{"id":118229,"date":"2017-04-04T19:10:22","date_gmt":"2017-04-04T21:10:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118229"},"modified":"2017-04-04T19:10:22","modified_gmt":"2017-04-04T21:10:22","slug":"um-homem-superior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior","title":{"rendered":"Um Homem Superior"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p>Ap\u00f3s uma noite de ins\u00f4nia, saiu Clemente Soares da casa em que morava, \u00e0 Rua da Miseric\u00f3rdia, e entrou a caminhar \u00e0 toa pelas ruas da cidade.<\/p>\n<p>Eram quatro horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Os homens do g\u00e1s come\u00e7avam a apagar os lampi\u00f5es, e as ruas, ainda n\u00e3o bem alumiadas pela aurora, que apontava apenas, apresentavam um aspecto l\u00fagubre. Clemente caminhava lento e pensativo. De quando em quando abalroava nele uma quitandeira que se dirigia para as pra\u00e7as do mercado com o cesto ou o tabuleiro \u00e0 cabe\u00e7a, acompanhada de um preto que levava outro cesto e a barraca. Clemente parecia despertar dos seus devaneios, mas reca\u00eda logo neles at\u00e9 nova interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que o c\u00e9u clareava, abriam-se as portas dos botequins, para fazer concorr\u00eancia aos vendedores de caf\u00e9 ambulantes que desde a meia-noite percorriam a cidade em todos os sentidos. Ao mesmo tempo come\u00e7avam a passar os trabalhadores dos arsenais atroando as ruas com os seus grossos tamancos. N\u00e3o poucos entravam nos botequins e aqueciam o est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Os entregadores dos jornais conclu\u00edam a sua tarefa com aquela precis\u00e3o de mem\u00f3ria que sempre invejei a esses funcion\u00e1rios da imprensa. As tavernas abriam as suas portas e ornavam os portais com as amostras do uso. Da\u00ed a pouco era completamente dia; j\u00e1 a cidade come\u00e7ava a levantar-se toda; numerosas pessoas transitavam a rua; as lojas de todo g\u00eanero abriam as suas portas&#8230; Era dia.<\/p>\n<p>Clemente Soares n\u00e3o deu f\u00e9 de toda esta gradual mudan\u00e7a; continuou a andar \u00e0 toa, at\u00e9 que, cansado, foi ter \u00e0 Praia de Santa Luzia, e a\u00ed ficou a olhar para o mar.<\/p>\n<p>Em qualquer outra circunst\u00e2ncia \u00e9 muito prov\u00e1vel que Clemente Soares admirasse o quadro que se lhe apresentava ante os olhos. Mas naquela ocasi\u00e3o o pobre rapaz olhava para dentro. Tudo \u00e0 roda dele lhe era indiferente; um grande pensamento o preocupava.<\/p>\n<p>Que pensamento?<\/p>\n<p>N\u00e3o era novo; era um pensamento quase t\u00e3o velho como o mundo, um pensamento que s\u00f3 h\u00e1 de acabar quando acabarem os s\u00e9culos.<\/p>\n<p>N\u00e3o era bonito; era um pensamento feio, repelente, terr\u00edvel, capaz de trazer \u00e0 mais bela alma a mais completa dem\u00eancia, e fazer de um g\u00eanio um idiota.<\/p>\n<p>N\u00e3o era obscuro; era um pensamento claro, evidente, incontest\u00e1vel, di\u00e1fano, um pensamento simples, que dispensava toda e qualquer demonstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Clemente Soares n\u00e3o tinha dinheiro.<\/p>\n<p>S\u00f3 o muito amor que tenho aos leitores me dispensa de fazer aqui a longa disserta\u00e7\u00e3o que este assunto est\u00e1 pedindo. Demais, para alguns deles seria in\u00fatil a disserta\u00e7\u00e3o. A maior parte dos homens h\u00e1 de ter compreendido, ao menos uma vez na vida, o que \u00e9 n\u00e3o ter dinheiro. A mo\u00e7a que v\u00ea o namorado distra\u00eddo, o amigo que v\u00ea o amigo passar por ele sem lhe tirar o chap\u00e9u, antes de fazer qualquer ju\u00edzo temer\u00e1rio, deve perguntar consigo: estar\u00e1 ele sem dinheiro?<\/p>\n<p>Clemente Soares, pois, estava nessa prec\u00e1ria situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha dinheiro, nem esperan\u00e7as de o ter, posto fosse um rapaz engenhoso e cheio de recursos.<\/p>\n<p>N\u00e3o era contudo t\u00e3o grande a falta que n\u00e3o pudesse almo\u00e7ar. Introduzindo na algibeira do colete o indicador e o polegar, como quem tira uma pitada, arrancou de l\u00e1 dois cart\u00f5es da barca Ferry; e era quanto bastava para um almo\u00e7o no Carceller.<\/p>\n<p>Desceu pela Rua da Miseric\u00f3rdia, entrou em casa para pesquisar as gavetas a ver se encontrava um charuto esquecido; teve a fortuna de encontrar dois cigarros, e foi almo\u00e7ar. Duas horas depois estava em casa almo\u00e7ado e fumado. Tirou de uma velha estante um volume de Balzac e disp\u00f4s-se a esperar o jantar.<\/p>\n<p>E de onde viria o jantar?<\/p>\n<p>O jantar n\u00e3o preocupava muito a Clemente Soares. Costumava obter esse elemento da vida na casa comercial de um amigo, aonde n\u00e3o ia almo\u00e7ar, a fim de n\u00e3o parecer que n\u00e3o tinha com qu\u00ea. N\u00e3o se diria o mesmo do jantar, porque o dito amigo lhe dissera uma vez que lhe faria grande obs\u00e9quio em ir l\u00e1 jantar todos os dias. Do almo\u00e7o n\u00e3o disse o mesmo; por isso Clemente Soares n\u00e3o se atrevia a l\u00e1 ir.<\/p>\n<p>Clemente era orgulhoso.