{"id":118209,"date":"2017-04-04T18:57:46","date_gmt":"2017-04-04T20:57:46","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118209"},"modified":"2017-04-04T18:57:46","modified_gmt":"2017-04-04T20:57:46","slug":"so","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/so","title":{"rendered":"S\u00f3"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>[GN. 6 jan. 1885.]<br \/>\nAlonguei-me fugindo, e morei na soledade.<br \/>\nSalm. LIV, 8.<\/b><\/p>\n<p>BONIF\u00c1CIO, depois de fechar a porta, guardou a chave, atravessou o jardim e meteu-se em casa. Estava s\u00f3, finalmente s\u00f3. A frente da casa dava para uma rua pouco freq\u00fcentada e quase sem moradores. A um dos lados da ch\u00e1cara corria outra rua. Creio que tudo isso era para os lados de Andara\u00ed.<\/p>\n<p>Um grande escritor, Edgar1 Poe, relata, em um de seus admir\u00e1veis contos, a corrida noturna de um desconhecido pelas ruas de Londres, \u00e0 medida que se despovoam, com o vis\u00edvel intento de nunca ficar s\u00f3. &#8220;Esse homem, conclui ele, \u00e9 o tipo e o g\u00eanio do crime profundo; \u00e9 o homem das multid\u00f5es.&#8221;* Bonif\u00e1cio n\u00e3o era capaz de crimes, nem ia agora atr\u00e1s de lugares povoados, tanto que vinha recolher-se a uma casa vazia. Posto que os seus quarenta e cinco anos n\u00e3o fossem tais que tornassem inveross\u00edmil uma fantasia de mulher, n\u00e3o era amor que o trazia \u00e0 reclus\u00e3o. Vamos \u00e0 verdade: ele queria descansar da companhia dos outros. Quem lhe meteu isso na cabe\u00e7a \u2014 sem o querer nem saber \u2014 foi um esquisit\u00e3o desse tempo, dizem que fil\u00f3sofo, um tal Tobias que morava para os lados do Jardim Bot\u00e2nico. Fil\u00f3sofo ou n\u00e3o, era homem de cara seca e comprida, nariz grande e \u00f3culos de tartaruga. Paulista de nascimento, estudara em Coimbra, no tempo do rei e vivera muitos anos na Europa, gastando o que possu\u00eda, at\u00e9 que, n\u00e3o tendo mais que alguns restos, arrepiou carreira. Veio para o Rio de Janeiro, com o plano de passar a S. Paulo; mas foi ficando e aqui morreu. Costumava ele desaparecer da cidade durante um ou dous meses; metia-se em casa, com o \u00fanico preto que possu\u00eda, e a quem dava ordem de lhe n\u00e3o dizer nada. Esta circunst\u00e2ncia f\u00ea-lo crer maluco, e tal era a opini\u00e3o entre os rapazes; n\u00e3o faltava, por\u00e9m, quem lhe atribu\u00edsse grande instru\u00e7\u00e3o e rara intelig\u00eancia, ambas inutilizadas por um ceticismo sem rem\u00e9dio. Bonif\u00e1cio, um dos seus poucos familiares, perguntou-lhe um dia que prazer achava naquelas reclus\u00f5es t\u00e3o longas e absolutas; Tobias respondeu, que era o maior regalo do mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, sozinho! tanto tempo assim, metido entre quatro paredes, sem ningu\u00e9m!<\/p>\n<p>\u2014 Sem ningu\u00e9m, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, um escravo, que nem sequer lhe pode tomar a b\u00ean\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor. Trago um certo n\u00famero de id\u00e9ias; e, logo que fico s\u00f3, divirto-me em conversar com elas. Algumas v\u00eam j\u00e1 gr\u00e1vidas de outras, e d\u00e3o \u00e0 luz cinco, dez, vinte e todo esse povo salta, brinca, desce, sobe, \u00e0s vezes lutam umas com outras, ferem-se e algumas morrem; e quando dou acordo de mim, l\u00e1 se v\u00e3o muitas semanas. Foi pouco depois dessa conversa\u00e7\u00e3o que vagou uma casa de