{"id":118215,"date":"2017-04-04T19:03:41","date_gmt":"2017-04-04T21:03:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118215"},"modified":"2017-04-04T19:03:41","modified_gmt":"2017-04-04T21:03:41","slug":"troca-de-datas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/troca-de-datas","title":{"rendered":"Troca de Datas"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO<\/b><\/p>\n<p>Deixa-te de partes, Eus\u00e9bio; vamos embora; isto n\u00e3o \u00e9 bonito. Cirila &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 lhe disse o que tenho de dizer, tio Jo\u00e3o, respondeu Eus\u00e9bio. N\u00e3o estou disposto a tornar \u00e0 vida de outro tempo. Deixem-me c\u00e1 no meu canto. Cirila que fique&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, enfim, ela n\u00e3o te fez nada.<\/p>\n<p>\u2014 Nem eu digo isso. N\u00e3o me fez cousa nenhuma; mas&#8230; para que repeti-lo? N\u00e3o posso atur\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Virgem Sant\u00edssima! Uma mo\u00e7a t\u00e3o sossegada! Voc\u00ea n\u00e3o pode aturar uma mo\u00e7a, que \u00e9 at\u00e9 boa demais?<\/p>\n<p>\u2014 Pois, sim; eu \u00e9 que sou mau- mas deixem-me.<\/p>\n<p>Dizendo isto, Eus\u00e9bio caminhou para a janela, e ficou olhando para fora. Dentro, o tio Jo\u00e3o, sentado, fazia circular o chap\u00e9u-de-chile no joelho, fitando o ch\u00e3o com um ar aborrecido e irritado. Tinha vindo na v\u00e9spera, e parece que com a certeza de voltar \u00e0 fazenda levando o pr\u00f3fugo Eus\u00e9bio. Nada tentou durante a noite, nem antes do almo\u00e7o. Almo\u00e7aram; preparou-se para dar uma volta na cidade, e, antes de sair, meteu ombros ao neg\u00f3cio. V\u00e3 tentativa! Eus\u00e9bio disse que n\u00e3o, e repetiu que n\u00e3o, \u00e0 tarde, e no dia seguinte. O tio Jo\u00e3o chegou a amea\u00e7\u00e1-lo com a presen\u00e7a de Cirila; mas a amea\u00e7a n\u00e3o surtiu melhor efeito, porque Eus\u00e9bio declarou positivamente que, se tal sucedesse, ent\u00e3o \u00e9 que ele faria cousa pior. N\u00e3o disse o que era, nem era f\u00e1cil achar cousa pior do que o abandono da mulher, a n\u00e3o ser o suic\u00eddio ou o assassinato; mas vamos ver que nenhuma destas hip\u00f3teses era sequer irnagin\u00e1vel. N\u00e3o obstante, o tio Jo\u00e3o teve medo do pior, pela energia do sobrinho, e resignou-se a tornar \u00e0 fazenda sem ele.<\/p>\n<p>De noite, falaram mansamente da fazenda e de outros neg\u00f3cios de Pira\u00ed; falaram tamb\u00e9m da guerra, e da batalha de Curuzu, em que Eus\u00e9bio entrara, e donde sa\u00edra sem ferimentos, adoecendo dias depois. De manh\u00e3, despediram-se; Eus\u00e9bio deu muitas lembran\u00e7as para a mulher, mandou-lhe mesmo alguns presentes, trazidos de prop\u00f3sito de Buenos Aires, e n\u00e3o se falou mais na volta.<\/p>\n<p>\u2014 Agora, at\u00e9 quando?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; pretendo embarcar daqui a um m\u00eas ou tr\u00eas semanas, e depois, n\u00e3o sei; s\u00f3 quando a guerra acabar.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO II<\/b><\/p>\n<p>H\u00e1 uma por\u00e7\u00e3o de cousas que est\u00e3o patentes ou se deduzem do cap\u00edtulo anterior. Eus\u00e9bio abandonou a mulher, foi para a guerra do Paraguai, veio ao Rio de Janeiro, nos fins de 1866, doente, com licen\u00e7a. Volta para a campanha. N\u00e3o odeia a mulher, tanto que lhe manda lembran\u00e7as e presentes. O que se n\u00e3o pode deduzir t\u00e3o claramente \u00e9 que Eus\u00e9bio \u00e9 capit\u00e3o de volunt\u00e1rios; \u00e9 capit\u00e3o, tendo ido tenente; portanto, subiu de posto, e, na conversa com o tio, prometeu voltar coronel.