{"id":118203,"date":"2017-04-04T18:29:56","date_gmt":"2017-04-04T20:29:56","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=118203"},"modified":"2017-04-04T18:29:56","modified_gmt":"2017-04-04T20:29:56","slug":"reliquias-de-casa-velha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/reliquias-de-casa-velha","title":{"rendered":"Rel\u00edquias de Casa Velha"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>PAI CONTRA M\u00c3E<\/h2>\n<p>A ESCRAVID\u00c3O levou consigo of\u00edcios e aparelhos, como ter\u00e1 sucedido a outras institui\u00e7\u00f5es sociais. N\u00e3o cito alguns aparelhos sen\u00e3o por se ligarem a certo of\u00edcio. Um deles era o ferro ao pesco\u00e7o, outro o ferro ao p\u00e9; havia tamb\u00e9m a m\u00e1scara de folha-de-flandres. A m\u00e1scara fazia perder o v\u00edcio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha s\u00f3 tr\u00eas buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atr\u00e1s da cabe\u00e7a por um cadeado. Com o v\u00edcio de beber. perdiam a tenta\u00e7\u00e3o de furtar, porque geralmente era dos vint\u00e9ns do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e a\u00ed ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal m\u00e1scara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcan\u00e7a sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, \u00e0 venda, na porta das lojas. Mas n\u00e3o cuidemos de m\u00e1scaras.<\/p>\n<p>O ferro ao pesco\u00e7o era aplicado aos escravos fuj\u00f5es. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa tamb\u00e9m \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, at\u00e9 ao alto da cabe\u00e7a e fechada atr\u00e1s com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.<\/p>\n<p>H\u00e1 meio s\u00e9culo, os escravos fugiam com freq\u00fc\u00eancia. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravid\u00e3o. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia algu\u00e9m de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono n\u00e3o era mau; al\u00e9m disso, o sentimento da propriedade moderava a a\u00e7\u00e3o, porque dinheiro tamb\u00e9m d\u00f3i. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, n\u00e3o raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganh\u00e1-lo fora, quitandando.<\/p>\n<p>Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha an\u00fancios nas folhas p\u00fablicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito f\u00edsico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratifica\u00e7\u00e3o. Quando n\u00e3o vinha a quantia, vinha promessa: &#8220;gratificar-se-\u00e1 generosamente&#8221;, &#8212; ou &#8220;receber\u00e1 uma boa gratifica\u00e7\u00e3o&#8221;. Muita vez o an\u00fancio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descal\u00e7o, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.<\/p>\n<p>Ora, pegar escravos fugidios era um of\u00edcio do tempo. N\u00e3o seria nobre, mas por ser instrumento da for\u00e7a com que se mant\u00eam a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza impl\u00edcita das a\u00e7\u00f5es reivindicadoras. Ningu\u00e9m se metia em tal of\u00edcio por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptid\u00e3o para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir tamb\u00e9m, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para p\u00f4r ordem \u00e0 desordem.<\/p>\n<p>C\u00e2ndido Neves, &#8212; em fam\u00edlia, Candinho,&#8211; \u00e9 a pessoa a quem se liga a hist\u00f3ria de uma fuga, cedeu \u00e0 pobreza, quando adquiriu o of\u00edcio de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, n\u00e3o ag\u00fcentava emprego nem of\u00edcio, carecia de estabilidade; \u00e9 o que ele chamava caiporismo. Come\u00e7ou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez n\u00e3o ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O com\u00e9rcio chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o, era carreira boa. Com algum esfor\u00e7o entrou de caixeiro para um armarinho. A obriga\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cart\u00f3rio, cont\u00ednuo de uma reparti\u00e7\u00e3o anexa ao Minist\u00e9rio do Imp\u00e9rio, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.<\/p>\n<p>Quando veio a paix\u00e3o da mo\u00e7a Clara, n\u00e3o tinha ele mais que d\u00edvidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de of\u00edcio. Depois de v\u00e1rias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o of\u00edcio do primo, de que ali\u00e1s j\u00e1 tomara algumas li\u00e7\u00f5es. N\u00e3o lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. N\u00e3o fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sof\u00e1s e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento n\u00e3o se demorou muito.<\/p>\n<p>Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era \u00f3rf\u00e3, morava com uma tia, M\u00f4nica, e cosia com ela. N\u00e3o cosia tanto que n\u00e3o namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; n\u00e3o tinham outro empenho. Passavam \u00e0s tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, at\u00e9 que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava \u00e9 que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de cani\u00e7o, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era s\u00f3 para andar \u00e0 roda da isca, mir\u00e1-la, cheir\u00e1-la, deix\u00e1-la e ir a outras.<\/p>\n<p>O amor traz sobrescritos. Quando a mo\u00e7a viu C\u00e2ndido Neves, sentiu que era este o poss\u00edvel marido, o marido verdadeiro e \u00fanico. O encontro deu-se em um baile; tal foi&#8211;para lembrar o primeiro of\u00edcio do namorado, &#8212; tal foi a p\u00e1gina inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das rela\u00e7\u00f5es dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arred\u00e1-la do passo que ia dar. N\u00e3o negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.<\/p>\n<p>&#8211;Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, n\u00e3o caso com defunto. &#8211;N\u00e3o, defunto n\u00e3o; mas \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o diziam o que era. Tia M\u00f4nica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos poss\u00edveis. Eles queriam um, um s\u00f3, embora viesse agravar a necessidade.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00eas, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia \u00e0 sobrinha.<\/p>\n<p>&#8211;Nossa Senhora nos dar\u00e1 de comer, acudiu Clara. Tia M\u00f4nica devia ter-lhes feito a advert\u00eancia, ou amea\u00e7a, quando ele lhe foi pedir a m\u00e3o da mo\u00e7a; mas tamb\u00e9m ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.<\/p>\n<p>A alegria era comum aos tr\u00eas. O casal ria a prop\u00f3sito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, C\u00e2ndido; n\u00e3o davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Ela cosia agora mais, ele sa\u00eda a empreitadas de uma cousa e outra; n\u00e3o tinha emprego certo.<\/p>\n<p>Nem por isso abriam m\u00e3o do filho. O filho \u00e9 que, n\u00e3o sabendo daquele desejo espec\u00edfico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. por\u00e9m, deu sinal de si a crian\u00e7a; var\u00e3o ou f\u00eamea, era o fruto aben\u00e7oado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia M\u00f4nica ficou desorientada, C\u00e2ndido e Clara riram dos seus sustos.<\/p>\n<p>&#8211;Deus nos h\u00e1 de ajudar, titia, insistia a futura m\u00e3e.<\/p>\n<p>A not\u00edcia correu de vizinha a vizinha. N\u00e3o houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, al\u00e9m das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da crian\u00e7a. \u00c0 for\u00e7a de pensar nela, vivia j\u00e1 com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A por\u00e7\u00e3o era escassa, os intervalos longos. Tia M\u00f4nica ajudava, \u00e9 certo, ainda que de m\u00e1 vontade.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00eas ver\u00e3o a triste vida, suspirava ela. &#8211;Mas as outras crian\u00e7as n\u00e3o nascem tamb\u00e9m? perguntou Clara. &#8211;Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco&#8230; &#8211;Certa como? &#8211;Certa, um emprego, um of\u00edcio, uma ocupa\u00e7\u00e3o, mas em que \u00e9 que o pai dessa infeliz criatura que a\u00ed vem gasta o tempo?<\/p>\n<p>C\u00e2ndido Neves, logo que soube daquela advert\u00eancia, foi ter com a tia, n\u00e3o \u00e1spero mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se j\u00e1 algum dia deixara de comer. &#8211;A senhora ainda n\u00e3o jejuou sen\u00e3o pela semana santa, e isso mesmo quando n\u00e3o quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau&#8230; &#8211;Bem sei, mas somos tr\u00eas. &#8211;Seremos quatro. &#8211;N\u00e3o \u00e9 a mesma cousa. &#8212; Que quer ent\u00e3o que eu fa\u00e7a, al\u00e9m do que fa\u00e7o? &#8212; Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tip\u00f3grafo que casou s\u00e1bado, todos t\u00eam um emprego certo&#8230; N\u00e3o fique zangado; n\u00e3o digo que voc\u00ea seja vadio, mas a ocupa\u00e7\u00e3o que escolheu \u00e9 vaga. Voc\u00ea passa semanas sem vint\u00e9m. &#8212; Sim, mas l\u00e1 vem uma noite que compensa tudo, at\u00e9 de sobra. Deus n\u00e3o me abandona, e preto fugido sabe que comigo n\u00e3o brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.<\/p>\n<p>Tinha gl\u00f3ria nisto, falava da esperan\u00e7a como de capital seguro. Da\u00ed a pouco ria, e fazia rir \u00e0 tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.<\/p>\n<p>C\u00e2ndido Neves perdera j\u00e1 o of\u00edcio de entalhador, como abrira m\u00e3o de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. N\u00e3o obrigava a estar longas horas sentado. S\u00f3 exigia for\u00e7a, olho vivo, paci\u00eancia, coragem e um peda\u00e7o de corda. C\u00e2ndido Neves lia os an\u00fancios, copiava-os, metia-os no bolso e sa\u00eda \u00e0s pesquisas. Tinha boa mem\u00f3ria. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em ach\u00e1-lo, segur\u00e1-lo, amarr\u00e1-lo e lev\u00e1-lo. A for\u00e7a era muita, a agilidade tamb\u00e9m. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratifica\u00e7\u00e3o; interrompia a conversa e ia atr\u00e1s do vicioso. N\u00e3o o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratifica\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os. Nem sempre sa\u00eda sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos n\u00e3o vinham j\u00e1, como dantes, meter-se nas m\u00e3os de C\u00e2ndido Neves. Havia m\u00e3os novas e h\u00e1beis. Como o neg\u00f3cio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou an\u00fancios e deitou-se \u00e0 ca\u00e7ada. No pr\u00f3prio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as d\u00edvidas de C\u00e2ndido Neves come\u00e7aram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se dif\u00edcil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo alugu\u00e9is.<\/p>\n<p>Clara n\u00e3o tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia M\u00f4nica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava \u00e0 tarde, via-se-lhe pela cara que n\u00e3o trazia vint\u00e9m. Jantava e sa\u00eda outra vez, \u00e0 cata de algum fugido. J\u00e1 lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a servi\u00e7o de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 o que lhe faltava! exclamou a tia M\u00f4nica, ao v\u00ea-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equ\u00edvoco e suas conseq\u00fc\u00eancias. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.<\/p>\n<p>C\u00e2ndido quisera efetivamente fazer outra cousa, n\u00e3o pela raz\u00e3o do conselho, mas por simples gosto de trocar de of\u00edcio; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior \u00e9 que n\u00e3o achava \u00e0 m\u00e3o neg\u00f3cio que aprendesse depressa.<\/p>\n<p>A natureza ia andando, o feto crescia, at\u00e9 fazer-se pesado \u00e0 m\u00e3e, antes de nascer. Chegou o oitavo m\u00eas, m\u00eas de ang\u00fastias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narra\u00e7\u00e3o dispenso tamb\u00e9m. Melhor \u00e9 dizer somente os seus efeitos. N\u00e3o podiam ser mais amargos.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, tia M\u00f4nica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!<\/p>\n<p>Foi na \u00faltima semana do derradeiro m\u00eas que a tia M\u00f4nica deu ao casal o conselho de levar a crian\u00e7a que nascesse \u00e0 Roda dos enjeitados. Em verdade, n\u00e3o podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a crian\u00e7a, para beij\u00e1-la, guard\u00e1-la, v\u00ea-la rir, crescer, engordar, pular&#8230; Enjeitar qu\u00ea? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. &#8211;Titia n\u00e3o fala por mal, Candinho. &#8211;Por mal? replicou tia M\u00f4nica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que \u00e9 o melhor que voc\u00eas podem fazer. Voc\u00eas devem tudo; a carne e o feij\u00e3o v\u00e3o faltando. Se n\u00e3o aparecer algum dinheiro, como \u00e9 que a fam\u00edlia h\u00e1 de aumentar? E depois, h\u00e1 tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem ser\u00e3o recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este ser\u00e1 bem criado, sem lhe faltar nada. Pois ent\u00e3o a Roda \u00e9 alguma praia ou monturo? L\u00e1 n\u00e3o se mata ningu\u00e9m, ningu\u00e9m morre \u00e0 toa, enquanto que aqui \u00e9 certo morrer, se viver \u00e0 m\u00edngua. Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Tia M\u00f4nica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha j\u00e1 insinuado aquela solu\u00e7\u00e3o, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,&#8211; crueldade, se preferes. Clara estendeu a m\u00e3o ao marido, como a amparar-lhe o \u00e2nimo; C\u00e2ndido Neves fez uma careta, e chamou maluca \u00e0 tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por algu\u00e9m que batia \u00e0 porta da rua.<\/p>\n<p>&#8211;Quem \u00e9? perguntou o marido. &#8211;Sou eu.<\/p>\n<p>Era o dono da casa, credor de tr\u00eas meses de aluguel, que vinha em pessoa amea\u00e7ar o inquilino. Este quis que ele entrasse.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 preciso&#8230; &#8211;Fa\u00e7a favor.<\/p>\n<p>O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos \u00e0 mob\u00edlia para ver se daria algo \u00e0 penhora; achou que pouco. Vinha receber os alugu\u00e9is vencidos, n\u00e3o podia esperar mais; se dentro de cinco dias n\u00e3o fosse pago, p\u00f4-lo-ia na rua. N\u00e3o havia trabalhado para regalo dos outros. Ao v\u00ea-lo, ningu\u00e9m diria que era propriet\u00e1rio; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre C\u00e2ndido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclina\u00e7\u00e3o de promessa e s\u00faplica ao mesmo tempo. O dono da casa n\u00e3o cedeu mais.<\/p>\n<p>&#8211;Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a m\u00e3o no ferrolho da porta e saindo.<\/p>\n<p>Candinho saiu por outro lado. Nesses lances n\u00e3o chegava nunca ao desespero, contava com algum empr\u00e9stimo, n\u00e3o sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos an\u00fancios. Achou v\u00e1rios, alguns j\u00e1 velhos, mas em v\u00e3o os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, n\u00e3o achou recursos; lan\u00e7ou m\u00e3o de empenhos, foi a pessoas amigas do propriet\u00e1rio, n\u00e3o alcan\u00e7ando mais que a ordem de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o era aguda. N\u00e3o achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. N\u00e3o contavam com a tia. Tia M\u00f4nica teve arte de alcan\u00e7ar aposento para os tr\u00eas em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um p\u00e1tio. Teve ainda a arte maior de n\u00e3o dizer nada aos dous, para que C\u00e2ndido Neves, no desespero da crise come\u00e7asse por enjeitar o filho e acabasse alcan\u00e7ando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, \u00e9 certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, f\u00e1-los-ia espantar com a not\u00edcia do obs\u00e9quio e iriam dormir melhor do que cuidassem.<\/p>\n<p>Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a crian\u00e7a. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza tamb\u00e9m. Tia M\u00f4nica insistiu em dar a crian\u00e7a \u00e0 Roda. &#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o a quer levar, deixe isso comigo; eu vou \u00e0 Rua dos Barbonos.&#8221; C\u00e2ndido Neves pediu que n\u00e3o, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse \u00e0 noite, assentou o pai lev\u00e1-lo \u00e0 Roda na noite seguinte.<\/p>\n<p>Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratifica\u00e7\u00f5es pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, por\u00e9m, subia a cem mil-r\u00e9is. Tratava-se de uma mulata; vinham indica\u00e7\u00f5es de gesto e de vestido. C\u00e2ndido Neves andara a pesquis\u00e1-la sem melhor fortuna, e abrira m\u00e3o do neg\u00f3cio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, por\u00e9m, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram C\u00e2ndido Neves a fazer um grande esfor\u00e7o derradeiro. Saiu de manh\u00e3 a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o an\u00fancio. N\u00e3o a achou; apenas um farmac\u00eautico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma on\u00e7a de qualquer droga, tr\u00eas dias antes, \u00e0 pessoa que tinha os sinais indicados. C\u00e2ndido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a not\u00edcia. N\u00e3o foi mais feliz com outros fugidos de gratifica\u00e7\u00e3o incerta ou barata.<\/p>\n<p>Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia M\u00f4nica arranjara de si mesma a dieta para a recente m\u00e3e, e tinha j\u00e1 o menino para ser levado \u00e0 Roda. O pai, n\u00e3o obstante o acordo feito, mal p\u00f4de esconder a dor do espet\u00e1culo. N\u00e3o quis comer o que tia M\u00f4nica lhe guardara; n\u00e3o tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. N\u00e3o podia esquecer o pr\u00f3prio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia M\u00f4nica pintara-lhe a cria\u00e7\u00e3o do menino; seria maior a mis\u00e9ria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. C\u00e2ndido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu \u00e0 mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da m\u00e3e. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na dire\u00e7\u00e3o da Rua dos Barbonos.<\/p>\n<p>Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, \u00e9 certo; n\u00e3o menos certo \u00e9 que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preserv\u00e1-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, C\u00e2ndido Neves come\u00e7ou a afrouxar o passo. &#8211;Hei de entreg\u00e1-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas n\u00e3o sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acab\u00e1-la; foi ent\u00e3o que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela \u00e0 Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar \u00e0 direita, na dire\u00e7\u00e3o do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. N\u00e3o dou aqui a como\u00e7\u00e3o de C\u00e2ndido Neves por n\u00e3o pod\u00ea-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele tamb\u00e9m; a poucos passos estava a farm\u00e1cia onde obtivera a informa\u00e7\u00e3o, que referi acima. Entrou, achou o farmac\u00eautico, pediu-lhe a fineza de guardar a crian\u00e7a por um instante; viria busc\u00e1-la sem falta.<\/p>\n<p>&#8211;Mas&#8230;<\/p>\n<p>C\u00e2ndido Neves n\u00e3o lhe deu tempo de dizer nada; saiu r\u00e1pido, atravessou a rua, at\u00e9 ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. Jos\u00e9, C\u00e2ndido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona. &#8211;Arminda! bradou, conforme a nomeava o an\u00fancio.<\/p>\n<p>Arminda voltou-se sem cuidar mal\u00edcia. Foi s\u00f3 quando ele, tendo tirado o peda\u00e7o de corda da algibeira, pegou dos bra\u00e7os da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era j\u00e1 imposs\u00edvel. C\u00e2ndido Neves, com as m\u00e3os robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ningu\u00e9m viria libert\u00e1-la, ao contr\u00e1rio. Pediu ent\u00e3o que a soltasse pelo amor de Deus.<\/p>\n<p>&#8211;Estou gr\u00e1vida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, pe\u00e7o-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor mo\u00e7o! &#8212; Siga! repetiu C\u00e2ndido Neves. &#8211;Me solte! &#8211;N\u00e3o quero demoras; siga!<\/p>\n<p>Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava \u00e0 porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente n\u00e3o acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com a\u00e7outes,&#8211;cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar a\u00e7outes.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea \u00e9 que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou C\u00e2ndido Neves.<\/p>\n<p>N\u00e3o estava em mar\u00e9 de riso, por causa do filho que l\u00e1 ficara na farm\u00e1cia, \u00e0 espera dele. Tamb\u00e9m \u00e9 certo que n\u00e3o costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 da Alf\u00e2ndega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava p\u00f4s os p\u00e9s \u00e0 parede, recuou com grande esfor\u00e7o, inutilmente. O que alcan\u00e7ou foi, apesar de ser a casa pr\u00f3xima, gastar mais tempo em l\u00e1 chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em v\u00e3o. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.<\/p>\n<p>&#8211;Aqui est\u00e1 a fujona, disse C\u00e2ndido Neves. &#8212; \u00c9 ela mesma. &#8211;Meu senhor! &#8211;Anda, entra&#8230;<\/p>\n<p>Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-r\u00e9is de gratifica\u00e7\u00e3o. C\u00e2ndido Neves guardou as duas notas de cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is, enquanto o senhor novamente dizia \u00e0 escrava que entrasse. No ch\u00e3o, onde jazia, levada do medo e da dor, e ap\u00f3s algum tempo de luta a escrava abortou.<\/p>\n<p>O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da m\u00e3e e os gestos de desespero do dono. C\u00e2ndido Neves viu todo esse espet\u00e1culo. N\u00e3o sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr \u00e0 Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseq\u00fc\u00eancias do desastre.<\/p>\n<p>Quando l\u00e1 chegou, viu o farmac\u00eautico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esgan\u00e1-lo. Felizmente, o farmac\u00eautico explicou tudo a tempo; o menino estava l\u00e1 dentro com a fam\u00edlia, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma f\u00faria com que pegara a escrava fujona de h\u00e1 pouco, f\u00faria diversa, naturalmente, f\u00faria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu \u00e0s carreiras, n\u00e3o para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empr\u00e9stimo com o filho e os cem mil-r\u00e9is de gratifica\u00e7\u00e3o. Tia M\u00f4nica, ouvida a explica\u00e7\u00e3o, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-r\u00e9is. Disse, \u00e9 verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, al\u00e9m da fuga. C\u00e2ndido Neves, beijando o filho, entre l\u00e1grimas, verdadeiras, aben\u00e7oava a fuga e n\u00e3o se lhe dava do aborto.<\/p>\n<p>&#8211;Nem todas as crian\u00e7as vingam, bateu-lhe o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMARIA CORA<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO<\/h2>\n<p>UMA NOITE, voltando para casa, trazia tanto sono que n\u00e3o dei corda ao rel\u00f3gio. Pode ser tamb\u00e9m que a vista de uma senhora que encontrei em casa do comendador T&#8230; contribu\u00edsse para aquele esquecimento; mas estas duas raz\u00f5es destr\u00f3em-se. Cogita\u00e7\u00e3o tira o sono e o sono impede a cogita\u00e7\u00e3o; s\u00f3 uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos que nenhuma, e fiquemos no principal, que \u00e9 o rel\u00f3gio parado, de manh\u00e3, quando me levantei, ouvindo dez horas no rel\u00f3gio da casa.<\/p>\n<p>Morava ent\u00e3o (1893) em uma casa de pens\u00e3o no Catete. J\u00e1 por esse tempo este g\u00eanero de resid\u00eancia florescia no Rio de Janeiro. Aquela era pequena e tranq\u00fcila. Os quatrocentos contos de r\u00e9is permitiam-me casa exclusiva e pr\u00f3pria; mas, em primeiro lugar, j\u00e1 eu ali residia quando os adquiri, por jogo de pra\u00e7a; em segundo lugar, era um solteir\u00e3o de quarenta anos, t\u00e3o afeito \u00e0 vida de hospedaria que me seria imposs\u00edvel morar s\u00f3. Casar n\u00e3o era menos imposs\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 que me faltassem noivas. Desde os fins de 1891 mais de uma dama, &#8212; e n\u00e3o das menos belas, &#8212; olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das filhas do comendador tratava-me com particular aten\u00e7\u00e3o. A nenhuma dei corda, o celibato era a minha alma, a minha voca\u00e7\u00e3o, o meu costume, a minha \u00fanica ventura. Amaria de empreitada e por desfastio. Uma ou duas aventuras por ano bastavam a um cora\u00e7\u00e3o meio inclinado ao ocaso e \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Talvez por isso dei alguma aten\u00e7\u00e3o \u00e0 senhora que vi em casa do comendador, na v\u00e9spera. Era uma criatura morena, robusta, vinte e oito a trinta anos, vestida de escuro; entrou \u00e0s dez horas, acompanhada de uma tia velha. A recep\u00e7\u00e3o que lhe fizeram foi mais cerimoniosa que as outras; era a primeira vez que ali ia. Eu era a terceira. Perguntei se era vi\u00fava.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o; \u00e9 casada.<\/p>\n<p>&#8212; Com quem?<\/p>\n<p>&#8212; Com um estancieiro do Rio Grande.<\/p>\n<p>&#8212; Chama-se?<\/p>\n<p>&#8212; Ele? Fonseca, ela Maria Cora.<\/p>\n<p>&#8212; O marido n\u00e3o veio com ela?<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 no Rio Grande.<\/p>\n<p>N\u00e3o soube mais nada; mas a figura da dama interessou-me pelas gra\u00e7as f\u00edsicas, que eram o oposto do que poderiam sonhar poetas rom\u00e2nticos e artistas ser\u00e1ficos. Conversei com ela alguns minutos, sobre cousas indiferentes, &#8212; mas suficientes para escutar-lhe a voz, que era musical, e saber que tinha opini\u00f5es republicanas. Vexou-me confessar que n\u00e3o as professava de esp\u00e9cie alguma; declarei-me vagamente pelo futuro do pa\u00eds. Quando ela falava, tinha um modo de umedecer os bei\u00e7os, n\u00e3o sei se casual, mas gracioso e picante. Creio que, vistas assim ao p\u00e9, as fei\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram t\u00e3o corretas como pareciam a dist\u00e2ncia, mas eram mais suas, mais originais.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO II<\/h2>\n<p>DE MANH\u00c3 tinha o rel\u00f3gio parado. Chegando \u00e0 cidade, desci a Rua do Ouvidor, at\u00e9 \u00e0 da Quitanda, e indo a voltar \u00e0 direita, para ir ao escrit\u00f3rio do meu advogado, lembrou-me ver que horas eram. N\u00e3o me acudiu que o rel\u00f3gio estava parado.<\/p>\n<p>&#8212; Que ma\u00e7ada! exclamei.<\/p>\n<p>Felizmente, naquela mesma Rua da Quitanda, \u00e0 esquerda, entre as do Ouvidor e Ros\u00e1rio, era a oficina onde eu comprara o rel\u00f3gio, e a cuja p\u00eandula usava acert\u00e1-lo. Em vez de ir para um lado, fui para outro. Era apenas meia hora; dei corda ao rel\u00f3gio, acertei-o, troquei duas palavras com o oficial que estava ao balc\u00e3o, e indo a sair, vi \u00e0 porta de uma loja de novidades que ficava defronte, nem mais nem menos que a senhora de escuro que encontrara em casa do comendador. Cumprimentei-a, ela correspondeu depois de alguma hesita\u00e7\u00e3o, como se me n\u00e3o houvesse reconhecido logo, e depois seguiu pela Rua da Quitanda fora, ainda para o lado esquerdo.<\/p>\n<p>Como tivesse algum tempo ante mim (pouco menos de trinta minutos), dei-me a andar atr\u00e1s de Maria Cora. N\u00e3o digo que uma for\u00e7a violenta me levasse j\u00e1, mas n\u00e3o posso esconder que cedia a qualquer impulso de curiosidade e desejo; era tamb\u00e9m um resto da juventude passada. Na rua, andando, vestida de escuro, como na v\u00e9spera, Maria Cora pareceu-me ainda melhor. Pisava forte, n\u00e3o apressada nem lenta, o bastante para deixar ver e admirar as belas formas, mui mais corretas que as linhas do rosto. Subiu a Rua do Hosp\u00edcio, at\u00e9 uma oficina de ocularista, onde entrou e ficou dez minutos ou mais. Deixei-me estar a dist\u00e2ncia, fitando a porta disfar\u00e7adamente. Depois saiu, arrepiou caminho, e dobrou a Rua dos Ourives, at\u00e9 \u00e0 do Ros\u00e1rio, por onde subiu at\u00e9 ao Largo da S\u00e9; da\u00ed passou ao de S. Francisco de Paula. Todas essas reminisc\u00eancias parecer\u00e3o escusadas, sen\u00e3o aborrec\u00edveis; a mim d\u00e3o-me uma sensa\u00e7\u00e3o intensa e particular, s\u00e3o os primeiros passos de uma carreira penosa e longa. Demais, vereis por aqui que ela evitava subir a Rua do Ouvidor, que todos e todas buscariam \u00e0quela ou a outra hora para ir ao Largo de S. Francisco de Paula. Foi atravessando o largo, na dire\u00e7\u00e3o da Escola Polit\u00e9cnica, mas a meio caminho veio ter com ela um carro que estava parado defronte da Escola; meteu-se nele, e o carro partiu.<\/p>\n<p>A vida tem suas encruzilhadas, como outros caminhos da terra. Naquele momento achei-me diante de uma assaz complicada, mas n\u00e3o tive tempo de escolher dire\u00e7\u00e3o, &#8212; nem tempo nem liberdade. Ainda agora n\u00e3o sei como \u00e9 que me vi dentro de um t\u00edlburi, \u00e9 certo que me vi nele, dizendo ao cocheiro que fosse atr\u00e1s do carro.<\/p>\n<p>Maria Cora morava no Engenho Velho; era uma boa casa, s\u00f3lida, posto que antiga, dentro de uma ch\u00e1cara. Vi que morava ali, porque a tia estava a uma das janelas. Depois, saindo do carro, Maria Cora disse ao cocheiro (o meu t\u00edlburi ia passando adiante) que naquela semana n\u00e3o sairia mais, e que aparecesse segunda-feira ao meio-dia. Em seguida, entrou pela ch\u00e1cara, como dona dela, e parou a falar ao feitor, que lhe explicava alguma cousa com o gesto.<\/p>\n<p>Voltei depois que ela entrou em casa, e s\u00f3 muito abaixo \u00e9 que me lembrou de ver as horas, era quase uma e meia. Vim a trote largo at\u00e9 \u00e0 Rua da Quitanda, onde me apeei \u00e0 porta do advogado.<\/p>\n<p>&#8212; Pensei que n\u00e3o vinha, disse-me ele.<\/p>\n<p>&#8212; Desculpe, doutor, encontrei um amigo que me deu uma ma\u00e7ada.<\/p>\n<p>N\u00e3o era a primeira vez que mentia na minha vida, nem seria a \u00faltima.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO III<\/p>\n<p>FIZ-ME ENCONTRADI\u00c7O com Maria Cora, na casa do comendador, primeiro, e depois em outras. Maria Cora n\u00e3o vivia absolutamente reclusa, dava alguns passeios e fazia visitas. Tamb\u00e9m recebia, mas sem dia certo, uma ou outra vez, e apenas cinco a seis pessoas da intimidade. O sentimento geral \u00e9 que era pessoa de fortes sentimentos e austeros costumes. Acrescentai a isto o esp\u00edrito, um esp\u00edrito agudo, brilhante e viril. Capaz de resist\u00eancias e fadigas, n\u00e3o menos que de viol\u00eancias e combates, era feita, como dizia um poeta que l\u00e1 ia \u00e0 casa dela, &#8220;de um peda\u00e7o de pampa e outro de pampeiro&#8221;. A imagem era em verso e com rima, mas a mim s\u00f3 me ficou a id\u00e9ia e o principal das palavras. Maria Cora gostava de ouvir definir-se assim, posto n\u00e3o andasse mostrando aquelas for\u00e7as a cada passo, nem contando as suas mem\u00f3rias da adolesc\u00eancia. A tia \u00e9 que contava algumas, com amor, para concluir que lhe sa\u00eda a ela, que tamb\u00e9m fora assim na mocidade. A justi\u00e7a pede que se diga que, ainda agora, apesar de doente, a tia era pessoa de muita vida e robustez.