{"id":118227,"date":"2017-04-04T19:08:58","date_gmt":"2017-04-04T21:08:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118227"},"modified":"2017-04-04T19:08:58","modified_gmt":"2017-04-04T21:08:58","slug":"um-esqueleto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-esqueleto","title":{"rendered":"Um Esqueleto"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO<br \/>\nEram dez ou doze rapazes. Falavam de artes, letras e pol\u00edtica. Alguma anedota vinha de quando em quando temperar a seriedade da conversa. Deus me perdoe! parece que at\u00e9 se fizeram alguns trocadilhos.<\/p>\n<p>O mar batia perto na praia solit\u00e1ria&#8230; estilo de medita\u00e7\u00e3o em prosa. Mas nenhum dos doze convivas fazia caso do mar. Da noite tamb\u00e9m n\u00e3o, que era feia e amea\u00e7ava chuva. \u00c9 prov\u00e1vel que se a chuva ca\u00edsse ningu\u00e9m desse por ela, t\u00e3o entretidos estavam todos em discutir os diferentes sistemas pol\u00edticos, os m\u00e9ritos de um artista ou de um escritor, ou simplesmente em rir de uma pilh\u00e9ria intercalada a tempo.<\/p>\n<p>Aconteceu no meio da noite que um dos convivas falou na beleza da l\u00edngua alem\u00e3. Outro conviva concordou com o primeiro a respeito das vantagens dela, dizendo que a aprendera com o Dr. Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o conheceram o Dr. Bel\u00e9m? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, responderam todos.<\/p>\n<p>\u2014 Era um homem extremamente singular. No tempo em que me ensinou alem\u00e3o usava duma grande casaca que lhe chegava quase aos tornozelos e trazia na cabe\u00e7a um chap\u00e9u-de-chile de abas extremamente largas.<\/p>\n<p>\u2014 Devia ser pitoresco, observou um dos rapazes. Tinha instru\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Variad\u00edssima. Compusera um romance, e um livro de teologia e descobrira um planeta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas esse homem?<\/p>\n<p>\u2014 Esse homem vivia em Minas. Veio \u00e0 corte para imprimir os dois livros, mas n\u00e3o achou editor e preferiu rasgar os manuscritos. Quanto ao planeta comunicou a not\u00edcia \u00e0 Academia das Ci\u00eancias de Paris; lan\u00e7ou a carta no correio e esperou a resposta; a resposta n\u00e3o veio porque a carta foi parar a Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Um dos convivas sorriu maliciosamente para os outros, com ar de quem dizia que era muita desgra\u00e7a junta. A atitude por\u00e9m do narrador tirou-lhe o gosto do riso. Alberto (era o nome do narrador) tinha os olhos no ch\u00e3o, olhos melanc\u00f3licos de quem se rememora com saudade de uma felicidade extinta. Efetivamente suspirou depois de algum tempo de muda e vaga contempla\u00e7\u00e3o, e continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Desculpem-me este sil\u00eancio, n\u00e3o me posso lembrar daquele homem sem que uma l\u00e1grima teime em rebentar-me dos olhos. Era um exc\u00eantrico, talvez n\u00e3o fosse, n\u00e3o era decerto um homem completamente bom; mas era meu amigo; n\u00e3o direi o \u00fanico mas o maior que jamais tive na minha vida.<\/p>\n<p>Como era natural, estas palavras de Alberto alteraram a disposi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito do audit\u00f3rio. O narrador ainda esteve silencioso alguns minutos. De repente sacudiu a cabe\u00e7a como se expelisse lembran\u00e7as importunas do passado, e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Para lhes mostrar a excentricidade do Dr. Bel\u00e9m basta contar-lhes a hist\u00f3ria do esqueleto.<\/p>\n<p>A palavra esqueleto agu\u00e7ou a curiosidade dos convivas; um romancista aplicou o ouvido para n\u00e3o perder nada da narra\u00e7\u00e3o; todos esperaram ansiosamente o esaueleto do Dr. Bel\u00e9m. Batia justamente meia-noite; a noite, como disse, era escura; o mar batia funebremente na praia. Estava-se em pleno Hoffmann.<\/p>\n<p>Alberto come\u00e7ou a narra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCAP\u00cdTULO II<br \/>\nO Dr. Bel\u00e9m era um homem alto e magro; tinha os cabelos grisalhos e ca\u00eddos sobre os ombros; em repouso era reto como uma espingarda; quando andava curvava-se um pouco. Conquanto o seu olhar fosse muitas vezes meigo e bom, tinha lampejos sinistros, e \u00e0s vezes, quando ele meditava, ficava com olhos como de defunto.<\/p>\n<p>Representava ter sessenta anos, mas n\u00e3o tinha efetivamente mais de cinq\u00fcenta. O estudo o abatera muito, e os desgostos tamb\u00e9m, segundo ele dizia, nas poucas vezes em que me falara do passado, e era eu a \u00fanica pessoa com quem ele se comunicava a esse respeito. Podiam contar-se-lhe tr\u00eas ou quatro rugas pronunciadas na cara, cuja pele era fria como o m\u00e1rmore e branca como a de um morto.<\/p>\n<p>Um dia, justamente no fim da minha li\u00e7\u00e3o, perguntei-lhe se nunca fora casado. O doutor sorriu sem olhar para mim. N\u00e3o insisti na pergunta; arrependi-me at\u00e9 de lha ter feito.