<\/p>\n<p>Agora, por que motivo, sendo a mulher t\u00e3o boa, e, n\u00e3o a odiando ele, pois que lhe remete uns mimos, comprados para ela, de prop\u00f3sito, n\u00e3o aqui, mas j\u00e1 em Buenos Aires, por que motivo, digo eu, resiste o Capit\u00e3o Eus\u00e9bio \u00e0 proposta de vir ver Cirila? That is the rub. Eis a\u00ed justamente o ponto intrincado. A imagina\u00e7\u00e3o perde-se em um mar de conjeturas, sem achar nunca o porto da verdade, ou pelo menos, a angra da verossimilhan\u00e7a. N\u00e3o; h\u00e1 uma angra; parece-me que o leitor sagaz, n\u00e3o atinando com outro motivo, recorrc \u00e0 incompatibilidade de g\u00eanio, \u00fanico modo de explicar este capit\u00e3o, que manda presentes \u00e0 consorte, e a repele.<\/p>\n<p>Sim e n\u00e3o. A quest\u00e3o reduz-se a uma troca de datas. Troca de datas? Mas&#8230; Sim, senhor, troca de datas, uma cl\u00e1usula psicol\u00f3gica e sentimental, uma cousa que o leitor n\u00e3o entende, nem entender\u00e1 se se n\u00e3o der ao trabalho de ler este escrito.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, fique sabendo que o nosso Eus\u00e9bio nasceu em 1842; est\u00e1 com vinte e quatro anos, depois da batalha de Curuzu. Foi criado por um pai severo e uma m\u00e3e sever\u00edssima. A m\u00e3e faleceu em 1854; em 1862 o pai determinou cas\u00e1-lo com a filha de um correligion\u00e1rio po!\u00edtico, isto \u00e9, conservador, ou, para falar a linguagem do tempo e do lugar, saquarema. Essa mo\u00e7a \u00e9 D. Cirila. Segundo todas as vers\u00f5es, at\u00e9 de advers\u00e1rios, D. Cirila era a primeira beleza da prov\u00edncia, fruta da ro\u00e7a, n\u00e3o da corte, aonde j\u00e1 viera duas ou tr\u00eas vezes, \u2014 fruta agreste e sadia. &#8220;Parece uma santa!&#8221; era o modo de exprimir a admira\u00e7\u00e3o dos que olhavam para ela; era assim que definiam a serenidade da fisionomia e a mansid\u00e3o dos olhos. Da alma podia dizer-se a mesma cousa, uma criatura pl\u00e1cida, parecia cheia de paci\u00eancia e do\u00e7ura.<\/p>\n<p>Saiba agora, em segundo lugar, que o nosso Eus\u00e9bio n\u00e3o criticou a escolha do pai, aprovou-a, gostou da noiva logo que a viu. Ela tamb\u00e9m; ao alvoro\u00e7o da virgem acresceu a simpatia que Eus\u00e9bio lhe inspirou, mas uma e outra cousa, alvoro\u00e7o e simpatia, n\u00e3o foram extraordin\u00e1rios, n\u00e3o subiram de certa medida escassa, compat\u00edvel com a natureza de Cirila.<\/p>\n<p>Com efeito, Cirila era ap\u00e1tica. Nascera para as fun\u00e7\u00f5es ang\u00e9licas, servir ao Senhor, cantar nos coros divinos, com a sua voz fraca e melodiosa, mas sem calor, nem arrebatamentos. Eus\u00e9bio n\u00e3o lhe viu sen\u00e3o os olhos, que eram, como digo, bonitos, e a boca fresca e bem rasgada; aceitou a noiva, e casaram-se da\u00ed a um m\u00eas.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o de toda a gente foi un\u00e2nime. \u2014 Um rapag\u00e3o! diziam consigo as damas. E os rapazes: \u2014 Uma linda pequena! A opini\u00e3o foi que o casamento n\u00e3o podia ser mais acertado e, portanto, devia ser felic\u00edssimo. Pouco tempo depois de casados, morreu o pai de Eus\u00e9bio; este convidou o tio a tomar conta da fazenda, e deixou-se ali ficar ao p\u00e9 da mulher. S\u00e3o dous pombinhos, dizia o tio Jo\u00e3o aos amigos. E enganava-se. Era uma pomba e um gavi\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentro de quatro meses, as duas naturezas t\u00e3o opostas achavam-se