{"id":118211,"date":"2017-04-04T18:59:19","date_gmt":"2017-04-04T20:59:19","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118211"},"modified":"2017-04-04T18:59:19","modified_gmt":"2017-04-04T20:59:19","slug":"tempo-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tempo-de-crise","title":{"rendered":"Tempo de Crise"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>TEMPO DE CRISE<\/b><\/p>\n<p><b>[JF. abr. de 1873.]<\/b><\/p>\n<p>Queres tu saber, meu rico irm\u00e3o, a not\u00edcia que achei no Rio de Janeiro, apenas pus p\u00e9 em terra? Uma crise ministerial. N\u00e3o imaginas o que \u00e9 uma crise ministerial na cidade fluminense. L\u00e1 na prov\u00edncia chegam as not\u00edcias amortecidas pela distancia, e al\u00e9m disso completas; quando sabemos de um minist\u00e9rio defunto, sabemos logo de um minist\u00e9rio rec\u00e9m-nato. Aqui a cousa \u00e9 diversa, assiste-se \u00e0 morte do agonizante, depois ao enterro, depois ao nascimento do outro, o qual muitas vezes, gra\u00e7as \u00e0s dificuldades pol\u00edticas, s\u00f3 vem \u00e0 luz depois de uma opera\u00e7\u00e3o cesariana.<\/p>\n<p>Quando desembarquei estava o C. \u00e0 minha espera na Praia dos Mineiros, e as suas primeiras palavras foram estas:<\/p>\n<p>\u2014 Caiu o minist\u00e9rio!<\/p>\n<p>Tu sabes que eu tinha raz\u00f5es para n\u00e3o gostar do gabinete, depois da quest\u00e3o de meu cunhado, de cuja demiss\u00e3o ainda ignoro a causa. Todavia, senti que o gabinete morresse t\u00e3o cedo, antes de dar todos os seus frutos, principalmente quando o neg\u00f3cio do meu cunhado era justamente o que me trazia c\u00e1. Perguntei ao C. quem eram os novos ministros.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, respondeu; nem te posso afirmar se os outros ca\u00edram; mas desde manh\u00e3 n\u00e3o corre outra cousa. Vamos saber not\u00edcias. Queres comer?<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida, respondi; vou residir no Hotel da Europa, se houver lugar.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de haver.<\/p>\n<p>Seguimos para o Hotel da Europa que \u00e9 na Rua do Ouvidor; l\u00e1 me deram um aposento e um almo\u00e7o. Acendemos charutos e sa\u00edmos.<\/p>\n<p>A porta perguntei-lhe eu:<\/p>\n<p>\u2014 Onde saberemos not\u00edcias?<\/p>\n<p>\u2014 Aqui mesmo na Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o na Rua do Ouvidor \u00e9 que?<\/p>\n<p>\u2014 Sim; a Rua do Ouvidor \u00e9 o lugar mais seguro para saber not\u00edcias. A casa do Moutinho ou do Bernardo, a casa do Desmarais ou do Garnier, s\u00e3o verdadeiras esta\u00e7\u00f5es telegr\u00e1ficas. Ganha-se mais em estar a\u00ed comodamente sentado do que em andar pela casa dos homens da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouvi silenciosamente as explica\u00e7\u00f5es do C. e segui com ele at\u00e9 um pasmat\u00f3rio pol\u00edtico, onde apenas encontramos um sujeito fumando, e conversando com o caixeiro.<\/p>\n<p>\u2014 A que horas esteve ela aqui? perguntava o sujeito.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s dez.<\/p>\n<p>Ouvimos estas palavras entrando. O sujeito calou-se imediatamente e sentou-se numa cadeira por tr\u00e1s de um mostrador, batendo com a bengala na ponta do botim.<\/p>\n<p>\u2014 Trata-se de algum namoro, n\u00e3o? perguntei eu baixinho ao C.<\/p>\n<p>\u2014 Curioso! respondeu-me ele; naturalmente \u00e9 algum namoro, tens raz\u00e3o; alguma rosa de Citera.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! disse eu.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Os jardins de Citera s\u00e3o francos; ningu\u00e9m espreita as rosas por fora . . .<\/p>\n<p>\u2014 Provinciano! disse o C. com um daqueles sorrisos que s\u00f3 ele tem; tu n\u00e3o sabes que, estando as rosas em moda, h\u00e1 certa honra para o jardineiro. . . Anda sentar-te.