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Diga-me, perguntou James, este Pedro sobe sempre at\u00e9 ao fim?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o disse ele no primeiro ato? respondeu Andrade. Subir! subir! subir! Quando um homem sente em si uma grande ambi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode deixar de realiz\u00e1-la, porque justamente nesse caso \u00e9 que se deve aplicar o querer \u00e9 poder.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o, disse Sara.<\/p>\n<p>\u2014 Pela minha parte, continuou Andrade, nunca deixei de admirar este car\u00e1ter soberbo, natural, grandioso, que me parece falar ao que h\u00e1 de mais \u00edntimo em minha alma! Que \u00e9 a vida sem uma grande ambi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Este arrojo de vaidade produziu o desejado efeito, eletrizou a mo\u00e7a, a cujos olhos parecia que Andrade se havia transfigurado.<\/p>\n<p>Bem o percebeu Andrade, que coroava assim os seus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Adivinhara tudo.<\/p>\n<p>Tudo o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Adivinhara que Miss Hope era ambiciosa.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Eram duas pessoas diferentes at\u00e9 \u00e0quele dia; da\u00ed a pouco, pareciam entender-se, harmonizar-se, completar-se.<\/p>\n<p>Tendo compreendido e sondado a situa\u00e7\u00e3o, Andrade n\u00e3o deixou de prosseguir no ataque em regra. Sabia para onde iam as simpatias da mo\u00e7a; foi com elas, e t\u00e3o cauteloso, e ao mesmo tempo t\u00e3o audaz, que inspirou ao esp\u00edrito de Sara pouco disfar\u00e7\u00e1vel entusiasmo.<\/p>\n<p>Entusiasmo, digo, e era esse o sentimento que devia inspirar quem pretendesse o cora\u00e7\u00e3o de Miss Hope.<\/p>\n<p>Amor \u00e9 bom para as almas ang\u00e9licas.<\/p>\n<p>Sara n\u00e3o era assim; a ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se contenta com flores e horizontes curtos. N\u00e3o pelo amor, mas pelo entusiasmo, \u00e9 que ela devia ser vencida.<\/p>\n<p>Sara via Andrade com olhos de admira\u00e7\u00e3o. Ele soubera, a pouco e pouco, convenc\u00ea-la de que era um homem essencialmente ambicioso, confiado na sua estrela, e seguro dos seus destinos.<\/p>\n<p>Que mais queria a mo\u00e7a?<\/p>\n<p>Ela era efetivamente ambiciosa e sedenta de honras e emin\u00eancias. Se tivesse nascido nas imedia\u00e7\u00f5es de um trono, poria esse trono em perigo.<\/p>\n<p>Para que ela amasse algu\u00e9m, era necess\u00e1rio que esse pudesse competir com ela no g\u00eanio, e lhe afian\u00e7asse a vinda de gl\u00f3rias futuras.<\/p>\n<p>Andrade compreendera isso.<\/p>\n<p>E t\u00e3o h\u00e1bil se houve que conseguira fascinar a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1bil, digo eu, e nada mais; porque, se houve jamais criatura desambiciosa neste mundo, esp\u00edrito mais t\u00edmido, g\u00eanio menos desejoso de mando e poderio, esse foi sem d\u00favida o nosso Andrade.<\/p>\n<p>A paz era para ele o ideal.<\/p>\n<p>E a ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe sem perp\u00e9tua guerra.<\/p>\n<p>Como conciliar, pois, este g\u00eanio natural com as esperan\u00e7as que inspirara \u00e0 ambiciosa Sara?<\/p>\n<p>Deixava ao futuro?<\/p>\n<p>Desengan\u00e1-la-ia, quando fosse conveniente?<\/p>\n<p>A viagem \u00e0 Europa foi ainda uma vez adiada, porque Andrade, competentemente autorizado pela mo\u00e7a, pediu-a em casamento ao honrado comerciante James Hope.<\/p>\n<p>\u2014 Perco ainda uma vez a minha viagem, disse o velho, mas desta vez por um motivo leg\u00edtimo e agrad\u00e1vel; fa\u00e7o minha filha feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe que eu&#8230; murmurou Andrade.<\/p>\n<p>\u2014 Ande l\u00e1, disse Hope batendo no ombro do futuro genro; minha filha morre pelo senhor.<\/p>\n<p>O casamento foi celebrado dentro de um m\u00eas. Os noivos foram passar a lua-de-mel na Tijuca. Cinco meses depois, estavam ambos na cidade, ocupando uma casa po\u00e9tica e romanesca em Andara\u00ed.