divorciadas. Eus\u00e9bio tinha as paix\u00f5es en\u00e9rgicas, tanto mais en\u00e9rgicas quanto que a educa\u00e7\u00e3o as comprimira. Para ele o amor devia ser vulc\u00e2nico, uma fus\u00e3o de duas naturezas impetuosas; uma torrente em suma, figura excelente, que me permite o contraste do lago quieto. O lago era Cirila. Cirila era incapaz de paix\u00f5es grandes, nem boas nem m\u00e1s; tinha a sensibilidade curta e afei\u00e7\u00e3o moderada, quase nenhuma, antes obedi\u00eancia do que impulso, mais conformidade que arrojo. N\u00e3o contradizia nada, mas tamb\u00e9m n\u00e3o exigia nada. Provavelmente, n\u00e3o teria ci\u00fames. Eus\u00e9bio disse consigo que a mulher era um cad\u00e1ver, e, lembrando-se do Eurico, emendou-lhe uma frase: \u2014 Ningu\u00e9m vive atado a um cad\u00e1ver, disse ele.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois, deixou ele a mulher e a fazenda, tendo assinado todas as procura\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias. A raz\u00e3o dada foi a guerra do Paraguai; e, com efeito, ele ofereceu os seus servi\u00e7os ao governo; mas n\u00e3o h\u00e1 inconveniente que uma raz\u00e3o nas\u00e7a com outra, ao lado, ou dentro de si mesma. A verdade \u00e9 que, na ocasi\u00e3o em que ele resolvia ir para a campanha, deliciava os habitantes do Pira\u00ed uma companhia de cavalinhos na qual uma certa dama, rija, de olhos negros e quentes, fazia maravilhas no trap\u00e9zio e na corrida em p\u00ealo. Chamava-se Rosita; e era oriental. Eus\u00e9bio assinou com essa representante da rep\u00fablica vizinha um tratado de perp\u00e9tua alian\u00e7a, que durou dous meses. Foi depois do rompimento que Eus\u00e9bio, tendo provado o vinho dos fortes, determinou deixar a \u00e1gua simples de casa. N\u00e3o queria fazer as cousas com esc\u00e2ndalo, e adotou o pretexto marcial. Cirila ouviu a not\u00edcia com tristeza, mas sem tumulto. Estava fazendo crivo; parou, fitou-o, parece que com os olhos um tanto \u00famidos, mas sem nenhum solu\u00e7o e at\u00e9 nenhuma l\u00e1grima. Levantou-se e foi cuidar da bagagem. Creio que \u00e9 tempo de acabar este cap\u00edtulo.<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO III<\/b><\/p>\n<p>Como n\u00e3o \u00e9 inten\u00e7\u00e3o do escrito contar a guerra, nem o papel que l\u00e1 fez o Capit\u00e3o Eus\u00e9bio, corramos depressa ao fim, no m\u00eas de outubro de 1870, em que o batalh\u00e3o de Eus\u00e9bio voltou ao Rio de Janeiro, vindo ele major, e trazendo ao peito duas medalhas e dous oficialatos: um bravo. A gente que nas ruas e das janelas via passar os galhardos vencedores era muita, luzida e diversa, N\u00e3o admira, se no meio de tal confus\u00e3o o nosso Eus\u00e9bio n\u00e3o viu a mulher. Era ela, entretanto, que estava debru\u00e7ada da janela de uma casa da Rua Primeiro de Mar\u00e7o, com algumas parentas e amigas, e o infal\u00edvel tio Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Olha, Cirila, olha, l\u00e1 vem ele, dizia o bom roceiro.<\/p>\n<p>Cirila baixou os olhos ao marido. N\u00e3o o achou mudado, sen\u00e3o para melhor: pareceu-lhe mais robusto, mais gordo; al\u00e9m disso, tinha o ar marcial, que acentuava a figura. N\u00e3o o tendo visto desde cinco anos, era natural que a como\u00e7\u00e3o fosse forte, e algumas amigas, receosas, olhavam para ela. Mas Cirila n\u00e3o desmaiou, n\u00e3o se alvoro\u00e7ou. O rosto ficou sereno como era. Fitou Eus\u00e9bio, \u00e9 verdade, mas n\u00e3o muito tempo, e, em todo caso, como se ele tivesse sa\u00eddo daqui na semana anterior. O batalh\u00e3o passou; o tio Jo\u00e3o saiu para ir esperar o sobrinho no quartel.