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; fiquemos um pouco \u00e0 porta; quero conhecer esta rua de que tanto se fala.<\/p>\n<p>\u2014 Com raz\u00e3o, respondeu o C. Dizem de Shakespeare que, se a humanidade perecesse, ele s\u00f3 poderia comp\u00f4-la, pois que n\u00e3o deixou intacta uma fibra sequer do cora\u00e7\u00e3o humano. Aplico el cuento. A Rua do Ouvidor resume o Rio de Janeiro. A certas horas do dia, pode a f\u00faria celeste destruir a cidade; se conservar a Rua do Ouvidor, conserva No\u00e9, a fam\u00edlia e o mais. Uma cidade \u00e9 um corpo de pedra com um rosto. O rosto da cidade fluminense \u00e9 esta rua, rosto eloq\u00fcente que exprime todos os sentimentos e todas as id\u00e9ias&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Continua, meu Virg\u00edlio.<\/p>\n<p>\u2014 Pois vai ouvindo, meu Dante. Queres ver a eleg\u00e2ncia fluminense. Aqui achar\u00e1s a flor da sociedade, \u2014 as senhoras que v\u00eam<br \/>\nescolher j\u00f3ias ao Valais ou sedas a Notre Dame, \u2014 os rapazes que v\u00eam conversar de teatros, de sal\u00f5es, de modas e de mulheres. Queres saber da pol\u00edtica? Aqui saber\u00e1s das not\u00edcias mais frescas, das evolu\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas, dos acontecimentos prov\u00e1veis; aqui ver\u00e1s o deputado atual com o deputado que foi, o ministro defunto e \u00e0s vezes o ministro vivo. V\u00eas aquele sujeito? \u00c9 um homem de letras. Deste lado, vem um dos primeiros negociantes da pra\u00e7a. Queres saber do estado do c\u00e2mbio? Vai ali ao Jornal do Com\u00e9rcio, que \u00e9 o Times de c\u00e1. Muita vez encontrar\u00e1s um coup\u00e9 \u00e0 porta de uma loja de modas: \u00e9 uma Ninon fluminense. V\u00eas um sujeito ao p\u00e9 dela, dentro da loja, dizendo um galanteio? Pode ser um diplomata. Dir\u00e1s que eu s\u00f3 menciono a sociedade mais ou menos elegante? N\u00e3o; o oper\u00e1rio p\u00e1ra aqui tamb\u00e9m para ter o prazer de contemplar durante minutos uma destas vidra\u00e7as rutilante de riqueza, \u2014 porquanto, meu caro amigo, a riqueza tem isto de bom consigo, \u2014 \u00e9 que a simples vista consola.<\/p>\n<p>Saiu-me o C. tamanho fil\u00f3sofo que me espantou. Ao mesmo tempo agradeci ao c\u00e9u t\u00e3o precioso encontro. Para um provinciano, que n\u00e3o conhece bem a capital, \u00e9 uma felicidade encontrar um cicerone inteligente.<\/p>\n<p>O sujeito que estava dentro chegou \u00e0 porta, demorou-se alguns instantes, e saiu acompanhado por outro, que ent\u00e3o passava.<\/p>\n<p>\u2014 Cansou de esperar, disse eu.<\/p>\n<p>\u2014 Sentemo-nos.<\/p>\n<p>Sentamo-nos.<\/p>\n<p>\u2014 Fala-se ent\u00e3o de tudo aqui?<\/p>\n<p>\u2014 De tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Bem e mal?<\/p>\n<p>\u2014 Como na vida. \u00c9 a sociedade humana em ponto pequeno. Mas por enquanto o que nos importa \u00e9 a crise; deixemos de moralizar&#8230;<\/p>\n<p>Interessava-me tanto a conversa, que pedi ao C. a continua\u00e7\u00e3o das suas li\u00e7\u00f5es, t\u00e3o necess\u00e1rias a quem n\u00e3o conhecia a cidade.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te iludas, disse ele, a melhor li\u00e7\u00e3o deste mundo n\u00e3o vale um m\u00eas de experi\u00eancia e de observa\u00e7\u00e3o. Abre um moralista; enconrar\u00e1s excelentes an\u00e1lises do cora\u00e7\u00e3o humano; mas se n\u00e3o fizeres a experi\u00eancia por ti mesmo pouco te valer\u00e1 o teres lido. La Rochefoucauld aos vinte anos faz dormir; aos quarenta \u00e9 um livro predileto . . .