{"id":118207,"date":"2017-04-04T18:55:44","date_gmt":"2017-04-04T20:55:44","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118207"},"modified":"2017-04-04T18:55:44","modified_gmt":"2017-04-04T20:55:44","slug":"suje-se-gordo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/suje-se-gordo","title":{"rendered":"Suje-se Gordo!"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>UMA NOITE, h\u00e1 muitos anos, passeava eu com um amigo no terra\u00e7o do Teatro de S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara. Era entre o segundo e o terceiro ato da pe\u00e7a A Senten\u00e7a ou o Tribunal do J\u00fari. S\u00f3 me ficou o t\u00edtulo, e foi justamente o t\u00edtulo que nos levou a falar da institui\u00e7\u00e3o e de um fato que nunca mais me esqueceu.<\/p>\n<p>\u2014 Fui sempre contr\u00e1rio ao j\u00fari, \u2014 disse-me aquele amigo, \u2014 n\u00e3o pela institui\u00e7\u00e3o em si, que \u00e9 liberal, mas porque me repugna condenar algu\u00e9m, e por aquele preceito do Evangelho; &#8220;N\u00e3o queirais julgar para que n\u00e3o sejais julgados&#8221;. N\u00e3o obstante, servi duas vezes. O tribunal era ent\u00e3o no antigo Aljube, fim da Rua dos Ourives, princ\u00edpio da Ladeira da Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal era o meu escr\u00fapulo que, salvo dois, absolvi todos os r\u00e9us. Com efeito, os crimes n\u00e3o me pareceram provados; um ou dois processos eram mal feitos. O primeiro r\u00e9u que condenei, era um mo\u00e7o limpo, acusado de haver furtado certa quantia, n\u00e3o grande, antes pequena, com falsifica\u00e7\u00e3o de um papel. N\u00e3o negou o fato, nem podia faz\u00ea-lo, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspira\u00e7\u00e3o do crime. Algu\u00e9m, que n\u00e3o citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os cora\u00e7\u00f5es, daria ao criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem \u00eanfase, triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal palidez que metia pena; o promotor p\u00fablico achou nessa mesma cor do gesto a confiss\u00e3o do crime. Ao contr\u00e1rio, o defensor mostrou que o abatimento e a palidez significavam a l\u00e1stima da inoc\u00eancia caluniada.<\/p>\n<p>Poucas vezes terei assistido a debate t\u00e3o brilhante. O discurso do promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia \u00f3dio, e n\u00e3o era. A defesa, al\u00e9m do talento do advogado, tinha a circunst\u00e2ncia de ser a estr\u00e9ia dele na tribuna. Parentes, colegas e amigos esperavam o primeiro discurso do rapaz, e n\u00e3o perderam na espera. O discurso foi admir\u00e1vel, e teria salvo o r\u00e9u, se ele pudesse ser salvo, mas o crime metia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dois anos depois, em 1865. Quem sabe o que se perdeu nele! Eu, acredite, quando vejo morrer um mo\u00e7o de talento, sinto mais que quando morre um velho&#8230; Mas vamos ao que ia contando. Houve r\u00e9plica do promotor e tr\u00e9plica do defensor. O presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram entregues ao presidente do Conselho, que era eu.<\/p>\n<p>N\u00e3o digo o que se passou na sala secreta; al\u00e9m de ser secreto o que l\u00e1 se passou, n\u00e3o interessa ao caso particular, que era melhor ficasse tamb\u00e9m calado, confesso. Contarei depressa; o terceiro ato n\u00e3o tarda.<\/p>\n<p>Um dos jurados do Conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais que ningu\u00e9m convencido do delito e do delinq\u00fcente. O processo foi examinado, os quesitos lidos, e as respostas dadas (onze votos contra um); s\u00f3 o jurado ruivo estava quieto. No fim, como os votos assegurassem a condena\u00e7\u00e3o, ficou satisfeito, disse que seria um ato de fraqueza, ou coisa pior, a absolvi\u00e7\u00e3o que lhe d\u00e9ssemos. Um dos jurados, certamente o que votara pela negativa, \u2014 proferiu algumas palavras de defesa do mo\u00e7o. O ruivo, \u2014 chamava-se Lopes, \u2014 replicou com aborrecimento:<\/p>\n<p>\u2014 Como, senhor? Mas o crime do r\u00e9u est\u00e1 mais que provado.<\/p>\n<p>\u2014 Deixemos de debate, disse eu, e todos concordaram comigo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O crime est\u00e1 mais que provado. O sujeito nega, porque todo o r\u00e9u nega, mas o certo \u00e9 que ele cometeu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma mis\u00e9ria, duzentos mil-r\u00e9is! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!<\/p>\n<p>&#8220;Suje-se gordo!&#8221; Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, n\u00e3o que entendesse a frase, ao contr\u00e1rio; nem a entendi nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati \u00e0 porta, abriram-nos, fui \u00e0 mesa do juiz, dei as respostas do Conselho e o r\u00e9u saiu condenado. O advogado apelou; se a senten\u00e7a foi confirmada ou a apela\u00e7\u00e3o aceita, n\u00e3o sei; perdi o neg\u00f3cio de vista.<\/p>\n<p>Quando sa\u00ed do tribunal, vim pensando na frase do Lopes, e pareceu-me entend\u00ea-la. &#8220;Suje-se gordo!&#8221; era como se dissesse que o condenado era mais que ladr\u00e3o, era um ladr\u00e3o reles, um ladr\u00e3o de nada. Achei esta explica\u00e7\u00e3o na esquina da Rua de S\u00e3o Pedro; vinha ainda pela dos Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para lhe apertar a m\u00e3o; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos jornais os nossos nomes, dei com o nome todo dele; n\u00e3o valia a pena procur\u00e1-lo, nem me ficou de cor. Assim s\u00e3o as p\u00e1ginas da vida, como dizia meu filho quando fazia versos, e acrescentava que as p\u00e1ginas v\u00e3o passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas n\u00e3o me lembra a forma dos versos.