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, vem c\u00e1, meu rapaz!<\/p>\n<p>\u2014 Oh! tio Jo\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Voltas cheio de gl\u00f3ria! exclamou o tio Jo\u00e3o depois de o abra\u00e7ar apertadamente.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe?<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o! Lemos tudo o que saiu nas folhas; voc\u00ea brilhou&#8230; H\u00e1 de contar-nos isso depois. Cirila est\u00e1 na corte&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Estamos em casa do Soares Martins.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dizer que ele recebeu a not\u00edcia com desgosto: mas tamb\u00e9m n\u00e3o se pode afirmar que com prazer; indiferente, \u00e9 verdade, indiferente e frio. A entrevista n\u00e3o foi mais alvoro\u00e7ada, ambos apertaram as m\u00e3os com um ar de pessoas que se estimam sem intimidade. Tr\u00eas dias depois, Cirila voltava para a ro\u00e7a, e o Major Eus\u00e9bio deixava-se ficar na corte.<\/p>\n<p>J\u00e1 o fato de ficar \u00e9 muito; mas, n\u00e3o se limitou a isso. Eus\u00e9bio estava namorado de uma dama de Buenos Aires, que prometera vir ter com ele ao Rio de Janeiro. N\u00e3o acreditando que ela cumprisse a palavra, preparou-se para tornar ao Rio da Prata, quando ela aqui aportou, quinze dias depois. Chamava-se Dolores, e era realmente bela, um belo tipo de argentina. Eus\u00e9bio amava-a loucamente, ela n\u00e3o o amava de outro modo; ambos formavam um par de doudos.<\/p>\n<p>Eus\u00e9bio alugou casa na Tijuca, onde foram viver os dous, como um casal de \u00e1guias. Os moradores do lugar contavam que eles eram um modelo de costumes e outro modelo de afei\u00e7\u00e3o. Com efeito, n\u00e3o davam esc\u00e2ndalo e amavam-se com o ardor, a tenacidade e o exclusivismo das grandes paix\u00f5es. Passeavam juntos, conversavam de si e do c\u00e9u; ele deixava de ir \u00e0 cidade tr\u00eas, cinco, seis dias, e quando ia era para se demorar o tempo estritamente necess\u00e1rio. Perto da hora de voltar, via-se a bela Dolores esper\u00e1-lo ansiosa \u00e0 janela, ou ao port\u00e3o. Um dia a demora foi al\u00e9m dos limites do costume; eram cinco horas da tarde, e nada; deram seis, sete, nem sombra de Eus\u00e9bio. Ela n\u00e3o podia ter-se; ia de um ponto para outro, interrogava os criados, mandava um deles ver se aparecia o patr\u00e3o. N\u00e3o chorava, tinha os olhos secos, ardentes. Enfim, perto de oito horas, apareceu Eus\u00e9bio. Vinha esbaforido; tinha ido \u00e0 casa do Ministro da Guerra, onde o oficial do gabinete lhe disse que S. Ex.\u00aa desejava falar-lhe, nesse mesmo dia. Voltou l\u00e1 \u00e0s quatro horas; n\u00e3o o achou, esperou-o at\u00e9 \u00e0s cinco, at\u00e9 \u00e0s seis; s\u00f3 \u00e0s seis e meia \u00e9 que o ministro voltou da C\u00e2mara, onde a discuss\u00e3o lhe tomara o tempo.<\/p>\n<p>Ao jantar, contou Eus\u00e9bio que o motivo da entrevista com o Ministro da Guerra fora um emprego que ele pedira, e que o ministro, n\u00e3o podendo dar-lho, trocara por outro. Eus\u00e9bio aceitou; era para o Norte, na prov\u00edncia do Par\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 No Par\u00e1?! interrompeu Dolores.<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Que tem?