Bonif\u00e1cio. Ele, que andava aborrecido e cansado da vida social, quis imitar o velho Tobias; disse em casa, na loja do Bernardo e a alguns amigos, que ia estar uns dias em Igua\u00e7u, e recolheu-se a Andara\u00ed. Uma vez que a variedade enfarava, era poss\u00edvel achar sabor da monotonia. Viver s\u00f3, duas semanas inteiras, no mesmo espa\u00e7o, com as mesmas cousas, sem andar de casa em casa e de rua em rua, n\u00e3o seria um deleite novo e raro? Em verdade, pouca gente gostar\u00e1 da m\u00fasica mon\u00f3tona; Bonaparte, entretanto, lambia-se por ela, e sacava dali uma teoria curiosa, a saber, que as impress\u00f5es que se repetem s\u00e3o as \u00fanicas que verdadeiramente se apossam de n\u00f3s. Na ch\u00e1cara de Andara\u00ed a impress\u00e3o era uma e \u00fanica.<\/p>\n<p>Vimo-lo entrar. Vamos v\u00ea-lo percorrer tudo, salas e alcovas, jardim e ch\u00e1cara. A primeira impress\u00e3o dele, quando ali se achou, esp\u00e9cie de Robinson, foi um pouco estranha, mas agrad\u00e1vel. Em todo o resto da tarde n\u00e3o foi mais que propriet\u00e1rio; examinou tudo, com paci\u00eancia minuciosidade, paredes, tetos, portas, vidra\u00e7as, \u00e1rvores, o tanque, a cerca de espinhos. Notou que os degraus que iam da cozinha para a ch\u00e1cara, estavam lascados, aparecendo o tijolo. O fog\u00e3o tinha grandes estragos. Das janelas da cozinha, que eram duas, s\u00f3 uma fechava bem; a outra era atada com um peda\u00e7o de corda. Buracos de rato, rasg\u00f5es no papel da parede, pregos deixados, golpes de canivete no peitoril de algumas janelas, tudo descobriu, e contra tudo tempestuou com uma certa c\u00f3lera posti\u00e7a e eficaz na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>A tarde passou depressa. S\u00f3 reparou bem que estava s\u00f3, quando lhe entraram em casa as ave-marias, com o seu ar de vi\u00favas recentes; foi a primeira vez na vida que ele sentiu a melancolia de tais h\u00f3spedes. Essa hora eloq\u00fcente e profunda, que ningu\u00e9m mais cantar\u00e1 como o divino Dante, ele s\u00f3 a conhecia pelo g\u00e1s do jantar, pelo aspecto das viandas, ao tinir dos pratos, ao reluzir dos copos, ao burburinho da conversa\u00e7\u00e3o, se jantava com outras pessoas, ou pensando nelas, se jantava s\u00f3. Era a primeira vez que lhe sentia prest\u00edgio, e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que ficou acabrunhado. Correu a acender luzes e cuidou de jantar.<\/p>\n<p>Jantou menos mal, ainda que sem sopa; tomou caf\u00e9, preparado por ele mesmo, na m\u00e1quina que levara, e encheu o resto da noite como p\u00f4de. \u00c0s oito horas, indo dar corda ao rel\u00f3gio, resolveu deix\u00e1-lo parar, a fim de tornar mais completa a solid\u00e3o; leu algumas p\u00e1ginas de uma novela, bocejou, fumou e dormiu.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, ao voltar do tanque e tomado o caf\u00e9, procurou os jornais do dia, e s\u00f3 ent\u00e3o advertiu que, de prop\u00f3sito, os n\u00e3o mandara vir. Estava t\u00e3o acostumado a l\u00ea-los, entre o caf\u00e9 e o almo\u00e7o, que n\u00e3o p\u00f4de achar compensa\u00e7\u00e3o em nada.<\/p>\n<p>\u2014 Pateta! exclamou. Que tinha que os jornais viessem?