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o a vida foi um caminho semeado de flores. Mas o amor n\u00e3o podia tudo numa alian\u00e7a iniciada pela ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Andrade estava satisfeito e feliz. Simulou enquanto p\u00f4de o car\u00e1ter que n\u00e3o tinha; mas le naturel chass\u00e9, revenait au galop. A pouco e pouco iam manifestando-se as prefer\u00eancias do rapaz por uma vida calma e pac\u00edfica, sem ambi\u00e7\u00f5es, nem ru\u00eddo.<\/p>\n<p>Sara come\u00e7ou a notar que a pol\u00edtica e todas as grandezas do Estado aborreciam sobremaneira o marido. Lia alguns romances, alguns versos, e nada mais, aquele homem que, pouco antes de casar, parecia destinado a mudar a face do globo. Pol\u00edtica era para ele sin\u00f4nimo de dormideira.<\/p>\n<p>Tarde conheceu Sara quanto se havia enganado. Grande foi a sua desilus\u00e3o. Como possu\u00edsse realmente uma alma \u00e1vida de grandeza e poderio, sentiu amargamente este desengano.<\/p>\n<p>Quis disfar\u00e7\u00e1-lo, mas n\u00e3o p\u00f4de.<\/p>\n<p>E um dia disse a Andrade:<\/p>\n<p>\u2014 Por que raz\u00e3o a \u00e1guia perdeu as asas?<\/p>\n<p>\u2014 Qual \u00e1guia? perguntou ele.<\/p>\n<p>Andrade compreendeu a inten\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n<p>\u2014 A \u00e1guia era apenas uma pomba, disse ele, passando-lhe o bra\u00e7o \u00e0 roda da cintura.<\/p>\n<p>Sara recuou e foi encostar-se \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Ca\u00eda, ent\u00e3o, a tarde; e tudo parecia convidar aos devaneios do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Suspiras? perguntou Andrade.<\/p>\n<p>N\u00e3o teve resposta.<\/p>\n<p>Houve longo sil\u00eancio, interrompido apenas pelo tac\u00e3o de Andrade, que batia compassadamente no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Afinal, levantou-se o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Olha, Sara, disse ele, v\u00eas este c\u00e9u dourado e esta natureza tranq\u00fcila?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 a vida, isto \u00e9 a verdadeira gl\u00f3ria, continuou o marido. Tudo mais \u00e9 manjar de almas doentias. Gozemos isto, que deste mundo \u00e9 o melhor.<\/p>\n<p>Deu-lhe um beijo na testa e saiu.<\/p>\n<p>Sara ficou longo tempo pensativa, \u00e0 janela; e n\u00e3o sei se a leitora achar\u00e1 rid\u00edculo que ela vertesse alguma l\u00e1grima.<\/p>\n<p>Verteu duas.<\/p>\n<p>Uma pelas ambi\u00e7\u00f5es abatidas e desfeitas.<\/p>\n<p>Outra pelo erro em que estivera at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Porquanto, se o esp\u00edrito parecia magoado e entorpecido com o desenlace de tantas ilus\u00f5es, dizia-lhe o cora\u00e7\u00e3o que a verdadeira felicidade de uma mulher est\u00e1 na paz dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Que mais lhe direi para completar a narrativa?<\/p>\n<p>Sara disse adeus \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es dos primeiros anos, e voltou-se toda para outra ordem de desejos.<\/p>\n<p>Quis Deus que ela os realizasse. Quando morrer n\u00e3o ter\u00e1 p\u00e1gina na hist\u00f3ria; mas o marido poder\u00e1 escrever-lhe na sepultura: Foi boa esposa e teve muitos filhos.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo I Era uma tarde de agosto. Ca\u00eda o sol, e soprava um vento fresco e brando, como para compensar o dia, que estivera extremamente calmoso. A noite prometia ser excelente. Se a leitora quer ir comigo ao Rio Comprido, entraremos juntos na ch\u00e1cara do sr. James Hope, comerciante ingl\u00eas desta pra\u00e7a, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-118497","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Uma \u00e1guia Sem Asas, Machado de Assis, Poema, Uma \u00e1guia Sem Asas<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Uma \u00e1guia Sem Asas, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Uma \u00e1guia Sem Asas\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" 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