<\/p>\n<p>Estas \u00faltimas palavras revelaram no C. um desses indiv\u00edduos doentes que andam a ver tudo cor de morte e do sangue. Eu que vinha para divertir-me, n\u00e3o queria estar a bra\u00e7os com um segundo volume de nosso Padre Tom\u00e9, esp\u00e9cie de Timon crist\u00e3o, a quem dar\u00e1s a ler esta carta, acompanhada de muitas lembran\u00e7as minhas.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes que mais? disse eu ao meu cicerone, vim para divertir-me, e por isso acho-te raz\u00e3o; tratemos da crise. Mas por enquanto nada sabemos, e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Aqui vem o nosso Abreu, que h\u00e1 de saber alguma cousa.<\/p>\n<p>O Dr. Abreu que entrou nesse momento, era um homem alto e magro, longo bigode, colarinho em p\u00e9, palet\u00f3 e cal\u00e7as azuis. Fomos apresentados um ao outro. O C. perguntou-lhe o que sabia da crise.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, respondeu misteriosamente o Dr. Abreu; apenas ouvi ontem de noite que os homens n\u00e3o se entendiam&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu j\u00e1 hoje ouvi dizer na pra\u00e7a que havia crise formal, disse o C.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 poss\u00edvel, disse o outro. Sa\u00ed agora mesmo de casa, e vim logo para aqui&#8230; Houve Camara?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Bem; isso \u00e9 um ind\u00edcio. Estou capaz de ir \u00e0 Camara&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea? Aqui mesmo saberemos.<\/p>\n<p>O Dr. Abreu tirou um charuto de uma charuteira de marroquim encarnado, e fitando muito os olhos no ch\u00e3o, como quem est\u00e1 seguindo um pensamento, acendeu quase maquinalmente o charuto.<\/p>\n<p>Soube depois que era um meio inventado por ele para n\u00e3o oferecer charutos aos circunstantes.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que lhe parece? perguntou-lhe o C. passando algum tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me que os homens caem. Nem podia deixar de ser assim. H\u00e1 mais de um m\u00eas que andam brigados.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por qu\u00ea? perguntei eu.<\/p>\n<p>\u2014 Por v\u00e1rias cousas; e a principal \u00e9 justamente a presid\u00eancia da sua prov\u00edncia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 O Ministro do Imp\u00e9rio quer o Valadares, e o da fazenda insiste pelo Robim. Ontem houve conselho de ministros, e o do Imp\u00e9rio apresentou definitivamente a nomea\u00e7\u00e3o do Valadares&#8230; Que faz o colega?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, vivam! Ent\u00e3o j\u00e1 sabem da crise?<\/p>\n<p>Esta pergunta era feita por um sujeito que entrou pela loja mais r\u00e1pido que um foguete. Trazia na cara uns ares de gazeta noticiosa.<\/p>\n<p>\u2014 Crise formal? perguntamos todos.<\/p>\n<p>\u2014 Completa. Os homens brigaram ontem de noite; e foram hoje de manh\u00e3 a S. Crist\u00f3v\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 o que dizia, observou o Dr. Abreu.<\/p>\n<p>\u2014 Qual o verdadeiro motivo da crise? perguntou o C.<\/p>\n<p>\u2014 O verdadeiro motivo foi uma quest\u00e3o da guerra.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creia nisso!<\/p>\n<p>O Dr. Abreu disse estas palavras com um ar de t\u00e3o altiva convic\u00e7\u00e3o, que o rec\u00e9m-chegado replicou um pouco enfiado:<\/p>\n<p>\u2014 Sabe ent\u00e3o o verdadeiro motivo mais do que eu que estive com o cunhado do Ministro da Guerra?<\/p>\n<p>A r\u00e9plica pareceu decisiva; o Dr. Abreu limitou-se a fazer aquele gesto com que a gente costuma dizer: Pode ser&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Seja qual for o motivo, disse o C., a verdade \u00e9 que temos crise ministerial; mas ser\u00e1 aceita a demiss\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Eu creio que \u00e9, disse o Sr. Ferreira (era o nome do rec\u00e9m-chegado) .