<\/p>\n<p>E n\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis a necessidade e o orgulho! O desditoso mortal a quem a natureza e a fortuna deram estes dois flagelos, pode dizer que \u00e9 a mais triste de todas as criaturas.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>A casa de Clemente Soares n\u00e3o tinha o aspecto miser\u00e1vel que a algibeira do rapaz fazia crer. Via-se que era casa onde j\u00e1 houvera alguma coisa, embora pouca. Era casa de rapaz solteiro, adornada com certo gosto, no tempo em que o dono gozava de sofr\u00edvel ordenado.<\/p>\n<p>Alguma coisa lhe faltava, mas n\u00e3o era do necess\u00e1rio; sen\u00e3o do sup\u00e9rfluo. Clemente vendera, apenas, alguns livros, dois ou tr\u00eas vasos, uma estatueta, uma charuteira e poucas coisas mais, que n\u00e3o faziam grande falta. E quem o visse ali, estendido no sof\u00e1, metido em um chambre, lendo um volume encadernado em Paris, diria que o bom rapaz era um estudante rico, que havia falhado a aula e enchia com alguma distra\u00e7\u00e3o as horas, at\u00e9 receber uma carta da namorada.<\/p>\n<p>Namorada! Havia efetivamente na vida de Clemente Soares uma namorada, mas j\u00e1 pertencia aos exerc\u00edcios findos. Era uma menina galante como uma das Gra\u00e7as, mas que na opini\u00e3o de Clemente ficou t\u00e3o feia como uma das F\u00farias, desde que soube que o pai apenas teria umas cinco ap\u00f3lices.<\/p>\n<p>Clemente Soares n\u00e3o tinha cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o mesquinho que se deixasse vencer por cinco ap\u00f3lices. Demais, n\u00e3o a namorava muito disposto ao casamento; foi uma esp\u00e9cie de aposta com outros rapazes. Trocou algumas cartinhas com a mo\u00e7a e precipitou o desenlace da com\u00e9dia fazendo uma retirada airosa.<\/p>\n<p>Carlotinha n\u00e3o era felizmente mo\u00e7a de grandes enlevos. Deu dois murros no ar quando adquiriu certeza da retirada do rapaz, e travou namoro com outro que lhe andava a rondar a porta.<\/p>\n<p>Fora esse o \u00fanico amor, ou coisa que o valha, do nosso Clemente, que da\u00ed em diante n\u00e3o procurou outras aventuras.<\/p>\n<p>E como o faria agora, que se achava desempregado, sem vint\u00e9m, cheio de ambi\u00e7\u00f5es, vazio de meios?<\/p>\n<p>Nem pensava nisso.<\/p>\n<p>Era perto das tr\u00eas horas da tarde, quando recebeu um bilhetinho do amigo em cuja casa costumava jantar.<\/p>\n<p>Dizia assim:<\/p>\n<p>A casa de Clemente Soares n\u00e3o tinha o aspecto miser\u00e1vel que a algibeira do rapaz fazia crer. Via-se que era casa onde j\u00e1 houvera alguma coisa, embora pouca. Era casa de rapaz solteiro, adornada com certo gosto, no tempo em que o dono gozava de sofr\u00edvel ordenado.<\/p>\n<p>Alguma coisa lhe faltava, mas n\u00e3o era do necess\u00e1rio; sen\u00e3o do sup\u00e9rfluo. Clemente vendera, apenas, alguns livros, dois ou tr\u00eas vasos, uma estatueta, uma charuteira e poucas coisas mais, que n\u00e3o faziam grande falta. E quem o visse ali, estendido no sof\u00e1, metido em um chambre, lendo um volume encadernado em Paris, diria que o bom rapaz era um estudante rico, que havia falhado a aula e enchia com alguma distra\u00e7\u00e3o as horas, at\u00e9 receber uma carta da namorada.<\/p>\n<p>Namorada! Havia efetivamente na vida de Clemente Soares uma namorada, mas j\u00e1 pertencia aos exerc\u00edcios findos. Era uma menina galante como uma das Gra\u00e7as, mas que na opini\u00e3o de Clemente ficou t\u00e3o feia como uma das F\u00farias, desde que soube que o pai apenas teria umas cinco ap\u00f3lices.<\/p>\n<p>Clemente Soares n\u00e3o tinha cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o mesquinho que se deixasse vencer por cinco ap\u00f3lices. Demais, n\u00e3o a namorava muito disposto ao casamento; foi uma esp\u00e9cie de aposta com outros rapazes. Trocou algumas cartinhas com a mo\u00e7a e precipitou o desenlace da com\u00e9dia fazendo uma retirada airosa.<\/p>\n<p>Carlotinha n\u00e3o era felizmente mo\u00e7a de grandes enlevos. Deu dois murros no ar quando adquiriu certeza da retirada do rapaz, e travou namoro com outro que lhe andava a rondar a porta.<\/p>\n<p>Fora esse o \u00fanico amor, ou coisa que o valha, do nosso Clemente, que da\u00ed em diante n\u00e3o procurou outras aventuras.<\/p>\n<p>E como o faria agora, que se achava desempregado, sem vint\u00e9m, cheio de ambi\u00e7\u00f5es, vazio de meios?<\/p>\n<p>Nem pensava nisso.<\/p>\n<p>Era perto das tr\u00eas horas da tarde, quando recebeu um bilhetinho do amigo em cuja casa costumava jantar.<\/p>\n<p>Dizia assim:<\/p>\n<p>Clemente. N\u00e3o deixes de vir hoje. Temos um neg\u00f3cio. Teu Castrioto<\/p>\n<p>A recomenda\u00e7\u00e3o era in\u00fatil; Clemente n\u00e3o deixaria de l\u00e1 ir, mas a segunda parte do bilhete era rutilante de promessas.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco estava em casa de Castrioto, honrado negociante de fazendas, que o recebeu com duas ou tr\u00eas gra\u00e7as de boa intimidade e o levou para o fundo da lo]a onde lhe prop\u00f4s um emprego.<\/p>\n<p>\u2014 O Medeiros, disse ele, est\u00e1 sem guarda-livros. Quer voc\u00ea ir para l\u00e1?