<\/p>\n<p>Com pouco, apaixonei-me pela sobrinha. N\u00e3o me pesa confess\u00e1-lo, pois foi a ocasi\u00e3o da \u00fanica p\u00e1gina da minha vida que merece aten\u00e7\u00e3o particular. Vou narr\u00e1-la brevemente; n\u00e3o conto novela nem direi mentiras.<\/p>\n<p>Gostei de Maria Cora. N\u00e3o lhe confiei logo o que sentia, mas \u00e9 prov\u00e1vel que ela o percebesse ou adivinhasse, como todas as mulheres. Se a descoberta ou adivinha\u00e7\u00e3o foi anterior \u00e0 minha ida \u00e0 casa do Engenho Velho, nem assim deveis censur\u00e1-la por me haver convidado a ir ali uma noite. Podia ser-lhe ent\u00e3o indiferente a minha disposi\u00e7\u00e3o moral, podia tamb\u00e9m gostar de se sentir querida, sem a menor id\u00e9ia de retribui\u00e7\u00e3o. A verdade \u00e9 que fui essa noite e tornei outras, a tia gostava de mim e dos meus modos. O poeta que l\u00e1 ia, tagarela e tonto, disse uma vez que estava afinando a lira para o casamento da tia comigo. A tia riu-se; eu, que queria as boas gra\u00e7as dela, n\u00e3o podia deixar de rir tamb\u00e9m, e o caso foi mat\u00e9ria de conversa\u00e7\u00e3o por uma semana; mas j\u00e1 ent\u00e3o o meu amor \u00e0 outra tinha atingido ao cume.<\/p>\n<p>Soube, pouco depois, que Maria Cora vivia separada do marido. Tinham casado oito anos antes, por verdadeira paix\u00e3o. Viveram felizes cinco. Um dia, sobreveio uma aventura do marido que destruiu a paz do casal. Jo\u00e3o da Fonseca apaixonou-se por uma figura de circo, uma chilena que voava em cima do cavalo, Dolores, e deixou a est\u00e2ncia para ir atr\u00e1s dela. Voltou seis meses depois, curado do amor, mas curado \u00e0 for\u00e7a, porque a aventureira se enamorou do redator de um jornal, que n\u00e3o tinha vint\u00e9m, e por ele abandonou Fonseca e a sua prataria. A esposa tinha jurado n\u00e3o aceitar mais o esposo, e tal foi a declara\u00e7\u00e3o que lhe fez quando ele apareceu na est\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo est\u00e1 acabado entre n\u00f3s; vamos desquitar-nos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Fonseca teve um primeiro gesto de acordo; era um quadragen\u00e1rio orgulhoso, para quem tal proposta era de si mesma uma ofensa. Durante uma noite tratou dos preparativos para o desquite; mas, na seguinte manh\u00e3, a vista das gra\u00e7as da esposa novamente o comoveram. Ent\u00e3o, sem tom implorativo, antes como quem lhe perdoava, entendeu dizer-lhe que deixasse passar uns seis meses. Se ao fim de seis meses, persistisse o sentimento atual que inspirava a proposta do desquite, este se faria. Maria Cora n\u00e3o queria aceitar a emenda, mas a tia, que residia em Porto Alegre e fora passar algumas semanas na est\u00e2ncia, interveio com boas palavras. Antes de tr\u00eas meses estavam reconciliados.<\/p>\n<p>&#8212; Jo\u00e3o, disse-lhe a mulher no dia seguinte ao da reconcilia\u00e7\u00e3o, voc\u00ea deve ver que o meu amor \u00e9 maior<br \/>\nque o meu ci\u00fame, mas fica entendido que este caso da nossa vida \u00e9 \u00fanico. Nem voc\u00ea me far\u00e1 outra, nem eu lhe perdoarei nada mais.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Fonseca achava-se ent\u00e3o em um renascimento do del\u00edrio conjugal; respondeu \u00e0 mulher jurando tudo e mais alguma cousa. Aos quarenta anos, concluiu ele, n\u00e3o se fazem duas aventuras daquelas, e a minha foi de doer. Voc\u00ea ver\u00e1, agora \u00e9 para sempre.<\/p>\n<p>A vida recome\u00e7ou t\u00e3o feliz, como dantes, &#8212; ele dizia que mais. Com efeito, a paix\u00e3o da esposa era violenta, e o marido tornou a am\u00e1-la como outrora. Viveram assim dous anos. Ao fim desse tempo, os ardores do marido haviam diminu\u00eddo, alguns amores passageiros vieram meter-se entre ambos. Maria Cora, ao contr\u00e1rio do que lhe dissera, perdoou essas faltas que ali\u00e1s n\u00e3o tiveram a extens\u00e3o nem o vulto da aventura Dolores. Os desgostos, entretanto, apareceram e grandes. Houve cenas violentas. Ela parece que chegou mais de uma vez a amea\u00e7ar que se mataria; mas, posto n\u00e3o lhe faltasse o preciso \u00e2nimo, n\u00e3o fez tentativa nenhuma, a tal ponto lhe do\u00eda deixar a pr\u00f3pria causa do mal, que era o marido. Jo\u00e3o da Fonseca percebeu isto mesmo, e acaso explorou a fascina\u00e7\u00e3o que exercia na mulher.<\/p>\n<p>Uma circunst\u00e2ncia pol\u00edtica veio complicar esta situa\u00e7\u00e3o moral. Jo\u00e3o da Fonseca era pelo lado da revolu\u00e7\u00e3o, dava-se com v\u00e1rios dos seus chefes, e pessoalmente detestava alguns dos contr\u00e1rios. Maria Cora, por la\u00e7os de fam\u00edlia, era adversa aos federalistas. Esta oposi\u00e7\u00e3o de sentimentos n\u00e3o seria bastante para separ\u00e1-los, nem se pode dizer que, por si mesma, azedasse a vida dos dous. Embora a mulher, ardente em tudo, n\u00e3o o fosse menos em condenar a revolu\u00e7\u00e3o, chamando nomes crus aos seus chefes e oficiais; embora o marido, tamb\u00e9m excessivo, replicasse com igual \u00f3dio, os seus arrufos pol\u00edticos apenas aumentariam os dom\u00e9sticos, e provavelmente n\u00e3o passariam dessa troca de conceitos, se uma nova Dolores, desta vez Prazeres, e n\u00e3o chilena nem saltimbanca, n\u00e3o revivesse os dias amargos de outro tempo. Prazeres era ligada ao partido da revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 pelos sentimentos, como pelas rela\u00e7\u00f5es da vida com um federalista. Eu a conheci pouco depois, era bela e airosa; Jo\u00e3o da Fonseca era tamb\u00e9m um homem gentil e sedutor. Podiam amar-se fortemente, e assim foi. Vieram incidentes, mais ou menos graves, ate que um decisivo determinou a separa\u00e7\u00e3o do casal.<\/p>\n<p>J\u00e1 cuidavam disto desde algum tempo, mas a reconcilia\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria imposs\u00edvel, apesar da palavra de Maria Cora, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da tia; esta havia insinuado \u00e0 sobrinha que residisse tr\u00eas ou quatro meses no Rio de Janeiro ou em S.Paulo. Sucedeu, por\u00e9m, uma cousa triste de dizer. O marido, em um momento de desvario, amea\u00e7ou a mulher com o rebenque. Outra vers\u00e3o diz que ele tentara esgan\u00e1-la. Quero crer que a ver\u00eddica \u00e9 a primeira, e que a segunda foi inventada para tirar \u00e0 viol\u00eancia de Jo\u00e3o da Fonseca o que pudesse haver deprimente e vulgar. Maria Cora n\u00e3o disse mais uma s\u00f3 palavra ao marido. A separa\u00e7\u00e3o foi imediata, a mulher veio com a tia para o Rio de Janeiro, depois de arranjados amigavelmente os interesses pecuni\u00e1rios. Demais, a tia era rica.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Fonseca e Prazeres ficaram vivendo juntos uma vida de aventuras que n\u00e3o importa escrever aqui. S\u00f3 uma cousa interessa diretamente \u00e0 minha narra\u00e7\u00e3o. Tempos depois da separa\u00e7\u00e3o do casal, Jo\u00e3o da Fonseca estava alistado entre os revolucion\u00e1rios. A paix\u00e3o pol\u00edtica, posto que forte, n\u00e3o o levaria a pegar em armas, se n\u00e3o fosse uma esp\u00e9cie de desafio da parte de Prazeres; assim correu entre os amigos dele, mas ainda este ponto \u00e9 obscuro. A vers\u00e3o \u00e9 que ela, exasperada com o resultado de alguns combates, disse ao estancieiro que iria, disfar\u00e7ada em homem, vestir farda de soldado e bater-se pela revolu\u00e7\u00e3o. Era capaz disto; o amante disse-lhe que era uma loucura, ela acabou propondo-lhe que, nesse caso, fosse ele bater-se em vez dela, era uma grande prova de amor que lhe daria.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o te tenho dado tantas?<\/p>\n<p>&#8212; Tem, sim; mas esta \u00e9 a maior de todas, esta me far\u00e1 cativa at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o agora ainda n\u00e3o \u00e9 at\u00e9 \u00e0 morte? perguntou ele rindo.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode ser que as cousas se passassem assim. Prazeres era, com efeito, uma mulher caprichosa e imperiosa, e sabia prender um homem por la\u00e7os de ferro. O federalista, de quem se separou para acompanhar Jo\u00e3o da Fonseca, depois de fazer tudo para reav\u00ea-la, passou \u00e0 campanha oriental, onde dizem que vive pobremente, encanecido e envelhecido vinte anos, sem querer saber de mulheres nem de pol\u00edtica. Jo\u00e3o da Fonseca acabou cedendo; ela pediu para acompanh\u00e1-lo, e at\u00e9 bater-se, se fosse preciso; ele negou-lho. A revolu\u00e7\u00e3o triunfaria em breve, disse; vencidas as for\u00e7as do governo, tornaria \u00e0 est\u00e2ncia, onde ela o esperaria.<\/p>\n<p>&#8212; Na est\u00e2ncia, n\u00e3o, respondeu Prazeres; espero-te em Porto Alegre.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO IV<\/p>\n<p>N\u00c3O IMPORTA dizer o tempo que despendi nos in\u00edcios da minha paix\u00e3o, mas n\u00e3o foi grande. A paix\u00e3o cresceu r\u00e1pida e forte. Afinal senti-me t\u00e3o tomado dela que n\u00e3o pude mais guard\u00e1-la comigo, e resolvi declarar-lha uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde as nove horas (acordava \u00e0s quatro), daquela vez n\u00e3o pregou olho, e, ainda que o fizesse, \u00e9 prov\u00e1vel que eu n\u00e3o alcan\u00e7asse falar; tinha a voz presa e na rua senti uma vertigem igual \u00e0 que me deu a primeira paix\u00e3o da minha vida.<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Correia, n\u00e3o v\u00e1 cair, disse a tia quando eu passei \u00e0 varanda, despedindo-me.<\/p>\n<p>&#8212; Deixe estar, n\u00e3o caio.<\/p>\n<p>Passei mal a noite; n\u00e3o pude dormir mais de duas horas, aos peda\u00e7os, e antes das cinco estava em p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 preciso acabar com isto! exclamei.<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o parecia achar em Maria Cora mais que benevol\u00eancia e perd\u00e3o, mas era isso mesmo que a tornava apetec\u00edvel. Todos os amores da minha vida tinham sido f\u00e1ceis; em nenhum encontrei resist\u00eancia, a nenhuma deixei com dor; alguma pena, \u00e9 poss\u00edvel, e um pouco de recorda\u00e7\u00e3o. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria Cora era toda vida; parece que, ao p\u00e9 dela, as pr\u00f3prias cadeiras andavam e as figuras do tapete moviam os olhos. P\u00f5e nisso uma forte dose de meiguice e gra\u00e7a; finalmente, a ternura da tia fazia daquela criatura um anjo. \u00c9 banal a compara\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tenho outra.<\/p>\n<p>Resolvi cortar o mal pela raiz, n\u00e3o tornando ao Engenho Velho, e assim fiz por alguns dias largos, duas ou tr\u00eas semanas. Busquei distrair-me e esquec\u00ea-la, mas foi em v\u00e3o. Comecei a sentir a aus\u00eancia como de um bem querido; apesar disso, resisti e n\u00e3o tornei logo. Mas, crescendo a aus\u00eancia, cresceu o mal, e enfim resolvi tornar l\u00e1 uma noite. Ainda assim pode ser que n\u00e3o fosse, a n\u00e3o achar Maria Cora na mesma oficina da Rua da Quitanda, aonde eu fora acertar o rel\u00f3gio parado.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 fregu\u00eas tamb\u00e9m? perguntou-me ao entrar.<\/p>\n<p>&#8212; Sou.<\/p>\n<p>&#8212; Vim acertar o meu. Mas, por que n\u00e3o tem aparecido?<\/p>\n<p>&#8212; E verdade, por que n\u00e3o voltou l\u00e1 \u00e0 casa? completou a tia.<\/p>\n<p>&#8212; Uns neg\u00f3cios, murmurei; mas, hoje mesmo contava ir l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8212; Hoje n\u00e3o; v\u00e1 amanh\u00e3, disse a sobrinha. Hoje vamos passar a noite fora.<\/p>\n<p>Pareceu-me ler naquela palavra um convite a am\u00e1-la de vez, assim como a primeira trouxera um tom que presumi ser de saudade. Realmente, no dia seguinte, fui ao Engenho Velho. Maria Cora acolheu-me com a mesma boa vontade de antes. O poeta l\u00e1 estava e contou-me em verso os suspiros que a tia dera por mim. Entrei a freq\u00fcent\u00e1-las novamente e resolvi declarar tudo.<\/p>\n<p>J\u00e1 acima disse que ela provavelmente percebera ou adivinhara o que eu sentia, como todas as mulheres; referi-me aos primeiros dias. Desta vez com certeza percebeu, nem por isso me repeliu. Ao contr\u00e1rio, parecia gostar de se ver querida, muito e bem.<\/p>\n<p>Pouco depois daquela noite escrevi-lhe uma carta e fui ao Engenho Velho. Achei-a um pouco retra\u00edda; a tia explicou-me que recebera not\u00edcias do Rio Grande que a afligiram. N\u00e3o liguei isto ao casamento e busquei alegr\u00e1-la; apenas consegui v\u00ea-la cort\u00eas. Antes de sair, perto da varanda, entreguei-lhe a carta; ia a dizer-lhe: &#8220;Pe\u00e7o-lhe que leia&#8221;, mas a voz n\u00e3o saiu. Vi-a um pouco atrapalhada, e para evitar dizer o que melhor ia escrito, cumprimentei-a e enfiei pelo jardim. Pode imaginar-se a noite que passei, e o dia seguinte foi naturalmente igual \u00e0 medida que a outra noite vinha. Pois, ainda assim, n\u00e3o tornei \u00e0 casa dela; resolvi esperar tr\u00eas ou quatro dias, n\u00e3o que ela me escrevesse logo, mas que pensasse nos termos da resposta. Que estes haviam de ser simp\u00e1ticos, era certeza minha; as maneiras dela, nos \u00faltimos tempos, eram mais que af\u00e1veis, pareciam-me convidativas.<\/p>\n<p>N\u00e3o cheguei, por\u00e9m, aos quatro dias; mal pude esperar tr\u00eas. Na noite do terceiro fui ao Engenho Velho. Se disser que entrei tr\u00eamulo da primeira como\u00e7\u00e3o, n\u00e3o minto. Achei-a ao piano, tocando para o poeta ouvir; a tia, na poltrona, pensava em n\u00e3o sei que, mas eu quase n\u00e3o a vi, tal a minha primeira alucina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Entre, Sr. Correia, disse esta; n\u00e3o caia em cima de mim.<\/p>\n<p>&#8212; Perd\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Maria Cora n\u00e3o interrompeu a m\u00fasica; ao ver-me chegar, disse:<\/p>\n<p>&#8212; Desculpe, se lhe n\u00e3o dou a m\u00e3o, estou aqui servindo de musa a este senhor.<\/p>\n<p>Minutos depois, veio a mim, e estendeu-me a m\u00e3o com tanta galhardia, que li nela a resposta, e estive quase a dar-lhe um agradecimento. Passaram-se alguns minutos, quinze ou vinte. Ao fim desse tempo, ela pretextou um livro, que estava em cima das m\u00fasicas, e pediu-me para dizer se o conhecia; fomos ali ambos, e ela abriu-mo; entre as duas folhas estava um papel.<\/p>\n<p>&#8212; Na outra noite, quando aqui esteve, deu-me esta carta; n\u00e3o podia dizer-me o que tem dentro?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o adivinha?<\/p>\n<p>&#8212; Posso errar na adivinha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 isso mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Bem, mas eu sou uma senhora casada, e nem por estar separada do meu marido deixo de estar casada.<br \/>\nO senhor ama-me, n\u00e3o \u00e9? Suponha, pelo melhor, que eu tamb\u00e9m o amo; nem por isso deixo de estar casada.<\/p>\n<p>Dizendo isto, entregou-me a carta; n\u00e3o fora aberta. Se estiv\u00e9ssemos s\u00f3s, \u00e9 poss\u00edvel que eu lhe lesse, mas a presen\u00e7a de estranhos impedia-me este recurso. Demais, era desnecess\u00e1rio; a resposta de Maria Cora era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta. e antes de a guardar comigo:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o quer ent\u00e3o ler?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Nem para ver os termos?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Imagine que lhe proponho ir combater contra seu marido, mat\u00e1-lo e voltar, disse eu cada vez mais tonto.<\/p>\n<p>&#8212; Prop\u00f5e isto?<\/p>\n<p>&#8212; Imagine.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o creio que ningu\u00e9m me ame com tal for\u00e7a, concluiu sorrindo. Olhe, que est\u00e3o reparando em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Dizendo isto, separou-se de mim, e foi ter com a tia e o poeta. Eu fiquei ainda alguns segundos com o livro na m\u00e3o, como se deveras o examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte dela. Os tr\u00eas conversavam de cousas do Rio Grande, de combates entre federalistas e legalistas, e da v\u00e1ria sorte deles. O que eu ent\u00e3o senti n\u00e3o se escreve; pelo menos, n\u00e3o o escrevo eu, que n\u00e3o sou romancista. Foi uma esp\u00e9cie de vertigem, um del\u00edrio, uma cena pavorosa e l\u00facida, um combate e uma gl\u00f3ria. Imaginei-me no campo, entre uns e outros, combatendo os federalistas, e afinal matando Jo\u00e3o da Fonseca, voltando e casando-me com a vi\u00fava. Maria Cora contribu\u00eda para esta vis\u00e3o sedutora; agora, que me recusara a carta, parecia-me mais bela que nunca, e a isto acrescia que se n\u00e3o mostrava zangada nem ofendida, tratava-me com igual carinho que antes, creio at\u00e9 que maior. Disto podia sair uma impress\u00e3o dupla e contr\u00e1ria, &#8212; uma de aquiesc\u00eancia t\u00e1cita, outra de indiferen\u00e7a, mas eu s\u00f3 via a primeira, e sa\u00ed de l\u00e1 completamente louco.<\/p>\n<p>O que ent\u00e3o resolvi foi realmente de louco. As palavras de Maria Cora: &#8220;N\u00e3o creio que ningu\u00e9m me ame com tal for\u00e7a&#8221; &#8212; soavam-me aos ouvidos, como um desafio. Pensei nelas toda a noite, e no dia seguinte fui ao Engenho Velho; logo que tive ocasi\u00e3o de jurar-lhe a prova, fi-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Deixo tudo o que me interessa, a come\u00e7ar pela paz, com o \u00fanico fim de lhe mostrar que a amo, e a quero s\u00f3 e santamente para mim. Vou combater a revolta.<\/p>\n<p>Maria Cora fez um gesto de deslumbramento. Daquela vez percebi que realmente gostava de mim, verdadeira paix\u00e3o, e se fosse vi\u00fava, n\u00e3o casava com outro. Jurei novamente que ia para o Sul. Ela, comovida, estendeu-me a m\u00e3o. Est\u00e1vamos em pleno romantismo. Quando eu nasci, os meus n\u00e3o acreditavam em outras provas de amor, e minha m\u00e3e contava-me os romances em versos de cavaleiros andantes que iam \u00e0 Terra Santa libertar o sepulcro de Cristo por amor da f\u00e9 e da sua dama. Est\u00e1vamos em pleno romantismo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO V<\/h3>\n<p>FUI PARA O SUL. OS combates entre legalistas e revolucion\u00e1rios eram cont\u00ednuos e sangrentos, e a not\u00edcia deles contribuiu a animar-me. Entretanto, como nenhuma paix\u00e3o pol\u00edtica me animava a entrar na luta, for\u00e7a \u00e9 confessar que por um instante me senti abatido e hesitei. N\u00e3o era medo da morte, podia ser amor da vida, que \u00e9 um sin\u00f4nimo; mas, uma ou outra cousa, n\u00e3o foi tal nem tamanha que fizesse durar por muito tempo a hesita\u00e7\u00e3o. Na cidade do Rio Grande encontrei um amigo, a quem eu por carta do Rio de Janeiro dissera muito reservadamente que ia l\u00e1 por motivos pol\u00edticos. Quis saber quais.<\/p>\n<p>&#8212; Naturalmente s\u00e3o reservados, respondi tentando sorrir.<\/p>\n<p>&#8212; Bem; mas uma cousa creio que posso saber, uma s\u00f3, porque n\u00e3o sei absolutamente o que pense a tal respeito, nada havendo antes que me instrua. De que lado est\u00e1s, legalistas ou revoltosos?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 boa! Se n\u00e3o fosse dos legalistas, n\u00e3o te mandaria dizer nada; viria \u00e0s escondidas.<\/p>\n<p>&#8212; Vens com alguma comiss\u00e3o secreta do marechal?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o me arrancou ent\u00e3o mais nada, mas eu n\u00e3o pude deixar de lhe confiar os meus projetos, ainda que sem os seus motivos. Quando ele soube que aqueles eram alistar-me entre os volunt\u00e1rios que combatiam a revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o p\u00f4de crer em mim, e talvez desconfiasse que efetivamente eu levava algum plano secreto do presidente. Nunca da minha parte ouviu nada que pudesse explicar semelhante passo. Entretanto, n\u00e3o perdeu tempo em despersuadir-me; pessoalmente era legalista e falava dos advers\u00e1rios com \u00f3dio e furor. Passado o espanto, aceitou o meu ato, tanto mais nobre quanto n\u00e3o era inspirado por sentimento de partido. Sobre isto disse-me muita palavra bela e her\u00f3ica, pr\u00f3pria a levantar o \u00e2nimo de quem j\u00e1 tivesse tend\u00eancia para a luta. Eu n\u00e3o tinha nenhuma, fora das raz\u00f5es particulares; estas, por\u00e9m, eram agora maiores. Justamente acabava de receber uma carta da tia de Maria Cora, dando-me not\u00edcias delas, e recomenda\u00e7\u00f5es da sobrinha, tudo com alguma generalidade e certa simpatia verdadeira.<\/p>\n<p>Fui a Porto Alegre, alistei-me a marchei para a campanha. N\u00e3o disse a meu respeito nada que pudesse despertar a curiosidade de ningu\u00e9m, mas era dif\u00edcil encobrir a minha condi\u00e7\u00e3o, a minha origem, a minha viagem com o plano de ir combater a revolu\u00e7\u00e3o. Fez-se logo uma lenda a meu respeito. Eu era um republicano antigo, riqu\u00edssimo, entusiasta, disposto a dar pela Rep\u00fablica mil vidas, se as tivesse, e resoluto a n\u00e3o poupar a \u00fanica. Deixei dizer isto e o mais, e fui. Como eu indagasse das for\u00e7as revolucion\u00e1rias com que estaria Jo\u00e3o da Fonseca, algu\u00e9m quis ver nisto uma raz\u00e3o de \u00f3dio pessoal; tamb\u00e9m n\u00e3o faltou quem me supusesse espi\u00e3o dos rebeldes, que ia por-me em comunica\u00e7\u00e3o secreta com aquele. Pessoas que sabiam das rela\u00e7\u00f5es dele com a Prazeres, imaginavam que era um antigo amante desta que se queria vingar dos amores dele. Todas aquelas suposi\u00e7\u00f5es morreram, para s\u00f3 ficar a do meu entusiasmo pol\u00edtico; a da minha espionagem ia-me prejudicando; felizmente, n\u00e3o passou de duas cabe\u00e7as e de uma noite.<\/p>\n<p>Levava comigo um retrato de Maria Cora; alcan\u00e7ara-o dela mesmo, uma noite, pouco antes do meu embarque, com uma pequena dedicat\u00f3ria cerimoniosa. J\u00e1 disse que estava em pleno romantismo; dado o primeiro passo, os outros vieram de si mesmos. E agora juntai a isto o amor-pr\u00f3prio, e compreendereis que de simples cidad\u00e3o indiferente da capital sa\u00edsse um guerreiro \u00e1spero da campanha rio-grandense.<\/p>\n<p>Nem por isso conto combates, nem escrevo para falar da revolu\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o teve nada comigo, por si mesma, sen\u00e3o pela ocasi\u00e3o que me dava, e por algum golpe que lhe desfechei na estreita \u00e1rea da minha a\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o da Fonseca era o meu rebelde. Depois de haver tomado parte no combate de Sarandi e Cochila Negra, ouvi que o marido de Maria Cora fora morto, n\u00e3o sei em que recontro; mais tarde deram-me a not\u00edcia de estar com as for\u00e7as de Gumercindo, e tamb\u00e9m que fora feito prisioneiro e seguira para Porto Alegre; mas ainda isto n\u00e3o era verdade. Disperso, com dois camaradas, encontrei um dia um regimento legal que ia em defesa da Encruzilhada, investida ultimamente por uma for\u00e7a dos federalistas; apresentei-me ao comandante e segui. A\u00ed soube que Jo\u00e3o da Fonseca estava entre essa for\u00e7a; deram-me todos os sinais dele, contaram-me a hist\u00f3ria dos amores e a separa\u00e7\u00e3o da mulher.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de mat\u00e1-lo no turbilh\u00e3o de um combate tinha algo fant\u00e1stico; nem eu sabia se tais duelos eram poss\u00edveis em semelhantes ocasi\u00f5es, quando a for\u00e7a de cada homem tem de somar com a de toda uma for\u00e7a \u00fanica e obediente a uma s\u00f3 dire\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m me pareceu, mais de uma vez, que ia cometer um crime pessoal, e a sensa\u00e7\u00e3o que isto me dava, podeis crer que n\u00e3o era leve nem doce; mas a figura de Maria Cora abra\u00e7ava-me e absolvia com uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de felicidades. Atirei-me de vez. N\u00e3o conhecia Jo\u00e3o da Fonseca; al\u00e9m dos sinais que me haviam dado, tinha de mem\u00f3ria um retrato dele que vira no Engenho Velho; se as fei\u00e7\u00f5es n\u00e3o estivessem mudadas, era prov\u00e1vel que eu o reconhecesse entre muitos. Mas, ainda uma vez, seria este encontro poss\u00edvel? Os combates em que eu entrara, j\u00e1 me faziam desconfiar que n\u00e3o era f\u00e1cil, ao menos.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi f\u00e1cil nem breve. No combate da Encruzilhada creio que me houve com a necess\u00e1ria intrepidez e disciplina, e devo aqui notar que eu me ia acostumando \u00e0 vida da guerra civil. Os \u00f3dios que ouvia, eram for\u00e7as reais. De um lado e outro batiam-se com ardor, e a paix\u00e3o que eu sentia nos meus ia-se pegando em mim. J\u00e1 lera o meu nome em uma ordem do dia. e de viva voz recebera louvores, que comigo n\u00e3o pude deixar de achar justos, e ainda agora tais os declaro. Mas vamos ao principal, que \u00e9 acabar com isto.<\/p>\n<p>Naquele combate achei-me um tanto como o her\u00f3i de Stendhal na batalha de Waterloo; a diferen\u00e7a \u00e9 que o espa\u00e7o foi menor. Por isso, e tamb\u00e9m porque n\u00e3o me quero deter em cousas de recorda\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, direi somente que tive ocasi\u00e3o de matar em pessoa a Jo\u00e3o da Fonseca. Verdade \u00e9 que escapei de ser morto por ele. Ainda agora trago na testa a cicatriz que ele me deixou. O combate entre n\u00f3s foi curto. Se n\u00e3o parecesse romanesco demais, eu diria que Jo\u00e3o da Fonseca adivinhara o motivo e previra o resultado da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poucos minutos depois da luta pessoal, a um canto da vila, Jo\u00e3o da Fonseca caiu prostrado. Quis ainda lutar, e certamente lutou um pouco; eu \u00e9 que n\u00e3o consenti na desforra, que podia ser a minha derrota, se \u00e9 que raciocinei; creio que n\u00e3o. Tudo o que fiz foi cego pelo sangue em que o deixara banhado, e surdo pelo clamor e tumulto do combate. Matava-se, gritava-se, vencia-se; em pouco ficamos senhores do campo.<\/p>\n<p>Quando vi que Jo\u00e3o da Fonseca morrera deveras, voltei ao combate por instantes; a minha ebriedade cessara um pouco, e os motivos prim\u00e1rios tornaram a dominar-me, como se fossem \u00fanicos. A figura de Maria Cora apareceu-me como um sorriso de aprova\u00e7\u00e3o e perd\u00e3o; tudo foi r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Haveis de ter lido que ali se apreenderam tr\u00eas ou quatro mulheres. Uma destas era a Prazeres. Quando, acabado tudo, a Prazeres viu o cad\u00e1ver do amante, fez uma cena que me encheu de \u00f3dio e de inveja. Pegou em si e deitou-se a abra\u00e7\u00e1-lo; as l\u00e1grimas que verteu, as palavras que disse, fizeram rir a uns; a outros, se n\u00e3o enterneceram, deram algum sentimento de admira\u00e7\u00e3o. Eu, como digo, achei-me tomado de inveja e \u00f3dio, mas tamb\u00e9m esse duplo sentimento desapareceu para n\u00e3o ficar nem admira\u00e7\u00e3o; acabei rindo. Prazeres, depois de honrar com dor a morte do amante, ficou sendo a federalista que j\u00e1 era; n\u00e3o vestia farda, como dissera ao desafiar Jo\u00e3o da Fonseca, quis ser prisioneira com os rebeldes e seguir com eles.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o deixei logo as for\u00e7as, bati-me ainda algumas vezes, mas a raz\u00e3o principal dominou, e abri m\u00e3o das armas. Durante o tempo em que estive alistado, s\u00f3 escrevi duas cartas a Maria Cora, uma pouco depois de encetar aquela vida nova, &#8212; outra depois do combate da Encruzilhada; nesta n\u00e3o lhe contei nada do marido, nem da morte, nem sequer que o vira. Unicamente anunciei que era prov\u00e1vel acabasse brevemente a guerra civil. Em nenhuma das duas fiz a menor alus\u00e3o aos meus sentimentos nem ao motivo do meu ato; entretanto, para quem soubesse deles, a carta era significativa. Maria Cora s\u00f3 respondeu \u00e0 primeira das cartas, com serenidade, mas n\u00e3o com isen\u00e7\u00e3o. Percebia-se, &#8212; ou percebia-o eu, &#8212; que, n\u00e3o prometendo nada, tudo agradecia, e, quando menos, admirava. Gratid\u00e3o e admira\u00e7\u00e3o podiam encaminh\u00e1-la ao amor.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o disse, &#8212; e n\u00e3o sei como diga este ponto, &#8212; que na Encruzilhada, depois da morte de Jo\u00e3o da Fonseca, tentei degol\u00e1-lo; mas nem queria faz\u00ea-lo, nem realmente o fiz. O meu objeto era ainda outro e romanesco. Perdoa-me tu, realista sincero, h\u00e1 nisto tamb\u00e9m um pouco de realidade, e foi o que pratiquei, de acordo com o estado da minha alma: o que fiz foi cortar-lhe um molho de cabelos. Era o recibo da morte que eu levaria \u00e0 vi\u00fava.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO VI<\/h3>\n<p>QUANDO VOLTEI ao Rio de Janeiro, tinham j\u00e1 passado muitos meses do combate da Encruzilhada. O meu nome figurou n\u00e3o s\u00f3 em partes oficiais como em telegramas e correspond\u00eancias, por mais que eu buscasse esquivar-me ao ru\u00eddo e desaparecer na sombra. Recebi cartas de felicita\u00e7\u00f5es e de indaga\u00e7\u00f5es. N\u00e3o vim logo para o Rio de Janeiro, note-se; podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um dia. sem ser esperado, meti-me na estrada de ferro e entrei na cidade. Fui para a casa de pens\u00e3o do Catete.<\/p>\n<p>N\u00e3o procurei logo Maria Cora. Pareceu-me at\u00e9 mais acertado que a not\u00edcia da minha vinda lhe chegasse pelos jornais. N\u00e3o tinha pessoa que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma reda\u00e7\u00e3o contar o meu regresso do Rio Grande; n\u00e3o era passageiro de mar, cujo nome viesse em lista nas folhas p\u00fablicas. Passaram dous dias; no terceiro, abrindo uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se ali que viera de S. Paulo e estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com adjetivos de louvor; enfim, que voltava \u00e0 mesma pens\u00e3o do Catete. Como eu s\u00f3 contara alguma cousa ao dono da casa, podia ser ele o autor das notas; disse-me que n\u00e3o. Entrei a receber visitas pessoais. Todas queriam saber tudo; eu pouco mais disse que nada.<\/p>\n<p>Entre os cart\u00f5es, recebi dous de Maria Cora e da tia, com palavras de boas-vindas. N\u00e3o era preciso mais; restava-me ir agradecer-lhes, e dispus-me a isso; mas, no pr\u00f3prio dia em que resolvi ir ao Engenho Velho, tive uma sensa\u00e7\u00e3o de&#8230; De qu\u00ea? Expliquem, se podem, o acanhamento que me deu a lembran\u00e7a do marido de Maria Cora, morto \u00e0s minha m\u00e3os. A sensa\u00e7\u00e3o que ia ter diante dela encheu-me inteiramente. Sabendo-se qual foi o m\u00f3vel principal da minha a\u00e7\u00e3o militar, mal se compreende aquela hesita\u00e7\u00e3o; mas, se considerares que, por mais que me defendesse do marido e o matasse para n\u00e3o morrer, ele era sempre o marido, ter\u00e1s entendido o mal-estar que me fez adiar a visita. Afinal, peguei em mim e fui \u00e0 casa dela.<\/p>\n<p>Maria Cora estava de luto. Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a tia, as felicita\u00e7\u00f5es escritas. Falamos da guerra civil, dos costumes do Rio Grande, um pouco de pol\u00edtica, e mais nada. N\u00e3o se disse de Jo\u00e3o da Fonseca. Ao sair de l\u00e1, perguntei a mim mesmo se Maria Cora estaria disposta a casar comigo.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o me parece que recuse, embora n\u00e3o lhe ache maneiras especiais. Creio at\u00e9 que est\u00e1 menos af\u00e1vel que dantes&#8230; Ter\u00e1 mudado?&#8221;<\/p>\n<p>Pensei assim, vagamente. Atribu\u00ed a altera\u00e7\u00e3o ao estado moral da viuvez; era natural. E continuei a freq\u00fcent\u00e1-la, disposto a deixar passar a primeira fase do luto para lhe pedir formalmente a m\u00e3o. N\u00e3o tinha que fazer declara\u00e7\u00f5es novas; ela sabia tudo. Continuou a receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia tamb\u00e9m n\u00e3o, e da pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se falou mais. Pela minha parte, tornando \u00e0 situa\u00e7\u00e3o anterior, busquei n\u00e3o perder tempo, fiz-me pretendente com todas as maneiras do of\u00edcio. Um dia. perguntei-lhe se pensava em tornar ao Rio Grande.<\/p>\n<p>&#8212; Por ora, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ir\u00e1?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 poss\u00edvel; n\u00e3o tenho plano nem prazo marcado; \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Eu, depois de algum sil\u00eancio, durante o qual olhava interrogativamente para ela, acabei por inquirir se antes de ir, caso fosse, n\u00e3o alteraria nada em sua vida.<\/p>\n<p>&#8212; A minha vida est\u00e1 t\u00e3o alterada.. .<\/p>\n<p>N\u00e3o me entendera; foi o que supus. Tratei de me explicar melhor, e escrevi uma carta em que lhe lembrava a entrega e a recusa da primeira e lhe pedia francamente a m\u00e3o. Entreguei a carta, dous dias depois, com estas palavras:<\/p>\n<p>&#8212; Desta vez n\u00e3o recusar\u00e1 ler-me.<\/p>\n<p>N\u00e3o recusou, aceitou a carta. Foi \u00e0 sa\u00edda, \u00e0 porta da sala. Creio at\u00e9 que lhe vi certa como\u00e7\u00e3o de bom agouro. N\u00e3o me respondeu por escrito, como esperei. Passados tr\u00eas dias, estava t\u00e3o ansioso que resolvi ir ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo; que me recusasse, que me aceitasse, que me adiasse, e j\u00e1 me contentava com a \u00faltima hip\u00f3tese, se n\u00e3o houvesse de ser a segunda. N\u00e3o a achei em casa; tinha ido passar alguns dias na Tijuca. Sa\u00ed de l\u00e1 aborrecido. Pareceu-me que n\u00e3o queria absolutamente casar; mas ent\u00e3o era mais simples diz\u00ea-lo ou escrev\u00ea-lo. Esta considera\u00e7\u00e3o trouxe-me esperan\u00e7as novas.<\/p>\n<p>Tinha ainda presentes as palavras que me dissera, quando me devolveu a primeira carta, e eu lhe falei da minha paix\u00e3o: &#8221;Suponho que eu o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora casada&#8221;. Era claro que ent\u00e3o gostava de mim, e agora mesmo n\u00e3o havia raz\u00e3o decisiva para crer o contr\u00e1rio, embora a apar\u00eancia fosse um tanto fria. Ultimamente, entrei a crer que ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco por simpatia, e n\u00e3o sei se por gratid\u00e3o tamb\u00e9m; tive alguns vest\u00edgios disso. N\u00e3o obstante, n\u00e3o me deu resposta \u00e0 segunda carta. Ao voltar da Tijuca, vinha menos expansiva, acaso mais triste. Tive eu mesmo de lhe falar na mat\u00e9ria; a resposta foi que por ora, estava disposta a n\u00e3o casar.<\/p>\n<p>&#8212; Mas um dia &#8230;? perguntei depois de algum sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8212; Estarei velha.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent\u00e3o&#8230; ser\u00e1 muito tarde?<\/p>\n<p>&#8212; Meu marido pode n\u00e3o estar morto.<\/p>\n<p>Espantou-me esta obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas a senhora est\u00e1 de luto.<\/p>\n<p>&#8212; Tal foi a not\u00edcia que li e me deram; pode n\u00e3o ser exata. Tenho visto desmentir outras que se reputavam certas.<\/p>\n<p>&#8212; Quer certeza absoluta? perguntei. Eu posso d\u00e1-la.<\/p>\n<p>Maria Cora empalideceu. Certeza. Certeza de qu\u00ea? Queria que lhe contasse tudo, mas tudo. A situa\u00e7\u00e3o era t\u00e3o penosa para mim que n\u00e3o hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era inten\u00e7\u00e3o minha n\u00e3o lhe contar nada, como n\u00e3o contara a ningu\u00e9m, ia faz\u00ea-lo, unicamente para obedecer \u00e0 intima\u00e7\u00e3o. E referi o combate, as suas fases todas, os riscos, as palavras, finalmente a morte de Jo\u00e3o da Fonseca. A \u00e2nsia com que me ouviu foi grande, e n\u00e3o menor o abatimento final. Ainda assim, dominou-se, e perguntou-me:<\/p>\n<p>&#8212; Jura que me n\u00e3o est\u00e1 enganando?<\/p>\n<p>&#8212; Para que a enganar? O que tenho feito \u00e9 bastante para provar que sou sincero. Amanh\u00e3, trago-lhe outra prova, se \u00e9 preciso mais alguma.<\/p>\n<p>Levei-lhe os cabelos que cortara ao cad\u00e1ver. Contei-lhe, &#8212; e confesso que o meu fim foi irrit\u00e1-la contra a mem\u00f3ria do defunto, &#8212; contei-lhe o desespero da Prazeres. Descrevi essa mulher e as suas l\u00e1grimas. Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e perdidos; estava ainda com ci\u00fames. Quando lhe mostrei os cabelos do marido, atirou-se a eles, recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando&#8230; Entendi melhor sair e sair para sempre. Dias depois recebi a resposta \u00e0 minha carta; recusava casar.<\/p>\n<p>Na resposta havia uma palavra que \u00e9 a \u00fanica raz\u00e3o de escrever esta narrativa: &#8220;Compreende que eu n\u00e3o podia aceitar a m\u00e3o do homem que, embora lealmente, matou meu marido&#8221;. Comparei-a \u00e0quela outra que me dissera antes, quando eu me propunha sair a combate, mat\u00e1-lo e voltar: &#8220;N\u00e3o creio que ningu\u00e9m me ame com tal for\u00e7a&#8221;. E foi essa palavra que me levou \u00e0 guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda dizer uma missa por alma do marido, no anivers\u00e1rio do combate da Encruzilhada. Nunca mais a vi; e, cousa menos dif\u00edcil, nunca mais esqueci de dar corda ao rel\u00f3gio.<\/p>\n<h3>MARCHA F\u00daNEBRE<\/h3>\n<p>O DEPUTADO Cordovil n\u00e3o podia pregar olho uma noite de agosto de 186&#8230; Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do Imperador, e durante o baile n\u00e3o tivera o m\u00ednimo inc\u00f4modo moral nem f\u00edsico. Ao contr\u00e1rio, a noite foi excelente, t\u00e3o excelente que um inimigo seu, que padecia do cora\u00e7\u00e3o, faleceu antes das dez horas, e a not\u00edcia chegou ao Cassino pouco depois das onze.<\/p>\n<p>Naturalmente concluis que ele ficou alegre com a morte do homem, esp\u00e9cie de vingan\u00e7a que os cora\u00e7\u00f5es adversos e fracos tomam em falta de outra. Digo-te que concluis mal; n\u00e3o foi alegria, foi desabafo. A morte vinha de meses, era daquelas que n\u00e3o acabam mais, e moem, mordem, comem, trituram a pobre criatura humana. Cordovil sabia dos padecimentos do advers\u00e1rio. Alguns amigos, para o consolar de antigas inj\u00farias, iam contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a uma cadeira de bra\u00e7os, vivendo as noites horrivelmente, sem que as auroras lhe trouxessem esperan\u00e7as, nem as tardes desenganos. Cordovil pagava-lhes com alguma palavra de compaix\u00e3o, que o alvissareiro adotava, e repetia, e era mais sincera naquele que neste. Enfim acabara de padecer; da\u00ed o desabafo.<\/p>\n<p>Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em pol\u00edtica, n\u00e3o gostava do mal alheio. Quando rezava, ao levantar da cama: &#8220;Padre Nosso, que est\u00e1s no c\u00e9u, santificado seja o teu nome, venha a n\u00f3s o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no c\u00e9u, o p\u00e3o nosso de cada dia nos d\u00e1 hoje, perdoa as nossas d\u00edvidas, como n\u00f3s perdoamos aos nossos devedores&#8221;&#8230; n\u00e3o imitava um de seus amigos que rezava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, como dizia de l\u00edngua; esse chegava a cobrar al\u00e9m do que eles lhe deviam, isto \u00e9, se ouvia maldizer de algu\u00e9m, decorava tudo e mais alguma cousa e ia repeti-lo a outra parte. No dia seguinte, por\u00e9m, a bela ora\u00e7\u00e3o de Jesus tornava a sair dos l\u00e1bios da v\u00e9spera com a mesma caridade de of\u00edcio.<\/p>\n<p>Cordovil n\u00e3o ia nas \u00e1guas desse amigo; perdoava deveras. Que entrasse no perd\u00e3o um tantinho de pregui\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel, sem ali\u00e1s ser evidente. Pregui\u00e7a amamenta muita virtude. Sempre \u00e9 alguma cousa minguar for\u00e7a \u00e0 a\u00e7\u00e3o do mal. N\u00e3o esque\u00e7a que o deputado s\u00f3 gostava do mal alheio em pol\u00edtica, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto \u00e0 causa da inimizade, n\u00e3o a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.<\/p>\n<p>&#8212; Coitado! descansou, disse Cordovil.<\/p>\n<p>Conversaram da longa doen\u00e7a do finado . Tamb\u00e9m falaram das v\u00e1rias mortes deste mundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de C\u00e9sar, n\u00e3o por motivo do ferro, mas por inesperada e r\u00e1pida.<\/p>\n<p>&#8212; Tu quoque? perguntou-lhe um colega rindo.<\/p>\n<p>Ao que ele, apanhando a alus\u00e3o, replicou:<\/p>\n<p>&#8212; Eu, se tivesse um filho, quisera morrer \u00e0s m\u00e3os dele. O parric\u00eddio, estando fora do comum, faria a trag\u00e9dia mais tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com sono, e foi cochilando no carro, apesar do mal cal\u00e7ado das ruas. Perto de casa. sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes. Era o caso de um defunto, que duas pra\u00e7as de pol\u00edcia estavam levantando do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Assassinado? perguntou ele ao lacaio, que descera da almofada para saber o que era.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei, n\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>&#8212; Pergunta o que \u00e9.<\/p>\n<p>&#8212; Este mo\u00e7o sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido, que falava a outros.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o aproximou-se da portinhola, antes que o deputado recusasse ouvi-lo. Referiu-lhe ent\u00e3o em poucas palavras o acidente a que assistira.<\/p>\n<p>&#8212; V\u00ednhamos andando, ele adiante, eu atr\u00e1s. Parece que assobiava uma polca. Indo a atravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o passo, a modo que torceu o corpo, n\u00e3o sei bem, e caiu sem sentidos. Um doutor, que chegou logo, descendo de um sobradinho, examinou o homem e disse que &#8220;morreu de repente&#8221;. Foi-se juntando gente, a patrulha levou muito tempo a chegar. Agora pegou dele. Quer ver o defunto?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, obrigado. J\u00e1 se pode passar?<\/p>\n<p>&#8212; Pode.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigado. Vamos, Domingos.<\/p>\n<p>Domingos trepou \u00e0 almofada, o cocheiro tocou os animais, e o carro seguiu at\u00e9 \u00e0 Rua de S. Crist\u00f3v\u00e3o, onde morava Cordovil.<\/p>\n<p>Antes de chegar \u00e0 casa , Cordovil foi pensando na morte do desconhecido. Em si mesma, era boa; comparada \u00e0 do inimigo pessoal, excelente. Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que del\u00edcia passada ou em que esperan\u00e7a futura; revivia o que vivera, ou antevia o que podia viver, sen\u00e3o quando, a morte pegou da del\u00edcia ou da esperan\u00e7a, e l\u00e1 se foi o homem ao eterno repouso. Morreu sem dor, ou, se alguma teve, foi acaso brev\u00edssima, como um rel\u00e2mpago que deixa a escurid\u00e3o mais escura.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o p\u00f4s o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do Aterrado? N\u00e3o seria dan\u00e7ando; os seus quarenta anos n\u00e3o dan\u00e7avam. Podia at\u00e9 dizer que ele s\u00f3 dan\u00e7ou at\u00e9 aos vinte. N\u00e3o era dado a mo\u00e7as, tivera um afei\u00e7\u00e3o \u00fanica na vida, &#8212; aos vinte e cinco anos, casou e enviuvou ao cabo de cinco semanas para n\u00e3o casar mais. N\u00e3o \u00e9 que lhe faltassem noivas, &#8212; mormente depois de perder o av\u00f4, que lhe deixou duas fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver consigo, fez duas viagens \u00e0 Europa, continuou a pol\u00edtica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado de uma e de outra, mas n\u00e3o tendo em que matar o tempo, n\u00e3o abriu m\u00e3o delas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da Marinha, n\u00e3o passou de sete meses. Nem a pasta lhe deu gl\u00f3ria, nem a demiss\u00e3o desgosto. N\u00e3o era ambicioso, e mais puxava para a quieta\u00e7\u00e3o que para o movimento.<\/p>\n<p>Mas se lhe tivesse sucedido morrer de repente no Cassino, ante uma valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil comp\u00f4s de imagina\u00e7\u00e3o a cena, ele ca\u00eddo de bru\u00e7os ou de costas, o prazer turbado, a dan\u00e7a interrompida&#8230; e dali podia ser que n\u00e3o; um pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, a orquestra continuando por instantes a oposi\u00e7\u00e3o do compasso e da confus\u00e3o. N\u00e3o faltariam bra\u00e7os que o levassem para um gabinete, j\u00e1 morto, totalmente morto.<\/p>\n<p>&#8220;Tal qual a morte de C\u00e9sar&#8221;, ia dizendo consigo.<\/p>\n<p>E logo emendou:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o, melhor que ela; sem amea\u00e7a, nem armas, nem sangue, uma simples queda e o fim. N\u00e3o sentiria nada.&#8221;<\/p>\n<p>Cordovil deu consigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o terror e deixava a sensa\u00e7\u00e3o da liberdade. Em verdade, antes a morte assim que ap\u00f3s longos dias ou longos meses e anos, como o advers\u00e1rio que perdera algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto de chap\u00e9u, que se perdia no ar com a pr\u00f3pria m\u00e3o e a alma que lhe dera movimento. Um cochilo e o sono eterno. Achava-lhe um s\u00f3 defeito, &#8212; o aparato. Essa morte no meio de um baile defronte do Imperador, ao som de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas p\u00fablicas, essa morte pareceria de encomenda. Paci\u00eancia, uma vez que fosse repentina.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pensou que podia ser na C\u00e2mara, no dia seguinte, ao come\u00e7ar o debate do or\u00e7amento. Tinha a palavra; j\u00e1 andava cheio de algarismos e cita\u00e7\u00f5es. N\u00e3o quis imaginar o caso, n\u00e3o valia a pena; mas o caso teimou e apareceu de si mesmo. O sal\u00e3o da C\u00e2mara, em vez do do Cassino, sem damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto sil\u00eancio. Cordovil em p\u00e9 come\u00e7aria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o ministro e fitar o presidente: &#8220;Releve-me a C\u00e2mara que lhe tome algum tempo, serei breve, buscarei ser justo&#8230;&#8221; Aqui uma nuvem lhe taparia os olhos, a l\u00edngua pararia, o cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, e ele cairia de golpe no ch\u00e3o. C\u00e2mara, galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados correriam a ergu\u00ea-lo; um, que era m\u00e9dico, verificaria a morte; n\u00e3o diria que fora de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por outro estilo mais t\u00e9cnico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de algumas palavras do presidente e escolha da comiss\u00e3o que acompanharia o finado ao cemit\u00e9rio &#8230;<\/p>\n<p>Cordovil quis rir da circunst\u00e2ncia de imaginar al\u00e9m da morte, o movimento e o saimento, as pr\u00f3prias not\u00edcias dos jornais, que ele leu de cor e depressa. Quis rir, mas preferia cochilar; os olhos \u00e9 que, estando j\u00e1 perto de casa e da cama, n\u00e3o quiseram desperdi\u00e7ar o sono, e ficaram arregalados.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a morte, que ele imaginara pudesse ter sido no baile, antes de sair, ou no dia seguinte em plena sess\u00e3o da C\u00e2mara, apareceu ali mesmo no carro. Sup\u00f4s ele que, ao abrirem-lhe a portinhola, dessem com o seu cad\u00e1ver. Sairia assim de uma noite ruidosa para outra pac\u00edfica, sem conversas, nem dan\u00e7as, nem encontros, sem esp\u00e9cie alguma de luta ou resist\u00eancia. O estreme\u00e7\u00e3o que teve fez-lhe ver que n\u00e3o era verdade. Efetivamente, o carro entrou na ch\u00e1cara, estacou, e Domingos saltou da almofada para vir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com as pernas e a alma vivas, e entrou pela porta lateral, onde o aguardava com um casti\u00e7al e vela acesa o escravo Florindo. Subiu a escada, e os p\u00e9s sentiam que os degraus eram deste mundo; se fossem do outro, desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para a cama; era a mesma dos sonos quietos e demorados.<\/p>\n<p>&#8212; Veio algu\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, senhor, respondeu o escravo distra\u00eddo, mas corrigiu logo: Veio, sim, senhor; veio aquele doutor que almo\u00e7ou com meu senhor domingo passado.<\/p>\n<p>&#8212; Queria alguma cousa?<\/p>\n<p>&#8212; Disse que vinha dar a meu senhor uma boa not\u00edcia, e deixou este bilhete &#8212; que eu botei ao p\u00e9 da cama.<\/p>\n<p>O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos amigos que usavam contar-lhe a marcha da mol\u00e9stia. Quis ser o primeiro a anunciar o desenlace, um alegr\u00e3o, com um abra\u00e7o apertado. Enfim, morrera o patife. N\u00e3o disse a cousa assim por esses termos claros, mas os que empregou vinham a dar neles, acrescendo que n\u00e3o atribuiu esse \u00fanico objeto \u00e0 visita. Vinha passar a noite; s\u00f3 ali soube que Cordovil fora ao Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que lhe deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e ainda uma vez lhe doeu a agonia do outro. Fez um gesto de melancolia e exclamou a meia voz:<\/p>\n<p>&#8212; Coitado! Vivam as mortes s\u00fabitas!<\/p>\n<p>Florindo, se referisse o gesto e a frase ao doutor do bilhete, talvez o fizesse arrepender da canseira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor a preparar-se para dormir, ouviu as \u00faltimas ordens e despediu-se. Cordovil deitou-se.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! suspirou ele estirando o corpo cansado.<\/p>\n<p>Teve ent\u00e3o uma id\u00e9ia, a de amanhecer morto. Esta hip\u00f3tese, a melhor de todas, porque o apanharia meio morto, trouxe consigo mil fantasias que lhe arredaram o sono dos olhos. Em parte, era a repeti\u00e7\u00e3o das outras, a participa\u00e7\u00e3o \u00e0 C\u00e2mara, as palavras do presidente, comiss\u00e3o para o saimento, e o resto. Ouviu l\u00e1stimas de amigos e de f\u00e2mulos, viu not\u00edcias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar que era j\u00e1 sonho. N\u00e3o era. Chamou-se ao quarto, \u00e0 cama, a si mesmo: estava acordado.<\/p>\n<p>A lamparina deu melhor corpo \u00e0 realidade. Cordovil espancou as id\u00e9ias f\u00fanebres e esperou que as alegres tomassem conta dele e dan\u00e7assem at\u00e9 cans\u00e1-lo. Tentou vencer uma vis\u00e3o com outra. Fez at\u00e9 uma cousa engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a mem\u00f3ria de todos eles era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos longamente extintos. Gestos, cenas de sociedade e de fam\u00edlia, panoramas, repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto. Deixara de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse agora a mastig\u00e1-los. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados, cantos joviais e tristes, e palavra de todos os feitios. O tacto, o olfato, todos fizeram o seu of\u00edcio, durante um prazo que ele n\u00e3o calculou.<\/p>\n<p>Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. N\u00e3o p\u00f4de, nem do lado direito, nem do esquerdo, de costas nem de bru\u00e7os. Ergueu-se e foi ao rel\u00f3gio; eram tr\u00eas horas. Insensivelmente levou-o \u00e0 orelha a ver se estava parado; estava andando, dera-lhe corda. Sim, tinha tempo de dormir um bom sono; deitou-se, cobriu a cabe\u00e7a para n\u00e3o ver a luz.<\/p>\n<p>Ah! foi ent\u00e3o que o sono tentou entrar, calado e surdo, todo cautelas, como seria a morte, se quisesse lev\u00e1-lo de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com for\u00e7a, e fez mal, porque a for\u00e7a acentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e fez bem. O sono, que ia a recuar, tornou atr\u00e1s, e veio estirar-se ao lado deles, passando-lhe aqueles bra\u00e7os leves e pesados, a um tempo, que tiram \u00e0 pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quis concheg\u00e1-los ainda mais&#8230; A imagem n\u00e3o \u00e9 boa, mas n\u00e3o tenho outra \u00e0 m\u00e3o nem tempo de ir busc\u00e1-la. Digo s\u00f3 o resultado do gesto, que foi arredar o sono de si, t\u00e3o aborrecido ficou este reformador de cansados.<\/p>\n<p>&#8212; Que ter\u00e1 ele hoje contra mim? perguntaria o sono, se falasse.<\/p>\n<p>Tu sabes que ele \u00e9 mudo por ess\u00eancia. Quando parece que fala \u00e9 o sonho que abre a boca \u00e0 pessoa, ele n\u00e3o, ele \u00e9 a pedra, e ainda a pedra fala, se lhe batem, como est\u00e3o fazendo agora os calceteiros da minha rua. Cada pancada acorda na pedra um som, e a regularidade do gesto torna aquele som t\u00e3o pontual que parece a alma de um rel\u00f3gio. Vozes de conversa ou de preg\u00e3o, rodas de carro, passos de gente, uma janela batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ou\u00e7o, animava ent\u00e3o a rua e a noite de Cordovil. Tudo era prop\u00edcio ao sono.<\/p>\n<p>Cordovil ia finalmente dormir, quando a id\u00e9ia de amanhecer morto apareceu outra vez. O sono recuou e fugiu. Esta alternativa durou muito tempo. Sempre que o sono ia a grudar-lhe os olhos, a lembran\u00e7a da morte os abria, at\u00e9 que ele sacudiu o len\u00e7ol e saiu da cama. Abriu uma janela e encostou-se ao peitoril. O c\u00e9u queria clarear, alguns vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; n\u00e3o sabendo se era frio ou medo, foi vestir um camis\u00e3o de chita, e voltou para a janela. Parece que era frio, porque n\u00e3o sentia mais nada.<\/p>\n<p>A gente continuava a passar, o c\u00e9u a clarear, um assobio da estrada de ferro deu sinal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do descanso, o c\u00e9u fazia economia de estrelas, apagando-as \u00e0 medida que o sol ia chegando para o seu of\u00edcio. Tudo dava id\u00e9ia de vida. Naturalmente a id\u00e9ia da morte foi recuando e desapareceu de todo, enquanto o nosso homem, que suspirou por ela no Cassino, que a desejou para o dia seguinte na C\u00e2mara dos Deputados, que a encarou no carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrar com o sono, seu irm\u00e3o mais velho, &#8212; ou mais mo\u00e7o n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Quando veio a falecer, muitos anos depois, pediu e teve a morte, n\u00e3o s\u00fabita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sai impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria; para o cemit\u00e9rio. Agora \u00e9 que lhe via a filosofia; em ambas as garrafas era sempre o vinho que ia ficando, at\u00e9 passar inteiro e pingado para a segunda. Morte s\u00fabita n\u00e3o acabava de entender o que era.<\/p>\n<h3>UM CAPIT\u00c3O DE VOLUNT\u00c1RIOS<\/h3>\n<p>Indo a embarcar para a Europa, logo depois da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, Sim\u00e3o de Castro fez invent\u00e1rio das cartas e apontamentos; rasgou tudo. S\u00f3 lhe ficou a narra\u00e7\u00e3o que ides ler; entregou-a a um amigo para imprimi-la quando ele estivesse barra fora. O amigo n\u00e3o cumpriu a recomenda\u00e7\u00e3o por achar na hist\u00f3ria alguma cousa que podia ser penosa, e assim lho disse em carta. Sim\u00e3o respondeu que estava por tudo o que quisesse; n\u00e3o tendo vaidades liter\u00e1rias, pouco se lhe dava de vir ou n\u00e3o a p\u00fablico. Agora que os dous faleceram, e n\u00e3o h\u00e1 igual escr\u00fapulo, d\u00e1-se o manuscrito ao prelo. \u00c9ramos dous, elas duas. Os dous \u00edamos ali por visita, costume, desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei amigo do dono da casa, ele meu amigo. As tardes, sobre o jantar, &#8212; jantava-se cedo em 1866, &#8212; ia ali fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janela, onde se via um morro com casas em cima. A janela oposta dava para o mar. N\u00e3o digo a rua nem o bairro; a cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro. Ocultarei o nome do meu amigo, ponhamos uma letra, X&#8230; Ela, uma delas, chamava-se Maria.<\/p>\n<p>Quando eu entrava, j\u00e1 ele estava na cadeira de balan\u00e7o. Os m\u00f3veis da sala eram poucos, os ornatos raros, tudo simples. X&#8230; estendia-me a m\u00e3o larga e forte; eu ia sentar-me ao p\u00e9 da janela, olho na sala, olho na rua. Maria, ou j\u00e1 estava ou vinha de dentro. \u00c9ramos nada um para o outro; ligava-nos unicamente a afei\u00e7\u00e3o de X&#8230; Convers\u00e1vamos; eu sa\u00eda para casa ou ia passear, eles ficavam e iam dormir. Algumas vezes jog\u00e1vamos cartas, \u00e0s noites, e, para o fim do tempo, era ali que eu passava a maior parte destas.<\/p>\n<p>Tudo em X&#8230; me dominava. A figura primeiro. Ele robusto, eu franzino; a minha gra\u00e7a feminina, d\u00e9bil, desaparecia ao p\u00e9 do garbo varonil dele, dos seus ombros largos, cadeiras largas, jarrete forte e o p\u00e9 s\u00f3lido que, andando, batia rijo no ch\u00e3o. Dai-me um bigode escasso e fino; vede nele as su\u00ed\u00e7as longas, espessas e encaracoladas, e um dos seus gestos habituais, pensando ou escutando, era passar os dedos por elas, encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, n\u00e3o s\u00f3 por serem grandes e belos, mas porque riam mais e melhor que a boca. Depois da figura, a idade; X&#8230; era homem de quarenta anos, eu n\u00e3o passava dos vinte e quatro. Depois da idade, a vida; ele vivera muito, em outro meio, donde sa\u00edra a encafuar-se naquela casa, com aquela senhora, eu n\u00e3o vivera nada nem com pessoa alguma. Enfim, &#8212; e este rasgo \u00e9 capital, &#8212; havia nele uma fibra castelhana, uma gota do sangue que circula nas p\u00e1ginas de Calder\u00f3n, uma atitude moral que posso comparar, sem depress\u00e3o nem riso, \u00e0 do her\u00f3i de Cervantes.<\/p>\n<p>Como se tinham amado? Datava de longe. Maria contava j\u00e1 vinte e sete anos, e parecia haver recebido alguma educa\u00e7\u00e3o. Ouvi que o primeiro encontro fora em um baile de m\u00e1scaras, no antigo Teatro Provis\u00f3rio. Ela trajava uma saia curta, e dan\u00e7ava ao som de um pandeiro. Tinha os p\u00e9s admir\u00e1veis, e foram eles ou o seu destino a causa do amor de X&#8230; Nunca lhe perguntei a origem da alian\u00e7a; sei s\u00f3 que ela tinha uma filha, que estava no col\u00e9gio e n\u00e3o vinha \u00e0 casa; a m\u00e3e \u00e9 que ia v\u00ea-la. Verdadeiramente as nossas rela\u00e7\u00f5es eram respeitosas, e o respeito ia ao ponto de aceitar a situa\u00e7\u00e3o sem a examinar.<\/p>\n<p>Quando comecei a ir ali, n\u00e3o tinha ainda o emprego no banco. S\u00f3 dous ou tr\u00eas meses depois \u00e9 que entrei para este, e n\u00e3o interrompi as rela\u00e7\u00f5es. Maria tocava piano; \u00e0s vezes, ela e a amiga Raimunda conseguiam arrastar X&#8230; ao teatro; eu ia com eles. No fim, tom\u00e1vamos ch\u00e1 em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acab\u00e1vamos a noite indo de carro a Botafogo.<\/p>\n<p>A estas festas n\u00e3o ia Barreto, que s\u00f3 mais tarde come\u00e7ou a freq\u00fcentar a casa. Entretanto, era bom companheiro, alegre e rumoroso. Uma noite, como sa\u00edssemos de l\u00e1, encaminhou a conversa para as duas mulheres, e convidou-me a namor\u00e1-las.<\/p>\n<p>&#8212; Tu escolhes uma, Sim\u00e3o, eu outra.<\/p>\n<p>Estremeci e parei.<\/p>\n<p>&#8212; Ou antes, eu j\u00e1 escolhi, continuou ele, escolhi a Raimunda. Gosto muito da Raimunda. Tu, escolhe a outra.<\/p>\n<p>&#8212; A Maria?<\/p>\n<p>&#8212; Pois que outra h\u00e1 de ser?<\/p>\n<p>O alvoro\u00e7o que me deu este tentador foi tal que n\u00e3o achei palavra de recusa, nem palavra nem gesto. Tudo me pareceu natural e necess\u00e1rio. Sim, concordei em escolher Maria; era mais velha que eu tr\u00eas anos, mas tinha a idade conveniente para ensinar-me a amar. Est\u00e1 dito, Maria. Deitamo-nos \u00e0s duas conquistas com ardor e tenacidade. Barreto n\u00e3o tinha que vencer muito; a eleita dele n\u00e3o trazia amores, mas at\u00e9 pouco antes padecera de uns que rompera contra a vontade, indo o amante casar com uma mo\u00e7a de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia, estando eu a almo\u00e7ar, veio anunciar-me que recebera uma carta dela, e mostrou-ma.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e3o entendidos?<\/p>\n<p>&#8212; Estamos. E voc\u00eas?<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o quando?<\/p>\n<p>&#8212; Deixa ver, eu te digo.<\/p>\n<p>Naquele dia fiquei meio vexado. Com efeito, apesar da melhor vontade deste mundo, n\u00e3o me atrevia a dizer a Maria os meus sentimentos. N\u00e3o suponhas que era nenhuma paix\u00e3o. N\u00e3o tinha paix\u00e3o, mas curiosidade. Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida, sentia-me tomado de uma for\u00e7a nova e misteriosa; mas, por um lado, n\u00e3o amara nunca, e, por outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, n\u00e3o para explicar escr\u00fapulos, mas unicamente para fazer compreender o meu acanhamento. Viviam juntos desde alguns anos, um para o outro. X&#8230; tinha confian\u00e7a em mim, confian\u00e7a absoluta, comunicava-me os seus neg\u00f3cios, contava-me cousas da vida passada. Apesar da despropor\u00e7\u00e3o da idade, \u00e9ramos como estudantes do mesmo ano.<\/p>\n<p>Como entrasse a pensar mais constantemente em Maria, \u00e9 prov\u00e1vel que por algum gesto lhe houvesse descoberto o meu recente estado, certo \u00e9 que, um dia, ao apertar-lhe a m\u00e3o, senti que os dedos dela se demoravam mais entre os meus. Dous dias depois, indo ao correio, encontrei-a selando uma carta para a Bahia. Ainda n\u00e3o disse que era baiana? Era baiana. Ela \u00e9 que me viu primeiro e me falou. Ajudei-lhe a p\u00f4r o selo e despedimo-nos. \u00c0 porta ia a dizer alguma cousa, quando vi ante n\u00f3s, parada, a figura de X&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Vim trazer a carta para mam\u00e3e, apressou-se ela em dizer.<\/p>\n<p>Despediu-se de n\u00f3s e foi para casa; ele e eu tomamos outro rumo. X&#8230; aproveitou a ocasi\u00e3o para fazer muitos elogios de Maria. Sem entrar em minud\u00eancias acerca da origem das rela\u00e7\u00f5es, assegurou-me que fora uma grande paix\u00e3o igual em ambos, e concluiu que tinha a vida feita.