<\/p>\n<p>\u2014 Fui casado, disse ele, depois de algum tempo, e daqui a tr\u00eas meses posso dizer outra vez: sou casado.<\/p>\n<p>\u2014 Vai casar?<\/p>\n<p>\u2014 Vou.<\/p>\n<p>\u2014 Com quem?<\/p>\n<p>\u2014 Com a D. Marcelina.<\/p>\n<p>D. Marcelina era uma vi\u00fava de Ouro Preto, senhora de vinte e seis anos, n\u00e3o formosa, mas assaz simp\u00e1tica, possu\u00eda alguma cousa, mas n\u00e3o tanto como o doutor, cujos bens or\u00e7avam por uns sessenta contos.<\/p>\n<p>N\u00e3o me constava at\u00e9 ent\u00e3o que ele fosse casar; ningu\u00e9m falara nem suspeitara tal cousa.<\/p>\n<p>\u2014 Vou casar, continuou o Doutor, unicamente porque o senhor me falou nisso. At\u00e9 cinco minutos antes nenhuma inten\u00e7\u00e3o tinha de semelhante ato. Mas a sua pergunta faz-me lembrar que eu efetivamente preciso de uma companheira; lancei os olhos da mem\u00f3ria a todas as noivas poss\u00edveis, e nenhuma me parece mais poss\u00edvel do que essa. Daqui a tr\u00eas meses assistir\u00e1 ao nosso casamento. Promete?<\/p>\n<p>\u2014 Prometo, repondi eu com um riso incr\u00e9dulo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ser\u00e1 uma formosura.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 muito simp\u00e1tica, decerto, acudi eu.<\/p>\n<p>\u2014 Simp\u00e1tica, educada e vi\u00fava. Minha id\u00e9ia \u00e9 que todos os homens deviam casar com senhoras vi\u00favas.<\/p>\n<p>\u2014 Quem casaria ent\u00e3o com as donzelas?<\/p>\n<p>\u2014 Os que n\u00e3o fossem homens, respondeu o velho, como o senhor e a maioria do g\u00eanero humano; mas os homens, as criaturas da minha t\u00eampera, mas&#8230;<\/p>\n<p>O doutor estacou, como se receasse entrar em maiores confid\u00eancias, e tornou a falar da vi\u00fava Marcelina cujas boas qualidades louvou com entusiasmo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bonita como a minha primeira esposa, disse ele. Ah! essa&#8230; Nunca a viu?<\/p>\n<p>\u2014 Nunca.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a verdade. J\u00e1 o conheci vi\u00favo, creio eu.<\/p>\n<p>\u2014 Bem; mas eu nunca lha mostrei. Ande v\u00ea-la. ..<\/p>\n<p>Levantou-se; levantei-me tamb\u00e9m. Est\u00e1vamos assentados \u00e0 porta; ele levou-me a um gabinete interior. Confesso que ia ao mesmo tempo curioso e aterrado. Conquanto eu fosse amigo dele e tivesse provas de que ele era meu amigo, tanto medo inspirava ele ao povo, e era efetivamente t\u00e3o singular, que eu n\u00e3o podia esquivar-me a um tal ou qual sentimento de medo.<\/p>\n<p>No fundo do gabinete havia um m\u00f3vel coberto com um pano verde; o doutor tirou o pano e eu dei um grito.<\/p>\n<p>Era um arm\u00e1rio de vidro, tendo dentro um esqueleto. Ainda hoje, apesar dos anos que l\u00e1 v\u00e3o, e da mudan\u00e7a que fez o meu esp\u00edrito, n\u00e3o posso lembrar-me daquela cena sem terror.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 minha mulher, disse o Dr. Bel\u00e9m sorrindo. \u00c9 bonita, n\u00e3o lhe parece? Est\u00e1 na espinha, como v\u00ea. De tanta beleza, de tanta gra\u00e7a, de tanta maravilha que me encantaram outrora, que a tantos mais encantaram, que lhe resta hoje? Veja, meu jovem amigo; tal \u00e9 \u00faltima express\u00e3o do g\u00eanero humano.<\/p>\n<p>Dizendo isto, o Dr. Bel\u00e9m cobriu o arm\u00e1rio com o pano e sa\u00edmos do gabinete. Eu n\u00e3o sabia o que havia de dizer, t\u00e3o impressionado me deixara aquele espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Viemos outra vez para as nossas cadeiras ao p\u00e9 da porta, e algum tempo estivemos sem dizer palavra um ao outro. O doutor olhava para o ch\u00e3o; eu olhava para ele. Tremiam-lhe os l\u00e1bios, e a face de quando em quando se lhe contra\u00eda. Um escravo veio falar-lhe; o doutor saiu daquela esp\u00e9cie de letargo.<\/p>\n<p>Quando ficamos s\u00f3s parecia outro; falou-me risonho e jovial, com uma volubilidade que n\u00e3o estava nos seus usos.<\/p>\n<p>\u2014 Ora bem, se eu for feliz no casamento, disse ele, ao senhor o deverei. Foi o senhor quem me deu esta id\u00e9ia! E fez bem, porque at\u00e9 j\u00e1 me sinto mais rapaz. Que lhe parece este noivo?<\/p>\n<p>Dizendo isto, o Dr. Belem levantou-se e fez uma pirueta, segurando nas abas da casaca, que nunca deixava, salvo quando se recolhia de noite.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe capaz o noivo? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida, respondi.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m ela h\u00e1 de pensar assim. Ver\u00e1, meu amigo, que eu meterei tudo num chinelo, e mais de um invejar\u00e1 a minha sorte. \u00c9 pouco; mais de uma invejar\u00e1 a sorte dela. Pudera n\u00e3o? N\u00e3o h\u00e1 muitos noivos como eu.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o dizia nada, e o doutor continuou a falar assim durante vinte minutos. A tarde ca\u00edra de todo; e a id\u00e9ia da noite e do esqueleto que ali estava a poucos passos de n\u00f3s, e mais ainda as maneiras singulares que nesse dia, mais do que nos outros, mostrava o meu bom mestre, tudo isso me levou a despedir-me dele e a retirar-me para casa.