<\/p>\n<p>Isso era um raio de sol que alumiava a alma do m\u00edsero Clemente; todavia, como na gratid\u00e3o entra sempre um tanto de diplomacia, recebeu Clemente a not\u00edcia e a oferta com ar de calculada indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o duvido ir, disse ele, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea bem sabe que eu j\u00e1 estive em casas que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei, interrompeu Castrioto, fala do ordenado.<\/p>\n<p>\u2014 Justo.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas contos e seiscentos, serve?<\/p>\n<p>Clemente estremeceu dentro de si; mas achou conveniente fazer uma pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 Com comida?<\/p>\n<p>\u2014 E casa, se quiser, respondeu Castrioto.<\/p>\n<p>\u2014 Serve. Obrigado.<\/p>\n<p>E dizendo isto, apertou Clemente Soares as m\u00e3os do amigo, desta vez com todas as mostras de entusiasmo, o que alegrou muito a Castrioto, que o estimava deveras.<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 tinha alguma coisa em vista, disse Clemente depois de alguns instantes; mas era prec\u00e1rio e inferior ao que voc\u00ea me oferece.<\/p>\n<p>\u2014 Pois v\u00e1 l\u00e1 amanh\u00e3, disse Castrioto; ou, melhor, iremos logo depois do jantar.<\/p>\n<p>Assim se fez.<\/p>\n<p>Logo depois do jantar conduziu Castrioto o amigo \u00e0 casa do Medeiros, que recebeu com extremo prazer o novo guarda-livros. E no dia seguinte entrou Clemente Soares no exerc\u00edcio das suas novas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Em dois simples cap\u00edtulos vimos um rapaz desarranjado e arranjado, pescando um cart\u00e3o de barca no bolso do colete e ganhando tr\u00eas contos e seiscentos mil-r\u00e9is por ano.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode andar mais depressa.<\/p>\n<p>Mas por que fui eu t\u00e3o longe, quando podia apresentar Clemente Soares j\u00e1 empregado, poupando \u00e0 piedade dos leitores o espet\u00e1culo de um rapaz sem almo\u00e7o certo?<\/p>\n<p>Fi-lo para que o leitor, depois de presenciar as finezas do negociante Castrioto, se admirasse, como lhe vai acontecer, de que Clemente Soares ao cabo de dois meses esquecesse de tirar o chap\u00e9u ao ex-anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Pela raz\u00e3o simples de que o excelente Castrioto teve a infelicidade de falir, e alguns amigos come\u00e7aram a desconfiar de que falira fraudulentamente.<\/p>\n<p>Castrioto ficou assaz magoado quando lhe aconteceu esta aventura; mas era homem fil\u00f3sofo e tinha quarenta anos feitos, idade em que s\u00f3 um homem de singular simplicidade pode ter ilus\u00f5es a respeito da gratid\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Clemente Soares tinha o seu emprego e o desempenhava com extrema solicitude. Alcan\u00e7ou n\u00e3o ter hora certa para entrar no escrit\u00f3rio e, com esta, outras mais facilidades que lhe deu o dono da casa.<\/p>\n<p>J\u00e1 nesse tempo n\u00e3o havia aquele rigor antigo, que n\u00e3o permitia aos empregados de uma casa comercial certos usos da vida gamenha. Usava pois o nosso Clemente Soares tudo quanto a moda prescrevia. No fim de um ano, Medeiros elevou-lhe o ordenado a quatro contos e seiscentos mil-r\u00e9is, com a esperan\u00e7a de interesse na casa.<\/p>\n<p>Clemente Soares ganhou depressa a estima do dono da casa. Era sol\u00edcito, zeloso, e sabia levar os homens. Dotado de intelig\u00eancia aguda, e instru\u00eddo, resolvia todas as d\u00favidas que estavam acima do entendimento de Medeiros.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou, pois, que fosse considerado pessoa necess\u00e1ria no estabelecimento, verdadeiro alvo de seus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo tratou de se descartar de certos conhecimentos do tempo em que tinha o almo\u00e7o casual e a ceia incerta. Clemente Soares professava o princ\u00edpio de que a um pobre n\u00e3o se tira chap\u00e9u em nenhuma hip\u00f3tese, salvo se se encontram num beco deserto, e ainda assim sem grandes mostras de intimidade, a fim de n\u00e3o dar confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Desejoso de subir, n\u00e3o faltou Clemente Soares ao primeiro convite que lhe fez Medeiros para um jantar que dava em casa a um diplomata estrangeiro. O diplomata simpatizou com o guarda-livros, que da\u00ed a oito dias lhe fez uma visita.<\/p>\n<p>Com estas e outras tra\u00e7as foi o nosso Clemente penetrando na sociedade que convinha ao seu gosto, e n\u00e3o tardou que lhe chovessem em casa os convites de bailes e jantares. Cumpre dizer que j\u00e1 nesse tempo o guarda-livros tinha um interesse na casa de Medeiros, que o apresentava orgulhosamente como seu s\u00f3cio.<\/p>\n<p>Nesta situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 lhe faltava uma noiva elegante e rica.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe faltava onde escolher; mas n\u00e3o era isso t\u00e3o f\u00e1cil como o resto.<\/p>\n<p>As noivas ou eram ricas demais ou pobres demais para ele. Mas Clemente confiava na sua estrela, e esperava.