{"id":117960,"date":"2017-04-04T11:34:59","date_gmt":"2017-04-04T13:34:59","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=117960"},"modified":"2017-04-04T11:34:59","modified_gmt":"2017-04-04T13:34:59","slug":"tracos-de-um-roteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tracos-de-um-roteiro","title":{"rendered":"Tra\u00e7os de um Roteiro"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Rui Barbosa<\/h2>\n<p>N\u00e3o sabemos se, neste confuso turbilh\u00e3o da imprensa, se poderia estrear um jornal de vontade e aspira\u00e7\u00f5es assentadas, sem dizer a que vem, que id\u00e9ias traz, ou se seria poss\u00edvel diz\u00ea-lo, sem resvalar, mais ou menos em cheio, no uso dos programas. Estes representam, especialmente em assuntos pol\u00edticos, a mais desacreditada tradi\u00e7\u00e3o, que se conhece, e, portanto, a menos prop\u00edcia \u00e0 esperan\u00e7a dos que pretenderem agoirar bem um cometimento sincero. A \u00e9poca, que atravessamos, \u00e9 sobre todas f\u00e9rtil, a este respeito, em desenganos. Dantes a esfera desses compromissos era mais modesta; porque a a\u00e7\u00e3o dos homens, que ocupavam, ou disputavam o poder, confinava, de todos os lados, com as raias tra\u00e7adas por uma forma de governo que sua constitui\u00e7\u00e3o fadava \u00e0 perpetuidade, e dentro na qual giravam as ambi\u00e7\u00f5es, os projetos e as expectativas.<\/p>\n<p>Em 15 de novembro ca\u00edram as barreiras, que limitavam esse horizonte. Todos os sonhos e todas as pretens\u00f5es tinham ante os olhos o espa\u00e7o indefinido, por onde mergulhar a vista. Os programas rebentaram em frondesc\u00eancia agigantada e basta, como florestas encantadas, de imensas perspectivas, povoadas de grandes pensamentos, de resolu\u00e7\u00f5es her\u00f3icas. Tanto maior a ruinaria moral, deixada nos esp\u00edritos pelo cair sucessivo e fragoroso de tantas ilus\u00f5es. A rep\u00fablica n\u00e3o era um programa, o mais ridente, o mais bem auspiciado, o mais inevit\u00e1vel dos programas? E quem ousar\u00e1 dizer que a realidade se pare\u00e7a com a promessa? N\u00e3o era um programa completo, logicamente entretecido, solidamente estruturado, essa Constitui\u00e7\u00e3o de 1891, programa de governo \u00e0 imagem do melhor dos modelos? Mas quem o reconhecer\u00e1 hoje nesta miscel\u00e2nea de opress\u00e3o pretoriana e veleidades parlamentares, cujos violentos reativos dissolvem rapidamente as novas institui\u00e7\u00f5es, como um organismo amplamente imergido em banho de \u00e1cido az\u00f3tico? N\u00e3o foi um programa o 23 de novembro: a restaura\u00e7\u00e3o da legalidade? Quando \u00e9, por\u00e9m, que j\u00e1 se praticou, entre n\u00f3s, a subvers\u00e3o das leis como depois dele? Que tem desdobrado ele sobre o pa\u00eds, sen\u00e3o a mortalha do caos? A defesa do tesouro era um programa de austeridade financeira. N\u00e3o era? Sob o seu dom\u00ednio, todavia, a gravita\u00e7\u00e3o para o d\u00e9ficit adquiriu a celeridade vertiginosa dos corpos que se precipitam no espa\u00e7o. Programa era, no paneg\u00edrico dos interessados e na aprecia\u00e7\u00e3o dos ing\u00eanuos, a reforma for\u00e7ada dos treze generais: um programa de governo civil e disciplinador, o programa do militarismo convertido \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o militar, incoerente, mas r\u00edspido programa de um ditador revoltado contra a caudilhagem. E que resultou, para a na\u00e7\u00e3o, desse programa, sen\u00e3o a decad\u00eancia crescente do princ\u00edpio de autoridade, a desorganiza\u00e7\u00e3o dia a dia maior da for\u00e7a armada, as condescend\u00eancias cada vez mais graves com os apetites que a anarquia desencadeia?