{"id":118495,"date":"2017-04-05T21:13:15","date_gmt":"2017-04-05T23:13:15","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118495"},"modified":"2017-04-05T21:13:15","modified_gmt":"2017-04-05T23:13:15","slug":"um-sonho-e-outro-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-sonho-e-outro-sonho","title":{"rendered":"Um sonho e outro sonho"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Cr\u00eas em sonhos? H\u00e1 pessoas que os aceitam como a palavra do destino e da verdade. Outros h\u00e1 que os desprezam. Uma terceira classe explica-os, atribuindo-os a causas naturais. Entre tantas opini\u00f5es n\u00e3o quero saber da tua, leitora, que me l\u00eas, principalmente se \u00e9s vi\u00fava, porque a pessoa a quem aconteceu o que vou dizer era vi\u00fava, e o assunto pode interessar mais particularmente \u00e0s que perderam os maridos. N\u00e3o te pe\u00e7o opini\u00e3o, mas aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Genoveva, vinte e quatro anos, bonita e rica, tal era a minha vi\u00fava. Tr\u00eas anos de viuvez, um de v\u00e9u longo, dois de simples vestidos pretos, chap\u00e9us pretos, e olhos pretos, que vinham do cons\u00f3rcio e do ber\u00e7o. A diferen\u00e7a \u00e9 que agora olhavam para o ch\u00e3o, e, se olhavam para alguma coisa ou algu\u00e9m, eram sempre tristes, como os que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam consola\u00e7\u00e3o na terra nem provavelmente no c\u00e9u. Morava em uma casa escondida, para os lados do Engenho Velho, com a m\u00e3e e os criados. Nenhum filho. Um que lhe devia nascer, foi absorvido pelo nada; tinha cinco meses de gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O retrato do marido, bacharel Marcondes, ou Nhonh\u00f4, pelo nome familiar, vivia no quarto dela, pendente da parede, moldura de ouro, coberta de crepe. Todas as noites, Genoveva, depois de rezar a Nossa Senhora, n\u00e3o se deitava sem lan\u00e7ar o \u00faltimo olhar ao retrato, que parecia olhar para ela. De manh\u00e3 o primeiro olhar era para ele. Quando o tempo veio amortecendo o efeito da dor, esses gestos diminu\u00edram naturalmente e acabaram; mas a imagem vivia no cora\u00e7\u00e3o. As mostras externas n\u00e3o diminu\u00edam a saudade.<\/p>\n<p>Rica? N\u00e3o, n\u00e3o era rica, mas tinha alguma coisa; tinha o bastante para viver com a m\u00e3e, \u00e0 larga. Era, conseguintemente, um bom negocio para qualquer mo\u00e7o ativo, ainda que n\u00e3o tivesse nada de seu; melhor ainda para quem possu\u00edsse alguma coisa, porque as duas bolsas fariam uma grande bolsa, e a beleza da vi\u00fava seria a mais valiosa moeda do pec\u00falio. N\u00e3o lhe faltavam pretendentes de toda a esp\u00e9cie, mas todos perdiam o tempo e o trabalho. Carlos, Roberto, Lucas, Casimiro e outros muitos nomes inscreviam-se no livro dos passageiros, e iam-se embora sem esperan\u00e7as. Alguns nem levavam saudades. Muitos as levavam em grande c\u00f3pia e das mais tristes. Genoveva n\u00e3o se deixou prender de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Um daqueles candidatos, Lucas, p\u00f4de saber da m\u00e3e de Genoveva algumas circunst\u00e2ncias da vida e da morte do finado genro. Lucas tinha ido pedir licen\u00e7a \u00e0 boa senhora para solicitar a m\u00e3o da filha. N\u00e3o havia necessidade, pois que a vi\u00fava dispunha de si; mas a incerteza de ser aceito sugeriu-lhe esse alvitre, a fim de ver se ganhava a boa vontade e intercess\u00e3o da m\u00e3e.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe dou tal conselho, respondeu esta.<\/p>\n<p>\u2014 De pedi-la em casamento?<\/p>\n<p>\u2014 Sim; ela deu-lhe alguma esperan\u00e7a?<\/p>\n<p>Lucas hesitou.<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que n\u00e3o lhe deu nenhuma.<\/p>\n<p>\u2014 Devo ser verdadeiro. Esperan\u00e7as n\u00e3o tenho; n\u00e3o sei se D. Genoveva me perdoa, ao menos, a afei\u00e7\u00e3o que me inspirou.