<\/p>\n<p>Saber esperar \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>Uma tarde, passando pela Rua da Quitanda, viu apear-se de um carro um velho e pouco depois uma linda rapariga, que ele conheceu imediatamente.<\/p>\n<p>Era Carlotinha.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a trajava como quem possu\u00eda, e o velho tinha um ar que cheirava a riqueza a cem l\u00e9guas de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Era marido? padrinho? tio? protetor?<\/p>\n<p>Clemente Soares n\u00e3o p\u00f4de resolver este ponto. O que lhe pareceu foi que o velho era homem de serra-acima.<\/p>\n<p>Tudo isto pensou ele enquanto tinha os olhos cravados em Carlotinha, que estava espl\u00eandida de beleza.<\/p>\n<p>Entrou o par numa loja conhecida de Clemente, que tamb\u00e9m l\u00e1 entrou para ver se a mo\u00e7a o reconhceia.<\/p>\n<p>Carlota reconheceu o antigo namorado, mas nenhuma fibra do rosto se lhe contraiu; comprou o que ia buscar, e entrou com o velho no carro.<\/p>\n<p>Clemente ainda teve id\u00e9ia de chamar um t\u00edlburi, mas desistiu da id\u00e9ia, e seguiu dire\u00e7\u00e3o oposta.<\/p>\n<p>Durante toda a noite pensou na gentil menina que ele havia deixado em outro tempo. Entrou a perguntar a si mesmo se aquele velho seria marido dela, e se ela havia enriquecido com o casamento. Ou seria um padrinho rico, que resolvera deix\u00e1-la por herdeira de tudo? Todas estas id\u00e9ias galoparam na cabe\u00e7a de Clemente Soares, at\u00e9 que o sono se apoderou dele.<\/p>\n<p>De manh\u00e3 tudo estava esquecido.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>Dois dias depois, quem lhe havia de aparecer no escrit\u00f3rio?<\/p>\n<p>O velho.<\/p>\n<p>Clemente Soares apressou-se a servi-lo com toda a solicitude e zelo.<\/p>\n<p>Era um fazendeiro, fregu\u00eas da casa de Medeiros e morador de serra-acima. Chamava-se o comendador Brito. Tinha sessenta anos e uma dor reum\u00e1tica na perna esquerda. Possu\u00eda grandes cabedais e excelente reputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Clemente Soares captou as boas gra\u00e7as do comendador Brito nas poucas vezes que ele l\u00e1 foi. Fez-lhe mil obs\u00e9quios de pequena monta, cercou-o de todas as aten\u00e7\u00f5es, fascinou-o com discursos, a ponto que o comendador mais de uma vez lhe teceu grandes elogios em conversa com Medeiros.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um excelente mo\u00e7o, respondia Medeiros, muito discreto, inteligente, servi\u00e7al; \u00e9 uma p\u00e9rola&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tenho notado isso mesmo, dizia o comendador. Nas condi\u00e7\u00f5es dele ainda n\u00e3o achei pessoa que mere\u00e7a tanto.<\/p>\n<p>Aconteceu um dia deixar o comendador em cima da escrivaninha de Clemente Soares a boceta do rap\u00e9, que era de ouro.<\/p>\n<p>Clemente viu a boceta apenas o comendador voltou as costas, mas n\u00e3o quis incomod\u00e1-lo, e deixou-o ir adiante. Na v\u00e9spera acontecera o mesmo com o len\u00e7o, e Clemente teve o cuidado de lho ir levar \u00e0 escada. O comendador Brito era tido e havido por um dos homens mais esquecidos do seu tempo. Ele mesmo dizia que n\u00e3o esquecia o nariz na cama por t\u00ea-lo pregado na cara.<\/p>\n<p>\u00c0 hora do jantar, disse Clemente Soares ao patr\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 O comendador esqueceu c\u00e1 a boceta.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? \u00c9 preciso mand\u00e1-la. \u00d3 Jos\u00e9!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mandar uma boceta de ouro por um preto, n\u00e3o me parece seguro, objetou Clemente Soares.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o Jos\u00e9 \u00e9 fidel\u00edssimo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe? a ocasi\u00e3o faz o ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creia nisso, respondeu Medeiros sorrindo; vou mand\u00e1-la j\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Al\u00e9m disso, o comendador \u00e9 um homem respeit\u00e1vel; n\u00e3o ser\u00e1 bonito mandar assim a boceta por um preto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vai um caixeiro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor, vou eu mesmo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois quer?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que tem isso? retorquiu Clemente Soares rindo; n\u00e3o \u00e9 coisa do outro mundo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois fa\u00e7a o que lhe parecer. Nesse caso leve-lhe tamb\u00e9m aqueles pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Clemente Soares informado da casa do comendador, meteu-se num t\u00edlburi e mandou tocar para l\u00e1.<\/p>\n<p>O comendador Brito vinha passar alguns meses na corte; tinha alugado uma bela casa, e deu \u00e0 mulher (porque Carlotinha era sua mulher) a dire\u00e7\u00e3o no arranjo e escolha dos m\u00f3veis, no que ela se houve com extrema per\u00edcia.<\/p>\n<p>N\u00e3o nascera aquela mo\u00e7a entre brocados nem fora educada entre as paredes de casa rica; tinha, por\u00e9m, um instinto do belo e um grande dom de observa\u00e7\u00e3o, mediante o que conseguira habituar-se facilmente ao mundo novo em que entrara.