<\/p>\n<p>O doutor sorriu-se com o sorriso sinistro que \u00e0s vezes tinha, mas n\u00e3o insistiu para que ficasse. Fui para casa aturdido e triste; aturdido com o que vira; triste com a responsabilidade que o doutor atirava sobre mim relativamente ao seu casamento.<\/p>\n<p>Entretanto, refleti que a palavra do doutor podia n\u00e3o ter pronta nem remota realiza\u00e7\u00e3o. Talvez n\u00e3o se case nunca, nem at\u00e9 pense nisso. Que certeza teria ele de desposar a vi\u00fava Marcelina da\u00ed a tr\u00eas meses? Quem sabe at\u00e9, pensei eu, se n\u00e3o disse aquilo para zombar comigo?<\/p>\n<p>Esta id\u00e9ia enterrou-se-me no esp\u00edrito. No dia seguinte levantei-me convencido de que efetivamente o doutor quisera matar o tempo e juntamente aproveitar a ocasi\u00e3o de me mostrar o esqueleto da mulher.<\/p>\n<p>Naturalmente, disse eu comigo, amou-a muito, e por esse motivo ainda a conserva. \u00c9 claro que n\u00e3o se casar\u00e1 com outra; nem achar\u00e1 quem case com ele, t\u00e3o aceita anda a supersti\u00e7\u00e3o popular que o tem por lobisomem ou quando menos amigo \u00edntimo do diabo&#8230; ele! o meu bom e compassivo mestre!<\/p>\n<p>Com estas id\u00e9ias fui logo de manh\u00e3 \u00e0 casa do Dr. Bel\u00e9m. Achei-o a almo\u00e7ar sozinho, como sempre, servido por um escravo da mesma idade.<\/p>\n<p>\u2014 Entre, Alberto, disse o doutor apenas me viu \u00e0 porta. Quer almo\u00e7ar?<\/p>\n<p>\u2014 Aceito.<\/p>\n<p>\u2014 Jo\u00e3o, um prato.<\/p>\n<p>Almo\u00e7amos alegremente; o doutor estava como me parecia na maior parte das vezes, conversando de cousas s\u00e9rias ou fr\u00edvolas, misturando uma reflex\u00e3o filos\u00f3fica com uma pilh\u00e9ria, uma anedota de rapaz com uma cita\u00e7\u00e3o de Virg\u00edlio.<\/p>\n<p>No fim do almo\u00e7o tornou a falar do seu casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o pensa nisso deveras?&#8230; perguntei eu.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o? N\u00e3o depende sen\u00e3o dela; mas eu estou quase certo de que ela n\u00e3o recusa. Apresenta-me l\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s suas ordens.<\/p>\n<p>No dia seguinte era apresentado o Dr. Bel\u00e9m em casa da vi\u00fava Marcelina e recebido com muita afabilidade.<\/p>\n<p>&#8220;Casar-se-\u00e1 deveras com ela?&#8221; dizia eu a mim mesmo espantado do que via, porque, al\u00e9m da diferen\u00e7a da idade entre ele e ela, e das maneiras exc\u00eantricas dele, havia um pretendente \u00e0 m\u00e3o da bela vi\u00fava, o Tenente Soares.<\/p>\n<p>Nem a vi\u00fava nem o tenente imaginavam as inten\u00e7\u00f5es do Dr. Bel\u00e9m; daqui podem j\u00e1 imaginar o pasmo de D. Marcelina quando ao cabo de oito dias, perguntou-lhe o meu mestre, se ela queria casar com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Nem com o senhor nem com outro, disse a vi\u00fava; fiz voto de n\u00e3o casar mais.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? perguntou friamente o doutor.<\/p>\n<p>\u2014 Porque amava muito a meu marido.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tolhe isso que ame o segundo, observou o candidato sorrindo.<\/p>\n<p>E depois de algum tempo de sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o insisto, disse ele, nem fa\u00e7o aqui uma cena dram\u00e1tica. Eu amo-a deveras, mas \u00e9 um amor de fil\u00f3sofo, um amor como eu entendo que deviam ser todos. Entretanto deixe-me ter esperan\u00e7a; pedir-lhe-ei mais duas vezes a sua m\u00e3o. Se da \u00faltima nada alcan\u00e7ar consinta-me que fique sendo seu amigo.<br \/>\nCAP\u00cdTULO III<br \/>\nO Dr. Bel\u00e9m foi fiel a este programa. Dali a m\u00eas pediu outra vez a m\u00e3o da vi\u00fava, e teve a mesma recusa, mas talvez menos perempt\u00f3ria do que a primeira. Deixou passar seis semanas, e repetiu o pedido.<\/p>\n<p>\u2014 Aceitou? disse eu apenas o vi vir da casa de D. Marcelina.<\/p>\n<p>\u2014 Por que havia de recusar? Eu n\u00e3o lhe disse que me casava dentro de tr\u00eas meses?<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o o senhor \u00e9 um adivinho, um m\u00e1gico?&#8230;<\/p>\n<p>O doutor deu uma gargalhada, das que ele guardava para quando queria motejar de algu\u00e9m ou de alguma cousa. Naquela ocasi\u00e3o o motejado era eu. Parece que n\u00e3o fiz boa cara porque o douto imediatamente ficou s\u00e9rio e abra\u00e7ou-me dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Oh! meu amigo, n\u00e3o desconfie! Conhece-me de hoje?<\/p>\n<p>A ternura com que ele me disse estas palavras tornava-o outro homem. J\u00e1 n\u00e3o tinha os tons sinistros do olhar nem a fala saccad\u00e9e (v\u00e1 o termo franc\u00eas, n\u00e3o me ocorre agora o nosso) que era a sua fala caracter\u00edstica. Abracei-o tamb\u00e9m, e falamos do casamento e da noiva.