<\/p>\n<p>Para matar o tempo, foi abrir e examinar as gavetas da mesa \u2014 uma velha mesa, que lhe n\u00e3o servia h\u00e1 muito, e estava ao canto do gabinete, na outra casa. Achou bilhetes de amigos, notas, flores, cartas de jogar, peda\u00e7os de barbante, de lacre, penas, contas antigas, etc. Releu os bilhetes e as notas. Algumas destas falavam de cousas e pessoas dispersas ou extintas: &#8220;Lembrar ao cabeleireiro para ir \u00e0 casa de D. Am\u00e9lia&#8221;. \u2014 &#8220;Comprar um cavalinho de pau para o filho do Vasconcelos&#8221;. \u2014 &#8220;Cumprimentar o ministro da Marinha&#8221;. \u2014 &#8220;N\u00e3o esquecer de copiar as charadas que D. Ant\u00f4nia me pediu&#8221;. \u2014 &#8220;Ver o n\u00famero da casa dos suspens\u00f3rios&#8221;. \u2014 &#8220;Pedir ao secret\u00e1rio da C\u00e2mara um bilhete de tribuna para o dia da interpela\u00e7\u00e3o&#8221;. E assim outras algumas t\u00e3o concisas, que ele mesmo n\u00e3o chegava a entender, como estas, por exemplo: \u2014 &#8220;Soares, prendas, a cavalo&#8221;. \u2014 &#8220;Ouro e p\u00e9 de mesa&#8221;.<\/p>\n<p>No fundo da gaveta, deu com uma caixinha de tartaruga, e dentro um molhozinho de cabelos, e este papel: &#8220;Cortados ontem, 5 de novembro, de manh\u00e3&#8221;. Bonif\u00e1cio estremeceu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Carlota! exclamou.<\/p>\n<p>Compreende-se a como\u00e7\u00e3o. As outras notas eram peda\u00e7os da vida social. Solteiro, e sem parentes, Bonif\u00e1cio fez da sociedade uma fam\u00edlia. Contava numerosas rela\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o poucas \u00edntimas. Vivia da conviv\u00eancia, era o elemento obrigado de todas as fun\u00e7\u00f5es, parceiro infal\u00edvel, confidente discreto e cordial servidor, principalmente de senhoras. Nas confid\u00eancias, como era pac\u00edfico e sem opini\u00e3o, adotava os sentimentos de cada um, e tratava sinceramente de os combinar, de restaurar os edif\u00edcios que, ou o tempo, ou as tempestades da vida, iam gastando. Foi uma dessas confid\u00eancias, que o levou ao amor expresso naquele molhozinho de cabelos, cortados ontem, 5 de novembro; e esse amor foi a grande data memor\u00e1vel da vida dele.<\/p>\n<p>\u2014 Carlota! repetiu ainda.<\/p>\n<p>Reclinado na cadeira, contemplava os cabelos, como se fossem a pr\u00f3pria pessoa; releu o bilhete, depois fechou os olhos, para recordar melhor. Pode-se dizer que ficou um pouco triste, mas de uma tristeza que a fatuidade tingia de alguns tons alegres. Reviveu o amor e a carruagem \u2014 a carruagem dela \u2014, os ombros soberbos e as j\u00f3ias magn\u00edficas \u2014 os dedos e os an\u00e9is, a ternura da amada e a admira\u00e7\u00e3o p\u00fablica&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Carlota!<\/p>\n<p>Nem almo\u00e7ando, perdeu a preocupa\u00e7\u00e3o. E, contudo, o almo\u00e7o era o melhor que se podia desejar em tais circunst\u00e2ncias, mormente se contarmos o excelente Borgonha que o acompanhou, presente de um diplomata; mas nem assim.<\/p>\n<p>Fen\u00f4meno interessante: \u2014 almo\u00e7ado, e acendendo um charuto, Bonif\u00e1cio pensou na boa fortuna, que seria, se ela lhe aparecesse, ainda agora, a despeito dos quarenta e quatro anos. Podia ser; morava para os lados da Tijuca. Uma vez que isto lhe pareceu poss\u00edvel, Bonif\u00e1cio abriu as janelas todas da frente e desceu \u00e0 ch\u00e1cara, para ir at\u00e9 \u00e0 cerca que dava para a outra rua. Tinha esse g\u00eanero de imagina\u00e7\u00e3o que a esperan\u00e7a d\u00e1 a todos os homens; figurou na cabe\u00e7a a passagem de Carlota, a entrada, o assombro e o reconhecimento. Sup\u00f4s at\u00e9 que lhe ouvia a voz; mas era o que lhe acontecia desde manh\u00e3, a respeito de outras. De quando em quando, chegavam-lhe ao ouvido uns retalhos de frases:<\/p>\n<p>\u2014 Mas, sr. Bonif\u00e1cio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Jogue; a vaza \u00e9 minha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Jantou com o desembargador?