<\/p>\n<p>Eram seis horas da tarde quando Clemente Soares chegou \u00e0 casa do comendador, onde foi recebido com todos os sinais de simpatia.<\/p>\n<p>\u2014 Aposto que o Medeiros lhe deu todo este inc\u00f4modo, disse o comendador Brito, para me mandar uns pap\u00e9is&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Trago, com efeito, esses pap\u00e9is, respondeu Clemente, mas n\u00e3o \u00e9 esse o principal objeto da minha visita. Trago-lhe a caixa de rap\u00e9, que V. Excia. esqueceu l\u00e1.<\/p>\n<p>E dizendo isto tirou do bolso o aludido objeto, que o comendador recebeu com alvoro\u00e7o e reconhecimento.<\/p>\n<p>\u2014 Eu havia de jurar que tinha deixado na casa de Jo\u00e3o Pedro da Veiga, onde fui comprar uns bilhetes para serra-acima. Agrade\u00e7o-lhe muito a sua fineza; mas por que veio pessoalmente? por que tomou este inc\u00f4modo?<\/p>\n<p>\u2014 Quando fosse inc\u00f4modo, respondeu Clemente, e est\u00e1 longe disso, ficaria bem pago com a honra de ser recebido por V. Excia.<\/p>\n<p>O comendador gostava de ouvir finezas como todos os mortais que vivem debaixo do sol. E Clemente Soares sabia-as dizer de modo especial. De maneira que j\u00e1 essa noite passou-a Clemente em casa do comendador, de onde saiu depois de prometer que voltaria l\u00e1 mais vezes.<\/p>\n<p>Trouxe boas impress\u00f5es do comendador; n\u00e3o assim de Carlotinha que parecia extremamente severa com ele. Debalde o rapaz a cercava de aten\u00e7\u00f5es e respeitos, afetando n\u00e3o a ter conhecido, quando ali\u00e1s podia alegar um beijo que lhe dera uma vez, a furto, entre duas janelas, no tempo do namoro&#8230;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era Clemente Soares homem que envergonhasse ningu\u00e9m, muito menos uma mo\u00e7a que ainda podia faz\u00ea-lo feliz. Por isso n\u00e3o saiu dos limites do respeito, convencido de que a pertin\u00e1cia vence tudo.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p>E venceu.<\/p>\n<p>Ao cabo de um m\u00eas j\u00e1 a esposa do comendador n\u00e3o se mostrava arisca e o tratava com vivos sinais de estima. Clemente sup\u00f4s que estava perdoado. Redobrou de aten\u00e7\u00f5es, tornou-se um verdadeiro escudeiro da mo\u00e7a. O comendador morria por ele. Era o ai-jesus da casa.<\/p>\n<p>Carlotinha estava mais bela do que nunca; antigamente n\u00e3o podia real\u00e7ar as gra\u00e7as pessoais com os inventos da ind\u00fastria elegante; mas agora, que lhe sobravam meios, a boa mo\u00e7a tratava quase exclusivamente de p\u00f4r em relevo o seu airoso porte, tez morena, olhos negros, testa elevada, boca de V\u00eanus, m\u00e3os de fada, e o mais que a imaginativa dos namorados e dos poetas costuma dizer em casos tais.<\/p>\n<p>Estaria Clemente apaixonado por ela?<\/p>\n<p>N\u00e3o.<\/p>\n<p>Clemente antevia que os dias do comendador n\u00e3o eram longos, e se havia de ir tentar alguma empresa, mais duvidosa e arriscada, n\u00e3o era melhor continuar aquela j\u00e1 come\u00e7ada alguns anos antes?<\/p>\n<p>Ignorava ele por que concurso de circunst\u00e2ncias Carlotinha tinha escolhido aquele marido, cujo \u00fanico m\u00e9rito, para ele, era ter uma grande riqueza. Mas conclu\u00eda de si para si que ela seria essencialmente vaidosa, e para captar-lhe as boas gra\u00e7as, fez e disse tudo o que pode seduzir a vaidade de uma mulher.<\/p>\n<p>Um dia ousou fazer uma alus\u00e3o ao passado.<\/p>\n<p>\u2014 Lembra-se, disse ele, da Rua das Mangueiras?<\/p>\n<p>Carlotinha franziu a testa e saiu da sala.<\/p>\n<p>Clemente ficou fulminado; meia hora depois estava reposto na sua habitual indol\u00eancia e mais disposto que nunca a perscrutar o cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a. Julgou, por\u00e9m, que era prudente deixar passar algum tempo e procurar outros meios.<\/p>\n<p>Passeava uma tarde com ela no jardim, enquanto o comendador discutia com Medeiros debaixo de uma mangueira sobre alguns assuntos de com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>\u2014 Que me disse outro dia o senhor a respeito da Rua das Mangueiras? perguntou repentinamente Carlotinha.<\/p>\n<p>Clemente estremeceu.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o falemos nisso, disse ele sacudindo a cabe\u00e7a. Deixemos o passado que morreu.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondeu a mo\u00e7a e os dois continuaram a passear silenciosamente at\u00e9 que se acharam assaz distantes do comendador.<\/p>\n<p>Clemente rompeu o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Por que me esqueceu t\u00e3o depressa? disse ele.<\/p>\n<p>Carlotinha levantou a cabe\u00e7a com um movimento de surpresa; depois sorriu-se com ironia e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Por que o esqueci?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi o senhor quem me esqueceu?