<\/p>\n<p>Dolores refletiu um instante; depois disse que ele fazia muito bem aceitando, mas que ela n\u00e3o iria; receava os calores da prov\u00edncia, tinha l\u00e1 perdido uma amiga; provavelmente, voltava a Buenos Aires. O pobre major n\u00e3o p\u00f4de acabar de comer; instou com ela, mostrou-lhe que o clima era excelente, e que as amigas podiam morrer em qualquer parte. Mas a argentina abanou a cabe\u00e7a. Sinceramente, n\u00e3o queria.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Eus\u00e9bio desceu outra vez para pedir dispensa ao ministro, e rogar-lhe que o desculpasse, porque um motivo s\u00fabito, um incidente&#8230; Regressou \u00e0 Tijuca, dispensado e triste; mas os olhos de Dolores curaram-lhe a tristeza em menos de um minuto.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 l\u00e1 vai o Par\u00e1, disse ele alegremente.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>Dolores agradeceu-lhe o sacrif\u00edcio com um afago; abra\u00e7aram-se amorosos, como no primeiro dia. Eus\u00e9bio estava contente com ter cedido; n\u00e3o advertiu que, se ele insistisse, Dolores embarcaria tamb\u00e9m. Ela n\u00e3o fez mais do que exercer a influ\u00eancia que tinha, para se n\u00e3o remover da capital; mas, assim como Eus\u00e9bio sacrificou por ela o emprego, assim Dolores sacrificaria por ele o repouso. O que ambos queriam principalmente era n\u00e3o se separarem nunca.<\/p>\n<p>Dous meses depois, veio a quadra dos ci\u00fames. Eus\u00e9bio desconfiou de Dolores, Dolores desconfiou de Eus\u00e9bio, e as tempestades desencadearam-se sobre a casa como o pampeiro do Sul. Diziam um ao outro cousas duras, algumas ign\u00f3beis; Dolores arremetia contra ele, Eus\u00e9bio contra ela; espancavam-se e amavam-se. A opini\u00e3o do lugar chegava ao extremo de dizer que eles se amavam melhor depois de espancados.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o sistemas! murmurava um comerciante ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Assim se passou metade do ano de 1871. No princ\u00edpio de agosto, recebeu Eus\u00e9bio uma carta do tio Jo\u00e3o, que lhe dava not\u00edcia de que a mulher estava doente de cama, e queria falar-lhe. Eus\u00e9bio mostrou a carta a Dolores. N\u00e3o havia rem\u00e9dio sen\u00e3o ir; prometeu voltar logo&#8230; Dolores pareceu consentir, ou deveras consentiu na ocasi\u00e3o; mas duas horas depois, foi ter com ele, e ponderou-lhe que n\u00e3o se tratava de mol\u00e9stia grave, se n\u00e3o o tio o diria na carta; provavelmente, era para tratar dos neg\u00f3cios da fazenda.<\/p>\n<p>\u2014 Se n\u00e3o \u00e9 tudo mentira, acrescentou ela.<\/p>\n<p>Eus\u00e9bio n\u00e3o tinha advertido na possibilidade de um invento, com o fim de o arrancar aos bra\u00e7os da bela Dolores, concordou que podia ser isso, e resolveu escrever. Escreveu com efeito, dizendo que por neg\u00f3cios urgentes n\u00e3o podia ir logo; mas que desejava saber tudo o que havia, n\u00e3o s\u00f3 a respeito da mol\u00e9stia de Cirila, como dos neg\u00f3cios da fazenda. A carta era um modelo de hipocrisia. Foram com ela uns presentes para a mulher.<\/p>\n<p>N\u00e3o veio resposta. O tio Jo\u00e3o, indignado, n\u00e3o lhe respondeu nada. Cirila estava deveras doente, e a doen\u00e7a n\u00e3o era grave, nem foi longa; nada soube da carta, na ocasi\u00e3o; mas, quando ela se restabeleceu o tio disse-lhe tudo, ao dar-lhe os presentes que Eus\u00e9bio lhe mandara.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o contes mais com teu marido, concluiu ele; \u00e9 um pelintra, um sem-vergonha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! tio Jo\u00e3o! repreendeu Cirila.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea ainda toma as dores por ele?