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o lhe pe\u00e7a nada.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que perder\u00e1 o tempo. Genoveva n\u00e3o casar\u00e1 nunca mais. At\u00e9 hoje tem a imagem do marido diante de si, vive da lembran\u00e7a dele, chora por ele, e nunca se unir\u00e1 a outro.<\/p>\n<p>\u2014 Amaram-se muito?<\/p>\n<p>\u2014 Muito. Imagine uma uni\u00e3o que apenas durou tr\u00eas anos. Nhonh\u00f4, quando morreu, quase que a levou consigo. Viveram como dois noivos; o casamento foi at\u00e9 romanesco. Tinham lido n\u00e3o sei que romance, e aconteceu que a mesma linha da mesma p\u00e1gina os impressionou igualmente; ele soube disso lendo uma carta que ela escrevera a uma amiga. A amiga atestou a verdade, porque ouvira a confiss\u00e3o de Nhonh\u00f4, antes de lhe mostrar a carta. N\u00e3o sei que palavras foram, nem que romance era. Nunca me dei a essas leituras. Mas naturalmente eram palavras ternas. Fosse o que fosse, apaixonaram-se um pelo outro, como raras vezes vi, e casaram-se para ser felizes por longos anos. Nhonh\u00f4 morreu de uma febre perniciosa. N\u00e3o pode imaginar como Genoveva sofreu. Quis ir com o cad\u00e1ver, agarrou-se ao caix\u00e3o, perdeu os sentidos, e esteve fora de si quase uma semana. O tempo e os meus cuidados, al\u00e9m do m\u00e9dico, \u00e9 que puderam vencer a crise. N\u00e3o chegou a ir \u00e0 missa; mandamos dizer uma, tr\u00eas meses depois.<\/p>\n<p>A m\u00e3e exagerava no ponto de dizer que foi a frase do romance que ligou a filha ao marido; eles tinham naturalmente inclina\u00e7\u00e3o. A frase n\u00e3o fez mais que falar por eles. Nem por isso tira o romanesco de Genoveva e do finado Marcondes, que fizera versos aos dezoito anos, e, aos vinte, um romance, A bela do sepulcro, cuja hero\u00edna era uma mo\u00e7a que, havendo perdido o esposo, ia passar os dias no cemit\u00e9rio, ao p\u00e9 da sepultura dele. Um mo\u00e7o, que ia passar as tardes no mesmo cemit\u00e9rio, ao p\u00e9 da sepultura da noiva, viu-a e admirou aquela const\u00e2ncia p\u00f3stuma, t\u00e3o irm\u00e3 da sua; ela o viu tamb\u00e9m, e a identidade da situa\u00e7\u00e3o os fez amados um do outro. A vi\u00fava, por\u00e9m, quando ele a pediu em casamento, negou-se e morreu oito dias depois.<\/p>\n<p>Genoveva tinha presente este romance do marido. Havia-o lido mais de vinte vezes, e nada achava t\u00e3o pat\u00e9tico nem mais natural. Mandou fazer uma edi\u00e7\u00e3o especial, e distribuiu exemplares a todos os amigos e conhecidos da fam\u00edlia. A piedade conjugal desculpava esse obs\u00e9quio pesado, ainda que gratuito. A bela do sepulcro era ileg\u00edvel. Mas n\u00e3o se conclua da\u00ed que o autor, como homem espirituoso, era inferior \u00e0s saudades da vi\u00fava. Inteligente e culto, cometera aquele pecado liter\u00e1rio, que, nem por ser grande, o teria levado ao purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois de vi\u00fava, apareceu-lhe um pretendente. Era bacharel, como o marido, tinha trinta anos, e advogava com tanta felicidade e real talento que contava j\u00e1 um bom pec\u00falio. Chamava-se Oliveira. Um dia, a m\u00e3e de Genoveva foi demandada por um parente, que pretendia haver duas casas dela, por transa\u00e7\u00f5es feitas com o marido. Querendo saber de um bom advogado, inculcaram-lhe Oliveira, que em pouco tempo venceu a demanda. Durante o correr desta, Oliveira foi duas vezes \u00e0 casa de Genoveva, e s\u00f3 a viu da segunda; mas foi quanto bastou para ach\u00e1-la interessant\u00edssima, com os seus vestidos pretos, tez muito clara e olhos muito grandes. Vencida a demanda, a constituinte meteu-se em um carro e foi ao escrit\u00f3rio de Oliveira, para duas coisas, agradecer-lhe e remuner\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Duas pagas? retorquiu ele rindo. Eu s\u00f3 recebo uma \u2014 agradecimentos ou honor\u00e1rios. J\u00e1 tenho os agradecimentos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe-me isto, mas a sua causa era t\u00e3o simples, correu t\u00e3o depressa, deu-me t\u00e3o pouco trabalho, que seria injusti\u00e7a pedir-lhe mais do que a sua estima. D\u00e1-me a sua estima?