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 agora n\u00e3o me caso; vivo maritalmente com ela, morrerei com ela. Tenho uma s\u00f3 pena, \u00e9 ser obrigado a viver separado de minha m\u00e3e. Minha m\u00e3e sabe, disse-me ele parando. E continuou andando: sabe, e at\u00e9 j\u00e1 me fez uma alus\u00e3o muito vaga e remota, mas que eu percebi. Consta-me que n\u00e3o desaprova; sabe que Maria \u00e9 s\u00e9ria e boa, e uma vez que eu seja feliz, n\u00e3o exige mais nada. O casamento n\u00e3o me daria mais que isto&#8230;<\/p>\n<p>Disse muitas outras cousas, que eu fui ouvindo sem saber de mim; o cora\u00e7\u00e3o batia-me rijo, e as pernas andavam frouxas. N\u00e3o atinava com resposta id\u00f4nea; alguma palavra que soltava, sa\u00eda-me engasgada. Ao cabo de algum tempo, ele notou o meu estado e interpretou-o erradamente; sup\u00f4s que as suas confid\u00eancias me aborreciam, e disse-mo rindo. Contestei s\u00e9rio:<\/p>\n<p>&#8212; Ao contr\u00e1rio, ou\u00e7o com interesse, e trata-se de pessoas de toda a considera\u00e7\u00e3o e respeito.<\/p>\n<p>Penso agora que cedia inconscientemente a uma necessidade de hipocrisia. A idade das paix\u00f5es \u00e9 confusa, e naquela situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o posso discernir bem os sentimentos e suas causas. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 fora de prop\u00f3sito que buscasse dissipar no \u00e2nimo de X&#8230; qualquer poss\u00edvel desconfian\u00e7a. A verdade \u00e9 que ele me ouviu agradecido. Os seus grandes olhos de crian\u00e7a envolveram-me todo, e quando nos despedimos, apertou-me a m\u00e3o com energia. Creio at\u00e9 que lhe ouvi dizer: &#8220;Obrigado!&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o me separei dele aterrado, nem ferido de remorsos pr\u00e9vios. A primeira impress\u00e3o da confid\u00eancia esvaiu-se, ficou s\u00f3 a confid\u00eancia, e senti crescer-me o alvoro\u00e7o da curiosidade. X&#8230; falara-me de Maria como de pessoa casta e conjugal; nenhuma alus\u00e3o \u00e0s suas prendas f\u00edsicas, mas a minha idade dispensava qualquer refer\u00eancia direta. Agora, na rua, via de cor a figura da mo\u00e7a, os seus gestos igualmente l\u00e2nguidos e robustos, e cada vez me sentia mais fora de mim. Em casa escrevi-lhe uma carta longa e difusa, que rasguei meia hora depois, e fui jantar. Sobre o jantar fui \u00e0 casa de X&#8230;<\/p>\n<p>Eram ave-marias. Ele estava na cadeira de balan\u00e7o, eu sentei-me no lugar do costume, olho na sala, olho no morro. Maria apareceu tarde, depois das horas, e t\u00e3o anojada que n\u00e3o tomou parte na conversa\u00e7\u00e3o. Sentou-se e cochilou; depois tocou um pouco de piano e saiu da sala.<\/p>\n<p>&#8212; Maria acordou hoje com a mania de colher donativos para a guerra, disse-me ele. J\u00e1 lhe fiz notar que nem todos querer\u00e3o parecer que&#8230; Voc\u00ea sabe&#8230; A posi\u00e7\u00e3o dela&#8230; Felizmente, a id\u00e9ia h\u00e1 de passar; tem dessas fantasias&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Ora, porque n\u00e3o! E depois, a guerra do Paraguai, n\u00e3o digo que n\u00e3o seja como todas as guerras, mas, palavra, n\u00e3o me entusiasma. A princ\u00edpio, sim, quando o L\u00f3pez tomou o Marqu\u00eas de Olinda, fiquei indignado; logo depois perdi a impress\u00e3o, e agora, francamente, acho que t\u00ednhamos feito muito melhor se nos ali\u00e1ssemos ao L\u00f3pez contra os argentinos.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o. Prefiro os argentinos.<\/p>\n<p>&#8212; Tamb\u00e9m gosto deles, mas, no interesse da nossa gente, era melhor ficar com o L\u00f3pez.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o; olhe, eu estive quase a alistar-me como volunt\u00e1rio da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>&#8212; Eu, nem que me fizessem coronel, n\u00e3o me alistava.<\/p>\n<p>Ele disse n\u00e3o sei que mais. Eu, como tinha a orelha afiada, \u00e0 escuta dos p\u00e9s de Maria, n\u00e3o respondi logo, nem claro, nem seguido; fui engrolando alguma palavra e sempre \u00e0 escuta. Mas o diabo da mo\u00e7a n\u00e3o vinha; imaginei que estariam arrufados. Enfim, propus cartas, pod\u00edamos jogar uma partida de voltarete.<\/p>\n<p>&#8212; Podemos, disse ele.<\/p>\n<p>Passamos ao gabinete. X&#8230; p\u00f4s as cartas na mesa e foi chamar a amiga. Dali ouvi algumas frases sussurradas, mas s\u00f3 estas me chegaram claras:<\/p>\n<p>&#8212; Vem! \u00e9 s\u00f3 meia hora.<\/p>\n<p>&#8212; Que ma\u00e7ada! Estou doente.<\/p>\n<p>Maria apareceu no gabinete, bocejando. Disse-me que era s\u00f3 meia hora; tinha dormido mal, do\u00eda-lhe a cabe\u00e7a e contava deitar-se cedo. Sentou-se enfastiada, e come\u00e7amos a partida. Eu arrependia-me de haver rasgado a carta; lembrava-me alguns trechos dela, que diriam bem o meu estado, com o calor necess\u00e1rio a persuadi-la. Se a tenho conservado, entregava-lhe agora; ela ia muita vez ao patamar da escada despedir-se de mim e fechar a cancela. Nessa ocasi\u00e3o podia dar-lha; era uma solu\u00e7\u00e3o da minha crise.<\/p>\n<p>Ao cabo de alguns minutos, X&#8230; levantou-se para ir buscar tabaco de uma caixa de folha-de-flandres, posta sobre a secret\u00e1ria. Maria fez ent\u00e3o um gesto que n\u00e3o sei como diga nem pinte. Ergueu as cartas \u00e0 altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe ficava \u00e0 esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e atra\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o sei como n\u00e3o entrei por eles. Tudo foi r\u00e1pido. Quando ele voltou fazendo um cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque, fitando-as como se calculasse. Eu devia estar tr\u00eamulo; n\u00e3o obstante, calculava tamb\u00e9m, com a diferen\u00e7a de n\u00e3o poder falar. Ela disse ent\u00e3o com placidez uma das palavras do jogo, passo ou licen\u00e7a.<\/p>\n<p>Jogamos cerca de uma hora. Maria, para o fim, cochilava literalmente, e foi o pr\u00f3prio X&#8230; que lhe disse que era melhor ir descansar. Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o chap\u00e9u e a bengala. Maria, \u00e0 porta da sala, esperava que eu sa\u00edsse e acompanhou-me at\u00e9 \u00e0 cancela, para fech\u00e1-la. Antes que eu descesse, lan\u00e7ou-me um dos bra\u00e7os ao pesco\u00e7o, chegou-me a si, colou-me os l\u00e1bios nos l\u00e1bios, onde eles me depositaram um beijo grande, r\u00e1pido e surdo. Na m\u00e3o senti alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8212; Boa noite, disse Maria fechando a cancela.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como n\u00e3o ca\u00ed. Desci atordoado, com o beijo na boca, os olhos nos dela, e a m\u00e3o apertando instintivamente um objeto. Cuidei de me p\u00f4r longe. Na primeira rua, corri a um lampi\u00e3o, para ver o que trazia. Era um cart\u00e3o de loja de fazendas, um an\u00fancio, com isto escrito nas costas, a l\u00e1pis: &#8220;Espere-me amanh\u00e3, na ponte das barcas de Niter\u00f3i, a uma hora da tarde&#8221;.<\/p>\n<p>O meu alvoro\u00e7o foi tamanho que durante os primeiros minutos n\u00e3o soube absolutamente o que fiz. Em verdade, as emo\u00e7\u00f5es eram demasiado grandes e numerosas, e t\u00e3o de perto seguidas que eu mal podia saber de mim. Andei at\u00e9 ao Largo de S. Francisco de Paula. Tornei a ler o cart\u00e3o; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava perto talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a respeito da como\u00e7\u00e3o, tinha fome e fui cear ao Hotel dos Pr\u00edncipes. N\u00e3o dormi antes da madrugada; \u00e0s seis horas estava em p\u00e9. A manh\u00e3 foi lenta como as agonias lentas. Dez minutos antes de uma hora cheguei \u00e0 ponte; j\u00e1 l\u00e1 achei Maria, envolvida numa capa, e com um v\u00e9u azul no rosto. Ia sair uma barca, entramos nela.<\/p>\n<p>O mar acolheu-nos bem. A hora era de poucos passageiros. Havia movimento de lanchas, de aves, e o c\u00e9u luminoso parecia cantar a nossa primeira entrevista. O que dissemos foi t\u00e3o de atropelo e confus\u00e3o que n\u00e3o me ficou mais de meia d\u00fazia de palavras, e delas nenhuma foi o nome de X&#8230; ou qualquer refer\u00eancia a ele. Sent\u00edamos ambos que tra\u00edamos eu o meu amigo, ela o seu amigo e protetor. Mas, ainda que o n\u00e3o sent\u00edssemos, n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que fal\u00e1ssemos dele, t\u00e3o pouco era o tempo para o nosso infinito. Maria apareceu-me ent\u00e3o como nunca a vi nem suspeitara falando de mim e de si, com a ternura poss\u00edvel naquele lugar p\u00fablico, mas toda a poss\u00edvel, n\u00e3o menos. As nossas m\u00e3os colavam-se, os nossos olhos comiam-se e os cora\u00e7\u00f5es batiam provavelmente ao mesmo compasso r\u00e1pido e r\u00e1pido. Pelo menos foi a sensa\u00e7\u00e3o com que me separei dela, ap\u00f3s a viagem redonda a Niter\u00f3i e S. Domingos. Convidei-a a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou; na volta, lembrei-lhe que nos met\u00eassemos numa cale\u00e7a fechada: &#8220;Que id\u00e9ia faria de mim?&#8221; perguntou-me com gesto de pudor que a transfigurou. E despedimo-nos com prazo dado, jurando-lhe que eu n\u00e3o deixaria de ir v\u00ea-los, \u00e0 noite, como de costume.<\/p>\n<p>Como eu n\u00e3o tomei da pena para narrar a minha felicidade, deixo a parte deliciosa da aventura, com as suas entrevistas, cartas e palavras, e mais os sonhos e esperan\u00e7as, as infinitas saudades e os renascentes desejos. Tais aventuras s\u00e3o como os almanaques, que, com todas as suas mudan\u00e7as, h\u00e3o de trazer os mesmos dias e meses, com os seus eternos nomes e santos. O nosso almanaque apenas durou um trimestre, sem quartos minguantes nem ocasos de sol. Maria era um modelo de gra\u00e7as finas, toda vida, toda movimento. Era baiana, como disse, fora educada no Rio Grande do Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando lhe falei do seu primeiro encontro com X&#8230; no Teatro Provis\u00f3rio, dan\u00e7ando ao som de um pandeiro, disse-me que era verdade, fora ali vestida \u00e0 castelhana e de m\u00e1scara; e, como eu lhe pedisse a mesma cousa, menos a m\u00e1scara, ou um simples lundu nosso, respondeu-me como quem recusa um perigo:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea poderia ficar doudo.<\/p>\n<p>&#8212; Mas X&#8230; n\u00e3o ficou doudo.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda hoje n\u00e3o est\u00e1 no seu ju\u00edzo, replicou Maria rindo. Imagina que eu fazia isto s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>E em p\u00e9, num maneio r\u00e1pido, deu uma volta ao corpo, que me fez ferver o sangue.<\/p>\n<p>O trimestre acabou depressa, como os trimestres daquela casta. Maria faltou um dia \u00e0 entrevista. Era t\u00e3o pontual que fiquei tonto quando vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos; depois vinte, depois trinta, depois quarenta&#8230; N\u00e3o digo as vezes que andei de um lado para outro, na sala, no corredor, \u00e0 espreita e \u00e0 escuta, at\u00e9 que de todo passou a possibilidade de vir. Poupo a not\u00edcia do meu desespero, o tempo que rolei no ch\u00e3o, falando, gritando ou chorando. Quando cansei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse tamb\u00e9m, explicando a falta. N\u00e3o mandei a carta, e \u00e0 noite fui \u00e0 casa deles.<\/p>\n<p>Maria p\u00f4de explicar-me a falta pelo receio de ser vista e acompanhada por algu\u00e9m que a perseguia desde algum tempo. Com efeito, haviam-me j\u00e1 falado em n\u00e3o sei que vizinho que a cortejava com inst\u00e2ncia; uma vez disse-me que ele a seguira at\u00e9 \u00e0 porta da minha casa. Acreditei na raz\u00e3o, e propus-lhe outro lugar de encontro, mas n\u00e3o lhe pareceu conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas entrevistas, at\u00e9 fazer calar as suspeitas. N\u00e3o sairia de casa. N\u00e3o compreendi ent\u00e3o que a principal verdade era ter cessado nela o ardor dos primeiros dias. Maria era outra, principalmente outra. E n\u00e3o podes imaginar o que vinha a ser essa bela criatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era mais quente e mais fria que ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Quando me entrou a convic\u00e7\u00e3o de que tudo estava acabado, resolvi n\u00e3o voltar l\u00e1, mas nem por isso perdia a esperan\u00e7a; era para mim quest\u00e3o de esfor\u00e7o. A imagina\u00e7\u00e3o, que torna presentes os dias passados, fazia-me crer facilmente na possibilidade de restaurar as primeiras semanas. Ao cabo de cinco dias, voltei; n\u00e3o podia viver sem ela.<\/p>\n<p>X&#8230; recebeu-me com o seu grande riso infante, os olhos puros, a m\u00e3o forte e sincera; perguntou a raz\u00e3o da minha aus\u00eancia. Aleguei uma febrezinha, e, para explicar o enfadamento que eu n\u00e3o podia vencer, disse que ainda me do\u00eda a cabe\u00e7a. Maria compreendeu tudo; nem por isso se mostrou meiga ou compassiva, e, \u00e0 minha sa\u00edda, n\u00e3o foi at\u00e9 ao corredor, como de costume.<\/p>\n<p>Tudo isto dobrou a minha ang\u00fastia. A id\u00e9ia de morrer entrou a passar-me pela cabe\u00e7a; e, por uma simetria rom\u00e2ntica, pensei em meter-me na barca de Niter\u00f3i, que primeiro acolheu os nossos amores, e, no meio da ba\u00eda, atirar-me ao mar. N\u00e3o iniciei tal plano nem outro. Tendo encontrado casualmente o meu amigo Barreto, n\u00e3o vacilei em lhe dizer tudo; precisava de algu\u00e9m para falar comigo mesmo. No fim pedi-lhe segredo; devia pedir-lhe especialmente que n\u00e3o contasse nada a Raimunda. Nessa mesma noite ela soube tudo. Raimunda era um esp\u00edrito aventureiro, amigo de entrepresas e novidades. N\u00e3o se lhe dava, talvez, de mim nem da outra, mas viu naquilo um lance, uma ocupa\u00e7\u00e3o, e cuidou em reconciliar-nos; foi o que eu soube depois, e \u00e9 o que d\u00e1 lugar a este papel.<\/p>\n<p>Falou-lhe uma e mais vezes. Maria quis negar a princ\u00edpio, acabou confessando tudo, dizendo-se arrependida da cabe\u00e7ada que dera. Usaria provavelmente de circunl\u00f3quios e sin\u00f4nimos, frases vagas e truncadas, alguma vez empregaria s\u00f3 gestos. O texto que a\u00ed fica \u00e9 o da pr\u00f3pria Raimunda, que me mandou chamar \u00e0 casa dela e me referiu todos os seus esfor\u00e7os, contente de si mesma.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n\u00e3o perca as esperan\u00e7as, concluiu; eu disse-lhe que o senhor era capaz de matar-se.<\/p>\n<p>&#8212; E sou.<\/p>\n<p>&#8212; Pois n\u00e3o se mate por ora; espere.<\/p>\n<p>No dia seguinte vi nos jornais uma lista de cidad\u00e3os que, na v\u00e9spera tinham ido ao quartel-general apresentar-se como volunt\u00e1rios da p\u00e1tria, e nela o nome de X&#8230;, com o posto de capit\u00e3o. N\u00e3o acreditei logo; mas eram os mesmos, na mesma ordem, e uma das folhas fazia refer\u00eancias \u00e0 fam\u00edlia de X&#8230;, ao pai, que fora oficial de marinha, e \u00e0 figura esbelta e varonil do novo capit\u00e3o; era ele mesmo.<\/p>\n<p>A minha primeira impress\u00e3o foi de prazer; \u00edamos ficar s\u00f3s. Ela n\u00e3o iria de vivandeira para o Sul. Depois, lembrou-me o que ele me disse acerca da guerra, e achei estranho o seu alistamento de volunt\u00e1rio, ainda que o amor dos atos generosos e a nota cavalheiresca do esp\u00edrito de X&#8230; pudessem explic\u00e1-lo. Nem de coronel iria, disse-me, e agora aceitava o posto de capit\u00e3o. Enfim, Maria; como \u00e9 que ele, que tanto lhe queria, ia separar-se dela repentinamente, sem paix\u00e3o forte que o levasse \u00e0 guerra?<\/p>\n<p>Havia tr\u00eas semanas que eu n\u00e3o ia \u00e0 casa deles. A not\u00edcia do alistamento justificava a minha visita imediata e dispensava-me de explica\u00e7\u00f5es. Almocei e fui. Compus um rosto ajustado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o e entrei. X&#8230; veio \u00e0 sala, depois de alguns minutos de espera. A cara desdizia das palavras; estas queriam ser alegres e leves, aquela era fechada e torva, al\u00e9m de p\u00e1lida. Estendeu-me a m\u00e3o, dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, vem ver o capit\u00e3o de volunt\u00e1rios?<\/p>\n<p>&#8212; Venho ouvir o desmentido.<\/p>\n<p>&#8212; Que desmentido? \u00c9 pura verdade. N\u00e3o sei como isto foi, creio que as \u00faltimas not\u00edcias&#8230; Voc\u00ea por que n\u00e3o vem comigo?<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s alguns instantes de sil\u00eancio, meio sincero, por n\u00e3o saber realmente que dissesse, meio calculado, para persuadi-lo da minha consterna\u00e7\u00e3o, murmurei que era melhor n\u00e3o ir, e falei-lhe na m\u00e3e. X&#8230; respondeu-me que a m\u00e3e aprovava; era vi\u00fava de militar. Fazia esfor\u00e7os para sorrir, mas a cara continuava a ser de pedra. Os olhos buscavam desviar-se, e geralmente n\u00e3o fitavam bem nem longo. N\u00e3o conversamos muito; ele ergueu-se, alegando que ia liquidar um neg\u00f3cio, e pediu-me que voltasse a v\u00ea-lo. \u00c0 porta, disse-me com algum esfor\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8212; Venha jantar um dia destes, antes da minha partida.<\/p>\n<p>&#8212; Sim.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, venha jantar amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8212; Amanh\u00e3?<\/p>\n<p>&#8212; Ou hoje, se quiser<\/p>\n<p>&#8212; Amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Quis deixar lembran\u00e7as a Maria; era natural e necess\u00e1rio, mas faltou-me o \u00e2nimo. Embaixo arrependi-me de o n\u00e3o ter feito. Recapitulei a conversa\u00e7\u00e3o, achei-me atado e incerto; ele pareceu-me, al\u00e9m de frio, sobranceiro. Vagamente, senti alguma cousa mais. O seu aperto de m\u00e3o tanto \u00e0 entrada, como \u00e0 sa\u00edda, n\u00e3o me dera a sensa\u00e7\u00e3o do costume.<\/p>\n<p>Na noite desse dia. Barreto veio ter comigo, atordoado com a not\u00edcia da manh\u00e3, e perguntando-me o que sabia; disse-lhe que nada. Contei-lhe a minha visita da manh\u00e3, a nossa conversa\u00e7\u00e3o, sem as minhas suspeitas.<\/p>\n<p>&#8212; Pode ser engano, disse ele, depois de um instante<\/p>\n<p>&#8212; Engano?<\/p>\n<p>&#8212; Raimunda contou-me hoje que falara a Maria, que esta negara tudo a princ\u00edpio, depois confessara, e recusara reatar as rela\u00e7\u00f5es com voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 sei.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, mas parece que da terceira vez foram pressentidas e ouvidas por ele, que estava na saleta ao p\u00e9. Maria correu a contar a Raimunda que ele mudara inteiramente; esta disp\u00f4s-se a sond\u00e1-lo, eu opus-me, at\u00e9 que li a not\u00edcia nos jornais. Vi-o na rua, andando: n\u00e3o tinha aquele gesto sereno de costume, mas o passo era forte.<\/p>\n<p>Fiquei aturdido com a not\u00edcia, que confirmava a minha impress\u00e3o. Nem por isso deixei de ir l\u00e1 jantar no dia seguinte. Barreto quis ir tamb\u00e9m; percebi que era com o fim \u00fanico de estar comigo, e recusei.<\/p>\n<p>X&#8230; n\u00e3o dissera nada a Maria; achei-os na sala, e n\u00e3o me lembro de outra situa\u00e7\u00e3o na vida em que me sentisse mais estranho a mim mesmo. Apertei-lhes a m\u00e3o, sem olhar para ela. Creio que ela tamb\u00e9m desviou os olhos. Ele \u00e9 que, com certeza, n\u00e3o nos observou; riscava um f\u00f3sforo e acendia um cigarro. Ao jantar falou o mais naturalmente que p\u00f4de, ainda que frio. O rosto exprimia maior esfor\u00e7o que na v\u00e9spera. Para explicar a poss\u00edvel altera\u00e7\u00e3o, disse-me que embarcaria no fim da semana, e que, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a hora ia chegando, sentia dificuldade em sair.<\/p>\n<p>&#8211;Mas \u00e9 s\u00f3 at\u00e9 fora da barra; l\u00e1 fora torno a ser o que sou, e na campanha, serei o que devo ser.<\/p>\n<p>Usava dessas palavras r\u00edgidas, alguma vez enf\u00e1ticas. Notei que Maria trazia os olhos pisados, soube depois que chorara muito e tivera grande luta com ele, na v\u00e9spera, para que n\u00e3o embarcasse. S\u00f3 conhecera a resolu\u00e7\u00e3o pelos jornais, prova de alguma cousa mais particular que o patriotismo. N\u00e3o falou \u00e0 mesa, e a dor podia explicar o sil\u00eancio, sem nenhuma outra causa de constrangimento pessoal. Ao contr\u00e1rio, X&#8230; procurava falar muito, contava os batalh\u00f5es, os oficiais novos, as probabilidades de vit\u00f3ria, e referia anedotas e boatos, sem curar de liga\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, queria rir; para o fim, disse que naturalmente voltaria general, mas ficou t\u00e3o carrancudo depois deste gracejo, que n\u00e3o tentou outro. O jantar acabou frio; fumamos, ele ainda quis falar da guerra, mas o assunto estava exausto. Antes de sair, convidei-o a ir jantar comigo.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o posso; todos os meus dias est\u00e3o tomados.<\/p>\n<p>&#8211;Venha almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m n\u00e3o posso. Fa\u00e7o uma cousa; na volta do Paraguai, o terceiro dia \u00e9 seu.<\/p>\n<p>Creio ainda hoje que o fim desta \u00faltima frase era indicar que os dous primeiros dias seriam da m\u00e3e e de Maria; assim, qualquer suspeita que eu tivesse dos motivos secretos da resolu\u00e7\u00e3o, devia dissipar-se. Nem bastou isso; disse-me que escolhesse uma prenda em lembran\u00e7a, um livro, por exemplo. Preferi o seu \u00faltimo retrato, fotografado a pedido da m\u00e3e, com a farda de capit\u00e3o de volunt\u00e1rios. Por dissimula\u00e7\u00e3o, quis que assinasse; ele prontamente escreveu: &#8220;Ao seu leal amigo Sim\u00e3o de Castro oferece o capit\u00e3o de volunt\u00e1rios da p\u00e1tria X&#8230;&#8221; O m\u00e1rmore do rosto era mais duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo bigode, com um gesto convulso, e despedimo-nos.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado embarcou. Deixou a Maria os recursos necess\u00e1rios para viver aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do Sul; ela preferiu o Rio Grande, e partiu para l\u00e1, tr\u00eas semanas depois, a esperar que ele voltasse da guerra. N\u00e3o a pude ver antes; fechara-me a porta, como j\u00e1 me havia fechado o rosto e o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de um ano, soube-se que ele morrera em combate, no qual se houve com mais denodo que per\u00edcia. Ouvi contar que primeiro perdera um bra\u00e7o, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado o fez atirar-se contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta vers\u00e3o podia ser exata, porque ele tinha desvanecimentos das belas formas; mas a causa foi complexa. Tamb\u00e9m me contaram que Maria, voltando do Rio Grande, morreu em Curitiba; outros dizem que foi acabar em Montevid\u00e9u. A filha n\u00e3o passou dos quinze anos.<\/p>\n<p>Eu c\u00e1 fiquei entre os meus remorsos e saudades; depois, s\u00f3 remorsos; agora admira\u00e7\u00e3o apenas, uma admira\u00e7\u00e3o particular, que n\u00e3o \u00e9 grande sen\u00e3o por me fazer sentir pequeno. Sim, eu n\u00e3o era capaz de praticar o que ele praticou. Nem efetivamente conheci ningu\u00e9m que se parecesse com X&#8230; E por que teimar nesta letra? Chamemo-lo pelo nome que lhe deram na pia, Em\u00edlio, o meigo, o forte, o simples Em\u00edlio.<\/p>\n<h3>SUJE-SE, GORDO!<\/h3>\n<p>UMA NOITE, h\u00e1 muitos anos, passeava eu com um amigo no terra\u00e7o do Teatro de S. Pedro de Alc\u00e2ntara. Era entre o segundo e o terceiro ato da pe\u00e7a A Senten\u00e7a ou o Tribunal do J\u00fari. S\u00f3 me ficou o t\u00edtulo, e foi justamente o t\u00edtulo que nos levou a falar da institui\u00e7\u00e3o e de um fato que nunca mais me esqueceu.<\/p>\n<p>&#8212; Fui sempre contr\u00e1rio ao j\u00fari,&#8211; disse-me aquele amigo, n\u00e3o pela institui\u00e7\u00e3o em si, que \u00e9 liberal, mas porque me repugna condenar algu\u00e9m, e por aquele preceito do Evangelho; &#8220;N\u00e3o queirais julgar para que n\u00e3o sejais julgados&#8221;. N\u00e3o obstante, servi duas vezes. O tribunal era ent\u00e3o no antigo Aljube, fim da Rua dos Ourives, princ\u00edpio da Ladeira da Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal era o meu escr\u00fapulo que, salvo dous, absolvi todos os r\u00e9us. Com efeito, os crimes n\u00e3o me pareceram provados; um ou dous processos eram mal feitos. O primeiro r\u00e9u que condenei, era um mo\u00e7o limpo, acusado de haver furtado certa quantia, n\u00e3o grande, antes pequena, com falsifica\u00e7\u00e3o de um papel. N\u00e3o negou o fato, nem podia faz\u00ea-lo, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspira\u00e7\u00e3o do crime. Algu\u00e9m, que n\u00e3o citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os cora\u00e7\u00f5es, daria ao criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem \u00eanfase, triste, a palavra surda. os olhos mortos, com tal palidez que metia pena; o promotor p\u00fablico achou nessa mesma cor do gesto a confiss\u00e3o do crime. Ao contr\u00e1rio, o defensor mostrou que o abatimento e a palidez significavam a l\u00e1stima da inoc\u00eancia caluniada.<\/p>\n<p>Poucas vezes terei assistido a debate t\u00e3o brilhante. O discurso do promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia \u00f3dio, e n\u00e3o era. A defesa, al\u00e9m do talento do advogado, tinha a circunst\u00e2ncia de ser a estr\u00e9ia dele na tribuna. Parentes, colegas e amigos esperavam o primeiro discurso do rapaz, e n\u00e3o perderam na espera. O discurso foi admir\u00e1vel, e teria salvo o r\u00e9u, se ele pudesse ser salvo, mas o crime metia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous anos depois, em 1865. Quem sabe o que se perdeu nele! Eu, acredite, quando vejo morrer um mo\u00e7o de talento, sinto mais que quando morre um velho&#8230; Mas vamos ao que ia contando. Houve r\u00e9plica do promotor e tr\u00e9plica do defensor. O presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram entregues ao presidente do Conselho, que era eu.<\/p>\n<p>Um dos jurados do Conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais que l\u00e1 se passou, n\u00e3o interessa ao caso particular, que era melhor ficasse tamb\u00e9m calado, confesso. Cantarei depressa; o terceiro ato n\u00e3o tarda.<\/p>\n<p>Um dos jurados do Conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais que ningu\u00e9m convencido do delito e do delinq\u00fcente. O processo foi examinado, os quesitos lidos&#8217; e as respostas dadas (onze votos contra um); s\u00f3 o jurado ruivo estava inquieto. No fim&#8217; como os votos assegurassem a condena\u00e7\u00e3o, ficou satisfeito, disse que seria um ato de fraqueza, ou cousa pior, a absolvi\u00e7\u00e3o que lhe d\u00e9ssemos. Um dos jurados, certamente o que votara pela negativa,&#8211; proferiu algumas palavras de defesa do mo\u00e7o. O ruivo,&#8211; chamava-se Lopes,&#8211; replicou com aborrecimento:<\/p>\n<p>&#8212; Como, senhor? Mas o crime do r\u00e9u est\u00e1 mais que provado.<\/p>\n<p>&#8212; Deixemos de debate, disse eu, e todos concordaram comigo.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o estou debatendo, estou defendendo o meu voto&#8217; continuou Lopes. O crime est\u00e1 mais que provado.<br \/>\nO sujeito nega, porque todo o r\u00e9u nega, mas o certo \u00e9 que ele cometeu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma mis\u00e9ria&#8217; duzentos mil-r\u00e9is! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!<\/p>\n<p>&#8220;Suje-se gordo!&#8221; Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, n\u00e3o que entendesse a frase, ao contr\u00e1rio, nem a entendi nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati \u00e0 porta, abriram-nos, fui \u00e0 mesa do juiz, dei as respostas do Conselho e o r\u00e9u saiu condenado. O advogado apelou; se a senten\u00e7a foi confirmada ou a apela\u00e7\u00e3o aceita, n\u00e3o sei; perdi o neg\u00f3cio de vista.<\/p>\n<p>Quando sa\u00ed do tribunal, vim pensando na frase do Lopes, e pareceu-me entend\u00ea-la. &#8220;Suje-se gordo!&#8221; era como se dissesse que o condenado era mais que ladr\u00e3o, era um ladr\u00e3o reles, um ladr\u00e3o de nada. Achei esta explica\u00e7\u00e3o na esquina da Rua de S. Pedro- vinha ainda pela dos Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para lhe apertar a m\u00e3o; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos jornais os nossos nomes, dei com o nome todo dele, n\u00e3o valia a pena procur\u00e1-lo, nem me ficou de cor. Assim s\u00e3o as p\u00e1ginas da vida, como dizia meu filho quando fazia versos, e acrescentava que as p\u00e1ginas v\u00e3o passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas n\u00e3o me lembra a forma dos versos.<\/p>\n<p>Em prosa disse-me ele, muito tempo depois, que eu n\u00e3o devia faltar ao j\u00fari, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que n\u00e3o compareceria, e citei o preceito evang\u00e9lico; ele teimou, dizendo ser um dever de cidad\u00e3o, um servi\u00e7o gratuito, que ningu\u00e9m que se prezasse podia negar ao seu pa\u00eds. Fui e julguei tr\u00eas processos.<\/p>\n<p>Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa, acusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornais deram sem grande min\u00facia, e ali\u00e1s eu lia pouco as not\u00edcias de crimes. O acusado apareceu e foi sentar-se no famoso banco dos r\u00e9us. Era um homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci, pareceu-me ver o meu colega daquele julgamento de anos antes. N\u00e3o poderia reconhec\u00ea-lo logo por estar agora magro, mas era a mesma cor dos cabelos e das barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.<\/p>\n<p>&#8212; Como se chama? perguntou o presidente.<\/p>\n<p>&#8212; Ant\u00f4nio do Carmo Ribeiro Lopes.<\/p>\n<p>J\u00e1 me n\u00e3o lembravam os tr\u00eas primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e os outros sinais vieram confirmando as reminisc\u00eancias; n\u00e3o me tardou reconhecer a pessoa exata daquele dia remoto. Digo-lhe aqui com verdade que todas essas circunst\u00e2ncias me impediram de acompanhar atentamente o interrogat\u00f3rio, e muitas cousas me escaparam. Quando me dispus a ouvi-lo bem, estava quase no fim. Lopes negava com firmeza tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complica\u00e7\u00e3o ao processo. Circulava os olhos sem medo nem ansiedade; n\u00e3o sei at\u00e9 se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.<\/p>\n<p>Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de r\u00e9is. N\u00e3o lhe digo como se descobriu o crime nem o criminoso, por j\u00e1 ser tarde; a orquestra est\u00e1 afinando os instrumentos. O que lhe digo com certeza \u00e9 que a leitura dos autos me impressionou muito, o inqu\u00e9rito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e uma s\u00e9rie de circunstancias agravantes, por fim o depoimento das testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Tamb\u00e9m ele ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escriv\u00e3o o presidente. o tecto e as pessoas que o iam julgar; entre elas eu.<\/p>\n<p>Quando olhou para mim n\u00e3o me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.<\/p>\n<p>Todos esses gestos do homem serviram \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o e \u00e0 defesa, tal como serviram, tempos antes, os gestos contr\u00e1rios do outro acusado. O promotor achou neles a revela\u00e7\u00e3o clara do cinismo, o advogado mostrou que s\u00f3 a inoc\u00eancia e a certeza da absolvi\u00e7\u00e3o podiam trazer aquela paz de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Enquanto os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar ali, no mesmo banco do outro, este homem que votara a condena\u00e7\u00e3o dele, e naturalmente repeti comigo o texto evang\u00e9lico: &#8220;N\u00e3o queirais julgar, para que n\u00e3o sejais julgados&#8221;. Confesso-lhe que mais de uma vez me senti frio. N\u00e3o \u00e9 que eu mesmo viesse a cometer algum desvio de dinheiro, mas podia, em ocasi\u00e3o de raiva, matar algu\u00e9m ou ser caluniado de desfalque. Aquele que julgava outrora, era agora julgado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 da palavra b\u00edblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: &#8220;Suje-se gordo!