<\/p>\n<p>O doutor estava alegre; apertava-me muitas vezes as m\u00e3os agradecendo-me a id\u00e9ia que lhe dera; fazia seus planos de futuro. Tinha id\u00e9ias de vir \u00e0 corte, logo depois do casamento; aventurou a id\u00e9ia de seguir para a Europa; mas apenas parecia assentado nisto, j\u00e1 pensava em n\u00e3o sair de Minas, e morrer ali, dizia ele, entre as suas montanhas.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vejo que est\u00e1 perfeitamente noivo, disse eu; tem todos os tra\u00e7os caracter\u00edsticos de um homem nas v\u00e9speras de casar.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe ?<\/p>\n<p>\u2014 E \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 De fato, gosto da noiva, disse ele com ar s\u00e9rio; \u00e9 poss\u00edvel que eu morra antes dela; mas o mais prov\u00e1vel \u00e9 que ela morra primeiro. Nesse caso, juro desde j\u00e1 que ir\u00e1 o seu esqueleto fazer companhia ao outro.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia do esqueleto fez-me estremecer. O doutor, ao dizer estas palavras, cravara os olhos no ch\u00e3o, profundamente absorto. Da\u00ed em diante a conversa foi menos alegre do que a princ\u00edpio. Sa\u00ed de l\u00e1 desagradavelmente impressionado.<\/p>\n<p>O casamento dentro de pouco tempo foi realidade. Ningu\u00e9m queria acreditar nos seus olhos. Todos admiraram a coragem (era a palavra que diziam) da vi\u00fava Marcelina, que n\u00e3o recuava \u00e0quele grande sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Sacrif\u00edcio n\u00e3o era. A mo\u00e7a parecia contente e feliz. Os parab\u00e9ns que lhe davam eram ir\u00f4nicos, mas ela os recebia com muito gosto e seriedade. O Tenente Soares n\u00e3o lhe deu os parab\u00e9ns; estava furioso; escreveu-lhe um bilhete em que lhe dizia todas as cousas que em tais circunst\u00e2ncias se podem dizer.<\/p>\n<p>O casamento foi celebrado pouco depois do prazo que o Dr. Bel\u00e9m marcara na conversa que tivera comigo e que eu j\u00e1 referi. Foi um verdadeiro acontecimento na capital de Minas. Durante oito dias n\u00e3o se falava sen\u00e3o no caso imposs\u00edvel; afinal, passou a novidade, como todas as cousas deste mundo, e ningu\u00e9m mais tratou dos noivos.<\/p>\n<p>Fui jantar com eles no fim de uma semana; D. Marcelina parecia mais que nunca feliz; o Dr. Bel\u00e9m n\u00e3o o estava menos. At\u00e9 parecia outro. A mulher come\u00e7ava a influir nele, sendo j\u00e1 uma das primeiras conseq\u00fc\u00eancias a supress\u00e3o da singular casaca . O doutor consentiu em vestir-se menos excentricamente.<\/p>\n<p>\u2014 Veste-me como quiseres, dizia ele \u00e0 mulher; o que n\u00e3o poder\u00e1s fazer nunca \u00e9 mudar-me a alma. Isso nunca.<\/p>\n<p>\u2014 Nem quero.<\/p>\n<p>\u2014 Nem podes.<\/p>\n<p>Parecia que os dois estavam destinados a gozar uma eterna felicidade. No fim de um m\u00eas fui l\u00e1, e achei-a triste.<\/p>\n<p>&#8220;Oh! disse eu comigo, cedo come\u00e7am os arrufos.&#8221;<\/p>\n<p>O doutor estava como sempre. L\u00edamos ent\u00e3o e coment\u00e1vamos \u00e0 nossa maneira o Fausto. Nesse dia pareceu-me o Dr. Bel\u00e9m mais perspicaz e engenhoso que nunca. Notei, entretanto, uma singular pretens\u00e3o: um desejo de se parecer com Mefist\u00f3feles.<\/p>\n<p>Aqui confesso que n\u00e3o pude deixar de rir.<\/p>\n<p>\u2014 Doutor, disse eu, creio que o senhor abusa da amizade que lhe tenho para zombar comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 Aproveita-se da opini\u00e3o de exc\u00eantrico para me fazer crer que \u00e9 o diabo&#8230;<\/p>\n<p>Ouvindo esta \u00faltima palavra, o doutor persignou-se todo, e foi a melhor afirmativa que me poderia fazer de que n\u00e3o ambicionava confundir-se com o personagem aludido. Sorriu-se depois benevolamente, tomou uma pitada e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Ilude-se meu amigo, quando me atribui semelhante id\u00e9ia, do mesmo modo que se engana quando sup\u00f5e que Mefist\u00f3feles \u00e9 isso que diz.<\/p>\n<p>\u2014 Essa agora!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Noutra ocasi\u00e3o lhe direi as minhas raz\u00f5es. Por agora vamos jantar.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado. Devo ir jantar com meu cunhado. Mas, se me permite ficarei ainda algum tempo aqui lendo o seu Fausto.<\/p>\n<p>O doutor n\u00e3o p\u00f4s obje\u00e7\u00e3o; eu era \u00edntimo da casa. Saiu dali para a sala do jantar. Li ainda durante vinte minutos, findos os quais fechei o livro e fui despedir-me do Dr. Bel\u00e9m e sua senhora.<\/p>\n<p>Caminhei por um corredor fora que ia ter \u00e0 sala do jantar. Ouvia mover os pratos, mas nenhuma palavra soltavam os dois casados.<\/p>\n<p>&#8220;O arrufo continua&#8221;, pensei eu.<\/p>\n<p>Fui andando&#8230; Mas qual n\u00e3o foi a minha surpresa ao chegar \u00e0 porta? O doutor estava de costas, n\u00e3o me podia ver. A mulher tinha os olhos no prato. Entre ele e ela, sentado numa cadeira vi o esqueleto. Estaquei aterrado e tr\u00eamulo. Que queria dizer aquilo? Perdia-me em conjeturas; cheguei a dar um passo para falar ao doutor, mas n\u00e3o me atrevi; voltei pelo mesmo caminho, peguei no chap\u00e9u, e deitei a correr pela rua fora.