<\/p>\n<p>Em prosa disse-me ele, muito tempo depois, que eu n\u00e3o devia faltar ao j\u00fari, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que n\u00e3o compareceria, e citei o preceito evang\u00e9lico; ele teimou, dizendo ser um dever de cidad\u00e3o, um servi\u00e7o gratuito, que ningu\u00e9m que se prezasse podia negar ao seu pa\u00eds. Fui e julguei tr\u00eas processos.<\/p>\n<p>Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa, acusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornais deram sem grande min\u00facia, e ali\u00e1s eu lia pouco as not\u00edcias de crimes. O acusado apareceu e foi sentar-se no famoso banco dos r\u00e9us, Era um homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci; pareceu-me ver o meu colega daquele julgamento de anos antes. N\u00e3o poderia reconhec\u00ea-lo logo por estar agora magro, mas era a mesma cor dos cabelos e das barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.<\/p>\n<p>\u2014 Como se chama? perguntou o presidente.<\/p>\n<p>\u2014 Ant\u00f4nio do Carmo Ribeiro Lopes.<\/p>\n<p>J\u00e1 me n\u00e3o lembravam os tr\u00eas primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e os outros sinais vieram confirmando as reminisc\u00eancias; n\u00e3o me tardou reconhecer a pessoa exata daquele dia remoto. Digo-lhe aqui com verdade que todas essas circunst\u00e2ncias me impediram de acompanhar atentamente o interrogat\u00f3rio, e muitas coisas me escaparam. Quando me dispus a ouvi-lo bem, estava quase no fim. Lopes negava com firmeza tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complica\u00e7\u00e3o ao processo. Circulava os olhos sem medo nem ansiedade; n\u00e3o sei at\u00e9 se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.<\/p>\n<p>Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de r\u00e9is. N\u00e3o lhe digo como se descobriu o crime nem o criminoso, por j\u00e1 ser tarde; a orquestra est\u00e1 afinando os instrumentos. O que lhe digo com certeza \u00e9 que a leitura dos autos me impressionou muito, o inqu\u00e9rito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias agravantes; por fim o depoimento das testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Tamb\u00e9m ele ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escriv\u00e3o, o presidente, o teto e as pessoas que o iam julgar; entre elas eu. Quando olhou para mim n\u00e3o me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.<\/p>\n<p>Todos esses gestos do homem serviram \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o e \u00e0 defesa, tal como serviram, tempos antes, os gestos contr\u00e1rios do outro acusado. O promotor achou neles a revela\u00e7\u00e3o clara do cinismo, o advogado mostrou que s\u00f3 a inoc\u00eancia e a certeza da absolvi\u00e7\u00e3o podiam trazer aquela paz de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Enquanto os dois oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar ali, no mesmo banco do outro, este homem que votara a condena\u00e7\u00e3o dele, e naturalmente repeti comigo o texto evang\u00e9lico: &#8220;N\u00e3o queirais julgar, para que n\u00e3o sejais julgados&#8221;. Confesso-lhe que mais de uma vez me senti frio. N\u00e3o \u00e9 que eu mesmo viesse a cometer algum desvio de dinheiro, mas podia, em ocasi\u00e3o de raiva, matar algu\u00e9m ou ser caluniado de desfalque. Aquele que julgava outrora, era agora julgado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 da palavra b\u00edblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: &#8220;Suje-se gordo!&#8221; N\u00e3o imagina o sacudimento que me deu esta lembran\u00e7a. Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala secreta, at\u00e9 \u00e0quelas palavras: &#8220;Suje-se gordo!&#8221; Vi que n\u00e3o era um ladr\u00e3o reles, um ladr\u00e3o de nada, sim de grande valor. O verbo \u00e9 que definia duramente a a\u00e7\u00e3o. &#8220;Suje-se gordo!&#8221; Queria dizer que o homem n\u00e3o se devia levar a um ato daquela esp\u00e9cie sem a grossura da soma. A ningu\u00e9m cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!<\/p>\n<p>Id\u00e9ias e palavras iam assim rolando na minha cabe\u00e7a, sem eu dar pelo resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado, leu os quesitos e recolhemo-nos \u00e0 sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em particular que votei afirmativamente, t\u00e3o certo me pareceu o desvio dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com os mesmos olhos que eu. Votaram comigo dois jurados. Nove negaram a criminalidade do Lopes, a senten\u00e7a de absolvi\u00e7\u00e3o foi lavrada e lida, e o acusado saiu para a rua. A diferen\u00e7a da vota\u00e7\u00e3o era tamanha, que cheguei a duvidar comigo se teria acertado. Podia ser que n\u00e3o. Agora mesmo sinto uns repel\u00f5es de consci\u00eancia. Felizmente, se o Lopes n\u00e3o cometeu deveras o crime, n\u00e3o recebeu a pena do meu voto, e esta considera\u00e7\u00e3o acaba por me consolar do erro, mas os repel\u00f5es voltam. O melhor de tudo \u00e9 n\u00e3o julgar ningu\u00e9m para n\u00e3o vir a ser julgado. Suje-se gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro \u00e9 n\u00e3o julgar ningu\u00e9m&#8230; Acabou a m\u00fasica, vamos para as nossas cadeiras.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.releituras.com<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis UMA NOITE, h\u00e1 muitos anos, passeava eu com um amigo no terra\u00e7o do Teatro de S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara. Era entre o segundo e o terceiro ato da pe\u00e7a A Senten\u00e7a ou o Tribunal do J\u00fari. 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