<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe?<\/p>\n<p>Ferreira tomou a palavra:<\/p>\n<p>\u2014 A crise era prevista; eu h\u00e1 mais de quinze dias anunciei ali em casa do Bernardo, que a crise n\u00e3o podia deixar de estar iminente. A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia prolongar-se; se os ministros n\u00e3o concordassem a C\u00e2mara os obrigaria a sair. J\u00e1 a deputa\u00e7\u00e3o da Bahia tinha mostrado os dentes, e at\u00e9 sei (posso diz\u00ea-lo agora) sei que um deputado do Cear\u00e1 estava para apresentar uma mo\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Ferreira disse estas palavras em voz baixa, com o ar misterioso que conv\u00e9m a certas revela\u00e7\u00f5es. Nessa ocasi\u00e3o ouvimos um carro. Corremos \u00e0 porta; era efetivamente um ministro.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o todos em S. Crist\u00f3v\u00e3o? observou o C.<\/p>\n<p>\u2014 Este vai naturalmente para l\u00e1.<\/p>\n<p>Ficamos \u00e0 porta; e o grupo foi-se pouco a pouco aumentando; antes de um quarto de hora \u00e9ramos oito. Todos falavam na crise; uns sabiarn a cousa de fonte certa; outros por ouvir dizer. O Ferreira saiu pouco depois dizendo que ia \u00e0 Camara saber o que havia de novo. Nessa ocasi\u00e3o apareceu um desembargador e indagou se era exato o que se dizia relativamente \u00e0 crise ministerial.<\/p>\n<p>Afirmamos que sim.<\/p>\n<p>\u2014 Qual seria a causa? perguntou ele.<\/p>\n<p>O Abreu, que dera antes como causa a presid\u00eancia l\u00e1 da prov\u00edncia, declarou agora ao desembargador que uma quest\u00e3o da guerra produzira o desacordo entre os ministros.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 certo disso? perguntou o desembargador.<\/p>\n<p>\u2014 Cert\u00edssimo; soube-o hoje mesmo do cunhado do Ministro da Guerra.<\/p>\n<p>Nunca vi maior facilidade em mudar de opini\u00e3o, nem maior descaro em colh\u00ear as afirma\u00e7\u00f5es alheias. Interroguei depois o C. que me respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te espantes; em tempo de crise \u00e9 sempre bom mostrar que se anda bem informado.<\/p>\n<p>Dos presentes eram quase todos oposicionistas, ou pelo menos faziam coro com o Abreu, que fazia diante do cad\u00e1ver ministerial o papel de Bruto diante do cad\u00e1ver de C\u00e9sar. Alguns defendiam a v\u00edtima, mas como se defende uma v\u00edtima pol\u00edtica, sem grande calor nem excessiva paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Cada personagem novo trazia uma confirma\u00e7\u00e3o ao trato; j\u00e1 n\u00e3o era trato; evidentemente havia crise. Grupos de pol\u00edticos e politic\u00f5es estavam parados \u00e0s portas das lojas, conversando animadamente. De quando em quando surgia ao longe um deputado. Era logo cercado e interrogado; e s\u00f3 se colhia a mesma cousa.<\/p>\n<p>Vimos ao longe um homem de 35 anos, me\u00e3o na altura, su\u00ed\u00e7as, luneta p\u00eansil, olhar profundo, acompanhando uma influ\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u2014 Gra\u00e7as a Deus! agora vamos ter not\u00edcias frescas, disse o C.<\/p>\n<p>Ali vem o Mendon\u00e7a; h\u00e1 de saber alguma cousa.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia pol\u00edtica n\u00e3o p\u00f4de passar de outro grupo; o Mendon\u00e7a veio ao nosso.<\/p>\n<p>\u2014 Venha c\u00e1; voc\u00ea que lambe os vidros por dentro h\u00e1 de saber o que h\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 O que h\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 crise.<\/p>\n<p>\u2014 Bem; mas os homens saem ou ficam?<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a sorriu, depois ficou s\u00e9rio, corrigiu o la\u00e7o da gravata, e murmurou um: n\u00e3o sei; assaz parecido com um: sei demais.