<\/p>\n<p>Eram ecos da mem\u00f3ria. A voz da dona dos cabelos era tamb\u00e9m um eco. A diferen\u00e7a \u00e9 que esta lhe pareceu mais perto, e ele cuidou que, realmente, ia ver a pessoa. Chegou a crer que o fato extraordin\u00e1rio da reclus\u00e3o se prendesse ao encontro com a dama, \u00fanico modo de a explicar. Como? Segredo do destino. Pela cerca, espiou disfar\u00e7adamente para a rua, como se quisesse emba\u00e7ar a si mesmo, e n\u00e3o viu nem ouviu nada mais que uns cinco ou seis c\u00e3es que perseguiam a outro, latindo em coro. Come\u00e7ou a chuviscar; apertando a chuva, correu a meter-se em casa; entrando, ouviu distintamente dizer:<\/p>\n<p>\u2014 Meu bem!<\/p>\n<p>Estremeceu; mas era ilus\u00e3o. Chegou \u00e0 janela, para ver a chuva, e lembrou-se que um de seus prazeres, em tais ocasi\u00f5es, era estar \u00e0 porta do Bernardo ou do Farani, vendo passar a gente, uns para baixo, outros para cima, numa contradan\u00e7a de guarda-chuvas&#8230; A impress\u00e3o do sil\u00eancio, principalmente, afligia mais que a da solid\u00e3o. Ouvia alguns pios de passarinho, cigarras \u2014 \u00e0s vezes um rodar de carro, ao longe \u2014, alguma voz humana, ralhos, cantigas, uma risada, tudo fraco, vago e remoto, e como que destinado s\u00f3 a agravar o sil\u00eancio. Quis ler e n\u00e3o p\u00f4de; foi reler as cartas e examinar as contas velhas. Estava impaciente, zangado, nervoso. A chuva, posto que n\u00e3o forte, prometia durar muitas horas, e talvez dias. Outra cain\u00e7ada aos fundos, e desta vez trouxe-lhe \u00e0 mem\u00f3ria um dito do velho Tobias. Estava em casa dele, ambos \u00e0 janela, e viram passar na rua um c\u00e3o, fugindo de dous, que ladravam; outros c\u00e3es, por\u00e9m, saindo das lojas e das esquinas, entravam a ladrar tamb\u00e9m, com igual ardor e raiva, e todos corriam atr\u00e1s do perseguido. Entre eles ia o do pr\u00f3prio Tobias, um que o dono supunha ser descendente de algum c\u00e3o feudal, companheiro das antigas castel\u00e3s. Bonif\u00e1cio riu-se, e perguntou-lhe se um animal t\u00e3o nobre era para andar nos tumultos de rua.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea fala assim, respondeu Tobias, porque n\u00e3o conhece a m\u00e1xima social dos c\u00e3es. Viu que nenhum deles perguntou aos outros o que \u00e9 que o perseguido tinha feito; todos entraram no coro e perseguiram tamb\u00e9m, levados desta m\u00e1xima universal entre eles: \u2014 Quem persegue ou morde, tem sempre raz\u00e3o \u2014 ou, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mat\u00e9ria da persegui\u00e7\u00e3o, ou, quando menos, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pernas do perseguido. J\u00e1 reparou? Repare e ver\u00e1.