<\/p>\n<p>\u2014 Isto n\u00e3o \u00e9 tomar as dores&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 uma tola! bradou o tio Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Cirila n\u00e3o disse que n\u00e3o; tamb\u00e9m n\u00e3o disse que sim; n\u00e3o disse nada. Olhou para o ar, e foi dar umas ordens da cozinha. Para ser exato e minucioso, \u00e9 preciso dizer que, durante o trajeto, Cirila pensou no marido; na cozinha, por\u00e9m, s\u00f3 pensou na cozinheira. As ordens que deu sa\u00edram-lhe da boca, sem altera\u00e7\u00e3o de voz; e, lendo da\u00ed a pouco a carta do marido ao tio, f\u00ea-lo com saudade, \u00e9 poss\u00edvel, mas sem indigna\u00e7\u00e3o nem desespero. H\u00e1 quem afirme que uma certa l\u00e1grima lhe caiu dos olhos no papel; mas se deveras caiu, n\u00e3o foi mais de uma; em todo caso, n\u00e3o chegou a apagar nenhuma letra, porque caiu na margem, e Eus\u00e9bio escrevia com margens grandes todas as suas cartas&#8230;<\/p>\n<p><b>CAP\u00cdTULO IV<\/b><\/p>\n<p>Dolores acabou. O que \u00e9 que n\u00e3o acaba? Acabou Dolores poucos meses depois da carta de Eus\u00e9bio \u00e0 mulher, n\u00e3o morrendo, mas fugindo para Buenos Aires com um patr\u00edcio. Eus\u00e9bio padeceu muito, e resolveu matar os dous, \u2014 ou, pelo menos, arrebatar a amante ao rival. Um incidente obstou a esse desastre.<\/p>\n<p>Eus\u00e9bio vinha do escrit\u00f3rio da companhia de paquetes, onde fora tratar da passagem, quando sucedeu um desastre na Rua do Ros\u00e1rio perto do Beco das Cancelas: \u2014 um carro foi de encontro a uma carro\u00e7a, e quebrou-a. Eus\u00e9bio, apesar das preocupa\u00e7\u00f5es de outra esp\u00e9cie, n\u00e3o p\u00f4de conter o movimento que tinha sempre em tais ocasi\u00f5es para ir saber o que era, a extens\u00e3o do desastre, a culpa do cocheiro, para chamar a pol\u00edcia, etc. Correu ao lugar; achou dentro do carro uma senhora, mo\u00e7a e bonita. Ajudou-a a sair, levou-a para uma casa, e n\u00e3o a deixou sem lhe prestar outros pequenos servi\u00e7os; finalmente, deu-se como testemunha nas indaga\u00e7\u00f5es policiais. Este \u00faltimo obs\u00e9quio foi j\u00e1 um pouco interesseiro; a senhora deixara-lhe n&#8217;alma uma deliciosa impress\u00e3o. Soube que era vi\u00fava, fez-se encontradi\u00e7o, e amaram-se. Quando ele confessou que era casado, D. Jesu\u00edna, que este era o nome dela, n\u00e3o p\u00f4de reter um dil\u00favio de l\u00e1grimas&#8230; Mas amavam-se, e amaram-se. A paix\u00e3o durou um ano e mais, e n\u00e3o acabou por culpa dela, mas dele, cuja viol\u00eancia n\u00e3o raras vezes trazia atr\u00e1s de si o fastio. D. Jesu\u00edna chorou muito, arrependeu-se; mas o fastio de Eus\u00e9bio era completo.<\/p>\n<p>Esquecidas as duas, ali\u00e1s as tr\u00eas damas, porque \u00e9 preciso contar a do circo, parecia que Eus\u00e9bio ia voltar \u00e0 fazenda e restituir-se \u00e0 fam\u00edlia. N\u00e3o pensou em tal cousa. A corte seduzia-o; a vida solta entrara-lhe no sangue. Correspondia-se com a mulher e com o tio, mandava-lhes presentinhos e lembran\u00e7as, chegara mesmo a anunciar que iria para casa da\u00ed a uma semana ou duas, pelo S. Jo\u00e3o, pela Gl\u00f3ria, mas ia-se deixando ficar. Enfim, um dia, ao m\u00eas de dezembro, chegou a preparar-se deveras, embora lhe custasse muito, mas um namoro novo o dissuadiu, e ele ficou outra vez.