&#8221; N\u00e3o imagina o sacudimento que me deu esta lembran\u00e7a. Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala secreta, at\u00e9 \u00e0quelas palavras: &#8220;Suje-se gordo!&#8221; Vi que n\u00e3o era um ladr\u00e3o reles, um ladr\u00e3o de nada, sim de grande valor. O verbo \u00e9 que definia duramente a a\u00e7\u00e3o. &#8220;Suje-se gordo!&#8221; Queria dizer que o homem n\u00e3o se devia levar a um ato daquela esp\u00e9cie sem a grossura da soma. A ningu\u00e9m cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!<\/p>\n<p>Id\u00e9ias e palavras iam assim rolando na minha cabe\u00e7a, sem eu dar pelo resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado, leu os quesitos e recolhemo-nos \u00e0 sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em particular que votei afirmativamente, t\u00e3o certo me pareceu o desvio dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com os mesmos olhos que eu. Votaram comigo dous jurados. Nove negaram a criminalidade do Lopes, a senten\u00e7a de absolvi\u00e7\u00e3o foi lavrada e lida, e o acusado saiu para a rua. A diferen\u00e7a da vota\u00e7\u00e3o era tamanha que cheguei a duvidar comigo se teria acertado. Podia ser que n\u00e3o. Agora mesmo sinto uns repel\u00f5es de consci\u00eancia. Felizmente, se o Lopes n\u00e3o cometeu deveras o crime n\u00e3o recebeu a pena do meu voto, e esta considera\u00e7\u00e3o acaba por me consolar do erro, mas os repel\u00f5es voltam. O melhor de tudo \u00e9 n\u00e3o julgar ningu\u00e9m para n\u00e3o vir a ser julgado. Suje-se gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro \u00e9 n\u00e3o julgar ningu\u00e9m&#8230; Acabou a m\u00fasica, vamos para as nossas cadeiras.<\/p>\n<h3>UMAS F\u00c9RIAS<\/h3>\n<p>VIERAM DIZER ao mestre-escola que algu\u00e9m lhe queria falar.<\/p>\n<p>&#8212; Quem \u00e9?<\/p>\n<p>&#8212; Diz que meu senhor n\u00e3o o conhece, respondeu o preto.<\/p>\n<p>&#8212; Que entre.<\/p>\n<p>Houve um movimento geral de cabe\u00e7as na dire\u00e7\u00e3o da porta do corredor, por onde devia entrar a pessoa desconhecida. \u00c9ramos n\u00e3o sei quantos meninos na escola. N\u00e3o tardou que aparecesse uma figura rude, tez queimada, cabelos compridos, sem sinal de pente, a roupa amarrotada, n\u00e3o me lembra bem a cor nem a fazenda, mas provavelmente era brim pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais que ningu\u00e9m, porque ele era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba. Chamava-se tio Zeca.<\/p>\n<p>Tio Zeca foi ao mestre e falou-lhe baixo. O mestre f\u00ea-lo sentar, olhou para mim, e creio que lhe perguntou alguma cousa, porque tio Zeca entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre insistiu, ele respondeu, at\u00e9 que o mestre, voltando-se para mim, disse alto:<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Jos\u00e9 Martins, pode sair.<\/p>\n<p>A minha sensa\u00e7\u00e3o de prazer foi tal que venceu a de espanto. Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, n\u00e3o gostava de aprender. Um chamado de casa, o pr\u00f3prio tio, irm\u00e3o de meu pai, que chegara na v\u00e9spera de Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio, qualquer cousa. Corri a buscar o chap\u00e9u, meti o livro de leitura no bolso e desci as escadas da escola, um sobradinho da Rua do Senado. No corredor beijei a m\u00e3o a tio Zeca. Na rua fui andando ao p\u00e9 dele, amiudando os passos, e levantando a cara. Ele n\u00e3o me dizia nada, eu n\u00e3o me atrevia a nenhuma pergunta. Pouco depois cheg\u00e1vamos ao col\u00e9gio de minha irm\u00e3 Fel\u00edcia; disse-me que esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os tr\u00eas caminho de casa. A minha alegria agora era maior. Certamente havia festa em casa, pois que \u00edamos os dous, ela e eu; \u00edamos na frente, trocando as nossas perguntas e conjeturas. Talvez anos de tio Zeca. Voltei a cara para ele; vinha com os olhos no ch\u00e3o, provavelmente para n\u00e3o cair.<\/p>\n<p>Fomos andando. Fel\u00edcia era mais velha que eu um ano. Cal\u00e7ava sapato raso, atado ao peito do p\u00e9 por duas fitas cruzadas, vindo acabar acima do tornozelo com la\u00e7o. Eu, botins de cordov\u00e3o, j\u00e1 gastos. As calcinhas dela pegavam com a fita dos sapatos, as minhas cal\u00e7as, largas, ca\u00edam sobre o peito do p\u00e9; eram de chita. Uma ou outra vez par\u00e1vamos, ela para admirar as bonecas \u00e0 porta dos armarinhos, eu para ver, \u00e0 porta das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro atada ao p\u00e9. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio n\u00e3o cansa em tal idade. Tio Zeca \u00e9 que nos tirava do espet\u00e1culo industrial ou natural. &#8212; Andem, dizia ele em voz sumida. E n\u00f3s and\u00e1vamos, at\u00e9 que outra curiosidade nos fazia deter o passo. Entretanto, o principal era a festa que nos esperava em casa.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o creio que sejam anos de tio Zeca, disse-me Fel\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; Parece meio triste.<\/p>\n<p>&#8212; Triste, n\u00e3o, parece carrancudo.<\/p>\n<p>&#8212; Ou carrancudo. Quem faz anos tem a cara alegre. &#8212; Ent\u00e3o ser\u00e3o anos de meu padrinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ou de minha madrinha&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas por que \u00e9 que mam\u00e3e nos mandou para a escola? &#8212; Talvez n\u00e3o soubesse.<\/p>\n<p>&#8212; H\u00e1 de haver jantar grande&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Com doce&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Talvez dancemos.<\/p>\n<p>Fizemos um acordo: podia ser festa, sem anivers\u00e1rio de ningu\u00e9m. A sorte grande, por exemplo. Ocorreu-me tamb\u00e9m que podiam ser elei\u00e7\u00f5es. Meu padrinho era candidato a vereador; embora eu n\u00e3o soubesse bem o que era candidatura nem verea\u00e7\u00e3o, tanto ouvira falar em vit\u00f3ria pr\u00f3xima que a achei certa e ganha. N\u00e3o sabia que a elei\u00e7\u00e3o era ao domingo, e o dia era sexta-feira. Imaginei bandas de m\u00fasica, vivas e palmas, e n\u00f3s, meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espet\u00e1culo \u00e0 noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao teatro, e voltei dormindo, mas no dia seguinte estava t\u00e3o contente que morria por l\u00e1 tornar, posto n\u00e3o houvesse entendido nada do que ouvira. Vira muita cousa, isto sim, cadeiras ricas, tronos, lan\u00e7as compridas, cenas que mudavam \u00e0 vista, passando de uma sala a um bosque, e do bosque a uma rua. Depois, os personagens, todos pr\u00edncipes. Era assim que cham\u00e1vamos aos que vestiam cal\u00e7\u00e3o de seda, sapato de fivela ou botas, espada, capa de veludo, gorra com pluma. Tamb\u00e9m houve bailado. As bailarinas e os bailarinos falavam com os p\u00e9s e as m\u00e3os, trocando de posi\u00e7\u00e3o e um sorriso constante na boca. Depois os gritos do p\u00fablico e as palmas&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 duas vezes escrevi palmas; \u00e9 que as conhecia bem. Fel\u00edcia, a quem comuniquei a possibilidade do espet\u00e1culo, n\u00e3o me pareceu gostar muito, mas tamb\u00e9m n\u00e3o recusou nada. Iria ao teatro. E quem sabe se n\u00e3o seria em casa, teatrinho de bonecos? \u00cdamos nessas conjeturas, quando tio Zeca nos disse que esper\u00e1ssemos; tinha parado a conversar com um sujeito.<\/p>\n<p>Paramos, \u00e0 espera. A id\u00e9ia da festa, qualquer que fosse, continuou a agitar-nos, mais a mim que a ela. Imaginei trinta mil cousas, sem acabar nenhuma, t\u00e3o precipitadas vinham, e t\u00e3o confusas que n\u00e3o as distinguia, pode ser at\u00e9 que se repetissem. Fel\u00edcia chamou a minha aten\u00e7\u00e3o para dous moleques de carapu\u00e7a encarnada, que passavam carregando canas, &#8212; o que nos lembrou as noites de Santo Ant\u00f4nio e S. Jo\u00e3o, j\u00e1 l\u00e1 idas. Ent\u00e3o falei-lhe das fogueiras do nosso quintal, das bichas que queimamos, das rodinhas, das pistolas e das dan\u00e7as com outros meninos. Se houvesse agora a mesma cousa&#8230; Ah! lembrou-me que era ocasi\u00e3o de deitar \u00e0 fogueira o livro da escola, e o dela tamb\u00e9m, com os pontos de costura que estava aprendendo. &#8212; Isso n\u00e3o, acudiu Fel\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8212; Eu queimava o meu livro.<\/p>\n<p>&#8212; Papai comprava outro.<\/p>\n<p>&#8212; Enquanto comprasse, eu ficava brincando em casa; aprender \u00e9 muito aborrecido.<\/p>\n<p>Nisto est\u00e1vamos, quando vimos tio Zeca e o desconhecido ao p\u00e9 de n\u00f3s. O desconhecido pegou-nos nos queixos e levantou-nos a cara para ele, fitou-nos com seriedade, deixou-nos e despediu-se.<\/p>\n<p>&#8212; Nove horas? L\u00e1 estarei, disse ele. &#8212; Vamos, disse-nos tio Zeca.<\/p>\n<p>Quis perguntar-lhe quem era aquele homem, e at\u00e9 me pareceu conhec\u00ea-lo vagamente. Fel\u00edcia tamb\u00e9m. Nenhum de n\u00f3s acertava com a pessoa; mas a promessa de l\u00e1 estar \u00e0s nove horas dominou o resto. Era festa, algum baile, conquanto \u00e0s nove horas, costum\u00e1ssemos ir para a cama. Naturalmente, por exce\u00e7\u00e3o, estar\u00edamos acordados. Como cheg\u00e1ssemos a um rego de lama, peguei da m\u00e3o de Fel\u00edcia, e transpusemo-lo de um salto, t\u00e3o violento que quase me caiu o livro. Olhei para tio Zeca, a ver o efeito do gesto; vi-o abanar a cabe\u00e7a com reprova\u00e7\u00e3o. Ri, ela sorriu, e fomos pela cal\u00e7ada adiante.<\/p>\n<p>Era o dia dos desconhecidos. Desta vez estavam em burros, e um dos dous era mulher. Vinham da ro\u00e7a. Tio Zeca foi ter com eles ao meio da rua, depois de dizer que esper\u00e1ssemos. Os animais pararam, creio que de si mesmos, por tamb\u00e9m conhecerem a tio Zeca, id\u00e9ia que Fel\u00edcia reprovou com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia convic\u00e7\u00e3o; tudo era folgar. Fosse como fosse, esperamos os dous, examinando o casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e tamb\u00e9m mais mo\u00e7a; ele tinha os cabelos grisalhos. N\u00e3o ouvimos o que disseram, ele e tio Zeca; vimo-lo, sim, o marido olhar para n\u00f3s com ar de curiosidade, e falar \u00e0 mulher, que tamb\u00e9m nos deitou os olhos, agora com pena ou cousa parecida. Enfim apartaram-se, tio Zeca veio ter conosco e enfiamos para casa.<\/p>\n<p>A casa ficava na rua pr\u00f3xima, perto da esquina. Ao dobrarmos esta, vimos os portais da casa forrados de preto,&#8211; o que nos encheu de espanto. Instintivamente paramos e voltamos a cabe\u00e7a para tio Zeca. Este veio a n\u00f3s, deu a m\u00e3o a cada um e ia a dizer alguma palavra que lhe ficou na garganta; andou, levando-nos consigo. Quando chegamos, as portas estavam meio cerradas. N\u00e3o sei se lhes disse que era um armarinho. Na rua, curiosos. Nas janelas fronteiras e laterais, cabe\u00e7as aglomeradas. Houve certo rebuli\u00e7o quando chegamos. \u00c9 natural que eu tivesse a boca aberta, como Fel\u00edcia. Tio Zeca empurrou uma das meias portas, entramos os tr\u00eas, ele tornou a cerr\u00e1-la, meteu-se pelo corredor e fomos \u00e0 sala de jantar e \u00e0 alcova.<\/p>\n<p>Dentro, ao p\u00e9 da cama, estava minha m\u00e3e com a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os. Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de salto, veio abra\u00e7ar-nos entre l\u00e1grimas, bradando:<\/p>\n<p>&#8212; Meus filhos, vosso pai morreu!<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem a consci\u00eancia da not\u00edcia. N\u00e3o tive for\u00e7as para andar, e teria medo de o fazer. Morto como? morto por qu\u00ea? Estas duas perguntas, se as meto aqui, \u00e9 para dar seguimento \u00e0 a\u00e7\u00e3o; naquele momento n\u00e3o perguntei nada a mim nem a ningu\u00e9m. Ouvi as palavras de minha m\u00e3e, se repetiam em mim, e os seus solu\u00e7os que eram grandes. Ela pegou em n\u00f3s e arrastou-nos para a cama, onde jazia o cad\u00e1ver do marido; e fez-nos beijar-lhe a m\u00e3o. T\u00e3o longe estava eu daquilo que, apesar de tudo, n\u00e3o entendera nada a princ\u00edpio; a tristeza e o sil\u00eancio das pessoas que rodeavam a cama ajudaram a explicar que meu pai morrera deveras. N\u00e3o se tratava de um dia santo, com a sua folga e recreio, n\u00e3o era festa, n\u00e3o eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa, arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho t\u00e3o bonito fizesse crescer a minha dor de filho n\u00e3o \u00e9 cousa que possa afirmar ou negar; melhor \u00e9 calar. O pai ali estava defunto, sem pulos, nem dan\u00e7as, nem risadas, nem bandas de m\u00fasica, cousas todas tamb\u00e9m defuntas. Se me houvessem dito \u00e0 sa\u00edda da escola por que \u00e9 que me iam l\u00e1 buscar, \u00e9 claro que a alegria n\u00e3o houvera penetrado o cora\u00e7\u00e3o, donde era agora expelida a punhadas.<\/p>\n<p>O enterro foi no dia seguinte \u00e0s nove horas da manh\u00e3, e provavelmente l\u00e1 estava aquele amigo de tio Zeca que se despediu na rua, com a promessa de ir \u00e0s nove horas. N\u00e3o vi as cerim\u00f4nias; alguns vultos, poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono de um trapiche, l\u00e1 estava, e a mulher tamb\u00e9m, que me levou a uma alcova dos fundos para me mostrar gravuras. Na ocasi\u00e3o da sa\u00edda, ouvi os gritos de minha m\u00e3e, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas que pegavam nas al\u00e7as do caix\u00e3o, creio eu:&#8211; &#8220;vire de lado,&#8211; mais \u00e0 esquerda,&#8211; assim, segure bem&#8230;&#8221; Depois, ao longe, o coche andando e as seges atr\u00e1s dele&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 iam meu pai e as f\u00e9rias! Um dia de folga sem folguedo! N\u00e3o, n\u00e3o foi um dia, mas oito, oito dias de nojo, durante os quais alguma vez me lembrei do col\u00e9gio. Minha m\u00e3e chorava, cosendo o luto, entre duas visitas de p\u00easames. Eu tamb\u00e9m chorava; n\u00e3o via meu pai \u00e0s horas do costume, n\u00e3o lhe ouvia as palavras \u00e0 mesa ou ao balc\u00e3o, nem as car\u00edcias que dizia aos p\u00e1ssaros. Que ele era muito amigo de p\u00e1ssaros, e tinha tr\u00eas ou quatro, em gaiolas. Minha m\u00e3e vivia calada. Quase que s\u00f3 falava \u00e0s pessoas de fora. Foi assim que eu soube que meu pai morrera de apoplexia. Ouvi esta not\u00edcia muitas vezes; as visitas perguntavam pela causa da morte, e ela referia tudo, a hora, o gesto, a ocasi\u00e3o: tinha ido beber \u00e1gua, e enchia um copo, \u00e0 janela da \u00e1rea. Tudo decorei, \u00e0 for\u00e7a de ouvi-lo contar.<\/p>\n<p>Nem por isso os meninos do col\u00e9gio deixavam de vir espiar para dentro da minha mem\u00f3ria. Um deles chegou a perguntar-me quando \u00e9 que eu voltaria.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00e1bado, meu filho, disse minha m\u00e3e, quando lhe repeti a pergunta imaginada; a missa \u00e9 sexta-feira.<br \/>\nTalvez seja melhor voltar na segunda.<\/p>\n<p>&#8212; Antes s\u00e1bado, emendei.<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim, concordou.<\/p>\n<p>N\u00e3o sorria; se pudesse, sorriria de gosto ao ver que eu queria voltar mais cedo \u00e0 escola. Mas, sabendo que eu n\u00e3o gostava de aprender, como entenderia a emenda? Provavelmente, deu-lhe algum sentido superior, conselho do c\u00e9u ou do marido. Em verdade, eu n\u00e3o folgava, se lerdes isto com o sentido de rir. Com o de descansar tamb\u00e9m n\u00e3o cabe, porque minha m\u00e3e fazia-me estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a atitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas m\u00e3os, a um canto ou \u00e0 mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que recomendo aos pregui\u00e7osos: deixava os olhos na p\u00e1gina e abria a porta \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como for mais claro.<\/p>\n<p>Uma vez, como desse por mim a andar na sala sem ler, minha m\u00e3e repreendeu-me, e eu respondi que estava pensando em meu pai. A explica\u00e7\u00e3o f\u00ea-la chorar, e, para dizer tudo, n\u00e3o era totalmente mentira; tinha-me lembrado o \u00faltimo presentinho que ele me dera, e entrei a v\u00ea-lo com o mimo na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Fel\u00edcia vivia t\u00e3o triste como eu, mas confesso a minha verdade, a causa principal n\u00e3o era a mesma. Gostava de brincar, mas n\u00e3o sentia a aus\u00eancia do brinco, n\u00e3o se lhe dava de acompanhar a m\u00e3e, coser com ela e uma vez fui ach\u00e1-la a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado, pensei em imit\u00e1-la, e meti a m\u00e3o no bolso para tirar o len\u00e7o. A m\u00e3o entrou sem ternura, e, n\u00e3o achando o len\u00e7o, saiu sem pesar. Creio que ao gesto n\u00e3o faltava s\u00f3 originalidade, mas sinceridade tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00e3o me censurem. Sincero fui longos dias calados e reclusos. Quis uma vez ir para o armarinho, que se abriu depois do enterro, onde o caixeiro continuou a servir. Conversaria com este, assistiria \u00e0 venda de linhas e agulhas, \u00e0 medi\u00e7\u00e3o de fitas, iria \u00e0 porta, \u00e0 cal\u00e7ada, \u00e0 esquina da rua&#8230; Minha m\u00e3e sufocou este sonho pouco depois dele nascer. Mal chegara ao balc\u00e3o, mandou-me buscar pela escrava; l\u00e1 fui para o interior da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos \u00e0 guisa de quem quer dar murro; n\u00e3o me lembra se chorei de raiva.<\/p>\n<p>O livro lembrou-me a escola, e a imagem da escola consolou-me. J\u00e1 ent\u00e3o lhe tinha grandes saudades. Via de longe as caras dos meninos, os nossos gestos de tro\u00e7a nos bancos, e os saltos \u00e0 sa\u00edda. Senti cair-me na cara uma daquelas bolinhas de papel com que nos espert\u00e1vamos uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao meu suposto espertador. A bolinha, como acontecia \u00e0s vezes, foi cair na cabe\u00e7a de terceiro, que se desforrou depressa. Alguns, mais t\u00edmidos, limitavam-se a fazer caretas. N\u00e3o era folguedo franco, mas j\u00e1 me valia por ele. Aquele degredo que eu deixei t\u00e3o alegremente com tio Zeca parecia-me agora um c\u00e9u remoto, e tinha medo de o perder. Nenhuma festa em casa, poucas palavras, raro movimento. Foi por esse tempo que eu desenhei a l\u00e1pis maior n\u00famero de gatos nas margens do livro de leitura; gatos e porcos. N\u00e3o alegrava, mas distra\u00eda.<\/p>\n<p>A missa do s\u00e9timo dia restituiu-me \u00e0 rua; no s\u00e1bado n\u00e3o fui a escola, fui \u00e0 casa de meu padrinho, onde pude falar um pouco mais, e no domingo estive \u00e0 porta da loja. N\u00e3o era alegria completa. A total alegria foi segunda-feira, na escola. Entrei vestido de preto, fui mirado com curiosidade, mas t\u00e3o outro ao p\u00e9 dos meus condisc\u00edpulos, que me esqueceram as f\u00e9rias sem gosto, e achei uma grande alegria sem f\u00e9rias.<\/p>\n<h3>EVOLU\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>CHAMO-ME IN\u00c1CIO; ele, Benedito. N\u00e3o digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciar\u00e1. In\u00e1cio basta. Contentem-se com Benedito. N\u00e3o \u00e9 muito, mas \u00e9 alguma cousa, e est\u00e1 com a filosofia de Julieta: &#8220;Que valem nomes, perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, ter\u00e1 sempre o mesmo cheiro.&#8221; Vamos ao cheiro do Benedito.<\/p>\n<p>E desde logo assentemos que ele era o menos Romeu deste mundo. Tinha quarenta e cinco anos, quando o conheci; n\u00e3o declaro em que tempo, porque tudo neste conto h\u00e1 de ser misterioso e truncado. Quarenta e cinco anos, e muitos cabelos pretos; para os que o n\u00e3o eram usava um processo qu\u00edmico, t\u00e3o eficaz que n\u00e3o se lhe distinguiam os pretos dos outros&#8211; salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama n\u00e3o aparecia a ningu\u00e9m. Tudo mais era natural, pernas, bra\u00e7os, cabe\u00e7a, olhos, roupa, sapatos, corrente do rel\u00f3gio e bengala. O pr\u00f3prio alfinete de diamante, que trazia na gravata, um dos mais lindos que tenho visto, era natural e leg\u00edtimo, custou-lhe bom dinheiro; eu mesmo o vi comprar na casa do&#8230; J\u00e1 me ia escapando o nome do joalheiro;&#8211; fiquemos na Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>Moralmente, era ele mesmo. Ningu\u00e9m muda de car\u00e1ter, e o do Benedito era bom,&#8211; ou para melhor dizer, pacato. Mas, intelectualmente, \u00e9 que ele era menos original. Podemos compar\u00e1-lo a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter id\u00e9ias de toda parte e de toda sorte, que se sentavam \u00e0 mesa com a fam\u00edlia da casa. \u00c0s vezes, acontecia acharem-se ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antip\u00e1ticas, ningu\u00e9m brigava, o dono da casa impunha aos h\u00f3spedes a indulg\u00eancia rec\u00edproca. Era assim que ele conseguia ajustar uma esp\u00e9cie de ate\u00edsmo vago com duas irmandades que fundou, n\u00e3o sei se na G\u00e1vea, na Tijuca ou no Engenho Velho. Usava assim, promiscuamente, a devo\u00e7\u00e3o, a irreligi\u00e3o e as meias de seda. Nunca lhe vi as meias, note-se; mas ele n\u00e3o tinha segredos para os amigos.<\/p>\n<p>Conhecemo-nos em viagem para Vassouras. T\u00ednhamos deixado o trem e entrado na dilig\u00eancia que nos ia levar da esta\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade. Trocamos algumas palavras, e n\u00e3o tardou conversarmos francamente, ao sabor das circunst\u00e2ncias que nos impunham a conviv\u00eancia, antes mesmo de saber quem \u00e9ramos.<\/p>\n<p>Naturalmente, o primeiro objeto foi o progresso que nos traziam as estradas de ferro. Benedito lembrava-se do tempo em que toda a jornada era feita \u00e0s costas de burro. Contamos ent\u00e3o algumas anedotas, falamos de alguns nomes, e ficamos de acordo em que as estradas de ferro eram uma condi\u00e7\u00e3o de progresso do pa\u00eds. Quem nunca viajou n\u00e3o sabe o valor que tem uma dessas banalidades graves e s\u00f3lidas para dissipar os t\u00e9dios do caminho. O esp\u00edrito areja-se, os pr\u00f3prios m\u00fasculos recebem uma comunica\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel, o sangue n\u00e3o salta, fica-se em paz com Deus e os homens.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o ser\u00e3o os nossos filhos que ver\u00e3o todo este pa\u00eds cortado de estradas, disse ele.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, decerto. O senhor tem filhos?<\/p>\n<p>&#8212; Nenhum.<\/p>\n<p>&#8212; Nem eu. N\u00e3o ser\u00e1 ainda em cinq\u00fcenta anos; e, entretanto, \u00e9 a nossa primeira necessidade. Eu comparo o<br \/>\nBrasil a uma crian\u00e7a que est\u00e1 engatinhando; s\u00f3 come\u00e7ar\u00e1 a andar quando tiver muitas estradas de ferro<\/p>\n<p>&#8212; Bonita id\u00e9ia! exclamou Benedito faiscando-lhe os olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Importa-me pouco que seja bonita, contanto que seja justa.<\/p>\n<p>&#8212; Bonita e justa, redarg\u00fciu ele com amabilidade. Sim, senhor tem raz\u00e3o: &#8212; o Brasil est\u00e1 engatinhando; s\u00f3 come\u00e7ar\u00e1 a andar quando tiver muitas estradas de ferro.<\/p>\n<p>Chegamos a Vassouras; eu fui para a casa do juiz municipal, camarada antigo; ele demorou-se um dia e seguiu para o interior. Oito dias depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sozinho. Uma semana mais tarde, voltou ele; encontramo-nos no teatro, conversamos muito e trocamos not\u00edcias; Benedito acabou convidando-me a ir almo\u00e7ar com ele no dia seguinte. Fui; deu-me um almo\u00e7o de pr\u00edncipe, bons charutos e palestra animada. Notei que a conversa dele fazia mais efeito no meio da viagem&#8211; arejando o esp\u00edrito e deixando a gente em paz com Deus e os homens; mas devo dizer que o almo\u00e7o pode ter prejudicado o resto. Realmente era magn\u00edfico; e seria impertin\u00eancia hist\u00f3rica p\u00f4r a mesa de Luculo na casa de Plat\u00e3o. Entre o caf\u00e9 e o cognac, disse-me ele, apoiando o cotovelo na borda da mesa, e olhando para o charuto que ardia:<\/p>\n<p>&#8212; Na minha viagem agora, achei ocasi\u00e3o de ver como o senhor tem raz\u00e3o com aquela id\u00e9ia do Brasil engatinhando.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhor; \u00e9 justamente o que o senhor dizia na dilig\u00eancia de Vassouras. S\u00f3 come\u00e7aremos a andar quando tivermos muitas estradas de ferro. N\u00e3o imagina como isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>E referiu muita cousa, observa\u00e7\u00f5es relativas aos costumes do interior, dificuldades da vida, atraso, concordando, por\u00e9m, nos bons sentimentos da popula\u00e7\u00e3o e nas aspira\u00e7\u00f5es de progresso. Infelizmente, o governo n\u00e3o correspondia \u00e0s necessidades da p\u00e1tria; parecia at\u00e9 interessado em mant\u00ea-la atr\u00e1s das outras na\u00e7\u00f5es americanas. Mas era indispens\u00e1vel que nos persuad\u00edssemos de que os princ\u00edpios s\u00e3o tudo e os homens nada. N\u00e3o se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos; e abyssus abyssum invocat. Depois foi mostrar-me outras salas. Eram todas alfaiadas com apuro. Mostrou-me as cole\u00e7\u00f5es de quadros, de moedas, de livros antigos, de selos, de armas; tinha espadas e floretes, mas confessou que n\u00e3o sabia esgrimir. Entre os quadros vi um lindo retrato de mulher; perguntei-lhe quem era. Benedito sorriu.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o irei adiante, disse eu sorrindo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 que negar, acudiu ele; foi uma mo\u00e7a de quem gostei muito. Bonita, n\u00e3o? N\u00e3o imagina a beleza que era. Os l\u00e1bios eram mesmo de carmim e as faces de rosa; tinha os olhos negros, cor da noite. E que dentes! verdadeiras p\u00e9rolas. Um mimo da natureza.<\/p>\n<p>Em seguida, passamos ao gabinete. Era vasto, elegante, um pouco trivial, mas n\u00e3o lhe faltava nada. Tinha duas estantes, cheias de livros muito bem encadernados, um mapa-m\u00fandi, dous mapas do Brasil. A secret\u00e1ria era de \u00e9bano, obra fina; sobre ela, casualmente aberto, um almanaque de Laemmert. O tinteiro era de cristal,&#8211; &#8220;cristal de rocha&#8221;, disse-me ele, explicando o tinteiro, como explicava as outras cousas. Na sala cont\u00edgua havia um \u00f3rg\u00e3o. Tocava \u00f3rg\u00e3o, e gostava muito de m\u00fasica, falou dela com entusiasmo, citando as \u00f3peras, os trechos melhores, e noticiou-me que, em pequeno, come\u00e7ara a aprender flauta; abandonou-a logo, &#8212; o que foi pena, concluiu, porque \u00e9, na verdade, um instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao jardim, que era espl\u00eandido, tanto ajudava a arte \u00e0 natureza, e tanto a natureza coroava a arte. Em rosas, por exemplo, (n\u00e3o h\u00e1 negar, disse-me ele, que \u00e9 a rainha das flores) em rosas, tinha-as de toda casta e de todas as regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Sa\u00ed encantado. Encontramo-nos algumas vezes, na rua, no teatro, em casa de amigos comuns, tive ocasi\u00e3o de apreci\u00e1-lo. Quatro meses depois fui \u00e0 Europa, neg\u00f3cio que me obrigava a aus\u00eancia de um ano; ele ficou cuidando da elei\u00e7\u00e3o; queria ser deputado. Fui eu mesmo que o induzi a isso, sem a menor inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas com o \u00fanico fim de lhe ser agrad\u00e1vel; mal comparando, era como se lhe elogiasse o corte do colete. Ele pegou da id\u00e9ia, e apresentou-se. Um dia. atravessando uma rua de Paris, dei subitamente com o Benedito.<\/p>\n<p>&#8212; Que \u00e9 isto? exclamei.<\/p>\n<p>&#8212; Perdi a elei\u00e7\u00e3o, disse ele, e vim passear \u00e0 Europa.<\/p>\n<p>N\u00e3o me deixou mais; viajamos juntos o resto do tempo. Confessou-me que a perda da elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe tirara a id\u00e9ia de entrar no parlamento. Ao contr\u00e1rio, incitara-o mais. Falou-me de um grande plano.<\/p>\n<p>&#8212; Quero v\u00ea-lo ministro, disse-lhe.<\/p>\n<p>Benedito n\u00e3o contava com esta palavra, o rosto iluminou-se-lhe; mas disfar\u00e7ou depressa.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o digo isso, respondeu. Quando, por\u00e9m, seja ministro, creia que serei t\u00e3o-somente ministro industrial. Estamos fartos de partidos: precisamos desenvolver as for\u00e7as vivas do pa\u00eds, os seus grandes recursos. Lembra-se do que n\u00f3s diz\u00edamos na dilig\u00eancia de Vassouras? O Brasil est\u00e1 engatinhando; s\u00f3 andar\u00e1 com estradas de ferro&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Tem raz\u00e3o, concordei um pouco espantado. E por que \u00e9 que eu mesmo vim \u00e0 Europa? Vim cuidar de uma estrada de ferro. Deixo as cousas arranjadas em Londres.<\/p>\n<p>&#8212; Sim?<\/p>\n<p>&#8212; Perfeitamente.<\/p>\n<p>Mostrei-lhe os pap\u00e9is, ele viu-os deslumbrado. Como eu tivesse ent\u00e3o recolhido alguns apontamentos, dados estat\u00edsticos, folhetos, relat\u00f3rios, c\u00f3pias de contratos, tudo referente a mat\u00e9rias industriais, e lhos mostrasse, Benedito declarou-me que ia tamb\u00e9m coligir algumas cousas daquelas. E, na verdade, vi-o andar por minist\u00e9rios, bancos, associa\u00e7\u00f5es, pedindo muitas notas e op\u00fasculos, que amontoava nas malas; mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi curto; era de empr\u00e9stimo. Benedito recolheu com muito mais gosto os anexins pol\u00edticos e f\u00f3rmulas parlamentares. Tinha na cabe\u00e7a um vasto arsenal deles. Nas conversas comigo repetia-os muita vez, \u00e0 laia de experi\u00eancia; achava neles grande prest\u00edgio e valor inestim\u00e1vel. Muitos eram de tradi\u00e7\u00e3o inglesa, e ele os preferia aos outros, como trazendo em si um pouco da C\u00e2mara dos Comuns. Saboreava-os tanto que eu n\u00e3o sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho verbal; creio que n\u00e3o. Creio at\u00e9 que, se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, t\u00e3o c\u00f4modas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiom\u00e1ticas, que n\u00e3o for\u00e7am a reflex\u00e3o, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.<\/p>\n<p>Regressamos juntos; mas eu fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde a Londres, donde vim ao Rio de Janeiro, um ano depois. J\u00e1 ent\u00e3o Benedito era deputado. Fui visit\u00e1-lo, achei-o preparando o discurso de estr\u00e9ia. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de relat\u00f3rios, livros de economia pol\u00edtica, alguns com p\u00e1ginas marcadas. por meio de tiras de papel rubricadas assim: &#8212; C\u00e2mbio, Taxa das terras, Quest\u00e3o dos cereais em Inglaterra, Opini\u00e3o de Stuart Mill, Erro de Thiers sobre caminhos de ferro, etc. Era sincero, minucioso e c\u00e1lido. Falava-me daquelas cousas, como se acabasse de as descobrir, expondo-me tudo, ab ovo; tinha a peito mostrar aos homens pr\u00e1ticos da C\u00e2mara que tamb\u00e9m ele era pr\u00e1tico. Em seguida, perguntou-me pela empresa; disse-lhe o que havia.