<\/p>\n<p>N\u00e3o se lembrava do resto, e, ali\u00e1s, a id\u00e9ia do Tobias pareceu-lhe inintelig\u00edvel, ou, quando menos, obscura. Os c\u00e3es tinham cessado de latir. S\u00f3 continuava a chuva. Bonif\u00e1cio andou, voltou, foi de um lado para outro, come\u00e7ava a achar-se rid\u00edculo. Que horas seriam? N\u00e3o lhe restava o recurso de calcular o tempo pelo sol. Sabia que era segunda-feira, dia em que costumava jantar na Rua dos Beneditinos, com um comiss\u00e1rio de caf\u00e9. Pensou nisso; pensou na reuni\u00e3o do conselheiro ***, que conhecera em Petr\u00f3polis; pensou em Petr\u00f3polis, no whist; era mais feliz no whist que ao voltarete, e ainda agora recordava todas as circunst\u00e2ncias de uma certa m\u00e3o, em que ele pedira licen\u00e7a, com quatro trunfos, rei, manilha, basto, dama&#8230; E reproduzia tudo, as cartas dele com as de cada um dos parceiros, as cartas compradas, a ordem e a composi\u00e7\u00e3o das vazas.<\/p>\n<p>Era assim que as lembran\u00e7as de fora, cousas e pessoas, vinham de tropel agitando-se em volta dele, falando, rindo, fazendo-lhe companhia. Bonif\u00e1cio recompunha toda a vida exterior, figuras e incidentes, namoros de um, neg\u00f3cios de outro, divers\u00f5es, brigas, anedotas, uma conversa\u00e7\u00e3o, um enredo, um boato. Cansou, e tentou ler; a princ\u00edpio, o esp\u00edrito saltava fora da p\u00e1gina, atr\u00e1s de uma not\u00edcia qualquer, um projeto de casamento; depois caiu numa sonol\u00eancia teimosa. Espertava, lia cinco ou seis linhas, e dormia. Afinal, levantou-se, deixou o livro e chegou \u00e0 janela para ver a chuva, que era a mesma, sem parar nem crescer, nem diminuir, sempre a mesma cortina d\u2019\u00e1gua despenhando-se de um c\u00e9u amontoado de nuvens grossas e eternas.<\/p>\n<p>Jantou mal, e, para consolar-se, bebeu muito Borgonha. De noite, fumado o segundo charuto, lembrou-se das cartas, foi a elas, baralhou-as e sentou-se a jogar a paci\u00eancia. Era um recurso: p\u00f4de assim escapar \u00e0s recorda\u00e7\u00f5es que o afligiam, se eram m\u00e1s, ou que o empuxavam para fora, se eram boas. Dormiu ao som da chuva, e teve um pesadelo. Sonhou que subia \u00e0 presen\u00e7a de Deus, e que lhe ouvia a resolu\u00e7\u00e3o de fazer chover, por todos os s\u00e9culos restantes do mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Quantos mais? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 A cabe\u00e7a humana \u00e9 inferior \u00e0s matem\u00e1ticas divinas, respondeu o Senhor; mas posso dar-te uma id\u00e9ia remota e vaga: \u2014 multiplica as estrelas do c\u00e9u por todos os gr\u00e3os de areia do mar, e ter\u00e1s uma part\u00edcula dos s\u00e9culos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Onde ir\u00e1 tanta \u00e1gua, Senhor?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o chover\u00e1 s\u00f3 \u00e1gua, mas tamb\u00e9m Borgonha e cabelos de mulheres bonitas&#8230;<\/p>\n<p>Bonif\u00e1cio agradeceu este favor. Olhando para o ar, viu que efetivamente chovia muito cabelo e muito vinho, al\u00e9m da \u00e1gua, que se acumulava no fundo de um abismo. Inclinou-se e descobriu embaixo, lutando com a \u00e1gua e os tuf\u00f5es, a deliciosa Carlota; e querendo descer para salv\u00e1-la, levantou os olhos e fitou o Senhor. J\u00e1 o n\u00e3o viu ent\u00e3o, mas somente a figura do Tobias, olhando por cima dos \u00f3culos, com um fino sorriso sard\u00f4nico e as m\u00e3os nas algibeiras. Bonif\u00e1cio soltou um grito e acordou.