<\/p>\n<p>Quando na hist\u00f3ria de projetos vigorosos como esses, uns apoiados na base incompar\u00e1vel das simpatias populares, outros na for\u00e7a de poderosas situa\u00e7\u00f5es bafejadas pela fortuna, tudo \u00e9 desmentiremse, estragarem-se, anularem-se desastrosamente, pode-se calcular o constrangimento do jornalista, inspirado unicamente pela voca\u00e7\u00e3o de sua consci\u00eancia na tentativa que empreende, se pudesse sentir-se sob o receio de ver envolvido na desconfian\u00e7a geral contra os cartazes pol\u00edticos o instrumento solene de sua consagra\u00e7\u00e3o \u00e0 causa, por que se exp\u00f5e. Felizmente, por\u00e9m, os anais do jornalismo brasileiro, no seu per\u00edodo mais memor\u00e1vel talvez desde os tempos de Evaristo da Veiga, guardam indel\u00e9veis documentos da firmeza de nossa alian\u00e7a com os interesses da na\u00e7\u00e3o, da tenacidade do nosso fervor na religi\u00e3o das id\u00e9ias que abra\u00e7amos. A bandeira, que, a 7 de mar\u00e7o de 1889, hasteamos no Di\u00e1rio de Not\u00edcias, sob o grito de \u201cfedera\u00e7\u00e3o ou rep\u00fablica\u201d, n\u00e3o se arriou mais sen\u00e3o em 15 de novembro. A resist\u00eancia imperial a uma das alternativas do dilema levara a efeito simultaneamente as duas.<\/p>\n<p>Por m\u00ednima que fosse a nossa contribui\u00e7\u00e3o pessoal para esse resultado, ela associara-nos congenitamente a ele. A nova constitui\u00e7\u00e3o, gerada com o concurso do nosso cora\u00e7\u00e3o e da nossa responsabilidade, tinha alguma coisa de carne da nossa carne e osso dos nossos ossos. Bem se avalia, pois, que as viol\u00eancias contra ela perpetradas nos doessem quase como golpes vibrados ao nosso pr\u00f3prio seio. Na opini\u00e3o dos prudentes, por\u00e9m, essas agress\u00f5es eram da natureza daquelas que se assanham, e destemperam at\u00e9 com a leg\u00edtima defesa dos agredidos. Como os protetores naturais das oprimidas, em presen\u00e7a de certos esc\u00e2ndalos dom\u00e9sticos nos casais flagelados pelas incompatibilidades de temperamentos, dev\u00edamos contemporizar com as brutalidades da tirania inevit\u00e1vel, para n\u00e3o provocar as cat\u00e1strofes extremas.<\/p>\n<p>N\u00e3o tendo a honra de pertencer \u00e0 fam\u00edlia hist\u00f3rica dos chamados \u201crepublicanos dos tempos da propaganda\u201d, presum\u00edamos que a tribo dos levitas, ainda agora justamente zelosos de seu privil\u00e9gio hist\u00f3rico, soubesse guardar melhor do que n\u00f3s a arca e o santu\u00e1rio da lei. Com assombro, por\u00e9m, tivemos de ver que o sacerd\u00f3cio preposto \u00e0 cust\u00f3dia da tradi\u00e7\u00e3o sagrada perdera o esp\u00edrito de sua miss\u00e3o, e cobria com o cr\u00e9dito de sua autoridade as viola\u00e7\u00f5es mais criminosas do grande mandamento. Nessas ocasi\u00f5es, quando a indigna\u00e7\u00e3o sobrepujava a prud\u00eancia, vencemos o recato da nossa convers\u00e3o, para levantar a voz, \u00e0s vezes quase solit\u00e1ria, em nome da verdade profanada. Mas for\u00e7a era recolhermonos de novo, evitando a atitude combatente; porque h\u00e1 \u00e9pocas de sujei\u00e7\u00e3o servil, em que at\u00e9 a reivindica\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a sob a inoc\u00eancia das garantias legais se indigita \u00e0 severidade dos poderes repressores como um dos explosivos do g\u00eanero da dinamite. Se, por\u00e9m, nos abst\u00ednhamos de freq\u00fcentar a imprensa e a tribuna, limitando-nos, na representa\u00e7\u00e3o nacional, ao trabalho obscuro das comiss\u00f5es, nossa reserva era invertida contra n\u00f3s, como um caso de indiferen\u00e7a e ego\u00edsmo, por aqueles mesmos que deviam enxergar e louvar naquele sil\u00eancio a mais moderada forma da nossa reprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegamos, por\u00e9m, a um momento tal de desorganiza\u00e7\u00e3o no mecanismo do Governo, de babel nas no\u00e7\u00f5es de administra\u00e7\u00e3o, de desalento