<\/p>\n<p>Em casa de meu cunhado todos notaram os sinais de temor que eu ainda levava no rosto. Perguntaram-me se havia visto alguma alma do outro mundo. Respondi sorrindo que sim; mas nada contei do que acabava de presenciar.<\/p>\n<p>Durante tr\u00eas dias n\u00e3o fui \u00e0 casa do doutor. Era medo, n\u00e3o do esqueleto, mas do dono da casa, que se me afigurava ser um homem mau ou um homem doudo. Todavia, ardia por saber a raz\u00e3o da presen\u00e7a do esqueleto na mesa do jantar. D. Marcelina podia dizer-me tudo; mas como indagaria isso dela, se o doutor estava quase sempre em casa?<\/p>\n<p>No terceiro dia apareceu-me em casa o Doutor Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas dias! disse ele, h\u00e1 j\u00e1 tr\u00eas dias que eu n\u00e3o tenho a fortuna de o ver. Onde anda? Est\u00e1 mal conosco?<\/p>\n<p>\u2014 Tenho andado doente, respondi eu, sem saber o que dizia.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o me mandou dizer nada, ingrato! J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 meu amigo.<\/p>\n<p>A do\u00e7ura destas palavras dissipou os meus escr\u00fapulos. Era singular como aquele homem, que por certos h\u00e1bitos, maneiras e id\u00e9ias, e at\u00e9 pela express\u00e3o f\u00edsica, assustava a muita gente e dava azo \u00e0s fantasias da supersti\u00e7\u00e3o popular, era singular, repito, como me falava \u00e0s vezes com uma meiguice incompar\u00e1vel e um tom patriarcalmente ben\u00e9volo.<\/p>\n<p>Conversamos um pouco e fui obrigado a acompanh\u00e1-lo \u00e0 casa. A mulher ainda me pareceu triste, mas um pouco menos que da putra vez. Ele tratava-a com muita ternura e considera\u00e7\u00e3o, e ela se n\u00e3o respondia alegre, ao menos falava com igual meiguice.<br \/>\nCAP\u00cdTULO IV<br \/>\nNo Meio da conversa vieram dizer que o jantar estava na mesa.<\/p>\n<p>\u2014 Agora h\u00e1 de jantar conosco, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso, balbuciei eu, devo ir&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o deve ir a nenhuma parte, atalhou o doutor; parece-me que quer fugir de mim. Marcelina, pede ao Dr. Alberto que jante conosco.<\/p>\n<p>D. Marcelina repetiu o pedido do marido, mas com um ar de constrangimento vis\u00edvel. Ia recusar de novo, mas o doutor teve a precau\u00e7\u00e3o de me agarrar no bra\u00e7o e foi imposs\u00edvel recusar.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-me ao menos dar o bra\u00e7o a sua senhora, disse eu.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o.<\/p>\n<p>Dei o bra\u00e7o a D. Marcelina que estremeceu. O doutor passou adiante. Eu inclinei a boca ao ouvido da pobre senhora e disse baixinho:<\/p>\n<p>\u2014 Que mist\u00e9rio h\u00e1?<\/p>\n<p>D. Marcelina estremeceu outra vez e com um sinal imp\u00f4s-me sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Chegamos \u00e0 sala de jantar.<\/p>\n<p>Apesar de j\u00e1 ter presenciado a cena do outro dia n\u00e3o pude resistir \u00e0 irnpress\u00e3o que me causou a vista do esqueleto que l\u00e1 estava na cadeira em que o vira com os bra\u00e7os sobre a mesa.<\/p>\n<p>Era horr\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 lhe apresentei minha primeira mulher, disse o doutor para mim; s\u00e3o conhecidos antigos.<\/p>\n<p>Sentamo-nos \u00e0 mesa; o esqueleto ficou entre ele e D. Marcelina; eu fiquei ao lado desta. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o pude dizer palavra; era por\u00e9m natural que exprimisse o meu espanto.<\/p>\n<p>\u2014 Doutor, disse eu, respeito os seus h\u00e1bitos; mas n\u00e3o me dar\u00e1 a explica\u00e7\u00e3o deste?<\/p>\n<p>\u2014 Este qual? disse ele.<\/p>\n<p>Com um gesto indiquei-lhe o esqueleto.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!&#8230; respondeu o doutor; um h\u00e1bito natural; janto com minhas duas mulheres.<\/p>\n<p>\u2014 Confesse ao menos que \u00e9 um uso original.<\/p>\n<p>\u2014 Queria que eu copiasse os outros?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, mas a piedade com os mortos&#8230;<\/p>\n<p>Atrevi-me a falar assim porque, al\u00e9m de me parecer aquilo uma profana\u00e7\u00e3o, a melancolia da mulher parecia pedir que algu\u00e9m falasse duramente ao marido e procurasse traz\u00ea-lo a melhor caminho.<\/p>\n<p>O doutor deu uma das suas singulares gargalhadas, e estendendo-me o prato de sopa, replicou:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor fala de uma piedade de conven\u00e7\u00e3o; eu sou pio \u00e0 minha maneira. N\u00e3o \u00e9 respeitar uma criatura que amamos em vida, o traz\u00ea-la assim conosco, depois de morta?<\/p>\n<p>Nao respondi cousa nenhuma a estas palavras do doutor. Comi silenciosamente a sopa, e o mesmo fez a mulher, enquanto ele continuou a desenvolver as suas id\u00e9ias a respeito dos mortos.