<\/p>\n<p>Olhei atentamente para aquele homem que parecia estar senhor dos segredos do Estado, e admirei a discri\u00e7\u00e3o com que os ocultava de n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2014 Diga o que sabe, Sr. Mendon\u00e7a, disse o desembargador.<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 disse a V. Ex.a o que h\u00e1, interrompeu o Abreu; pelo menos tenho raz\u00e3o para afirm\u00e1-lo. N\u00e3o sei o que sabe l\u00e1 o Sr. Mendon\u00e7a, mas creio que n\u00e3o estar\u00e1 comigo&#8230;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a fez um gesto de quem ia falar. Foi cercado por todos. Ningu\u00e9m ouviu com mais aten\u00e7\u00e3o o or\u00e1culo de Delfos.<\/p>\n<p>\u2014 Sabem que h\u00e1 crise; a causa \u00e9 muito secund\u00e1ria, mas a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia prolongar-se.<\/p>\n<p>\u2014 Qual \u00e9 a causa?<\/p>\n<p>\u2014 A nomea\u00e7\u00e3o de um juiz de direito.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3!<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei o que \u00e9, disse Abreu sorrindo. Era neg\u00f3cio pendente h\u00e1 muitas semanas.<\/p>\n<p>\u2014 Foi isso. Os homens l\u00e1 foram ao pa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 aceita a demiss\u00e3o? perguntei eu.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a abaixou a voz.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que \u00e9.<\/p>\n<p>Depois apertou a m\u00e3o ao desembargador, ao C. e ao Abreu e retirou-se com a mesma satisfa\u00e7\u00e3o de um homem que acaba de salvar o Estado.<\/p>\n<p>\u2014 Pois, senhores, eu creio que esta vers\u00e3o \u00e9 a verdadeira. O Mendon\u00e7a anda informado.<\/p>\n<p>Passa defronte um sujeito.<\/p>\n<p>\u2014Anda c\u00e1, Lima, gritou Abreu.<\/p>\n<p>O Lima aproximou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s convidado para o minist\u00e9rio?<\/p>\n<p>\u2014 Estou; voc\u00ea quer alguma pasta?<\/p>\n<p>N\u00e3o penses que este Lima era alguma cousa; o dito de Abreu era um gracejo que se renova em todas as crises.<\/p>\n<p>A \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o do Lima eram umas senhoras que passavam. Ouvi dizer que eram as Valadares, \u2014 a fam\u00edlia do indigitado presidente. Pararam \u00e0 porta da loja, conversaram alguma cousa com o C. e o Lima, e seguiram viagem.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o lindas estas mo\u00e7as, disse um dos circunstantes.<\/p>\n<p>\u2014 Eu era capaz de as nomear para o minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Sendo eu presidente do conselho.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m eu.<\/p>\n<p>\u2014 A mais gorda devia ser Ministro da Marinha.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Porque parece mesmo uma fragata.<\/p>\n<p>Ligeiro sorriso acolheu este di\u00e1logo entre o desembargador e o Abreu. Viu-se ao longe um carro.<\/p>\n<p>\u2014 Quem ser\u00e1? Algum ministro?<\/p>\n<p>\u2014 Vejamos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; \u00e9 a A&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como vai bonita!<\/p>\n<p>\u2014 Pudera!<\/p>\n<p>\u2014 Ela j\u00e1 tem carro?<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Olhem, ali vem o Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Vem com outro. Quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um deputado.<\/p>\n<p>Passaram os dois juntos de n\u00f3s. O Mendon\u00e7a n\u00e3o nos cumprimentou; ia conversando baixinho com o deputado.<\/p>\n<p>Houve outra tr\u00e9gua na conversa pol\u00edtica. E n\u00e3o te admires. Nada mais natural do que entremear aqui uma discuss\u00e3o sobre crise pol\u00edtica com as sedas de uma dama do tom.