nos esp\u00edritos e, gra\u00e7as a tudo isso, de furor nas dissens\u00f5es, nos agravos e nas cobi\u00e7as, que os homens convencidos j\u00e1 n\u00e3o podem emudecer, sem prevaricar. \u00c9 necess\u00e1rio que as fac\u00e7\u00f5es se sufoquem, e que as boas vontades se congreguem, para obrigar o erro e as paix\u00f5es, que nos desonram, escravizando-nos, a capitular sob a press\u00e3o moral da l\u00f3gica, da dec\u00eancia e do patriotismo. Debaixo das pomposas inscri\u00e7\u00f5es da chapa republicana, o pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 mais do que uma vasta sepultura, onde os fantasmas do antigo reg\u00edmen se digladiam com as armas dos seus v\u00edcios. Temos o imp\u00e9rio, mutato nomine com quase todos os seus defeitos, e sem a sua unidade.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, a nosso ver, \u00e9 ainda remedi\u00e1vel. Mas n\u00e3o o ser\u00e1 dentro em pouco se a deixarmos derivar \u00e0 toa da corrente. E o meio de acudir-lhe n\u00e3o pode estar nessa arte de ter ju\u00edzo, que consiste em reservar aos que nos governam o direito de n\u00e3o t\u00ea-lo e aos governados a obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o murmurar contra os que o n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p>Merc\u00ea desses abusos, desses atentados inconscientes da incompet\u00eancia, que juncam hoje o campo das institui\u00e7\u00f5es planejadas no pacto federal, chegamos \u00e0 maior das desgra\u00e7as para o sistema adotado a 24 de fevereiro: a de v\u00ea-lo confundido com a deturpa\u00e7\u00e3o, que o substitui, usurpando-lhe a linguagem, mas banindo-lhe a realidade. A poder de ver-se o reg\u00edmen presidencial nominalmente identificado \u00e0 ditadura militar, a avers\u00e3o acerbamente ressentida contra esta principia a refletir sobre aque-le. O vulgo em geral n\u00e3o discrimina as institui\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos, que as encarnam, ou dos sofismas, que as desnaturam. Mas tais propor\u00e7\u00f5es tomou o mal entre n\u00f3s que das intelig\u00eancias inferiores e incultas o equ\u00edvoco vulgar vai ascendendo \u00e0s mais eminentes. Destarte o reg\u00edmen americano, ant\u00edtese essencial do que entre n\u00f3s se pratica, acabar\u00e1 por incorrer na condena\u00e7\u00e3o que devia fulminar os seus falsificadores. Estes ent\u00e3o, por amarga ironia do destino, assumem o patronado oficial do presidencialismo republicano, que os seus atos desacreditam, contra as aspira\u00e7\u00f5es parlamentares, de que a sua pol\u00edtica se nutre.<\/p>\n<p>Nada, portanto, mais favor\u00e1vel \u00e0s conveni\u00eancias da impostura constitucional, que explora assim, ao mesmo tempo, o presidencialismo e o parlamentarismo, do que ligar a um antagonismo atual entre essas duas correntes, que ainda n\u00e3o existem no pa\u00eds sen\u00e3o em aprecia\u00e7\u00f5es abstratas, a diferencia\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica entre os partidos em esbo\u00e7o. A oligarquia militar \u00e9 t\u00e3o incompat\u00edvel com o parlamentarismo como com o presidencialismo, e teria arruinado a rep\u00fablica ainda mais depressa sob a forma parlamentar francesa do que sob a forma presidencial anglo-sax\u00f4nia. A prova, temo-la a\u00ed diante dos olhos: esse belo chap\u00e9u-de-sol chin\u00eas que abriga gentilmente a ditadura, as evolu\u00e7\u00f5es de gabinete, de tribuna e de escrut\u00ednio, que a sustentam, tudo isso \u00e9 lidimamente parlamentar. De modo que, podemos diz\u00ea-lo sem receio de contesta\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel, \u00e9 apoiado na sobreviv\u00eancia dos h\u00e1bitos parlamentares, revivescentes como o escalracho e a tiririca entre as planta\u00e7\u00f5es \u00fateis, que o marechalato esteriliza, corrompe e malquista o reg\u00edmen presidencial.