<\/p>\n<p>\u2014 O medo dos mortos, disse ele, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma fraqueza, \u00e9 um insulto, uma perversidade do cora\u00e7\u00e3o. Pela minha parte dou-me melhor com os defuntos do que com os vivos.<\/p>\n<p>E depois de um sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Confesse, confesse que est\u00e1 com medo.<\/p>\n<p>Fiz-lhe um sinal negativo com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 medo, \u00e9, como esta senhora que est\u00e1 ali transida de susto, porque ambos s\u00e3o dois maricas. Que h\u00e1 entretanto neste esqueleto, que possa meter medo? N\u00e3o lhes digo que seja bonito; n\u00e3o \u00e9 bonito segundo a vida, mas \u00e9 formos\u00edssimo segundo a morte. Lembrem-se que isto somos n\u00f3s tamb\u00e9m; n\u00f3s temos de mais um pouco de carne.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3? perguntei eu intencionalmente.<\/p>\n<p>O doutor sorriu-se e respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3.<\/p>\n<p>Parece que fiz um gesto de aborrecimento, porque ele continuou logo:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tome ao p\u00e9 da letra o que lhe disse. Eu tamb\u00e9m creio na alma; n\u00e3o creio s\u00f3, demonstro-a, o que n\u00e3o \u00e9 para todos. Mas a alma foi-se embora; n\u00e3o podemos ret\u00ea-la; guardemos isto ao menos que \u00e9 uma parte da pessoa amada.<\/p>\n<p>Ao terminar estas palavras, o doutor beijou respeitosamente a m\u00e3o do esqueleto. Estremeci e olhei para D. Marcelina. Esta fechara os olhos. Eu estava ansioso por terminar aquela cena que realmente me repugnava presenciar. O doutor n\u00e3o parecia reparar em nada. Continuou a falar no mesmo assunto, e por mais esfor\u00e7os que eu fizesse para o desviar dele era imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos \u00e0 sobremesa quando o doutor, interrompendo um sil\u00eancio que durava j\u00e1 havia dez minutos perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 E segundo me parece, ainda lhe n\u00e3o contei a hist\u00f3ria deste esqueleto, quero dizer a hist\u00f3ria de minha mulher?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me lembra, murmurei.<\/p>\n<p>\u2014 E a ti? disse ele voltando-se para a mulher.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Foi um crime, continuou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Um crime?<\/p>\n<p>\u2014 Cometido por mim.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo senhor?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>O doutor concluiu um peda\u00e7o de queijo, bebeu o resto do vinho que tinha no copo, e repetiu:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, um crime de que fui autor. Minha mulher era muito amada de seu marido; n\u00e3o admira, eu sou todo cora\u00e7\u00e3o. Um dia por\u00e9m, suspeitei que me houvesse tra\u00eddo; vieram dizer-me que um mo\u00e7o da vizinhan\u00e7a era seu amante. Algumas apar\u00eancias me enganaram. Um dia declarei-lhe que sabia tudo, e que ia puni-la do que me havia feito. Lu\u00edsa caiu-me aos p\u00e9s banhada em l\u00e1grimas protestando pela sua inoc\u00eancia. Eu estava cego; matei-a.<\/p>\n<p>Imagina-se, n\u00e3o se descreve a impress\u00e3o de horror que estas palavras me causaram. Os cabelos ficaram-me em p\u00e9. Olhei para aquele homem, para o esqueleto, para a senhora, e passava a m\u00e3o pela testa , para ver se efetivamente estava acordado, ou se aquilo era apenas um sonho.<\/p>\n<p>O doutor tinha os olhos fitos no esqueleto e uma l\u00e1grima lhe ca\u00eda lentamente pela face. Estivemos todos calados durante cerca de dez minutos.<\/p>\n<p>O doutor rompeu o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Tempos depois, quando o crime estava de h\u00e1 muito cometido, sem que a justi\u00e7a o soubesse, descobri que Lu\u00edsa era inocente. A dor que ent\u00e3o sofri foi indescrit\u00edvel; eu tinha sido o algoz de um anjo.<\/p>\n<p>Estas palavras foram ditas com tal amargura que me comoveram profundamente. Era claro que ainda ent\u00e3o, ap\u00f3s longos anos do terr\u00edvel acontecimento, o doutor sentia o remorso do que praticara e a m\u00e1goa de ter perdido a esposa.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Marcelina parecia comovida. Mas a como\u00e7\u00e3o dela era tamb\u00e9m medo; segundo vim a saber depois, ela receava que no marido n\u00e3o estivessem \u00edntegras as faculdades mentais.<\/p>\n<p>Era um engano.<\/p>\n<p>O doutor era, sim, um homem singular e exc\u00eantrico; doudo lhe chamavam os que, por se pretenderem mais espertos que o vulgo, repeliam os contos da supersti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estivemos calados algum tempo e dessa vez foi ainda ele que interrompeu o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhes direi como obtive o esqueleto de minha mulher. Aqui o tenho e o conservarei at\u00e9 \u00e0 minha morte. Agora naturalmente deseja saber por que motivo o trago para a mesa depois que me casei.