<\/p>\n<p>\u2014 Seguramente, respondeu ela.<\/p>\n<p>Quis ainda falar, mas n\u00e3o achava palavras, e saiu convencida de que era chegado o reino de Deus. Entretanto, querendo fazer uma fineza ao generoso advogado, resolveu dar-lhe um jantar, para o qual convidou algumas fam\u00edlias \u00edntimas. Oliveira recebeu o convite com alacridade. N\u00e3o gostava de perfumes nem adornos; mas nesse dia borrifou o len\u00e7o com Jockey Club e p\u00f4s ao peito uma rosa amarela.<\/p>\n<p>Genoveva recebeu o advogado como recebia outros homens; a diferen\u00e7a, por\u00e9m, entre ele e os outros \u00e9 que estes apresentavam logo no primeiro dia as credenciais, e Oliveira n\u00e3o pedia sequer audi\u00eancia. Entrou como um estrangeiro de passagem, curioso, af\u00e1vel, interessante, tratando as coisas e pessoas como os passageiros em tr\u00e2nsito pelas cidades de escala. Genoveva teve excelente impress\u00e3o do homem; a m\u00e3e estava encantad\u00edssima.<\/p>\n<p>\u2014 Enganei-me, pensou Genoveva, recolhendo-se ao quarto. Cuidei que era outro pedido, entretanto&#8230; Mas, por que motivo fez o que fez, e aceitou o jantar de mam\u00e3e?<\/p>\n<p>Chegou a suspeitar que a m\u00e3e e o advogado estavam de acordo, que ela n\u00e3o fizera mais que buscar ocasi\u00e3o de os apresentar um ao outro, e travar rela\u00e7\u00f5es. A suspeita cresceu quando, dias depois, a m\u00e3e falou em visitar a m\u00e3e de Oliveira, com quem este vivia; mas a prontid\u00e3o com que aceitou as suas raz\u00f5es de negativa tornou a mo\u00e7a perplexa. Genoveva examinou o caso e reconheceu que atribu\u00eda \u00e0 m\u00e3e um papel menos pr\u00f3prio; varreu-se-lhe a suposi\u00e7\u00e3o. Demais (e isto valia por muito), as maneiras do homem estavam em desacordo com quaisquer projetos.<\/p>\n<p>Travadas as rela\u00e7\u00f5es, bem depressa as duas fam\u00edlias se visitavam, e a mi\u00fado. Oliveira residia longe; mas achou casa perto e mudou-se. As duas m\u00e3es achavam-se reciprocamente encantadoras, e tanto a de Genoveva gostava de Oliveira, como a de Oliveira gostava de Genoveva. Tudo isto vai parecendo sim\u00e9trico; mas eu n\u00e3o tenho modo de contar diferentemente coisas que se passaram assim, ainda que reconhe\u00e7a a conveni\u00eancia de as compor algo. Quanto menos, falta-me tempo&#8230; A verdade \u00e9 que as duas matronas se amavam e trabalhavam para fazer os filhos encontradi\u00e7os.<\/p>\n<p>Um, dois, tr\u00eas meses correram, sem que Oliveira revelasse a menor inclina\u00e7\u00e3o \u00e0 viuvinha. Entretanto, as horas passadas com ele, em qualquer das casas, n\u00e3o podiam ser mais deleitosas. Ningu\u00e9m sabia encher o tempo t\u00e3o bem, falando a cada uma das pessoas a sua pr\u00f3pria linguagem. Durante esse prazo teve Genoveva ainda um pretendente, que n\u00e3o recebeu melhor agasalho; parece at\u00e9 que tratou a este com uma sombra de despeito e irrita\u00e7\u00e3o inexplic\u00e1veis, n\u00e3o s\u00f3 para ele, como para ela pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, o pobre diabo n\u00e3o tem culpa que eu seja vi\u00fava, disse ela consigo.<\/p>\n<p>&#8220;, \u00e9 o que ela devia dizer, e pode ser que tal id\u00e9ia chegasse a bater as asas, para atravessar-lhe o c\u00e9rebro; mas, h\u00e1 certa mod\u00e9stia inconsciente, que faz evitar confiss\u00f5es, n\u00e3o digo presumidas, mas orgulhosas. Seja o que for, Genoveva chegou a ter pena do pretendente.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o se portou ele como o Oliveira, que me respeita? continuou consigo.