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! Eu recuei diante de uma impossibilidade. Era infeliz nesse tempo; n\u00e3o tinha os meios necess\u00e1rios para despos\u00e1-la; e preferi o desespero&#8230; Sim, o desespero! Nunca a senhora h\u00e1 de ter id\u00e9ia do que sofri nos primeiros meses da nossa separa\u00e7\u00e3o. Sabe Deus que l\u00e1grimas de sangue chorei no sil\u00eancio&#8230; Mas era necess\u00e1rio. E bem v\u00ea que foi obra do destino, porque a senhora \u00e9 hoje feliz.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a deixou-se cair em um banco.<\/p>\n<p>\u2014 Feliz! disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Carlotinha abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Por que se casou ent\u00e3o com&#8230;<\/p>\n<p>Estacou.<\/p>\n<p>\u2014 Acabe, disse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! perdoe-me!<\/p>\n<p>Foram interrompidos por Medeiros, que vinha de bra\u00e7o com o comendador, e disse em voz alta:<\/p>\n<p>\u2014 Sinto dizer, minha senhora, que preciso do meu guarda-livros.<\/p>\n<p>\u2014 E eu estou \u00e0s suas ordens, respondeu Clemente rindo, mas um pouco despeitado.<\/p>\n<p>No dia seguinte j\u00e1 Carlotinha n\u00e3o p\u00f4de ver o rapaz sem corar um pouco, excelente sintoma para quem prepara uma vi\u00fava.<\/p>\n<p>Quando lhe pareceu conveniente, expediu Clemente Soares uma carta flamejante \u00e0 mo\u00e7a, que lhe n\u00e3o respondeu, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o se zangou.<\/p>\n<p>Neste meio-tempo ocorreu que o comendador terminara alguns neg\u00f3cios que o trouxeram \u00e0 corte, e teve de partir para a fazenda.<\/p>\n<p>Foi um golpe nos projetos do rapaz.<\/p>\n<p>Poderia ele continuar a entreter aquela esperan\u00e7a que a sua boa estrela lhe deparara?<\/p>\n<p>Assentou de dar batalha campal. A mo\u00e7a, que parecia sentir inclina\u00e7\u00e3o para ele, n\u00e3o op\u00f4s grande resist\u00eancia e confessou que sentia renascer-lhe a simpatia de outro tempo, acrescentando que se n\u00e3o esqueceria dele.<\/p>\n<p>Clemente Soares era um dos mais perfeitos comediantes que t\u00eam escapado ao teatro. Simulou algumas l\u00e1grimas, expectorou alguns solu\u00e7os e despediu-se de Carlotinha como se tivesse por ela a maior paix\u00e3o deste mundo.<\/p>\n<p>Quanto ao comendador, que era o mais sincero dos tr\u00eas, sentiu separar-se de um cavalheiro t\u00e3o distinto como Clemente Soares, ofereceu-lhe os seus servi\u00e7os, e pediu com inst\u00e2ncia que n\u00e3o deixasse de o ir visitar \u00e0 fazenda.<\/p>\n<p>Clemente agradeceu e prometeu.<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p>Quis a desgra\u00e7a de Medeiros que os neg\u00f3cios lhe corressem mal; duas ou tr\u00eas cat\u00e1strofes comerciais o puseram \u00e0s portas da morte.<\/p>\n<p>Clemente Soares fez quanto p\u00f4de para salvar a casa de que dependia o seu futuro, mas nenhum esfor\u00e7o era poss\u00edvel contra um desastre marcado pelo destino, que \u00e9 o nome que se d\u00e1 \u00e0 tolice dos homens ou ao concurso das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Achou-se sem emprego nem dinheiro.<\/p>\n<p>Castrioto compreendeu a situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria do rapaz pelo cumprimento que este lhe fez nesse tempo, justamente porque Castrioto, tendo sido julgada casual a sua fal\u00eancia, alcan\u00e7ara prote\u00e7\u00e3o e meios para continuar o neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>No pior da sua posi\u00e7\u00e3o, recebeu Clemente uma carta em que o comendador o convidava a ir passar algum tempo na fazenda.<\/p>\n<p>Sabedor da cat\u00e1strofe de Medeiros, queria o comendador naturalmente dar a m\u00e3o ao rapaz. Este n\u00e3o esperou que repetisse o convite. Escreveu logo dizendo que da\u00ed a um m\u00eas se poria em marcha.<\/p>\n<p>Efetivamente um m\u00eas depois sa\u00eda Clemente Soares em caminho do munic\u00edpio de ***, onde era a fazenda do comendador Brito.<\/p>\n<p>O comendador esperava-o ansioso. E n\u00e3o menos ansiosa estava a mo\u00e7a, n\u00e3o sei se porque j\u00e1 lhe tivesse amor, se porque ele fosse uma distra\u00e7\u00e3o no meio da mon\u00f3tona vida rural.<\/p>\n<p>Recebido como amigo, tratou Clemente Soares de pagar a hospitalidade, fazendo-se conviva alegre e divertido.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m o poderia melhor do que ele.<\/p>\n<p>Dotado de grande perspic\u00e1cia, compreendeu em poucos dias como entendia o comendador a vida do campo, e tratou de o lisonjear por todos os modos.<\/p>\n<p>Infelizmente, dez dias depois da sua chegada \u00e0 fazenda, adoeceu gravemente o comendador Brito, por maneira que o m\u00e9dico poucas esperan\u00e7as deu \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Era ver o zelo com que Clemente Soares servia de enfermeiro do doente, procurando por todos os meios suavizar-lhe os males. Passava noites em claro, ia aos povoados quando era necess\u00e1rio fazer alguma coisa mais importante, consolava o doente j\u00e1 com palavras de esperan\u00e7as, j\u00e1 com animada conversa, cujo fim era distra\u00ed-lo de pensamentos l\u00fagubres.