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, ao levantar-se, viu que continuava a chover. Nada de jornais: parecia-lhe j\u00e1 um s\u00e9culo que estava separado da cidade. Podia ter-lhe morrido algum amigo, ter ca\u00eddo o minist\u00e9rio, ele n\u00e3o sabia de nada. O almo\u00e7o foi ainda pior que o jantar da v\u00e9spera. A chuva continuava, farfalhando nas \u00e1rvores, nem mais nem menos. Vento nenhum. Qualquer bafagem, movendo as folhas, quebraria um pouco a uniformidade da chuva; mas tudo estava calado e quieto, s\u00f3 a chuva ca\u00eda sem interrup\u00e7\u00e3o nem altera\u00e7\u00e3o, de maneira que, ao cabo de algum tempo, dava ela pr\u00f3pria a sensa\u00e7\u00e3o da imobilidade, e n\u00e3o sei at\u00e9 se a do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>As horas eram cada vez mais intermin\u00e1veis. Nem havia horas; o tempo ia sem as divis\u00f5es que lhe d\u00e1 o rel\u00f3gio, como um livro sem cap\u00edtulos. Bonif\u00e1cio lutou ainda, fumando e jogando; lembrou-se at\u00e9 de escrever algumas cartas, mas apenas p\u00f4de acabar uma. N\u00e3o podia ler, n\u00e3o podia estar, ia de um lado para outro, sonolento, cansado, resmungando um trecho de \u00f3pera: Di quella pira&#8230; Ou ent\u00e3o: In mia mano alfin tu sei&#8230; Planeava outras obras na casa, agitava-se e n\u00e3o dominava nada. A solid\u00e3o, como paredes de um c\u00e1rcere misterioso, ia-se-lhe apertando em derredor, e n\u00e3o tardaria a esmag\u00e1-lo. J\u00e1 o amor-pr\u00f3prio o n\u00e3o retinha; ele desdobrava-se em dous homens, um dos quais provava ao outro que estava fazendo uma tolice.<\/p>\n<p>Eram tr\u00eas horas da tarde, quando ele resolveu deixar o ref\u00fagio. Que alegria, quando chegou \u00e0 Rua do Ouvidor! Era t\u00e3o ins\u00f3lita que fez desconfiar algumas pessoas; ele, por\u00e9m, n\u00e3o contou nada a ningu\u00e9m, e explicou Igua\u00e7u como p\u00f4de.<\/p>\n<p>No dia seguinte foi \u00e0 casa do Tobias, mas n\u00e3o lhe p\u00f4de falar; achou-o justamente recluso. S\u00f3 duas semanas depois, indo a entrar na barca de Niter\u00f3i, viu adiante de si a grande estatura do esquisit\u00e3o, e reconheceu-o pela sobrecasaca cor de rap\u00e9, comprida e larga. Na barca, falou-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor pregou-me um logro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu? perguntou Tobias, sentando-se ao lado dele.<\/p>\n<p>\u2014 Sem querer, \u00e9 verdade, mas sempre fiquei logrado.<\/p>\n<p>Contou-lhe tudo; confessou-lhe que, por estar um pouco fatigado dos amigos, tivera a id\u00e9ia de recolher-se por alguns dias, mas n\u00e3o conseguiu ir al\u00e9m de dous, e, ainda assim, com dificuldade. Tobias ouviu-o calado, com muita aten\u00e7\u00e3o; depois, interrogou-o minuciosamente, pediu-lhe todas as sensa\u00e7\u00f5es, ainda as mais \u00edntimas, e o outro n\u00e3o lhe negou nenhuma, nem as que teve com os cabelos achados na gaveta. No fim, olhando por cima dos \u00f3culos, tal qual como no pesadelo, disse-lhe com um sorriso copiado do diabo:<\/p>\n<p>\u2014 Quer saber? Voc\u00ea esqueceu-se de levar o principal da matalotagem, que s\u00e3o justamente as id\u00e9ias&#8230;<\/p>\n<p>Bonif\u00e1cio achou-lhe gra\u00e7a, e riu.<\/p>\n<p>Tobias, rindo tamb\u00e9m, deu-lhe um piparote na testa. Em seguida, pediu-lhe not\u00edcias, e o outro deu-lhas de v\u00e1ria esp\u00e9cie, grandes e pequenas, fatos e boatos, isto e aquilo, que o velho Tobias ouviu, com olhos meio cerrados, pensando em outra cousa.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis [GN. 6 jan. 1885.] Alonguei-me fugindo, e morei na soledade. Salm. LIV, 8. BONIF\u00c1CIO, depois de fechar a porta, guardou a chave, atravessou o jardim e meteu-se em casa. Estava s\u00f3, finalmente s\u00f3. A frente da casa dava para uma rua pouco freq\u00fcentada e quase sem moradores. 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