<\/p>\n<p>Entrara o quarto m\u00eas das rela\u00e7\u00f5es, e o respeito do advogado n\u00e3o diminuiu. Jantaram juntos algumas vezes, e chegaram a ir juntos ao teatro. Oliveira, abriu at\u00e9 um capitulo de confid\u00eancias com ela, n\u00e3o amorosas, \u00e9 claro, mas de sensa\u00e7\u00f5es, de impress\u00f5es, de cogita\u00e7\u00f5es. Um dia, disse-lhe que, em pequeno, tivera desejo de ser frade; mas levado ao teatro, e assistindo \u00e0 comedia do Pena, O novi\u00e7o, o espet\u00e1culo do menino, vestido de frade, e correndo pela sala, a bradar: eu quero ser frade! eu quero ser frade! fez-lhe perder todo o gosto da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Achei que n\u00e3o podia vestir um h\u00e1bito assim profanado.<\/p>\n<p>\u2014 Profanado, como? O h\u00e1bito n\u00e3o tinha culpa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tinha culpa, \u00e9 verdade; mas eu era crian\u00e7a, n\u00e3o podia vencer essa impress\u00e3o infantil. E parece que foi bom.<\/p>\n<p>\u2014 Quer dizer que n\u00e3o seria bom frade?<\/p>\n<p>\u2014 Podia ser que fosse sofr\u00edvel; mas eu quisera s\u00ea-lo excelente.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; dei-me t\u00e3o bem com a vida do foro, com esta chicana da advocacia, que n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel tivesse a voca\u00e7\u00e3o contemplativa t\u00e3o perfeita como quisera. H\u00e1 s\u00f3 um caso em que eu acabaria num convento.<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>Oliveira hesitou um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Se enviuvasse, respondeu.<\/p>\n<p>Genoveva, que sorria, aguardando a resposta, fez-se rapidamente s\u00e9ria, e n\u00e3o retorquiu. Oliveira n\u00e3o acrescentou nada, e a conversa naquele dia acabou menos expressiva que das outras vezes. Posto que tivesse o sono pronto, Genoveva n\u00e3o dormiu logo que se deitou; ao contrario, ouviu dar meia-noite, e esteve ainda muito tempo acordada.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, a primeira coisa em que pensou foi justamente na conversa\u00e7\u00e3o da v\u00e9spera, isto \u00e9, naquela \u00faltima palavra de Oliveira. Que havia nela? Aparentemente, pouco; e pode ser que, na realidade; ainda menos. Era um sentimento de homem que n\u00e3o admitia o mundo, depois de roto o cons\u00f3rcio; e iria refugiar-se na solid\u00e3o e na religi\u00e3o. Confessemos que n\u00e3o basta para explicar a preocupa\u00e7\u00e3o da nossa vi\u00fava. A vi\u00fava, entretanto, n\u00e3o viveu de outra coisa, durante esse dia, salvo o almo\u00e7o e o jantar, que ainda assim foram quase silenciosos.<\/p>\n<p>\u2014 Estou com dor de cabe\u00e7a, respondeu \u00e0 m\u00e3e, para explicar as suas poucas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Toma antipirina.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, isto passa.<\/p>\n<p>E n\u00e3o passava. &#8220;, pensava Genoveva; logo, era uma censura a ela, por n\u00e3o ter feito o mesmo. Mas que raz\u00e3o havia para desej\u00e1-la recolhida a um mosteiro? Pergunta torta; parece que a pergunta direita seria outra: &#8221; Mas se n\u00e3o era direita, era natural, e o natural \u00e9 muitas vezes torto. Pode ser at\u00e9 que, bem exprimidas as primeiras palavras, deixem o sentido das segundas; mas, eu n\u00e3o fa\u00e7o aqui psicologia, narro apenas.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s daquele pensamento, veio outro mui diverso. Talvez que ele tivesse tido alguma paix\u00e3o, t\u00e3o forte, que, se casasse e enviuvasse&#8230; E por que n\u00e3o a teria ainda agora? Pode ser que amasse a algu\u00e9m, que pretendesse casar, e que, se acaso perdesse a mulher amada, fugisse ao mundo para sempre. Confessara-lhe isto, como usava fazer a outros respeitos, como lhe confessava opini\u00f5es, que dizia n\u00e3o repetir a ningu\u00e9m mais. Essa explica\u00e7\u00e3o, posto que natural, atordoou Genoveva ainda mais que a primeira.