<\/p>\n<p>&#8212; Dentro de dous anos conto inaugurar o primeiro trecho da estrada.<\/p>\n<p>&#8212; E os capitalistas ingleses?<\/p>\n<p>&#8212; Que tem?<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e3o contentes, esperan\u00e7ados?<\/p>\n<p>&#8212; Muito; n\u00e3o imagina.<\/p>\n<p>Contei-lhe algumas particularidades t\u00e9cnicas, que ele ouviu distraidamente, &#8212; ou porque a minha narra\u00e7\u00e3o fosse em extremo complicada, ou por outro motivo. Quando acabei, disse-me que estimava ver-me entregue ao movimento industrial; era dele que precis\u00e1vamos, e a este prop\u00f3sito fez-me o favor de ler o ex\u00f3rdio do discurso que devia proferir dali a dias.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 ainda em borr\u00e3o, explicou-me; mas as id\u00e9ias capitais ficam. E come\u00e7ou:<\/p>\n<p>No meio da agita\u00e7\u00e3o crescente dos esp\u00edritos, do alarido partid\u00e1rio que encobre as vozes dos leg\u00edtimos interesses, permiti que algu\u00e9m fa\u00e7a ouvir uma s\u00faplica da na\u00e7\u00e3o. Senhores, \u00e9 tempo de cuidar exclusivamente, &#8212; notai que digo exclusivamente, &#8212; dos melhoramentos materiais do pa\u00eds. N\u00e3o desconhe\u00e7o o que se me pode replicar; dir-me-eis que uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o se comp\u00f5e s\u00f3 de est\u00f4mago para digerir, mas de cabe\u00e7a para pensar e de cora\u00e7\u00e3o para sentir. Respondo-vos que tudo isso n\u00e3o valer\u00e1 nada ou pouco, se ela n\u00e3o tiver pernas para caminhar; e aqui repetirei o que, h\u00e1 alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil \u00e9 uma crian\u00e7a que engatinha; s\u00f3 come\u00e7ar\u00e1 a andar quando estiver cortado de estradas de ferro&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o pude ouvir mais nada e fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei assombrado, desvairado diante do abismo que a psicologia rasgava aos meus p\u00e9s. Este homem \u00e9 sincero, pensei comigo, est\u00e1 persuadido do que escreveu. E fui por a\u00ed abaixo at\u00e9 ver se achava a explica\u00e7\u00e3o dos tr\u00e2mites por que passou aquela recorda\u00e7\u00e3o da dilig\u00eancia de Vassouras. Achei (perdoem-me se h\u00e1 nisto enfatua\u00e7\u00e3o) achei ali mais um efeito da lei da evolu\u00e7\u00e3o, tal como a definiu Spencer,&#8211; Spencer ou Benedito, um deles.<\/p>\n<h3>P\u00cdLADES E ORESTES<\/h3>\n<p>QUINTANILHA engendrou Gon\u00e7alves. Tal era a impress\u00e3o que davam os dous juntos, n\u00e3o que se parecessem. Ao contr\u00e1rio, Quintanilha tinha o rosto redondo, Gon\u00e7alves comprido, o primeiro era baixo e moreno, o segundo alto e claro, e a express\u00e3o total divergia inteiramente. Acresce que eram quase da mesma idade. A id\u00e9ia da paternidade nascia das maneiras com que o primeiro tratava o segundo; um pai n\u00e3o se desfaria mais em carinhos, cautelas e pensamentos.<\/p>\n<p>Tinham estudado juntos, morado juntos, e eram bachar\u00e9is do mesmo ano. Quintanilha n\u00e3o seguiu advocacia nem magistratura, meteu-se na pol\u00edtica; mas, eleito deputado provincial em 187&#8230; cumpriu o prazo da legislatura e abandonou a carreira. Herdara os bens de um tio, que lhe davam de renda cerca de trinta contos de r\u00e9is. Veio para o seu Gon\u00e7alves, que advogava no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Posto que abastado, mo\u00e7o, amigo do seu \u00fanico amigo, n\u00e3o se pode dizer que Quintanilha fosse inteiramente feliz, como vais ver. Ponho de lado o desgosto que lhe trouxe a heran\u00e7a com o \u00f3dio dos parentes; tal \u00f3dio foi que ele esteve prestes a abrir m\u00e3o dela, e n\u00e3o o fez porque o amigo Gon\u00e7alves, que lhe dava id\u00e9ias e conselhos, o convenceu de que semelhante ato seria rematada loucura.<\/p>\n<p>&#8212; Que culpa tem voc\u00ea que merecesse mais a seu tio que os outros parentes? N\u00e3o foi voc\u00ea que fez o testamento nem andou a bajular o defunto, como os outros. Se ele deixou tudo a voc\u00ea, \u00e9 que o achou melhor que eles; fique-se com a fortuna, que \u00e9 a vontade do morto, e n\u00e3o seja tolo.<\/p>\n<p>Quintanilha acabou concordando. Dos parentes alguns buscaram reconciliar-se com ele, mas o amigo mostrou-lhe a inten\u00e7\u00e3o rec\u00f4ndita dos tais, e Quintanilha n\u00e3o lhes abriu a porta. Um desses, ao v\u00ea-lo ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava por toda a parte:<\/p>\n<p>&#8212; A\u00ed est\u00e1, deixa os parentes para se meter com estranhos; h\u00e1 de se ver o fim que leva.<\/p>\n<p>Ao saber disto, Quintanilha correu a cont\u00e1-lo a Gon\u00e7alves, indignado. Gon\u00e7alves sorriu, chamou-lhe tolo e aquietou-lhe o \u00e2nimo; n\u00e3o valia a pena irritar-se por ditinhos.<\/p>\n<p>&#8212; Uma s\u00f3 cousa desejo, continuou, \u00e9 que nos separemos, para que se n\u00e3o diga&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que se n\u00e3o diga o qu\u00ea? \u00c9 boa! Tinha que ver, se eu passava a escolher as minhas amizades conforme o capricho de alguns peraltas sem-vergonha!<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o fale assim, Quintanilha. Voc\u00ea \u00e9 grosseiro com seus parentes.<\/p>\n<p>&#8212; Parentes do diabo que os leve! Pois eu hei de viver com as pessoas que me forem designadas por meia d\u00fazia de velhacos que o que querem \u00e9 comer-me o dinheiro? N\u00e3o, Gon\u00e7alves; tudo o que voc\u00ea quiser, menos isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, \u00e9 o meu cora\u00e7\u00e3o. Ou voc\u00ea est\u00e1&#8230; est\u00e1 aborrecido de mim?<\/p>\n<p>&#8212; Eu? Tinha gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Mas \u00e9 &#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 tal!<\/p>\n<p>A vida que viviam os dous era a mais unida deste mundo. Quintanilha acordava, pensava no outro, almo\u00e7ava e ia ter com ele. Jantavam juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a noite no teatro. Se Gon\u00e7alves tinha algum trabalho que fazer \u00e0 noite, Quintanilha ia ajud\u00e1-lo como obriga\u00e7\u00e3o; dava busca aos textos de lei, marcava-os, copiava-os, carregava os livros. Gon\u00e7alves esquecia com facilidade, ora um recado, ora uma carta, sapatos, charutos, pap\u00e9is. Quintanilha supria-lhe a mem\u00f3ria. \u00c0s vezes, na Rua do Ouvidor, vendo passar as mo\u00e7as , Gon\u00e7alves lembrava-se de uns autos que deixara no escrit\u00f3rio. Quintanilha voava a busc\u00e1-los e tornava com eles, t\u00e3o contente que n\u00e3o se podia saber se eram autos, se a sorte grande; procurava-o ansiosamente com os olhos, corria, sorria, morria de fadiga.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00e3o estes?<\/p>\n<p>&#8212; S\u00e3o; deixa ver, s\u00e3o estes mesmos. D\u00e1 c\u00e1.<\/p>\n<p>&#8212; Deixa, eu 1evo.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, Gon\u00e7alves suspirava:<\/p>\n<p>&#8212; Que ma\u00e7ada que dei a voc\u00ea!<\/p>\n<p>Quintanilha ria do suspiro com t\u00e3o bom humor que o outro, para n\u00e3o o molestar, n\u00e3o se acusou de mais nada; concordou em receber os obs\u00e9quios. Com o tempo, os obs\u00e9quios ficaram sendo puro of\u00edcio. Gon\u00e7alves dizia ao outro: &#8220;Voc\u00ea hoje h\u00e1 de lembrar-me isto e aquilo&#8221;. E o outro decorava as recomenda\u00e7\u00f5es, ou escrevia-as, se eram muitas. Algumas dependiam de horas; era de ver como o bom Quintanilha suspirava aflito, \u00e0 espera que chegasse tal ou tal hora para ter o gosto de lembrar os neg\u00f3cios ao amigo. E levava-lhe as cartas e pap\u00e9is, ia buscar as respostas, procurar as pessoas, esper\u00e1-las na estrada de ferro, fazia viagens ao interior. De si mesmo descobria-lhe bons charutos, bons jantares, bons espet\u00e1culos. Gon\u00e7alves j\u00e1 n\u00e3o tinha liberdade de falar de um livro novo, ou somente caro, que n\u00e3o achasse um exemplar em casa.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 um perdul\u00e1rio, dizia-lhe em tom repreensivo.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o gastar com letras e ci\u00eancias \u00e9 botar fora? \u00c9 boa! conclu\u00eda o outro.<\/p>\n<p>No fim do ano quis obrig\u00e1-lo a passar fora as f\u00e9rias. Gon\u00e7alves acabou aceitando, e o prazer que lhe deu com isto foi enorme. Subiram a Petr\u00f3polis. Na volta, serra abaixo, como falassem de pintura, Quintanilha advertiu que n\u00e3o tinham ainda uma tela com o retrato dos dous, e mandou faz\u00ea-la. Quando a levou ao amigo, este n\u00e3o p\u00f4de deixar de lhe dizer que n\u00e3o prestava para nada. Quintanilha ficou sem voz.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 uma porcaria, insistiu Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>&#8212; Pois o pintor disse-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o entende de pintura, Quintanilha, e o pintor aproveitou a ocasi\u00e3o para meter a espiga. Pois isto \u00e9 cara decente? Eu tenho este bra\u00e7o torto?<\/p>\n<p>&#8212; Que ladr\u00e3o !<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, ele n\u00e3o tem culpa, fez o seu neg\u00f3cio; voc\u00ea \u00e9 que n\u00e3o tem o sentimento da arte, nem pr\u00e1tica, e espichou-se redondamente. A inten\u00e7\u00e3o foi boa, creio&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sim, a inten\u00e7\u00e3o foi boa.<\/p>\n<p>&#8212; E aposto que j\u00e1 pagou?<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves abanou a cabe\u00e7a, chamou-lhe ignorante e acabou rindo. Quintanilha, vexado e aborrecido, olhava para a tela, at\u00e9 que sacou de um canivete e rasgou-a de alto a baixo. Como se n\u00e3o bastasse esse gesto de vingan\u00e7a, devolveu a pintura ao artista com um bilhete em que lhe transmitiu alguns dos nomes recebidos e mais o de asno. A vida tem muitas de tais pagas. Demais, uma letra de Gon\u00e7alves que se venceu dali a dias e que este n\u00e3o p\u00f4de pagar, veio trazer ao esp\u00edrito de Quintanilha uma divers\u00e3o. Quase brigaram, a id\u00e9ia de Gon\u00e7alves era reformar a letra; Quintanilha, que era o endossante, entendia n\u00e3o valer a pena pedir o favor por t\u00e3o escassa quantia (um conto e quinhentos), ele emprestaria o valor da letra, e o outro que lhe pagasse, quando pudesse. Gon\u00e7alves n\u00e3o consentiu e fez-se a reforma. Quando, ao fim dela, a situa\u00e7\u00e3o se repetiu, o mais que este admitiu foi aceitar uma letra de Quintanilha, com o mesmo juro.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que me envergonha, Gon\u00e7alves? Pois eu hei de receber juro de voc\u00ea&#8230;?<\/p>\n<p>&#8212; Ou recebe, ou n\u00e3o fazemos nada.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, meu querido&#8230;<\/p>\n<p>Teve que concordar. A uni\u00e3o dos dous era tal que uma senhora chamava-lhes os &#8220;casadinhos de fresco&#8221;, e um letrado, P\u00edlades e Orestes. Eles riam, naturalmente, mas o riso de Quintanilha trazia alguma cousa parecida com l\u00e1grimas: era, nos olhos, uma ternura \u00famida. Outra diferen\u00e7a \u00e9 que o sentimento de Quintanilha tinha uma nota de entusiasmo, que absolutamente faltava ao de Gon\u00e7alves; mas, entusiasmo n\u00e3o se inventa. \u00c9 claro que o segundo era mais capaz de inspir\u00e1-lo ao primeiro do que este a ele. Em verdade, Quintanilha era mui sens\u00edvel a qualquer distin\u00e7\u00e3o; uma palavra, um olhar bastava a acender-lhe o c\u00e9rebro. Uma pancadinha no ombro ou no ventre, com o fim de aprov\u00e1-lo ou s\u00f3 acentuar a intimidade, era para derret\u00ea-lo de prazer. Contava o gesto e as circunst\u00e2ncias durante dous e tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>N\u00e3o era raro v\u00ea-lo irritar-se, teimar, descompor os outros. Tamb\u00e9m era comum v\u00ea-lo rir-se; alguma vez o riso era universal, entornava-se-lhe da boca, dos olhos, da testa, dos bra\u00e7os, das pernas, todo ele era um riso \u00fanico. Sem ter paix\u00f5es, estava longe de ser ap\u00e1tico.<\/p>\n<p>A letra sacada contra Gon\u00e7alves tinha o prazo de seis meses. No dia do vencimento , n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o pensou em cobr\u00e1-la , mas resolveu ir jantar a algum arrabalde para n\u00e3o ver o amigo, se fosse convidado \u00e0 reforma. Gon\u00e7alves destruiu todo esse plano; logo cedo, foi levar-lhe o dinheiro. O primeiro gesto de Quintanilha foi recus\u00e1-lo, dizendo-lhe que o guardasse, podia precisar dele; o devedor teimou em pagar e pagou.<\/p>\n<p>Quintanilha acompanhava os atos de Gon\u00e7alves; via a const\u00e2ncia do seu trabalho, o zelo que ele punha na defesa das demandas, e vivia cheio de admira\u00e7\u00e3o. Realmente, n\u00e3o era grande advogado, mas na medida das suas habilita\u00e7\u00f5es, era distinto.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea por que n\u00e3o se casa? perguntou-lhe um dia; um advogado precisa casar.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves respondia rindo. Tinha uma tia, \u00fanica parenta, a quem ele queria muito, e que lhe morreu, quando eles iam em trinta anos. Dias depois, dizia ao amigo:<\/p>\n<p>&#8212; Agora s\u00f3 me resta voc\u00ea.<\/p>\n<p>Quintanilha sentiu os olhos molhados, e n\u00e3o achou que lhe respondesse. Quando se lembrou de dizer que &#8220;iria at\u00e9 \u00e0 morte&#8221; era tarde. Redobrou ent\u00e3o de carinhos, e um dia acordou com a id\u00e9ia de fazer testamento. Sem revelar nada ao outro, nomeou-o testamenteiro e herdeiro universal.<\/p>\n<p>&#8212; Guarde-me este papel, Gon\u00e7alves, disse-lhe entregando o testamento. Sinto-me forte, mas a morte \u00e9 f\u00e1cil, e n\u00e3o quero confiar a qualquer pessoa as minhas \u00faltimas vontades.<\/p>\n<p>Foi por esse tempo que sucedeu um caso que vou contar.<\/p>\n<p>Quintanilha tinha uma prima segunda, Camila, mo\u00e7a de vinte e dous anos, modesta, educada e bonita. N\u00e3o era rica; o pai, Jo\u00e3o Bastos, era guarda-livros de uma casa de caf\u00e9. Haviam brigado por ocasi\u00e3o da heran\u00e7a; mas, Quintanilha foi ao enterro da mulher de Jo\u00e3o Bastos, e este ato de piedade novamente os ligou. Jo\u00e3o Bastos esqueceu facilmente alguns nomes crus que dissera do primo, chamou-lhe outros nomes doces, e pediu-lhe que fosse jantar com ele. Quintanilha foi e tornou a ir. Ouviu ao primo o elogio da finada mulher; numa ocasi\u00e3o em que Camila os deixou s\u00f3s, Jo\u00e3o Bastos louvou as raras prendas da filha, que afirmava haver recebido integralmente a heran\u00e7a moral da m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o direi isto nunca \u00e0 pequena, nem voc\u00ea lhe diga nada. \u00c9 modesta, e, se come\u00e7armos a elogi\u00e1-la, pode perder-se. Assim, por exemplo, nunca lhe direi que \u00e9 t\u00e3o bonita como foi a m\u00e3e, quando tinha a idade dela; pode ficar vaidosa. Mas a verdade \u00e9 que \u00e9 mais, n\u00e3o lhe parece? Tem ainda o talento de tocar piano, que a m\u00e3e n\u00e3o possu\u00eda.<\/p>\n<p>Quando Camila voltou \u00e0 sala de jantar, Quintanilha sentiu vontade de lhe descobrir tudo, conteve-se e piscou o olho ao primo. Quis ouvi-la ao piano; ela respondeu, cheia de melancolia:<\/p>\n<p>&#8212; Ainda n\u00e3o, h\u00e1 apenas um m\u00eas que mam\u00e3e faleceu, deixe passar mais tempo. Demais, eu toco mal.<\/p>\n<p>&#8212; Mal?<\/p>\n<p>&#8212; Muito mal.<\/p>\n<p>Quintanilha tornou a piscar o olho ao primo, e ponderou \u00e0 mo\u00e7a que a prova de tocar bem ou mal s\u00f3 se dava ao piano. Quanto ao prazo, era certo que apenas passara um m\u00eas; todavia era tamb\u00e9m certo que a m\u00fasica era uma distra\u00e7\u00e3o natural e elevada. Al\u00e9m disso, bastava tocar um peda\u00e7o triste. Jo\u00e3o Bastos aprovou este modo de ver e lembrou uma composi\u00e7\u00e3o eleg\u00edaca. Camila abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o, sempre \u00e9 tocar piano; os vizinhos s\u00e3o capazes de inventar que eu toquei uma polca.<\/p>\n<p>Quintanilha achou gra\u00e7a e riu. Depois concordou e esperou que os tr\u00eas meses fossem passados. At\u00e9 l\u00e1, viu a prima algumas vezes, sendo as tr\u00eas \u00faltimas visitas mais pr\u00f3ximas e longas. Enfim, p\u00f4de ouvi-la tocar piano, e gostou. O pai confessou que, ao princ\u00edpio, n\u00e3o gostava muito daquelas m\u00fasicas alem\u00e3s; com o tempo e o costume achou-lhes sabor. Chamava \u00e0 filha &#8220;a minha alem\u00e3zinha&#8221;, apelido que foi adotado por Quintanilha apenas modificado para o plural: &#8220;a nossa alem\u00e3zinha&#8221;. Pronomes possessivos d\u00e3o intimidade; dentro em pouco, ela existia entre os tr\u00eas,&#8211; ou quatro, se contarmos Gon\u00e7alves, que ali foi apresentado pelo amigo;&#8211; mas fiquemos nos tr\u00eas.<\/p>\n<p>Que ele \u00e9 cousa j\u00e1 farejada por ti, leitor sagaz. Quintanilha acabou gostando da mo\u00e7a. Como n\u00e3o, se Camila tinha uns longos olhos mortais? N\u00e3o \u00e9 que os pousasse muita vez nele, e, se o fazia, era com tal ou qual constrangimento, a princ\u00edpio, como as crian\u00e7as que obedecem sem vontade \u00e0s ordens do mestre ou do pai; mas pousava-os, e eles eram tais que, ainda sem inten\u00e7\u00e3o, feriam de morte. Tamb\u00e9m sorria com freq\u00fc\u00eancia e falava com gra\u00e7a. Ao piano, e por mais aborrecida que tocasse, tocava bem. Em suma, Camila n\u00e3o faria obra de impulso pr\u00f3prio, sem ser por isso menos feiticeira. Quintanilha descobriu um dia de manh\u00e3 que sonhara com ela a noite toda, e \u00e0 noite que pensara nela todo o dia. e concluiu da descoberta que a amava e era amado. T\u00e3o tonto ficou que esteve prestes a imprimi-lo nas folhas p\u00fablicas. Quando menos, quis diz\u00ea-lo ao amigo Gon\u00e7alves e correu ao escrit\u00f3rio deste. A afei\u00e7\u00e3o de Quintanilha complicava-se de respeito e temor. Quase a abrir a boca, enguliu outra vez o segredo. N\u00e3o ousou diz\u00ea-lo nesse dia nem no outro. Antes dissesse; talvez fosse tempo de vencer a campanha. Adiou a revela\u00e7\u00e3o por uma semana. Um dia foi jantar com o amigo, e, depois de muitas hesita\u00e7\u00f5es, disse-lhe tudo; amava a prima e era amado.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea aprova, Gon\u00e7alves?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves empalideceu, &#8212; ou, pelo menos, ficou s\u00e9rio; nele a seriedade confundia-se com a palidez. Mas, n\u00e3o; verdadeiramente ficou p\u00e1lido.<\/p>\n<p>&#8212; Aprova? repetiu Quintanilha.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s alguns segundos, Gon\u00e7alves ia abrir a boca para responder, mas fechou-a de novo, e fitou os olhos &#8220;em ontem&#8221;, como ele mesmo dizia de si, quando os estendia ao longe. Em v\u00e3o Quintanilha teimou em saber o que era, o que pensava, se aquele amor era asneira. Estava t\u00e3o acostumado a ouvir-lhe este voc\u00e1bulo que j\u00e1 lhe n\u00e3o do\u00eda nem afrontava, ainda em mat\u00e9ria t\u00e3o melindrosa e pessoal. Gon\u00e7alves tornou a si daquela medita\u00e7\u00e3o, sacudiu os ombros, com ar desenganado, e murmurou esta palavra t\u00e3o surdamente que o outro mal a p\u00f4de ouvir:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o me pergunte nada; fa\u00e7a o que quiser.<\/p>\n<p>&#8212; Gon\u00e7alves, que \u00e9 isso? perguntou Quintanilha, pegando-lhe nas m\u00e3os, assustado.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves soltou um grande suspiro, que, se tinha asas, ainda agora estar\u00e1 voando. Tal foi, sem esta forma paradoxal, a impress\u00e3o de Quintanilha. O rel\u00f3gio da sala de jantar bateu oito horas, Gon\u00e7alves alegou que ia visitar um desembargador, e o outro despediu-se.<\/p>\n<p>Na rua, Quintanilha parou atordoado. N\u00e3o acabava de entender aqueles gestos, aquele suspiro, aquela palidez, todo o efeito misterioso da not\u00edcia dos seus amores. Entrara e falara, disposto a ouvir do outro um ou mais daqueles ep\u00edtetos costumados e amigos, idiota, cr\u00e9dulo, paspalh\u00e3o, e n\u00e3o ouviu nenhum. Ao contr\u00e1rio, havia nos gestos de Gon\u00e7alves alguma cousa que pegava com o respeito. N\u00e3o se lembrava de nada, ao jantar, que pudesse t\u00ea-lo ofendido; foi s\u00f3 depois de lhe confiar o sentimento novo que trazia a respeito da prima que o amigo ficou acabrunhado.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, n\u00e3o pode ser, pensava ele; o que \u00e9 que Camila tem que n\u00e3o possa ser boa esposa?&#8221;<\/p>\n<p>Nisto gastou, parado, defronte da casa, mais de meia hora. Advertiu ent\u00e3o que Gon\u00e7alves n\u00e3o sa\u00edra. Esperou mais meia hora, nada. Quis entrar outra vez, abra\u00e7\u00e1-lo, interrog\u00e1-lo&#8230; N\u00e3o teve for\u00e7as; enfiou pela rua fora, desesperado. Chegou \u00e0 casa de Jo\u00e3o Bastos, e n\u00e3o viu Camila; tinha-se recolhido, constipada. Queria justamente contar-lhe tudo, e aqui \u00e9 preciso explicar que ele ainda n\u00e3o se havia declarado \u00e0 prima. Os olhares da mo\u00e7a n\u00e3o fugiam dos seus; era tudo, e podia n\u00e3o passar de faceirice. Mas o lance n\u00e3o podia ser melhor para clarear a situa\u00e7\u00e3o. Contando o que se passara com o amigo, tinha o ensejo de lhe fazer saber que a amava e ia pedi-la ao pai. Era uma consola\u00e7\u00e3o no meio daquela agonia; o acaso negou-lha, e Quintanilha saiu da casa, pior do que entrara. Recolheu-se \u00e0 sua.<\/p>\n<p>N\u00e3o dormiu antes das duas horas da manh\u00e3, e n\u00e3o foi para repouso, sen\u00e3o para agita\u00e7\u00e3o maior e nova. Sonhou que ia a atravessar uma ponte velha e longa, entre duas montanhas, e a meio caminho viu surdir debaixo um vulto e fincar os p\u00e9s defronte dele. Era Gon\u00e7alves. &#8220;-Infame, disse este com os olhos acesos, por que me vens tirar a noiva de meu cora\u00e7\u00e3o, a mulher que eu amo e \u00e9 minha? Toma, toma logo o meu cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais completo.&#8221; E com um gesto r\u00e1pido abriu o peito, arrancou o cora\u00e7\u00e3o e meteu-lho na boca. Quintanilha tentou pegar da v\u00edscera amiga e rep\u00f4-la no peito de Gon\u00e7alves; foi imposs\u00edvel. Os queixos acabaram por fech\u00e1-la. Quis cuspi-la, e foi pior; os dentes cravaram-se no cora\u00e7\u00e3o. Quis falar, mas v\u00e1 algu\u00e9m falar com a boca cheia daquela maneira. Afinal o amigo ergueu os bra\u00e7os e estendeu-lhe as m\u00e3os com o gesto de maldi\u00e7\u00e3o que ele vira nos melodramas, em dias de rapaz; logo depois, brotaram-lhe dos olhos duas imensas l\u00e1grimas, que encheram o vale de \u00e1gua, atirou-se abaixo e desapareceu. Quintanilha acordou sufocado.<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o do pesadelo era tal que ele ainda levou as m\u00e3os \u00e0 boca, para arrancar de l\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o do amigo. Achou a l\u00edngua somente, esfregou os olhos e sentou-se. Onde estava? Que era? E a ponte? E o Gon\u00e7alves? Voltou a si de todo, compreendeu e novamente se deitou, para outra ins\u00f4nia, menor que a primeira, \u00e9 certo; veio a dormir \u00e0s quatro horas.<\/p>\n<p>De dia, rememorando toda a v\u00e9spera, realidade e sonho, chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que o amigo Gon\u00e7alves era seu rival, amava a prima dele, era talvez amado por ela&#8230; Sim, sim, podia ser. Quintanilha passou duas horas cru\u00e9is. Afinal pegou em si e foi ao escrit\u00f3rio de Gon\u00e7alves, para saber tudo de uma vez; e, se fosse verdade, sim, se fosse verdade&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves redigia umas raz\u00f5es de embargo. Interrompeu-as para fit\u00e1-lo um instante, erguer-se, abrir o arm\u00e1rio de ferro, onde guardava os pap\u00e9is graves, tirar de l\u00e1 o testamento de Quintanilha, e entreg\u00e1-lo ao testador.<\/p>\n<p>&#8212; Que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea vai mudar de estado, respondeu Gon\u00e7alves, sentando-se \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Quintanilha sentiu-lhe l\u00e1grimas na voz; assim lhe pareceu, ao menos. Pediu-lhe que guardasse o testamento; era o seu deposit\u00e1rio natural. Instou muito; s\u00f3 lhe respondia o som \u00e1spero da pena correndo no papel. N\u00e3o corria bem a pena, a letra era tremida, as emendas mais numerosas que de costume, provavelmente as datas erradas. A consulta dos livros era feita com tal melancolia que entristecia o outro. \u00c0s vezes, parava tudo, pena e consulta, para s\u00f3 ficar o olhar fito &#8220;em ontem&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; Entendo, disse Quintanilha subitamente, ela ser\u00e1 tua.<\/p>\n<p>&#8212; Ela quem? quis perguntar Gon\u00e7alves, mas j\u00e1 o amigo voava escada abaixo, como uma flecha, e ele continuou as suas raz\u00f5es de embargo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se adivinha todo o resto; basta saber o final. Nem se adivinha nem se cr\u00ea; mas a alma humana \u00e9 capaz de esfor\u00e7os grandes, no bem como no mal. Quintanilha fez outro testamento, legando tudo \u00e0 prima, com a condi\u00e7\u00e3o de desposar o amigo. Camila n\u00e3o aceitou o testamento, mas ficou t\u00e3o contente, quando o primo lhe falou das l\u00e1grimas de Gon\u00e7alves, que aceitou Gon\u00e7alves e as l\u00e1grimas. Ent\u00e3o Quintanilha n\u00e3o achou melhor rem\u00e9dio que fazer terceiro testamento legando tudo ao amigo.<\/p>\n<p>O final da hist\u00f3ria foi dito em latim. Quintanilha serviu de testemunha ao noivo, e de padrinho aos dous primeiros filhos. Um dia em que, levando doces para os afilhados, atravessava a Pra\u00e7a Quinze de Novembro, recebeu uma bala revoltosa (1893) que o matou quase instantaneamente. Est\u00e1 enterrado no cemit\u00e9rio de S. Jo\u00e3o Batista; a sepultura \u00e9 simples, a pedra tem um epit\u00e1fio que termina com esta pia frase: &#8220;Orai por ele!&#8221; \u00c9 tamb\u00e9m o fecho da minha hist\u00f3ria. Orestes vive ainda, sem os remorsos do modelo grego. Pilades \u00e9 agora o personagem mudo de S\u00f3focles. Orai por ele!<\/p>\n<h3>ANEDOTA DO CABRIOLET<\/h3>\n<p>&#8212; CABRIOLET est\u00e1 a\u00ed, sim senhor, dizia o preto que viera \u00e0 matriz de S. Jos\u00e9 chamar o vig\u00e1rio para sacramentar dous moribundos.<\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o de hoje n\u00e3o viu a entrada e a sa\u00edda do cabriolet no Rio de Janeiro. Tamb\u00e9m n\u00e3o saber\u00e1 do tempo em que o cab e o tilbury vieram para o rol dos nossos ve\u00edculos de pra\u00e7a ou particulares. O cab durou pouco. O tilbury, anterior aos dous, promete ir \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ru\u00ednas, achar-se-\u00e1 um parado, com o cavalo e o cocheiro em ossos esperando o fregu\u00eas do costume. A paci\u00eancia ser\u00e1 a mesma de hoje, por mais que chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol, porque juntar\u00e1 a pr\u00f3pria atual \u00e0 do espectro dos tempos. O arque\u00f3logo dir\u00e1 cousas raras sobre os tr\u00eas esqueletos. O cabriolet n\u00e3o teve hist\u00f3ria; deixou apenas a anedota que vou dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Dous! exclamou o sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhor, dous, nh\u00e3 Anunciada e nh\u00f4 Pedrinho. Coitado de nh\u00f4 Pedrinho! E nh\u00e3 Anunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando de um lado para outro, aflito, fora de si.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m que leia isto com a alma turva de d\u00favidas, \u00e9 natural que pergunte se o preto sentia deveras, ou se queria picar a curiosidade do coadjutor e do sacrist\u00e3o. Eu estou que tudo se pode combinar neste mundo, como no outro. Creio que ele sentia deveras; n\u00e3o descreio que ansiasse por dizer alguma hist\u00f3ria terr\u00edvel. Em todo caso, nem o coadjutor nem o sacrist\u00e3o lhe perguntavam nada.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que o sacrist\u00e3o n\u00e3o fosse curioso. Em verdade, pouco mais era que isso. Trazia a par\u00f3quia de cor; sabia os nomes \u00e0s devotas, a vida delas, a dos maridos e a dos pais, as prendas e os recursos de cada uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as saudades das vi\u00favas. Pesquisava tudo: nos intervalos ajudava a missa e o resto. Chamava-se Jo\u00e3o das Merc\u00eas, homem quarent\u00e3o, pouca barba e grisalho, magro e me\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Que Pedrinho e que Anunciada ser\u00e3o esses?&#8221; dizia consigo, acompanhando o coadjutor.<\/p>\n<p>Embora ardesse por sab\u00ea-los, a presen\u00e7a do coadjutor impediria qualquer pergunta. Este ia t\u00e3o calado e pio, caminhando para a porta da igreja, que era for\u00e7a mostrar o mesmo sil\u00eancio e piedade que ele. Assim foram andando. O cabriolet esperava-os; o cocheiro desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, enquanto o padre e o sacrist\u00e3o entravam e o ve\u00edculo enfiava pela Rua da Miseric\u00f3rdia. O preto desandou o caminho a passo largo.<\/p>\n<p>Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no c\u00e9u, se as h\u00e1, e os pensamentos nas cabe\u00e7as, se os t\u00eam. A do sacrist\u00e3o tinha-os v\u00e1rios e confusos. N\u00e3o era acerca do Nosso-Pai, embora soubesse ador\u00e1-lo, nem da \u00e1gua benta e do hissope que levava; tamb\u00e9m n\u00e3o era acerca da hora, &#8212; oito e quarto da noite, &#8212; ali\u00e1s, o c\u00e9u estava claro e a lua ia aparecendo. O pr\u00f3prio cabriolet, que era novo na terra, e substitu\u00eda neste caso a sege, esse mesmo ve\u00edculo n\u00e3o ocupava o c\u00e9rebro todo de Jo\u00e3o das Merc\u00eas, a n\u00e3o ser na parte que pegava com nh\u00f4 Pedrinho e nh\u00e3 Anunciada.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 de ser gente nova, ia pensando o sacrist\u00e3o, mas h\u00f3spede em alguma casa, decerto, porque n\u00e3o h\u00e1 casa vazia na praia, e o n\u00famero \u00e9 da do Comendador Brito. Parentes, ser\u00e3o? Que parentes, se nunca ouvi&#8230; ? Amigos, n\u00e3o sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas ent\u00e3o mandariam cabriolet? Este mesmo preto \u00e9 novo na casa; h\u00e1 de ser escravo de um dos moribundos, ou de ambos.&#8221;<\/p>\n<p>Era assim que Jo\u00e3o das Merc\u00eas ia cogitando, e n\u00e3o foi por muito tempo. O cabriolet parou \u00e0 porta de um sobrado, justamente a casa do Comendador Brito, Jos\u00e9 Martins de Brito. J\u00e1 havia algumas pessoas embaixo com velas, o padre e o sacrist\u00e3o apearam-se e subiram a escada, acompanhados do comendador. A esposa deste, no patamar, beijou o anel ao padre. Gente grande, crian\u00e7as, escravos, um burburinho surdo, meia claridade, e os dous moribundos \u00e0 espera, cada um no seu quarto, ao fundo.<\/p>\n<p>Tudo se passou, como \u00e9 de uso e regra, em tais ocasi\u00f5es. Nh\u00f4 Pedrinho foi absolvido e ungido, nh\u00e3 Anunciada tamb\u00e9m, e o coadjutor despediu-se da casa para tornar \u00e0 matriz com o sacrist\u00e3o. Este n\u00e3o se despediu do comendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram parentes seus. N\u00e3o, n\u00e3o eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de um sobrinho que vivia em Campinas; uma hist\u00f3ria terr\u00edvel&#8230; Os olhos de Jo\u00e3o das Merc\u00eas escutaram arregaladamente estas duas palavras, e disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto &#8212; talvez naquela mesma noite. Tudo foi r\u00e1pido, porque o padre descia a escada, era for\u00e7a ir com ele.