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondi com os l\u00e1bios, mas os meus olhos disseram-lhe que efetivamente desejava saber a explica\u00e7\u00e3o daquele mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 simples, continuou ele; \u00e9 para que minha segunda mulher esteja sempre ao p\u00e9 da minha v\u00edtima, a fim de que se n\u00e3o esque\u00e7a nunca dos seus deveres, porque, ent\u00e3o como sempre, \u00e9 mui prov\u00e1vel que eu n\u00e3o procure apurar a verdade; farei justi\u00e7a por minhas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Esta \u00faltima revela\u00e7\u00e3o do doutor p\u00f4s termo \u00e0 minha paci\u00eancia. N\u00e3o sei o que lhe disse, mas lembra-me que ele ouviu-me com o sorriso ben\u00e9volo que tinha \u00e0s vezes, e respondeu-me com esta simples palavra:<\/p>\n<p>\u2014 Crian\u00e7a!<\/p>\n<p>Sa\u00ed pouco depois do jantar, resolvido a l\u00e1 n\u00e3o voltar nunca.<br \/>\nCAP\u00cdTULO V<br \/>\nA promessa n\u00e3o foi cumprida.<\/p>\n<p>Mais de uma vez o Doutor Bel\u00e9m mandou \u00e0 casa chamar-me; n\u00e3o fui. Veio duas ou tr\u00eas vezes instar comigo que l\u00e1 fosse jantar com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Ou, pelo menos, conversar, concluiu.<\/p>\n<p>Pretextei alguma cousa e n\u00e3o fui.<\/p>\n<p>Um dia por\u00e9m, recebi um bilhete da mulher. Dizia-me que era eu a \u00fanica pessoa estranha que l\u00e1 ia; pedia-me que n\u00e3o a abandonasse.<\/p>\n<p>Fui.<\/p>\n<p>Eram ent\u00e3o passados quinze dias depois do c\u00e9lebre jantar em que o doutor me referiu a hist\u00f3ria do esqueleto. A situa\u00e7\u00e3o entre os dois era a mesma; aparente afabilidade da parte dela, mas na realidade medo. O doutor mostrava-se af\u00e1vel e terno, como sempre o vira com ela.<\/p>\n<p>Justamente nesse dia, anunciou-me ele que pretendia ir a uma jornada dali a algumas l\u00e9guas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas vou s\u00f3, disse ele, e desejo que o senhor me fa\u00e7a companhia a minha mulher vindo aqui algumas vezes.<\/p>\n<p>Recusei.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Doutor, por que raz\u00e3o, sem urgente necessidade, daremos pasto \u00e0s m\u00e1s l\u00ednguas? Que se dir\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o, atalhou ele; ao menos, fa\u00e7a-me uma cousa.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7a com que em casa de sua irm\u00e3 possa Marcelina ir passar as poucas semanas de minha aus\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Isso com muito gosto.<\/p>\n<p>Minha irm\u00e3 concordou em receber a mulher do Dr. Bel\u00e9m, que da\u00ed a pouco sa\u00eda da capital para o interior. Sua despedida foi terna e amig\u00e1vel para com ambos n\u00f3s, a mulher e eu; fomos os dois, e mais minha irm\u00e3 e meu cunhado acompanh\u00e1-lo at\u00e9 certa distancia, e voltamos para casa.<\/p>\n<p>Pude ent\u00e3o conversar com D. Marcelina, que me comunicou os seus receios a respeito da raz\u00e3o do marido. Dissuadi-a disso; j\u00e1 disse qual era a minha opini\u00e3o a respeito do Dr. Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>Ela referiu-me ent\u00e3o que a narra\u00e7\u00e3o da morte da mulher j\u00e1 ele lha havia feito, prometendo-lhe igual sorte no caso de faltar aos seus deveres.<\/p>\n<p>\u2014 Nem as apar\u00eancias te salvar\u00e3o, acrescentou ele.<\/p>\n<p>Disse-me mais que era seu costurne beijar repetidas vezes o esqueleto da primeira mulher e dirigir-lhe muitas palavras de ternura e amor. Uma noite, estando a sonhar com ela, levantou-se da cama e foi abra\u00e7ar o esqueleto pedindo-lhe perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Em nossa casa todos eram de opini\u00e3o que D. Marcelina n\u00e3o voltasse mais para a companhia do Dr. Bel\u00e9m. Eu era de opini\u00e3o oposta.<\/p>\n<p>\u2014 Ele \u00e9 bom, dizia eu, apesar de tudo; tem extravag\u00e2ncias, mas \u00e9 um bom cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No fim de um m\u00eas recebemos uma carta do doutor, em que dizia \u00e0 mulher fosse ter ao lugar onde ele se achava, e que eu fizesse o favor de a acompanhar.<\/p>\n<p>Recusei ir s\u00f3 com ela.<\/p>\n<p>Minha irm\u00e3 e meu cunhado ofereceram-se por\u00e9m para acompanh\u00e1-la.<\/p>\n<p>Fomos todos.<\/p>\n<p>Havia entretanto uma recomenda\u00e7\u00e3o na carta do doutor, recomenda\u00e7\u00e3o essencial; ordenava ele \u00e0 mulher que levasse consigo o esqueleto.<\/p>\n<p>\u2014 Que esquisitice nova \u00e9 essa? disse meu cunhado.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ver, suspirou melancolicamente D. Marcelina, que o \u00fanico motivo desta minha viagem, s\u00e3o as saudades que ele tem do esqueleto.<\/p>\n<p>Eu nada disse, mas pensei que assim fosse.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos todos em demanda do lugar onde nos esperava o doutor.<\/p>\n<p>\u00cdamos j\u00e1 perto, quando ele nos apareceu e veio alegremente cumprimentar-nos. Notei que n\u00e3o tinha a ternura de costume com a mulher, antes me pareceu frio. Mas isso foi obra de pouco tempo; da\u00ed a uma hora voltara a ser o que sempre fora.