<\/p>\n<p>\u2014 Afinal, que tenho eu com isto? Faz muito bem.<\/p>\n<p>Passou mal a noite. No dia seguinte foi com a m\u00e3e fazer compras \u00e0 Rua do Ouvidor, demorando-se muito, sem saber por qu\u00ea, e olhando para todos os lados, sempre que sa\u00eda de uma loja. Passando por um grupo estremeceu e olhou para as pessoas que falavam, mas n\u00e3o conheceu nenhuma. Tinha ouvido, entretanto, a voz de Oliveira. H\u00e1 vozes parecidas com outras, que enganam muito, ainda quando a gente vai distra\u00edda. H\u00e1 tamb\u00e9m ouvidos mal educados.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de Oliveira de que entraria para um convento, se chegasse a enviuvar, n\u00e3o sa\u00eda da cabe\u00e7a de Genoveva. Passaram-se alguns dias sem ver o advogado. Uma noite, depois de cuidar no caso, Genoveva olhou para o retrato do marido antes de deitar-se; repetiu a a\u00e7\u00e3o no dia seguinte, e o costume dos primeiros tempos da viuvez tornou a ser o de todas as noites. De uma vez, mal adormecera, teve um sonho extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Apareceu-lhe o marido, vestido de preto, como se enterrara, e p\u00f4s-lhe a m\u00e3o na cabe\u00e7a. Estavam em um lugar que n\u00e3o era bem sala nem bem rua, uma coisa interm\u00e9dia, vaga, sem contornos definidos. O principal do sonho era o finado, cara p\u00e1lida, m\u00e3os p\u00e1lidas, olhos vivos, \u00e9 certo, mas de uma tristeza de morte.<\/p>\n<p>\u2014 Genoveva! disse-lhe ele. Nhonh\u00f4! murmurou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Para que me perturbas a vida da morte, o sono da eternidade?<\/p>\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n<p>\u2014 Genoveva, tu esqueceste-me.<\/p>\n<p>\u2014 Eu?<\/p>\n<p>\u2014 Tu amas a outro.<\/p>\n<p>Genoveva negou com a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nem ousas falar, observou o defunto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o amo, acudiu ela.<\/p>\n<p>Nhonh\u00f4 afastou-se um pouco, olhou para a antiga esposa, abanou a cabe\u00e7a incredulamente, e cruzou os bra\u00e7os. Genoveva n\u00e3o podia fit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Levanta os olhos, Genoveva.<\/p>\n<p>Genoveva obedeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda me amas?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! ainda! exclamou Genoveva.<\/p>\n<p>\u2014 Apesar de morto, esquecido dos homens, h\u00f3spede dos vermes?<\/p>\n<p>\u2014 Apesar de tudo!<\/p>\n<p>\u2014 Bem, Genoveva; n\u00e3o te quero for\u00e7ar a nada, mas se \u00e9 verdade que ainda me amas, n\u00e3o conspurques o teu amor com as car\u00edcias de outro homem.<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Juras?<\/p>\n<p>\u2014 Juro.<\/p>\n<p>O finado estendeu-lhe as m\u00e3os, e pegou nas dela; depois, enla\u00e7ando-a pela cintura, come\u00e7ou uma valsa r\u00e1pida e l\u00fagubre, giro de loucos, em que Genoveva n\u00e3o podia fitar nada. O espa\u00e7o j\u00e1 n\u00e3o era sala, nem rua, nem sequer pra\u00e7a; era um campo que se alargava a cada giro dos dois, por modo que, quando estes pararam, Genoveva achou-se em uma vasta plan\u00edcie, semelhante a um mar sem praias; circulou os olhos, a terra pegava com o c\u00e9u por todos os lados. Quis gritar; mas sentiu na boca a m\u00e3o fria do marido que lhe dizia:<\/p>\n<p>\u2014 Juras ainda?<\/p>\n<p>\u2014 Juro, respondeu Genoveva.<\/p>\n<p>Nhonh\u00f4 tornou a pegar-lhe da cintura, a valsa recome\u00e7ou, com a mesma vertigem de giros, mas com o fen\u00f4meno contr\u00e1rio, em rela\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o. O horizonte estreitou-se a mais e mais, at\u00e9 que eles se acharam numa simples sala, com este ap\u00eandice: uma e\u00e7a e um caix\u00e3o aberto. O defunto parou, trepou ao caix\u00e3o, meteu-se nele, e fechou-o; antes de fechado, Genoveva viu a m\u00e3o do defunto, que lhe dizia adeus. Soltou um grito e acordou.