<\/p>\n<p>Foi t\u00e3o curta a moda do cabriolet que este provavelmente n\u00e3o levou outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anedota, que vou acabar j\u00e1, t\u00e3o escassa foi ela, uma anedota de nada. N\u00e3o importa. Qualquer que fosse o tamanho ou a import\u00e2ncia, era sempre uma fatia de vida para o sacrist\u00e3o, que ajudou o padre a guardar o p\u00e3o sagrado, a despir a sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu, enfim, a p\u00e9, rua acima, praia fora, at\u00e9 parar \u00e0 porta do comendador.<\/p>\n<p>Em caminho foi evocando toda a vida daquele homem, antes e depois da comenda. Comp\u00f4s o neg\u00f3cio, que era fornecimento de navios, creio eu, a fam\u00edlia, as festas dadas, os cargos paroquiais, comerciais e eleitorais, e daqui aos boatos e anedotas n\u00e3o houve mais que um passo ou dois. A grande mem\u00f3ria de Jo\u00e3o das Merc\u00eas guardava todas as cousas, m\u00e1ximas e m\u00ednimas, com tal nitidez que pareciam da v\u00e9spera, e t\u00e3o completas que nem o pr\u00f3prio objeto delas era capaz de as repetir iguais. Sabia-as como o padre-nosso, isto \u00e9 sem pensar nas palavras; ele rezava tal qual comia, mastigando a ora\u00e7\u00e3o, que lhe sa\u00eda dos queixos sem sentir. Se a regra mandasse rezar tr\u00eas d\u00fazias de padre-nossos seguidamente, Jo\u00e3o das Merc\u00eas os diria sem contar. Tal era com as vidas alheias; amava sab\u00ea-las, pesquisava-as, decorava-as, e nunca mais lhe sa\u00edam da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Na par\u00f3quia todos lhe queriam bem, porque ele n\u00e3o enredava nem maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez nem era preciso perguntar nada. Jos\u00e9 dizia-lhe a vida de Ant\u00f4nio e Ant\u00f4nio a de Jos\u00e9. O que ele fazia era ratificar ou retificar um com outro, e os dous com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim \u00e9 que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, \u00e0 pr\u00f3pria missa, recordava uma anedota da v\u00e9spera, e, a princ\u00edpio, pedia perd\u00e3o a Deus; deixou de lho pedir quando refletiu que n\u00e3o falhava uma s\u00f3 palavra ou gesto do santo sacrif\u00edcio, t\u00e3o consubstanciados os trazia em si. A anedota que ent\u00e3o revivia por instantes era como a andorinha que atravessa uma paisagem. A paisagem fica sendo a mesma, e a \u00e1gua, se h\u00e1 \u00e1gua, murmura o mesmo som. Esta compara\u00e7\u00e3o, que era dele, valia mais do que ele pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz parte da paisagem, e a anedota fazia nele parte da pessoa, era um dos seus atos de viver.<\/p>\n<p>Quando chegou \u00e0 casa do comendador, tinha desfiado o ros\u00e1rio da vida deste, e entrou com o p\u00e9 direito para n\u00e3o sair mal. N\u00e3o pensou em sair cedo, por mais aflita que fosse a ocasi\u00e3o, e nisto a fortuna o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher, quando lhe vieram dizer que Jo\u00e3o das Merc\u00eas perguntava pelo estado dos moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacrist\u00e3o entrou pedindo desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrara-se de saber se os enfermos tinham ido para o c\u00e9u, &#8212; ou se ainda eram deste mundo. Tudo o que dissesse respeito ao comendador seria ouvido por ele com interesse.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o morreram, nem sei se escapar\u00e3o, quando menos, ela creio que morrer\u00e1, concluiu Brito.<\/p>\n<p>&#8212; Parecem bem mal.<\/p>\n<p>&#8212; Ela, principalmente; tamb\u00e9m \u00e9 a que mais padece da febre. A febre os pegou aqui em nossa casa, logo que chegaram de Campinas, h\u00e1 dias.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 estavam aqui? perguntou o sacrist\u00e3o, pasmado de o n\u00e3o saber.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1; chegaram h\u00e1 quinze dias, &#8212; ou quatorze. Vieram com o meu sobrinho Carlos e aqui apanharam a doen\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Brito interrompeu o que ia dizendo; assim pareceu ao sacrist\u00e3o, que p\u00f4s no semblante toda a express\u00e3o de pessoa que espera o resto. Entretanto, como o outro estivesse a morder os bei\u00e7os e a olhar para as paredes, n\u00e3o viu o gesto de espera, e ambos se detiveram calados. Brito acabou andando ao longo da sala, enquanto Jo\u00e3o das Merc\u00eas dizia consigo que havia alguma cousa mais que febre. A primeira id\u00e9ia que lhe acudiu foi se os m\u00e9dicos teriam errado na doen\u00e7a ou no rem\u00e9dio, tamb\u00e9m pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre para encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o comendador, enquanto este andava e desandava a sala toda, apagando os passos para n\u00e3o aborrecer mais os que estavam dentro. De l\u00e1 vinha algum murm\u00fario de conversa\u00e7\u00e3o, chamado, recado, porta que se abria ou fechava. Tudo isso era cousa nenhuma para quem tivesse outro cuidado, mas o nosso sacrist\u00e3o j\u00e1 agora n\u00e3o tinha mais que saber o que n\u00e3o sabia. Quando menos, a fam\u00edlia dos enfermos, a posi\u00e7\u00e3o, o atual estado, alguma p\u00e1gina da vida deles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que fosse da par\u00f3quia.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! exclamou Brito estacando o passo.<\/p>\n<p>Parecia haver nele o desejo impaciente de referir um caso, &#8212; a &#8220;hist\u00f3ria terr\u00edvel&#8221;, que anunciara ao sacrist\u00e3o, pouco antes; mas nem este ousava pedi-la nem aquele diz\u00ea-la, e o comendador pegou a andar outra vez.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o das Merc\u00eas sentou-se. Viu bem que em tal situa\u00e7\u00e3o cumpria despedir-se com boas palavras de esperan\u00e7a ou de conforto, e voltar no dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. N\u00e3o viu na cara do outro nenhum sinal de reprova\u00e7\u00e3o do seu gesto; ao contr\u00e1rio, ele parou defronte e suspirou com grande cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8212; Triste, sim, triste, concordou Jo\u00e3o das Merc\u00eas. Boas pessoas, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Iam casar.<\/p>\n<p>&#8212; Casar? Noivos um do outro?<\/p>\n<p>Brito confirmou de cabe\u00e7a. A nota era melanc\u00f3lica, mas n\u00e3o havia sinal da hist\u00f3ria terr\u00edvel anunciada, e o sacrist\u00e3o esperou por ela. Observou consigo que era a primeira vez que ouvia alguma cousa de gente que absolutamente n\u00e3o conhecia. As caras, vistas h\u00e1 pouco eram o \u00fanico sinal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso. Iam casar&#8230; Podia ser que a hist\u00f3ria terr\u00edvel fosse isso mesmo. Em verdade, atacados de um mal na v\u00e9spera de um bem, o mal devia ser terr\u00edvel. Noivos e moribundos&#8230;<\/p>\n<p>Vieram trazer recado ao dono da casa; este pediu licen\u00e7a ao sacrist\u00e3o, t\u00e3o depressa que nem deu tempo a que ele se despedisse e sa\u00edsse. Correu para dentro, e l\u00e1 ficou cinq\u00fcenta minutos. Ao cabo, chegou \u00e0 sala um pranto sufocado; logo ap\u00f3s, tornou o comendador.<\/p>\n<p>&#8212; Que lhe dizia eu, h\u00e1 pouco? Quando menos, ela ia morrer; morreu.<\/p>\n<p>Brito disse isto sem l\u00e1grimas e quase sem tristeza. Conhecia a defunta de pouco tempo. As l\u00e1grimas, segundo referiu, eram do sobrinho de Campinas e de uma parenta da defunta, que morava em Mata-porcos. Da\u00ed a supor que o sobrinho do comendador gostasse da noiva do moribundo foi um instante para o sacrist\u00e3o, mas n\u00e3o se lhe pegou a id\u00e9ia por muito tempo; n\u00e3o era for\u00e7oso, e depois se ele pr\u00f3prio os acompanhara&#8230; Talvez fosse padrinho de casamento. Quis saber, e era natural, &#8212; o nome da defunta. O dono da casa, &#8212; ou por n\u00e3o querer dar-lho, &#8212; ou porque outra id\u00e9ia lhe tomasse agora a cabe\u00e7a, &#8212; n\u00e3o declarou o nome da noiva, nem do noivo. Ambas as causas seriam.<\/p>\n<p>&#8212; Iam casar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Deus a receber\u00e1 em sua santa guarda, e a ele tamb\u00e9m, se vier a expirar, disse o sacrist\u00e3o cheio de melancolia.<\/p>\n<p>E esta palavra bastou a arrancar metade do segredo que parece ansiava por sair da boca do fornecedor de navios. Quando Jo\u00e3o das Merc\u00eas lhe viu a express\u00e3o dos olhos, o gesto com que o levou janela, e o pedido que lhe fez de jurar,&#8211; jurou por todas as almas dos seus que ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confid\u00eancias alheias, mormente as de pessoas gradas e honradas como era o comendador. Ao que este se deu por satisfeito e animado, e ent\u00e3o lhe confiou a primeira metade do segredo, a qual era que os dous noivos, criados juntos, vinham casar aqui quando souberam, pela parenta de Mata-porcos, uma not\u00edcia abomin\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E foi&#8230;? precipitou-se em dizer Jo\u00e3o das Merc\u00eas, sentindo alguma hesita\u00e7\u00e3o no comendador.<\/p>\n<p>&#8212; Que eram irm\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8212; Irm\u00e3os como? Irm\u00e3os de verdade?<\/p>\n<p>&#8212; De verdade; irm\u00e3os por parte de m\u00e3e. O pai \u00e9 que n\u00e3o era o mesmo. A parenta n\u00e3o lhes disse tudo nem claro, mas jurou que era assim, e eles ficaram fulminados durante um dia ou mais&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o das Merc\u00eas n\u00e3o ficou menos espantado que eles; disp\u00f4s-se a n\u00e3o sair dali sem saber o resto. Ouviu dez horas, ouviria todas as demais da noite, velaria o cad\u00e1ver de um ou de ambos, uma vez que pudesse juntar mais esta p\u00e1gina \u00e0s outras da par\u00f3quia, embora n\u00e3o fosse da par\u00f3quia.<\/p>\n<p>&#8212; E vamos, vamos, foi ent\u00e3o que a febre os tomou&#8230;?<\/p>\n<p>Brito cerrou os dentes para n\u00e3o dizer mais nada. Como, por\u00e9m, o viessem chamar de dentro, acudiu depressa, e meia hora depois estava de volta, com a nova do segundo passamento. O choro, agora mais fraco, posto que mais esperado, n\u00e3o havendo j\u00e1 de quem o esconder, trouxera a not\u00edcia ao sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; L\u00e1 se foi o outro, o irm\u00e3o, o noivo. . . Que Deus lhes perdoe! Saiba agora tudo, meu amigo. Saiba que eles se queriam tanto que alguns dias depois de conhecido o impedimento natural e can\u00f4nico do cons\u00f3rcio, pegaram de si e, fiados em serem apenas meios irm\u00e3os e n\u00e3o irm\u00e3os inteiros, meteram-se em um cabriolet e fugiram de casa. Dado logo o alarma, alcan\u00e7amos pegar o cabriolet em caminho da Cidade Nova, e eles ficaram t\u00e3o pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre e acabam de morrer.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode escrever o que sentiu o sacrist\u00e3o, ouvindo-lhe este caso. Guardou-o por algum tempo, com dificuldade. Soube os nomes das pessoas pelo obitu\u00e1rio dos jornais, e combinou as circunst\u00e2ncias ouvidas ao comendador com outras. Enfim, sem se ter por indiscreto, espalhou a hist\u00f3ria, s\u00f3 com esconder os nomes e cont\u00e1-la a um amigo, que a passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais; meteu-se-lhe em cabe\u00e7a que o cabriolet da fuga podia ser o mesmo dos \u00faltimos sacramentos; foi \u00e0 cocheira, conversou familiarmente com um empregado, e descobriu que sim. Donde veio chamar-se a esta p\u00e1gina a &#8220;anedota do cabriolet.&#8221;<\/p>\n<h3>P\u00c1GINAS CR\u00cdTICAS E COMEMORATIVAS<\/h3>\n<p>1. GON\u00c7ALVES DIAS<br \/>\n2. UM LIVRO (CENA DA VIDA AMAZ\u00d4NICA)<br \/>\n3. EDUARDO PRADO<br \/>\n4. ANT\u00d4NIO JOS\u00c9<\/p>\n<h3>GON\u00c7ALVES DIAS<\/h3>\n<p>Discurso lido no Passeio P\u00fablico, ao inaugurar-se o busto de Gon\u00e7alves Dias.<\/p>\n<p>SR. Prefeito do Distrito Federal,<\/p>\n<p>A comiss\u00e3o que tomou a si erguer este monumento, incumbiu-me, como presidente da Academia Brasileira, de o entregar a V. Ex.a, como representante da cidade. O encargo \u00e9 n\u00e3o somente honroso, mas particularmente agrad\u00e1vel \u00e0 Academia e a mim.<\/p>\n<p>Se eu houvesse de dizer tudo o que este busto exprime para n\u00f3s, faria um discurso, e \u00e9 justamente o que os autores da homenagem n\u00e3o devem querer neste momento. Conta Renan que, uma hora antes dos funerais de George Sand, quando alguns cogitavam no que convinha proferir \u00e0 beira da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um rouxinol. &#8220;Ah! eis o verdadeiro discurso!&#8221; disseram eles consigo. O mesmo seria aqui, se cantasse um sabi\u00e1. A ave do nosso grande poeta seria o melhor discurso da ocasi\u00e3o. Ela repetiria \u00e0 alma de todos aquela can\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio que ensinou aos ouvidos da antiga m\u00e3e-p\u00e1tria uma li\u00e7\u00e3o nova da l\u00edngua de Cam\u00f5es. N\u00e3o importa! A can\u00e7\u00e3o est\u00e1 em todos n\u00f3s, com os outros cantos que ele veio espalhando pela vida e pelo mundo, e o som dos golpes de Itajub\u00e1, a piedade de I-Juca-Pirama, os suspiros de Coema, tudo o que os mais velhos ouviram na mocidade, depois os mais jovens, e daqui em diante ouvir\u00e3o outros e outros, enquanto a l\u00edngua que falamos for a l\u00edngua dos nossos destinos.<\/p>\n<p>Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins p\u00fablicos. Talvez este busto emende o costume; mas, supondo que n\u00e3o, nem por isso perder\u00e3o os que s\u00f3 vierem contemplar aquela fronte que meditou p\u00e1ginas t\u00e3o magn\u00edficas. A solid\u00e3o e o sil\u00eancio s\u00e3o asas robustas para os surtos do esp\u00edrito. Quem vier a este canto do jardim entre o mar e a rua, achar\u00e1 o que se encontra nas capelas solit\u00e1rias, uma voz interior, e dir\u00e1 pelo ros\u00e1rio da mem\u00f3ria as preces em verso que ele comp\u00f4s e ensinou aos seus compatr\u00edcios.<\/p>\n<p>E desde j\u00e1 ficam as duas obras juntas. Uma responder\u00e1 pela outra. Nem V. Ex.a, nem os seus sucessores consentir\u00e3o que se destrua este abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui esse monumento de arte. Se algu\u00e9m propuser arrasar um e mudar outro, para trazer utilidade ao terreno, por meio de uma avenida, ou cousa equivalente, o Prefeito recusar\u00e1 a concess\u00e3o, dizendo que este jardim, conservado por diversos reg\u00edmens, est\u00e1 agora consagrado pela poesia, que \u00e9 um reg\u00edmen s\u00f3, universal, comum e perp\u00e9tuo. Tamb\u00e9m pode declarar que a venera\u00e7\u00e3o dos seus grandes homens \u00e9 uma virtude das cidades. E isto far\u00e3o os Prefeitos de todos os partidos, sem agravo do seu pr\u00f3prio, porque o poeta que ora celebramos, fiel \u00e0 voca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o teve outro partido que o de cantar maravilhosamente.<\/p>\n<p>Demais, se o caso for de utilidade, V. Ex.a e os seus sucessores achar\u00e3o aqui o mais \u00fatil rem\u00e9dio \u00e0s agruras administrativas. Este busto consolar\u00e1 do trabalho acerbo e ingrato; ele dir\u00e1 que h\u00e1 tamb\u00e9m uma prefeitura do esp\u00edrito, cujo exerc\u00edcio n\u00e3o pede mais que o mudo bronze e a capacidade de ser ouvido no seu eterno sil\u00eancio. E repetir\u00e1 a todos o nome de V. Ex.a, que o recebeu e o dos outros que porventura vierem contempl\u00e1-lo. Tamb\u00e9m aqui vinha, h\u00e1 muitos anos, desenfadar-se da v\u00e9spera, sem outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor de Iracema. Se j\u00e1 estivesse aqui este busto, ele se consolaria da vida com a mem\u00f3ria, e do tempo com a perenidade. Mas ent\u00e3o s\u00f3 existiam as \u00e1rvores. Bernardelli, que tinha de fundir o bronze de ambos, n\u00e3o povoara ainda as nossas pra\u00e7as com outras obras de artista ilustre. Olavo Bilac, que promoveu a subscri\u00e7\u00e3o de senhoras a que se deve esta obra, n\u00e3o afinara ainda pela lira de Gon\u00e7alves Dias a sua lira deliciosa.<\/p>\n<p>Aqui fica entregue o monumento a V. Ex.a, Sr. Prefeito, aqui onde ele deve estar, como outro exemplo da nossa unidade, ligando a p\u00e1tria inteira no mesmo ponto em que a hist\u00f3ria, melhor que leis, p\u00f4s a cabe\u00e7a da na\u00e7\u00e3o perto daquele gigante de pedras que o grande poeta cantou em versos m\u00e1sculos.<\/p>\n<h3>UM LIVRO [CENAS DA VIDA AMAZ\u00d4NICA]<\/h3>\n<p>AQUI EST\u00c1 um livro que h\u00e1 de ser relido com apre\u00e7o, com interesse, n\u00e3o raro com admira\u00e7\u00e3o. O autor que ocupa lugar eminente na cr\u00edtica brasileira, tamb\u00e9m enveredou um dia pela novela, como Sainte-Beuve, que escreveu Volupt\u00e9, antes de atingir o sumo grau na cr\u00edtica francesa. Tamb\u00e9m h\u00e1 aqui um narrador e um observador, e h\u00e1 mais aquilo que n\u00e3o acharemos em Volupt\u00e9, um paisagista e um miniaturista. J\u00e1 era tempo de dar \u00e0s Cenas da Vida Amaz\u00f4nica outra e melhor edi\u00e7\u00e3o. Eu, que as reli, achei-lhes o mesmo sabor de outrora. Os que as lerem, pela primeira vez, dir\u00e3o se o meu falar desmente as suas pr\u00f3prias impress\u00f5es.<\/p>\n<p>Talvez achem comigo que o t\u00edtulo \u00e9 exato, sem dizer tudo. S\u00e3o efetivamente cenas daquela vida e daquele meio; sente-se que n\u00e3o podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas diretamente. Mas n\u00e3o diz tudo o t\u00edtulo. Tr\u00eas, ao menos, das quatro novelas em que se divide o livro, s\u00e3o pequenos dramas completos. Tais o &#8220;Boto&#8221; o &#8220;Crime do Tapuio&#8221; e a &#8220;Sorte de Vicentina&#8221;. O pr\u00f3prio &#8220;Volunt\u00e1rio da P\u00e1tria&#8221; tem o drama na alma de tia Zeferina, desde a quieta\u00e7\u00e3o na palho\u00e7a at\u00e9 aquele adeus que ela fica acenando na margem, n\u00e3o j\u00e1 ao filho, que a n\u00e3o pode ver, nem ela a ele, mas ao fumo do vapor que se perde ao longe no rio, como uma sombra.<\/p>\n<p>Em todos eles, os costumes locais e a natureza grande e rica, quando n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u00e1spera e dura, servem de quadro a sentimentos ing\u00eanuos, simples e alguma vez fortes. O Sr. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo possui o dom da simpatia e da piedade. As suas principais figuras s\u00e3o as v\u00edtimas de um meio rude, como Benedita, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquele Jos\u00e9 Tapuio, que confessa um crime n\u00e3o existente, com o \u00fanico fim de salvar uma menina, ou de &#8220;faz\u00ea bem pra ela&#8221;, como diz o texto. N\u00e3o se irritem os amigos da l\u00edngua culta com a pros\u00f3dia e a sintaxe de Jos\u00e9 Tapuio. H\u00e1 dessas frases no livro, postas com arte e cabimento, a espa\u00e7os, onde \u00e9 preciso caracterizar melhor as pessoas. H\u00e1 locu\u00e7\u00f5es da terra. H\u00e1 a tecnologia dos usos e costumes. Ningu\u00e9m esquece que est\u00e1 diante da vida amaz\u00f4nica, n\u00e3o toda, mas aquela que o Sr. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo escolheu naturalmente para dar-nos a vis\u00e3o do contraste entre o meio e o homem.<\/p>\n<p>O contraste \u00e9 grande. A floresta e a \u00e1gua envolvem e acabrunham a alma. A magnific\u00eancia daquelas regi\u00f5es chega a ser excessiva. Tudo \u00e9 inumer\u00e1vel e imensur\u00e1vel. S\u00e3o milh\u00f5es, milhares e centenas os seres que v\u00e3o pelos rios e igarap\u00e9s, que espiam entre a \u00e1gua e a terra, ou bramam e cantam na mata, em meio de um concerto de rumores, c\u00f3leras, del\u00edcias e mist\u00e9rios. O Sr. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo d\u00e1-nos a sensa\u00e7\u00e3o daquela realidade. A descri\u00e7\u00e3o do caminho que leva ao povoado do Erer\u00e9, atrav\u00e9s do &#8220;coberto&#8221;, do &#8220;lavrado&#8221; e de um espa\u00e7o sem nome, \u00e9 das mais belas e acabadas do livro. Assim tamb\u00e9m a do Paru, ou antes a hist\u00f3ria do rio nas duas partes do ano, de ver\u00e3o e de inverno, um s\u00f3 lago int\u00e9rmino ou muitos lagos grandes, as ilhas que nascem e desaparecem, com os aspectos v\u00e1rios do tempo e da margem.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o descri\u00e7\u00f5es trazidas de acarreto. As pessoas das narrativas v\u00e3o para ali continuar a a\u00e7\u00e3o come\u00e7ada. No Paru, como o tempo \u00e9 de &#8220;salga&#8221;, a \u00e1gua \u00e9 sulcada de canoas, a margem alastrada de barracas, o sussurro do trabalho humano espalha-se e cresce. A\u00ed assistimos \u00e0 morte tr\u00e1gica do pelintra de \u00d3bitos, regat\u00e3o de alguns dias, deixando uma triste mo\u00e7a defunta, amarela e magra. Adiante, por meio do &#8220;coberto&#8221; e do &#8220;lavrado&#8221;, vemos correr Vicentina, com a filha de alguns meses &#8220;escarranchada nos quadris&#8221;, fugindo \u00e0 casa do marido, depois \u00e0s on\u00e7as, depois \u00e0 solid\u00e3o, que parece maior ali que em nenhuma parte; e ambas as cenas s\u00e3o das mais vivas do livro.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 do tr\u00e1gico, o mesquinho, o comum, o quotidiano da exist\u00eancia e dos costumes, que o autor pinta breve ou minuciosamente. Os pequenos quadros sucedem-se, como o da Rua Bacuri, na cidade de \u00d3bitos, \u00e0 hora da sesta, ou no fim dela, quando &#8220;a natureza estira os bra\u00e7os num bocejo pregui\u00e7oso de quem deixa a rede&#8221;. A rede \u00e9 o m\u00f3vel principal das casas; ela serve ao sono, ao descanso, \u00e0 palestra, \u00e0 indol\u00eancia. Se a casa \u00e9 pobre, pouco mais h\u00e1 que ela; mas, pouco ou muito, podemos fiar-nos da veracidade do autor, que n\u00e3o perde o que seja um rasgo de costumes ou possa avivar a cor da realidade. Vimos o regat\u00e3o; veremos o benzedeira, a pintadeira de cuias, a mameluca, sem exclus\u00e3o do jurado, do promotor, do presidente de prov\u00edncia.<\/p>\n<p>Nem falta aqui a observa\u00e7\u00e3o fina e aguda. Uma senhora, a quem a tia Zeferina, que a criou, recorre chorando para que fa\u00e7a soltar o filho preso para volunt\u00e1rio (como diziam aqui no Sul), ouve a m\u00e3e tapuia, tem sincera pena dela, promete que sim, fala do presidente da prov\u00edncia, que \u00e9 bom mo\u00e7o, do baile do dia 7 de Setembro, em pal\u00e1cio, a que ela foi: &#8220;uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de verde e amarelo; muitas tinham mandado vir o vestido do Par\u00e1, mas foi tolice, porque em Manaus arranjava-se um vestido t\u00e3o bem como no Par\u00e1; o dela, por exemplo, foi muito gabado&#8230;&#8221; J\u00e1 a tia Zeferina ouvira cousa an\u00e1loga ao Major Rabelo, seu compadre, quando lhe foi contar a pris\u00e3o do filho, e ele rompeu furioso contra os advers\u00e1rios pol\u00edticos. Todos os neg\u00f3cios pessoais se v\u00e3o co\u00e7ando assim naquela agonia errante. No &#8220;Boto&#8221;, \u00e9 o pr\u00f3prio pai de Rosinha, que n\u00e3o escava muito as raz\u00f5es do abatimento mortal, da filha, &#8220;por andar atarefado com as elei\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Que ele tamb\u00e9m h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es no Amazonas; \u00e9 o tempo da salga pol\u00edtica, a quadra das barracas e dos regat\u00f5es. N\u00e3o nos d\u00e1 um cap\u00edtulo desses o Sr. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, naturalmente por lhe n\u00e3o ser necess\u00e1rio, mas a rivalidade da vila e do porto de Monte Alegre \u00e9 um quadro vivo do que s\u00e3o raivas locais, os motivos que as acendem, a guerra que fazem e os \u00f3dios que ficam. Aqui basta a quest\u00e3o de saber se o correio morar\u00e1 no porto, embaixo, ou na vila em cima. E porque n\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria sem foguetes, os foguetes v\u00e3o contar \u00e0s nuvens o despacho presidencial. A sess\u00e3o do j\u00fari, no &#8220;Crime do Tapuio&#8221;, \u00e9 outro quadro finamente acabado. Tudo sem sombra da caricatura. O embarque dos volunt\u00e1rios \u00e9 outro, mas a\u00ed a emo\u00e7\u00e3o discreta acompanha os movimentos mal ordenados dos homens. N\u00f3s os vimos desembarcar aqui, esses e outros, tr\u00f4pegos e obedientes, marchando mal, mas enfim marchando seguros para a guerra que j\u00e1 l\u00e1 vai.<\/p>\n<p>Em t\u00e3o v\u00e1rias cenas e lances, o estilo do Sr. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo (salvo nos &#8220;Esbocetos&#8221;, cuja estrutura \u00e9 diferente) e j\u00e1 o estilo correntio e vern\u00e1culo dos seus escritos posteriores. J\u00e1 ent\u00e3o vemos o homem feito, de m\u00e3o assentada, dominando a mat\u00e9ria. H\u00e1, a mais, uma nota de poesia, a gra\u00e7a e o vigor das imagens, que outra sorte de trabalhos nem sempre consentem. Aqui est\u00e1 a frente da casa do s\u00edtio em que Rosinha nasceu: &#8220;A palha da cobertura, n\u00e3o aparada, dava-lhe o aspecto alvar das crian\u00e7as que trazem os cabelos ca\u00eddos na testa&#8221;. No tempo da pesca emigram, n\u00e3o s\u00f3 os homens, mas tamb\u00e9m os c\u00e3es e os urubus. Os c\u00e3es s\u00e3o magros e famintos: &#8220;C\u00e3es magros, com as costelas salientes, como se houvessem engulido arcos de barris&#8230;&#8221; Os urubus pousam nas \u00e1rvores, alguma vez baixam ao solo, andando &#8220;com o seu passo ritmado de anjos de prociss\u00e3o&#8221;. A umas \u00e1rvores que h\u00e1 na grande chaneca do &#8220;coberto&#8221;, bastava mostr\u00e1-las por uma imagem curta e viva, &#8220;em posi\u00e7\u00f5es retorcidas de entrevados&#8221;. Mas n\u00e3o se contenta o nosso autor de as dizer assim: em terra tal, tudo h\u00e1 de vibrar ao calor do sol: &#8220;Dir-se-ia que o sol, que abrasa aquelas paragens, obriga-as a tais contor\u00e7\u00f5es violentas e paralisa-as depois&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas dessas imagens originais e expressivas; melhor \u00e9 t\u00ea-las ou ret\u00ea-las intercaladas na narra\u00e7\u00e3o e na descri\u00e7\u00e3o. Chateaubriand, escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a prop\u00f3sito de Volupt\u00e9, que acabava de sair do prelo, pergunta-lhe admirado como \u00e9 que ele, Ren\u00e9, n\u00e3o achara tantas outras. &#8220;Comment n&#8217;ai-je pas trouv\u00e9 ces deux vieillards et cer deux enfants entre lesquels une r\u00e9volution a pass\u00e9&#8230;&#8221;, etc. Desculpe a pontinha de vaidade, \u00e9 de Chateaubriand, e alguma cousa se h\u00e1 de perdoar ao g\u00eanio. Mas, em verdade, mais de um de n\u00f3s outros poder\u00edamos dizer com sinceridade e mod\u00e9stia como \u00e9 que nos n\u00e3o acudiram tais e tais imagens do nosso autor, pois que elas trazem a fei\u00e7\u00e3o de cousas antes sa\u00eddas do tinteiro que compostas no papel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 dado perguntar por que \u00e9 que o Sr. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo deixou logo um terreno que soube arrotear com fruto. Ele dir\u00e1, em uma nota, falando dos &#8220;Esbocetos&#8221;, que o fruto era da primeira mocidade. V\u00e1 que sim; mas as Cenas trazem outra experi\u00eancia, e a boa terra n\u00e3o \u00e9 esquecida, se se lhe encomenda alguma cousa com amor.<\/p>\n<p>At\u00e9 l\u00e1, fiquem-nos estas Cenas da Vida Amaz\u00f4nica. Mais tarde algum cr\u00edtico da escola do autor compulsar\u00e1 as suas p\u00e1ginas para restituir costumes extintos. Muito estar\u00e1 mudado. Onde Jos\u00e9 Tapuio lutou com a sicuriju at\u00e9 mat\u00e1-la, outro homem estudar\u00e1 alguma nova for\u00e7a da natureza at\u00e9 reduzi-la ao dom\u00e9stico. Coberto e lavrado dar\u00e3o melhor caminho \u00e0s pessoas. J\u00e1 agora, como disse nh\u00e1 Miloca \u00e0 m\u00e3e tapuia, os vestidos fazem-se t\u00e3o bons em Manaus como em Bel\u00e9m. A pol\u00edtica ir\u00e1 pelas tesouras da costureira, e a natureza agasalhar\u00e1 todas as artes, suas h\u00f3spedes. Tal cr\u00edtico, se tiver o mesmo dom de an\u00e1lise do Sr. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, achar\u00e1 que um testemunho esclarecido \u00e9 mais cabal que outro, e regalar\u00e1 os seus leitores dando-lhe este depoimento feito com emo\u00e7\u00e3o, com exa\u00e7\u00e3o e com estilo.<\/p>\n<h3>EDUARDO PRADO<\/h3>\n<p>A \u00daLTIMA VEZ que vi Eduardo Prado foi na v\u00e9spera de deixar o Rio de Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o g\u00e9rmen do mal e da morte em si. Naquela ocasi\u00e3o era todo vida e sa\u00fade. Quem ent\u00e3o me dissesse que ele ia tamb\u00e9m deixar o mundo, n\u00e3o me causaria espanto, porque a injusti\u00e7a da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas, \u00e9 certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquela, em que me detivesse ao p\u00e9 dele, para ouvi-lo e admir\u00e1-lo.<\/p>\n<p>S\u00f3 falamos de arte. Ouvi-lhe not\u00edcias e impress\u00f5es, senti-lhe o gosto apurado e a cr\u00edtica superior, tudo envolvido naquele tom ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. N\u00e3o t\u00ednhamos intimidade; faltou-nos tempo e a pr\u00e1tica necess\u00e1ria. Antes daquela vez \u00faltima, apenas falamos tr\u00eas ou quatro, o bastante para consider\u00e1-lo bem e cortejar o homem com o escritor. Eduardo Prado era dos que se deixam penetrar sem esfor\u00e7o e com prazer. O que agora li a seu respeito na primeira mocidade, na escola e nos \u00faltimos anos, referido por amigos que parecem n\u00e3o o esquecer mais, confirma a minha impress\u00e3o pessoal. Ali\u00e1s, os seus escritos mostravam bem o homem. Apanhava-se o sentimento da harmonia que ajustava nele a vida moral, intelectual e social.<\/p>\n<p>Principalmente artista e pensador, possu\u00eda o divino horror \u00e0 vulgaridade, ao lugar-comum e \u00e0 declama\u00e7\u00e3o. Se entrasse na vida pol\u00edtica, que apenas atravessou com a pena, em dias de luta, levaria para ela qualidades de primeira ordem, n\u00e3o contando o humour, t\u00e3o diverso da chala\u00e7a e t\u00e3o original nele. Mas a erudi\u00e7\u00e3o e a hist\u00f3ria n\u00e3o menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas as cousas que sabia.