<\/p>\n<p>Finalmente surgiu de longe o j\u00e1 citado Ferreira.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1? perguntamos quando ele chegou.<\/p>\n<p>\u2014 Foi aceita a demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 o chamado?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se sabe.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Dizem que os homens ficam com as pastas at\u00e9 segunda-feira.<br \/>\nDizendo estas palavras, o Ferreira entrou, e foi sentar-se. Outros o imitaram; alguns se foram embora.<\/p>\n<p>\u2014 Mas donde sabe isso? disse o desembargador.<\/p>\n<p>\u2014 Soube na Camara.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me parece natural.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Que for\u00e7a moral deve ter um minist\u00e9rio j\u00e1 demitido e ocupando as pastas?<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, a cousa \u00e9 singular; mas eu ouvi ao primo do Ministro da Fazenda.<\/p>\n<p>Ferreira tinha a particularidade de andar informado pelos parentes dos ministros; pelo menos, assim o dizia.<\/p>\n<p>\u2014 Quem ser\u00e1 chamado?<\/p>\n<p>\u2014 Naturalmente o N.<\/p>\n<p>\u2014 Ou o P.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 hoje de manh\u00e3 se dizia que era o K.<\/p>\n<p>Entrou o Mendon\u00e7a; o caixeiro deu-lhe uma cadeira, e ele sentou-se ao lado do Lima, que nesse momento descal\u00e7ava as luvas, ao mesmo tempo que o desembargador oferecia rap\u00e9 aos circunstantes.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, Sr. Mendon\u00e7a, quem \u00e9 o chamado? perguntou o desembargador.<\/p>\n<p>\u2014 O B.<\/p>\n<p>\u2014 Com certeza?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que se diz.<\/p>\n<p>\u2014 Eu ouvi que s\u00f3 na segunda-feira se organizar\u00e1 minist\u00e9rio novo.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! insistiu Mendon\u00e7a; afirmo-lhe que o B. foi ao pa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014Viu-o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, mas disseram-mo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois acredite que at\u00e9 segunda-feira&#8230;<\/p>\n<p>A conversa ia-me interessando; eu j\u00e1 tinha esquecido o interesse que ligava \u00e0 mudan\u00e7a dos ministros, para atender simplesmente ao que se passava diante de mim. N\u00e3o imaginas o que \u00e9 formar um minist\u00e9rio na rua antes que ele esteja formado no pa\u00e7o.<\/p>\n<p>Cada qual exp\u00f4s a sua conjetura; v\u00e1rios nomes foram lembrados para o poder. \u00c0s vezes aparecia um nome contra o qual se apresentavam obje\u00e7\u00f5es; ent\u00e3o replicava o autor da combina\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 enganado; pode o F. ficar com a pasta da Justi\u00e7a, o M. com a da Guerra, K. Marinha, T. Obras P\u00fablicas, V. Fazenda, X. Imp\u00e9rio, e C. Estrangeiros.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel; o V. \u00e9 que deve ficar com a pasta de Estrangeiros.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o V. n\u00e3o pode entrar nessa combina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 inimigo do F.<\/p>\n<p>\u2014 Sim; mas a deputa\u00e7\u00e3o da Bahia?<\/p>\n<p>Aqui co\u00e7ava o outro a orelha.<\/p>\n<p>\u2014 A deputa\u00e7\u00e3o da Bahia, respondia ele, pode ficar bem metendo o N.<\/p>\n<p>\u2014 O N. n\u00e3o aceita.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quer minist\u00e9rio de transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Chama a isto minist\u00e9rio de transi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Pois que \u00e9 mais?<\/p>\n<p>Este di\u00e1logo em que todos tomavam parte, inclusive o C. e que era repetido sempre que um dos circunstantes apresentava uma combina\u00e7\u00e3o nova, foi interrompido pela chegada de um deputado.