<\/p>\n<p>O papel dos republicanos e dos patriotas n\u00e3o \u00e9, pois, andarem agora \u00e0 cata de outro sistema de governo, de outra express\u00e3o formal da democracia, mas reclamarem o governo, que a Constitui\u00e7\u00e3o nos deu, e em cuja posse n\u00e3o entramos ainda. Nosso dever \u00e9 pugnar pela Constitui\u00e7\u00e3o, para restabelec\u00ea-la, restabelecer a Constitui\u00e7\u00e3o, para conserv\u00e1-la. A essa conserva\u00e7\u00e3o duas dificuldades se op\u00f5em: a adultera\u00e7\u00e3o do governo do povo pela onipot\u00eancia militar, a absor\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica nacional pelo monop\u00f3lio jacobino. A ditadura atual, desde seus primeiros atos, desde suas primeiras palavras, tomou esse grupo violento como o transunto do pa\u00eds, entregou-se a ele, encerrou-se no seu c\u00edrculo estreito e agitado. Espectadora irritada e at\u00f4nita das cenas dessa autocracia militar, cuja guarda pol\u00edtica se comp\u00f5e de um corpo de demagogos, a na\u00e7\u00e3o concentra-se cada vez mais nos seus instintos conservadores, ansiosa por experimentar, na uni\u00e3o e na paz, a realidade dessa constitui\u00e7\u00e3o, cujos bordos lhe untaram de fel e de sangue, mas cujo princ\u00edpio vivificante ainda n\u00e3o lhe foi dado saborear. A\u00ed est\u00e3o esses elementos de tranq\u00fcilidade e regenera\u00e7\u00e3o: a intelig\u00eancia, a capacidade, o trabalho, a riqueza. Eles aguardam que o esp\u00edrito divino sopre sobre a sua confus\u00e3o palavras de serenidade e conforto, de liberdade e harmonia. Se um pouco desse h\u00e1lito puder passar-nos pela boca, n\u00e3o temos outra ambi\u00e7\u00e3o: concorrer para a agrega\u00e7\u00e3o desses princ\u00edpios esparsos, mas poderosos, irresist\u00edveis, no \u00fanico partido nacional poss\u00edvel atualmente, contra o despotismo e contra a desordem, o partido constitucional, o partido conservador republicano.<\/p>\n<p>Na campanha jornal\u00edstica de 1889 nossa posi\u00e7\u00e3o era diversa. Defrontavam-se ent\u00e3o e mediam-se um ao outro dois sistemas de governo poss\u00edveis: a monarquia, de dura\u00e7\u00e3o limitada, no parecer at\u00e9 de monarquistas, \u00e0 exist\u00eancia do imperador, e a rep\u00fablica, prov\u00e1vel, iminente, entrevista. Nosso papel ent\u00e3o era mostrar ao reg\u00edmen declinante que seus dias estavam contados, convenc\u00ea-lo da necessidade de uma higiene tonificante para a \u00faltima fase de sua vida, e, se ele reagisse contra essa necessidade, promover resolutamente a demoli\u00e7\u00e3o da sua decrepidez. Agora s\u00f3 a rep\u00fablica \u00e9 pratic\u00e1vel, e n\u00e3o h\u00e1 escolha, sen\u00e3o entre a rep\u00fablica degenerada pela ditadura, ou a rep\u00fablica regenerada pela constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Jornal do Brasil \u00e9 constitucional a todo transe: eis, numa palavra, o nosso roteiro pol\u00edtico. N\u00e3o pode, portanto, ser um derrocador. O alvi\u00e3o e o martelo, deixamo-los para sempre no museu hist\u00f3rico da outra tenda. Da nossa orienta\u00e7\u00e3o de hoje em diante \u00e9 penhor a nossa orienta\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje, desde que a revolu\u00e7\u00e3o de 1889 encontrou a sua f\u00f3rmula na Constitui\u00e7\u00e3o de 1891: batendo-nos pela lei contra o Governo, ou contra a multid\u00e3o; verberar o arb\u00edtrio, venha de cima, ou de baixo, dos nossos afei\u00e7oados, ou dos nossos inimigos, animar todas as reivindica\u00e7\u00f5es constitucionais, lutar contra todas as rea\u00e7\u00f5es. Nossa meta \u00e9 a rep\u00fablica. E a rep\u00fablica, ao nosso ver, n\u00e3o \u00e9 o bast\u00e3o do marechal com um barrete fr\u00edgio no topo e um agitador de sentinela ao lado com a fraternidade escrita no cano