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! dizia o pobre velho, que pena que eu o n\u00e3o conhecesse h\u00e1 mais tempo! Bem vejo que \u00e9 um verdadeiro amigo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me elogie, comendador, dizia Clemente Soares, n\u00e3o me elogie, que \u00e9 tirar o m\u00e9rito, se o h\u00e1, destes deveres agrad\u00e1veis ao meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O procedimento de Clemente influiu no \u00e2nimo de Carlotinha, que nesse desafio de solicitude soube mostrar-se esposa dedicada e reconhecida. Ao mesmo tempo fez com que em seu cora\u00e7\u00e3o se desenvolvesse o germe de afeto que Clemente de novo lhe lan\u00e7ara.<\/p>\n<p>Carlotinha era uma mo\u00e7a fr\u00edvola; mas a doen\u00e7a do marido, a perspectiva da viuvez, o desvelo do rapaz, tudo fez nela uma profunda revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E mais que tudo, a delicadeza de Clemente Soares, que, durante esse tempo de t\u00e3o graves preocupa\u00e7\u00f5es para ela, nenhuma palavra de amor lhe dirigiu.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel que o comendador escapasse \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera desse fatal dia, chamou os dois a si, e disse com voz fraca e comovida:<\/p>\n<p>\u2014 Tu, Carlota, pela afei\u00e7\u00e3o e respeito que me tiveste durante a nossa vida de casados; tu, Clemente, pela verdadeira dedica\u00e7\u00e3o de amigo, que me tens provado, sois ambos as duas \u00fanicas criaturas de quem levo saudades deste mundo, e a quem devo gratid\u00e3o nesta e na outra vida&#8230;<\/p>\n<p>Um solu\u00e7o de Clemente Soares cortou a palavra ao moribundo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o chores, meu amigo, disse o comendador com voz terna, a morte na minha idade, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 inevit\u00e1vel, \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Carlota estava banhada em l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, pois, continuou o comendador, se me querem fazer o \u00faltimo favor, ou\u00e7am-me.<\/p>\n<p>Passou um rel\u00e2mpago pelos olhos de Clemente Soares. O rapaz inclinou-se sobre a cama. O comendador tinha os olhos fechados.<\/p>\n<p>Houve um longo sil\u00eancio, no fim do qual o comendador abriu os olhos e continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Consultei novamente a minha consci\u00eancia e Deus, e ambos aprovam o que vou fazer. S\u00e3o ambos mo\u00e7os e merecem-se. Se se amarem, juram casar-se?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o fale assim, disse Clemente.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o? Eu j\u00e1 tenho os p\u00e9s na sepultura; n\u00e3o me fica mal dizer isto. Quero deixar felizes as pessoas a quem mais devo&#8230;<\/p>\n<p>Foram as suas \u00faltimas palavras. No dia seguinte, \u00e0s oito horas da manh\u00e3, deu a alma a Deus.<\/p>\n<p>Algumas pessoas da vizinhan\u00e7a ainda assistiram aos \u00faltimos instantes do fazendeiro. Fez-se o enterro no dia seguinte, e pela tarde pediu o nosso Clemente Soares um cavalo, despediu-se da jovem vi\u00fava, e tomou caminho da corte.<\/p>\n<p>N\u00e3o veio, por\u00e9m, at\u00e9 \u00e0 corte. Deixou-se estar nas imedia\u00e7\u00f5es da fazenda, e no fim de oito dias apareceu l\u00e1 em busca de n\u00e3o sei que objeto que lhe havia esquecido.<\/p>\n<p>Carlotinha, quando soube que o rapaz estava na fazenda, teve um momento de regozijo, de que logo se arrependeu em respeito \u00e0 mem\u00f3ria do marido.<\/p>\n<p>Curta foi a conversa dos dois. Mas foi quanto bastou para fazer a felicidade de Clemente.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1, disse ela, que eu bem compreendo a grandeza de sua alma nesta separa\u00e7\u00e3o. Mas prometa que voltar\u00e1 daqui a seis meses&#8230;<\/p>\n<p>Juro.<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p>Pedira o comendador aquilo que os dois desejavam ardentemente.<\/p>\n<p>Seis meses depois eram casados o jovem Clemente Soares e a gentil vi\u00fava; n\u00e3o houve nenhuma escritura de separa\u00e7\u00e3o de bens, pela simples raz\u00e3o de que o noivo foi o primeiro que prop\u00f4s a id\u00e9ia. Verdade \u00e9 que se a prop\u00f4s, \u00e9 porque tinha a certeza de que n\u00e3o seria aceita.<\/p>\n<p>N\u00e3o era Clemente homem que se encafuasse numa fazenda e se contentasse com a paz dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Dois meses depois de casado, vendeu a fazenda e os escravos, e veio estabelecer vivenda na corte, onde hoje foi conhecida a sua aventura.<\/p>\n<p>Nenhuma casa lhe fechou as portas. Um dos primeiros que o visitou foi o negociante Medeiros, ainda em tristes circunst\u00e2ncias, e por tal modo que chegou a lhe pedir algum dinheiro emprestado.<\/p>\n<p>Clemente Soares fez a felicidade da mulher durante um ano ou pouco mais. Mas n\u00e3o passou da\u00ed. Dentro de pouco tempo, Carlotinha estava arrependida do casamento; era tarde.<\/p>\n<p>Soube a mo\u00e7a de algumas aventuras amorosas do marido, e censurou-lhe esses atos de infidelidade; mas Clemente Soares motejou do caso, e Carlotinha recorreu \u00e0s l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Clemente levantou os ombros.