<\/p>\n<p>Desta vez \u00edamos ter not\u00edcias frescas.<\/p>\n<p>Efetivamente soubemos pelo deputado que o V. tinha sido chamado ao pa\u00e7o e estava organizando gabinete.<\/p>\n<p>\u2014 Que dizia eu? exclamou Ferreira. Nem era de ver outra cousa. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 do V.; o seu \u00faltimo discurso foi o que os franceses chamam discurso-ministro. Quem s\u00e3o os outros?<\/p>\n<p>\u2014 Por ora, disse o deputado, s\u00f3 h\u00e1 dois ministros na lista: o da Justi\u00e7a e o do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Quem s\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, respondeu o deputado.<\/p>\n<p>N\u00e3o me foi dif\u00edcil ver que o homem sabia, mas era obrigado a guardar segredo. Compreendi que aquele \u00e9 que lambia os vidros por dentro, express\u00e3o muito usada em tempo de crise.<\/p>\n<p>Houve um pequeno sil\u00eancio. Conjeturei que cada qual estivesse a adivinhar quem seriam os nomeados; mas, se algu\u00e9m os descobriu, n\u00e3o os nomeou.<\/p>\n<p>O Abreu dirigiu-se ao deputado.<\/p>\n<p>\u2014 V. Ex.a acredita que o minist\u00e9rio fique organizado hoje?<\/p>\n<p>\u2014 Creio que sim; mas da\u00ed pode ser que n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 boa, observou Ferreira.<\/p>\n<p>\u2014 Admira-me que V. Ex.a n\u00e3o seja convidado&#8230;<\/p>\n<p>Estas palavras, naquela ocasi\u00e3o inconvenientes, foram pronunciadas pelo Lima, que trata a pol\u00edtica como trata as mulheres e os cavalos. Cada um de n\u00f3s procurou disfar\u00e7ar o efeito de semelhante tolice, mas o deputado respondeu direitamente \u00e0 pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o me admira nada disso; deixo o lugar aos componentes. Estou pronto a servir como soldado&#8230; N\u00e3o passo disso.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o, \u00e9 muito digno!<\/p>\n<p>Entrou um homem esbaforido. Fiquei surpreso. Era um deputado. 0lhou para todos, e dando com os olhos no colega, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Podes dar-me uma palavra?<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? perguntou o deputado levantando-se.<\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1.<\/p>\n<p>Foram at\u00e9 \u00e0 porta, depois despediram-se de n\u00f3s e seguiram apressadamente para cima.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e3o ambos ministros, exclamou Ferreira.<\/p>\n<p>\u2014 Acredita? perguntei eu.<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a foi da mesma opini\u00e3o; e foi a primeira vez que o vi adotar uma opini\u00e3o alheia.<\/p>\n<p>Eram duas horas da tarde quando sa\u00edram os dois deputados. Ansiosos por saber mais not\u00edcias, sa\u00edmos todos e descemos a rua vagarosamente. Grupos de quatro e cinco se entretinham com o assunto do dia. Par\u00e1vamos; combin\u00e1vamos as vers\u00f5es; mas n\u00e3o retificavam as dos outros. Um desses grupos j\u00e1 estavam os tr\u00eas ministros nomeados; outro acrescentava os nomes dos dois deputados, pela \u00fanica raz\u00e3o de os ter visto entrar num carro.<\/p>\n<p>\u00c0s tr\u00eas horas j\u00e1 corriam vers\u00f5es de todo o gabinete, mas era tudo vago.<\/p>\n<p>Determinamos n\u00e3o voltar para casa sem saber do resultado da crise, salvo se a not\u00edcia n\u00e3o viesse at\u00e9 \u00e0s cinco horas, pois era de mau gosto (disse-me o C.) andar na Rua do Ouvidor \u00e0s 5 horas da tarde.<\/p>\n<p>\u2014 Mas qual ser\u00e1 o meio de saber? perguntei eu.<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou ver se colho alguma cousa, disse Ferreira.<\/p>\n<p>V\u00e1rios incidentes nos iam detendo a marcha: algum amigo que passava, uma mulher que sa\u00eda de uma loja, uma j\u00f3ia nova em uma vidra\u00e7a, um grupo t\u00e3o curioso como o nosso, etc.