<\/p>\n<p>Parece que, antes do grito final, soltara outros de ang\u00fastia, porque quando acordou, viu j\u00e1 ao p\u00e9 da cama uma preta da casa.<\/p>\n<p>\u2014 Que foi, Nhanh\u00e3?<\/p>\n<p>\u2014 Um pesadelo. Eu disse alguma coisa? falei? gritei?<\/p>\n<p>\u2014 Nhanh\u00e3 gritou duas vezes, e agora outra vez,<\/p>\n<p>\u2014 Mas foram palavras?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhora; gritou s\u00f3.<\/p>\n<p>Genoveva n\u00e3o p\u00f4de dormir o resto da noite. Sobre a manh\u00e3 chegou a conciliar o sono, mas este foi interrompido e curto.<\/p>\n<p>N\u00e3o referiu \u00e0 m\u00e3e os pormenores do sonho; disse s\u00f3 que tivera um pesadelo. De si para si, aceitou aquela vis\u00e3o do marido e as suas palavras, como determinativas do seu proceder. Ao demais, jurara, e este v\u00ednculo era indestrut\u00edvel. Examinando a consci\u00eancia, reconheceu que estava prestes a amar a Oliveira, e que a not\u00edcia desta afei\u00e7\u00e3o, ainda mal expressa, tinha chegado ao mundo onde vivia o marido. Ela cria em sonhos; tinha para si que eles eram avisos, consola\u00e7\u00f5es e castigos. Havia-os sem valor, sonhos de brincadeira; e ainda esses podiam ter alguma significa\u00e7\u00e3o. Estava dito; acabaria com aquele princ\u00edpio de qualquer coisa que Oliveira conseguira inspirar-lhe e tendia a crescer.<\/p>\n<p>Na seguinte noite, Genoveva despediu-se do retrato do marido, rezou por ele, e meteu-se na cama com receio. Custou-lhe dormir, mas afinal o sono fechou-lhe os lindos olhos e a alma acordou sem ter sonhado nada, nem mal nem bem; acordou com a luz do sol que lhe entrava pelas portas das janelas.<\/p>\n<p>Oliveira deixara de ir ali uma semana. Genoveva espantou-se da aus\u00eancia; a m\u00e3e quis ir \u00e0 casa dele saber se era alguma doen\u00e7a, mas a filha tirou-lhe a id\u00e9ia da cabe\u00e7a. No princ\u00edpio da outra semana, apareceu ele com a m\u00e3e, tinha tido um resfriamento que o reteve na cama tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o disse? acudiu a m\u00e3e de Genoveva. Eu disse que havia de ser neg\u00f3cio de doen\u00e7a, porque o doutor n\u00e3o deixa de vir tanto tempo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E a senhora n\u00e3o acreditou? perguntou Oliveira \u00e0 linda vi\u00fava<\/p>\n<p>\u2014 Confesso que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Pensa, como minha m\u00e3e, que sou invulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sucederam-se as visitas entre as duas casas, mas nenhum incidente veio perturbar a resolu\u00e7\u00e3o em que estava Genoveva de cortar inteiramente quaisquer esperan\u00e7as que pudesse haver dado ao advogado. Oliveira era ainda o mesmo homem respeitoso. Passaram-se algumas semanas. Um dia, Genoveva ouviu dizer que Oliveira ia casar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, disse ela \u00e0 amiga que lhe deu a not\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, por qu\u00ea? acudiu a outra. Vai casar com a filha de um comerciante ingl\u00eas, um Stanley. Todos sabem disto.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim, como eu pouco saio&#8230;<\/p>\n<p>Justifiquemos a vi\u00fava. N\u00e3o lhe parecia poss\u00edvel, porque ele visitava-as com tal freq\u00fc\u00eancia, que n\u00e3o se podia crer em casamento tratado. Quando visitaria a noiva? Apesar da raz\u00e3o, Genoveva sentia que podia ser assim mesmo. Talvez o futuro sogro fosse algum esquisit\u00e3o, que n\u00e3o admitisse a visita de todas as noites. Notou que, a par disto, Oliveira era desigual com ela; tinha dias e dias de indiferen\u00e7a, depois l\u00e1 vinha um olhar, uma palavra, um dito, um aperto de m\u00e3o&#8230; Os apertos de m\u00e3o eram o sinal mais freq\u00fcente: tanto que ela sentia alguma falta no dia em que ele era frouxo, e esperava o dia seguinte para ver se era mais forte. Lan\u00e7ava estas curiosidades \u00e0 conta da vaidade. Vaidade de mulher bonita, dizia a si mesma.