do fuzil; n\u00e3o \u00e9 a conven\u00e7\u00e3o de um nome, servida alternativamente por camarilhas condescendentes, ou revoltadas; n\u00e3o \u00e9 nem o compadrio de nossos amigos, nem a hostilidade aos nossos advers\u00e1rios. \u00c9 a defesa da autoridade e a sua fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e0 luz dos princ\u00edpios constitucionais. \u00c9 o direito de ter todas as opini\u00f5es e a obriga\u00e7\u00e3o de respeitar todas as consci\u00eancias. \u00c9 o governo do povo pelo povo, subordinado \u00e0s garantias da liberdade, com que a constitui\u00e7\u00e3o e o direito p\u00fablico universal limitam a pr\u00f3pria soberania popular. Eis a rep\u00fablica, para cuja evolu\u00e7\u00e3o queremos cooperar, e de cuja consolida\u00e7\u00e3o nos oporemos com todas as for\u00e7as aos perturbadores. Perturbar a rep\u00fablica, por\u00e9m, (fiquem definidos os termos) n\u00e3o \u00e9 censurar os que a aluem: \u00e9, pelo contr\u00e1rio, militar com os que a defendem, pugnando com a lei contra os que a degradam.<\/p>\n<p>Este jornal, pois, n\u00e3o \u00e9 uma oficina de agita\u00e7\u00e3o e amea\u00e7a, de subvers\u00e3o e guerra: \u00e9 um instrumento de doutrina e organiza\u00e7\u00e3o, de estudo e resist\u00eancia, de transa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e intransig\u00eancia legal. Intransig\u00eancia legal; porque contra a lei toda transa\u00e7\u00e3o \u00e9 cumplicidade. Transa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; porque a pol\u00edtica \u00e9 a ci\u00eancia das transa\u00e7\u00f5es inteligentes e honestas, sob a cl\u00e1usula do respeito aos c\u00e2nones constitucionais. Os especuladores e os c\u00ednicos transigem sempre. Os sistem\u00e1ticos e os loucos n\u00e3o transigem nunca. Os homens de estado transigem, onde \u00e9 l\u00edcito, oportunamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos, portanto, profissionalmente oposicionistas, nem governistas. Somos legalistas acima de tudo e a despeito de tudo. O Governo, ou a oposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o t\u00eam para n\u00f3s sen\u00e3o a cor da lei, que envolver o procedimento de um, ou as pretens\u00f5es da outra. Fora do terreno jur\u00eddico nossa inspira\u00e7\u00e3o procurar\u00e1 beber sempre na ci\u00eancia, nos exemplos liberais, no respeito \u00e0s boas praxes antigas, na simpatia pelas inova\u00e7\u00f5es benfazejas, conciliando, quanto poss\u00edvel, o g\u00eanio da tradi\u00e7\u00e3o inteligente com a pr\u00e1tica do progresso cauteloso. Poderemos acrescentar que o anonimato do insulto, da cal\u00fania e da insinua\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel n\u00e3o ter\u00e3o lugar nestas colunas.<\/p>\n<p>Numa quadra em que a pol\u00edtica absorve quase exclusivamente a vida nacional, parece natural que ela dominasse o nosso programa, e preponderasse na indica\u00e7\u00e3o do nosso rumo. N\u00e3o quer isso, entretanto, dizer que esquec\u00eassemos os outros lados do esp\u00edrito. A pol\u00edtica \u00e9 apenas uma de suas faces. As outras ter\u00e3o largamente, nesta folha, o espa\u00e7o, a honra e o culto, que se lhes deve. Penetrar por todas essas rela\u00e7\u00f5es da vida intelectual, no cora\u00e7\u00e3o de nossos compatriotas \u00e9 o nosso sonho. Oxal\u00e1 que um pouco de realidade caia sobre ele, e o fecunde<\/p>\n<p><strong>Publicado em Jornal do Brasil, 21 de maio de 1893<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Barbosa N\u00e3o sabemos se, neste confuso turbilh\u00e3o da imprensa, se poderia estrear um jornal de vontade e aspira\u00e7\u00f5es assentadas, sem dizer a que vem, que id\u00e9ias traz, ou se seria poss\u00edvel diz\u00ea-lo, sem resvalar, mais ou menos em cheio, no uso dos programas. 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