<\/p>\n<p>Passamos dois dias na pequena vila em que o doutor estava, dizia ele, para examinar umas plantas, porque tamb\u00e9m era bot\u00e2nico. Ao fim de dois dias disp\u00fanhamos a voltar para a capital; ele por\u00e9m pediu que nos demor\u00e1ssemos ainda vinte e quatro horas e voltar\u00edamos todos juntos.<\/p>\n<p>Acedemos.<\/p>\n<p>No dia seguinte de manh\u00e3 convidou a mulher a ir ver umas lindas parasitas no mato que ficava perto. A mulher estremeceu, mas n\u00e3o ousou recusar.<\/p>\n<p>\u2014Vem tamb\u00e9m? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Vou, respondi.<\/p>\n<p>A mulher cobrou alma nova e deitou-me um olhar de agradecimento. O doutor sorriu \u00e0 socapa. N\u00e3o compreendi logo o motivo do riso; mas da\u00ed a pouco tempo tinha a explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fomos ver as parasitas, ele adiante com a mulher, eu atr\u00e1s de ambos, e todos tr\u00eas silenciosos.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou que um riacho aparecesse aos nossos olhos; mas eu mal pude ver o riacho; o que eu vi, o que me fez recuar um passo, foi um esqueleto.<\/p>\n<p>Dei um grito.<\/p>\n<p>\u2014 Um esqueleto! exclamou D. Marcelina.<\/p>\n<p>\u2014 Descansem, disse o doutor, \u00e9 o de minha primeira mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Trouxe-o esta madrugada para aqui.<\/p>\n<p>Nenhum de n\u00f3s compreendia nada.<\/p>\n<p>O doutor sentou-se numa pedra.<\/p>\n<p>\u2014 Alberto, disse ele, e tu, Marcelina. Outro crime devia ser cometido nesta ocasi\u00e3o; mas tanto te amo, Alberto, tanto te amei, Marcelina, que eu prefiro deixar de cumprir a minha promessa&#8230;<\/p>\n<p>Ia interromp\u00ea-lo; mas ele n\u00e3o me deu ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas amam-se, disse ele.<\/p>\n<p>Marcelina deu um grito; eu ia protestar.<\/p>\n<p>\u2014 Amam-se que eu sei, continuou friamente o doutor; n\u00e3o importa! \u00c9 natural. Quem amaria um velho est\u00fardio como eu? Paci\u00eancia. Amem-se; eu s\u00f3 fui amado uma vez; foi por esta.<\/p>\n<p>Dizendo isto abra\u00e7ou-se ao esqueleto.<\/p>\n<p>\u2014 Doutor, pense no que est\u00e1 dizendo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 pensei&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas esta senhora \u00e9 inocente. N\u00e3o v\u00ea aquelas l\u00e1grimas?<\/p>\n<p>\u2014 Conhe\u00e7o essas l\u00e1grimas; l\u00e1grimas n\u00e3o s\u00e3o argumentos. Amam-se, que eu sei; desejo que sejam felizes, porque eu fui e sou teu amigo, Alberto. N\u00e3o merecia certamente isso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! meu amigo, interrompi eu, veja bem o que est\u00e1 dizendo; j\u00e1 uma vez foi levado a cometer um crime por suspeitas que depois soube serem infundadas. Ainda hoje padece o remorso do que ent\u00e3o fez. Reflita, veja bem se eu posso tolerar semelhante cal\u00fania.<\/p>\n<p>Ele encolheu os ombros, meteu a m\u00e3o no bolso, e tirou um papel e deu-mo a ler. Era uma carta an\u00f4nima; soube depois que fora escrita pelo Soares.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 indigno! clamei.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez, murmurou ele.<\/p>\n<p>E depois de um sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Em todo o caso, minha resolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 assentada, disse o doutor. Quero faz\u00ea-los felizes, e s\u00f3 tenho um meio: \u00e9 deix\u00e1-los. Vou com a mulher que sempre me amou. Adeus!<\/p>\n<p>O doutor abra\u00e7ou o esqueleto e afastou-se de n\u00f3s. Corri atr\u00e1s dele; gritei; tudo foi in\u00fatil; ele metera-se no mato rapidamente, e demais a mulher ficara desmaiada no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Vim socorr\u00ea-la; chamei gente. Da\u00ed a uma hora, a pobre mo\u00e7a, vi\u00fava sem o ser, lavava-se em l\u00e1grimas de afli\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCAPITULO VI<br \/>\nAlberto acabara a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 um doudo esse teu Dr. Bel\u00e9m! exclamou um dos convivas rompendo o sil\u00eancio de terror em que ficara o audit\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Ele doudo? disse Alberto. Um doudo seria efetivamente se porventura esse homem tivesse existido. Mas o Dr. Bel\u00e9m n\u00e3o existiu nunca, eu quis apenas fazer apetite para tomar ch\u00e1. Mandem vir o ch\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil dizer o efeito desta declarac\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO Eram dez ou doze rapazes. Falavam de artes, letras e pol\u00edtica. Alguma anedota vinha de quando em quando temperar a seriedade da conversa. Deus me perdoe! parece que at\u00e9 se fizeram alguns trocadilhos. O mar batia perto na praia solit\u00e1ria&#8230; estilo de medita\u00e7\u00e3o em prosa. 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