<\/p>\n<p>Daquela vez, por\u00e9m, esperou-o com certa \u00e2nsia, e fez-lhe bem o aperto de m\u00e3o com que ele a saudou na sala. Arrependera-se de n\u00e3o ter contado \u00e0 m\u00e3e a not\u00edcia do casamento, para que esta perguntasse ao advogado; e, n\u00e3o se podendo ter, falou ela mesma.<\/p>\n<p>\u2014 Eu, minha senhora?<\/p>\n<p>Genoveva continuou sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser outro Oliveira, tamb\u00e9m advogado, que est\u00e1 realmente para casar este m\u00eas. Eu n\u00e3o me casarei nunca.<\/p>\n<p>Naquela noite, Genoveva, ao deitar-se olhou ternamente para o retrato do finado marido, rezou-lhe dobrado, e tarde dormiu, com medo de outra valsa; mas acordou sem sonhos.<\/p>\n<p>Que poder\u00e1 haver entre uma vi\u00fava que promete ao finado esposo, em sonhos, n\u00e3o contrair segundas n\u00fapcias, e um advogado que declara, em conversa\u00e7\u00e3o, que jamais se casar\u00e1? Parece que nada ou muito; mas \u00e9 que o leitor n\u00e3o sabe ainda que este Oliveira tem por plano n\u00e3o saltar o barranco sem que ela lhe estenda as duas m\u00e3os, posto que a adore, como dizem todos os enamorados. A ultima declara\u00e7\u00e3o teve por fim dar um grande golpe, por modo que a desafiasse a desmentir-se. E pareceu-lhe, ao sair, que algum efeito produzira, visto que a m\u00e3o de Genoveva tremia um pouco, muito pouco, e que a ponta dos dedos&#8230; N\u00e3o, aqui foi ilus\u00e3o; os dedos dela n\u00e3o lhe fizeram nada.<\/p>\n<p>Notem bem que eu n\u00e3o tenho culpa destas hist\u00f3rias enfadonhas de dedos e contradedos, e palavras sem sentido, outras meio inclinadas, outras claras, obscuras; menos ainda dos planos de um e das promessas de outro. Eu, se pudesse, logo no segundo dia tinha pegado em ambos, ligava-lhes as m\u00e3os, e dizia-lhes: Casem-se. E passava a contar outras historias menos mon\u00f3tonas. Mas, as pessoas s\u00e3o estas; \u00e9 preciso aceit\u00e1-las assim mesmo.<\/p>\n<p>Passaram-se dias, uma, duas, tr\u00eas semanas, sem incidente maior. Oliveira parecia deixar a estrat\u00e9gia de Fabio Cunctator. Um dia declarou francamente \u00e0 vi\u00fava que a amava; era um s\u00e1bado, em casa dela, antes de jantar, enquanto as duas m\u00e3es os tinham deixado s\u00f3s. Genoveva abria as folhas de um romance franc\u00eas que Oliveira lhe trouxera. Ele fitava pela cent\u00e9sima vez uma aquarela, pendurada no trecho da parede que ficava entre duas janelas. Bem ouvia a faca de marfim rasgando as folhas espessas do livro, e o sil\u00eancio deixado pelas duas senhoras que tinham deixado a sala; mas n\u00e3o voltava a cabe\u00e7a nem baixava os olhos. Baixou-os de repente, e voltou-os para a vi\u00fava. Ela sentia-os, e, para dizer alguma coisa:<\/p>\n<p>\u2014 Sabe se \u00e9 bonito o romance? perguntou, parando de rasgar as folhas.<\/p>\n<p>\u2014 Dizem-me que sim.<\/p>\n<p>Oliveira foi sentar-se em um pouf, que estava ao p\u00e9 do sof\u00e1, e fitou as m\u00e3os de Genoveva, pousadas sobre o livro aberto, mas as m\u00e3os continuaram o seu of\u00edcio para escapar \u00e0 admira\u00e7\u00e3o do homem, como, se cortando as folhas, fossem menos admir\u00e1veis que paradas. Alongou-se o sil\u00eancio, um sil\u00eancio constrangido \u2014 que Genoveva quisera romper, sem achar modo nem ocasi\u00e3o. Pela sua parte, Oliveira tinha \u00edmpetos de lhe dizer subitamente o resto do que ela devia saber pelos \u00faltimos dias; mas n\u00e3o cedia aos \u00edmpetos, e acabou trivialmente elogiando-lhe as m\u00e3os. N\u00e3o valia a pena tanto trabalho para acabar assim. Ele, por\u00e9m, vexado da situa\u00e7\u00e3o, p\u00f4s toda a alma na boca e perguntou \u00e0 vi\u00fava se desejava ser sua esposa.