<\/p>\n<p>Eus\u00e9bio freq\u00fcentava assiduamente os teatros, era doudo por francesas e italianas, fazia verdadeiros desatinos, mas como era tamb\u00e9m feliz, os desatinos ficavam largamente compensados. As paix\u00f5es eram en\u00e9rgicas e infrenes; ele n\u00e3o podia resistir-lhes, n\u00e3o chegava mesmo a tent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Cirila foi-se acostumando a viver separada. Afinal convenceu-se de que entre um e outro o destino ou a natureza cavara um abismo, e deixou-se estar na fazenda, com o tio Jo\u00e3o. O tio Jo\u00e3o concordava com a sobrinha.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o, dizia ele; voc\u00eas n\u00e3o nasceram um para o outro. S\u00e3o dous g\u00eanios contr\u00e1rios. Veja o que s\u00e3o \u00e0s vezes os casamentos. Mas eu tamb\u00e9m tenho culpa, porque aprovei tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m podia adivinhar, tio Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 verdade. E voc\u00ea ainda tem esperan\u00e7as?<\/p>\n<p>\u2014 De qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 De que ele volte?<\/p>\n<p>\u2014 Nenhuma.<\/p>\n<p>E, de fato, n\u00e3o esperava nada. Mas escrevia-lhe sempre, \u2014 brandamente afetuosa, sem l\u00e1grimas, nem queixumes, nem pedido para voltar; n\u00e3o havia sequer saudades, dessas saudades de f\u00f3rmula, nada. E era isto justamente o que quadrava ao esp\u00edrito de Eus\u00e9bio; eram essas cartas sem inst\u00e2ncia, que o n\u00e3o perseguiam nem exortavam nem acusavam, como as do tio Jo\u00e3o; e era por isso que ele mantinha constante e regular a correspond\u00eancia com a mulher.<\/p>\n<p>Um dia, \u2014 passados cinco anos, \u2014 Cirila veio \u00e0 corte, com o tio; esteve aqui cinco ou seis dias e voltou para a ro\u00e7a, sem procurar o marido. Este soube do caso, disseram-lhe que ela estava em certo hotel, correu para l\u00e1, mas era tarde. Cirila partira no trem da manh\u00e3. Eus\u00e9bio escreveu-lhe no dia seguinte, chamando-lhe ingrata e esquecida; Cirila desculpou-se em dizer que tivera necessidade urgente de voltar, e n\u00e3o se falou mais nisso.<\/p>\n<p>Durante esse tempo a vida de Eus\u00e9bio continuara no mesmo diapas\u00e3o. Os seus amores multiplicavam-se, e eram sempre mulheres t\u00e3o impetuosas e ardentes, como ele. Uma delas, leoa ciumenta, duas ou tr\u00eas vezes lutara com outras, e at\u00e9 o feriu uma vez, deitando-lhe \u00e0 cara uma tesoura. Chamava-se Sofia, e era rio-grandense. T\u00e3o depressa viu o sangue rebentar do queixo de Eus\u00e9bio (a tesoura apanhara de leve essa parte do rosto) Sofia caiu sem sentidos. Eus\u00e9bio esqueceu-se de si mesmo, para correr a ela. Voltando a si, ela pediu-lhe perd\u00e3o, rojou-se-lhe aos p\u00e9s, e foi cur\u00e1-lo com uma dedica\u00e7\u00e3o de m\u00e3e. As cenas de ci\u00fames reproduziram-se assim, violentas, por parte de ambos.<\/p>\n<p>Rita foi outra paix\u00e3o de igual g\u00eanero, com iguais epis\u00f3dios, e n\u00e3o foi a \u00faltima. Outras vieram, com outros nomes. Uma dessas deu lugar a um ato de delicadeza, realmente inesperado da parte de um homem como aquele. Era uma linda mineira, de nome Ros\u00e1ria, que ele encontrou no Passeio P\u00fablico, um s\u00e1bado, \u00e0 noite.<\/p>\n<p>\u2014 Cirila! exclamou ele.<\/p>\n<p>Com efeito, Ros\u00e1ria era a cara de Cirila, a mesma figura, os mesmos ombros; a diferen\u00e7a \u00fanica era que a mulher dele tinha naturalmente os modos acanhados e modestos, ao passo que Ros\u00e1ria adquirira outras maneiras soltas. Eus\u00e9bio nao tardou em reconhecer isso mesmo. A paix\u00e3o que esta mulher lhe inspirou foi grande; mas n\u00e3o menor foi o esfor\u00e7o que ele empregou para esquec\u00ea-la. A semelhanca com a mulher constitu\u00eda para ele um abismo. Nem queria ao p\u00e9 de si esse fiel traslado, que seria ao mesmo tempo um remorso, nem tamb\u00e9m desejava fitar aqueles costumes livres, que lhe conspurcavam a imagem da mulher. Era assim que ele pensava, quando a via; ausente, voltava a paix\u00e3o. Que era preciso para venc\u00ea-la, sen\u00e3o outra? Uma Clarinha consolou de Ros\u00e1ria, uma Lu\u00edsa de Clarinha, uma Romana de Lu\u00edsa, etc., etc.