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou uma s\u00e9rie de desgostos para a mo\u00e7a, que ao fim de tr\u00eas anos de casada estava magra e doente, e ao fim de quatro expirou.<\/p>\n<p>Fez-lhe Clemente um pomposo enterro a que assistiram at\u00e9 alguns ministros de Estado. Vestiu-se de preto durante um ano, e quando acabou o luto foi viajar para se distrair da perda, dizia ele.<\/p>\n<p>Quando voltou, encontrou os mesmos afetos e consideraq\u00f5es. Algumas pessoas diziam ter queixas dele, a quem chamavam ingrato. Mas Clemente Soares n\u00e3o se importava do que a gente dizia.<\/p>\n<p>Aqui acaba a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Como! E a moralidade? A minha hist\u00f3ria \u00e9 isto. N\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria, \u00e9 um esbo\u00e7o, menos que um esbo\u00e7o, \u00e9 um tra\u00e7o. N\u00e3o me proponho a castigar ningu\u00e9m, salvo Carlotinha, que se achou bem punida de ter amado outro homem em vida do marido.<\/p>\n<p>Quanto a Clemente Soares nenhuma puni\u00e7\u00e3o teve, e eu n\u00e3o hei de inventar no papel aquilo que se n\u00e3o d\u00e1 na vida. Clemente Soares viveu festejado e estimado por todos, at\u00e9 que morreu de apoplexia, no meio de muitas l\u00e1grimas, que n\u00e3o eram mais sinceras do que ele foi durante sua vida<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis I Ap\u00f3s uma noite de ins\u00f4nia, saiu Clemente Soares da casa em que morava, \u00e0 Rua da Miseric\u00f3rdia, e entrou a caminhar \u00e0 toa pelas ruas da cidade. Eram quatro horas da manh\u00e3. Os homens do g\u00e1s come\u00e7avam a apagar os lampi\u00f5es, e as ruas, ainda n\u00e3o bem alumiadas pela aurora, que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-118229","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Um Homem Superior, Machado de Assis Um Homem Superior<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Um Homem Superior, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Um Homem Superior\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Um Homem Superior, Machado de Assis Um Homem Superior\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Um Homem Superior, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Um Homem Superior\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-04-04T21:10:22+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"27 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/um-homem-superior#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/um-homem-superior\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Um Homem Superior\",\"datePublished\":\"2017-04-04T21:10:22+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/um-homem-superior\"},\"wordCount\":5359,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/um-homem-superior#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/um-homem-superior\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/um-homem-superior\",\"name\":\"Um Homem Superior, Machado de Assis Um Homem Superior\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-04-04T21:10:22+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Um Homem Superior, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Um Homem Superior\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/um-homem-superior#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/um-homem-superior\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/um-homem-superior#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Um Homem Superior\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Um Homem Superior, Machado de Assis Um Homem Superior","description":"Um Homem Superior, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Um Homem Superior","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Um Homem Superior, Machado de Assis Um Homem Superior","og_description":"Um Homem Superior, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Um Homem Superior","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-04-04T21:10:22+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"27 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Um Homem Superior","datePublished":"2017-04-04T21:10:22+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior"},"wordCount":5359,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior","name":"Um Homem Superior, Machado de Assis Um Homem Superior","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-04-04T21:10:22+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Um Homem Superior, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Um Homem Superior","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-superior#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Um Homem Superior"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118229","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=118229"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118229\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=118229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=118229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=118229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}