<\/p>\n<p>Nada se soube nessa tarde.<\/p>\n<p>Voltei para o Hotel da Europa a fim de descansar e jantar; o C. jantou comigo. Conversamos muito do tempo da academia, dos nossos amores, das nossas travessuras, at\u00e9 que a noite veio e resolvemos voltar \u00e0 Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o era melhor irmos \u00e0 casa do V., pois que \u00e9 ele o organizador do gabinete? perguntei.<\/p>\n<p>\u2014 Principalmente, n\u00e3o temos tamanho interesse que justifique esse passo, respondeu o C.; depois, \u00e9 natural que ele n\u00e3o nos possa falar. Organizar um gabinete n\u00e3o \u00e9 cousa simples. Finalmente, apenas o gabinete estiver organizado c\u00e1 saberemos na rua qual ele \u00e9.<\/p>\n<p>A Rua do Ouvidor \u00e9 lind\u00edssima \u00e0 noite. Est\u00e3o os rapazes \u00e0s portas das lojas, vendo passar as mo\u00e7as, e como tudo est\u00e1 iluminado, n\u00e3o imaginas o efeito que faz.<\/p>\n<p>Confesso que me esqueceu o minist\u00e9rio e a crise. Havia ent\u00e3o menos quem cuidasse de pol\u00edtica; a noite da Rua do Ouvidor pertence exclusivamente \u00e0 fashion, que \u00e9 menos dada aos neg\u00f3cios do Estado que os freq\u00fcentadores de dia. Todavia, achamos alguns grupos onde se dava como certa a organiza\u00e7\u00e3o do gabinete, mas n\u00e3o se sabia ao certo quem eram os ministros todos.<\/p>\n<p>Encontramos os mesmos amigos da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Ora, justamente quando o Mendon\u00e7a se dispunha a ir colher alguma cousa certa, apareceu o desembargador com o rosto alegre.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 organizado.<\/p>\n<p>\u2014 Mas quem s\u00e3o?<\/p>\n<p>O desembargador tirou do bolso uma lista.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o estes.<\/p>\n<p>Lemos os nomes \u00e0 luz do lampi\u00e3o de um mostrador. O Mendon\u00e7a n\u00e3o gostou do gabinete; o Abreu achou-o excelente; o Lima, fraco.<\/p>\n<p>\u2014 Mas isto \u00e9 certo? perguntei eu.<\/p>\n<p>\u2014 Deram-me agora esta lista; creio que \u00e9 aut\u00eantica.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9? perguntou por tr\u00e1s de mim uma voz.<\/p>\n<p>Era um sujeito moreno e bigode grisalho.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe quem s\u00e3o? perguntou-lhe o Abreu.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho uma lista.<\/p>\n<p>\u2014 Vejamos se combina com esta.<\/p>\n<p>Costearam-se as listas; havia engano num nome.<\/p>\n<p>Mais adiante encontramos outro grupo lendo outra lista. Divergiam em dois nomes. Alguns sujeitos que n\u00e3o tinham lista copiavam uma deles, deixando de copiar os nomes duvidosos, ou escrevendo-os todos com uma cruz \u00e0 margem. Corriam assim as listas at\u00e9 que apareceu uma com ares de aut\u00eantica; outras foram aparecendo no mesmo sentido e \u00e0s 9 horas da noite sab\u00edamos positivamente, sem arredar p\u00e9 da Rua do Ouvidor, qual era o gabinete.<\/p>\n<p>O Mendon\u00e7a ficou alegre com o resultado da crise.<\/p>\n<p>Perguntaram-lhe por que raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho dois compadres no minist\u00e9rio! respondeu ele.<\/p>\n<p>Aqui tens o quadro infiel de uma crise ministerial no Rio de Janeiro. Infiel digo, porque o papel n\u00e3o pode conter os di\u00e1logos, nem as vers\u00f5es, nem os coment\u00e1rios, nem as caras de um dia de crise. Ouvem-se, contemplam-se; n\u00e3o se descrevem.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis TEMPO DE CRISE [JF. abr. de 1873.] Queres tu saber, meu rico irm\u00e3o, a not\u00edcia que achei no Rio de Janeiro, apenas pus p\u00e9 em terra? 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