<\/p>\n<p>N\u00e3o iam passando s\u00f3 as aventuras, mas os anos tamb\u00e9m, os anos que n\u00e3o perdoam nada. O cora\u00e7\u00e3o de Eus\u00e9bio tinha-se fartado de amor; a vida oferecera-lhe a ta\u00e7a cheia, e ele embriagara-se depressa. Estava cansado, e tinham passado oito anos. Pensou em voltar para casa, mas como? A vergonha dominou-o. Escreveu uma carta \u00e0 mulher, pedindo-lhe perd\u00e3o de tudo, mas rasgou-a logo, e ficou. O fastio veio sentar-se ao p\u00e9 dele; a solid\u00e3o acabrunhou-o. Cada carta de Cirila trazia-lhe o aroma da ro\u00e7a, a saudade de casa, a vida quieta ao lado da esposa constante e meiga, e ele tinha \u00edmpetos de meter-se na estrada de ferro; mas a vergonha&#8230;<\/p>\n<p>No m\u00eas de outubro de 1879, recebeu uma carta do tio Jo\u00e3o. Era a primeira depois de algum tempo; receou alguma not\u00edcia m\u00e1, abriu-a, e preparou-se logo para seguir. Com efeito, Cirila estava doente, muito doente. No dia seguinte partiu. Ao ver, \u00e0 dist\u00e2ncia, a fazenda, a casa, a capelinha, estremeceu e sentiu alguma cousa melhor, menos desatinado do que os anos perdidos. Entrou em casa tr\u00f4pego. Cirila estava dormindo quando ele chegou, e, apesar dos pedidos do tio Jo\u00e3o, Eus\u00e9bio foi ao quarto, p\u00e9 ante p\u00e9, e contemplou-a. Saiu logo, escondendo os olhos; o tio Jo\u00e3o apertou-o nos bra\u00e7os, e contou-lhe tudo. Cirila adoecera de uma febre perniciosa, e o m\u00e9dico disse que o estado era grav\u00edssimo, e a morte muito prov\u00e1vel; felizmente, naquele dia de manh\u00e3, a febre cedera.<\/p>\n<p>Cirila restabeleceu-se em poucos dias. Eus\u00e9bio, durante os primeiros, consentiu em n\u00e3o ver a mulher, para lhe n\u00e3o produzir nenhum abalo; mas j\u00e1 sabemos que Cirila tinha os abalos insignificantes. Estendeu-lhe a m\u00e3o, quando ele lhe apareceu, como se ele tivesse sa\u00eddo dali na semana anterior; tal qual se despedira antes, quando ele foi para a guerra.<\/p>\n<p>\u2014 Agora \u00e9 de vez? perguntou o tio Jo\u00e3o ao sobrinho.<\/p>\n<p>\u2014 Juro que \u00e9 de vez.<\/p>\n<p>E cumpriu. N\u00e3o se pense que ficou constrangido, ou com o ar enfadado de um grande estr\u00f3ina que acabou. Nada; ficou amigo da mulher, meigo, brando, dado ao amor quieto, sem explos\u00f5es, sem, excessos qual o de Cirila. Quem os via podia crer que eram as duas almas mais homog\u00eaneas do universo; pareciam ter nascido um para o outro.<\/p>\n<p>O tio Jo\u00e3o, homem rude e fil\u00f3sofo, ao v\u00ea-los agora t\u00e3o unidos, confirmou dentro de si mesmo a observa\u00e7\u00e3o que fizera uma vez, mas modificando-a, por este modo: \u2014 N\u00e3o eram as naturezas que eram opostas, as datas \u00e9 que se n\u00e3o ajustavam; o marido de<br \/>\nCirila \u00e9 este Eus\u00e9bio dos quarenta, n\u00e3o o outro. Enquanto quisermos combinar as datas contr\u00e1rias, perdemos o tempo; mas o tempo andou e combinou tudo.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO Deixa-te de partes, Eus\u00e9bio; vamos embora; isto n\u00e3o \u00e9 bonito. 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