<\/p>\n<p>Desta vez, as m\u00e3os pararam sem plano. Genoveva, confusa, pregou os olhos no livro, e o sil\u00eancio entre os dois fez-se mais longo e profundo. Oliveira olhava para ela; via-lhe as p\u00e1lpebras ca\u00eddas e a respira\u00e7\u00e3o curta. Que palavra estaria dentro dela? Hesitava pelo vexame de dizer que sim? ou pelo aborrecimento de dizer que n\u00e3o? Oliveira tinha raz\u00f5es para crer na primeira hip\u00f3tese. Os \u00faltimos dias foram de acordo t\u00e1cito, de consentimento pr\u00e9vio. Entretanto, a palavra n\u00e3o sa\u00eda; e a mem\u00f3ria do sonho veio complicar a situa\u00e7\u00e3o. Genoveva recordou-se da penosa e triste valsa, da promessa e do f\u00e9retro, e empalideceu. Nisto foram interrompidos pelas duas senhoras, que voltaram \u00e0 sala.<\/p>\n<p>O jantar foi menos animado que de costume. De noite, vieram algumas pessoas, e a situa\u00e7\u00e3o piorou. Separaram-se sem resposta. A manh\u00e3 seguinte foi cheia de t\u00e9dio para Genoveva, um t\u00e9dio temperado com alegria que bem fazia adivinhar o estado da alma da mo\u00e7a. Oliveira n\u00e3o apareceu nesse dia; mas, veio no outro, \u00e0 noite. A resposta que ela deu n\u00e3o podia ser mais decisiva, ainda que tr\u00eamula e murmurada.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui um repert\u00f3rio de pequenas coisas infinitas, que n\u00e3o pode entrar em um simples conto nem ainda em longo romance; n\u00e3o teria gra\u00e7a escrito. Sabe-se o que sucede desde a aceita\u00e7\u00e3o de um noivo at\u00e9 o casamento. O que se n\u00e3o sabe, por\u00e9m, \u00e9 o que aconteceu com esta nossa amiga, dias antes de casar. \u00c9 o que se vai ler para acabar.<\/p>\n<p>Desde duas semanas antes da pergunta de Oliveira, a vi\u00fava deitava-se sem olhar para o retrato do finado marido. Logo depois da resposta, olhava-o algumas vezes, de soslaio, at\u00e9 que tornou ao anterior costume. Ora, uma noite, quatro dias antes de casar, como houvesse pensado no sonho da valsa e na promessa n\u00e3o cumprida, deitou-se com medo e s\u00f3 dormiu sobre a madrugada. Nada lhe sucedeu; mas, na segunda noite, teve um sonho extraordin\u00e1rio. N\u00e3o era a valsa do outro sonho, posto que, ao longe, na penumbra, via uns contornos cinzentos de vultos que andavam \u00e0 roda. Viu, por\u00e9m, o marido, a princ\u00edpio severo, depois triste, perguntando-lhe como \u00e9 que esquecera a promessa. Genoveva n\u00e3o respondeu nada; tinha a boca tapada por um carrasco, que era n\u00e3o menos que Oliveira.<\/p>\n<p>\u2014 Responde, Genoveva!<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Tu esqueceste tudo. Est\u00e1s condenada ao inferno!<\/p>\n<p>Uma l\u00edngua de fogo lambeu a parte do c\u00e9u, que se conservava azul, porque todo o resto era um amontoado de nuvens carregadas de tempestade. Do meio delas saiu um vento furioso, que pegou da mo\u00e7a, do defunto marido e do noivo e os levou por uma estrada fora, estreita, lamacenta, cheia de cobras.<\/p>\n<p>\u2014 O inferno! sim! o inferno!<\/p>\n<p>E o carrasco tapava-lhe a boca, e ela mal podia gemer uns gritos abafados.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ah!<\/p>\n<p>Parou o vento, as cobras ergueram-se do ch\u00e3o e dispersaram-se no ar, entrando cada uma pelo c\u00e9u dentro; algumas ficaram com a cauda de fora. Genoveva sentiu-se livre; desaparecera o carrasco, e o defunto esposo, de p\u00e9, p\u00f4s-lhe a m\u00e3o na cabe\u00e7a, e disse com voz prof\u00e9tica:<\/p>\n<p>\u2014 Morrer\u00e1s se casares!<\/p>\n<p>Desapareceu tudo; Genoveva acordou; era dia. Ergueu-se tr\u00eamula; o susto foi passando, e mais tarde, ao cuidar do caso, dizia consigo: &#8220;. Casou e n\u00e3o morreu<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cr\u00eas em sonhos? H\u00e1 pessoas que os aceitam como a palavra do destino e da verdade. Outros h\u00e1 que os desprezam. Uma terceira classe explica-os, atribuindo-os a causas naturais. 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