<\/p>\n<p>Naturalmente remontei comigo, durante aquela boa hora, e ainda depois dela, ao tempo das cartas de viagem que nos deu t\u00e3o rica amostra de um grande talento que viria a crescer e subir. A mat\u00e9ria em si convidava ao egotismo, mas ele n\u00e3o padecia desse mal. Tamb\u00e9m faria correr o risco da repeti\u00e7\u00e3o de cousas vistas e pintadas, que se n\u00e3o acha aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente a sensa\u00e7\u00e3o pessoal, ele as possu\u00eda como os principais que hajam andado as terras ou rasgado os mares deste mundo. Inven\u00e7\u00e3o de estilo, observa\u00e7\u00e3o aguda, erudi\u00e7\u00e3o discreta e vasta, gra\u00e7a, poesia e imagina\u00e7\u00e3o produziram essas p\u00e1ginas vivas e saborosas. Aquela partida de N\u00e1poles, sob um c\u00e9u chuvoso e de chumbo, n\u00e3o se esquece. Rel\u00ea-se com encanto essa explica\u00e7\u00e3o do tempo \u00e1spero. durante o qual o c\u00e9u napolitano se recomp\u00f5e, para come\u00e7ar novamente a \u00f3pera &#8220;com os coros de pescadores e as barcarolas, a m\u00fasica de luz e de azul&#8221;. Assim a \u00c1frica, assim todas as partes onde quer que este brasileiro levou a \u00e2nsia de ver homens e cousas, cidades e costumes, a natureza v\u00e1ria entre ru\u00ednas perp\u00e9tuas, atrav\u00e9s de regi\u00f5es remotas&#8230;<\/p>\n<p>Conta-se que ele chorou, quando morreu E\u00e7a de Queir\u00f3s. Agora, que ambos s\u00e3o mortos, algu\u00e9m que imaginasse e escrevesse o encontro das duas sombras, \u00e0 maneira de Luciano, daria uma curiosa p\u00e1gina de psicologia. As confabula\u00e7\u00f5es de tais esp\u00edritos s\u00e3o dignas de mem\u00f3ria. Sterne escreveu que &#8220;um dia. conversando com Voltaire&#8230;&#8221; e imagina-se o que diriam eles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal e Byron, passeando no solit\u00e1rio foyer do Teatro Scala. Quando Montaigne ouvia as hist\u00f3rias que Amyot lhe ia contar, podemos ver a del\u00edcia de ambos e admitir que as visitas continuam no outro mundo. Assim se podia dizer do E\u00e7a e do Eduardo, por um texto que exprimisse o talento, o amor das cousas finas e belas, e, enfim, a grande simpatia que um inspirava ao outro.<\/p>\n<p>Quando me despedi de Eduardo Prado, naquele dia, vim perguntando a mim mesmo se teria vida bastante para ler e admirar as obras-primas que esse talentoso brasileiro levava no c\u00e9rebro em gesta\u00e7\u00e3o, ou em g\u00e9rmen, e durante muitos anos viriam abastecer a nossa l\u00edngua e a nossa terra. Seis dias depois, era ele que morria. Chamei injusta \u00e0 natureza; bastaria dizer &#8212; indiferente.<\/p>\n<h3>ANT\u00d4NIO JOS\u00c9<\/h3>\n<p>UM DIA DESTES, relembrando uma passagem da trag\u00e9dia que Magalh\u00e3es consagrou \u00e0 mem\u00f3ria de Ant\u00f4nio Jos\u00e9, adverti na resposta dada pelo judeu ao Conde de Ericeira, quando este lhe recomenda que imite Moli\u00e8re; o judeu responde que Moli\u00e8re escrevia para franceses e ele n\u00e3o. Ser\u00e1 essa resposta a rigorosa express\u00e3o da verdade? Ant\u00f4nio Jos\u00e9 n\u00e3o se modelou, certamente, pelas obras do grande c\u00f4mico, n\u00e3o cogitou jamais da simples pintura dos v\u00edcios e dos caracteres. Moli\u00e8re caminhou do M\u00e9dico Volante e dos Zelos de Barbouill\u00e9 \u00e0 Escola das Mulheres e ao Tartufo; Ant\u00f4nio Jos\u00e9 n\u00e3o passou das Guerras do Alecrim e Manjerona, e, dado que tentasse faz\u00ea-lo, \u00e9 certo que n\u00e3o poderia ir muito al\u00e9m. N\u00e3o tinha centro apropriado, nem largas vistas; faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e, se porventura entrou em seu esp\u00edrito reatar a tradi\u00e7\u00e3o de Gil Vicente, levantando sobre os alicerces lan\u00e7ados por esse oper\u00e1rio do s\u00e9culo XVI as paredes de um teatro regular, convinha justamente n\u00e3o imitar nada, nem ningu\u00e9m, n\u00e3o se fazer Moli\u00e8re, nem Plauto, ficar Ant\u00f4nio Jos\u00e9; \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o das obras vivas.<\/p>\n<p>Interpretada desse modo, \u00e9 exata e verdadeira a resposta que Magalh\u00e3es p\u00f5e na boca do judeu; mas s\u00f3 desse modo. O Anfitri\u00e3o prova que o nosso poeta alguma cousa imitou e transplantou de Moli\u00e8re, a tal ponto que for\u00e7osamente o tinha diante de si, ou na banca de trabalho ou na mem\u00f3ria; e, porque esta observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o haja sido feita, cuido que interessar\u00e1, quando menos, a t\u00edtulo de curiosidade liter\u00e1ria. Ao mesmo tempo, direi o que me parece do escritor e da sua obra.<\/p>\n<p>E, antes de mais nada, ocorre ponderar que Ant\u00f4nio Jos\u00e9 goza de uma reputa\u00e7\u00e3o sobre palavra. A fogueira de 18 de outubro de 1739 iluminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos; a trag\u00e9dia do Sr. Magalh\u00e3es vulgarizou-o entre as nossas plat\u00e9ias de h\u00e1 40 anos; mas s\u00f3 os estudiosos o ter\u00e3o lido, e nem todos, porque a tarefa exige const\u00e2ncia e esfor\u00e7o, embora de certo modo os pague. Pode-se dizer, sem erro, que ele pertence \u00e0 fam\u00edlia dos poetas c\u00f4micos, qualquer que seja o grau de parentesco, &#8212; com a circunst\u00e2ncia que era um desperdi\u00e7ado, &#8212; trocava a boa moeda do c\u00f4mico pelo cobre vulgar do burlesco. Mas, poeta c\u00f4mico era-o, e de boa veia, &#8212; mais decerto que Nicolau Lu\u00eds, que lhe sucedeu na estima das plat\u00e9ias de Lisboa, mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas inten\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias abafaram, talvez, a livre expans\u00e3o do engenho, e que ali\u00e1s escrevia de si mesmo que &#8212; &#8220;havendo-se enganado consigo em infinitas cousas, nunca se preocupou de que tinha gra\u00e7a&#8221;. Acresce que o fim tr\u00e1gico do judeu comunica \u00e0s suas p\u00e1ginas alegres e juvenis um reflexo de simp\u00e1tica melancolia, que ainda mais nos convida a percorr\u00ea-las e estud\u00e1-las. A piedade n\u00e3o \u00e9 decerto raz\u00e3o determinativa em pontos de cr\u00edticas e tal poetastro haver\u00e1 que, sucumbindo a uma grande injusti\u00e7a social, somente inspire compaix\u00e3o sem desafiar a an\u00e1lise. N\u00e3o \u00e9 o caso de Ant\u00f4nio Jos\u00e9; este mereceria por si s\u00f3 que o estud\u00e1ssemos, ainda despido das ocorr\u00eancias tr\u00e1gicas que lhe circundam o nome.<\/p>\n<p>Nenhuma das com\u00e9dias do judeu se pode dizer excelente e perfeita; h\u00e1 por\u00e9m graus entre elas, e a todas sobreleva a das Guerras do Alecrim e Manjerona. Nesta, como nas demais, nota-se, decerto muita espontaneidade, viveza de di\u00e1logo, gra\u00e7a de estilo, variedade de situa\u00e7\u00f5es, e certo conhecimento de cena; mas a alma de todas elas n\u00e3o \u00e9 grande; vive-se ali de enredo e de aparato. Se ao poeta foi estranha a inven\u00e7\u00e3o dos caracteres e a pintura dos v\u00edcios, n\u00e3o menos o foi a transcri\u00e7\u00e3o dos costumes locais. Salvo o Alecrim e Manjerona, todas as suas pe\u00e7as s\u00e3o inteiramente alheias \u00e0 sociedade e ao tempo; a Esopaida tem por base um assunto antigo; a Vida de D. Quixote p\u00f5e em cena o personagem de Cervantes; as outras pe\u00e7as s\u00e3o todas mitol\u00f3gicas. Podiam estas, n\u00e3o obstante o r\u00f3tulo, conter a pintura dos costumes e da sociedade cujo produto eram; mas, conquanto em tais composi\u00e7\u00f5es influa muito o moderno, n\u00e3o se descobre nelas nenhuma inten\u00e7\u00e3o daquela natureza.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, a inten\u00e7\u00e3o quase exclusiva do poeta era a galhofa, e tal galhofa que transcendia muita vez \u00e0s raias da conveni\u00eancia p\u00fablica. Nenhuma de suas pe\u00e7as, &#8212; \u00f3peras \u00e9 o nome cl\u00e1ssico, &#8212; nenhuma \u00e9 isenta de express\u00f5es baixas e at\u00e9 obscenas, com que ele, segundo lhe arg\u00fc\u00eda um prelado, &#8220;chafurdou na imund\u00edcie&#8221;. Tinha raz\u00e3o o prelado, mas n\u00e3o basta ter raz\u00e3o, cumpre saber t\u00ea-la. Ora, a baixeza e a obscenidade das locu\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram novidade na cena portuguesa, nem na de outros pa\u00edses; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos \u00e0 nossa l\u00edngua, basta lembrar que o Cioso, de Ferreira, do culto autor da Castro, foi dado por Figueiredo com a declara\u00e7\u00e3o de ter sido &#8220;expurgado segundo o melindre dos ouvidos do nosso s\u00e9culo&#8221;. Gil Vicente, sem embargo de se representarem suas pe\u00e7as na corte de D. Jo\u00e3o III e D. Manuel, adubava-as \u00e0s vezes de esp\u00e9cies que nos parecem hoje bem pouco esquisitas. As \u00f3peras do judeu eram dadas num teatro popular; n\u00e3o as ouvia a corte de D. Jo\u00e3o V, mas o povo e os burgueses de Lisboa, cujas orelhas n\u00e3o teriam ainda os melindres que mais tarde lhes atribuiu Figueiredo. A diferen\u00e7a entre Ant\u00f4nio Jos\u00e9 e os outros era afinal uma quest\u00e3o de quantidade; mas, se o tempo lho permitia e, com o tempo, a censura, que muito \u00e9 que o poeta reincidisse? N\u00e3o \u00e9 isto escus\u00e1-lo, mas explic\u00e1-lo. Deixemos os trocados e equ\u00edvocos, que s\u00e3o um chiste de mau gosto, m\u00e1cula de estilo, que o poeta exagerou at\u00e9 \u00e0 puerilidade, cedendo a si mesmo e ao riso das plat\u00e9ias. Outro defeito que se lhe arg\u00fai, \u00e9 o tom guindado e os arrebiques de conceito, que se notam em muitas falas de certos personagens, os deuses, pr\u00edncipes e her\u00f3is. Um de seus bi\u00f3grafos, comparando o estilo de tais personagens com o dos criados e pessoas \u00ednfimas, que s\u00e3o simples e naturais, sup\u00f5e que houve no poeta inten\u00e7\u00e3o sat\u00edrica, opini\u00e3o que me parece carecer de fundamento, entre outras raz\u00f5es porque n\u00e3o h\u00e1 sempre aquela diferen\u00e7a de estilo, e n\u00e3o \u00e9 raro falarem os principais personagens do mesmo modo natural e reto, que os de condi\u00e7\u00e3o inferior. Guindam-se muita vez, mas era achaque do tempo e exagera\u00e7\u00e3o na maneira de empregar o estilo nobre, porque havia ent\u00e3o um estilo nobre; e, se o judeu teve alguma vez inten\u00e7\u00e3o sat\u00edrica, arrebicando ou empolando a express\u00e3o, tal inten\u00e7\u00e3o foi somente liter\u00e1ria e nenhuma outra. Que diremos dos anacronismos de linguagem? Esses s\u00e3o constantes e excessivos. Os dobr\u00f5es de Alcmena, e alcunha de Alfacinha, dada a Anfitri\u00e3o, Juno crismada em Felizarda, um criado antigo &#8220;de corpo \u00e0 inglesa&#8221;, outro com &#8220;rel\u00f3gio de pendurucalhos&#8221;, deviam promover a gargalhada franca do povo. Esse fugir do meio e da a\u00e7\u00e3o para a realidade presente vai algumas vezes al\u00e9m, como na Esopaida, em que o her\u00f3i, falando de sua vida, diz que anda em livros pelo mundo &#8212; &#8220;e agora me dizem que se est\u00e1 representando no Bairro Alto&#8221;. J\u00e1 na Vida de D. Quixote havia o poeta posto a mesma cousa na boca de Sancho, quando o cavaleiro, vendo um barco amarrado, pergunta ao escudeiro: &#8212; &#8220;Sabes onde estamos? &#8212; Sei bem.&#8211; Aonde? &#8212; No Bairro-Alto&#8221;. O judeu podia responder que tal sestro foi o de Regnard e o de Boursault, por exemplo, que p\u00f4s o seu Esopo a tomar caf\u00e9 e meteu com ele esposas de tabeli\u00e3es; podia citar muitos outros exemplos anteriores e contempor\u00e2neos, e a cr\u00edtica se incumbiria de apontar os que vieram depois dele; mas n\u00e3o vale a pena.<\/p>\n<p>Venhamos ao Anfitri\u00e3o. Um erudito escritor, o Sr. Te\u00f3filo Braga, sup\u00f5e que a inten\u00e7\u00e3o do poeta, nessa com\u00e9dia, foi pintar em J\u00fapiter a pessoa de D. Jo\u00e3o V, suposi\u00e7\u00e3o que detidamente examinei e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o cr\u00edtico faz de uma coincid\u00eancia um prop\u00f3sito, e fundamenta a sua suspeita na poss\u00edvel analogia das aventuras do deus pag\u00e3o e do rei crist\u00e3o. A analogia podia ser um elemento de prova, mas desacompanhada de outras n\u00e3o faz chegar a nenhum resultado definitivo. Ora, basta ler o Anfitri\u00e3o, basta comparar a situa\u00e7\u00e3o do poeta e o tempo para varrer do esp\u00edrito semelhante hip\u00f3tese. Certo, n\u00e3o faltava aud\u00e1cia ao poeta; a\u00ed est\u00e1, como exemplo, a defini\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, feita por Sancho, na Vida de D. Quixote; mas entre a generalidade desse trecho e a s\u00e1tira pessoal do Anfitri\u00e3o vai um abismo. Ocorre-me que do Anfitri\u00e3o de Moli\u00e8re tamb\u00e9m se disse ser alus\u00e3o a Lu\u00eds XIV, com a diferen\u00e7a que em Fran\u00e7a n\u00e3o se atribuiu a Moli\u00e8re a inten\u00e7\u00e3o de ferir, mas de ser agrad\u00e1vel ao rei, que lhe havia encomendado aquela apoteose de suas pr\u00f3prias aventuras, opini\u00e3o esta que foi de todo condenada. N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 motivo para atribuir a Ant\u00f4nio Jos\u00e9 a inten\u00e7\u00e3o que lhe sup\u00f5e o Sr. Te\u00f3filo Braga; e, se tal inten\u00e7\u00e3o existisse, o desenlace da com\u00e9dia, quando J\u00fapiter se declara acima da lei, viria a ser de um sarcasmo t\u00e3o cru que n\u00e3o alcan\u00e7ar\u00edamos compreend\u00ea-lo naquele s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Evidentemente, o judeu achou na aventura pag\u00e3 o mesmo que lhe acharam Plauto, Moli\u00e8re e Cam\u00f5es, &#8212; um assunto prestadio \u00e0s combina\u00e7\u00f5es c\u00eanicas, e, demais, singularmente pr\u00f3prio para as chufas do Bairro-Alto. Desnecess\u00e1rio \u00e9 dizer os tr\u00e2mites dessa travessura de J\u00fapiter, que, namorado de Alcmena, toma a figura do marido e vai \u00e0 casa dela, acompanhado de Merc\u00fario, que copia as fei\u00e7\u00f5es de S\u00f3sias, criado de Anfitri\u00e3o. O nosso poeta seguiu no principal a f\u00e1bula que encontrou nos antecessores, fazendo-lhe todavia as altera\u00e7\u00f5es suscitadas pelo gosto pr\u00f3prio e das plat\u00e9ias. Assim, o S\u00f3sias de Plauto, de Moli\u00e8re e de Cam\u00f5es \u00e9 na pe\u00e7a de Ant\u00f4nio Jos\u00e9 um Saramago. N\u00e3o lhe mudou ele o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao sistema de dar aos criados nomes burlescos. O de Jason, nos Encantos de Med\u00e9ia, chama-se Sacatrapos; h\u00e1 nas outras \u00f3peras um Caranguejo, um Esfuziote, um Chichisb\u00e9u. S\u00e3o nomes, n\u00e3o valem mais que nomes. Nem Moli\u00e8re chamou Dandim ao principal personagem de uma de suas com\u00e9dias sen\u00e3o para o caracterizar desde logo de um modo jovial; n\u00e3o pretendeu outra cousa. Contudo, a observa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a Ant\u00f4nio Jos\u00e9 tem o valor de um rasgo significativo.<\/p>\n<p>Cotejando o Anfitri\u00e3o de Ant\u00f4nio Jos\u00e9 com os de seus antecessores, v\u00ea-se o que ele imitou dos modelos, e o que de sua casa introduziu. J\u00e1 disse que no principal os seguiu a todos; mas nem sempre soube escolher, e darei disso um exemplo claro. Cam\u00f5es, que n\u00e3o sendo poeta c\u00f4mico, era todavia homem de tacto e gosto, corrigiu, antes de Moli\u00e8re, o desenlace do Anfitri\u00e3o de Plauto. Na com\u00e9dia deste, logo depois de explicar J\u00fapiter os equ\u00edvocos da situa\u00e7\u00e3o e de anunciar ao marido de Alcmena que o filho desta \u00e9 seu, mostra-se Anfitri\u00e3o inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Cam\u00f5es suprimiu t\u00e3o singular contentamento, e o mesmo fez Moli\u00e8re &#8212; em ambos os poetas Anfitri\u00e3o ouve silencioso as declara\u00e7\u00f5es do pai dos deuses, sem que Alcmena assista a elas. Ant\u00f4nio Jos\u00e9 n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o seguiu nessa parte os modelos recentes, mas at\u00e9 carregou a m\u00e3o sobre o que imitou de Plauto. A alegria do seu Anfitri\u00e3o e da sua Alcmena \u00e9 t\u00e3o franca, tamanho \u00e9 o alvoro\u00e7o dos dous esposos, que realmente chega a ofender as leis da verossimilhan\u00e7a, ainda tratando-se de um caso divino. Neste ponto Ant\u00f4nio Jos\u00e9 antes inadvertido do que obrigado do gosto p\u00fablico. Outro caso. Nas com\u00e9dias anteriores n\u00e3o h\u00e1 nenhum lugar em que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Anfitri\u00f5es, e isto n\u00e3o s\u00f3 era necess\u00e1rio para prolongar e justificar os equ\u00edvocos, mas at\u00e9 o exigia a verossimilhan\u00e7a, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous exemplares exatos do marido, sa\u00eda da boa f\u00e9 que serve de fundamento \u00e0 sua ilus\u00e3o, para cair no maravilhoso e no inextric\u00e1vel. E \u00e9 justamente o que acontece na com\u00e9dia do judeu.<\/p>\n<p>Vamos agora ao que o judeu imitou diretamente de Moli\u00e8re. H\u00e1 na com\u00e9dia daquele um car\u00e1ter, o de Cornuc\u00f3pia, mulher de Saramago, que n\u00e3o tem equivalente na de Plauto, nem na de Cam\u00f5es, e que s\u00f3 na de Moli\u00e8re existe. &#8220;Moli\u00e8re (\u00e9 observa\u00e7\u00e3o de La Harpe), fazendo de Cl\u00e9anthis mulher de S\u00f3sias, inventou uma situa\u00e7\u00e3o paralela \u00e0 de Anfitri\u00e3o e Alcmena, dando-lhe por\u00e9m diferente aspecto; Cl\u00e9anthis pertence ao n\u00famero das esposas que, &#8220;por serem honestas cuidam ter o direito de ser insuport\u00e1veis&#8221;. Ora bem, a situa\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter de Cl\u00e9anthis transportou-os o judeu para o seu Anfitri\u00e3o, e n\u00e3o se pode dizer encontro fortuito, sen\u00e3o deliberado prop\u00f3sito. Basta cortej\u00e1-los com esp\u00edrito advertido &#8212; a diferen\u00e7a \u00e9 de tom, de estilo; substancialmente, a inven\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma &#8212; as pr\u00f3prias id\u00e9ias reproduzem-se \u00e0s vezes na obra do judeu. Assim, logo na cena em que Merc\u00fario transformado em Saramago (S\u00f3sias) encontra a mulher deste, achamos o tra\u00e7o comum aos dois poetas.<\/p>\n<p>Na com\u00e9dia de Moli\u00e8re:<\/p>\n<h3>CL\u00c9ANTHIS<\/h3>\n<p>Regarde, traitre, Amphytrion;<br \/>\nVois comme pour Alcm\u00e8ne il \u00e9tale de flamme.<br \/>\nEt rougis l\u00e0-dessus du peu de passion<br \/>\nQue tu t\u00e9moignes pour ta femme.<\/p>\n<h3>MERC\u00daRIO<\/h3>\n<p>H\u00e9! mon Dieu! Cl\u00e9anthis, ils sont encore amants.<br \/>\nIl est certain \u00e2ge ou tout passe;<br \/>\nEt ce qui leur sied bien dans ces commencements,<br \/>\nEn nous, vieux mari\u00e9s, aurait mauvaise gr\u00e2ce.<br \/>\nIl nous ferait beau voir, attach\u00e9s face \u00e0 tace.<br \/>\n\u00c0 pousser les beaux sentiments!<\/p>\n<h3>CL\u00c9ANTHIS<\/h3>\n<p>M\u00e9rites-tu, pendard, cet insigne bonheur<br \/>\nDe te voir pour \u00e9pouse une femme d&#8217;honneur?<\/p>\n<h3>MERC\u00daRIO<\/h3>\n<p>Mon Dieu! tu n&#8217;es que trop honn\u00eate;<br \/>\nCe grand honneur ne me vaut rien.<br \/>\nNe sois point si femme de bien,<br \/>\nEt me romps un peu moins la t\u00eate.<\/p>\n<p>Agora Ant\u00f4nio Jos\u00e9:<\/p>\n<p>CORNUC\u00d3PIA &#8212; Tamb\u00e9m nosso amo trazia bastante fome, e contudo est\u00e1 dizendo \u00e0 nossa ama tanta cousa galantinha que faria derreter uma pedra.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8212; Com que \u00e9 o mesmo nossos amos do que n\u00f3s? Eles casadinhos de um ano, e n\u00f3s h\u00e1 um s\u00e9culo. Eles senhores e rapazes, e n\u00f3s velhos e mo\u00e7os?! Eles dous jasmins e n\u00f3s dous lagartos? E finalmente eles com amor, e n\u00f3s, ou pelo menos eu, sem nenhum?<\/p>\n<p>CORNUC\u00d3PLA &#8212; Ora, o certo \u00e9 que pior \u00e9 fazer festa a vil\u00f5es ruins; por estas, que se tu conheceras a mulher que tens, que outra cousa fora, talvez que se eu fora alguma dessas bandeirinhas enfeitadas que me quiseras mais; por\u00e9m a culpa tenho eu em n\u00e3o aceitar o que me davam nas tuas costas.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO &#8212; Pois ainda est\u00e1s em tempo&#8230;<\/p>\n<p>Trata-se, como se v\u00ea, de um car\u00e1ter e de uma situa\u00e7\u00e3o integralmente transcritos, embora de outro jeito, cedendo o poeta aos seus h\u00e1bitos liter\u00e1rios, \u00e0 sua \u00edndole e ao seu meio. Nem \u00e9 somente na introdu\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter de Cornuc\u00f3pia, e na situa\u00e7\u00e3o dos dous personagens, que Ant\u00f4nio Jos\u00e9 revela ter diante de si ou na mem\u00f3ria a pe\u00e7a de Moli\u00e8re; h\u00e1 ainda outro vest\u00edgio; h\u00e1 uma id\u00e9ia na cena em que J\u00fapiter se despede de Alcmena, &#8212; id\u00e9ia que o judeu expressa deste modo:<\/p>\n<p>ALCMENA &#8212; Este amor nasce da obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00daPITER &#8212; Pois quisera que esta fineza nascera mais do teu amor que de tua obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ALCMENA &#8212; A obriga\u00e7\u00e3o de amar ao esposo supera toda a obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00daPITER &#8212; Pois mais devera que me quiseras como a amante que como a esposo.<\/p>\n<p>ALCMENA &#8212; N\u00e3o sei fazer esta diferen\u00e7a, pois n\u00e3o posso amar-te como a esposa, sem que te ame como a amante.<\/p>\n<p>Na com\u00e9dia de Moli\u00e8re:<\/p>\n<h3>J\u00daPITER<\/h3>\n<p>En moi, belle et charmante Alcm\u00e8ne,<br \/>\nVous voyez un mari, vous voyez un amant;<br \/>\nMais l&#8217;amant seul me touche, \u00e0 parler franchement,<br \/>\nEt je sens pr\u00e8s de vous que le mari me g\u00eane.<br \/>\nCet amant, de vos voeux jaloux au dernier point,<br \/>\nSouhaite qu&#8217;\u00e0 lui seul votre amour s&#8217;abandonne.<\/p>\n<h3>ALCMENA<\/h3>\n<p>Je ne s\u00e9pare point ce qu&#8217;unissent les dieux;<br \/>\nEt l&#8217;\u00e9poux et l&#8217;amant me sont forte pr\u00e9cieux.<\/p>\n<p>Se, neste ponto, j\u00e1 se n\u00e3o trata de uma situa\u00e7\u00e3o, de um car\u00e1ter novo, mas de uma id\u00e9ia entrela\u00e7ada no di\u00e1logo, importa repetir que ainda imitando ou recordando, o judeu se conserva fiel \u00e0 sua fisionomia liter\u00e1ria; pode ir buscar a especiaria alheia, mas h\u00e1 de ser para temper\u00e1-la com o molho da sua f\u00e1brica. Dessa inclina\u00e7\u00e3o ao baixo c\u00f4mico achamos outro exemplo na Esopaida, cujo assunto fora tratado, antes dele, por Boursault. O car\u00e1ter tradicional de Esopo era pouco apropriado \u00e0 com\u00e9dia: \u00e9 um moralista, um autor de ap\u00f3logos, mas Boursault trouxe-o assim mesmo para a cena, \u00fanico modo de lhe conservar a cor original. O Esopo de Ant\u00f4nio Jos\u00e9 parece antes um exemplar apurado daqueles lacaios argutos e atrevidos da com\u00e9dia cl\u00e1ssica; salvo dous ou tr\u00eas lugares, \u00e9 outro g\u00eanero de Sacatrapos ou Chichisb\u00e9u; figura ali com agudezas e trocadilhos. H\u00e1 destes extremamente buf\u00f5es, como o da bacia das almas, e disso e de pouco mais se comp\u00f5e a filosofia de Esopo. N\u00e3o obstante essa cor geral, notam-se ali toques de bom c\u00f4mico, embora leves e a espa\u00e7os. H\u00e1 tamb\u00e9m, e principalmente, a veia sat\u00edrica, na cena que quase todos os seus bi\u00f3grafos transcrevem, &#8212; a das teses dos fil\u00f3sofos, cena extremamente chistosa, e que o pr\u00f3prio Dinis, com toda a sua veia do Hissope e do Falso Hero\u00edsmo, n\u00e3o sei se chegaria a fazer mais acabada. Compare-se essa cena com a da invas\u00e3o do Parnaso pelos maus poetas, na Vida de D. Quixote, e ver-se-\u00e1 que havia no talento de Ant\u00f4nio Jos\u00e9 uma forte dose de s\u00e1tira, &#8212; o que, de certa maneira, lhe diminu\u00eda a for\u00e7a c\u00f4mica. Nessas duas pe\u00e7as \u00e9, ali\u00e1s, sens\u00edvel a habilidade teatral do poeta, que n\u00e3o tinha propriamente uma a\u00e7\u00e3o em nenhuma delas, e n\u00e3o obstante, logrou condensar a vida dos epis\u00f3dios, manter a unidade do interesse e angariar o aplauso p\u00fablico. Acresce que o seu D. Quixote n\u00e3o tem o defeito capital do seu Esopo; o poeta soube dar-lhe alguns toques da ingenuidade sublime que caracteriza o tipo de Cervantes: \u00e9 o que se v\u00ea logo, na exposi\u00e7\u00e3o, quando D. Quixote responde ao barbeiro acerca da armada que se prepara para combater o turco: &#8212; &#8220;Para que se cansam com tantas m\u00e1quinas? diz ele. Eu lhes dera um bom arb\u00edtrio com que, em menos de uma hora, ven\u00e7am quantas armadas e armadilhas o turco tiver&#8221;. \u00c9 ocioso dizer que o arb\u00edtrio seria a cavalaria andante.<\/p>\n<p>De todas as com\u00e9dias, por\u00e9m, a que goza as honras da primazia, \u00e9 a das Guerras do Alecrim e Manjerona, e com raz\u00e3o; \u00e9 a mais acabada e a mais c\u00f4mica. Tem o gosto do tempo, e at\u00e9 um ressaibo da maneira de Calder\u00f3n, que de si mesmo escrevia:<\/p>\n<p>Es comedia de Don Pedro<br \/>\nCalder\u00f3n, donde ha de haber,<br \/>\nPor fuerza, amante escondido<br \/>\nY rebozada mujer.<\/p>\n<p>H\u00e1 ali com efeito mulheres rebu\u00e7adas e amantes escondidos, e tanta vida como nas pe\u00e7as de Calder\u00f3n.<\/p>\n<p>N\u00e3o trato aqui do fato que poderia ter dado lugar \u00e0 obra do judeu, nem das d\u00favidas de Costa e Silva sobre se os dous rancilos do alecrim e da manjerona existiam antes da com\u00e9dia, ou se esta os fez nascer; \u00e9 investiga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o vale a pena de um minuto, e ali\u00e1s o texto do poeta \u00e9 claro. Em tudo se avantaja o Alecrim e Manjerona, at\u00e9 na linguagem, que \u00e9 a\u00ed muito menos obscena que nas outras, diferen\u00e7a que se pode atribuir ao progresso do talento, porquanto j\u00e1 no Labirinto de Creta se d\u00e1 o mesmo fen\u00f4meno. N\u00e3o direi, como Garrett, que essa pe\u00e7a teria hoje todo o valor de uma com\u00e9dia hist\u00f3rica, mas assim mesmo, quem lhe v\u00ea as figuras, a s\u00e9culo e meio de distancia, parece contemplar uma gravura em que elas conservam as fei\u00e7\u00f5es e o vestu\u00e1rio do tempo,&#8211; os namorados pobres, o velho avarento que arde por se ver livre das sobrinhas, e que, ao anunciarem-lhe a chegada do pretendente provinciano, manda deitar &#8220;mais um ovo nos espinafres&#8221;, D. Tib\u00farcio, as duas damas, o Semic\u00fapio e a velha Fagundes, todo o pessoal da antiga farsa.<\/p>\n<p>Superior \u00e0s outras composi\u00e7\u00f5es, como estilo e originalidade, n\u00e3o menos o \u00e9 como viveza, gra\u00e7a e movimento: e, se a farsa domina, n\u00e3o \u00e9 tanto que n\u00e3o apare\u00e7a a com\u00e9dia. Basta apontar, por exemplo a cena da consulta m\u00e9dica, por ocasi\u00e3o do desastre de D. Tib\u00farcio, que \u00e9 uma das melhores do teatro do judeu, e n\u00e3o ficaria vexada se a pus\u00e9ssemos ao ledo das de Moli\u00e8re e Gil Vicente. Para n\u00e3o faltar nada, h\u00e1 tamb\u00e9m aforismos latinos, e at\u00e9 uma copla latina, digna de Moli\u00e8re. Podemos considerar o Alecrim e Manjerona como uma das melhores com\u00e9dias do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>Ler o Alecrim e Manjerona, o Anfitri\u00e3o, a Esopaida e o D. Quixote, \u00e9 avaliar todo o poeta, com suas qualidades boas e m\u00e1s, com o jeito do seu esp\u00edrito e influ\u00eancia do seu tempo. Nicolau Lu\u00eds Figueiredo Dinis e Gar\u00e7\u00e3o, no mesmo s\u00e9culo, tiveram talvez mais inten\u00e7\u00e3o c\u00f4mica do aue Ant\u00f4nio Jos\u00e9, mas os meios deste eram maiores, possu\u00edam outra virtualidade, outra espontaneidade, outra abund\u00e2ncia. Dir-se-\u00e1 que, se a Inquisi\u00e7\u00e3o o deixara viver, Ant\u00f4nio Jos\u00e9 produziria alguma obra de esfera superior? Repito: n\u00e3o creio que ele subisse muito acima do Alecrin1 e Manjerona; iria talvez ao ponto de fazer alguma cousa parecida com o Avaro, mas n\u00e3o faria todo o Avaro.<\/p>\n<p>Agora, a s\u00e9culo e meio de distancia, podemos afirmar que Ant\u00f4nio Jos\u00e9 foi um destino decapitado. Qualquer que fosse a natureza do seu engenho, \u00e9 fora de d\u00favida que o auto-da-f\u00e9 em que ele pereceu, devorou com a mesma flama assaz de p\u00e1ginas alegres e vivazes. A prova de que o teatro poderia ainda esperar muito de Ant\u00f4nio Jos\u00e9, est\u00e1 na compara\u00e7\u00e3o das obras dele com a vida dele. Era um crist\u00e3o-novo, como tal suspeitado e perseguido; aos vinte e um anos padeceu um primeiro processo, e sabe-se que terr\u00edveis eram os processos inquisitoriais: basta dizer que o delinq\u00fcente revelou todos os seus c\u00famplices em juda\u00edsmo, com a maior franqueza e minuciosidade, o que se pode explicar pela tenra idade do poeta, mas tamb\u00e9m pelo terror que o tribunal infundia, n\u00e3o menos que pela exorta\u00e7\u00e3o mansa com que os inquisidores extorquiam a confiss\u00e3o de todos os erros e a den\u00fancia de todos os c\u00famplices, &#8212; sem preju\u00edzo, ali\u00e1s, do c\u00e1rcere e da pol\u00e9. Pois bem, n\u00e3o obstante os vest\u00edgios e as lembran\u00e7as desse primeiro ato da Inquisi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o obstante o espet\u00e1culo do que padeciam os seus, as \u00f3peras de Ant\u00f4nio Jos\u00e9 trazem o sabor de uma mocidade imperturbavelmente feliz, a fac\u00e9cia grossa e petulante, tal como lha pedia o paladar das plat\u00e9ias, nenhum vislumbre do epis\u00f3dio tr\u00e1gico, salvo uns versos do Anfitri\u00e3o que se cr\u00eaem (e, quanto a mim, sem outro fundamento al\u00e9m da conjetura) como aplic\u00e1veis a ele mesmo. Mas ainda supondo que a conjetura tenha raz\u00e3o, admitindo mais que a alegoria da justi\u00e7a na Vida de D. Quixote seja o resumo das queixas pessoais do poeta (suposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o fr\u00e1gil como aquela), a verdade \u00e9 que os sucessos da vida dele n\u00e3o influ\u00edram, n\u00e3o diminu\u00edram a for\u00e7a nativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava muito longe da hipocondria. Moli\u00e8re, que, se nem sempre teve flores no caminho, n\u00e3o conheceu o \u00ednfimo dos padecimentos de Ant\u00f4nio Jos\u00e9, foi o criador de Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade de talento, n\u00e3o escolheria nunca o assunto do Misantropo.<\/p>\n<p>Nisto, menos que em nenhuma outra cousa, imitaria ele o grande mestre. N\u00e3o lhe fossem propor graves problemas, nem m\u00e1ximas profundas, nem os caracteres, nem as altas observa\u00e7\u00f5es que formam o argumento das com\u00e9dias de outra esfera, nem sobretudo as melancolias de Moli\u00e8re e Shakespeare. O nosso judeu era a farsa, a genu\u00edna farsa, sem outras pretens\u00f5es, sem mais remotas vistas que os limites do seu bairro e do seu tempo. Certo, eu posso hoje, \u00e0 fina for\u00e7a arrancar alguma id\u00e9ia inicial das \u00f3peras do judeu; por exemplo, ao ver nos Encantos de Med\u00e9ia a dedica\u00e7\u00e3o da feiticeira de Colchos, que trai os deveres filiais e p\u00f5e todas as suas artes ao servi\u00e7o de lason, ao ponto de lhe entregar o velocino e ao ver que, apesar de tudo isto, o pr\u00edncipe foge com Creusa, posso, digo eu, atribuir ao poeta a inten\u00e7\u00e3o de que o reconhecimento n\u00e3o \u00e9 caminho do amor e que um cora\u00e7\u00e3o pode ser legitimamente ingrato. Seria l\u00f3gico, seria bem deduzido da a\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o passaria de obra da cr\u00edtica, inteiramente alheia \u00e0 inten\u00e7\u00e3o do poeta, que achou no assunto uma farsa de tram\u00f3ias e nada mais. Esta \u00e9 a \u00faltima conclus\u00e3o que rigorosamente se pode tirar do poeta. Ele n\u00e3o imitou, n\u00e3o chegaria a imitar Moli\u00e8re, ainda que repetisse as transcri\u00e7\u00f5es que fez no Anfitri\u00e3o; tinha originalidade, embora a influ\u00eancia das \u00f3peras italianas. Convenhamos que era um engenho sem disciplina, nem gosto, mas caracter\u00edstico e pessoal.<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis PAI CONTRA M\u00c3E A ESCRAVID\u00c3O levou consigo of\u00edcios e aparelhos, como ter\u00e1 sucedido a outras institui\u00e7\u00f5es sociais. N\u00e3o cito alguns aparelhos sen\u00e3o por se ligarem a certo of\u00edcio. Um deles era o ferro ao pesco\u00e7o, outro o ferro ao p\u00e9; havia tamb\u00e9m a m\u00e1scara de folha-de-flandres. 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